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REVISTA CIENTÍFICA A BARRIGUDA

SOCIEDADE, DIREITO E RISCO NO PENSAMENTO JURÍDICO-


FILOSÓFICO DE RAFFAELE DE GIORGI

João Paulo Ribeiro de Souza1

RESUMO
Segundo De Giorgi a sociedade é definida por três elementos básicos que procuram
legitimar a concepção de sociedade concebida em cada época, que são: a verdade, os
valores e a segurança. A compreensão de mundo que cada uma destas criará depende da
comunicação estabelecida entre os sujeitos sociais, pois como postula De Giorgi, as
relações sociais só existem através da comunicação empreendida na solução de
divergências. Sua teoria apresenta um conceito de sociedade nos moldes da teoria
sistêmica, como sendo um grande sistema no qual podemos encontrar outros
subsistemas constituídos pelo homem e pelo direito. Defende ainda que, a sociedade
subsiste em cima do homem, sem o qual é impossível pensar em sociedade no universo
da comunicação social. Nesse contexto, buscamos compreender o Direito como receptor
dos fatos sociais que os processa e cria soluções para tirá-los do âmbito da sociedade
resguardando-a dos riscos. Esse procedimento é caracterizado pela autorreferência, a
reprodução autopoiética e o fechamento operacional, todos funcionando como se
fossem uma engrenagem de uma máquina para regular as relações carregadas de valores
coletivos e individuais. Para De Giorgi esse sistema não se sustenta diante da
complexidade social, pois não consegue operar funcionalmente fechado, pois se assim o
fosse implodiria. Assevera ainda que o Direito se apresenta como sendo os casos
sociais jurídicos sobre os quais se procede a uma compreensão para determinar qual
norma se aplica melhor aquele caso concreto. Ou seja, o Direito não é o regulador da
sociedade, mas sim os fatos sociais que determina qual é o Direito, constituindo-se

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Bacharelando em Direito pelo Centro de Humanidades da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB). E-
mail: Joao_Paulo.83@hotmail.com
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assim numa ferramenta importantíssima nessa sociedade complexa para poder dizer aos
fatos sociais, estabelecidos através da comunicação, quem detém o Direito.

Palavras-Chave: Sociedade; Direito; Risco; Comunicação.

1. INTRODUÇÃO

Raffaele De Giorgi (Vernole, 01 de setembro de 1947) é um filósofo e sociólogo


italiano. Ele ensina Filosofia do Direito na Faculdade de Direito da Universidade de
Salento e lecionou Metodologia das Ciências Sociais na Universidade de Lecce, em que
é Diretor do "Centro di Studi Sul Rischio", fundado em parceria com Niklas Luhmann
na Universidade de Lecce. No presente, ele é reitor da Universidade de Salento (Itália) e
da Faculdade de Direito. É um dos maiores estudiosos da teoria dos sistemas sociais
italianos.
Em 1971 se formou com honras em filosofia na Universidade de Roma,
discutindo uma tese sobre as “Perspectivas da lógica jurídica: lógica deôntica”. Depois
de conduzir estudos e pesquisas em várias universidades europeias, foi professor no
Max-Planck-Institute für Europäische Rechtsgeschichte (Max Planck Society). Foi
pesquisador do Institut für Rechts und Sozialphilosophie da Universidade de
Saarbrücken. Professor Titular em 1980, ele lecionou em Bolonha, Nápoles e Salerno.
Durante o ano acadêmico 1983-1984, ele foi Professor nas Universidades de
Münster e Bielefeld. Estudante de Niklas Luhmann estudou e trabalhou com ele até
1998, com quem co-escreveu a "Teoria da Sociedade". Ultimamente tem se dedicado a
ministrar palestras, cursos de Doutorado, conferências e seminários em várias
universidades na Alemanha, Reino Unido, Espanha, Grécia, Brasil, Argentina, México.
Desde 2001 ele tem sido professor-visitante do Max-Planck-Institut für Europäische
Rechtsgeschichte em Frankfurt e é membro da Rede Internacional de Pesquisa sobre
"Evolução Rechtsgeschichte sozialen Sistemas als eines". Realiza diversos estudos e

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seminários na América do Sul, recebe uma Cátedra na Universidade Nacional de


Exelcia Autonoma de Mexico City.
Entre seus trabalhos incluem-se: Ciência do Direito e legitimidade (Bari, 1979);
Materiais para uma teoria sociológica do Direito (Bolonha, 1981); Ação e imputação
(Lecce, 1984); (con N.Luhmann), Teoria della società, Angeli Milano 1991 (11ª ed.
2003), pp. 401; Direito, Democrazia e Risco. Vinculos com o futuro, C. A. Fabris Porto
Alegre (Brasil) 1998, pp. 263; (con S. Magnolo), Mondi della società del mondo, Pensa
MultiMedia Lecce 2005, pp. 191; Direito, Tempo e Memória (edizione brasiliana a
cura e con saggi introduttivi di C. Fernandez Campilongo e G. Leite Gonçalvez),
Quartier Latin São Paulo 2006, pp. 256; O risco na sociedade contemporânea,
«Seqüência 21 anos», 15 (1994), 28, pp. 45-54; Evolução e futuro do direito penal nas
sociedades complexas, Revista do Istituto Brasileiro de Ciências Criminais (in corso di
stampa); entre tantos outros artigos.
Os estudos de De Giorgi sempre se concentraram nas áreas de Filosofia e
Sociologia aplicada ao Direito. Em suas pesquisas na Alemanha teve os primeiros
contatos com Niklas Luhmann, este posteriormente seria seu grande mestre exercendo
forte influência na construção de um novo pensamento sobre a sociedade moderna, tida
como complexa e caracterizada pela incerteza e insegurança.
Niklas Luhmann (Lüneburg, 8 de dezembro de 1927 — Oerlinghausen, 6 de
novembro de 1998) foi um sociólogo alemão, sendo hoje considerado, juntamente com
Jürgen Habermas, um dos mais importantes representantes da Sociologia alemã atual.
Luhmann dedicou-se durante muito tempo ao estudo da Sociologia de Talcott Parsons,
teórico que nos anos 1960 desenvolveu a teoria do Funcionalismo a partir das ideias de
Max Weber, Vilfredo Pareto e Émile Durkheim, através da qual criou a "teoria da ação
baseada na suposição de que a ação humana é voluntária, intencional e simbólica”,
assim passou a postular que os sistemas relevantes tratados na ciência social e
comportamental eram "abertos", significando que eles estariam embutidos em um
ambiente consistido de outros sistemas. O maior sistema é o "sistema da ação",

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consistindo em comportamentos humanos inter-relacionados, embutidos em um


ambiente físico-orgânico.
A partir da análise da teoria de Parsons, Luhmann criou a Teoria dos Sistemas
sociais em que defende que a sociedade é constituída de vários subsistemas como o
direito, a politica e a economia. Como discípulo De Giorgi seguiu os passos do mestre
direcionando suas pesquisas para a busca da compreensão dos sistemas sociais através
da análise da sociedade, do direito e da teoria do risco.

2. A CONSTRUÇÃO DO CONCEITO DE SOCIEDADE

A preocupação apresentada por Raffaele de Giorgi em buscar compreender a


sociedade advém da influência do seu mestre Niklas Luhmann, esse último criador da
Teoria do Sistema Social. Segundo essa teoria a sociedade seria um grande sistema no
interior do qual as outras relações sociais se operam e se reconstroem a partir de seus
próprios elementos (autopoiesis). Com essa perspectiva buscava evidenciar que o
direito possui mecanismos de auto-organização produzidos pela própria sociedade,
assim:

sua autorreferência permite que o direito mude a sociedade e se altere ao


mesmo tempo movendo-se com base em seu código binário (direito/não-
direito). Tal característica permite a construção de um sistema jurídico
dinâmico mais adequado à hipercomplexidade da sociedade atual
(TRINDADE, 2008, P. 105).

O modelo de sociedade herdada da revolução Iluminista apresenta os primeiros


sinais de um novo padrão social marcado pela dissolução de várias classes sociais a
exigirem do Estado demandas pioneiras para atender suas necessidades. A mudança
operada no sistema social refletiu em novas exigências para o sistema jurídico que
necessitava adequar-se para atender os interesses das relações interpessoais. As
singularidades da emergente sociedade pautavam-se na mudança, nas relações instáveis,

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na busca do progresso, na conquista de direitos, na liberdade econômica, no


individualismo e quebra dos dogmas religiosos.
O conceito abstrato de homem demonstrava-se superado, emergia a figura do
indivíduo ligado aos grupos sociais que se sentiam integrados por possuírem
características semelhantes. Toda essa transformação carecia de novos paradigmas que
entendessem e explicasse essa nova conjuntura. Impulsionados e ávidos por esse
objetivo é que Filósofos e Sociólogos como Talcott Parsons, Luhmann e Raffaele de
Giorgi empreenderam suas pesquisas. A citação apenas desses três explicasse por ser o
foco deste trabalho.
Seguindo os ensinamentos do mestre, De Giorgi apresenta uma concepção de
sociedade nos moldes da teoria sistêmica, como sendo um grande sistema no qual
podemos encontrar outros subsistemas constituídos pelo homem e pelo direito.
“Conforme a teoria luhmanniana a sociedade é um sistema social que se auto reproduz
por comunicações, onde existem subsistemas sociais tais como o jurídico, o econômico,
o político, o religioso, o artístico e o científico” (BARICHELLO e GARCIA, s/d, s/p).
Esses subsistemas devem funcionar num equilíbrio mútuo para que um não
interfira na atividade do outro, pois pode provocar o caos. Defende ainda que, a
sociedade subsiste em cima das relações humanas, sem as quais seria impossível pensar
em sociedade no universo da comunicação social. No entanto, a figura do homem é
apenas uma pequena parte do todo que compõem o Sistema Social, em suas ações
individuais os homens são pouco relevantes.
Essa ideia se fundamenta na concepção sistêmica em que a sociedade é um
sistema maior integrado pelos subsistemas menores responsáveis pela auto-organização
sistema/meio. “A função principal dos sistemas sociais é a de reduzir a complexidade do
mundo de tal maneira que ela possa ser entendida pelas pessoas ou sistemas psíquicos”
(BARICHELLO e GARCIA, s/d, s/p).
No entanto, afirma que a vida é algo imanente ao homem, mas não à sociedade.
A sociedade é um universo que se move e opera sem que o homem esteja dentro dele,
essa afirmação pode parecer contraditória, porém o ele quis dizer é que a sociedade
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seguirá seu fluxo natural sem que as ações do homem individualmente – desde que não
cause um fato reprovável pela sociedade - possam alterá-la, essas ações só terão
consequências se produzidas pelos subsistemas. O homem está preso a certas
influências como o amor, a dor, a paixão; a sociedade não se prende a esses conceitos
abstratos. Por isso, enfatiza que falar de crise da sociedade é um pensamento nulo e
impreciso, pois não é a sociedade que está em crise, mas sim o homem.
Segundo De Giorgi a sociedade é definida por três elementos básicos que
procuram legitimar a concepção de sociedade concebida em cada época, que são: a
verdade, os valores e a segurança. A concepção de mundo que cada uma destas criará
depende da comunicação estabelecida entre os sujeitos sociais, sendo que, as relações
sociais só existem através da comunicação empreendida na solução de divergências,
quando se chega a um consenso cessa a comunicação e consequentemente a relação
social.
A comunicação mal formatada gera divergências em que o Direito absorve as
diligências sociais e processa a solução da demanda. As pilhas de processos encalhadas
nas gavetas dos Tribunais de Justiça a espera de uma decisão são típicos exemplos de
comunicações más formatadas, pois quando os indivíduos não conseguem atingir um
nível mínimo de consenso entre si acabam resolvendo por outros meios, que geralmente
ocasionam a transgressão do subsistema jurídico demandando uma ação capaz de
restabelecer a ordem e imunizar a sociedade.
Outro elemento importantíssimo para De Giorgi é a comunicação. Sem ela não
há sociedade. Segundo ele, nos diálogos que estabelecemos com outras pessoas sempre
criamos um terceiro incluso que está excluso, o terceiro é excluso no momento em que a
outra pessoa me comunica, ele sai processa as informações e formata uma nova
comunicação voltando a ser incluído para que o diálogo continue. Isso ocorre por que
sempre visualizamos o outro como algo estranho, diverso, diferente, dessa forma
quando não conhecemos o outro a comunicação é prejudicada, porém o outro é
essencial na comunicação sem o qual não poderíamos comunicar.

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Ainda de acordo com sua concepção, se não possuíssemos um grande espaço de


impenetrabilidade não poderíamos comunicar, se o nosso pensamento fosse algo
transparente o outro já saberia o quê estava pensando, assim cessaria a comunicação.
Comunicamo-nos por que falo de algo desconhecido e o outro acredita ter
compreendido; em seguida o outro formula um novo pensamento e me comunica, eu
acredito também ter compreendido, iniciando-se o processo de compreensão. A função
da compreensão é abrir continuamente o espaço da impenetrabilidade para ocorrer à
possibilidade de criar um consenso.

3. DIREITO E A REPRODUÇÃO AUTOPOIÉTICA

De Giorgi propõe que na relação dos sistemas com o Direito deve haver um
elevado nível de abstração no sentido de compreender a norma. Para comunicar-me com
a lei, por força, devo observar o terceiro excluso que está incluso, pois preciso
diferenciar-me dela para que possa compreendê-la, já que não sei qual foi o sentido que
o legislador quis atribuir-lhe. Sendo que, esse terceiro não fica fora, ele deve está dentro
da comunicação, caso contrário não entenderá o diálogo, afetando a percepção e
interpretação da lei para aplicá-la ao caso concreto.
Sendo assim, esse sistema pensado por Luhmann compreende o Direito como
receptor dos fatos sociais para processá-los e criar soluções para tirá-los do âmbito da
sociedade resguardando-a dos riscos. Esse procedimento é caracterizado pela
autorreferência, a reprodução autopoiética, o fechamento operacional e a funcionalidade
aberta, todos funcionando como se fossem uma engrenagem de uma máquina para
regular as relações carregadas de valores coletivos e individuais. Neste sentido,
ressaltava que,

o direito não é um dado a priori do comportamento humano ou da regulação


da convivência humana que garante a sociedade. Ele é antes uma aquisição
evolutiva do sistema da sociedade, e por isso pôde se diferenciar de seu

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ambiente, formando um sistema operativamente fechado, capaz de produzir


seus próprios elementos constitutivos e dar conta da sua complexidade
(QUEIROZ, 2003, p. 77-91).

Para De Giorgi esse sistema não se sustenta diante da complexidade social, pois
não consegue operar funcionalmente fechado, pois se assim o fosse implodiria. Foi
nessa perspectiva que, Luhmann, ao observar as definições e os vários tipos de sistemas
que estavam sendo analisados nas décadas de 60 e 70, propôs uma mudança
significativa na operacionalização dos sistemas que

foi a substituição do conceito sistema aberto / fechado pelo conceito de


autopoiésis. Autopoiésis significa que um sistema complexo reproduz os seus
elementos e suas estruturas dentro de um processo operacionalmente fechado
com ajuda dos seus próprios elementos (MATHIS, p. 03-04).

Essa relação sistema/meio é um ponto complexo na Teoria dos sistemas sociais,


pois de acordo com essa concepção o sistema não pode estabelecer nenhuma relação
com o meio, porém segundo Luhmann, “o fechamento não significa falta de ambiente,
mas autonomia do sistema em relação ao ambiente” (BRZEZINSKI, 2008, p.122-143).
Como observadores dessa intricada interação o nosso campo de visão é limitado
e há um elemento que não podemos enxergar - o observador - no diálogo do incluso que
está excluso, ao não vê a unidade da distinção que está utilizando a “forma constitui um
limite, uma linha de divisão marcada por uma diferença, que obriga esclarecer qual
parte está sendo indicada na descrição de determinada operação” (QUEIROZ, 2003, p.
77-91), é por isso que precisamos do outro observador – o terceiro – para vê o que o
outro não pode vê e, assim poder estabelecer a comunicação social. “Fora dos sistemas
sociais, não há comunicação e fora dos sistemas psíquicos não há pensamento”
(MATHIS, p. 04).

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Outro conceito sempre presente na teoria de De Giorgi é a verdade. Segundo ele,


a verdade só será criada dentro de um espaço de comunicação que procura conformar
uma ideia em algo consensual para todos. Tendo essa aceitação a ideia se sobrepõe às
demais e passa a figurar como verdade para a coletividade. Contudo, diz que a verdade
é a invenção de um grande mentiroso. A verdade é parte de uma distinção que a outra
parte é falsa, nossa consciência não é acúmulo de verdade, mas sim de falsidade. E, na
comunicação sempre procuramos construir significados em torno de um evento para, a
partir do nosso ponto de vista, concebê-lo como verdade.
Em meio às transformações ocorridas pelo surgimento da sociedade moderna de
alta complexidade e dinâmica, torna-se cada vez mais difícil pensar em conceitos
abstratos e valorativos como é o de “verdade”. A verdade será aquela decisão proferida
pelo Juiz legitimada pelo procedimento e pela forma? A decisão judicial é verdade para
quem: o vencido ou o vencedor da lide? Enfim, o conceito de verdade não encontra
respaldo no ambiente dos Sistemas Sociais, já que este não se apega a questões
valorativas.
Nesse momento, de acordo com De Giorgi, entra a figura do direito através de
seu observador (o juiz) – seguindo o processo do terceiro incluso que está excluso - que
fará a interpretação e a compreensão daquela verdade pré-estabelecida, como uma entre
várias possibilidades de verdades. Já que o relato de um evento ou fato não passa de
uma tentativa de se construir uma verdade dentre tantas outras, pois quando indicamos
uma coisa, indicamos apenas uma parte de duas.
O Direito para De Giorgi se apresenta como sendo os casos sociais jurídicos
sobre os quais se procede a uma compreensão para determinar qual norma se aplica
melhor aquele caso concreto. Ou seja, a lei não é a reguladora da sociedade, mas sim os
fatos sociais que determina qual é a norma que deve se aplicada. E, através do
mecanismo da autopoiésis, o Direito conseguirá se reformular a partir das novas
demandas que ele não conseguia regular, ou seja, quando consegue abarcar o caso ele se
fecha operacionalmente, contudo, sendo uma situação totalmente nova, ele se abre
funcionalmente para pegar os elementos necessários que regulem o novo caso.
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No pensamento de De Giorgi ainda se identifica o conteúdo teórico de que


vivemos em uma sociedade extremamente complexa pela carga de valoração
responsável pela construção dos marcos normativos. Essa diversidade de valores nos
leva a criar entendimentos diferentes sobre os fatos e produzir discursos que não
representam a realidade, como por exemplo, a visão que temos de segurança pautada na
presença ostensiva de agentes públicos nas ruas. Mas o que seria segurança? Quanto é
seguro a segurança? A ideia de segurança serve para que se produza uma sensação
comportamental que se adéqua ao discurso de segurança dos governantes buscando
impor uma aparente verdade.
O Direito se constitui numa ferramenta importantíssima nessa sociedade
complexa para poder dizer aos fatos sociais, estabelecidos através da comunicação,
quem detém o Direito.

4. INCERTEZAS E INSEGURANÇA: A PRODUÇÃO DO RISCO

A complexidade dos fatos nos tem levado a ter cada vez menos certeza sobre as
decisões no mundo jurídico. A política e a economia têm interferido com mais
intensidade no campo jurídico afetando sua autonomia e imparcialidade. A ciência tem
alcançado um nível de desenvolvimento inimaginável, criando inventos que não se sabe
quais serão as consequências e como controlá-las. Toda essa complexidade produz
riscos e demandam novas atitudes do Sistema Social, especificamente do sistema
jurídico. Nesse sentido, Segundo Luhmann, “o direito serve a uma sociedade
hipercomplexa na medida em que orienta a ação social, resolve conflitos de interesses,
estabiliza a sociedade sem, no entanto, eliminar a pluralidade e complexidade”
(LUHMANN apud BRZEZINSKI, 2008, p.122-143).
É nesta compreensão de sociedade complexa que De Giorgi afirma: “vivemos
em um mundo de incertezas e inseguranças”. E quais são as implicações desses fatores
para a vida em sociedade? De acordo com o exposto acima, evidencia-se que o maior
problema é a produção do risco, como nos mostra Denise Hammerschmidt,
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quando se fala de risco, refere-se à produção de danos que são consequências


de decisões humanas causadas (por ações ou omissões ante a representação
de um evento danoso) por oposição ao perigo que importa à produção de
danos imputáveis a causas alheias ao próprio controle, externas à decisão e
que afetam o entorno (humano ou natural) (HAMMERSCHMIDT, 2002, p.
97-122).

A globalização e a ciência são os setores responsáveis pela maior parte dos


riscos gerados na sociedade. O primeiro explicasse pelos interesses econômicos estarem
sobrepondo-se aos demais, as fronteiras geográficas nãos existem, a soberania dos
países tem sido colocadas em xeque, os blocos econômicos tem conquistado maior
poder de decisão junto as instâncias políticas. O segundo advém do fato de que as
pesquisas cientificas tem avançado de tal maneira que não existe mais barreiras para sua
ação, deixando a sociedade apreensiva em relação ao futuro. As armas nucleares, o meio
ambiente, a genética, o clone, os transgênicos, as células tronco, são apenas alguns
exemplos de temas problemáticos para a comunidade mundial.
Mesmo sabendo de descobertas importantes realizadas pela ciência na área da
saúde e da informação, não devemos esquecer os acidentes nucleares ocorridos em
várias partes do mundo gerando medo, dúvidas e insegurança. Quebrando exatamente
aquele paradigma que a sociedade do século XX havia colocado como seu objetivo: a
segurança. Sendo assim, “assiste-se a uma transição de uma sociedade industrial para
uma sociedade de risco” (HAMMERSCHMIDT, 2002, p. 97-122).
A dimensão assumida pelos riscos ganha uma projeção de
multidimensionalidade por está ligado a diversos fatores de nível global, essa
especificidade é um desafio para as organizações normativas de âmbito local e
internacional, pois as forças politicas e econômicas tem se esforçado para que os riscos
continuem sendo produzidos, por outro lado tem-se a dificuldade para criação de
legislações específicas que regulem a mutabilidade das ações dos agentes produtores do
risco.

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Pois como evidenciou Beck citado por Hammerschmidt, ao fazer uma análise da
relação entre perigo e risco afirmou que

a sociedade atual caracteriza-se pela existência de riscos, os quais


diferenciam-se dos perigos (desastres naturais ou pragas de outras épocas),
pois que são artificiais, no sentido de que são produzidos pela atividade do
homem e vinculados a uma decisão deste. Por sua vez, perigos são as
circunstâncias fáticas, naturais ou não, que sempre ameaçaram as sociedades
humanas. (HAMMERSCHMIDT, 2002, p. 97-122).

Resta saber se a sociedade está preparada para superar e controlar os riscos. Ou


melhor, se os sistemas sociais pensados por Luhmann e De Giorgi estão prontos para
absorver os riscos, imunizar a sociedade contra os seus efeitos e processar as soluções
adequadas para manutenção da segurança. Só tempo, algo tão caro para as teorias,
poderá dizer.

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A breve análise realizada nesse trabalho demonstrou que o conceito de sociedade


tem se modificado ao longo do tempo seguindo a mudança dos paradigmas de cada
época. A sociedade é uma espécie de organismo vivo que se adapta aos mais variados
ambientes, porém o modelo atual tem enfrentado inimigos perigosos que se unidos
podem concorrer para sua destruição, entre eles podemos colocar a globalização como
efeito do poderio econômico e o avanço da ciência através de suas descobertas
geradoras de dúvidas e incertezas.
A Teoria Sistêmica criou novos conceitos, permitiu uma análise diferenciada da
concepção de sociedade dividida em subsistemas. O Direito como um desses
subsistemas, tem procurado manter o equilíbrio das relações humanas e por meio de
experiências novas se auto reconstruído (autopoiésis). A complexidade da sociedade
moderna tem sido o desafio das organizações normativas a medirem força com a
política e a economia.
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O risco é o elemento característico do ambiente social moderno, causador de


incertezas e insegurança. A grande sacada do Direito será encontrar os mecanismos de
ação para fazer frente aos riscos, a estrutura da autopoiésis será posta a prova, resta
saber se o fechamento operacional e a abertura funcional conseguirão superar esses
desafios.

6. REFERÊNCIAS

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sistêmica e o direito. Centro Universitário Franciscano/UNIFRA, s/d, s/p. Disponível
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Disc. Jur. Campo Mourão, v. 4, n. 2, p.122-143, ago./dez. 2008.

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__________________. Direito, Democracia e Risco: vínculos com o futuro.


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HAMMERSCHMIDT, Denise O risco na sociedade contemporânea e o


princípio da precaução no direito ambiental. Revista Sequência, n.º 45, p. 97-122, dez.
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