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Kant e Lonergan:

O a priori mo Conhecimento Humano


G iovanni B. S ala*

R esumo : O presente ensaio, aqui publicado em tradução original para Português, cons­
titui uma secção m uito significativa da conhecida obra de Giovanni B. Sala sobre
Lonergan e a sua relação com Kant. Trata-se de um estudo comparativo das teo­
rias do conhecimento de Im manuel Kant e de Bernard Lonergan, tomando-se como
ponto de partida uma análise do estatuto do a priori no conhecimento hum ano tal
como no-lo apresenta a Crítica da Razão Pura, de Kant, para depois se apresentarem
as respectivas lacunas, insuficiências e contradições mediante o recurso a Insight,
a obra mestra de Bernard Lonergan. Para o filósofo jesuíta, com efeito, o interesse
primordial consiste em realçar a possibilidade do conhecimento do ser, possibilidade
essa fundamentada na natureza do juízo e na natureza do questionamento humano.
Para além disso, mostra-se também como em ordem a ultrapassar a impossibilidade
do conhecimento numénico, a reflexão lonerganiana sublinha o conhecimento como
estrutura empírica, inteligente, racional e responsável, capaz de captar a realidade,
uma vez que esta é, segundo Lonergan, intrinsecamente inteligível.
A priori; Categorias; Conceito; Conhecimento; Dinamismo da
P a l a v r a s -C h a v e :
consciência; Entendimento; Espaço e Tempo; Estrutura do conhecimento; Expe­
riência; Fenómeno; Incondicionado; Inteligibilidade; Introspecção; Intuição;
Juízo; Kant, Immanuel (1724-1804); Lonergan, Bernard (1904-1984); Método
transcendental; Númeno; Objecto; Postulado; Pré-compreensão; Processo
cognitivo; Questão; Razão; Realidade; Sensibilidade; Ser; Sujeito; Viragem para
o sujeito.
A bstrac t: The present text is a translation into Portuguese o f a section o f a work by
Giovanni Sala on Lonergan and his relation with Kant. It am ounts to a compara­
tive study o f the gnoseologies o f Kand and Lonergan, whereby the starting point is
an analysis o f the statute o f the a priori in hum an knowledge such as we find it in
the Critique of Pure Reason o f Kant, so that in the process the author also shows
the corresponding insufficiencies and contradictions by means o f a reading o f the
work Insight by Bernard Lonergan. For the Jesuit philosopher, the main interest o f his
gnoseology consists in an affirmation o f the possibility o f knowing being, possibility
that is grounded in the nature o f judgment itself and in the nature o f hum an interro-

* Hochschule für Philosophie München (Munique. Alemanha). - Tradução de Luís Loia. a partir
da seguinte edição: S ala. Giovanni B. - lonergan and Kant: Five Essays on Human Knowledge.
Translated by Joseph Sporel: edited by Robert M. Doran. Toronto; Buffalo; London: University
of Toronto Press, 1994.

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gation. Moreover, the article also shows how in order to overcome the impossibility o f
noumenal knowledge, the lonerganian reflexion underlines knowledge as an empirical
structure, intelligent, rational and responsible, able to capture reality. In the end, this
is possible due to the fact that, for Lonergan, the real is intrinsically intelligible.
Ke y Words: A priori; Being; Intelligibility; Categories; Cognitive process; Concept;
D ynam ism o f consciousness; Experience; Introspection; In tu itio n ; Judgm ent;
Kant, Im m a n u el (1724-1804); Knowledge; Lonergan, Bernard (1904-1984);
N oum enon; Object; Phenomenon; Postulate; Pre-comprehension; Question;
Reality; Reason; Sensibility; Space a n d time; Structure o f knowledge; Subject;
Transcendental m ethod; Turn to the subject; U nconditional; Understanding.

1. As Razões de Kant para a sua Inquirição sobre o A priori

A obra de Kant está indissociavelmente ligada a duas noções: a do método


de análise transcendental e a do a priori como resultado dessa análise. Nas
páginas seguintes propomo-nos estudar esta segunda noção tal como aparece
na Crítica da Razão Pura (krv ), apesar disto nos levar, frequentemente, também
a considerar a primeira noção. O nosso objectivo é apresentar uma análise,
tão detalhada quanto possível, à luz dos limites deste artigo. Sem entrar na
história da composição da krv , deixem-nos apenas dizer que, por causa do
que Norman Kemp Smith denomina “o carácter aproximativo das conclusões
de Kant” *, seria uma tarefa extremamente longa e difícil estabelecer os está­
gios pelos quais o pensamento de Kant evoluiu e de documentar as posições
filosóficas que se encontram nesta Crítica. O nosso propósito é o de clarificar
as linhas epistemológicas básicas da krv , nos seus variados aspectos, nas suas
tensões e naquilo que nos parece ser a sua direcção comum. A epistemologia
de Lonergan não será o objecto directo de análise neste artigo; ao invés, estará
pressuposta e será usada para fornecer a nossa chave de leitura da krv , o que
será suficientemente evidente para os leitores familiarizados com Insight12.

1 Norman K. S mith - A Commentary to Kant's Critique of Pure Reason. New York: The
Humanities Press, 1950, p. 561.
2 Bernard J. F. Lonergan - Insight: A Study o f Human Understanding (primeira edição,
London: Longmans, Green & Company, 1957); uma segunda edição revista foi publicada em
1958; agora disponível como volume 3 em "Collected Works of Bernard Lonergan", ed. Frederick
E. Crowe e Robert M. Doran, Toronto: University of Toronto Press, 1992. As referências a este
volume, no presente artigo, também serão dadas no texto, com acrescentada ênfase em alguns
casos, ao contrário das notas de rodapé. Os números de página serão: primeiro, os da segunda
edição de 1958 e depois os da edição de "Collected Works” (por ex., 332/356).
Talvez a relação entre Kant e Lonergan neste estudo deva ser clarificada. Directamente,
este ensaio é um estudo de Kant: é, no entanto, um estudo crítico, uma critica da crítica. Mas uma
crítica procede de horizontes, pressuposições, premissas e posições que são as da própria crítica.
Mais, a própria crítica da razão pura de Kant procede da sua posição acerca da relação do
entendimento com o empírico e das pressuposições que estão por traz dessa posição. De modo
semelhante, a nossa crítica de Kant procede de pressuposições sustentadas pelo autor e essas

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Porque é que Kant delineou o seu estudo sobre o conhecimento humano


na forma de uma inquirição sobre uma componente a priori desse conhe­
cimento? Ele dá a sua própria resposta à nossa questão: para fundamentar
os juízos sintéticos a priori que constituem o nosso conhecimento científico
(B 19). Podemos expressar o propósito de Kant com o seguinte silogismo:
o conhecimento científico é o conhecimento do universal e do necessário.
Mas a universalidade e a necessidade não podem vir da experiência; isto é,
não se podem basear em nada a posteriori. Por isso são a priori.
Não examinaremos o mérito da primeira premissa. Contudo, temos que
notar que contém uma ambiguidade que percorre todo o empreendimento
de Kant: É a krv o estudo do conhecimento humano em geral ou é o estudo
daquele tipo particular de conhecimento que constitui a ciência? O último
não abarca de facto todo o âmbito do conhecimento humano, no entanto,
pondo de lado esta ambiguidade, não podemos duvidar de que para Kant o
conhecimento científico respeita ao conhecimento do universal e do neces­
sário. É o ideal clássico da ciência e Kant não apenas o aceita plenamente
mas também o leva às suas últimas consequências. Hoje não podemos acom­
panhar Kant nessa direcção. Uma análise moderna do conhecimento deve
começar por se livrar do fardo pesado do conceptualismo que herdamos dos
nossos antepassados. Esses sempre procuraram uma universalidade e uma
necessidade maior do que aquela que a ciência dos últimos quatro séculos
tentou alcançar; se os seguirmos estaremos a labutar para encontrar um
a priori que explique um conhecimento que, de facto, não possuímos.
A necessidade de alterar a nossa abordagem é ainda mais evidente quando
consideramos a segunda premissa, nomeadamente, que a universalidade e a
necessidade não podem vir da experiência. O que é a experiência? Existem
pelo menos dois significados para o termo na k r v e devemos conservá-los na

pressuposições são derivadas da teoria cognitiva da obra Insight de Lonergan. Contudo, julga­
mos ser legítimo omitir aqui uma apresentação detalhada de Lonergan; certamente que não nos
enganamos ao pensar que as ideias básicas de Insight são já familiares aos nossos leitores.
Pode, contudo, existir alguma dúvida acerca de algumas ideias particulares, quer tenham
sido ou não suprimidas por Lonergan em obras posteriores, mas tal teria que ser provado caso a
caso. De facto, Lonergan dá as suas próprias considerações mais recentes sobre Insight no artigo
"Insight Revisited,” in: A Second Collection, ed. William J. Ryan e Bernard J. Tyrrell. London:
Darton, Longman & Todd, 1974, pp. 263-278. e, embora indique algumas ideias que se subme­
teram a revisão no seu pensamento nos últimos vinte anos, não existe o mínimo apontamento
que demonstre que a sua teoria cognitiva básica e a sua epistemologia, que estão pressupostas
no presente ensaio, tenham sido abandonadas. Pelo contrário, repete e sublinha o seu propósito
básico e a estratégia presente em Insight. O mesmo pode ser inferido das suas referências contí­
nuas a esse trabalho nos seus escritos mais recentes, onde é claro que o considera como expres­
são da sua posição filosófica fundamental. Veja-se, por exemplo, o index de Method in Theology.
London: Darton, Longman & Todd, 1972 (reimpresso pela University of Toronto Press, 1990),
sobre Insight.

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Giovanni B. Sala

sua clara distinção se quisermos compreender adequadamente este princípio


que é basilar na epistemologia kantiana. Ambos os significados encontram-se
já na primeira secção da Introdução de Kant (B 1). Aqui, mesmo no prin­
cípio, Erfahrung é equivalente ao conhecimento sensível; a sua natureza é
especificamente determinada pelo facto da sensibilidade ser uma faculdade
que deve ser movida por um objecto material em ordem a conhecer. Por isso
Erfahrung denota aquela actividade que, no princípio da Estética Transcen­
dental, é chamada Empfmdung (sensação [A 20/B 34]). No fim da mesma pas­
sagem, contudo, Erfahrung já não designa apenas o conhecimento sensível,
mas o conhecimento humano no sentido amplo do termo, incluindo por isso
o sensível e o intelectual em conjunto. Agora, se a experiência é considerada
no segundo sentido é fácil constatar que, longe de excluir a universalidade
e a necessidade, as inclui essencialmente, na medida em que exige a inter­
venção constitutiva das formas puras da intuição e dos conceitos puros do
entendimento. Se, pelo contrário, a experiência é considerada no primeiro
sentido, então é verdade que a necessidade e a universalidade não se originam
na experiência.
O que se segue pode parecer bastante óbvio numa primeira abordagem.
Apesar disso, um escrutínio mais atento revela uma imperfeição na constru­
ção do silogismo com que começamos. Entre a segunda premissa (a experiên­
cia não pode produzir nem a necessidade nem a universalidade) e a conclusão
(necessidade e universalidade são a priori) existe outra premissa que deve ser
explicitada antes de validar a conclusão. Esta premissa sustenta que as etapas
cognitivas que recaem sobre a Empfmdung são incapazes de elevar a represen­
tação do objecto sensível concreto ao estatuto da universalidade e da neces­
sidade. Tocamos aqui num dos problemas fundamentais da epistemologia
kantiana. A krv reconhece claramente que o conhecimento é um composto,
em particular, um composto de sensibilidade e entendimento, mas a sua con­
cepção fundamentalmente intuicionista do conhecimento leva Kant a afirmar
- mais ou menos explicitamente, de acordo com o grau em que o princípio
intuicionista intervenha - que o objecto do conhecimento é-nos dado pelos
sentidos e apenas através deles; as etapas posteriores do processo cognitivo
contribuem com um objecto parcial seu para a constituição completa e final
do objecto de conhecimento. Deixem-me ainda precisar melhor: compreender
o objecto sentido e reflectir no que foi compreendido não é, na concepção
kantiana, acrescentar um maior ou diferente conteúdo ao nosso saber; o con­
teúdo do conhecimento é simplesmente repetido na mudança do nível sensí­
vel para o nível do entendimento (Verstand).
Ora, Kant afirma que a Erfahrung, tomada como mera experiência sen­
sível, "diz-nos, de facto, o que é, mas não necessariamente que tenha de ser
assim e não de outra forma” (A 1). De facto, a experiência por si mesma não é
conhecimento nem do ‘quê’ nem do ‘é’, é simplesmente presentificação. Saber

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‘o que' é presentificado e se este 'quê' realmente 'é' pertence às etapas inteli­


gentes e racionais que se seguem à etapa sensível.
Kant tende a afirm ar que o conhecimento do primeiro nível contém já
o que é' da realidade, apesar de poder ser apenas na sua singularidade; e fá-lo
pensando de acordo com o princípio intuicionista. Se, contudo, este princí­
pio for abandonado, então, tanto o quê' e o *€, assim como a necessidade
e universalidade, dem onstram ter um a outra origem. Como a determinação
formal é, pelo entendimento, acrescentada e projectada num objecto que de
outra forma era um mero dation, e como a existência é, então, projectada pelo
juízo, assim, quer a uniyersalidade da determinação formal, quer a necessi­
dade factual da existência são projectadas no mesmo objecto sentido.
Temos que considerar toda a estrutura do conhecimento para podermos
compreender como um processo, que claramente também tem o seu lado
empírico, também possa conter conteúdos e qualificações que não são empí­
ricas - não empíricas, no mínimo, se restringirmos 'empírico' ao primeiro
nível da estrutura cognitiva.

2. O espírito impõe o a priori sobre realidade ou


questiona a realidade através do a priori?

A concepção kantiana do a priori está aberta a dois perigos opostos. Um


é o de se esvaziar de qualquer significado real - Kant enfrenta este perigo
sempre que insiste no carácter empírico do nosso conhecimento. Se de facto
a realidade nos é dada pela intuição sensível, qual o papel das várias repre­
sentações a priori? Pode ser dito: elas fazem-nos pensar no objecto e perm i­
tem apreendê-lo com um conhecimento propriam ente humano. iWas então
teríamos que perguntar: O que é que rim os a conhecer que já não tivéssemos
conhecido apenas através da sensação? O perigo oposto é o de se atribuir
demasiado ao a priori, o qual é especialmente grave quando Kant sublinha a
função constitutivo-formativa do a priori, de acordo com o testem unho funda­
mental do Prefácio: “[...] só conhecemos a priori das coisas o que nós mesmos
nelas pomos [colocamos]." (B xviii).
Acreditamos ser possível ultrapassar esta tensão e definir mais satisfato­
riamente a natureza e função do a priori trazendo à colação aquela viragem
para o sujeito (Hinwendung zum Subjekt) que constitui o propósito da análise
transcendental. Uma metáfora proposta por Kant ilustrará a nossa intenção,
no entanto, enquanto que para Kant esta metáfora ajuda a clarificar a função
que confere ao a priori, para nós indica a forma de ultrapassar as insuficiên­
cias da sua própria concepção:
A razão, tendo por um lado os seus princípios (...) e, por outro, a experimentação (...)
deve ir ao encontro da natureza, para ser por esta ensinada, é certo, mas não na quali­
dade de aluno que aceita tudo o que o mestre afirma, antes na de juiz investido nas suas

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funções, que obriga as testem unhas a responder aos quesitos que lhes form ula. Assim,
a p rópria física tem de agradecer a revolução, tão proveitosa, do seu m odo de pensar,
unicam ente à ideia de p ro cu rar na natureza (e n ão im aginar), de acordo com o que a
razão nela colocou, o que nela deverá ap ren d er e que p o r si só não alcançaria saber;
só assim a física enveredou pelo trilho certo d a ciência, após tantos séculos em que foi
apenas tacteio. (B xm-xiv).

Sublinhemos a frase ‘o que nós mesmos nelas pomos', assim como a ques­
tão do método experimental e concentremo-nos no juiz3. Por hipótese, o juiz
nada sabe sobre um determinado caso mas mesmo assim o seu julgamento
é-lhe confiado. Porquê? Porque ele possui a ciência jurídica e por isso coloca
questões precisas à testemunha. As testem unhas são homens de senso comum
e por isso conhecem os factos a partir dos slogans sobre a violência, a tra­
gédia, a crueldade e assim por diante. Mas o conhecimento a partir desses
slogans não interessa ao juiz. Para ele, o que a testem unha diz - tirando a
questão da veracidade - não é ainda a realidade que ele procura conhecer;
os seus testemunhos são apenas data para os seus propósitos que, através da
sua inquirição devem sofrer um a dupla promoção. Primeiro, os dados que
são compreendidos devem ser promovidos ao nível do entendimento; depois,
o juiz deve exercer a sua ciência jurídica através de um a reflexão crítica que
pese todos os factores pertinentes para um juízo legal; deste modo, os dados
são promovidos ao nível da evidência suficiente e o juiz atinge o conheci­
m ento do facto juridicam ente determinado - foi apenas esta realidade jurí­
dica que desejou verificar.
Neste caso, é fácil ver qual é o a priori do juiz: a ciência jurídica. Não parece
correcto afirmar, de acordo com qualquer significado aceitável da expressão,
que existe algo que o próprio juiz 'colocou' na realidade juridicamente deter­
minada. Por outro lado, devemos afirm ar que ele elaborou por si próprio
um elemento e o colocou entre os dados recebidos. Qual é esse elemento?
São as questões que levantou a partir do seu conhecimento. Perguntando,
procurando, rejeitando, o juiz alcançou o conhecimento da realidade.
Deixem-nos ir, agora, para além deste a priori específico. A ciência jurí­
dica no juiz, o tipo de conhecimento da testem unha dito de senso comum,
as várias mentalidades que formam a pré-compreensão (Vorverstàndnis) pela
qual um homem é um engenheiro, outro um sociólogo, um terceiro um poeta;
todas são especificações de um a única pré-compreensão básica, igual para
todos e pela qual todos, quer conheçam este ou aquele âmbito, conhecem
sempre o ser ou a realidade.
Mais, afirm ar que existe um a priori na raiz do conhecimento é afirm ar
que a aprendizagem não parte do nada. Mas, enquanto que no caso do juiz o

3 Aqui expandimos a análise de Lonergan encontrada nas notas policopiadas do seu curso
na Universidade Gregoriana, “De methodo theologiae“ (Rome, 1962) p. 49.

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ponto de partida é o conhecimento propriamente dito, quando aprofundamos


a questão até ao ponto de onde todos os tipos específicos de conhecimento
partem, já não encontramos um conhecimento de objectos - da natureza ou
do mundo humano - mas sim um puro e simples conhecimento da parte do
sujeito. A presença do sujeito a si mesmo (consciência), na sua orientação
imanente para o universo a conhecer, é idêntica à noção daquele objectivo
face ao conhecimento do qual o sujeito procede inteligente e racionalmente.
Este é o a priori no seu primeiro e próprio sentido, e os a prioris objectivos
particulares formam-se nele. Assim, a constituição dos a prioris particulares
é a posteriori; ocorre dentro das componentes culturais do ambiente em que
cada um nasceu e foi criado e através das experiências pessoais que consti­
tuem a vida do indivíduo na sua singularidade. O primeiro a priori, pelo con­
trário, é o a priori num sentido absoluto.
Mas se à luz da sua pré-compreensão particular, o juiz é capaz de colocar
as suas questões específicas, quais as questões que somos capazes de colocar
e que conhecimento conseguimos alcançar face àquela pré-compreensão que
é o nosso a priori enquanto seres humanos? A questão que podemos colocar
é a questão sobre o ser, e o conhecimento que podemos alcançar é o conheci­
mento do ser. Questionar cria no espírito humano aquele espaço pelo qual lhe
é possível manifestar a realidade.
De acordo com Kant “só conhecemos a priori das coisas o que nós mesmos
nelas pomos". (B xvni); acreditamos estar mais de acordo com a experiência
comum afirmar ‘podemos conhecer a priori das coisas apenas o que nós
próprios perguntamos sobre elas.’ As questões que colocamos ‘informam’ os
dados e só aí é que os dados medeiam a realidade para nós, uma realidade que
primeiramente é intentada e só subsequentemente conhecida. Mais ainda,
é pelo questionamento, como formador do horizonte da nossa inquirição,
que os dados entram efectivamente no campo da consciência inteligente.
A manifestação da realidade é possível porque a questão, naquele movimento
antecipatório que a constitui como questão, já contém em si o significado da
realidade; sem este conhecimento primordial, que é da essência do espírito,
uma vez que, como espírito, é ser na sua luminosidade e ainda significativo
para si próprio, o dado não nos pode ser revelado como realidade.
Resumindo, tão claramente quanto possível e de acordo com Insight pode­
mos dizer que, primordialmente e fundamentalmente, o que é a priori é a
pergunta. As perguntas constituem o operador que promove as expansões
sucessivas da consciência na transição de um nível da estrutura para outro.
Perguntas para a inteligência, perguntas para reflexão e, para além da fase
estritamente cognitiva da actividade humana, perguntas para decisão - estas
são o a priori. Esta concepção tem o seu paralelo em Insight com a noção da
realidade como intrinsecamente inteligível. É a realidade aquilo que podemos
olhar (quer seja o ‘olhar’ concebido como um acto ocular ou uma visão inte-

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lectual), ou é a realidade o que nós intentamos ao colocar perguntas? Insight


mantém e desenvolve bastante a segunda alternativa, a que nos referiremos
como a concepção racional do real. A clarificação de tal concepção de reali­
dade será, assim o espero, um a das maiores contribuições deste estudo.
O conhecimento humano, então, é inexplicável se não admitirmos uma
subjectividade estritam ente a priori que, sem ser constitutiva do objecto
enquanto objecto, ao menos to m a formalmente possível que o objecto seja
conhecido. É um a priori que, embora não seja ele mesmo determinado como
um a categoria, fundam enta a possibilidade de qualquer determinação sobre
o que quer que seja conhecido. Falar de uma questão primordial implica que
o espírito hum ano seja sentido na busca de sentido. O sentido com o qual
somos naturalm ente constituídos é meramente heurístico; é antecipatório da
realidade. Assim, um a verdadeira procura por algo realmente desconhecido é
perfeitamente possível e também o é o reconhecimento da realidade um a vez
encontrada.
O espírito hum ano denuncia um a pobreza total ao mesmo tempo que
revela a capacidade total para discernir e julgar por si próprio tudo o que
esteja ao alcance da verdade.

3. O princípio intuitivo na k r v e o princípio de estrutura em Insight

É preferível examinar o a priori nos vários níveis de conhecimento à luz


do que consideramos ser o primeiro princípio da epistemologia kantiana.
Heidegger formulou-o com extrema exactidão: “Para compreender a k r v deve­
mos, forçosamente, m eter nas nossas cabeças o seguinte princípio: Conhe­
cimento é prim ariam ente intuição.“4 A Estética Transcendental inicia-se com
a enunciação deste princípio: “Sejam quais forem o modo e os meios pelos
quais um conhecimento se possa referir a objectos, é pela intuição que se
relaciona imediatamente com estes e ela é o fim para o qual tende, como
meio, todo o pensam ento.” (A 19/B 33). A intuição é assim o único meio pelo
qual, em últim a análise, somos capazes de estabelecer um a relação cognitiva
imediata com o objecto. Consequentemente, dado que esse conhecimento
consiste nesta relação do sujeito com o objecto, temos que concluir que
conhecer é intuição. Que este é o primeiro princípio da k r v é presumível pela
frequência com que Kant a ele se refere. Muitas vezes refere que a intuição
por si só nos dá o objecto ou que a intuição por si só se refere ao objecto;
ver por exemplo: A 16/B 30, A 68/B 93, A 224/B 272, A 239/B 298, A 271/B 327,
A 320/B 377, A 719/B 747, etc. Por outro lado, consciente da estrutura dupla
do conhecimento, formula o princípio da seguinte forma: através da Anschauen

4 Martin H eidegger - Kant und das Problem der Metaphysik. Frankfurt am Main: Klostcr-
mann, 1965, p. 29.

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o objecto é-nos dado, através do Denken é pensado; ver, por exemplo: A 15/
B 29, A 50/B 74, B 146, etc. Com base nestes excertos podemos estabelecer
a seguinte conclusão: existem muitas actividades que contribuem para a
constituição do nosso conhecimento; mas se perguntarm os o que constitui
o conhecimento como conhecimento de um objecto, ou ainda como conheci­
mento em si5, temos que responder: é a intuição. Sejam quantas forem as rela­
ções mediadas que outras aptidões possam ser capazes de estabelecer com o
objecto, se quisermos evitar o absurdo de um a séria de mediações, sem que
nenhum a alcance a realidade a ser mediada, temos que afirm ar que existe um
tipo de actividade cognitiva cuja própria natureza consiste em fazer a ponte
entre o conhecedor e o conhecido. Esta é a intuição. Assim, o conhecimento
é essencialmente intuição e, por isso, a intuição deve encontrar-se em todo o
conhecimento.
Seria difícil exagerar a im portância do princípio da intuição na episte-
mologia de Kant. Está presente em todo o lado e comanda as soluções para
os vários problemas que vão surgindo na k r v . Isto não é dizer que constitui
toda a epistemologia de Kant. A análise transcendental, que é o objectivo
da k r v , implica uma mudança de consideração dos actos cognitivos e, mais
genericamente, da consideração do sujeito. Agora, tal análise conduz a uma
doutrina que está em desacordo com o princípio intuitivo: queremos dizer a
doutrina do conhecimento como estrutura. Esta doutrina aparece na k r v de
um modo bastante complexo. Diferentes enumerações de actos e faculdades
encontram-se em diferentes secções, muitas vezes até na mesma secção, mas
não encontramos quaisquer meios de as reduzir a um a unidade ou esquema­
tizar claramente todo o percurso do processo cognitivo. Kant contenta-se em
estudar de acordo com as circunstâncias deste ou daquele aspecto do conhe­
cimento, sob a pressão dos problemas que lhe vêem à mão, sem se vir a preo­
cupar de como é que as várias faculdades e actos se com binam para constituir
um único processo
Existe um a tensão entre o princípio intuitivo e o princípio de estrutura, na
medida em que o primeiro tende per se a excluir o segundo. O objecto é dado
na intuição; por isso Kant tende a reduzir o conhecimento a este único acto.
Daí a obscuridade em que toda a Analítica Transcendental está envolvida: de
que uso são as fases do pensam ento e do juízo que recaem sobre a intuição?
Sejam quais forem as funções que lhe atribuam os, não podemos dizer que são

5 Claro que isto assume à partida que o conhecimento é essencialmente conhecimento de


um objecto e, portanto, que o conhecimento implica essencialmente a dualidade entre o sujeito
do conhecimento e o objecto conhecido. É precisamente esta assunção que está na base daquilo
que denominamos como o princípio intuitivo. Kant é forçado por esta assunção a conceber o a
priori como um objecto em si próprio. A análise de Lonergan, pelo contrário, destapa um a priori
estritamente do lado do sujeito, substituindo, por isso, a dualidade platónica do conhecimento
em confronto com o teorema de Aristóteles do conhecimento pela identidade.

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actividades cognitivas se o conhecimento for a intuição de um objecto e se


estas actividades não são intuitivas mas apenas transportam de um nível para
outro - e o que significa isso? - exactamente o mesmo objecto que já se havia
revelado a nós de forma imediata na Anschauung.
É possível elim inar esta tensão e dar o devido reconhecimento à função
cognitiva dos vários actos que constituem o nosso conhecimento se escolher­
mos uma abordagem diferente. Temos que pôr de lado o princípio intuitivo,
isto é, o modelo de conhecimento como olhar e, consequentemente, do conhe­
cimento do que é olhado, quer seja o singular sensível, quer o universal inte­
lectual, e no seu lugar devemos examinar o conhecimento em si mesmo e
estudá-lo pela introspecção tal como efectivamente ocorre. Por esta razão
Lonergan empreende o seu estudo do conhecimento como um a resposta, não
à questão se conhecemos ou se o nosso conhecimento tem validade objectiva,
mas sobretudo à questão sobre o que é o conhecimento. Mais precisamente:
o que acontece quando conhecemos? Em primeiro lugar deve vir a com­
preensão da actividade que de facto acorre e que é cham ada conhecimento
e só depois vem o juízo sobre a sua validade como conhecimento da reali­
dade objectiva. Mais ainda, um a vez compreendidos os factos actuais, o pro­
blema da objectividade surge numa outra perspectiva. Compreendemos que
a investigação acerca do valor objectivo do conhecimento deve as suas solu­
ções dúbias ou negativas a um a concepção errónea da natureza da actividade
cognitiva, um a concepção tida como verdadeira e tão óbvia que não necessita
de ser examinada.
O método de Lonergan é, por isso, introspectivo, baseado no carácter
consciente do processo cognitivo. A justificação mais forte de tal método é a
de que pode valorizar o que é próprio do sujeito: não apenas as produções do
sujeito mas o que seja o sujeito em si, formalmente como sujeito. A análise
introspectiva torna-se análise transcendental quando a consciência se m ani­
festa como normativa ao longo de todo o processo cognitivo. É aqui que o
factor contingente do conhecimento, isto é, o nosso compromisso pragmático
no processo do conhecimento (Insight, p. 332/356), manifesta a sua intrínseca
necessidade, ao revelar a norm a de acordo com a qual ele se deve m ostrar em
ordem a conduzir a um verdadeiro conhecimento. Podemos recapitular os
resultados desta análise sob dois títulos: (1) a intenção racional e inteligente
que fundam enta e constitui todo o processo cognitivo, (2) o conhecimento
como um a estrutura formalmente dinâmica, isto é, como um todo composto
de partes, cujas actividades são, sequencialmente, auto-impostas.
Já descrevemos o primeiro resultado quando falamos do conhecimento
como a questão primordial, e consideramo-lo não apenas como princípio do
processo cognitivo do qual emergem questões singulares específicas, mas
também como penetrando o processo cognitivo, regulando tudo, e conferindo
sentido a qualquer acto isolado. O nosso questionamento radical é, então,

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63 - 2007 C M r PF í 272
Katu e Lotiergan 1081

um dinamismo para o conhecimento, um dinam ismo consciente, inteligente


e racional e de âm bito ilimitado. Por causa destas características Lonergan
designa o nosso puro desejo de conhecimento como a noção do seu objectivo,
quer isto dizer, a noção do ser. As características encontradas no objecto desta
intenção, quando a intenção é realizada de um modo fiel às suas normas
imanentes, são antecipadas pelo próprio sujeito, que não se contenta apenas
com os dados, mas, confrontado com eles, coloca questões para compreender
e reflectir.
0 segundo resultado é a doutrina do conhecimento como estrutura.
O conhecimento hum ano ocorre de acordo com a estrutura da experiên­
cia, do entendimento e do juízo. Os muitos actos que a análise introspectiva
ilumina agrupam-se a si próprios em três níveis essencialmente diferentes,
cada um acrescentando um a dimensão nova e distintiva, quer ao conheci­
mento como actividade im anente, quer ao conteúdo objectivo conhecido, até
que alcancemos, por um lado, o juízo racional e, por outro lado, o objecto
correspondente.

4. Relação da actividade cognitiva com a realidade

De acordo com o princípio intuitivo as actividades cognitivas são objecti-


vas, isto é, cognitivas do objecto na medida em que se assemelham à visão
ocular. Mais, é previamente estabelecido, nos termos desta analogia, o que
devem ser estas actividades para que sejam consideradas cognitivas. Mas, se
abandonarm os o princípio intuitivo e considerarmos, por o u tra lado, os actos
que de facto continuam ente exercitamos no processo do conhecimento, che­
gamos a conclusões diferentes (1) sobre o que estabelece a relação imediata
do nosso conhecimento com a realidade e (2) sobre a forma de como esta
relação é realizada, isto é, o modo como passamos de uma relação de inten­
ção sobre a realidade para um a relação de efectivo conhecimento. Apresen­
tamos acim a as conclusões de Insight sobre esta matéria.
Assim, à questão: o que dá à nossa actividade cognitiva a sua relação com
o objecto? Respondemos: O nosso puro desejo de conhecimento, que é a
nossa intenção de ser. De novo a im portância do a priori como tendência para
o absoluto. O âmbito irrestrito do objectivo da nossa questão primordial e o
carácter incondicional que procuramos nos juízos pelos quais nos movemos
em direcção a esse objectivo são interdependentes. O ser, que tem um estatuto
absoluto, é correlativo a um a intencionalidade irrestrita capaz de tender para
o seu objecto sem qualquer qualificação ou condição. Mas, para reconhecer
que a tendência para o absoluto é a base do nosso conhecimento do ser, temos
que elaborar explicitamente um a concepção racional do real. A análise trans­
cendental evitará cair no imanentismo se e só se operar na base da intrínseca
inteligibilidade do real.

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Se por ser querem os dizer o objectivo do p uro desejo do conhecim ento, o objectivo da
inquirição inteligente e da reflexão crítica, o objecto da com preensão inteligente e da
afirm ação razoável, então tem os que afirm ar a intrínseca inteligibilidade do ser. Dado
que definim os o ser pela sua inteligibilidade... negam os que o ser seja algo à parte, para
além ou diferente do inteligível. (Insight, p. 499/523)

Kant não chegou tão longe como a inteligibilidade intrínseca do real,


apesar de se ter oposto ao empirismo e iluminado com todo o relevo desejável,
as superiores operações da sensibilidade. Tendo em conta precisamente essa
falha, quando tem que decidir acerca da objectividade destas operações, só
pode negá-las. O homem compreende, concebe e - de acordo com um certo
sentido do m undo - julga; realiza todas estas actividades de acordo com as
duas norm as imanentes. Mas em tudo isso, o que é que ele conhece da reali­
dade? Nada. A concretização inteligente e racional do dinam ismo cognitivo
não é o meio para conhecer a realidade. O que se justifica também porque,
por hipótese, a realidade não é inteligente nem racional. Essa é a realidade
que Kant denomina como Númeno: algo que está absolutamente para além
da nossa inquirição inteligente e da nossa reflexão crítica. Então, em ordem
a não deixarmos o nosso conhecimento sem um objecto, Kant assume outra
entidade como objecto: o Fenómeno, que corre sempre o perigo de desapa­
recer no nada.
Tentemos clarificar o que queremos dizer quando afirmamos que a k r v
apresenta uma concepção irracional do real. De um modo geral, Kant admite
que em ordem a conhecer a realidade são necessários outros actos que estão
para além da sensibilidade; por isso afirma que o objecto é dado pela sensibi­
lidade mas não pode ser pensado sem o Verstand. Mas tais afirmações gené­
ricas ainda não comprovam a concepção racional da realidade. Tal concepção
exigiria que a Verstand tivesse o seu próprio conteúdo real, que não tivesse sido
dado pelos sentidos. É precisamente aqui que Insight difere da k r v . Insight
não afirma apenas que o intelecto pensa ou traz ao conceito os conteúdos da
intuição sensível, mas qualifica esta doutrina de um modo que vai para além
de Kant; o intelecto forja um conteúdo novo que não foi dado pela intuição:
a inteligibilidade da sensibilidade captada no sensível. Se não reconhecermos
isto, o termo pensar perm anece um termo vazio, que verbalmente nos leva
a parecer referirmo-nos ao conhecimento como um a estrutura mas, de facto,
ainda permanecemos na compreensão do conhecimento apenas como intuição.
Em ordem a ultrapassar efecti va mente o princípio intuitivo devemos negá-
-lo desde o princípio, isto é, negar que o objecto do nosso conhecimento nos
seja dado na intuição. Pelo contrário, devemos dizer que a intuição sensível
tem o seu próprio conteúdo, que a compreensão do Verstand tem o seu pró­
prio conteúdo e, indo para além da estrutura binária, o juízo da Vemunft tem
o seu próprio conteúdo. Mais ainda, tom ando-se claro que já não podemos
dizer que a intuição nos dá o objecto da realidade, podemos afirm ar que o

Revista Portuguesa de Filosofia


63 • 2007 D I r PF i 274
Kant e Lonergan 108.?

entendimento nos dá o objecto - excepto para anterioridade funcional do acto


sensível face ao entendimento. Cada acto cognitivo dá-nos um objecto parcial.
É tarefa da estrutura inteira, que culmina no juízo racional, dar-nos o objecto
próprio do conhecimento, isto é, o ser.
Se assumirmos o princípio intuitivo, podemos imediatamente ver como
Kant, na medida em que reconhece tanto o princípio intuitivo como o prin­
cípio de estrutura, tem que relacionar os vários actos cognitivos com a reali­
dade. De acordo com esta passagem citada do § 1 da Estética, as actividades
intelectuais, genericamente designadas por Denken, reportam-se à realidade
através da intuição sensível. Esta interpretação da objectividade do conheci­
mento é confirmada no princípio da Analítica a propósito da actividade do
Verstand: “Como nenhuma representação, excepto a intuição, se refere ime­
diatamente a um objecto, um conceito nunca é referido imediatamente a um
objecto, mas a qualquer outra representação (...). O juízo é, pois, o conheci­
mento mediato de um objecto, portanto a representação de uma representa­
ção desse objecto." (A 68/B93). Na Dialéctica, Kant, lida com a nossa tendência
para o incondicionado. Por causa do mesmo princípio intuitivo as actividades
da Vemunft, longe de realizarem a relação imediata do conhecimento com o
seu objecto, são de outro modo duplamente mediadas, pelo Verstand e pela
Anschauung: “A razão nunca se reporta directamente a um objecto, mas sim­
plesmente ao entendimento e, por intermédio deste, ao seu próprio uso empí­
rico." (A 643/B 671; ver também, A 302/B 359, A 306 - 7/B 363, A 335/B 392,
A 567/B 595). Isto é perfeitamente compreensível: se o conhecimento só pode
ter uma relação imediata com o objecto através de um tipo de intuição, então
a Vemunft, como uma tendência para o incondicionado, parecer-se-á ainda
menos com a intuição do que o Verstand entendido como faculdade do inte­
ligível.
A análise do conhecimento nos seus próprios termos, isto é, a análise
do tipo da adoptada neste artigo, modificará a relação concebida por Kant.
A relação com a realidade é imediata na intenção do ser, que é o nosso dina­
mismo para o incondicionado. Obviamente que nos referimos a uma relação
imediata com a realidade na medida em que a realidade é intentada. A mesma
relação com uma realidade que já não é apenas intentada mas alcançada é
imediata no juízo, enquanto juízo, como posição absoluta, como satisfação da
nossa intenção do absoluto. Se quisermos usar a imagem da visão, devemos
dizer que o acto pelo qual vemos a realidade e que, de facto, está em contacto
imediato com ela, é o juízo.
A relação com a realidade é mediada no entendimento e concebida no
Denken, para usar o termo de Kant. De facto, a inteligibilidade resgatada pelo
entendimento implica, por si própria, apenas a possibilidade do ser; será pro­
movida ao nível do conhecimento em sentido amplo apenas quando for acres­
centado ao entendimento o juízo de facto concreto em que a inteligibilidade

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275 : Q Í rpe 63 • 2007 1071 1102
G iovanni B. Sala

é afirm ada absolutamente. A mesma relação com a realidade é duplamente


mediada nos dados da sensibilidade e da consciência. O datum na sua pura
gratuidade, longe de constituir o momento de encontro com a realidade como
realidade, deve ser enriquecido por alguma inteligibilidade através do pro­
cesso de inquirição e esta inteligibilidade deve ser comprovada como correcta
pela reflexão crítica, antes de sermos conduzidos ao conhecimento dessa reali­
dade com cujo datum começamos.

5. O a priori da sensibilidade

Kant distingue, na representação sensível, um aspecto passivo de outro


activo. Na medida em que a representação é relacionada com o objecto
pela sensação (isto é, através da afecção da faculdade de representação pelo
objecto), é denominada como intuição empírica. Mas na mesma represen­
tação também existe uma componente que emerge da actividade dos sentidos.
Esta componente é a intuição, na medida em que o é dos sentidos e na medida
em que é o a priori não originado na Empfmdung.
O objecto conhecido pela intuição é por isso um objecto composto:
Dou o nom e de matéria ao que no fenóm eno corresponde à sensação; ao que, porém,
possibilita que o diverso do fenóm eno possa ser ordenado segundo determ inadas rela­
ções, dou o nom e de forma do fenómeno. Uma vez que aquilo, no qual as sensações
unicam ente se podem o rd en ar e ad q u irir determ inada forma, não pode, p o r sua vez,
s e r sensação, segue-se que, se a m atéria de todos os fenóm enos nos é dada som ente
a posteriori a su a form a deve encontrar-se a priori no espírito, pronta a aplicar-se a ela
e p o rtan to tem que poder ser considerada independentem ente de qualquer sensação."
(A 20/B 34).

Este princípio geral é aplicado quando Kant analisa o espaço e o tempo.


De facto, Kant nesse ponto não acrescenta novos elementos para dem onstrar
que o espaço e o tempo são, quer formas a priori, quer as únicas formas da
sensibilidade.
Por que é que essa componente formal do conhecimento sensível não se
pode originar na Erfahrung? A k r v não nos dá um a única resposta a esta ques­
tão; aqui encontramo-nos face a face com o que é, para Kant, uma premissa
instrumental. De qualquer modo, pelo menos é possível d ar um a explicação
psicológica do facto de Kant poder considerar um a tão óbvia premissa que
para nós obviamente carece de demonstração. Admitidamente, Kant atribui
um a origem a priori ao elemento sintético e inteligível do nosso conhecimento.
A razão que o levou a fazê-lo foi a de ter menosprezado o acto pelo qual capta­
mos um a inteligibilidade na sensibilidade. Assim, era-lhe natural atribuir,
como um tipo de argum ento analógico, um a origem a priori até mesmo às
formas unificadoras do conhecimento sensível.
O a priori da sensibilidade é, então, um a forma pura de espaço e tempo
que fornece a forma para o objecto conhecido. Mas qual é essa forma? No

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63 • 2007
Kant e Lonergan 1085

princípio, e mais correctamente, assim cremos, a forma é introduzida como


a relação ou o sistema de relações entre os conteúdos da Empfmdung. Neste
sentido é difícil ver o que Kant pode querer dizer quando afirma que a forma
pode ser considerada em si própria, à parte de toda a matéria (A 20/B 34),
ou que podemos conhecer o espaço e o tempo antes de qualquer acto de
percepção (A 42/B 60). Mas a mesma afirmação toma-se mais significativa
quando Kant atribui à forma um conteúdo próprio, independente do conteúdo
a posteriori. Neste sentido fala do espaço e do tempo como um a totalidade,
ou como um a magnitude infinita dada à intuição pura. Esta concepção do
a priori é ainda clarificada onde diz que a intuição pura contém um a diversi­
dade que é igualmente a priori (A 77/B 103, A 76/B 102, B 137, etc.). Tocamos
aqui na tendência sempre presente em Kant em direcção a uma concepção do
a priori que tem um conteúdo objectivo próprio. Esta tendência é ainda mais
forte na Estética, onde examina a intuição como o próprio acto de conheci­
mento de um objecto.
Mas esta concepção não representa toda a doutrina de Kant sobre o a priori
da sensibilidade. Ao passo que a concepção do conteúdo-objectivo nos levaria
a pensar no a priori como a diversidade em que repousa ou é acrescentada à
diversidade empírica, existe outra concepção de acordo com a qual as formas
sensíveis a priori são vistas como modos de receptividade sensorial. Mais, na
sua resposta a Eberhard, Kant rejeita explicitamente a interpretação de que o
a priori é uma representação de um objecto; é apenas o fundam ento (a consti­
tuição subjectiva) da representação espácio-temporal6. Podemos denom inar
esta concepção posterior como 'operativa' na medida em que estabelece que
o a priori é a lei do poder operacional da receptividade sensorial respeitante
às impressões causadas pela alteração do órgão sensorial. Na base desta con­
cepção, Kant afirm a que o espaço e o tempo não são nada se prescindirmos do
poder operacional que os sentidos exercem quando confrontados com data.
Só assim, do pon to de vista d o hom em , podem os falar do espaço, de seres extensos, etc.
Se abandonarm os porém a condição subjectiva, sem a qual não podem os receber intui­
ção exterior, ou seja, a possibilidade de serm os afectados pelos objectos, a representação
de espaço nada significa. (...) A form a constante dessa receptividade a que cham am os
sensibilidade, é um a condição necessária de todas as relações nas quais os objectos
são intuídos com o exteriores a nós. (A 26-27/B 42-43; sobre o tem po, ver A 34-35/B 51).
Parece-nos que o que Kant diz é exacto, mas não conduz à teoria da
aparência como a única realidade conhecível. Afirmar que a representação
sensível concorda com a constituição do sujeito sensível não é a mesma coisa
que afirm ar que os sentidos nos conduzem ao conhecimento da mera apa­
rência. Para avaliar correctamente a im portância ontológica do objecto do

6 Kants gesammelte Schriften. Berlin: Preussische Akademie der Wissenschaften, 1910-, vol. 8,
p. 222. [Doravante referiremos esta edição das Obras de Kant mediante a sigla GS.]

Revista Portuguesa de Filosofia [

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G io v an n i B. Sala

nosso conhecimento temos que ter em conta a inteira a estrutura do conheci­


mento. A experiência é apenas a presentificação dos data para o propósito de
conhecimento da realidade. Mas é inegavelmente verdadeiro que esta presen­
tificação também depende do sujeito sensível. A presentificação implica uma
relação entre duas partes; aqui, entre a realidade material e o órgão receptivo.
Mais, diferirá de acordo com os diferentes órgãos e também de acordo com
o estado fisiológico do órgão. Prescindir da relação com o órgão é prescindir
da própria presentificação. Quando dizemos que um corpo é extenso, isto é,
que permanece parts extra parts, ou que tem um certo cheiro ou que é pesado,
não estamos a fazer nada mais do que afirm ar a nossa inteligência sobre
esta relação e a afirm ar a própria relação. Mas a inteligência que estamos a
exercer é descritiva; os seus termos são experiencialmente conjugados, isto é,
"correlativos, cujo significado é expressado, pelo menos em última análise,
apelando ao conteúdo de alguma experiência hum ana.” (Insight, p. 79/102).
Se nos lem brarmos que a inteligência descritiva tem o seu elemento de rela­
ção com a nossa sensibilidade, seria insignificante perguntar qual a cor que
é independente do acto de ver ou que visão é exceptuada de captar corpos
como coloridos. Nem perguntarem os que extensão está aparte do complexo
de actos sensíveis do qual é o seu conteúdo7. Uma vez que a inteligência des­
critiva consiste em captar a conexão entre o conteúdo e o acto da sensação, é
evidente que, se prescindirmos de um dos dois termos da relação, deixamos
de ter a ligação e assim deixa de haver qualquer entendimento e ainda menos
algum conceito daí resultante. Aqui repousa a correcção das afirmações da
k r v sobre o elemento relacional no objecto do nosso conhecimento sensível.

Para além da inteligência descritiva, em que o sujeito hum ano é o ponto


de referência privilegiado, no que respeita a que realidade é compreendida e
expressada, existe a inteligência explanatória do conhecimento científico que
consiste em captar as relações das coisas entre si. Os termos em que esta inte­
ligência é expressada são puras conjugações, isto é, "correlativos definidos
implicitamente por correlações estabelecidas, funções, leis, teorias, sistemas.”
(Insight, p. 80/103). Mais um a vez é claro que o elemento relacional não está
menos presente no conhecimento científico do que o descritivo. Em todo
o caso, o entendimento, que é indispensável para a constituição do nosso
conhecimento, capta uma conexão. Mas, nenhum a interpretação subjecti-
vista deve ser dada à afirmação do elemento relacional como constitutivo do

7 A representação da extensão é correlativa a um número de sensações complementares


fundamentais. Mais, compreendemos como é que esta representação, ao contrário, por exemplo,
da de cor, está necessariamente presente sempre que exista um mínimo de vida sensitiva. Kant,
apoia-se aqui na impossibilidade de eliminar a conjugação experimental do espaço e do tempo
da representação, quando lhes confere um estatuto ontológico privilegiado, intermédio entre a
mera ilusão (blosser Schein) das qualidades secundárias e a realidade absoluta da coisa em si.

Revista Portuguesa de Fihsofía


63 ♦ 2007 ÛÜRPF í 278
Kant e Lonergan

conhecimento humano. Porque, se o conhecimento é uma estrutura, então,


o valor ontológico do seu objecto só pode ser determinado pela consideração
de toda a estrutura. Falamos da componente relacional em todo o conteúdo
do entendimento. Mas, com o entendimento ainda não atingimos o conheci­
mento. O que ainda falta é o juízo que se pronuncia acerca da correcção do
entendimento e por isso vai mais além do que a mera relação com o sujeito
do conhecimento. Se, então, a experiência verifica a inteligência descritiva
da realidade como espacial, temporal, colorida, etc., temos que adm itir que
os corpos extensos, temporais e coloridos, etc., são reais. Realidade aqui sig­
nifica obviamente a realidade compreendida - outra compreensão da mesma
realidade em contextos diferentes também pode ser verificável.
No § 2 Kant pergunta, “O que são, então, o espaço e o tempo?” A sua
resposta à questão das suas realidades é, num certo sentido, secundária. Mais
significante é o facto de colocar esta questão desde o princípio da k r v , e, desde
o princípio, responder. 0 estudo da fase sensitiva do conhecimento implica,
sem dúvida, que o seu objecto seja determinado, um a vez que acto e objecto
são correlativos. Mas, determ inar o objecto sensível não é ainda determ inar o
estatuto ontológico do objecto; não é ainda responder à questão do ser. Para
isso, temos que analisar no que se tom a o datum quando o entendimento e
o juízo são adicionados à sensação. Agora, o exame da estrutura permite-nos
integrar dois aspectos do conhecimento que de outro modo seriam incom pa­
tíveis. Esta incompatibilidade está na rota, tanto da teoria da Renascença da
irrealidade das qualidades secundárias, como da teoria do estatuto ontológico
da aparência que Kant atribui ao espaço e ao tempo. Mas um a vez que no
conhecimento existem componentes diferentes e diferentes funções, podemos
reconhecer que a inteligência é sintética por sua própria natureza, um a vez
que capta conexões e relações no que é presentificado e, ao mesmo tempo,
podemos ver que este elemento relacional não se opõe ao verdadeiro conheci­
mento. No juízo, que é a afirmação absoluta de um lnsight correcto (correcto
porque verificável), a realidade é conhecida. O conhecimento hum ano não
envolve a passagem dos fenómenos para a realidade, ou de um a mera reali­
dade relativamente conhecida através da intuição empírica para um a realidade
absoluta conhecida pela intuição intelectual. O curso do processo cognitivo
estende-se, ao invés, do dado para alguma compreensão dele, de acordo com
as diferentes configurações identificáveis que a compreensão pode assum ir e
do entendimento para o juízo racional em que a realidade é conhecida. Conse­
quentemente, num a inquirição crítica à realidade daquilo que conhecemos, o
ponto crucial está na passagem da compreensão para o juízo, da componente
relacional do primeiro para o carácter absoluto do segundo. Onde esta distin­
ção não é clara, a componente relacional da inteligibilidade é assumida como
razão suficiente para afirm ar a relatividade da realidade conhecida.

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63 • 2007
G iovanni B. Sala

6. O a priori do Verstand

Em paralelo ao que temos visto a respeito do a priori da sensibilidade,


existe na k r v uma concepção dupla do a priori do entendimento (Verstand).
De acordo com a primeira concepção, as categorias são funções de unifi­
cação sintética, isto é, funções de um juízo sem conteúdo (A 349). Expressam a
espontaneidade própria do Verstand, através do qual um diverso de elementos
da intuição pura é “percorrido, recebido e ligado de determinado modo [...]”
para que possa ser conhecido (A 77/B 102). Pertence às categorias que condu­
zem o conhecimento sensível a um nível superior do conhecimento humano
e fazem-no através de uma actividade sintética que aplicam aos conteúdos da
sensibilidade. Não é por acaso que a Dedução transcendental dos conceitos puros
do entendimento começa com um exame detalhado da conexão (Verbindung)
com aquilo que “não pode nunca advir-nos dos sentidos, e por consequência,
não pode estar, simultaneamente, contido na forma pura da intuição sensível,
porque é um acto da espontaneidade da faculdade de representação; [...].”
(B 129-30). Quer fale dos modos de combinação da diversidade peculiar ao
nosso entendim ento (B 306), das funções do entendimento (B 104, A 245), da
Verstandeshandlung (B 130) ou da pura Handlung des Denkens8, Kant, aponta
sempre o carácter operativo das categorias. Sob este aspecto, não são con­
teúdos objectivos mas sim a capacidade do Verstand para acrescentar um
conteúdo inteligível ao objecto sensorial, operando nele um a síntese, “Sem
este último, não possui sentido, é completamente vazio de conteúdo [...]”
(A 239/B 298)9.
De acordo com a k r v , a característica do Verstand é a espontaneidade que
se manifesta como uma capacidade sintética original. Tal espontaneidade tem
que ser assumida na totalidade da capacidade que a nossa consciência inteli­
gente manifesta. A este respeito a análise de Kant não é levada muito longe.
Fala de doze categorias indicando que o nosso intelecto não pode ter nem
mais nem menos (B 146). É visão comum entre autores kantianos que Kant
errou ao considerar que a sua tábua de categorias estava completa. Mas o
erro não é simplesmente corrigido pelo aum ento do núm ero de categorias.
A deficiência real reside na concepção demasiado formalista e demasiado
lógica que Kant tem da espontaneidade do Verstand. Para ele, esta faculdade
é dotada de um certo número de conceitos puros, um número determinado
a priori. De facto, a espontaneidade do entendimento não pode ser arrum ada
em qualquer conjunto de conceitos. Qualquer conceito, por mais geral que
seja, é a posteriori; mas a inteligibilidade operativa do entendimento, aquilo

8 Metaphysische Anfangsgründe der Naturwissenschaft, GS 4, p. 472.


* Esta é uma linha de pensamento que certamente se encontra na krv , embora não de forma
tão explícita como a que expressamos, uma vez que. na krv a concepção operativa das categorias
nunca vai tão longe até ao ponto de eliminar a concepção do conteúdo-objectivo.

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Kant e Lonergan 1089

que faz com que o inteligente seja inteligível, é a priori. O conceito, qualquer
conceito, é o produto desta inteligência em funcionamento, nunca a norma
última do seu funcionamento.
Descobrir esta inteligibilidade operativa é descobrir o verdadeiro a priori
do Verstand, que trabalha dentro de uma estrutura muito precisa mas sempre
superior aos seus produtos. "A mente não é apenas uma fábrica com um con­
junto fixo de processos; pelo contrário, é uma maquinaria universal que faz
funcionar todos os tipos de fábricas, ajustando-as e melhorando-as e, even­
tualmente, fragmentando-as em favor de formas radicalmente novas. Por outras
palavras, não existe qualquer conjunto fixo de sínteses a priori" (Insight,
p. 406/430-31). Não há qualquer dúvida que Kant tende a conceber as cate­
gorias como um sistema de processos fixos e é por essa razão que Lonergan
critica o seu a priori como sendo muito rígido (Insight, p. 423/448).
Esta insuficiência manifesta-se ainda mais se considerarmos a segunda
concepção das categorias que está estritamente relacionada com a rigidez
que mencionámos. Queremos dizer, a concepção do conteúdo-objectivo ou do
objecto-constitutivo. Mesmo antes da tábua de categorias encontramos isto:
O mesmo entendimento, pois, e isto através dos mesmos actos pelos quais realizou
nos conceitos, mediante a unidade analítica, a forma lógica de um juízo, introduz
também, mediante a unidade sintética do diverso na intuição geral, um conteúdo trans­
cendental nas representações do diverso; por esse motivo se dá a estas representações
o nome de conceitos puros do entendimento, que se referem a priori aos objectos [...]
(A 79/B 105)
Não insistimos na afirmação de um conteúdo que fosse peculiar às catego­
rias l0, uma afirmação que está em oposição com outros textos que afirmam
que as categorias não têm conteúdo (A 349, A 77/B 102). A diferença entre as
duas séries de textos parece, no mínimo, verbal e pode ser meramente verbal.
Muito mais probatório da segunda concepção de categorias é a forma como
Kant edifica a sua inquirição pelo a priori. Na Introdução B, Kant refere-se à
teoria tradicional da composição do conhecimento como a base da sua inqui­
rição sobre o a priori:
Se, porém, todo o conhecimento se inicia com a experiência, isso não prova que todo ele
derive da experiência. Pois bem poderia o nosso próprio conhecimento por experiência
ser um composto do que recebemos através das impressões sensíveis e daquilo que a
nossa própria capacidade de conhecer (apenas posta em acção por impressões sensí­
veis) produz por si mesma, acréscimo esse que não distinguimos dessa matéria-prima,
enquanto a nossa atenção não despertar por um longo exercício que nos tome aptos a
separá-los." (B 1-2).
O que quer que o a priori possa provar ser no decurso da inquirição de
Kant, será, em qualquer caso, um acrescento feito pela faculdade cognitiva

10 Kant refere um conteúdo transcendental, mas esta qualificação é demasiado ambígua.

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63.2007 (I0 7 M 1 0 2
1090 I G io v an n i B. Sala

à material bruta das impressões sensíveis. O contexto não nos permite inter­
pretar este acrescento de qualquer outro modo que não seja um conteúdo
objectivo acrescentado a esse outro conteúdo objectivo que é a matéria bruta
que vem dos sentidos.
O a priori é, então, um conteúdo objectivo paralelo ao conteúdo objectivo
a posteriori. Certamente que o a priori é o elemento formal no que é conhe­
cido mas isso não o tom a menos objecto. No estudo da Estética vimos que
o a priori sensível é a diversidade da intuição que pode ser por si mesma o
objecto do conhecimento “em que nada se encontra que pertença à sensação."
(A 20/B 34). A mesma concepção do conteúdo-objectivo aplica-se tam bém ao
entendimento a priori’, de facto, é referida, no texto, muitas mais vezes do
que a concepção operativa. Nesta base, Kant fala de um a priori do conheci­
mento de objectos. Tal afirmação é aceitável se for sustentada pela noção de
um a priori que é em si mesmo um objecto, visto que só é aceitável se compor­
tar algum número de qualificações e se se basear na assunção de um a priori
heurístico. Mais ainda, toda a problemática da aplicação dos conceitos puros
do entendimento a uma intuição correspondente só faz sentido apenas porque
o conceito puro do entendimento é precisamente um conteúdo para ser apli­
cado. Do mesmo modo, a descrição do a priori como algo disponível na mente
(<Gemiit), ou no Verstand, indica obviamente que é um objecto. Finalmente,
a afirmação de que o a posteriori da intuição empírica é a única ocasião ou
oportunidade para a mente retirar de si mesma os elementos formais a priori
que já possui apontam na mesma direcção, porque no que diz respeito a um a
priori heurístico, o dado é muito mais do que um a mera ocasião.
É verdade que, desde o começo, Kant afirma que “Pensamentos sem con­
teúdo são vazios; [...]" (A 51/B 75), o que quer dizer que o conteúdo é dado
pela intuição (Anschauung). Afirmações semelhantes ocorrem ao longo da
KRV. Mas devemos notar nestes textos a prevalência do princípio intuitivo que
perm anece num a relação de tensão com a concepção das categorias como
conteúdos que são para ser acrescentados aos conteúdos a posteriori da sensi­
bilidade, mas também e em geral, com a concepção do conhecimento como
estrutura, da qual a doutrina das categorias faz parte. O princípio intuitivo
tomado em todo o seu rigor exclui não apenas a concepção das categorias
como conteúdos a priori, mas também a sua concepção como um a activi-
dade sintética do Verstand em busca de um conteúdo objectivo inteligível.
De facto, de acordo com o princípio intuitivo, um conteúdo de conhecimento
só é possível quando existe um a actividade sem elhante à intuição. Mas a pró­
pria exclusão de um conteúdo objectivo, conhecido pela actividade do enten­
dim ento exercida sobre os dados sensíveis leva Kant a m anter um conteúdo
a priori: precisamente, os conceitos puros.
Extremamente im portante para determ inar a noção das categorias é a
ampla secção da Analítica conhecida como dedução transcendental dos con-

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63 ♦ 2007 [RPF ;282
Kant e Lonergan 1091

ceitos puros do entendimento. Porque é que surge o problema de justificação


da realidade objectiva dos conceitos a priori? Kant inicia a dedução conside­
rando provisoriamente o problema sob o ponto de vista do senso comum. Para
o senso comum é evidente que o objecto nos é dado pela intuição sensível;
a partir daqui não é difícil compreender porque é que as condições a priori da
sensibilidade são condições do objecto do conhecimento sensível e que, para
além disso, têm validade objectiva; mas não podemos conceber como é que o
mesmo objecto tenha que se conformar com as formas sintéticas a priori do
conhecimento. No entanto, no sentido em que a objecção contra a validade
objectiva dos conceitos puros do entendimento é proposta na base do prin­
cípio intuitivo, a resposta é dada com base na estrutura binária do conheci­
mento. Por isso, a resposta nega a própria base da objecção; isto é, "[...] não
há dúvida que podem ser dados fenómenos na intuição sem as funções do
entendimento." (A 90/B 122).
Os aparecimentos que entram no campo da nossa consciência são já frutos
da actividade sintética do entendimento, que trabalha através da imagina­
ção. Esta é a última palavra da crítica kantiana. Apresentamos um percurso
de pensamento que desta forma explícita não é formulado por Kant, mas é
aquele para o qual convergem as várias inquirições sobre a krv, independen­
temente do modo de abordagem do problema. Os momentos unificadores
dos conceitos puros do entendimento, assim como das intuições puras, são
resultado da unidade sintética da consciência que opera, desde o princípio
do processo cognitivo, e encontra progressivamente no datum a posteriori o
que ela própria aí colocou e assim segue criando, a diferentes níveis da estru­
tura, as condições de possibilidade do conhecimento objectivamente válido.
O que parece ser a condição empírica antecedente a um conhecimento inte­
lectual é, de facto, uma consequência (A 114, 123) da actividade sintética
da imaginação e, no limite, da apercepção transcendental que é o próprio
Verstand no seu papel de fundamentação da unidade dos conceitos puros do
entendimento. "Somos nós próprios que introduzimos, portanto, a ordem e
regularidade nos fenómenos, que chamamos natureza, e que não se poderia
encontrar, se nós, ou a natureza do nosso espírito, não as introduzíssemos
originariamente.” (A 125).
É possível encontrar na krv um elevado número de passagens em que esta
posição é modificada em direcção a um maior realismo, isto é, uma concepção
realmente determinada a posteriori. Mas não é muito difícil compreender que
nessas passagens as características estritamente intelectuais do conhecimento
permanecem como fundamentos, uma vez que é, de facto, impossível funda­
mentá-las num factor a posteriori se se aceitarem as premissas da krv.
Em tal premissa, contida no princípio de que a universalidade e a neces­
sidade não podem derivar da experiência, manifesta-se a incapacidade do
entendimento penetrar na sensibilidade; isto significa que não existe nenhum

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1092 j G io v an n i B. Sala

acto na estrutura do conhecimento capaz de efectivar a passagem do concreto


para o abstracto, do singular para o universal, da aproximação para o ideal
- numa palavra, dos dados para o conceito. Colocar o conceito, e mais preci­
samente o seu carácter de universalidade e necessidade, no centro do conhe­
cimento hum ano e ao mesmo tempo considerar o acto do entendimento que
o precede é assum ir para nós próprios um a tarefa sem sentido. A doutrina da
construção dos conceitos matemáticos, assim como a doutrina da imaginação
e em parte também o estruturalismo, são tentativas para encontrar um substi­
tuto para o acto que, para Aristóteles, está no centro do processo cognitivo.
A problemática do a priori em Kant, a todos os níveis e sobretudo ao nível da
sensibilidade e do entendimento, está indissociável mente ligada com o facto
de não ter considerado o acto do entendimento que capta uma inteligibilidade
no sensível.
Se interpretam os correctamente a justificação da validade objectiva das
categorias, então temos que dizer que a direcção final da epistemologia
kantiana aponta para um conhecimento totalmente tético. O a priori postula
ou é ele próprio constitutivo da realidade que por ele nos é perm itido conhe­
cer. Em relação a tal a priori, expressões que de outro modo seriam surpreen­
dentes assumem literalmente o seu significado: colocado em (hineinlegen:
B xii-xiv), pensam ento sobre (hineindenken: B xii), prescrição de leis à natu­
reza (B 159), conformidade da realidade com o nosso conhecimento (B xvi),
etc. Desta actividade tética, que se alastra à Anschauung, depende o estatuto
ontológico da realidade conhecida. A obscuridade, a tortuosidade e até a
incoerência da k r v devem-se ao objectivo de recuperar o realismo empirista
dentro desta perspectiva idealista. O que consideramos ser a palavra final da
k r v , logo e sempre que é afirmada, está sujeita a correcção e reinterpretação
dentro da perspectiva empirista - num movimento para trás que se mostra a
si mesmo sem critério para se estabelecer em diante qualquer posição defi­
nitiva.

7. O a priori da Vernunft

Kant encontra na profundidade da mente hum ana uma tendência para


alargar o campo do conhecimento para além dos limites da experiência pos­
sível, tal como tinham sido explicitados na Analítica. Qual é o objectivo desta
tendência? É o incondicionado. "O que, necessariamente, nos força a trans­
cender os limites da experiência e de todas as aparências é o incondicionado
(das Unbedingte)!’ (B xx). Não é por acaso que o termo 'das Unbedingte só
aparece em duas páginas do Prefácio B e depois desaparece até que, comple­
tadas a Estética e a Analítica, Kant encare o problema da metafísica como
ciência. De facto, no princípio da Dialéctica o tema do incondicionado é de
novo levantado. Em paralelo com o que fez na Analítica, Kant, instituí aqui

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6 3 • 2007
Kant e Lonergan 1093

um a dedução metafísica dos conceitos puros da razão, nomeadamente, o silo­


gismo, que é o modo típico de operação para a Vemunft. É difícil sustentar
que esta dedução tenha um verdadeiro valor filosófico. No entanto, é signi­
ficativo que Kant, tendo concluído a sua doutrina do conhecimento no seu
desempenho objectivamente válido, se sinta compelido a tom ar em conside­
ração um a tendência para o incondicionado. É sobre este outro factor que a
sua epistemologia deve ser avaliada. Ele diz-nos, por exemplo, que "O incon­
dicionado é a única ideia teorética da Vemunft.” 11
O que é o incondicionado? Aqui, mais um a vez, fazemos realçar dois aspec­
tos que, sem serem mutuam ente exclusivos e mesmo sem serem claramente
distinguidos por Kant, constituem dois modos diferentes de acordo com os
quais a representação a priori da razão age sobre o conhecimento humano.
De acordo com o primeiro aspecto, o incondicionado refere-se à totalidade das
condições; de acordo com o segundo, refere-se àquilo que podemos cham ar o
simplesmente absoluto. Na prim eira ideia da razão o prim eiro aspecto preva­
lece; nas outras duas prevalece o segundo.
No decurso do nosso estudo notám os que Kant tende a conceber o a priori
como um conteúdo da parte do objecto. Mas acrescentamos que em Kant
também está presente um a concepção heurística operativa. Agora, nas ideias
transcendentais está claramente presente a concepção de um conteúdo da
parte do sujeito, isto é, encontram os uma dimensão da consciência como
norma do processo cognitivo. “Semelhantes conceitos de razão não são extraí­
dos da natureza; antes interrogamos a natureza segundo essas ideias [...]"
(A 645/B 673). Este testem unho recorda a formulação do Prefácio B: A razão
deve forçar a natureza “a responder às suas interrogações em vez de se deixar
guiar por esta;[...]” (B xin), que usamos como fórmula para revelar um a priori
meramente heurístico. De acordo com Kant temos aqui algo m enor do que
o a priori deve ser para que seja objectivamente válido; de facto, temos aqui o
verdadeiro a priori - não um conteúdo que é adicionado e que esconde outro
conteúdo, mas, de outro modo, aquele que em primeiro lugar tom a possível
o conteúdo do conhecimento no seu carácter racional. É a racionalidade
na face obversa, que exige e, portanto, procura incondicionalmente na face
reversa, no conteúdo apresentado quer pelos níveis experienciais, quer pelos
níveis da inteligência.
Como é que a razão satisfaz esta exigência? Através de um discursus regres­
sivo indefinido. Vimos que o modo sistemático para descobrir as ideias trans­
cendentais é considerar a actividade discursiva-silogística da razão. Isto, de
acordo com Kant, exige, não apenas a procura das condições gerais do juízo,
mas ainda o início de um a regressão indefinida que é imposta à nossa mente,
precisamente, como foi imposta a prim eira dedução do conhecimento a partir

n Reflexão 64J4 (GS 18. p. 709).

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1094 G iovanni B. Sala

de um princípio. Mais, do mesmo modo que a Vemunft, no seu papel de facul­


dade de princípios, passa do particular para o universal, assim também acon­
tece de um princípio universal para outro ainda mais universal. O silogismo é,
por isso, o princípio de um a regressão infinita de prosilogismos (A 499/B 527,
A 323/B 379). Isto significa que nunca se constitui como o modo de alcançar
qualquer tipo de incondicionado mas, por outro lado, é sempre meramente
transitivo, um momento de passagem (A 331/B 387-88). O incondicionado só
se encontra no fim das séries ou é a própria série infinita na sua totalidade.
Aqui não há qualquer sentido sobre o que se possa dizer que ocorre em qual­
quer elo da cadeia.
Vejamos o que é dito em Insight sobre a nossa tendência para o incondi­
cionado. Desde o início do nosso estudo temos insistido num dinamismo inte­
ligente e racional que está na base do nosso conhecimento. Por causa de um
a priori inteligente na inquirição do inteligível, existe um conteúdo inteligível,
expressado no conceito, que é acrescentado aos conteúdos sensíveis da repre­
sentação. Agora, a mesma consciência expande-se, estabelecendo um a priori
novo que opera a nível mais elevado do que aquele alcançado no conceito.
Espontaneamente encontramos todos os conceitos com a questão: É assim?
Tal questão expressa um a insatisfação da nossa mente face a qualquer repre­
sentação sempre que não tenha a m arca do absoluto, isto é, que não exija o
mesmo valor do que a nossa própria orientação dinâm ica que é irrestrita e,
por isso, incondicional.
Aqui chegados tom a-se necessário ultrapassar totalmente a concepção
do a priori de Kant. A k r v é inteiramente composta como um a procura das
condições formais da possibilidade de existirem conteúdos objectivos como
objectos do conhecimento. Desde o início da Introdução B a inquirição pelo
a priori significa a busca pela adição formal que intervém na constituição do
composto que é o conhecimento. Esta abordagem é confirmada na Estética
e na Analítica - o a priori é o conteúdo formal do objecto do conhecimento.
Na últim a secção da dedução transcendental dos conceitos puros do entendi­
mento, num parágrafo que praticam ente recorda o início da Introdução B, as
intuições puras e os conceitos puros do entendimento são afirmados como
"elementos no conhecimento [que] se encontram em nós, a p r i o r i (B 166).
Tais conceitos, continua Kant, "[...] possibilitam a experiência [...]" (ibid.).
Com isto a doutrina do a priori, de acordo com a k r v , está concluída.
Mas a análise transcendental só se conclui quando, indo para além das
condições formais, de acordo com as quais a sensibilidade recebe as impres­
sões e o entendimento pensa os conteúdos da intuição, chega ao sujeito que
exerce todas essas acções. A questão se o sujeito fixou ou não as formas a priori
é realmente de im portância secundária. Esta outra questão é, no entanto,
decisiva: porquê e como é que o sujeito realiza a sua actividade cognitiva?
A resposta é que o sujeito é um a consciência racional que traça, na orientação

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63 • 2007 286
Kant e Lonergan 1095

que o constitui, o horizonte da sua busca como o horizonte do ser. Em prin­


cípio é possível delimitar qualquer esfera formal de consideração: a esfera da
mera aparência dentro da qual a nossa experiência está confinada de acordo
com a k r v , a esfera puram ente lógica dentro da qual os matemáticos estão
inseridos na elaboração dos seus sistemas dedutivos hipotéticos, etc. Mas não
é possível limitar a esfera delineada pelo sujeito concreto racional e inteli­
gente que se demarca desses domínios. O sujeito, que realiza todas as opera­
ções dadas à luz pela k r v e até outros que desconhecem a k r v , agem de acordo
com aquele a priori que ele é.
Um com putador imaginário equipado com as duas formas de sensibili­
dade, as doze categorias do entendimento, os esquemas transcendentais, etc.,
deveria ser capaz de realizar todas as operações descritas na k r v : o objecto das
operações realizadas através de tal tipo de equipamento formal seria o apare­
cimento. De que forma é que tal 'conhecimento' difere daquele dos seres hum a­
nos? Nisto: nos seres humanos a estrutura do conhecimento é actualizada
como uma resposta às questões que expressam o dinamismo das suas cons­
ciências. As condições sensíveis e os elementos formais são todos colocados
na orientação consciente para o absoluto que denominamos ser. Até mesmo a
inteligência consciente na busca do inteligível é um momento na realização do
sujeito que trabalha dentro do horizonte do ser. Consideraremos mais tarde
a função do a priori em relação ao juízo. A im portância do juízo reside no
facto de que dá a resposta, pelo menos através de sucessivos acrescentos, à
nossa tendência para o incondicionado. No entanto, muito mais im portante
do que o facto de estabelecer o juízo como um a fase da estrutura cognitiva é
o facto decisivo de que a inclinação para o incondicionado constitui o poder
operativo do sujeito que lhe perm ite agir a todos os níveis. Tal poder da
operação racional e inteligente é realmente o nosso a priori. Só por si traz
à luz, não apenas o que o sujeito faz ou o que tem, mas também o próprio
sujeito que age e o que ele é.
Afirmámos em cima que existem dois modos de acordo com os quais a
Dialéctica considera o incondicionado: (1) é a totalidade das condições e (2)
é o simplesmente absoluto. Em nenhum destes casos, de acordo com Kant, o
incondicionado é capaz de adquirir referência objectiva e, portanto, tomar-se
constituinte do nosso conhecimento. Em Insight existem dois sentidos do
incondicionado que têm um a certa afinidade com os dois sentidos da k r v :
(1) o formalmente incondicionado e (2) o virtualmente incondicionado.
O primeiro não tem quaisquer condições; o segundo tem de facto condições,
mas estão preenchidas (Insight, p. 280/305). Tentemos determ inar a diferença
entre o virtualmente incondicionado e o Unbedingtes como a totalidade das
condições, para que possamos ver porque é que o primeiro, de acordo com
Lonergan, pode entrar na constituição do nosso conhecimento, ao passo que
o segundo, de acordo com Kant, não pode.

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287 Q I rpf 6 3 *2 0 0 7 1 1 0 7 1 -1 1 0 2
G iovanni B. Sala

De acordo com Kant, “[...] o conceito transcendental da razão refere-se


sempre apenas à totalidade absoluta na síntese das condições e só termina no
absolutam ente incondicionado, ou seja, incondicionado em todos os sentidos"
(A 326/B 382). A unidade para a qual a razão tende é a unidade de um sistema
(A 680-81/B 708-9). Esta concepção da totalidade das condições como consti­
tuintes de um sistema é particularm ente evidente na concepção da natureza
de Kant. Aí é imposta à mente hum ana um a inquirição sem fim de acordo com
as conexões determinísticas dos eventos naturais. Esta concepção ontológica
do universo como um sistema corresponde a um a concepção da actividade
discursiva como o início de uma regressão indefinida de prosilogismos.
Porém, só é possível conferir um a função constitutiva à ideia do incon­
dicionado, se as concepções de Kant, tanto a do universo material, como a
da capaçidade discursiva da mente, forem submetidas a revisão. De acordo
com Lonergan, todo o universo não é apenas um padrão de relações internas,
de que nenhum a parte ou aspecto pode ser conhecido isoladamente de qual­
quer outra. O universo não é simplesmente um sistema cxplanatório, um
sistema cujas partes singulares são totalm ente determinadas pelas relações
internas que ocorrem entre elas, porque “as suas existências e as suas ocorrên­
cias divergem assistematicamente da pura inteligibilidade; exibe um resíduo
empírico do individual, do acidental, do contínuo, do meramente justaposto
e do meramente sucessivo; é um universo de factos." (Insight, p. 345/369).
Em harm onia com tal universo, Lonergan descreve o acto do juízo como se
segue: “Um juízo é um compromisso limitado; longe de assentar no conhe­
cimento do universo, é, com efeito, aquilo que é independentemente do que
venha a ser o resto do universo, pelo menos isto é assim.” (Insight 344/368).
A natureza do juízo como um compromisso limitado determina a forma como
pronunciam os um juízo: “Longe de se pronunciar sobre o universo, contenta-
-se em afirm ar um a singularidade condicionada que tem um número finito de
condições que são, de facto, preenchidas." (Insight, p. 345/369).
O Unbedingtes kantiano é a coerência compreensiva que abarca todo o uni­
verso e para a qual tendemos colocando questões para a inteligência (Insight,
p. 345/370). Neste sentido, não há qualquer dúvida de que o incondicionado
tem um a função puram ente normativa no nosso conhecimento. De facto, o
que captamos com o entendimento é sempre um a inteligibilidade parcial que,
por isso mesmo, não é incondicionada; em si própria, como inteligibilidade
de tal natureza, implica meramente a possibilidade do ser, não simplesmente
o ser. Mas a nossa estrutura cognitiva apresenta questões de outro tipo, ques­
tões para reflexão, que se tom am precisamente naquelas questões sobre inteli­
gibilidades que abarcam um a esfera limitada do universo. Agora, a inquirição
reflexiva subsequente a estas questões é capaz de alcançar um incondicio­
nado que é o resultado da combinação de um condicionado (expressado pelo
conceito) com o cumprim ento das suas condições. É virtualmente incondicio­
nado ou, de facto, absoluto.

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63 • 2007 O ifiPF f l s s
Kant e Lonergan 1097

Para fazer um paralelo entre o que afirmamos sobre o universo como pro­
porcionado ao nosso conhecimento, nomeadamente, de que não é um único
terreno fechado sobre si de relações internas mas um universo de factos,
temos que clarificar a natureza da actividade discursiva das nossas m en tes,2.
Anterior à razoabilidade encontrada nos silogismos que lidam com a lógica
formal, existe um a actividade, genericamente denominada raciocínio, que é
um movimento em direcção à compreensão. Nele devemos distinguir dois
níveis: o movimento para a compreensão directa e o movimento para a com­
preensão reflexiva. O prim eiro é um movimento para aquela síntese inteligível
que é expressa no conceito, o segundo para o conteúdo que denominamos
como o virtualmente incondicionado. Assim que o conteúdo tanto da expe­
riência sensível e o da compreensão directa entram na constituição do conhe­
cimento humano, também com a mesma veracidade formam os conteúdos
da compreensão reflexiva um a parte constitutiva do mesmo conhecimento.
Sobre isto é fundado o acto do juízo.

8. O juízo como resposta adequada ao a priori do espírito

Se o carácter absoluto, experimentado pela síntese mental, é o que funda


o juízo, então, o juízo não é um a síntese de conceitos, composilio et divisio,
mas sim o postulado absoluto da síntese. O postulado absoluto é a contri­
buição peculiar do juízo à estrutura cognitiva. O que Kant cham a análise e
síntese são dois tipos diferentes de entendimento e, portanto, dois tipos de
sínteses. Kant estava muito mais inclinado para assegurar um a im portância
fundamental à distinção entre os juízos sintéticos e analíticos, uma vez que
não estava claramente consciente acerca da origem a posteriori de todos os
nossos conceitos. Mas, um a vez clarificada esta origem, a problemática do
juízo tom a-se totalmente diferente. Não devemos ignorar a conexão íntima
entre aquilo que afirmamos em cima sobre o a priori da razão segundo Kant
e a sua doutrina do juízo como aquela “nos quais se pensa a relação entre um
sujeito e um predicado [...]” (A 6/B 10). Se atribuirm os ao a priori como inqui­
rição para o incondicionado, apenas a função de regular o desenvolvimento
do nosso conhecimento objectivamente válido, então, o juízo, na medida em
que é de qualquer modo reconhecido como um acto da estrutura cognitiva, só
pode ser concebido como a síntese do sujeito com o predicado.
Mas a noção de posição absoluta não é desconhecida para Kant. Assume-
-se, especialmente, quando ele trata do tema do nosso conhecimento da reali­
dade. Todo o tratam ento das categorias de modalidade nos postulados do
pensamento empírico em geral elabora esta dupla temática: (1) apenas os três 12

12 Cf. Bernard Lonergan - Verbum: Word and idea in Aquinas. Edited by David B. Burrell.
Notre Dame: University of Notre Dame Press, 1967, pp. 54-55.

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289 i U R * 7 63 * 2007 110/ 1-1102
1098 G io v an n i B. Sala

primeiros grupos de categorias têm um a função constitutiva do conceito;


(2) o quarto grupo, enquanto que designa o carácter supremo da realidade
qua realidade, não está no mesmo plano que as determinações formais que
pertencem aos primeiros três grupos. Encontra-se a mesma doutrina na
secção sobre a impossibilidade de um a prova ontológica para a existência
de Deus. Tudo o que Kant afirma sobre Wirklichkeit ou Existenz ou Dasein
ou Sein em oposição à categoria da Realität (Qualität) culmina na noção de
postulado. No décimo parágrafo da secção sobre a prova ontológica temos os
elementos essenciais da doutrina kantiana do ser como postulado. “Ser não
é, evidentemente, um predicado real, isto é, um conceito de algo que possa
acrescentar-se ao conceito de um a coisa; é apenas a posição de um a coisa
ou de certas determinações em si m esm a s” (A 598/B 626). De novo, “[...] na
realidade, o objecto (...) é sinteticamente acrescentado ao meu conceito [...]"
(A 599/B 627). O conceito enquanto conceito é a determinação do meu estado
e, portanto, está em mim; por outro lado, o objecto como existente está fora do
meu conceito. Similarmente, as Vorlesungen über die Metaphysik dizem-nos:
“Die wahre Erklärung des Daseins ist: existentia est positio absoluta" (A verda­
deira explicação da existência é: existência é posição absoluta),3.
Podemos estabelecer duas conclusões tendo por base os textos citados:
(1) de um ponto de vista ontológico, a Wirklichkeit (actualidade) ou Dasein
significa o postulado da coisa em si m esm a,4; (2) de um ponto de vista cogni­
tivo, a actualidade não implica qualquer determinação conceptual para além
da que está envolvida no conhecimento da possibilidade. Faltando-lhe isto, a
análise kantiana é um a indicação do acto cognitivo correlativo à actualidade.
Ser significa a coisa em si mesma. Mas, através de que processo eu posso
alcançar este postulado absoluto da coisa no seu ser e, portanto, alcançar um
conhecimento da coisa em si? A diferença entre o conhecimento da possi­
bilidade e o conhecimento da actualidade é que o primeiro não vai para
além do conteúdo conceptual, enquanto que o segundo alcança a coisa em
si, pelo que a proposição existencial (Existenzialsatz) acrescenta a coisa em si
ao conceito15. Mas como é que acrescentamos a coisa ao pensam ento acerca
da coisa?
Face a esta questão e depois de ter estabelecido a estrutura binária do
conhecimento e chegado à noção de postulado absoluto, Kant corre sempre
o perigo de cair no empirismo: “Mas, como a possibilidade era simplesmente
um a posição da coisa relativamente ao entendimento (...) assim é a realidade,

13 1. Kant - Vorlesungen über die Metaphysik. Erfurt: Keyser, 1821, Photomechanischer Nach­
druck, Darmstadt: Wissenschaftliche Buchgesellschaft, 1964, p. 40. (GS 28, p. 554).
14 Nestes textos a 'coisa em si’ significa a coisa fora do conceito. Quer pertença à realidade
como aparência, quer à realidade absoluta, é um problema futuro que Kant não coloca nesta fase.
,5 1. Kant - Reflexão 6276 (GS 18. p. 543): “Durch das Prädikat dies Daseins tue ich nichts
zum Dinge hinzu, sondern das Ding selbst zum Begriffe.”

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63 * 2007
Kant e Lonergan 1099

ao mesmo tempo, um a ligação dessa coisa com a percepção." (A 234/B 287


nota). No mesmo capítulo Kant escreve: "a percepção (...) é o único carácter
da realidade." (A 225/B 273). É impossível não reparar num a estranha deriva
na investigação de Kant sobre o processo pelo qual chegamos ao conheci­
mento da realidade. Tendo chegado ao ponto decisivo, salta para a realidade
sem dem onstrar claramente como é que dá este salto ou que acto é esse pelo
qual conhecemos o real. Se não volta a falar sobre as operações cognitivas,
parece atribuir apenas à percepção a actividade de conhecimento do efectiva-
mente existente.
Se nos virarmos agora para Insight descobrimos que toda a sua doutrina
do conhecimento da actualidade pode ser resumida desta forma: o acto do
juízo é o meio pelo qual conhecemos a realidade. Uma síntese mental que
tenha o carácter do absoluto é um a verdadeira síntese e a verdade é o medium
in quo ens cognoscitur (o medium em que o ser é conhecido). O verdadeiro
significado medeia a realidade para nós. Falar-se na posição absoluta de uma
síntese não é o mesmo que falar apenas na percepção, nem na percepção mais
o conceito, mas sim de um acto que é ao mesmo tempo empírico, inteligente
e racional. Só existe um a forma para salvaguardar o papel que os sentidos,
assim como o conceito, desempenham no nosso conhecimento da realidade e
essa forma é reconhecer que, quer a intuição, quer o conceito, estão incluídos
nesse fundam ento absoluto pelo qual o processo cognitivo passa do pensa­
mento ao julgamento.
Deixem-nos dar outro passo na nossa análise do processo pelo qual o juízo
nos dá o conhecimento da realidade. E studar este processo é estudar o pro­
blema da transcendência do conhecimento. Aqui, mais um a vez, como vimos,
no problema geral do conhecimento, a verdadeira questão não é se o nosso
conhecimento é transcendente, mas o que é que a transcendência verdadei­
ramente significa. Da nossa parte baseamos inteiramente a transcendência
do conhecimento hum ano no facto de ser conhecimento do ser qua ser, no
ser sub ratione entis, isto é, no ser como algo incondicionado. Nem a doação
nem a inteligibilidade gozam deste carácter absoluto. O dado é conhecido
como aquilo que tem alguma relevância para a actividade físico-biológica;
é 'real' deste ‘ponto de vista.' 0 inteligível é o objecto do espírito na sua busca
por sentido; no entanto, apenas isto não implica um carácter absoluto, preci­
samente porque inteligível significa inteligível para alguém. O ser é aquilo que
é conhecido pela resposta à questão, An sit? Mas no último caso relativamente
ao sujeito, é idêntico com a transcendência em relação ao mesmo sujeito e
em relação a qualquer que seja a qualificação restritiva, porque, neste caso
e só neste caso, o sujeito é definido pela inclinação para o transcendente. Por
outras palavras, neste caso, o ponto de vista de acordo com o qual o objecto
é visto é transcendente a todos os pontos de vista.

Revista Portuguesa de Filosofia ;


291 I RPF 6 3 -2 0 0 7 1 1 0 7 1 -1 1 0 2
I KHI i Giovanni B. Sala

Se o a priori que comanda os nossos actos cognitivos é a procura pelo


absoluto, então apenas o incondicionado poderia constituir a realização
adequada e, portanto, apenas pelo incondicionado é que a intenção do sujeito
intencionante passaria da antecipação do ser para o conhecimento do ser.
Obviamente, a representação como representação em mim, é minha. Mas,
sendo incondicionado, o seu conteúdo não me é relativo. Como absoluto,
o conteúdo representativo é uma representação sob um aspecto, o que não
significa que seja relativo ao sujeito. Em resumo, a representação do incondi­
cionado não implica a sua relação com qualquer outra realidade senão aquela
que intrinsecamente constitui o incondicionado em si. É neste sentido que a
denominamos como uma representação absoluta.
Nós conhecemos tudo o que nos é representado - independentemente da
questão se o conteúdo representado transcende a representação. Este princí­
pio, que é válido para todas as fases do conhecimento, deve aplicar-se também
à representação do incondicionado. Por isso, uma faculdade que represente
a si própria um conteúdo como absoluto, se chega a conhecer qualquer coisa
- e isto é para ser admitido uma vez ultrapassada a concepção irracional
do real - conhece precisamente este absoluto. Mas o absoluto é o que todos
compreendem - operativamente - por ser. Perguntar se conhecemos o ser é o
mesmo que perguntar se somos capazes de uma representação cujo carácter,
formalmente como representação, é a incondicionalidade. A nossa resposta
é sim, uma vez que vimos que o processo cognitivo é capaz de alcançar o
virtualmente incondicionado através do pensamento sobre o condicionado,
captando a realização das suas condições. O ponto delicado é: como é que
o conteúdo da nossa representação é captado como absoluto? E a nossa res­
posta é: não pela forma directa do conteúdo formal, mas pela forma indirecta
do virtualmente incondicionado.
O a priori como inquirição do incondicionado determina para nós o
objecto do nosso conhecimento que designamos por realidade ou ser. O ser
é o objecto do nosso dinamismo inteligente e racional. Quando o conteúdo
mental, a representação qua representação, adquire o carácter do absoluto,
temos uma representação que, pela sua própria natureza, faz realçar esse
transcendente que pertence ao conhecimento; chegar lá através de uma repre­
sentação mental é o modo de alcançar a coisa directamente. A dificuldade em
reconhecer esta reflexividade, mesmo que seja espontaneamente no nosso
desempenho sempre que fazemos um juízo racional, é a dificuldade da con­
versão intelectual - a mudança da extroversão animal com que a nossa vida
física se desenvolve em primeiro lugar e que se preserva como uma função
válida durante toda a nossa vida, para a intelectualidade e racionalidade cons­
titutivas do nosso espírito, reconhecida e aceite como uma norma imanente
do nosso conhecimento do universo do ser.

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Kant e Lonergan 1101

9. Expansão do a priori:
Do conhecimento da natureza à constituição do mundo humano

A epistemologia kantiana é altamente obscura, fragmentária e até contradi­


tória. Temos que discordar de Kant, afirmação após afirmação da sua análise
do conhecimento. A im portância da KRV reside muito mais no colocar do pro­
blema do que na resolução do mesmo. O seu mérito especial consiste em ter
aberto a reflexão filosófica ao problema do a priori em toda a sua força e, por­
tanto, ter introduzido o estudo do papel do sujeito no conhecimento humano.
Necessitamos apenas de pensar na im portância do enfoque moderno que o
sujeito tem para a cultura dos dias de hoje para percebermos a im portância
histórica da inquirição de Kant sobre o a priori.
Falamos do sujeito hum ano como aquele ser que é intrinsecamente dotado
de sentido. Vimos que este sentido é o nosso a priori: a consciência dinâmica,
inteligente e racional constitui a fonte do processo cognitivo perpassando-o e
estabelecendo os princípios normativos das diferentes fases da estrutura em
que se realiza. Eliminamos da nossa interpretação do a priori os elementos de
conteúdo objectivo que se encontram na doutrina kantiana, e que por isso se
opõem ao ‘hineinlegen' (colocado em) em que Kant se baseia tão fortemente.
Não nos parece que um a análise atenta do conhecimento, particularm ente no
seu carácter de receptividade e desenvolvimento, confirme o a priori como o
conhecimento de um objecto ou de um objecto parcial que reside im ediata­
mente na mente.
A análise de Kant considera principalmente, se não mesmo exclusiva­
mente, aquele tipo de conhecimento que é a ciência natural. Mas, um a vez
tematizado o papel do sujeito no conhecimento da natureza, fica em aberto a
possibilidade de reconhecer o sujeito como princípio da actividade intencional
em quaisquer que sejam os outros âmbitos. De facto, o inteligente operacional
inteligível que, como sujeitos, todos nós somos, não é apenas a capacidade
de nos conduzirmos ao conhecimento de uma realidade que já existe inde­
pendentemente da nossa actividade consciente; é também um princípio que
cria um a outra realidade diferente da da natureza - nós próprios e o mundo
humano. Temos aqui um a realidade não apenas mediada pelo sentido, mas
também constituída pelo sentido; portanto, esta secção do m undo pode ser
correctamente chamada o m undo do sentido. Aquele sentido, quer recepti­
vamente procurado, quer criativamente expandido, que vimos ser o nosso
a priori é aquele pelo qual nos criamos a nós próprios e ao nosso mundo.
Aqui, podemos restaurar em toda a verdade tética a concepção do a priori da
K R V. No que respeita ao mundo humano, a afirmação de que os objectos se
devem conformar com o nosso conhecimento, isto é, à nossa intencionalidade
ou à nossa capacidade de conferir sentido, ou que o nosso conhecimento das
coisas é apenas aquilo que nós próprios nelas colocamos, deve ser tomado

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literalmente. Aqui, o espírito dá, verdadeiramente, a lei à natureza, elevando


a natureza ao nível ontológico da realidade humana. Aqui, o conhecimento da
realidade é essencialmente interpretação, isto é, o conhecimento do sentido
compreendido e realizado por outros a partir do seu próprio sentido.
Mas existe ainda um outro desenvolvimento. A expansão da consciência
ao nível racional é fundam ental para a actividade cognitiva, mas não para a
actividade consciente do sujeito hum ano como um todo. O nosso a priori não
é apenas um dinam ismo que procura a verdade do conhecimento em ordem a
alcançar o ser, exige também, para além disso, a consistência entre o conhecer
e o fazer, em ordem a se constituir como autêntica vida hum ana baseada no
verdadeiro sentido. Tal torna ainda mais evidente a im portância da análise
transcendental em ordem a tem atizar aquele a priori que nos constitui como
seres intencionais e a necessidade de determ inar que padrão deve ser seguido
para nos levar à verdade no nosso conhecimento. Somos capazes de um impe­
rativo categórico que constitui a nossa anankê interior, em conjunto com a
nossa dignidade suprema, porque somos capazes da verdade do ser no inte­
rior da anankê da racionalidade.
O mérito de Insighí reside no facto de ter desenvolvido a análise transcen­
dental iniciada na k r v , trazendo à luz as condições para a possibilidade do
conhecimento objectivo. Isto resultou numa frutuosa clarificação: (1) do a
priori como a dimensão subjectiva-consciente do conhecimento, (2) do conhe­
cimento como um a estrutura empírica, inteligente e racional e (3) da reali­
dade como intrinsecamente inteligível.

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