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Como interpretar a frase de Temer sobre o ‘autoritarismo’ nacional


João Paulo Charleaux 16 Nov 2017 (atualizado 16/Nov 16h30)

Estudiosa analisa discurso presidencial no dia da proclamação da República à luz dos fatos históricos e dos interesses
políticos atuais

FOTO: MARCOS CORRÊA/AGÊNCIA BRASIL - 15.11.2017

 PRESIDENTE MICHEL TEMER DISCURSA NA CIDADE DE ITU, NO INTERIOR DE SÃO PAULO

O presidente Michel Temer disse em discurso (http://www2.planalto.gov.br/acompanhe-planalto/discursos/discursos-do-presidente-da-republica/discurso-do-


presidente-da-republica-michel-temer-durante-cerimonia-de-outorga-de-titulo-de-cidadania-ituana-ao-senhor-jose-eduardo-bandeira-de-mello-itu-sp) na quarta-
feira (15), em Itu, interior de São Paulo, que “nossa tendência é sempre caminhar para os autoritarismos”.

O “nós” da frase se refere, no contexto do discurso, ao povo brasileiro como um todo. Temer discursava na celebração do aniversário da República no Brasil,
proclamada em 15 de novembro de 1889.

“Eu revelo historicamente para você [se dirigindo a José Eduardo Bandeira de Mello, a quem estava sendo entregue o título de cidadão ituano] como essa tendência [ao
autoritarismo] é verdadeira”, disse o presidente, antes de enumerar fatos ocorridos nos séculos 20 e 21 no país.

De acordo com ele, entre 1891 (data da adoção da primeira constituição republicana) até 1930 (data da primeira deposição de um presidente republicano à força no
Brasil) “só houve conflitos”. Em seguida, de 1930 até 1945, o Brasil viveu “um sistema centralizador, que foi se centralizando cada vez mais”, em referência aos
governos de Getúlio Vargas.

Por fim, citou o golpe de Estado de 1964, que colocou o país sob ditadura militar até 1985. “A nossa vocação centralizadora e, convenhamos, quando os movimentos
centralizadores ocorrem, não por um… simplesmente um golpe de Estado, é porque o povo também quer, acaba desejando, no fundo é isso”, disse o presidente.

O presidente alertou que, “se nós não prestigiarmos certos princípios constitucionais, a nossa tendência é sempre caminhar para os autoritarismos, para uma certa
centralização”. “Nós temos uma certa, digamos, uma certa tendência para centralização”, disse.

No mesmo discurso, Temer elogiou o pacto federativo, que descentraliza a administração da República, delegando funções e certo nível de autonomia para estados e
municípios. “Quando nós falamos da República nós estamos falando da Federação, e quando falamos da Federação nós estamos falando da descentralização da
atividade pública, da atividade política, da atividade administrativa. Então, digo eu, nós temos hoje mais do que nunca, eu quero aproveitar este auditório, este cenário,
esta cidade, este município, que foi berço da República e da Federação, para dizer: vamos enfatizar também uma reforma federativa”, afirmou o presidente.

O Nexo perguntou a Ângela Maria de Castro Gomes (http://cpdoc.fgv.br/equipe/AngelaCastro), professora titular de história do Brasil na Universidade Federal
Fluminense, como a historiografia lida com essas percepções.

É
É verdade que tendemos ao autoritarismo? Quem ‘tendemos’? Todos nós? Alguns setores? Quais?
ÂNGELA DE CASTRO GOMES Primeiro, é muito difícil saber o que a pessoa está querendo dizer quando faz um discurso, usando o plural majestático. Muitas vezes, a
pessoa que está falando, sobretudo quando é uma autoridade política, ainda mais o presidente da República, usa o “nós” para dizer “eu”, mesmo. O “nós vamos fazer
isso” quer dizer “eu vou fazer isso”.

Mesmo assim, é claro que mesmo o “eu” singular, no caso de autoridades, é um “eu” de staff [de equipe], pois são discursos escritos por equipes, não exatamente
apenas pela pessoa que está falando. Há sempre um staff de apoio e de propaganda política na formulação.

Agora, realmente, esse “nós temos uma tendência” é “nós” quem? Do ponto de vista de quem está falando, geralmente, é “nós, o povo brasileiro”, essa persona difusa
que está sendo tomada como instância de justificativa do que está sendo dito. Quer dizer, “os brasileiros têm uma tendência”. Então, isso justifica algo que esteja
acontecendo. Neste caso, uma tendência para a centralização política. Há de se dizer, inclusive, que essa suposta tendência à centralização política está sendo avaliada,
nesse caso, de uma maneira muito ambígua. Quando se diz isso sobre 1930 [fim da República Velha], isso tem um sentido. Quando se diz isso sobre o regime militar
[1964-1985], isso tem outro sentido. Essa centralização política aparece, no discurso do presidente Temer, muito ambiguamente qualificada, de uma forma um pouco
positiva, mas certamente ambígua. Não é um elogio à centralização política do regime pós-1964, mas é uma mensagem ambígua.

Como essa suposta tendência pode ser comparada à tendências, por exemplo, de países vizinhos ou países do mesmo porte?
ÂNGELA DE CASTRO GOMES O historiador diz que ninguém tem tendência a nada. Não existe isso. Um país não tem uma tendência, um povo não tem um caráter. Isso
são figuras de discurso político de quem quer geralmente legitimar uma posição e, para isso, diz que “o povo”, “o brasileiro”, “aquele país”, que “aquela sociedade” têm
um caráter e que esse caráter é assim ou é assado, que a “tendência” é essa ou aquela. Com isso, uma determinada posição é qualificada segundo o momento em que
aquilo está sendo dito. Hoje, interessa ao presidente dizer que o país tem tendência centralizadora. Há momentos em que não interessa à autoridade política dizer isso.

No momento da propaganda republicana [1889], o que se dizia era exatamente o inverso: que a centralização [característica da monarquia recém deposta] levava o
país ao atraso e à impossibilidade do progresso, enquanto o federalismo, portanto, a descentralização política, com autonomia dos estados, é que representava a
possibilidade de o país finalmente se desenvolver. A república no Brasil foi uma república federativa porque os atores políticos se aliaram em defesa de um regime
descentralizado, defendendo inclusive que a descentralização deveria ser a marca do que de melhor haveria no país. A centralização era, portanto, um obstáculo. E a
descentralização era a forma de produzir progresso – “progresso” era a palavra chave no momento da proclamação da república.

Mas Temer elogiou o pacto federativo no mesmo discurso.


ÂNGELA DE CASTRO GOMES Daí, a ambiguidade. É no mínimo ambíguo você fazer o elogio da federação e falar da centralização política, pois a centralização está em
tensão com a própria ideia federativa.

É como se o discurso apontasse para um apreço do governo pela descentralização a despeito de uma ‘tendência
centralizadora’ do governado?
ÂNGELA DE CASTRO GOMES Isso numa leitura otimista. Na história, esses discursos políticos aparecem ora elogiando, ora criticando a descentralização, seguindo
exatamente os interesses que estão organizados em torno de determinado interesse. Dessa maneira, o governante faz uma leitura histórica, para trás, na qual, em
determinado momento, interessa dizer que o que marca a nossa história é a centralização política. Poderia ter sido dito, por exemplo, que o que marca a nossa história
política não é a centralização, mas a luta contra a centralização política. Não foi [dito].

Portanto, essas leituras dizem muito mais sobre o momento de agora do que sobre qualquer coisa que tenha acontecido no passado. É preciso ter clareza disso. Não se
pode olhar para o que está sendo dito para conferir se o passado foi de tal ou qual forma. Nós devemos ler esses discursos e nos perguntarmos: “o que essa pessoa quer
ao dizer isso agora?”. Ela não está falando de ontem. Ela está falando de hoje. Hoje interessa dizer que o país tem uma tendência à centralização. Isso não quer dizer
que o país tenha. Muito pelo contrário. Mas quer dizer que hoje interessa dizer isso, pois se trata de um artifício recorrente na história política brasileira.

Qual o interesse de se dizer isso hoje?


ÂNGELA DE CASTRO GOMES O presidente Temer não foi eleito exatamente para ser presidente. E, embora esteja dentro das regras de funcionamento do nosso sistema
atual, ele também não foi eleito para ser vice da maneira como ocorria no passado, pois é preciso diferenciar a situação dele da situação do presidente João Goulart
[1961-1964], por exemplo. Goulart foi eleito vice. Naquela época havia eleição para presidente e eleição para vice-presidente da República. São situações diferentes.

Além disso, o atual governo está fazendo uma série de reformas com impacto e desdobramento muito grandes para o futuro próximo. São transformações muito
profundas, a exemplo da reforma trabalhista. Há alterações muito recentes, por exemplo, feitas por meio de Medidas Provisórias. Essa é uma forma complicada de
implementar políticas do porte dessas grandes reformas.

Ao mesmo tempo, a população percebe a dificuldade de funcionamento dos Poderes da República hoje. Esses Poderes estão longe de terem um funcionamento
harmônico. Os Poderes estão se esbarrando a todo momento. Tomado o modelo clássico de funcionamento republicano, que é de autonomia de Poderes, é possível
dizer que vivemos atualmente uma situação complicada.

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