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UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA

INSTITUTO DE CIÊNCIAS HUMANAS


DEPARTAMENTO DE FILOSOFIA
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM FILOSOFIA

ANALOGIA E FORMAÇÃO DE JUÍZOS VIRTUAIS


CONFORME CONCEPÇÃO DE REAL EM MARIO
FERREIRA DOS SANTOS

Instrumentos conceituais nas intermediações entre


o ser e o ente, no domínio do necessário e do
contingente, enquanto vetores teleológicos,
noológicos e intencionais

Murilo Carlos Muniz Veras

Brasília, DF
Novembro de 2010
Murilo Carlos Muniz Veras

ANALOGIA E FORMAÇÃO DE JUÍZOS VIRTUAIS


CONFORME CONCEPÇÃO DE REAL EM MARIO
FERREIRA DOS SANTOS

Instrumentos conceituais nas intermediações entre o


ser e o ente, no domínio do necessário e do
contingente, enquanto vetores teleológicos,
noológicos e intencionais

Monografia apresentada à Universidade


Federal de Brasília como requisito para
obtenção do título de Especialista em
Filosofia.

Orientador: Prof. Dr. Dennys Xavier

Brasília, DF
Novembro de 2010

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Em ordem devida

à minha existência:

a Cristo Jesus, o Yeshua

à magnífica construção filosófica de doutores da Igreja:

a Santo Anselmo, Doctor Magnificus,


a São Boaventura, Doctor Seraphicus e,
a São Tomás de Aquino, Doctor Angelicus,

e,

ao resgate filosófico contemporâneo de:

Jacques Maritain

dedico.

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AGRADECIMENTOS

A meu pai, Murilo Moreira Veras, escritor e poeta, pelos incentivos, correções e
sugestões para melhor formatação semântica e estilística do texto.

A minha esposa, Marta Grecy M. Veras, pela paciência e percepção silenciosa e


obsequiosa nos momentos mais difíceis.

A Mariana L. Veras (in memorian), essa flor prematura que emergiu como uma
estrela de dia e, batizada, subiu aos céus serena e graciosa, no silêncio da noite.

A Aila Mendes Veras, pelo auxílio na digitação ágil e perspicaz.

Aos amigos da Paróquia Nsa. Sra. de Guadalupe e especialmente aos padres Adilsom
Marques e Fernando Ibanez L.C. pelo incentivo e orientações espirituais.

Ao meu orientador pela surpreendente visão platônica de mundo, conforme o melhor


de Teeteto, pré-requisito norteador das teses aqui levantadas; e pelo inestimável
apoio e dedicação.

Aos corajosos promotores da Filosofia no universo cibernético e, em meio a tanta


desinformação, Carvalho, Cirne-Lima, e muitos outros, quase anônimos, por
persistentes desbravadores na busca de autêntica sabedoria.

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"Trago em mim o gérmen, o início, a possibilidade para todas as

capacidades e confirmações do mundo."

Thomas Mann

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Siglas das obras de Santos:

FC – Filosofia Concreta, 2008


LED – Lógica e Dialética – Decadialética, 2002
SLE – Sabedoria das Leis Eternas – SLE, 2009
TS – Tratado de Simbólica, 2007
UEM – O Um e o Múltiplo – Comentário sobre Parmênides, 2001

Resumo

A concepção de realidade expressa nas obras de Santos reflete uma profusão de


conceitos, teses, axiomas e paradigmas, coerentemente desenvolvidos a partir de
base filosófica clássica articulada com conhecimentos contemporâneos lógico-
filosóficos das ciências particulares, compondo um quadro ou uma visão
simultaneamente unívoca e plurívoca dos entes em sua vivência humana
cronotópica (devir circunstancial), sem perda do referencial ontológico originário
da tradição anterior, notadamente de Tomas de Aquino e seus principais
seguidores. A partir de parte de sua vasta produção literária, é possível extrair um
vetor conceitual em comum, como a do conceito de analogia, principal objeto do
presente trabalho. Efetivamente, passada a longa fase dicotômica entre realismo
e anti-realismo do iluminismo (inaugurada por Descartes), é pela analogia que
Santos propõe o resgate da almejada síntese ou confluência das principais visões
de realidade, apoiadas por uma sofisticada seqüência de argumentos apodícticos
que vão compor uma autêntica construção filosófica: mostrar e demonstrar um
nível de compreensão possível e factível dos entes concretos co-partícipes
(construtores) da realidade Una, a que o próprio filósofo denomina ‘Filosofia
Concreta’. Valendo-se do recurso conceitual da analogia e de sua teoria dos
campos, em bases pitagóricas, Santos elabora toda uma esquematologia do ente-
sujeito que responde ao que recebe na proporção de dupla configuração ôntico-
ontológica, de acordo com fatores distintos, intrínsecos e extrínsecos, nos planos
da essência e da existência, da matéria e da forma, e do ato e da potência, que
por sua vez se desdobram em outros campos duais, antinômicos, que vão compor
o raciocínio decadialético. Partindo dessa temática nos propomos extrair um fio
condutor singular de realidade dos entes particulares, limitados e determinados

6
que, na condição de seres participes, na (super) categoria da Pessoa, exercem
uma relação de dependência condicional com a unidade originária, a potência de
real latente, ilimitada do Ser (Ipsu Esse Subsistens), assim como toda criatura, em
sua totalidade, depende orgânica e numenicamente (arithmos) do ser
transcendente (criador). Dada essa esquemática maior, o presente trabalho
propõe explicar como o desenvolvimento do raciocínio decadialético e concreto
pode ajudar na compreensão das atitudes do sujeito que, fazendo juízos virtuais
efetivos (intencionaliter), concretizáveis, sobre uma realidade que lhe escapa, é
capaz de construir realidades singulares em graus de significação
(universalidade) crescentes para compor a Nous. Tudo conforme um sentido
ordenador (teleológico), dada pela lei da proporcionalidade intrínseca, em duas
vias antagônicas, ascendente e descendente (similar ao resolutio e compositio do
mestre aquinatense), unificadas em via de realidade ôntico-ontológica e por
estruturas eidético-noéticas intrinsecamente concatenadas e ordenadas
(continum), que se pontuam, acontecem, no ato ‘perfeito’ (enteléquia). Nesta
perspectiva, somente pela analogia, intermediada pela expressão de arquétipos
(simbólica), seria possível pensar uma escalada de visualização abstrativa ou de
visão de mundo que permita ao ente (homem ou entidade humana) ampliar o
horizonte de percepção consciente e, conseqüentemente, o alcance das decisões
e ações propriamente humanas, em sua quididade. Baseando-se em Levy, o
esquema foi ampliado numa matriz conceitual intercambiante entre virtual-atual-
latente-real extraída de esquemas aristotélicos e escolásticos articulados pelo
filósofo tunisiano. Por fim, visando estabelecer um instrumento conceitual ‘auxiliar’
ao da analogia, os termos resolução e graus de liberdade são propostos como
indicadores dos graus de visualização e participação dos entes que se ‘movem’
dentro dos eixos horizontal e vertical da referida matriz.

Palavras-chave: Analogia, Ontologia, Realismo, Juízo, Virtual e Atual, Enteléquia,


Filosofia Concreta, Decadialética, Intencionalidade, Ente, Percepção, Metalin-
guagem.

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Abbstract

The conception of reality expressed in the Santo’s writings reflects a huge of


concepts, theories, paradigms and axioms, logically developed from the
philosophical classic combined with contemporary knowledge of science and
philosophical logic individuals composing a picture or a vision both unequivocal
and plurivocal of human beings in their experience chronotopic (becoming
circumstantial) without loss of ontological reference originating in the earlier
tradition, especially Thomas Aquinas and his main followers. As part of his vast
literary output, it is possible to draw a conceptual vector in common, such as the
concept of analogy, the main object of this work. Indeed, after a long phase
dichotomy between realism and anti-realism of the Enlightenment (inaugurated by
Descartes), Santos proposed, by analogy, that rescue of the desired synthesis or
confluence of the main visions of reality, supported by a sophisticated series of
arguments ranging apodictic compose an authentic doctrine or philosophical
construct: to show and demonstrate a level of understanding possible and feasible
for loved ones as concrete-be co-participants (manufacturers) of reality Unity,
which the philosopher himself called 'Philosophy Concrete'. Building on the
conceptual use of analogy and the theory of fields, on a Pythagorean, Santos
prepares all of the loved-one schematology guy who responds to what gets in the
proportion of dual configuration ontic-ontological, according to different factors,
intrinsic and extrinsic, in terms of its essence and existence, matter and form, and
act and potency, which in turn will result in another dual fields, antinomical, which
will comprise the reasoning decadialetic. From this theme, we propose to extract a
single thread of reality, private entities, limited and determined that in the condition
of being partakers in the (super) class of person, have a conditional dependence
relationship with the original unity, the power of real latent, Be Unlimited (Ipsu
Esse Subsistens) as well as every creature in its entirety, and depends on organic
numen (arithmos) of transcendent being (creator). Given that grater schema, this
work aims to explain how the development of reasoning and concrete
decadialético can help understanding the subject's attitudes, making virtual
judgments effectives (intencionaliter), achievable on a reality that escapes him, is
able to construct realities, natural degrees of significance (universality) to compose

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the growing Nous. All then such as a ordinate sense (teleological), given by the
law of proportionality inherent in two antagonistic ways, up and down (similar to
resolutio and compositio of master aquinatense), unified way of ontic-ontological
reality and eidetic-noetic structures intrinsically sorted and concatenated
(continuum), which punctuate, happen, in the act 'perfect' (entelechy). In this
perspective, only by analogy, mediated by the expression of archetypes
(symbolic), we would think an escalation of abstractive view or world view that
allows the entity (human or human entity) to broaden the horizon of awareness
and consequently, scope decisions and actions properly human, in its quiddity.
Based on Levy, the scheme was expanded in a conceptual matrix interchange
between virtual-actual-latent-real extracted by Aristotelian and scholastic’s schema
articulated by Tunisian philosopher. Finally, to establish a conceptual tool to assist
the analogy, the terms resolution and degrees of freedom are proposed as such
degrees of viewing and participation indicators of entities that 'moves' within the
horizontal and vertical axes of that matrix.

Key-words: Analogy, Ontology, Realism, Judce, Virtual and Actual, Entelekeia,


Concrete Filosophy, Decadialetic, Intencionality, Entity, Perception, Metalinguistic.

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SUMÁRIO

1. Introdução ............................................................................................................. 12
2. O universo conceitual da Filosofia Concreta de Santos ....................................... 13
3. Fundamentação lógico-ontológica da intermediação entre Ser e ente.................. 20
4. Esquematologia de Santos ................................................................................... 24
4.1 Teoria das Tensões e Campos ........................................................................... 24
4.2 Do operar como uma modal na atuação dos entes ............................................. 26
5. Transitando nos Planos e campos segundo uma modal: resolução e graus de
liberdade no devir contingencial. ............................................................................... 27
6. Escalada dos entes em sua vivência perceptiva (Intermediação simbólica na
percepção do real) .................................................................................................... 31
6.1. Formando objetos virtuais engendrados completos (perfectíveis): exemplos de
raciocinar concreto .................................................................................................... 31
6.1.1 – De como objetos-virtuais são engendrados em esquemas numa escalada ................. 32
6.1.2 – De como conceitos abstratos ganham significado independente do ente que a criou. 35
6.1.3 – De como objetos-virtuais são comunicados in totum, via simbólica.......................... 38
6.2. Construindo realidades pela vivência perceptiva dos entes ............................... 39
6.2.1 – intermediação simbólica na percepção do real......................................................... 39
6.2.2 – De como percepções de real são comunicadas ......................................................... 41
6.3. Analogia e Juízos virtuais como resultantes da vivência concreta dos entes.... 46
FAZ PROJEÇÕES VIRTUAIS
AVALIA COM VIVÊNCIA
ESTABELE SIGNIFICADOS (ENGENDRANDO PERFECTÍVEIS)
FAZ JUÍZOS
ENGENDRA OBJETOS (ARTEFATOS) E CRIA SINGULARIDADES
7. Ser co-participativo (Potencial que insiste, real que subsiste, virtual existente e
atual que acontece)................................................................................................... 58
8. Considerações Finais ............................................................................................ 66

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Índice de figuras

Figura 1 – Matriz latente-real-virtual-atual, adaptada de Levy (2003) ...................... 34

Figura 2 – Curva imaginária, assintótica à esquerda, entre teoria e prática numa dada
configuração essencial-existencial e conforme resolução abstrativa e graus de
liberdade.................................................................................................................... 60

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1. Introdução:

O presente trabalho tem por objetivo apresentar parte das obras de Mario Ferreira
dos Santos, um pouco pela capacidade abstrativa em lidar com assuntos tão diversos como
a ontologia e a psicologia cognitiva, outro tanto por sua destreza e agudeza argumentativa
em discorrer, passo a passo, as etapas de um raciocinar filosófico desde os fundamentos do
ser até o afanar da caminhada dos entes na construção de sua Humanidade. Diante de tal
cenário não seria de estranhar, senão pela autoria individual - em projeto de tamanha
envergadura, a proficuidade de conceitos, teses, axiomas e paradigmas que o filósofo de
Tietê se vale para mostrar e demonstrar os caminhos mais seguros para compreensão do
pensamento herdado pela filosofia clássica ou perene. Dentre os diversos caminhos, se se
pode imaginar um conceito que abarque uma visão mais agregadora dos caminhos ou
métodos de pensar o real em dimensões ôntica e ontológica, o conceito de analogia deve
ser dos mais apropriados, como tentaremos demonstrar.

Em se tratando de analogia, o termo unificador e mais universalizante, pode-se


inferir que o resultado perpassa mais que uma visão, uma cosmovisão, de algo significativo
do real ainda possível de expressar e comunicar, quando começamos por entender nossas
próprias limitações como a limitação de entes que estão no devir e seguem sendo como ser,
por participação, como parte de uma universalidade concatenada com a realidade original e
última do Ser. A partir da Cosmovisão de Santos, em visões dialeticamente engendradas
pelo raciocinar concreto e (deca)dialético, é possível extrair um recorte epistemológico
entre o real atual (ôntico) que responde ao real subsistente (ontológico) como o elo de
ligação do ente humano que intui e intelege “de baixo para cima” em graus crescentes de
visualização abstrativa, partindo de respostas mais imediatas até as mais universais. Como
ser pessoa, relativamente autônoma e livre, na medida em que intencionalmente se situa,
contextualmente, em seu papel participativo, virtualmente concretiza os esquemas
abstratos e delibera sua ações individuais e comunitárias, fazendo juízos coerentes,
vivenciais, com os potenciais de possíveis naturais, normativos e deontológicos que vão se
apresentando no complexo das relações ente-ser-Ser.

Partindo da visão pitagórica de Santos e dos termos escolásticos de Tomas de


Aquino, traçamos um Esquema matricial idealizado entre latente, real, virtual e atual em
que o ente, pela simbologia, desenvolve capacidade crescente de extrair objetos virtuais
agregados de maior significado, percepções do real que, por analogia, podem representar o
real a ser transmitido e comunicado conforme vivência teorética e prática, phatica e
afetiva, que irão compor uma rede de “elevada carga semântica”, complexo de redes de
visões de realidade do ser-pessoa-em-relação, em concepção eidético-noético, informando
e formando a noosfera, a Humanidade.

Se, para Santos, ainda é possível supor um processo educativo dos mais elevados,
de formação do ser em sua realidade concreta e transcendental, a que denomina mathesis, é
verossímil pressupor que tal formação deve passar por uma forma de expressão que
ultrapassa aquela da linguagem formal ou mesmo pragmática, uma linguagem da

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linguagem ou metalinguagem, fruto de realidade experienciada no devenir1, real
contingente e necessário, que pode ser parcial e proficuamente expressa nas diversas
formas de discurso, do mais formal ao mais lírico ou onírico, que permeia a linguagem
cotidiana e também sobrenatural.

Nos entes limitados, em seu devir existencial, a percepção do real será sempre
precária, composta de mistos de virtual e atual em que a mente, corpo e alma, trabalha
essencial e acidentalmente, operacional e contemplativamente e assim vê, julga, delibera e
age conscientemente (ou não), cria singularidades e perspectivas de futuro sobre o real
concretizável, tantos quantos forem possíveis, enquanto co-participantes do Real em ato,
ato perfeito acabado, a enteléquia, em ações performativas entre analogantes e analogados.

As numerosas obras de Santos e particularmente da coleção Enciclopédia de


Ciências Filosóficas, em um total de 45 volumes, entre outros tantos mais, perpassam os
mais diversos campos do saber filosófico, muitas das quais ainda sequer minimamente
exploradas, a espera de uma investigação mais profunda e certamente profícua2. Nesse
trabalho procuramos extrair um recorte mais direcionado ao conhecimento do
conhecimento, dos mais amplos entre a infinitude do Ser e a determinabilidade dos entes,
sem perder de vista a realidade contingencial e necessária da caminhada do ser-pessoa.
Esperamos contribuir de alguma forma para o despertar dessa problemática perene.

2. O universo conceitual da Filosofia Concreta de Santos

Ao contrário do que expressa o senso comum, é pela via da virtualidade que o


sujeito se lança para fora de si mesmo e se torna humanidade no construir com o outro em
atos propriamente humanos que acontecem, se realizam e constituem a realidade das coisas
humanas, de sua humanidade.

Na filosofia concreta de Santos os atos se concretizam com a consecução de


possíveis que se realizam em ações humanas num processo co-participativo entre entes em
permanente relação, assumindo sua condição de ser em si e ser para o outro, em sua
contingência, em seu devir.

1
Devenir – Filos.: transformação incessante e permanente pela qual as coisas se constroem e se dissolvem
noutras coisas; devir e vir a ser (Aurélio). Para Aristóteles, geração e corrupção, para Santos, ações mais
restritas ao devir cronotópico (plano ôntico), finitas, determinadas: potencias de ser e como tal não se
dissolvem num nada absoluto, mas num nada relativo, i.e., não-ser. Tudo quanto é ou pode vir-a-ser (devir) é
ser (FC, Tese 158). Veremos que o diferencial entre o mundo da linguagem e do espirito pertencem ao campo
do intensivo, o restante (o espaço-temporal), ao campo do extensivo. Nessa perspectiva, em nossa
investigação, as linguagens mais evoluídas (nível semântico) aprendem a mimetizar o real experimentado.
2
Duas boas referências resumidas dos trabalhos de Mario Ferreira dos Santos constam nos prefácios de Luis
Mauro de Sá Murtinho, em FC, com destaque para o raciocinar Concreto; e de Olavo de Carvalho, em SLE,
destaque para visão mais ampla em base pitagórica.

13
É preciso sair de si, dos condicionantes determinísticos modelados pelo devir
necessário, mas desde sempre limitados e mecanicistas, para se aventurar na composição
de objetos virtuais engendrados, ordenados e coordenados pelos conceitos e paradigmas
conforme a experiência de si mesmo e do outro, experiência que se soma à theoria para
formar a sabedoria prática (prhonesis). Segundo Santos esse processo se dá por juízos
virtuais que são adquiridos por graus crescentes de aperfeiçoamento do ente humano que
se torna mais ser na medida em que é capaz de mimetizar as entidades ideais de que
participa, assim como um triângulo mimetiza a triangularidade no âmbito exclusivamente
abstrato, o homem, sua humanidade, quididade ou essência do ente dual3, corporal e
espiritual.

O ente humano mimetiza a realidade como um componente da realidade, na


super-categoria da Pessoa. A pessoa humana é temporal e movente (histórica) mas não é
tempo nem movimento, nem qualquer outra circunstância predicamental (R. Victorino,
apud. Ponce, 2002). A relação predicamental não pode ser subsistente uma vez que recebe
o ser da subsistência que é o próprio subsistir (S. th., I q.29ª.4 ad.I, ibdem). Assim, apesar
de dever sua existência necessariamente a uma vivência no circunstancial e relacional, seu
ser é mais que isso, sendo a mais perfeita da natureza, o homem é o ser vivo composto de
corpo e alma que tem neste último componente a propriedade anímica 4, intrínseca e
invariante, que subsiste às contingências, externas e variantes, como ente propriamente
espiritual.

Dada a relação de dependência entre ente-ser e o ser-Ser, que é uma relação de


dependência e necessidade, a categoria da relação inaugurada por Santos não poderá mais
ser explicada como uma relação predicamental direta5, será de proporção entre duas
premissas particulares onde se estabelece uma proporção entre duas entidades divergentes

3
Essência dual: dada pela matéria e forma ou corpo e espírito mais ou menos como um composto conforme
teoria hilemórfica de Aristóteles e de Tomaz de Aquino. Não deve ser confundida com a concepção dualista
normalmente atribuída aos neoplatônicos e demais seguidores, conforme alerta de Santos em diversos locais
de suas obras.
4
Neste trabalho esse componente anímico sustenta o principio vitalista, central em nossa tese, dado o
pressuposto de que, para Santos, todo homem é dotado de uma espécie de energia ou enérgeia que “alimenta”
a existência espiritual latente, em comum, ao mesmo tempo em que diferencia uns dos outros conforme a
capacidade de cada um em exercê-la, em ato. É nesse agir coerente com sua capacidade (ou ‘capabilidade’), a
dada mais aquela desenvolvida, que se dá a enteléquia. Este termo parece ter sido pouco explorado
explicitamente em suas obras, apesar da convergência do termo aristotélico com o universo conceitual de sua
doutrina que, como veremos, ocorre na contraposição entre a sophrosyne e a dynamis, demonstrando a sua
importância como elemento tensional para a “visão concreta dos conceitos que se cooperam para dar sentido
à vida” (LED). Quanto às distintas capacidades individuais, Santos confirma pelo que observamos na prática:
não é qualquer homem que desenvolve, desde tão cedo, a habilidade de um Mozart por mais que se esforce,
reforçando a tese de que nascemos com dons inatos.
5
Segundo Cirne-Lima a própria estrutura sintática da dialética forma os conceitos opostos de maneira
semântica. Para o autor a lógica formal predicacional aristotélica restritiva não funciona na dialética porque
não existe um sujeito certo nas construções [dinâmicas] já que lidamos com a contingência e com um sentido
de totalidade que não permite juízos analíticos, precisos, quantificáveis. Dessa forma [holística e transitiva] é
que teríamos a dialética concreta.

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que não são nem de ruptura nem de identidade. Estabelecida a proporção, é possível
alcançar um Logos analogante, como um resultado final da operação. Analogia que se dá
segundo um Logos (aná e logos) que implica uma relação muito própria, dada por um
princípio ou uma lei e, pois, “ela é que conexiona e correlaciona os fatos dentro de uma
normal obrigatória. Para que surja um ente impõem-se a obediência de uma normal, de
uma relação que deve ser obedecida (grifo meu), que é a lei de proporcionalidade
intrínseca, a forma desse ente.”...em suma, “a lei segundo o Logos”.

A analogia como recurso conceitual ou conjunto simbólico deve ser parte


preponderante da análise dialética esquematizada pelo espírito na apreensão de realidade
intercambiante. Para Santos tal recurso é necessário como uma espécie de recurso prévio
de comparação, pois “a analogia é uma relação que se esquematiza através do espírito, mas
que corresponde a uma relação que se dá, quer no mundo real-físico (exterior), quer no
mundo mental, por meio de comparações entre um fato real e uma idéia, ou entre idéias”.

Uma metáfora ilustrativa para expressar a concreção dos atos humanos, do sujeito
que apreende parte do real objetivo e modifica aquilo que é possível modificar, em seu
devir, é a de um timoneiro que conduz o seu barco (corpo e alma) navegando no mar da
realidade. Em algum lapso momentâneo pode até ficar na deriva, aparentemente estático,
mas na verdade isso nunca ocorre (somente com a morte). A vida segue cingindo as águas
dinâmicas da realidade em seus componentes móveis e permanentes, onde o homem deita
sua existência, em que se apóia interagindo com ela sem se identificar com ela. O sujeito é
um ente em permanente relação com o ambiente ou o substrato que o sustenta física e
espiritualmente, capaz de compor-se ao ambiente transcendente, à medida que faz uso de
sua liberdade dentro dos graus dos possíveis6 que superam componentes do não-realizado,
hipotéticos, em realizáveis.

Dentro da barca pode brincar a vontade, fazer juízos virtuais diversos,


imaginários, e assim, ludicamente, será capaz de apropriar relações e correlações das mais
diversas facetas ou campos da realidade. Usando recursos lógicos, lógico-ontológicos,
retóricos e dialéticos vai percebendo as nuances de uma realidade em que participa e co-
participa, agindo ou sofrendo. Nesse percurso a atualização de suas intenções somente se
dará na interface concreta com o real onde navega. Desde a infância somos submetidos,
sem perceber, a jogos de tensão dialética, entre ser e não-ser, entre abstrato e concreto,
intuitivo e racional, interior e exterior. A mente age seletivamente e apreende parte da
realidade em objetos com os quais aprende a problematizar, distinguir e mimetizar, analisar
e sintetizar, em duas vias que se complementam, simultaneamente, em campos onde
prevalecem, ora o intuitivo ora o racional. Em sua caminhada vai melhorando a estrutura
noética para melhor cingir o real (possibilidades reais), e deverá fazê-lo em tempo real, em
mar aberto. “Nosso intelecto, abstrato por excelência, numa atenção à utilidade vital,

6
Graus de possíveis: nesse trabalho, como veremos, os possíveis são potenciais latentes, potencias de ser (T.
170), que se abrem ou fecham aos entes de acordo com condições predisponentes intrínsecas e extrínsecas ao
sujeito, a que, doravante, denominaremos “graus de liberdade”

15
constrói intencionalmente esquemas autônomos dos fatos, separando-os mentalmente da
realidade e indo incluí-los em ordens” (LED, p.141): é no virtual que gera tensões,
problemas, nós de tendências (Levy, 2003), estabelece as conexões e processa objetos
virtuais, confronta-as com a realidade, “capta pensamentos e os verifica concretamente”.

A ciência mostra-nos que os pensamentos captados pelo ato de pensar podem ser
diferentes da realidade, mas se recompõem através da experiências sobre os erros” (LED).
Dessa forma, no campo da virtualidade, engendra esquemas abstratos, eidéticos e noéticos
sobre o real-possível. O tribunal da experiência garante a correspondência entre o virtual e
o atual, eliminando as possibilidades não-reais. Podemos engendrar uma infinidade de
esquemas abstratos7, reais ou meramente imaginários, mas a atualização somente se dá
naqueles possíveis realizáveis, concretizáveis em seus respectivos Campos e Planos.

Ao explicar o devir do ser, de ser e estar, Santos se propõem a fazê-lo conforme o


melhor estilo escolástico − o que está presente praticamente em todas suas obras, mas deve
desenvolvê-lo conforme princípios racionais, portanto condizentes com as regras da lógica
(e vai muito além propondo a decadialética, como veremos adiante). Entendemos, com
Santos, que a lógica formal é delimitadora do real, por exemplo, em uma argumentação
escorreita, onde, entre outros, a técnica do reductio ao absurdum, em contraditórios lógicos
tipo A-O, indicam caminhos “fechados”, onde não há mais o que avançar.
Contemporaneamente, após as tentativas fracassadas do atomismo lógico de Cantor ou
Russel, parece que foram reconhecidos os limites do conhecimento lógico formal da
realidade, e do sonho de quantificação ou matematização de toda a realidade, inclusive a
dos fatos concretos produzidos pelo homem em seu devir. Limitações que foram
confirmadas posteriormente com a “teoria da incompletude” de Gödel e a “teoria
semântica da verdade” de Tarski, transferindo o escopo da compreensão da realidade
multifacetada para o domínio apropriado, a filosofia. Não é certo se Santos tinha
conhecimento desses últimos estudiosos da lógica, mas a explicação dos limites da lógica
na filosofia das coisas concretas proposta em suas teses talvez constituam-se numa das
melhores propostas para reconduzir a discussão em conformidade com a tradição
escolástica, desde Maritain, e pode servir de importante subsidio para superação
propriamente filosófica do impasse lançado.

Efetivamente, para Santos, os limites da lógica são os limites da razão, não como
um limitação insolúvel, que possam remeter-nos a extremos de ceticismo ou esoterismo, e
sim pelo escopo do atuar racionalizante, em seu domínio próprio, que se vale de abstrações

7
A construção dos esquemas abstratos-noéticos é objeto de todo um “tratado na esquematologia”, de Santos.
No presente artigo ater-nos-emos aos esquemas de conteúdo teleológicos, concretizáveis a partir de objetos
específicos ou ‘objetos-fantasmas’ que a mente apreende pelo recurso conceitual da analogia, baseado
naquilo que a didática conceitual de Santos direciona quanto à formação de juízos em circunstancias
necessárias e contingentes, direcionamento que se depreende da terminologia de tensões, campos, vetores,
conectores, atratores, etc. Em Carvalho, como veremos, a correspondência dos objetos engendrados
(imaginação) com o real pode ser garantida pela intuição lógica dos entes.

16
distintivas para captar os componentes individuais no sensível, como se assim o fossem
(em objetos estanques), e num segundo momento busca os liames em comum entre eles
(em objetos universais), para então chegar ao real unitário-universal existente, no sujeito e
nos objetos materiais e espirituais que o abarcam. São entidades que estão aí, não como
acidentes, e sim como essências, independente da limitação (formal) em compreendê-los.
Solução que será, em Santos, conforme a tradição de São Tomaz de Aquino e também dos
comentadores tomistas mais notáveis, a saber: Duns Scott, Cajetano e Suarez.

Ainda mais assim será nas ações dos entes em sua contingência que não podem
ser explicadas por árvores de decisões estanques, entre sim e não, seguem acontecendo e
constituindo realidades. No jogo das contingências, abrem-se miríades de possibilidades,
combinações de possíveis que exigem (ou não) resposta mediata ou imediata, deliberativa,
do homem em sua busca atrelada ao sentido que ele mesmo se propõe diante de sua
condição essencial-existencial. Respostas que exigem ou dependem dos graus de
percepção dessa (nova) realidade, do animal racional que são respostas adequadas ao nível
de interpelação dos sujeitos sobre a própria realidade...

Santos vale-se da dialética como recurso de visualização abstrativa para


compreensão de possibilidades divergentes (entre particulares, tipo I-O), mas não
contraditórias, (apresentadas) ao sujeito pela realidade contingente, transiente por si
mesma, que se sucedem no tempo (cronos). Possibilidades são de algo a ser concretizado,
portanto algo subsequente por realizar, posterior a algo que se antecipa. O subsequente
depende do antecedente, nunca o contrário (LED, passim. Cfr., especialmente, p.224).

O possível indeterminado oferecido ao sujeito, pelo livre arbítrio, permite que,


conforme suas intenções, o sujeito possa modificar, até certos limites, o próprio leque de
possibilidades apresentadas na linha do tempo. Como o sujeito não é um dado fixo, a
predicação sobre o sujeito modifica o próprio sujeito, por isso a dialética aplicada às ações
humanas não geram contradições, buscam gerar significados, e os significados articulados
semanticamente conferem novos predicamentos.

Temos aqui algo que se refere a um outro sujeito, que já não é o mesmo e sim
uma nova composição virtual que pode ou não se atualizar no instante seguinte de acordo
com as atitudes tomadas, e dos eventos que se sucedem, em uma dada circunstância, no
plano existencial. Neste plano, virtual e atual se intercambiam e em muitas vias de
possibilidades, o conjunto dos possíveis que se abre diante da concreta capacidade de fazer
e da efetiva vontade de fazer (operar), que se tornam realidade na medida que se coadunam
com o bulk ou rol de potencialidades pré-existentes (intrínsecas e extrínsecas) que estão aí,
como potências de Ser, perfeições latentes comunicadas aos entes em sua condição atual e
futurível: a impossibilidade de uma criança ordenar semanticamente um conjunto de
objetos-virtuais como um mestre da retórica (sentido positivo, da escolástica) ou um líder
carismático, é meramente ocasional, mas está pronta para se transformar positivamente em
circunstancias favoráveis futuras.

17
Entretanto, somente circunstâncias favoráveis não garantem quase nada, é da feliz
conjunção de intenções corretas com oportunidades favoráveis de agir ou sofrer que os
entes ativos podem executar ou contribuir para que atos se perfecionem (enteléquia) em
um ordenamento próprio de sua singularidade8. Se o Ser confere ilimitações no âmbito
intensista do ser, limitadas, “em tese”, são as operações no âmbito duplamente intensista e
extensista, dos entes... Coadunação dada de forma escalar, por uma ordem de ser, que é da
lei de proporcionalidade (provavelmente a lei maior da analogia).

Para efeito do escopo proposto, faremos um recorte direcionado à compreensão


conceitual da analogia9 com base ou medium de sustentação de uma relação de
correspondência entre o ser enquanto ser, em sua totalidade, e a manifestação dos entes em
seu devir, pluralidade na unidade, que é a plurivesalidade intermediada entre dois planos
distintos, extensiva e intensivamente.

Foge ao escopo do presente trabalho discorrer sobre essa correspondência


desenvolvida em sua obra, “Lógica e Dialética” (LED). Para o entendimento da
aplicabilidade de um conceito metafísico à realidade contingencial por recursos conceituais
válidos, i.e., da analogia, importa-nos entender como na doutrina de Santos o ser
ontologicamente constituído dá existência aos entes onticamente situados em sua vivência
espaço-temporal ou cronotópica e principalmente, como o ente-sujeito responde ou co-
responde ao que recebe na proporção de sua dupla configuração ôntico-ontológica; de
acordo com fatores distintos, intrínsecos e extrínsecos, nos planos da essência e da
existência, da matéria e da forma, e do ato e da potência (inseparáveis fisicamente, mas
distintos fisicamente), que, por sua vez, se desdobram em outros campos duais,
antinômicos, que vão compor o raciocínio decadialético 10.

8
Singularidade: fato, evento, ato completo, entidade, enfim algo que acontece. Veremos que esta ocorre de
acordo com a lei de proporcionalidade intrínseca da singularidade (apenas didaticamente corresponderia, no
sujeito, ao Haec, sua eceidade; e no objeto, a quididade).
9
Analogia: a validez do termo nesse contexto naturalmente está sujeito a muitas controvérsias mesmo no
domínio da dialética. Para o presente trabalho, simplificadamente consideremo-la em duas dimensões ou
léxicos distintos ora como recurso de inferência (lógico) conveniente para tentar expressar um significado
que ultrapassa o conhecimento disponível na circunstância de um discurso ou da proposição, do que esta
sendo afirmado. Outra será mais rigorosa principalmente de Tomas de Aquino (ontológica). Segundo Joseph
(2002) também como método de indução “científica”, um forma de similitude em diferentes classes de
fenômenos que sugerem à mente cientifica alerta, a probabilidade de uma relação causal – uma forte fonte de
hipóteses [então um recurso eficaz em apontar para o real]. A analogia foi desenvolvida pela tradição
escolástica e recebeu brilhantes contribuições em diversas e importantes trechos da imensa obra de Tomas de
Aquino, mas não foi sistematizada pelo mestre Aquinate, abrindo leque de varias interpretações e
compilações posteriores, principalmente Duns Scott, Cajetano, Suarez e Fabro. Santos explora bastante essas
diversas vertentes com aparente prevalência sobre Suarez, além da sua própria.
10
Recurso da decadialética. Apesar da dialética de Santos abrir possibilidades lógicas para além da lógica
formal “estrita”; pelo que ele mesmo classifica, em sua didática professoral, de valências: monovalente,
restrito a juízos apodícticos, necessariamente válidos, bivalentes, fundada na convicção que afirma

18
Para posicionar os entes como agentes concessionários da realidade do
contingente e necessário, tomaremos por marco inicial, antropológico, o individuo como
sujeito que interage com o meio, visto não apenas como um individuo monolítico ante o
meio externo e extensivo (ambiente natural ou res extensa, de Descartes), mas como
sujeito que se integra e, de certo modo, até se confunde com o objeto, partindo da premissa
de Santos de que subjetivo e objetivo são realidades distintas no plano ontológico, mas se
imbricam, simultaneamente, no plano ôntico (assim como matéria e forma, no corpo).

A compreensão de como se dá o intercambio entre o ontológico e o ôntico


perpassa todo um paradigma da escolástica e suscita amplíssimas discussões entre
extremos de realismo e antirrealismo, entretanto em nosso trabalho, nos ateremos à posição
intermediária adotada por Santos (“realismo moderado”) seguindo, entre outras, a tradição
tomista das duas vias, ascendente e descendente derivados dos conceitos de resolutio e
compositio (Salles, 2007). Desta última via (descendente) daremos como pressuposto as
concepções adotadas por Santos, genericamente subentendidas no termo processão.
Entretanto, dado ao que nos propomos, no âmbito da contingência, o enfoque será sobre a
via inversa, que seria a resposta dos entes aos ‘apelos’ decorrentes de uma vivência ativa,
de configuração mais ampla, da pessoa integral (e não meras coisas), que seria o reflexo
natural de uma condição auto-reflexiva, consciente de sua própria situação, através de
juízos emitidos preliminarmente, abstratamente, virtualmente, como agentes ativos e
passivos que, no viés do virtual-atual, contribuem, por participação, na construção da
realidade.

Uma vez delineada a fundamentação lógico-ontológica entre ser e ente,


intermediada pelo conceito da analogia e tendo como enfoque a formação de juízos virtuais
teleológicos, de Santos, proporemos exemplificar, com o auxílio da linguagem funcional
de Joseph e da interpretação lógico-ontológica de Carvalho, como estes autores podem
contribuir para o entendimento da construção de realidades a partir de objetos virtuais
simbolicamente representativos que, ao adquirem sistência própria (enfoque permanente),
contribuem para viabilizar a Mathesis ou formação de humanidades (Nous).

condicionalmente e aceita a possibilidade de negação, e a polivalente, do tipo tese-antítese-sintese de Hegel.


Suas principais obras percorrem vários desses caminhos com maior ou menor cautela, entretanto a Filosofia
Concreta, a principal e alicerce para as demais, se restringe à monovalente. Apesar dessa base mais robusta,
Santos não se contenta com a lógica predicamental hodierna e não se ilude com a busca de uma descrição
final de verdade absoluta, sonhada por todos. Coerente com o realismo epistemológico de Platão que por fim
recorre ao mito, não busca um ponto fixo do formalismo clássico, excludente (lógica do aut... aut....) e sim as
possibilidades ilimitadas da lógica etiam (também), includente: “A dialética reconhece a procedência da
Lógica Formal, enquanto em sua ordem, em sua esfera, que é das abstrações, mas busca realizar outra
verdade, na esfera da concreção” (LED, p.233 e 234). A decadialética somente pode ser aplicada no aspecto
intensista dos entes (FC, p. 93).

19
Finalmente, com base na retórica dialética de Levy (matriz virtual-atual-latente-
real), herdada do trivium (ou quadrivium) escolástico 11, inferimos como o homem situado
em sua realidade contingencial (enfoque modal) seria capaz de formular ou engendrar
objetos virtuais con-crecionais, efetivos - seja um conceito inovador que funciona, uma
teoria coerente com o paradigma mais aceito ou um simples ato afetivo durável; dados aqui
como construções performativas, criativas, que, por um hipotético processo de co-
participação em ato (enteléquia), possam contribuir para agregar potênciais latentes de
perfeição do Ser (enérgeia) às limitações propícias dos entes12, desde um sacrifício
consciente de vida a uma oração ou oblação sincera.

Da conjunção dos enfoques permanentes e variantes propõem-se um novo


esquema conceitual da atuação dos entes livres e dependentes, analogicamente capazes de
perfeição de acordo com concomitante escalada nos graus de visualização abstrativa e
graus de liberdade para deliberar.

3. Fundamentação lógico-ontológica da intermediação entre Ser e ente

A partir da realidade primeira de que,

Alguma coisa há, nada absoluto não há (FC, tese 1);

O nada absoluto, por ser impossível, nada pode, e apenas um ser independente
pode, e necessariamente tudo pode. O simples pronunciamento dessa realidade por parte
dos entes contingentes, que nada podem, mas aí estão e seguem sendo, é uma
demonstração de que seres existentes fazem coisas acontecerem não por si mesmo, mas
pela recepção de algo que lhes é dado pela capacidade (latente) de gerar realidades.

11
Segundo Joseph (2002) os escolásticos distinguem as artes teóricas “da mente”, lógica, gramática e
retórica, o trivium, das artes “praticas”, aritmética, música, geometria e astronomia, o quadrivium, sendo
estas subordinadas àquelas.
12
Limitações propícias: limitação implica deficiência e esta “tem um conteúdo ontológico” (tese 260). A
deficiência das criaturas em sua limitação deve-se à ausência relativa ao ente considerado, que não é uma
ausência absoluta, mas relativa a sua forma onticamente (existencialmente) dada, pré-disponibilizada, o que
na doutrina de Santos deve ser compreendido no plano ontológico e não meramente lógico-formal: “Uma
formalidade, como tal, pode ser apenas formalmente definida, realiza-se pela enunciação do gênero próximo
e da diferença específica, de forma isolada, que ainda não são concreção...mas um ser, como existencialidade,
neste ou naquele ser inteligente exige e implica a predisponência (grifo meu), na qual ele esta imerso, que
coopera na construção da sua realidade...Os possíveis, no Ser, são infinitos, mas os seres que o representam
precisam outros para sua cooperação. Um possível torna-se criável pela assistência de outros já em ato. Pela
cooperação do que se eficaciou, torna-se efetivos quando, pela cooperação (de outro efetiveis) alcançam o
pleno exercício do ser” (FC, p.484).

20
Somente o pode segundo uma ordem subjacente que persiste, necessariamente una, poder
esse que emerge independente da multiplicidade daí decorrente13.

O Uno é a condição necessária para fundamentação de todas as demais realidades


e é nessa condição, de unidade, que antecede qualquer realidade imanente. Para Santos
qualquer outra realidade possível ou imaginável obedece a princípios dados pelo logoi. O
logos de um ente é a lei da proporcionalidade intrínseca, a razão de sua forma essencial,
que expressa sinteticamente todo o corpo ou agregado de possibilidades de manifestação
dos entes, que estão aí, como positividades, pois o principio de todas as coisas tem que ser
algo positivo. Antes do manifestável deve haver algo, “o princípio que se afirma, que dá
testemunho de si e que se positiva a si mesmo, indivisa in se e divisa ab alio14 (i.e, distinta
de qualquer outro). É precisamente o que se chama Ser.”

Entretanto a unidade indivisível do Ser absoluto não se confunde com a unicidade


da singularidade do ente que, como tal, não se identifica com outro, a de qualquer outro
ente, pois é apenas ele mesmo, numericamente distinto, como também o é ônticamente.
Entrementes esse absoluto não é algo que se separe fisicamente do ser, pois “o que
individualiza, singulariza, e dá unidade ao ente não é um ser fora dele, mas no ser” (grifo
meu). Para realçar a primeira das distinções, Santos articula um primeiríssimo plano,
maior, delimitador de todo o resto, a que chama contexto alfa, onde não há possibilidade de
divisão, onde o que há é o simples, simplex, indivisível, o Ser Supremo. Todo o resto
(incluindo nossa existência) pertence tão-somente ao outro plano, que chamou de plano
beta. Entre um e outro se estabelece uma distinção primordial, a crise, determinante para
toda compreensão da realidade, que é a distinção entre criador necessário e a criatura
dependente (SLE), seja esta um anjo, uma anã branca, uma pedra, um homem ou uma obra
literária.

Em Santos o diferente “absoluto” é dado por uma forma tão própria que será um
sentido ainda anterior às formas aristotélicas, e mesmo platônica, será extraído das
articulações pitagóricas, naquilo que Santos conseguiu resgatar de suas obras pré-
socráticas. A parte que o filósofo considerou como a mais coerente a ser extraída dos
textos originais e de seus seguidores, até Platão.

Entre o ser e o ente não há um abismo. O ente diferencia-se do ser por uma
determinação [peculiar], um isso ou um aquilo do ser que se fundamenta no ser, como
parte de uma totalidade que permanece pertencente ao todo. “Todo ente se funda no ser e
está no ser (hístemi) como uma determinação que coincide com todo ente (syn) como uma
unidade que constitui a totalidade por processo de unificação de uma multiplicidade em um
todo”, exatamente como expressa a terminologia grega de “sistema” (Molinaro, 2005,
p.118). Essa realidade inclusivista pressupõe uma ligação fundamental, absoluta, que reúne
e unifica todas as coisas, determinando o pertencer dos entes ao ser por uma ordem ou

13
Resumo geral extraído de SLE, LEM, UEM e FC.
14
Ab alio: ser ab alio implica ser ante outro, portanto dos seres (entes) em sua contingência (SLE, nota13).

21
ordenamento segundo o conjunto completo e acabado, realidade de todas as coisas
justamente porque se estabelece em sua ordem, de modo que em cada coisa coincidem o
ser e o ser ela ordenada (ibidem, p.125).

A ligação inclusiva necessária, de forma tão peculiar, unindo posições extremas


de univocidade e pluralidade, somente será possível pelo recurso conceitual da analogia, “a
belíssima ligação que, enquanto possível, faz de si e das coisas ligadas um só coisa”
(LED). Segundo Molinaro, a peculiaridade da analogia, como um conceito metafísico,
consiste em conciliar identidade e diferença, articulando-as em correlação que sintetiza
metafisicamente ser e determinação, multiplicidade de realidades em uma única realidade.
Então tem-se um único termo lingüístico unindo logicamente coisas divergentes, e na
metafísica, “lógico e lingüístico se unem: uma multiplicidade de significados cuja
diversidade é unificada pela referência a um significado principal” (Molinaro, 2005, pp. 17
e 18).

Do exposto, temos a analogia como algo que deve explicar uma relação a qual se
explica pela própria forma e essência de relacionamento, envolvendo necessariamente
componentes “intermediários” de totalidade e sistema, vinculando o uno e o múltiplo, em
ordens, em níveis de concreção crescentes 15 que se harmonizam (UEM, passim).

Conceitualmente temos unidade, relação, totalidade, sistema. Santos vale-se


inicialmente da geometria de Pitágoras... configuração pitagórica de campos e planos em
diferentes arranjos, como unidade-díade (12) unidade-díade-relação (123), unidade-relação
(13), unidade-reciprocidade (14), etc. e demais relações triádicas (123, 132, 1234, etc.),
inclusive da harmonia entre eles (6, i.e., Lei da Harmonia ou Lei do Senário) (SLE, p. 68).
Enfim tudo se harmonizam numa lei, lei da Integral.

Os entes participam de acordo com uma configuração do simples no


complexo...Santos refere-se à haecceitas, ao arithmós individual na imagem pitagórica,
cuja correspondência obedece a graus, graduações, dadas não apenas cognitivamente
(noeticamente), inerentes ao ente, sua natureza, suas potencialidades, mas por estruturas
objetivas do real, consideradas como realidades arquetípicas, com suas leis e conformações
(eidéticas), sua quididade. Entremeando tudo há um continum, que somente é possível
[visualizar] pelo recurso conceitual da analogia.

O um é a primeira lei que rege todas as coisas...A unidade [doravante


consideraremos apenas o contexto beta] é a lei da integral. Em toda e
qualquer forma dotada de existência, seu ser é um. Há, por certo, uma
hierarquia do ser, uma hierarquia de graus intensistas do ser, cada ser
participa da unidade segundo seu próprio grau de intensidade, o qual, por
sua vez, é comproporcionado à natureza de cada ser... pois tudo quanto é
finito é unitariamente o que é e tende a tornar-se parte integrante de uma

15
Doravante nesse trabalho será a escalada dos entes.

22
unidade....até a máxima unidade absoluta da simples simplicidade do ser,
do Ser Supremo. (SLE, p. 53)

Entre o ser e o ente não há o abismo. O ente diferencia-se do ser por ser uma
determinação, um isso ou aquilo do ser mas que se fundamenta no ser, como uma
totalidade que é parte da totalidade – continum absoluto do ser, de acordo com uma
configuração, de uma totalidade orgânica (FC, T. 179)

Santos extrai a idéia do fundamento ontológico baseado no exame concreto e, a


partir daí, aplicável a qualquer ciência experimental – a filosofia como estudo geral dos
fundamentos que se somam às aplicações das ciência experimentais para concretizar uma
sabedoria completa, organicamente constituída, que é uno-múltipla, uma conquista da
Mathesis.

O segredo da Mathesis não esta em entender as origens ou fim ultimo, mas em


utilizar-se dos fundamentos que atuam em cada campo do saber, as leis parciais de cada
região filosófica.

“Um conhecimento concreto é um conhecimento circular que conexiona tudo


quanto é do objeto estudado, analogados ás leis (logoi analogantes), que o definem,
conexionando por sua vez, com a lei suprema que rege sua realidade” (FC, p.55).

Os opostos analogados se desdobram nos planos, campos, vetores


tensionais...subordinam-se à normal, e as normais dadas pela totalidade a que pertencem

“A idéia da normal refere-se a figura geométrica de progressão continua, de


proporções constantes entre termos” (FC)

A Filosofia Concreta vale-se da matematização no sentido genuíno pitagórico, não


dos números da matemática vulgar, utilizados para medir coisas sensíveis ou figuras
geométricas meramente ficcionais, e sim o número absoluto que, fundada em juízos
universais válidos, corresponde ao numerus numerante, o arithmós das coisas todas:
necessário, contingente, antecedente, conseqüente, etc., etc.

O pensar da filosofia concreta é o raciocinar lógico, seguido do lógico-dialético,


que ascende ao dialético-ôntico, perpassa pelo simbólico e finalmente culmina no
ontológico que por fim tudo (re)une.

Ao contrário do senso comum, é o conhecimento mais concreto, válido para


qualquer setor da realidade.

O raciocinar concreto obedece a uma estrutura ontológica rigorosa, parte da lógica


e utiliza juízos apodícticos, mas o que prevalece é o ontológico.

Ao contrário do ceticismo radical que nada pode dizer ou do idealismo que se


satisfaz com o abstracionismo, o pensamento concreto parte de uma dúvida salutar, a
tensão que distende pólos opostos, problematiza e remete na busca do conhecimento. O

23
que precisamos é alcançar uma certeza sobre a qual ninguém possa duvidar com seriedade
e, para Santos, há essa certeza, ela é:

“alguma coisa há.”

Repetimos a afirmação, pois é aquela que dá inicio ao cipoal de argumentos da


Filosofia Concreta (FC, passim).

4. Esquematologia de Santos

4.1 Teoria das Tensões e Campos

Dentre as dualidades possíveis, uma das primeiras didaticamente apresentadas na


esquematologia de Santos é a do (campo) intensivo e extensivo. Todo ser existente, em seu
constante vir-a-ser, apresenta duas ordens que se complementam, da intensidade e da
extensidade. Essas são algumas das primeiras antinomias para a compreensão da dialética
usadas por Santos, lógica que se ‘sobrepõe’ à formal por ser a lógica da existência (FC e
LEM, passim). As outras são: campo intrínseco e extrínseco, do sujeito e do objeto,
atualidade e virtualidade, conhecimento e desconhecimento, razão e intuição, variante e
invariante e outros desdobramentos (por oposição ou negatividade de alguns desses).

Uma tensão consiste numa unidade, que é especificamente diferente dos


elementos componentes, que surge de um corelacionamento
aríthmico...os entes sofrem uma interatuação que modifica total e
parcialmente o arithmós de cada ser componente, permitindo o
surgimento de um novo arithmós, especificamente outro....num ser vivo o
esquema concreto é uma lei de proporcionalidade intrínseca singular,
adequada ao arithmós (invariante) daquele ser...se reproduz entre os
elementos de uma mesma espécie que concretamente comportam
diferenças arithmológicas, de outros relacionamentos e até de
desmesuramentos, que, no entanto, cabem no arithmós eidético do ser,
que é revelado concretamente pelo que ele é, em ato, neste ou naquele
individuo (...)
Se podemos considerar uma tensão isoladamente, em crise, sabemos, pelo
que demonstramos, que não há ruptura no ser. Portanto as separações são
relativas à natureza das coisas, ou às suas formas, ou aos seus esquemas
concretos...a conjunção das tensões em conjuntos tensionais obedece à
grande lei da integração, que é a lei da Década dos pitagóricos (FC,
p.576-7).
Para o que nos propomos, consideramos o campo como uma resultante
direcionada, emprestada da idéia de força-campo da física, e num sentido mais geral de
Campo da realidade: ação ou moção, fonte originária de todos os (demais) fenômenos de
ação, que faz emergir a unidade de pólos opostos, os quais se inter-complementam nos
diversos planos da existência, mais ou menos como um influxo “energético” e ordenativo.
Para Santos o aspecto de fenômeno vivo é dinâmico, transcende a física e a química...atua

24
intensivamente de forma oposta à energia extensiva dada pela lei da entropia (LED, p. 99 e
p.208).

“A oposição interna e externa são razões de ser do que onticamente existe, tudo o
que onticamente finito tem uma razão dialética do ser e do não-ser (principio dialético da
razão suficiente). Toda onticidade existencial cronotópica está em devir (existência
cronotópica)”. Dessa realidade (ôntica) resulta um campo tensional que se desdobra entre o
extenso e intenso, assim temos que “toda estrutura tensional é quantitativamente igual aos
seus elementos componentes, e qualitativamente é diferente deles” (LED, artigo 2, p.191).

Quando se fala em mudanças no nível intensivo não tem sentido estabelecer


medidas ou métricas que possam ser aferidas de alguma forma. Santos adverte que o
“metron” aqui é da ordem das qualidades operadas pelos entes... (FC)

A teoria das tensões de Santos traz de volta a antiga questão dos universais e dos
particulares, fazendo emergir um algo novo, em base ontológica, que a visão mecanicista
jamais poderia explicar: “esse fato admirável que surge, é uma assunção, pois o ente novo
é assumido por uma forma que não é a dos componentes, uma possibilidade do
correlacionamento, e não dos correlacionantes, algo novo que vai repetir, por imitação, um
possível da ordem do ser, que está contido em ato no seu poder, senão viria do nada, o que
é absurdo” (FC, Tese 304).

------- xxxx--------

Uma vez estabelecida a crise, consolida-se algo distinto como resultante de um


“operar do Ser ativo, que atua e realiza. O operar implica escolha, preferência e preterição
(entre possibilidades), implica portanto intelecção, intelecto.”...nos entes, “a primeira
experiência do conhecimento, inclusive do imediato, do intuitivo, já implica a presença do
que será separado, posteriormente, post rem, e que se apresenta in re nas coisas , a unidade
é a pluralidade.” (LED)

Para posicionar os entes como agentes concrecionadores de realidade conforme


concepção de Santos, neste trabalho tomaremos por referencia inicial o conhecimento
antropológico do individuo como sujeito que interage com o meio. Não uma mônada em
interface com meio externo e extensivo (Como Descartes o Leibinitz), e sim sujeito que
interage de certa forma, segundo uma ordem, uma prefiguração dada como ser, que assume
novas ordens e configurações conforme os objetos, as relações estabelecidas com os
objetos em suas respectivas ordens e configurações que obedecem a um arithmos que lhe é
próprio. Para Santos sujeito e objeto são realidades distintas no plano ontológico mas que
se imbricam no ôntico, assim como a matéria e a forma nos indivíduos16. Sujeito e Objeto
se integram e de certa forma se confundem. E é de novas composições que se formam

16
Teoria hilemórfica

25
novos conjuntos de objetos, novas constelações, constroem-se culturas, formam-se
humanidades.

A compreensão de como se dá a via descendente entre ontológico e ôntico


perpassa toda a escolástica e suscita amplíssimas discussões que se prolongaram até os
contemporâneos pela via do ocasionalismo, por exemplo, de Malabranche (Reali, 2008).
Entretanto, pelo que nos propomos, conforme Santos, deve-se retornar à tradição tomista
(via resolutio e compositio). Na prática, nos ateremos ao mínimo necessário resumida no
conceito de processão, herdado de Santo Anselmo e enfocaremos a via ascendente dos
entes que “apontam o olhar” ao transcendente e fazem juízos sobre universais.

4.2 Do operar como uma modal na atuação dos entes

Onde há relação deve haver algo em comum que os ligam, um liame onde se
comunicam. Entre o ser-Ser e o ser-ente há relação. Onde há relação entre entes há um
interatuar (FC17). Em se tratando de relação entre seres, nem unívocos nem equívocos, só
resta a analogia.

As relações de necessidade e contingência em bases estritamente lógicas limitam-


se aos predicáveis de gênero, espécie, diferença, definição, propriedade e acidente..mas se
uma proposição modal não afirma as relações de seus termos como necessárias, então a
relação é contingente, ou possível, quando não envolve incompatibilidade metafísica.

O contingente não dá suficiente razão para sua existência, pois não pode
vir a ser por si mesmo (nem) por outro que, aclarando os juízos, aclara
definitivamente e necessariamente a necessidade de ser causado por
outro, e anunciar o principio da casualidade com absoluta segurança,
entre outros da Filosofia Concreta (SLE)

Os entes como individuação determinada, finitos e delimitados, são-e-não-são,


pois enquanto são, passam a outros modos de ser e deixam de ser o que antes eram, ser....O
ser, enquanto ser, é: enquanto ser finito, está. Passa de um estado para outro, num
constante devir; de uma delimitação para outra, não de um nada absoluto para um ser (se
algo há o absoluto nada não há), mas de um não-ser limitado a outro limitado, sendo
sempre ser por entre momentos de estar (LED, passim).

Para Santos é no homem como personalidade que o ente atualiza a perfeição mais
alta, aquele que não é um qualquer, mas é ele-mesmo, na plena extensão do termo...

Como agente ativo, ao decidir atuar sobre um objeto qualquer o agente realiza um
possível seu de atuar e, portanto, faz uma escolha, de atuar deste modo (sobre o objeto)

17
Em FC o operar modal concentra-se nas teses 189 a 192.

26
deixando de atuar daquele modo. “Há assim, uma seleção entre algo que foi preferido e
algo que foi preterido. O ato é seletivo...”

Para Santos a potência passiva infinita não é o Ser Supremo, mas provém do seu
operador ad extra (Tese 217). Não do operador ao operar, mas da operação, que é um
modal do operado, pois determinar algo implica a determinação e determinabilidade. Eis
por que, no ato de criar, são criados ato e potência num só ato.

Nos diferentes planos e campos o ser atua e é atuado, entre um e outro, uma
relação; e:

Onde há relação há analogia, porque, para que os dois termos mantenham


uma proportio, é mister que seja suplantado qualquer abismo
diacrítico...entre eles há uma crise superável. O fundamento da relação é
uma norma, uma normal; onde há ordem há uma normal, uma ordem. (...)
Os termos se relacionam objetivamente nas referências entre si e
subjetivamente no homem, segundo o fundamento da analogia
eidética...todos esses enunciados decorrem da lei 123: unidade, oposição,
relação. (SLE, p.81)

Essa realidade dual (dialética) vai ser um dado permanente e decisivo na


concepção eidético e noético de Santos esquematizadas nos conceitos de campos, tensões e
vetores.

Concomitante à dicotomia entre o subjetivo e objetivo, em se tratando de entes


pensantes, reflexivos, e como tal, inseridos na categoria exclusiva de ser Pessoa. Ciente
dessa realidade antropológica fundamental, todas as demais dualidades serão
desenvolvidas, pelo filósofo de Tiete, inseridas no contexto de que o conhecimento do
sujeito implica o conhecimento do objeto, pois são duas facetas distintas que se
intercambiam simultânea e complementariamente, de acordo com certa funcionalidade, a
capacidade de interatuação, e uma modalidade, os delimitadores do ente em questão.

“Todo e qualquer ser, seja físico, espiritual, existente, inexistente, hipotético,


individual, universal, etc. é simultaneamente objeto e sujeito (...) Com uma imensa
gradação de diferenciações, cada ente pode ser precisamente descrito nas suas respectivas
funções de sujeito e objeto. Conhecer um ente é, em primeiro lugar, saber a diferenciação e
a articulação dessas funções” (Carvalho, 2010).

5. Transitando nos Planos e campos segundo uma modal: resolução e graus


de liberdade (vertical e horizontal) no devir contingencial.

O enfoque a que nos propomos, como delineamento inicial, é aquele do sujeito


ativador de realidades a nível post rem, que realiza inferências, cria objetos virtuais, faz
projeções enfim, constrói possíveis intuídos em sua totalidade abarcadora das coisas (in re)
que somente podem ser intermediados pela analogia. No contexto ambivalente do realismo

27
moderado de Santos essa construção decorre da resposta dos entes ao apelo da uma
vivência ativa em sua configuração mais ampla: a de pessoa integral, resposta que advêm
de sua condição reflexiva, consciente de sua própria situação, através de juízos
prospectivos que vem e vão de acordo com uma modalidade, de delimitadores internos e
externos conjunturais.

O detalhe é que o ente não cria objetos, objetos não surgem do nada, surgem de
uma possibilidade pré-existente, latente, apenas ‘materializa’ palavras e signos em
conceitos que funcionam, mas de forma delimitada, de acordo com graus amplíssimos,
desde o uso dos signos atômicos e moleculares matemáticos da lógica formal até os graus
mais amplos de visualização abstrativa de Maritain. Chamaremos de resolução, em
analogia ao uso léxico comum das ciências geográficas que conferem níveis diferentes de
precisão sobre o objeto a ser visualizado que deve ser apropriado em termos de
relacionamento entre o observador e a coisa observada (no caso, um meramente extensivo,
dada pela altura em relação a superfícies do globo terrestre). Grosso modo, assim como
não tem sentido enxergar uma casa ou um bairro com a resolução da textura do tijolo, não
tem sentido querer “ver” os diferentes objetos ou família de objetos virtuais sob um mesmo
prisma, escala ou enfoque.

No campo intensista os graus de visualização obedecem a ‘leis’ próprias...(entre


outras a da proporcionalidade, o metiê da analogia), a resolução ou resolutio18, conforme
tradição tomista, permite apontar o olhar dos entes para as realidades universais, em graus
crescentes de universalidade até o Uno.

Ao aventurarmos no mundo das coisas intensistas não há como realizar medições,


quantificações e parametrizações empiriométricas, pois se tratam de realidades qualitativas
(categoria da qualia), que refletem propriedades e funcionalidades superiores aos da
realidade extensiva, no sentido de agregar significações, num sentido escalar da unidade
em ‘direção’ ao universal, abarcando totalidades.

O fluxo do devir gera novas realidades, correlações, constelações, objetos de


objetos, sistemas, sistemas dentro de sistemas, em diferentes ordens de complexidade.
Num típico raciocinar pos-hegeliano, para Cirne-Lima (1967) ‘tudo’ que se possa pensar

18
Resolutio é o método por excelência do metafísico que, após contemplar a processão das coisas a partir do
Uno, reconduz todas as coisas à sua unidade originária.... o movimento resolutivo da inteligência (nous) é um
espelho da ordem do ser, pois assim como os seres procedem do Uno e a ele retornam, a inteligência procede
do simples e ao mais simples retorna por resolução. Conforme interpretação de Fabro, sobre corpus
thomisticum, a resolução é qualificada ainda como via do juízo (via iudicandi), oposta à via de invenção (via
inveniendi), capaz de garantir da certeza dos juízos científicos (TOMÁS DE AQUINO. In Sententiarum. III,
d. 24, q. 1, a. 1, ad 2; Id., In IV Sent., d. 9, q.1, qc. 1, a. 4, co. Apud Salles, 2007). Enfim, a resolutio é
entendida também como modo de raciocínio pelo qual conhecemos a unidade a partir do múltiplo, o princípio
e a causa pelos seus efeitos, o imediato a partir do mediato, a forma universal e comum a partir das formas
particulares.

28
(no mundo) enfim, pode ser ‘reduzido’ ou sintetizado e suprassumido nos sistemas e seus
engendramentos. Neste aspecto, talvez Santos não divirja tão expressivamente. Entretanto
trata-se apenas de uma secção do conhecimento da realidade entre o simplex e o complex,
ou da unidade ao universo: é como se visualizasse apenas um “universo” plano, projetado
num folha de papel, uma das camadas ou esferas da realidade, na horizontal, sem perceber
as demais dimensões, na vertical, do ôntico ao ontológico, que compõe o aspecto
pluridimensional do universo. Posto assim, o idealismo hegeliano prioriza o plano do
Sistema e é incapaz de superar a concepção panteística ou pangloteísta subjacente.

A mente do homem ora distingue ora congrega num movimento de tensão


dialética, de nós de tendências (Levy, 2003) que geram as ramificações necessárias, novas
conexões para engendramentos as quais se interpenetram nas redes de significados que vão
compor o universo ou constelação de saberes que formam o mundo dos virtuais-possíveis,
ou o mundo 3 de Popper (o mundo da cultura, da ciência, da religião, etc.) que aqui
corresponde ao que chamaremos de nous. A percepção do real apenas racional,
artificialmente destituído da intuição, não é capaz de abarcar o aspecto totalizante
intrínseco a todas as coisas. A tensão dialética é imprescindível para a apreensão da
realidade em sua totalidade: ou se compreende as coisas pelo seu orbi inteiro ou não se
compreende nada (Carvalho, 2010). Ninguém compreende algo a partir de seus
fragmentos, por sua caoticidade ou mera aleatoriedade...

A capacidade de compreender os objetos por sua universalidade é apenas o


primeiro passo para atuar sobre os objetos, gerando novos objetos que são uma nova
composição transformando a realidade do sujeito e do objeto19. É na virtualidade que se
iniciam os processos de transformações, não como um exercício puramente abstracional e,
sim, como vetor resultante da interação com aquilo que vai se sucedendo, que acontece,
que se atualiza, pois o real que vai se revelando in totum, em certa rotina ou padrão que se
repete, uma vaca que pasta, uma ave que voa, uma raposa que corre; é o mesmo que se
revela em eventos, imprevisíveis, circunstâncias que surgem e redirecionam a realidade.

Na realidade contingencial os entes seguem operando de acordo com uma


sucessão de eventos que até podem ser controlados ou previstos, mas normalmente não o
são, é o que chamamos de uma modal. As transformações se dão num continum entre
virtual-atual e não apenas na seqüência de ações-virtualizacões-acões previsíveis, mas
depende de fatores extrínsecos que aumentam ou diminuem o grau de participação ativa e
passiva, na horizontal, o que aqui denominaremos graus de liberdade.

Segundo Santos (LED), a seqüência (conhecimento do seqüenciado) vem de


repetições, um plano ou ordenamento importante para a acomodação e assimilação de
novos objetos. Essa visão, digamos mais horizontal, tem sido extremamente útil para
ciência de disciplinas específicas, que buscam padrões de comportamento da natureza. Mas
o conhecimento da realidade trafega em outros planos, tanto acima (unidade, totalidade)

19
Objeto no contexto beta, do mundo criado, i.e., nas predicações próprias desse contexto. Ver SLE p. 80.

29
quanto abaixo deste plano (sistema e universo). São planos que se intercambiam no campo
intensista, conforme o ‘olhar’ posicionado, que doravante chamaremos de resolução,
ascendendo ou descendo entre os extremos para no final das contas ‘se tocarem’ com a
Unidade, e no devir do sujeito, expandindo e se contraindo na horizontal, mais ou menos
como um holograma.

Parodiando a concepção de Cirne-Lima (2010) o Todo ou Absoluto é uma espécie


de matriz geradora de tensões dialéticas que ‘alimentam’ os sistemas que se engendram em
subsistemas em graus crescentes de complexidade e que se configuram em novos
complexos, os quais, em última instância, são uma infinitude de manifestações dos
movimentos vibratórios, a que genericamente chama-se “energia”. Aqui mais uma vez
convém alertar para o perigo de se extrapolar para parâmetros de medição meramente
extensivistas, perigo justificável se efetivamente temos uma interface entre este e o campo
intensista, e que, como vimos, no final, tudo une, alimentando a esperança de um metron
unitivista radical. Seja em função do animismo materialista-cientificista, seja do esoterismo
espiritualista-monista. Sem querer entrar nos meandros ardilosos das tentativas de
intermediação entre os dois campos tão distintos 20 que, por assim dizer, seria o sonho de
unificação entre Ciência e Metafísica, chamaremos aqui “energia” de “energia vital” ou,
conforme Santos, “enérgeia”. No campo extensista a noção evocaria uma espécie de
vitalismo que, por exemplo, na biologia, foi sustentada por Dietrich. No campo intensista,
chamaremos de enérgeia e que em nossa proposta, se desdobra nos pólos atual-virtual-
latente-real que por fim é ato, ato entre atos partícipes do ato puro (este no domínio alfa), e
ato perfeito acabado, o que, nos entes humanos, por estarem ordenados a um sentido
finalístico, é a enteléquia.

Como se dá o ordenamento do intelecto (e da vontade) para um fim possível de


concreção objetiva?

Dado que as possibilidades concretizáveis são os possíveis passíveis (latentes) de


realização, latente-real, oferecidos pelo ser subsistente, Ipsu Esse Subsistem, tais
possibilidades já estão presentes a todo instante, assim o que nos interessa é: saber o que
elas podem fazer com os entes ou o que o ente pode fazer com elas.

O ente-ser não cria nada a rigor nem tão pouco atua mecanicamente a comandos
externos, como os animais, o que há é o interatuar dos entes partícipes da realidade de
acordo com a sua configuração eidética. Aqui, a terminologia e a esquematologia de

20
Apesar de evidentes dificuldades metodológicas, diante dos últimos avanços da física no macro e,
principalmente no microcosmos (quântica), a busca da inter-relação física-metafísica voltou a ser objeto de
surpreendentes avanços e permitiram o estabelecimento de “pontes” em comum entre os dois campos
intermediados por um ponto ‘móvel’ mais unitário a que Petrônio (2008) denominou fator ou ponto “X”, que
bem poderia corresponder ao ponto arquimediano de Santos. Este trabalho traz ainda importantes insights
sobre recentes interpretações dos graus de visualização abstrativa de Maritain nas ciências empiriológicas,
principalmente entre o primeiro e segundo grau.

30
Santos pode ajudar extraordinariamente na melhor compreensão dos reais latentes que
analogicamente se concretizam em ato nos entes.

O método decadialético vai nos ajudar a compreender o desdobramento da


realidade do sujeito que participa do real como um transcendental que é parte do sistema,
visualiza sua posição como um ente singular na interseção dinâmica entre os eixos vertical
e horizontal 21. Os atos propriamente criativos perpassam como ato nos devidos campos de
atuação que se “expandem ou se contraem”, agindo e sofrendo de acordo com os graus de
liberdade de que dispõem, numa escalaridade que se movimenta dinamicamente do mais
unitário ao mais universal. Para o que nos propomos, o sujeito responde pela linguagem,
componente funcional da própria realidade, e valendo-nos da simbólica podemos criar
ordem de complexação (termo meu) e significação crescentes, juízos virtuais que vão
compor o espírito ou nous.

Propomos ainda que, na escalada do ôntico ao ontológico ou do virtual-atual para


latente-real, o sujeito consciente será aquele que responde por uma maior vivência,
traduzida interiormente em formas de percepção, tanto quanto melhor corresponderem à
Normal. Neste percurso daremos um recorte no atuar dos entes no devir, segundo a
dialética modal includente, como tal, um (juízo) virtual que se atualiza e se concretiza em
conexões com os possíveis (perfectíveis) do Ser, o latente-real que acontece, em ato. Em
seguida exemplificaremos como, na linguagem, os modelos de construção abstrativa dos
escolásticos, hoje vêm contribuindo para compreensão de como objetos universais
semanticamente articulados (post rem) efetivamente fazem realidades na existência dos
entes (in re). Finalmente tentaremos mostrar como na vivência perceptiva um singelo
objeto virtual assim concebido (o fantasma em nossa mente), no continum com-crecional
da analogia, e de acordo ainda com a concepção de Santos, pode fundamentar parte do
universo das realizações humanas, entendida como perceptos (a imagem articulada), uma
parte integrante da potência de real (enérgeia) que sai do ontológico, partindo do latente,
desce ao virtual-atual que acontece, e retorna como real que subsiste eternamente
(evieterno) na inteligência conformadora de todos os possíveis (Mathesis-energuéa-
enteléquia-Mathesis).

6. Escalada dos entes em sua vivência perceptiva

6.1. Formando objetos virtuais engendrados completos (perfectíveis):


exemplos de raciocinar concreto

21
Além da interpretação esquemática dada até aqui, os dois eixos poderiam ser correlacionados, conforme
terminologia do mestre aquinatense, pela analogia por participação e analogia por atribuição, tema que não
será tratado ainda neste trabalho.

31
Baseada nas teses da FC, daremos início a uma série de aforismos que, com
adaptações “assessórias”, coerentemente conduzam a um típico raciocinar, ascendente dos
entes carentes de perfeição ao ser perfectível enquanto ser em ato:

6.1.1 – De como objetos-virtuais são engendrados em esquemas numa escalada

A totalidade dos entes é parte da totalidade por uma ordem de subordinação;

A subordinação é qualitativa (intensista), conforme uma graduação e


escalaridade peculiar envolvendo fatores predisponentes conforme a natureza
do ente e também ‘mutações’ de acordo com a estrutura tensional;

A formação desta ou aquela totalidade, quididade “x”, obedece a uma


configuração harmônica subordinada à normal da totalidade (“X”);

Todas as totalidades se subordinam à grande lei da integração de tudo no todo;

Totalidades se configuram em combinações entre si ditadas por leis especificas


da combinação, do uno, díade, tríade, etc., até o nonentário;

Os todos se unificam na analogia de acordo com o Logos, que é a lei das leis,
principio e fim (eternidade), configuração da década final, número pitagórico
10, a lei do decenário;

Na sua escalada os entes, enquanto criaturas, no devir, obedecem à lei da


proporcionalidade intrínseca de acordo com sua espécie;

Na mesma escalada, os todos ascendem num continuum, mas, no devir, a


ascendência, no esquema concreto-ôntico, admite intermediações, interstícios,
mistos de ser e nada, mutações, saltos, patamares, etc.; entre totalidades
hierarquicamente estabelecidas;

Nos interstícios o ente assume graus mistos de ser e não-ser, mistos de


perfeição e carência de perfeição (variações intrínsecas) no conjunto dos
possíveis, que são nadas relativos, ainda passíveis de concreção;

Devir implica algo que de certo modo estaciona (invariante);

Uma coisa é perfeita quando ela atinge seu acabamento em ato e está
circunscrita ao campo especifico, uma determinação;

O ato determinado do ente não é o ato puro, mas ato que cria uma
singularidade, seu atuar (e sofrer) é proporcional a esta;

O conjunto das leis que dá forma a essa singularidade constitui o limite ôntico
(existencial e essencial) que é seu Haec;

As perfeições acabadas num campo obedecem a gradações hierárquicas


porquanto relativas à certa ordem de magnitude (intensista);

32
Uma magnitude não é infinita (T. 166), mas circunscrita ao esquema de uma
singularidade, de acordo com a lei de proporcionalidade desta;

Para além da lei intrínseca da espécie, há a lei (de proporcionalidade intrínseca)


na singularidade do esquema concreto-ôntico;

O esquema concreto-ôntico singular se atualiza analogando-se ao esquema


ontológico da espécie, que é o esquema eidético, o seu quid;

A natureza de uma coisa é, afinal o conjunto de todas essas leis e de sua


heceidade, do arithmós, que forma a sua singularidade e “dentro dela o ser atua
e sofre proporcionalmente a sua singularidade; esta, a sua natureza, que é
proporcionada a essência, e esta a sua quididade”;

A variante atual do ente é adequada ao que o ente é;

Os limites dessa variante são delimitados ao invariante especifico a que


pertencem;

A essência de um ente singular, enquanto tal, é a própria onticidade;

O desenvolvimento gradual do ente não pode ultrapassar o limite dado por sua
espécie, proporcional a sua natureza (Haec);

Intensivamente, os limites do ser finito são expressos numericamente pelo seu


arithmós (extensivamente pela matéria). Seu ultrapassar implica mudança de
ordem.

Ora, nessa perspectiva, se podemos afirmar uma escalaridade intensiva dos entes,
seguindo a boa tradição tomista, é porque nos referimos a uma escalada de perfeições
daqueles que carecem dela. Não simplesmente porque nascemos imperfeitos, mas porque
temos carência de perfeição que está latente no homem como possibilidade a ser alcançada,
comproporcionada aos entes por inúmeras atitudes intencionais, no domínio do necessário
e do contingente, que não podem seguir peremptoriamente numa ascendente linear.
Ascendência esta que obedece a patamares, onde totalidades organicamente desenvolvidas
podem ser base de impulso para a escalada seguinte, intermediada por um incontável
número de fatores intrínsecos e extrínsecos, etc., etc. dentro e fora do alcance do sujeito.

Dando continuidade ao exercício feito de raciocinar concreto, para efeito de um


raciocínio abstrativo, especulativo, baseado na teoria de potência e ato esquematizada por
Levy e desdobrada por este filósofo em virtual-atual-latente-real conforme a figura 1,
tomaremos dos aforismos anteriores as seguintes premissas hipotéticas:

1. a singularidade é visualizada em algum momento como um ponto dado entre os


vértices virtual-atual-latente-real;

33
2. impulsionada por tensões o ponto se move dialeticamente como vetores em
diferentes gradações, representando a dinâmica da existência-essência dos entes;

3. a singularidade pode ser qualquer evento interferente nessa dinâmica;

4. os entes agem ou sofrem de acordo com os limites impostos ou ditados numa


dada singularidade e após esta;

5. independente da multiplicidade de arranjos o ente gera objetos conceituais


(objetos-virtuais) que expressam analogicamente parte do real;

6. a escalada (conceitual) se dá por diferentes planos e campos em esquemas que


se “movimentam” simultânea e complementareamente em dois eixos, vertical (ôntico-
ontológico) e horizontal (ôntico-concreto ou virtual-atual);

7. de singularidade em singularidade o ente, ou sujeito consciente, constrói


realidades (significados) em objetos-virtuais, perceptos, orgânicos, completos, factíveis;
são sub-totalidades que se integram à totalidades eidético-noéticas do espírito,
componentes da Nous que ruma ao Infinito movido por uma força trans-imanente ao ser, a
Enérgeia, sem nunca alcançá-Lo.

34
Figura 1 – Matriz latente-real-virtual-atual, adaptada de Levy (2003).

Antes de prosseguir, damos um exemplo extraído da principal obra de Santos


(FC), de como tais conceitos universais adquirem sistência própria, fora da mente dos
entes particulares que as criam:

6.1.2 – De como conceitos abstratos ganham significado independente do ente


que a criou.

O realismo moderado afirma que há um valor de sistência nos conceitos ou idéias


que são universais objetivos, mesmo quando oriundos do sujeito ou da atividade
cogitantes.

35
Quando um projetista elabora um projeto, antes cria esboços e esquemas com os
elementos componentes que dispõe para rearranjá-los e modelá-los, de modo que cada
parte corresponda funcionalmente ao interesse de certa totalidade. Uma vez pronto, o bom
projeto, de um automóvel ou um software, será aquele que funciona, portanto atendeu,
conforme uma intenção (intencionaliter), ao ordenamento das coisas de acordo com a lei
da natureza ou da lógica. Os objetos concretos singulares produzidos são coisas materiais
que operam uma atividade meramente material a serviço do homem e que nada mais são
do que a emergência do que nelas está concretamente.

Não há intuição sensível da quantidade tomada isoladamente. Há intuição sensível


dela, tomada confusamente nos seres corpóreos. É a mente que a abstrai do componente
sensível, como abstrai a qualidade, a relação e a modalidade... Se não são entendimentos,
constroem os conceitos eidético-noéticos dessas categorias não os faz impondo-os às
coisas corporais e sim extraindo delas, mentalmente, o que nelas está, concretamente. Tais
categorias não serão meras ficções, mas entes da razão com fundamentação nas coisas (FC
e TS).

A mente abstrai universalidade pela percepção da repetição de fatos que se


materializam em algo determinado, que é numericamente um e não outro qualquer.
Entretanto há entre eles algo em comum: a mesma forma, funcionalidade e
proporcionalidade, tudo segundo a Normal da totalidade.

O objeto engendrado que se materializa na peça de um motor ou num componente


funcional intermediário de um aplicativo, ainda não é o objeto final intencionado, o
automóvel ou o software, mas já agregam um valor adicional de utilidade que permite
serialização em nova escala que já não é do ferro e da borracha brutos ou de fluxo de 0s e
1s aleatórios. Neste caso, houve avanço de conhecimento. Agora atende a uma
funcionalidade superior que vai se completar, com outros objetos, na funcionalidade do
todo organicamente funcional, a teor da complexidade necessária e suficiente para atender
o objeto-virtual, intencionado, projetado na mente do engenheiro.

Partindo de um simples circular sensível a que se combinam idéias abstratas


corretas, o que se tem agora são objetos concretos que se materializam num automóvel tipo
Z, que pode ser o automóvel z1, z2, z3 etc. Não importa quantos, as seriações meramente
materiais não passam de resultantes vetoriais de uma imagem original que adquiriu
sistência própria22, agora independente também da mente do projetista, seja o mestre
Sócrates ou um seu José da Silva.

------- xxxx--------

22
Sistência extra mentis, algo outro aliquid aliud que intencionalmente aponta para algo que
fundamentalmente se dá na coisa.

36
Assim como Santos demonstra que projetos arquitetados ganham sistência própria
fora da mente, por serem universais, como objetos-virtuais que adquirem significado e se
reproduzem em outras situações ‘semelhantes’, faremos um exercício de possível
raciocinar concreto a partir do exemplo hipotético de um ente que intenciona algo que
supõem o melhor, formula juízos mais ou menos conscientes em sua condição acidental
(uma modal) e essencial (de ser) e, conforme a capacidade desenvolvida ôntica e
ontologicamente, pode, a partir de uma virtualidade, formular juízos, engendrar objetos-
virtuais analogicamente coerentes com o real-latente, e assim, por mimetização,
“reproduzi-los” semanticamente como entidades compartilháveis e con-cretizáveis, criando
singularidades atualizáveis no devir, alcançando estádios de um ente-ser efetivamente
“melhores”.

Dado um ponto inicial arbitrário o indivíduo, em sua singularidade própria, a de


sua natureza (haec), digamos um jovem recém formado que já adquiriu um nível de
maturidade suficiente para conviver harmoniosamente em cenário relativamente difícil
(digamos, sustentar família numerosa e carente), nível de estabilidade adquirido num certo
patamar (A), ao se deparar com uma nova profissão terá diante de si um desafio, uma
tensão, multidão de relações, semelhanças e diferenças, hierarquia de valores, significados
etc., os quais vão se interagir com sua própria experiência anterior numa quase caótica
multiplicidade de fatores intrínsecos e extrínsecos para formar um novo panorama, uma
situação de nova estabilidade, por provisória que seja. Será aquela de um novo patamar
(B), em nova singularidade.

Entre uma singularidade e outra, no intervalo de tempo dado nesse mesocosmo, o


do cotidiano, o sujeito terá diante de si um momento de angústia interior que, por mais
aflitiva e assustadora lhe possa transparecer é um algo (de certa forma há uma
singularidade nisso, em si) que está situado num ponto intermediário entre o potencial e o
virtual, uma situação hipotética que é tensão de movimento, um vetor resultante da força
de atração entre algo presente em si mesmo e outro algo exterior ao sujeito que é o objeto
do pensamento (por enquanto um fantasma de possibilidades imagináveis) que incita o
pensamento para que se mova, saia de um panorama estático a outro em um grau de
entendimento ainda cheio de incerteza, mas que pressupõe ser mais satisfatório e que
melhor se conforma à sua realidade vivencial subjetiva.

Se o novo objeto engendrado já não é o mesmo, será um outro, uma alteridade que
não é um terceiro estanque, tão distante, mas uma composição aproximada, que se
pressupõe melhor e mais adequada que a anterior, normalmente, digamos cotidianamente,
por fluir em certa resolução de continuidade, um transitar continuo de um estagio de
perfeição menor para um maior.

Enquanto o sujeito intenciona fazer algo (realizar algo) – seja de um mero operar,
ou um ato intelectivo, o ente mobiliza sua razão discernidora e também integradora, pela
intuição, visualiza sua própria situação (ato consciente!), a dos objetos a sua volta, e da
própria relação de si mesmo com o objeto: estão envolvidos S, O e S-O.

37
Como viemos demonstrando é a busca da conexão de universais com os devidos
desdobramentos nos planos e campos de acordo com a lei de proporcionalidade intrínseca.
Na perspectiva, do sujeito como ente determinado limitado, variável – seguindo como uma
modalidade, e também de ente-ser que permanece sendo e sempre é – seguindo sua
essencialidade, e se lança à compreensão de sua própria singularidade, em algum ponto da
reta S-O terá o desafio de perceber quais a conexões de maior ou menor alcance que
aparentemente atendem ao nível de expectativa existente.

Seguindo nosso raciocinar concreto sobre o ente que navega no mar da realidade,
o faremos como uma resultante dos esquemas e tensões de acordo com o método
decadialético, em nosso esquema proposto – virtual-atual-latente-real (V-A-L-R).

Separando apenas didaticamente, teríamos:

Em escalada “vertical”, virtual-latente:

. Faz projeções virtuais

. Avalia com sua vivência

. Estabelece significados e faz juízos (objetos virtuais engendrados)

. Trabalha semanticamente os objetos engendrados

. Cria singularidades

. Faz novas projeções

Ontologicamente sobe ou desce em graus de visualização e, enquanto analogicamente


coerente com a Normal, cria significados e perfeições.

Em escalada “horizontal”, virtual-atual:

. Cria intencionalidades, problematiza, cria nós de tendências

. Delibera (ou não)

. Age coerentemente

Onticamente avança ou recua, age ou sofre, de acordo com os graus de liberdade que
dispõem enquanto analogicamente coerente com seus próprios juízos e sua vivência.

No cruzamento entre um e outro, temos o ponto da singularidade, o ato perfeito.


De singularidade em singularidade, os entes avançam ôntica-ontologicamente, com um
maior ou menor alcance em relação à Grande Normal, a Mathesis.

6.1.3 – De como objetos-virtuais são comunicados em via simbólica

38
Antes de avançar, faremos uma última incursão no raciocinar concreto, agora
mediante uma sequência de aforismos da simbólica de Santos, base para compreensão de
ente autoconsciente que necessita dos símbolos para expressar analogicamente parte do
real, que se lhe escapa (totaliter), parte que é possível comunicar de forma significativa (in
totum), extraídos do seu Tratado de Simbólica:

Pelos esquemas abstratos a razão apanha um aspecto da realidade. Da natureza,


por exemplo, matematiza seus movimentos, na ciência, antecipa a ordem de coisas
ainda desconhecidas, sem propriamente conhecê-las;

Nesse processo, quanto mais se despoja dos detalhes (singularidade e


heterogeneidades) maior a capacidade racionalizante de construir esquemas
matematizáveis, inclusive aqueles de maior e extraordinário alcance (como o
prova os avanços das tecnociências);

Mas, enquanto atualizam-se apenas nesse aspecto, extensivo, os esquemas


engendrados não passam de quantificação abstrata que vai se esvaziando do
conteúdo fático, pháthico e vivencial [e que são parte integrante da natureza];

Aquém da natureza, apenas o ser é;

A singularidade estética ou divina desde sempre é, e é intransmissível;

O símbolo é o meio de transmitir o intransmissível uma vez que não busca


identificar-se com o simbolizado, mas extrair um ponto de identificação comum,
daquilo que é possível afirmar sobre o objeto ou dele participar, por analogia;

“O símbolo não explica plenamente, apenas aponta o simbolizado, ao analogar-se


com ele”;

O símbolo expressa algo limitadamente, mas, conforme vivência phática, tem


[inimaginável e inestimável] eficácia durante seu tempo de vida, não somente
individual, mas da vivência coletiva, histórica dos povos singulares;

A limitação da eficácia do símbolo está atrelada à eficácia relativa de transmissão


do conhecimento, valores, convicções, etc.; dos entes;

É possível comunicar ou compartilhar parte do aprendizado como imagens de


certo conteúdo fático, pháthico e vivencial.

Através da simbólica os entes podem transmitir e receber conteúdos expressivos,


entre outros, pela linguagem, para formação de um verdadeiro aprendizado, primeiramente
sobre si mesmo e numa segunda instância aos demais, contribuindo para a formação da
Mathesis.

6.2. Construindo realidades pela vivência perceptiva dos entes

39
6.2.1 – intermediação simbólica na percepção do real
No realismo moderado de Santos, o real está em algum lugar entre a coisa em si
(in re) e os conceitos (post rem), a coisa em si não está fechada e totalmente inacessível à
razão e é possível fundamentar conceitualmente uma parte da realidade.

Dado que nos propomos a iniciar pelo aspecto antropológico, i.e., partindo do
sujeito que pensa sobre objetos, é imprescindível situar como os conceitos perpassam na
mente para além do sensível singular que, por ir além da percepção cognitiva, deve incluir
a intuição e a imaginação. É pela mediação da imaginação que o sujeito consciente percebe
o que lhe é apresentado pelos sentidos, insistimos, não como a sucessão de sensações de
Hume, mas como uma imagem elaborada e repetida de mim para mim mesmo, tornando-se
representação de algo mais, ao mesmo tempo singular e genérica.

É pela intuição que o sujeito capta o real em seu totum. Fazendo uso da
imaginação, apreende parte do real como parte de um todo, via conceitos abstratos.

Entre a realidade como ela existe e como ela é comunicada existem


intermediários: a criação de um fantasma23, de um percepto e de um conceito. (TS)

A percepção somente é possível pela intermediação de signos na linguagem, que


remetem imperfeitamente ao real pelo símbolo.

O símbolo é o principal componente de ligação entre a expressão


lingüística e a realidade a ser comunicada. A palavra é um símbolo, um
signo arbitrário sobre o qual é imposto um significado, não pela natureza
nem pela semelhança, mas por convenção, e por sua natureza mesma
sujeita a ambigüidades e transformações... Entre outras, a ambigüidade
pode surgir do fantasma da qual a palavra é originalmente um
substitutivo, e dessa forma contribui para a geração de conceitos
(JOSEPH, 2002).

Por trás de uma multidão de esquemas há uma ordem que dá sentido ao que é
comunicado e compartilhado aos entes, conforme o esquema eidético de cada entidade 24.

As formas já não são objetos do conhecimento sensível, mas de um


conhecimento intelectual, pois exigem uma atividade de abstração do
espírito, a qual separa do fantasma (phantasma), do que aparece, surge,

23
Fantasma: imagem mental de um objeto individual percebido por sentidos internos – fundamentalmente a
imaginação, que fica retida [na memória] e pode ser reproduzida a vontade na ausência do objeto. O objeto
fora da mente tem referência no extensional a partir da referencia intensional do conceito abstraído na mente.
O fantasma é uma imagem mental de um objeto ou objetos fora da mente (a designação ou extensão do
termo); dessa imagem o intelecto abstrai o conceito (o significado ou intenção do termo) na mente. Segundo
Joseph (2002) a palavra é sujeita a três tipos de ambigüidade, a imagem que a palavra evoca, o nome que
representa uma classe de coisas, e a multiplicidade de significados que vão sendo construídos na (vivência)
das culturas.
24
Para Santos: “A tudo o que não se pode dizer que é nada, tem uma entidade, e é entidade (entitas)” (FC, T.
38).

40
vê-se (phaos, luz), o esquema eidético da coisa, aquilo pelo qual a coisa é
o que ela é e não outra, essa proporcionalidade intrínseca, um arithmos
que revela uma coerência da suas partes com todo. (TS)

No campo intensista, o esquema pode ser qualquer coisa que agrega significado,
por exemplo, significa a soma de atributos contidos numa palavra é usada. Entrementes,

“não importa o plano em que é considerada a mesma visão do conjunto


deve ser captada pelo arithmos do espectador de acordo com o conjunto
de coordenadas em que o objeto-virtual se apresenta em sua posição
(real), e assim é visto em tal ou qual pessoa como a um retrato” (grifo
meu). (LED).

Através da abstração, o intelecto produz o conceito, trabalha os conceitos entre si


em perspectivas diferenciadas conforme o panorama que vai se delineando no horizonte e
faz uso da imaginação, área de encontro entre os sentidos e o intelecto (Carvalho, 2006),
para traçar a prospecção de um futuro exeqüível de acordo com realidade objetiva.

“A partir dos fantasmas de objetos similares (ex.: árvores e cadeiras). O


conceito, por sua universalidade, assim formulado, não é algo arbitrário,
ainda que a palavra o seja, já que a verdade tem uma norma objetiva no
real”. (LED).

Assim, o indivíduo, conforme seu nível de capabilidade25 (biológica, ambiental,


cultural, etc.), vai trabalhando os objetos-virtuais inicialmente mais ludicamente,
atendendo a uma expectativa mais imediata (pragmática) e, posteriormente, com a
experiência e proporcionalmente ao desenvolvimento de sua vivência, em conformidade
com normas objetivas “ditadas” pela realidade (real-real) e desenvolvendo a linguagem
funcional.26

6.2.2 – De como percepções de real são comunicadas

25
Termo emprestado das ciências da informação, onde traduz níveis crescentes de capacidade de organização
e entrosamento de indivíduos em uma organização para consecução de sistemas informatizados altamente
complexos. O conceito é utilizado para medir a evolução das organizações como um todo, saindo do nível
mais elementar (esforço individual heroico) ao “estado de arte” – este maduro o suficiente para conceber
sistema (organicamente) modelável e ajustável às necessidades variáveis dos usuários e do ambiente.
26
Conforme Joseph a linguagem humana é funcional na medida em que busca atender à tripla função
comunicativa dos homens: comunicar pensamento, volição e emoção. O trivium escolástico explora bem esse
papel e nos ajuda a entender como o sujeito consciente administra os recursos de comunicação para formação
do espírito ou nous na construção da Humanidade cujo conceito entendemos como aquela que melhor
participa do real.

41
Os símbolos são corpos vivos, expressões de uma profunda incorporação e
animação em escala universal, uma aliança antropomórfica constantemente renovada de
dentro para fora (e vice versa). “O sujeito educa a forma” valendo-se dos símbolos e assim
atuando “faz perceber (em si e no outro) aquele algo que está além do racional sensível
para transmitir componentes do inato, eterno, que persiste desde nossas origens”
(Enciclopédia LOGOS Século XXI, 2000).

Com o desenvolvimento da linguagem entre indivíduos e povos desenvolveu-se


uma espécie de constelação de entes abstratos, articulados como arquétipos duradouros,
uma metalinguagem, verdadeira construção semântica que capta elementos analogados,
indutivamente, perpetuando-se desde as origens justamente pela capacidade de despertar
totalidades coerentes com arquétipos qualificadores da Humanidade.

Em nossa escalada (segmento virtual-latente), quando ascendemos em graus de


visualização, enxergamos realidades mais universais que escondem detalhes
desinteressantes, para focar no sentido mais unitário, in totum, das coisas. Mas, uma vez
que, no devir, a interpretação homogênea (da realidade) não é possível, os entes valem-se
da linguagem como uma dialética inclusiva, intermediada pela simbólica, para extrair
como que padrões comparativos do que é exeqüível nas situações antinômicas e paradoxais
que se depara.

Na linguagem ordinária em seu devir cotidiano ou extraordinário, o ente transita


entre mistos de possíveis, dos mais perfeitos, aos possíveis exeqüíveis em dada
circunstância temporalmente delimitada. Daquilo que consegue apreender seleciona os
padrões de repetibilidade, similitude, etc. que melhor atendam a sua visão ou intenção de
agir para o momento, em prol da certa celeridade ou senso de oportunidade, ainda que haja
perda de perfeição (como diz o ditado popular, evitando excessos por perfeccionismos).

Assim, nesse processo, “o virtual-atual é dinâmico, conforme enfoque, mas se


atualiza numa singularidade. Por exemplo, virtualiza-se o heterogêneo para considerar
apenas o igual, o semelhante e o repetido” que se singulariza em atos. (LED, p. 223)

No processo educativo-formativo, o ‘mestre’ vale-se de um discurso maleável


ajustado ao nível de maturidade do aprendiz conforme pedagogia aplicável e o objetivo a
ser alcançado (seja uma fórmula matemática ou um ensinamento moral elevado). Por isso,
no processo comunicativo coerente, cabe certa dose de ambigüidade, certo jogo lingüístico,
como no discurso retórico, que busca despertar no ouvinte uma palavra (e seus atributos),
uma imagem metafórica da parte do real que o interlocutor tenta transmitir. Mesmo na
linguagem ordinária, faz-se uso o tempo todo de figuras como entinemas27 para enfatizar

27
Segundo Joseph (2002, p. 172), no uso de entinemas (válidos) estrategicamente se oculta parte das
premissas para enfocar o conjunto daquelas que cabe transmitir, seja por repetição enfática, seja por oposição
e realce visando concentrar o espírito na finalidade maior a ser alcançada (o objeto), em certo contexto,
conforme as intenções do autor.

42
uma perspectiva relevante da realidade e omitir outras dadas por irrelevante em relação ao
ensinamento a ser transmitido.

Somente podemos obter a gradação do conhecimento do objeto por um


processo dialético que distinga a virtualidade de possibilidades reais
daquelas meramente hipotéticas, (deitando olhar) sobre as potências do
objeto (Carvalho, 2006).

Tal posicionamento epistemológico é imprescindível para o devido


posicionamento dos sujeitos como entes partícipes da realidade objetiva que são dialética
ou decadialeticamente capazes de interagir com o meio, gerar novas possibilidades e
comunicar algo maior, justamente porque agregado de maior significado.

Antes de fechar nosso esquema matricial − bem entendido, uma escalada de


crescimento espiritual e de agregação de significados; vamos expor uma base de
sustentação de como o sujeito consciente percebe o real objetivo a ser comunicado,
conforme Joseph e Carvalho.

------xxx-----

É de certa capacidade de entendimento que os entes podem visar algo de maior


alcance (prático), que por sua vez depende de certa intencionalidade ou predisposição para
responder28, com graus crescentes, ao mesmo entendimento da realidade que vai se
delineando no devir, ampliando seu horizonte de percepção concomitantemente pela
essência e pela modalidade. Concomitante, à maior visualização abstrativa segue maior
abertura para os fatos que vão surgindo. Dessa combinação cria novas singularidades,
avança em novos patamares.

Ainda no intensivo os objetos-virtuais “corporificados” na mente não são um


objeto qualquer, mas fantasmas que se perpetuam como objetos assimilados organicamente
ao conjunto dos objetos que compõe a rede semântica de conhecimento: a hierarquia de
significados vai assim, num crescendo, ao mesmo tempo gerando tensões e sínteses,
gerando e alimentando o entendimento, construindo conceitos, paradigmas, soluções
criativas.

------xxx-----

As coisas externas ao homem são-lhe dadas a conhecer pela inteligência através


de conceitos formados que tentam decifrar a coisa como algo aperceptível, assimilado ou
acomodado em esquemas mentais que procuram apreender o objeto da percepção (TS)
tornando-as objetos inteligíveis, manipulados, processados, ajustados ou simplesmente
armazenados (na memória).

28
Predisposição para aprender sem se deixar obstaculizar por interesses egoísticos que obstruem o próprio
entendimento (ver mais adiante exemplo baseado no conceito de concupiscência de Tomas de Aquino).

43
Como objetos inteligíveis a mente vale-se do intelecto ativo para posicioná-los e
confrontá-los entre si de acordo com a natureza dos mesmos e o ambiente circundante
aplicável, ora acomodando ora assimilando-os, de forma a dar coerência semântica num
contexto vivencial dinâmico. Em nosso eixo vertical os esquemas se ajustam nas devidas
escalas (planos) de universalidade, o singular ao universal e, como vimos, perpassando os
níveis intermediários da totalidade, da série e do sistema. O pensamento lógico consiste,
essencialmente, de coerência entre esses esquemas, a vasta estruturação de relações,
contigüidade, sucessão, pertinência, oposição, semelhança, diferença, escalaridade,
hierarquia, etc., etc.

Como os entes poderiam realizar estas operações, diretamente sobre a variedade


dos dados sensíveis?

Segundo Carvalho, se esses não estivessem previamente selecionados resumidos e


simplificados na memória e na imaginação, seria preciso a força de um pensamento divino
numa moldura lógica toda a multiplicidade inacabável do que chega aos sentidos.

“Mas o pensamento lógico não opera direto sobre o percebido (primeiro


grau de abstração) e sim pela parte selecionada e simplificada que se
deposita e permanece na memória sob a forma de esquemas e espécies. O
“milagre” vem da suprema capacidade do pensamento lógico quando
trabalha visualizando para além do fático, do aqui e agora, o conceito.
Numa escala ascendente o conceito abarca não somente espécies de entes,
mas espécies de relações entre entes, espécies de espécies (gênero), e de
gênero em gênero vai subindo para alcançar as realizações mais gerais e
universais até conceber as relações meramente possíveis e as gradações
de possibilidades que hierarquizam e relacionam as possibilidades entre
si” (Carvalho, 2006)

Para Santos a capacidade de articulação de entes abstratos (correspondentes ao


segundo e terceiro grau de visualização de Maritain) entre si é a maior façanha dos entes
humanos, façanha que se completa pela capacidade de ordenar possíveis latentes em graus
de possibilidades de acordo com sua configuração própria, incluindo sua própria situação
vivencial (social) e, como vimos, configurações que vão ainda muito além do gênero29,
dada pelas configurações pitagóricas.

Na sociedade hiper-complexa, em ordem civilizatória, o indivíduo pode ser visto


como unidade, [inserido] como totalidade, na família, e como série, no grupo social a que
pertence, [ambos] como sistema no ciclo cultural que o inclui e como universo, na
humanidade (LED, p.263). Nesse cenário poderíamos inferir que as relações naturais

29
Para Tomaz de Aquino, nas relações analogado/analogante um gênero jamais será determinado por
diferenças extrínsecas (grifo meu). Cabe a todos os entes, em sua existência, uma relação [generalizada] de
semelhança que não impede [o determinar-se] em um modo intrinsecamente diverso, enquanto inteligível
(MOTA, 2004; verbete “analogia”).

44
gênero-espécie contextualizadas no agir concreto perpassam concomitantemente relações
de coerência interna das próprias relações existenciais, que são eminentemente normativas
ou nomotéticas (Vaz, 2004). Tais relações seguem em seus devidos graus, conforme, por
exemplo, a idade, um dos principais indicadores de capabilidade, tudo de acordo com
matriz de valoração universalmente aceita. São mais ou menos como duas escalas
conceituais se cruzando na perpendicular, sendo que, enquanto a primeira depende
intrinsecamente de graus evolutivos (até determinado estádio pitagórico, neste caso de grau
octogenário) esta não termina aí, e segue avançando em configurações, e seus componentes
imutáveis, rumo ao infinito (grau nonetário), já que não depende mais de qualquer
parâmetro extensista.

Em SLE, Santos enumera estas configurações em graus crescentes de


universalidade que, se são conformes a lei da proporcionalidade intrínseca na singularidade
do homem (espécie) esta por sua vez obedece a leis eternas, como vimos, da díade até o
decenário, “reconduzindo” tudo à Lei maior, o evieterno. Para o que nos propomos
interessa enfocar as reações resultantes das interações em progressões, que implicam
crescimento harmonioso, um continum que também segue em “saltos” qualitativos de um
patamar a outro da “escalada”, ao que Santos denomina mutações ou mudança de ordem
(ver item correspondente em nosso exemplo de raciocinar concreto, item 6.1, p. 32).

Na Mathesis, não seria ainda a linguagem uma forma válida de expressão do


pensamento (semântica) como parte de uma vivência maior que a mera soma das partes das
expressões gramaticais?

Por milagre partes do universo caótico de esquemas, tensões, mesmo num


instante, as vezes como um insight ressurgem como objetos consistentes, dotados do grau
de significação suficiente para serem postos à prova no tribunal da experiência, quando o
novo panorama, idealizado, for ganhando realidade na singularidade seguinte. Até que
certo nível de maturidade seja alcançado somente os fatos concretizados vão determinar
quais das composições devem prevalecer e quais simplesmente serão descartadas.

No patamar seguinte o ente atinge novas capacidades de acordo com fatores


intrínsecos e extrínsecos ao sujeito. Para Santos, no campo intensivo, não tem sentido falar
em evolução30 se esta não estiver atrelada a uma ordem subjacente, uma potência de ser
que o defina pois, se há imputs vindos do meio externo, há também importantes imputs
internos, algo como um gérmen ou princípio vitalista (telos), como dissemos, que “motiva”
ou “alimenta” os pensamentos.

30
Para Santos há que se distinguir evolução e mudanças de ordem ou mutações nos campos intensivo e
extensivo conforme configuração pitagórica, objeto de várias obras do autor. Sobre este tema, seus limites no
campo intensista e sobre as incongruências (reducionista) do evolucionismo quando aplicado a toda a
realidade, ver SLE, principalmente lei do octonário e nonetário.

45
Na metafísica aristotélica cada ser tem uma enteléquia, ou finalidade imanente,
atrelada a sua singularidade, “que o define e ocultamente o dirige para a meta em que se
realiza plenamente, é claro que a razão, como enteléquia, dirige desde dentro a evolução
cognitiva do homem até a plena efetivação da potência que o define” (Carvalho, 2006).

Na medida em que eleva seu campo de visão o sujeito consciente abarca ou capta
a percepção dos objetos como parte de realidade vivencial intuída em seu totum.

“Deste modo a razão não surge de repente e desde fora, sobrepondo-se a


imaginação e as sensações, mas já está de algum modo embutida,
imbricada e agente na sensitividade e depois, na imaginação” (Carvalho,
2006).

Em resumo, Carvalho propõem uma verdadeira lógica da “imaginação”, em que


os fantasmas participam ativamente:

“Memória e imaginação são para Aristóteles uma só e mesma faculdade,


que ele denomina fantasia, e que se realiza em operações diversas
conforme repita as mesmas imagens ou as combine com outras formando
uma multidão inesgotável de misturas. À simples imagem retida na
memória, que reproduz esquematicamente um ente ou fato, o estagirita
denomina-a fantasma. À medida que os fantasmas se acumulam na
memória, esta passa a reagir criativamente, recombinando essas imagens,
esquematizando-as, selecionando-as e simplificando-as, de modo que
uma multiplicidade de fantasmas parecidos uns com os outros podem se
condensar numa imagem única. A imaginação organiza conteúdos de
memória, alinhando batalhões de fantasmas em imagens sintéticas, ou
esquemas, que designam as coisas espécie por espécie, e não unidade por
unidade.” (Carvalho, 2006).

Assim, através da intuição, imaginação e percepção, os esquemas engendrados


ganham significado, pelo que simplificamos no termo percepto: percepções de coisas
“analogadas” com o todo.

6.3. Analogia e Juízos virtuais como resultantes da vivência concreta dos


entes

Para Santos, mais que a fotografia de uma imagem, o “fantasma” pode ser
interpretado como uma “atividade do espírito”. Então para o filósofo, provavelmente os
esquemas de maior significado seriam aqueles que melhor mimetizam os (bons)
“fantasmas” que se engendram na vivência perceptiva dos entes, é o que depreendemos da
seqüência a seguir:

Os esquemas páthicos captam por similitude o conteúdo dos esquemas abstraídos


em sua singularidade;

46
Copia analogicamente, i.e., extrai do fantasma (atividade do espírito) o esquema
eidético da coisa por aquilo que ela é, dado pela lei de proporcionalidade
intrínseca;

Pela intuição a mente capta os fatos como um processo de adaptação funcional


dos esquemas às coisas formando uma imagem estruturada e ordenada;

As vivências são fundadas na singularidade, por isso são mais simbólicas;

A assimilação do esquema páthico é simbólica vivida31 como realidade dos entes


em sua vivência consciente;

Além desses aforismos (TS), os textos originais de Santos, consultados, não são
claros quanto ao papel específico da linguagem na formação dos objetos virtuais na mente,
apesar dos conhecidos estudos seus de psicologia genética e linguagem simbólica,
notadamente Piaget e Jung. Entretanto, em LED, extraímos a enigmática afirmação a
seguir, que expressa a preocupação do filósofo com a temática:

“Podemos captar a vivência de dynamis para Aristóteles com a nossa


potência? Ou a Energéa com o nosso ato? Acaso a nossa finalidade tem
uma vivência igual à da entelekheia de Aristóteles? Pode a nossa
tranquilidade traduzir vivencialmente a sophrosyne dos gregos? Um
conceito deve, portanto, ser considerado como uma tensão onde
cooperam três esquemas tensionais noéticos: 1) o eidético (abstrato), 2) o
fático (o do objeto) e 3) o phático (o vivencial). Só assim podemos
compreender a vida e a morte das palavras que, como tensões, tendem a
realizar o ciclo das tensões, cujos vetores as levam (naturalmente) à sua
desintegração tensional ou através de sua cinemática, ao dinamismo."
(LED, p.221).

Do exposto, podemos dizer que, para Santos, os esquemas de maior significado


serão aqueles que o sujeito tem consciência no phático, fático e vivencial e tenta transmiti-
los em linguagem simbólica (conforme os últimos aforismos do item 6.1.3, p. 39), e que,
para Joseph, expressa justamente a verdadeira funcionalidade da linguagem: pensamento,
volição e emoção (pathos).

FAZENDO PROJEÇÕES VIRTUAIS

Em meio a miríades de esquemas o pensamento lógico do ente consciente (uma


vez que de si mesmo e dos objetos que intercambeia) deveria ser capaz de extrair coerência

31
“Em conclusão, o símbolo, na arte como na filosofia e na religião, é transmitido (...) com intuito de
provocar uma pathência mais viva” (TS, p. 85).

47
daqueles que atendam ao sentido em que o próprio ente pressupõem ser o mais apropriado,
o que melhor lhe convém, para então poder deliberar conscientemente.

A deliberação tem por objeto o possível (Aquinas, III S. Th. Q14, Ética)

Entre as inúmeras possibilidades os indivíduos seguem formulando projetos,


expectativas, planos sem fim. Provavelmente a grande maioria não sirva para nada, sejam
descartadas e abandonadas, mas é do meio desse bulk ou rol de tentativas e erros que o
homem consegue, como por milagre, extrair os esquemas mais coerentes, comprovados
pela experiência e o faz em tempo real (...)

Ainda segundo Carvalho, assim é porque o pensamento lógico não engana nunca,
independente das elucubrações mais fantasiosas que alguém possa imaginar, na
deliberação prática somente aquelas passíveis de execução serão confirmadas, justamente
porque o ilógico é desde sempre o falso, algo que não tem porque ser realisticamente
cogitado (Carvalho, 2010).

Nas ações cotidianas, de mera sobrevivência, a vivência prática vai confirmando


imediatamente os acertos, ao que a mente, lógica por natureza, responde no ato,
distinguindo sem qualquer dificuldade o lógico do ilógico, seja na evidência trivial de um
dedo que se queima em contato com a chama desta vela até a impossibilidade de imaginar
(muito menos desenhar) um triângulo de quatro lados (ações de alcance imediato).

A questão na verdade é: como distinguir os esquemas mais elaborados em ordem


tal que permita subsidiar ações de maior alcance?

Já vimos que as projeções de maior alcance ou perenibilidade são as mais


universais, que adquirem sistência própria à medida que formam objetos organicamente
engendrados, que efetivamente geram conhecimento.

Entretanto, o conceito é um virtual que por si só vai apontar apenas para um mais
universal em esquemas puramente verbais.

Vimos ainda que o real (daqui em diante chamaremos real-real, apenas para
distinguir de mistos do real-latente) apesar de inacessível aos entes limitados é aquele algo
maior, ontológico, garantido pela afirmação primordial “alguma coisa há”, o Ser Supremo,
e que é transmitida aos entes como Ipsum Essse Subsistem portanto, como uma infinidade
de possibilidades que os ente sequer tem consciência plena de poder alcançar 32.

Entretanto o ente consciente é antes de tudo autoconsciente, capaz de comunicar,


limitadamente, a si mesmo, ao seu entendimento, parte do que o real tem a oferecer-lhe,

32
Não entraremos no mérito de eventuais particularidades ou singularidades sobrenaturais como as de acesso
místico.

48
acidental e essencialmente (e comunicar na medida em que internaliza adequadamente,
ganha significado).

Como os entes podem intencionar algo maior do real se não entendem o que do
real pode captar ou concretizar, ôntica e ontologicamente?

Parte da resposta, como temos demonstrado, depende do ente, de uma sua


resposta ativa, que inclui de ações livres resultantes das primeiras tensões de ordem
transcendental, entre os entes-ser que se analogam, participam do Logos.

Como dissemos, a relação dos entes em sua realidade ôntico-ontológica não é uma
relação predicamental pois o ente-ser detém a propriedade única e completa em si mesma
da Pessoa, ontologicamente incomunicável. Nessa condição o ente não é capaz por si só de
criar algo inusitado, mas o é por uma capacidade secundária nas relações analogante-
analogado, relação secundum esse. Segundo Ponce (2002), o ente enquanto pessoa criada
constitui-se uma substância (qualia) por participação primária, aquela cuja quididade lhe
dá autonomia em relação a outras formas de participação (ou essências), que se analogam
secundariamente, acidentalmente, e é assim que, ônticamente, in concreto, os entes
transmitem sua vivência, culturas, ensinamentos, etc., etc. 33

Na filosofia concreta as projeções resultantes da vivência serão participativas


conforme a vontade se ordena ao bem da inteligência (o bem desta), enquanto o reto uso da
razão se ordena para a liberdade (a verdade da liberdade) (Tomas de Aquino, segundo Vaz,
2004).

AVALIANDO COM VIVÊNCIA

No plano imaginativo (campo intensista), nosso ponto de certa forma já começa a


se deslocar na matriz como um vetor resultante dos pólos latente-virtual, i.e., o potencial
exeqüível (misto de imaginário possível com imaginário meramente hipotético) e virtual-
atual (misto de imaginário hipotético com ato intelectível) que atua, intelege sobre as
coisas. Enquanto mistos de potência-ato, os objetos virtuais vão sendo compostos como
conglomerados de objetos que se acomodam na mente como uma rede de possibilidades
que se apresentam ao entendimento de forma essencial ou acidental, conforme a limitada
capacidade de conhecer dos entes.

33
Extrapolando este ensinamento de Ponce (estudioso do tomismo conforme Victorino, e outros) entendemos
que fica ainda melhor fundamentada as teses de Santos quanto aos campos variantes e invariantes versus
essência e acidente, dos entes-seres em sua realidade concreta e em relação ao conceito da analogia. Para
maiores aprofundamentos seria necessário discorrer sobre os diversos desdobramentos da analogia, como
analogia por atribuição, de proporção etc. que fogem ao escopo deste trabalho. Convém ressaltar que este
tema foi objeto das maiores disputas posteriores à morte do mestre aquinatense com interpretações diversas
neste ponto, entre outros, por Duns Scott, Suarez e Cajetano e, contemporaneamente, por Febro.

49
Entre o misto de meros objetos acessórios e aqueles que essencialmente agregam
valor ou significado ao novo panorama que vai se apresentando, o sujeito seleciona os
possíveis que lhe aprouve em um esquema de relações analogicamente trabalhados pela
intuição, conforme vivência (fática, afetiva, páthico) e, como tal, cria objetos-virtuais que
já não são uma mera acomodação e sim um objeto assimilado 34 ao seu imaginário, entre
tantos outros existentes, cujo papel vai sendo aproximadamente encaixado numa
“hierarquia de significações”.

As tensões geram, no devir, conflitos e oportunidades que se imbricam de tal


forma que é praticamente impossível separar causas e efeitos, quantificar, qualificar,
categorizar. Apesar das imensas dificuldades, na linguagem, o ente ainda consegue
soluções integrativas, criando conceitos, também estes tensões, ou melhor, segundo Santos,
esquemas tensionais resultantes da “cooperação entre os esquemas eidético, fático e o
páthico”...

Enquanto conceito, o esquema engendrado reproduz “o componente


eidético, invariável, da forma (cavalo) e componente variável, (os
cavalos) como elementos fáticos de uma série que a vivência e o afeto
assimilam através de esquemas páthicos” (LED).

ESTABELECENDO SIGNIFICADOS (ENGENDRANDO PERFECTÍVEIS)

Segundo Levy, as virtualidades são problemáticas que emergem de uma dialética


entre virtual e atual, entre o que se propugna e o que acontece, que move ou impulsiona
para algo novo, que passa a compor a parte do algo anterior latente que não se reificou, i.e.,
ainda não se consolidou na práxis como algo ou alguma coisa acabada terminada.
Simplesmente porque a potência de algo por acontecer (segmento latente-real) ainda não
pôde ser captada, internalizada nas amplas possibilidades da existência (virtual-atual) em
dada singularidade ou na singularidade seguinte. A consolidação de algo no latente-real
oriundo das ações do virtual-atual leva a alterações acidentais do real, que repercutem nas
ações futuras a serem tomadas ou absorvidas (sofridas). Segundo Tomas de Aquino (De
Veritate, q.24, a 1,c. apud Ponce, 2002) isso ocorre porque as ações humanas estão
sujeitas a contingencias volúveis, onde o ente, em determinada conjuntura vivencial, releva
fatores acidentais (quase sempre desnecessariamente e em detrimento daquelas essenciais)
que desvirtuam o intento original pretendido (Não entendo o que faço, não pratico o que
quero mas faço o que detesto, Rm, 7, 15) e que geram consequências não perfectíveis, que
negam pretensões de perfeição (um vício de visão de realidade!) mais adiante, tanto para si
como, principalmente, para os demais. Na verdade toda e qualquer ação que não leve em

34
Segundo Santos a mente trabalha concomitantemente por acomodações e assimilações mas é na
predominância destes que, valendo-se de símbolos, formam-se os esquemas de maior significação (TS): para
nós será justamente aquelas de maior alcance.

50
conta a pessoa em toda sua dignidade é uma ação manipuladora (Ponce, 2002), em forma
reducionista, é um processo de reificação strictu senso, que por sua vez gera consequências
subjetivas − intenção viciada, obstaculizada pelas paixões (De Veriate, ibidem) e objetivas
− sofrimento e violência por ação e inação.

Ocorre que, onde há erros − normalmente menores de uma maioria silenciosa e


obediente, e maiores de uma minoria poderosa e agressiva; há uma correspondente
resposta por aceitação ou imposição momentânea que, de certa forma, conhecida e
desconhecida, contribui para que o balanço final ainda seja positivo, por mais custoso ou
doloroso que isso implique a uma comunidade em dada circunstância de vida pessoal ou
histórica.

Para Santos, assim como não existe nada absoluto e este nada poderia (FC, tese 2,
uma dedução inevitável, segundo Santos, justamente porque um apodíctico da Tese 1), não
existe mal absoluto nem ausência absoluta de ser (Tese 38). Disso resulta que o mal do
mundo decorre de desajustes graves nas relações entre os homens. A causa primeira,
conforme a tradição tomista, é bem clara: ausência de perfeições. Dessa premissa
propomos que o avanço da nous em escalas de maior significação é uma positividade e
implica agregação de perfeições em todos os campos e planos expostos na Filosofia
Concreta, por mais oscilante e paradoxal que a vivência histórica dos homens pareça
conclamar em contrário35.

No sentido inverso ao da reificação, sentido de queda de potencial virtual, atendo-


se ao campo subjetivo:objeto, proposto originalmente por Levy (figura 1), os processos de
subjetivação e objetivação interativamente se complementam nos mais diversos arranjos
virtuais (interação S-O) sobre aquilo que ainda não foi experienciado na práxis e valendo-
se do que já o foi. Dessa conjunção é possível extrair, a nível teorético, uma composição
mais equilibrada, se possível evitando excessos de subjetividade e objetividade. As
composições de maior potencial, para além do mínimo necessário para sair do desiquilíbrio
momentâneo, serão aqueles de maior relevância ou significação, aquelas que a experiência
de vida ensina e contribue para superar.

Pedagogicamente nossa escala teria aproximadamente a seguinte sequência


“ideal”:

O sujeito capta realidades inicialmente estanques com o meio (Objeto);

35
Há toda uma teorética adicional envolvida nesse tema (mal), a que Santos denomina tema do Meon, que
não será discutida neste trabalho (Teses 221 a 229). Por ora nos contentamos em aceitar que boa parte do
sofrimento de uma maioria inexplicavelmente contribui para o bem da sociedade como um todo em
momentos posteriores, o que pode ser observado a posteriori pela emergência cíclica de períodos de maior
prosperidade material ou espiritual após aqueles de menor prosperidade.

51
Em dado estágio de capabilidade cria objetos abstratos com alguma significação
(limitada à sobrevivência física - sobrevivência);

Pela imaginação, intuição, etc. desenvolve linguagem funcional;

Pelo discurso pragmático desenvolve perfeições aplicáveis ao agir cronotópico


(contingencial, modal, etc.);

Progride, interagindo consigo mesmo e com o outro como ser que é;

Dialeticamente, como Sujeito aberto e interativo ao Objeto, desenvolve vivência


páthica.

Agora, co-participativamente, desenvolve novas capabilidades e perfeições em


redes de relacionamentos semanticamente articulados; educa e forma discursos mais
elevados (universais) incluindo a percepção de arquétipos permanentes.

Julga, delibera, age perfectivamente, enfim, problematiza, cria tendências, e induz


a novas realidades perfectíveis (futuríveis).

-------xxxx--------

Historicamente a escolástica nos ensina que a apercepção da realidade tem por


base o tripé da lógica, gramática e retórica (trivium), segundo Joseph (2002) o tríduo das
artes da mente. Modernamente, estudos lingüístico-filosóficos reconhecem novas
possibilidades universais pela semântica (Austin, Anscombe, Gadamer, e muitos outros).
Mais recentemente, Carvalho vai mais além e propõem a articulação dos discursos
aristotélicos, num total de quatro, com (re) inclusão do discurso poético (Carvalho, 2006).
De forma mais abrangente teríamos discurso analítico, dialético, retórico e poéticos que
abarcaria todos os níveis de significação, desde o operacional seqüencial atômico até o
uno-totalizante mais universal. Nesse processo o pensamento utiliza a razão discernidora
fragmentando os saberes, e a intuição, como re-integradora do continum essencial-
existencial, justamente pelo recurso da analogia. Assim como é capaz de problematizar,
sabe integrar soluções...

FAZENDO JUÍZOS

Juízos virtuais como vetores de uma intencional

Sobre esse continum a mente faz uso da memória, de fantasmas ou entes virtuais,
e dos esquemas abstratos que formarão juízos virtuais sobre o passado e o presente para
tomada de decisões (possibilidades) de seu futuro. Os juízos são conceitos universais
daquilo que captamos como permanente, o que subsiste independente dos dados pontuais e
contingentes, nem aleatórios nem meramente seqüenciados (como queriam os
mecanicistas). O processo dialético é racionalizado pela mente por um processo de divisão

52
ou distensão que funciona por oposição entre uma coisa e outra que não seja ela própria.
Este um outro não é o não-ser de ordem ontológica. Não se trata do vazio ou nada
absoluto, e sim de um nada relativo que simplesmente ainda não se concretizou, não se
realizou (ainda não é isto ou aquilo).

Dado um ente qualquer, pode-se distinguir entre o que ele é efetivamente


num certo momento e aquilo em que ele pode (ou não) se transformar no
instante seguinte. Alguns entes abstratos, como por exemplo a liberdade
ou a justiça, podem se transformar nos seus contrários. Mas um gato não
pode se transformar num antigato. (Carvalho, 2010)

Para Santos a natureza da inteligência, graduada em sua dinâmica, ativa e passiva,


“trabalha com erros, imprevistos, monólogos infrutíferos, etc. e sobre essa realidade muitas
vezes dura e incompreendida, mas maleável, é que desenvolve alternativas em graus de
perfeição, formula e reformula novos juízos de acordo com uma matriz de valoração, e
então interfere nos acontecimentos” (FC).

A inteligência humana trabalha incansavelmente formulando juízos nessa via


dupla entre virtual e atual aprendendo cada vez mais com as virtualidades que a
experiência concreta (phronesis) confirma, dando a ‘segurança’36 para que se direcione no
mar de caminhos possíveis, obviamente não apenas com base em experiências individuais,
mas também as mais coletivas, representadas pelo conjunto de crenças, valores, tradição,
etc., etc.

Fazendo bom uso da liberdade de agir, ninguém cria antigatos ou unicórnios, nem
por isso será incapaz de colaborar na “construção” de futuros (futuríveis), crendo ou
intencionando ideais transcendentais de Liberdade e Justiça.

Mais adiante exemplificaremos como esse processo se daria na caminhada do


homem sábio diante dos obstáculos naturais e sociais, na devida proporção entre meditar e
agir, i.e., entre visualizar e avançar construindo realidade de acordo com graus de
liberdade. (figura 2).

------xxx-----

Desse confronto entre tese e antítese, ou tético e antitético, gera-se uma


“síntese”37 que complementa ou se complexiona com o objeto anterior na medida em que

36
Estudos acadêmicos recentes identificaram a necessidade de uma garantia (externa) que pudesse atestar um
conhecimento como crença verdadeira justificada (Gettier, 1963: notas de aula de Filosofia na UnB).
Entendemos que, em última instância, tal garantia não poderá vir de filosofia analítica e pressupõem a
necessidade de um conhecimento dado ou revelado de fora, eminentemente transcendental.
37
Síntese: para Santos, divergindo parcialmente da suprassunção de Hegel, interpretada por Vaz, a síntese
não é um terceiro termo, salvo como composição (syn e thesis), uma concreção que abarca o dualismo
antinômico fundamental de toda a existência: “porém numa posição acima dos extremos abstratos”. Em
nosso recorte, simplificaremos como uma resultante, vetorial, que conduz a algo que explica melhor a

53
se atualiza, que acontece efetivamente. Em sentido mais lato sensu, do Ser e do ente, na
concepção de Santos, essa síntese se dá num ponto arquimediano....

Ora, as coisas não acontecem simplesmente como queremos segundo uma


intenção qualquer, mas conforme intenções possíveis de se concretizarem num dado
conjunto de possibilidades pré-existentes que compõem as coisas materiais e formais
(eidos) latentes, em potência. Se tais possibilidades fossem dadas apenas na ordem da
lógica proposicional, V ou F, as ações humanas, para se realizarem, obedeceriam apenas a
comandos de um critério qualquer dicotômico, tipo conforme e não conforme (atrelado a
determinado parâmetro de validez estabelecido).

Nesse aspecto, Santos propõe que o verdadeiro conhecimento deve ir além dos
limites de adequação, ainda que ao custo de não se chegar a um conhecimento ou
deliberação definitivos, finalístico, pois, conforme Platão, o ato de filosofar é uma busca
incessante, um afanar que perdura por toda a existência dos entes humanos. Essa é a
realidade do ente limitado, que sequer conhece sua origem e seu destino e nem por isso é
um ente jogado no caos ou ao jogo manipulatório das tecnes e sim um ser mais ou menos
situado conforme mais ou menos direcionado a algum sentido38 finalístico, teleológico, que
é o contraponto do livre arbítrio.

------xxx-----

Fazendo juízos de valor que vão e vêm entre os mais altos (bem, liberdade, amor)
com quase infinitos graus de liberdade (“por amor tudo podes”, 1 Coríntios, 13:7), até aos
menores - para tal coisa vale isto, mas também aquilo, antes de bater o martelo final: aqui
resta apenas isto ou aquilo outro, S ou N, a deliberação. No seu mesocosmo, fazem juízos
medianos, afetos e afetados, conforme pressente serem os mais coerentes à situação
vivenciada, no nosso exemplo, entre o patamar A e B, um misto de afeições das mais
imediatistas às mais postergatórias. As mais sábias ou prudentes (phronesis), típicas dos
indivíduos mais longuinânimes, resultam de um jogo de forças que vêm e se vão,
dinamicamente, ora em função dos possíveis que acontecem numa singularidade, ora
daqueles que emergem a partir dessa singularidade, numa eclosão de novas possibilidades,
nós de tendências, tudo conforme o sentido orientador a ser tomado pelo sujeito co-
participativo – aquele que coopera com os potenciais disponíveis na devida proporção em

condição anterior, a um geral, mais universal ou de maior significado para compreensão do real (LED,
p.155).
38
Sentido abre leque de múltiplas concepções. Baseado em Vaz, consideramos os principais Sentidos que
movem o homem e a humanidade são teleológico, soteriológico e escatológico. Pelo que depreendemos das
obras consultadas de Santos pudemos depreender diretamente o último sentido mas, certamente, é possível
deduzir indiretamente os demais sentidos esplendidamente esclarecidos pelo eminente filósofo de Ouro Preto
(Vaz, 2002 e Vaz, 2004).

54
que se conexionam simultaneamente com os de sua natureza, campo subjetivo, haec, e
aqueles da essência da singularidade, campo objetivo, sua quididade39.

“Há para todas as disposições do caráter referidas (entre outras a


disposição ética), tal como para todas as excelências, um determinado
objeto em vista do qual quem dispõe de um sentido orientador aumenta
ou diminui a tensão nessa direção. Há também um certo horizonte que
delimita as posições intermediarias, as quais, dissemos, residem o espaço
intermédio entre o excesso e o defeito, uma vez que elas existem
conformadas pelo sentido orientador”....quando falamos (em verdade)
“devemos proceder em conformidade às disposições do meio e tal como
as prescreve o sentido orientador” (Aristóteles, E.N. 1138b22-29).

O sujeito consciente é motivado a agir de acordo com um sentido orientador que


acredita conduzi-lo a algo melhor, que pode ou não ser confirmado por sua vivência mas
que, independente das contingências (a modal de Santos) geram tensões e novas
disposições a agir (ou esperar), como que navegando por entre os horizontes que antevê.

“O que, por um lado, no pensamento puro é afirmação e negação, é, por


outro, no horizonte da intenção, perseguição e fuga. Assim, uma vez que
a excelência do caráter é uma disposição que decide e a decisão é uma
intenção deliberada, segue-se no caso de tratar de uma decisão séria, o
principio da decisão terá de ser verdadeiro e a intenção correta” (ibdem,
1139a22-26).

Entre as posições intermediarias, em dada singularidade, abrem-se e fecham-se


multidões de tensões e vetores na dinâmica da subida e decida visualizante. Somente
algumas serão percebidas, conhecidas e internalizadas como um componente do seu ser.
Os maguinânimes enxergaram as possibilidades como perceptos mais ou menos
adequados, utilizando-os a curto ou longo prazo por um critério valorativo inerente àqueles
efetivamente capazes da excelência. A estes, inovadoras possibilidades dificilmente se lhes
escapam, conseguem perceber oportunidades onde muitos só vêem riscos. Estes costumam
se omitir ou quando encurralados fugir ou escapar. Aqueles, os maguinânimes,
longuinânimes, costumam, encarar, assumir, arriscar enfim aventurar pelos caminhos da
vida, os percursos da bem-aventurança.

------ xxx -----

39
A separação aqui é apenas didática, não devendo ultrapassar o entendimento de momentos
cronotopicamente distintos, o que não ocorre. Uma vez atualizada, tudo se funde como singularidade.
Segundo a doutrina aristotélica o ato de certa forma precede a potência. Segundo Fabro, “Santo Tomaz
supera a relação (ou tensão) aristotélica entre o ato e a potência, de modo que o ato não é intrinsecamente
informante, mas é constitutivo de si mesmo, de sua emergência sobre qualquer potência” (Fabro 1974
apud. Silveira, 2008)(...) pois, “qualquer ato ou perfeição antes deve ser, ou seja, antes deve ter
previamente o ato de ser”, o que, no sujeito, confere “perfeição ad intra” (Silveira, 2008).

55
A percepção, por nós proposta, vai responder a indagação básica do filósofo: se
ter a percepção é captar algo do mundo tal qual é, se é “interpretar ou inferir informações
indiretamente sobre o mundo, ou se é “construir” objetos do nosso mundo do fenômeno 40”
(Abagnano, 2008). Se as tendências atuais são de:

“definir a percepção em termos de intencionalidade, incluindo nossos


interesses e nossas atitudes afetivas para aquilo que recebemos do
ambiente, em que a experiência e a interpretação iluminam o mundo com
seu caráter intencional e com sua objetivação para a ação” (grifos meus)
(Abagnano, 2007),

Na caminhada dos entes bem intencionados, as experiências e interpretações


seriam possíveis sem a correta percepção vivencial do sujeito consciente? Em sua vivência,
quanto maior o grau de liberdade, mais o sujeito sai de si para o outro, cria perfeições,
perceptos de maior relevância em algum ponto entre os extremos da subjetivação, com
prevalência sobre si mesmo (atitude solipicista) e a objetivação, idealização ou
abstracionismo (atitude absentista), busca o ponto arquimediano, a síntese conveniente em
dada singularidade, constrói objetos, cria novas potencialidades, novas tensões, novas
respostas, a altura dos novos problemas, de maior grau de complexidade, para além da
relação direta eu-tu.

Então, as interpretações mais abrangentes possíveis, com maior abertura para as


potencialidades da vida transcendental, deve consubstanciar a postura mais coerente dos
entes-ser, para o máximo alcance, dado ou manifesto pela Energéa, educado pela “luz” da
Mathesis, rumo a enteléquia, a enteléquia de qualquer ente em seu devir circunstancial.

ENGENDRA OBJETOS (ARTEFATOS) E CRIA SINGULARIDADES

Para começar, Lévy define o meio como “espaço antropológico”. Em outros


termos “um sistema de proximidade (espaço) próprio ao mundo humano (antropológico) e
logo dependente de técnicas, significações, linguagem, cultura, convenções, representações
e emoções humanas."

O desafio do homem extensionado pelo artefatos é não se deixar isolar como um


sujeito dissociado dos objetos que o cercam, apesar das dependências culturais que
promovem artificialmente o contrário, mas de forma alienante, tendo efeito contrário

40
Fenômeno: na doutrina de Santos “fenômeno inclui mas não se reduz ao epifenomênico, seja manifestação
interior, da psique, ou exterior, como objetivação, totalmente inacessível ao ente. Em nosso raciocínio
concreto simplificamos o conceito como uma Singularidade que no ser transpassa a existência. Em vez de
mundo do fenômeno talvez mais apropriado seria inferir um continuo analógico de singularidades, que se
manifesta como energuéa. Esse ponto pode ser importante para evitar a tendência reducionista de Levy
(2003) com sua interpretação do esquema diagonal entre Real e Virtual (Seta de “reificação”) na figura 1.

56
(reificação strictu sensu). Se, como vimos, o sujeito e objeto estão indissociados...o resgate
da alteridade se dá pelo reconhecimento do outro como uma virtualidade diferenciada em
sua personalidade, mas equivalentes em sua essência, e nesta qualidade, sempre
predispostos a restaurar o vínculo de um continum analógico.

Cada espaço, mesmo interpenetrado por outros, guarda ainda sua topologia e sua
axiologia, ou seu sistema de valores ou de medidas, particular. Os espaços emergem do
interior da relação da vida humana com seu meio, individual e comunitária (família,
agremiações, igreja, etc.), como mundos vivos, e são continuamente engendrados pelos
processos e interações que se desenvolvem dentro desta relação fundamental.

Tudo que é em ato, é indeterminado enquanto em potência, e esta,


atualizada, revela novas possibilidades (LED)

Se considerarmos o mundo real, contemporâneo, como uma singularidade, um


determinado momento histórico e cultural resultante de certo conjunto de ciências, crenças,
valores adquiridos paulatinamente pela capacidade dos entes de comunicar seu
aprendizado propriamente humano, vivencial, é impossível não ver aí o peso dos elementos
simbólicos que estruturam e lhe dão significado, permanentemente, independente das
circunstâncias históricas e geográficas, em seu devir. Subindo aos mais elevados níveis de
universalidade, ao nível das cosmovisões, fica mais nítido o papel dos esquemas
simbólicos que marcaram e deram novos ordenamentos às civilizações, superando crises
avassaladoras (pensemos na superação das invasões bárbaras); por serem aqueles que
resgatam tradições anteriores, esquemas estes coerentes com o paradigma anterior,
eliminando percalços acidentais e extraindo os conceitos essenciais, permanentes
(totaliters), para o re-ordenamento a novas demandas de ordem civilizatória....

A linguagem humana é o exemplo mais rico de como significados vão sendo


incorporados ao léxico gramatical visando atender a singularidades maiores,
semanticamente complexos, em resposta aos desafios que vão se delineando no horizonte
nos crescentes graus de complexidade do processo civilizatório, ainda que linguagens
específicas inteiras venham a desaparecer na prática (devir dos povos). É o caso do latim:
serviu magistralmente para atender a necessidade de engendrar significados de ordem
eminentemente abstrativa, muito além do meramente sensível, conciliando-os com as
demandas normativas de convivência dos entes (jurídicas e espirituais) oriundas da lógica
grega, do direito romano e da escatologia hebraica. Serviu para posicionar os entes em sua
configuração histórica e cultural. Como todo símbolo serve apenas de meio, mas deu sua
contribuição e, até hoje, serve para enriquecer e aprimorar o léxico jurídico e vernacular
contemporâneo.

------ xxx -----

Entrementes, mais que um ser falante, em nossa escalada, o sujeito que intenciona
algo, dado que não se reduz ao eu nem a um predicamental, é um sujeito que

57
analogicamente participa do Ser Supremo por uma configuração exclusiva e própria, pode-
se dizer, uma singularidade “maior”, singularidade das singularidades, como Pessoa.

Para Tomas de Aquino, se o homem busca é porque intenciona para algo que o
atrai, uma coisa que pode ser qualquer coisa que não seja ela própria, caso contrário não se
teria pelo que buscar. Se se busca, busca-se algo que nos falta. Modernamente Maritain
inaugura essa teorética fundamental da Pessoa, do ser pessoal em sua angústia interior que
move o ente para um algo maior, mais universal. Essa situação por si já demonstra uma
primeira tensão, uma força de repulsão ou atração entre algo presente em si mesmo e algo
exterior ao sujeito, o objeto do pensamento que incita a que o pensamento se mova, saia de
um panorama estático para outro (no intervalo de tempo do mesocosmo, cotidiano) que
pressupõe o mais satisfatório e que melhor se conforme à minha realidade vivencial
subjetiva. Se o novo objeto já não é o mesmo, será um outro, uma alteridade que já não é
um terceiro estanque, tão distante, mas uma composição que se pressupõe melhor ou mais
adequada que a anterior, em uma re-solução de continuidade, um transitar contínuo de
uma perfeição menor a uma maior.

Ao novo arranjo composicional agrega-se uma multiplicidade de coisas que


melhor represente algo intuído em seu totum, indivisível, seja um objeto, um nome ou um
conceito. A tensão leva a uma intenção de distanciamento, que permite visualizar as coisas
em sua forma própria, peculiar, reunificando-as numa imagem (gestalt) o que foi
fragmentado pela razão discernidora, analítica.

Equivale a um vetor em sentidos divergentes, provavelmente opostos, de cima


para baixo, do universal ao particular, analiticamente; e do singular ao universal,
indutivamente, entre outros, pelo recurso da analogia.

A mente humana não é apenas captadora, armazenadora e coordenadora


de imagens percebidas. Ela é capaz de abstrair o que ultrapassa a
singularidade, a particularidade dos fatos, o que somente é possível no
momento em que capaz de formar conceitos universais. A discussão
desse ponto cabe, pois, à analise da validez da indução, o que já foi feito
de modo definitivo na Filosofia. (SLE, p. 125)

------ xxx -----

Se linguagens formais inteiras um dia morrem, o esquema eidético a que aponta


permanece, as construções desenvolvidas, na cultura como um todo (linguagem religiosas
e outras) ou na comunicação ordinária (linguagem ordinária), porque dotadas de vivência
com-creta, participativa, ganham novas dimensões, agregam expressiva carga semântica,
extraindo potencias de ser do esquema eidético-noético...enfim, modificam o universo.

7. Ser co-participativo (Potencial que insiste, real que subsiste, virtual existente e
atual que acontece.)

58
A escalada dos entes não segue uma ascendência linear. Procuramos demonstrar
como os objetos virtuais vão agregando a outros em escalas crescentes de complexidade
formando sistemas organicamente engendrados que poderiam representar inicialmente a
escalada dos indivíduos em seu ambiente e também a formação dos agregados maiores que
formam a realidade da humanidade (pp. 25 e 42). Propusemos ainda que, neste processo,
os entes vivenciam algo de maior ou menor alcance conforme graus de possíveis que se
abrem e fecham de acordo com o uso de sua liberdade e condições predisponentes como,
por exemplo, a feliz conjunção de intenção corretas com oportunidades favoráveis de agir e
sofrer (pp. 18 e 32). Se considerarmos que as condições intrínsecas dos entes (por
exemplo, sua capacidade de perceber e comunicar o real em dado momento) tenham
relação com condições predisponentes extrínsecas, certamente estas não podem advir pela
simples correlação entre intenção do agente e suas decisões de agir. Por mais que “saiba”
aonde chegar e ainda que possa trabalhar para torná-la o mais favorável possível.

Se pelo que expusemos até aqui existe um momento ordenado e coerente com um
potencial de real accessível ao homem e “ditada” pela Normal, deve existir um caminho
exequível, uma proporção adequada, entre os ideais projetados na mente (de maior
resolução) e as correspondentes ações operacionais virtuosas postas em ação, na prática.
Sempre que possível seria aquela que melhor se coadunasse com os ideários dos outros ou
de uma espécie de decisão catalisadora para que outros cooperem mais no que vai ou já
está sendo executado, apesar dos obstáculos e ainda que estes ainda não compreendam ou
estejam dispostos a aderir plenamente ao que foi antevisto.

Pressupondo o momento A, no patamar de equilíbrio A1 (digamos de consenso de


uma comunidade x1 no ambiente x1), se desejamos alcançar um patamar B de maior
perfeição, em um novo equilíbrio, as projeções imaginadas no ambiente x2 (ainda um
hipotético) só poderão ir se concretizando, sem violência ou maior coercitividade, na
medida em que, na transição, saibamos: por um lado, manter o essencial, como por
exemplo, os valores (moral, missão institucional, poder pátrio) e alguma parte do acidental
que foi intencionado e, por outro, flexibilizar outra parte do acidental (ainda que não
intencionado) de acordo com os graus de abertura que efetivamente encontrar, seja por
minimização de conflitos ou, por exemplo, pela livre adesão de outros. Nesse caminhar
dificilmente se poderia encontrar condições tão favoráveis a ponto de que, para cada sub-
projeção intencionada, houvesse uma linear e proporcional gradação de abertura pacífica
para agir e concretizar-se até alcançar o novo estagio de perfeição exigida para si e para a
comunidade afetada....Na realidade existem obstáculos compreensíveis e incompreensíveis
que precisam ser contornados ao máximo, sem recurso da violência. Como os obstáculos
precisam ser melhor intuídos ou analisados, a tendência seria de adiar as decisões mais
importantes para melhor deliberar, em graus gradativos e com a interatuação e o desenrolar
dos acontecimentos. Nessa fase há predominância de visualização (resolução) sobre ações.
Nesse ínterim o homem sábio (ou empreendedor), experiente, aponta seus esforços,
pensamento, volição, afetos e vivência anterior para a correta leitura ou percepção de
potenciais latentes: na verdade mistos de latente-virtual, teoréticos, submete-os
paulatinamente ao jogo do devir, cria tensões e problemáticas verossímeis; e direciona seus
59
esforços de ação, reação ou mesmo inação para contornar os obstáculos. Eventualmente até
mais sofrendo ações de terceiros do que agindo operacionalmente, mas adquirindo e
comunicando vivências.

Por outro lado, ações têm que ser tomadas para atingir o patamar B. Uma
seqüência de ações deve ser desencadeada, ações correspondentes aos graus de abertura
que efetivamente surgirem, para alcançá-la. Agora há predominância de ações de acordo
com o deliberado (graus de liberdade) sobre novas resoluções. Em algum ponto as duas
devem se encontrar. A curva final assumiria uma curvatura assintótica à esquerda. Quanto
maior o nível a ser alcançado, maiores os obstáculos, mais complexas serão as decisões a
serem tomadas, maior a curvatura em relação a uma reta utópica e imaginária (figura 3).
Conseqüentemente, também mais coerente, e sábia, deverá ser a deliberação. O ponto de
inflexão representaria aquele em que o sujeito percebe ser o momento de começar a
deliberar mais decisivamente sobre o que foi projetado ou intencionado anteriormente.
Quanto mais complexo tender as negociações e variações ambientais, mais distante o ponto
ficará da reta imaginária, mais tensões problemáticas deverão ser equacionadas. Em
compensação, por alçarem visões mais universais, levarão às melhores e mais duradouras
soluções, aquelas de maior alcance.

Figura 2 - Curva imaginária, assintótica à esquerda, entre teoria e prática


numa dada configuração essencial-existencial

-------xxxx-------

60
Na matriz L-R-V-A, o processo Mathesis-Energuéa-Enteléquia pode ser
entendido como processo que viabiliza o método ver-julgar-agir do homem sábio quando,
no pensar uma transição entre Real objetivo e Virtual subjetivo, for relevada a condição
essencial do ser sobre qualquer outra objetivação social ou coletiva.

Nas ações políticas, com a elevação dos graus de complexidade das relações e
convenções sociais a relação entre as projeções e juízos virtuais e as correspondentes
deliberações tornam-se cada vez mais imbricadas e dependentes de outras ações de agentes
individuais e entidades a essas vinculadas, nos tempos históricos, exigindo reflexões mais
profundas e sábias. Considerando que, apesar da complexidade das relações sociais a
dimensão maior da pessoa humana permanece como centro valorativo das sociedades,
Ponce (2002), baseando-se em Aquino, atesta que “não é possível pensar uma situação de
governabilidade das ações propriamente humanas que não releve o bem comum como o
objeto necessário para exercer o poder político”, i.e., o exercício do bem comum pela
virtude do agente, que por sua vez “é um dom a ser exercitado pelo senso da justiça e da
prudência (...) e propõe a prudência governativa como aquela que proporcionasse os
elementos cognoscitivos necessários para a legislação e o governo em vistas desse bem
comum. A justiça social educa a vontade facilitando a realização desta. Se um governo
falha nisso perde seu sentido de existir (...)”

Portanto, a prudência governativa deve ser a reta razão do fazer político, i.e., a
penetração intelectual na natureza dos atos humanos políticos para que o homem alcance
seus fins conforme sua essência ou, aquela que nos permite, mediante as mais profundas
reflexões, descobrir a lei que Sto. Tomaz de Aquino define como “ordenação da reta razão
ao bem comum por quem tem o cuidado com a comunidade (ibidem, q. 58, a.6 e 8)”. A lei
humana tem caráter de lei enquanto se ajusta com a reta razão, e na medida em que se
aparta da razão, se converte em lei iníqua, e como tal não é outra coisa senão violência
(ibidem, q. 1 a 3 ad. 2). Para Ponce a circunstância favorável só ocorre pela “conjunção de
governo prudente com convivência em liberdade tranqüila ou serena, onde os entes possam
deliberar de acordo com sua consciência”... dependendo das circunstâncias, pelo contrário,
“a tolerância a um estado de não violência pode ser tão injusto com as guerras armadas
pois é necessário viver em verdade para que a paz seja efetivamente fruto de solidariedade
e justiça”...

Isso significa respeitar a especificidade ou singularidade da racionalidade


direcionada a eleger responsavelmente conforme direitos e deveres emergentes de relações
sociais acidentais em dado ordenamento entre as pessoas que seguem existindo por
primeiro, em sua quididade, independente de outros atributos essenciais (Ponce, p. 165):
em outros termos, “a sociedade nunca deve ser hipostasiada”. Como dissemos as pessoas
são ontologicamente incomunicáveis que se comunicam por meio de suas faculdades e são
afetadas por relações especificas de ordem social e jurídica. As relações acidentais
permitem o aperfeiçoamento dos entes, mas são apenas meios e não têm autonomia ou
titularidade desvinculada das pessoas. O justo não é o que tem direitos e deveres e sim
aquele que os cumprem (ibidem, q. 57, a.1 a 4). Portanto os juízos virtuais válidos do

61
governante ou do legislador devem ser aqueles que permitam ações coerentes e realísticas
com o objeto dessas medidas, no caso, o bem comum.

-------xxxx-------

Nas relações sociais de uma organização o mesmo método pode ser extrapolado,
respeitadas as especificidades das relações capitalistas (ex.: relação empreendedor:servidor
ou gestor:gestionado), e da complexidade das interações organizacionais. Num mundo
globalizado onde a competividade entra como fator de sobrevivência de empresas e até
instituições, as tomadas de decisão do gestor-empreendedor sábio, digamos de prudência
administrativa, devem relevar os fatores intrínsecos e extrínsecos, variáveis e permanentes
que seguem um padrão de universalidade independente da multiplicidade de variáveis e
riscos típicos da dinâmica dos ambientes organizacionais. A título de exemplo, relacionado
a linguagem comunicativa (informativa e motivacional) entre os diversos atores do
processo organizacional, as deliberações devem objetivar o engajamento destes de forma
colaborativa, ordenada aos objetos universalmente mais elevados até, por exemplo, o nível
de missão institucional. Quanto mais o individuo internaliza seu papel na organização,
melhor alcança os objetivos. Se, conforme Joseph, a linguagem funcional é aquela que
transmite pensamento, volição e emoção, as expressões comunicativas de melhor eficácia,
na organização, serão aquelas em que os indivíduos sabem transmitir conhecimento
significativo respeitando as peculiaridades desses domínios (próprios do ser-pessoa),
incluindo os valores pré-existentes, a serem somados aos daqueles consensuados no seu
devir cotidiano (ambiente de trabalho). Nesse processo comunicativo, Nonaka e Takeushi
(1997) classificam o conhecimento em dois tipos: explícito e tácito. O conhecimento
explícito é tangível, visível, de natureza objetiva, de fácil comunicação e armazenamento,
podendo ser externalizado através de palavras, fórmulas, dados, planilhas, entre outras
maneiras. Por sua vez, o conhecimento tácito é de natureza subjetiva, de difícil
comunicação, transmissão e aprendizagem, por estar embutido nas ações dos indivíduos,
que são carregados de emoções, valores, ideais, intuição, habilidades e experiências
pessoais. Para esses autores, consagrados nas ciências das organizações, o conhecimento
tácito mobilizado é ampliado na organização por meio da conversão do conhecimento ou
de uma “espiral do conhecimento”, na qual “a interação entre o conhecimento tácito e
explícito atinge escalas superiores à medida que sobem os níveis ontológicos”. Para que o
processo de comunicar e expressar conhecimentos tácitos intuitivos ocorra, é fundamental
“a utilização de metáforas e analogias, pois o uso da linguagem figurada é uma forma de
fazer com que indivíduos fundamentados em contextos diferentes e com diferentes
experiências compreendam algo intuitivamente por meio da imaginação e dos símbolos”.

O empreendedor sábio será aquele que melhor educa, instrui e delibera,


conjugando esses fatores (explícito e tácito), fazendo os melhores juízos de seu papel de
gestor e promotor de desenvolvimento material e espiritual dos indivíduos e da
comunidade local. Assim agindo e deliberando, estará conquistando pathência viva
(motivação) e o engajamento dos indivíduos. Obterá correspondência na medida em que
estes verão, nos seus próprios esforços e na experiência laboral, não mais uma forma de

62
alienação, mas as melhores possibilidades de ordenamento ao bem comum da organização
e das famílias e estas, como consumidores e produtores de bens e serviços, são verdadeiros
motores do desenvolvimento econômico e social.

-------xxxx-------

Se a potência do ser (latente) tudo pode no plano das essências, nada ou pouco
pode quanto a entes que podem, ou não, ser mais ser, em sua manifestações (individuais) –
tornam-se objetos reais que acontecem em parte. Assim, paralelamente ao virtual-atual, as
coisas acontecem ou deixam de acontecer, parcial ou totalmente em seus devidos âmbitos,
quando os entes efetivamente colaboram (ou não) para que os latentes deixem de ser isso,
mera potência de ser, para se realizarem. Não como mera casualidade eventual, efêmera, e
sim como realidades persistentes, na medida em que os objetos antes idealizados ganham o
significado que lhes são próprios, i.e., referem-se a objetos que se concatenam com a forma
(eidos) na proporção arquetípica que são conferidos ao ente, de acordo com seu arithmos,
na proporção que lhe confere dentro da ordem maior universal, do logos, na ordem das
essências.

Neste plano, o real-possível, algo que insiste (Levy, 2003), também se


intercambiam com o real que subsiste (agora independente do contingente), como um real-
real, pois a realidade intelectiva a que pertence, não é uma esfera de realidade limitada
como a da matéria extensa, e sim um objeto real que se expande intensivamente, numa
escalada, à medida em que novas combinações de possibilidades avançam pela
superabundância do ser (Maritain, 1996) em atos determinados (finitos antitéticos) rumo ao
ato dos atos, ato puro (infinito tético) (Santos e Vaz, passim).

Novas realidades surgem (realizações) à medida que novos conjuntos


(conseqüentes) de possibilidade aparecem (dos antecedentes) e estas, por sua vez,
alimentam novas realizações, potencializações oferecidas por ações criativas também
infinitas surgidas no plano da existência, tudo sempre de acordo com a lei de
proporcionalidade, entre os entes e entre os entes e o Ser Supremo (processão). Assim, os
quatro vértices, virtual-atual-potencial-real se concatenam harmoniosamente como numa
espiral ascendente (ou então, degradativamente, numa espiral descendente41), mais ou
menos como um motor a quatro tempos, ressalvado a limitação da metáfora, claro está,
pela hierarquia entre o plano superior, atrator (tropos), das essências, a do Ser
imparticipado, e o plano inferior, o atraído, da existência, no âmbito dos entes criados, ser
participado (uma vez que no Ser Supremo essência e existência se fundem). (figura 1).

Os indivíduos são agentes construtores de uma realidade conjuntural que, se por


um lado, excede sua própria condição, limitada, singular e determinada, por outro são
construtores ou objeto-construtores (pensemos nas suas instituições, comunidades, etc.) os

41
O aspecto negativo, desagregativo, como dissemos, é tema do Meon. Em nossa esquemática
mantivemos enfoque em “escalada” positiva.

63
quais, por sua capacidade articuladora mais universal, podem contribuir
concomitantemente (em ato) tanto para modificar ou transformar, positivamente, sua
própria condição, à medida que obedecem a uma ordem subjacente que o supera ou o
oprime, mas que ele próprio em dada configuração, ou em certa modalidade, dela participa
e contribui. Enquanto abstratos, os múltiplos objetos virtuais – a imagem de uma vaca ou
de um unicórnio alado, podem ou não representar possibilidades. Se se são coerentemente
engendrados, vão passar a compor o real, vão se delineando na existência-essência que flui
in continenti, dependente ou independente de uma maior ou menor participação entitativa
42
.

Tomando o exemplo proposto, de um sujeito que articula imagens mentais, a


experiência vivencial consolida esquemas pelo convívio que envolve o racional, afetivo e
intuicional, três aspectos da percepção dos entes que “iluminam” a mente formando
fantasmas mais ou menos persistentes, do passado e do presente. Como vimos, no campo
Sujeito:Objeto, em algum ponto de nossa Matriz, o ser pessoa, “cria” percepções de
mundo, pensa e ensina criando humanidades. Outros campos e planos da decadialética
abririam outras muitas novas perspectivas de pensar o real concreto.

Apenas a titulo de exemplo, referindo-nos ao típico afanar cotidiano dos entes, em


seus hábitos, ilustramos o transitar nos campos do permanente e variante. Nestes, a
repetição (plano da Série) é um dos principais recursos de modelação das atitudes. O ente
percebe na repetição a garantia de suas atitudes no futuro e é por ele que opera
cotidianamente. Se ficasse nisso não seria capaz de mudar grande coisa. Na medida em que
avança alçando vôos mais altos (maior resolução), formula autênticas cosmovisões, é que
consegue visualizar as conexões pertinentes com singularidades, a sua mesma, a do outro,
da humanidade, de Deus. Por outro lado, é também através do hábito cotidiano que,
descendo aos mais elementares, de pormenores, de irepetíveis isolados, ou de meras
seqüências repetitivas (a oração, uma mancha inesperada na placa de petri, o dedilhar das
teclas do computador) que persiste no afanar da sabedoria (Sofrosyne): age e espera.

------- xxxx--------

Em nossa escalada, os maiores potenciais de ser emergem a partir do gérmen


lançado pelas aventuras do saber humano, seja nas ciências, nas técnicas, na religião e no
testemunho ou pedagogia vivencial: gérmen que se expande, como energia espiritual,
conforme coerente e ativa participação dos entes em sua realidade essencial e
circunstancial, ou seja, o melhor uso de sua liberdade, e conforme aquilo que ele mesmo
acredita, o que de melhor será capaz de desenvolver em visualização aperceptiva.

42
Entidade aqui pode representar realidades vivenciais de mais alta repercussão universal
propriamente humana (pessoa humana), como, por exemplo, o Evento de Cristo e a comunidade
cristã que se seguiu.

64
Pensar o real como uma resultante de forças decorrentes dos atos exclusivamente
interiores (subjetivismo, psicologismo, etc.) ou exteriores (objetivismo, logicismo,
panteísmo), daquilo que acontece, é uma tentação que leva a enxergar no próprio atuar uma
ontologia, dissociada do real ontológico, da realidade do ser que é. Trata-se de uma visão
reducionista e alienadora que acaba por excluir o sentido de vida em toda sua
integralidade.

Ao avaliar retrospectivamente as formas de visualização abstrativa, na perspectiva


de Maritain, Petrônio (2008) concluiu que a distinção decorre do duplo erro de
interpretação do real, entre as visões ascendente e descendentes: primeiro da escolástica
em pensar uma philosofia naturallis (filosofia da natureza) como uma estrutura conceitual
capaz de dar explicação aos fenômenos da natureza. O Segundo equívoco resulta de uma
reação a esta visão, gerando posicionamento radicalmente oposto, a partir do dualismo de
Descartes e principalmente do empirismo de Bacon: explicar o real exclusivamente por
suas manifestações empíricas e deduções matemáticas.

Permanece aí certa tensão entre transcendência e imanência, que,


em termos gnosiológicos, se manifesta na intencionalidade do
conhecimento (Petrônio, 2008).

As tensões entre as ciências, inclusive ciências do ser (ontologias) continua a ser


um importante motor de problemáticas, nós de tendências, que são fonte de conhecimento
e saber. Mas a verdadeira ciência do Homem, como observador imerso no universo da
observação, depende de um adequado enfoque das diversas facetas do real, levando e
consideração a contribuição de sua própria visão (subjetiva) de mundo.

As ciências viveram uma euforia inicial enaltecida pelas conquistas de sua


autonomia material e pelo uso supra-intensivo de tecnologias. Passada essa fase mais
primitiva ou positivista, em visão limitada de real, à medida que demasiadamente
extensionada por artefatos, atualmente estão-se descobrindo novos potenciais integrativos
advindos da maior capacidade de articulação dos saberes, justamente pela maior
universalização dos conceitos aplicáveis, em visão holística, explorando alcances antes
inimagináveis. Entretanto, penetrando no campo do necessário e do contingente, campo
ontológico, tais articulações estão atreladas ao intencional (domínio da ética) e, conforme a
intencionalidade subjacente e os juízos daí decorrentes, tais perspectivas ou
potencialidades do virtual podem se reverter em atos (vetores resultantes) com
conseqüências radicalmente divergentes: ora para construir perseverantemente novas
possibilidades, ora para destruir levianamente o que se conquistou.

Agora, se se pode imaginar a potencialização mais ampla escala já produzida pelo


homem não seria esta a da linguagem humana? De certa forma os escolásticos perceberam
isso melhor em sua fase tardia (século XIII), ao separarem, nas universidades emergentes,
o trivium, arte da mente, das artes “produtoras”. Ao estabelecerem os dois campos do saber
como domínios distintos e autônomos, sem rupturas intransponíveis, deram as condições
para um profícuo intercâmbio entre racional e intuitivo, transcendente e imanente, theoria

65
e práxis (Vaz, 2002). Desse exercício “pré-acadêmico” emergiu as condições para melhor
funcionalidade da linguagem: do lógico ao gramático e deste ao retórico, ainda no plano
virtual (trivium), propiciando o surgimento ou o gérmen das então chamadas artes liberais
(quadrivium), base de formação das Ciências e da Cultura ocidental.

Contemporaneamente, pela filosofia concreta, a compreensão dos juízos virtuais


com recurso conceitual integrativo da analogia pode contribuir de muitas maneiras para a
integração dos saberes.

8. Considerações Finais

Muito mais que pretender enclausurar a esquematologia de Santos em um quadro


hermenêutico, mesmo que restringindo o recorte do imprescindível conceito da analogia,
neste espaço procuramos despertar para as amplas possibilidades filosóficas de sua vasta
obra perpassando, como que em pinceladas, por diversos campos de exploração de seu
pensamento sem deixar de antever os inusitados pontos em comum de pensadores atuais
com mestres da chamada filosofia perene. Valendo-se do raciocínio decadialético e do
filosofar concreto, ousamos propor uma forma de pensar que pudesse colaborar numa das
principais metas de Santos: resgatar o realismo moderado pela ‘síntese’ entre o idealismo
transcendental e o realismo imanente, um elo perdido em algum ponto da filosofia desde
Descartes. Abrem-se miríades de temas e hipóteses a serem avaliadas, criticadas, enfim,
dissertadas.

A título provocativo inicial, levantamos, do exposto até aqui, temáticas que


mereceriam maior dedicação filosófica na caminhada de entes analogicamente partícipes
do Ser:

1. Como os entes criam virtualidades concomitantes às demandas contingenciais


de menor alcance (pragmática) aos de maior alcance (semântica) nos diferentes planos de
sua vivência existencial?

2. Como os entes podem virtualmente participar na construção de mundos


possíveis sem recorrer violência?

3. Como os entes, pela linguagem simbólica, respondem aos chamados de maior


consistência vivencial?

Virtual e atual se intercambiam como duas forças antinômicas que apontam para
as potências de ser, criam problemáticas sobre o real concretizável, mistos de latente-real,
formam juízos e, como conhecimento do conhecimento dos entes, metalinguagem,
comunicam vivência humana concreta.

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