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Conceito Poético: método de geração

de ideias em arquitetura1
Marcos Sardá Vieira2
Docente da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS); Doutorando do Programa Interdisciplinar em
Ciências Humanas da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). E-mail: <marcosarda@gmail.com>.

Resumo

Este artigo apresenta a experiência na aplicação do Conceito Poético como método intuitivo para a ge-
ração de ideias na etapa inicial do desenvolvimento de projeto arquitetônico. Com base na baixa ênfase
do caráter artístico aplicado ao ensino de arquitetura e urbanismo, no desenvolvimento de autonomia,
criatividade e senso crítico, esta pesquisa reflete sobre a geração de ideias significativas para o desenvol-
vimento e auto compreensão do/da estudante em um contexto de atuação profissional fundamentado
em projetos reproduzíveis pela funcionalidade e por concepções prévias de tecnologias construtivas. A
intenção desta publicação é apresentar o método do Conceito Poético como alternativa para o apren-
dizado poético e intuitivo dos/as estudantes de arquitetura e urbanismo na geração de ideias com valor
artístico, que antecedem a inovação técnico-funcional de projetos arquitetônicos e das áreas livres
adjacentes. A aplicação deste método fez parte do processo de ensino-aprendizado em duas turmas de
Projeto Arquitetônico na segunda fase do Curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal
da Fronteira Sul (UFFS), ao longo do segundo semestre de 2012 e 2013. Os projetos trataram do tema
templo ecumênico, localizando este equipamento em dois amplos espaços públicos, articulados com
o projeto das áreas livres. De acordo com a avaliação das aulas nos dois semestres, a aplicação do mé-
todo colaborou para ordenar as ideias e o processo de racionalização das etapas finais de projeto. Esta
interpretação conceitual abriu possibilidades aos estudantes em desenvolver uma origem para o juízo
estético na interpretação das condicionantes físicas e na aplicação das características de composição
em um discurso arquitetônico coerente com o resultado apresentado.
Palavras-chave: Método. Conceito Poético. Ensino de Arquitetura e Urbanismo.

1 Introdução da linguagem visual (entre forma, linha, cor e tex-


tura) na definição do valor formal e artístico para
O propósito desta publicação é apresentar o o resultado da proposta arquitetônica. Baseia-se
método de geração de ideias que utiliza o processo na intuição e na pesquisa exploratória, estimulan-
de articulação das informações e conhecimentos do o aprendizado com criatividade e autonomia.
de interesse do/a estudante de arquitetura e ur- A pesquisa para a definição do método do
banismo no desenvolvimento da etapa inicial da Conceito Poético foi desenvolvida nos últimos
disciplina de projeto. Este método chamado Con- cinco anos, ao longo das atividades de ensino em
ceito Poético prevê a combinação e interpretação projeto arquitetônico em instituições de nível supe-
de tema(s) e sensações na criação de uma ideia rior e cursos de arquitetura e urbanismo. Neste ar-
norteadora, caracterizada pelos elementos básicos tigo é apresentada o referencial teórico e a etapa de

1 Esta publicação faz parte do projeto de pesquisa “Abordagem Conceitual para o Ensino de Projeto em Arqui-
tetura” inscrito no edital Nº 262/UFFS/2012 da Universidade Federal da Fronteira Sul.
2 A escrita deste trabalho contou com as colaborações: em sala de aula dos docentes, Fábio Lúcio Zampieri,
Andréia Saugo e Leandro Carlos Fernandes; e em pesquisa do discente Bruno Diego Felippe.

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DOI: 10.18256/2318-1109/arqimed.v4n1p4-18
Conceito Poético…

aplicação da pesquisa em 2012 e 2013, fazendo uso (SANTOS, 2008; SÊGA, 2000). Estes aspectos
de estratégia de investigação qualitativa, através da atuais influenciam diretamente a estrutura edu-
colaboração e orientação dos/as estudantes durante cativa e os caminhos previstos para dar suporte
as atividades da disciplina de projeto, no Curso de às futuras prerrogativas do conhecimento. Nesta
Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal estrutura de ordem e desordem, onde a ciência é
da Fronteira Sul (UFFS), Campus Erechim/RS. separada da filosofia, os processos de subjetivida-
Em sua aplicação como base conceitual para de acabam desvinculados do estado consciente
o projeto arquitetônico, o método enfatiza a de- de nossas vidas acadêmicas, velando uma parte
finição do caráter estético antes de estabelecer os importante na constituição do conhecimento
aspectos funcionais e tecnológicos para a propos- (PENA-VEGA; ALMEIDA, 2010).
ta. Esta suposição de (des)ordem para os conteú- Isso acontece pela influência de um contex-
dos de aprendizado considera a necessidade em to significativo mais amplo, ligado ao processo de
reforçar o significado artístico no processo de ensino-aprendizado em arquitetura, que procura
projetar, enquanto as resoluções sobre os objetos justificar conscientemente as escolhas já estabe-
e elementos espaciais de criação estão mais flexí- lecidas pelo sistema econômico e tecnológico, ao
veis e divergentes. Em seguida, estas ideias con- mesmo tempo em que determina um perfil ideal
vergem para completar com as definições mais do arquiteto no mercado profissional (TONON,
objetivas, no sentido de estabelecer o resultado 2013; SIQUEIRA, 2013).
material e técnico à concepção formal do projeto A cultura tecnológica condiciona o pensa-
espacial. Em outras palavras, poderíamos consi- mento e o processo de decisões na maneira como
derar que o método do Conceito Poético questio- são previstos os resultados arquitetônicos, anes-
na a própria necessidade da ordem metodológica tesiando a livre reflexão, o diálogo com as incer-
na formação da ideia inicial, aventurando-se por tezas, a flexibilidade da mente e a reconfiguração
novos caminhos onde o pensamento não pode ser epistemológica e crítica sobre o conhecimento
conduzido por regras (OLIVA, 2005). que define o sistema construtivo atual. Por isso,
Em contraponto as definições técnicas e ra- a necessidade de instigar o senso crítico dos/as
cionais para constituir uma obra arquitetônica, a estudantes, despertando diferentes possibili-
dimensão estética é tão incompreendida quanto o dades no desenvolvimento de sua criatividade.
inconsciente do cérebro. “Como achamos difícil Especialmente, na etapa inicial do projeto, em
abordar racionalmente os aspectos estéticos, cos- uma concepção espacial livre dos rótulos e das
tumamos desenvolver complicados aparatos me- respostas prontas.
todológicos para assegurar um processo de cria- Para estimular a inteligência fluída do/a es-
ção que seja efetivamente inovador” (MALARD, tudante no processo inicial do projeto é apresen-
2006, p. 55), sujeito a erros e acertos aleatórios. tado, a seguir, o contexto desta pesquisa sobre o
ensino de projeto arquitetônico e a experiência na
O campo da arquitetura envolve uma mistura de aplicação do método do Conceito Poético para a
tecnologia e arte, não estando esta última atre- geração de ideias, colaborando na criação de pro-
lada necessariamente à inovação tecnológica. jetos significativos e inovadores.
Assim, o conceito de inovação, nesta área espe-
cífica, muitas vezes, relaciona-se a novas compo-
sições, desenhos e interpretações histórico-con-
ceituais (KIATAKE, 2004, p. 86). 2 Conhecimento e Aprendizado
em Arquitetura
A atuação em arquitetura e urbanismo está
vinculada ao sistema econômico neoliberal, na A possibilidade em desorganizar as conven-
concepção dos fundamentos pós-industriais do ções e estabelecer uma nova ordem de raciocínio
habitat humano e no predomínio do pensamen- e percepções (formais e funcionais) torna o pro-
to racional e linear, para a concepção de ideias e cesso criativo do/a arquiteto/a muito próximo dos
a interpretação da realidade física. Todos estes processos incomuns traçados pelos/as artistas, na
aspectos fazem parte de um contexto que vem expressão de vanguarda diante de realidades pré-
sendo consolidado desde o século XIX, na consti- concebidas. Diferente de um produto vinculado
tuição do pensamento estruturalista e na funda- com a linha de produção industrial, fabricado
mentação ideológica dos processos de inovação em grande escala, a arquitetura segue resultados

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únicos e ainda rudimentares de processos3 arte- lerância de expressão no equilíbrio entre regras e
sanais, que distanciam as ideias do projeto com criatividade.
a realidade do canteiro de obras, principalmente, Na Arquitetura atual, como vasto campo de
em países subdesenvolvidos (KIATAKE, 2004). atuação, a busca por soluções pragmáticas é mais
A consolidação do saber científico e de seus comum do que entre os/as cientistas, que buscam
métodos de reconhecimento da realidade, a filo- a resolução de problemas. “Para a maioria dos ar-
sofia, a arte e o saber narrativo (com significados quitetos e projetistas, um dos meios mais eficien-
conotativos e mais vinculados ao social) resultam tes de alcançar um resultado é modificar soluções
em diferentes graus de valorização do conheci- existentes, em vez de começar a construí-las do
mento aplicado pelos recursos econômicos e po- zero” (KOWALTOWSKI, 2011, p. 23). No ensino
líticos, que estabelecem as relações de poder e o de projeto faltam oportunidades que estimulem o
controle do tempo e do espaço (GIDDENS, 2005). discurso conotativo dos/as estudantes, desenvol-
A concepção racional das cidades e dos pré- vendo habilidades a partir dos diferentes perfis
dios e a sua organização funcional, que otimiza de aprendizado. “Raramente o ensino superior de
os processos construtivos da atualidade, são es- Arquitetura adota práticas que favoreçam a cria-
tabelecidos como herança do método de ensino e tividade. Em geral, os profissionais só aplicam o
aprendizado modernista e possibilitam atender- conhecimento comum, de forma convencional”
mos com eficiência as demandas por recursos de (KOWALTOWSKI, 2011, p. 34).
construção e manutenção da arquitetura em nos-
sas metrópoles (SANTOS, 2008). Ainda assim, Os estudos sobre níveis de conhecimento apre-
na escala humana de convivências e percepções, sentam informações que desmitificam o papel
ainda nos sentimos mais envolvidos por concep- restrito da investigação científica na construção
de conhecimentos com base apenas na via lógica
ções de espaço que apresentam uma prerrogativa
e racional, dividindo as possibilidades de inves-
menos meticulosa para com os aspectos ligados tigação entre várias disciplinas de pesquisa. O
à racionalidade do edifício. O equilíbrio pela as- conhecimento popular, teológico, filosófico e
simetria e imprevisibilidades na composição de artístico, por exemplo, nos permitem diferentes
cada detalhe, como se fosse único, resgata um interpretações sobre a mesma realidade (VIEIRA,
estado emocional mais pleno, que vai além das 2009b, p. 9).
nossas necessidades fisiológicas atendidas pela re-
gularidade do abrigo eficiente. De acordo com o arquiteto Matthew Fre-
Estas características permanecem como re- derick, planejar um espaço arquitetônico, dando
ferência na arquitetura antiga, que precede o pe- significado ao lugar, é diferente da simples adequa-
ríodo de modernização das cidades e dos proces- ção funcional de suas necessidades. Planejar fun-
sos construtivos renascentistas. Os princípios da cionalmente um espaço seria uma das várias atri-
Escolástica e da Arquitetura Gótica, por exemplo, buições do/a arquiteto/a. Em sua ampla formação,
revelam uma reciprocidade na organização do co- este/a profissional (das ciências sociais aplicadas)
nhecimento e dos processos mentais e abstratos deve considerar a natureza do trabalho realizado
com a forma almejada pela concepção artística e e o seu significado para as pessoas e para a socie-
cultural, resultando na constituição da arte e dos dade. Por isso, é importante que o/a estudante de
elementos de representação social. A materializa- arquitetura aprenda a definir ideias essenciais que
ção destes princípios revela o triunfo de um pe- irão estruturar mentalmente o meio como orga-
ríodo de conciliação entre o conhecimento cien- nizamos e entendemos as sensações e significados
tífico, racional e dedutivo, com outras maneiras do processo de planejamento das boas soluções
mais subjetivas de interpretar a realidade, como (FREDERICK, 2009).
a crença e a imaginação (PANOFSKY, 1991). E No pensamento que precede a prática, por-
por esta unidade de abrangência entre razão e fé, ventura, os processos criativos deveriam explorar
hábito mental e arquitetura, a Escolástica man- outras possibilidades além da estrutura real que
tém-se como referência para o período atual de nos é apresentada. Este aspecto é importante tan-
condicionamento humano, na organização e sis- to para aproximar o caráter artístico da arquite-
tematização das diferentes maneiras de apreensão tura quanto para transformar, conscientemente,
do conhecimento, ampliando a liberdade e a to- a estrutura prévia dos caminhos já percorridos.
3 Processos que associam os métodos com as técni- Isso traz a oportunidade de criar novas conexões
cas construtivas. para o alcance de soluções inéditas. Ao mesmo

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Conceito Poético…

tempo, contribui para os objetivos estabelecidos, Suplementar à inteligência cristalizada4, a in-


no sentido de construir uma proposta arquitetô- teligência fluída é a habilidade de pensar abstrata-
nica viável para os critérios de sustentabilidade, mente e perceber relações entre as coisas sem fina-
adequação técnica, ambiental e humana, através lidade prática ou instrução prévia, de acordo com
de um pensamento complexo e integrado. a teoria do pesquisador e doutor em psicologia,
De maneira geral, o processo de ensino supe- Raymond Cattell [1905-1998] (SCHELINI, 2006).
rior não considera as diferentes formas de apreen- Entre os diferentes caminhos a serem explo-
são da informação pelo/a estudante. A metodologia rados pela imaginação, a inteligência também está
para o repasse do conhecimento pelo/a professor/a associada ao pensamento divergente (aquele que
segue aplicações fixas e homogêneas na prática explora direções diferentes e produz soluções múl-
disciplinar. É um modelo pouco flexível para as tiplas para o mesmo problema) e convergente (tra-
verdades relativas e abordagens qualitativas. Man- balhando a capacidade em promover uma resposta
ter o processo com base no saber científico exige o correta com medidas quantitativas de inteligência)
isolamento de um jogo de linguagem denotativa e (VIEIRA, 2013). O pensamento convergente com-
a exclusão de qualquer outro significado onde “o plementa o divergente, na medida em que auxilia
critério de aceitabilidade de um enunciado é o seu na escolha e análise crítica entre as alternativas
valor de verdade” (LYOTARD, 2009, p. 46). existentes, definidas previamente na etapa do pen-
De acordo com o educador e filósofo brasi- samento divergente (SIQUEIRA, 2013).
leiro Paulo Freire [1921-1997], ensinar requer res- No geral, as disciplinas que atendem aos
peito para com os saberes e vivências dos/as estu- aspectos tecnológicos e funcionais, relacionados
dantes. “A educação é uma forma de intervenção com o saber científico, condicionam alunas e alu-
sobre o mundo”, assim como o ensino de arqui- nos ao pensamento estritamente objetivo e linear,
tetura é uma forma de intervenção consciente o que impede uma percepção holística no uso de
sobre a cidade, “implicando tanto no esforço de suas faculdades intuitivas.
reprodução da ideologia dominante quanto o seu
desmascaramento” (FREIRE, 2011, p. 96). A intuição tem um papel fundamental no pro-
cesso criativo. É a intuição que faz a conexão
entre as informações resultantes da análise do
problema com as experiências e conhecimentos
3 Novos Caminhos para o armazenados no nosso cérebro. É esta cone-
Aprendizado xão que resulta naquele toque pessoal de origi-
nalidade na solução de problemas. A intuição
também nos permite superar as lacunas de in-
Para destacar o aprendizado sensível, ar- formação que possam ocorrer na fase analítica
tístico e crítico, considera-se fundamental criar (SIQUEIRA, 2007, p. 2).
oportunidades durante o período de formação
acadêmica para que o/a estudante de arquitetura e A transfiguração do real pela restrição fun-
urbanismo possa explorar conscientemente o pro- cional e tecnológica nem sempre é um aspecto
grama arquitetônico e a sua representação visual negativo para a construção de uma ideia inicial.
(bidimensional e tridimensional) com liberdade Inclusive, pode ser um grande estímulo a familia-
e envolvimento. Diferente da escolha cômoda e ridade com a pesquisa e o diagnóstico que antece-
arbitrária em reproduzir atributos arquitetônicos dem a proposição do projeto enquanto exercício
a partir de discursos já institucionalizados pelo de encontrar a solução entre os elementos condi-
mercado construtivo. cionantes, onde o condicionamento desafia a bus-
De acordo com Jerome Bruner, psicólogo de ca pela qualidade arquitetônica entre diferentes
origem polonesa, o aprendizado acontece por expe- possibilidades de análise. Porém, acredita-se que
riências ativas e na instrução complementar que o processo de aprendizado em projeto arquitetô-
incentiva a participação. Das interações sociocul- nico não pode se basear apenas em visões unilate-
turais do/da estudante e da sua curiosidade em rais de percurso para a formação do pensamento
explorar o ambiente, Bruner afirma que o apren- e da percepção da realidade diante o problema
dizado é um processo participativo na apreensão apresentado pelo exercício de projetar.
de significados (CORREIA, 2003) e não um pro- 4 De acordo com Cattell, a inteligência cristalizada é for-
duto que possa ser adquirido na loja de materiais mada por experiências anteriores e por fatos aprendi-
de construção. dos, que colaboram com a habilidade de julgamento
acumuladas com o tempo (SCHELINI, 2006).

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Ideias criativas resultam na aplicação de opera- frentar suas emoções e gerar sentimentos autô-
ções mentais em estruturas do conhecimento, e nomos, diante dos dados e concepções advindas
sua originalidade é determinada pelos processos do contexto externo. Este processo não busca um
empregados e pelo modo como o conhecimento é perfil de unanimidades na formação pessoal e
acessado. A produção de novas ideias baseia-se em
profissional em arquitetura e urbanismo. Mas co-
três processos: Combinação, Associação e Com-
paração, a base de diversas técnicas de estímulo à labora para um estado latente de equilíbrio entre
criatividade (KOWALTOWSKI, 2011, p. 47). a formação pessoal e profissional do/da futuro/a
arquiteto/a, quebrando o formato de sujeitos clo-
Diferente da ênfase dada no lançamento nes e que deixam de atender aos diferentes perfis
da proposta arquitetônica, durante o ensino de de inteligência (e processos criativos) na formação
projeto arquitetônico, na experiência intuitiva e de agentes sociais.
conceitual procura-se estimular a criatividade na
etapa inicial de projeto a partir do pensamento
complexo e divergente, combinando ideias para 4 Referências para o Modelo
nortear a definição do conceito. “O pensamento Conceitual
complexo é o pensamento que se esforça para
unir, não na confusão, mas operando diferencia-
Por intermédio da arte torna-se possível es-
ções” (PENA-VEGA; ALMEIDA, 2010, p. 33).
tabelecer um estado de consciência mais crítico
Pesquisas5 apontam novos estudos sobre o
e significativo sobre a realidade a ser aprendida.
funcionamento do cérebro e propõem que “a cria-
Sem esta vinculação poética a Arquitetura se des-
tividade não é um talento único, mas uma combi-
faz enquanto mensagem dentro do processo edu-
nação de diferentes tipos de pensamento, analítico,
cativo. “A dimensão artística da arquitetura está
verbal, intuitivo e emocional, cada um controlado
nos seus aspectos visuais, interiores e exteriores.
por uma região distinta do cérebro” (KIATAKE,
E esses são determinados pelas articulações dos
2004, p. 3), formando aptidões pela associação des-
volumes, dos planos, das texturas, das cores.”
tes pensamentos.
(MALARD, 2006, p. 54).
No resgate da subjetividade6 e do repertório
A representação visual e a identificação de
de vida (FREIRE, 2011) podemos definir percur-
ideias perdem sentido como linguagem e conteú-
sos diferentes para a estrutura de pensamento do/
do quando desvinculados do pensamento artístico.
da estudante, evitando a associação direta com
Existe negligência na compreensão através dos sen-
soluções formais pré-concebidas para a defini-
tidos, onde o conceito é desvinculado da percepção
ção automática do projeto. “A literatura ensina
e o olhar se perde da capacidade de descobrir sig-
que a criatividade é estimulada por um proces-
nificado naquilo que enxerga (ARNHEIM, 2011).
so de sensibilização diante de um problema real”
O interesse deste viés artístico e subjetivo,
(KOWALTOWSKI, 2011, p. 34) e esta sensibiliza-
através do processo de projeto, procura resgatar a
ção prevê um envolvimento maior durante o pro-
arte na representação arquitetônica. Mesmo assim,
cesso, desestimulando o caminho mais rápido a
devemos considerar que a Arquitetura, enquanto
partir de soluções já existentes, motivado pela
conhecimento aplicado, não se define apenas pela
ansiedade em chegar ao resultado.
sua dimensão artística. Para estar completa é fun-
Acreditamos que o resgate da subjetividade
damental que seja compreendida em suas dimen-
do/da estudante no processo de projeto tende a
sões funcionais e tecnológicas, vinculando a tríade
formar pesquisadores/as mais aptos/as para en-
vitruviana de venustas, utilitas e firmitas. “Entre-
5 Pesquisas como: o livro de Francisco J. Rubia (2010), tanto, são as aparências que marcam a presença do
que aponta a criação de ilusões e falsidades pelo
cérebro como habilidades estratégicas de sobre- objeto arquitetônico no mundo e o torna conhe-
vivência; o artigo de Rafael Tonon (2013), quando cido, apreciado, discutido, polêmico.” (MALARD,
apresenta pesquisas recentes de neurocientistas 2006, p. 55).
considerando que nossas escolhas são definidas,
automaticamente, pelo inconsciente do cérebro; e Entre as grandes obras da arquitetura, que
outras teorias envolvendo criatividade e processos marcaram o século XX, resgatamos o exemplo de
mentais apresentadas na dissertação de Marly Kia-
take (2004) e nos artigos de Jairo Siqueira (2007). Antoni Gaudí [1852-1926] como referência para o
6 Chamarei subjetividade “a capacidade de receber o pensamento emblemático do processo de projetar
sentido, de fazer algo com ele e de produzir sentido, e construir. As obras do arquiteto catalão trans-
dar sentido, fazer com que cada vez seja um sentido
novo.” (PENA-VEGA; ALMEIDA, 2010, p. 35). mitem sensações particulares, que vão além do

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estado material da obra, criando a possibilidade Neste processo de reflexão, com base na per-
de vivenciarmos a superioridade da criatividade cepção visual, na significação artística e na essên-
humana em conceber uma obra de arte através da cia da arquitetura para além da sua materialização,
composição espacial-arquitetônica. De ideias ins- define-se o Conceito Poético como conjunto de
piradas pela experiência do arquiteto catalão, por pensamentos que articulam a unidade de concep-
analogias e comparações com a natureza, surgem ção inicial da proposta arquitetônica. Este modelo
respostas que estão além do que poderia ser ima- conceitual procura explorar diferentes habilidades
ginado pelo contexto da época em que o arquiteto para a apreensão da informação através do pensa-
viveu [Figura 1]. Suas obras de caráter artesanal mento visual, do diálogo, da abstração, da organi-
definem um objeto que não pode ser reproduzido, zação da ideia e, principalmente, na percepção dos
diferente de um produto que tem sua importân- próprios sentimentos e do conhecimento particu-
cia histórica, basicamente, por ser a peça original lar sobre as informações que podem estar vincula-
dentro de uma linha de produção. das com os conteúdos disciplinares do projeto.

Figura 1 - Representação do corte e vista inferior da fachada do Edifício La Pedrera de Gaudí, em Barcelona. Fonte: Acervo
do autor, jan. 2012.

Na relação com modelos de geração de ideia, 5 Aplicação do Conceito Poético


este método está inserido dentro dos processos de
combinação das informações, devido ao vínculo A aplicação do Conceito Poético definida
interdisciplinar entre diferentes campos de pensa- para esta publicação, diz respeito a experiência
mento e temas de pesquisa. “Na fase inicial do pro- com às aulas da disciplina de Projeto Arquitetôni-
jeto, os métodos têm a função de ferramentas de co e Representação, na 2ª fase do Curso de Arqui-
apoio e de aprendizagem, para o arquiteto estender tetura e Urbanismo da Universidade Federal da
seu repertório a diferentes situações e problemas Fronteira Sul (UFFS/Campus Erechim), em duas
e ampliar as possibilidades de achar soluções ino- oportunidades durante o segundo semestre letivo
vadoras e adequadas. Entretanto, há poucos exem- de 2012 e 2013.
plos na literatura sobre a aplicação prática dos mé- A definição do projeto arquitetônico e o ca-
todos” (KOWALTOWSKI, 2011, p. 46). ráter essencial a ser atendido na proposta foram
Diferente da aplicação de metodologias que apresentados e discutidos no início das aulas ex-
procuram estimular a criatividade para a geração positivas, para a compreensão das etapas definidas
de formas na relação com técnicas e funções es- pelo plano de ensino, considerando a definição
paciais, a principal intenção dos procedimentos conceitual, os estudos preliminares (contextuali-
metodológicos do Conceito Poético é resgatar a zado com as áreas livres) e o anteprojeto para am-
autonomia do/a estudante a partir do seu reper- pliar os detalhes construtivos e técnicos. O texto
tório pessoal, através de textos e imagens, com- desenvolvido pelo grupo de extensão PARK7 apre-
plementar as informações a serem pesquisadas senta uma boa síntese desta discussão tratando
sobre o(s) tema(s) de interesse para o desenvolvi- sobre a essência da arquitetura:
mento do projeto arquitetônico. 7 PARK foi um projeto de extensão do Curso de Ar-
quitetura e Urbanismo da UFFS, que desenvolveu
publicações sobre as áreas livres públicas e a repre-
sentação visual na cidade de Erechim/RS ao longo
de 2013 <projetopark.blogspot.com.br>.

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Ao arquiteto e urbanista cabe relacionar os as- O seu valor artístico (sua qualidade) não depen-
pectos formais e estéticos com as tecnologias da de da habilidade da pessoa - do artista no mane-
construção para obter um resultado que traga jo das técnicas e dos materiais com que descreve
benefícios práticos e visuais, garantindo valor ar- o pensamento, mas do próprio pensamento, isto
quitetônico ao espaço de vivência, seja uma edifi- é, da relação de semelhança que o artista conse-
cação isolada ou um conjunto de cheios e vazios gue estabelecer com as coisas que o mundo lhe
urbanos. Mas, será que esta habilitação profissio- oferece (MALARD, 2006, p. 21).
nal é suficiente para qualificar a prática arquite-
tônica em sua essência? Neste sentido, talvez a Assim como Nico Frijda, identificando que
essência da arquitetura seja, justamente, o tom a emoção é um processo inconsciente (FRIJDA et
poético interpretado pelo arquiteto na materiali- al., 2000), durante as atividades da disciplina foi
zação do ambiente construído. Um ambiente de
estimulado a livre associação de significados para
nuances espaciais, relacionando objetos e sujei-
tos, em um estado de equilíbrio e harmonia, entre a formação da ideia conceitual. Entre os resultados
cheios e vazios, matéria e valor simbólico. Talvez, que alcançaram valor significativo na interpreta-
esta essência seja melhor percebida nas obras de ção do tema conceitual e relacionado ao Templo,
arquitetos e arquitetas consagrados/as, que mar- segue o exemplo do texto conceitual baseado no
caram a história da arquitetura brasileira: Oscar tema Fogo:
Niemeyer, Affonso Reidy, Vilanova Artigas, Lina
Bo Bardi, entre tantos outros (PARK, 2013, p. 2). É da natureza do ser humano o ato instintivo
de procurar sentir-se seguro com suas escolhas,
Desta maneira, no encaminhamento do tra- com seu próprio eu, com as pessoas que convive
balho da disciplina, demos preferência pelo de- [...]. É fato que geralmente procuramos algo que
senvolvimento individual da proposta, ainda que está acima de nós e que nos leve a sentir, de al-
algumas duplas tenham sido formadas dentro do guma forma e em algum sentido, a proteção de
que precisamos. [...] o conceito do fogo nos leva
grupo de estudantes. Foram desenvolvidas em
a reflexão. Sinônimo de introspecção, segurança,
torno de cem propostas conceituais (individual veemência, purificação e regeneração [...]. Para
e dupla) entre duas turmas de aproximadamente que haja, então, essa renovação interior - que
cinquenta estudantes cada uma [Figura 2]. também pode ser chamada de energia, vontade
de agir, movimentação física e espiritual - o fogo
intrínseco de cada indivíduo deve vir à tona,
como um farol que guia de maneira equilibrada
e prazerosa, [...] que ajude na sua conquista de
objetivos, que desperte a sua chama sagrada, a
sua inspiração (Projeto 2 - UFFS, 2012).

A partir da síntese conceitual foi explicado


aos/as estudantes o caráter significativo da ideia,
Figura 2 - Aula presencial - Projeto 2/UFFS. Acervo do au- uma vez que o conceito é sustentado por ele pró-
tor, 2013. prio, enquanto abstração e reflexão sobre deter-
minado assunto. Esta ideia vai se transformando
Foi escolhido o programa do templo ecumê- à medida que mais relações são feitas sobre esta
nico8 para o lançamento do partido arquitetônico interpretação. Mesmo que os temas fossem com-
e das áreas livres, implantados em terrenos ocupa- partilhados e repetidos entre o grupo, cada es-
dos, originalmente, por praças públicas na cidade tudante promove uma interpretação singular na
de Erechim/RS. A definição do conceito, enquan- definição de um percurso particular.
to ideia norteadora da proposta, partiu de um Para identificar um meio de expressar esta
tema escolhido e interpretado por cada estudante ideia conceitual, podemos imaginar diferentes
(ou dupla) e deveria ser relatado através de texto, suportes artísticos: artes plásticas, teatro, música,
contemplando a interpretação particular do/da poesia; ou ainda, seria possível considerar o con-
estudante sobre o assunto, explicando significa- ceito expresso em uma coleção de roupas, para
dos e dando o tom do discurso poético e reflexivo. promover um evento ou como ponto de partida
8 Com este tema os/as estudantes puderam explorar na publicação de um livro. Entretanto, para o
possibilidades conceituais e formais do objeto ar-
quitetônico, do programa de necessidades e dos te- efeito de geração de ideias na disciplina de pro-
mas relacionados as questões espiritual e religiosa. jeto, parte-se para a representação deste concei-

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Conceito Poético…

to através da arquitetura e das áreas livres como identificar sensações, que auxiliem no processo
meios de representação. intuitivo de identificar as características formais
Como suporte teórico para identificar os dos elementos e da composição visual a partir das
significados em características físicas de represen- sensações esperadas. Por exemplo, se as sensações
tação na arquitetura, buscamos os conceitos fun- a partir do conceito são definidas como tranqui-
damentais da linguagem visual a partir de Donis lidade e movimento, podemos associar linhas
A. Dondis (1997) e de Rudolf Arnheim (2011), que horizontais e cores claras para representar a tran-
identificam os fundamentos sintáticos e os ele- quilidade, assim como, formas assimétricas e tex-
mentos básicos da representação visual. tura irregular para definir o movimento (VIEIRA,
Relacionando cores, formas, texturas, tons e 2009a). Esta interpretação parte da compreensão
proporções, temos em vista um significado como sobre a linguagem visual, sendo possível associar
resultado da composição do artista, do fotógrafo elementos na identificação de sensações mais am-
ou do arquiteto. Composições fundamentais para plas de acordo com a complexidade e subjetivida-
identificar a posição no espaço, o equilíbrio, a ten- de de cada definição conceitual [Quadro 1].
são, o positivo e o negativo, que criam a percepção Definindo estes elementos e fundamentos
de uma imagem, um ambiente ou uma coisa. As visuais para a composição física da proposta ar-
forças psicofísicas do padrão visual “modificam quitetônica, a partir do conceito e das sensações,
o espaço e ordenam ou perturbam o equilíbrio” os/as estudantes apresentam o estudo do parti-
estabelecendo contato com as emoções e com o do arquitetônico na definição de formas, cores,
inconsciente (DONDIS, 1997, p. 31). texturas (e outros elementos básicos da sintaxe
Para relacionar o Conceito Poético com estes visual), associados com o equilíbrio, a dimensão
elementos de composição, o/a estudante precisou e o movimento da composição (VIEIRA, 2009a).

Quadro 1 - Exemplos de sensações e elementos básicos de composição.


Sensações a partir do Conceito:
leveza, hospitalidade, dinamismo, transparência, proteção, alegria, aconchego, amplitude, tranquilidade,
limpeza, confusão, introspecção, formalidade, etc.
Elementos Básicos de Composição:
Linha: reta, sinuosa, tracejada.
Forma: orgânica, redonda, irregular, geométrica.
Direção: horizontal, vertical, diagonal.
Textura: suave, homogênea, rugosa, alto relevo.
Escala: pequena, monumental, grande volume principal.
Cor: clara, escura, tom pastel, análoga, fosca, brilhosa.

Novamente, é importante salientar que a 6 Resultados a partir do Con-


composição física a partir do Conceito Poético
precede a definição das técnicas construtivas e dos ceito Poético
materiais ao longo das etapas do projeto. A defini-
ção do caráter funcional e do programa de neces- A intenção desta reflexão sobre método de
sidades são posteriores ao desenvolvimento con- geração de ideias no ensino de projeto arquitetô-
ceitual, o que permite rever o funcionamento e a nico não pretende defender uma formação acadê-
necessidade do programa arquitetônico a partir mica com base na expressão artística pura. Nem
dos novos interesses definidos conceitualmente. mesmo, espera-se definir um perfil de estudantes
A aplicação deste método conceitual na disci- incapaz de se adequar à realidade profissional e
plina de projeto arquitetônico, com estudantes em pragmática, que requer decisões racionais e co-
fase inicial da graduação, favorece a compreensão nhecimento técnico. Buscamos com esta pesquisa
do pensamento fluído e da intuição devido a não refletir sobre a possibilidade do processo projetual
consolidação de outros métodos pautados mais no ser desenvolvido a partir da intuição, da memória
resultado formal do objeto arquitetônico do que inteligente e da análise sobre temas de interesse do/
no auxílio metodológico do pensamento conscien- da estudante, resgatando o valor da sua subjetivida-
te do/da estudante para a formalização (inevitável) de em processos conscientes de autoconhecimen-
de uma concepção singular. to, criatividade e visão crítica sobre os caminhos

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possíveis para se chegar aos resultados. Dentro da ambiental e a oratória na defesa de suas ideias.
experiência na aplicação deste método, acredita- Houveram apresentações utilizando instrumen-
mos ser possível exercitar a habilidade divergente tos como datashow, cartazes e imagens associa-
e validar sua relação com o pensamento conver- das ao Conceito Poético. Outras inovaram na
gente durante o desenvolvimento acadêmico do/a associação de objetos ao cenário do atelier, incor-
estudante, sem englobar, necessariamente, todos os porando sensações através de mensagens, per-
processos de aprendizado ao mesmo tempo. formances e no estímulo dos sentidos a partir do
Nesta experiência de aplicação do Conceito olfato e do paladar dos interlocutores, destacando
Poético, com a disciplina de Projeto Arquitetônico o uso de velas acessas entre os/as ouvintes, dis-
e Representação, na UFFS, percebemos diferenças tribuição de balas e formação circular do grupo
entre os trabalhos que incorporaram as diretrizes para configurar uma apresentação cênica.
conceituais na composição espacial, em compara- De maneira geral, as apresentações impri-
ção com aqueles que apenas cumpriram a etapa miram uma percepção de diversidade na maneira
inicial sem maior envolvimento com as considera- como os/as integrantes da turma desenvolveram
ções conceituais e subjetivas ao longo do processo. diferentes interpretações e formatos de expressão
Para muitos/as estudantes surgiram dificul- para temas e assuntos de interesses afins, estru-
dades em expor a reflexão pessoal sobre deter- turados pelo mesmo método e conteúdo discipli-
minado assunto durante as atividades do atelier. nar. Isso tornou o processo criativo “um fenôme-
Para contornar esta dificuldade alguns/mas estu- no social, fruto de ideias coletivas”, pois o fluxo
dantes se apegaram mais em aspectos utilitários de informação foi tão grande que houve “uma
da arquitetura, acrescentados nas etapas seguin- interação contínua de ideias e experiências, e não
tes, enquanto outros/as sentiram-se mais à vonta- se sabe mais de quem partiu” (KOWALTOWSKI,
de para representar o Conceito Poético nas defi- 2011, p. 27). Assim, houve possibilidade de cada
nições subsequentes do projeto, explorando suas indivíduo adquirir informações de outros e reela-
ideias e expressando maior envolvimento e arti- borar os conhecimentos em sua mente até chegar
culação durante a definição técnica da proposta. a uma nova visão de seu próprio conteúdo.
Todo o processo de acompanhamento dos A maior parte dos trabalhos entregues ao
trabalhos da turma contou com a participação longo destes dois semestres revelaram diferentes
aberta das alunas e dos alunos durante as orienta- graus de envolvimento dos/as estudantes com seus
ções. Este compartilhamento dos diferentes pro- conceitos, refletindo particularidades inquestioná-
cessos de geração de ideias a partir do conceito veis na interpretação temática que repercutiu em
tornou-se um fator de mediação em oportunizar reflexões dentro do próprio grupo no atelier. Uti-
diferentes profundidades do caráter simbólico da lizando imagens, recortes e os próprios elementos
proposta conceitual (OLIVEIRA, 1997). de composição conceitual, em sua maioria, os tra-
No resultado da etapa conceitual, os/as estu- balhos revelaram criatividade e cuidado na manei-
dantes apresentaram suas propostas para todo o ra como foram preparados [Figuras 3, 4 e 5].
grupo, reforçando a expressão pessoal, corporal,

Figura 3 - Entrega da etapa relativa ao Conceito Poético sobre o tema Fogo - Projeto 2/UFFS. Acervo do autor, 2012.

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Conceito Poético…

Figura 4 - Entrega da etapa relativa ao Conceito Poético so- Figura 5 - Entrega da etapa relativa ao Conceito Poético so-
bre o tema Mandala - Projeto 2/UFFS. Acervo do autor, 2012. bre o tema União - Projeto 2/UFFS. Acervo do autor, 2012.

As etapas seguintes para o desenvolvimento formações formais com a inserção das necessida-
do partido arquitetônico (proposta preliminar e des técnicas e funcionais, requeridas para o edifí-
anteprojeto) seguiram com a intenção de compor cio de função ecumênica [Figura 6].
o projeto a partir do conceito e promover trans-

Figura 6 - Croquis representando a proposta preliminar de lançamento do partido arquitetônico feita a partir do conceito
sobre Fogo - Projeto 2/UFFS. Acervo do autor, 2012.

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Alguns/mas estudantes demonstraram fa- ideias conceituais, com base nos dados levanta-
cilidade para sair do abstrato e configurar um dos para a definição do programa de necessidades
objeto a partir destes dados. Outros/as tiveram e nas relações com o ambiente (condicionado por
facilidade quando relacionaram o conceito com orientação solar, topografia, eixos visuais e refe-
referências figurativas. Durante todo o processo rências arquitetônicas). Enquanto os/as estudantes
de orientação, percebemos dificuldades para des- com perfil mais divergente demonstraram maior
vincular alguns destes valores simbólicos e abs- flexibilidade, tanto para rever e aprofundar ques-
tratos, já estabelecidos pelo tema, na configuração tões conceituais quanto na transformação fun-
de um novo significado para a ideia conceitual. cional do programa, construindo ambientes que
Por exemplo, na desvinculação do conceito a par- mantiveram seus desígnios conceituais, sem com-
tir da interpretação literal das características da prometer o funcionamento e os requisitos técnicos
“árvore” ou na nova significação de “harmonia”, da proposta [Figuras 7 e 8].
enquanto temas de origem. Durante os assessoramentos surgiram dife-
Ao longo das orientações foi possível acom- rentes graus de motivação, ansiedade e desinteres-
panhar este processo de transformação e perceber se dos/as acadêmicos/as diante da previsão das ati-
que os diferentes perfis de aprendizado demons- vidades operacionais de representação, resolução
tram suas características peculiares quando estão técnica e projetual. Estes aspectos são recorrentes
mais próximos de alcançar seus resultados. Como no contexto universitário e no comportamento
foi o caso dos/as estudantes com o perfil mais da geração atual de jovens, que busca definir sua
convergente, que transformaram completamente formação profissional em um mundo onde encon-
suas propostas nas etapas seguintes da geração de tram tantas possibilidades e concepções de vida.

Figura 7 - Zoneamento da proposta a partir do conceito sobre União - Projeto 2/UFFS. Acervo do autor, 2012.

Figura 8 - Implantação da proposta preliminar a partir do conceito sobre Equilíbrio - Projeto 2/UFFS. Acervo do autor, 2012.

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Conceito Poético…

Apesar da manifestação de falta de clareza já consolidadas ao projeto, sem explorar novas al-
inicial do método de geração de ideias no iní- ternativas em consagrar a arquitetura como arte.
cio das aulas, requerendo mais exemplos de sua Na ausência de métodos de trabalho, que
aplicação, os/as estudantes afirmaram ter com- colaboram para a consolidação de uma identi-
preendido a metodologia vinculada ao Conceito dade profissional, os/as estudantes tornam-se
Poético a partir do resultado alcançado na etapa alvo fácil na reprodução de concepções arquite-
posterior da geração de ideias, que se materializa tônicas e tecnológicas, previamente identificadas
no espaço da praça e do templo. Em resposta ao pelo mercado construtivo. Com a experiência de
questionário aplicado com 36 estudantes das duas acompanhar outras metodologias para a geração
turmas, quando questionados/as sobre terem gos- de ideias, percebemos que as escolhas projetuais
tado do resultado final dos trabalhos apresentados niilistas, com base nas informações e soluções já
pela disciplina, 81% disseram “sim”, consideran- consolidadas, resultam na ausência de profun-
do a diversidade dos resultados apresentados, en- didade discursiva para defender as ideias que
quanto 16% responderam “mais ou menos”, con- justificam os resultados projetuais. A tendência
siderando a falta de tempo ou a desvinculação de pela reprodução de formas e elementos arqui-
alguns projetos com as diretrizes projetuais, não tetônicos, combinando diferentes partes de um
havendo resposta “não” para esta pergunta. catálogo pré-definido, atende superficialmente às
Durante as aulas foi interessante observar exigências de conteúdo requeridas para a disci-
que os/as estudantes que estavam mais envolvi- plina, sem desenvolver diretrizes para as deman-
dos/as pela resolução conceitual, identificando das de valor simbólico na produção arquitetônica
sentimentos e significados para as suas ideias, de- (VIEIRA, 2009a).
monstraram maior satisfação pelos seus resulta- A falta de organização e discernimento dos
dos durante o processo, tanto na etapa do conceito processos no desenvolvimento das etapas do pro-
quanto no desenvolvimento da proposta arqui- jeto arquitetônico desestimula a criatividade,
tetônica, apresentada nas etapas seguintes. Isso para além da reprodução de valores técnicos e
possibilitou diferentes aprendizados na maneira econômicos, e desprestigia os diferentes perfis de
como enfrentaram seus desafios e definiram suas aprendizado. Principalmente, na etapa inicial de
escolhas, na busca pela etapa do processo com a desenvolvimento da proposta, quando o/a estu-
qual se identificaram ou na expectativa pelo re- dante está mais predisposto/a em articular seu re-
sultado final. pertório particular e subjetivo com os conteúdos
de formação curricular.
Por ser um método baseado no pensamento
7 Abertura para o Pensamento intuitivo e não linear, o planejamento estrutura-
Significativo do e a organização da disciplina favoreceram a
compreensão dos conteúdos pelos/as estudantes
Procurando estimular o juízo estético do/a e a recepção para os procedimentos mais subje-
estudante de arquitetura, este artigo discorre so- tivos e artísticos vinculados ao Conceito Poético.
bre o processo de ensino-aprendizado na disci- Inclusive, é a partir desta organização no desen-
plina de projeto arquitetônico e urbano a partir volvimento da disciplina que os/as estudantes pu-
das convenções estabelecidas para a padronização deram relacionar os elementos de representação
do pensamento acadêmico. Quando apontamos o (perspectiva, planta baixa, implantação com o
problema da formação do/a estudante de arquite- térreo e cortes gerais do terreno) com a legibilida-
tura sob a influência dos meios técnicos de edifica- de na comunicação das diferentes etapas (no uso
ção, não excluímos a importância do pensamento de croquis e desenho técnico) e no aprofunda-
convergente durante o processo de aprendizado e mento sobre os detalhes da proposta. Entretanto,
formação profissional. Até porque, a função intui- quando os/as estudantes demonstraram pouco
tiva não poderia obter êxito sem a função analíti- envolvimento pessoal no que diz respeito à toma-
ca nos processos de memorização inteligente (SI- da de decisões através de suas experiências parti-
QUEIRA, 2007). O problema surge, justamente, culares, observamos maior dificuldade em gerar
quando o pensamento unilateral e cômodo define ideias iniciais fora de uma abordagem racional e
escolhas padronizadas para incorporar soluções funcionalista.

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M. S. Vieira

A escolha deste procedimento não é rígida GIDDENS, Anthony. Sociologia. 4ª ed. Porto Alegre:
nem universal. A geração de ideias a partir do Artmed, 2005.
Conceito Poético pode ser adaptada entre dife- KIATAKE, Marly. Modelo de Suporte ao Projeto
rentes procedimentos metodológicos e perfis de Criativo em Arquitetura: uma aplicação da TRIZ
aprendizado. Por isso, o modelo torna-se aber- - teoria da solução inventiva de problemas.
to para a construção de um pensamento livre e Dissertação. Escola Politécnica da Universidade
particular, na concepção de uma arquitetura con- de São Paulo, São Paulo, 2004.
ceitual e que seja percebida entre diferentes per- KOWALTOWSKI, Doris C. C. K. BIANCHI, Giova-
cursos na formação do pensamento complexo que na. PETRECHE, João R. D. A Criatividade
envolve o projeto arquitetônico. no Processo de Projeto. In: KOWALTOWSKI,
Doris C. C. K. et al. O Processo de Projeto em
É fundamental que o processo de aprendiza-
Arquitetura. São Paulo: Oficina de Textos, 2011.
do em arquitetura e urbanismo considere tanto a
formação pessoal do/a estudante, enquanto cida- LYOTARD, Jean-François. A Condição Pós-Moderna.
Trad. Ricardo Corrêa Barbosa. 12ª ed. Rio de
dão/ã crítico/a e questionador/a (devido a sua in-
Janeiro: José Olympio, 2009.
serção como agente consciente pela organização e
transformação do espaço físico, social e cultural) MALARD, Maria Lucia. As Aparências em Arquite-
tura. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2006.
quanto a sua profissionalização, habilitando-o/a
através dos conhecimentos reflexivos e práticos OLIVA, Alberto. Anarquismo e Conhecimento. Rio de
sobre sua área de atuação. Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2005.
Espera-se que esta proposta auxilie na forma- OLIVEIRA, Martha Kohl de. Vygotsky: aprendizado
ção de arquitetos/as e urbanistas mais envolvidos/ e desenvolvimento - um processo sócio-históri-
as em suas reflexões e práticas profissionais. As- co. 4ª ed. São Paulo: Scipione, 1997.
sim, poderemos estabelecer novas referências no PANOFSKY, Erwin. Arquitetura Gótica e Escolástica.
valor da arquitetura como obra de arte, transfor- Trad. Wolf Hörnke. São Paulo: Martins Fontes
mando este perfil profissional na origem da inova- 1991, p. 1-43.
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Conceito Poético…

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M. S. Vieira

Poetic Concept: method of generating ideas in architecture

Abstract

This article presents the experience in application of Poetic Concept as an intuitive method to generate
ideas in the initial stage of the development of architectural design. Based on the low emphasis of ar-
tistic character applied to the teaching of architecture and urbanism, in the development of autonomy,
creativity and critical sense, this research reflects on generating significant ideas for development and
self-understanding of the student in the context of professional practice based on repeatable designs
for functionality and preconceptions of construction technologies. The intention of this publication is
to present the method of Poetic Concept as an alternative for poetic and intuitive learning for students
of architecture and urbanism in generating ideas with artistic value that precedes within the technical
and functional innovation of architectural projects and adjacent open areas. The application of this
method was part of the teaching-learning in two classes of Architectural Design in the second phase
of the Architecture and Urbanism of the Federal University of Fronteira Sul (UFFS) throughout the
second semester of 2012 and 2013. The project dealt with the topic ecumenical temple, locating this
equipment in two large public spaces, articulated with the design of open spaces. According to the
evaluation of classes, in the two semesters, the application of the method collaborated to order the
ideas and the process of rationalization of the final stages of design. This conceptual interpretation has
opened opportunities to students to develop a source for the aesthetic judgment in the interpretation
of the physical constraints and applying the compositional characteristics into a coherent architectural
discourse with the result.
Keywords: Method. Poetic Concept. Teaching of Architecture and Urbanism.

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