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Literatura e Ensino UNIDADE 03 AULA 09

INSTITUTO FEDERAL DE
EDUCAÇÃO, CIÊNCIA E TECNOLOGIA
PARAÍBA

Proposta de leitura de
conto de Moacyr Scliar
em sala de aula, a partir
do Método Recepcional

1 Objetivos de aprendizagem

„„ Reconhecer a eficácia da leitura literária na


escola a partir do Método Recepcional;
„„ Conhecer experiência vivenciada em sala de aula de
nível médio com a leitura de um conto de Moacyr
Scliar, a partir do Método Recepcional.
Proposta de leitura de conto de Moacyr Scliar em sala de aula, a partir do Método Recepcional

2 Começando a história

Caro estudante,

Já vimos em algumas passagens de nossas aulas que o ensino médio, sobretudo,


apresenta aspectos peculiares quanto à disciplina de Literatura, principalmente
porque, via de regra, é totalmente voltado para os programas de seleção de
ingresso no nível superior,
[...] sem apresentar, salvo raras exceções, assuntos que
abordem a questão da própria arte e da estética ou
que estabeleçam relações entre a literatura e as demais
manifestações artísticas [...] é que eles [os programas de
vestibular e, agora, o Enem] refletem a própria precariedade
do estudo da literatura e as dificuldades dela consolidar-se
como disciplina no currículo escolar. (BITTENCOURT, 1997,
p. 262-3).

Isso resulta em desestímulo e na progressão assustadora do número de crianças


e jovens cada vez mais distanciados da leitura de literatura. Em se tratando da
literatura contemporânea, esse quadro se agrava ainda mais, haja vista a dificuldade
que os próprios professores apresentam em trabalhar com um “programa” que
sequer consta nos manuais didáticos, dificuldade essa reiterada na retirada, do
programa do vestibular da UFPB, 2004, dos contos de Moacyr Scliar e, como de
certa forma já se esperava, na ausência completa de questões que versassem
sobre os referidos contos.

Por essa e outras razões, apresentamos uma leitura de um dos contos de Moacyr
Scliar realizada com alunos do 3° ano do ensino médio. Essa leitura adotou como
“orientação” o Método Recepcional, que foca, antes de qualquer coisa, o ponto
de vista do leitor acerca do texto literário, numa atitude pouco utilizada nas salas
de aula brasileiras, pois, como vimos na aula 7, o que tem prevalecido, inclusive
nas orientações dos livros didáticos, é o ensino de Literatura pelo historicismo.
Vejamos o que diz Vera Aguiar (1988) sobre esse assunto:
Via de regra, os estudos literários nela [na tradição] tem se
dedicado à exploração de textos e de sua contextualização
espaço-temporal, num eixo positivista. O relativismo
de interpretação e, portanto, de leitura não é tópico de
consideração no âmbito acadêmico, o que se explica pela
tendência ao autoritarismo da própria cultura brasileira, que
endeusa seus expoentes, temerosa de expô-los à crítica.
(AGUIAR, 1988, p. 81).

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Diante dessa realidade, viemo-nos questionando sobre quais saídas propor para
a leitura da literatura brasileira contemporânea. Veremos, portanto, nessa aula,
uma experiência de leitura em sala de aula, a partir do Método Recepcional,
que demonstrou bastante eficácia, conforme poderemos constatar, inclusive
pelas reações dos alunos.

3 Tecendo conhecimento

Para investigar a receptividade dos alunos quanto à Literatura brasileira


contemporânea, mais especificamente do conto de Moacyr Scliar, adotamos
como campo de pesquisa a escola da rede privada Academia de Comércio
Epitácio Pessoa, localizada no centro da cidade de João Pessoa. Trata-se de uma
escola de ensino fundamental e médio, cujos alunos, em sua maioria, são filhos
de funcionários públicos estaduais e municipais e, portanto, sem muito poder
aquisitivo para, por exemplo, adquirir livros de literatura.

A aula, com duração de 90 minutos (correspondente a duas horas/aula), foi


ministrada na turma do 3° ano, do turno vespertino, que contava com nove
alunos apenas, todos almejando entrar na universidade pública, em cursos como
Direito, Nutrição e Engenharia.

3.1 Método Recepcional

O Método Recepcional representa uma inovação no ensino de Literatura, uma vez


que traz para o foco da questão a posição do leitor (no caso, o estudante) frente
ao texto lido. Noutras palavras, a partir desse método de ensino, priorizam-se as
opiniões, impressões do estudante no ato da leitura para, a partir daí, realizarem-se
o diálogo e o debate com o professor.

Faremos uma descrição de cada uma das etapas Figura 1


que constituem o Método Recepcional ao mesmo
tempo em que exemplificaremos com o relato
de uma vivência, qual seja: a leitura do conto
“A galinha dos ovos de ouro: perfil enquanto
moribunda”, de Moacyr Scliar, junto a uma turma
de 3º ano do ensino médio.

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Proposta de leitura de conto de Moacyr Scliar em sala de aula, a partir do Método Recepcional

3.2 Etapas do Método Recepcional

3.2.1 Determinação do horizonte de expectativas

O papel do professor, nessa etapa, pode ser o de procurar incentivar a leitura,


falando, por exemplo, do autor, da sua importância para a Literatura brasileira,
dos contos, principalmente da atualidade dos contos e da linguagem utilizada.

Como se tratava de uma obra “cobrada” no programa do vestibular, essa etapa


fica um tanto comprometida porque os alunos já se encontravam na “obrigação”
de ler e entender a obra, melhor dizendo, os resumos dos contos, que é o que
mais temos visto nas escolas de ensino médio, principalmente nos cursinhos,
inclusive com propagandas televisivas, conforme depoimento de um dos alunos:

ALUNO 1:

Os professores só levam a gente pra decoreba. Por isso que


não gostamos de ler literatura e é por isso que a literatura
tá sendo deixada de lado. Ninguém agüenta mais esse
decoreba. A gente não é levado a entender o que o autor
realmente disse, simplesmente lê o resumo e pronto. Ou
seja, a literatura não tem importância nenhuma. Você vê
nas propagandas da tv hoje em dia: “resumo de todas as
obras”. Pronto já tá induzindo você a não ler.

Como já se tratava de uma leitura pré-determinada, “obrigatória”, procuramos


minimizar o “mal estar” lendo o conto “A galinha dos ovos de ouro: perfil enquanto
moribunda”, de Moacyr Scliar, em sala de aula, contando com a participação de
todos os alunos na leitura.

Acreditando nessa possibilidade, iniciamos a aula perguntando, por exemplo,


se algum aluno conhecia o autor, alguma obra, etc. A reação foi imediata:

ALUNA 2:

Nunca nem ouvi falar nesse escritor.

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Questionando os demais, concluimos que, de fato, ninguém havia lido Moacyr Scliar.
No entanto, imediatamente, os alunos começaram a questionar e questionar-se
sobre os contos de Lygia Fagundes Telles, que constavam no programa do
vestibular daquele ano (2005) da UFPB e, antes mesmo de iniciarem a leitura do
conto de Scliar, foram logo expondo as dificuldades para entender Lygia, devido
ao “seu caráter muito simbólico”, conforme expressa o aluno:

ALUNO 1:

Tem muito simbolismo na literatura de Lygia. Os contos


são muitos difíceis.

ALUNA 2:

Acho que quando contextualizamos as obras fica mais


fácil. Quando a gente estuda Romantismo, por exemplo,
a gente tem que entender o contexto histórico, não é?
O problema é que os contos de Lygia são muito difíceis
mesmo. Parece que não dá muito pra ver o contexto ou
então é o professor que não sabe dar.

Apresentamos, então, um pouco da vida e da obra de Moacyr Scliar e iniciamos


a leitura do conto.

3.2.2 Atendimento do horizonte de expectativas

Nessa etapa, lemos o conto em sala, em voz alta e, com base no que os alunos
disseram anteriormente, questionamos sobre, primeiramente, o gosto pessoal
dos alunos, que ora reagiam com risos, ora com indignação, ou seja, de acordo
com as ações dos personagens e com cada um dos personagens. No ato da
leitura, percebemos, claramente, a tomada de partido por alguns alunos, quase
sempre em solidariedade à galinha e, quando era de indignação ao personagem
Ramão, era de pura zombaria e desprezo.

Como podemos constatar no depoimento que segue, os alunos receberam bem


o conto, dizendo, em sua maioria, que gostaram muito e que não encontraram
dificuldades para entendê-lo, muito pelo contrário.
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Proposta de leitura de conto de Moacyr Scliar em sala de aula, a partir do Método Recepcional

ALUNA 3:

É muito legal esse conto. Se toda a obra desse autor for


assim, com essa linguagem, que ótimo! Gostei muito.

Depois de um certo tempo em silêncio, instigamos nos alunos, apontando como


necessidade deles mesmos, a contextualização do conto.

Levantamos um questionamento quanto ao fato de a literatura não ser diretamente


retrato da sociedade, mas representação num sentido aristotélico, ou seja, num
processo criativo, o escritor imita a realidade, pois a resgata nos moldes em que
ela se apresenta, mas através de um processo criativo: criando personagens,
cenários, tempo e espaço narrativos e uma voz (o narrador) particular para narrar
a história, adotando este ou aquele ponto de vista.

3.2.3 Ruptura do horizonte de expectativas

Como continuidade das questões levantadas na etapa anterior, trouxemos à


discussão a fábula homônima de Esopo, inclusive porque foram enfocados
pelos alunos justamente o final do conto e a sua relação com a fábula que traz,
inclusive, uma moral: “quem tudo quer, tudo perde”.

Dessa forma, analisamos, juntos, os aspectos que o conto de Scliar apresenta


como tradicionais e como emancipatórios. Para os alunos, as duas narrativas
apresentam a mesma moral. A diferença é que, no conto de Scliar, e então
destacamos o aspecto emancipatório do conto, a ganância do personagem
Ramão não é, exatamente, ficar rico. Para isso, bastaria manter consigo os ovos
de ouro. Além do mais, ele possuía também o excelente galo de briga, Torpedo,
que lhe rendia certa fortuna. A ganância de Ramão é muito mais de vaidade, para
vencer no jogo o adversário Amâncio, cujo nome, segundo os próprios alunos,
já alude ao perfil psicológico desse personagem:

ALUNO 5:

Amâncio lembra gente mansa. Ramão parece querer dizer


que quer ter tudo à mão, não exatamente o dinheiro, mas
o poder de ser vencedor num jogo de cartas.

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Levantamos questionamento sobre o título e subtítulo do conto: “A galinha


dos ovos de ouro: perfil enquanto moribunda”. Na análise dos alunos, o conto
apresenta o perfil moribundo da galinha, justamente para representar a situação
da mulher moderna que sofre certas violências, dentro e fora de casa, mas, mais
especificamente, as violências domésticas.

ALUNA 2:

A galinha mostra uma grande submissão e se sujeita a


todo tipo de violência, chegando até a morte.

ALUNO 1:

É... Mas é exatamente na hora da morte que ela consegue


o que mais queria durante toda a vida: cantar. Consegue
até fazer o Ramão chorar, mas não adianta de nada. Ele é
bicho ruim mesmo, muito ignorante.

Podemos dizer, portanto, que, em relação à obra que intertextualiza, Scliar


apresenta vários aspectos emancipatórios, dentre eles o da própria moral, já que,
para o personagem Ramão, não foi ele que perdeu em ter matado a galinha e
Torpedo, mas o próprio Amâncio:
O chacareiro se põe de pé. De súbito, põe-se a rir.
– Era igual a todas, a galinha! Era igual a todas, Amâncio!
Apanha o facão.
– Azar o teu, Amâncio! Azar o teu! (SCLIAR, 2003, p. 31).

Num sentido mais superficial, o conto de Scliar rompeu com o horizonte de


expectativas dos alunos quanto aos contos lidos anteriormente de Lygia Fagundes
Telles. Mas, nesse sentido, arriscamos dizer que a rejeição pelos contos de Lygia
se deve, sobretudo, a um problema de metodologia do ensino da Literatura,
que envolve inclusive a leitura prévia realizada pelo próprio professor. Como
afirma Marisa Lajolo:
O primeiro requisito, portanto, para que o contato aluno/
texto seja o menos doloroso possível é que o mestre não
seja um mau leitor. Que goste de ler e pratique a leitura. [...]
assim como um bom leitor pode atenuar a carga negativa
de um mau texto, um bom texto pode ser prejudicado por
um mau leitor. (LAJOLO, 1982, p. 54-5).

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Proposta de leitura de conto de Moacyr Scliar em sala de aula, a partir do Método Recepcional

Não se trata aqui, com essa referência a Lajolo, fazer juízo de valor da obra de
Lygia Fagundes Telles. Pelo contrário, estamos possivelmente diante de um
problema de leitura do próprio professor, considerando a fala dos alunos que
enfatiza a ideia de que não estão gostando dos contos de Lygia talvez pelo fato
de o “professor não saber dar”, que podemos perfeitamente traduzir como “não
saber ler” ou, pelo menos, “estar lendo mal”.

3.2.4 Questionamento do horizonte de expectativas


Este é o momento de os alunos verificarem que conhecimentos
escolares ou vivências pessoais, em qualquer nível, do
religioso ao político, proporcionaram a eles facilidade de
entendimento do texto e/ou abriram-lhes caminhos para
atacar os problemas encontrados. (AGUIAR, 1988, p. 90).

Após a leitura do conto e sua respectiva análise-interpretação pelos alunos,


pedimos a eles que formassem grupos, para formularem questões sobre o conto,
questões essas que versassem sobre diversos aspectos do conto, fossem eles
estilísticos, contextuais e da própria narrativa.

No momento em que propusemos isso aos alunos, começaram a questionar o


porquê de os contos de Scliar não terem sido contemplados no vestibular, já que
faziam parte do programa. Percebendo que isso gerou um certo desestímulo
nos alunos quanto ao programa, sugerimos, então, a elaboração das questões
enquanto continuava a discussão, resultando na seguinte produção:

QUESTÃO 1:

Qual é a figura de linguagem que faz a relação do ovo de ouro com o


ovo normal, que faz referência à vida e à felicidade?
a) Antítese
b) Paradoxo
c) Prosopopéia
d) Hipérbole
e) Personificação

QUESTÃO 2:
De acordo com o enredo, qual deveria ser o final da história?

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QUESTÃO 3:
Encontre elementos no texto que permitem fazer uma relação entre o
conto e uma tragédia grega.

QUESTÃO 4:
O que deu a entender quando Amâncio deu até meia-noite para
Ramão trazer outro ovo?

QUESTÃO 5:
Por qual motivo a galinha desejava cantar bem?

Com exceção da primeira e da terceira questões, mais voltadas para os elementos


da narrativa, percebe-se que o “questionamento do horizonte de expectativas”
ficou muito aquém do que sugere uma leitura mais atenta do conto. Sugerimos,
portanto, que debatêssemos mais essas questões levantadas a partir dessa
leitura, já que a leitura havia ficado, ainda, num nível superficial. Para promover
esse debate, mostramos aos alunos as características que Regina Zilberman
(SCLIAR, 2003, p. 7-9) aponta na obra de Scliar, na tentativa de identificá-las no
conto em estudo:
ūū Preferência por personagens carentes de
identificação – tipos genéricos;
ūū Preferência pelo insólito;
ūū Parábolas da sociedade contemporânea;
ūū Crueldade e violência;
ūū Desejo e dominação do outro superpõem ao
amor, à amizade, ao respeito e ao equilíbrio.
Os alunos, por sua vez, identificaram todas as características no conto estudado,
questionando-se sobre a Literatura, seus conceitos e funções na sociedade.

ALUNO 5:

Xiii professora! Depende muito da literatura. Por exemplo,


o Concretismo não diz nada.

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ALUNO 1:

Diz sim. Aquele poema “Beba coca” é uma forte crítica ao


capitalismo e ao consumismo.

ALUNA 6:

Não. Pra mim não. Esse tipo de literatura aqui [Moacyr


Scliar] é aceitável, mas o Concretismo não. Aquilo não tem
nada a ver. Tem alguma coisa ali professora? A literatura
pra mim não tem nenhum significado.

Nessa etapa da aula, percebemos, portanto, que os alunos questionaram diversos


aspectos da Literatura como um todo, assim como se autoquestionaram na
qualidade de leitores e alunos que estavam prestes a enfrentar o vestibular e a
prova de Literatura. Procuramos interferir nesse autoquestionamento, apontando
alguns aspectos do ensino da Literatura, como:
ūū Já que vocês destacam a necessidade de
contextualizar a Literatura, o que vocês nos falam
do contexto (re)apresentado no conto?
ūū Quanto ao subtítulo “perfil enquanto
moribunda?”, o que vocês dizem?
ūū Silêncio...
ūū E se pensarmos enquanto representação da mulher...
O aluno 1 respondeu:

Quando Ramão deu cinco minutos à galinha, ela começou


a cantar, coisa que ela sempre havia tentado e não tinha
conseguido, ficava sempre naquela peleja. Quando a
galinha percebeu que o amado tinha lhe dado apenas
um certo tempo de vida e que não gostava dela aí foi
que ela começou a cantar bonito, ela evoluiu, criou uma
outra percepção do amor.

Percebemos, nesse momento, que iniciamos, com esse depoimento, a última


etapa do Método Recepcional, conforme será relatado a seguir.

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3.2.5 Ampliação do horizonte de expectativas


[...] os alunos, nessa fase, tomam consciência das alterações e
aquisições, obtidas através da experiência com a literatura. [...]
com o aprimoramento da leitura numa percepção estética e
ideológica, mas aguda e com a visão crítica sobre sua atuação
e a de seu grupo, o aluno torna-se agente de aprendizagem,
determinando ele mesmo a continuidade do processo,
num constante enriquecimento cultural e social. (AGUIAR,
1988, p. 91).

Ao relacionar o conto com fatos sociais, os alunos ampliam o horizonte de


expectativas no sentido de se perceberem, também, representados nesse
conto, através de seus personagens, dos temas da dominação, da ambição, do
insólito, da crueldade e da violência, como bem pontua Regina Zilbermam, no
prefácio do livro.

Mas como o enfoque entre os alunos é o vestibular, e parece-nos quase inevitável


não tocar nesse assunto em se tratando do ensino médio, consideramos como
ponto positivo e, portanto, de reiteração dessa etapa do Método Recepcional
um incansável, por parte dos alunos, questionar sobre, inclusive, o vestibular,
conforme podemos constatar nos seguintes depoimentos:

ALUNA 2:

Eu penso numa questão relacionando o conto com a


atualidade, com a sociedade contemporânea.

ALUNO 1:

Questões que fizessem com que o aluno tivesse uma visão


mais ampla e que não ficasse só na superficialidade. É por
isso que os professores só querem saber de resumo. Muitas
vezes o aluno nem lê a obra. Faz a prova só pelo resumo.

ALUNA 2:

Questões que obriguem a pessoa a realmente fazer a


leitura da obra.

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ALUNA 3:

O problema, eu acho, não é o que vem no vestibular,


mas o que tá sendo dado na escola ou a forma como tá
sendo dado.

E, para encerrar a aula, lemos uma análise-interpretação do conto, previamente


realizada, e que dá destaque, dentre outros aspectos, à intertextualidade. Essa
análise poderá ser encontrada na plataforma.

Em se tratando de Literatura contemporânea, percebemos, com essa pequena


amostra, vale salientar, que a dificuldade não está nos textos escolhidos, seja
para compor os programas do vestibular, seja pelos próprios professores, mas
na forma, ou melhor, na metodologia adotada por certos professores que se
prendem aos livros didáticos e, como estes quase não contemplam a Literatura
contemporânea, ficam limitados, como podemos constatar no depoimento do
professor X:
Os alunos não aceitam, de forma alguma, os contos de Lygia.
Também pudera, o título do livro é “Oito contos de amor” e
os contos falam de tudo menos de relação amorosa entre
casais, ou seja, de romances e namoricos. Como podem
querer que os alunos leiam? Os contos são muito chatos.
Não consigo trabalhá-los em sala de aula, até porque pelo
visto não tem nada sobre eles. Cadê a lista de exercícios?

Diante dessa problemática, cabe a nós buscarmos alternativas que possam


envolver mais nossos jovens e crianças com a leitura de textos literários, de forma
que eles possam se sentir sujeitos dessa leitura e do mundo nela representado.

Exercitando

Escolha um conto de sua preferência e elabore uma sequência didática sob a


perspectiva do Método Recepcional, em que se contemple as cinco etapas.

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4 Aprofundando seu conhecimento

Figura 2
Para aprofundar o seu conhecimento acerca do Método
Recepcional, leia na íntegra o livro indicado ao lado, no
qual você encontrará, além do método aqui apresentado
e discutido em forma de exemplo de atividade, algumas
outras alternativas como: Método Científico, Método
Criativo, Método Comunicacional e Método Semiológico.

5 Trocando em miúdos

Nesta aula, detivemo-nos a apresentar uma experiência de leitura de conto em


sala de aula de nível médio, a partir do Método Recepcional. Trata-se, portanto,
de uma aula-relato em que se pode constatar, inclusive pelos depoimentos dos
sujeitos envolvidos na experiência, a eficácia do Método Recepcional, que se divide
em cinco etapas: Determinação do horizonte de expectativas; Atendimento do
horizonte de expectativas; Ruptura do horizonte de expectativas; Questionamento
do horizonte de expectativas; Ampliação do horizonte de expectativas.

6 Autoavaliando

Após tantas discussões discorridas nesse componente curricular – Literatura e


Ensino – sobre a importância da leitura integral de obras literárias, não ficando,
tão somente, no que oferecem os livros didáticos, o ensino por meio de uma
perspectiva exclusivamente historicista etc., e considerando a proposta aqui
apresentada, baseada no Método Recepcional, procure refletir sobre as seguintes
questões: convenci-me de que, nas aulas de Literatura, é essencial e imprescindível
que, acima de tudo, leiam-se os textos literários, deixando para um trabalho
a posteriori os demais assuntos relacionados, como o contexto histórico, por
exemplo? É possível relacionar algum aspecto do Método Recepcional ao que
Paulo Freire preconizou sobre “Conhecimento de mundo”?

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Referências

AGUIAR, Vera Teixeira de & BORDINI, Maria da Glória. Literatura: a formação do


leitor: alternativas metodológicas. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1988.

ARISTÓTELES. Ética e Nicômaco; Poética. In: Os Pensadores. Seleção de textos


de José Américo Motta Pessanha. 4. ed. São Paulo: Nova Cultural, 1991, p. 197-
229, v. 2.

BITTENCOURT, Gilde Neves da Silva. O ensino da literatura no 2° Grau: a ótica do


professor e do aluno. In: Gragoatá. Niterói: [s.e.], 1997. p. 259-275.

FREIRE, Paulo. A Importância do Ato de Ler: em três artigos que se completam.


22. ed. São Paulo: Cortez, 1988.

GARCÍA CANCLINI, Néstor. La modernidad después de la posmodernidad. In:


BELLUZZO, Ana Maria de Moraes (Org.). Modernidade: Vanguardas artísticas
na América Latina. São Paulo: Memorial: UNESP, 1990, p. 201-237.

LAJOLO, Marisa. O texto não é pretexto. In: ZILBERMAN, Regina (Org.). A produção
cultural para a criança. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1982. p. 52-62.

SANT’ANNA, Affonso Romano. Paródia, paráfrase & cia. 4. ed. São Paulo:
Ática, 1991.

SCLIAR, Moacyr. Os melhores contos de Moacyr Scliar: seleção de Regina


Zilberman. 6. ed. São Paulo: Global, 2003. (Os melhores contos).