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Parte 1

Capítulo 1 – A visão cíclica da história

A idéia de progresso – aperfeiçoamento indefinido – não é nada moderna. Ela é


provavelmente tão antiga quanto a mais antiga tentativa de sucesso do homem para
melhorar o seu ambiente material e aumentar, através de perícia técnica, a sua
capacidade de ataque e defesa. Habilidades técnicas, por muitos séculos, pelo menos,
têm sido muito preciosas para serem desprezadas. Mais ainda, quando exibidas em
um grau extraordinário, essas habilidades têm sido mais de uma vez saudadas como
algo quase divino. Lendas maravilhosas sempre foram criadas, por exemplo, sobre os
homens que, de alguma forma, foram capazes de se levantar, fisicamente, acima da
terra, seja como Etana de Erech, que subiu ao céu “suportado por asas de águia”, ou o
famoso Ícaro, infeliz precursor de nossos aviadores modernos, ou o irmão de Manco
Capac, Auca, dito ter sido agraciado com “asas naturais”, que funcionaram pouco
melhor do que as artificiais de Ícaro.

Mas, para além de tais proezas incríveis de um punhado de indivíduos, os povos


antigos como um todo se distinguiram em muitas realizações materiais. Eles poderiam
gabar-se do sistema de irrigação da Suméria; da construção de pirâmides que
revelam, tanto no Egito como, séculos depois, também na América Central, um
conhecimento incrível de dados astronômicos; dos banhos e esgotos do palácio de
Cnossos; da invenção da carruagem de guerra após a do arco e flecha e da
ampulheta após a do relógio de sol – o suficiente para torná-los atordoados com a
vaidade e excesso de confiança no destino de suas respectivas civilizações.

No entanto, apesar de eles terem reconhecido plenamente o valor do seu próprio


trabalho no campo prático, e certamente terem concebido a possibilidade – e, talvez,
adquirido a certeza – do progresso técnico indeterminado, eles nunca acreditaram no
progresso como um todo, ou em progresso em todos os campos, como a maioria dos
nossos contemporâneos parecem fazer. De todas as evidências, eles fielmente se
agarraram à idéia tradicional de evolução cíclica e tinham, além disso, o bom senso de
admitir que eles viviam (apesar de todas as suas conquistas) em nada além do
começo do longo processo de decadência, constituindo seu próprio “ciclo” particular –
e os nossos. Sejam os hindus ou os gregos, egípcios ou japoneses, chineses,
sumérios, ou nativos americanos – ou mesmo os romanos, os mais “modernos” entre
os povos da Antiguidade – todos eles deixaram a “Era Dourada”, a “Idade da
Verdade”, o reinado de Cronos ou de Ra, ou de quaisquer outros deuses na terra – o
glorioso e lento início do desabrochar da ruína da história, seja qual for o nome que lhe
seja dado – muito atrás no passado.

E eles acreditavam que o retorno de uma era similar [à “Era Dourada”], antecipado em
seus respectivos textos sagrados e tradições orais, dependeria não do esforço
consciente do homem, mas das leis de ferro, inerentes à própria natureza da
manifestação visível, tangível, e onipresente; sobre as leis cósmicas. Eles acreditavam
que o esforço consciente do homem não é senão uma expressão dessas leis em ação,
levando o mundo, querendo ou não, sempre para onde o seu destino está; ou em uma
palavra, que a história do homem, assim como a história do resto da vida, é apenas
um detalhe na história do universo, sem princípio nem fim; um resultado periódico da
necessidade interior que conecta todos os fenômenos dentro do tempo.

E assim como os antigos poderiam aceitar essa visão da evolução do mundo e ainda
tirar pleno partido de todos os progressos técnicos ao seu alcance, também podem – e
assim fazem – nos dias de hoje, milhares de homens educados dentro dos limites das
velhas culturas centradas nas mesmas visões tradicionais e, também, em meio às
culturas mais orgulhosas industrialmente, alguns poucos indivíduos serem capazes de
pensar por si mesmos. Eles contemplam a história da humanidade em uma
perspectiva semelhante.

Enquanto vivendo, aparentemente, como “modernos” homens e mulheres – usando


ventiladores elétricos e ferros elétricos, telefones, trens e aviões, quando podem pagá-
los – eles nutrem em seus corações um profundo desprezo pela vaidade e esperanças
infantis da nossa era presente, e para com as várias receitas para “salvar a
humanidade” que filósofos e políticos colocam em circulação. Eles sabem que nada
pode “salvar a humanidade”, porque a humanidade está chegando ao fim do seu ciclo
atual. A onda que a carregou, por milênios de anos, está prestes a quebrar, com toda
a fúria da velocidade, e a fundir uma vez mais nas profundezas do oceano imutável da
existência indiferenciada. Ela irá subir, novamente, algum dia, com a sua majestade
abrupta, pois tal é a lei das ondas. Mas, entretanto, nada pode ser feito para pará-la.
Os infelizes – os loucos – são aqueles homens que, por algum motivo mais conhecido
para eles mesmos – provavelmente por conta de sua estimativa exagerada do que
está a ser perdido no processo – gostariam de parar esse processo. Os privilegiados –
os sábios – são aqueles poucos que, tendo pleno conhecimento da crescente
inutilidade da humanidade de hoje e do seu muito aplaudido “progresso”, sabem o
quão pouco há para ser perdido no aniquilamento a caminho, e esperam com alegre
expectativa a condição necessária para um novo começo – uma nova “Era Dourada”,
a crista iluminada da próxima longa onda decadente desenhada sobre a superfície do
oceano infinito da vida.

Para aqueles privilegiados – entre os quais contamos a nós mesmos – toda a


sucessão de “eventos atuais” aparece em uma perspectiva completamente diferente
do que para qualquer um dos crentes desesperados pelo “progresso” ou daquelas
pessoas que, embora aceitando a visão cíclica da história e, portanto, considerando o
aniquilamento a caminho como inevitável, sentem pena de ver a civilização em que
vivem acelerando para a sua perdição.

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Para nós, os “ismos” cujos nossos contemporâneos nos pedem para oferecer a nossa
lealdade, agora, em 1948, são todos igualmente inúteis: naturalmente traídos,
derrotados e, finalmente, rejeitados pelos homens em geral caso contenham qualquer
coisa realmente nobre; naturalmente apreciados, por algum tempo, com algum tipo de
sucesso ruidoso se for suficientemente vulgar e pretensioso a apelar para o crescente
número de escravos mecanicamente condicionados que rastejam sobre o nosso
planeta, posando como homens livres; todos destinados a provar, em última instância,
que nada servirá. As religiões consagradas pelo tempo, a cada dia mais fora de moda
hoje em dia, enquanto os “ismos” se tornam cada vez mais populares, não são menos
fúteis – se não mais: quadros de organizadas superstições, vazias de todo o
sentimento verdadeiro do Divino, ou – entre as pessoas mais sofisticadas – meros
aspectos convencionais da vida social, ou sistemas de ética (e de uma ética muito
elementar) temperados com uma pitada de ritos obsoletos e símbolos que poucos
procuram os significados originais; dispositivos nas mãos de homens inteligentes no
poder para manipular os comuns com obediência permanente; nomes convenientes,
em torno dos quais pode ser fácil convergir aspirações nacionais ou tendências
políticas; ou apenas o último recurso dos fracos e desprovidos: isto é, praticamente,
tudo o que eles são – tudo a que eles foram reduzidos no curso de alguns séculos.
Eles estão mortos, na verdade – tão mortos como os antigos cultos que floresceram
antes deles, com a diferença que esses cultos há muito tempo deixaram de exalar o
cheiro da morte, enquanto eles (os chamados “vivos”) estão ainda na fase em que a
morte é inseparável da corrupção. Nenhum desses – nem o cristianismo, nem o
islamismo, nem mesmo o budismo – pode ser confiado agora para “salvar” nada desse
mundo que uma vez eles parcialmente conquistaram; nenhum tem um lugar na vida
“moderna”, que é essencialmente desprovida de toda a consciência do eterno.

Não há nenhuma atividade na vida “moderna” que não seja fútil, salvo, talvez, aquelas
que visem satisfazer a fome do corpo: o cultivo do arroz, o cultivo do trigo, a procura
por castanhas nas matas ou a colheita de batatas em seu jardim. E a única política
sensata não pode ser senão a deixar as coisas seguirem o seu curso e aguardar a
vinda do Destruidor, destinado a limpar o terreno para a construção de uma nova “Era
da Verdade”: aquele que os hindus chamam de Kalki e identificam como a décima e
última encarnação de Vishnu, o Destruidor cujo advento é a condição da preservação
da vida de acordo com as leis eternas da mesma.

Sabemos que tudo isso vai soar como uma loucura total para aqueles, mais e mais
numerosos, que, apesar dos horrores inexprimíveis da nossa era presente, continuam
convencidos de que a humanidade está “progredindo”. Vai parecer cinismo até mesmo
para muitos daqueles que aceitam a nossa crença na evolução cíclica, que é a crença
universal, tradicional, expressa em forma poética em todos os textos sagrados do
mundo, incluindo a Bíblia. Nós não temos nada para responder a esta última crítica,
pois ela é inteiramente baseada em uma atitude emocional que não é nossa. Mas
podemos tentar apontar a vaidade da crença popular no “progresso”, seja apenas para
sublinhar a racionalidade e a força da teoria dos ciclos que constituem o pano de
fundo do estudo que é o tema deste livro.

Os leais à crença no “progresso” oferecem muitos argumentos para provar – para si e


aos demais – que o presente, com todos os seus inconvenientes inegáveis, é, em
geral, melhor do que qualquer época do passado, e até mesmo que é possível
observar sinais claros de melhoria. Não é possível analisar todos esses argumentos
em detalhe. Mas pode-se facilmente detectar as falácias escondidas nos argumentos
mais difundidos e, aparentemente, mais “convincentes” deles.

Todos os defensores do “progresso” insistem enormemente em coisas como a


alfabetização, a “liberdade” individual, as oportunidades iguais para todos os homens,
a tolerância religiosa, e a “humanidade”, os progressos nesta última linha sendo
aqueles que abrangem todas as tendências que encontram sua expressão na
moderna preocupação com o bem-estar das crianças, as reformas prisionais,
melhores condições de trabalho, os auxílios estatais aos desamparados e doentes e,
se não maior bondade, pelo menos, menos crueldade com os animais. Os resultados
deslumbrantes obtidos, nos últimos anos, na aplicação das descobertas científicas
para indústrias e outras atividades práticas são, naturalmente, os mais populares de
todas as instâncias que servem para mostrar o quão maravilhoso é o nosso tempo
presente. Mas esse ponto não será discutido, uma vez que já deixamos claro que nós
não negamos ou minimizamos a importância do progresso técnico. O que fazemos é
negar a existência de quaisquer progressos no valor do homem como tal, seja
individualmente ou coletivamente, e as nossas reflexões sobre a alfabetização
universal, e outros altamente elogiados “sinais” de melhoria que os nossos
contemporâneos têm orgulho, nascem desse único ponto de vista.

Nós acreditamos que o valor do homem – assim como o valor de cada criatura – não
reside no mero intelecto, mas no espírito: na capacidade de refletir o que, por falta de
uma palavra mais precisa, nós escolhemos chamar de “o divino”, ou seja, o que é
verdadeiro e belo além de toda a manifestação, que permanece intemporal (e,
portanto, imutável) dentro de todas as alterações. Nós acreditamos nisso, com a
diferença que, aos nossos olhos – ao contrário do que os cristãos mantêm – a
capacidade de refletir o divino está intimamente ligada com a raça do homem e a sua
saúde física; em outras palavras, que o espírito é dependente do corpo. E nós não
conseguimos ver que as melhorias que testemunhamos hoje em dia na educação ou
no campo social, no governo ou até mesmo em questões técnicas, têm tornado
homens e mulheres individualmente mais valiosos nesse sentido, ou criado um novo
tipo duradouro de civilização em que as possibilidades do homem de perfeição em
todos os campos, assim concebido, estão sendo promovidas. Os hindus parecem ser,
hoje, o único povo que, por tradição, partilha as nossas opiniões; e eles têm, no
decorrer do tempo, falhado em manter a ordem divina – a regra das castas
naturalmente dominantes. E nós, o único povo no Ocidente que têm tentado restaurar
essa ordem divina nos tempos modernos, temos sido materialmente arruinados pelos
agentes das forças da falsa igualdade que o mundo moderno chama de forças do
“progresso”.

Progresso? – É verdade que, hoje, pelo menos em todos os países altamente


organizados (tipicamente “modernos”), quase todo mundo pode ler e escrever. Mas e
daí? Ser capaz de ler e escrever é uma vantagem – e uma vantagem considerável.
Mas não é uma virtude. É uma ferramenta e uma arma, um meio para um fim, uma
coisa muito útil, sem dúvida, mas não um fim em si mesmo. O valor final da
alfabetização depende do fim para o qual ela é usada. E para que fim ela é geralmente
utilizada nos dias de hoje? Ela é usada por conveniência ou entretenimento, por
aqueles que lêem; para alguns comerciais, ou alguma propaganda indesejável – para
ganhar dinheiro ou conquistar poder – por aqueles que escrevem; às vezes, é claro,
por ambos, para adquirir ou propagar conhecimentos desinteressantes sobre as
poucas coisas que vale a pena conhecer; para encontrar expressão ou dar expressão
aos poucos sentimentos profundos que podem levantar um homem para a consciência
das coisas eternas, mas não mais freqüentemente do que nos dias em que um homem
em dez mil conseguia entender o simbolismo da palavra escrita. Geralmente, nos dias
de hoje, o homem ou a mulher que o ensino obrigatório transformou em “letrado” usa a
escrita para comunicar assuntos pessoais com amigos e parentes distantes, para
preencher formulários – uma das ocupações internacionais da humanidade civilizada
moderna – ou para memorizar coisas úteis, mas também insignificantes, como o
endereço de alguém ou um número de telefone, ou a data de algum encontro com o
cabeleireiro ou dentista, ou a lista de roupas limpas deixadas na lavanderia. Ele ou ela
lê “para passar o tempo”, porque, fora do horário de trabalho, o mero pensamento não
é mais intenso e interessante o suficiente para servir a esse propósito.

Sabemos também que existem pessoas cujas vidas foram direcionadas para algum
destino por um belo livro, um poema – uma frase simples – lida na infância distante,
como Schliemann, que prodigamente gastou em escavações arqueológicas a riqueza
que foi construída com paciência em quarenta anos de triste trabalho pesado, tudo por
causa da impressão deixada sobre ele, ainda quando menino, pela história imortal de
Troia. Mas esse tipo de pessoa sempre viveu, mesmo antes de a escolaridade
obrigatória entrar em moda. E as histórias ouvidas e lembradas não eram menos
inspiradoras do que as histórias de lemos agora. A vantagem real da alfabetização
geral, se houver uma, deve ser procurada em outro lugar. Ela não reside na melhoria
da qualidade tanto dos homens e mulheres extraordinários ou dos milhões de
alfabetizados, mas sim no fato de que estes últimos estão rapidamente se tornando
mais intelectualmente preguiçosos e, portanto, mais ingênuos do que nunca – e não
menos – mais facilmente enganados, mais susceptíveis a serem conduzidos como
ovelhas sem sequer a sombra de um protesto, desde que o absurdo que se deseje
que eles engulam seja apresentado em forma impressa e pareça ser “científico”.
Quanto maior o nível geral de alfabetização, o mais fácil é, por um governo no controle
da imprensa diária e do setor editorial – esses quase irresistíveis meios modernos de
ação sobre as mentes – para manter as massas sob o seu polegar, sem que esses
nem sequer suspeitem.

Entre os analfabetos, mas muito mais ativamente pensantes, abertamente regidos na


antiga forma autocrática, um profeta, porta-voz direto dos deuses, ou de verdadeiras
aspirações coletivas, poderia sempre confiar a subir entre a autoridade secular e as
pessoas. Os próprios sacerdotes não teriam a certeza de manter o povo em
obediência para sempre. As pessoas poderiam escolher ouvir o profeta, se elas
quisessem. E elas o fizeram, às vezes. Nos dias de hoje, onde a alfabetização
universal é predominante, inspirados expoentes da verdade eterna – os profetas – ou
até mesmo os defensores altruístas das mudanças práticas, têm cada vez menos
chances de aparecer. O pensamento sincero, o pensamento realmente livre, em nome
da autoridade sobre-humana ou do senso comum humilde, para questionar a base do
que é oficialmente ensinado e geralmente aceito, tem cada vez menos chances de
prosperar. É, repetimos, de longe, mais fácil escravizar um povo alfabetizado do que
um analfabeto, por mais estranho que isso possa parecer à primeira vista. E a
escravidão também é mais provável que seja duradoura. A vantagem real da
alfabetização universal é aumentar o controle do poder do governo sobre os milhões
de tolos e vaidosos. É provavelmente por isso que gritam para as nossas cabeças,
desde a infância, que a “alfabetização” é uma bênção. A capacidade de pensar por si
mesmo é, contudo, o benefício real. E isso sempre foi e sempre será o privilégio de
uma minoria, uma vez reconhecidos e respeitados como uma elite natural. Hoje, a
educação obrigatória em massa e uma literatura cada vez mais padronizada para o
consumo de cérebros “condicionados” – sinais proeminentes do “progresso” – tendem
a reduzir essa minoria à menor proporção possível; em última instância, a eliminá-la
completamente. É isso o que a humanidade quer? Se assim for, a humanidade está
perdendo a sua razão de ser, e quanto mais cedo for o final desta chamada
“civilização”, melhor.

O que temos dito sobre a alfabetização pode ser repetido sobre as outras duas
principais glórias da democracia moderna: a “liberdade individual” e a igualdade de
oportunidades para cada pessoa. A primeira é uma mentira – e uma mentira cada vez
sinistra à medida que as algemas do ensino obrigatório estão mais e mais
irremediavelmente apertadas ao redor das pessoas. A segunda é um absurdo.

Uma das mais engraçadas inconsistências do cidadão médio do mundo moderno e


industrializado é a maneira em que ele critica todas as instituições de civilizações mais
antigas e melhores, como o sistema de castas dos hindus ou o culto familiar
absorvedor do Extremo Oriente, com o fundamento de que estes tendem a limitar a
“liberdade do indivíduo”. Ele não percebe o quão exigente – ou melhor, o quão
aniquilador – é o comando da entidade coletiva que ele obedece (metade do tempo,
inconscientemente) em comparação com o da autoridade coletiva tradicional dessas
sociedades aparentemente menos “livres”. As pessoas guiadas por castas ou guiadas
pela família, na Índia ou no Extremo Oriente, não são permitidas a fazer tudo o que
elas gostariam em muitos campos relativamente insignificantes, e em alguns assuntos
realmente muito importantes, da vida diária. Mas elas podem acreditar no que elas
quiserem, ou melhor, no que elas puderem; podem sentir de acordo com sua própria
natureza e se expressar livremente sobre um grande número de questões essenciais;
elas são permitidas a conduzir as suas “vidas maiores” da maneira que julgarem ser
mais sábio para elas, após os seus deveres para com a família e o rei forem
cumpridos. O indivíduo que vive sob o domínio de ferro e aço do “progresso” moderno
pode comer o que ele gosta (e comer muito) e casar com quem lhe agrada –
infelizmente – e ir sempre onde ele gosta (pelo menos em teoria). Mas ele é obrigado
a aceitar, em todos os assuntos extra-individuais – questões que, para nós, realmente
contam – as crenças, as atitudes perante a vida, a escala de valores e, em grande
medida, as posições políticas, que tendem a fortalecer o poderoso sistema sócio-
econômico de exploração ao qual ele pertence (ao qual ele é forçado a pertencer, a
fim de ser capaz de viver) e no qual ele é apenas uma simples peça. E, além disso, ele
é levado a crer que é um privilégio seu ser uma engrenagem de tal organismo; que as
questões sem importância sobre as quais ele sente que é o seu próprio mestre, de
fato, são as mais importantes – e as únicas realmente importantes. Ele é ensinado a
não valorizar a liberdade de juízo sobre a verdade eterna, estética, ética ou metafísica,
da qual ele é sutilmente privado. Mais ainda: ele é ensinado – nos países
democráticos, de qualquer modo – que ele é livre em todos os aspectos; que ele é “um
indivíduo, que responde a ninguém, mas somente à sua própria consciência”… depois
de anos de condicionamento ter moldado a sua “consciência” e todo o seu ser, tão
completamente de acordo com o padrão, que ele não é mais capaz de reagir de uma
forma diferente. E como pode um homem assim falar de “pressão sobre o indivíduo”
em qualquer sociedade, seja ela antiga ou moderna!

Pode-se perceber o como que as mentes do homem têm sido curvadas no mundo em
que vivemos hoje, tanto por condicionamento deliberado como pelo condicionamento
inconsciente, quando se encontra pessoas que nunca viveram sob a influência da
civilização industrial, ou quando alguém acaba tendo a sorte de ter desafiado, desde a
infância, a pressão perniciosa do ensino padronizado, e de ter permanecido livre em
meio à multidão daqueles que reagem exatamente como eles foram ensinados sobre
todas as questões fundamentais. A diferença entre os pensantes e os irracionais, os
livres e os escravos, é revoltante.

Quanto à “igualdade de oportunidades”, não existe qualquer forma de tal coisa existir.
Ao produzir homens e mulheres diferentes, tanto em grau e em qualidade de
sensibilidade, inteligência e força de vontade, diferentes em caráter e temperamento, a
própria Natureza lhes dá as oportunidades mais desiguais para o cumprimento das
suas aspirações, não importando quais essas possam ser. Uma pessoa
excessivamente emocional e bastante fraca pode, por exemplo, nem conceber o
mesmo ideal de felicidade, nem ter chances iguais de alcançá-lo durante a vida, se
comparada com quem nasce com uma natureza mais equilibrada e uma força de
vontade mais forte. Isso é óbvio. Some a isso as características que diferenciam uma
raça de homens de outra, e o absurdo da própria noção de “igualdade humana” se
torna ainda mais impressionante.

O que nossos contemporâneos querem dizer quando falam de “igualdade de


oportunidades” é o fato de que, nas sociedades modernas – assim dizem – qualquer
homem ou mulher tem, cada vez mais, chances similares aos seus vizinhos de
conquistar uma posição e fazer o trabalho para qual ele ou ela está naturalmente
adaptado. Mas isso também é apenas parcialmente verdadeiro. Pois, cada vez mais, o
mundo de hoje – o mundo dominado pela indústria de grande escala e pela produção
em massa – pode oferecer somente postos de trabalho em que o melhor do que o
trabalhador é realmente capaz de fazer tem pouco ou nada de influência se ele ou ela
for nada mais do que uma pessoa meramente inteligente e materialmente eficaz. O
artesão hereditário, que pode encontrar a melhor expressão para o que se
convencionou chamar de sua “alma” em seu trabalho diário de tecelagem, tapeçaria,
esmalte, etc, e até mesmo o lavrador do solo, em contato pessoal com a Mãe Terra e
o Sol e as estações, estão se tornando cada vez mais figuras do passado. Há cada
vez menos oportunidades, também, para o verdadeiro e sincero buscador da verdade
– orador ou escritor – que se recusa a tornar-se expositor das idéias amplamente
aceitas, produtos do condicionamento das massas, as quais ele ou ela não aceita; e
para o buscador da beleza, que se recusa a ceder a sua arte para as demandas do
gosto popular, que ele ou ela sabe que é mau gosto. Essas pessoas perdem muito da
sua competência fazendo de forma ineficiente – e a contragosto – algum trabalho para
o qual elas não são adaptadas, para conseguirem viver, antes que elas possam
dedicar o resto das suas vidas para o que os hindus chamariam de sua sadhana – o
trabalho para qual a sua natureza mais profunda o nomeou: a dedicação da sua vida.

A idéia da divisão moderna do trabalho, resumido na frase tantas vezes citada “o


homem certo no lugar certo”, resume-se, na prática, pelo fato de que qualquer homem
– qualquer um dos milhões de maçantes – pode ser “condicionado” para ocupar
qualquer lugar, enquanto o melhor dos seres humanos, os únicos que ainda justificam
a existência dessa espécie mais e mais degenerada, têm seus potenciais papéis
negados. Progresso…

Ainda permanecem os argumentos sobre a “tolerância religiosa” dos nossos tempos e


a nossa “humanidade” em comparação com a “barbárie” do passado. Duas piadas,
para dizer o mínimo!

Recordando alguns dos horrores mais espetaculares da história – a queima de


“hereges” e “bruxas” nas fogueiras, o massacre indiscriminado de “pagãos”, e outras
manifestações não menos repulsivas do que a civilização cristã na Europa, como a
conquista da América, de Goa, e de outros lugares – o homem moderno é cheio de
orgulho quanto ao “progresso” realizado, em uma linha, pelo menos, desde o fim da
idade das trevas do fanatismo religioso. Por pior que sejam os nossos
contemporâneos, eles pelo menos deixaram de cultivar o hábito de torturar as pessoas
para tais “insignificâncias”, como a concepção da Santíssima Trindade ou as suas
ideias acerca da predestinação e do purgatório. Esse é o sentimento do homem
moderno – porque as questões teológicas perderam toda a importância nas suas
vidas. Mas nos dias em que as igrejas cristãs perseguiam umas às outras e
incentivavam a conversão das nações pagãs, por meio de sangue e fogo, ambos os
perseguidores e os perseguidos, os cristãos e aqueles que queriam se manter fiéis
aos credos não-cristãos, encaravam essas questões como vitais de uma maneira ou
de outra. E a verdadeira razão porque ninguém é condenado à tortura nos dias hoje
pelas suas crenças religiosas não é que a tortura, como tal, tenha tornado-se
desagradável para todos, na civilização “avançada” do século XX, e não que os
indivíduos e os Estados se tornaram “tolerantes”, mas apenas porque, entre aqueles
que têm o poder de infligir dor, quase ninguém tem qualquer interesse vívido e
fundamental na religião, e muito menos na teologia.

A suposta “tolerância religiosa” praticada pelos Estados modernos e seus indivíduos


brota de qualquer outro pensamento, exceto uma inteligente compreensão e amor por
todas as religiões como expressões simbólicas das poucas verdades essenciais e
eternas – como a tolerância hindu faz, e sempre fez. Essa suposta “tolerância” é, em
vez disso, resultado de um desprezo grosseiramente ignorante sobre todas as
religiões; de uma indiferença para com as verdades que vários de seus fundadores se
esforçaram para afirmar, vez após vez. Isso não é tolerância de forma alguma.

Para avaliar até que ponto os nossos contemporâneos têm ou não o direito de se
vangloriar de seu “espírito de tolerância”, o melhor é observar seu comportamento
para com aqueles a quem eles decididamente olham como os inimigos de seus
deuses: os homens que, por acaso, têm pensamentos contrários aos deles não com
relação a alguma ladainha teológica, em que eles mesmos não estão interessados,
mas com relação a alguma ideologia política ou sócio-política que eles vêem como
“uma ameaça à civilização” ou como “o único credo pelo qual a civilização pode ser
salva.” Ninguém pode negar que, em todas as circunstâncias, e especialmente em
tempos de guerra, todos eles realizam – na medida em que eles têm o poder – ou
justificam – na medida em que eles não têm, eles próprios, a oportunidade de realizar
– ações que em todos os aspectos são horríveis como as que foram encomendadas,
realizadas, ou toleradas no passado, em nome de diferentes religiões. A única
diferença é, talvez, que as modernas atrocidades a sangue frio só se tornam
conhecidas quando os poderes ocultos em controle dos meios de condicionamento do
rebanho – da imprensa, do rádio e do cinema – decidem, para fins nada
“humanitários”, que elas deveriam ser; ou seja, quando são atrocidades do inimigo, e
não deles mesmos – e nem dos seus “corajosos aliados” – e quando a sua história é,
portanto, considerada como “boa propaganda”, no sentido da subseqüente onda de
indignação que se espera criar e do novo incentivo que se espera dar aos esforços de
guerra. Além disso, depois de uma guerra, realmente travada ou supostamente
travada por uma ideologia – o equivalente moderno dos amargos conflitos religiosos
do passado – os horrores com ou sem razão que teriam sido perpetrados pelos
derrotados são os únicos a serem transmitidos para todo o mundo, enquanto os
vitoriosos tentam o máximo possível fingir que o seu Alto Comando nunca fechou os
olhos diante de quaisquer horrores semelhantes. Mas na Europa do século XVI, e
antes; e entre os guerreiros do Islã, envolvidos na “Jihad” contra os homens de outras
religiões, cada um dos lados estava bem ciente dos atrozes meios utilizados, não
apenas pelos seus adversários para os seus “fins sórdidos”, mas também por seu
próprio povo e pelos seus próprios líderes, a fim de “extirpar a heresia”, ou para
“enfrentar o papado”, ou “pregar o nome de Allah aos infiéis”. O homem moderno é
mais um covarde moral. Ele quer as vantagens da intolerância violenta – que é natural
– mas ele foge das responsabilidades da mesma. Progresso, também.

A suposta “humanidade” dos nossos contemporâneos (em comparação com seus


antepassados) é apenas uma falta de coragem ou falta de sentimentos fortes – um
aumento de covardia, ou uma crescente apatia.
O homem moderno é escrupuloso sobre as atrocidades – até mesmo sobre a
brutalidade comum, sem imaginação – apenas quando os objetivos para os quais as
ações atrozes ou simplesmente brutais são executadas são odiosas ou indiferentes
com relação a ele. Em quaisquer outras circunstâncias, ele fecha os seus olhos para
quaisquer horrores – especialmente quando ele sabe que as vítimas nunca podem
retaliar (como é o caso com todas as atrocidades cometidas pelo homem contra os
animais, para qualquer fim que seja), e ele exige, no máximo, que não seja lembrado
delas com muita frequência ou convicção. Ele reage como se houvesse classificado as
atrocidades sob duas categorias: as “inevitáveis” e as “evitáveis”. As “inevitáveis” são
aquelas que servem ou deveriam servir para a finalidade do homem moderno – em
geral: “o bem da humanidade” ou o “triunfo da democracia”. Elas são toleradas, ou
melhor, justificadas. As “evitáveis” são aquelas que são ocasionalmente cometidas, ou
supostamente cometidas, por pessoas cujo objetivo é alheio ao seu. Só elas são
condenadas, e seus autores reais ou supostos – ou inspiradores – são marcados pela
opinião pública como “criminosos contra a humanidade”.

Quais são, afinal, os sinais dessa suposta “humanidade” maravilhosa do homem


moderno, de acordo com aqueles que acreditam no progresso? Já não temos hoje em
dia – eles dizem – as execuções horríveis dos tempos antigos; traidores não são mais
“enforcados e esquartejados”, como era costume na gloriosa Inglaterra do século XVI;
qualquer coisa que se aproxime da crueldade da tortura e execução de François
Damien, na praça central de Paris, diante de milhares de pessoas vindas com o
propósito de vê-lo, em 28 de maio de 1757, seria impensável na França moderna. O
homem moderno também não defende a escravidão, nem ele (em teoria, pelo menos)
justifica a exploração das massas sob qualquer forma. E suas guerras – até mesmo
suas guerras, monstruosas como podem parecer, com seus aparatos elaborados de
máquinas demoníacas – estão começando a admitir, no seu código (ou assim se diz),
certa quantidade de humanidade e justiça. O homem moderno é horrorizado pelo
simples pensamento sobre os hábitos dos povos antigos durante períodos de guerra –
como o sacrifício de doze jovens troianos sob o herói grego Pátroclo, para não falar
dos menos antigos, mas mais atrozes sacrifícios dos prisioneiros de guerra do deus da
guerra asteca, Huitzilopochtli (mas os astecas, apesar de relativamente modernos, não
eram cristãos, nem, pelo que sabemos, crentes no progresso como um todo).
Finalmente – dizem – o homem moderno é mais amável, ou menos cruel, com relação
aos animais do que seus antepassados eram.

Uma enorme quantidade de preconceito em favor de nosso tempo pode permitir que
pessoas sejam conquistadas por tais falácias.

Certamente, o homem moderno não “defende” a escravidão; ele a denuncia com


veemência. Mas ele a pratica, no entanto – e em maior escala do que nunca, e com
muito mais planejamento do que os antigos jamais poderiam – tanto no Ocidente
capitalista como nos trópicos, ou (do que se ouve fora de seus muros impenetráveis)
mesmo no único Estado que supostamente é, hoje, o “paraíso dos trabalhadores”.
Existem diferenças, claro. Na Antiguidade, até mesmo o escravo tinha horas de lazer e
alegria que eram propriedade dele; ele tinha seus jogos de dados, à sombra das
colunas do pórtico de seu mestre, suas piadas grosseiras, suas conversas, sua vida
livre fora de sua rotina diária. O escravo moderno não tem o privilégio da vadiagem, de
estar totalmente despreocupado, nem que seja por meia hora. Seu suposto lazer é
cheio de entretenimento compulsório, tão exigente e muitas vezes tão triste quanto o
seu trabalho, ou – na “terra da liberdade” – envenenado por preocupações
econômicas. Mas ele não é abertamente comprado e vendido. Ele é apenas tomado. E
tomado não por um homem que, de alguma forma, é pelo menos superior a si mesmo,
mas por um gigantesco sistema impessoal, sem qualquer corpo para se chutar, ou
uma alma para amaldiçoar, ou uma cabeça para responder por suas ofensas.

E da mesma forma, antigos horrores certamente desapareceram dos registros dos


chamados homens civilizados, com relação à justiça e às guerras. Mas novos e piores
horrores, desconhecidos nos tempos “bárbaros”, apareceram em seu lugar. Um
exemplo simples é arrepiador o suficiente para comprovar isso. O julgamento
prolongado não de criminosos, não de traidores, nem regicidas, nem magos, mas dos
melhores personagens líderes da Europa; a sua condenação injusta, depois de meses
e meses de todo os tipos de humilhação e tortura sistemática moral; e o seu
enforcamento final, da forma mais lenta e cruel possível – aquela farsa sinistra,
encenada em Nuremberg, em 1945-1946 (e 1947) por um bando de covardes e
hipócritas vitoriosos, é incomensuravelmente mais nojenta do que todos os sacrifícios
humanos de pós-guerra do passado unidos em um, inclusive aqueles realizados de
acordo com o conhecido ritual mexicano. Porque pelo menos lá, por mais doloroso que
possa ter sido o processo tradicional de matar, as vítimas eram francamente levadas à
morte para o deleite do deus tribal dos vencedores e dos próprios vencedores, sem
qualquer pretensão macabra de estabelecer “justiça”. E eles eram, aliás, escolhidos de
todas as fileiras de combatentes capturados, e não malignamente selecionados da
elite do seu povo. Nem a elite do povo vencido representava, na maioria dos casos –
como de fato ocorreu no julgamento da vergonha dos nossos tempos progressivos – a
própria elite do seu continente.

Quanto às atrocidades impensáveis como as que ocorreram na França e na Espanha,


e em muitos outros países a partir da Idade Média, pode-se encontrar um grande
número de episódios da recente guerra civil espanhola – para não mencionar o
registro não menos impressionante dos horrores realizados, ainda mais recentemente,
pelos “heróis” da resistência francesa durante a Segunda Guerra Mundial – que são
tão horríveis quanto e, muitas vezes, ainda piores.

Curiosamente – embora eles digam que “odeiam essas coisas” – um número


considerável de homens e mulheres de hoje, quando falta a coragem para cometer
atos horríveis, pessoalmente, parecem estar dispostos como sempre a assisti-los
sendo realizados ou, pelo menos, a pensar sobre e regozijá-los, apreciando-os de
forma indireta, se negado o prazer mórbido de ver. Essas são as pessoas que, na
Inglaterra moderna, se unem diante das portas da prisão sempre que um homem está
para ser enforcado, esperando só Deus sabe que tipo de emoção doentia pelo simples
fato de ler o anúncio de que “a justiça foi feita” – pessoas que, se apenas dadas uma
oportunidade, correriam para assistir uma execução pública, ou melhor, uma queima
pública de bruxas ou hereges, com certeza tão rapidamente quanto seus
antepassados uma vez fizeram. Esses também são os milhões de pessoas,
considerados “civilizados” e aparentemente bondosos, que se revelam de forma tão
clara logo que uma guerra eclode, ou seja, tão logo eles se sentem incentivados a
mostrar o tipo mais repugnante de imaginação nas descrições competitivas sobre o
que “infligiriam” aos líderes do inimigo, se ele – ou mais frequentemente ela – tivesse
irrestrita liberdade para agir. Tais são, no fundo, aqueles que tripudiam sobre o
sofrimento do inimigo morto após uma guerra vitoriosa. E são milhões deles: milhões
de selvagens vicários, desprezíveis e ao mesmo tempo cruéis, a quem os guerreiros
da chamada idade do “barbarismo” teriam completamente desprezado.

Mas o mais covarde e hipócrita, talvez, do que qualquer outra coisa, é o


comportamento “progressista” do homem moderno com relação à Natureza viva, e
particularmente com relação ao reino animal. Falei sobre isso extensamente em outro
livro, e vou, portanto, aqui, me contentar a sublinhar alguns fatos.

O homem primitivo – e, muitas vezes, também, o homem cuja civilização não é nada
“moderna” – é ruim o bastante, é verdade, com relação ao seu tratamento dos
animais. Basta viajar aos países menos industrializados do sul da Europa, ou ao
Próximo e Médio Oriente, para adquirir uma certeza muito clara sobre este ponto. E
nem todos os líderes modernos têm sido igualmente bem sucedidos em colocar um
fim a essa antiga e burra crueldade, seja no Oriente ou no Ocidente. Gandhi não pôde,
em nome daquela bondade universal que ele repetidamente anunciava como o
princípio essencial da sua fé, evitar que os homens hindus matassem de fome
deliberadamente os seus bezerros machos, a fim de vender algumas pintas extras de
leite de vaca. Mussolini não conseguiu detectar e lidar com todos os italianos que, sob
seu governo, persistiram com o hábito detestável de depenar frangos vivos sob o
fundamento de que “as penas saem mais facilmente”. Não há como fugir do fato de
que a bondade com os animais em escala nacional não depende dos ensinamentos de
qualquer religião ou filosofia. É uma das características distintivas das raças
verdadeiramente superiores. E nenhuma alquimia religiosa, filosófica ou política pode
transformar metais comuns em ouro.

Isso não significa que um bom ensino não possa ajudar a trazer o melhor de cada
raça, assim como em cada homem ou mulher individualmente. Mas a civilização
industrial moderna, na medida em que ela é centrada no homem – e não controlada
por qualquer inspiração de um modo super-humano, cósmico – e tende a enfatizar a
quantidade em detrimento da qualidade, produção e riqueza em vez do caráter e valor
intrínseco, é tudo menos conveniente para o desenvolvimento de uma bondade
universal consistente, mesmo entre as melhores pessoas. Ela esconde a crueldade.
Ela não faz nada para suprimi-la, ou até mesmo para diminuí-la. Ela perdoa, ou
melhor, exalta qualquer atrocidade contra os animais que seja direta ou indiretamente
relacionada com ganhar dinheiro, dos horrores diários dos abates dos matadouros ao
martírio dos animais nas mãos do circo, do caçador ao vivisseccionista. Naturalmente,
o “maior” interesse dos seres humanos é apresentado como justificativa – sem que as
pessoas percebam que o homem que está disposto a comprar entretenimento ou luxo,
“comidas saborosas”, ou mesmo informações científicas e meios de curar doentes, já
não é mais digno de estar vivo. O fato é que nunca houve tamanha degeneração e
doenças de todos os tipos de descrições entre os homens quanto neste mundo de
vacinação obrigatória (ou quase obrigatória) e inoculação; este mundo que exalta os
criminosos contra a Vida – carrascos de seres vivos inocentes para fins do homem,
tais como Louis Pasteur – considerado entre os “grandes” homens, embora tenha
condenando os realmente grandes, que se esforçaram para destacar a sagrada
hierarquia das raças humanas diante da hierarquia óbvia de todos os seres, e que,
aliás, construíram o único Estado no Ocidente cujas leis de proteção dos animais
lembravam, pela primeira vez depois de séculos (e na medida em que foi possível em
um país industrial moderno de clima frio), os decretos do imperador Asoka e
Harshavardhana.

Esse mundo pode muito bem se vangloriar de seus cuidados com cães e gatos e
animais de estimação em geral, enquanto tentando esquecer (e tentando fazer as
melhores civilizações esquecerem) o fato hediondo de que um milhão de criaturas
passa por vivissecção anualmente somente na Grã-Bretanha. Mas não é possível nos
fazer esquecer dos seus horrores escondidos e nos convencer de seu “progresso”
quanto à bondade para com os animais, tanto quanto à sua bondade crescente para
com as pessoas “independentemente do seu credo”. Nós nos recusamos a ver nela
outra coisa senão a prova viva mais escura daquilo que os hindus têm caracterizado
desde tempos imemoriais como “Kali Yuga” – a “Idade das Trevas”, a Era da
Melancolia, a última (e, felizmente, a mais curta) subdivisão do atual ciclo da história.
Não há nenhuma esperança de “colocar as coisas em ordem” em tal fase. Essa é,
essencialmente, a fase descrita com tanta força embora laconicamente no Livro dos
livros – o Bhagavad-Gita – como aquela em que “da corrupção das mulheres nasce a
confusão das castas; da confusão das castas, a perda da memória; da perda da
memória, a falta de compreensão; e deste último, todos os outros males”; a fase em
que a mentira é chamada de “verdade” e a verdade é perseguida como falsidade ou
ridicularizada como loucura; em que os expoentes da verdade, os líderes divinamente
inspirados, os verdadeiros amigos de sua raça e de toda a vida – os homens como
Deus – são derrotados, e seus seguidores humilhados e sua memória caluniada,
enquanto os mestres das mentiras são tidos como “salvadores”; a fase em que cada
homem e mulher está no lugar errado, e o mundo é dominado por indivíduos
inferiores, raças bastardas e doutrinas viciosas, tudo parte integrante de uma ordem
inerente de feiúra muito pior do que a completa anarquia.

Esta é a fase em que os nossos democratas triunfantes e os nossos orgulhosos


comunistas ostentam o “progresso lento, mas constante, por meio da ciência e da
educação”. Muito obrigado por tal “progresso”! A simples visão de tal “progresso” é
suficiente para confirmar-nos na nossa crença na teoria cíclica da história imemorial,
ilustrada nos mitos de todas as antigas religiões naturais (incluindo aquela através da
qual os judeus – e, através deles, os seus discípulos, os cristãos – derivam a história
simbólica do Jardim do Éden; Perfeição no começo do Tempo). Impressiona-nos o fato
de que a história humana, longe de ser uma ascensão constante para o melhor, é um
processo cada vez mais desesperado de emasculação, abastardamento e
desmoralização da humanidade; uma “queda” inexorável. Ela desperta em nós o
desejo de ver o fim – a queda final, que vai empurrar para o esquecimento tanto os
inúteis “ismos” que são produto da decadência do pensamento e de caráter, e as não
menos inúteis religiões de igualdade que lentamente tem preparado o terreno para
eles; a vinda de Kalki, o Destruidor divino do mal; a aurora de um novo ciclo que se
abre, como todos os ciclos de tempo sempre fizeram, com uma nova “Era Dourada”.

Não importa quão sangrenta a queda final possa ser! Não importam os tesouros
antigos que podem perecer para sempre nesse incêndio! Quanto mais cedo ele vier,
melhor. Estamos esperando por isso – e para as glórias que se seguirão – confiantes
na lei cíclica divinamente estabelecida que rege todas as manifestações da existência
no tempo: a lei do eterno retorno. Estamos esperando por ele, e para o triunfo
posterior da Verdade perseguida hoje; pelo triunfo, sob qualquer nome, da única fé em
harmonia com as leis eternas do ser; do único “ismo” moderno, que de “moderno” tem
muito pouco, sendo apenas a mais recente expressão de princípios tão antigos quanto
o Sol; o triunfo de todos os homens que, ao longo dos séculos e hoje, nunca perderam
a visão da Ordem eterna, decretada pelo Sol, e que têm lutado com um espírito
altruísta para expor essa visão aos demais. Estamos aguardando a restauração
gloriosa, desta vez, em escala mundial, da Nova Ordem; a projeção no tempo, na
próxima assim como em todas as recorrentes “Eras Douradas”, da Ordem eterna do
Cosmos.

Essa é a única coisa para a qual vale a pena viver – e morrer, se for dado esse
privilégio – agora, em 1948.

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Capítulo 2 – Tempo e violência

Considerando os poucos fatos mencionados no capítulo anterior, está bastante claro


que não há crueldade na história antiga – nenhum horror da Assíria, nenhum horror
cartaginês, nenhum horror antigo chinês – que a inventividade dos nossos
contemporâneos do Oriente e Ocidente, auxiliada por uma técnica aperfeiçoada, não
tenha já superado. Mas a crueldade – a violência dos covardes – é apenas uma
expressão da violência, entre muitas outras, embora reconhecidamente seja uma das
mais repulsivas. Auxiliado e encorajado por conquistas científicas cada vez mais
surpreendentes, que podem ser colocadas em uso para qualquer finalidade, o homem
tem, ao longo da história, tornado-se cada vez mais violento – e não menos, como as
pessoas alimentadas com propaganda pacifista muitas vezes são inclinadas a pensar!
E mais, não poderia ter sido de outra maneira; e isso não pode ser diferente em
qualquer período do futuro, até que a destruição violenta e completa do que
chamamos hoje em dia de “civilização” abra para o mundo uma nova “Idade da
Verdade”; uma nova “Era Dourada”. Até então, a violência, sob uma forma ou outra, é
inevitável. É a lei da vida num mundo em queda. A escolha que nos é dada não é
entre a violência e a não-violência, mas entre a violência clara e sem vergonha, em
plena luz do dia, e a violência escondida, sutil – a chantagem; entre a violência aberta
e a violência discreta e lenta, porém aos moldes de uma perseguição implacável, tanto
econômica como cultural: a repressão sistemática de todas as possibilidades para os
vencidos, sem “mostrar” tal coisa; o “condicionamento” impiedoso de crianças, mais
horrível do que nunca porque é mais impessoal, mais indireto, e mais externamente
“suave”; a disseminação inteligente de terríveis mentiras (e meias-mentiras); a
violência sob o pretexto de não-violência. A escolha é também entre a brutalidade
abnegada posta a serviço da causa da verdade; a violência sem crueldade, aplicada
para trazer sobre a terra uma ordem baseada em princípios eternos, que transcendem
o homem; a violência na perspectiva da criação, ou manutenção, de um Estado
humano em harmonia com o propósito maior da vida, e entre a violência aplicada para
fins egoístas.
As duas alternativas paralelas são uma e a mesma coisa. Porque é um fato que,
quanto mais desinteressado é o seu objetivo e mais altruísta a sua aplicação, mais
franca e direta a violência é; enquanto, por outro lado, quanto mais sórdidos são os
motivos para qual na realidade ela é utilizada, mais ela é ocultada, ou melhor, negada;
e mais os homens que recorrem a ela se gabam de serem admiradores da não-
violência, assim blefando para os outros e às vezes também para si mesmos; agindo
como enganadores e sendo enganados – apanhados na rede das suas próprias
mentiras.

Conforme o tempo passa e a deterioração toma conta, o tema predominante da


história humana não é cada vez menos violência, e sim cada vez menos honestidade
sobre a violência.

Apenas uma “Era da Verdade”, em que tudo é como deveria ser – um mundo no qual
a ordem social e política na Terra é uma réplica perfeita da eterna Ordem da Vida –
pode ser não-violenta. E nas lendas eloqüentes de todas as nações antigas, a
sociedade ideal, no alvorecer do tempo, é dita ter sido naturalmente assim. Havia,
então, nada a ser mudado; nada para que derramar o próprio sangue ou o de outras
pessoas; nada a fazer, senão desfrutar em paz a beleza e as riquezas da Terra
iluminada pelo Sol os, e louvar deuses sábios – os “devas” ou os “resplandecentes”,
como os arianos antigos os chamavam – reis da terra no verdadeiro sentido da
palavra. Cada homem e cada mulher, cada raça, cada espécie estava, então, em seu
devido lugar, e toda a divina hierarquia da Criação era uma obra de arte para a qual e
da qual não havia nada para adicionar ou tirar. A violência era impensável.

A violência se tornou uma necessidade a partir do momento em que a ordem


sociopolítica do mundo deixou de ser o reflexo sem distorções da Ordem cósmica
eterna; a partir do momento em que um espírito centrado no homem, exaltando
indiscriminadamente toda a humanidade em detrimento da vida gloriosa da Natureza,
em um lado, e assim também os indivíduos naturalmente superiores e as raças
naturalmente privilegiadas, por outro lado, foi erguido, em oposição à Tradição de vida
que esteve permitindo, por sabe-se lá quantos milênios, a hierarquia harmoniosa e
divinamente ordenada dos povos, espécies animais e variedades vegetais; a partir do
momento em que uma tendência viciosa pela uniformidade – levando à desintegração
– se instalou, em oposição à Unidade primordial da diversidade, infinita e disciplinada.
A partir desse momento, repetimos, a violência tornou-se a lei do mundo, para o bem e
para o mal. A única maneira de evitar fazer uso dela seria, de agora em diante, ou se
isolar completamente do mundo como ele é, virar as costas à vida e seguir em frente
em um tempo artificial, como um sonho – a ilusão de uma ilusão – ou então, viver fora
do tempo completamente. Muito poucos indivíduos eram suficientemente tolos para
optar pela primeira opção, e menos ainda suficientemente desenvolvidos e, ao mesmo
tempo, suficientemente indiferentes, para adotar a segunda.

Mas a violência não é uma coisa ruim em si mesma. Verdade, ela se pôs como uma
necessidade apenas depois que o mundo havia se tornado, em grande medida, “ruim”
– infiel ao seu arquétipo atemporal; não mais em sintonia com o sonho criativo da
Mente universal, que uma vez ele expressou. O próprio surgimento da violência era
um sinal de que a “Era da Verdade” havia sido irremediavelmente fechada; que o
processo de queda da história estava ganhando velocidade. No entanto, a violência
não pode ser julgada independentemente de sua finalidade. E o propósito é bom ou
ruim; valioso ou não. Ele é valioso quando aqueles buscam fazê-lo, não apenas
desinteressadamente – sem nenhum desejo primordial de glória pessoal ou felicidade
– mas também de acordo com uma ideologia que expresse a verdade impessoal e
atemporal, mais-que-humana; uma ideologia enraizada na clara compreensão das leis
imutáveis da vida, e destinada a apelar a todos aqueles que, em um mundo em queda,
ainda mantêm dentro de seus corações um desejo invencível pela Ordem perfeita
como ela realmente era e será novamente; como ela não poderia deixar de ser, no
início de cada retorno do ciclo do tempo. Qualquer finalidade que seja inteligente, e
objetivamente consistente com os objetivos de guerra das imortais Forças da Luz na
sua luta eterna contra as Forças das Trevas, isto é, da desintegração – aquela luta
ilustrada em todas as mitologias do mundo – esse propósito, eu digo, justifica qualquer
quantidade de violência altruísta. Além disso, enquanto a “Era das Trevas” em que
estamos vivendo continua, mais e mais escura e mais e mais feroz ano após ano,
torna-se cada vez mais impossível de evitar o uso da violência a serviço da verdade.
Nenhum homem – nenhum semi-deus – pode trazer, nos dias hoje, mesmo uma
quantidade relativa de ordem real e de justiça a qualquer área do globo, sem o uso da
força, especialmente se ele tem apenas alguns anos à sua disposição para tentar
fazê-lo. E, infelizmente, quanto mais o mundo avança na era atual das maravilhas
técnicas e humilhação humana, mais os grandes homens de inspiração são
submetidos ao fator do tempo, assim que eles tentam aplicar seus elevados
conhecimentos intuitivos da verdade eterna para a solução de problemas práticos.
Eles são forçados a agir, não apenas por completo, mas também rapidamente, se não
quiserem ver as forças da desintegração acabar com seu inestimável trabalho. E,
gostem ou não, por completo e rapidamente significa, quase inevitavelmente, agir com
violência firme. Pode-se dizer, com mais e mais certeza enquanto a “Era das Trevas”
avança, que os homens-deus de ação são derrotados, pelo menos por enquanto, não
por terem sido cruéis demais (e, portanto, por terem despertado contra si mesmos e
suas idéias e seus colaboradores a indignação das “pessoas decentes”), mas por não
terem sido cruéis o suficiente – por não terem matado os seus inimigos em fuga, até o
último homem, na breve hora do triunfo; por não terem silenciado tanto os milhões de
hipócritas como os seus mestres, os produtores de contos de atrocidades, com
violência mais substancial, e extermínios mais completos.

Sendo assim, é evidente que condenar a violência indiscriminadamente é condenar a


própria luta das Forças da Vida e da Luz contra as Forças da Desintegração – luta
essa, cada vez mais heróica e desesperada, também, enquanto o mundo corre em
direção a seu fim. É condenar essa luta que, em cada uma das suas longas e variadas
fases, e até mesmo através de desastres temporários, tem assegurado para o mundo,
além de seu merecido castigo, o glorioso novo Início, que poucos merecem. Dentro
das amarras do tempo, especialmente dentro desta “Kali Yuga”, não se pode ser
sempre não-violento, sem contribuir, voluntariamente ou involuntariamente,
consciente ou inconscientemente, para o sucesso das Forças da Desintegração;
das que chamamos de forças da morte.

Quanto à violência que é usada para avançar os objetivos de guerra das forças da
morte, ela é e sempre foi de dois tipos: por um lado, dirigida contra a própria Vida –
primeiro, contra toda a inocente Natureza, e então contra os interesses vitais da alta
humanidade, em nome do “plano comum” – e, por outro lado, contra os homens em
particular que, cada vez mais conscientes da realidade trágica dessa idade da
escuridão, adotam uma posição em favor do reconhecimento dos valores eternos da
Vida e do restabelecimento da ordem de acordo com a sua verdadeira e eterna base.

De fato, na tentativa de trazer o triunfo da desintegração lenta, mas constante, da


cultura, a violência é cada vez menos necessária. O mundo evolui naturalmente para a
desintegração, com um ritmo cada vez mais acelerado. Poderia ter sido necessário,
uma vez, empurrá-lo desfiladeiro abaixo. Mas isso não tem mais sido necessário, há
séculos. O mundo caminha sobre a sua própria destruição, sem ajuda. Nesse sentido,
portanto, os guerreiros da desintegração desfrutam de uma tarefa fácil. Eles só têm de
seguir e enaltecer as tendências viciosas da maioria cada vez mais desprezível dos
homens para se tornarem os queridos do mundo. Mas, em sua guerra contra os
poucos, mas mais conscientes e práticos expoentes dos valores mais elevados – os
defensores da hierarquia natural das raças; os adoradores da luz, da força, da
juventude – eles são (e estão vinculados a ser) cada vez mais violentos, ou melhor,
mais e mais implacavelmente cruéis. O ódio deles cresce enquanto a história se
desenrola, como se eles soubessem – como se eles sentissem, com a agudeza da
percepção física – que cada uma de suas vitórias, espetaculares como possam
parecer, os traz para mais perto da queda final redentora na qual eles se encontram
vinculados a perder, e da qual seus superiores, agora perseguidos, serão obrigados a
emergir como os líderes da Nova Era – os super-homens, no início do próximo ciclo de
tempo – mais do que nunca como deuses. O ódio deles cresce, e sua ferocidade
também, com a aproximação da queda redentora e, junto com ela, o alvorecer da
Nova Ordem universal, tão inevitável como a chegada da primavera. Como a história
dos últimos anos tem mostrado – como a história da escura Europa (e dos orgulhosos,
mas pobres japoneses) mostraria hoje, se apenas os seus horrores escondidos
fossem revelados – nada é pior em termos de violência do que a perseguição dos
melhores homens e mulheres do mundo pelos agentes das forças da morte, nesse
último período da “Era das Trevas”. Assim como as crianças da Luz, esses também –
embora por motivos contrários – agem sob a pressão inflexível do tempo. Eles têm
poucos anos para tentar acabar com a eterna ideologia divina; para esmagar o
máximo de seus adeptos que puderem, antes de serem, eles próprios, transformados
em pó em uma guerra fratricida de demônios contra demônios.

Eles estão com pressa – não como a heróica elite, por impaciência generosa; não por
um desejo de ver a “Era da Verdade” ser restabelecida antes de seu tempo, mas
apenas por uma luxúria febril; por uma vontade de roubar do mundo, para si mesmos,
todas as vantagens materiais e todas as satisfações da vaidade que forem possíveis,
antes que seja tarde demais. E conforme o tempo passa, essa pressa se transforma
em delírio. O único obstáculo em seu caminho que ainda os desafia – que irá sempre
desafiá-los, até o fim – é precisamente essa elite orgulhosa a qual o desastre não
desanima, a qual a tortura não pode quebrar, a qual o dinheiro não pode comprar.
Consciente ou inconscientemente, sejam eles próprios completamente maus, ou
apenas cegos por uma estupidez inata, os agentes da desintegração guerreiam contra
os homens de ouro e aço com uma fúria infernal, sem esmorecer.

Mas deles não é a violência franca e desavergonhada dos inspirados idealistas que
lutam para trazer de volta, rapidamente, a elevada ordem sociopolítica que é boa
demais para o mundo indigno de sua época. A deles é um tipo de violência covarde,
safada, escondida, mais e mais eficaz por ser, do lado de fora, mais enfaticamente
negada, tanto pelos miseráveis que a aplicam ou aceitam, como pelos estúpidos bem-
intencionados que realmente acreditam que tal coisa não exista. Ela é motivada por
sentimentos que não se pode apresentar, mesmo em um mundo degenerado, sem
correr o risco de derrotar o próprio propósito: por puro ódio, enraizado na inveja – o
ódio dos fracos inúteis com relação aos fortes, por não outro motivo senão por eles
serem realmente fortes; o ódio das almas feias (encarnado, mais frequentemente, em
corpos não menos feios) com relação aos de grande beleza natural; com relação à
nobre, magnânima, abnegada, e real aristocracia do mundo; o ódio do infeliz, e mais
ainda, do tedioso – daqueles que vivem apenas por seus bolsos, e não têm nenhum
motivo para morrer – com relação àqueles que vivem, e estão prontos para morrer, por
valores eternos. Assim é, cada vez mais, a violência generalizada dos nossos tempos,
cada vez menos reconhecida, em seu disfarce sutil, até mesmo para as pessoas que
realmente sofrem com ela.

Os povos da antiguidade sabiam melhor do que nossos contemporâneos sobre quem


eram seus amigos e quem eram seus inimigos. E isso é natural. Em um mundo
correndo para sua perdição, é natural o aumento da ignorância – a ignorância
precisamente dessas coisas que se deve conhecer melhor para sobreviver. Os antigos
sofriam, mas sabiam a quem amaldiçoar. Os homens e mulheres modernos, como
regra, não sabem; realmente não se importam de saber; são preguiçosos demais,
cansados demais, próximos demais do fim do seu mundo para se darem ao trabalho
de questionar qualquer coisa seriamente. E os malandros espertos, eles próprios os
autores de todo esse mal, os incitam a jogar a culpa sobre as únicas pessoas cuja
infalível sabedoria e amor poderiam tê-los salvado, se eles quisessem ter sido salvos;
sobre essa elite odiada que se posiciona contra a corrente do Tempo, com a visão do
glorioso novo Início por trás da desgraça do mundo atual, clara e brilhante diante de
seus olhos. A totalidade do montante de baboseiras escritas e contadas desde o final
da Segunda Guerra Mundial (e mesmo antes do seu final, nos jornais e nas estações
de rádio controladas pelos Poderes Democráticos) sobre os sofrimentos dos povos
europeus, é o exemplo flagrante mais recente desta campanha sistemática de
mentiras, mais e mais comum na medida em que as forças da desintegração se
tornam, com o tempo, mais bem sucedidas e secretas. A Europa está em ruínas –
consequência de seis anos de bombardeamentos desumanos. As Nações Unidas
fizeram o bombardeio, a fim de acabar com o Nacional-Socialismo – a única coisa que
poderia ter restaurado a ordem e a sanidade na Europa, se o altruísmo absoluto,
combinado com genialidade, fosse capaz de virar a maré do tempo em um mundo
condenado. E agora as pessoas dizem que o Nacional-Socialismo é responsável por
todos os males que os bombardeios tenham causado, e que o seu inspirador fundador
é o maior egoísta megalomaníaco que já pisou nesta terra. Algumas pessoas
acreditam nisso – até mesmo na Alemanha; ou estavam preparadas para acreditar em
1945, antes que tivessem um gosto do substituto que as democracias lhes ofereceriam
no lugar do regime muito criticado. A maioria das pessoas acredita nisso no resto da
Europa. Os vilões insidiosos, completamente desonestos com relação à violência, que
definiram o tom dessa propaganda, têm uma tarefa fácil: eles trabalham no sentido do
Tempo: para a desordem, levando à desintegração; para a destruição de tudo o que
ainda é forte e valioso no momento presente da humanidade; de tudo o que é
destinado a sobreviver, apesar de tudo, a vinda da destruição. E eles exploram muito
as características de uma época decadente: o ódio de toda a disciplina óbvia e de toda
a liderança visível e tangível (e responsável), aliado à crescente arrogância,
aumentando a imbecilidade, e, conseqüentemente, aumentando também a
ingenuidade.

Temos falado de dois tipos de violência. Em nenhum caso a diferença na natureza


desses dois tipos é mais evidente, talvez, do que na atitude dos defensores – ou
condizentes – de cada um com relação à criação viva fora da humanidade.

A violência franca e corajosa, que qualquer idealista com uma visão real é obrigado a
usar assim que ele tentar traduzir sua intuição da verdade eterna em ação, em um
mundo teimosamente degenerado, curvado sobre a sua própria destruição, é a
violência que, dizemos, nunca é exercida – e nunca poderia, logicamente, ser
exercida, salvo, talvez, em certos casos de urgência vital – contra quaisquer outras
criaturas vivas que não sejam pessoas. Seu único propósito é esmagar, tão rápida e
completamente como for possível, toda a resistência a uma ordem sócio-política
imposta muito cedo para ser apreciada por todos aqueles a quem ela afetaria. Como
veremos, ela não afeta apenas os seres humanos. Ela inclui, e deverá abranger,
também, no longo prazo, todos os seres vivos. Caso contrário, ela não seria uma
ordem baseada na verdade eterna, e a violência usada para impô-la não se justificaria.
Mas apenas os seres humanos podem e se opõem a essa ordem. Apenas eles são,
portanto, à medida que se tornam obstáculos ao seu estabelecimento ou à sua
manutenção, vítimas justificadas da violência necessária daqueles cujo dever é
defendê-la. Como conseqüência do fato de que eles não têm nada a ver com a
formação da sociedade humana, os animais inocentes nunca são atormentados por
homens que acreditam que, em todo caso, a tortura pode somente ser dispensada
quando aplicada para avançar fins impessoais políticos que estejam em harmonia com
os princípios eternos.

Esses homens não toleram a imposição de dor sobre as criaturas que vivem para
pesquisas destinadas, nas mentes dos torturadores e dos seus apoiadores, a aliviar os
sofrimentos da humanidade doente ou para satisfazer simples desejos por
informações “científicas”. Porque se eles realmente são expoentes dos ideais da “Era
Dourada” – homens de ação, com a consciência da verdade eterna e um amor ardente
pela perfeição – não há chance de eles compartilharem, seja sobre a humanidade ou
sobre as doenças, ou sobre a ânsia mórbida por um ocioso conhecimento a qualquer
custo, os preconceitos comuns que têm vindo a se desenvolver, há séculos, como
resultado da crescente decadência deste mundo. Eles não podem acreditar que todas
as vidas humanas, degeneradas como possam ser, sejam, necessariamente, válidas
de serem salvas. E eles devem acreditar que a melhor forma de erradicar as doenças
não é descobrindo novos tratamentos para ensinar homens e mulheres a viverem
vidas mais saudáveis, mas sim, antes de tudo, fortalecendo as raças naturalmente
privilegiadas com uma política sistemática e racional, aplicada, em primeiro lugar, à
arte básica da procriação. E eles devem sentir um desprezo para com todas as formas
de pesquisa inúteis, sem falar da curiosidade criminal sobre o mistério da vida, que
transformou centenas de homens como Pavlov, ou Voronoff – ou Claude Bernard – em
verdadeiros monstros.
Há mais. A ideologia do forte naturalmente anda de mãos dadas com repulsa por
todas as formas de crueldade para com os lindos animais indefesos. Nietzsche
exaltou a bondade como a maior força do super-homem – “a última vitória do
herói sobre si mesmo”. E a bondade que não abrange toda a vida não é bondade
de forma alguma. A bondade que leva o homem a “amar os seus inimigos” sem
exigir que ele ame as criaturas inocentes da terra, que não lhe causaram
nenhum dano intencional; a bondade que o aconselha a poupar as vidas dos
homens, mas o permite perseguir e comer os outros animais, e vestir suas
peles, ou é hipocrisia ou imbecilidade. A ideologia do forte rejeita esses dois mil
anos de contradição com desprezo.

Isto é tão verdade que as únicas pessoas que têm, em nossos tempos, se
esforçado para criar uma ordem sócio-política sobre a base de uma tal ideologia;
as pessoas que defendem mais consistentemente a violência saudável,
necessária, que é indissociável de qualquer luta contra as forças da decadência
– os fundadores da Alemanha nacional-socialista – são precisamente aquelas
que expressaram o amor mais sincero por toda a Natureza em seu sistema
educacional, e fizeram tudo o que podiam para proteger, por lei, tanto os animais
como as florestas; é tão verdadeiro, que o líder que os inspirou – Adolf Hitler,
agora tão descaradamente caluniado e tão amargamente odiado por um mundo
inútil – não só se absteve de carne em sua própria dieta diária, mas é , pelo que
sei, o único governante europeu que já contemplou seriamente a possibilidade
de um continente sem matadouros, e ele realmente tinha a intenção de tornar
esse sonho uma realidade, logo que pudesse.

Compare isso com o tratamento das criaturas nas mãos da maioria das pessoas que
negam os indivíduos e raças superiores o direito de serem implacáveis em sua heróica
luta contra o Tempo; daqueles que gostariam que nós acreditássemos que eles
“amam os seus inimigos” e que eles têm um verdadeiro horror com relação a
quaisquer atrocidades! Nós vimos, e nós vemos todos os dias, como os hipócritas
tratam os seus inimigos – quando eles os pegam. E nós sabemos quais atrocidades
eles podem executar contra outros seres humanos – ou ordenar, ou pelo menos
tolerar – quando elas se adaptam às suas finalidades. Eles tratam os animais da
mesma maneira. Eles consideram os crimes ocultos diariamente cometidos contra os
animais neste mundo cada vez mais perverso, como uma coisa natural, tal como
fazem com os que são cometidos contra os homens e mulheres que eles consideram
como “fanáticos perigosos”, “criminosos de guerra” e assim por diante.

Naturalmente, eles acham boas desculpas para justificar sua atitude – e sempre farão
isso; a lógica foi concedida ao homem para que ele pudesse se justificar aos seus
próprios olhos, seja qual for a monstruosidade que ele possa decidir apoiar. Mas suas
premissas são totalmente diferentes daquelas das pessoas altruístas que lutam com
brutalidade consistente pelos ideais de harmonia com a perfeita ordem cósmica. Seu
argumento básico é “o interesse da humanidade” – de forma indiscriminada; o
“interesse da humanidade” como um todo; da “maioria” dos seres humanos, bons,
maus e indiferentes; e apenas dos seres humanos. Seus ideais – expressão da
tendência decadente do Tempo, que acelera o homem para o seu fim – são qualquer
coisa, exceto ideais da “Era Dourada”.
Qual é a humanidade que os agentes de bom coração das forças da escuridão
querem realmente “salvar”, à custa de sofrimentos indizíveis infligidos a criaturas
saudáveis, inocentes e belas nas câmaras de tortura da “ciência”? Certamente não a
elite forte e orgulhosa da humanidade, à espera do seu dia para começar um novo
ciclo histórico, sobre as ruínas do mundo atual. Esses homens e mulheres que
pertencem a essa minoria saudável não precisam de tal medicamento laboriosamente
descoberto, e não iriam aceitá-lo. Não. A maioria dos nossos contemporâneos que
defendem a imposição de dor sobre as criaturas que vivem em prol da
“pesquisa” está preocupada com o alívio do “sofrimento” da humanidade. Eles
são cheios desse amor mórbido para com os doentes e os aleijados, os fracos e
os deficientes de todo tipo, que o Cristianismo colocou na moda e que é, sem
dúvida, um dos sinais mais nauseantes da decadência do homem moderno.
Sejam eles professos cristãos ou não, todos se apegam à crença idiota de que é
um “dever” salvar, ou pelo menos prorrogar, a qualquer custo, qualquer vida
humana, mesmo que sem valor – um dever de prolongar a vida simplesmente
porque é uma vida humana. Como conseqüência, eles estão dispostos a
sacrificar qualquer número de animais saudáveis e bonitos, se imaginarem que
isso poderá ajudar a corrigir os corpos de pessoas que, na maioria dos casos,
não teriam sido permitidas a viver, ou melhor, nunca nem teriam nascido, em
uma sociedade bem concebida e bem organizada. Em seus olhos, um idiota
humano vale mais do que o modelo mais perfeito de vida animal ou vegetal. De
fato, enquanto a nossa espécie se degenera, a sua vaidade cresce! E essa
vaidade ajuda a manter os homens satisfeitos, embora eles sejam
completamente afastados da visão da perfeição, gloriosa e saudável, que
dominou a consciência do mundo em sua juventude e que ainda é, e
permanecerá até o fim, a visão inspiradora de uma minoria decrescente.

Os relatos das atrocidades cometidas contra os animais inocentes, a fim de encontrar


meios para combater doenças em uma humanidade mais e mais contaminada, ou até
mesmo a fim de encontrar meios para incentivar vícios para um número cada vez
maior de degenerados, encheriam livros inteiros. As abominações semelhantes
realizadas por mera curiosidade científica, também. Este não é o lugar para ponderar
sobre esse assunto horripilante. No entanto, quando lembramos que as pessoas que
desculparam esses e outros horrores, ou melhor, que aprovaram esses horrores – que
admiraram alguém como Pasteur, e que nunca disseram nem uma palavra sequer
contra outros, como Claude Bernard ou, neste século, Pavlov – quando lembramos
que essas pessoas tiveram o descaramento de serem juízes em 1945, 1946 e 1947, e
que, com o consentimento do mundo, sentenciaram à morte os médicos alemães,
justa ou injustamente acusados de terem realizado experimentos muito menos cruéis a
inimigos ativos ou potenciais de tudo o que eles amavam e defendiam, então é um
nojo a profundidade de hipocrisia que a humanidade tem alcançado em nossa época.
Porque nunca antes, talvez, tal exposição teatral de indignação sobre determinados
atos de violência tenha caminhado de mãos dadas com uma tolerância universal de
atos de violência muito mais horríveis.

Essa desonestidade geral sobre a violência, que tem se tornado progressivamente


mais comum desde os primórdios da história, está clara hoje na forma como as
pessoas deliberadamente escondem de si próprias e dos outros os horrores que eles
perdoam, mas que ainda assim são incapazes de justificar.

Muitas das atrocidades cometidas contra os animais com a intenção de avançar


conhecimentos médicos são tão terríveis que, apesar de suas alegadas “justificativas”,
é “do interesse da ciência” – e do interesse das questões comerciais do mercado de
patentes de medicamentos – não permitir que o público saiba sobre elas. E o público é
deliberadamente mantido na ignorância – induzido a acreditar que esses horrores não
existem realmente, ou que eles não são, na realidade, tão sanguinolentos quanto
parecem ser. Sendo assim, logicamente as inúmeras crueldades cometidas por mera
curiosidade ou por luxo, ou por diversão, são as mais escondidas – negadas
sutilmente. Milhares de tolos bem-intencionados, que falam sobre o suposto
“progresso moral” da nossa época, não têm idéia alguma sobre o que se passa em
institutos científicos, no comércio de peles ou nos circos.

Milhares de pessoas igualmente bem-intencionadas e igualmente insensatas, que não


questionam o que lhes é dado para ler e sabem pouco além do que lhes é oferecido,
também não fazem idéia sobre os horrores perpetrados por seus compatriotas em
países de outras pessoas como colonos ou como membros de exércitos de ocupação,
ou melhor, não fazem nenhuma idéia sobre o que se passa em seus próprios países,
atrás das grades, nas câmaras de tortura para a investigação política, e nos campos
de concentração. Na verdade, na Inglaterra e em outras nações democráticas, muitos
têm a impressão de que seus governos nunca toleraram coisas tais como campos de
concentração e câmaras de tortura para seres humanos. Apenas “o inimigo” tinha
essas coisas – isso é o que essas pessoas acreditam. Anos atrás, elas teriam de
admitir que “todo mundo tem” essas coisas, e deveria tê-las, porque não se pode
executar uma guerra sem esses acessórios desagradáveis, mas extremamente úteis.
Mas agora a hipocrisia sobre a violência atingiu o seu ápice. Nunca houve no mundo
tanta crueldade, aliada a uma tentativa tão generalizada de escondê-la, de negá-la,
esquecê-la e, se possível, fazer com que os outros também a esqueçam. Nunca as
pessoas têm sido tão dispostas a esquecê-la, com cenários externos “decentes” e
agradáveis – casas e ruas em que nenhuma tortura de homens ou animais pode ser
vista ou reconhecida – desde que, evidentemente, não seja a crueldade “do inimigo”. A
única vez em que homens e mulheres modernos não tentam minimizar horrores, mas
na verdade os exageram (e muitas vezes deliberadamente os inventam) é quando
esses são (ou são apresentados como) os horrores do “inimigo” – nunca os seus
próprios. E isso é em si apenas uma instância adicional da característica geral dos
nossos tempos: o amor pelas mentiras.

O que virou o mundo inteiro tão amargamente contra os francos defensores dos
métodos cruéis tanto no governo como nas guerras, não é tanto que eles fossem
violentos, mas o fato de que eles eram verdadeiros. Mentirosos odeiam aqueles que
contam as verdades desagradáveis, e que agem em conformidade com elas.

A “verdade desagradável” é que o pacifismo, a não-violência e assim por diante, são,


na maioria das vezes, apenas ferramentas em serviço das forças de desintegração;
truques desonestos para blefar os tolos, para enfraquecer os fortes, e para colocar
milhões de covardes e hipócritas (a maioria do mundo) contra as poucas pessoas cuja
inspiração política, perseguida implacavelmente pelo seu fim lógico, poderia, talvez,
mesmo agora, parar a decadência do homem.

Como foi dito no início, a não-violência só pode existir em um mundo em que a ordem
temporal sócio-política é, na escala humana, uma réplica da eterna Ordem do
Cosmos. Qualquer pregação eficaz – e qualquer prática parcial – de pacifismo na
política, ou seja, dentro do tempo, fora de tal ordem temporal, leva apenas, em última
instância, a uma maior violência; a uma maior exploração da natureza viva, e a uma
maior opressão do homem nas mãos daqueles que trabalham pelas forças da morte.
Mas, há milênios que a ordem perfeita deixou de existir. Ela deve ser recriada antes
que a paz possa florescer. E ela não pode, agora, ser criada de novo sem violência
extrema, exercida, desta vez, com um espírito altruísta, por homens de visão.

O melhor caminho para aqueles que desejam sinceramente uma paz justa e
duradoura seria, portanto, naturalmente, fazer todo o possível para entregar o mundo
para os homens de visão, o mais rapidamente possível; ou pelo menos, não tentar
impedi-los de conquistá-lo. Infelizmente, a maioria dos pacifistas ou não querem
realmente a paz, e apenas fingem querer, ou então realmente querem tal coisa, mas
apenas sob certas condições ideológicas que são incompatíveis com a realidade
agora, e que se tornarão mais e mais incompatíveis até o final do atual ciclo histórico.
Qualquer violência praticada contra seres humanos os choca. As pessoas que apóiam
abertamente o uso da força – seja no espírito mais desinteressado e para o melhor
dos propósitos – são, por isso mesmo, um anátema em seus olhos. Ajudá-los a
conquistar e dominar o mundo? Oh, não! Tudo menos isso! Os ideais dos homens de
visão podem muito bem ser ideais da “Era Dourada”; mas os métodos deles! – a
atitude cínica deles em relação à vida humana; a perseguição implacável e impiedosa
para a eliminação até mesmo de possíveis obstáculos para a realização rápida de
seus objetivos altruístas; sua “lógica terrível” (para citar as palavras de um oficial
francês na Alemanha ocupada, depois desta guerra) – os nossos pacifistas nunca
poderiam se aliar a estes! Como resultado, eles representam algo muito pior – e
geralmente sem saber. Pois, através da sua recusa em encarar os fatos e tomar a
única atitude razoável que um verdadeiro amante da paz deveria tomar, eles se
tornam instrumentos a serviço das forças de desintegração.

Não é possível ter ambas as coisas: quem não está com as eternas Forças da Vida e
Luz, está contra elas. A menos que se viva “fora” ou “acima” do Tempo, caminha-se no
sentido da evolução inevitável da história – ou seja, no sentido da decadência e
dissolução – ou em protesto contra a corrente dos séculos, em uma luta amarga e
aparentemente impossível, mas, no entanto, ainda assim bela, com os olhos fixos
sobre os ideais eternos que podem ser traduzidos integralmente para a realidade
material uma só vez, no início de cada ciclo sucessivo, por cada nova e sucessiva
humanidade. Mas é verdade que a minoria corajosa de homens de ação que lutam
“contra o Tempo” por ideais da “Era Dourada” é obrigada a tornar-se, conforme o
tempo passa, mais e mais cruel em seu esforço para superar uma oposição universal
cada vez mais bem organizada e cada vez mais evasiva. E por essa razão, torna-se
cada vez mais difícil para que os pacifistas os sigam. Com toda probabilidade, eles
continuarão a preferir identificar-se com os agentes mentirosos das Forças das
Trevas. E isso é natural. Mais uma vez: está dentro da lei do tempo. As forças da
morte devem ter praticamente todo o mundo sob seu controle antes da vinda de um
novo recomeço, que sempre nasce como uma reafirmação do triunfo da Vida.

E assim, dia após dia, ano após ano, agora e no futuro, os poderes conflitantes da luz
e das trevas não deixam de travar a sua luta mortal, como sempre fizeram, mas cada
vez mais ferozmente na medida em que o tempo passa. E na medida em que o tempo
passa, a luta também será mais e mais entre uma violência abertamente reconhecida
e abertamente aceita, e uma violência desonestamente dissimulada, sendo a primeira
colocada a serviço do mais alto propósito da Vida na Terra – ou seja, a criação de uma
humanidade ideal, ou de uma humanidade aos moldes da “Era Dourada” – e a outra,
colocada a serviço dos inimigos da Vida. E será assim até que, após a queda final – o
“fim do mundo” como nós o conhecemos – a liderança da sobrevivência da
humanidade caia para aquela elite vitoriosa que, mesmo em meio à decadência geral
do homem, nunca perdeu a fé nos eternos valores cósmicos, nem a vontade de
desenhar a partir deles, e somente a partir deles, as suas leis de ação.

Essa elite irá, então, não mais ser obrigada a recorrer à violência para impor sua
vontade. Ela irá governar sem oposição em um mundo pacífico, em que a Nova
Ordem dos seus sonhos será, para todos, o único estado natural e racional das coisas.
Até que o homem esqueça novamente a Verdade imutável, volte a agir como se as
leis de ferro de causa e conseqüência não lhe afetassem, e novamente se deteriore.

Nada pode parar a roda do tempo.

Capítulo 3 – Homens dentro do Tempo, acima do Tempo, e contra o Tempo

Todos os homens, na medida em que eles não estão libertos da escravidão do Tempo,
seguem o caminho degenerativo da história, sabendo disso ou não, e gostando disso
ou não.

Poucos realmente e completamente gostam dessa situação, mesmo em nossa época


– e muito menos em idades mais felizes, quando as pessoas liam menos e pensavam
mais. Poucos seguem em frente sem hesitações, sem olhar, em algum momento ou
outro, tristemente para o distante paraíso perdido que eles sabem, na sua consciência
mais profunda, que eles nunca entrarão; o paraíso da Perfeição dentro do tempo –
uma coisa tão distante do presente que as primeiras pessoas sobre as quais temos
conhecimento lembram apenas como um sonho. No entanto, eles seguem o caminho
fatal. Eles obedecem a seu destino.

Essa submissão à terrível lei da decadência – essa aceitação da escravidão do Tempo


por criaturas que vagamente sentem que poderiam ser livres dela, mas que acham
que essa é uma tarefa árdua demais para ser apostada; que sabem de antemão que
nunca teriam sucesso, mesmo que tentassem – está no fundo da infelicidade incurável
do homem, lamentada vez após vez nas tragédias gregas, e também muito antes
destas terem sido escritas. O homem é infeliz porque ele sabe, e porque ele sente –
em geral – que o mundo em que ele vive e do qual ele faz parte não é o que deveria
ser, e o que poderia ser, e o que, na verdade, foi na aurora do Tempo, antes da
decadência se armar, e antes da violência ter se tornado inevitável. Ele não é capaz
de honestamente aceitar esse mundo como o seu – especialmente não aceitar o fato
de que tudo está indo de mal a pior – e ainda assim ser feliz. Por mais que ele tente
ser um “realista” e arrancar do destino o que ele puder, quando puder, ainda assim um
anseio invencível sobre algo melhor continua no fundo do seu coração. Ele não pode –
em geral – desejar o mundo como ele atualmente é.

Mas poucas pessoas – tão raras quanto aquelas libertadas, para as quais o Tempo
não existe, e talvez ainda mais raras do que isso – desejam tal mundo; e agem de
acordo com essa vontade. Estas são as mais aprofundadas, os agentes mais
impiedosos e eficazes das forças da morte na Terra: extremamente inteligentes, e por
vezes extraordinariamente perspicazes; sempre sem o mínimo de escrúpulos;
trabalhando sem hesitação e sem remorsos no sentido de acelerar a queda da história
e (mesmo que não consigam enxergar a situação claramente dessa forma) a chegada
da sua conclusão lógica: a aniquilação do homem e de toda a vida.

Naturalmente, eles nem sempre vêem tão longe. Mas quando o fazem, ainda assim
eles não se importam. Como a Lei do Tempo é o que é, e como o fim deve
naturalmente chegar, para eles vale a pena conquistar todo o lucro que for possível
durante esse processo que, afinal, mais cedo ou mais tarde, trará o fim. Como
ninguém é capaz de recriar o esperado Paraíso perdido – ninguém senão a própria
roda do tempo, depois de ter completado o seu ciclo – então para eles, que podem
esquecer completamente essa distante visão, ou que nunca foram capazes de
vislumbrar seu brilho; eles, que sufocam em si mesmos o anseio pela Perfeição, ou
melhor, eles quem nunca puderam experimentá-la; então assim, para eles vale a pena
tentar espremer desse momento (minutos ou anos, pouco importa) todos os prazeres
intensos e imediatos que eles puderem, até que chegue a hora em que eles deverão
morrer. Para eles, vale a pena deixar a sua marca no mundo – e forçar as gerações a
lembrá-los – até a hora em que o mundo morrer. Assim eles se sentem. Para eles,
tanto faz o que eles podem causar de sofrimento para os homens ou outros seres
vivos agindo como eles agem. Tanto os homens como as demais criaturas são
obrigados a sofrer, de qualquer maneira – eles pensam. Qualquer coisa vale, através
deles assim como através de outros, se isso puder avançar os objetivos destas
pessoas.

Os objetivos destas pessoas – dos homens dentro do Tempo, por excelência – são
sempre objetivos egoístas, mesmo quando, devido à sua magnitude material e
importância histórica, eles transcendem imensuravelmente a vida do próprio homem,
assim como de fato acontece, às vezes. Isso porque o egoísmo – a justificação da
“parte” por mais espaço e mais significado do que lhe é naturalmente atribuído no
quadro da totalidade – é a própria raiz da desintegração e, portanto, uma característica
indissociável do Tempo. Pode-se dizer, praticamente, que quanto mais uma pessoa é
completamente e inexoravelmente egoísta, mais ela ou ele vive “dentro do Tempo”.

Mas, como temos dito, o egoísmo se manifesta de muitas maneiras diferentes. Ele
pode encontrar expressão na luxúria da mera satisfação pessoal, que caracteriza o
libertino sem vergonha; ou na ganância insaciável do avarento pelo ouro; ou na
ambição individual do aspirante a honras e posição social; ou na ambição familiar do
homem que está preparado para sacrificar todos os interesses de todo o mundo pelo
bem estar e pela felicidade de sua esposa e filhos. Mas o egoísmo também pode
aparecer na exaltação da tribo ou da nação de um homem acima de todas as outras
tribos e nações, não por seu valor inerente à hierarquia natural da Vida, mas apenas
por ser a tribo ou a nação específica daquele homem. O egoísmo pode aparecer – ou
melhor, muitas vezes aparece – na exaltação indevida de todos os seres humanos,
não importando o seu nível de degradação, acima de todo o resto da criação viva,
irrespectivamente da saúde e da beleza destes últimos – a paixão que inspira a tirania
secular do “homem” sobre a Natureza. O “amor pelo homem” não está em harmonia
com os direitos e deveres ordenados por Deus para cada espécie (assim como para
cada raça e cada indivíduo), mas existe num espírito de mera solidariedade entre
parentes, bons ou maus, dignos ou indignos, apenas porque são os seus próprios.
Homens “dentro do Tempo” sabem apenas diferenciar o que é seu e o que é dos
outros, e eles amam a si mesmos em tudo o que é deles.