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UNIVERSIDADE FEDERAL DE MATO GROSSO

Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT);


Instituto de Ciências Humanas e Sociais (ICHS)
Departamento de Filosofia
Curso de Filosofia - Bacharelado – 6.o Semestre
Disciplina: Estética
Docente: Sara Pozzer
Discente: Fábio Lázaro Oliveira Queiroz

A teoria estética adorniana


Theodor W. Adorno foi um dos maiores expoentes da escola de Frankfurt
através de sua filosofia e crítica social. Dentre as suas obras, grande parte é
destinada ao tema da estética. Neste texto, portanto, faremos alguns
comentários a respeito da estética para esse autor a partir de sua obra Teoria
Estética (2002).
Para Adorno, o objeto de estudo da estética é a obra de arte e a sua
metodologia é a reflexão filosófica. Quanto à caracterização desse objeto,
enquanto obra ele já é considerado algo espiritual – diferente de um objeto da
natureza, o qual é considerado natural. A parcela espiritual nas obras de arte,
para Adorno, é sua natureza histórico-sociais, a qual possui algumas
características fundamentais, que não determinam o conteúdo das obras, mas
de algum modo o delimita. Por isso, a reflexão estética é considerada imanente
à obra de arte.
Adorno se contrapôs a algumas correntes estéticas de seu tempo, dentre
elas, a fenomenológica, a idealista e mesmo a marxista. Para a corrente
fenomenológica, que tenta encontrar numa intuição originária a essência da arte
(ADORNO, 2002, p. 351-2), Adorno opõe seu imanentismo e percebe que
mesmo os supostos universais invariantes, que seriam essenciais à arte pela
fenomenologia, na verdade, se movem em constelações históricas (ADORNO,
2002, p. 351), e são, portanto, variáveis. Em suas palavras: “A estética não é
obrigada de se colocar a tarefa de busca por um arquétipo primal para a arte, ao

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invés, deve pensar tal fenômeno em constelações históricas”1 (ADORNO, 2002,


p. 352).
Uma outra característica que sempre encontramos na obras de arte, ao
longo de seu trajeto histórico, inclusive para Albert Camus – outro filósofo da
escola de Frankfurt, mas a que Adorno também se opõe em alguns aspectos –,
é o fato de repelirem o real. Isso se dá através da criação de uma esfera
qualitativamente distinta do real, através da obra de arte, que de alguma forma
o nega.
Essa esfera qualitativamente distinta é melhor compreendida se a
compararmos com a razão instrumental da ciência. Enquanto que nessa a razão
se utiliza da quantificação para conhecer as coisas, na arte, a razão se utiliza do
aspecto qualitativo na sua produção.
Façamos um parêntesis para melhor entender essa diferenciação. Em
outra obra, Adorno juntamente com Horkheimer busca fazer uma análise do
processo civilizatório do ocidente a partir da interpretação da Odisseia de
Homero. Nessa obra, eles percebem que o uso dessa razão qualitativa está
presente desde os primórdios da arte, quando os antigos representantes
religiosos se utilizavam da arte, nos rituais, para a mímesis da natureza. Ali, a
natureza era imitada, e não, como na razão quantificadora moderna, medida
para ser dominada. Apesar de Adorno não considerar esses artefatos utilizados
nos rituais propriamente como arte, em função de sua subordinação aos rituais,
ele vê ali, nesse impulso mimético, um outro uso da razão, de forma qualitativa,
a qual responde pela criação da obra de arte que posteriormente se emancipará
no processo civilizatório.
A partir desses primórdios da arte, com a descoberta da eficiência da
razão instrumental, a qual se dá, mais própria e intensamente, a partir da
modernidade, a arte enquanto mímesis da natureza teve de ser abandonada, já
que a razão instrumental se mostrou muito mais eficiente para esse fim. Essa
ruptura com uma função primordial é causa, também, de uma unidade que foi

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Todas as citações desta obra foram por nós traduzidas.
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perdida e que a arte desde então tenta recuperar. É nessa tentativa de


recuperação dessa unidade que se dá a oposição ao real inerente às obras de
arte.
Por outro lado, é preciso entender que o posicionamento em relação à
estética assumido por Adorno se contrapõe, também, ao de Kant e ao de Hegel.
Esses últimos são idealistas e Adorno os critica por terem sido os últimos a terem
feito grandes contribuições para a estética sem nada saberem sobre arte (p.
334). Para Adorno, apenas duas são as abordagens produtivas à estética, em
detrimento do idealismo. Uma delas é a abordagem do conceito, que se distancia
de qualquer empiria e que “com pensamentos sem janelas penetrou no conteúdo
do seu outro” (ADORNO, 2002, p. 334); a outra, é a perspectiva muitas vezes
presente nos escritos de alguns artistas, cuja expressão, independente de
qualquer autoridade do artista sobre a obra, demonstra a força experiencial da
obra (ADORNO, 2002, p. 334). É, portanto, essa última, uma abordagem interna
à obra. Por fim, segundo Adorno (ADORNO, 2002, p. 335):

Após a morte dos sistemas idealistas, a dificuldade de uma


estética que fosse mais do que uma desesperada reanimação
de um ramo da filosofia é a de trazer a proximidade do artista
com o fenômeno juntamente com a capacidade conceitual liberta
de qualquer conceito subordinador, livre de todos os juízos
decretados; comprometida com a mediação do conceito, tal
estética iria além da mera fenomenologia das obras de arte.
É uma estética que, ao contrário de fornecer prescrições normativas,
proveria à arte a capacidade de reflexão, a qual essa última por si mesma não
seria capaz de conquistar (ADORNO, 2002, p. 341). Por isso, a metodologia da
estética deve ser a reflexão filosófica.
Diferente de Kant, Adorno enxerga na constituição da obra de arte uma
dualidade objetivo-espiritual. O que é objetivo na arte não é apenas o material
de que é feita. Na verdade, a técnica empregada e as tensões sociais que são
expressas na arte também configuram seu aspecto objetivo. No entanto, por
outro lado, o aspecto espiritual é o lado conceitual ou hermenêutico também
presente. É através da consideração desses dois aspectos que podemos dispor
de uma ferramenta dialética adequada ao entendimento da arte.

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É por esse aspecto duplo que a arte deve ser considerada. Uma análise
que se proponha a se basear apenas no juízo estético subjetivo kantiano seria
incompleta e, por isso, falsa. Basta que tentemos apreciar uma obra de arte do
passado distante de forma imediata, pelo simples efeito que ela nos causa, para
percebermos que essa tentativa de compreensão é uma ficção (ADORNO, 2002,
p. 348-9).
Isso nos leva a um outro passo fundamental à compreensão da obra de
arte e que se trata do seu valor de verdade. Não é possível entender o que o
autor diz por valor de verdade se entendermos a verdade enquanto nas
tradicionais teorias do conhecimento correspondentista e coerentista, por
exemplo. Na verdade, a verdade está em enxergar as tensões sociais e
históricas que se expressam na obra e, portanto, ver a obra como um espelho
dessas forças. Assim que entenderemos o valor de verdade das artes, o qual,
portanto, depende de uma reflexão filosófica que leve em conta o seu caráter
imanente.
A partir dessas considerações é possível perceber como a filosofia de
Adorno está intimamente relacionada com a estética, dados o papel do que ele
enxerga como uma razão qualitativa na arte, a inserção da obra de arte em um
contexto histórico e social que precisa ser interpretado e a importância de uma
hermenêutica que possa extrair com esses elementos o sentido da arte.

Referências
• ADORNO, T. Aesthetic Theory. Gretel Adorno, Rolf Tidemann
(eds.), Continuum: New York, 2002.