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Capital da Bósnia guarda livro misterioso da

Páscoa
Hagadah, sobre fuga dos judeus do Egito, fica em caixa no Museu
Nacional

Bênção de Moisés ao povo de Israel antes de sua morte - Reprodução

29.mar.2018 às 2h00

EDIÇÃO IMPRESSA (//www1.folha.com.br/fsp/fac-simile/2018/03/29/)

Leão Serva

SÃO PAULO Há milhares de anos, na Páscoa, também chamada


Pessach, os hebreus leem para suas crianças as histórias
sagradas da fuga do Egito, como narradas no livro chamado
“Hagadah”. 

Essa cena se repetirá no próximo fim de semana, em respeito


ao que manda a Bíblia. Em um canto conflagrado do planeta,
encontra-se o exemplar mais misterioso desse livro
especialmente escrito para as crianças, o “Hagadah de
Sarajevo”, guardado em uma caixa de vidro blindado no Museu
Nacional da capital da Bósnia.

Os cuidados extremos com sua proteção se devem ao fato de


Sarajevo ter sido epicentro de uma guerra sangrenta, entre
1992 e 1995, quando havia temor de que o volume pudesse ser
destruído. O livro sobreviveu à guerra em um bunker do Banco
Central, resistente às bombas sérvias.

Também poderia ser roubado, como tentaram fazer soldados


nazistas, que ocuparam a cidade na Segunda Guerra Mundial, e
gatunos em busca de objetos valiosos, no começo da guerra
civil, em 1992. Nas duas oportunidades, o livro foi salvo por
funcionários da Biblioteca Nacional da Bósnia.

Agora que o país está em paz, o “Hagadah de Sarajevo” é


mantido como a relíquia mais valiosa do museu: foi avaliado
em US$ 7 milhões em 1992 (cerca de R$ 24 milhões hoje). E
serve como uma boa razão para turistas de vários cantos do
mundo visitarem a capital da Bósnia.

Produzido durante a Idade Média em algum lugar da atual


Espanha, é considerado uma relíquia dos judeus ibéricos (os
sefarditas). 
A obra tem características únicas: combina aspectos da
tradição religiosa hebraica com elementos da cultura católica.
A principal marca dessa mistura são as iluminuras e ilustrações,
comuns nos manuscritos cristãos e inexistentes em obras
judaicas.

O livro deve ter sido produzido para uma rica família do


período medieval. 

Em 1492, os exércitos reunidos pelos “reis católicos” de Aragão


e Castela dominaram o território da atual Espanha e
decretaram a expulsão dos judeus (que habitavam a península
desde antes de Cristo nascer e tinham até uma língua própria, o
ladino, parecida com o espanhol).

A maior parte dos expulsos exilou-se em áreas dominadas pelo


império turco, incluindo Sarajevo. O “Hagadah” permaneceu
desconhecido até o final do século 19, quando um homem de
família judaica, precisando de dinheiro, procurou o Museu
Nacional para vendê-lo.

A história do livro foi contada pela escritora australiana


Geraldine Brooks em artigos de jornais e, de forma
romanceada, em “People of the Book” (no Brasil, “As Memórias
do Livro”, editora Ediouro, 2008), que mescla a trajetória real
com personagens de ficção que se dedicam a estudá-lo.

CINEMA 

Se Sarajevo para você ainda é sinônimo de guerra, pode mudar


seus conceitos. Os anos 1990 já são história, hoje quem bomba
é o turismo.

Estações de esqui e deliciosos cafés, montanhas cobertas de


florestas, um centro histórico que preserva as construções
medievais turcas e uma intensa vida universitária atraem
visitantes à cidade de 400 mil habitantes.

A Biblioteca Nacional, em Sarajevo, na Bósnia, que foi reconstruída depois de


ter sido bombardeada na guerra, em 1992 - Mustafa
Oztürk/Anadolu/Agency/AFP

Você já encontrou Penélope Cruz andando sozinha por aí? Eu


topei com ela entrando no hotel Holiday Inn (que durante os
anos de guerra servia de abrigo a jornalistas de todo o planeta).
É frequente a presença de equipes de cinema produzindo na
cidade, e todos os verões seu festival de cinema atrai estrelas
internacionais para lançamentos (neste ano, será de 10 a 17 de
agosto).

Os sinais da guerra ainda são visíveis em prédios marcados de


bala ou terrenos cobertos de túmulos ou mesmo nas
construções históricas recentemente reconstruídas, como a
Biblioteca Nacional. 

Há até um novo Museu do Túnel de Sarajevo, que mantém


intacta a entrada e algumas dezenas de metros da passagem
subterrânea construída durante o longo cerco das forças
sérvias, que permitiu o abastecimento de bens e a entrada e
saída de autoridades locais, apesar do constante bombardeio.

Além dos atrativos próprios, o turismo em Sarajevo se beneficia


da proximidade com um dos destinos mais quentes da Europa,
o litoral da Croácia. A capital da Bósnia está a apenas quatro
horas de carro de Split, de onde saem barcos para as badaladas
ilhas da Dalmácia, como Hvar e Vis, e a cidade de Dubrovnik,
chamada de “pérola do Adriático” pela cor branca do mármore
com que foi construída até o século 16.

A persistente fama da guerra tem efeito positivo para o turista:


procura menor reduz preços de estadia e comida.

Mais uma boa razão para ver de perto as placas onde, durante a
guerra, ironicamente, escreviam: “Welcome to Sarajevo”.