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Manual de Tronco Comum

Mundividência
Religiosa Cristã
Código A0026

Universidade Católica de Moçambique (UCM)


Centro de Ensino à Distância (CED)

Sergio.macore@gmail.com - Pemba Página 1


Doutor: Sergio Alfredo Macore

Direitos de autor (copyright)


Este manual é propriedade da Universidade Católica de Moçambique (UCM), Centro de
Ensino à Distância (CED) em Colaboracao com o Pesquisador Doutor Sergio Alfredo Macore
e contêm reservados todos os direitos. É proibida a duplicação e/ou reprodução deste manual,
no seu todo ou em partes, sob quaisquer formas ou por quaisquer meios (electrónicos,
mecânico, gravação, fotocópia ou outros), sem permissão expressa de entidade editora
(Universidade Católica de Moçambique – Centro de Ensino à Distância). O não cumprimento
desta advertência é passível a processos judiciais.

Sérgio Alfredo Macore e Castigo Chicava, MHR


Licenciado em Gestão de Empresas / Finanças e Relações Internacionais e Diplomacia.
Mestrado em Contabilidade e Controlo de Gestão e Gestão Estratégica de Recursos
Humanos.
Doutorando em MBA e Sustentabilidade Social e Desenvolvimento.

Universidade Católica de Moçambique (UCM)


Centro de Ensino à Distância (CED)
Rua Correia de Brito No 613 – Ponta-Gêa
Beira – Sofala

Telefone: 23 32 64 05
Cell: 82 50 18 440
Moçambique

Fax: 23 32 64 06
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Website: www.ucm.ac.mz

Sergio.macore@gmail.com - Pemba Página 1


Doutor: Sergio Alfredo Macore

Agradecimentos
A Universidade Católica de Moçambique (UCM) – Centro de Ensino à Distância (CED) e o
autor do presente manual, António João Emilio, agradecem a colaboração de todos que directa
ou indirectamente participaram na elaboração deste manual. À todos sinceros agradecimentos.

Sergio.macore@gmail.com - Pemba Página 2


Mundividência Religiosa Cristãi

Índice
Visão geral 1

Benvido à Mundividência Religiosa Cristã ...................................................................... 1


Objectivos do curso .......................................................................................................... 1
Quem deveria estudar este módulo ................................................................................... 1
Como está estruturado este módulo .................................................................................. 2
Ícones de actividade .......................................................................................................... 2
Acerca dos ícones .......................................................................................... 3
Habilidades de estudo ....................................................................................................... 3
Precisa de apoio? .............................................................................................................. 3
Tarefas (avaliação e auto-avaliação)................................................................................. 4
Avaliação .......................................................................................................................... 5

Unidade N0 01-A0026 7

Tema: Objecto da disciplina de Mundividência Religiosa Cristã..................................... 7


Introdução ................................................................................................................ 7
Sumário ............................................................................................................................. 8
Exercícios........................................................................................................................ 11

Unidade N0 02-A0026 12

Tema: Mundividência Islámica ...................................................................................... 12


Introdução .............................................................................................................. 12
Sumário ........................................................................................................................... 12
Exercícios........................................................................................................................ 22

Unidade N0 03-A0026 23

Tema: Mundividência budista. ....................................................................................... 23


Introdução .............................................................................................................. 36

i
Mundividência Religiosa Cristãii

Sumário ........................................................................................................................... 23
Exercícios..................................................................... Erro! Marcador não definido.28

Unidade N0 04-A0026 29

Tema: Mundividência Tradicional Africana ................................................................... 29


Introdução .............................................................................................................. 29
Sumário ........................................................................................................................... 29
Exercícios........................................................................................................................ 33

Unidade N0 05-A0026 34

Tema: Mundividência Marxista ...................................................................................... 34


Introdução .............................................................................................................. 34
Sumário ........................................................................................................................... 34
Exercícios........................................................................................................................ 36

Unidade N0 06-A0026 37

Tema: O Cristianismo ..................................................................................................... 37


Introdução .............................................................................................................. 37
Sumário ........................................................................................................................... 37
Exercícios........................................................................................................................ 40

Unidade N0 07-A0026 41

Tema: O Ser Humano - o indivíduo e a pessoa .............................................................. 41


Introdução .............................................................................................................. 41
Sumário ........................................................................................................................... 41
Exercícios........................................................................................................................ 45

Unidade N0 08-A0026 46

Tema: A liberdade e transcendência humana ................................................................. 46


Introdução .............................................................................................................. 46

ii
Mundividência Religiosa Cristãiii

Sumário ........................................................................................................................... 46
Exercícios........................................................................................................................ 49

Unidade N0 09-A0026 50

Tema: Concepções Cosmogónicas antigas ..................................................................... 50


Introdução .............................................................................................................. 50
Sumário ........................................................................................................................... 50
Exercícios........................................................................................................................ 56

Unidade N0 10-A0026 57

Tema: A origem do Universo ......................................................................................... 57


Introdução .............................................................................................................. 57
Sumário ........................................................................................................................... 57
Exercícios........................................................................................................................ 62

Unidade N0 11-A0026 63

Tema: O Fenómeno Humano .......................................................................................... 63


Introdução .............................................................................................................. 63
Sumário ........................................................................................................................... 63
Exercícios........................................................................................................................ 73

Unidade N0 12-A0026 74

Tema: O Mistério Humano ............................................................................................. 74


Introdução .............................................................................................................. 74
Sumário ........................................................................................................................... 74
Exercícios........................................................................................................................ 77

Unidade N0 13-A0026 78

Tema: Fé, Razão e Dogma .............................................................................................. 78


Introdução .............................................................................................................. 78

iii
Mundividência Religiosa Cristãiv

Sumário ........................................................................................................................... 78
Exercícios........................................................................................................................ 82

Unidade N0 14-A0026 83

Tema: A separação entre Religião e Ciência .................................................................. 83


Introdução .............................................................................................................. 83
Sumário ........................................................................................................................... 83
Exercícios........................................................................................................................ 87

Unidade N0 15-A0026 88

Tema: O Mistério de Deus .............................................................................................. 88


Introdução .............................................................................................................. 88
Sumário ........................................................................................................................... 88
Exercícios........................................................................................................................ 90

Unidade N0 16-A0026 91

Tema: As três virtudes teologais - Fé, Esperança e Caridade ......................................... 91


Introdução .............................................................................................................. 91
Sumário ........................................................................................................................... 91
Exercícios........................................................................................................................ 92

Unidade N0 17-A0026 93

Tema: O Mistério da Igreja ............................................................................................. 93


Introdução .............................................................................................................. 93
Sumário ........................................................................................................................... 93
Exercícios........................................................................................................................ 96

Unidade N0 18-A0026 97

Tema: O Mistério do Novo Céu e Nova Terra ............................................................... 97


Introdução .............................................................................................................. 97

iv
Mundividência Religiosa Cristãv

Sumário ........................................................................................................................... 97
Exercícios...................................................................................................................... 100

Unidade N0 19-A0026 101

Tema: Ética Filosófica .................................................................................................. 101


Introdução ............................................................................................................ 101
Sumário ......................................................................................................................... 101
Exercícios...................................................................................................................... 103

Unidade N0 20-A0026 104

Tema: Ética Religiosa ................................................................................................... 104


Introdução ............................................................................................................ 104
Sumário ......................................................................................................................... 104
Exercícios...................................................................................................................... 106

Unidade N0 21-A0026 107

Tema: O Comportamento Moral - o bem e o mal......................................................... 107


Introdução ............................................................................................................ 107
Sumário ......................................................................................................................... 107
Exercícios...................................................................................................................... 110

Unidade N0 22-A0026 111

Tema: Ética Cristã ........................................................................................................ 111


Introdução ............................................................................................................ 111
Sumário ......................................................................................................................... 111
Exercícios...................................................................................................................... 117

Unidade N0 23-A0026 118

Tema: Bases Bíblicas da Ética Cristã ........................................................................... 118


Introdução ............................................................................................................ 118

v
Mundividência Religiosa Cristãvi

Sumário ......................................................................................................................... 118


Exercícios...................................................................................................................... 121

Unidade N0 24-A0026 122

Tema: Bases Bíblicas da Ética Cristã ........................................................................... 122


Introdução ............................................................................................................ 122
Sumário ......................................................................................................................... 122
Exercícios...................................................................................................................... 124

vi
Mundividência Religiosa Cristã1

Visão geral
Benvindo à Mundividência
religiosa Cristã

Objectivos do curso

Quando terminar o estudo da Mundividência Religiosa Cristã, o


estudante deve ser capaz de:
.
 Saber responder às perguntas essencias sobre o Homem, o Mundo e
por Deus;
 Promover o conhecimento e o encontro com o conteúdo da fé cristã,
segundo as finalidades e os métodos próprios da universidade e,
portanto, como facto de cultura;
 Orientar a cultura humana para a realização da pessoa, possibilitando
que o conhecimento, o mundo, a vida e a Humanidade sejam
iluminados pela proposta cristã assente na fé em Cristo.

Quem deveria estudar este


módulo
Este módulo foi concebido para todos aqueles que frequentam os
cursos à distância, oferecidos pela Universidade Católica de
Moçambique (UCM), através do seu Centro de Ensino à
Distância (CED).

1
Mundividência Religiosa Cristã2

Como está estruturado este


módulo
Todos os módulos dos cursos produzidos por UCM - CED
encontram-se estruturados da seguinte maneira:

Páginas introdutórias
 Um índice completo.
 Uma visão geral detalhada do curso / módulo, resumindo os
aspectos-chave que você precisa conhecer para completar o estudo.
Recomendamos vivamente que leia esta secção com atenção antes de
começar o seu estudo.

Conteúdo do curso / módulo


O curso está estruturado em unidades. Cada unidade incluirá uma
introdução, objectivos da unidade, conteúdo da unidade
incluindo actividades de aprendizagem, um resumo da unidade
e uma ou mais actividades para auto-avaliação.

Outros recursos
Para quem esteja interessado em aprender mais, apresentamos
uma lista de recursos adicionais para você explorar. Estes
recursos podem incluir livros, artigos ou sites na internet.

Tarefas de avaliação e/ou Auto-avaliação


Tarefas de avaliação para este módulo encontram-seno final de
cada unidade. Sempre que necessário, dão-se folhas individuais
para desenvolver as tarefas, assim como instruções para as
completar. Estes elementos encontram-se no final do módulo.

Comentários e sugestões
Esta é a sua oportunidade para nos dar sugestões e fazer
comentários sobre a estrutura e o conteúdo do curso / módulo. Os
seus comentários serão úteis para nos ajudar a avaliar e melhorar
este curso / módulo.

Ícones de actividade
Ao longo deste manual irá encontrar uma série de ícones nas
margens das folhas. Estes icones servem para identificar
diferentes partes do processo de aprendizagem. Podem indicar
uma parcela específica de texto, uma nova actividade ou tarefa,
uma mudança de actividade, etc.

2
Mundividência Religiosa Cristã3

Acerca dos ícones


Os icones usados neste manual são símbolos africanos,
conhecidos por adrinka. Estes símbolos têm origem no povo
Ashante de África Ocidental, datam do século XVII e ainda se
usam hoje em dia.
Pode ver o conjunto completo de ícones deste manual já a seguir,
cada um com uma descrição do seu significado e da forma como
nós interpretámos esse significado para representar as várias
actividades ao longo deste módulo.

Habilidades de estudo
Caro estudante, procure olhar para você em três dimensões
nomeadamente: o lado social, profissional e estudante, daí ser
importante planificar muito bem o seu tempo.
Procure reservar no mínimo 2 (duas) horas de estudo por dia e
use ao máximo o tempo disponível nos finais de semana.
Lembre-se que é necessário elaborar um plano de estudo
individual, que inclui, a data, o dia, a hora, o que estudar, como
estudar e com quem estudar (sozinho, com colegas, outros).
Evite o estudo baseado em memorização, pois é cansativo e não
produz bons resultados, use métodos mais activos, procure
desenvolver suas competências mediante a resolução de
problemas específicos, estudos de caso, reflexão, etc.
O manual contém muita informação, algumas chaves, outras
complementares, daí ser importante saber filtrar e apresentar a
informação mais relevante. Use estas informações para a
resolução das exercícios, problemas e desenvolvimento de
actividades. A tomada de notas desempenha um papel muito
importante.
Um aspecto importante a ter em conta é a elaboração de um
plano de desenvolvimento pessoal (PDP), onde você reflecte
sobre os seus pontos fracos e fortes e perspectivas o seu
desenvolvimento.
Lembre-se que o teu sucesso depende da sua entrega, você é o
responsável pela sua própria aprendizagem e cabe a ti planificar,
organizar, gerir, controlar e avaliar o seu próprio progresso.

Precisa de apoio?
Caro estudante, temos a certeza de que por uma ou por outra
situação, o material impresso, lhe pode suscitar alguma dúvida
(falta de clareza, alguns erros de natureza frásica, prováveis erros
ortográficos, falta de clareza conteudística, etc). Nestes casos,
contacte o tutor, via telefone, escreva uma carta participando a
situação e se estiver próximo do tutor, contacte-o pessoalmente.

3
Mundividência Religiosa Cristã4

Os tutores têm por obrigação, monitorar a sua aprendizagem, dai


o estudante ter a oportunidade de interagir objectivamente com o
tutor, usando para o efeito os mecanismos apresentados acima.
Todos os tutores têm por obrigação facilitar a interação, em caso
de problemas específicos ele deve ser o primeiro a ser
contactado, numa fase posterior contacte o coordenador do curso
e se o problema for da natureza geral, contacte a direcção do
CED, pelo número 825018440.
Os contactos só se podem efectuar, nos dias úteis e nas horas
normais de expediente.
As sessões presenciais são um momento em que você caro
estudante, tem a oportunidade de interagir com todo o staff do
CED, neste período pode apresentar dúvidas, tratar questões
administrativas, entre outras.
O estudo em grupo, com os colegas é uma forma a ter em conta,
busque apoio com os colegas, discutam juntos, apoiem-me
mutuamnte, reflictam sobre estratégias de superação, mas
produza de forma independente o seu próprio saber e desenvolva
suas competências.
Juntos na Educação à Distância, vencedo a distância.

Tarefas (avaliação e auto-


avaliação)
O estudante deve realizar todas as tarefas (exercícios, actividades
e auto-avaliação), contudo nem todas deverão ser entregues, mas
é importante que sejam realizadas.As tarefas devem ser entregues
antes do período presencial.
Para cada tarefa serão estabelecidos prazos de entrega, e o não
cumprimento dos prazos de entrega , implica a não classificação
do estudante.
os trabalhos devem ser entregues ao CED e os mesmos devem ser
dirigidos ao tutor/docentes.
Podem ser utilizadas diferentes fontes e materiais de pesquisa,
contudo os mesmos devem ser devidamente referenciados,
respeitando os direitos do autor.
O plagiarismo deve ser evitado, a transcrição fiel de mais de 8
(oito) palavras de um autor, sem o citar é considerado plágio. A
honestidade, humildade cintífica e o respeito pelos direitos
autorais devem marcar a realização dos trabalhos.

4
Mundividência Religiosa Cristã5

Avaliação
Vocé será avaliado durante o estudo independente (80% do
curso) e o período presencial (20%). A avaliação do estudante é
regulamentada com base no chamado regulamento de avaliação.
Os trabalhos de campo por si desenvolvidos , durante o estudo
individual, concorrem para os 25% do cálculo da média de
frequência da cadeira.
Os testes são realizados durante as sessões presenciais e
concorrem para os 75% do cálculo da média de frequência da
cadeira.
Os exames são realizados no final da cadeira e durante as sessões
presenciais, eles representam 60% , o que adicionado aos 40% da
média de frequência, determinam a nota final com a qual o
estudante conclui a cadeira.
A nota de 10 (dez) valores é a nota mínima de: (a) admissão ao
exame, (b) nota de exame e, (c) conclusão do módulo.
Nesta cadeira o estudante deverá realizar: 3 (três) trabalhos; 2
(dois) testes escritos e 1 (um) exame escrito.
Não estão previstas quaisquer avaliação oral.
Algumas actividades práticas, relatórios e reflexões serão
utilizadas como ferramentas de avaliação formativa.
Durante a realização das avaliações , os estudantes devem ter em
consideração: a apresentação; a coerência textual; o grau de
cientificidade; a forma de conclusão dos assuntos, as
recomendações, a indicação das referências utilizadas, o respeito
pelos direitos do autor, entre outros.
Os objectivos e critérios de avaliação estão indicados no manual.
Consulte-os.
Alguns feedbacks imediatos estão apresentados no manual.

5
Mundividência Religiosa Cristã7

Unidade N0 01-A0026
Tema: objecto da disciplina da
mundividência Religiosa Cristã

Introdução

A perspectiva cristã do homem, do mundo e de Deus, constitui


objecto essencial da reflexão da Mundividência Religiosa Cristã,
não obstante a referência a outras mundividências, tais como: a
islámica, a tradicional africana, a budista e a marxista. Trata-se
de procurar, estudando estas mundividências, que o estudante
esteja dotado de bases que o ajudem a pensar e a agir com
liberdade e responsabilidade, tendo em conta a sua natureza
humana e divina e o seu fim último.
Mergulhamo-nos na crença dos povos para compreendermos o
comportamento humano na sua relação com o outro, com o
mundo e com Deus. Trata-se de um estudo necessário numa
sociedade mergulhada por uma muúltipla visão religiosa, política
e cultural do homem. Esta reflexão poderá facilitar a nossa
relação com os outros, o mundo e com Deus, na medida em que
podermos compreender as diversas manifestações humanas e,
sobretudo, sua visão de Deus e do mundo. Por isso, procuramos
trazer algumas das grandes religões, reflectindo sobre o ser
humano como pessoa e também a origem do universo. O
Homem, o Mundo e Deus constituem para nós realidades
necessárias de reflexão para a dignificação da rnatureza humana.

Ao completar esta unidade, você será capaz de:

 Conceituar a mundividência religiosa cristã

Objectivos  Explicar o objecto de estudo da mundividência religiosa cristã


 Ralacionar os objectivos da mundividência religiosa cristã

7
Mundividência Religiosa Cristã8

Sumário

A actualidade e o factor educativo


Encontrando-nos num tempo de globalização, de pluralismo
político, cultural e ideológico, assistimos a um agudizar do
“individualismo” acompanhado de fortes tendências
secularizadoras e materialistas. Tendo em conta este contexto, a
escola tornou-se um espaço de exigências acrescidas para
princípios relacionados com a necessidade da educação de forma
a contribuir para a realização do educando, através do pleno
desenvolvimento da personalidade, da formação do carácter e da
personalidade, preparando o estudante para uma reflexão
consciente sobre os valores espirituais, estéticos, morais e cívicos
e proporcionando-lhe um equilibrado desenvolvimento físico.
Falar em educação é, assim, abordar a questão dos valores, é
reflectir sobre valores ético-morais e sobre a sua hierarquização.
Nesta linha, as perguntas: para quê educar? E para quê ensinar
valores? Podem fundir-se numa só, pois têm a ver com as
grandes finalidades da educação (finalidade axiológica). A
educação como é para os valores implica, por isso, a ausência de
fundamentalismos e exige a humildade séria da reflexão, do
diálogo, da cooperação e da honestidade. Estas exigências
aplicam-se à educação e a todos os intervenientes nesse processo.
O ensino religioso tem como objetivo principal “suscitar e
favorecer a harmonia pessoal”, ajudando “a formar pessoas
felizes e realizadas” e a reconhecerem a “componente religiosa,
como factor insubstituível para o seu crescimento em
humanidade e em liberdade”, apresentando igualmente “a
mensagem e o acontecimento cristão”.

A necessidade do ensino religioso


A presença do Ensino Religioso nas universidades católicas
assim como nas estatais, não é, por isso, uma proposta educativa
ambígua, nem neutra, pois não pode ser possível um processo
educativo sem referências, sem programa e sem valores. Ao
contrário de outras propostas “perdidas” num emaranhado de
ideologias, aos valores. O ensino da mundividencia religiosa
assenta na visão cristã da pessoa, da família e da sociedade que se
abre à universalidade e na Pessoa de Jesus Cristo (vida, exemplo,
ensinamentos) como alicerces para a sua proposta educativa. A
escola do nosso tempo tem por tarefa primordial a formação da
pessoa na sua totalidade e a plena maturidade das suas
potencialidades. Assim, a sua proposta educativa, para ser
consistente, precisa de um enraizamento numa tradição de
valores que lhe confira identidade e programa. A formação das
pessoas, a começar pelas crianças, não se faz no vazio; precisa de
promover todos os valores autênticos e perenes da humanidade e

8
Mundividência Religiosa Cristã9

da civilização, onde naturalmente se integra a própria tradição


cristã, portadora de uma mundividência própria que aponta um
caminho preciso de realização humana numa constante abertura à
Transcendência..

Assim, o ensino da mundividência religiosa dá um contributo


específico para qualidade da educação que não se limita à
dimensão institucional, mas atende ao desenvolvimento global e
integral da pessoa e à multiplicidade de todas as suas dimensões
constitutivas. Assume princípios fundamentais, tais como: a
dignidade da pessoa humana, o carácter sagrado da vida, a
fraternidade universal, a convivência pacífica, o serviço ao bem
comum. Promove a qualidade da relação pedagógica, a
capacidade de ir mais longe, ultrapassar a perspectiva superficial
e epidérmica das coisas para a profundidade e interioridade das
coisas e da vida.

Descobrir os Sinais dos tempos

O ensino religioso propõe grelhas de leitura dos “sinais dos


tempos”, ou seja, “instrumentos” que permitem aos alunos olhar
para as mudanças que ocorrem no Mundo de hoje, procurando
compreender as razões, as causas e as origens destas mesmas
transformações. Apresenta uma visão crítica desta sociedade
(visão profética), ajudando os alunos a fazerem uma leitura
correcta desta e facilitando a sua inserção responsável no meio
social.

O que é principal é, então, definir bem os valores e os objectivos


(pedagógicos e humanistas) sobre os quais desejamos construir a
nossa escola, não de uma forma abstracta num universo
intemporal e desencarnado, mas na sociedade pluralista e
multicultural de hoje, onde muitos jovens andam em busca de
sentido. O ensino religioso pretende propor a todos esses um
sentido, um caminho. Não pode deixar de fazê-lo. Se o não fizer
nega a razão da sua existência e a fonte da sua autenticidade.

O ensino religioso deve ter, como afirma João Paulo II, “um
objectivo comum: promover o conhecimento e o encontro com o
conteúdo da fé cristã, segundo as finalidades e os métodos
próprios da escola e, portanto, como facto de cultura. Esse ensino
deverá fazer conhecer de maneira documentada e com espírito
aberto ao diálogo, o património objetivo do Cristianismo,
segundo a interpretação autêntica e integral que lhe é dada pela
Igreja Católica, de modo a garantir quer o carácter científico do
processo didático próprio da escola, quer o respeito pelas
consciências dos alunos” (15 de Abril de 1991).
Assim, pode então dizer-se que o ensino religioso promove a
criação de um espaço escolar que tem por base a pessoa, é

9
Mundividência Religiosa Cristã10

fundada nas relações, baseada na esperança e no serviço aos


outros e na solidariedade. Coloca o cuidado antes da eficiência,
as pessoas antes dos recursos, os outros antes do eu e a
compaixão antes do desempenho. Estes termos não devem ser
vistos como alternativas, mas trata-se de sublinhar o que é
prioritário, sem a intenção de subestimar os outros.
Trata-se, portanto, de um contributo para fazer da escola uma
verdadeira comunidade e de ajudar os jovens a desenvolverem a
sua personalidade de forma global e harmoniosa. Nesta sua
tarefa, serve-lhe de itinerário e ponto de referência a experiência
do Povo da Aliança, chamado por Deus a encontrar a “salvação”
na experiência da comunhão com Deus e com os outros homens
reconhecidos como irmãos. O ensino religioso procura orientar a
cultura humana para a realização da pessoa, possibilitando que o
conhecimento, o mundo, a vida e a Humanidade sejam
iluminados pela proposta cristã assente na fé em Cristo. E a fé é
uma força profundamente personalizante, onde cada homem se
descobre como pessoa. Assim, se educar foi sempre a arte mais
nobre, “educar integralmente é o ideal mais ambicioso, já que
procura obter a mais bela das maravilhas: uma pessoa humana
bem formada” (CEP, 2002).
A escola cristã como espaço de promoção de relações
humanas
Portanto, em educação não está em causa a produção de objetos,
em educação existe um sentido mais profundo que guia e orienta
os esforços educativos: a formação integral da pessoa do aluno.
Uma educação (uma escola) que quer realizar esta formação terá
necessariamente por base a pessoa, fundar-se-á em relações,
orientar-se-á pelo futuro da esperança e será alicerçada nos
princípios da responsabilização e cooperação.
Neste âmbito, o ensino religioso assume claramente uma
perspectiva educativa Personalizadora, ou seja, centra-se na
pessoa do aluno, contribui para que ele seja mais pessoa. Procura,
na limitação das suas possibilidades, responder de forma pessoal
aos ideais de cada aluno. Alimentar o sonho sem desfalecer.
Deixar crescer o sonho de cada aluno de modo a que, de repente,
este possa sentir que ele existe sem sonhar! Que é tempo de lutar
e de procurar a felicidade. Que é tempo de perceber a fragilidade
da vida, que nasce de um sopro, de um desejo, e sentir a sua
grandeza que lhe advém da força de querer não parar de viver. É
ousar viver sem se limitar a repetir de forma estéril caminhos já
traçados. Este é o desafio! Ensinar a sonhar. Ensinar a desfrutar o
prazer do Saber e da Sabedoria. Erguer as mãos e ter o céu como
horizonte. Ser pessoa a tempo inteiro. Assim, poderá um projecto
educativo de uma escola moderna, laica, aberta, estatal alhear-se
do contributo que o ensino religioso pode dar para esse
“desenvolvimento global” da personalidade dos jovens?
Achamos que não, sob pena de a própria escola não atingir os
objetivos e as finalidades que justificam a sua existência.

10
Mundividência Religiosa Cristã11

Exercícios

1 – Por que é que a mundividência é importante na formação do


docente?
Resposta: Porque promove o conhecimento e o encontro com o
Auto-avaliação conteúdo da fé cristã e procura orientar a cultura humana para a
realização da pessoa, possibilitando que o conhecimento, o
mundo, a vida e a Humanidade sejam iluminados pela proposta
cristã assente na fé em Cristo.

11
Mundividência Religiosa Cristã12

Unidade N0 02-A0026
Tema: Mudividência Islámica
Introdução

A religião é das manifestacoes existentes no ser humnano desde a


sua aparição deste sobre a terra. A interrogação sobre si, sobre o
mundo e sobre a vida depois da morte caracterizou a existência
humana e fizeram dele um ser em continua busca de respostas
que aliviem os dessabores que tornam a sua vida infeliz. A
procura de sentido da existência também se reveste no campo
religioso. Para além das crenças cristãs vamos nos interar do
Islamismo.

Ao completar esta unidade, você será capaz de:

• Explicar as doutrinas da Mundividência Islámica;


• Reflectir sobre as escrituras sagradas do Islão;
Objectivos .• Saber lidar-se com as pessoas de várias culturas.

Sumário
O Islão, sua Origem

O Islão ou Islã é uma religião monoteísta que surgiu na Península


Arábica no século VII, baseada nos ensinamentos religiosos do profeta
Maomé (Muhammad) e numa escritura sagrada, o Alcorão. A religião é
conhecida ainda por islamismo. Na visão muçulmana, o Islão surgiu
desde a criação do homem, ou seja, desde Adão, sendo este o primeiro
profeta dentre inúmeros outros, para diversos povos, sendo o último deles
Maomé. (Site: O Profeta Adão, em Inglês, Islam.com. Página visitada em
31 de julho de 2008).

Cerca de duzentos anos após Maomé, o Islão já se tinha difundido em


todo o Médio Oriente, no Norte de África e na península Ibérica, bem
como na direcção da antiga Pérsia e Índia. Mais tarde, o Islão atingiu a

12
Mundividência Religiosa Cristã13

Anatólia, os Balcãs e a África subsaariana. Recentes movimentos


migratórios de populações muçulmanas no sentido da Europa e do
continente americano levaram ao aparecimento de comunidades
muçulmanas nestes territórios. (Site: Expansão do Islã (em pps)
comibam.org. Página visitada em 31 de julho de 2008).

A mensagem do Islão caracteriza-se pela sua simplicidade: para atingir a


salvação basta acreditar num único Deus, rezar cinco vezes por dia,
submeter-se ao jejum anual no mês do Ramadão, pagar dádivas rituais e
efectuar, se possível, uma peregrinação à cidade de Meca. Islão é visto
pelos seus aderentes como um modo de vida que inclui instruções que se
relacionam com todos os aspectos da actividade humana, sejam eles
políticos, sociais, financeiros, legais, militares ou interpessoais. A
distinção ocidental entre o espiritual e temporal é, em teoria, alheia ao
Islão (Mircea Eliade, Dicionário das Religiões, Lisboa, Publicações D.
Quixote).

Etimologia.

Islão provém do árabe Islām, que por sua vez deriva da quarta forma
verbal da raiz slm, aslama, e significa "submissão (a Deus)". Segundo o
arabista e filólogo José Pedro Machado a palavra "Islão" não teria surgido
na língua portuguesa antes de 1843, ano em que aparece no capítulo IX
da obra Eurico, o Presbítero de Alexandre Herculano (MACHADO:
1977:810 ).

Muçulmano, por sua vez, deriva da palavra árabe muslim (plural,


muslimún), particípio activo do verbo aslama, designando "aquele que se
submete". O vocábulo pode ter penetrado no português a partir do
castelhano, sendo provável que esta língua o tenha tomado do italiano ou
do francês, línguas nas quais o vocábulo surge em 1619 e 1657,
respectivamente (no primeiro caso como mossulmani na obra Viaggi de
Pietro della Valle e no segundo como mousulmans na obra Voyages de Le
Gouz de la Boullaye). (MACHADO:1977:176).

Em textos mais antigos, os muçulmanos eram conhecidos como


"maometanos", este termo tem vindo a cair em desuso porque implica,
incorrectamente, que os muçulmanos adoram Maomé (como, durante
alguns séculos, por completo desconhecimento, o Ocidente pensou), o
que torna o termo ofensivo para muitos muçulmanos. Durante a Idade
Média e, por extensão, nas lendas e narrativas populares cristãs, os
muçulmanos eram também designados como sarracenos e também por
mouros (embora este último termo designasse mais concretamente os
muçulmanos naturais do Magrebe que se encontravam na Península
Ibérica).

A Fé Islâmica:
O Islão ensina Seis Crenças Principais:

 A crença em Alá (Allah), único Deus existente;


 A crença nos Anjos, seres criados por Alá;
 A crença nos Livros Sagrados, entre os quais se encontram a Torá, os
Salmos e o Evangelho. O Alcorão é o principal e mais completo livro

13
Mundividência Religiosa Cristã14

sagrado, constituindo a colectânea dos ensinamentos revelados por Alá ao


profeta Maomé;
 A crença em vários profetas enviados à humanidade, dos quais Maomé é
o último;
 A crença no dia do Julgamento Final, no qual as acções de cada pessoa
serão avaliadas;
 A crença na predestinação: Alá tudo sabe e possui o poder de decidir
sobre o que acontece a cada pessoa.

Deus (Alá “Allah”) em árabe.

A pedra basilar da fé islâmica é a crença estrita no monoteísmo. Deus é


considerado único e sem igual. Cada capítulo do Alcorão (com a
excepção de um) começa com a frase "Em nome de Deus, o beneficente,
o misericordioso". Uma das passagens do Alcorão frequentemente usadas
para ilustrar os atributos de Deus é a que se encontra no capítulo (sura)
59: "Ele é Deus e não há outro deus senão Ele, Que conhece o invisível e
o visível. Ele é o Clemente, o Misericordioso! Ele é Deus e não há outro
deus senão ele. Ele é o Soberano, o Santo, a Paz, o Fiel, o Vigilante, o
Poderoso, o Forte, o Grande! Que Deus seja louvado acima dos que os
homens Lhe associam! Ele é Deus, o Criador, o Inovador, o Formador!
Para ele os epítetos mais belos" (59, 22-24). Este Deus possui noventa e
nove atributos.

Os anjos

Os anjos são, segundo o Islão, seres criados por Alá a partir da luz. Não
possuem livre arbítrio, dedicando-se apenas a obedecer a Deus e a louvar
o seu nome. Maomé nada disse sobre o sexo dos anjos, mas rejeitou a
crença dos habitantes de Meca de acordo com a qual estes seriam as
filhas de Deus (SCHIMMEL: 1992:83). Desempenham vários papéis,
entre os quais o anúncio da revelação divina aos profetas e protegem os
seres humanos e registram todas as suas acções. O anjo mais famoso é
Gabriel, que foi o intermediário entre Deus e o profeta. Para além dos
anjos, o islamismo reconhece a existência dos “jinnis”, espíritos que
habitam o mundo natural e que podem influenciar os acontecimentos. Ao
contrário dos anjos, os “jinnis” possuem vontade própria; alguns são
bons, mas de uma forma geral são maus. Um desses espíritos maus é Iblis
(Satanás), também ele um jinn, segundo a crença islâmica, que
desobedeceu a Deus e dedica-se a praticar o mal.

Os livros Sagrados

Os muçulmanos acreditam que Deus usou profetas para revelar escrituras


aos homens. A revelação dada a Moisés foi a Taura (Torá), a Davi foram
dados os Salmos e a Jesus, o Evangelho. Deus foi revelando a sua
mensagem em escrituras cada vez mais abrangentes que culminaram com
o Alcorão, o derradeiro livro revelado a Muhammad.

Os Profetas

O islamismo ensina que Deus revelou a sua vontade à humanidade


através de profetas. Existem dois tipos de profeta: os que receberam de

14
Mundividência Religiosa Cristã15

Deus a missão de dar a conhecer aos homens a vontade divina (anbiya;


singular nabi) e os que para além desta função lhes foi entregue uma
escritura revelada (rusul; singular rasul, "mensageiro")Cada profeta foi
encarregado de relembrar a uma comunidade a existência ou a unicidade
de Deus, esquecida pelos homens. Para os muçulmanos a lista dos
profetas inclui Adão, Abraão (Ibrahim), Moisés (Musa), Jesus (Isa) e
Maomé (Muhammad), todos eles pertencentes a uma sucessão de homens
guiados por Deus. Maomé é visto como o 'Último Mensageiro', trazendo
a mensagem final de Deus a toda a humanidade sob a forma do Alcorão,
sendo por isso designado como o "Selo dos Profetas". Quando Maomé
começou a revelar o Alcorão, ele não acreditou que isto teria proporções
mundiais, mas sim que somente reforçaria a fé no Deus. Estes profetas
eram humanos mortais comuns; o Islão exige que o crente aceite todos os
profetas, não fazendo distinção entre eles. No Alcorão é feita menção a
vinte e cinco profetas específicos. Os muçulmanos acreditam que Maomé
foi um homem leal, como todos os profetas, e que os profetas são
incapazes de acções erradas (ou mesmo testemunhar acções erradas sem
falar contra elas), por vontade de Alá.

O dia do Julgamento Final

Segundo as crenças islâmicas, o dia do Julgamento Final (Yaum al-


Qiyamah) é o momento em que cada ser humano será ressuscitado e
julgado na presença de Deus pelas acções que praticou. Os seres humanos
livres de pecado serão enviados directamente para o Paraíso, enquanto
que os pecadores devem permanecer algum tempo no Inferno antes de
poderem também entrar no Paraíso. As únicas pessoas que permanecerão
para sempre no Inferno são os hipócritas religiosos, isto é, aqueles que se
diziam muçulmanos mas de facto nunca o foram. Segundo a mesma
crença, a chegada do Julgamento Final será antecedida por vários sinais,
como o nascimento do sol no poente, o som de uma trombeta e o
aparecimento de uma besta. De acordo com o Alcorão o mundo não
acabará verdadeiramente, mas sofrerá antes uma alteração profunda.

A predestinação

Os muçulmanos acreditam no qadar, uma palavra geralmente traduzida


como "predestinação", mas cujo sentido mais preciso é "medir" ou
"decidir quantidade ou qualidade". Uma vez que, para o islamismo, Deus
foi o criador de tudo, incluindo dos seres humanos, e sendo uma das suas
características a omnisciência, ele já sabia quando procedeu à criação as
características que cada elemento da sua obra teria. Assim sendo, cada
coisa que acontece a uma pessoa foi determinada por Deus. Esta crença
não implica a rejeição do livre arbítrio, pois o ser humano foi criado por
Deus com a faculdade da razão, pelo que pode escolher entre praticar
acções positivas ou negativas.

Os cinco pilares do Islão

Os cinco pilares do Islão são cinco deveres básicos de cada muçulmano:

A recitação e aceitação do credo (Chahada ou Shahada);

15
Mundividência Religiosa Cristã16

Orar cinco vezes ao longo do dia (Salá,Salat ou Salah);

Pagar esmola (Zakat ou Zakah);

Observar o jejum no Ramadão (Saum ou Siyam)

Fazer a peregrinação a Meca (Haj) se tiver condições físicas e


financeiras.

Os muçulmanos xiitas consideram ainda três práticas como essenciais à


religião islâmica; além da jihad, que também é importante para os
sunitas, há o Amr-Bil-Ma'rūf, "Exortar o Bem", que convoca todos os
muçulmanos a viver uma vida virtuosa e encorajar os outros a fazer o
mesmo, e o Nahi-Anil-Munkar, "Probir o Mal", que orienta os
muçulmanos a se abster do vício e das más ações, e também encorajar os
outros a fazer o mesmo. . Alguns grupos kharijitas existentes na Idade
Média consideravam a jihad como o "sexto pilar do Islão". (MOMEN:
1987:180)

Profissão de Fé (Chaada)

A profissão de fé consiste numa frase - que deve ser dita com a máxima
sinceridade - através da qual cada muçulmano atesta que "não há outro
deus senão Alá e Maomé é seu servo e mensageiro" . De acordo com a
maioria das escolas islâmicas, para se converter ao Islão é necessário
proclamar três vezes a chahada "testemunho" perante duas testemunhas:
Achadu ala ilaha ila Allah. Achadu ana Mohammad Rassululah
("Testemunho que não há outra divindade senão Deus. Testemunho que
Maomé é seu profeta mensageiro").

Salat ( A Oração)

A oração no Islão (conhecida como Salá) é composta por 5 partes, todas


espalhadas durante o dia e a noite iniciando pela alvorada até à noite.
Considerada o ponto mais próximo que pode-se chegar de Deus. No Islão
não há obrigatoriamente hierarquia entre os adeptos, porém a
comunidade, conhecida como ummah escolhe uma pessoa com
conhecimento suficiente para dirigir a adoração. ( a b c A Importância da
Oração “Salat” Sociedade Beneficente Muçulmana. Página visitada em
31 de julho de 2008. )

Durante estas preces são recitadas suratas do Alcorão, geralmente ditas


em árabe, conduzida pelo escolhido entre a comunidade. Não existe
restrição para que o crente reze fora da mesquita, tampouco isso é uma
desbonificação de sua oração que pode ser feita em qualquer lugar, desde
que tenha feito antes sua purificação.

A purificação é realizada através da higiene especifica e detalhada, que


consistem basicamente em lavar as mãos, os antebraços, a boca, as
narinas, a face, em passar água pelas orelhas, pela nuca, pelo cabelo e
pelos pés. Se um muçulmano se encontrar numa área sem água ou numa
área onde o uso da água não é aconselhável (porque poderia causar uma
doença), pode substituir as abluções pelo uso simbólico de areia ou terra

16
Mundividência Religiosa Cristã17

(tayammum). A oração abre-se com a orientação do crente na direcção de


Meca (qibla) (a b c A Importância da Oração “Salat” Sociedade
Beneficente Muçulmana. Página visitada em 31 de julho de 2008).

Contribuição para a Purificacao (Zakat)

O Islão estabelece que cada muçulmano deve pagar anualmente uma


certa quantia, calculada a partir dos seus rendimentos, que será
distribuída pelos pobres ou por outros beneficiários definidos pelo
Alcorão (prisioneiros, viajantes, endividados…). Esta contribuição é
encarada como uma forma de purificação e de culto. A quantia
corresponde a 2,5% do valor dos bens em dinheiro, ouro e prata, mas o
valor pode variar se se tratar, por exemplo, de produtos agrícolas (neste
caso a contribuição pode chegar a 10% da colheita agrícola). Quem tiver
possibilidades pode ainda contribuir, de forma voluntária, com outras
doações (sadaqa), mas é importante que o faça em segredo e sem ser
movido pela vaidade. O anúncio destas doações somente poderá ser feito
se isto contribuir para que outras pessoas sejam motivadas a fazer o
mesmo (caso de personalidades e pessoas proeminentes da sociedade), e
este ato deve ser sincero, mesmo que em público.

Jejum do mês Ramadão (Saum)

Durante o Ramadão (o nono mês do calendário islâmico) cada


muçulmano adulto deve abster-se de alimento, de bebida, de fumar e de
ter relações sexuais desde o nascer até ao pôr-do-sol. Os doentes, os
idosos, os viajantes, as grávidas ou as mulheres lactantes estão
dispensados do jejum. Em compensação estas pessoas devem alimentar
um pobre por cada dia que faltaram ao jejum ou então realizá-lo noutra
altura do ano. O jejum é interpretado como uma forma de purificação, de
aprendizagem do auto-controlo e de desenvolvimento da empatia por
aqueles que passam fome ou outras necessidades. O mês de Ramadão
termina com o dia de celebração conhecido como Eid ul-Fitr, durante o
qual os muçulmanos agradecem a Deus a força que lhes foi concedida
para levar a cabo o jejum. As casas são decoradas e é hábito visitar os
familiares. Esta comemoração serve também para o perdão e a
reconciliação entre pessoas desavindas.

A peregrinação (Hajj)

Este pilar consiste na peregrinação a Meca, obrigatória pelo menos uma


vez na vida para todos os que gozem de saúde e disponham de meios
financeiros. Ocorre durante o décimo segundo mês do calendário
islâmico. Os muçulmanos vestem-se com um traje especial todo branco,
antes de chegar a Meca, para que todos estejam igualmente vestidos e não
haja distinção de classes. Durante toda a peregrinação não se preocupam
com o seu aspecto físico. Depois de praticarem sete voltas em torno da
Kaaba, os peregrinos correm entre as duas colinas de Safa e Marwa. Na
última parte do Hajj os muçulmanos devem passar uma tarde na planície
de Arafat, onde Maomé disse o seu "Último Sermão". Os rituais chegam
ao fim com o sacrifício de carneiros e bodes.

17
Mundividência Religiosa Cristã18

O Alcorão

Os ensinamentos de Alá (Allah, a palavra árabe para Deus) estão contidos


no Alcorão (Qur'an, "recitação"). Os muçulmanos acreditam que Maomé
recebeu estes ensinamentos de Alá por intermédio do anjo Gabriel
(Jibreel) através de revelações que ocorreram entre 610 e 632 d.C..
Maomé recitou estas revelações aos seus companheiros, muitos dos quais
se diz terem memorizado e escrito no material que tinham à disposição
(omoplatas de camelo, folhas de palmeira, pedras…). As revelações a
Maomé foram mais tarde reunidas em forma de livro. Considera-se que a
estruturação do Alcorão como livro ocorreu entre 650 e 656 durante o
califado de Otman. O Alcorão está estruturado em 114 capítulos
chamados suras. Cada sura está por sua vez subdividida em versículos
chamados ayat. Os capítulos possuem tamanho desigual (o menor possui
apenas 3 versículos e os mais longos 286 versículos) e a sua disposição
não reflecte a ordem da revelação. Considera-se que 92 capítulos foram
revelados em Meca e 22 em Medina. As suras são identificadas por um
nome, que é em geral uma palavra distintiva surgida no começo do
capítulo ("A Vaca", "A Abelha", "O Figo").

Uma vez que os muçulmanos acreditam que Maomé foi o último de uma
longa linha de profetas, eles tomam a sua mensagem como um depósito
sagrado, e tomam muito cuidado assegurando que a mensagem tenha sido
recolhida e transmitida de uma maneira a não trair esse legado. Esta é a
principal razão pela qual as traduções do Alcorão para as línguas
vernáculas são desencorajadas, preferindo-se ler e recitar o Alcorão em
árabe. Muitos muçulmanos memorizam uma porção do Alcorão na sua
língua original; aqueles que memorizaram o Alcorão por inteiro são
conhecidos como hafiz (literalmente "guardião").

A mensagem principal do Alcorão é a da existência de um único Deus,


que deve ser adorado. Contém também exortações éticas e morais,
histórias relacionadas com os profetas anteriores a Muhammad (que
foram rejeitados pelos povos aos quais foram enviados), avisos sobre a
chegada do dia do Juízo Final, bem como regras relacionadas com
aspectos da vida diária como o casamento e o divórcio. Além do Alcorão,
as crenças e práticas do Islão baseiam-se na literatura hadith, que para os
muçulmanos clarifica e explica os ensinamentos do profeta

Autoridade Religiosa

Não há uma autoridade oficial que decide se uma pessoa é aceita ou


excluída da comunidade de crentes. O Islão é aberto a todos,
independentemente de raça, idade, género, ou crenças prévias. É
suficiente acreditar na doutrina central do islamismo, acto formalizado
pela recitação da chahada, o enunciado de crença do Islão, sem o qual
uma pessoa não pode ser considerada um muçulmano. Embora não exista
no islamismo uma estrutura clerical semelhante à existente nas
denominações cristãs, existe contudo um grupo de pessoas reconhecidas
pelo seu conhecimento da religião e da lei islâmica, denominadas ulemás.
Os homens que se destacam pelo seu grande conhecimento da lei islâmica
podem receber o título de mufti, sendo responsáveis pela emissão de

18
Mundividência Religiosa Cristã19

pareceres sobre determinada questão da lei islâmica; em teoria estes


pareceres só devem ser seguidos pela pessoa que os solicitou.

Ramos do Islão

Há várias denominações no Islão, cada uma com diferenças ao nível legal


e teológico. Os maiores ramos são o Islão sunita e o Islão xiita. O profeta
Maomé faleceu em 632 sem deixar claro quem deveria ser o seu sucessor
na liderança da comunidade muçulmana (a Umma). Abu Bakr, um dos
primeiros convertidos ao islamismo e companheiro do profeta, foi eleito
como califa ("representante"), função que desempenhou durante dois
anos. Depois da sua morte a liderança coube durante dez anos a Omar e
logo de seguida a Otman durante doze anos.

Quando Otman faleceu ocorreu uma disputa em torno de quem deveria


ser o novo califa. Para alguns essa honra deveria recair sobre Ali, primo
de Maomé que era também casado com a sua filha Fátima. Para outros, o
califa deveria ser o primo de Otman, Muawiyah. Quando Ali é eleito
califa em 656 Muawiyah contesta a sua eleição, o que origina uma guerra
civil entre os partidários das duas facções. Ali acabaria por ser
assassinado em 661 e Muawiyah conquista o poder para si e para a sua
família, fundando a dinastia dos Omíadas. Contudo, o conflito entre os
dois campos continua e em 680 Hussein, filho de Ali, é massacrado pelas
tropas de Yazid, filho de Muawiyah.

Estas lutas estão na origem dos dois principais ramos em que actualmente
se divide o Islão. Os partidários de Ali (shiat ali, ou seja, xiitas)
acreditam que os três primeiros califas foram usurpadores que retiraram a
Ali o seu direito legítimo à liderança. Esta crença é justificada em
"hadiths" interpretados como reveladores de que quando Maomé se
encontrava ausente ele nomeava Ali como líder momentâneo da
comunidade.

O islamismo sunita compreende actualmente cerca de 90% de todos os


muçulmanos. Divide-se em quatro escolas de jurisprudência (madhabs),
que interpretam a lei islâmica de forma diferente. Essas escolas tomam o
nome dos seus fundadores: maliquita (forte presença no Norte de África),
shafiita (presente no Médio Oriente, Indonésia, Malásia, Filipinas),
hanefita (presente na Ásia Central e do Sul, Turquia) e hanbalita
(dominante na Arábia Saudita e Qatar).

O muçulmanos xiitas acreditam que o líder da comunidade muçulmana -


o imã - deve ser um descendente de Ali e de sua esposa Fátima. O Islão
xiita pode por sua vez ser subdividido em três ramos principais, de acordo
com o número de imãs que reconhecem: xiitas duodecimanos, ismailitas e
zaiditas. Todos estes grupos estão de acordo em relação à legitimidade
dos quatro primeiros imãs. Porém, discordam em relação ao quinto: a
maioria do xiitas acredita que o neto de Hussein, Muhammad al-Baquir,
era o imã legítimo, enquanto que outros seguem o irmão de al-Baquir,
Zayd bin Ali (zaiditas).

Os xiitas que não reconheceram Zayd como imã permaneceram unidos


durante algum tempo. O sexto imã, Jafar al-Sadiq (702-765), foi um
grande erudito que é tido em consideração pelos teólogos sunitas. A

19
Mundividência Religiosa Cristã20

principal Escola Xiita de lei religiosa recebe o nome de jafarita por sua
causa.

Após a morte de Jafar al-Sadiq ocorreu uma cisão no grupo: uns


reconheciam como imã o filho mais velho de al-Sadiq, Ismail bin Jafar
(m. 765), enquanto que para outros o imã era o filho mais novo, Musa al-
Kazim (m. 799). Este último grupo continuou a seguir uma cadeia de
imãs até ao décimo segundo, Muhammad al-Mahdi (falecido, ou de
acordo com a visão religiosa, desaparecido em 874 para retornar no fim
do mundo). Os primeiros ficaram conhecidos como ismailitas, enquanto
que os que seguiram uma cadeia de doze imãs ficaram conhecidos como
os xiitas duodecimanos; o termo "xiita" é geralmente usado hoje em dia
como um sinónimo dos xiitas duodecimanos, que são maioritários no
Irão.Para os ismailitas, Ismail nomeou o seu filho Muhammad ibn Ismael
como seu sucessor, tendo a linha sucessória dos imãs continuado com ele
e os seus descendentes. O ismailismo dividiu-se por sua vez em vários
grupos.

Outra denominação que tem origem nos tempos históricos do Islão é a


dos kharijitas. Historicamente, consideravam que qualquer homem,
independentemente da sua origem familiar, poderia ser líder da
comunidade islâmica, opondo-se às polémicas de sucessão entre sunitas e
xiitas. Os membros deste grupo hoje são mais comumente conhecidos
como muçulmanos ibaditas. Um grande número de muçulmanos ibaditas
vive hoje no Omã. A escola hanbalita. O wahhabismo tem uma grande
influência no mundo islâmico pelo facto do governo saudita financiar
muitas mesquitas e escolas muçulmanas existentes em outros países.

Comemorações

O calendário islâmico (também denominado calendário hegírico em


função da sua origem remontar à Hégira ou migração dos primeiros
muçulmanos de Meca para Medina em 622 d.C.) segue o ano lunar, que é
cerca de onze dias mais curto que o solar. Consequentemente, as
comemorações muçulmanas acabam por circular por todas as estações de
ano.

As duas comemorações do Islão são o Eid ul-Fitr, que celebra o fim do


jejum do Ramadão, e o Eid ul-Adha que marca o fim da peregrinação a
Meca (Hajj).

O dia 10 do mês de Muharram (o primeiro mês do calendário islâmico) é


um dia de particular importância para os muçulmanos xiitas. Neste dia
comemora-se o martírio do terceiro imã xiita, Hussein, morto em Karbala
em 680 por aqueles que os xiitas consideram usurpadores da liderança da
comunidade muçulmana. No início deste mês as pessoas envolvem-se em
actividades como ouvir contadores de histórias relatar o martírio de
Hussein ou assistir a peças de teatro que pretendem reconstituir os
acontecimentos. O dia é marcado com procissões, que incluem actos de
auto-flagelação como bater no peito ou cortar-se com uma lâmina (os
membros do clero xiita desencorajam estas práticas).

Outras comemorações populares incluem o Mawlid, que celebra o


aniversário de Maomé (12 do mês de Rabi al-Awwal), a Noite da

20
Mundividência Religiosa Cristã21

Ascensão (Laylat al-Micraj, no dia 27 de Rajab), quando se recorda o dia


em que Maomé subiu ao céu para dialogar com Deus e a Noite do Poder
(Laylat al-Qadr, na noite do 26 para 27 do mês do Ramadão), que marca
o aniversário da primeira revelação do Alcorão e durante a qual muitos
muçulmanos acreditam que Deus decide o que acontecerá durante o ano.
(Jamal J. Elias, Islamismo, Lisboa, Edições 70, 2003).

Lugares sagrados

A Caaba ("O Cubo"), um edifício situado dentro da mesquita principal de


Meca (Al Masjid Al-Haram) na Arábia Saudita, é o local mais sagrado do
Islão. De acordo com o Alcorão, ela foi construída por Abraão (Ibrahim)
para que todas as pessoas fossem ali celebrar os ritos da Hajj. No tempo
do profeta Maomé o monoteísmo instituído por Abraão tinha sido
corrompido pelo politeísmo e pela idolatria. Segundo o islamismo,
Maomé não procurou fundar uma nova religião, mas antes restabelecer o
culto monoteísta que existia no passado. Uma vez que o Islão se
identifica com a tradição religiosa do patriarca Abraão é por isso
classificado como uma religião abraâmica. O islamismo não nega
directamente o judaísmo e o cristianismo, pelo contrário considera uma
versão antiga e perdida dessas religiões monoteístas como parte da sua
herança; as suas versões actuais teriam sido alteradas, o próprio Islão
considerando-se uma restauração da verdade divina.

Al Masjid Al-Haram, em Meca, considerada


O maior centro de peregrinação do mundo.

O segundo local sagrado do islamismo é Medina, cidade para a qual


Maomé e os primeiros muçulmanos fugiram (num movimento conhecido
como Hégira), e onde se encontra o seu túmulo.

A cidade de Jerusalém é o terceiro local sagrado do Islão. Este estatuto


advém da sua associação aos profetas anteriores a Maomé e sobretudo
pelo facto dos muçulmanos acreditarem que o profeta teria viajado para
este local durante a noite, cavalgando um ser denominado Buraq, numa
viagem conhecida como Isra. Uma vez em Jerusalém ele teria ascendido
ao céu (Mi’raj), onde dialogou com Deus e outros profetas, entre os quais
Moisés. No local de Jerusalém onde se acredita que Maomé subiu ao céu
foi construída a Cúpula da Rocha em cerca de 690, sobre as ruínas do
antigo Templo de Salomão dos judeus.

Os muçulmanos xiitas consideram ainda como sagradas as cidades de


Karbala e Najaf, ambas no Iraque. Na primeira ocorreu o martírio de
Hussein (filho de Ali e neto de Maomé) e dos seus companheiros quando
este contestava o califado omíada. No Irão, devem também ser
salientadas duas cidades sagradas para os xiitas, Mashhad e Qom

Lei Islâmica (Xariá)

A lei islâmica chama-se Xariá. O Alcorão é a mais importante fonte da


jurisprudência islâmica, sendo a segunda a Suna ou exemplos do profeta.
A Suna é conhecida graças aos ahadith, que são narrações acerca da vida
do profeta ou o que ele aprovava, que chegaram até nós graças a uma

21
Mundividência Religiosa Cristã22

cadeia de transmissão oral a partir dos Companheiros de Maomé. A


terceira fonte de jurisprudência é o ijtihad (“raciocínio individual”), ao
qual se recorre quando não há resposta clara no Alcorão ou na Suna sobre
um dado tema. Neste caso o jurista pode raciocionar por analogia (qiyas)
para encontrar a solução. A quarta e última fonte de jurisprudência é
consenso da comunidade (ijma). Algumas práticas também chamadas de
"charia" têm também algumas raízes nos costumes locais (Al-urf). A
jurisprudência islâmica chama-se fiqh e está dividida em duas partes: o
estudo das fontes e metodologia (usul al-fiqh, raízes da lei) e as regras
práticas (furu' al-fiqh, ramos da lei) (Jamal J. Elias, Islamismo, Lisboa,
Edições 70, 2003, p. 53 )

Perspectiva Islâmica de Outras Religiões

O islamismo reconhece elementos de verdade no judaísmo e no


cristianismo. Todos os profetas do judaísmo são reconhecidos também
como profetas no Islão, assim como Jesus, que de acordo com a
perspectiva muçulmana teria anunciado a vinda de Maomé. Para os
seguidores destas duas crenças o Alcorão reservou a noção de "Povos do
Livro" (Ahl al-Kitab), estabelecendo que devem ser tolerados devido ao
facto de possuirem escrituras sagradas. À medida que os muçulmanos
tomaram contacto com outras religiões detentoras de revelações escritas,
acabaram em alguns casos por conceder-lhes também esse estatuto (caso
do zoroastrismo).

Porém, se o Islão reconhece o papel preparatório do judaísmo e do


cristianismo, considera igualmente que os seguidores destas religiões
acabaram por seguir caminhos errados. Os judeus procederam mal ao
adorarem o bezerro de ouro, tendo se tornado idólatras. Os muçulmanos
acreditam que os cristãos erraram ao considerar Jesus como filho de Deus
e a defender doutrinas como a da Santíssima Trindade, porém acreditam
que Jesus é uma criatura de Deus, assim como Adão. Tais erros, segundo
os muçulmanos, acarretaram a vinda de outro e último profeta enviado
por Deus, Maomé.

Exercícios

1 – Menciona os principais princípios da Mundividência


Islámica?
2 – O diálogo do islamismo com outras mundividência é
Auto-avaliação possível? Justifica a resposta.

22
Mundividência Religiosa Cristã23

Unidade N0 03-A0026
Tema: Mudividência Budista
Introdução

Mundividência Budista, ou o Budismo é uma doutrina religiosa e


filosófica oriental derivado dos ensinamentos de Shiddharta
Guatama, o Buda. A doutrina budista busca uma resposta para o
sofrimento, considerando intrínseco para a existência humana.

Ao completar esta unidade, você será capaz de:

 Explicar as doutrinas da mundividência budista;


 Relacionar o budismo com outras mundividências.
Objectivos

Sumário
O Budismo
O termo “Buda” significa “o iluminado”; aquele que se desperta a ele
próprio e que proporciona o despertar dos outros. O Budismo também
se assume como uma doutrina moral que considera a bondade e a
compaixão como qualidades essenciais à Iluminação. A primeira
qualidade leva à paz, a segunda combate a miséria. Como é sabido,
Buda pregava a igualdade de todas as castas ante a religião, pregava
à transmigração, a caridade, a renúncia a todas as paixões, o
aniquilamento de todos os desejos para se poder chegar a
tranqüilidade absoluta – o nirvana.

História do budismo
A história do budismo desenvolve-se desde século VI a.C, começando
com o nascimento de Siddharta Ghautama. Durante este período, esta
religião evoluiu à medida que encontrou diferentes países e culturas,
acrescentando ao fundo indiano inicial, os elementos culturais
oriundos da cultura helénica, bem como da Ásia Central, do Sudeste
asiático e Extremo Oriente. No processo o budismo alcançou uma

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Mundividência Religiosa Cristã24

expansão territorial considerável ao ponto de influenciar de uma


forma ou de outra quase todo o continente asiático. A história do
budismo caracteriza-se também pelo desenvolvimento de vários
movimentos e cismas, entre os quais se encontram as tradições
Theravada, Mahayana e Vajrayana.

A Vida e Obra de Buda


O fundador do Budismo neste mundo foi Siddharta Ghautama ou
Buda, que viveu e ensinou no norte da Índia há cerca de 2.500 anos
(entre 563-83 a.C.). Desde então, milhões de pessoas ao redor do
mundo têm seguido o puro caminho espiritual que ele revelou. Na
crença budista, a existência terrestre de Siddharta foi a última etapa de
uma série de sucessivos renascimentos, isto é, a vida deste representa
o fim do caminho em direcção à libertação do samsara.

Infância Rica
Siddharta nasceu numa pequena localidade no sul do que é
actualmente o Nepal. Era príncipe, filho de um soberano do clã dos
Sâkya, da família Ghautama, cresceu sem preocupações, num
ambiente confortavel, devido ao isolamento a que foi sujeito pelo pai.
Longe das dores do mundo, apesar da experiência da morte de sua
mãe, Siddharta casou-se e terá tido um filho. Mas o destino reservou-
lhe outro caminho. Ao sair de um dos seus palácios, Siddharta teve a
experiência que mudou a sua vida. Nessa ocasião Siddharta teve
quatro encontros: um com um velho homem abandonado, depois um
doente e mais adiante uma celebração fúnebre, finalmente um eremita
que abandonara tudo para procurar a libertação. Com 29 anos partiu,
abandonando o palácio e família, à procura da Iluminação.

O Isolamento
Durante 6 anos Siddharta teve uma vida errante, encontrando vários
mestres, praticando os seus ensinamentos e ultrapassando-os.
Tornando-se ele próprio um mestre, atraindo a si cinco seguidores
fiéis. Esse caminho revelou-se rapidamente insuficiente. Siddharta
entrega-se a um isolamento total, abstendo-se de alimentos e, através
da prática do Ioga, suspende as suas funções vitais. Diz a lenda que,
um dia, ouviu um barqueiro que passava no rio, que ensinava música
ao seu discípulo e que lhe dizia que: as cordas de um instrumento, se
muito frouxas, não emitiam um som adequado, e se muito esticadas,
elas arrebentavam. Siddharta compreende que as austeridades físicas
não eram o caminho para se alcançar a libertação e que se enganara no
caminho e as penosas memórias resultantes do isolamento tornaram-
se advertências para os futuros que quisessem seguir o mesmo
caminho. Siddharta considerou então que a privação excessiva
debilitara seu organismo e o impossibilitara de meditar como deveria
afastando-o cada vez mais de seu verdadeiro objectivo, pelo qual
havia renunciado à vida mundana. Então o suspendeu e os cinco
companheiros viram nisto um sinal de fraqueza e abandonaram-no.

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Mundividência Religiosa Cristã25

O Estado de meditação (zazen)


Já liberto de uma experiência inconsistente, Siddharta recuperou as
forças e meditou sobre a existência humana, Sentando em posição
meditativa (conhecida hoje como zazen). No fim dessa noite,
Siddharta atingiu a realização da Iluminação perfeita e completa,
adquirindo a recordação de todas as suas anteriores vidas e
principalmente a compreensão das causas e condições que
determinam a existência de cada um. Consequentemente, este adquire
a compreensão dos meios que permitiram pôr fim ao ciclo de
sucessivos renascimentos e atingir a libertação perfeita. Siddharta
soube então que já não renasceria. O seu karma estava extinto. A
vontade de partilhar a sua experiência com os outros, conduzindo-os
na mesma via, tornou-o num Buda.

A lei do karma

A base dos ensinamentos de Siddharta prendia-se com a ideia dos


renascimentos cíclicos que os seres tinham de atravessar antes de se
libertarem e atingirem o Nirvana. O ciclo de renascimentos sucessivos
(Samsara) está directamente ligado à lei do karma, o que pressupõe a
existência de um efeito causal das acções. O renascimento é uma
continuidade de acções e reacções porque os karma fornecem a energia
para renascer uma e outra vez. Ou seja, quando um ser renasce traz com
ele uma herança kármica que é o resultado de acções praticadas nas
suas anteriores vidas.
Com esta doutrina, o Budismo primitivo negou duas teorias religiosas
da época:
· Teoria da criação: que atribui a responsabilidade da felicidade ou
infelicidade do indivíduo, a Bhrama.
· Teoria do acaso: segundo a qual a felicidade ou infelicidade do
indivíduo não têm causas específicas.
A teoria dos karma explica a diversidade de vidas dos seres vivos.
Quem praticou boas acções em anteriores existências, irá ter uma vida
melhor do que quem praticou más acções. Ou seja, bons karma dão
bons frutos.

Meditação
Diz a lenda que Siddhartha permaneceu assim por vários dias, sob a
sombra de uma figueira, nas margens do rio. Então, uma luz começa a
brilhar no meio da sua testa. Mara, o Grande Tentador, estremeceu: ele
sabia que seu poder para deturpar a humanidade estava ameaçado.
Durante a noite, muitas distracções surgiram para Sakyamuni: sede,
luxúria, descontentamento, distrações de prazer. E ao longo de sua
concentração meditativa, ele foi tomado por visões de exércitos de
demônios atacando-o. Mas, por causa de sua meditação indestrutível,
ele pôde converter a negatividade em harmonia e pureza, e as flechas
lançadas contra ele se transformaram em flores. Algumas filhas de
Mara apareceram, como belíssimas mulheres, para distraí-lo e seduzi-lo
(luxúria). Outras assumiram formas de animais ferozes (medo).

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Mundividência Religiosa Cristã26

Mas os seus rosnados, ameaças e qualquer outra tentativa foram em vão


para tirar Siddharta de sua meditação. Sentado num estado de total
absorção, alcançou todos os graus de realização, adquirindo o
conhecimento de todo o seu ciclo de mortes e renascimentos.
Finalmente, Mara tentou tirá-lo de sua meditação pelo ataque ao ego.
Rugiu: "Quem pensas que és? Com que direito procuras pela Suprema
Iluminação? Quem é tua testemunha?" Siddharta Gautama
silenciosamente estendeu a mão direita para tocar a terra, que
estremeceu e gritou de suas entranhas "Eu sou tua testemunha".

As Quatro Nobres Verdades


Buda reuniu-se com os cinco companheiros em Benares e comunicou-
lhes os conhecimentos que se tornaram na base do ensino do budismo.
Até à idade de 80 anos, Buda transmitirá os seus conhecimentos aos
homens, percorrendo toda a Índia. Inicialmente, Buda baseou a sua
análise da condição humana em três leis fundamentais - As Três Marcas
da Existência.
A primeira lei é o ponto de partida para todo o sistema religioso budista
- a “impertinência” (anitya), que nos revela que no mundo material
nada permanece, tudo está em movimento. As coisas podem dar a
impressão de o serem, contudo isso não passa de uma ilusão. A segunda
lei é a insatisfação (duhkha), ou seja, a dor, que é conseqüência da
primeira. Para o pensamento budista, tudo o que não fosse permanente
gerava insatisfação. A terceira marca é a idéia de inexistência de alma
(anatman). Segundo o budismo, os seres humanos não têm alma
(atman) permanente. Para este, o ser humano era um ser desigual,
constituído por uma nuvem de componentes físicos e mentais em
permanente mudança. Falar de um “núcleo” eterno do ser humano que
persistisse depois da morte seria completamente falso. Alguns
elementos característicos do ser humano poderiam passar de uma vida
para outra, contudo a personalidade em si não o poderia fazer. Mais
tarde, Buda passou desta ideia pessimista da condição humana para a
sugestão da existência de uma via de saída de um impasse: As Quatro
Nobres Verdades:
- A primeira considerava a vida na sua essência, insatisfatória,
- A segunda corresponde à ideia de que essa insatisfação deriva
das ânsias (trsna), ou seja desejos, que assolavam o ser humano
e da sua ignorância (avidya).
- A terceira era que este não tinha de ser o destino de todos os
homens e que haveria forma de fugir à escravatura deste
mundo insatisfatório.
- A quarta nobre verdade determinava o caminho de fuga à
escravidão do mundo, ou seja, as Oito Vias Sagradas.

As oito vias sagradas:


1. Parecer recto, adequado, correcto; 2. Intenção recta; 3.
Discurso recto; 4. Acções rectas; 5. Existência recta; 6. Esforço
recto; 7. Espírito recto; 8. Concentração recta .

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Mundividência Religiosa Cristã27

Destas oito vias, poder-se-á considerar as duas últimas como as de


maior cariz religioso. O espírito recto corresponde a um exercício
espiritual especificamente budista enquanto a concentração recta refere-
se à meditação recta. É através da meditação que se pode chegar à
verdadeira compreensão da natureza da realidade e obter a libertação
dos ciclos intermináveis de samsara.

Após a morte
Após o funeral de Buda, ao colocar-se a questão da sua sucessão,
surgem dois dos seus discípulos: Mahakasyapa e Ananda. Tendo o
primeiro achado que o outro (por ter passado a vida ao lado de Buda e
não ter tido tempo de estudar as técnicas de meditação necessárias) não
atingira o nirvana, isto é, não se tinha tornado um arhat e, por isso, não
o convocou para o concílio de arhats de Rajagrha. Assim como
Sócrates e Jesus, Siddharta não deixou nada escrito, tendo os seus
discípulos reunidos 100 anos após sua morte para escrever o que
haviam ouvido de seus mestres, e fizeram assim o Tripitaka, que é a
"bíblia" da escola Theraveda de ensino budista.

Transmissão da doutrina budista


O tripitaka, metaforicamente “os três cestos de flores”, é o conjunto
da doutrina budista. Cada um dos cestos refere-se a uma parte do
pensamento e prática do Budismo.

1. O primeiro cesto é o cesto dos Sutra, que agrupa os ensinamentos


do próprio Buda, através de uma série de conversas e sermões
colectados por um dos seus mais próximos discípulos – Ananda.

2. O segundo cesto é o cesto do Vinaya, onde estão reunidas as


regras disciplinares a que estavam obrigados a seguir todos os
que fazem parte da comunidade monástica, a Sangha. O núcleo
dos dois primeiros cestos é contemporâneo do próprio Buda.

3. O terceiro cesto é o cesto dos Abhidharma, ou textos filosóficos


que têm com foco a transmissão do Budismo. Na verdade,
pretende ser um esclarecimento sobre certas passagens dos cestos
anteriores assim como interpretar as escrituras mais antigas.

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Mundividência Religiosa Cristã28

Exercícios

1 – Explica a essência da doutrina budista?


2 – Quais são as possíveis aberturas do budismo com outras
mundividências religiosas?
Auto-avaliação

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Mundividência Religiosa Cristã29

Unidade N0 04-A0026
Tema: Mudividência Tradicional
Africana
Introdução

Enquanto vivente ser religioso e cultural, o homem em sociedade


procurou sempre uma harmonia social e um bem estar para si.
Nesta unidade pretendemos apresentar nossa reflexão acerca das
relações com o divino existentes nas tradições africanas .

Ao completar esta unidade, você será capaz de:

 Explicar as doutrinas religiosas nas tradições critãs;


 Relacionar as tradicões religiosas africanas com outras
Objectivos mundividências;

Sumário
Religião Tradicional Africana

Continuando nosso estudo sobre as religiões da humanidade


apresentamos, desta vez, apenas uma parte do grande patrimônio das
religiões tradicionais. Nunca poderemos entrar totalmente nesse mundo,
já que nossa cultura ocidental não possui as chaves para abrir suas portas
mais íntimas.

As religiões tradicionais

As religiões dos povos que se baseiam em mitos, lendas e tradições, eram


classificadas como religiões primitivas. Esse termo passou a ser quase
sinônimo de pagão, e seus praticantes eram tidos como pessoas sem
cultura, atrasadas, sem técnica, sem Deus... Atualmente, os estudiosos,
revendo os erros do passado que justificaram escravidão e morte, usam o
termo religiões tradicionais. Dessa maneira, mesmo sendo muito

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Mundividência Religiosa Cristã30

diferentes da religiosidade de outras culturas, fica mais fácil entender


estas manifestações religiosas tão ricas e das quais muito podemos
aprender. O mundo destes povos muitas vezes não encontra explicações
satisfatórias em nossa mentalidade, que exige provas, raciocínios e uma
própria lógica. O mundo tradicional liga intimamente a vida em suas
manifestações Nesse sentido, para entendermos melhor as religiões
tradicionais, é importantíssimo ter uma atitude de abertura, sem
preconceitos ou pré-julgamentos. Tenhamos em conta também que essas
religiões não possuem textos escritos ou livros sagrados, mas se baseiam
na tradição, ou narração passada de geração para geração, sobre os
conteúdos e a maneira de viver sua religiosidade. Isso se dá em forma de
histórias, ritos, provérbios, danças, músicas, festas.

O Concílio Vaticano II reconheceu que as religiões tradicionais são


expressões de uma experiência religiosa em que estão presentes muitos
elementos de verdade, de graça e que representam a grande riqueza
desses povos (AG 9).

Para falarmos disso, precisamos, em primeiro lugar, deixar claro sobre


qual região da África ou qual religião iremos abordar. Para isso,
dividimos a África assim:

1) África do norte: desde o Atlântico e Mediterrâneo até o Saara,


incluindo o Egito e a Etiópia. Esta região é dominada pelo Islamismo e
pelo Cristianismo.

2) África centro-sul: desde a Rep. Dos Camarões, Quênia..., até o


extremo sul. Esta parte da África, povoada principalmente por tribos
aborígenes, é dominada pelas religiões tradicionais, exceto uma relevante
percentagem que praticam o cristianismo, o islamismo e até o hinduísmo.

Um erro comum é supor que todos os povos africanos são da mesma


raça e que tiveram a mesma origem, o que leva a supor que tenham
também os mesmos costumes e a mesma religião. Queremos aqui falar da
religião tradicional dos africanos negros e não da população cristã e
muçulmana presente, há muitos séculos, no continente.

O Espiritual e Material

A religião tradicional africana distingue dois aspectos da realidade:


aquilo que é visível, físico, material..., e aquilo que é invisível e
espiritual. Estes dois aspectos fundem-se entre si: nenhuma coisa do
mundo físico é tão material que não contenha em si elementos do mundo
espiritual. Isto conduziu à crença de que há espíritos nas pedras, nas
montanhas, nos rios, nas árvores, nos trovões, no Sol e na Lua. Daí a
religião tradicional africana ser muitas vezes chamada também de religião
animista. Seus praticantes vivem em profunda harmonia com todo o
universo e esforçam-se para comportar-se de maneira adequada,
conforme as leis morais. Isso não significa que não existem momentos
religiosos mais destacados de outros, considerados profanos, mas toda a
vida é sustentada pelo elemento religioso que une os seres, o cosmo, o
mundo invisível e o Ser Superior. Todo o universo tem uma alma

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Mundividência Religiosa Cristã31

Os Ritos

Ritos, cerimônias, preces (...) são algumas das modalidades através das
quais o ser humano procura se expressar e alcançar sua própria harmonia
com o todo. Mas o que importa é a atitude interior que caracteriza a vida
dos povos tradicionais, uma atitude profundamente religiosa. Cada fato
cotidiano, banal ou importante, é colocado num contexto que supera a
dimensão material. O ritual sacraliza os momentos importantes da vida:
nascimento, adolescência, matrimônio e morte. Existe, além disso, uma
grande variedade de ritos: de iniciação, purificação, propiciação,
comemoração, ação de graças etc.

Os ritos de iniciação

Estes garantem a boa integração na comunidade dos vivos, e os ritos


fúnebres garantem a benevolência dos antepassados: por isso, devem ser
bem feitos. Freqüentemente, a iniciação é também o ingresso em uma
“sociedade secreta”, onde se aprendem ritos secretos, mitos secretos e
mesmo uma linguagem secreta.

Lugares de Culto

Os africanos possuem lugares de culto, embora muito modestos:


pequenas cabanas, altares junto aos caminhos, cumes de montanhas, nas
sobras de grandes arvores... As oferendas são feitas para pedir saúde,
vida, sucesso. A oração comunitária é a preferida e exprime-se com
danças e cantos. O mesmo acontece com os ritos: impera a criatividade, o
movimento, o dinamismo.

Elementos da religião

As religiões tradicionais africanas, diferentes em muitas manifestações,


de acordo com os respectivos povos, possuem vários pontos comuns
essenciais, mas tendo como objeto central a vida.

a) Potências espirituais: Abaixo do Ser Supremo existem inúmeras


potências mais ou menos espirituais, que se ocupam das coisas
mundanas, em lugar do Ser Supremo, e que, por isso, são muito
invocadas (como os orixás dos ioruba).

b) Demiurgo : A criação foi feita mediante um demiurgo (artífice), que é


um antepassado mítico, às vezes identificado com o fundador do povo, ao
qual se devem tanto a geração do ser humano como a introdução dos
costumes, ofícios e ritos.

c) Ritos de iniciação: Como todos os povos primitivos, os africanos dão


importância aos ritos de iniciação que, não raro, exigem provas
duríssimas, até sangrentas (mutilações).

d) Danças: Na falta de livros, os ritos desempenham papel importante na


manutenção viva e atuante das tradições religiosas e sociais. Neste
sentido, as danças são de fundamental importância, pois, no seu ritmo e
dinamismo, dão a máxima expressão a todas as atividades do grupo.

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Mundividência Religiosa Cristã32

e) Curandeiros: Com artes próprias, como incisões e aplicações de


ervas, e mesmo com o recurso da sugestão, atendem às necessidades do
povo.

f) Culto: o sacrifício a divindade construi o centro do culto e da religião


o ponto central e sacrifício, sacrifícios oferecidos, no geral aos defuntos
do que mesmo a deus. Isto e prova profunda do respeito a Deus.. o culto
pode ser individual ou familiar. Existem vários sacrifícios conforme as
finalidades. O sacrifício tem em vista a pedido de ajuda que deus deve
conceder por meio dos antepassados. Em geral, os africanos não possuem
estátuas, nem templos e sacerdotes. Os sacrifícios de animais (porcos,
cães, cabritos, aves...) não são oferecidos a Deus como adoração, mas aos
orixás, mizimo (espíritos intermediários), como veículo de comunicação
com os vivos, já que o sangue é tido como portador de vida. Os africanos
consideram Deus como Pai que não quer ver alguém a sofrer A oração
tem como objecto, sobretudo, o bem das pessoas. Nesse sentido é
humanizante, porque «procura tornar a vida humana digna de ser vivida e
calorosa as relações entre as pessoas». A oração africana é circunstancial,
reza-se por ocasião de um acontecimento. Mas é quase sempre
«interessada», para que Deus satisfaça as necessidades humanas, embora
isso seja logo ocasião de se dirigir a Ele para o contemplar. A pessoa
humana está, pois, no centro da religião africana tradicional. Mas não há
nisso um antropocentrismo ateu, como alguns pretendem. A
espiritualidade africana é antropocêntrica tanto como a bíblica e a cristã.
Quando o criou à sua imagem e semelhança, Deus confiou ao homem a
missão de «inventar a história» (Gen. 1, 26).

g) Moral: Para o africano, moral e religião são praticamente a mesma


coisa. As ações que prejudicam a convivência humana ou o equilíbrio das
forças naturais, são punidas pela autoridade tribal ou reparadas por ritos
religiosos, pois irritam igualmente os espíritos, provocando calamidades
públicas, como secas, enchentes, enfermidades, mortes... Desta forma, o
africano se vê obrigado a respeitar os bens, a vida e a pessoa do próximo,
ainda que não conheça preceitos morais impostos por Deus. O adultério é
também severamente condenado, embora a vida sexual seja encarada com
muita tolerância, pois se trata do exercício de uma função vital.
http://www.princetonol.com/groups/iad/lessons/middle/history1.htm, em
20/03/2010)

Religião Teocêntrica e Cosmocêntrica


Afirmar que a pessoa se encontra no centro da religião africana não anula
o facto de ela ser também teocêntrica e cosmocêntrica. Deus é o autor da
vida, e o africano tem plenamente consciência disso. Como nós próprios
afirmamos, «Deus dá também as árvores da floresta. Uma das mãos não
chega para conter todos os seus dons, porque eles são tão pequena e os
seus dons tão abundantes».
Como o africano tem uma concepção dinâmica da vida, esta não pode
depender senão de Deus, princípio da vida. É certo que a pessoa se
encontra no centro, mas unicamente enquanto dependente de Deus, das
outras pessoas, da natureza, do cosmos; e a harmonia entre todos estes
elementos reforça, faz crescer e prolonga a vida. Pelo que se pode afirmar

32
Mundividência Religiosa Cristã33

igualmente que a espiritualidade africana só tem sentido em relação com


Deus e com o cosmos. Desta forma, também a dimensão zoocêntrica
surge como elemento fundamental da espiritualidade. A hierarquia entre
os seres vivos estabelece-se tendo como ponto de referência a vida.
Conclusão
As religiões tradicionais africanas também referidas como religiões
indígenas africanas, englobam manifestações culturais, religiosas,
espirituais e indígenas no continente africano, há uma multiplicidade de
religiões dentro desta categoria. Religiões tradicionais africanas
envolvem ensinamentos, práticas e rituais que fazem a estrutura das
sociedades nativas africanas, reflectem concepções locais de Deus e do
cosmos. Mesmo dentro de uma mesma comunidade, pode haver pequenas
diferenças de percepção do sobrenatural. São religiões que não foram
significativamente alteradas pelas religiões adoptadas mais recentemente
(cristianismo, Islão, judaísmo e outras).

Exercícios

1 – Quais são os principais rituais nas mundividências


tradicionais africanas?
2 – Em que sentido as mundividências tradicionais africanas
Auto-avaliação permitem um diálogo com outras mundividências?

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Mundividência Religiosa Cristã34

Unidade N0 05-A0026
Tema: Mudividência Marxista
Introdução

O marxismo é uma mais filosófica que religiosa, que proclama a


realização do comunismo, ou seja, a equidade na distribuição dos
bens materiais.

Ao completar esta unidade, você será capaz de:

 Explicar as doutrinas marxista;


 Relacionar os marxismo com outras mundividências
Objectivos religiosas.

Sumário
O Marxismo
O marxismo designa um movimento de idéias não só filosóficas, mas
também políticas e sociais. A doutrina de Karl Marx nasce no sec, XIX,
da confluência do materialismo com a ciência natural com o socialismo
francês, penetrado e animado pelo espírito dialético de Hegel. Marx era
ateu. O novo humanismo de Marx é ateísmo e comunismo: „o ateísmo é o
humanismo pela superação da religião, e o comunismo é o humanismo
pela superação da propriedade privada.

Na questão religiosa, para Marx o ateísmo é um postulado evidente. Deus


não passa de uma projeção do homem. Por isso a religião não passa de
produção e alienação do homem. O homem cria a religião. A religião é a
expressão da alienação do homem não seu fundamento. “são as estruturas
econômicas que geram a falsa consciência, que é a religião. A idéia de
Deus é o resultado de uma economia alienante. A religião é o aroma de
uma sociedade alienada. E um momento necessário do mundo alienado
porque o justifica. A religião somente oferece a libertação espiritual do
homem, a libertação imaginaria e ilusória” (ZILLES: 1991:127).

34
Mundividência Religiosa Cristã35

Para Marx a religião é uma consciência errônea do mundo. Ela age como
um calmante. Ela hipnotiza os homens com falsa superação da miséria e
assim destrói sua força de revolta. Actua como uma forca conservadora
no campo economico e social A religião é projeção do homem num
mundo ilusório. Faz do sujeito predicado, alcançando Deus sobre as
nuvens, em vez de dar-se conta de que o céu esta sobre a terra. A religião
nasce da convivência perturbada dos homens. O crente suspira por uma
felicidade ilusória para esquecer sua desgraça presente. Por isso a religião
é o ópio dos povos. Para libertar a humanidade e preciso destruir o que
gera a religiao. A religião é a manifestação da humanidade sofredora que
busca consolo. Para eliminar a alienação religiosa é preciso eliminar
todas as condições de miséria que a originam.

É necessário anotar, no entanto, que a crítica de Marx à religião estava


longe de ser mera especulação filosófica ou psicológica. Marx estava
preocupado com o tema da revolução social e absorvido com o complexo
entendimento holístico materialista da trama da História. Assim, não
podia deixar de considerar, acima de tudo, que a religião deveria ser
entendida não como um conjunto de idéias que pairava no abstrato, mas
como dinâmica social que servia de instrumento legitimador do poder do
Estado.
Assim, Marx chegou à sua célebre conclusão de que a religião “é o ópio
do povo”. “A abolição da religião na sua condição de felicidade ilusória
do povo é necessária para a real felicidade deste. A demanda para
eliminar a ilusão do povo sobre sua condição é a demanda para eliminar
uma condição que necessita de ilusões”. Mais importante que as idéias
religiosas, portanto, eram as instituições religiosas e seu papel na
sociedade de Estado. A crítica da religião só tinha sentido dentro de uma
crítica global da sociedade tal como ela existia: uma sociedade de classes
fundada na exploração do homem pelo homem. Nas “Teses sobre
Feuerbach”, Marx explicará que “depois de descobrir na família terrestre
o segredo da sagrada família, há que criticar teoricamente e revolucionar
aquela” (Ibidem).

A ruptura com a religião não era, portanto uma mera ação intelectual,
mas ação política, institucional, social e econômica. O “ópio” era, na
época de Marx, uma droga de consumo massivo. Através dela se entrava
em um universo ilusório, no qual os usuários passavam a viver alheios ao
mundo real. Alucinação, sem dúvida, e, em ambos os casos, alucinação a
serviço do poder. O ateísmo é a negação de Deus e afirmação da essência
do homem. Marx afirmou mais o homem, voltando-se a este mundo.

Objectivos da disciplina na perspectiva bíblica, da tradição e


do magistério da Igreja Católica
Dialogo ecuménico e inter-religioso
“A actitude de dialogo e o modo de ser do cristão tanto na comunidade
como com os outros crentes de outras religiões. O diálogo vai se praticar,
antes na família, a todos os níveis entre os vários representantes das
igrejas. Os católicos são convidados a desenvolver um dialogo ecuménico

35
Mundividência Religiosa Cristã36

com todos os irmãos baptizados das outras confissões cristas, a fim de


que se realize a unidade pela qual Cristo rezou, de maneira que o seu
serviço as populações do continente torne o evangelho mais credível aos
olhos daqueles e daquelas que procuram Deus.
Em dialogo poder-se-á concretizar em iniciativas como a tradução
ecuménica da bíblia, o aprofundamento teológico de um ou outro aspecto
da fe crista, oferecendo todos juntos testemunho em prol da justiça, da
paz e do respeito e da dignidade humana. Cristãos e muçulmanos são
chamados a empenharem-se na promoção de um dialogo serio, ambos
respeitando a liberdade religiosa”.
“Quanto a religião tradicional africana, um dialogo sereno e prudente
poderá proteger de influencias negativas que condicionam o modo de
viver de muitos católicos e, por outro, assegurar a assimilação de valores
positivos, como a crença num ser supremo, eterno, criador, providente e
justo juiz, que se harmonizam bem com o conteúdo da fe”. Há que olhar
com respeito os que seguem a religião tradicional africana ou outras
religiões (João Paulo II, A igreja em africa, exortação apostólica pós-
sinodal, Lisboa, Rei dos Livros. N. 65-67)

Exercícios

1 – Como devemos olhar para a multiplicidade religiosa?


Resposta: esta deve ser encarrada como uma riqueza para a
cultura humana e para o aperfeiçoamento deste rumo a uma
Auto-avaliação autocompreensão e a construção de um mundo no qual as
diferenças sao aceites e respeitadas.
2 – Como devemos olhar para o ateismo marxista?
Resoposta: o ateismo de Marx enquadra-se dentro de um
contexto histórico próprio. O homem pensa Deus. Não se pode
demosntrar que Deus é apenas produto do pensamento humano.

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Mundividência Religiosa Cristã37

Unidade N0 06-A0026
Tema: O Cristianismo
Introdução

No mundo em que vivemos estamos confrontados com uma


multiplicidade de estados religiosos e de formas multiculturais de
compreensão do homem e de Deus.
A prática religiosa ajuda a dimensao do conhecimento humano e
do seu trato. Reflectimos neste capitulo o modo de ser e de agir
do cristão na sua relacação com Deus e com a Igreja marcada no
seu credo, que a todo o momento ele professa.
Ao fazermos a reflexao queremos saber: que comportamento o
cristão mantem com Cristo que acredita e com a Igreja fundada
por Cristo? que relação o cristão tem com o outro e com o
mundo que o rodeia?

Ao completar esta unidade, você será capaz de:

 Explicar a fé cristã manifesta no credo.


 Mostrar as implicações da fé na vida quotidiana do cristão.
Objectivos  Apresentar a dignidade da vida humana

Sumário
O Cristianismo

Cristianismo é uma religião monoteísta centrada na vida e nos


ensinamentos de Jesus de Nazaré, tais como são apresentados no Novo
Testamento. A fé cristã acredita essencialmente em Jesus como o Cristo,
Filho de Deus, Salvador e Senhor.

Os seguidores do cristianismo, conhecidos como cristãos, acreditam que


Jesus é o Messias profetizado na Bíblia Hebraica. A teologia cristã afirma
que Jesus sofreu, morreu e ressuscitou para abrir o caminho para o céu

37
Mundividência Religiosa Cristã38

aos humanos; os cristãos acreditam que Jesus ascendeu, e a fé cristã


ensina que Jesus irá retornar para julgar todos os seres humanos, vivos e
mortos, e conceder a imortalidade aos seus seguidores. Jesus é
considerado para os cristãos como modelo de uma vida virtuosa, e tanto
como o revelador quanto a encarnação de Deus.

O cristianismo se iniciou como uma seita judaica e, como tal, da mesma


maneira que o próprio judaísmo ou o islamismo, é classificada como uma
religião abraâmica. Após se originar no Mediterrâneo Oriental,
rapidamente se expandiu em abrangência e influência, ao longo de poucas
décadas; no século IV já havia se tornado a religião dominante no
Império Romano. Durante a Idade Média a maior parte da Europa foi
cristianizada, e os cristãos também seguiram sendo uma significante
minoria religiosa no Oriente Médio, Norte da África e em partes da Índia.
Depois da Era das Descobertas, através de trabalho missionário e da
colonização, o cristianismo se espalhou para as Américas e pelo resto do
mundo. (O Cristianismo, in http;//pt;wikipedia.org/wiki, pagina visitada
em 20/03/2010).

Principais Crenças

Embora existam diferenças entre os cristãos sobre a forma como


interpretam certos aspectos da sua religião, é também possível apresentar
um conjunto de crenças que são partilhadas pela maioria deles.

Monoteísmo: O cristianismo herdou do judaísmo a crença na existência


de um único Deus, criador do universo e que pode intervir sobre ele. Os
seus atributos mais importantes são por isso a omnipotência, a
omnipresença e omnisciência. Outro dos atributos mais importantes de
Deus, referido várias vezes ao longo do Novo Testamento, é o Amor:
Deus ama todas as pessoas e estas podem estabelecer uma relação pessoal
com ele através da oração. A maioria das denominações cristãs professa
crer na Santíssima Trindade, isto é, que Deus é um ser eterno que existe
como três pessoas eternas, distintas e indivisíveis: o Pai, o Filho e o
Espírito Santo.

Jesus: Outro ponto crucial para os cristãos é o da centralidade da figura


de Jesus Cristo. Os cristãos reconhecem a importância dos ensinamentos
morais de Jesus, entre os quais salientam o amor a Deus e o amor ao
próximo, e consideram a sua vida como um exemplo a seguir. O
cristianismo reconhece Jesus como o Filho de Deus que veio à Terra
libertar os seres humanos do pecado através da sua morte na cruz e da sua
ressurreição, embora variem entre si quanto ao significado desta salvação
e como ela se dará. Para a maioria dos cristãos, Jesus é completamente
divino e completamente humano.

A salvação: O cristianismo acredita que a fé em Jesus Cristo proporciona


aos seres humanos a salvação e a vida eterna, mas vale lembrar que
biblicamente, as obras não são capazes de dar a uma pessoa a Vida
Eterna, a única maneira de alcançar a Salvação é dando crédito à obra da
cruz realizada pelo que os cristãos acreditam ser o filho de Deus, a saber
Jesus Cristo.

38
Mundividência Religiosa Cristã39

A vida depois da morte: A visão de determinadas religiões cristãs sobre


a vida depois da morte envolve, de uma maneira geral, a crença no céu e
no inferno. A Igreja Católica considera que para além destas duas
realidades existe o purgatório, um estado de purificação onde ficam as
almas que morreram em estado de graça, mas que cometeram pecados.

A Igreja: O cristianismo acredita na Igreja (ekklesia), palavra de origem


grega que significa "assembleia", entendida como a comunidade de todos
os cristãos e como corpo místico de Cristo presente na Terra e sua
continuidade.

Relação com Cristo e com a Igreja


O Concílio Vaticano II começa apresentando a Igreja como mistério.
Mistério não tanto como realidade misteriosa e escondida, mas no sentido
paulino de plano de salvação de Deus. A Igreja é sacramento de salvação.
A Igreja é mistério porque participa do mistério da trindade, participa da
comunidade primigénia. A Igreja é povo de Deus, corpo de Cristo e
Templo do Espirito Santo (cfr. LG 17, AG 7, PO 1). A Igreja como
mistério explicita-se na comunhão. É esta comunhão que exprime o
mistério da salvação. A comunhão realiza-se, antes de mais, com Deus e
depois com toda a criação.
Segundo Eusebio, S. Jeronimo e S. Cassiano, a vida religiosa consiste no
compromisso de realizar em plenitude tudo quanto é fundamentalmente
exigido a todos os baptizados (FROSINI: 2001:178).
Assim, a relação do cristão com Cristo e com a Igreja é uma relação de
comunhão; uma conhão que obedece a relação vertical e horizontal, na
qual cada um se acha como filho de Deus participante da graça divina e
da salvação que Deus oferece. Trata-se de uma relação de Amor, pois
Deus é amor. E é por meio deste grande mistério que todas as realidades
existem e são possiveis. É este amor que o cristão deve viver com o outro
na Igreja e fora dela, pois Deus é omnipresente.

A liberdade religiosa
Um dos temas de atualidade é o concernente a liberdade religiosa. Os
homens actuais estão conscientes cada vez mais da dignidade da pessoa e
assim crescem as reivindicações relativas a capacidade de cada um agir
segundo as suas convicções e com liberdade responsável. A exigência da
liberdade na sociedade humana diz respeito ao que se refere ao seu existir
e também ao exercício da religião na sociedade. A reivindicação pela
liberdade religiosa é fruto da tomada de consciência de que o homem é
criatura que vive mediante e guiado por uma certa vontade que ultrapassa
a sua racionalidade. Ė esta vontade que o homem deposita confiança e
tem a convicção que nela reside a verdade e que a mesma é a verdade na
qual deve seguir. A Declaração “Dignitatis Hunmanae” do Concilio
Vaticano II, n. 2, afirma que o sujeito e o fundamento da liberdade
religiosa é o próprio homem: “todos os homens devem estar livres de
coacção, quer dos indivíduos quer dos grupos sociais ou qualquer
autoridade humana; de tal modo que em matéria religiosa, ninguém seja
forcado a agir contra a própria consciência, nem impedido de proceder
segundo a mesma. Declara ainda que “a liberdade religiosa se funda na

39
Mundividência Religiosa Cristã40

própria dignidade da pessoa humana, como a palavra revelada de Deus e


a própria razão o dão a conhecer”.

Exercícios

1 – Em que consiste a vida cristã


Resposta: A vida crista consiste no amor a Deus e no amor ao
proximo. O Cristão acreditando em Deus e sua Igreja ama a todos
Auto-avaliação sem excepção.

40
Mundividência Religiosa Cristã41

Unidade N0 07-A0026
Tema: O ser humano – o indivíduo
e a pessoa.
Introdução
Pessoa se opõe ao indivíduo, se opõe à coisa e ao animal, ainda
que de modo distinto. Enquanto se distancia das coisas e aos
animais, o termo Pessoa se aproxima do termo Ser Humano, mas
não se superpõe a ele. Isso porque existem, entre as crenças da
cultura humana e, sobretudo, na consciência dos humanos,
pessoas não humanas, sobre-humanas, pessoas tão carregadas de
valoracao afectiva, espiritual que se representam em nossa
consciência como sendo mais próximas do divino e etéreo que do
humano. Mais correto seria chamá-los de seres que de Pessoas: é
o caso dos santos, das pessoas angélicas ou diabólicas, incluindo-
se aqui a idéia dos seres extraterrestres. O termo Pessoa remete a
algo obrigatoriamente humano e no sentido ético do termo.
Ao iniciarmos nossa reflexão sobre o ser humano, que é visto
como indivíduo e pessoa nos obrigam a refletirmos sobre estes
conceitos fundamentais para compreendermos a pessoa humana.
Do latim “individuus” significa qualquer ser que forma uma
unidade distinta e que não poder ser dividido, ser destruído.
Filosoficamente, indivíduo refere-se ao ser humano independente
e autônomo, tendo interesses e direitos eventualmente em
oposição com os da sociedade ou da espécie. (AA. VV.,
Dicionário Pratico de Filosofia, Terramar, p. 198-199).

Ao completar esta unidade, você será capaz de:

 Ter uma comprensão da pessoa humana.


 Descrever os elementos constitutivos do ser humano.

Objectivos

Sumário
O Indivíduo, a Pessoa e o Ser Humano

Toma-se por Indivíduo um representante da espécie, como por


exemplo, um cão, entre vários cães é um indivíduo. Esse termo
não é monopólio do mundo animal, pois, de modo geral, uma

41
Mundividência Religiosa Cristã42

rosa é um indivíduo do canteiro. Então indivíduo significa


“consistência, coesão, indivisibilidade interna, unidade. Unidade
que implica composição em partes. Enquanto tal esta unidade é
totalidade: diferenciada (implica uma multiplicidade qualitativa
de partes que compõem o todo), estruturada (existe uma
interdependência entre os diverso órgãos que compõem, uma
relação mutua) e centrada (o indivíduo tem um centro a partir do
qual se realiza essa totalidade). A planta tem um centro a partir
do qual se conserva a vida que o animal tem. No animal o centro
pode ser a consciência ou memória sensível”. (AA. VV: 2003:36-
37).
É preciso não confundir o indivíduo da pessoa moral. Enquanto a
noção de indivíduo remete, em primeiro lugar para, a unidade
fisiológica ou biológica, o principio da pessoa moral é a
identidade consciente e voluntária. Onde se fala de indivíduo
pomos acento nas particularidades ou nas diferenças que
distinguem de qualquer outro. As pessoas pelo contrário são
parecidas pela razão e pela faculdade de comunicação (AA. VV:
2003:198-199)

Pessoa se opõe ao indivíduo, se opõe à coisa e ao animal, ainda


que de modo distinto. Enquanto se distancia das coisas e aos
animais, o termo Pessoa se aproxima do termo Ser Humano, mas
não se sobrepõe a ele. Isso porque existem, entre as crenças da
cultura humana e, sobretudo, na consciência dos humanos,
pessoas não humanas, sobre-humanas, pessoas tão carregadas de
valoracão afetiva ou espiritual que se representam em nossa
consciência como sendo mais próximas do divino e etéreo que do
humano. Mais correto seria chamá-los de seres que de Pessoas: é
o caso dos santos, das pessoas angélicas ou diabólicas, incluindo-
se aqui a idéia dos seres extraterrestres. O termo Pessoa remete a
algo obrigatoriamente humano e no sentido ético do termo.

“O Ser Humano recebe uma distinção importante quando o


consideramos como Pessoa, assim como a Pessoa recebe uma
distinção redundante não menos importante quando a
consideramos, por força de expressão, como uma pessoa humana.
Subentendendo o adjetivo humano como relativo à ética.
Portanto, Ser Humano não é a mesma coisa que Pessoa, como
tampouco Ser Humano é o mesmo que cidadão, este muito mais
próximo do termo Pessoa. Ser Humano é um termo mais genérico
ou indeterminado, que diz respeito à espécie, à classificação, ao
mundo zoológico” (Ballone GJ - O Indivíduo, o Ser Humano e a
Pessoa - in. PsiqWeb Psiquiatria).
Pessoa é um termo mais específico, que tem a ver com o mundo
civilizado ou, se preferirmos, com a constelação dos valores
morais, éticos e jurídicos próprios da civilização. A etimologia da
palavra Pessoa (persona, personare) demonstra que é um conceito
sobreposto ao conceito de Ser Humano; o Ser humano capaz de
desempenhar muitos papéis; um mesmo ser humano é empresário
e delinqüente, é pai e metalúrgico, etc.

42
Mundividência Religiosa Cristã43

Persona (personagem) era a máscara que usavam os atores da


tragédia grega para desempenhar seu papel. Cabe entender o
conceito de Ser Humano ao lado do conceito de Pessoa. No
direito romano antigo os escravos eram seres humanos (homens),
mas não eram consideradas pessoas (patrícios). Os juristas
romanos que usavam o conceito de Ser Humano o dissociavam
do conceito de pessoas. O conceito de Pessoa aparecia como
resultado de um processo vinculado à liberação, ao menos
teórica, dos escravos (ou dos bárbaros) e não como um conceito
zoológico, biológico classificatório e mental. Portanto, ao nos
referirmos ao indivíduo da espécie humana que é merecedor da
consideração ontológica e ética devemos dizer Pessoa, não
apenas, Ser Humano, Homem, menos ainda Indivíduo e muito
menos ainda Elemento. (Site:
http://gballone.sites.uol.com.br/voce/pessoa.html, consulta de
25/03/2010).

Elementos constitutivos do ser humano


De que é constituído o ser humano?
Para falar do homem é preciso analisar a sua estrutura e
composição. Na visão antropológica grega antiga, pensamento
que configurou a estrutura do pensamento ocidental, encontramos
uma concepção dualista do homem. Em Homero o homem é visto
como conjunto de corpo (soma) e alma (psique). Para Homero a
alma é uma realidade imortal e o corpo está sujeito a morte. A
alma é uma substancia incorruptível que se encarna no corpo.
Platão sustenta que a alma é preexistente, habita no corpo
temporariamente. As almas vivem todas numa preexistência na
companhia dos deuses. Introduziram-se nos corpos como forma
de expiarem os seus pecados. O homem não é um ser unitário
nem foi criado pelos deuses. sua origem radica do acidente do
pecado das almas. A morte é um bem para as almas. Para
Aristóteles o homem é composto de um corpo material e uma
forma espiritual, incorruptível e imutalvel (M. Flick – Z.
Alszeghuy: 1971:5-8)

Na antropologia bíblica, a concepção do homem no Antigo


Testamento difere a dos filósofos gregos. Para a Bíblia o homem
é um ser criado por Deus e aberto ao diálogo com o seu criador.
O homem é o que é porque Deus o insuflou a sua “Ruah”, isto é,
o sopro que saiu das narinas de Deus que entrou no interior do
homem e lhe concedeu uma vitalidade nova, diferente a dos
animais. É “ruah” que faz do homem um ser dialogante com
Deus e com os outros No Novo Testamento o homem é
concebido como um ser uno, ser identificado com Cristo. São
Paulo apresenta o homem como unidade carne e espírito. O
homem espiritual é realmente filho de Deus. (M. Flick – Z.
Alszeghuy: 1971: 11-14).
A antropologia patrística apresenta o conceito de homem numa
visão filosófico-cristã, com influências do platonismo. O homem
é um corpo e uma alma. Para a Escola de Antioquia, a unidade

43
Mundividência Religiosa Cristã44

alma e corpo é uma unidade substancial. A alma é a forma do


corpo e a essência espiritual do homem. Santo Agostinho afirma
que a alma e o corpo estão intimamente ligados. São Tomás de
Aquino fala de matéria e forma, sendo a alma a forma e a matéria
o corpo. A pessoa humana comporta uma unidade corpo e
espírito (alma). A alma é espiritual e imortal e é princípio de
unidade do ser humano. Ė aquilo que faz com que o homem viva
como um todo. O corpo é o que possibilita unir os elementos do
mundo material, o mesmo é mortal. O homem é ser material,
ligado a este mundo pelo corpo e espiritual, aberto a
transcendência e a descoberta de uma verdade mais profunda.

Qual e a essência do homem?


Discutimos no capitulo anterior sobre os elementos constitutivos
do ser humano. Notamos que o homem é constituído por uma
dimensão material e uma dimensão espiritual. Aqui pretendemos
saber o que torna o homem ser homem. Trata-se de ver a
espiritualidade da natureza humana. E o espírito humano
manifesta-se através de dois tipos de actos: os intelectivos e os
volitivos. Por isso vamos reflectir sobre a consciência, a razão e a
liberdade.

Consciência.
O homem no mundo em que habita se distingue de tudo e
percebe-se como ele mesmo, sabe que ele é. Sabe na medida em
que afirma ou experimenta o “eu”, um “eu” único , indivisível e
irrepetível. Quando perguntamos quem é o homem, perguntamos
quem sou eu. Atingir o ser homem implica ter conhecimento do
eu.
Mas o que significa o termo “eu”?
Eu pode significar duas realidades: Eu Centro e eu-totalidade.
Então, eu quero, eu conheço; eu ando eu sou empurrado. Na
consciência percebemos uma pluralidade e uma diversidade de
actos. Mas é uma pluralidade unida. Na base da unidade da
consciência deve haver um principio de unidade, um elemento
que constitui a unidade e que se mantêm idêntico na pluralidade.
Este princípio de unidade de meus actos se denomina eu. Quando
vejo este livro percebo que eu vejo. O termo consciência designa
conhecimento de si e de algo. Por isso, fala-se de consciência de
algo e consciência de si ou auto consciência. A reflexão é um
dobrar-se sobre si mesmo. (RABUSKE: 2001:68-69)

“Consciência pode definir-se como conhecimento que o homem


possui dos seus pensamentos, dos seus sentimentos e dos seus
actos. A consciência pode ser: expontanea ou imediata: que
remete para a simples presença do homem perante si mesmo, no
momento em que pensa, sente, age, etc. E, consciência reflexiva
ou secundaria, que é a capacidade de se fazer um recuo perante
os nossos pensamentos e, simultaneamente, analisa-los e julga-
los” (AA.VV. Dicionario Pratico de Filosofia, Terramar.

44
Mundividência Religiosa Cristã45

ibidem). A consciência faz do homem um ser capaz de pensar o


mundo que o rodeia. É na consciência onde estão as raízes do
sentimento da existência e o pensamento da morte. A consciência
é a essência do homem, e ao mesmo tempo miséria e riqueza do
homem. Para Paul Ricoer, a consciência é fornecedora de
sentido, sendo o sentido aquilo que faz um ser orientar-se para
algo, algures no futuro.

A constituição pastoral sobre a igreja no mundo actual, Gaudium


et Spes, n.16, falando da consciência moral, diz que “o homem
descobre uma lei que não se impôs a si mas a qual deve obedecer;
essa voz que sempre o esta a chamar ao amor do bem e fuga do
mal, soa no momento oportuno, na intimidade do seu coração:
faz isto, evita aquilo. O homem tem no coração uma lei escrita
por deus; a sua dignidade esta obedecendo esta lei. A consciência
é o núcleo mais secreto e o sacrário do homem, no qual se
encontra a sos com Deus, cuja voz se faz ouvir na intimidade do
seu ser”. A consciência aparece como o núcleo através do qual o
homem pode realizar actos, bons, desejáveis e aceites ou como
lugar onde podem brotar actos indesejáveis, repugnantes.

Razão humana.
O homem e constituído por espírito e corpo. O espírito apesar de
unido ao corpo tem certa autonomia. A verdadeira autonomia
reside na liberdade. O dicionário pratico de filosofia afirma que a
razão é faculdade de conhecer, de julgar, de determinar a sua
conduta. Trata-se de faculdade de combinar juízos, de julgar
bem. Enquanto faculdade de combinar juízos, a razão guia o
espírito na sua investigação reflectida e ordenada de tudo aquilo
que procura conhecer. A razão é faculdade que nos torna
simultaneamente capazes de formar conceitos e juízos, de
organizar os nossos conhecimentos em sistemas e de dar um
sentido ao universo, induzindo uma ordem nas representações
simbólicas que temos. Como faculdade de julgar, a razão concede
princípios de conhecimento que devem reger a acção. Ela e o
fundamento da possibilidade da moral.

Exercícios

1 – O que diferencia o indivíduo do ser humano e da pessoa?


2 – Qual é a essência do ser humano?

Auto-avaliação

45
Mundividência Religiosa Cristã46

Unidade N0 08-A0026
Tema: A liberdade e
transcendência humana

Introdução
A liberdade e a transcendência são atributos da pessoa humana.
De um lado está a capacidade de escolha, de outra a capacidade
de superação.

Ao completar esta unidade, você será capaz de:

 Reflectir sobre a liberdade e a transcedência do ser humano;


 Descobrir os limites da liberdade humana.
Objectivos

Sumário
A liberdade do ser humano
“Deus quis deixar ao homem o poder de decidir (eclo. 15,14). A
dignidade do homem exige que ele possa agir de acordo com uma
opção consciente e livre; movido e levado por convicção pessoal
e não por forca de um impulso interno cego ou debaixo de mera
coação” (PONTIFICIO CONSELHO “JUSTICA E PAZ”. 2009.
n.135) . O que caracteriza a pessoa humana é a liberdade .
Perante este facto uns afirmam a existência da liberdade e outros
a sua não existência. Estas tendências partem de como definem o
homem. Para definir o homem podemos encontrar duas
tendências: uma individualista que encerra o homem na sua
individualidade, afirmando que o homem e ser em si mesmo e
outros de tendência altruísta que afirma a pessoa humana de ser
em relação (Martin Buber).

Descartes definiu o homem a partir de si mesmo. Ė no “cogito


ergo sum” que encontramos o significado do homem. Para

46
Mundividência Religiosa Cristã47

Descartes o homem é um ser egoísta e individual, cujo centro de


atenção é si mesmo. Martin Buber, diferentemente, vai dizer que
o homem é um ser de relações.
O idealismo hegeliano não dá liberdade ao homem. A pessoa é
ser de relação com o absoluto. Na relação com o absoluto o
homem é absorvido,. O absoluto engole a pessoa. O marxismo
como o idealismo, o homem é apresentado como um ser de
relações. O homem é o ser que entra em relação com a
comunidade e esta o devora. A comunidade é o centro das
atenções. Não existe o homem individual, mas o homem
colectivo. O existencialismo está mais para o sentido. O que
existe está para fora. Gabriel Marcel diz que a pessoa esta na
relação eu-tu, através do dialogo comunicativo. O homem é ser
com os outros. Karl Jaspes, distingue três elementos na pessoa:
ser histórico, ser em si mesmo e ser comunicativo. Sartre
distingue o homem dos outros objectos. O homem é ser para si. O
nada cria-se a partir do ser.

A antropologia teológica afirma que o homem e pessoa enquanto


tem relação com Deus. Deus é para o homem um “:eu” e um
“tu”. O homem é pessoa na medida em que se personaliza em
Deus. O homem é um ser livre porque Deus é absolutamente
livre. Ė livre ma medida em que pode escolher. O homem em
comparação com o animal é livre porque o animal não muda de
procedimento, não tem capacidade de escolher, não tem projecto,
não pode progredir nem regredir, depende se sua condição
natural. Liberdade é capacidade de dizer sim ou não ao bem e
também de dizer sim ou não ao mal. Por isso, perante o sim ao
bem, o homem recebe louvores e graças por parte dos homens e
de Deus e perante o sim ao mal o homem recebe repreensão e
castigo. Por isso, na liberdade esta implicada uma
responsabilidade. A liberdade de (escolha) é ao mesmo tempo
uma liberdade para (a responsabilidade). “Liberdade é
capacidade de decidir-se a si mesmo para um determinado agir
ou sua omissão, respectivamente para este ou aquele agir”
(RABUSKE: 2001:89).

Trata-se de um o poder, do eu mesmo que se refere a um acto


que tem um objecto. Isto implica duas situações: primeira,
determinado acto deve ser posto ou não e, segundo, eu me decido
ou não por este ou aquele modo de agir. No acto livre a decisão
da minha liberdade e a causa primeira, para que a minha
liberdade se torne assim e não de outra forma. Então, no querer
livre aparece 0 agarrar-se a possibilidade ou aos objectivos. Por
isso, a liberdade não e somente a capacidade duma escolha mas
uma decisão sobre mim mesmo e as possibilidades da minha
própria existência. A liberdade de escolha pressupõe como
condição de possibilidade que o homem seja livre: que tenha
autonomia, espontaneidade, abertura ao ilimitado e não esteja
amarado, determinado. Esta propriedade é liberdade
fundamental.

47
Mundividência Religiosa Cristã48

A liberdade é uma propriedade da vontade, do querer, do tender.


O que pretende e o bem, o valor.. a capacidade de decidir-se
livremente por um determinado bem supõe o conhecimento de
que este bem e parcial. Mas o homem não é simplesmente livre
como uma pedra. A consciência da liberdade deve ser
conquistada pelo homem.
A transcendência do ser humano
Edgar Shelfied Broghtman, na definição da pessoa afirma que
pessoa é potencialmente autoconsciente, racional e ideal ou seja,
um si que é capaz de reflectir sobre si mesmo, de raciocinar, de
reconhecer fins ideais à luz dos quais está em condições de julgar
as próprias acções. O traço mais característico da personalidade,
segundo Brightman é a autoconsciência.. Na transcendência a
pessoa se eleva de um nível mais alto de existência. Pessoa quer
dizer: autonomia no ser, domínio de si mesmo, invisibilidade,
inviolabilidade, incomunicabilidade, unicidade. Pessoa e
substancia indivisível, inviolável, incomunicável. Pessoa é ser em
relação, que entra em comunicação com as coisas, com os outros
e com Deus. (MONDIN: 1980).
A pessoa é constituída por quatro elementos principais:
autonomia quanto ao ser, autoconsciência, comunicação e
autotranscendência. A pessoa humana pertence a abertura a
transcendência: o homem é aberto ao infinito e a todos os seres
criados. A pessoa humana tende a verdade e ao bem absoluto. Ė
também aberto ao outro, aos outros e ao mundo, porque somente
enquanto se compreende em referencia a um tu pode dizer eu.
Sai de si, da sua conservação egoísta da própria vida, para entrar
numa relação de diálogo e de comunhão com o outro.

A pessoa é abertura a totalidade do ser, ao horizonte ilimitado do


ser. Tem em si a capacidade de transcender cada objecto
particular que conhece, efectivamente, graças a esta sua abertura
ao ser sem limites. A alma humana e, num certo sentido, pela sua
dimensão cognoscitiva, todas as coisas: “todas as coisas
imateriais gozam de uma certa infinidade, enquanto abraçam
tudo, ou porque se trata da essência de uma realidade espiritual
que serve de modelo e semelhança de tudo, como é no caso de
Deus, ou porque possui a semelhança de cada coisa , ou em acto
como nos anjos, ou em potência como nas almas” (PONTIFICIO
CONSELHO “JUSTICA E PAZ”. 2009. n.130).

48
Mundividência Religiosa Cristã49

Exercícios

1 – Explica as implicações da liberdade do ser humano?


Resposta: a liberdade implica reconhecimento do ser humano
como criatura elevada que está no mundo como responsavél do
seu progresso e do seu regresso.
Auto-avaliação

49
Mundividência Religiosa Cristã50

Unidade N0 09-A0026
Tema: Concepções cosmogónicas
antigas

Introdução

A filosofia surgiu nos séculos VII – VI a.C. nas cidades


gregas situadas na Ásia Menor. Começa por ser uma
interpretação des-sacralizada dos mitos cosmogónicos
difundidos pelas religiões do tempo. Não apenas de mitos
gregos, mas dos mitos de todas as religiões que
influenciavam a Ásia menor. Os mitos foram segundo
Platão e Aristóteles a matéria inicial de reflexão dos
filósofos. Eles tornaram-se num campo comum da religião
e da filosofia, revelando que a pretensa separação entre
estes dois modos do homem interpretar a realidade não é tão
nítida como aparentemente se julga.

Nas religiões que existiam nesta altura, Rodolfo Mondolfo


afirma que é possível determinar alguns pontos comuns que
seriam facilmente apreensíveis pelos primeiros filósofos:

- Unidade universal. Nas principais religiões politeístas os


vários deuses estavam subordinados à figura de um deus
tutelar do qual tudo derivava e para o qual tudo convergia.
Assim era no Egipto, Mesopotâmia ou na Índia.

- Do caos inicial à ordem. As cosmogonias (as explicações


sobre a origem do cosmos) são concebidas como um
processo de passagem do caos inicial à ordem. O processo
cosmogónico é explicado de três modos essenciais: a) uma
potência intrínseca à matéria criou o cosmos desde o caos
inicial; b) um espírito exterior à matéria actuou sobre ela,
conferindo-lhe a forma actual; c) O cosmos resultou de uma
luta incessante entre dois polos opostos( caos/ordem,
morte/vida, etc).

- Conexão universal. Todos os seres estavam unidos por


uma espécie de simpatia universal.
.

50
Mundividência Religiosa Cristã51

- Lei universal. Estava muito difundida uma lei universal


sob a forma de um eterno retorno cíclico que se completava
no grande ano cósmico, quando todas as coisas retornavam
a ser aquilo que haviam sido.

- Dualismo. O corpo era mortal, mas a alma não. Mas a


imortalidade da alma estava condicionada pelo modo como fora
vivida a última passagem pela terra. Tudo dependia da pureza
que se havia sabido manter. Uma justiça universal recompensava
uns, mas castigava igualmente outros pela forma como haviam
vivido

Depois desta unidade você será capaz de:

 Explicar as várias teorias sobre a origem do universo;


 Descrever as implicações das varias teorias na vida do homem.
 Compreender o universo como lugar necessário existência humana.
Objectivos

Sumário
Concepções Cosmogónicas e Cosmológicas

MESOPOTÁMIA

Os Sumérios foram entre cerca de 3.000 e meados do ano 2000


a.C os criadores da matriz das cosmologias e cosmogonias dos
povos que habitaram a região da Mesopotâmia, sendo também
notória a sua influencia nas cosmogonias judaicas e cristãs.

Cosmologia e Cosmogonia Mesopotámica


A Terra é um disco chato. O céu, um espaço vazio, fechado na
parte superior e na parte inferior por uma superfície sólida com a
forma de uma abóbada. O material desta abobada seria
provavelmente estanho, metal designado por "metal-do-céu".
Entre o céu e a terra existia uma substância chamada lil, o
"vento" (ar, sopro, espírito). Da mesma matéria "vento", eram
constituídos o Sol, a Lua, os planetas e as estrelas, possuindo a
propriedade da luminosidade. Rodeando o cosmos (céu-terra) por
todos os lados, existia o oceano, no seu seio do qual este se
encontrava. A manutenção, o controlo e o funcionamento do
cosmos era assegurado por uma multiplicidade de seres
sobrenaturais. Os deuses viviam numa montanha onde o sol
nascia.

51
Mundividência Religiosa Cristã52

Ao princípio havia apenas o mar primordial. A matéria era


concebida como eterna. Este mar primordial produziu a
montanha cósmica, composta do céu e da Terra ainda unidos.
Personificados e concebidos como deuses de forma humana, o
céu, ou seja o Deus An, desempenhou o papel de macho e a
Terra, isto é, Ki, o de fêmea. Da sua união nasceu o deus do ar,
Enlil, o qual acabou por separar o céu da Terra. Enquanto seu pai,
An, levava o céu, Enlil levava a Terra, sua mãe. Da união entre
Enlil e sua mãe, a Terra, foi gerado o cosmos, os homens, os
animais, plantas, etc (Descrição a partir de Samuel Kramer).

BABILÓNIA E ASSIRIOS

A primeira aparição dos babilónios deu-se por volta do ano 2000


a.C, quando Hammurabi conquistou a Babilónia e a tornou na
principal cidade do próximo oriente. Estabeleceu também o culto
de Marduk. O poder na mesopotâmia revelou-se sempre muito
precário, diversos povos lutam pela conquista desta rica região.
Os assírios dominaram-na com extrema crueldade entre o século
XI o ano 612 a.C., quando foram praticamente exterminados
pelos babilónios e pelos medos. O seu poder foi todavia dos mais
duradouros, tendo-se estendido a outras regiões como a Síria,
Palestina e por um breve período ao Egipto. A sua religião pouco
deferia da seguida pelos babilónios, as principais diferenças
residiam na importância relativa dos deuses. O povo que detinha
o poder na região impunha a supremacia dos deuses com que
mais se identificava.

Cosmologia:
O universo compõe-se de duas partes, uma celeste, outra terrena.
O céu é um hemisfério fixo que cobre o mundo e divide-se em
três partes: o céu de Anu, o de Igigi (determinados deuses), no
qual vive Bel-Marduk, e o das Estrelas. Uma base sustém o céu
como uma casa. Cavilhas prendem-no ao oceano celeste e um
dique protege-o das águas. A Terra fica sob a abóbada celeste.
Também ela se divide em três partes: a terra dos humanos, reino
de Enlil por debaixo da terra, Ea, o deus da água, e ainda mais
abaixo a terra dos deuses inferiores, dos Anunnaki. A terra está
ligada ao céu por um cabo. Tem no centro uma grande
montanha. Um lugar serve de morada aos deuses. O oceano que
cerca a Terra e o céu é a origem de todos os rios e mares. (http://
A filosofia.no.sapo. prtl. Index. Html, consulta 23/03/2010)

EGIPTO

A partir do século XI a.C o egipto entra numa fase de


progressiva decadência. Retira-se do Eufrates, abandona a Síria, e
é conquistado por sucessivos povos (líbios, etíopes, assírios,
persas, etc).A cosmologia e cosmogonia egipcia não parece ter-se
alterado substancialmente, apenas se tornou mais abstracta.

52
Mundividência Religiosa Cristã53

Cosmologia:

O céu (de natureza feminina) era considerado um oceano sobre o


qual o sol, a lua e as estrelas navegavam nos seus barcos. O
reaparecimento do sol pela manhã era explicado com a existência
dum rio subterrâneo sobre o qual o sol atravessava de noite os
infernos, de que Osíris era o deus.

ÍNDIA
No século VI a.C. a Índia estava dividida em vários estados que
permanentemente estavam à guerra entre si. É neste contexto
político que ocorre quer a reforma do Hinduísmo ou
bramanismo(a religião tradicional), quer se assiste ao nascimento
de duas importantes religiões o Jainismo e o Budismo. (http:// A
filosofia.no.sapo. prtl. Index. Html, consulta 23/03/2010).

Hinduísmo: O Hinduísmo não se trata propriamente de uma


religião, mas de um conjunto de crenças religiosas, entre as quais
se destaca o bramanismo. Esta religião começa a formar-se por
volta do ano 1.500 a.C, quando os arianos conquistam o Panjabe
no subcontinente indiano. Os textos mais antigos do
bramanismo, os Vedas datam da época de conquista dos arianos,
e foram escritos em sanscrito. Trata-se de uma colecção de
cânticos e sentenças onde está presente uma concepção
marcadamente politeísta e sacrificial da religião.

Por volta do ano 1000 a.C. os sacerdotes (brãmanes) começam a


produzir importantes textos sagrados, os brãhmana..
Descendentes dos antigos conquistadores arianos são agora a
casta mais elevada na sociedade indiana. Formam um grupo
muito fechado, cujos cargos são hereditários, sendo proibidos,
sob pena de repúdio, o casamento do seus membros com
indivíduos de outra casta. A mistura de sangues é declarada o
crime dos crimes. Toda a religião passa a concentra-se em torno
de um tríada de deuses: Brama, o criador do mundo, Vishnu, o
deus do bem, e Shiva o deus do mal . O grande objectivo da vida
dos indivíduos é a libertação do ciclo das reencarnações. As
variações no bramanismo, são sobretudo no modo como o
indivíduo pode atingir esta libertação.

No século VII a.C., numa altura de intensas discussões


teológicas, começam a ser redigidos os Upanishad
("comunicações confidenciais"), onde surge uma concepção
filosófica da religião. Os Upanishad rompem com as ideias
originais da divindade e vêem em o brâman como espírito da
realidade presente em tudo. Cada homem devia purificar a sua
alma (Atmã) para se identificar com o absoluto, o Brahman,
dissolvendo-se na sua força que opera nos indivíduos, como no
universo. Estabelece-se então o princípio da libertação do ciclo
das reencarnações, através das boas acções. ( http:// A
filosofia.no.sapo. prtl. Index. Html, consulta 23/03/2010).

53
Mundividência Religiosa Cristã54

Cosmogonia e Cosmologia:

O cosmos é concebido como eterno, embora esteja em evolução.


Os muitos mundos que o compõem (ovos de brahmã) estão
sujeitos a ciclos periódicos de nascimento, existência e morte. A
forma como esta criação se processa varia conforme a corrente
religiosa. O mundo é formado por um terra, onde vive os homens
e os animais. Esta está rodeada pelo mar. Por debaixo de tudo
encontra-se o mundo subterrâneo, onde moram os demónios e
existem os infernos. É aqui que os maus expiam temporariamente
os seus pecados. Por cima da terra encontram-se sobrepostas as
diversas moradas celestiais dos seres divinos. Todos os seres
vivos possuem almas imortais, que estão obrigadas a vaguear de
uma existência para outra.

CHINA

Na concepção chinesa do cosmos o imperador desempenhava


um papel fundamental. Ele era o intermediário entre o homem e
Shang-ti, a dividade celeste. Cabia-lhe a missão de harmonizava
os vários elementos pondo-os em consonância com o cosmos, de
modo a conseguir a felicidade das pessoas. Cada homem, por sua
vez, devia viver em função do ciclo anual da natureza e em
harmonia com o cosmos. A procura da harmonia global era o
princípio que devia comandar o comportamento ético de todos
de acordo com o seu estatuto social. Sob a dinastia Chou (1122-
771 a.C) o estado chinês mostra-se extremamente centralizado.
Os imperadores eram venerados como deuses, tendo títulos como
"filho dos céus" ou "representante dos céus". Apesar da aparente
bondade da ideologia oficial, a população chinesa estava
submetida a uma tal exploração que conduziu em 842 a.C. à
queda do rei, desmembrando-se o país dividido em vários
principados. No século VII a.C. a China está dividida em cinco
Estados que se guerreiam entre si até século III a.C. É neste caos
que surgem duas personagens lendárias, Lao-Tsé e Confúcio que
irão influenciar as concepções religiosas e éticas dos chineses até
aos nossos dias.

Lao-Tsé (604-517a.C), em chinês "velho mestre".Teria sido


arquivista e astrónomo na corte dos reis da dinastia Zhu. Os seus
ensinamentos foram transmitidos oralmente, até serem escritos
pelos seus discípulos. O taoísmo foi a religião popular dos
chineses à margem do Estado. A palavra Tao possui um
significado muito abrangente: Princípio, Fim, Todo. O taoismo
despreza os valores sociais, a família ou o governo. Era o
indivíduo que contemplando o curso natural das coisas, devia
saber por si próprio quando convinha agir ou abster-se. (Site:
http:// A filosofia.no.sapo. prtl. Index. Html, consulta
23/03/2010)

Cosmogonia:
O caos primordial é descrito como uma vasta esfera, uma matriz,
ou um odre, que contém no seu seio todo o universo no estado

54
Mundividência Religiosa Cristã55

difuso e indiferenciado. Este caos é constituído por energias em


estado de mistura (sopros). Aquando da criação estes sopros
separam-se e formam as "dez mil coisas". A matriz original é
eterna, mas está sujeita à acção espontânea e cíclica de Tao.
Estabelece-se então uma dualidade cósmica. Os sopros
transparentes sobem e formam os céus. Os pesados e opacos
descem e transformam-se na terra. O sol e a lua são a melhor
manifestação da dualidade complementar que atravessa toda a
criação, expressa pelo Yin (a sombra. o duplo, o negativo, etc) e
pelo yang (a luz, o principal, o positivo, etc). Yin e Yang opõem-
se continuamente. Da sua dinâmica dual resultam todas as
transformações da criação: o dia e a noite, os ciclos lunares, as
estações, a vida e a morte. A sua acção é ciclica: quando o Yin

PÉRSIA:

Persas, oriundos do actual Irão, conquistam a ásia menor em


meados do século VI a.C., formando um vasto Império,
implantando também uma nova religião, o zaroastrismo. O seu
fundador, Zaratustra (ou zaroastro) terá vivido algures entre o
ano 1000 e o ano 500 a.C.. Depurou de deuses a religião
tradicional. Ensinou que existia apenas um único deus, Ahura
Mazda, o princípio do bem. Presente na mente de cada homem
luta constantemente contra Arimã, o princípio do mal, cabendo a
cada uma agir de forma a dar o poder ao princípio do bem.
Cosmologia:
O universo é formado pelo ultra-luminoso, pela terra dividida em
sete zonas e pelo tenebroso mundo. O universo é encarado como
um vasto campo de batalha, onde lutam entre si o princípio bem
(Ahura Mazda) e o princípio do mal(Arimã). Desta luta resulta
não apenas a criação das coisas, mas a própria sucessão dos
aconteciment(http:// A filosofia.no.sapo. prtl. Index. Html,
consulta 23/03/2010)

JUDEIA E ISRAEL

O reino unificado de Judéia e de Israel teve o seu último período


de esplendor com Salomão (século X a.C), após a sua morte foi o
mesmo dividido. No final do século VIII a.C. Israel foi
conquistada pela assíria, sendo muitos dos seus habitantes
levados para a Assíria, tendo aí desaparecido, sendo hoje
conhecidos como as dez tribos perdidas de Israel. O reino da
judeia manteve a sua independência a troco de um pesado tributo.
Cerca de 150 anos mais tarde, os babilônios tomam a sua capital -
Jerusalém e arrasam-na (586 a.C.), levando consigo grande
número de prisioneiros. No seu cativeiro na Babilônia os judeus
absorveram aí muitos conceitos novos que vieram a incorporar no
judaísmo: Ressurreição dos Mortos, Inferno, Demônios,
Apocalipse, etc. Como dissemos, a partir de meados do séc. VIII
a.C. o judaísmo entra num período de grande produção
doutrinária, conhecido pela " tempo dos profetas ". Estes afirmam
de forma clara a universalidade e unicidade de Deus.

55
Mundividência Religiosa Cristã56

Cosmologia e Cosmogonia:

Por cima da abóbada estrelada encontra-se o céu com o oceano


celeste. Deste oceano caí a chuva quando Deus abre as janelas.
Por baixo está a terra que flutua sobre oceano terrestre. Os
infernos encontram-se numa cavidade sob a crosta, para onde
caiem os pecadores. O mundo foi criado por Deus no dia 7 de
Dezembro de 3761 a.C.. Esta data marca o inicio do calendário
judaico. (http:// A filosofia.no.sapo. prtl. Index. Html, consulta
23/03/2010).

Exercícios
1 – Descreva as diversas concepções cosmológicas da
antiguidade?
2 – Faça um quadro comparativo entre as abordagens nas
diversas concepções cosmológicas.
Auto-avaliação

56
Mundividência Religiosa Cristã57

Unidade N0 10-A0026
Tema: A origem do Universo

Introdução

Vários são os relatos e teorias sobre a origem do Universo. Nesta unidade


teremos a oportunidade de discutí-las uma a uma, de modo a tirarmos
delas as principais contribuições na compreensão sobre a origem da
humanidade.

No fim desta unidade esperamos que você seja capaz de:

 Caracterizar cada uma das teorias sobre a origem do universo;

Objectivos

Sumário
Origem do Universo
Cosmologias da Terra plana
Como era a cosmovisão, a forma do universo imaginada pelos
antigos egípcios, gregos, chineses, árabes, incas, maias e tupi-
guaranis, que não tinham acesso às informações da moderna
astronomia? Para quase todas as civilizações, sempre foi
necessário acomodar não só a face visível da Terra e do céu, mas
também incluir, possivelmente no espaço, o mundo dos mortos,
tanto os abençoados como os condenados, além dos reinos dos
deuses e dos demônios. A experiência do cotidiano sugere que o
mundo em que vivemos é plano; além disso, muitas cosmologias
eram interpretações associadas ao ambiente físico ou cultural da
civilização em questão.

57
Mundividência Religiosa Cristã58

Por exemplo, para os egípcios, o universo era uma ilha plana


cortada por um rio, sobre a qual estava suspensa uma abóbada
sustentada por quatro colunas. Na Índia antiga, as várias
cosmologias dos hindus, brâmanes, budistas etc. tinham em
comum o pressuposto da doutrina da reencarnação e as
configurações físicas deveriam acomodá-la, incluindo os diversos
níveis de céus e infernos por ela demandada. Para os hindus – por
exemplo – o universo era um ovo redondo coberto por sete cascas
concêntricas feitas com distintos elementos. Já os babilônios
imaginavam um universo em duas camadas conectadas por uma
escada cósmica.
A civilização maia era fortemente dependente do milho e das
chuvas, muitas vezes escassas, que vinham do céu. Para eles, no
começo havia apenas o céu, o mar e o criador; esse, após várias
tentativas fracassadas, conseguiu construir pessoas a partir de
milho e água.
No antigo testamento judaico-cristão, a Terra era relatada em
conexão ao misterioso firmamento, às águas acima do
firmamento, às fontes do abismo, ao limbo e à casa dos ventos. O
livro do Gênesis narra, também, que o universo teve um começo:
"No princípio Deus criou os céus e a Terra. A Terra, porém,
estava informe e vazia; as trevas cobriam o abismo e o Espírito
de Deus pairava sobre as águas. Deus disse: 'Faça-se a luz'. E a
luz foi feita. Deus viu que a luz era boa, e separou a luz das
trevas. Deus chamou à luz DIA, e às trevas NOITE. Houve uma
tarde e uma manhã: foi o primeiro dia". (Origem do universo,
Wikipedia, la enciclopedia libre, in
http://es.Wikipedia.org/wiki/evolucion#el.origen,23/03/2010)
Modelos Geocêntricos
Há cerca de 2.400 anos, os gregos já haviam desenvolvido
sofisticados métodos geométricos e o pensamento filosófico. Não
foi, pois, por acaso que eles propuseram uma cosmologia mais
sofisticada do que a idéia do universo plano. Um universo
esférico, a Terra, circundado por objetos celestes que descreviam
órbitas geométricas e previsíveis e também pelas estrelas fixas.
Uma versão do modelo geocêntrico parece ter sido proposta
inicialmente por Eudoxus de Cnidus (c.400-c.350 a.C.,
matemático e astrônomo grego, nascido na atual Turquia) e
sofreu diversos aperfeiçoamentos. Um deles foi proposto por
Aristóteles (384-322 a.C.), que demonstrou que a Terra é
esférica; ele chegou a essa conclusão a partir da observação da
sombra projetada durante um eclipse lunar. Ele calculou,
também, o seu tamanho – cerca de 50% maior do que o valor
correto. O modelo geocêntrico de Aristóteles era composto por
49 esferas concêntricas que procuravam explicar os movimentos
de todos os corpos celestes. A esfera mais externa era a das
estrelas fixas e que controlava todas as esferas internas. Essa, por
sua vez, era controlada por uma agência (entidade) sobrenatural.
Esse modelo geocêntrico grego teve outros aperfeiçoamentos.
Erastóstenes (c.276-c. 194 a.C., escritor grego, nascido na atual
Líbia) mediu a circunferência da Terra por método experimental,

58
Mundividência Religiosa Cristã59

obtendo um valor cerca de 15% maior do que o valor real. Já


Ptolomeu (Claudius Ptolomeus, segundo século a.C., astrônomo e
geógrafo egípcio) modificou o modelo de Aristóteles,
introduzindo os epiciclos, isto é, um modelo no qual os planetas
descrevem movimentos de pequenos círculos que se movem
sobre círculos maiores, esses centrados na Terra.

A Teoria Heliocêntrica
A idéia de que o Sol está no centro do universo e de que a Terra
gira em torno dele, conhecida como a teoria heliocêntrica, já
havia sido proposta por Aristarco de Samos (c.320 – c.250 a.C.,
matemático e astrônomo grego); ele propôs essa teoria com base
nas estimativas dos tamanhos e distâncias do Sol e da Lua.
Concluiu que a Terra gira em torno do Sol e que as estrelas
formariam uma esfera fixa, muito distante. Essa teoria atraiu
pouca atenção, principalmente porque contradizia a teoria
geocêntrica de Aristóteles, então com muito prestígio e, também,
porque a idéia de que a Terra está em movimento não era muito
atraente.
Cerca de dois mil anos mais tarde, Copérnico (Nicolaus
Copernicus, 1473-1543, astrônomo polonês) descreveu o seu
modelo heliocêntrico, em 1510, na obra Commentariolus, que
circulou anonimamente; Copérnico parece ter previsto o impacto
que sua teoria provocaria, tanto assim que só permitiu que a obra
fosse publicada após a sua morte. A teoria foi publicada
abertamente em 1543 no livro De Revolutionibus Orbium
Coelesti e dedicada ao papa Paulo III.
O modelo heliocêntrico provocou uma revolução não somente na
astronomia, mas também um impacto cultural com reflexos
filosóficos e religiosos. O modelo aristotélico havia sido
incorporado de tal forma no pensamento, que tirar o homem do
centro do universo acabou se revelando uma experiência
traumática.

Por fim, o modelo heliocêntrico de Copérnico afirmou-se como o


correto. Mas por que o modelo de Aristarco de Samos não
sobreviveu, cerca de 2.000 anos antes, se afinal também estava
certo? Basicamente porque, para fins práticos, não fazia muita
diferença quando comparado com o modelo geocêntrico. As
medidas não eram muito precisas e tanto uma teoria quanto a
outra davam respostas satisfatórias. Nesse caso, o modelo
geocêntrico parecia mais de acordo com a prática do dia-a-dia;
além disso, era um modelo homocêntrico, o que estava em
acordo com o demandado por escolas filosóficas e teológicas.
Após a publicação da teoria de Copérnico, no entanto, alguns
avanços técnicos e científicos fizeram que ela se tornasse
claramente superior ao sistema de Ptolomeu. Tycho Brahe (1546-
1601, astrônomo dinamarquês) teve um papel importante ao
avançar as técnicas de fazer medidas precisas com instrumentos a
olho nu, pois lunetas e telescópios ainda não haviam sido
inventados. Essas medidas eram cerca de dez vezes mais precisas

59
Mundividência Religiosa Cristã60

do que as medidas anteriores. Em 1597 ele se mudou para Praga,


onde contratou, em 1600, Johannes Kepler (1571-1630,
matemático e astrônomo alemão) como seu assistente. Mais
tarde, Kepler usou as medidas de Tycho para estabelecer suas leis
de movimento dos planetas. Essas leis mostravam que as órbitas
que os planetas descrevem são elipses, tendo o Sol em um dos
focos. Com isso, cálculos teóricos e medidas passaram a ter uma
concordância muito maior do que no sistema antigo. Se não por
outro motivo, essa precisão e a economia que ela propiciava
seriam tão importantes para as grandes navegações que ela se
imporia por razões práticas.

Galileu, ao desenvolver a luneta, criou um instrumento vital para


a pesquisa astronômica, pois amplia, de forma extraordinária, a
capacidade do olho humano. Apontando para o Sol, descobriu as
manchas solares; apontando para Júpiter, descobriu as quatro
primeiras luas; e ao olhar para a Via-Láctea, mostrou que ela é
composta por miríades de estrelas.
A Teoria do Big Bang
Na década de 1920, o astrônomo americano Edwin Hubble
procurou es-tabelecer uma relação entre a distância de uma
galáxia e a velocidade com que ela se aproxima e se afasta de
nós. A velocidade da galáxia se mede com relativa facilidade,
mas a distância requer uma série de trabalhos encadeados e, por
isso, é trabalhoso e relativamente impreciso. Após muito
trabalho, ele descobriu uma correlação entre a distância e a
velocidade das galáxias que ele estava estudando. Quanto maior a
distância, com mais velocidade ela se afasta de nós. É a chamada
Lei de Hubble. Portanto, as galáxias próximas se afastam
lentamente e as galáxias distantes se afastam rapidamente? Como
explicar essa lei? (Origem do universo, Wikipedia, la
enciclopedia
libre,inhttp://es.Wikipedia.org/wiki/evolucion#el.origen,23/03/20
10)
Num primeiro momento, poderíamos pensar que, afinal, estamos
no centro do universo, um lugar privilegiado. Todas as galáxias
sabem que estamos aqui e por alguma razão fogem de nós. Essa
explicação parece pouco copernicana. A essa altura dos
acontecimentos, ninguém mais acreditava na centralidade
cósmica do homem. Precisamos achar, então, outra explicação.
Uma pergunta imediata que poderia nos ocorrer é: para que
direção do espaço devemos olhar para enxergarmos onde essa
explosão ocorreu? Se o universo está se expandindo, dentro de
onde? Ora, no modelo de bexiga – universo de duas dimensões –
o Big Bang ocorreu no centro da bexiga, não na sua superfície. O
espaço é a superfície. O interior é o passado, e o exterior, o
futuro. O centro, a origem do tempo. Portanto, a explosão não
ocorreu no espaço, mas no início do tempo, e o próprio espaço
surgiu nessa singularidade temporal. Esse exemplo simples nos
mostra como o modelo bidimensional pode nos ilustrar, de forma
intuitiva, porém confiável, questões fundamentais de cosmologia;

60
Mundividência Religiosa Cristã61

agregar uma terceira dimensão é apenas uma questão de


habilidade matemática!
Podemos, agora, voltar à reflexão de que olhar para longe é ver o
passado. Seria possível observar o universo evoluir? Essa idéia
parece interessante; quanto mais longe olhamos, mais vemos um
universo mais jovem. Poderíamos, então, observar a época em
que as galáxias nasceram? Sim, basta que tenhamos tecnologia
para isso. Basta que tenhamos instrumentos que nos permitam
observar o universo a 12 bilhões de anos-luz de distância. Essa
tecnologia já é disponível com os novos e grandes telescópios.
Com isso é possível observar quando, como e por que as galáxias
nasceram – essa é uma das áreas mais palpitantes da ciência
contemporânea. Outra pergunta que naturalmente se faz é: o que
foi o instante zero e o que havia antes? A teoria da relatividade
prevê que no instante zero a densidade teria sido infinita. Para
tratar essa situação, é necessária uma teoria de gravitação
quântica, que ainda não existe, e, portanto, essa questão não é
passível de tratamento científico até este momento. Entender essa
fase da história do universo é um dos maiores problemas não-
resolvidos da física contemporânea.

As confirmações do Big Bang


No final dos anos de 1940, o astrônomo George Gamow sugeriu
que a explosão inicial poderia ter deixado resquícios observáveis
até hoje. Ele pensou que um universo tão compacto e quente teria
emitido muita luz. Com a expansão, a temperatura característica
dessa luz teria abaixado. Segundo cálculos simples, hoje ela
talvez pudesse ser observada na radiação de microondas, com
uma temperatura de cerca de 5 graus Kelvin. Em 1965, dois
engenheiros, Arno Penzias e Robert Wilson, procuravam a
origem de um ruído eletromagnético que estava atrapalhando as
radiopropagações de interesse para um sistema de
telecomunicações. Descobriram que a radiação vinha de todas as
direções para as quais apontassem sua antena. Mediram a
temperatura dessa radiação; eles encontraram um valor para a
temperatura não muito diferente do previsto, de 2,7 graus Kelvin
(próximo ao zero absoluto). Era a confirmação da teoria do Big
Bang; Penzias e Wilson receberam o Prêmio Nobel de Física em
1978. (Origem do universo De Wikipedia, la enciclopedia libre
http://es. Wikipedia.org/wiki/evolucion#el origen, 23/03/2010).

61
Mundividência Religiosa Cristã62

Exercícios

1 – Das teorias sobre a origem do universo aqui descritas, qual a


que acreditas ser a mais provável? Por quê?

Auto-avaliação

62
Mundividência Religiosa Cristã63

Unidade N0 11-A0026
Tema: O Fenómeno Humano
Introdução

Pierre Teilhard de Chardin elaborou uma concpção original sobre


a origem e evolução da humanidade que merece um destaque e
estudo especial. A mesma tese está inserida na sua principal obra
“O Fenómeno Humano”.

Ao completar esta unidade, você será capaz de:

 Identificar as principais teses em O fenómeno Humano;


 Explicar a teoria da evolução de Pierre Chardin.
Objectivos

Sumário
PIERRE TEILHARD DE CHARDIN

Pierre Teilhard de Chardin nasceu em Orcines, na França, em


1º de maio de 1881 e faleceu em Nova Iorque, aos 10 de abril de
1955. Padre jesuíta, teólogo, filósofo e paleontólogo francês,
Chardin é conhecido por construir uma visão integradora entre
ciência e teologia. Criado em uma família profundamente
católica, Chardin entrou para o noviciado da Companhia de Jesus
em Aix-en-Provence no ano de 1899 e para o juniorado em 1900,
em Laval. Teve que deixar a França e os seus estudos
prosseguiram na ilha de Jersey, Inglaterra, onde cursou Filosofia
e Letras. Licenciou-se neste curso em 1902. Entre 1905 e 1908
foi professor de física e química no colégio jesuíta da Sagrada
Família do Cairo, no Egito, onde teve oportunidade de continuar
suas pesquisas geológicas, iniciadas na Inglaterra. Seus estudos
de teologia foram retomados em Ore Place, de 1908 a 1912.
Ordenou-se sacerdote em 1911. Entre 1912 e 1914 cursou
paleontologia no Museu de História Natural de Paris. Foi a sua
porta de entrada na comunidade científica. Durante seus estudos

63
Mundividência Religiosa Cristã64

teve a oportunidade de visitar os sítios pré-históricos do noroeste


da Espanha, entre eles, a Caverna de Altamira.

Durante a Primeira Guerra Mundial, foi carregador de maca dos


feridos e depois capelão em diversas frentes de batalha. Passada a
Guerra, retomou os estudos em Paris, onde obteve o doutorado
em 22 de março de 1922 na Universidade de Sorbonne. Em 1920
tornara-se professor de geologia no Instituto Católico de Paris.
Em 1922, escreveu Nota sobre algumas representações
históricas possíveis do pecado original, que gerou um dossiê pela
Santa Sé, acusando-o de negar o dogma do pecado original. Teve
que assinar um texto que exprimia este dogma do ponto de vista
ortodoxo e foi obrigado a abandonar a cátedra em Paris e
embarcar para Tianjin na China. Este fato marcará uma nova
etapa da sua vida: o silêncio sobre temas eclesiais e teológicos
que duraria o resto da sua vida.

Em Pequim, realizou diversas expedições paleontológicas, e em


1929 participou da descoberta e estudo do sinantropo - o homem
de Pequim. Também realizou pesquisas em diversos lugares do
continente asiático, como o Turquestão, a Índia e a Birmânia. Em
Pequim, escreveu sua obra prima: O Fenômeno Humano.

Em 1946 retornou a Paris. Seus textos mimeografados


continuavam a circular e suas conferências lotavam os auditórios.
Foi convidado a lecionar no Collège de France. Entre 1949 e
1950 deu cursos na Sorbonne que geraram a obra O grupo
zoológico humano. Em 1950 foi eleito membro da Academia de
Ciências do Instituto de Paris. Teilhard de Chardin faleceu em 10
de abril de 1955, num domingo de Páscoa, em Nova York (Site:
http://pt.wikipedia, org/wiki/ficheiro: teilard-de-chardin-3.jpg,
visitatada , 24/03/2010) .

O Fenómeno Humano
Destaca-se, entre os seus muitos escritos, a sua mais importante
obra, o livro “O Fenômeno Humano”, publicado apenas em
1955, tempo depois de sua morte. O livro citado acima, quase
que contado de forma narrativa, traça ao leitor a “História do
Mundo”, história que vai do seu início (o nada) até seu fim
escatológico (o todo). O título do livro: “O Fenômeno Humano,
não é uma “expressão tirada ao acaso”, como diz o próprio autor,
possui um objetivo específico: afirmar o Homem, dentro desta
“história” do cosmo, como um ser acima de todos os outros
seres, acima de toda a natureza”. Teilhard procura, a partir de
suas reflexões sobre a condição humana, levar o mesmo homem a
ver e entender sua origem, sua existência, seu papel e seu fim na
história do mundo vivo do qual faz parte. É preciso, segundo ele,
olhar e ver, ter olhos cada vez mais abertos e perfeitos para o
entendimento, pois, se por um acaso não se veja, não se consiga
entender tais propósitos, o perecer, a volta ao caos, torna-se algo
inevitável, já que o ver capacita o ser a ser; e “ser mais e unir-se
cada vez mais” na busca de um fim único, que é o que o Homem

64
Mundividência Religiosa Cristã65

é ou pelo menos deveria buscar ser (CHARDIN , Pierre Teilhard


de, O Fenômeno Humano, São Paulo, Editora Cultrix, s/d. p.11).
Como geólogo e paleontólogo, Teilhard de Chardin estava
familiarizado com as evidências geológicas e fósseis da evolução
do planeta e da espécie humana. Como sacerdote cristão e
católico, tinha consciência da necessidade de um meta-
cristianismo que contribuísse para a sobrevivência do planeta e
da humanidade sobre ele. No cerne da questão está a visão
filosófica, teológica e mística de Teilhard de Chardin a respeito
da evolução de todo o Universo, do caos primordial até o
despertar da consciência humana sobre a Terra, estágio esse que,
segundo ele, será seguido por uma Noogénese, a integração de
todo o pensamento humano em uma única rede inteligente que
acrescentará mais uma camada em volta da Terra: a Noosfera,
que recobrirá todo o Biosfera Terrestre. A orientar todo esse
processo, existe uma força que age a partir de dentro da matéria,
que orienta a evolução em direcção a um ponto de convergência:
o Ponto Ômega. Teilhard sustentava a idéia de um Panenteísmo
cósmico: a crença de que Deus e o Universo mantém uma
criativa e dinâmica relação de progressiva evolução.

Como escritor, a sua obra-prima é O Fenômeno Humano, além


de centenas de outros escritos sobre a condição humana. Como
paleontólogo, esteve presente na descoberta do Homem de
Pequim. Segundo Chardin, a Terra seria composta de várias
camadas esféricas: Barisfera ou núcleo metálico terrestre;
Litosfera ou camada de rochas, Hidrosfera ou camada de água,
Atmosfera ou camada de ar, Biosfera ou esfera da vida; Noosfera
ou esfera do pensamento ou espírito humano, Cristosfera ou
esfera do fenômeno cristão (Site: http://pt.wikipedia,
org/wiki/ficheiro:teilard-de-chardin-3.jpg, visitatada ,
24/03/2010).

A Pré-Vida
Pierre Teilhard de Chardin, cientista naturalista, toma como
pressuposto uma criação, surgimento do universo e do mundo, a
partir de um processo evolutivo baseado no pensamento de
Charles Darwin. Para ele, tudo surgiu de um algo que era em
princípio o todo que existia, uma única coisa da qual todas as
outras coisas surgiram e evoluíram, constituindo assim o plural
das coisas diferentes. Esse plural é também unidade, unidade na
homogeneidade, pois todas as coisas possuem uma origem
comum; e também unidade na coletividade, já que o coletivo de
seres independentes resulta na busca por um objetivo ou sentido
único, o que acarreta, de certa forma, um tipo de unidade, a
unidade de busca (site: pteilhard.sites.uol.com.br – 06/05/2004).

Assim é, desta forma aparentemente simples, que se dá a


construção desse universo que evolui, desse universo que sai do
nada em direção ao todo movido pela energia (o Quantum) e que
tem como único demiurgo o tempo: “de degrau em degrau, os
edifícios atômicos e moleculares complicam-se e elevam-se” em

65
Mundividência Religiosa Cristã66

busca da evolução do todo unificado. Contudo ficam ainda


algumas perguntas: como esse processo evolutivo acontece? Ele
é fruto apenas do acaso? É algo simplesmente físico, ou existe
algo além do físico? Podemos dizer que Teilhard de Chardin,
como um bom cientista, crê na ciência22 e acredita em sua
eficiência; mas, mesmo assim e apesar disso, talvez movido
agora mais como um bom teólogo, a critica por ela olhar, quase
sempre ou sempre, apenas para o Fora das Coisas, fazendo uma
leitura apenas epistemológica das coisas, esquecendo-se do
Dentro das Coisas (CHARDIN, s/d. p.49).

Teilhard, como cientista e teólogo, propõem uma união de


pensamentos e esforços para se conhecer e explicar aquilo que,
segundo ele, é, na realidade, uma coisa só, coisa essa que foi
quem fez surgir, quem fez evoluir e é quem fará terminar todo
esse processo de criação. O físico e o espiritual não podem ser
separados, devem refletir e explicar sempre juntos, pois somente
juntos é que conseguirão explicar aquilo que precisa ser
explicado. Além de olhar para o Fora das Coisas é preciso olhar
também para o Dentro das Coisas, observar que no universo em
criação há algo que o direciona, que o faz seguir em frente, uma
consciência, que apesar de ser uma expressão da inteligência
humana e apenas nesse aparecer de forma plena, serve também e
muito bem para explicar o funcionamento do universo, que, em
seu estofo, é bifacial, possuidor de um Dentro (consciência) e de
um Fora (inconsciência – acaso).

Apesar da palavra consciência referir-se a algo vivo, como de


certa forma já vimos, toma também parte na evolução daquilo
que ainda não é vivo ou é pré-vivo. A matéria, segundo Teilhard,
possui em sua evolução, uma consciência, como se a vida já
existisse antes da vida, como se ela existisse como consciência
naquilo que não era ainda vida, ou vivo, mas que, em certa
medida, já estava evoluído em uma pré-vida, elemento da
evolução dessa consciência. Teilhard, na sua tese, segue sempre
nessa mesma direção: Dentro e Fora, Espiritual e Material, como
duas Energias, que, para ele, sempre são faces de um mesmo
fenômeno, onde o Dentro (consciência) gradualmente toma o
lugar do Fora (inconsciência ou físico), ou ainda, onde o
Espiritual toma gradativamente o lugar do não-espiritual ou
físico. Para o autor, ainda na terra Juvenil, na terra da pré-vida, já
existiam todas as condições para o surgimento da vida, materiais
forma mineral diversificaram-se, e, quase que de forma
conscientemente, pouco-a-pouco, tornaram-se mais complexas,
até estarem no ponto de deixarem a vida surgir.

A Vida
A vida, em princípio, surge como pouco complexa a partir da
quase não complexa matéria da pré-vida, mas, em relação à outra,
a matéria mineral e bruta, é enormemente mais complexa. A
evolução, que sai da não-vida à pré-vida e da pré-vida à vida, dá,

66
Mundividência Religiosa Cristã67

nesse primeiro momento evolutivo, verdadeiros saltos em


complexidade. A vida surge saindo do grão natural da matéria
para o grão natural da vida, a célula, simples em sua estrutura e
funcionamento, mas que demonstra, nessa sua simplicidade,
como é que o processo de evolução acontece de forma gradativa
e muitíssimo demorada; é o exemplo micro de como a
consciência do universo conduz o macro em evolução a partir de
seu demiurgo, o tempo: “A vida nasceu e se propaga sobre a terra
como uma pulsação solitária. É a propagação dessa onda única
que importa agora acompanhar, até o Homem e, se possível, para
além do Homem” (CHARDIN, Op.Cit. p.99).

O novo ser, agora vivo, em forma ainda de célula, reproduz-se,


multiplica-se e ajunta-se em agrupamentos cada vez mais
complexos, que, por sua vez, novamente reproduzem-se,
multiplicam-se e aglomeram-se em outros agrupamentos cada
vez mais complexos, e o processo repete-se, repete-se e repete-se
em um jogo cíclico sem fim. Nessa ortogêneses ou filogêneses;
nesse reproduzir, multiplicar, ajuntar-se em agrupamentos cada
vez mais complexos, e alastrar-se, faz com que o simples precise
tornar-se menos simples para poder sobreviver, ou seja, precisa
ser mais complexo para não desaparecer, o que acarreta a
evolução. Sem esse processo, entende Teilhard, “sem a
ortogênese, não haveria senão um alastramento; com a
ortogênese há invencivelmente uma ascensão da vida”
(CHARDIN, Op. Cit. p. 119).

A célula, como nova gêneses, utilizando-se do tempo, seu mais


precioso elemento, segue seu caminho, reproduzindo,
multiplicando, alastrando e evoluindo, até atingir seu segundo e
decisivo passo: o proto-vertebrado [início da vértebra que trará
condições para o surgimento do sistema nervoso e posteriormente
do cérebro, o que nos induz a entender, a partir do pensamento de
Teilhard, que o universo caminha do totalmente Fora
(inconsciência) ao início do totalmente Dentro (consciência).
Seria esse o nascimento do princípio da alma na Biosfera? A
partir desse passo, a vida segue avançando em seu processo de
evolução, pois tem, para Teilhard, seu filo a ser seguido e, por
fim, seu alvo a ser atingido. Alvo esse que é, de certa forma,
ridicularizado pelos contrários à teoria de Teilhard de Chardin, já
que para a maioria dos cientistas tudo isso é uma grande falácia,
pois a vida segue sua evolução se é que se pode chamar de
evolução por um caminho ditado apenas e tão somente pelo puro
acaso (CHARDIN, Op. Cit. p. 160).

Contudo, é inegável que todos os seres que seguem à célula em


seu processo de evolução mantêm a mesma ordem: reprodução,
multiplicação, agrupamento e evolução, o que para Teilhard
revela o filo e o alvo (telo) desse processo; pois para ele, o ser
vivo, seguindo os pressupostos alistados acima, continua a
evoluir porque é empurrado a evoluir, e vai evoluir até atingir a

67
Mundividência Religiosa Cristã68

perfeição, quando então ira parar ou diminuir o ritmo de sua


própria evolução, passando então a um segundo e melhorado
processo, o da conquistar. Esse é o simples processo da criação
em evolução: multiplicar, crescer, agrupar e evoluir, pois todo o
ser vivo “subdivide-se qualitativamente, ao mesmo tempo que,
quantitativamente, se estende(CHARDIN, Op. Cit. p. 124).

O Processo dá-se da pré-vida à célula; da célula ao pré-


vertebrado; do pré-vertebrado ao vertebrado; do vertebrado à
evolução do cérebro; da evolução do cérebro aos mamíferos; dos
mamíferos aos primatas: “Da áfrica meridional à América do Sul,
através da Europa e da Ásia, ricas estepes e espessas florestas.
Depois, outras estepes e florestas. E, por entre essa verdura sem
fim, miríades de Antílopes e de Cavalos zebrados; bandos
variados de Proscídeos; Cervos de todas as galhaduras; Tigres,
Lobos, Raposas, Texugos, inteiramente semelhantes aos de hoje.
Em suma uma paisagem bastante próxima da que nós procuramos
preservar, aos retalhos, em nossos parques nacionais [...] Período
de calma profusão. A camada dos Mamíferos estagnou-se. – E,
no entanto, a evolução não pode ter parado... Alguma coisa, em
algum lugar, certamente se acumula, prestes a surgir por um
outro salto à frente. O quê? E onde?...” (CHARDIN, Op. Cit. p.
167).
O Pensamento
O pensamento, na verdade, foi apenas mais um dos gigantescos
passos em todo esse processo. A gênese do universo, o
surgimento da vida (célula) e o surgimento do homem, são os três
passos mais importantes da evolução pelos quais passou a
consciência, energia que movimentou toda essa evolução, até
chegar finalmente ao seu máximo, o homem, o único ser que
possui consciência: “No fim do Terciário, havia mais de 500
milhões de anos que a temperatura psíquica subia no mundo
celular. De ramo em ramo, de camada em camada, como vimos,
os sistemas nervosos iam, Pouco aos poucos, complicando-se e
concentrando-se. Finalmente se construíra, para o lado dos
Primatas, um instrumento tão admiravelmente dúctil e rico que o
passo imediatamente seguinte não podia ser dado sem que o
psiquismo animal todo, inteiro, não se encontrasse como o
refundido, e consolidado sobre si mesmo. O que era ainda senão
superfície centrada tornou-se centro. Aparentemente, quase nada
de mudado nos órgãos. Mas, em profundidade, uma grande
revolução: a consciência jorrando, borbulhante, num espaço de
relações e de representações super-sensíveis; e, simultaneamente,
a consciência capaz de se aperceber a si mesma na simplicidade
conjunta de suas faculdades, - tudo isso pela primeira vez”
(ibidem ).

A célula tornou-se finalmente alguém. Para Teilhard esse


momento foi de tamanha grandeza que transformou a história da
evolução de forma drástica; foi um momento que acrescentou à
Biosfera (camada de vida da Terra) a Noosfera (camada pensante

68
Mundividência Religiosa Cristã69

da Terra), dando assim surgimento a uma “Nova Era” para o


universo: “Do grão de Matéria, depois do grão de Vida, eis o
grão de Pensamento enfim constituído”. “Foi graças à bipedia
liberando as mãos que o cérebro pôde se avolumar; e foi graças a
ela, ao mesmo tempo, que os olhos, acercando-se um do outro
sobre a face reduzida, puderam se pôr a convergir e a fixar o que
as mãos apreendiam, aproximavam e em todos os sentidos
apresentavam: o próprio gesto, exteriorizado, da reflexão!...” “O
homem entrou sem ruído. De fato, ele caminhou tão
discretamente que quando, denunciado pelos indeléveis
instrumentos de pedra que multiplicam sua presença, começamos
a percebê-lo, - ele já cobre o Velho Mundo, do Cabo da Boa
Esperança até Pequim. Já, com certeza, fala e vive em grupos. Já
produz o fogo (ibidem).

A Sobrevida
Teilhard de Chardin olha para o fim escatológico de forma
bastante positiva. E mesmo acreditando também na possibilidade
de um fim caótico, prefere a idéia de um fim paradisíaco, não
como paraíso mitológico (bíblico), mas como um fim envolto em
evolução, progresso, felicidade e perfeição; um fim que talvez, da
perspectiva de Teilhard [início do século XX], esteja muito mais
próximo do que se possa imaginar. É preciso pensar que apenas
nos últimos dois séculos é que o homem acelerou seu processo de
evolução de forma muito rapidamente. O que ele não evoluiu em
milênios, tecnológica e socialmente falando, evoluiu em algumas
poucas décadas.

Contudo, ao mesmo tempo em que evoluiu, continuou a


comportar-se como um animal: isolou-se em seu egoísmo;
continuou a luta pela sobrevivência já desnecessária; ajuntou-se
para defender interesses apenas de colônia; e utilizou-se de sua
ciência e tecnologia apenas para aumentar lucros e ser mais forte;
o que não deixa de ser uma evolução, contudo, sem também não
deixar de não ser, pois os princípios de luta pela sobrevivência
continuaram como ponto determinante em seu caminhar
evolutivo ainda não chegou ao seu fim, é ainda algo que está
acontecendo, algo que ainda está em evolução, e, ainda, tem
muito para evoluir.

Ele acredita em uma união humana, humanizadora, que vai além


do ajuntamento de colméia, o que já seria em si uma grande
evolução, mas que também geraria, nesse homem unido em e
com outras motivações, a capacidade de uma outra evolução
muito maior do que essa primeira. Em decorrência desse
ajuntamento e evolução, agora sem fins pequenos, como no caso
das colméias, colônias ou formigueiros, o homem, mais evoluído,
conheceria melhor sua origem, seus papeis e seu fim: o ponto
Ômega, que é um lugar de globalização, de hiper-pessoalidade,
de organização (Ordem e Progresso), de ciência , um lugar real e
mais humano, de ascensão para a pura consciência, onde existiria

69
Mundividência Religiosa Cristã70

uma sociedade centrada, unida e sempre em ascensão, e, por fim


e mais importante, um lugar de profundo amor.
Apesar de não acreditar numa possibilidade negativa, ele é
sempre muito positivo, Teilhard alista algumas outras
possibilidades não positivamente pensadas para o fim
escatológico do mundo. Ele considera a possibilidade de um
cataclismo sideral: um cometa, um asteróide ou algo assim, mas
sem a visão apocalíptica, mítica; considera a possibilidade do fim
da energia com a degradação dos meios de existência (ibidem).
Considera ainda a possibilidade de invasões microbianas, a
contra-evoluções orgânicas, a esterilidade; o fim a partir de
guerras, de revoluções; considera a possibilidade de substituição
evolucionária; e ainda, tudo o mais que se puder imaginar com
relação às possibilidade de fim. Porém, para ele, pensar em fim
agora, nesse momento histórico, seria bastante prematuro, já que
essa humanidade é relativamente jovem, na verdade, em relação
aos tempos da evolução, é um nada em relação ao todo. Essa
humanidade tem muito que crescer e evoluir; pois, apesar dos
avanços, estamos ainda apenas no começo.

Como cientista, e bom cientista para a sua época, ele acredita que
a ciência tem muito para revelar, tem muito ainda o que
descobrir, tem muito o que aprender, principalmente com a
religião e ainda tem muito que avançar para ser mais humana.
Por mais convergentes que seja, a Evolução não se pode
completar sobre a Terra senão através de um ponto de
dissociação. Talvez isso se dê apenas em um outro plano, num
plano espiritual. Talvez o homem tenha um encontro com um
outro ser inteligente de um outro lugar qualquer . Uma união
onde a pessoalidade não possa ser exercida não é uma verdadeira
união. União é a junção de coisas diferentes e com o mesmo
objetivo, o de tornar-se cada vez mais unido. Não se pode
confundir individualidade com pessoalidade – o elemento só se
torna pessoal universalizando-se. É universal, mas também é
pessoal, entendendo que as partes (pessoal e centrada)
aperfeiçoam-se e consumam-se em conjunto com o todo
organizado (idem, pp.277-297).

Cristo como meta da História


Teilhard de Chardin, como cientista naturalista, desenvolveu seus
pressupostos a partir da teoria da evolução, e, como religioso
jesuíta, adequou seus pressupostos teológicos-científicos-
evolucionistas aos seus conceitos de jesuíta cristão, utilizando-se,
na elaboração de sua ciência, até mesmo de uma linguagem
religiosa, por exemplo a expressão ponto ômega, que, apesar de
ser um termo religioso-cristão, significa o fim de um processo de
evolução entendido cientificamente. Entendo ainda que Teilhard
é fruto de seu tempo - como não poderia deixar de ser -, sua visão
otimista e de extrema crença no progresso humano faz parte de
uma época que também é otimista e fortemente influenciada por
uma visão de progresso. É pena que ele não pode, depois de

70
Mundividência Religiosa Cristã71

tantos avanços e descobertas na ciência e de tantas novas coisas


acontecidas na presente humanidade, rever seus escritos e suas
teorias, como disse Jacques Arnould: “Teilhard de Chardin não
está mais aqui para fazer a necessária revisão de sua obra”
(ARNOULD e CHARDIN: 1999:119). Naturalista e cientista
sim, mas ao mesmo tempo ou até antes, um cristão é um teólogo:
“Nenhum progresso se pode esperar na Terra, como tentei
mostrar, sem o primado e o triunfo do Pessoal no ápice do
Espírito” (CHARDIN: sd, p.341).

Teilhard, como cristão, viu também o cristianismo como a única


corrente, sobre a Noosfera, que pode e tem o poder de fazer tal
coisa; de fazer a humanidade evoluir, atingir o ponto máximo
nessa “santa evolução”, o ponto Ômega, o Cristo que está ligado
a nós não por via do pecado, mas por via da criação (ARNOULD
e CHARDIN: 1999:151).

O Fenômeno Humano se completa no Fenômeno Cristão, pois


esse tem a solução, simples solução; tem como religião, um Deus
pessoal, providente e que se revela; tem em sua visão de criação,
uma mensagem de personalismo e universalismo, consumação e
purificação do mundo, onde Deus tinha como propósito a
unificação desse mundo, organicamente, a si próprio: “Deus, tudo
em todos”; tem também o “Eu sou o Alfa e o Ômega, o princípio
e o fim” ( Ap 22:13). O que também poderia ser entendido de
forma contrária, ou seja, uma elaboração teológica com a
utilização de termos científicos. Mesmo querendo entender o
texto como teológico, o que prefiro, não posso dizer qual é a
principal preocupação de Teilhard, se é a cientifica ou se é a
teológica, ou ainda, se ele tem as duas preocupações, já que ele é
as duas coisas: cientista e teólogo.

A ciência explica o como e a teologia dá os porquê. “As duas


questões, a da origem e a do fim, são inseparáveis. São decisivas
para o sentido e a orientação da nossa vida e do nosso agir”.
“uma prodigiosa operação biológica: a do amor necessário para
essa unificação; tem o Cristo Encarnação redentora”, que é o
ponto central dessa evolução; tem o poder de crescimento e
expansão, tanto quantitativo quanto qualitativo. O cristianismo é
o filo, é a flecha da Biogênese, é a cabeça do Mundo, o ponto
Ômega. Como fenômeno implica na “consciência de se achar em
relação atual com um Pólo espiritual e transcendente de
convergência universal” (CHARDIN, sd, p.327-.338).
Conclusão :
Para teilhard de Chardin a evolução é expressão da lei estrutural
do ser e do conhecer, segundo a qual, nada pode tomar lugar na
nossa vida sem ser por via de nascença.
O sentido da evolução: o real não aparece espontaneamente,
mas esta sendo criado de forma evolutiva. Não estamos a viver
num universo acabado, mas num universo em progressiva
evolução. Evolução significa que o universo esta nascendo a

71
Mundividência Religiosa Cristã72

nossa volta. Evolução é a expressão que no tempo e espaço


criam-se as coisas.
O fenômeno humano: o homem é uma experiência nova da vida.
A consciência é como coisa extensiva a vida. Na consciência
existe uma vida. O homem não é senão a evolução tomada em si
mesma. O homem por saber que sabe o que sabe distingue-se de
outros animais porque nele, pela primeira vez, a consciência se
debruçou consigo mesma até se tornar pensamento. O que
explica o aparecimento do homem é a evolução cerebral. O
sentido humano está no sentido de uma ordem. Esta ordem faz o
sentido social.
O ponto Omega: é o ponto de convergência de todas as leis. O
mundo é a unidade dos seres na diversidade. Cristo é o ponto
omega. Toda a criação se converge num ser único que é Cristo. O
uno nasce do múltiplo. Cristo é a unidade do múltiplo. (REAL-
ANTISERI, 1991).
“sabemos que toda a criação tem gemido as dores de parto ate
hoje. Não só ela, mas também nos próprios que possuímos as
primícias do espirito, aguardando a libertação do nosso corpo”
(Rom. 8,22-23). Toda a criação esta em evolução e esta destinada
a salvação.
Teilhard de Chardin é um paleontólogo. A paleontologia é estudo
da arqueologia pré-histórica através da observação dos restos
ósseos, sobretudo dentes e craneos, porque estes indicam a
modalidade da evolução, para depois classificar os gêmeos e as
espécies.
A idéia fundamental da sua filosofia é a idéia da cosmogénese.
Cosmogénese é a idéia de que o mundo está em um movimento
dinâmico e evolutivo, dentro deste movimento o dualismo entre
matéria e espirito é dissolvido.
Para Teilhard a matéria não é simplesmente o oposto do espirito,
mas o espirito surge da matéria. Portanto, o mundo está em
movimento para a manifestação do espirito. A evolução é um
conceito que se deve aplicar a todo o mundo. A vida e a
consciência estão potencialmente presentes na matéria desde o
inicio, e por isso que este movimento dinâmico da evolução e
uma libertação do espirito. Chega-se a isto através de uma união
do nível do pensamento e a nível do amor. As transformações
que acontecem só tem sentido se são uma preparação ao encontro
com alguém
A vida e a morte
A reflexão sobre a morte e difícil de fazer uma vez que ela fez
parte do problema da vida; dela se deve falar sem tê-la
experimentado, dado que quem o experimentou não pode mais
falar dela. A morte no sentido mais amplo significa um processo
vital em um organismo vivo. Do ponto de vista filosófico a morte
e a separação da alma e do corpo. Os autores antigos e modernos
acreditam na morte como separação do corpo e da alma.
Acreditam na sobrevivência da alma depois da morte. Os povos

72
Mundividência Religiosa Cristã73

africanos têm fé nisto. Desde Platão a Kant a morte não foi


considerada como extinção do homem, mas apenas de uma parte,
o corpo. A alma subsiste no mundo dos espíritos. Platão foi o
primeiro a enfrentar o problema de modo sistemático. Para ele a
alma sobrevive depois da morte do corpo. Enquanto espirito, a
nossa alma é feita para a idéia e dela se nutre e para ela vive a
vida do espirito. Agostinho afirma que a alma é imortal, do
mesmo modo que a verdade. S. Tomás afirma que a alma é
incorruptível, imortal e não pode ser contagiada pela morte do
corpo (MONDIN, 1980).
Segundo a antropologia africana, a morte é uma fase de transição
(a morte e um descanso). A pessoa tem que passar através do
nascimento, iniciação, casamento, posição de autoridade e morte
para ser aceite, em muitas tradições africanas como o homem ou
mulher perfeita. A vida e considerada como um todo que nem
sequer a morte pode desintegrar; a morte e causada pelo maligno,
mas ela não e fim da vida. O morto, vai de viagem, viagem que é
descrita em termos físicos; deve atravessar o rio e deve pagar a
passagem, precisa água para a viagem, etc. No pensamento
africano a morte conduz para a vida. Assim, encontramos entre
os africanos os ritos de sexto, sétimo ou oitavo dia depois da
morte. Esse dia é conhecido como o do levantar-se. A morte não
corta os laços de união entre os vivos e os mortos; por isso, é
preciso um enterro de acordo com as normas e conveniente para
que o morto chegue salvo a terra dos mortos. A morte e uma
ocasião para procurar mais vida, porque esses que fizeram a
passagem através da morte tornam-se espíritos e tem
possibilidades de outorgar aos vivos grandes benefícios. A morte
do antepassado e a esperança de vitoria para os descendentes,
porque garante o caminho para nos passarmos também para o
mundo dos antepassados (AA., VV: 1998:6-8).

Exercícios
1 – Quais são as implicações educacionais da Teoria de Teilhard
de Chardin?
Resposta: A teoria de Teilhard de Chardin ensina que o mundo
Auto-avaliação foi criado por um ser, Deus, de forma harmoniosa e quer que os
homens vivam em harmonia para que cheguem em conjunto ao
Cristo ponto omega, no fim dos tempos e alcancem a salvação .

73
Mundividência Religiosa Cristã74

Unidade N0 12-A0013
Tema: O Mistério Humano
Introdução
O ser humano constitui um dos grandes mistério, pela
complexidade da sua essência e existência. Várias são as
perspectivas para descrevê-lo e caracterizâ-lo, desde os clássicos
gregos até a visão teológica da Biblia.

Ao completar esta unidade, você será capaz de:

 Reflectir sobre a visão bíblica do ser humano;


 Caracterizar o ser humano a partir das diversas perspectivas.
Objectivos

Sumário
O mistério do homem: Corpo e alma, razão e fé, cultura e
religião

Corpo e alma em Aristóteles


Algumas criaturas animadas possuem todas as faculdades, outras algumas
e outras ainda, apenas uma. As faculdades da alma são: a Faculdade
Nutritiva, a Faculdade Sensitiva e a Faculdade Intelectiva:
- Alma Nutritiva: que é o princípio mais básico e elementar da vida,
responsável pelas funções biológicas como nutrição, crescimento e
geração. É por essa faculdade que os seres vivos perpetuam suas espécies
respectivas.
- Alma Sensitiva: que além de ser responsável pelo movimento, é
também responsável pelas sensações do corpo. Aristóteles quer dizer que
cada órgão dos sentidos percebe do mesmo objeto as características que
são próprias de sua função.
- Alma Intelectiva (Intelecto): Dessa faculdade intelectiva, somente o
Homem é dotado, pois somente ele tem a capacidade de conhecer.

74
Mundividência Religiosa Cristã75

Aristóteles caracteriza o Intelecto como “aquela parte da alma que


permite conhecer e pensar” Para explicar esse conhecimento sensível, que
depois dá lugar ao inteligível,

A alma como princípio da vida e do movimento também está presente


nos animais. A diferença entre o homem e os animais é uma questão de
grau. O Homem é o único ser vivo que é dotado das três faculdades da
alma. Faculdades Nutritivas, Sensitivas e Intelectivas. O Homem tem a
capacidade de se nutrir, reproduzir, captar os objetos através dos sentidos
e também é capaz de conhecer por meio do Intelecto.
As faculdades fundamentais do espírito humano são duas: teorética e
prática, cognoscitiva e operativa, contemplativa e ativa. Cada uma destas,
pois, se desdobra em dois graus, sensitivo e intelectivo, se tiver presente
que o homem é um animal racional, quer dizer, não é um espírito puro,
mas um espírito que anima um corpo animal.(Giuliano Cézar, in
http://giulianofilosofo. Blogspot. Com/2009/09/corpo-
almaemAristoteles)

Visão Bíblica do Homem


Corpo, Alma e Espírito
O homem possui um corpo com olhos, ouvidos, nariz, língua, dedos e
outros membros. Mas ele é mais do que um corpo. Há dentro dele aquilo
que dá vida a estes membros e fazem com que possamos ver, ouvir,
cheirar, saborear e sentir. A isto chamamos alma (em hebraico, nephesh;
em grego, psychē). Pode ser definida como: o sopro da vida; a força vital
que anima o corpo e que se evidencia na respiração; aquilo pelo qual o
corpo vive e sente. O corpo do homem foi feito a partir do pó da terra,
mas para lhe transmitir vida foi necessário que Deus inspirasse nele o
sopro da vida. “E formou o Senhor Deus o homem do pó da terra e
soprou em seus narizes o fôlego da vida; e o homem foi feito alma
vivente.” (Génesis 2:7). Assim há pelo menos duas partes da constituição
do homem, uma material e outra imaterial. Mas há ainda uma outra parte,
também imaterial, chamada espírito (em hebraico, ruwach; em grego,
pneuma).
A alma e o espírito, sendo ambos imateriais, têm algumas funções
comuns atribuídas nas Escrituras e são por vezes usados alternadamente,
mas não se conclui daqui que eles sejam o mesmo, visto que encontramos
distinções entre elas em muitas passagens bíblicas.
Lemos na epístola aos Hebreus: “Porque a palavra de Deus é viva e
eficaz, e mais penetrante do que espada alguma de dois gumes, e penetra
ate a divisão da alma e do espírito.…” (Hebreus 4:12). Paulo escreveu
aos Coríntios sobre o corpo do crente: “Semeia-se corpo natural [em
grego, psychikos, palavra derivada de psychē], ressuscitará corpo
espiritual” (I Coríntios 15:44).
Também na epístola de Judas é clara a distinção entre alma e espírito:
“Estes são os que causam divisões, sensuais (em grego, psychikos), que
não têm o Espírito (pneuma)” (Judas 19). Pneuma é normalmente
definida como a parte racional do homem e pela qual ele alcança e

75
Mundividência Religiosa Cristã76

compreende as coisas divinas e eternas e sobre a qual o Espírito de Deus


exerce a Sua influência. (Site, http://creativecommous-org
licenses/by/2/5br, Consuta de 23/03/2010)
Embora o homem tenha sido “feito alma vivente”, a alma é mesmo assim
referida nas Escrituras como sendo distinta do corpo, bem como do
espírito, porque a Palavra de Deus não só “penetra até à divisão da alma e
do espírito” (Hebreus 4:12) como também faz a divisão entre a alma e o
corpo, porque em Mateus 10:28 temos as seguintes palavras do Senhor
Jesus Cristo:“E não temais os que matam o Corpo e não podem matar a
alma; temei antes Aquele que pode fazer perecer no inferno corpo e
alma” (Mateus 10:28).
Como veremos, a alma é a sede da existência consciente do homem e por
isso ele é chamado de alma (Génesis 2:7 e Actos 2:41, entre outras
passagens), mas visto que ele é mais do que uma alma, uma vez que é
também corpo e espírito.
Concordamos, assim, com a posição amplamente divulgada de que a
consciência do mundo pertence ao corpo (Mateus 6:22; I Coríntios 12:14-
17), a consciência de si mesmo pertence à alma (Mateus 16:26; I Pedro
1:9) e a consciência de Deus pertence ao espírito (Romanos 1:9, 8:16).
No entanto, devemos ter em conta que estes três estão intimamente
relacionados, pois o corpo, por exemplo, tem consciência do mundo
apenas se a alma lhe der consciência, enquanto a alma e o espírito estão
relacionados de forma semelhante. Certamente é verdade que o corpo,
sendo físico, está mais relacionado com a terra e com as coisas materiais
(Génesis 3:19) e que o espírito, antes da queda, relacionava-se mais com
Deus e é ainda sobre ele que o Espírito Santo exerce a Sua influência
(Efésios 1:17, 4:23), enquanto que a alma é o intermediário entre os dois,
sendo a sede dos sentimentos, emoções e decisões, unindo o corpo e o
espírito (Génesis 2:7; Marcos 14:34; João 11:33). (Site,
http://creativecommous-org licenses/by/2/5br, consulta de 23/03/2010)

Alma como a Sede da Existência Humana


Embora pareça evidente, com base em Génesis 2:7, que a alma é a sede
da existência do homem desde a criação, também é evidente que antes da
queda a alma do homem era sujeita ao seu espírito, o qual por sua vez
estava em completa harmonia com o Espírito de Deus. No entanto, isto
mudou com a queda. O enganador convenceu o homem de que, se se
fizesse valer dos seus próprios “direitos”, poderia ser “como Deus”. O
homem creu na mentira e como resultado foi dominado por ela. A
consciência de si mesmo deu lugar à sua própria vontade e aos próprios
interesses. Todo o ser humano tornou-se por natureza um deus para si
mesmo. Com a queda o homem tornou-se num ser centrado na alma,
passando a sua alma caída, a sua própria importância e os seus próprios
interesses a influenciar e a dominar tanto o seu corpo como o seu espírito.
Claro que isto teve como consequência a inimizade contra Deus e a
separação de Deus. e espirituais. (Enciclopedia Britanica, Publicado no
Boletim GEAE, n.417, 15/05/2001).

76
Mundividência Religiosa Cristã77

Exercícios

1 – Fala a essência do ser humana na perspectiva de Aristóteles.


2 – Relaciona a visão bíblica sobre o ser humano e a do
Aristóteles.
Auto-avaliação

77
Mundividência Religiosa Cristã78

Unidade N0 13-A0026
Tema: Fé, razão e dogma
Introdução

Fé é a adesão do ser humano a um ideal. A vida humana é


movida e regida por crenças, por ideiais que o movem. Na
mesma medida, o Homem tem faculdade de compreender, julgar,
raciocionar o que se demonina de razão. Já dogma refere-se a
doutrinas filosóficas ou religiosas que são inquestionáveis. Nessa
unidade vamos discutir sobre a relação entre estes três conceitos.

Ao completar esta unidade, você será capaz de:

 Caracterizar a fé, razão e dogma;


 Diferenciar a relação entre fé e razão.
Objectivos

Sumário
Fé, Razão e Dogma
A filosofia espírita é um novo paradigma cultural e social para a
Humanidade. Uma alternativa ao tomismo e ao materialismo. Entretanto,
para ser aplicada em todas as áreas do conhecimento, precisa ser
elaborada coletivamente e aproveitar a experiência do passado. A
Humanidade vem discutindo amplamente as relações entre a fé e a razão.
Pensadores, oriundos de diferentes ramos da ciência, estão questionando
as limitações impostas pelo dogmatismo materialista da comunidade
científica. Física, biologia, medicina, astrofísica, os mais diversos
pesquisadores necessitam do pensamento filosófico sobre as causas
primárias, a origem das coisas, para fundamentar e desenvolver suas
pesquisas e descobertas.
Por outro lado, a Igreja Católica, num movimento iniciado desde a
canonização de Tomás de Aquino em 1323, determinou que a doutrina do
"Doutor Angélico" fosse a única oficial da Igreja. Leão XIII pode ser
considerado o verdadeiro iniciador desse movimento com a carta
encíclica Aeterni Patris, de 4 de agosto de 1879, onde afirmou: "A maior
honra tributada a São Tomás, só a ele reservada, veio-lhe dos padres do
Concílio de Trento", determinando que "no próprio altar fosse depositada,

78
Mundividência Religiosa Cristã79

aberta, a Summa de Tomás de Aquino" junto à bíblia. O papa, João Paulo


II, reafirmou o movimento de Leão XIII, lembranndo a necessidade do
estudo e ensino de Aquino por toda a Igreja, reforçando a necessidade da
aproximação da fé com a razão, da teologia com a filosofia. (Site,
http://www.mundosfilosofos.com.br, consulta de 23/03/2010)

Por que tanto esforço e entusiasmo da Igreja diante da doutrina de


Aquino, que reinterpretou a filosofia de Aristóteles adaptando-a aos
dogmas? Responde Leão XIII em sua encíclica: "O Santo Doutor chegou
ao duplo resultado de repelir por si só todos os erros dos tempos
anteriores, e de fornecer armas invencíveis para dissipar os que não
deixarão de surgir no futuro". Entre uma grande diversidade de
postulados, Aquino afirmou que o pensamento filosófico limita-se e é
retificado pela teologia da Igreja. Sua doutrina unifica corpo e alma como
forma e substância do Ser, ou seja, indissociáveis. Já o Espiritismo,
afirma ser o homem um espírito imaterial representado por duas
substâncias materiais diferentes, perispírito e corpo animado pelo fluido
vital. Aquino também decretou como inexistentes as idéias inatas
(conceito presente nas reminiscências de Platão, retomado, entre outros,
por Descartes, Rousseau, Pestalozzi e a doutrina espírita), afirmando a
teoria da tábula rasa. Tomás de Aquino nega alguns dos principais pontos
da doutrina de Sócrates, Platão e, até mesmo, de Santo Agostinho.

Para conciliar fé e razão, a Igreja quer reservar uma parte do


conhecimento universal para a sua jurisdição. "Não temos necessidade de
nenhuma ciência depois do Cristo", escreveu Tertuliano (155 dC-220),
"nem de nenhuma prova depois do Evangelho; aquele que crê não deseja
mais nada; a ignorância é boa, em geral, a fim de que não se aprenda o
que é inconveniente". E essa frase de Tertuliano foi reverenciada por
muitos como uma sentença, e infelizmente posta em prática durante
séculos e séculos, comentou Camille Flammarion. Mas o atual
movimento pelo tomismo (doutrina de Aquino) vai mais longe e tenta
retomar uma base de conhecimento que imperou, desde o século 13 até o
17, pela violenta imposição da Igreja nas universidades e escolas,
dominados a teologia, filosofia e ciência. (Site,
http://www.mundosfilosofos.com.br, consuta de 23/03/2010).

A reação natural da razão deu surgimento ao Renascimento e ao


Iluminismo, contrapondo à dogmática aristotélica um pensamento
baseado no platonismo. O ocidente estava cansado das incoerências do
tomismo. Os pensadores retomaram as idéias de Sócrates, Platão, Jesus,
dos primeiros cristãos e de Santo Agostinho, libertos da interpretação
tendenciosa da escolástica.

O Dogma exige uma fé cega

O homem, consciente de seu destino, não precisa subordinar sua razão a


nenhum dogma para exercer a sua crença em Deus e suas leis. "Em sua
maioria, as religiões apresentam um quadro que somente a fé cega pode
aceitar, do futuro da alma, e o impõem à crença de seus adeptos, visto que
não suporta exame sério" (Kardec, A Gênese). Ao mesmo tempo esse
homem esclarecido rejeita qualquer mistério sobrenatural inacessível a
todos. "O Espiritismo não encerra mistérios, nem teorias secretas; tudo

79
Mundividência Religiosa Cristã80

nele tem que estar patente a fim de que todos o possam julgar com
conhecimento de causa" (Kardec, A Gênese).

Os dogmas foram surgindo porque "os homens só puderam explicar as


Escrituras com o auxílio do que sabiam das noções falsas ou incompletas
que tinham sobre as leis da natureza, mais tarde reveladas pela ciência.
Eis porque os próprios teólogos, de muita boa-fé, se enganaram sobre o
sentido de certas palavras e fatos do Evangelho. Por muito instruídos que
fossem, eles não podiam compreender causas dependentes de leis que
lhes eram desconhecidas" (Kardec, A Gênese).

A doutrina de Aquino permitiu que a Igreja concentrasse em suas mãos


uma autoridade sobre o conhecimento metafísico. "Os fatos particulares
na doutrina sagrada não têm uma parte principal: aí foram introduzidos
certos exemplos de vida, como acontece nas ciências morais, ou também
para declarar a autoridade dos homens por meio dos quais derivou a
revelação, sobre a qual se funda a escritura ou doutrina sagrada", disse
Aquino (citação contida na História da Filosofia). A definição de Aquino
cria um raciocínio circular: dos beatos derivou a doutrina sagrada e por
essa mesma doutrina é confirmada a autoridade desses homens. São os
próprios beatos que outorgam a si próprios a autoridade de representar a
verdade, a palavra de Deus. Não haveria para os outros homens, senão
aceitar suas palavras passivamente mesmo que ofendam a razão ou
pareçam absurdas. Essa é a fé cega. (Site,
http://www.mundosfilosofos.com.br, consuta de 23/03/2010)

A Experimentação da Metafisica

OS fundamentos básicos da busca da verdade por meio da razão são:


liberdade de pensamento, confronto das idéias entre si e verificação com
a realidade positiva. Por isso a proposta espírita, baseada na observação
empírica da realidade metafísica por meio do sonambulismo magnético e
da mediunidade, demonstrou a realidade da filosofia de Sócrates, Platão e
do Cristianismo primitivo como fruto da investigação direta dos fatos
espirituais naturais. Desse modo, a confirmação dos fatos relativos ao
mundo espiritual, pelo Espiritismo, não é um sistema ou especulação,
mas fruto da observação dos fatos. Um de seus instrumentos é o
sonambulismo magnético: "Para o Espiritismo, o sonambulismo é mais
do que um fenômeno psicológico. É uma luz projetada sobre a psicologia.
É aí que se pode estudar a alma, porque é onde esta se mostra a
descoberto" ( O Livro dos Espíritos, p. 455). O outro instrumennto é a
mediunidade, sendo que esta "foi, para o mundo espiritual, o que o
telescópio foi para o mundo astral e o microscópio para o dos
infinitamente pequenos" (A Gênese).

Ocorreu no tempo certo a chegada dos meios para o homem distinguir


entre as especulações, as leis naturais do mundo material e do moral.
Afirmou Allan Kardec, em A Gênese, que anteriormente, "para fixar as
idéias, faltou [ao homem] o elemento essencial: o conhecimento das leis a
que se acha sujeito o princípio espiritual. Estava reservado à nossa época
esse conhecimento, como o esteve aos dois últimos sécuios o das leis da
matéria" (A Gênese).

80
Mundividência Religiosa Cristã81

Os espíritos esclareceram, por meio da mediunidade, que essas duas


ciências, o Espiritismo e o magnetismo, "nos dão a chave de uma
imensidade de fenômenos sobre os quais a ignorância teceu um sem
número de fábulas, em que os fatos se apresentam exagerados pela
imaginação. O conhecimento lúcido dessas duas ciências que, a bem
dizer, formam uma única, mostrando a realidade das coisas e suas
verdadeiras causas, constitui o melhor preventivo contra as idéias
supersticiosas, porque revela o que é possível e o que é impossível, o que
está nas leis da natureza e o que não passa de ridícula crendice" (O livro
dos Espíritos, p. 555).

Assim a fé, originando-se dos sentimentos inatos da existência de Deus e


de sua destinação futura, é desenvolvida pelo livre exercício da razão
aliado à observação empírica e positiva da metafísica por meio do
sonambulismo e da mediunidade. Os fenômenos mediúnicos abriram
caminho para um desenvolvimento racional da metafísica, unindo razão e
fé. "A fé espírita apresenta-se como raciocinada e, portanto, proveniente
do raciocínio. É uma filha da razão, e, não obstante, tem como pai o
sentimento", afirmou Herculano Pires (Introdução à Filosofia Espírita).

A fé, segundo o dicionário Aurélio, é "a adesão e a anuência pessoal a


Deus e seus desígnios e manifestações". Portanto, para conciliar a fé com
a razão, partimos da existência do Criador. "Sendo Deus a causa primária
de todas as coisas, a origem de tudo o que existe, a base sobre que
repousa o edifício da criação, é também o ponto que devemos considerar
antes de tudo", explicou Kardec. De acordo com a doutrina espírita, a
aceitação de Deus relaciona-se com o sentimennto inato de sua
existência, que também pode ser confirmada pela sua obra. Como não
fizemos o Universo, um ser superior o fez. O homem que reconhece a
superioridade de Deus submete-se, inteiramente, à sua autoridade sem
precisar de intermediários, sejam cultos, paramentos, amuletos, templos,
sacerdotes ou qualquer outro que seja. Basta ligar-se ao seu eu interior,
onde encontra a presença de Deus. (Site,
http://www.mundosfilosofos.com.br, consuta de 23/03/2010)

Espiritismio: Fé Raciocinada

Fides et Ratio, a última encíclica, até agora, do papa Carol Wojtyla (João
Paulo II)é dedicada ao papel da filosofia no mundo atual e na fé católica,
Não é comum os papas publicarem documentos desssa natureza sobre a
filosofia. O último exemplo do gênero foi a já comentada Aetemi Patris,
escrita por Leão XIII em 1879. Vê-se que o tema fascina João Paulo II.
Para ele "a filosofia é como o espelho em que se reflete a cultura dos
povos': Ele garante:"O homem é naturalmente filósofo".

Na encíclica de 14 setembro de 1998, João Paulo II iniciou seu texto com


uma analise lúcida e correta dos efeitos da ausência do exercício da
filosofia em nossa época: "Faço-o movido pela constatação, sobretudo em
nossos dias, de que a busca da verdade última aparece muitas vezes
ofuscada. A filosofia moderna possui, sem dúvida, o grande mérito de ter
concentrado a sua atenção sobre o homem.

Todavia, os resultados positivos alcançados não devem levar a esquecer o


fato de que essa mesma razão, porque ocupada a investigar de maneira

81
Mundividência Religiosa Cristã82

unilateral o homem como objeto, parece ter-se esquecido de que este é


sempre chamado a voltar-se também para uma realidade que o
transcende. Sua condição de pessoa acaba por ser avaliada com critérios
pragmáticos baseados essencialmente sobre o dado experimental, na
errada convicção de que tudo deve ser dominado pela técnica. A filosofia
moderna, esquecendo-se de orientar a sua pesquisa para o ser, concentrou
a própria investigação sobre o conhecimento humano. Daí, provêm várias
formas de agnosticismo e relativismo, que levaram a investigação
filosófica a perder-se nas areias movediças dum ceticismo geral.

Exercícios

1 – É possível que a fé seja sujeita a razão ou vice-versa?


Justifica.

Auto-avaliação

82
Mundividência Religiosa Cristã83

Unidade N0 014-A0026
Tema: A separação entre religião
e ciência
Introdução

Em muitos círculos é nítida a sepação entre fé e razão, ou seja,


entre a religião e a ciência. Muitos pensadores defenderam e
defendem que a ciência não precisa da religião e vice-versa.
Tanto a religão como a ciência tem suas abordagens próprias,
suas concepções e formas de compreender e explicar o Homem e
a Natureza.

Ao completar esta unidade, você será capaz de:

 Identificar os pontos de convergência e divergência entre a


ciência e a religião;

Objectivos  Explicar a perspectiva da Igreja sobre a ciência.

Sumário
A Separação entre A Religião e a Ciência

A dissociação entre fé e razão mantém o imobilismo dogmático, tanto


teológico quanto do materialismo reducionista. A filosofia, como o amor
à sabedoria e busca da verdade pela compreensão de si messmo, é a
chave necessária para conciliar religião e ciência. E o papa continuou,
refletindo: "Constata-se, enfim, uma generalizada desconfiança
relativamente a asserções globais e absolutas, sobretudo da parte de quem
pensa que a verdade resulte do consenso e não da conformidade do
intelecto com a realidade objetiva.

Compreende-se que, num mundo subdividido em tantos campos de


especializações, se torne difícil reconhecer aquele sentido total e último
da vida que tradicionalmente a filosofia procurava. Mas nem por isso
posso deixar de encorajar os filósofos, cristãos ou não, a terem confiança
nas capacidades da razão humana e a não prefixarem metas demasiada
modestas à sua investigação filosófica. A lição da história deste milênio,

83
Mundividência Religiosa Cristã84

quase a terminar, testemunha que a estrada a seguir é esta: não perder a


paixão pela verdade última, nem o anseio de pesquisa, unidos à audácia
de descobrir novos percursos. É a fé que incita a razão a sair de qualquer
isolamento e a abraçar de bom grado qualquer risco por tudo o que é belo,
bom e verdadeiro. Desse modo, a fé torna-se advogada convicta e
convincente da razão". Ao ler essas palavras, dá vontade de, junto ao
papa, abraçar qualquer risco que seja por tudo que é verdadeiro,
estendendo o uso de nossa razão para varrer qualquer mistério que ouse
enfrentá-la. (Site, http://www.mundosfilosofos.com.br, consulta de
23/03/2010)

Essas idéias estão de acordo com a doutrina espírita, como explica


Kardec na obra O Céu e o Inferno. "Devemos considerar esta vida
debaixo de um ponto de vista que satisfaça ao mesmo tempo à razão, à
lógica, ao bom senso e ao conceito em que temos a grandeza, a bondade e
a justiça de Deus. O Espiritismo, pela fé inabalável que proporciona, é, de
quantas doutrinas filosóficas que conhecemos, a que exerce mais
poderosa influência".

Mais gigantesco que as constelações infindáveis, mais próximo que a


menor partícula, mais presente que o vento a soprar nosso rosto, sentimos
a presença de Deus! E o pensamento e o sentimento forte que nos
arrebata, afastando qualquer dúvida, permitem afirmar: somos alma
imortal! E os sentidos exteriores, com a centelha divina interior que nos
une a tudo e todos, juntando nossa razão à fé inquebrantável, afasta o
sobrenatural e o mistério, tudo explicado pela eterna lei divina e natural.
Plenos de paz, refletimos, com liberdade e coragem: a vida só tem sentido
quando se busca compreender de onde viemos, quem somos e qual a
nosso destino. A semente da fé inata da existência de Deus, e de nosso
destino espiritual, incitam o homem a exercer sua virtude e buscar a
felicidade, que é o verdadeiro sentido da vida. Atônitos, diante da infinita
beleza e bondade universal, vimos finalmente: observação cientíífica, fé e
razão se juntando num só corpo indissolúvel: ciência, filosofia e religião
natural. É aí que os homens se reconhecem no ideal de liberdade,
igualdade e fraternidade. Esse é o caminho da união entre compreensão e
moral.

A Palavra última da Igreja

Mas enquanto desfrutávamos dessas empolgantes idéias, o papa, alheio


aos nossos pensamentos, continuava a escrever sua encíclica. "A Igreja
Católica preconiza que ela é uma virtude sobrenatural pela qual, sob a
inspiração divina e com a ajuda da Graça, acreditamos que são
verdadeiras as coisas por Ele reveladas, não por causa da verdade
intrínseca das coisas percebidas pela luz natural da razão, mas por causa
da autoridade do próprio Deus que as revela, o qual não pode enganar-se,
nem enganar. A razão nunca chega a ser capaz de penetrar , nem as
verdades que formam o seu objeto específico". (Site,
http://www.mundosfilosofos.com.br, consuta de 23/03/2010)

Para o papa não basta ignorar, é preciso combater tudo que diverge da
teologia da Igreja. "Os fiéis cristãos não só não têm o direito de defender
como legítimas as conclusões da ciência, as opiniões reconhecidas
contrárias à doutrina da fé, especialmente quando estão condenadas pela

84
Mundividência Religiosa Cristã85

Igreja, mas são estritamente obrigados a considerá-las como erros, que


apenas têm uma ilusória aparência de verdade", concluiu. Logo
lembramos de Tertuliano ao afirmar: "Preciso da sua ignorância". E, ao
pensar em Tomás de Aquino corrigindo a filosofia pela teologia, o papa
continua escrevendo mais adiante: "O papa Leão XIII, com a carta
encíclica Aeterni Patris, realizou um passo de alcance verdadeiramente
histórico na vida da Igreja. (Site, http://www.mundosfilosofos.com.br,
consuta de 23/03/2010)

Muitas indicações lá contidas nada perderam do seu interesse tanto do


ponto de vista prático como pedagógico; a primeira de todas é a que diz
respeito ao valor incomparável da filosofia de S. Tomás. Ao mesmo
tempo em que distingue perfeitamente a fé da razão, conserva os direitos
próprios de cada uma e salvaguarda a sua dignidade. E assim, a Igreja
pôde no decurso do século 20 dispor dum vigoroso grupo de pensadores
formados na escola do Doutor Angélico. Será que se pode chamar a
filosofia tomista, repetida sem discussão por séculos nas universidades
européias medievais, de "renovação'? O papa sinalizou, claramente, que
as relações entre fé e razão estão, para a Igreja, no mesmo patamar do
século 13. O pensamento de Tomás de Aquino ainda é sua última palavra.

TOMÁS DE AQUINO: a fé corrige a razão. Assim como Santo


Agostinho foi uma aproximação de Sócrates, a filosofia de Tomás de
Aquino representou a aproximação a Aristóteles, criando um novo
caminho para o desenvolvimento da escolástica. "O século 13 viu o
triunfo de Aristóteles. Tomás de Aquino (1225-1274) procurou
estabelecer a doutrina católica com base na filosofia de Aristóteles. O
aristotelismo de Aquino conseguiu se firmar de modo completo e
permanente. O tomismo se tornou a doutrina oficial da Igreja Romana, e,
como tal, é ensinado em todas as universidades e escolas. Nenhuma outra
filosofia desfruta hoje de condição tão destacada e de apoio tão poderoso,
exceto o materialismo dialético", afirmou Bertrand Russell, em História
do Pensamento Ocidental. (Site, http://www.mundosfilosofos.com.br,
consuta de 23/03/2010).

De acordo com o livro História da Filosofia, de Giovanni Reale, Tomás


de Aquino disse: "A doutrina sagrada é uma ciência, pois se apóia sobre
princípios conhecidos por lume de ciência superior. Isto é, da ciência de
Deus e dos beatos". A concessão de Aquino em aceitar a argumentação
filosófica tem limites muito claros: os dogmas centenários. Para ele era
impossível deixar-se levar pelos argumentos, como fazia Sócrates. "Há
algumas verdades que superam todo poder da razão humana. Outras
verdades podem ser pensadas pela razão natural", reafirmou Tomás.
Segundo ele, a fé determinada pela Igreja corrige a razão, assim como a
teologia retifica a filosofia. Mas, no final das contas, permanece a
imposição dos dogmas.

Um Novo Paradigma

Qual autoridade poderia separar o certo do errado se o homem


empreendesse uma busca na compreensão dos mistérios? "Quem julgará
das interpretações diversas e muitas vezes contraditórias, fora do campo
da teologia?", perguntou Kardec. Ele mesmo responde: "O futuro, a
lógica e o bom-senso. Os homens, cada vez mais esclarecidos, à medida

85
Mundividência Religiosa Cristã86

que novos fatos e novas leis se forem revelando, saberão separar da


realidade os sistemas utópicos. Ora, as ciências tomam conhecidas
algumas leis; o Espiritismo revela outras; todas são indispensáveis à
inteligência dos Textos sagrados de todas as religiões, desde Confúcio e
Buda até o Cristianismo. Quanto à teologia, essa não poderá
judiciosamente alegar contradições da ciência, visto como também ela
nem sempre está de acordo consigo mesma" (Kardec, A Gênese).
Entretanto, o seguinte conselho do papa é válido e valoroso. "Não perder
a paixão pela verdade última, nem o anseio de pesquisa, unidos à audácia
de descobrir novos percursos". (Site,
http://www.mundosfilosofos.com.br, consuta de 23/03/2010).

Para quem não aceita manter-se na ignorância exigida por Tertuliano, e


não acha Sócrates "palhaço" nem seu espírito "mentiroso'; como afirmou
Minúcio Felix no século 2 d.C, deve ajudar a reconstruir as bases
filosóficas da unidade de Deus, da imortalidade da alma e da vida futura,
em nossa cultura. A filosofia está sendo representada nas universidades,
pelo tomismo dos professores católicos ou pelo materialismo dialético. A
filosofia espírita é uma realidade e precisa se fazer representar como novo
paradigma cultural. Pesquisadores, acadêmicos, pensadores espíritas
precisam construir coletivamente uma nova opção de conhecimento puro,
uma metafísica comprovada pela observação.

A filosofia espírita, desenvolvida e bem compreendida, pode ser aplicada


em todas as áreas do conhecimento. Sua visão sólida e consoladora tem a
missão de transformar as ciências, instituições e relações sociais e
familiares; pesquisas, teses, trabalhos escolares, aulas e debates;
discussões, palestras, estudos em todas as instituições do saber, inclusive
nos Centros Espiritas. Enfim, a filosofia iniciada por Sócrates, Platão e
Jesus, demonstrada pela ciência espirita, precisa ser compreendida,
aprofundada e pesquisada para servir como conhecimento basilar para a
regeneração da Humanidade, tarefa fundamental do Espírito de Verdade.

Conduímos com Kardec, quando, no último capítulo do derradeiro livro


da Codificação, A Gênese, anunciou o sinal dos tempos: "Hoje, a
Humanidade está madura para lançar o olhar a alturas que nunca tentou
divisar, a fim de nutrir-se de idéias mais amplas e compreender o que
antes não compreendia (...). É a meta para que vai evidentemente a
Humanidade. Ensaia, tateia, mas é detida por muitas resistências ativas,
ou pela força de inércia dos preconceitos, das crenças estacionárias e
refratárias ao progresso. Faz-se indispensável vencer tais resistências e
essa será a obra da nova geração. Quem acompanhar o curso atual das
coisas reconhecerá que tudo parece predestinado a lhe abrir caminho. Ela
terá por si a dupla força do número e das idéias e, de acréscimo, a
experiência do passado' (Paulo Henrique de Figueiredo - Revista
Universo Espírita - fevereiro n°6.)

86
Mundividência Religiosa Cristã87

Exercícios

1 – Em que sentido a ciência se diverge ou se aproxima da


religião?
2 – Como a Igreja católica se relaciona com a ciência?
Auto-avaliação

87
Mundividência Religiosa Cristã88

Unidade N0 15-A0013
Tema: O mistério de Deus
Introdução
Em Deus coexistem diversos mistérios díficeis de desvendar
apenas com a razão humana. É preciso ter olhos de fé para
entender Deus e conviver com Ele. O mesmo Deus é Paí, Espírito
Santo, está no Filho e na Sua Igreja; é Amor e Criador.

Ao completar esta unidade, você será capaz de:

 Explicar o mistério de Deus Uno e Trino;

 Descrever os Dons do Espírito Santo;

Objectivos

Sumário
O Mistério de Deus: Amor , Uno e Trino

A Igreja Católica ensina que o insondável mistério que chamamos Deus,


revelou-se à humanidade como uma Trindade de Pessoas: Pai. Filho e
Espírito Santo. O mistério da Trindade é a doutrina central da fé
católica. Sobre ele estão baseados todos os outros ensinamentos da Igreja.
No Novo Testamento há freqüente menção do Pai, do Filho e do Espírito
Santo. Uma leitura atenta destas passagens da escritura leva-nos a uma
inconfundível conclusão: cada uma destas Pessoas é apresentada como
tendo qualidades que só a Deus podem pertencer. Mas se há apenas um
só Deus, como pode ser isso?

Crer em Deus Pai e Amor

Crer que Deus é Pai significa crer que o ser humano é filho; que Deus,
seu Pai, o acolhe e o ama; que Deus, seu Pai, criou-o como um ser
humano digno de amor. Crer que Deus é Palavra salvadora significa crer

88
Mundividência Religiosa Cristã89

que o ser humano é um ouvinte; que a sua resposta à Palavra de Deus é


abrir-se ao Seu Evangelho libertador que o liberta para optar pela união
com Deus e pela fraternidade com o próximo (Jo.1,1ss;, 1Jo.4). Crer que
Deus é Espírito significa crer que neste mundo você está destinado a
viver uma vida santificada, sobrenatural, que é uma participação limitada
na própria natureza divina - uma vida que é o início da vida eterna.

Mistério de Cristo: Humano e Divino, Salvador

A segunda Pessoa da Santíssima Trindade tornou-se um homem: Jesus


Cristo. Sua mãe foi Maria de Nazaré, filha de Joaquim e Ana. José,
esposo de Maria, era como um pai para Jesus. O verdadeiro e único Pai
de Jesus é Deus; Ele não teve pai humano. Concebido no seio de Maria
pelo poder do Espírito Santo, Jesus nasceu em Belém da Judéia entre os
anos 6 e 4 A.C.. Ele morreu no Calvário. Ele é uma só Pessoa, mas tem
ambas as naturezas, a divina e a humana, É verdadeiramente Deus e é
também verdadeiramente homem. Isto significa que tem todas as
qualidades e atributos de Deus. E tem corpo humano, alma humana,
inteligência e vontade humanas, imaginação humana e sentimentos
humanos. Sua divindade não suplanta sua humanidade, nem interfere nela
e vice-versa. No Calvário morreu, igual todos os seres humanos . Mas ao
morrer, tanto na morte como depois dela, Ele permaneceu Deus. Jesus
ressuscitou dos mortos na manhã de Páscoa. Hoje Ele está vivo com o Pai
e o Espírito Santo - e também no meio de nós. Ele ainda é Deus e
homem, e sempre o será. Ele vive. E Sua passagem da morte para a vida
é o mistério de salvação a que todos nós somos destinados a partilhar (cfr.
Profissão de fé católica - credo).

Hoje Jesus vem a cada ser humano, influenciando positivamente sua vida
de várias maneiras. Ele vem ao homem na sua Palavra: quando lhe é
pregada a Palavra de Deus, ou quando lê a Bíblia com respeitosa atenção.
Ele também está ativamente presente nos seus fieis nos sete sacramentos,
especialmente na Eucaristia. Um outro modo do homem encontrar Jesus é
nas outras pessoas. É o que lemos na cena do juízo final no Evangelho de
São Mateus: "Então os justos lhe responderão: 'Senhor, quando foi que te
vimos com fome e te alimentamos, ou com sede e te demos de beber?'...
Ao que lhes responderá o rei: 'Em verdade vos digo: cada vez que o
fizestes a um desses meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes' "
(Mt 25, 37-40)

Mistério do Espirito Santo

São Paulo aludiu a esta presença de Deus que tudo envolve, quando citou
um poeta que dizia: "Nele vivemos, nos movemos e somos" (At 17, 28).
Há, porém, uma outra presença de Deus, inteiramente pessoal, no íntimo
daqueles que o amam. O próprio Jesus fala dela no Evangelho de São
João, ao dizer: "Se alguém me ama, guardará a minha palavra e meu Pai o
amará, e viremos a ele e nele faremos nossa morada" (Jo 14, 23). Essa
presença especial da Trindade é com razão atribuída ao Espírito Santo,
pois como São Paulo proclama, "o amor de Deus foi derramado em
nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado" (Rom 5,5).

Os Dons do Espírito

89
Mundividência Religiosa Cristã90

O Espírito Santo não só está intimamente presente dentro de cada


homem, mas está também trabalhando ativamente, embora em silêncio,
para o transformar. Se o homem acolher suas silenciosas inspirações,
então os dons do Espírito Santo tornar-se-ão realidades sensíveis na sua
vida. Há duas espécies de dons do Espírito. Os dons da primeira espécie
são destinados à santificação da pessoa que os recebe. São qualidades
sobrenaturais permanentes que fazem a pessoa entrar em especial sintonia
com as inspirações do Espírito Santo. São estes: sapiência - sabedoria-
que ajuda a pessoa a apreciar as coisas do céu, Entendimento -
inteligência - que permite à pessoa compreender as verdades da religião,
conselho - que auxilia a pessoa a ver e a escolher corretamente na prática
o melhor modo de servir a Deus, fortaleza - que dá força à deliberação da
pessoa para superar os obstáculos a fim de viver a fé, conhecimento - que
ajuda a pessoa a ver o caminho a seguir, e os perigos para sua fé, piedade
- que comunica à pessoa muita confiança em Deus e vontade de servi-lo,
e o temor de Deus - que dá à pessoa uma profunda consciência da
soberania de Deus e do respeito devido a Ele e às suas leis.

Uma segunda espécie de dons do Espírito Santo são os chamados


carismas. São favores extraordinários concedidos principalmente para o
bem dos outros. Em 1Cor 12,6-11 mencionam-se nove carismas, a saber,
os dos de falar com sabedoria, de falar com conhecimento, fé, dom das
curas, milagres, profecia, discernimento dos espíritos, línguas e
interpretações dos discursos. Outras passagens de São Paulo (como
1Cor 12,28-31 e Rom. 12, 6-8) mencionam outros carismas.

Exercícios

1 – Quem é Deus para si?


2 – É possível explicar Deus a partir da razão humana? Por que?

Auto-avaliação 3 – Explica a concepção de um Deus Uno e Trino?

90
Mundividência Religiosa Cristã91

Unidade N0 16-A0026
Tema: As três virtudes teologais –
Fé, Esperança e Caridade
Introdução

A Igreja Católica afirma que o Homem atinge a plenitude do ser


moralmente quanto tem Fé, acredita em Deus; Esperança na vida
eterna e exerce a caridade através das suas boas práticas. Fé,
Esperança e Caridade são denominadas as três viturdes teologais.

Ao completar esta unidade, você será capaz de:

 Caracterizar as virtudes teologais;

 Agir bem com relação a sim mesmo, ao próximo e a


Deus.
Objectivos

Sumário
Três virtudes teologais (Fé, Esperança e Caridade)

Como ser humano, o homem é capaz de crer, confiar e amar os outros. A


graça transforma esses modos do homem se relacionar com outras
pessoas nas virtudes teologais (orientadas para Deus) da fé, esperança e
caridade - capacidade para se relacionar com Deus e com os outros como
um de seus filhos eternamente amados. No estado da graça, o homem
tem fé: crê em Deus, entregando todo o seu ser a Ele como a fonte
pessoal de toda verdade, realidade e do seu próprio ser. O homem tem
esperança: deposita todo o seu sentido e seu futuro em Deus, cuja
promessa feita de vida eterna com Ele, está sendo cumprida dum modo
velado já agora através da sua existência na graça. E o homem tem
caridade: ama a Deus como Aquele que é pessoalmente Tudo na sua
vida, e todos os homens como participantes do destino que Deus quer
para todos: a eterna comunhão com Ele. (Se alguém se afasta de Deus
pelo pecado grave, perde a graça habitual e a virtude da caridade. Mas
essa perda não lhe retira a fé nem a esperança, a não ser que ele peque
direta e gravemente contra essas virtudes.)

91
Mundividência Religiosa Cristã92

Resposta Humana ao Amor de Deus (Amor a Deus, a si mesmo e aos


outros)
O Amor deve estar presente e penetrar todas as relações sociais. Nesta
vida o amor do ser humano fiel a Deus está ligado a seu amor aos outros
e, esse amor está também ligado ao amor para consigo mesmo. O homem
não ama a Deus, a que não pode ver, a não ser que ame seu irmão que vê
(1Jo 4,20). E, por preceito do próprio Deus, o homem deve amar ao
próximo como a si mesmo (Mt 19,19; 22,39). Falando em termos
práticos, da vida real, o cumprimento do preceito divino de amar começa
com um autêntico amor a si mesmo. A fim de amar a Deus como Ele
quer. O homem crente precisa respeitar, estimar e reverenciar a si mesmo.
Este amor se manifesta através das obras de misericórdia prescritas no
Evangelho (Mt 25,3l-46), que consistem em duas categorias: umas
referentes a carne (corporais) e outras ao espirito (espirituais), num total
de 14, sete para cada categoria. A) Corporais: 1- Dar de comer a quem
tem fome. 2-Dar de beber a quem tem sede. 3- Vestir os nús 4- Dar
abrigo ao peregrinos. 5-Visitar doentes e encarcerados. 7 Sepultar os
mortos. B) Espirituais: 1- Dar bom conselho. 2-Ensinar aos que não
sabem. 3-Corrigir os que erram. 4-Consolar os aflitos5- Perdoar as
ofensas. 6-Suportar as fraquezas do próximo. 7-Orar pelos vivos e
defuntos.

Exercícios

1 – Em que sentido a virtudes teologais permitem uma maior


harmonia na Humanidade?

Auto-avaliação

92
Mundividência Religiosa Cristã93

Unidade N0 17-A0026
Tema: O mistério da Igreja
Introdução

A Igreja na visão Cristã é o sacramento Universal da salvação.


Ela é uma das formas de presença de Deus sobre os Homens. A
Igreja é também uma comunidade de pessoas que manifestam em
a mesma Fé e Amor Divino.

Ao completar esta unidade, você será capaz de:

 Caracterizar o mistério da Igreja;


 Explicar a importância da Igreja para re-ligação entre o Ser
Humano e o Deus.
Objectivos

Sumário
Mistério da Igreja: Sacramento Universal de Salvação
“O concilio Vaticano II começa considerando a Igreja como mistério.
Mistério não tanto no sentido de realidade misteriosa e escondida, mas no
sentido paulino de plano de salvação de Deus. Segundo Ef.1,3-23, a
Igreja está firmemente enquadrada no interior do mistério divino, como
parte integrante do mesmo e instrumento de sua realização. A Igreja é
Sacramento Universal de Salvação” ( FROSINI, Giordano, A Teologia
Hoje, síntese do pensamento teológico, Portugal, Perpetuo Socorro, 2001.
p.173).

Os padres da igreja definiram a igreja como povo unido pela unidade do


pai do filho e do espirito Santo (S. Cipriano). A igreja como corpo das
três pessoas (Tertuliano), a igreja como cheia da santa trindade
(origines). O mistério da igreja reenvia ao grande mistério da santíssima
trindade. “A santíssima trindade e ao mesmo tempo, origem, modelo e
fim ultimo da igreja”. Toda a trindade entra em acção, cada uma com a
sua função: “o Pai pensou, o filho fundou e o espirito santificou”
(FROSINI, Giordano. Op. cit. Ibdem).

93
Mundividência Religiosa Cristã94

Sendo mistério, a Igreja é objeto de fé: “creio na Igreja”. Os padres da


Igreja advertem que ao ser mistério ela existe antes do seu nascimento.
Por isso, ela nunca poderá ser compreendida , descrita, analisada. Sua
verdadeira realidade nos escapa, ficando-nos as aparências. Ao ser
mistério também ela não se pode circunscrever nem definir
rigorosamente. Somente podemos usar imagens para sua alusão, porque a
linguagem simbólica é a linguagem típica do mistério. Por isso, o
Concilio prefere três imagens ao se referir à igreja: povo de Deus, corpo
de Cristo, templo do Espirito Santo (cf. LG 17, AG 7, PO 1). E povo de
Deus na medida em que goza do caracter histórico e escatológico e Corpo
de Cristo em que afirma o carácter da visibilidade e da invisibilidade
(corpo místico de cristo) e é Templo do Espirito Santo, na medida em que
os seus fiéis gozam do sacerdócio comum e o carácter da sua
infalibilidade no crer. (FROSINI, Giordano, op. cit. P.174-175).

A igreja participa das alegrias e esperanças, das angustias e das tristezas


dos homens, e solidaria com todo o homem e com toda a mulher. Ela e,
na humanidade, sacramento do amor de Deus e da esperança que activa e
sustenta todo o autentico projecto de libertação e promoção humana
(PONTIFICIO CONSELHO “JUSTICA E PAZ”, Compendio de
Doutrina Social da Igreja, S. Paulo, Paulinas N.60)

A Igreja fundada por Jesus Cristo


Jesus escolheu doze seguidores que se entregaram completamente a Ele.
Aos Doze revelou o conhecimento pessoal dele próprio, falou da sua
futura Paixão e morte, e deu profunda instrução sobre o que acarretava
seguir tal caminho. Só os Doze tiveram permissão de celebrar a sua
Última Ceia com Ele. Os Doze eram chamados apóstolos, isto é,
emissários, cuja missão era serem os representantes pessoais de Jesus.
Deu a esses apóstolos o pleno poder de autoridade que Ele tinha do Pai. A
plenitude dessa autoridade vem indicada nas palavras do Evangelho: "Em
verdade, em verdade vos digo, tudo o que ligardes na terra será ligado no
céu, e tudo o que desligardes na terra será desligado no céu" (Mt. 18,18).

O clímax da formação da Igreja por Jesus foi a Última Ceia. Nesta


refeição Ele tomou pão e vinho e disse: "Tomai e comei, isto é meu
corpo; tomai e bebei, isto é meu sangue". Com essas palavras Ele
realmente se deu a eles. Recebendo-o desta forma, os Doze entraram
numa intimidade tão completa com Ele e com os outros, que jamais havia
sucedido algo semelhante. Nessa refeição tornaram-se um só corpo em
Jesus. A Igreja primitiva estendeu a profundidade desta comunhão: é o
que nos mostra a mais antiga narração da Eucaristia, onde São Paulo diz:
"Porque há um pão, nós que somos muitos, formamos um só corpo,
porque todos nós participamos de um só pão" (1Cor 10,17).

Na Ceia, Jesus também falou do "novo testamento". Deus estava


estabelecendo um novo pacto com a humanidade, uma aliança selada com
o sangue sacrificial por uma nova lei: o mandamento do amor. A Última
Ceia foi a etapa final de Jesus, antes de sua morte, na preparação dos
Doze. Esta celebração revelou como eles e seus sucessores, através dos

94
Mundividência Religiosa Cristã95

tempos, deveriam exercer sua missão de ensinar, santificar e governar.


Segundo os Evangelhos (Mt 16, 13-19; Lc 22,31ss; Jo 21, 15-17), a
responsabilidade conferida aos apóstolos, foi conferida de modo especial
a São Pedro. No Evangelho de Mateus encontram-se estas palavras de
Jesus: "E eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei minha
Igreja, e as portas do inferno nunca prevalecerão contra ela". Pedro deve
ser a rocha, o representante visível de Jesus que é o alicerce da Igreja.
Pedro fornecerá à igreja a liderança inabalável contra "os poderes da
morte", contra quaisquer forças que queiram destruir o que Jesus trouxe
ao seu povo.

A fundação da Igreja por Jesus foi completada pelo envio do Espírito


Santo. O nascimento efetivo da Igreja teve lugar no dia de pentecostes.
Este envio do Espírito realizou-se publicamente como também se tinha
realizado à vista de todos a crucifixão de Jesus. Desde aquele dia, a Igreja
se tem mostrado como uma realidade humano-divina, como a soma da
obra do Espírito e do esforço dos homens, à maneira humana, para
cooperar com o dom da sua presença e do Evangelho de Cristo.

Igreja como o Corpo de Cristo

A imagem da Igreja como o Corpo de Cristo encontra-se no Novo


Testamento, nos escritos de São Paulo. No cap. 10 da primeira Carta aos
Coríntios, Paulo diz que a nossa comunhão com Cristo provém do "cálice
de bênção" que nos une em seu sangue, e do "pão que partimos" que nos
une em seu corpo. Já que o pão é um só, todos nós, embora sendo muitos,
somos um só corpo. O corpo Eucarístico de Cristo e a Igreja são, juntos, o
Corpo (místico) de Cristo. No capítulo 12 da primeira Carta aos Coríntios
(e no capítulo 12 de Romanos), Paulo sublinha a dependência e a relação
mútuas que temos como membros uns dos outros. Nas Cartas aos
Efésios e aos Colossenses o que se destaca é Cristo como nossa cabeça.
Deus deu Cristo à Igreja como sua cabeça. Através de Cristo, Deus está
revelando seu plano, "o mistério oculto através dos séculos", de unir
todas as coisas e reconciliar-nos com Ele. Porque esse mistério está sendo
manifestado na Igreja, a Carta aos Efésios chama a Igreja de "o mistério
de Cristo".

A Igreja como o Sacramento de Cristo

Nos nossos dias, o Papa Paulo VI expressou a mesma verdade com estas
palavras: "A Igreja é um mistério. É uma realidade impregnada da
presença oculta de Deus". Quando São Paulo e Paulo VI chamam a
Igreja de "mistério", a palavra tem o mesmo significado que a palavra
"sacramento", Designa um sinal visível da invisível presença de Deus.
Assim como Cristo é o sacramento de Deus, assim a Igreja é para você o
sacramento, o sinal visível de Cristo. Entretanto, este processo de
salvação é uma aventura divino-humana. Nós todos participamos dele.
Nossa cooperação com o Espírito Santo consiste em nos tornarmos uma
Igreja que de tal modo vê Cristo nos outros, que os outros vejam Cristo
em nós.

95
Mundividência Religiosa Cristã96

Exercícios

1 – Por que é que a Igreja é considerada como Sacramento de


Salvação?

Auto-avaliação

96
Mundividência Religiosa Cristã97

Unidade N0 18-A0026
Tema: O mistério do Novo Céu e
Nova Terra.
Introdução

A vida Cristã se fundamenta na esperança de que irá chegar um


novo dia, uma nova terra e um novo céu, onde não haverá
injustiças, e todos serão irmãos, onde não haverá pobreza, todos
saberão repartir o que tem.

Ao completar esta unidade, você será capaz de:

 Discernir sobre suas atitudes perante a concretização do


novo céu e nova terra;
 Caracterizar o Novo Céu e a Nova Terra na perpectiva
Cristã;
Objectivos

Sumário
O Mistério do Novo Céu e Nova Terra
Ao refletirmos sobre o mistério do novo céu vimo-nos impelidos a
falarmos, antes de mais, da situação e condição humana que pode levar a
não poder desfrutar destes novos céus e da nova terra.. Por isso partimos
da reflexão sobre o pecado, que e visto por cristo como separação do
homem com Deus. Tambem procuramos refletir sobre o inferno, o
purgatorio, o ceu e o paraiso

Pecado Pessoal

Aos efeitos do pecado original deve-se acrescentar o pecado pessoal, o


pecado cometido por um indivíduo. Pecamos pessoalmente toda vez que
consciente e deliberadamente violamos a lei moral. Pelo pecado
deixamos de amor a Deus. Desviamo-nos - ou até mesmo retrocedemos -
da meta da nossa vida que é fazer a vontade de Deus.

97
Mundividência Religiosa Cristã98

Pecado mortal é a rejeição fundamental do amor de Deus. Por ele a


presença da graça divina é retirada do pecado. Mortal, que dizer
&ldquoque causa a morte&rdquo . Este pecado mata a vida e o amor
divinos na pessoa que peca. Para que o pecado seja mortal, deve haver (1)
matéria grave, (2) reflexão suficiente, e (3) pleno consentimento da
vontade.

Pecado venial é uma rejeição menos séria do amor de Deus. Venial


significa se perdoa facilmente. O pecado é venial quando a falta não é
grave, ou - se a matéria é grave - a pessoa não está suficientemente
cônscia do mal existente, ou não consente plenamente o pecado. O
pecado venial é como uma doença espiritual que magoa mas não mata a
presença da graça divina dentro da pessoa. Pode haver graus de gravidade
no pecado, como as diferentes doenças podem ser mais graves ou menos
graves. mesmo os pecados menos graves não devem ser considerados
levianamente. Pessoas que se amam não querem ofender uma à outra de
maneira alguma, nem sequer do modo mais insignificante.

Para haver pecado, de qualquer gravidade, não é preciso que haja ações.
Pode-se pecar por pensamento ou desejo ou por omissão de fazer algo
que devia ser feito. Deus perdoa qualquer pecado - mesmo os mais
graves - um sem número de vezes, se a pessoa está realmente
arrependida. Quem se considera em pecado mortal deve confessar tal
pecado e reconciliar-se com Cristo e com a Igreja, antes de receber a
Santa Comunhão (1 Cor 11, 27-28)

Pecado pessoal e mal social

Os padrões do mal podem ser institucionalizados. Por exemplo, a


injustiça pode vir a ser parte do modo de viver de um grupo, sendo
incluída nas leis e nos costumes sociais. Esses (padrões), numa reação
em cadeia, contaminam as atitudes e ações das pessoas naquele
ambiente. A influência desses padrões pode ser tão sutil que as pessoas
neles comprometidas podem efetivamente não ter consciência do mal que
provocam. O mistério do pecado original tem uma dimensão social, e a
cooperação em padrões de pecado intensificam presença do mal no
mundo. Contribui para o sofrimento humano. Por isso, o Vaticano li faz
questão de enfatizar - especialmente durante o tempo penitencial da
quaresma - "as conseqüências sociais do pecado" (Constituição
Sacrosanctum Concilium, sobre a Sagrada Liturgia, n.º 109). Quem se
associa ao mal institucional torna-se "parte do problema" - um
descendente atuante do Velho Homem, Adão. Quem resiste ou se opõe
ao mal social torna-se "parte da solução" - alguém que vive da vida
conquistada para nós pelo Homem Novo, Jesus Cristo.
O Purgatório e a Comunhão dos Santos

Se você morre no amor de Deus mas está com "manchas de pecado",


estas manchas são eliminadas num processo de purificação chamado
purgatório. Tais manchas de pecado são principalmente as penas
temporais devidas aos pecados veniais ou mortais já perdoados, mas para
os quais não foi feita expiação suficiente durante sua vida. Esta doutrina
do purgatório, contida na Escritura e explanada na tradição, foi
claramente expressa no Concílio de Lião (l274 d.C.).

98
Mundividência Religiosa Cristã99

Tendo passado pelo purgatório, você estará plenamente livre do egoísmo


e será capaz do amor perfeito. Seu eu egoísta, aquela parte de você que
sem cessar procurava auto-satisfação, terá morrido para sempre. O seu
"novo eu" será sua - mesma pessoa íntima, transformada e purificado pela
intensidade do amor de Deus por você. Além de ensinar a realidade do
Purgatório, o 11 Concílio de Lião afirmou também que "os fiéis na terra
podem ser de grande ajuda" para os que sofrem o purgatório, oferecendo
por eles "o Sacrifício da Missa, orações, esmolas e outros atos
religiosos".

Está incluído nesta doutrina o laço de unidade - chamado Comunhão dos


Santos - que existe entre o Povo de Deus na terra, e os que partiram à
nossa frente. O Vaticano li, refere-se a este vínculo de união dizendo que
"recebe com grande respeito aquela venerável fé de nossos antepassados
sobre o consórcio vital com os irmãos que estão na glória celeste ou ainda
se purificam após a morte" (Lumen Gentium, nº 51).

O Inferno
Deus, que é infinito amor e misericórdia, é também justiça infinita. Por
causa da justiça de Deus e também por causa do seu total respeito pela
liberdade humana, o inferno é uma possibilidade real como destino eterno
de uma pessoa. É difícil para nós entender este aspecto do mistério de
Deus. Mas o próprio Cristo o ensinou e também a Igreja o ensina. A
doutrina do inferno está claramente na Escritura. No Evangelho de
Mateus Cristo diz aos justos: "Vinde, benditos de meu Pai, recebei por
herança o Reino preparado para vós desde a fundação do mundo". Mas
aos ímpios Ele dirá: "Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno
preparado para o diabo e para os seus anjos" (Mt25,34.41). Em outro
lugar se recorda que Jesus disse: "É melhor entrares mutilado para a Vida
do que, tendo as duas mãos, ires para a geena, para o fogo inextinguível"
(Mc 9,43).

O Céu

A graça, presença de Deus dentro de você, é como uma semente, uma


semente vital, que cresce, e está destinada, um dia, a desabrochar na sua
plenitude. Na sua primeira carta, São João nos diz: "Caríssimos, desde já
somos filhos de Deus; mas o que nós seremos ainda não se. manifestou.
Sabemos que por ocasião desta manifestação seremos semelhantes a Ele,
porque o veremos tal como Ele é" (l Jo 3,2). E, na sua primeira carta aos
Coríntios, São Paulo escreve: "Agora vemos em espelho e de maneira
confusa, mas depois veremos face a face. Agora o meu conhecimento é
limitado, mas depois conhecerei totalmente, como sou conhecido" (I Cor
13,12). Isto é o céu: a direta visão de Deus face a face como Ele é Pai,
Filho e Espírito Santo; união perfeita e total com Deus.

O PARAÍSO

99
Mundividência Religiosa Cristã100

A fé no juízo final no último dia está claramente expressa no credo da


Igreja. Naquele dia, todos os mortos ressuscitarão. Quando chegará este
dia? Numa passagem notável, repleta da esperança em todas as coisas
humanas, o Vaticano II, faz essa pergunta e expressa a visão da Igreja:
"Nós ignoramos o tempo da consumação da terra e da humanidade e
desconhecemos a maneira da transformação do universo. Passa
certamente a figura deste mundo deformada pelo pecado, mas
aprendemos que Deus prepara morada nova e terra nova. Nela habita a
justiça e sua felicidade irá satisfazer e superar todos os desejos da paz que
sobem nos corações dos homens". Enquanto isso, durante o tempo que
nos resta, "cresce aqui o corpo de uma nova família humana, que já pode
apresentar algum esboço do novo século". (Caticismo da Igreja
Católica, editoras: Paulina- Vozes - Edições Loyola)

Exercícios

1 – O que caracteriza na visão Cristã, um Novo Céu e uma Nova


Terra?
2 – Na sua opinião, quais são os comportamentos humanos que
Auto-avaliação não permitem a vivência da visão escatalógica de um Novo Céu e
uma Nova Terra?

100
Mundividência Religiosa Cristã101

Unidade N0 19-A0026
Tema: Ética filosófica.
Introdução

O ser humano é regido por regras que permitem a convivência


entre si, outros seres e o Universo. A ética dispõe-se a reflectir
sobre essas regras.

Ao completar esta unidade, você será capaz de:

Definir a ética filosófica;


Identificar os aspectos críticos da ética na actualidade.
Objectivos

Sumário
Ética Filosófica: O que é ética filosófica?

Os seres humanos tiveram de desenvolver a sua capacidade de raciocinar,


é um pensamento e pode refletir sobre suas decisões. Ao longo dos anos
tem construído e começar sua moral, e pelo senso comum ou consciência
pode distinguir entre o bem eo mal. É isso que transforma seus
pensamentos e atos sobre o que ele acha que é certo. Sabemos que a
filosofia é uma ciência que, apesar de ter muitos anos de ser criado
continua a causar controvérsia, uma vez que visa contestar o ser humano,
permite ao homem usar a razão e que está sempre procurando o
significado de sua própria existência e do universo

A ética é um conjunto de regras ou costumes que a sociedade tem criado,


como o passar do tempo a moral vem mudando devido à mudança de
costumes, valores e educação em nosso círculo social. O homem da
história, a religião ou a ciência é capaz de distinguir entre o bem e o mal.
No entanto, nem todas as pessoas têm crescido com a mesma educação,
ou os mesmos valores. É por isso que a moralidade pode variar em
pessoas como seres humanos agem individualmente com base em nosso
conhecimento e experiência.

101
Mundividência Religiosa Cristã102

Portanto, podemos definir a ética como uma ciência filosófica do homem


moral, como ele se comporta, seus valores e sua capacidade de usar a
coerência na tomada de decisão. A capacidade de arrefecimento do ser
humano tem aumentado nos últimos anos. Antes de o homem não mostra
muito interesse para o questionamento sobre certas coisas, especialmente
as mulheres, que tinham menos poder ou capacidade de tomar decisões
em nossa sociedade moderna passado, mas agora é totalmente liberado e
cada vez mais feitas perguntas mais e mais, na medida em que no futuro
ou a própria ciência será capaz de responder. Sociedade, a religião ea
ciência sempre desempenharam um papel importante no desenvolvimento
...
A Ética leva o Homem à sua finalidade principal: fazer o bem. A
humanidade, em sua crise, desvia-se de sua finalidade e a Ética é sua
bússola. Esta diferencia o que se pode fazer daquilo que deve ser feito,
pois nem tudo que é possível é ético, tem valor ou é para o bem. Segundo
Rafael Gomez Peres, “Ética é a parte da filosofia que estuda a moralidade
dos atos humanos, enquanto livres e ordenados a seu fim último” (Rafael
Gómez PÉREZ, Problemas morais da existência humana, Lisboa: CAS,
1983, p.25.)
A Ética impõe normas de conduta, com valor e noção de dever, pois se
diferencia de um simples preceito para obtenção de facilidades. Essas
normas distinguem-se de leis naturais. A lei natural não deixa ao
indivíduo a possibilidade de transgredi-la, de desviar-se dela, enquanto a
Ética estabelece normas de dever, dirigindo-se a seres com liberdade para
cumpri-las ou não. A lei física ou natural explica a finalidade de um
fenômeno, enquanto a norma ética quer provocar um comportamento.
A norma é, existe, enquanto a lei natural estabelece-se por fatos
(incidentes), a norma é ato (escolha) e existe, independentemente da
ocorrência ou não da conduta que ela estabeleça. Não depende da atitude
de seu alvo. Não se extingue ou permanece válida, se o agente transgredi-
la ou acatála. Conforme preceitua Eduardo Garcia Máynez (1970): “a
norma que é violada segue sendo norma”. Porém, o fato de a norma poder
ser violada, não tira sua eficácia, pois há sempre aquele disposto a
cumpri-la. E é do individual que se parte para o ambiente social. Para
Aristóteles, “o homem é um ser social e o bem é o objeto de todas as
aspirações do homem”.
Ser Ético Hoje
Para o professor da USP, Robert Henry Srour, ser ético nada mais é do
que “ agir direito, proceder bem, sem prejudicar os outros. É ser altruísta,
é estar tranqüilo com a consciência pessoal. É, também, agir de acordo
com os valores morais de uma determinada sociedade. Essas regras
morais são resultado da própria cultura de uma comunidade. Elas variam
de acordo com o tempo e sua localização no mapa. A regra ética é uma
questão de atitude, de escolha. Além de ser individual, qualquer decisão
ética tem por trás um conjunto de valores fundamentais. Muitas dessas
virtudes nasceram no mundo antigo e continuam válidas até hoje. Eis
algumas das principais” (ARRUDA, 2002).
a) Ser honesto em qualquer situação: a honestidade é a primeira virtude
da vida nos negócios, afinal, a credibilidade é resultado de uma relação
franca.

102
Mundividência Religiosa Cristã103

b) Ter coragem para assumir as decisões: mesmo que seja preciso ir


contra a opinião da maioria.
c) Ser tolerante e flexível: muitas idéias aparentemente absurdas podem
ser a solução para um problema. Mas para descobrir isso é preciso ouvir
as pessoas ou avaliar a situação sem julgá-las antes.
d) Ser íntegro: significa agir de acordo com os seus princípios, mesmo
nos momentos mais críticos.
e) Ser humilde: só assim se consegue ouvir o que os outros têm a dizer e
reconhecer que o sucesso individual é resultado do trabalho da equipe.
Atuar eticamente vai muito além de não roubar ou não fraudar a empresa.
A ética nos negócios inclui desde o respeito com que os clientes são
tratados ao estilo de gestão do líder da equipe. O fato, porém, é que cada
vez mais essa é uma qualidade fundamental para quem se preocupa em
ter uma carreira longa, respeitada e sólida (ARRUDA, 2002).

Exercícios

1 – O que caracteriza a ética filosófica?


2 – O que é ser ético, filosoficamente, na perspectiva actual?

Auto-avaliação

103
Mundividência Religiosa Cristã104

Unidade N0 20-A0026
Tema: Ética Religiosa
Introdução

Tal como a ética filosófica a ética religiosa é a que reflecte sobre


as normas e regras referentes a relação entre o Homem e Deus.

Ao completar esta unidade, você será capaz de:

 Caracterizar a ética religiosa;


 Comparar a ética religiosa e a ética filosófica.
Objectivos

Sumário
Ética Religiosa: Religião e Ética
A Ética Grega
Ao fazer uma análise de ética grega antiga percebem-se dois extremos
que foram de suma importância para a evolução nos estudos da ética,
levando os pensadores a pesquisarem sobre a natureza do bem moral na
busca de um princípio absoluto da conduta. Ela procede do contexto
religioso, onde surgiram muitas idéias éticas. O homem é o centro de
pesquisa entre grandes pesquisadores (Sócrates, Platão e Aristóteles), e
cada um deles a seu modo ,leva questionamentos e tenta chegar a uma
conclusão a respeito da ética. Se há vida após a morte, teríamos que nos
concentrar na busca da virtude e da dialética? Ao se falar da dialética
pensa-se em contemplação de idéias, ou de contemplação do saber pelo
saber? Virtudes são normas preestabelecidas ou uma espécie de segunda
natureza adquirida pela razão livre?
Diante de tantas verdades procura-se entender ética como um lugar onde
o ser humano se sinta encorajado, animado e confortado; é a certeza de
que eu possa ser melhor, que sou convidado a algo superior, que é
possível ser honesto, justo e verdadeiro na sociedade em que vivemos. O
homem precisa acreditar em algo que está além do aqui e agora, pois sem
idéias e ideais nada valeria a pena; abraçando a dialética do saber e das
idéias, a ética pede para sermos, mais autenticamente, nós próprios,
sermos mais verdadeiros, mais livres e responsáveis.

104
Mundividência Religiosa Cristã105

Não podemos deixar de falar sobre a essência de Deus, pois Ele é o


centro do universo e o homem para se desprender da matéria, do corpo é
necessário contemplar Deus na sua essência, o divino que habita em cada
ser vivente. Mas para se chegar a tal patamar é necessário seguir os
caminhos das virtudes, onde Platão, transcreve as principais virtudes
como: Justiça, Fortaleza, Prudência e Temperança; sendo virtudes que
trazem harmonia e equilíbrio. Já para Aristóteles, a felicidade para o
homem, é marcada pelos fins que devam ser alcançados; onde o homem é
corpo e alma espiritual. Partindo desse princípio o homem é movido pelo
desejo, e a alma espiritual que já contém na sua essência o bem, precisa
trabalhar os bons hábitos de acordo com a razão, pois seu “pensamento é
o elemento divino no homem e o bem mais precioso.

Assim quem é sábio não carece de muitas outras coisas”. Vale ressaltar
que o homem nasce para o bem, mas é preciso domesticação,
consciência para trabalhar o divino que há dentro de cada um de nós; de
nada valeria a razão se nós não pudéssemos usá-la para a construção da
individualidade, onde a contemplação do saber é cimento que sedimenta
o Criador na Criação. “Conhece a ti mesmo”, esse é o lema de
Sócrates, e ao ler percebemos que o homem está inserido na Natureza,
mas não está solto, existe uma hierarquia que o leva a viver moralmente e
se realizar como homem. O único caminho que o homem precisa realizar
é o caminho de volta, para dentro dele mesmo, mas pergunta-se como?
O homem é o único animal capaz de domesticar outro animal e o único
a se domesticar, partindo desse princípio, percebemos o amor de Deus
para conosco; isso nos leva a crer que Deus nos amou primeiro, e cada
um deve amar primeiro, fazer para com o outro aquilo que gostaríamos
que fizesse conosco, mas para isso requer educação, aperfeiçoamento e
disciplina do homem. As religiões têm servido de referencial para nós e
trouxe um grande avanço moral (família, estado e política), Mas nada é
perfeito, vem com ela, a alienação e o fanatismo de muitos que ajudaram
a obscurecer a mensagem ética profunda da liberdade, do amor e da
fraternidade universal. Infelizmente a religião transformou o amor em
pecado carnal, a fraternidade em poder de propriedade, amizades em
relacionamentos vantajosos, o progresso econômico em sucesso pessoal,
criando muralhas entre Deus e o homem, monopolizando o poder e até
mesmo o Deus universal; transformando a fé divina em categoria,
revelação, paternidade divina e pecado, com possibilidades do Perdão.

Os Ideais Éticos
Para uns, o ideal ético estava na busca teórica ou na prática do bem, para
outros estava no viver de acordo com a natureza, em harmonia cósmica.
Já no Cristianismo, os ideais éticos se identificaram com os religiosos.
Pelo Renascimento e o iluminismo, ideal ético seria viver de acordo com
a própria liberdade pessoal, no social (igualdade, fraternidade e
liberdade). No séc.XX, os pensadores da existência insistiram sobre a
liberdade como ideal ético.

Ao fazer uma idéia do que venha a ser ideais éticos, nos baseamos nas
informações acima citadas; chegamos à conclusão que os ideais éticos

105
Mundividência Religiosa Cristã106

são convenientes a cada época, de acordo com a visão da evolução social,


econômica e intelectual do homem, nos tempos de hoje. Em pleno
séc.XXI, fala-se de uma ética amoral, onde os valores são limitados a
uma minoria burguesa, e os meios de comunicação são responsáveis por
uma lavagem cerebral, incutindo ideais elaborados e sistematizados,
transformando o indivíduo em massa.
E na massificação atual criou-se o estereótipo de mulheres, homens e
padrões. Tais comportamentos são criados em série e cidadãos são
clonados; a liberdade de consciência deixa de existir, a cidadania ao ser
praticada, seria um ato ético e, ao invés disso, os homens se tornaram
produto do meio, deixaram de pensar, pois comprar pronto implica estar
em voga

A Liberdade
“Falar de ética significa liberdade”, mas quando falamos de ética nos
lembram normas de responsabilidade. Quando agimos, estamos seguindo
uma norma, uma conduta que não nos deixa sair dos trilhos, e para isso
devemos obedecer, caso contrário estamos infringindo uma lei; lei essa
que foi criada para que o homem tenha direitos e deveres para levar esse
mesmo homem a ter liberdade, caso aja com responsabilidade.
E para uma certa acomodação da consciência humana, foram surgindo
formas que trazem aceitação e conformidade às gerações, tais como:
“tudo o que acontece, tinha de acontecer”, “estava escrito”. ”Deus quis
que fosse assim”; quando a lei do materialismo-capitalismo rege todas os
nossos atos e decide por nós, a ética desaparece e, com isso temos uma
liberdade falsificada, um falso poder sobre essa liberdade. Para os
idealistas a única liberdade a ser falada é aquela em que o homem está
acima e livre do aqui e agora, um espírito elevado que não se identifica
com o homem real e concreto.
Para Hegel a chamada liberdade só existe para que o indivíduo se sinta
livre, saiba ser realmente livre, num estado organizado que garante a
liberdade de todos e de cada um. Para Marx, a natureza é “a dominação
do homem pelo homem”. Para Kant, “o homem deve ser sempre tratado
como um fim, e nunca como um meio”. E, para finalizar, Kiekegaard
afirma que “a angústia é o reflexo psicológico da consciência da
liberdade”.

Exercícios

1 – O que diferencia a ética religiosa da ética filosófica?


2 – Quais são os principais valores éticos?

Auto-avaliação

106
Mundividência Religiosa Cristã107

Unidade N0 21-A0026
Tema: O comportamento Moral: o
bem e o mal
Introdução

Distinguir o bem do mal não é uma tarefa fácil, mas é um dos


exercícios mais requeridos pela fé cristã. A moral cristã
fundamenta que o ser humano deve praticar as boas obras.

Ao completar esta unidade, você será capaz de:

 Distinguir o bem do mal;


 Caracterizar as vivências da comunidade facilitadoras do bem
Objectivos viver.

Sumário
O Comportamento Moral: O Bem e O Mal

Tomás de Aquino, diz que a consciência moral é a voz interior que nos
diz que devemos fazer, em todas as ocasiões, o bem e evitar o mal. Com
o renascimento e a Idade Moderna, junto com a imprensa e o re-estudo do
mundo antigo, a difusão cultural, houve o enriquecimento de uma nova
classe (burguesia) desenvolvendo agora uma preocupação com a
autonomia moral do indivíduo. Este indivíduo que age de acordo com tal
razão natural.
Kant busca descobrir em cada homem, e neste sentido é antiaristocrata e
burguês, uma Natureza livre. Para os gregos isto significava uma certa
harmonia passiva com os cosmos. Para o Medieval, significava uma
obediência, um agir de forma mais primitiva, mas no fundo Kant acredita
que a Natureza é uma Natureza racional, ou seja, a Natureza nos fez
livres, mas isso não nos diz o que fazer concretamente. Mas Hegel
considerou demasiado abstrata a posição Kantiana, pois seu igualitarismo
postulado não levava realmente em conta as tradições, os valores, o modo

107
Mundividência Religiosa Cristã108

de ver de cada povo; ignorava as instituições históricas concretas não


chegando a uma ética de valor histórico.
Na Segunda metade do séc. passado, a questão do comportamento ético
mudou mais uma vez, as atenções se voltaram para a questão do discurso,
mas teve outras influências como a crítica ideológica e a crítica da
linguagem. Por mais que variem os enfoques filosóficos, algumas noções
bastante abstrata e são fortes na ética. Uma delas é a questão da distinção
entre o bem e o mal. Agir eticamente é agir de acordo com o bem. E
quem não age dessa forma, não vive eticamente. Já no séc.XXI os
homens estão mais conscientes de que eles não são meros espectadores, e
sim atores, que não estão na platéia, e sim no palco, já diziam alguns
pensadores. A questão atual é saber se o homem consegue agir
individualmente, isto é, agir moralmente.
A Natureza Humana é perfeita, mas uma vez assumindo com consciência
e responsabilidade consigo e com os outros que nos rodeiam será
impossível não infringir a ética e a moral. O equilíbrio interno é a mola
propulsora da harmonia, por isso ao avaliarmos uma dada situação,
devemos levar em conta que o direito de um termina quando a do outro
começa; nossa cultura ocidental é racional e atribuímos toda essa
qualidade ao cérebro, à inteligência, não importa onde reside esse
atributo, o importante é saber que eles formam a consciência na qual
reside nossa capacidade de julgar e decidir, ter consciência é saber
discernir com critérios justos e bons.

Ética e Religião
As religiões, com freqüência, não fazem distinção entre o plano ético e o
plano religioso. Os costumes da tribo, como regras ou Os princípios
morais da casta são tão religiosos quanto os e Sacrifícios como orações.
Entre os dez mandamentos que Moisés deu aos hebreus (judeus) havia os
que tratavam de religião: "Não terás outros deuses diante de mim" (Ex
20,3) e os Relativos à ética: "Não matarás" (Ex 20,13) . Incluem-se nos
cinco pilares dos muçulmanos (credo, oração, esmola, jejum e
peregrinação à Meca) tanto orar a Deus como doar esmolas aos pobres.
Não há aqui uma distinção entre ética e a religião. A noção do ser
humano como uma criação divina implica que ele é responsável Perante
Deus por tudo o que faz: ritual, moral, social e politicamente. Pregadores
religiosos, muitas vezes, iniciaram debates sobre assuntos
especificamente éticos. Em geral, os profetas do antigo Israel atacavam
os ricos e poderosos que observavam os rituais fielmente, mas
pisoteavam os pobres. O ponto de vista moral desses profetas tinha,
porém, uma justificativa religiosa.
Nas sociedades onde coexistem várias religiões e vários pontos de vista
éticos é mais difícil vincular uma ética exclusivamente à religião. As
sociedades precisam ter suas linhas mestras éticas, sendo que algumas
delas são preservadas nas leis. Os romanos foram os primeiros Criar um,
de maneira sistemática, um arcabouço legal que pudesse ser usado por
todos os Povos, Independentemente da religião. O direito romano se
Tornou uma base para todos os sistemas legais subsequentes nos Estados
seculares modernos. Em Certos Países muçulmanos há dois sistemas
agindo em paralelo: Baseado em um no Corão, outro no Direito Romano.
Hoje, países muitos aceitam uma Declaração Universal dos Direitos

108
Mundividência Religiosa Cristã109

Humanos proclamada pelas Nações Unidas como uma afirmação ética


comum, qual seja de uma religião ou uma perspectiva geral do país.
Um aspecto importante em todas as religiões é a irmandade entre seus
seguidores. Formam-se tipos específicos de comunidades
regulamentadas e são nomeados Representantes para dirigir o culto
religioso. No caso dos Povos Tribais Pouca, existe, ou até mesmo
inexiste uma divisão funcional especificamente religiosa. A Tribo
Constitui uma estrutura social, política e religiosa e com freqüência, o
próprio chefe é o sacerdote também, contudo, há sociedades sagradas das
Quais só pessoas selecionadas podem participar. No Egito, na Grécia
clássica e na Noruega dos vikings, a relação era simples: a religião era
parte de uma cultura comum. Situação semelhante se vivia na Europa
medieval, quando a Igreja católica tinha poder absoluto, ou então, nos
dias de hoje, países muçulmanos em Certos, onde os poderes políticos e
religiosos pertencem um líder nacional.
Nos lugares onde Convicções religiosas várias Devem conviver lado a
lado, a questão da organização se torna mais complicada. Quando se
funda uma nova religião, rompendo com as tradições locais do culto,
forma-se uma nova congregação que estará em minoria, pelo menos no
início. Foi essa a situação dos seguidores de Buda, de Maomé e de Jesus,
e Através da história tem Sido o destino de todos os grupos que se
libertaram das grandes religiões, criando suas Próprias igrejas ou seitas
comunidades. Nessas, o vínculo entre os membros é mais forte do que
nas religiões estatais ou locais. Uma cerimônia religiosa, realizada logo
após o nascimento, no caso da criança, ou após uma conversão, no caso
de um adulto (como novo nascimento), Permite o ingresso na
comunidade religiosa com o conseqüente compromisso de vida moral,
segundo os Padrões éticos mais rígidos.
Excetuando-se algumas religiões primárias, A maioria possui
"funcionários" próprios, com responsabilidade exclusiva pela formalidade
do culto e por outras Tarefas religiosas. Os padres / pastores, os líderes
de culto e os curandeiros tem deveres religiosos diferentes, mas todos
eles de especial desfrutam um status superior. Os sacerdotes também
costumam agir como líderes da organização de seu rebanho, podendo
pertencer a maior Entidade uma, comandada por um bispo (ou arcebispo).
Organizações determinadas (como a Igreja Católica Romana) são
rigidamente estruturadas em linhas internacionais (universal) e contam
com um líder absoluto (Papa). Outras igrejas pueden Nacional não atuar
plano (como a da Noruega) ou nenhum plano da congregação local (como
o Pentecostalismo).
A religião nunca é vinculada apenas ao intelecto. Ela Igualmente
essenciais envolvem as emoções, que são tão na vida humana quanto o
intelecto ea Capacidade de pensar. A música e o canto apelam para uma
dança de emoções. Na Maioria das religiões, como pessoas extravasam,
pela pelo canto e música instrumental, a tristeza ou a alegria, em algumas,
também pela dança, que é um meio bastante antigo de expressão
religiosa. Nos rituais cristãos, os hinos cantados em coro e a música de
órgão (teclado) são parte integrante da experiência geral. Muitas igrejas e
templos Contêm, ainda, obras de arte - pinturas, esculturas e peças de
altar, que tocam e uma imaginação como emoções. ( Flavio Bruno, In
Http://categorias. Etica religiosa-wikipedia, la ciclo. 28/03/2010).

109
Mundividência Religiosa Cristã110

Exercícios

1 – Caracteriza o comportamento ideal na relação entre os seres


humanos.

Auto-avaliação

110
Mundividência Religiosa Cristã111

Unidade N0 22-A0026
Tema: Ética Cristã
Introdução
A principal base da ética cristã está na Biblia, tanto o Novo como
o antigo Testamento revelam regras que devem regular o
comportamento humano

Ao completar esta unidade, você será capaz de:

o Caracterizar a Ética Cristã;


o Explicar a origem da ética cristã.

Objectivos

Sumário
Ética Cristã:
Originalidade da Ética Cristã
Á ética cristã é o sistema de valores morais associado ao Cristianismo
histórico e que retira dele a sustentação teológica e filosófica de seus
preceitos. Como as demais éticas já mencionadas acima, a ética cristã
opera a partir de diversos pressupostos e conceitos que acredita e que
estão revelados nas Escrituras Sagradas pelo único Deus verdadeiro. São
estes:
1. A existência de um único Deus verdadeiro, criador dos céus e da
terra. A ética cristã parte do conceito de que o Deus que se revela nas
Escrituras Sagradas é o único Deus verdadeiro e que, sendo o criador
do mundo e da humanidade, deve ser reconhecido e crido como tal e a
sua vontade respeitada e obedecida.
2. A humanidade está num estado decaído, diferente daquele em que
foi criada. A ética cristã leva em conta, na sistematização e sintetização
dos deveres morais e práticos das pessoas, que as mesmas são
incapazes por si próprias de reconhecer a vontade de Deus e muito
menos de obedecê-la. Isso se deve ao fato de que a humanidade vive

111
Mundividência Religiosa Cristã112

hoje em estado de afastamento de Deus, provocado inicialmente pela


desobediência do primeiro casal. A ética cristã não tem ilusões
utópicas acerca da "bondade inerente" de cada pessoa ou da intuição
moral positiva de cada uma para decidir por si própria o que é certo e o
que é errado. Cegada pelo pecado, a humanidade caminha sem rumo
moral, cada um fazendo o que bem parece aos seus olhos. As normas
propostas pela ética cristã pressupõem a regeneração espiritual do
homem e a assistência do Espírito Santo, para que o mesmo venha a
conduzir-se eticamente diante do Criador.
3. O homem não é moralmente neutro, mas inclinado a tomar decisões
contrárias a Deus, ao próximo. Esse pressuposto é uma implicação
inevitável do anterior. As pessoas, no estado natural em que se
encontram (em contraste ao estado de regeneração) são movidas
intuitivamente, acima de tudo, pela cobiça e pelo egoísmo, seguindo
muito naturalmente (e inconscientemente) sistemas de valores
descritos acima como humanísticos ou naturalísticos. Por si sós, as
pessoas são incapazes de seguir até mesmo os padrões que escolhem
para si, violando diariamente os próprios princípios de conduta que
consideram corretos.
4. Deus revelou-se à humanidade. Essa pressuposição é fundamental
para a ética cristã, pois é dessa revelação que ela tira seus conceitos
acerca do mundo, da humanidade e especialmente do que é certo e do
que é errado. A ética cristã reconhece que Deus se revela como Criador
através da sua imagem em nós. Cada pessoa traz, como criatura de
Deus, resquícios dessa imagem, agora deformada pelo egoísmo e
desejos de autonomia e independência de Deus. A consciência das
pessoas, embora freqüentemente ignorada e suprimida, reflete por
vezes lampejos dos valores divinos. Deus também se revela através das
coisas criadas. O mundo que nos cerca é um testemunho vivo da
divindade, poder e sabedoria de Deus, muito mais do que o resultado
de milhões de anos de evolução cega. Entretanto é através de sua
revelação especial nas Escrituras que Deus nos faz saber acerca de si
próprio, de nós mesmos (pois é nosso Criador), do mundo que nos
cerca, dos seus planos a nosso respeito e da maneira como deveríamos
nos portar no mundo que criou.

Assim, muito embora a ética cristã se utilize do bom senso comum às


pessoas, depende primariamente das Escrituras na elaboração dos
padrões morais e espirituais que devem reger nossa conduta neste
mundo. Ela considera que a Bíblia traz todo o conhecimento de que
precisamos para servir a Deus de forma agradável e para vivermos
alegres e satisfeitos no mundo presente. Mesmo não sendo uma
revelação exaustiva de Deus e do reino celestial, a Escritura,
entretanto, é suficiente naquilo que nos informa a esse respeito.
Evidentemente não encontraremos nas Escrituras indicações diretas
sobre problemas tipicamente modernos como a eutanásia, a AIDS,
clonagem de seres humanos ou questões relacionadas com a bioética.
Entretanto, ali encontraremos os princípios teóricos que regem
diferentes áreas da vida humana. É na interação com esses princípios e
com os problemas de cada geração, que a ética cristã atualiza-se e
contextualiza-se, sem jamais abandonar os valores permanentes e
transcendentes revelados nas Escrituras.

112
Mundividência Religiosa Cristã113

É precisamente por basear-se na revelação que o Criador nos deu que a


ética cristã que se estende a todas as dimensões da realidade. Ela
pronuncia-se sobre questões individuais, religiosas, sociais, políticas,
ecológicas e econômicas. Desde que Deus exerce sua autoridade sobre
todas as dimensões da existência humana, suas demandas nos
alcançam onde nos acharmos – inclusive e principalmente no ambiente
de trabalho, onde exercemos o mandato divino de explorarmos o
mundo criado e ganharmos o nosso pão.
É nas Escrituras Sagradas, portanto, que encontramos o padrão moral
revelado por Deus. Os Dez Mandamentos e o Sermão do Monte
proferido por Jesus são os exemplos mais conhecidos. Entretanto, mais
do que simplesmente um livro de regras morais, as Escrituras são para
os cristãos a revelação do que Deus fez para que o homem pudesse vir
a conhecê-lo, amá-lo e alegremente obedecê-lo.
A mensagem das Escrituras é fundamentalmente de reconciliação com
Deus mediante Jesus Cristo. A ética cristã fundamenta-se na obra
realizada de Cristo e é uma expressão de gratidão, muito mais do que
um esforço para merecer as benesses divinas. A ética cristã, em
resumo, é o conjunto de valores morais total e unicamente baseado nas
Escrituras Sagradas, pelo qual o homem deve regular sua conduta neste
mundo, diante de Deus, do próximo e de si mesmo. Não é um conjunto
de regras pelas quais os homens poderão chegar a Deus – mas é a
norma de conduta pela qual poderá agradar a Deus que já o redimiu.
Por ser baseada na revelação divina, acredita em valores morais
absolutos, que são à vontade de Deus para todos os homens, de todas
as culturas e em todas as épocas.

Conceito de Ética Cristã


A ciência define a ética como: “um grupo de princípios morais, o estudo
da moralidade”. Portanto, Ética Cristã pode ser definida como os
princípios que são derivados da fé Cristã e pelos quais agimos. Enquanto
a Palavra de Deus talvez não cobre cada situação que temos que encarar
em nossas vidas, seus princípios nos dão os padrões pelos quais devemos
agir nas situações onde não temos instruções explícitas. Por exemplo, a
Bíblia não diz nada diretamente sobre o uso ilegal de drogas, no entanto,
baseado nos princípios que aprendemos das Escrituras, podemos saber
que é errado.

A Bíblia nos diz que nosso corpo é o templo do Espírito Santo e que
devemos usá-lo para honrar a Deus (1 Coríntios 6:19-20). Por saber o que
o uso de drogas causa ao nosso corpo – o dano que causa a vários órgãos
– sabemos que usar drogas iria destruir o templo do Espírito Santo. Com
certeza isso não iria honrar a Deus. A Bíblia também nos diz que
devemos seguir as autoridades que Deus tem estabelecido (Romanos
13:1). Dada a natureza ilegal das drogas, ao usá-las não estaríamos nos
submetendo às autoridades, pelo contrário, estaríamos nos rebelando
contra elas. Isso significa que se drogas ilegais se tornassem legais, então
não teria problema?

113
Mundividência Religiosa Cristã114

Não sem violar o primeiro princípio. Ao usar os princípios que achamos


nas Escrituras, os Cristãos podem determinar seu caminho em qualquer
situação. Em alguns casos, vai ser bem simples, tais como as regras para
a vida Cristã que encontramos em Colossenses 3. Em outros casos, no
entanto, temos que cavar mais fundo. A melhor forma de fazer isso é orar
e estudar a Palavra de Deus. O Espírito Santo habita em cada Cristão, e
parte do seu papel é nos ensinar como viver: “Mas aquele Consolador, o
Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, esse vos ensinará todas
as coisas, e vos fará lembrar de tudo quanto vos tenho dito” (João 14:26).

“E a unção que vós recebestes dele, fica em vós, e não tendes necessidade
de que alguém vos ensine; mas, como a sua unção vos ensina todas as
coisas, e é verdadeira, e não é mentira, como ela vos ensinou, assim nele
permanecereis” (1 João 2:27). Então, ao meditarmos na Palavra de Deus e
orarmos, o Espírito vai nos guiar e nos ensinar. Ele vai nos mostrar o
princípio no qual precisamos nos apoiar para aquela situação.

Enquanto é verdade que a Palavra de Deus não se refere diretamente a


toda situação que teremos que encarar em nossas vidas, ela ainda é
completamente suficiente para vivermos a vida Cristã. Na maioria das
situações, podemos ver claramente o que a Bíblia diz e seguir o percurso
apropriado baseado nisso. Nos casos onde as Escrituras não nos dão
instruções explícitas, precisamos procurar por princípios bíblicos que se
aplicam a tal situação. Novamente, na maioria dos casos isso vai ser fácil
de fazer. A maioria dos princípios que os Cristãos seguem são suficientes
para a maioria das situações. No raro caso onde não há uma passagem
bíblica nem um princípio aparentemente claro, precisamos depender de
Deus. Precisamos orar, meditar em Sua Palavra e abrir-nos ao Espírito
Santo. O Espírito vai usar a Bíblia para nos ensinar e guiar ao princípio
que precisamos honrar para que possamos andar e viver como um Cristão
deve.

As Bases Bíblicas da Ética Cristã


A palavra “ética” vem do grego ethos e se refere aos costumes ou práticas
que são aprovados por uma cultura. A ética é a ciência da moral ou dos
valores e tem a ver com as normas sob as quais o indivíduo e a sociedade
vivem. Essas normas podem variar grandemente de uma cultura para
outra e dependem da fonte de autoridade que lhes serve de fundamento (
Alderi Souza de Mato in Http://categorias. Etica religiosa-wikipedia, la
ciclo. 28/03/2010s)

A ética cristã tem elementos distintivos em relação a outros sistemas. O


teólogo Emil Brunner declarou que a ética cristã é a ciência da conduta
humana que se determina pela conduta divina. Os fundamentos da ética
cristã encontram-se nas Escrituras do Antigo e do Novo Testamento,
entendidas como a revelação especial de Deus aos seres humanos. A ética
é importante para a vida diária do cristão. A cada momento precisamos
tomar decisões que afetam a outros e a nós mesmos. A ética cristã ajuda
as pessoas a encarar seus valores e deveres de uma perspectiva correta, a
perspectiva de Deus. Ela mostra ao ser humano o quanto está distante dos
alvos de Deus para a sua vida, mas o ajuda a progredir em direção esse
ideal. Se fosse possível declarar em uma só sentença a totalidade do dever
social e moral do ser humano, poderíamos fazê-lo com as palavras de

114
Mundividência Religiosa Cristã115

Jesus: “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua
alma e de todo o teu entendimento... e amarás o teu próximo como a ti
mesmo”. (Mt 22, 37 e 39)

Ética do Antigo Testamento


A Ética do antigo testamento tem as seguintes bases:
a) O caráter ético de Deus: A religião dos judeus tem sido descrita
como “monoteísmo ético”. O Velho Testamento fala da existência de um
único DEUS, o criador e Senhor de todas as coisas. Esse Deus é pessoal e
tem um caráter positivo, não negativo ou neutro. Esse caráter se revela
em seus atributos morais. Deus é Santo (Lv 11, 45; Sl 99, 9), justo (Sl 11,
7; 145, 17), verdadeiro (Sl 119, 160; Is 45, 19), misericordioso (Sl 103, 8;
Is 55, 7), fiel (Dt 7, 9; Sl 33, 4).
b) A natureza moral do homem: A Escritura afirma que Deus criou o
ser humano à sua semelhança (Gn 1, 26-27). Isso significa que o homem
partilha, ainda que de modo limitado, do caráter moral de seu Criador.
Embora o pecado haja distorcido essa imagem divina no ser humano, não
a destruiu totalmente. Deus requer uma conduta ética das suas criaturas:
“Sede santos porque eu sou santo” (Lv 19, 2; 20, 26).
c) A Lei de Deus: A lei expressa o desejo que Deus tem de que as suas
criaturas vivam vidas de integridade. Há três tipos de leis no Antigo
Testamento: cerimoniais, civis e morais. Todas visavam disciplinar o
relacionamento das pessoas com Deus e com o seu próximo. A lei inculca
valores como a solidariedade, o altruísmo, a humildade, a veracidade,
sempre visando o bem-estar do indivíduo, da família e da coletividade.
d) Os Dez Mandamentos: A grande síntese da moralidade bíblica está
expressa nos Dez Mandamentos (Ex 20, 1-17; Dt 5, 6-21). As chamadas
“duas tábuas da lei” mostram os deveres das pessoas para com Deus e
para com o seu próximo. O Reformador João Calvino falava nos três usos
da Lei: judicial, civil e santificador. Todas as confissões de fé reformadas
dão grande destaque à exposição dos Dez Mandamentos.
e) A contribuição dos profetas: Alguns dos preceitos éticos mais nobres
do Antigo Testamento são encontrados nos livros dos Profetas,
especialmente Isaías, Oséias, Amós e Miquéias. Sua ênfase está não só na
ética individual, mas social. Eles mostram a incoerência de cultuar a Deus
e oferecer-lhe sacrifícios, sem todavia ter um relacionamento de
integridade com o semelhante. Ver Isaías 1, 10-17; 5, 7 e 20; 10 1-2; 33,
15; Oséias 4, 1-2; 6, 6; 10, 12; Amós 5, 12-15, 21-24; Miquéias 6, 6-8.

A Ética do Novo Testamento:


A Ética do novo testamento tem as seguintes bases:
a) fundamento no antigo testamento: A ética do Novo Testamento não
contrasta com a do Antigo, mas nele se fundamenta. Jesus e os Apóstolos
desenvolvem e aprofundam princípios e temas que já estavam presentes
nas Escrituras Hebraicas, dando também algumas ênfases novas.
b) A ética de Jesus: a ética de Jesus está contida nos seus ensinos e é
ilustrada pela sua vida. O tema central da mensagem de Jesus é o
conceito do “reino de Deus”. Esse reino expressa uma nova realidade em

115
Mundividência Religiosa Cristã116

que a vontade de Deus é reconhecida e aceita em todas as áreas. Jesus não


apenas ensinou os valores do reino, mas os exemplificou com a vida e o
seu exemplo.
c) O Sermão da Montanha: uma das melhores sínteses da ética de Jesus
está contida no Sermão da Montanha (Mateus Caps. 5 a 7). Os seus
discípulos (os Filhos do Reino) devem caracterizar-se pela humildade,
mansidão, misericórdia, integridade, busca da justiça e da paz, pelo
perdão, pela veracidade, pela generosidade e acima de tudo pelo amor. A
moralidade deve ser tanto externa como interna (sentimentos, intenções):
Mt 5, 28. A fonte do mal está no coração: Mc 7, 21-23.
d) A vontade de Deus: Jesus acentua que a vontade ou o propósito de
Deus é o valor supremo. Vemos isso, por exemplo, em Mt 19, 3-6. O
maior pecado do ser humano é o amor próprio, o egocentrismo (Lc 12,
13-21; 17, 33). Daí a ênfase nos dois grandes mandamentos que
sintetizam toda a lei: Mt 22, 37-40. Outro princípio importante é a famosa
“regra de ouro”: Mt 7, 12.
e) A ética de Paulo: Paulo baseia toda a sua ética na realidade da
redenção em Cristo. Sua expressão característica é “em Cristo” (II Co 5,
17; Gl 2, 20; 3, 28; Fp 4, 1). Somente por estar em Cristo e viver em
Cristo, profundamente unido a Ele pela fé, o cristão pode agora viver uma
nova vida, dinamizado pelo Espírito de Cristo. Todavia, o cristão não
alcançou ainda a plenitude, que virá com a consumação de todas as
coisas. Ele vive entre dois tempos: o “já” e o “ainda não”. Tipicamente
em suas cartas, depois de expor a obra redentora de Deus por meio de
Cristo, Paulo apresenta uma série de implicações dessa redenção para a
vida diária do crente em todos os aspectos (Rm 12, 1-2; Ef 4, 1)
f) Amor de Cristo: Entre os motivos que devem impulsionar as pessoas
em sua conduta está a imitação de Cristo (Rm 15, 5; Gl 2, 20; Ef 5, 1-2;
Fp 2, 5). Outro motivo fundamental é o amor (Rm 12, 9-10; I Co 13, 1-
13; 16, 14; Gl 5, 6). O viver ético é sempre o fruto do Espírito (Gl 5, 22-
23). Na sua argumentação ética, Paulo dá ênfase ao bem-estar da
comunidade, o corpo de Cristo (Rm 12, 5; I Co 10, 17; 12, 13 e 27; Ef 4,
25; Gl 3, 28). Ao mesmo tempo, ele valoriza o indivíduo, o irmão por
quem Cristo morreu (Rm 14, 15; I Co 8, 11; I Ts 4, 6; Fm 16). Acima de
tudo, o crente deve viver para Deus, de modo digno dele, para o seu
inteiro agrado: Rm 14, 8; II Co 5, 15; Fp 1, 27; Cl 1, 10; I Ts 2, 12; Tt 2,
12.

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Mundividência Religiosa Cristã117

Exercícios

1 – O que é ética Cristã?


2 – Quais são os princípios éticos do cristianismo?

Auto-avaliação

117
Mundividência Religiosa Cristã118

Unidade N0 23-A0026
Tema: Bases bíblicas da Ética
Cristã
Introdução
A principal base da ética cristã está na Biblia, tanto o Novo como
o antigo Testamento revelam regras que devem regular o
comportamento humano

Ao completar esta unidade, você será capaz de:

o Identicar os aspectos da ética nas Sagradas Escrituras;

o Explicar a origem da ética cristã.

Objectivos

Sumário
As Bases Bíblicas da Ética Cristã
A palavra “ética” vem do grego ethos e se refere aos costumes ou práticas
que são aprovados por uma cultura. A ética é a ciência da moral ou dos
valores e tem a ver com as normas sob as quais o indivíduo e a sociedade
vivem. Essas normas podem variar grandemente de uma cultura para
outra e dependem da fonte de autoridade que lhes serve de fundamento (
Alderi Souza de Mato in Http://categorias. Etica religiosa-wikipedia, la
ciclo. 28/03/2010s)

A ética cristã tem elementos distintivos em relação a outros sistemas. O


teólogo Emil Brunner declarou que a ética cristã é a ciência da conduta
humana que se determina pela conduta divina. Os fundamentos da ética
cristã encontram-se nas Escrituras do Antigo e do Novo Testamento,
entendidas como a revelação especial de Deus aos seres humanos. A ética
é importante para a vida diária do cristão. A cada momento precisamos
tomar decisões que afetam a outros e a nós mesmos. A ética cristã ajuda

118
Mundividência Religiosa Cristã119

as pessoas a encarar seus valores e deveres de uma perspectiva correta, a


perspectiva de Deus. Ela mostra ao ser humano o quanto está distante dos
alvos de Deus para a sua vida, mas o ajuda a progredir em direção esse
ideal. Se fosse possível declarar em uma só sentença a totalidade do dever
social e moral do ser humano, poderíamos fazê-lo com as palavras de
Jesus: “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua
alma e de todo o teu entendimento... e amarás o teu próximo como a ti
mesmo”. (Mt 22, 37 e 39)

Ética do Antigo Testamento


A Ética do antigo testamento tem as seguintes bases:
a) O caráter ético de Deus: A religião dos judeus tem sido descrita
como “monoteísmo ético”. O Velho Testamento fala da existência de um
único DEUS, o criador e Senhor de todas as coisas. Esse Deus é pessoal e
tem um caráter positivo, não negativo ou neutro. Esse caráter se revela
em seus atributos morais. Deus é Santo (Lv 11, 45; Sl 99, 9), justo (Sl 11,
7; 145, 17), verdadeiro (Sl 119, 160; Is 45, 19), misericordioso (Sl 103, 8;
Is 55, 7), fiel (Dt 7, 9; Sl 33, 4).
b) A natureza moral do homem: A Escritura afirma que Deus criou o
ser humano à sua semelhança (Gn 1, 26-27). Isso significa que o homem
partilha, ainda que de modo limitado, do caráter moral de seu Criador.
Embora o pecado haja distorcido essa imagem divina no ser humano, não
a destruiu totalmente. Deus requer uma conduta ética das suas criaturas:
“Sede santos porque eu sou santo” (Lv 19, 2; 20, 26).
c) A Lei de Deus: A lei expressa o desejo que Deus tem de que as suas
criaturas vivam vidas de integridade. Há três tipos de leis no Antigo
Testamento: cerimoniais, civis e morais. Todas visavam disciplinar o
relacionamento das pessoas com Deus e com o seu próximo. A lei inculca
valores como a solidariedade, o altruísmo, a humildade, a veracidade,
sempre visando o bem-estar do indivíduo, da família e da coletividade.
d) Os Dez Mandamentos: A grande síntese da moralidade bíblica está
expressa nos Dez Mandamentos (Ex 20, 1-17; Dt 5, 6-21). As chamadas
“duas tábuas da lei” mostram os deveres das pessoas para com Deus e
para com o seu próximo. O Reformador João Calvino falava nos três usos
da Lei: judicial, civil e santificador. Todas as confissões de fé reformadas
dão grande destaque à exposição dos Dez Mandamentos.
e) A contribuição dos profetas: Alguns dos preceitos éticos mais nobres
do Antigo Testamento são encontrados nos livros dos Profetas,
especialmente Isaías, Oséias, Amós e Miquéias. Sua ênfase está não só na
ética individual, mas social. Eles mostram a incoerência de cultuar a Deus
e oferecer-lhe sacrifícios, sem todavia ter um relacionamento de
integridade com o semelhante. Ver Isaías 1, 10-17; 5, 7 e 20; 10 1-2; 33,
15; Oséias 4, 1-2; 6, 6; 10, 12; Amós 5, 12-15, 21-24; Miquéias 6, 6-8.

A Ética do Novo Testamento:


A Ética do novo testamento tem as seguintes bases:
a) fundamento no antigo testamento: A ética do Novo Testamento não
contrasta com a do Antigo, mas nele se fundamenta. Jesus e os Apóstolos

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Mundividência Religiosa Cristã120

desenvolvem e aprofundam princípios e temas que já estavam presentes


nas Escrituras Hebraicas, dando também algumas ênfases novas.
b) A ética de Jesus: a ética de Jesus está contida nos seus ensinos e é
ilustrada pela sua vida. O tema central da mensagem de Jesus é o
conceito do “reino de Deus”. Esse reino expressa uma nova realidade em
que a vontade de Deus é reconhecida e aceita em todas as áreas. Jesus não
apenas ensinou os valores do reino, mas os exemplificou com a vida e o
seu exemplo.
c) O Sermão da Montanha: uma das melhores sínteses da ética de Jesus
está contida no Sermão da Montanha (Mateus Caps. 5 a 7). Os seus
discípulos (os Filhos do Reino) devem caracterizar-se pela humildade,
mansidão, misericórdia, integridade, busca da justiça e da paz, pelo
perdão, pela veracidade, pela generosidade e acima de tudo pelo amor. A
moralidade deve ser tanto externa como interna (sentimentos, intenções):
Mt 5, 28. A fonte do mal está no coração: Mc 7, 21-23.
d) A vontade de Deus: Jesus acentua que a vontade ou o propósito de
Deus é o valor supremo. Vemos isso, por exemplo, em Mt 19, 3-6. O
maior pecado do ser humano é o amor próprio, o egocentrismo (Lc 12,
13-21; 17, 33). Daí a ênfase nos dois grandes mandamentos que
sintetizam toda a lei: Mt 22, 37-40. Outro princípio importante é a famosa
“regra de ouro”: Mt 7, 12.
e) A ética de Paulo: Paulo baseia toda a sua ética na realidade da
redenção em Cristo. Sua expressão característica é “em Cristo” (II Co 5,
17; Gl 2, 20; 3, 28; Fp 4, 1). Somente por estar em Cristo e viver em
Cristo, profundamente unido a Ele pela fé, o cristão pode agora viver uma
nova vida, dinamizado pelo Espírito de Cristo. Todavia, o cristão não
alcançou ainda a plenitude, que virá com a consumação de todas as
coisas. Ele vive entre dois tempos: o “já” e o “ainda não”. Tipicamente
em suas cartas, depois de expor a obra redentora de Deus por meio de
Cristo, Paulo apresenta uma série de implicações dessa redenção para a
vida diária do crente em todos os aspectos (Rm 12, 1-2; Ef 4, 1)
f) Amor de Cristo: Entre os motivos que devem impulsionar as pessoas
em sua conduta está a imitação de Cristo (Rm 15, 5; Gl 2, 20; Ef 5, 1-2;
Fp 2, 5). Outro motivo fundamental é o amor (Rm 12, 9-10; I Co 13, 1-
13; 16, 14; Gl 5, 6). O viver ético é sempre o fruto do Espírito (Gl 5, 22-
23). Na sua argumentação ética, Paulo dá ênfase ao bem-estar da
comunidade, o corpo de Cristo (Rm 12, 5; I Co 10, 17; 12, 13 e 27; Ef 4,
25; Gl 3, 28). Ao mesmo tempo, ele valoriza o indivíduo, o irmão por
quem Cristo morreu (Rm 14, 15; I Co 8, 11; I Ts 4, 6; Fm 16). Acima de
tudo, o crente deve viver para Deus, de modo digno dele, para o seu
inteiro agrado: Rm 14, 8; II Co 5, 15; Fp 1, 27; Cl 1, 10; I Ts 2, 12; Tt 2,
12.

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Mundividência Religiosa Cristã121

Exercícios

1 – Qual é a essência da ética no Antigo Testamento e no Novo


Testamento?
2 – O que diferncia a ética do Novo Testamento e do Antigo
Auto-avaliação Testamento?

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Mundividência Religiosa Cristã122

Unidade N0 24-A0026
Tema: Relação entre Deus e o
Homem
Introdução

Na história da Humanidade Deus ocupa um lugar especial, por


isso, a relação entre Deus e o Homem é tema de nosso estudo, de
forma a reflectirmos com ela tem-se manifestado ao longo da
história.

Ao completar esta unidade, você será capaz de:

 Caracterizar a presença de Deus na História da Humanidade;


 Identificar a Amor de Deus nas obras humanas.
Objectivos

Sumário
Deus na Historia Humana

Ronaldo Muñoz afirma que uma experiência de Deus se realiza na


história concreta do povo. Os sinais de sua presença estão na vida, não
tem e solidário Empenho na esperança. Deus não se confunde com uma
história, mas nela penetra com sua ação salvadora, como fez nenhuma
cativeiro do Egito e Jesus fez como na história de seu tempo e dali para
todos os tempos e para todos os homens. A experiência de Deus que é
uma experiência religiosa é, ao mesmo tempo, uma experiência
profundamente humana. O Deus da vida só pode inspirar uma ética da
vida e da justiça. Assim, o eixo semântico da fé professada pelos cristãos
na América Latrina tem como núcleo a experiência do Deus do Êxodo e
de Jesus Cristo libertador dos mais pobres e excluídos (La Ética
Religiosa, in Http:// translate. Googleusercontent.com/translate-c?hl, de
28/03/2010).

122
Mundividência Religiosa Cristã123

Deus Como Valor Absoluto

Nesse ponto, Küng um vislumbra futuro de Responsabilidade. Essa


responsabilidade obriga ao imperativo de aprender um pensar em inter-
relações globais, especialmente com o meio ambiente, isto é, pessoas
como sobreviver numa terra Habitável. Então, o critério último da ética e
foi Continuará sendo hoje, mais que ontem, uma pessoa humana. Ele
pensa também uma ética mundial advinda de um concerto (polifônico)
entre as religiões Apontam como que Deus Valor Máximo Absoluto.
Isso porque "como determinados exigem religiões Padrões não
negociáveis, normas éticas Propõem Fundamentais e máximas
orientadoras que são fundamentadas a partir de um absoluto, como
religiões conseguem transmitir uma dimensão mais profunda, um
horizonte interpretativo mais abrangente enfrentar a dor, a injustiça, a
culpa e a falta de sentido para viver. Também consegue transmitir um
sentido último de vida ante a morte: o sentido de onde vem e para onde
vai a Existência Humana; as religiões conseguem Garantir os valores
Elevados mais, como normas mais incondicionais, como Motivações
mais profundas e os ideais mais sublimes, como Religiões conseguem
Criar uma pátria de confiança, de fé, de certeza, de fortalecimento do eu,
do abrigo e da esperança: uma comunidade e uma pátria espiritual. “As
Religiões podem fundamentar protesto e resistência contra situações de
injustiça e colocar-se a serviço de um projeto de transformação, como
religiões Oferecer podem Motivações éticas extraídas de tradições e
valores perenes, como religiões conseguem falar ao coração das pessoas
individuais, como uma Interpelando - favor de causas justas, Nobres,
altruístas " (Pe. Prof. Pedro Alberto Kunrath - PUCRS. La Ética
Religiosa, in Http:// translate. Googleusercontent.com/translate-c?hl, de
28/03/2010).

O Ethos Amor

Quando a razão busca até o fim, encontra na raiz dela o afeto que se
expressa pelo amor e, acima dela, o Espírito que se manifesta pela
espiritualidade. E no termo final de sua busca encontra o mistério.
Mistério não é o limite da razão, mas o ilimitado da razão. Por isso, o
mistério continua mistério em todo conhecimento que se sente Desafiado
a conhecer sempre mais. A razão científica nos ratifica esse percurso.
Ela começou com a matéria, chegou aos átomos, desceu aos elementos
sub-atômicos, à energia e aos campos energéticos, ao campo de Higgs,
origem de todos os campos, ao big-bang, há 15 bilhões de anos, para
terminar NO VÁCUO Quântico, que é o estado de energia de fundo do
Universo, aquela fonte alimentadora de tudo o que existe, misteriosa e

123
Mundividência Religiosa Cristã124

inominável, que o conhecido cosmólogo Brian Swimme identifica como


presença de Deus.

Concretamente o mistério é o outro. Por mais que se queira conhecê-lo e


enquadra-lo, ele sempre se retrai para além MAIS UM. Ele é desafiador
mistério que nos obriga a sair de nós mesmos ea nos posicionar diante
dele. Quando o outro irrompe à minha frente, nasce uma ética, porque o
outro me exige uma atitude prática, ou de acolhida, ou de indiferença ou
de rechaço. O outro significa uma "pro-posta" que pede uma "res-posta"
com responsabilidade O ethos que ama funda um novo sentido de viver.
Amar o outro é dar-lhe razão de existir. O existir é pura gratuidade, pois
não há razão para existir. Amar o outro é querer que ele exista porque o
amor faz o outro importante. "Amar uma pessoa é dizer-lhe: tu não
morrerás jamais, tu deves existir, tu não podes morrer" (G. Marcel).
Somente esse ethos que ama está à altura dos desafios atuais porque
inclui a todos. Faz dos distantes, próximos, e dos próximos, irmãos e
irmãs. E por isso, tudo o que amamos, cuidamos. (Pe. Prof. Pedro
Alberto Kunrath - PUCRS. La Ética Religiosa, in Http:// translate.
Googleusercontent.com/translate-c?hl, de 28/03/2010).

Exercícios

1 – Como Deus tem-se manifestado na História da Humanidade?


2 – A existência humana seria possível sem a presença de Deus?
Justifica.
Auto-avaliação

124
Mundividência Religiosa Cristã125

EXERCÍCIOS PARA RESOLVER

Em cinco (5) páginas no mínimo, faça uma redação dos


seguintes sub-temas do tema :

 Trabalho1 para primeira sessão presencial – Código: T-F.E-01

A Questão de outras mundividências:


:

(a) Apresenta a cosmovisao da religiao tradiconal, zione,


pentecostal, indu.
(b) diga qual o seu credo e sua moral.

 Trabalho2 para segunda sessão presencial – Código: T-F.E-02

A Questão dos Objectivos Educacionais:

(a) Apresenta a concepção africana de vida e de morte.


(b) Diga qual e o impacto do culto dos antepassados para a
vida africana (faça também, mensão da experiência do
teu lugar de origem – fonte oral ou escrita)

 Trabalho3 para terceira sessão presencial – Código: T-F.E-03

A Questão dos Objectivos Educacionais:

(a) Apresente a ética cristã humano.


(b) Relacione a ética cristã com a cultura do teu povo

125
Mundividência Religiosa Cristã126

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

AA. VV., Dicionário Pratico de Filosofia, Lisboa, Terramar, 1998.

AA., VV., A morte e o culto dos mortos, Moçambique, actas de terceira


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AA. VV. Emergência do filosofar , Maputo, Textos Editora, 2003.

CATECISMO DE LA EGLESIA CATÓLICA, , Associación de editores


del catecismo, Madrid, 1992

CONCILIO VATICANO II, Documentos Conciliares e Pontificios,


Braga, 1987.

FROSINI, Giordano, A Teologia Hoje, Sintese do Pensamento


Teologico, Portugal, Perpetuo Socorro, 2001.

M. Flick – Z. Alszeghuy, Antropologia Teológica, Salamanca, Edições


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MACHADO, José Pedro Machado, "Islão" em Dicionário Onomástico


Etimológico da Língua Portuguesa, Vol.2 (E-M), Editorial Confluência,
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ELIADE, Mircea, Dicionário das Religiões, Lisboa, Publicações D.


Quixote.

MONDIN, Baptista, o homem quem e ele?, S. Paulo, Paulinas, 1980


Pierre Teilhard de CHARDIN. O Fenômeno Humano, São Paulo:
Editora Cultrix Id. Ibid. pp.277-297

PONTIFICIO CONSELHO “JUSTICA E PAZ”, Compendio de


Doutrina Social da Igreja, S. Paulo, Paulinas N.60.
RABUSKE, Edvino A., Antropologia Filosófica, Petrópolis, Vozes,
2001.
REAL-ANTISERI, Dario, Historia da Filosofia, Do Romantismo aos
nossos dias. Vol.3, Paulus,1991

ZILLES, Urbano, Filosofia da Religião, São Paulo, Paulinas, 1991.

126
Mundividência Religiosa Cristã127

ARRUDA, M.C.C. Código de Ética: um instrumento que adiciona


valor
Jacques ARNOULD. Darwin, Teilhard de Chardin e Cia.: a Igreja e a
Evolução, São Paulo: Paulus, 1999

Ballone GJ - O Indivíduo, o Ser Humano e a Pessoa - in. PsiqWeb


Psiquiatria São Paulo: Negócio Editora, 2002

MOMEN, Moojan. An Introduction to Shi`i Islam: The History and


Doctrines of Twelver Shi`ism. Yale University Press. ISBN 1987. p.180

_______________ Origem do universo, Wikipedia, la enciclopedia libre,


in http://es.Wikipedia.org/wiki/evolucion#el.origen,23/03/2010)
_______________ O Profeta Adão, em Inglês, Islam.com. Página
visitada em 31 de julho de 2008)

_______________ Expansão do Islã (em pps) comibam.org. Página


visitada em 31 de julho de 2008.

________________ Origem do universo, Wikipedia, la enciclopedia


libre, in http://es.Wikipedia.org/wiki/evolucion#el.origen,23/03/2010

_______________ http://www.mundosfilosofos.com.br, consuta de


23/03/2010

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Mundividência Religiosa Cristã128

NÃO TE ESQUEÇA DE AGRADECER:

Nome do Autor: Sérgio Alfredo Macore

Nickname: Helldriver Rapper

Facebook: Sérgio Alfredo Macore ou Helldriver Rapper


Rapper

Celular: (+258) 846458829

E-mail: Sergio.macore@gmail.com

LinkedIn: Sérgio Alfredo Macore

Morada: Pemba – Moçambique

NB: Faço Trabalhos por encomenda (Monografias, Tese,


Dissertação, Trabalhos Científicos).

128

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