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DE "CA/l1PONESE._~" A "ATINlll/)OS"

ASPEC1'OS SOCIAIS /)ÁS BARRAGENS /)0 URUGUAI

I"lapia José Reis

Trabalho Apresen"l..;.:.,.dn'lo X111 Er.conLro Anual d;=t ANPOCS


..

DE "CAMPONESES" A "ATINGIDOS" -

ASPECTOS SOCIAIS DAS BARRAGENS DO URUGUAi

Maria José Reis.

Faz parte da história das populações camponesas no

Brasil a resistência, muitas vezes expressa em forma de lutas,

contra a ameaça de expropriação. Resistência contra a dominação

dos "coronéis" ou outros grandes proprietários de terras, con-

tra a grilagem por parte de empresas agro-industriais, resistên

cia contra a subjugação a grandes empresas de capital indus -

trial, comercial e financeiro.

Embora de configuração bastante diferenciada no que

diz respeito às formas de organização, as diferentes categorias

de camponeses envolvidos, bem como a sua temporalidade e eficá-

cia, estas lutas têm em comum uma clara oposição à constante

ameaça de perda da condição camponesa, imposta pela expansão ca

pitalista.
. 2
Conforme Martins , as grandes inquietações no campo

hoje, no BrasiJ, -
sao determinadas peJo processo de expropria-

ção da terra sendo, assim, a questão politica no campo princi -

palmente a,questão da proprie.dade da terra. Uma grande massa

de lavradores, que conta exclusivamente com o trabalho da fami-

lia e que corresponde a mais de 70% das unidades de produção e-

xistentes, ou ocupa a terra sem garantias e direitos assegura -

dos (como ~ o caso dos posseiros), ou tem terra insuficiente

·Professora do Departamento de Ciências Sociais da Universidade


Federal de Santa Catarina.
to

-" 2

para trabalhar em condições dignas (como e o caso 'de um imenso

número de pequenos proprietários do Nordeste, no Sudeste e Sul).

Acrescenta-se a isto um rápido processo de concentraçio da pro-

priedade da terra, de crescente subjugação direta e indireta da

produção agricola pelo capital e de intensa expulsio de traba -

lhadores da terra.

Com maior intensidade a partir dos finais da década

de 70, nova ameaça de expropriaçio se volta em direçio aos cam-

poneses, agora sob a égide do Estado brasileiro. Trata-se da


,
construção de barragens destinadas a contenção
à _
de cheias, irrigaçao ou, de modo especial)à produçio de energia

elétrica, para cujas instalações se faz necessário deslocar com


I

pulsoriamente populações humanas, ~ 5 r e. "," d I "M (Y) rto- c am ponesa s

e tribais, tendo em vista os locais escolhidos para a instala -

ção destas obras se si uarem longe de grandes centros urbanos.

Grzybowski3 , chama a atençio de que é importante

salientar, no caso das barragens, que a expropriação é conduzi-


da por empresas:estatais e que a desapropriaçio das terras ba-

seia-se no principio legal da utilidade pública. Trata-se de

uma expropriaçio feita pelo Estado em nome da sociedade. Embo-

ra com outras roupagens, o processo de expropriação em nome das


4
barragens, conforme o mesmo autor ,solapa igualmente as bases

materiais dos camponeses)ocupantes das áreas destinadas a estas


1'1
obras, que tem,de uma forma ou de outra,reagido a estas inicia-

tivas do Estado.

Conforme, ainda, Grzybowski.5 e possiveJ destacar

três frentes com relação à reaçio camponesa a estes projetos g2

vernamentais. A primeira delas diz respeito às barragens do

Rio são Francisco, onde cumpre destacar as lutas levadas ~mre-


..
3

lação às barragens de Sobradlnho6e Itaparica7 . Uma segunda

frente é representada pelas barragens das bacias dos rios Para-

ná e Uruguai, destacando-se ai os mov rnen to s em reação


í à hidro!:,

létrica de Itaipu8 e às 25 hidroelétricas projetadas para a b~

cia do rio Uruguai 9 . A terceira frente é representada pela rea

ção camponesa à h dr-oe Le t r-í ca de TucuruiO•


í

O presente trabalho visa pensar


-
a reaçao camponesa
.
a

construção das hidroelétricas projetadas para a Bacia do Uru-

guai em relação a duas distintas regiões de Santa Catarina.

1. o PROJETO URUGUAI E A MOBILIZAÇÃO CAMPONESA

A partir de 1976, a Eletrosul (Centrais Elétricas

do Sul do Brasil - Subsidiária da Eletrobrás), inicia uma revi-

são do inventário sobre o potencial hidroelétrico da Região

Sul, realizado durante o periodo de 1966-69 pela Enersul (Comi-

tê de Estudos Energéticos da Região Sul). Esta revisao resulta

na proposta de construção de 22 hidroelétricas na Bacia do Rio

Uruguai (em território nacional) e mais 3 em território argent!

no, em áreas fronteiriças com o território brqsileiro.

E~ta proposta inicial fazia parte do "Plano 2.000"

da Eletrobrás (Plano Nacional de Energia Elétrica - Ministério

das Minas e Energia, 1982), que sofreu reformulações posterio -

res, especialmente quanto ao cronograma de obras, contidas no

atual "Plano 2.010" (Eletrobrás~ 1987). Neste u ltimo plano, os

dados apresentados são referentes apenas às treze primeiras b~r


- 2 - •
ragens, que inundarao 2.)07,~ km , nao havendo calculos sobre a

população a ser atingida • Conforme os dados apresentados no

Plano inicial, com estimativas realizadas em 1977, no entanto,


,
a população a ser removida das areas a serem alagadas, seria
r:
4 I
I

de cerca de 35.900 habitantes, dos quais 5.900 de núcleos urba-


"! 2
nos e 29.300 de área rural.

Todavia, circulam informações extra-oficiais de que


,
tanto os dados sobre as áreas a serem alagadas quanto o numero

da população a ser des10cada foram calculados aquém de seus va-

lores reais pela E1etrosul, havendo, inclusiv~ informação de

que só "no momento", (março/88), estariam fazendo o levantamen-

to sistemático da população a ser atingida pelas duas primeiras

barragens a serem con s t r-u da.s (Itá e


í Campos Novos) .

Ainda em 1979, a noticia da construção destas obras

extrapola os limites da Empresa e desencadeia um movimento de

reação popular na Bacia do Uruguai, através do trabalho de ba-

se desenvolvido pelas lideranças sindicais, Igrejas Católi

cas e de Confissão Luterana. Cria-se, ainda neste anoja CRAB

(Comissão Regional de Atingidos por Barragens) com sede na cida

de gaúcha de Erechim e a partir dai multiplicam-se as Comis-

sões Municipais e Locais, extendendo-se o trabalho mobilizador,

pouco a pouco, e em ritmos diferenciados, por toda a regiao a

ser atingida pelo Projeto Uruguai.

Ao longo de sua trajetoria, este Movimento encami-

nhou suas lutas através de manifestações tais como romarias, a-

tos públicos, abaixo-assinados e rituais de retiradas de mar-

coso

Sucederam-se, também, diferentes pautas de reivindi-

-
caçoes que podem ser caracterizadas como definidoras de momen -

tos pelos quais passou o Movimento. Esta sucessão teve a ver

com a ampliação da organização e do nivel de conscientização

dos atores nele envolvidos, relacionando-se, ainda, a questões

conjunturais.
.•. ,- 5

Enquanto em um primeiro momento busca-se a solução

para a migração forçada, como uma contingência da construção

das barragens, em um segundo rejeita-se totalmente o projeto de

sua construção. Em uma etapa posterior aceita-se o inicio das

negociações em torno do deslocamento em função da construção de

uma destas obras, havendo, no entanto, no momento atual, o re-

crudescimento de uma postura categórica contra a realização des

tes empreendimentos.

Através do universo simbólico construido pelo Movi-

mento constituiu-se um novo sujeito histórico, "o atingido",

uma identidade pOlltica assumida,em sua maioria1Por campone-

ses. Faz parte do discurso estruturante desta identidade ano -

ção de "perdas", entre as quais se destaca a perda da terra e a

consequente impossibilidade de auto-reprodução enquanto campo-


~
nes.

2. DIVERSIDADE SÓCIO-CULTURAL VERSUS HOMOGENEIDADE POLÍTICA

Apesar da identidade de atingido atuar como um

pala aglutinador das forças politjcas da região, o Movimento

tem uma história marcada por diversidades de várias ordens. Es-

ta diversidade, se por um lado o enriquece, servindo como de-

monstração da força de sua penetração, por outro se constitui

em um ponto nevrálgico que pode fragilizá-Jo.

Considerando-se a extensão da area a ser abrangida

pelo Projeto Uruguai, cha~a inicialmente a atenção a diversida-

de das regiões a senem afetadas. Esta diversidade regional do

ponto de v'Ísta geográfiCO implica, também, em uma diversidade

de ocupação histórica, bem como em nuances relativas ~ seus as-


6

pectos sociais. atuais.

No que diz respeito especificamente a Santa Catari-


,
na a area a ser atingida pelas barragens do Uruguai compreende

duas diferentes regiões, a "Região do Oeste Catarinense" e a

dos "Campos de Lages".13 Estas regiões além das diferenças ge~

gráficas que nortearam sua classificação, têm uma história de

ocupaçao - humana diferenciada tanto temporal quanto socialmente,

sendo marcadas, ainda, por diferenças a nivel da constituição

étnica da população. Vale lembrar, de modo especial, que se dis

tinguemJtambém, em relação-à história da organização e luta dos

camponeses que hoje as ocupam.

A "Região do Oeste Catarinense" foi povoada de manei

ra esparsa, à partir do século XVII, tendo sido anteriormente

ocupada por lndios Kaingang, cujos descendentes ocupam hoje as

reservas de Xapecó e Toldo Chimbangue. Contudo, sua ocupaçao -


mais efetiva se dá a partir do século XIX, quer motivada por

problemas de definição de fronteiras, quer de forma quantitati-

vamente mai,s expressiva p-ovoadas devido à construção (1910) da

ferrovia são Paulo/RiO Grande. Surge, a partir dai um movi~ento

de colonização que atrai uma popula~ão de origem alemã e itaJia

na:proveniente de zonas coloniais do Rio Grande do Sul, procu-

rando, especialmente os primeiros, a ocupação dos vales mais

baixos do Uruguai e seus afluentes. Seus descendentes, juntame~

te com outros "colonos", vindos através de migrações internas

esparsas ocorrid~ posteriormente, constituem hoje os camponeses

da Região Oeste de Santa Catarina, aos quais cabe acrescentar

uma população resultante da miscegenação de indios e brancos,

denominada de caboclos ) que ja ocupava a área quando da chega-

da destas últimas levas migratórias.


.
.{'

.' .

. . 7

.st.. (~»'lf0Y'l~s~"" .

Atualment~~ivamJem ordem decrescente, milho, fei

j-ao e sOJa
. .
e crIam f-rangos, ga l' ln h as e sUlnos.
~]4 A partir da

década de 60, há uma crescente instalação' de agroindústrias na


15
regiao, iniciando-se
, ai o "Sistema de Integrado" que hoje

envolve um grande número de camponeses. Por outro lado, na se -

gunda metade da década de 70, instalam-se Cooperativas de prod~

ção e comercialização, viabilizando-se, assim,. através destas

duas inici~tivas, cada vez mais, nesta região, a penetração do

capitalismo no campo.

Há que se registrar, no entanto, que esta penetração

não foi recebida pacificamente pela 'população camponesa da


.
a-

rea. Registra-se toda uma trajetória de lutas camponesas à par-


tir da década de rO, algumas de pequena duração e eficácia rela

tiva, mas que tiveram como ganho substancial promover a organi-

zação dos camponeses e marcar sua presença politica. são lutas

por melhores condições de produção e de comercialização dos pr~

dutos, lutas contra a subordinação do trabalho ao capital. Con-

forme Grzybowski]6 estas lutas t~m como ator~s principais

uma fração do campesinato que mais se modernizou e vive sob a

condição de "j,ntegrados", vinculados a agro-industriais nacio-

nais ou mul tinacionais, seus principais adversários, jun;tamente

com o Estado. Lutas Pir direitos previdenciários;marcadas por

um enfrentamento com o Estado e setores privatizados de saúde.

Destacam-se mais recentemente, e concomitantemente com o Movi -


50
mento das Barragens, as luta pela posse da terra, que vieram a

consti tuir o Movimento dos Sem Terra 17, com ampl a repercussao -
também nesta regiao de Santa Catarina.

Quanto a Região dos Campos de Lages e Curitibanos,

também originalmente ocupado por populações indigenas, hoje sem


8

r-emane aoe n t e s
.
na area, foi "c o Lon â z ad ô'! , a partir do século

XVI, inicialmente por portugueses (açorianos e madeirenses).

No século XVII o comércio de gado) entre são Paulo e Rio Grande

do Sul, fez surgir, no território catarinense, locais de "pou-

50S de tropas". fixando nos "campos de Lagesll moradores respon-

sáveis pela criação da infra-estrutura necessária à longa cami-

nhada dos rebanhos e seus condutores. Inicia-se, também ai. o

aproveitamento das pastagens naturais para a criação de gado bo

vino, que contribuiria para o abastecimento das regioes de mi-

neração. Há que se registrar, ainda, como causa do povoamento

desta região, a exemplo do que ocorreu na Região Oeste Catari -

nense, a construção oa estrada de ferro são Paulo/Rio Grande do

Sul ) causa primordial da "guerra do Contestadoll~~\Jeembora di

fundida em diferentes áreas. teve nos "c ampo s de Lage s" uma

forte eXp'ressão. Mais recentemente, é registrada a presença de

colonos italianos e alemães, provenientes do Rio Grande do Sul,

que adquirem grandes glebas de terra, afim de explorar a madei-

ra, implantando na década de 60, indústrias de fabricação de p~

pel e papelão. Todavia, a Jiteratura histórica e geográfica a-

tual, referente a esta região, dá conta da ocupação da área fa-

zendo referência quase que exclusivamente ao estabelecimento da

população no regime de grandes propriedades. Praticamente nenhu

ma informação de natureza histórica,mais detalhada, foi possi-

vel obter quanto à ocupação de áreas dos IIcampos de Lagesll por

camponeses. cuja presença na regiao, especialmente nos vales

dos afluentes do Uruguai é, no entanto, incontestáveJ. Informa-

ções obtidas junto a estes camponeses, em entrevistas prelimin~

provenientes, em parte, do Rio Grande

do Sul e ate de outras regiões de Santa Catarina. SB"o descen-


s-

dentes de "colonos" de origem europeia (predominantemente ale -


t. ~"'d

mães e italianos)~igração deve ter ocorrido há aproximad~

mente 50 anos. Registra-se, ainda, a pre.sença de camponeses de-

nominados 'na área de "caboclos", descendentes de população por-

tuguesa e paulista miscigenada com a população indigena e que ,

à primeira mão, se supoe sejam originários das "fazendas de ga-

do" onde serviam como "peões".

Afora a criação de gado, principal atividade desen -

volvida nas grandes propriedades e nas áreas antigas fontes de

madeira, hoje ocupadas por reflorestamento, destaca-se, na re-

gião,como produção camponesa, o cultivo de milho, feijão e ar-

roz, bem como a criação de frangos e galinhas, 4vc! r-e p r-e sen t a.,.

no conjunto, 10% da produção agropecuária da região, calculada


~ r(~ td"t-r."
em 59%, send;-r49i relativos à criação de gado bovino.20 Não
,
há ocorrência do "Sistema de Integração", havendo nos munici -

pios onde há maior presença de camponeses, apenas filiais de

Cooperativas, cujas matrizes estão estabelecidas nos municípios

onde há maior número de grandes proprietários.

Foi a região em pauta, como ja dissemos,o palco ceQ

,
co do Contestado (1912-1916). As lutas ai vivenciadas fazem pa~
I
te da memória
I
social especiaJmente da população
,
"cabocla" desta

reglão. Embora não dispondo de pesqu~sa histórica sistematica,

pode-se afirmar, a partir de entrevistas com lideranças locais,

que só agora, na presente década, e retomada a organizaçao, ain


d.€. 7Y'ICtk.

da q~/jnCipiente, dos c arnporie ses desta .o r ea Destacam-se

entre estas lutas o Movimento em relação às barragens do Uru-

guai que "puxaram" a organização de mulheres agricultoras,

bem como uma luta peja conquista dos sindicatos de trabalhado -


10

res rurais considerados "pelegos".

Em relação às lutas camponesas das duas regiões, in-

cluindo entre estas lutas o Movimento das Barragens, ocorreu

a intermediação de diferentes agentes e instituições, entre os

quais cumpre ressaltar a presença das Igrejas Católicas e de

Confissão Luterana e os Sindicatos dos Trabalhadores Rurais.

. . 21
No que diz respeito a atuação da IgreJa que

se destacar que sua presença no campo, nas regioes em tela, ocor

~~V através da atuação dos grupos de reflexão ou CEBs, da Co -

missão Pastoral da Terra;como também do trabalho, muitas vezes


I
isolado e pioneiro, de padres e religiosas.

Na Região do Oeste Catarinense é impossiveJ desconhe

cer o papel central que exerceu o trabalho pastoral da Igreja,

na estimu]açãoe assessoramento das l~tas camponesas,à partir

da segunda metade da década de 70. Este trabal ho tem como ('6 n-

11'"0 a diocese de Chapecó, considerada como a mais "combati-

vali de Santa Catarina, que além de atingir mais de 30 munici-

pios, se irradia por outros municipios da regi~o, tendo a sua

frente a fjp:llrF\
elo bjspo D. José Gomes, presjdente nacional da

CPT desde 1983 e presidente do CIMI de 1979 a ]983.

Vá~ias das lideranças do Movimento das Barragens en-

trevistadas admitem que a problemática do Projeto Uruguai chega

a uma grande parte de camponeses, através de discussões nos gr~

pos de reflexão, passando também a ser uma das lutas centrais

da CPT nesta região.

Quanto à região dos Campos de Lages, onde o Movimen-

to inicia-se posteriormente (1984), a situação em relação à pa~

ticipação da Igreja em sua organização e animação e similar.


,~•...
11

Na reconstrução da história do Movimento das Barra~ens na re -

gião ,crecld"~- ~e a um padre da Igreja Católica, "como urna voz


" 22
ainda soli t ar-La't : , a divulgação do Pr-o j et o Uruguai entre os

camponeses, no inicio da d~cada de 80. Posteriormente, atraves

do trabalho de "educação popular" .desenvolvido pelo "Projeto

Vianei" 23 e a atuação da CPT na regiio e que se inicia a lu-

ta de reação à construção das barragens.

Além do trabalho "pedagógico" da Igreja desenvolvido

através dos grupos de reflexão, no qual as barragens foramcol~

cados em pauta, sua presença torna-se evidente através do simbo

lismo cristão, simbolismo verbal e ritual que reveste muitas

das práticas do·Movimento, bem como, em parte, sua retórica. A


,
titulo de hipótese penso, também,que uma série de aspectos so-

cio-cul turais : pr e s e 1"\ te.s no discurso das "perdas", elaborado

pelo Movimento, decorrentes da migração forçada a que serão sub

metidos os camponeses, se devem ao trabalho molecular desenvol-

vido no interior dos grupos de reflexão. Nestes, a religiosida-

de popular é ressocializada ,como bem coloca Sanchiz 24 ,e o coti-

diano é ap r-op r-I ado e poli tizado através de alegorias b i.b


Lí cas ,

Contribuem assim, para B construçao da jdpntidadp pol{tica to-

talizante de "atingido" que integra no seu discurso estruturan-

te diferentes niveiS da vida social.


,
Cumpre ressaltar, no entanto, que a despeito do im-

portante papel desempenhado pela Igreja no Movimento das Barra-

gens esta atuação não .l!~tti isenta de contradições.

Em primeiro lugar, é impossivel reJativizar sua par-

ticipação, sem que se leve em conta que sua parcela "progressi~

ta" não pode ser vista monoliticamente. Deste modo, por exem-

plo, também a titulo de hipótese, é possível pensar que, no ca-


,~
12

so ~specifico do Movimento das Barragens do Uruguai, a interme-

diação da CPT teve um caráter menos religioso e mais pol1.tico.

A exemplo dos Sindicatos,objetiva assessorar a organizaçao

dos camponeses no encaminhamento de suas lutas sobre a questão

especifica das barragens mas com vistas, também, à constituição

ou ampliação de uma consciência política de classe.

No que tange a atuação dos Sindicatos em relação ao

Movimento das Barragens,é possivel detectar uma variedade de si

tuações. Na Região do Oeste Catarinense os primeitos STRs -


sao

criados à partir da segunda metade da década de 60. Ver1.ssi-

m025} em um dos raros trabalhos que se dedicam a recuperar a

história destes Sindicatos em Santa Catarina, ressalta que, de

certo modo, sua criação foi apressada, roi, ministrado pela

ACARESC, nos finais de 1968, um curso destinado a refletir so-

bre a organização sindical. O intuito era, a seu ver, criá-los

de forma institucionalizada, evitando, assim, que fossem cria-


,
dos por grupos de esquerda ou que se constituissem em ameaça a

estrutura sindical corporativista.

O caráter assistencialista destes Sindicatos é denun


. - 26
ciado por uma liderança da reglao quando afirma que "os di-

rigentes si~dicais eram empregados baratos do FUNRURAL. Os pr~

blemas sociais nao faziam parte de suas preocupações'~

Aspectos conjunturais, tais como a mudança de orien-

tação da Igreja assumindo um caráter socialmente mais combati-

vo, a "peste suina", atribu1.da como manobra do governo para eli

minar parte da produção de )equenos produtores, começam por es-

timu1ar o inicio de uma oposição sindical. Assim é que hoje a

região em pauta conta com o maior número, em Santa Catarina, de

STRs "combati vos" no sentido de uma identificação com as lutas


J' •

•• ,); 'l

~ 13

camponesas. são estes sindicatos que tem servido como mediado-

res do Movimento das Barragens, ocorrendo, algumas vezes, uma

coincidência de lideranças entre ambos, o que acontece, também

em relação a CPT.

No caso especifico da·Região dos Campos de Lages, c~

ja história do Sindica1ismo Rural está ainda por ser escrita,

por volta de 198627, dos doze municipios da diocese de Lages,

em apenas umJo STR e efetivamente combativo e,em outro/está se

organizando nesta direção.

Em entrevistas com lideranças do Movimento das Barra

gens da região, admite-se que foi este um dos movimentos que

"puxou" o sindica1ismo na regiao.

Diante do exposto parece indispensável a qualquer te~

tativa de compreensão do Movimento das Barragens do Uruguai R6D

desconsiderar a importância da identificação do caráter da as -

sessoria prestada por estes mediadores. Necessário se faz inves

tigar as especificidades destas mediações bem como seus pontos

de confluência e de interpenetração.

Por outro lado,para além 'das diversidades apontadas


- ,~e _
para as duas regioes em pauta, ha que registrar a diferenciaçao

interna do campe s na t o+f


í j r-ec or t ada ,ainda) p1!ICl~
diferenças étni-

cas já apontadas. Embora seja majoritária a presença, entre os

camponeses das duas áreas, de pequenos proprietários, há também

entre eles arrendatários, parceiros e posseiros. Em que J medida

uma retórica centrada de modo especial na perda da terra é ca-

paz de sensibilizar a aqueles que não a possuem?

Enfim, frente ao conjunto das diversidades I"rll Jõ ,(~ ~


;:;

das, que. c.C'nrerem uma grande complexidade ao Movimento das Bar-


. ~. 14

ragens do Uruguai, cabe questionar, para que melhor se possa

reconstituir sua trajetória de 10 anos de luta, a eficáciaJjun-

to aos camponeses, do discurso e das práticas encaminhadas pe-

Ias liderançasJno sentido de anular ou minimizar estas diferen-

ças, transformando os camponeses a serem deslocados pelas barr~

gens em uma "comunidade de iguais", apesar de sua heterogenei-

dade real. Trata-se de averiguar o processo interno de consti -

tuição de uma "igualdade" que se no caso dos movimentos so-


29
ciais urbanos, como afirma Durhan ,articula-se pela formação

de carências, no Movimento das Barragens do Uruguai se consti-

tui através de um discurso sobre as "perdas" advindas da contin

gência de migrar.
I
,

15

N O TAS

lEste texto tem caráter preliminar e se constitui na tentativa


da construção de uma problemática de pesquisa. Trata-se da con
tinuação de estudos que vimos realizando em conjunto com um
.grupo de pesquisadores da UFSC à respeito das barragens à se -
rem construidas no rio Uruguai (RS!SC).

2 Martins, 'I U. de Souza, 1980: 11 e 12.

3GrzYbowski, C., 1987:25.

4GrzYbowski, C., idem.

5Grzybowski, C., ibidem.

6Veja-se, entre outros, Sigaud, L.; Martins-Costa, A.L. e Daou,


A.M., 1986 e Duque, G., 1984.

7Veja-se, entre outros, Pandolfi, L., 1986.

BV eJa-se,
. entre outros, Germani, G., 1982.

9Veja-se Sigaud, 1986 e 1988 e Scherer-Warren, I. e Reis, M.J.,


1986 e 1989.
] O VeJê}-<';(- -
Magalhaes, ]988 e Hebette, ]986 e ]988.

11ELETROBRÁS, ]987.

12ELETROSUL, 1979.

l3GAPLAN. Atlas de Santa Catarina. Rio de Janeiro, ]986.

14GAPLAN. Idem.

15Sobre "Sistema de Integrado" do Oeste Catarinense ver, entre


outros, Lenzi et alii, 1981; Pau1i10, M.I.S., 1987 e Campos,
I., 1987.
16

161987, op. cit.:25.

17Sobre os "Sem Terra" de Santa Catarina" ver Lisboa, T.K.,1988.

18Sobre o tema ver, entre outros, Cabral, 1960; Monteiro, 1974;


Queiroz, 1966 e Auras, 1984.

19Arqulvo de dados do grupo de pesquisa sobre barragens do De -


partamento de Ciências Sociais da UFSC, F1o"rianópo1is.

20GAPLAN, op. ·t •
C1

21Refiro-me, a partir daqui, a estas instituições no singular,


uma vez que um dos aspectos da atuação da chamada "Igreja Pro
gressista" na qual se enquadram, é seu caráter ecumênico.

22Entrevista com liderança de Lages.

23Este projeto, desenvolvido pelo Instituto são João Batista


Vianei, localizado em Lages (SC), foi iniciado em 1983, como
experiência voltada para "educação popular". Conta com uma
equipe de profissionais de diferentes areas de conhecimento ,
estando vinculado à Diocese de Lages, abrangendo 8 dos 12 mu-
.
nicipios que a
-
compoem.

24S anc h'1 Z ,')1


P.
n Paiva, 1985.

25verissimo,~1989.

26Cheiro de Terra, 1986.

27Munarim ,A/19 86.


28Sobre diferenciação interna do campesinato, veja-se Sorj, B.,
1980 e Lovisolo, 1~79, entre outros.
I

291984.
.~~----~~~--------~---~----------~-
.'
17

BIBLIOGRAFIA CITADA

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cabocla. Florianópolis, Ed. da UFSC, A~sembléia Legislativa
do Estado de são Paulo: Cortez Ed., 1984.

BRUMER, Anita. "Considerações sobre uma década de lutas sociais


no campo no extremo sul do Brasil (1978-1988). Programa de
Pós-Graduação em Sociologia Rural da UFRGS. Trabalho apresen-
tado no 2Q Encontro Regional PIPSA/SUL realizado em Florianó-
polis, maio/1989. (mimeo.).

CABRAL, Oswaldo Rodrigues. João Maria - interpretação da .campa-


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