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Moro e Youssef: personagens de


uma longa história
8-11 minutes

Por Paulo Muzell

Os dois são paranaenses, quarentões. Sérgio Moro de


Maringá, Alberto Youssef de Londrina. O primeiro vem de
uma família de classe média alta, filho de professor
universitário, formou-se cedo em direito, fez pós-
graduação, tornou-se juiz federal, estudou no exterior. O
segundo, o Youssef não teve a mesma sorte. Filho de
imigrantes libaneses pobres, aos nove anos já vendia
pastéis nas ruas de Londrina. Muito esperto, ainda guri,
pré-adolescente, já era um ativo sacoleiro. Precoce, antes
de completar 18 anos já pilotava monoplanos o que lhe
possibilitou uma mudança de escala, um considerável
avanço nas suas atividades de contrabandista e doleiro.
Com menos de trinta anos tornara-se um bem sucedido
“homem de negócios”, dono de poderosa casa de câmbio,
especialista em lavagem de dinheiro e remessa ilegal de
dólares para o exterior. Em meados dos anos noventa
operava em grande escala repassando recursos que

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“engordavam” o caixa 2 das campanhas de políticos


importantes do Paraná e de Santa Catarina, dentre eles
Álvaro Dias, Jayme Lerner e Jorge Bornhausen.

Alberto Youssef foi, também, figura central na transferência


ilegal de bilhões de dólares oriundos de atividades
criminosas e de recursos desviados na farra das
privatizações do governo FHC.

Em novembro de 2015, o jornalista Henrique Berangê


publicou na revista Carta Capital uma instigante matéria
com o seguinte parágrafo inicial: “O juiz Sérgio Moro
coordena uma operação que investiga sonegação de
impostos, lavagem de dinheiro, evasão de divisas
intermediadas por doleiros paranaenses. Foram indiciados
631 suspeitos e remetidos para o exterior 134 bilhões de
dólares, cerca de 500 bilhões de reais.” Operação Lava
Jato, 2014? Não, ele se referia ao escândalo do Banestado
ocorrido no final dos anos 90. A privatização desse banco
estatal comprado pelo Itaú segundo estimativas trouxe um
prejuízo de no mínimo 42 bilhões de reais aos cofres
públicos do país. Mas antes do banco ser vendido, sua
agência em Nova York foi o porto seguro dos recursos
bilionários para lá transferidos pelos fraudadores.

Na segunda metade dos anos noventa através das contas


CC5 o então presidente do Banco Central Gustavo Franco
escancarou as portas para uma sangria de recursos que
daqui migraram para engordar as polpudas reservas de
empresários, políticos, grupos de mídia no exterior. Sem
dúvida o maior episódio de corrupção da história do país.

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Foi aberta uma CPI no Congresso, virou pizza; o Banco


Central boicotou as investigações e a imprensa silenciou.
Só a Globo enviou 1,6 bilhões de dólares, mais de 5
bilhões de reais. Além das grandes empreiteiras na lista
dos fraudadores lá estavam também outros grupos da
mídia: a editora Abril, o Correio Brasiliense, a TVA, o SBT,
dentre outros. A justiça foi convenientemente lenta, os
crimes prescreveram, só foram punidos alguns integrantes
da “arraia miúda”. Ironias da história: a corporação Globo,
futura “madrinha” de Moro cometeu os mesmos ilícitos que
mais tarde seriam por ele denunciados na operação Lava
Jato. Desta vez, porém, as diligências policiais e ações
judiciais não foram arquivadas e Moro pôde posar de
“campeão na luta contra a corrupção, herói nacional.”

O silencio da mídia repetiu-se em 2015 quando a operação


Zelotes denunciou que membros do Conselho de
Administração de Recursos Fiscais, o CARF estavam
recebendo propinas para livrar grandes empresas de
multas aplicadas por prática de sonegação de impostos.
Bilhões de reais de dívidas da Gerdau, da RBS, do Banco
Safra, do Banco de Boston, da Ford, do Bradesco, dentre
outras empresas e grandes grupos da mídia. As apurações
preliminares estimaram que mais de 20 bilhões de dólares
foram desviados dos cofres públicos, sendo este montante
apenas a “ponta do iceberg”. Certamente a continuidade
das investigações chegaria a valores muito maiores.

Começou lá nos primeiros anos da década passada, o idílio


Moro-Youssef, em 2003 para ser mais preciso. Apesar do

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protagonismo central do doleiro na prática de ilícitos, ele foi


beneficiado pela delação premiada, ficando livre, leve e
solto. Prosseguiu, é claro, na sua longa e bem sucedida
carreira de crimes bilionários. Observe-se que na delação
premiada a redução da pena ou o perdão é concedido ao
réu sob expressa condição de promessa de ilibada conduta
futura.

É claro que a biografia de Youssef não poderia alimentar


nenhuma esperança de regeneração, de que ele
abandonasse as práticas ilícitas.

Onze anos depois, em março de 2014, na fase inicial da


operação Lava Jato, Youssef foi novamente preso por
Moro. Foi constatado que ele era o principal operador das
propinas que alimentaram o caixa das campanhas de
inúmeros políticos especialmente do PP e do PT no
chamado Mensalão 2, ocorrido em 2005. O primeiro, o
Mensalão 1, o da compra dos votos para a reeleição de
FHC não teve consequências porque Geraldo Brindeiro, o
Procurador Geral da República das 626 denúncias
criminais dos seus oito anos no cargo (de 1995 a 2003),
arquivou mais de 90% delas, encaminhando para
indiciamento pelo Judiciário apenas 60, justamente as de
importância menor e que envolviam personagens
secundários. Brindeiro ficou por isso nacionalmente
conhecido como o “engavetador-geral da República“. A
grossa corrupção que marcou os dois períodos do governo
Fernando Henrique foi varrida para de baixo do tapete: o
Ministério Público Federal e o Poder Judiciário taparam o

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nariz e fecharam os olhos.

A delação premiada de Youssef realizada em 2014 e 2015


foi justificada por Moro pela importância que teve para a
obtenção de provas que culminaram em dezenas de
indiciamentos e prisões de importantes figuras,
possibilitando a comprovação de desvios bilionários. Fala-
se que a Lava Jato apurou pagamentos de propinas de
valores acima dos 10 bilhões de reais, valor expressivo
mas que, pasmem, representa apenas 1,7% dos valores
desviados dos cofres públicos nos episódios do Banestado
e da operação Zelotes.

Segundo o noticiado, Youssef foi indiciado em nove


inquéritos. Algumas ações com sentenças já transitadas
em julgado resultaram em condenações que totalizaram 43
anos de prisão em regime fechado. Há ainda outras ações
que, na hipótese de ocorrer a condenação, poderiam
resultar em 121 anos e 11 meses de prisão. Sérgio Moro
anunciou este mês que pela contribuição que a delação de
Youssef trouxe para a operação Lava Jato, sua pena foi
fixada em três anos, dois quais dois anos e oito meses já
cumpridos. A partir de novembro ele deixará o regime
fechado e vai passar os meses restantes em prisão
domiciliar.

A legislação penal tipifica o ilícito e determina a pena de


acordo com sua gravidade. Cabe ao juiz na sentença
aplicar a sanção que a lei determina. O que pode ser
questionado na delação premiada é que não existe na lei a
dosimetria que imponha ao magistrado um limite para a

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redução da pena. O caso de Youssef é um exemplo típico:


Sérgio Moro, se considerarmos as graves ilicitudes, os
valores envolvidos e as inúmeras reincidências do doleiro
foi extremamente indulgente, generoso. Alberto Youssef
estaria certamente fadado a morrer na prisão cumprindo as
penas a que foi condenado. Em novembro, no entanto, já
estará em casa e em março do ano que vem solto. Muito
provavelmente preparado e disposto a cometer novos
crimes.

FISIOLOGISMO OU CEGUEIRA? O PCdoB formalizou


ontem o apoio a Sebastião Melo nas eleições de domingo
próximo. Memória fraca: o partido esqueceu ou ignorou o
fato de que fez oposição a esta coligação PDT-PMDB-PTB-
PP-DEM, etc, etc, que ocupa o Paço há quase 12 anos.
Trata-se da pior gestão da cidade das últimas quatro ou
cinco décadas, pesando na sua bagagem o maior festival
de escândalos que a cidade já assistiu. Dezenas de
integrantes do seu 1º escalão foram acusados de ilicitudes.
Teve de tudo: secretário indiciado, condenado, preso e
algemado, presidente de estatal atirando dinheiro pela
janela, secretário morto em circunstâncias até hoje não
bem esclarecidas, um horror. Talvez seja por isso que o PC
do B não conseguiu eleger nenhum vereador para a
próxima legislatura na nossa capital e tenha reduzido o
número de votos este ano em relação às eleições
municipais de 2012.

DOMINGO É VOTO NULO!

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