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Da insubmissão feminista na atualidade – Margareth Rago

O primeiro ponto interessante trazido pela historiadora Margareth Rago é a


onda de desenvolvimento que permitiu uma expansão informativa do feminismo
na década de 1970, como parte da luta contra a ditadura militar.

Chama a atenção a atenção também a disputa de pautas, pois o movimento


feminista na época não nasce como um movimento fechado, mas em conjunto
com outros. No entanto, enquanto as feministas buscavam discutir pautas
como aborto, os “companheiros” priorizavam outras discussões.

Interessante também quando a Profª Margareth fala sobre o impacto das idéias
feministas sobre o pensamento da mulher abnegada. A percepção de que “eu
não conheço o meu corpo” demonstra a quebra de um paradigma adoecedor.

A historiadora também cita algumas discussões pertinentes ao feminismo,


como a prostituição e transgeneridade, concebidas e discutidas de formas
diferentes pelas diversas vertentes do feminismo.

Ela cita também a existência das profissionais feministas. Destaque para as


medicas e advogadas feministas. Profissionais que criticam o machismo nos
fundamentos e exercício de tais profissões.

Outra afirmação interessante: “rever o passado é encontrar outros sentidos


para o futuro e para o presente, é deslegitimar o poder e a dominação no nosso
mundo”. Isso interessa à construção de um projeto de sociedade que
queremos.

Margareth faz também uma importante menção à Maria Lacerda de Moura, que
criticou teorias médicas que afirmavam que mulheres que sentiam desejo
sexual eram degeneradas natas, e também questionou a maternidade
compulsória.

A professora fala também sobre algo muito importante, que é sobre como o
enfoque de gênero do feminismo têm ganhado outra amplitude em outras
esferas, inclusive implicando numa reflexão crítica sobre as masculinidades.

Nesse sentido, ela fala sobre as violências implícitas na categorização


patológica de gays e lésbicas em relação a uma sociedade heteronormativa,
em que, como ela diz em outro momento a heterossexualidade é compulsória.

Ela trata também sobre a disseminação dos preconceitos contra esses grupos
na sociedade, em todas as esferas: “[...] ele entra na faculdade de medicina e
todo mundo tá falando isso, [...]”. Ou seja, preconceitos que contaminam
mesmo a educação formal.

Discussão – Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da Mulher


Esses pontos apresentados pela Profª Margareth Rago são relevantes na
medida em que revelam o lugar e o contexto da mulher na sociedade brasileira,
tal como os impactos da articulação dos movimentos feministas desde a
década de 1970 até seus desdobramentos atuais, dentre eles, para as políticas
de saúde da mulher.

É possível destacar, por exemplo, quando a historiadora fala sobre a


maternidade compulsória, que a saúde da mulher já foi tratada restritamente à
saúde materna, ou seja, diretamente relacionada à reprodução, o que vai
contra o conceito de saúde que possuímos atualmente, mas se formos
considerar, por exemplo, a época da expansão dos movimentos feministas na
luta contra a ditadura, prontamente podemos associar também aos movimentos
da Reforma Sanitária Brasileira, que objetiva outro modelo de saúde para o
país, certamente muito diverso desse que considerava a saúde da mulher
como meramente sua capacidade reprodutiva.

Nesse sentido, o gênero é colocado como um aspecto a ser considerado como


um determinante da saúde, dadas as relações de poder que produziram
conceitos reducionistas sobre a saúde da mulher, de modo que as políticas
públicas de saúde devem considerar a construção histórica dessas relações
sociais. A organização social das relações de gênero expõe as pessoas a
diferentes formas de sofrimento, adoecimento e morte, que devem ser tratadas
em sua singularidade na análise do perfil epidemiológico e no planejamento
das ações de saúde.

Cabe falar também sobre gênero como uma construção social sobre um corpo
sexuado, um conjunto representações sociais sobre o que é ser homem ou
mulher, estabelecendo relações desiguais. A Profª Margareth Rago fala sobre
feminismos que discutem a questão da transgeneridade e, pensando nisso,
pode-se refletir também a quem essas políticas atendem segundo o conceito
apresentado e como essas pessoas têm sido atendidas de fato nos serviços de
saúde pública.

Como já dito pela Profª Rago, as mulheres organizadas possuíam suas


próprias pautas, que não recebiam a atenção devida das organizações de
esquerda, e essas pautas também incluíam questões de saúde, reivindicações
de sua condição como sujeitos de direito que necessitam de cuidados além da
gestação e do parto, mas de todos os ciclos da vida.

Esta primeira parte é importante para se tratar sobre alguns aspectos históricos
das ações públicas voltadas para a saúde da mulher. Margareth Rago afirmou
sobre a importância de rever o passado como modo de subverter as relações
de poder. Nesse processo também podemos pensar na participação de
profissionais de saúde com essas idéias na construção de um projeto de saúde
coletiva no Brasil, dado que a historiadora também fala do surgimento das
profissionais feministas. No entanto ainda é preciso examinar aspectos das
políticas públicas de saúde da mulher, principalmente na atenção básica, e
como estão relacionadas às outras questões abordadas pela historiadora.

No Brasil, algumas das principais causas apontadas de morte feminina são


doenças cardiovasculares, neoplasias como câncer de mama e o de colo do
útero, doenças endócrinas, nutricionais e metabólicas, como diabetes. A
mortalidade associada ao ciclo gravídico puerperal e ao aborto também merece
atenção, dado que estão ligados à vivência da sexualidade.

Esse é um ponto importante, a Profª Rego fala de como o feminismo fez a


mulher abnegada olhar pra si e dar atenção ao próprio corpo. Vemos, por
exemplo, políticas de prevenção ao câncer de mama estimulando o autoexame
do toque, trabalhos de conscientização sobre a alimentação, discussões sobre
o aborto como questão de saúde pública. Isso é voltar-se para si mesma, a
tomada de consciência e processo de quebra do desconhecimento e
impotência sobre o próprio corpo. Além do mais, trata-se de prevenção de
doenças e promoção à saúde.

A saúde da mulher ainda encontra bastantes problemas, muitos relacionados à


maternidade, ainda há mulheres que não têm acesso aos exames pré-natal, e
muitas outras que sofrem com a precarização dessa assistência, sendo que
70% das mulheres no Brasil são usuárias do SUS para esse atendimento, é
possível imaginar uma violência que existe (não tão) implicitamente contra
determinados grupos sociais e, no caso, as mulheres, quando lhes são
negadas assistência e cuidado preventivos.

Isso se mostra também nos casos de violência obstétrica, que possui


implicações não apenas no momento do parto, e prevalece sobre mulheres
negras e pobres que necessitam dos serviços públicos de saúde.

Esses tipos de violência muitas vezes se sustentam, no campo da saúde, em


mitos reproduzidos mesmo dentro da academia, mudar isso requer uma
mudança de enfoque no próprio conceito de saúde dos profissionais, um
trabalho de humanização e qualificação em saúde, aprender a compartilhar
saberes e reconhecer direitos.

Nesse sentido, dois dos elementos necessários para atingir os princípios de


humanização são justamente:

 A capacitação técnica dos profissionais de saúde e funcionários dos


serviços envolvidos nas ações de saúde para uso da tecnologia
adequada, acolhimento humanizado e práticas educativas voltadas às
usuárias e à comunidade
 Acolhimento amigável em todos os níveis da assistência, buscando-se a
orientação da clientela sobre os problemas apresentados e possíveis
soluções, assegurando-lhe a participação nos processos de decisão em
todos os momentos do atendimento e tratamentos necessários.

Desse modo, pode-se concluir que a humanização deve estar presente em


todos os níveis de atenção, em especial a primária. Os profissionais de
saúde precisam ser educados para lidar com as usuárias de forma
equânime, levando em consideração as especificidades no atendimento das
usuárias, de modo que possamos caminhar num projeto de sociedade
condizente tanto com a Reforma Sanitária Brasileira, como também com as
lutas do movimento feminista, que vêm desde a década de 1970
transformar a realidade social brasileira, para assim mudar a realidade da
saúde brasileira.