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ESCRAVOS E COITEIROS NO QUILOMBO DO OITIZEIRO Bahia, 1806 1

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JOãOJOSék~

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A formação de quilombos é um aspecto da escravidão pouco eSludad\~' Brasil, Menos ainda é a relação entre quilombos e a sociedade queos cerç~ Embora os especialistas sobre o assunto já tenham chamado a atençãopúiú\ engano, predomina uma visão do quilornbo que o coloca isolado no altoda~l~ ra,formado por centenas de escravos fugidos que se uniam para rec()ri~tJ)"il 'uma vida africana em liberdade, ou seja, prevalece uma concepção "pàll})a\i'? na" do quilombo enquanto sociedade alternativa. Um grande nÚll1t)r~ quilombos, talvez a maioria, não foi assim. Os fugidos eram poucos: se # beleciam próximos a povoações, fazendas, engenhos, lavras, às vezes riasJ diações de importantes centros urbanos, e mantinham relações ora.cOI~(I. tuosas, ora amistosas, com diferentes membros da sociedade enyolvêW", Sociedade envolvente e também absorvente, no sentido de que os quii9pib.~)i circulavam com freqüência entre seus quilombos e os espaços "legítill1()S~ '"

escravidão.

Era o caso do quilombo do Oitizeiro. Mas esse quilombo tinha cat'~\' ticas ainda mais peculiares, as quais me obrigam inclusive a discutir, l1CÚ rer deste ensaio, a própria concepção de quilombo que tinham porâneos. Pois ali os fugitivos conviviam com, e trabalhavam para;.boiii~; livres e seus escravos, ambos assumindo o papel de protetores e emprégu<JÓ'1 de quilombolas. Personagem também pouco estudado, emboranãoausénj

literatura especializada, o coiteiro, suas relações com os fugitivos e COI}l\)( homens livres serão temas detidamente discutidos, até porque constituqnt

pecto central da documentação disponível.

.

.•

••

Um quilombo dirigido por homens livres. Um quilombo com escra,y,il

_JJJltQuilombo agrícola~

QlJjª--Irrodução

estava integrada ao mercádor~gh

Que quilombo era esse? Esta é a história - ou uma das histórias poss(\I~ '

do quilornbo do Oitizeiro, na Bahia de 1806.

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332

.

1

Em 1806, governava a Bahia João de Saldanha da Gama Mello i ' ' l h l n ~ s Guedes de Brito, o sexto conde da Ponte. Nascido e criado em POl"lUgnl. I l I Id L \ leve formação militar, era o morgado da Casa da Ponte, que ao Indo ti ,I CnsH da Torre formavam as duas dinastias mais abastadas da Bahia. Qu a n do pisou GIII terras brasileiras pela primeira vez erndezembro de 1805, exatamente para governar, tinha acabado de completar 32 anos de idade e era dono d e uiifhares de cabeças de gado, centenas de escravos, engenhos no Recôncavo, dezenas tk fazendas e sítios arrendados que cobriam imenso território nos sertões da. Bahia, além de propriedades em Portugal.' Um formidável adversário paraos escravos baianos . Desde o início de seu governo, o conde se dedicaria à cuidadosa repressão de toda forma de resistência e rebeldia escrava, política que lhe criou uma fama ainda viva duas décadas depois.' Reprimiu batuques, festas, rituais africanos, costumes que via como a ante-sala da rebelião; perseguiu escravos fugidc s . su- Iocou conspirações escravas e, sobretudo, moveu uma campanha de destruição dos quílombos baianos. Para isso disparava freqüentes ofícios a autoridades-Io- . cais para que colocassem em alerta os capitães-do-mato (ou capitães-de-:ás~' salto) e outros oficiais que serviam em Salvador e outros municípios da capi- tania da Bahia. A severidade do governador servia a uma política maior de controle nas. c( ilônias. Insistia sempre em estar apenas seguindo à risca as "Reais Ordens"; segundo ele evitando o que se via em outras capitanias - e numa corres-

'

po nd ê ncia de 1807 se referiu explicitamente às do Rio de

~1aranhão como relaxadas no controle escravo. Ao contrário dos dirigentes destas, ele não afrouxaria "a vigilância e rigorosa subordinação em que deve

ru anr e r-s e a imensa escravatura" da Bahia .' Era o que o governo português também queria, inclusive uma política de terra arrasada para os quilombos, re-

c o m e nd a ndo que "assaltando-os repentinamente extinga tais Ajuntamentos, sem deixar deles a menor sombra".' Essa ordem, escrita de Lisboa em 1799, certamente ainda valia em 1805 quando o conde da Ponte tornou-se gover-:

Janeiro, Pará e

lindo r e capitão-general

da Bahia.

O conde não via com tranqüilidade o que consideraVaaflOtlcafjrnl~:t,:r

( 'P Ii l que os senhores baianos I irpc, acostumado em Portugal

tratavam seus escravos. Bruilco d~l;íOH[t:l\Íi.".

a conviver apenas com g ~ n l . ~M" IU G t . l• •nCuviiJI~·'~

V I) il O 110 meio daquela população "imensa" d.cesGniYQsinl'\iINlh;~;lÚ íl)lUúi;t\n '.

que uuqueles :~nos de tráfico intensocoma vndo!' era uni dos maiaimportuntcs rcrrnlm

1 ' 1 ' 1. / 1o ( ~$C re viapi li)rÓ·!.;~:(nn~11!:1l\ li J'n ( j b,~Q"vad (j11"'.'VW1/Jltqicf!l!Jf,X,':I$1/rI

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h ' lI i pai xã o por e s ta negociação da Costa d a Mina " . Já o conde contava c i 1 1,

ILI r, C o r te : mais de 8 mil

c a tivos , da s mais gue r reir as nações

afllcanas , h t b

d

e se mbarcado na Bahia em 1806.<> Suas preocupaçõe s não eram infu iJç J

p

o i s f o i s ob seu gove r no que o s e s cravo s africano s inauguraram o lo n g e ) ;

d e l e vantes e con s pirações que culminaria com a rebelião do s m alê s;eln > Ari s tocrata amante da hierarquia , o conde sentia facilmente o cheirod é ta no a r e adotou medidas preventivas, empenhando-se na perseguição cravo s fugidos, que s egundo ele abundavam na Bahia, E não pre c isouirl longe para combater quilombolas. Em fin s de março de 1807 fez . a r ra s a r

moc a mbo s , inv a dir ca s as de culto a fricano e prend e r muitos negro s d çy ;

f ugidos n as imediaçõe s de Salvador , princip a lmente nos di s trito s ded{

Ma re s . No me s mo ano , em r espo s ta a s ua s ord e n s , r e cebeu c a rtas d ev ; ; l l '

tori d a d e s i n forma n do s o b re a p ri s ão d e s u spei t o s d e c o ns pi ra ç ão, quilol1tl:tq

"

parca mata qu e r estara disp e r sa e ntre os canav i ai s da reg iã odo s eIlgeIJ; i;;

R

Entretanto, uma das primeiras ações nessa campanha f oi di r igirl bem distante do palácio do governo . em Salv a dor. Em maio de 1806; ,( ; l da Ponte decidiu enviar uma expedição para de s truir o quilombo do.Oil

na s imed iaç õe s de Bar r a do Rio d e Cont as. "

f ei t i c eiro s "

a f r i cano s acoitado s e m c asa s na s v i l as e a r ranchado s

d e nl J. ' ! ~ '

.

e côncavo baiano .'

'>I",

A vi l a d e S ão José d a B arra do R io d e C o nt a s, atu a l Itacaré, f ica vá H h l , H };,

t ã o comarca de Ilhéu s, s ul d a Bahi a . Fundad a e m 1732, e sta v a s itua d a ll~ ili J

s ul

da foz do rio de Contas, protegida

sobre um outei r o contra as

d

a quele rio , " que en s oberbecido , quando enche , p a rece querer v e n cef t p . l l

b

a rreiras que a N aturez a lhe pô s ", e s creveu em 1802 Baltha sa r da Silvat, Í í

ouvidor da comarca de Ilhéus. "O terreno", continua o mesmO l lU t ' W agradável pela vi s ta domar e planície dos seu s campos, cercado demor f i í $ parte de trás." Além dos morro s situado s em ambas as margensdo T i q (I~ ,

ta s, a área era . cober ta por exten s o manguezal , te r ren o por tanto i d eá l ] )i ; l I 'll ( ' !

ge r quilombo las que nela s e instala ssem. O munic í pio fazia f ronteir a

o de Ilhéus , cabeça da comarca , e a o norte co m o de Maraú . 9 { Ve r m n ,.,;,é

A populaç ã o

do lugar er a uma da s menores entre a s v ila s

Me n or do que C a mamu , c om seu s 51 4 8 habitante s , do que C a iru ,

m as maior do que Maraú, que tinha 1498. Res idiam em B a rra

tas e seu termo 1741 habitantes no ano de 1780 e cerca d e 2

século XIX, os quais, segundo Vilhena, se empregavam "lInic t1 l11 e t 1 t e lla i~ l ! n de mandioca, e um pouco de arroz", que eram cultivado s e m . tt ~ rr aK t ( ~ 1 dadas." Es s a informação seria con f i r mada pelo de se mbar ga do r Bttlth(lti~H:

1 8 0 2, qu e acr esc entou t e r e m seu s h a bi ta nt es

d e rrub a d o e n t r e c in ú ú t ~

l é g u as d e mat a v i rge m p a ra p lan ta r m a nd ioca , " gê n e r o p rincipa l

A BAHIA DO OITIZEIRO

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REGIÃO DO O ITI ZEIRO

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cações", Eram os "aplicadores" na sua maioria pequenos luvnt(\oru.tl, Olllh

havia alguns donos de cinqüenta a oitenta mil covas do tubérculo. cifnu' Iqm.'

sentadas pelo mernorialista como grandes. Em 1799 a vila embarcou

paro Sal

vador 30

mil alqueires de farinha e apenas 150'alqueires ele a r r oz ( ~ d e : N' ~ ; N ( ~ il"

de goma.

Com

urna população três vezes maior, Camamu exportou

Üp(~n.nr; tun

terço mais (4 0 mil alqueires) de farinha. Barra do Rio de Contas purecütvrsi· do a-povoação mais intensamente dedicada à mandioca na região, co nj ' o"l t l e ,lei

sugeria em 1781 José da Silva Lisboa, futuro visconde de Cairu." A monocultura em Barra e algumas áreas vizinhas era em grancleparte

devida a imposições periódicas do governo colonial, que obrigava seus

lavradores a produzir mandioca com o objetivo de corrigir o problema crônico

de abastecimento da crescente população, sobretudo de Salvador e do Recôn-

\

1. Carregando ti mandioca, c. 1 858 ( " N ég r esse de Ia roça",

Brati! p i t o r e s co . Álbum de visitas. paisagens. 11101 U lllwnto s , C O , I ' f tIll W , V/ ) /I ' "

Paris, Lcmcrcier, 1861. Reprod. BaI K \ t ' Si\).

cavo. A farinha era o "pão da terra", o alimento mais freqüente nasêÚ,'l

baianas, mas também alimentava as muitas frotas de nav.ios que' faziadí,~,

comércio com Portugal

do se especializado na bem mais lucrativa agricultura de exportação, fum» I principalmente cana-de-açúcar. É famosa a afirmação do senhor de engél\lw ManoeI Ferreira da Câmara de que não plantaria "um só pé de Mandioca,.lill/~1 não cair no absurdo de renunciar à melhor cultura do país pela piorqtie:i'l< há". Em 1806 os negócios do açúcar iam realmente muito bem., favoreddêfir, pela saída de cena d o maior exportador mundial do produto, Saint Domillgf;:(;~ . que com a independência, e m 1804, virou Haiti. Ali, uma revolução escJ'Uv'tI~\H única bem-sucedida nas Américas, destruíra na década de 1790 a ecol1ol\jJr\ agroexportadora. Com a abertura de vaga no mercado internac i on a l . u H;l;üi " cresceu muito em número de engenhos, e m área dedicada ao plantio da (':;llihtt\;

e m escra v os j m po rt ad o s d a África , o qu e r e s ultou e m m e n o s te rr a s par a o nINi,~, tio de ai imenro e mais bocas para comer. A expansão dos mandiocais de H1I!)'H ./,

e África. O Recôncavo produzia pouca mandioca, tl'tl"

do

Rio ele Contas ajudava a alimentar a expansão dos canaviais do Recôncàve

A

J110nocuItura da cana em uma região provocava a monocultura da ~mlJ)rI~nL!\i.

3. M a n g ue z a l na s margen s do r io de Cont a s

. A farinha de Barra do Rio de Contas e adjacências era exportadaémb

cos, principalmente lanchas, surnacas e escunas, sendo a marinharia UIUlI]l-í'l f ' !'

em outras."

po r tante atividade entre seus habitantes. Em 18 1 9, os viajantes alemães . I1 j 1 1 ~ Í ) í '

von Spix e Carl von Martius,

além de elogiarem a fertilidade de suas terrus; \ ' j

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2.

De s c a s ca ndo mand ioca, c. J 85 8

. (Éplucheuses de m a ndio ca, Brazll pitoresco. ÁflJUIIl de vis!.(/.\'. {Juis/'IH/;II,1',:':

monumentos, c os t u m es e t c . , Paris,

L e m e r c i er , 11;)61. R e prud , Hau{,\J' K i l l .

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(

F o to : J. Reis ).

rum na vila da Barra "um grande ancoradouro, com calado para escunas,

SIIiTlélCaeSoutros navios pequenos"." Dentro da própria região, o transporte de g.-nte e gêneros se fazia em canoas, que subiam e desciam a costa e penetravam seus muitos rios, lição aprendida dos numerosos grupos indígenas que ali ainda

a produção agrícola, o

mar, os mangues e o rio proviam a vila e seus arredores de ma.riscos, crustáceos t ' peixes. Do lado oposto, a mata era fonte de caça e de frutos em abundância. Esse o ambiente onde se estabeleceu, exatamente nas margens do rio de ( 'untas, o quilombo do Oitizeiro, ao que parece nos anos iniciais do século X I X .

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habitavam no alvorecer do século XIX. Além de escoar

t \ comarca de Ilhéus não desconhecia o fenômeno. Aproveitando uma região

despovoada e pouco guardada, os escravos

lu menos o século XVII em Camamu, Cairu e ILhéus. Por volta de 1696foiçda-

! Io n u vila de São Jorge dos Ilhéus o posto de "capitão-mor dasentradu$dos .

i uocam b o s e negros fugidos", indicativo de que havia qllilombont\ÚTC1(.t~!II. I ú t ) t ) o sargento-rnor de Cairu emprestaria 'armas de fogoe recrl.lhlria.~~.r\~jvHi.} iíHlígcnus para um oficial de entradas tomar de assalto uni mo(]hllllm,N;i)Ú;i'í,.··

ali formariam mocambos desdepe,

!lIa vila, em 1722, foi atacado outro reduto com mais deqU[~Ii'nL'(,!lrn~il)ü\lSt!H',i!

I l ul . ~( ) g o v e rno ele Lisboa ordenou fosse logo destl·lIfdQri(n·IIXVllill·i.Jlllt\tr\;fqt~íll:<.' ( I "In~s: "se (I0Nt ruam este mocambo de negros qLlen()HPodbl:~WI;li'

.139

i.

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1

4. O fabrico da farinha de mandioca, ("Préparation de Ia racine de Ia mandioca",

c. 1825

M. Rugendas,

Malerlsche Reise in Br as ili e n, Paris, Engelmann & Cie., 1835. Reprod. Bauer

mo a experiência mostrou em Pernambuco onde fizeram tantos estragos"; própria Barra do Rio de Contas há notícia de mocamoo em 1736, quatro ano' após a fundação da vila. De 1806, mesmo ano do Oitizeiro, há informaçõesd

que os caminhos

da comarca

de Ilhéus não eram seguros

para viajant~

solitários devido à presença de negros fugidos s altea d ores . "

 

' .

O Oitizeiro não era, portanto, um fenômeno extraordinário

na região. Dei

conheço quando exatamente o conde da Ponte tomou conhecimento desq' existência, mas dec er t o recebeu denúncias de moradores ou autoridades locai! incapazes de agir por conta própria. A propósito da situação militar na corh<l('

ca dos Ilhéus naquele tempo, Silva Campos parece ter acertado qnandóes

creveu: "Os corpos, os terços ou regimentos só existiam em nome, em esb()ço sem sombra de disciplina se conseguiam alguns soldados nas sedes das vila$ Simples pretexto para a nomeação de oficiais" . 1 6 Estes últimos eram em gerá potentados locais que ocupavam os postos de capitão-mor e sargento-rnor dà$i ordenanças, uma milícia auxiliar que tinha, entre our as funções, a de cornbu·( ter quilombos e recuperar escravos fug i dos. " Na Barra do Rio de Contásd~ .c

1806 existiam esses oficiais, como veremos adiante, mas aparentemente não} puderam ou não se deram ao trabalho de recrutar m i l i c i a no s contra c Oirizeiro.,'

O governo da capitania teve de Intervirenviatrdc ti n i a expedição coinandadú

por um capitão de entradas e assaltos. O capitão chamava-se A UI ( \l Ii (] , l I ' Au

drade e Conceição e a expedição era formada pelos índios carlris \ l ( ' r H H I lh:ado

na época) ou Kiriri (termo usado pela

"Tropa da Conquista do Gentio Bárbaro da Pedra Branca"

cial do batalhão. Anteriormente, no início de maio de 1806, o conde U! ' t kl laJ , t ao sargento-mar comandante dessa tropa que enviasse a Salvador o ctl(OIiUíu Antônio - aquele "coxo de uma perna e morador nessavila de NOHSH SmllJ~1' ra de Nazaré da Pedra Branca", esclarecia o conde. Saboreando o temor qUI ) dele tinham seus subordinados, o governador pedia ao sargento-mor que avisasse o capitão para não ter receio da ordem, pois o convocava a p e n as "por ser necessário para uma certa diligência do Real Serviço". Já sab e mo s â go r a qual era a diligência, mantida em segredo na convocação. Em 22 de maio ele devolvia o oficial a Pedra Branca com uma carga de 25 armas de fogo, meiaar- roba de pólvora, duas de chumbo, pederneiras e machados, com ordens para formar duas companhias num total de cinqüenta guerreiros ca.riris que, além dessas armas, recomendava o conde, não deveriam esquecer de carregar seus tradicionais arcos e flechas. Ele cuidava pessoalmente dos detalhes policiais de seu governo. Começava a execução do plano de ataque ao Oitizeiro." O recurso de usar índios contra quilombolas foi muito comum em várias

r eg i ões do Brasil escr avi st a , em diversas épocas. Palm a r es foi destruído p o r

antropologia

moderna) l ' t · t l f l k l n t , nu

este \I IÚllln fi fi ,

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5. Saveiro carregado de farinha de mandioca, c. 1825 ( " I li a Ita pa r ica ", M. Rugendas, Maleri sc h e Rei se i n Brasili en , Paris, Engelmann & Cie., 1835. Reprod. Bauer Sã).

[mia cxpcdíção que in c luía numerosos índios entre seus soldados. Na : B'1H

C':'M' ex p e di e nte também fora usado várias vezes antes do Oitizeiroe,

mos de pas s agem acima, na própria comarca de Ilhéus. 1 9 Agora , em 180(5;

I'ia a vez dos cariris de Pedra

kccôncavo com o agreste, a cerca de duzentos quilômetros de Barra dó Ri

C o nt as . ( Ver mapa I.) Porque ess es índio s? N ã o teria sido melhor alvitJ' #

vi a r o s negro s que, chefiado s po r oficiai s branco s , fo r mavam

capitães-da-mato sediados em Salvador?" O governador, entretantó. j f

COfil Ó \

Branca, aldeia localizada na fronteira sudoe ~ ( :

o s dois corp o.

terr e iro s d.ey

domblé e quilombos suburbanos que ele logo pa s saria a reprimir duraln \ i l Nem s equer destacou um of i cial de assalto graduado, um c apit ã o-morou sargento-mor, para dirigir a operação no sul da Bahia, enviando apep;\ ~ capit ã o-do-mat o , Antônio Concei ç ão , tal v e z e x per iente ca ç ador d e escN

ma s u m capitã o m e no r. A l iás o c ap i tão - ge n e r a l e conde da P ont e n ã oa n t l i i " W :

s ati s feito com as forças de que di s punha para combater quilombo s no in tef i

Em carta de

Eram muitas as queixas recebidas de "di s tritos remotos" , entre a s quaisi]

muito serviço para e s sa tropa na capital , cerc a da daqueles

1806 à Corte, pedia licença para formar um. corpo de cav á !

Lavradores, a quem ou furtaram ou induziram a fugir os seus escravos"p,,!:

congregarem em bandos de malfeitores, que aldcando-senos vastos des~rt(1 deste incompreensível continente se destacam em pequenos corpos a perpeÜ',U\ll'l latrocínios, rapto de crianças e de mulheres, não se po u p and o a cometenm((; delitos mais detestáveis a favor de seus premeditados projetos. , < \

!,,~

É claro que o governador carregava na s tintas visando fazer a Coroa c ô j preender que, para conservar sua colônia continental , e r a preciso i ilV Q naquela cavalaria, dando f i m à "toler â ncia da e xi s tên c ia de tai s Qul1om j ~ Seu plano contemplava a organiz a ção de quatro companh i a s de 255ho p l montados. "

Mas, na emergência , restava usar tropas indígenas . Uma alter r iativ a .~ 6 j · i L ,

mobilizar í ndios da própria região de Ilhéu s . N ã o sabemos por que e sser e J itr .ts;; 80 não foi usado. Pois havia, como vimos - e veremos mais adiante -- ,fti t !i f ',"

locais dispostos a perseguir escravos fugidos, Masépossível

grado s ao mundo dos brancos não estives s em organizados e treinado s en q ilü

que os nuüSjlll

to tropa reg ular , e outro s mantinh a m -s e

Neste último caso estavam os Pataxós, Várias cartas escritas entre 1804~18. ao conde da Ponte por um senhor de engenho da região, José de Sá Bitten c O lIt ' ! ; V '

s oas, faz endas e povoados locais. Ali se diz que roubavam v í vere s e roupii,lIÜ'9,;,:

atacavam semp r e de surpre s a,

colonos, os quais , por isso, de s istiam de o c upar os es pa ç o s vaz ios d a é O l l l i lll i . 1 h ,,,i,

B itt e n co urt , qu e em 1804 tinh a esperan ç a s d e " s e a m a n s ar e m os cati:\cJJ(í~"

em pé de guerra contra o s b ú lll i ;

relatavam ataques desse s índio s - nelas referidos como " catachó s" ~ < l

que usavam flechas env e nen a das

eMltl'il';!"

342

1808 j á o s queria diz i ma r por considerá-Ios " b á rbar o s A! l l r O I , M I i I: ~ f t ; ;'," N U I i \

c lima d e sses não pare c ia boa política armar muito s índios da r41/1i l ! i , Il I Ü ~ ; ! l J O 'J t I

"m a nsos" , para combater

pod e r, s empre poderiam

l o nge , havia muito s e rv iam o s branco s na s e ntr a da s c o n tra índios 1 ' ( ', br ' l d ~ ~I:';.

mai s re c en t emente

es tradas e vigiavam

c u r ei deixar c laro , um b a talhão r eg ular, c om

e tud o. U I }) I I carta i 10

co nde da Ponte à Corte s u ge re que a expedição a B a rra do Rio d e Conl.<lxpo»l;

sa ter representado

quem quer que fosse, pois, iIl W ! ' lid ( 1 ~i t k r , \I I ;, W l l l mudar de lado. Quanto ao s cariris, qUI' Vlllhi,\lll

de

X V III - . , pa l n lllH l vn m

Formavam, ( ; O Il I C - l ) I( I '

- tal v e z de s de me a dos do século

os registros de ouro para o governo.

c omandante

a inicia ç ão dos cariris no offcio de as s altarquilor n bo s . "

In fe lizmente, minha s freqüentes expedições

a arquivos não re s LJIUV H , I J I

e m info rmação d e t al h a d a s ob r e a ex p e d içã o d essa tropa c o nt ra o Oi t i z e ir o

t u m d a d os i m portant e s , c o m o p o r exe mpl o um a d e s c r ição m a i s p r eci sa d e s u a s

a ti vidad es

q ue a tropa , toda ou parte dela, s e encontrava na região entre 24 de junho d e

1806 e 7 de m a rço de 1807. Foi, prov a velmente beir a ndo a primeira data que a

v ila da B a rra foi al c ançad a.

.

.Ful-

e especificamente da operação contra o quilombo. Mas sabe mos

Os documentos disponíveis , em particular várias Listas de despesas de

c a mpan ha , no s permitem algulls.flashes do cotidiano da tropa. " Qu a nto à ali-

m e ntaç ão , p or exemplo, o s cariris d esf ru tara m d e um a di eta var i a d a . A l ém d e

s e e mp a nturra r e m e l e farinha d e mandi o ca , c on s umiram f ruta s, milh o s eco e verde, f eijão de várias espécies, arroz pilado e integral, carne de boi e vaca,

v e rde e do sertã o , carne de porco , carnei r o , ovelha e ca ç a . Pela s quan t idades

c o mprada s , en t retanto , o nú c leo prin c ipal d a dieta era farinha e carne de boi, tanto verde quanto se ca. A galinh a e o f r a n g o foram con s umido s em p equ e na quantidade, provavelmente reservada aos doentes, como era o costume na

é p oc a , confirmado no ca s o da compra de "uma galinha para o Capitão n a s ua

d oe n ça" . Ma s o capitão tinha muito s privilégio s alimen t are s e de etiqueta. Cer-

lamente comia num do s " doi s c a sai s de prato s fino s"

p e sas de guerra, e saboreou peixe fresco comprado especialmente para ele.

Para comer peixe fre s co, s eu s liderado s tiver a m de u s ar o s 23 anzói s di s tribuí-

dos no dia de são

merarn peixe seco e bacalh a u, peixes de pobre. Talvez para manter a tropa em bom espírito, o capitão distribuía perio -

d i c ame nt e fumo e a g uardente . Ele me s mo não s e priva v a , e at é s e f a vor ec i a .

pois um d os re cib os r e feri a - se a " agu a rdent e que s e man d ou c m : i · eg a i· p:n ; ( , gf l . I i ';

10 do dito capit ã o" . Duas canadas de vinho e um a d e " ng u a rd ~ ' u l ~ ~ don , ' , t l io "

p o s s i v e lme nte também foram r eg ar a m e s a do oficial-do-tuatu, :íriO$.rçdhn~Jl~ginnlllllx)rçi'í\.'H d e s a b ã o , nã(j~\r~inli;tlld"d(ls IHU l ln l] l jJh o í { , J l C 1 1ap1 lqs [ l p f ! l j ;j S l )nl 'i f l 1 ! ,; ll i i q l k t ; ~p l ' ~' .>'<'••"'"

. ~.• /

registrados entre as de s -

João , . 24 de junho. O certo é que - e s tá re g i s trado - . - co-

jtll<'rrcil"Osindígenas receberam agulhas, linha e tecido ordinário de algodã{i'; (estopa), com o que costuraram eles próprios suas calças e camisas. Os mesm6à costuraram mais quatro camisas e duas calças para outros soldados, recebendô:~)'?:

pagamento em espécie - mais tecido: quatro varas e meia de estopa. Mas§'; capitão não confiava na agulha de seus comandados, pois contratou o alfai(\~ç:

Francisco da Cruz para lhe fazer duas camisas de bretanha, um tecido finode~H0:

godão, e talvez outras obras. Há o registro de compra de fustão, linho, riscadofit; no inglês e morim tino, mas sem indicação das peças de vestuário que seriàtll:f/ feitas com eles, nem de quem as usaria. Pagou-se também um lenço de cassai'i+~,\; Desconfio que o capitão-da-mato aproveitou a campanha para melhor$é1 seu guarda-roupa, além de comer e beber bem, à custa do governo. Realmént"· parece ter feito muita despesa indevida, segundo a opinião do ouvidor dac()";;"':

marca de Ilhéus, Domingos F e r re i r a M a ci e l , maior autoridade da região, eú·~:- carregado pelo governador de supervisionar o andamento da diligência e milu-}'

ter abastecida a tropa. Segundo ele, as despesas poderiam ter sido menoress ;" o capitão "não se alargasse tanto no princípio". Tendo chegado à vila daB~ri somente dois meses após o batalhão de Pedra Branca - ele residia emlnl~1L

y

H

r -, o ouvidor se assustou com o tamanho da conta acumulada e chamoui'ts

i/

i~-

falas o comandante dos cariris: "Entendendo-me então com o Capitão, l1iefi'~ ver que eu não devia consentir nisso; e que a despesa dali por diante deviase't mais regular, no que ele conveio "." Houve despesas aparentemente bélicas, com chumbo e pólvora, compnL~' conserto de espingardas, atestam os recibos da campanha. Mas parece que,lti§~ se abriu fogo contra escravo fugido. O assalto ao Oitiz eiro logrou êxito apeti#~Y; parcial, porque seus moradores foram avisados com antecedência e fUg i r ~ll) j ) ' i Ninguém foi preso no momento da ocupação. Segundo um taverneiro davil;;h. "todos abandonaram suas moradas quando aqui chegou a tropa dos cariris P l : \ I 'ri (

dar nesse Quilombo". Mesmo assim o acontecimento

definido por outros moradores locais como a "destruição do quilombo".26;;;;i

• • • . •• • • .

foi eloqüenteme'lt~<

A tropa

dos cariris se aquartelou no Oitizeiro durante vários meses e deJ~i;

fez incursões

para prender os fugitivos e seus coiteiros. Muitos dos quilomb

Ias decidiram

simplesmente retomar à casa de seus senhores, outros foram pi;9~;Y'

sos nas imediações das vilas de Camamu e Santarém, não sei exatamente qlÚl.li;~(t\t:

do nem quantos. Em dezembro, portanto seis meses após a disperSãoll():~' quilombo, foi preso perto da aldeia de Almada o pardo Joaquim, escravo qllêf· ouvidor Domingos Maciel dizia "culpado por asilar escravos fugidos", eOll\! os quais sua companheira, uma quilombola negra presa com ele. Esta f oi log\f devolvida ao senhor, enquanto Joaquim seria recolhido à f o rta l e za do Il lo! ' l ' o d g São P aul o porque não havia cadeia segura em toda a comarca d e I lh é u s . O , ç ~ ;

cravo seria açoitado, por ser coiteiro; e depoi s seria vendido e seu valor Tt:V(}i\'"

.,

•.-

tido aos cofres públicos, por ser escravo de couciro. N ~ ' n I H ! Ul l h i ' ;l i t \ ' n H l il i ' : ". livres que acoitavam escravos no Oitízeiro foi preso, P(~J\! It l t í í h ' ' ' ; P l i \ I \ ' ' I k 1807, quando o ouvidor de Ilhéus fez seu relatório fina l ( 1 0 L ; O l l f k I ~ ! lI ! ) l!·l1vh'l!

a devassa que pre s idira ."

Antes de discutir essa devassa, acompanhemos outros h l i l t : l ~ f; r ' L 1 ~ ) \I t V I dades da tropa antiquilombo. Um sério incidente, em meados dello\'eml1nl. provou que os cariris não formavam a mais disciplinada das lr( ) p a ~ . Nnql.lüh:;H dias, tendo notícias de haver escravos fugidos na vizinhança de Hh t \ u S ; l \ \ h ) ·1 . t \ léguas de Rio de Contas, principalmente perto de Almada, o ouvido!' Hllln gos Mac i el acertou com o capitão Antônio de Andrade o envio d e sua U'OPit para prendê-los, Deixo o leitor com as palavras do ouvidor:

mas esta diligência não pode pôr-se em execução, porque ontem à noite aqui me apareceu o Capitão, e participou-me que escolhendo alguns soldados para ela, re- pugnaram estes dizendo que não saíam do dito sítio senão para Pedra Branca,

o nd e queriam passar a Festa do Natal; e com efeito puseram-se em retirada osque constam da lista junta, não valendo para os mudar do seu intento as razões com que O Capitão pretendia convencê-los."

A lista trazia 36 nomes, aos quais se devem acrescentar os nomes de outros oito

que, estando ausentes caçando, foram no caminho convencidos pelos demais a

também desertarem. Dos cinqüenta homens da tropa, 43 foram embora. Pelo

visto os d e se r to r es haviam aprendido bem a lição dos brancos, seguindo a tradição cristã de passar o Natal com os familiares. É um desses casos em que

o subalterno se utiiiza da cultura a ele imposta para desafiar a subalternidade. ' A atitude dos cariris demonstra que seu comprometimento com o governo dos brancos tinha limites. Natal à parte, eles também "se queixaram de lhes faltar assistência", o que foi veementemente contestado pelo ouvidor diante do conde. Segundo Maciel, enquanto estiveram no Oitizeiro, eles comeram toda a farinha que podiam fazer com as mandiocas ali encontradas, além de carne

para eles comprada e frutas locais,

e a carne seriam tantas, contou o ouvidor, que levaram boa quantidade para

casa quando desertaram. O governador acreditou nessa versão dos fatos e or-

denou ao sargento-rnor comandante da aldeia de Pedra Branca que, chegando ali o furriel Francisco Álvares, chefe dos desertares, lhe desse baixa e o envias- se preso a Salvador "com toda a segurança". É possível que o furriel tenha pas- sado o Natal de 1806 na cadeia e não em casa. " Ficaram no Oitizeiro apenas sete cariris. A diligência feita em Almada foi executada cerca de um mês depois por esses soldados, auxiliados por mais al-

guns índios das vilas de Olivença e Almada,

todos chefiados pelo capitão A l l w

drade, De fato foram feitas quatro incursões a Ilhéus. A primeira delas. Il Ü iní cio de dezembro, coincidiu com a ida do ouvidorMacielallhéus, tjUl!PHI::Jhh

inclusive, provavelmente, o oiti. A farinha

/'

·1 .

\ ' ü! ji t U por mur, ordenando que "o Capitão no mesmo dia da minha saída fos::;8';;

11tH Itnra. !).IO p e l a Estrada Real, mas sim pelo mato, e de sorte que fizesse ajor;;;?' !l l l t l a pela aldeia de A lmada , em cuja vizinhança me constou que haviae~+;f .ru vos fu g id os " . Foi nessa ocasião que se deu a prisão do pardo Joaquim estl . companheira. Outras entradas mato adentro se seguiram, uma delas contra e

c r a vos do engenho Santana remanescentes de um conflito ali ocorridot

an os antes. Eram cinco quilornbolas

pressão dos caçadores de escravos, resolveram procurar padrinho quel1e~

ia s se um retorno digno à tutela do senhor, Manoel da Silva Ferreira. E"fol·i.~j bem recebidos pelo dito senhor", escreveu o ouvidor Maciel. Consideraníj um relato de Ferreira feito ao o u v idor três anos antes, os fugidosedh provavelmente parte de 1I l 11 grupo de escravos, que incluía um mestre-de-a:ç(\ car , acusados por outros escravos de serem feiticeiros. Teria havido ,gmI1'út~ briga entre partidários de uns e outros, ocasionando a fuga de alguns. Isso em 1803. Agora, em 1806, o caso finalmente se encerrava com ajuda do cap@o. "

c

que vagavam pelo mato, mas que, ~

Antônio e seus homens." E essas foram as peripécias

Oitizeiro. O que restou da tropa cariri retomou para casa entre 7 e 9 de fl)a~~:if:"

H da expedição punitiva ao quilomb()<Úcj';

de 1807,

mais de oito meses após chegar a Barra do Rio de Contas. Umdçí~.

cumento registra as despesas feitas pelo o u vi d or da co m a r c a "com o sustêiÚ;~~

dos Índios da Tropa da Pedra Branca no regresso

de Camamu pelas vilas da barra do Rio de Contas e de Maraú"." Em Camà(llli foi fretada uma lancha, contratado um mestre e dois marinheiros paralev'~1' capitão e seus homens até a vila de Jaguaripe, na entrada para o RecôncávÔ.i5

ela Vila dos Ilhéus pa r a es r .i '

. lá os cariri s provavelmente seguiriam a pé para sua aldeia, após teremcunll~'; do sua missão. Foi naquele mesmo barco o escravo Joaquim, desembarct\dp meio caminho no morro de São Paulo, e um oficial de justiça que prosseguü

para Salvador levando cópia da devassa para o governado r . "

2

.

Logo após a invasão do Oitizeiro, o capitão Antônio escreveu aocondétifi'" Ponte relatando os fatos. Essa carta eu não encontrei para ler, mas o govêi'JllHJol';;1; e capitão-general, que a leu, não ficou inteiramente satisfeito com as notícit1's':ir:;~';

i Não gostou do r esultado medíocr e do assalto aoqui l ombo, que pr evia "apn.iC;l\t:-;\ der de repente aos foragidos". O conde queria presos, provas, culpados, ilJ$tiiílI~' coisa concreta para oferecer ao palácio de Queluz. É o que se conclui da J(!Jlií~, ra de sua carta, datada de 1 2 de agosto de 1806, para o ouvidor D()m jl 1 g o ~F q "

rei r a Maciel, na qual também reclamava de n ã o r e r c s r e u c u r a d o a s

Ordens recomendando aos

Ouvidores [

) que tirem Devassa ll(\!~Q l l d lil l l h o : ;

[

] e contra as pessoas que derem auxílio, ajuda e favor para ( l ft q l l l ~:~ j f 1 lle ll. C l l l

O

conde insistiu com o ouvidor,

mais de uma vez, sobre

() . · ,h L

.

.I . :" ' · .

! " iIi"1,hl:;!';ii

"conhecer que existira o mesmo Quilombo, mas ti gados os seus protetores e haja exemplo na sua C O II li\ l l . )j j

coib i rem semelhantes as i lo s tão prejudiciais ao serv iç o 811nAJ.IX i iÚI,Hi!;lüI,\,il

Sossego dos Povos". O ouvidor tratou de ficar e punir culpados . "

mo ao

e Il I CO l l(t 'C l f . J . II ,\ i l fi l f11i { l i lii ; ! ! " " !\U,

A documentação produzida pela investigação <[uen eOI1tH~fhíl'(jrL[lr!ltjll\'>

dou fazer esclarece vários aspectos do assalto. A c1evasKHil~:,W;;l[~:~i::;/~I!iJi~•l~•·•:.I!{j:~!; quilombos existiam no local, mas para chegar aes~ ( \ r i definição generosa de quilombo. Normalmente il11a~iir\1t!ill;'~1~fil;íilliUhh(il:r mo um número razoável de escravos fugidos (pelo H1 C l l i) ~ :ihj'ó,j!S~Hf1i;,iHH;

em local de difícil acesso, ( )fJ . i ~ n Il I Z Hi J! j "

não centenas), reunidos

ocupados com a defesa de seu refúgio, no melhor d(l:' f : : l fi Ô ~ )i l ! l ~ j , I ~ V I Ü i lfí l \ i

p rodu ç ão de al i mento s , d a c a ç a , p es ca , coleta , 1l~1~~ltd;~~f;~i~~;;f~:I~./m~~

jantes, do saque a plantações

e animais alheios, ~ i

n h o res e a uto r id a de s colo n i a i s . E s se o quilom bo C1~';~;íd&;;{ii'(j~l~~;i1~4'i~\)li;,li~lni~t

Palmares. Na sua maioria, os quilombos tinham verdade havia uma definição oficial, quase técn ica. düqfltirii(ílWííh1'11;~,rJ~';:li:'i colonial, abarcando agrupamentos bem mais <·"",,1,·<"

gros ranchos fugidos levantados que passem nem se de achem cinco, pilões em parte neles", d~;:~~6i~m~II~~;Ji:~;i~lli),rW~~;lt/ft(;~t~iti%W~

Conselho Ultramari no, em 1740. 35 A devassa O ill i / ' t ; i rll ' , f Jt i l conceito mais estrito e por isso descobríu

Acompanhado do capitão-mor e do sélr·gelnt(:I·-ll'IÚI'\.ItJ:'!1

(101' da Barra Maciel de percorreu Rio de Contas, o sítio ambos do Oitizeiro. "1::'~~ld~;~:~JI~~tl~~(::;W~\;:'\~i;:~;!~JfI~lfl~l;ii0'~i~il;~:i Se:IJ;Úllldl)

foram encontrados "os seguintes q.~i~~~:~~~\,~t.);ti);:;~i:~M11Ift'Pj)lt;Z·rr'l[i~'~iJ,!f',\ lrt81,t1r(

bem denotavam ter sido moradas de negros ftlitid.lii~'j:i

U m Qu i l o mbo no sí t io e m qu e ~~~:~;~!~~';J1,

d

o todo de palha com três camas dentro,

bó de tornos para pendurar três espin~~íi[(jas,c.::lldÜ

e fica por trás da casa de Pedra José dentro

o c ult o.

Outro Qu i l o mb o j á velho onde só exisliao [r lição já podres.

111ü.1()'lklr.('l~i.J(Hj·M!'(til;:w!i1<i

IUg::l11';1 a l ll j f . ! · ( t ! , p t \i•.! f'~1 ~ ! . I .f r l,r 1 n ~,/C . :

Outro no sítio

ele Balthasar da R o c h a . u u c tem CM \ ! i t l n l : ííf l i : i ( ! i ' iJnl ; l i H 1 I , ; l \ t it t ! .{ ~ j . i ·. · . ' · .·.··

d ~ ~ S t : (l fl ( l op o r do abaixo e m busca de u n i ,·,/"),",.,íl, Cotrtu i d'Ctj\'iú' { l i tl>fI11i'; l!11'\\ u.,uJ,'··,··.··

Ia ~.!ll(td\~squórd(\,o q H ( . t 1qu . ih) l I l I ){! I ~ . r H C ( l I lI ' : f " I .O

q l i ( ! t ! ; r b : \f h : d Ó i . w u l l n cl l i·nj l \ ! ll )se . lljn l w IJ l n n peqi.!!W:í.JiÜ)thI,·t~' : j 1 I !i j

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~,'

cos

como torneiras da parte do mesmo caminho que se deixa conhecer cru 1',11,1

, por eles dispararem as espingardas a todo o tempo que sentissem algum al:I'lllJ

t~

1

f\

tinha

soas, e outra cama onde só poderia dormir uma pessoa, e subindo pela IIlCfWI:II" cada por outra oculta vereda que ia ter bem perto da casa do dito Balthasnr 1'1'1'; mato fechado estava um quilombo todo de palha com duas camas já no t:l11I\i r nele poderiam morar mais de cinco negros, alérn de outros [quilornbos] n)!dNTI.\~i

dentro uma cama larga de paus a comprido, onde podiam caber quaírn p l , ~

gos de que só há vest í g io s . "

'

,

Aqui a definição de quilombo se restringe a cada casa individualmeútcn,

como encontraram mais de uma temos tornaram suspeitas por estarem escondidas

pessoas com armas de fogo e, evidentemente, de que essas pessoas fOS~CII[I"l cravos fugidos. A palavra oc u l to (a) aparece várias vezes nesse trecho da ( 1\ ,1 ' ; 1 ',

s a, para salientar o aspecto clandestino do lugar. No primeiro "quilornbo" 1'01 : t il . encontradas correias de pendurar espingardas; num outro, buracos SlIPO/"i,' mente preparados para através deles apontar e fazer fogo, As autoridadps.l}lf tariarn também calcular o número de escapados que ocupavam aS'várj[l~i~:í:; ocultas, descobrindo até uma cama para "quatro pessoas", mas nãoU1,i\ guiram ir muito longe na adivinhação, Destaca-se nessa passagem o nome I I l } J ' h ' evocado entre os suspeitos n o processo, Balthasar da Rocha, em c u j a s Irl ilí\, cheias de "ocultas veredas", existiriam vários esconderijos de negros.

vários " quilombo s" . As cafi,iI~f,; no mato, por indícios de abrig:III;'I\i'i~

~ ~i

Esses "quilombos" na verdade ficavam localizados numa pequena vihl

;F·

li e escravos. Os supostos esconderijos de negros fugidos estavam praticauu'nle plantados nos quintais das casas desses lavradores, conforme se vê nas [ l l l l'i

habitada por duas dúzias de lavradores de mandioca, suas famílias, agreg:ldu

i

i :,1

I

,i ,

sagens acima reproduzidas . A rigor o que temos é o envolv.iiltelll(),·Ü~~ lavradores no acoitamento de quilombolas, não por uma solidariedade .dc~nh teressada, mas por interesse de usar sua mão-de-obra. É possível que 11\li I1O! •. quilomb o la s trabalhassem m a s não morassem no Oitizeiro, e sim nos mnrn ;('t \( mangues existentes no loca]; porém, para os habitantes de Barra cio Rio d« Contas, ali "era mocambo de negro fugido", como definiu uma testemunha rld, inquérito (T4). Ou, disse uma outra: "tinham lá muitos aquilombados" ('I' l ! J O Oitizeiro seria um quilombo disfarçado de aldeia de lavradores, As tcrrux du quilombo , ou pelo menos a maior parte delas, tinha porém um dono.Bulíhnsru da Rocha, que as adquirira havia coisa de dez anos. No próprio ofício que trazia a ordem de abertura da devas s a , o cÓl1dwdn; Ponte já tinha o problema equacionado quando especificou que Cj.lIcriúVkr punidos os protetores dos quilombolas do Oitizeiro. O governador dai"Ín p nome de dois dos principais acusados: Balthasur da Rocha c seu ,inl);'«i 1'('.11" José Rocha. No corpo de delito, O primeiro documento produzido púJa dl'VflK .sa, ambos seriam isoladamente nomeados, Na aburl.lInt da ckvaSsa, os " 1!1I 1 #

,

,

TE STEM UN HAS DA DEVASSA C ONT RA O QU/LO M BO DO O I T l ' lE l/ W , J 8 06

ucupação C

o r:

Br a n ro

I,avradol'

I :õlzendeiro

Embarcadiço

Negociante

' l uve m e i r o

Sapateiro

Ferreiro

( 'arpina

( 'arccrciro

E~crivãoltnbelião

Lavrador/embarcadiço

Negociallte/embarcadiço

Nno declarada

Total

5

2

5

:\

2'

I

21

~' '----

Pardo

T o lal

2

7

2

2

7

3

3

I

I

I

I

I

I

I

I

9

30

radares do Oitizeiro" foram coletivamente acusados de induzir à fuga, ocultar escravos alheios e se servir deles, As testemunhas arroladas durante o inquéri- to revelariam os detalhes de uma operação que decerto prejudicava profunda- mente o bom governo dos escravos na região e que, parece, já durava alguns

:llIos(T7),

Foram arroladas trinta testemunhas para depor. A maioria era casada (77%) e alfabetizada (70%), 21 residiam na própria vila de Barra do Rio de Contas, as demais em sítios e fazendas nas suas imediações. Um dos fazen- deiros morava numa fazenda ironicamente chamada Mocambo. As teste- munhas se dividiam em brancas e pardas, sendo aquelas duas vezes mais nu- morosas do que estas. Nenhum negro ou índio testemunhou, o que confirma que pertenciam ao último escalão da sociedade colonial. Para dar legitimidade ; I lima devassa era importante a convocação dos homens de maior prestígio, brancos e, em segundo plano, pardos. Eu disse h ome n s porque a palavra da mu Iher não tinha valor nesse procedimento judicial. As testemunhas, na sua maioria, faziam parte de grupos ocupacionais que

do Oitizeiro, viviam da

lavoura da mandioca como estes, ou se empregavam no comércio e transporte do farinha c, portanto, visitavam freqüentemente o local do quilombo. Algumas

iklas possuf.un escravos refugiados no Oitiz e iro , e muitas reconheceram, em

a senhores que conheciam. de primeira mão com o que

,

,

/

se relacionavam o tempo todo com os moradores

:';\I;iSpaSSII)\t'IISptll' I ; í. t'SCl'ílVOSque pertenciam 1':I'ntll,!I ( J r l an l l i , 1"'I,I,ll;I~;<jliGtiveram experiência

:I\'onlecia no Oitizeiro. Poucas responderam às questões do ouvidor apenasêÚ li d c sco m p rom e t i do "sabe por ouvir falar" ou "sabe por ser público enotói:i:1'

U m bom número de depoentes tinha inclusive relações de parentesco, f '

b ó li co ou sanguíneo, com os principais acusados de protegerem os escr:\' fugidos. Lugar pequeno, escassamente habitado, não era difícil havern] ge nte aparentada. Mas a parentela estava em guerra. An s elmo Gomes9H seca disse ser "parente em grau remoto de Balthasar da Rocha e seus iftn mas não o defen'deu nem remotamente, declarando-se testemunha ocu'.;,. crimes de que aqueles eram acusados (T5) . Outro parente "em grauren dos Rocha. Martinho da Silva Freire, fez até prisão de negro fugido no bi tj

( T23 ) . O embarcadiço Francisco Xavier Nogueira era genro de Pedrolo~. portanto, sua mulher era sobrinha de Balthasar, mas, embora tivessesidQ';uu dos poucos a adotar a fórmula "somente saber por ouvir dizer pnblicam{,írli~i;

ele narraria

Os membros da família Rocha demonstravam seu prestígio localpqFI.f de ampla rede de compadrio, agora ameaçada de se romper. O lavrador.fpf1\ José de Souza era compadre de Pedro José, a quem acusou nominalmente irmão Balthasar, de serem coiteiros no Oitizeiro, Foi ele quem denuIlcg? "ali era moc a mbo de negro fugido" (T4). O comerciante Janu ã r i o José d Q ~ . ! ~ era compadre tanto de B a l t h asar como do irmão Pedra, e fez acusüçõ~S~(}

l hadas contra os mesmos (TI). O comportamento dos coiteirosparccc H rompido a teia de solidariedade que em pequenas comunidades congregaJIi mens e mulheres por meio de laços de parentesco. Ou, mais cruamei1te,'ht~('I;' petição por mão-de-obra teria sido o corruptor dessa A primeira testemunha arrolada, Bernardo José Gomes, pardoqúf da lavoura e de embarcar, homem casado de cinqüenta anos, tambérnérú . padre de Balthasar e de seu outro irmão, Agostinho Ramires da Rocha . E l

um dos depoimentos mais detalhados e pitorescos da devassa.

que um escravo seu, o crioulo Luiz, se refugiara no Oitizeiro, Gomesreso! investigar. Foi secretamente para as imediações do lugar "em trajesdisr:IC~I1;, dos, escondendo-se de dia pelo mato e pondo-se de noite na estrada;'CfJy;c,t!

disfarce e a proteção da noite se justificavam porque ele. não eraesi:nlIl1l~;>' pessoas que ali moravam. Não vira seu escravo Luiz, mas asseguroütCf)!

"muitos escravos alheios fugidos [

r a s de irem e virem do serviço", segundo ele nas roças de B a ltha s ar d; jg( ~

O lavrador ficou nove dias nessa investigação e vira grupos qucV;tI'iIl entre catorze e mais de trinta escravos, tmIDu-reconhecido entre eles vúr Í !) ~ ;

tencentes a senhores da região conhecidos seus. Outras testel11unhasf\i;:Wq

ter visto catorze, quinze escravos, sempre armados. Uma delasyiú'JÚ( "que vinham carregados de caças, que eram doze machos c I r&s J'êlllt:,iS;' C

uma conversa privada que incriminava os moradores do lugm·i'I.:~'l

Tendon'()tf(

] todos armados e sempre passavilhlú

3,50

Como era comum em agrupamentos

na bem menor do que o de homens. Uma delas v ivia I'cfugi:ulit muuu hl p e ra l k

Agostinho Ramires ( TS ). Poucas mulheres, mas tamp ou c o l Ii tlí t n ; , IH . l l i l t t H ! ',> li

O i tize i r o estava longe de ser "um grande Quilombo" - c om ' ' ( ) ' ' l i H l l l ' i ~ G id (j ( ~

grifado no original -, como foi descrito pelo conde da Ponte 1II11Ún 1 . ' : : ll ' I r l l ' í i i que procurava impressionar as autoridades de Lisboa com sua ÇiI·ld\~Il"'ll.'AU

dizia ter "destruido" o reduto de negros fugidos -

1.1 ltramarinos deve ter imaginado labaredas subindo, gente correndo. I ij' (i }! ; ) . ! , H

IO S , cheiro de morte no ar." A testemunha Bernardo Gomes forneceria uma longa lista de cO il( , ' , j I Y) í ' ê rmpregadores de escravos fugidos. Havia a família Rocha j á mencioüiidà; H,dthasar, José Pedra, Agostinho, e mais o genro do primeiro, Antônio Jo s é da Soledade, e o genro do último, José Teixeira. O marinheiro de lancha Antônio Mendes Soares resumiu assim o papel. da família Rocha: "eram senhores da tc;r-

ru, se não acoitassem os ditos negros fugidos eles ali não estariam [

cambadas" (T30). Acrescentem-se os escravos de vários membrosdessa família, também mencionados como coiteiros e lavradores de mandioca. Este 101 seria confirmado, corrigido e às vezes ampliado pelas diferentes teste- munhas. Dele constam mulheres e homens livres, escravos e forros, brancos,

pardos e pretos. Além da família Rocha, faziam parte do grupo: Valentim

r \ Ivares, crioulo forro; o ferreiro lgnácio Félix de Santa Rita; seu irmão Antônio

I'lorêncio e o escravo deste, o preto Gonçalo; Francisco escravo Benedicto, seu irmão Felipe Vieira e a escrava

('orreia; Paul a, negra forra, amásiade Balthasar da Rocha; Maria, ex-escrava d('~(e. Praticamente todos os moradores do Oitizeiro estavam elivolvidos. Um cx-morador, Félix Fragoso, teria se mudado para Maraú porque, ~egundo con- II l U um depoente durante a devassa, "não podia ver a ladroeira que lá havia COIU w, serviços de escravosalheios fugidos que estavam aquilombado s no dito Oi l izeiro, e que com eles se serviam os habitantes do Oit i zeiro " ( Tt3 ) . A operação não era pequena. Na opinião das testemunhas todo mundo era

r ú mp li ce , e apontavam para uma evidência decisiva: "era impossível deixar de

:, l: servir e de ter ciência destes escravos fugidos porque o sítio é pequeno e to-

di 1$ moram e trabalham uns juntos a outros, as roças

Melhor indício seria apontado por Antonio dos Reis de Figueiredo, pardo que,

1'0111(> lavrador, entendia do que falava: "as lavouras que hoje se acham

IUI Oi tizciro é impossível que estes moradores com os poucos escravos suúun fil'.esscl11 tanta lavoura e tão grande plantação de n1t\ndioca"( .• ~ I ' . , . , . , . ,

Hiifra do Rio

de quilombolns,

(i illi oh . l f ' t l di' I l l Iil l I " n : s

e o ministro dos l ) \I"ufn í í : ~

] amo-

Teixeira de Araújo, seu deste, Maria; Valentim

em pouca distância" (Tl ).

a medida de todas as (,;oisus, testemunha, .Jallll:lriqJ(I~\0 dóCnt!í:.~.üe;

g\ tI'ÍtUll('que comprava f u r i uha no Oi I izciru, falou Llu Ih'ilSÚ(,;i'l~lqllr·dillú~llf.Ú~I~'

! í t ' ll l uuuanho de quilombo. Uma outra

ele Contas a mandioca era

á::

I H /IÍ I : 1 e desenvolta atividade dos quilombolas ali homiziados: "ouvirílt'll ill~grOSandarem assobiando e saindo e entrando em canoas"; e maiS : qll( lmpossível aos poucos escravos dos Rocha e outros moradores "fazeí' grandes roças e plantações de mandioca que ele testemunha vira" (T7).·\Hi; A maioria dos escravos amocambados no Oitizeiro vinha de locálfú dentro da comarca de Ilhéus. Segundo o escrivão Agostinho José de

lhães, os moradores do Oitizeiro "davam

tanto desta vila [Barra do Rio de Contas] como das mais da comarcaeaf fora dela" (T9). Anselmo Gomes da Fonseca viu trabalhando na casa (I nha de Pedro José Rocha três escravos fugidos de Cairu, do posseSSÓri(l

Bento Correa Magalhães, além de outros dois escravos e uma escraVtí senhores não pôde identificar (T5). Agostinho Ramires ac oitavav ár l capados, entre os quais "uma escrava de Camamu, do engenho Aca,·;jlí'Y~'\4, coronel José de Sá Bittencourt, que tanto tempo a teve oculta queclll;iiôí-í1',' parir na sua casa, e ele depois a comprou com a cria ao dito seu senhoi"~;''Nf; escravos do potentado local,aquele mesmo Sá Bittencourt que vivia:eJ1'l"" ra comos índios pataxós, escapavam da rede do Oitizeiro. A histÓ~iadeSI crava do coronel era bem conhecida, pois foi repetida por váriaspe.~kp devassa. Em sua fuga, a escrava percorrera nove léguas entre CarnamUeT{

Contas, provavelmente por mar.

todo o auxílio a muitos negros1'l1

""i."

.•. ,

Para alcan ça r o Oiti zeir o , o me i o de t r an s po r t e ma i s usado eraa Ji.lti~Hj,'

l i :

Foi pelo menos esse o único meio mencionado ao longo do inquérito

munhas que iam ao local com diversos objetivos, mas principalmentec6!'fm

farinha. A tropa

consta dos recibos de despesas da campanha. O fazendeiro capitão da Silva - que tinha um escravo seu homiziado no Oitizeiro com Ignácio Félix de Santa Rita - também depôs que três quilombolas lhe roubaram uma canoa e outra ao vizinho, possivelmente para portarem ao quilombo, pois foram dar lá (TI8). Pelo menos dois deles'era cravos de Bento Correa, morador em Cairu, e aparecem mencionadóti vários outros depoimentos. Os depoimentos qualificam de coiteiros de escravos fugidos homens

eram eles próprios escravos. Em mais um desvio do modelo consagrtú.I quilombo ," o Oitizeiro seria assim um quilombo com escravidão, eLnbdt'~l escravidão que permitia algumas liberdades. Por exemplo, acesso à trabalhavam e ao trabalho de fugitivos, numa surpreendente éHltonoll1ifII.}IÜ:ji!j lação aos senhores. Segundo Anselmo Gomes da Fonseca, além doprêi61~óí;r Valentim Álvares, "são infamados os pretos Benedicto e Marill,esd'í\vdk\ Felippe Vi eir a " (T5), U m outro depoente, o escrivão Agostinho José d , ~ lhães, confirmaria: "um crioulo de nome Benedicro, escravo de F d í i l i i i ~

dos cariris fez uso de barcos para alcançar o

352

c outro pardo de Agostinho Ramires de nome Joaquim refugiavam c se serviam dos escravos alheios fugidos" (T9) . Bastante desinibido no papel tIL:coi tciro na o escravo Gonçalo, de Ignácio Félix, ° qual pediu ao barqueiro Manuel dos Reis que fornecesse fumo e aguardente fiado a dois escravos seus protegidos, pois ele, Gonçalo, pagaria a conta em farinha no dia seguinte ""-'-o que rVill- mente fez (T19 e T26). Quando Manuel perguntou-lhe quem eram os dois, Gonçalo disse que um, o preto, era seu irmão, o outro ~ cabra oumestiço, a testemunha não sabia como classiâcar c-- seu sobrinho, Depoisficousabendo tratar-se de dois escravos fugidos, um de Cairu, outro de Camamu.Mas por serem escravos fugidos não significa que não pudessem também ser parentes do escravo Gonçalo. A fuga freqüentemente se dava para promover a-reunião de famílias e amizades escravas separadas pela venda, mudança de domicílio senhorial e outras circunstâncias. Como no caso de um menino escravo que foi

: I I.rás da mãe forra, ex-escrava de Balthasar, que morava no Oitizeiro. Quanto à escrava do coronel Sá Bittencourt, há pouco mencionada, pode ter fugido para reunir-se ao companheiro Joaquim, escravo de Agostinho da Rocha. Além de parentesco, o recrutamento de quilombolas pelos escravos do Oitizeiro dependia de outras redes de relações. É provável que, por exemplo, os escravos do Oitizeiro se utilizassem de seus contatos nas senzalas da região para, como se dizia na época, "seduzir" outros escravos à fuga. Como escravos, eles estavam em melhor posição do que seus senhores para alcançar, ganhar confiança e convencer o potencial recruta das vantagens de viver no quilombo.

N e s se cenário eles agiriam em acordo com seus senhores, os lavradores do Oitizeiro, que tanto se aproveitavam do trabalho dos fugitivos C01l1 0 permitiam que seus escravos o fizessem. Estes últimos, como parte do acordo, talvez ti vessem diminuído consideravelmente sua carga de tarefas para o senhor. Mas qual a vantagem do quilombola? Eles não estariam sendo constrangidos ao tra- balho de forma semelhante àquela sob seus senhores? Foi muito comum o recrutamento . forçadod e escravos, sobretud, o ( ~ S-

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c r a v as , pelos quilombos brasileiros, inclusivePalmares,

Oitizeiro. Nenhuma evidência apareceu de que seus lavradores livres ou es-

cravos tivessem usado da força para recrutar os quilombolas e fazê-Ias

lhar, Conforme vários depoimentos, os fugitivos andavam armados para se de- fender de possíveis ataques de rastreadores e capitães-do-mato, armas que poderiam também ser voltadas contra seus coiteiros. Tudo leva a crer que os escravos não estavam ali aquilombados contra suas vontades, ou seja, os .oirciros não os obrigavam a estar ali e a trabalhar com eles. Havia um acordo:

refúgio, proteção, comida e talvez remuneração - ou, mais provavelmente, al;<}SSO a um pcduço de terra - em troca de trabalho. Nós já vimos que os fugi- Iivostrabalh:iV\Uli nus r o ç a s d e mandioca, mas as testemunhas também reve-

Não foi o caso cio

traba-

latam que os lavradores os "protegiam". Uma afirmou que "davam tod() auxílio a muitos negros fugidos", outra que "lhes davam todo o refútHú auxílio" (T9; T20). Conforme o embarcadiço Antônio Mendes Soares, esc teiros "conservavam [os escravos] em si contra a vontade de seus senhore

não contra a vontade dos escravos Várias passagens da devassa

procuravam se defender de adversãrios externos. Um episódio cQntadop negociante Felippe Mano e l Urna mostra que os fugitivos não distribuíam

lícadezas com quem chegasse por lá bisbilhotando. Passando ele por ul11acW de palha de Pedro do L6, havia algum tempo abandonada, e "ouvindo láfªl.

muita gente, quisera

não era escravo de nenhum dos habitantes dali, abrindo os braços lhe tOI'

(1'30).

indicam que os aquilombados no Oitize;

entrar mas um mulato, que mostrava ser fugitivo,porq

a porta para que ele

com rnalíci a: "a casa estava perto da de Agostinho Ramires" (T 14). Os quil

bolas também pareciam dispostos a enfretamentos mais diretos. Andava mudos, como vimos em vários depoimentos. O escravo Joaquim, cujosfí mentosde vida e st ã o reunidos IlO box abaixo, defendeu com violência companheira contra um capitão-dü-mato que tentara capturá-Ia.

, UMA FAMÍLIA ESCRAVA NO OITIZE'IRO. O pardo Joaquim, escravodeÁg

testemunha não visse os mais que lá estavam". E ap9.1

tinho Ramire s da Rocha, foi acusado d e s e r um dos principais coiteir()~ Oitizeiro. Um dia resgatou "violentamente das mãos" de um capitão-doou'! uma negra do coronel José de Sã Bitencourt, senhor do engenho Acaraí,elll mamu (T16). Esse incidente sugere que Joaquim e essa escrava enlmrrlUi%. que coiteiro e quilombola. A relação afetiva entre os dois pode ter começtl antes da fuga dela, e a fuga de Camamu para o Oitizeiro ter sido motivadílil:

seu desejo de reunir-se ao companheiro. Ali viriam a ter um filho ou fil?~\'/,1 eram uma família quando, talvez por pressão do escravo, seu senhoracolupl'f!. juntamente com o filho. No Oitizeiro a família continuava escravamas.(':s junta, escrava mas com perspectivas de alforria. Joaquim era umhom~tn preendedor, Possuía 7 mil covas de mandioca no Oitizeiro que, transformada farinha e vendida em Salvador, daria 220$920 réis ao preço de 1808 .•Suanlul. e a criança haviam sido comprados por 180 mil réis e pelo mesmopre?()!J()

riam ser alforriadas, Antes disso o quilombo

aparentemente fugiram juntos; ele e a mulher foram capturad()sel1l~lJt\

quase seis meses depois. Finalmente separados,

morro de São Paulo, onde seria açoitado e posteriormente vendido. parálüu(l~ pagar os gastos com a expedição contra o Oitizeiro; ela seria devolvida nO II r) go senhor. Os documentos não.mencionam o destino da crial.1ça.

foi invadido. Joaquim e SU Kf! \ll l

ele foi encarcerado no foJ'ü

Não há notícia de violência física da parte dos coiteiros contra I11HS eles ameaçavam muito; principalmente B althas a r da Roch a . O Agostinho Maga l h ã e s se queixaria de que ele "mandava desafilu"'.qsdón<>8.i

escravos refugiados no Oitizeiro a irem buscá-Ias para descobrirem "que IH Ô o Balthasar" (T9). O lavrador José Caetano Simplício foi mais enfático : " nln -

guérn se atrevia a ir buscar os seus escravos com temor das violências .cvalen- tias de Balthasar da Rocha que sendo criminoso anda por esta vilayülllHantlo valentias e fazendo-se temível" (Tl3). Balthasar mandava no quiloinbo

circulava

nhecidos seus confimaram esse comportamento. O lavrador Franejsç;o sos declarou ter ouvido de Balthasar e do genro, Antônio

dizer [

e dizia isso "em ar de ameaça" (T20). O negociante Januári()J()Ré{lp~.I~ílÜil

branco de 36 anos, disse que os moradores do Oitizeiro

tal forma que os senhores dos escravos entre eles arrlOc:anlbtldcls"só HI!ft!ltf(i. vam a falar nisso". E contou ao juiz que um moleque SelJIIlglt'ilIUlIT\ Maria, uma ex-escrava de Balthasar que vivia no Oitiz,eÍl'lo;)\ltl0,liltifíHri'\f.tlü moleque "com temor das valentias e despotismos-do (lil!O 1~lll.UHlriitr"{jX!!I~ ameaçou denunciã-lo. Dessa vez o homem forte

vinte dias devolveu o escravo, talvez sob protestos dal11~le('r71'ii\>"/

por Barra a desafiar autoridades e senhores de escravoa.Muitos.co

] que fosse para lá a Justiça contender com eles que havedá' ateHpt)iihí.

•••·••".•.

De um modo geral Balthasar e todo o crn1n"tiAOjitiZtdl'(/:LÜ~(IJitiJÜítl\hh}ü

menos abertamente, sobretudo com seus fregueses de ftu'irHla,1,i'111,11.(:·i·l~::hiijn~1

g o ciante e embarcadiço José Soares, relatou

Balthasar, que este "já os não ocultava dele [ se com outra pessoa gritasse antes de  audácia de Balthasar funcionou por 1l1ldtçlt~nll'Ó, i\n'iÜ'~N!iil~t·rk('fJI{:1i~li~ll· IlIU iniciativa local tivesse sido tOl1rlad1ac:on1traselllcH.I!.J(I,rnltt conhecido de recaptura de escravo envolveue fcrtcYi:!.'hill~lií\JCHi!!I~"~Klí;ktlll\!í,iffni.

de cerca de 27 anos, que indo ali carregar lellJHtviP\'(lJ'i,til\ki.H.t!l~it/!'l).í~1ll·ki%!íVI:tl·(,\n

]

deu Caetano, escravo já idoso fugido () negro velho, surpreendido

viria a morrer logo depois

t â ncias (Tl2 e T23).

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talvez roubasse porque nao do s moradores do lugar e, pv. USHe velho e o menino h<Í sil,oram os UI1ICOS casos salto da tropa. Ambos ficaram 0::(>1

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'f'ntl:t se de mais

rfgidos de análise

um desses comportamentos que desacreditam os esqué da escravidão. Estudando a capitania do Rio de J aneiror

ruda do século XIX, Silvia Lara dá alguns exemplos de escravos quef t; para procurar quem os comprasse ou que, na hora de ser vendidos,qllê:

participar da escolha do comprador. No mesmo ano em que o Oiti ze in atacado, 1806, a centenas de quilômetros da Bahia, em Campos dos GOit~IÇt

o escravo fugido Antônio procurou Iuácio José Furtado, seguhdoesté'.'J\

que o comprasse". De acordo com algumas leis coloniais, escravosmàlty:

dos podiam legalmente solicitar a troca de senhor

e para faz ê -lo tinham de fugir para evitar represálias. É possível que-esses

tumes brasileiros tivessem sido reforçados por outros trazidos de Áfric~l.i,. tin Klein escreve que entre os Wolof e Sereer um escravo podia escolhel;; novo senhor criando situações em que ele próprio serviria de compensaçfi9 escolhido, por exemplo cortando a orelha deste, ou do seu cavalo; se a etlcultm. recaísse sobre um chefe tr i b a l , o pretendente a escravo poderia destruircl:l;{(I)' postes carregados de. amuletos protetores solenement~ fincadàsnopMJ ic

quintal da casa do chefe . "

O roubo de escravos camuflava esse tipo de fuga transitória ou;cP91' chamou Eduardo Silva, "fuga re ivind i cat ó ri a" . " Quatro testerriunhasilt1}

veitaram a ocasião para denunciar um morador da própria vila de RiodeCojl que trouxera um escravo na bagagem de uma viagem feita a Jequiríçano .

tremo norte da comarca, alegando tê-Io

do Antônio ---'-que virou Joaquim em outro depoimento -, acoitava-se'

Joaquim José Duarte,em cuja casa terminou sendo preso pelo carcéreiro'f

após este receber denúncia disse que Joaquim havia deixara furtar por Joaquim

va o "título de forro" (T14). Um outro informante declarou que JoaquíMI na verdade dois escravos alheios consigo, um crioulo e üm ca b ra . e qu e girf)I~(l!'I;,

este foi preso, o outro "logo se sumira e não aparecera mais nesta vila".4:lgiri~).~~

T 1.1.) O crioulo talvez agora empreendesse uma vera fuga.

ou mover ações de libe\,lli

. "ii/:/

comprado. o fugitivo, um cabrachü

do legítimo senhor. Em seu testemunho; OC ~çí : l "furtado" Antônio, mas era claro que Ant6li (T3). Vivia tão relaxado com °novo senhorq~!ó

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. Os escravos que no Brasil se deixavam roubar não estavam fazend()Q\;I coisa senão tentar uma troca de senhor. Na verdade, escravos podiam üiti(, recusar a ser vendidos - para evitar sua separação de lugares, amigosêt liares, além.de não querer arriscar o desconhecido -, como premo própria venda, ou seja, trocar de senhor. Em ambos os casosbúscavanisi -rar sitillfçôesôetensão qtre.tacítmenre-podiam evohrirparaaviolêllcjar)(l~ de parte a parte." Muitos senhores terminavam cedendo à recusa doseseÚj\it:1~. '.de o s servirem, vendendo-os para evitar a fuga sem retorno e rec()Ulp6nsn;1~Hl:

jornal baia no de 1839noticiOtl contrariado que umescravo ll\IÍlidéiKí!ll+a

servir a uma família que crescera demais, levando-o a trabalhar demais. O se- nhor permitiu que o escravo procurasse um comprador, que ele encontrou, e a transação foi feita. Logo, porém, ele descobria que a família do novo senhor era ainda maior do que aquela do antigo e decidiu voltar atrás. E foi aceito de volta. Isso aconteceu em Salvador. A centenas de quilômetros, no sertão de Caetité, uma escrava de vinte anos fugiu em 1851 para a casa de uma mulher, exigindo ser vendida a ela, e ameaçou aos que tentaram reavê-Ia "que a cabeça

viria para casa de sua Senhora,

fã , e o administrador dos bens desta um coronel da Guarda Nacional, que ter- minou cedendo à vontade da escrava. Histórias mirabolantes ou dramáticas co- mo essas certamente não aconteciam todos os dias, mas fugir em busca de novo senhor era estilo comum de fug a . " Foi o caso de alguns escravos refugiados no Oitizeiro. O comerciante .Ianuário José dos Reis acreditava ter visto três deles trabalhando na casa de farinha de Balthasar da Rocha, numa ocasião em que fora lá comprar farinha. Os escravos, que vinham carregando cestos de mandioca, temendo ser reco- nhecidos, largaram rapidamente os cestos e se ocultaram quando Viram .Ianuário. Eles pertenciam a um certo Theodoro Álvares Landim, de Camamu,

que já havia sido abordado por Balthasar da Rocha para que os vendesse por J 0 0 mil réis cada. Mas La ndim pediu 130 mil réis, segundo informou ao gen- ro de Balthasar, Antônio So l e d a d e, que viajara nove léguas até Carnamu para propor o negócio. Aparentemente esses eram os mesmos escravos João e Joaquim vistos na roça de B a ltha sa r por José Caetano. deSa av edr a. Os es- cravos disseram a este último que ali se encontravam havia pOllCOSdias pro- curando quem os comprasse, mas posteriormente Saavedradescobriria que eles já viviam no Oitizeiro havia mais de um ano (Tl9).Por que.mentiram? A resposta dos escravos sugere que andar procurandosenhor para cornprá-Ios não era um comportamento necessariamente estranho nem crimi noso, mas parte das possibilidades nas relações escravistas locais. Ou seja, um senhor po- di a permitir que o escravo procurasse um novo dono, mas dedicar a essa tarefa mais de um a60, sem voltar para casa, já caracterizavafuga." Num outro episódio, um escravo pardo de Jerônimo Francisco refugiou- se na casa de Pedro José da Rocha, onde passou um ano. Só depois que o se- nhor o vendeu a um certo Francisco Manuel é que o escravo retornou à es- cravidão, já sob novo senhorio (T7). A história de que escravos refugiados no Oit i ze ir o andavam buscando troca de senhor é confirmada por Francisco

X av i e r Nogueira, que se ocupava de "viver embarcado", Ele relatou que, es-

tando a carregar a lancha de Felippe Lima, este lhe disse que "encontrara um I l Q g r o fugido o q u a llh e pedira que o comprasse" (T8). Felippe Lima confir-

inm.'ia· i.l!::SH i n fó I TÜ ÚÇn ()( ~ l nH( } U próprlodcpoinieuto. Indo ele ao Oitizeiro para

mas que o corpo não". Sua senhora era uma ór-

cobrar uma dívida, por ocasião da última Quaresma, fora abordado pOl~"UÚ

] o f()~~(

negro armado de espingarda, faca e pau de ponta, pedindo que ele [

comprar

a seu senhor Bento Correa no Cairu" (T l4). Aparentemente óI11eslôd

escravo,

com armas e tudo, pedira também a Francisco Antônio Dias; ()Ulji:ii

testemunha no inquérito, que o comprasse (T16). Um escravo. armado até , .

cientes, a própria imagem do herói quilombola que se bate pela liberdade n f

mais queria do que um outro senhor

Outro escravo fugido de Cairu se chamava Théo e pertencia a Franêh José Torres. Théo abordaria o lavrador José Caetano Saavedra para quec)cQ

prasse (T19). João Rodrigues de Souza, branco, t av e r ne i ro , contouhisl§ semelhante a respeito de um escravo fugido de José Caetano Simplício,~(Jt

encontrara no Oitizeiro e a quem

senhor, e lhe dissera o negro que andava procurando senhor que o COh l p t a ~ se ! "

(Tl9). Só depois do ataque da tropa dos cariris, com o fim do quilomboso'e»

cravo retomou a seu legítimo senhor. Ao risco de levar a fuga adiante,ptr1~'

o de ser punido em casa. Outro caso

do Oitizeiro, amásia de Balthasar, que acoitava um escravo pard? fugid9 Camamu. Por duas vezes ela tentara comprã-lo, mas seu proprietário recus,< os 80 mil réis oferecidos porque achava que o escravo valia "cento e tantQ~Ülit réi s ". Esse e outros casos que já vimos confirmam que uma das viliittlgGn~ auferidas pelos coiteiros era aumentar seu poder de barganha na hora de.neg« ciar a compra do escravo fugido. Para evitar a perda total do escraVO,ln\I(Ú senhores s e conformavam em vendê-Ios com desconto - descontodé( digamos. Enquanto o negócio não se realizasse o coiteiro usava osetvlçtl escravo. Paulinha, por exemplo, havia alguns meses mantinha o mulato,!1

lado, trabalhando

região, com ares de senhora

a história foi o ex-senhor de Paula , o lavrador branco José CaetanoSan~

que vendo a cena deve ter pensado em como sua crioula tinha ido longe,'J\:Í'lrl:;t

sido assim que ele um dia a perdera?

que o tratasse melhor.

.\

perguntara "por que não ia para a casàcÍõst\

envolveu a negra forra Paulaa PauJil

sua roça e remando sua canoa nas viagens que fazihi}'

para afronta do público (T 19). Aliás, quemr~hl

).~:'j

Como se vê, nesses casos os quilombolas rião estavam eIl1preeilMnd;í':

u ma f u ga s em

dentro da escravidão. Eles tinham suas visões da escravidão ta~ t ( )c ôri t i 'i'

liberd ad e. " Neste caso, a liberdade de escolher sua escravidão, A sitUtiV fugitivos não lhes parecia ideal e, nesse sentido, a passagem pelo ()illzô i presentava apenas parte da aventura, um posto de espera, tlespenulça(l~t:

contatos que viessem a resolver seu proolema de senhor. O qllil()nlho~llt'ltJ. tão um abrigo temporário, não o destino, o lugar onde construii' 1l1Hll(f,i\1i

nidad c l i v r e, llO H I so ciedad e a l t e rnati v a .

re t orno da e s cravid ã o , mast e ntanto n e go c i ar me l h or êS t6fBIy,

.

3

de praticamente todos os h ab i -

tantes do Oitizeiro, dez brancos, três crioulos forros (inclusive uma mul her, Paula) e quatro escravos (inclusive outra mulher, Maria). As autoridades nem

emjulgar os quilombolas. Aquela foi a vez de punir coitel ros,

de leve pensaram

O resultado da devassa foi o indiciamento

Em outubro de 1806, juntamente com a devassa, o ouvídor.Máoiel man-

dou fazer um inventário dos bens abandonados pelos moradores nafuga do Oitizeiro e seqüestrados pela tropa de assalto mais de três meses antes." EI'f:e inventário lança mais luz sobre as relações de produção e podernoquilombo. Os homens e mulheres indiciados possuíam, no seu conjunto, bens modestos,

avaliados em 530$380 (leia-se

Aqui excluídos os escravos d o s oitizeirenses que, culpados eles prôprioscnu-

ruralmente fugiram com seus senhores. Aquela soma dos bens acumuladospe- los moradores do quilombo equivaliam a não mais do que uns cincoescravos dos mais baratos." Para um grupo de dezessete pessoas (aqui OSeSCI'HvOS.in- cluídos, porque eram propriedades que tinham propriedades, comoveremos),

resulta em 3 1$198p e r c apita . Uma quantia não desprezível, maspequena co-

quinhentos e trinta mil, trezentos e oitenta réls).

mo sinal de riqueza. Com esse valor

se comprava o quê em 1806? 'Iomando por

base os itens listados na prestação de contas da expedição punitiva, podiam-se

comprar quatro espingardas; ou dezesseis sacos de farinha de mandioca; ou três vacas; ou cinco carneiros médios; ou dois bois. O dinheironão daria para atravessar um ano. Retrato resumido da região, no Oitizeiro imperava a mandi oca, A devas- sa não conseguiu encontrar outra lavoura digná de nota, embora seja possível

que houvesse alguma l i caça, pesca e coleta

moradores, inclusive os quilombolas, sededicavam.Para.isso tinham armas de

fogo, armadilhas de caça (ou "mondés'') (Tl8) e redes de pesca. Masa riqueza do lugar sem dúvida se media em ma~dioca,que era plantada, transformada

CIlJ farinha e vendida - ou trocada por'outrosprodutos ~ ali mesmo,

dantes que vinham buscá-Ia em barcos e canoas. Dos 530$380 réis em que foram avaliados os bens confiscados, 63,3% equivaliam a 217 500 covas de mandioca e praticamente todo o resto se distribuía entre os equipamentos das casas de processamento de farinha, instrumentos de lavoura, tulhas de deposi- lar farinha, dois cavalos, redes de pescar, portas, janelas e pisos de casas e uma cnnoa, Havia outras canoas no local, além das usadas para a fuga dos moradores do Oitizeiro. Em seu relatório, o ouvidor da comarca mencionou mais duas canoas, IH1\tlgründúyündiIJapu(' 30$000 pelo capitão Antônio logo após a ocupação do

apenas para subsistência, sem valoncoráercíal.Também de frutas constam como atividades subsidíãriasa que os

a nego-

lugar, talvez para despesas com manutenção da tropa; outra avariada, rombo na proa, que o ouvidor mandou consertar para vender mamu, mas que ainda não estava pronta por ocasião do inventário.

não entraram no inventário bens

no valor de mais de 100 mil réis,

quais alguns móveis, que o capitão teria cedido a moradores do Oitizeirouit

de aberta a devassa, talvez por ainda desconhecer a extensão do envolyime

daqueles com os escravos fugidos. Mas não devemos

capitão-do-mato tivesse feito algum acordo vantajoso com os coiteiros,

sem dúvida estranho que nenhum deles tivesse sido preso. qüestradas, mas não inventariadas por ocasião da devassa, as

Oitizeiro pertencentes para a venda as casas

também descartar

a Balthasar da Rocha. Não foram sequer considef dos moradores porque, fora as portas, janelas

vas o que era "público e notório" - que os moradores acoitavam escravos e se serviam deles, e que "ali era rnocambo de negro fugido". À exceção de 23 mil covas, Joaquim arrematou toda a mandioca confiscada, inclusive a do COIl l- padre Pedro José Rocha. Levou ainda duas tulhas, uma canoa (também deP e -

dro José), equipamentos de casa de farinha, taboados e outras peças de madeira e ferragens, tudo por 373$200 réis, O valor total conseguido pelos bens . d os

c oiteiros foi 458$000, 14% menos do que o valor em que foram avaliados. O

dinheiro não deu para cobrir os 911 $360 réis gastos pelo batalhão dos cariris,

mas ajudou. Além disso, restavam ainda para ser vendidos o escravo Joaquim, preso no morro de São Paulo, de Agostinho da Rocha; as terras de Balthasar; e a canoa furada. E mais: o ouvidor pediu e recebeu do conde licença para cobrar

t omadia - taxa paga por apreensão e carceragem de escravos fugidos - dos

madeira, nada valiam por serem construções de taipa cobertas depama:

senhores daqueles quilombolas que retomaram para casa como resultado das

mandioca no Oitizeiro era Felippe Vieira, dono de 30 mil covas avaliadas em

rnadas à quase ausência de móveis, estas características dashabitaçõesSãl di cativos do estilo de vida modesto daqueles lavradores, sem que um Balti1 da Rocha fosse exceção." Nem toda a mandioca existente quando da entrada da tropa

levaram farinha para engordar o Natal de suas famílias em Pedra Brangll.

atividades da tropa dos cariris. É possível que, no final, e apesar da gastança do capitão-do-mato, a expedição até rendesse um pequeno lucro para o gov e rno." De quem foram os bens seqüestrados? O maior proprietário individual de

foi .inventariada. Os cinqüenta cariris que ocuparam o lugar, segundop dor, fizeram e comeram farinha à vontade durante cerca de quatro aquela deserção coletiva de meados de novembro. E, conforme Vil11QS,(lll::

8$800 r éis, Os menores formavamum grupo de três proprietários, cada qual

5

dono de mil covas, entre eles o crioulo forro Valentim Correa e um certo "Vic- rorino de tal", que não aparece i n d iciad o na devassa mas teve sua mandioca confiscada da mesma forma. A crioula forra Paul a, a Pau linha, tinha entre 5 e

mandioca confiscada em outubro foi atribuído o valor de 335$800réis;c

6,5 mil covas -

a documentação não é muito clara.

daria para produzir cerca de 6525 algueires (236 662 litros) de farinha,Vê! da pejo menor preço no mercado local- onde os preços variavam entre 2 640 mil réis o alqueire, provavelmente a depender da qualidade=-,

E a família Rocha, principal alvo de denúncia na devassa? Um dos maiores proprietários individuais de mandioca do quilombo era A g ostinho Ramires da Rocha, que possuía 19 mil covas avaliadas em 19$20{) róis. O

ernbolsariam 2:888$000 réis, no mínimo. Nesse caso teríamos.de.refg

h ll110S0 Balthasar tinha apenas 12 mil covas, mas de uma raiz mais valiosa que

conta anterior e aumentar o valor/mandioca per capita real da populaçâgtt

alcançou 20$500

réis, Além disso tinha tulha e casa de farinha em sociedade

do quilombo para pelo menos 122$823. Agora cada lavrador poderiac0ll11 com as raíze s seqüestradas quatro vezes mais do que como valor pelas autoridades: não quatro, mas dezesseis espingardas; não dois,

com o genro, no valor de 19$000 réis. O outro irmão Rocha.Pedro Jos é , cul- tivava com um índio seu agregado apenas 8 mil covas, avaliadas em 12$000 réis, mas também p'ôssuía casa de farinha estimada em 14$640 r é is e um cava-

bois etc. Ou seja, as mandiocas dos réus foram avaliadas por baixo,bemhpi.

lo doente

Soledade,

de 15$000 réis. Finalmente, o genro de Balthasar, Antônio José

talvez para que se pudesse vendê-Ias mais rapidamente, quem sabeparabe!

era proprietário de 4 mil covas, estimadas em 6$200 réis, e sócio do

ficiar os compradores dos bens seqüestrados." Seis pessoas arremataram em hasta pública os bensseqüestradosrt]

o g ro na casa de farinha. Outros membros da família eram José Teixeira, gen- ro de Agostinho Ramires, e seu irmão Francisco Teixeira, Estes, conhecidos

s

quais apenas duas não participaram da devassa como testemunhas. Dá parad confiar que estavam de olho no negócio daqueles a

corno os Teixeirinhas, constam como grandes proprietários para os padrões do Oitizeiro, com 21 mil covas de mandioca avaliadas em 41$000 réis. Ainda

dos-bens-foi-arrematado-porfuaquim-José-de Souza, ·homembrallCo,··qum'e

podemos acrescentar a crioula forra Paula, amásia de Balthasar, com seus 5 a

anos, casado, morador na vila da Barra de Rio de Contas e JavracloJ"t!ttf\lUll"

( 1, 5 mil covas. Realmente os membros da família Rocha se destacam, quando

dio ca, Em seu depoimento, foi umdos poucos a dizer que sabia d()~ J ·ams j j( . )

\ ~onsidefndoseoletivamellte,

em todas as suas ramificações de parentesco.

Oiüzeiro apenas por serem fato "público e notório", nUlsrcf)etiu e m ()Ot'têSVl

",ranl CIOII(.\sil!>ÇI\l'ü;t de 70 mil covas de mandioca, ou seja, 32% de toda a pro-

-;i

l ,f.

~.

:1:

dução do quilombo. Uma proporção que aumenta para 40% se acrescenrm'li,( as covas controladas por seusescravos," Porque não foram presos exceção de Joaquim, preso posteriornlentélj escravos dos moradores não entraram como propriedade no inventário dliljJ.] seqüestrados, mas como proprietários. O fato de que as roças dos escravosêt'~, amplamente conhecidas pelas testemunhas da devassa - muitas dehis.\çp madas a ir comprar farinha no Oitizeiro, inclusive dos escravos - cOIlJ1ti) grau de autonomia econômica destes. E eles não eram dos menoresprqll./o.o

tários, pois tinham mais do que os negros forros, por ex emplo . A elesi)~[J~i;"

c iam mais de 10% das covas de mandioca - equivalentes a 690alqueil;4;~;'~l:

farinha- arroladas entre os bens sequestrados aos coiteiros. Detalhando:! · · 0 .

covas pertenciam ao pardo Joaquim e 6 mil ao crioulo Pedra, ambos escrtlV} Agostinho Ramires da Rocha; os dois escravos de Pedra José Rocha tinllúrl1:'1

mil covas; a Gonçalo, escravo de Ignácio Félix, pertenciam 6 mil covasd~'Jml~;' dioca, além de uma casa de farinha. (Seu senhor tinha 21 mil covas,apellfl? vezes e meia mais do que seu escravo.) As mandiocas dos escravos forania\!.

das em mais de 39$000 réis, cerca de 12% do valor das plantas confiscaÓas;~ incluí aqui outros escravos que possuíam mandioca inventariadajuntullJ com a do senhor. O inventário registra "Trinta mil covas de mandiocas;q! diz ser de Antonio Flor e ncio , seus escravos, e outros agregados, a mâioflli.tfM de vez, e outra verde", tudo no valor de 45$000 r é is, . • Os escravos do O i ti ze iro não produziam apenas para consumopt9Ú Estimativas d a é p oca estabelecem que cada escravo necessitavaentreü] dez alqueires ao ano para a própria s ub s i s t ê nci a . " Os seis escravos acirnaD. cionados só necessitariam de, no máximo, sessenta dos 690 alqueiresque duziam, Eles parecem ter sido ativos forneced~res do mercado daregift():

reexportava para o Recôncavo e Salvador, farinha que ia tambémab4s.1 navios empregados no tráfico de escravos. Embora a documentaçãol{tí( clareça, certamente também trabalhavam nas roças de seus senhoresiQI regime de meação, Mas a mesma documentação deixa claro que POSSUíat11 próprias roças e, tal como seus senhores, acoitavam e usavam otrabMh esc r avos fugi dos que for a m dar no Oiti z ei r o. Sua s vidas de rocei ros hbSt:

tem à controvérsia historiográfica em torno da cbamada "brecha campÓ'1 ou seja, as roças dos escravos, o controle das quais fazia parte de di I ' adquiridos pelos escravos, por paradoxal que seja. Esse é um tipod~àl que aconteceu em várias regiões da América escravocrata, mas [oi'n1111

- - - m ttm- st lbre tu do- no -&r i be ; \Jnde

os escravo srrã o s õ pl ~ nt av a J) :f e se - W;

tavam do produto de suas roças. mas eram importantes fornecedol"es.(\Úl.tJ. mento para os mercados locais e regionais. Como se fossem protocallll)()úéªt}~ Na Jamaica estima-se que os escravos chegaram a controlar, nÚI'iül.lltlü.~~·

. 3 6 2 .

10 XVIII" cerca de 20% do meio circulante interno. Apesar de no Caribe ser L;O- nhecido como lh e Brazil syste m , ou Brazilian custa m, no Brasil o sistema aparentemente não foi assim tão difundido, embora o encontremos em vãrias regiões" em vários períodos, em diversas atividades agrícolas. Sobre aBuhia

dos e n ge nhos, José da Silva Lisboaescreveu: " É de advertir que a sustentação

dos es cr a vo s ordinariamente

costume quase universal, se lhes dá o dia do sábado e domingoparaneles lavrarem o que lhes for mister, assignando-se-lhes o terreno" . 54 Isso. foi esc rit o

em 178ft, pouco antes do grande boo m do açúcar, quando havia terradisponf- vel e ta lvez o costume pudesse ser "quase universal". Posteriormente.não.Um estudo r e cent e de B. Barickman conclui que, entre 1780 e 1860,nosengellhos a a l i m en t açã o escrava ficava principalmente por conta do senhor. Os engenhos eram, istto sim, grandes consumidores de carne e farinha produ zid a sfor a d e l cs, inclusive a farinha fabricada no quilombo do Oitizeir o . Mesmoassim.apexar de uma (certa ambigüidade, Barickman no final se rende: " 110 Recôncavo, tal como enn muitas outras áreas agrícolas dependentes do trabalho escravo. n:; roças permitiram aos escravos dos engenhos criar uma 'economia'próprla res- trita mas; no entanto significativa"."

Nas regiões produtoras de farinha, como erammuitasãreas.da CQOH\rCa de Ilhéu s, a in s titui ç ã o d a roça parece ter sido bem mais s i g ni fic a t i v a . T al vez

mesmo

disputa entre senhores e escravos. Um dos.documentos mais debatidos nos estudos r ecentes sobre escravidão brasileira foi pmd.ur.idosobn.;o assunto

por escravos de Ilhéus, em data não muito afastada daquela dos episódios

Oitizeiro, Em 1789,

g e nho que em 1806 recuperou quilombolas s ob . p r es s ã od a t ro p a carir i - mataram o feitor, pararam o trabalho, forrnararn um quilombo nas ter ras d o

e n ge nh o e escreveram um famoso"tratado de p a z", 110 qual, entre outras

cai sas, rei vindicavam mais tempo e mais terra para dedicar a suas roças, con-

cessões que lhes haviam sido recentemente subtraídas, além de exigirem um barco palra transportar seus produtos ao.mercado de Salvador, nova con- cess ã o qUIe queriam."

. Os viajantes Spix e Martius, passeando pela região em 1819, levantaram questões que podem nos ajudar a entender por que o sistema de roças de es- cravos estaria mais desenvolvido na região, e sua relação com o fenômeno do

a c o itam ent o de escravos. Eles escreveram sobre as agruras de um proprietário est r a n ge i r o que encontraram:

não está a cargo dos senhores, por que-p or um

dentro dos poucos engenhos da região, onde entretanto era I uoti "O d e

de

os escravos do engenho Santaua .,- aquele m eS H1() e n -

OS es c r avo s são p ar a e l e motiv o d e c on s tante s a pr ee nsõe s ,

c o n te ntam e nto

v

i st o q u e o m eno r d es -

motiv os para fu g ir e m para as imensasmatas vizinhasou

. f ! ç tr h l :n ~e rli l l i lSQ n S I l $ dos fazendeiros distantes. As leis, n a vcrda<le.dtitênlli;11tlljl

punição rigorosa dos brasileiros que detêm escravos alheios, mas não é raro isto se dê; o agricultor, no início de sua empresa, cujo capital fica assim em improdutivo, sofre então da falta de braços, com maior dureza quando mais cisa dele. "

()s coiteiros do Oitizeiro faziam em 1806 exatamente o que treze anosdepóí~ os viajantes ainda denunciavam como prática corrente. A situação podese;

plicada porque a região era pouco habitada, longe da capital, mal

com ecologia favorável à formação de quilombos, tinha muito mato e índio dômito, e os proprietários eram de pequena grandeza." Em tudo diferente que acontecia no Recôncavo. Mas tinha mais. Os lavradores do sul encontravam dificuldade tanto para obter esc"à como para mantê-los obedientes. Spix e Martius ouviram queixa doescl'iy de Barra do Rio de Contas sobre o alto preço dos escravos, proibi t i vo p aã

lavradores locais. O acoitamento generalizado percebido pelos viaJâll provavelmente se desenvolveu num ambiente de competição por mão-de-<'1 escassa." O que os alemães não perceberam foi. que o escravo acoita~9il\

deixava de ser produtivo, continuando a trabalhar para o coiteiroep~I").

próprio. Desse ponto de vista a produção agrícola não

talvez até melhorasse, pelo interesse dos escravos envolvidos na trama. A confiar na avaliação dos viajantes - que é confirmada pelos aconü; mentos no Oitizeiro -, no sul da Bahia os lavradores eram fracos e os escra exigentes: "o menor descontentamento dá motivos para fugirem". Em 18Q(1 senhores precisaram da intervenção militar do conde da Ponte para livrá-l()

quilombolas e coiteiros. Quem quisesse manter seu escravo em casa, tratasse de conceder alguma coisa que tornasse a experiência daesCl'áyi~1 minimamente suportável. Os escravos de senhores recalcitrantescerta111cj viam relações desse tipo acontecendo em sua volta. Muitos dos aqui]omba~l no Oitizeiro, mais do que constituir quilombo, queriam apenas trocar(.lé1P

nhor, queriam senhores corno aqueles do quilornbo, que permitiam aséus

cravos cultivar suas próprias roças, vender seus produtos, acumular[) priedade e ainda acoitar escravos fugidos para ajudá-los nissotudo,lss()ff,I,~$; lembra um documento escrito cinqüenta anos mais tarde por senhoresflljIPk" nenses, de Vassouras, em que se lê: "o escravo que possui [roçasJnelnt'()B nem faz desordem" ,r'o Perfeito enquanto ideologia de controle, maS , c911 estamos vendo, o escravo era imperfeito. Muitos pensavam em ir aléln.Hsfi(I~!?i escravos podem terinvestido nas roças alguma expectativa de ülf()rria.l~ernt' que uma das Iavradoras indiciadas em 1806 el.1 a pretaforraRosa.Mrirta, havia sido escrava de Balthasar da Rocha, o homem forte do Oitizei I ' ()('I'.I) , Corno teria ela obtido sua alforria? De graça? E, se a co,nprou,c()tn()()bl(Y\i~ dillheil'o?PluJltando .mandioca.é o. mais pr<)vável,pçlis ·01'11C OUliS f { ( ) (,IIIQ.{i

policiá,

saía prejtldicadi~;

ganhava dinheiro na região. O mesmo pode ser sugerido em relação a outros forros do Oitizeiro, A perspectiva de alforria podia estar nos planos tanto dos escravos como dos quilombolas que ali viviam." Havia sem dúvida o lado perverso das roças, quando eram concedirlas apenas para livrar os senhores da obrigação de sustentarem seusescravos, diminuindo assim os custos senhoriais com reprodução da mão-de-obra-ísase tema, além de sugerido por historiadores atuais, foi levantado rta'comarcu Ilhéus por ocasião de uma devassa eclesiástica levada a cabo vendo, entre outras localidades, a vila de Barra do Rio de CCll1tits,VÜII·i()~};(,!·, nhores foram acusados de dois pecados que em geral vinham combrnatíos:

"não dar ração" a seus escravos e "permitir" que trabalhassemnos (lüll\!111M,(I,q dias santos. Outros foram acusados de dar aos escravos "anenas ,[)d i ú do para com o fruto deles se sustentarem e vestirem" . 6 2 U ;, ' f n ·;,,,,i' ' > c ' I " , sistema de roças aumentava a exploração escrava, po,delld()plr011IlÓlIIMH tisfação e incentivar a fuga. Em outras palavras, a cOl[lce~ss:ãOd(HU'()ÇIl:s.I',U! não representava melhor tratamento, não garantia

portante também do pelos rebeldes

terra e tempo para trabalhá-Ia. Todavia, mesmo quetl,'ab,\ltlass~"lill\lúÚillri!I;,!(ii dias santos, além de algumas horas em outros dias da Belllallu.\, ; j 1 "( Ii' } ' ] > : lI i · ' I , ' O / ' ! ' mit i r que os escravos se auto-sustentassem, promovia o eSI)frilo·Uú.·i!UII(l!l(HIlj(1 entre eles e animava-os em suas refregas cotídianascom bem resume Dale.Tornich, para o ar,oç;Cl",enl:lúllr)l('tií!'.!óüli\I\(If;Ü estilo de vida autônomo". 6 1 Mas volto ailrlsisti.l·;iíl·r()~ ~ n{' (jfl tt , { l : f'';\(XIJ('(j.fi:H IiM\ nhoriais - ou conquistas escravas ---- n""".,'''''' j ~ (U '( III ) U n d ü·jlH /í } hflilllfl i I í i L

o tempo concedido para cHITlva":I:~~---(IISI)ectúJ.lllj(i$k,\iH!II.il do engenho Santana a que me referi acima .,l"lI'UIlJ·Ii(l{'(ií)!,,:!lI'iOh

vo incompatível

acesso dos escravos à roça se não dependiam sal' em viver sem Encerrando o as~;unt(),da~·"()I;(lS i:\s.Vf.I:V;\iW., ••••. 11"",";

foram mais comuns ell1láliea:sCl().!lílá$Xi~!Ni(:Í(hXHII('tlr;(h) por pequenos prclpríet<Íirjç'$.(ledhn)l(lPI;i\ljjlllit)fl.,.;li:!rll~)fll·\)

cultura de

análogas, por exemplo, quC(lállISf(jf'HÜ:I(lli.U, trar roças. Foi o que en'CÓI)ITqÜ F\.ív:úlCi\!ill,(f·; Iguaçu, Rio de Janeiro, oJ1de:Ií:lJ,psj(lrlcl!tir;II'\:i*\illt~!OIl{!lt!ir.'·.lJh'

ria dos escravos se de(:liC;tlVlIIUJWlldlll,\n,flll\ê]ri'fll.I}.' í {T

lá, no Oitizeiro á economia cal1'lrl.ol){.\~Ml(>I'lr}!.nIPH!•J. ) ül i Ui . I I · . l n

li penas os es

c av II m j li li 10 .H coi teiros .n:lellilO.li.\lS rÜÚ(l'i,)(J(:tl/~IWH~ irilll'~lc~~I~c(lllB.,lit/'\'

com a escravidão: N~i(j()b Nt ntl tt j· . H f l á · f , '"i " ' ' ? i . ' ,

o.o'l".hr., •• fJ4

exportação. $llgit<Úlltlq. til:ú,.ll)~"jhi!l

c 1'<1vos dos U1 ()!' t I (Ipl'e ~:lijirt~Nit\iiJlf+J,:ttli t.iç!;j)).q t l , i j l l (\ IJ H l l ( j f i qUli , : · 1 1 11 ~ ·

o Oiti zei r o fi ca mai s b e m entend i do no s t e rm os d a época: UIlI ( flNH

m

a s não como no s acostumamos a im a ginar que f o sse um quih Wlb l ! ;

m

a do por homen s livre s (negro s, branco s e até um índi o) , s e u s pi ' ô ,

cra v o s e os e s c rav o s alheio s q ue acoit a vam e qu e fo rm a vam ur na ltnlj

pa

os negro s f ugido s podiam chegar a pelo meno s tr ês d eze n as, crunlllVÜ

N ã o se pode dizer que e s te s últimos f o s s em e scr av o s roub a do s . , ~ ' ; ' : H l i ü ~;

não fo r am de f inido s assim na devas s a - ,

t ive s s e m ali contr a a vontade. E st a vam t ã o à vontade qu e a n davanlli Y I · ~ l Í . ü

a rm a do s, trab a lhando, c açando , as s o v i a ndo. S ã o fo r t es i nd.í c j O N~ I ~ ' ocupa vam um a posi çã o de força , e scapando à lógic a de que " uma Vl\i'"q&~

s

r cela da população adulta . O s coiteiros , recordo , e ram dez.cssC(CJ)l

o que sign if i caria di'l.t1rqV(

empr e esc r avo "."

ii:·,

Mas o O i t iz e i r o era um q u i l o m bo t ão pecu l iar q u e podem . o s ll ú ~ ; V

ta r se não h o uv e a fabric a ção jurídica de u m qui l ombo , p e lo ouvido r J )PI

gos M a ciel, p ar a s ati sfazer a o c onde d a P o nte , qu e po r s u a vez destl.iI!WI

p ress ion ar o prí ncipe r ege nte. Em pa r te hou ve, à v i s t a d a im.pre cisã < ) C p t ! r i

a figura de quilombo fo i c onceb i d a no d is cur s o da devass a . Masahi J ~ '

e ntr e out r a s co is as, fe it a de d isc ur s o s, práti c a s e das r e laçõe s, ami ~ d<? n r j i

l e nt es, e ntr e ambo s. D e finir Oiti ze iro como quilombo não fo i ap e i liü.Ú Ú l '

c ur so de c on ve ni ênc i a

co mun s, o O i t i ze ir o ti n ha fe i ç õ es a tri b u í da s a q u alque r q u i l om b o d ote l l ) j ) ;

es crav idã o : r e uni ã o em det e rmin a d o l u ga r de um núm ero c res c ent e ( l I :

cra v o s f u g i dos , qu e r es i s ti a m a retom a r à ca sa s enhorial , tocavam.uma du ção ag r íc ol a e d es en v ol vi am o utras atividad e s de s ub s istência ,oc~ ú i ü

m e nt e c om ete ndo r oubo s, e s ubmetido s a um " go ve rno" al te rna tiy(~ . A ó

soc i edade envolvente. As rel aç õe s d e produção e de poder dent r o d o O i t i t , c

p o lítica. Ao me s mo t e mpo que tinha ca r acterí s t i q i i ;i

a mea ç a v am a s ubordin a ç ã o e s c r av a na re g ião; quanto a i sso não reSÜtdú \ ! í i l

Eram rel ações p e rigo s a s.

>""i{,

.- No entanto, Baltha s ar da Rocha e out r o s coiteiros n ã o podem seriç91Í,~

'.

G e rado s lib e r tad o r es d e e sc ra v o s, tipo s p r oto-abolic ioni s ta s . Ep os s íY e J ~~ l

f o ss em ap e na s oportuni s tas. M as se usar a m o s e scra v o s em bene f í c i o pr(spl)l,~

a rec íproc a tamb é m é verdadeira . Houve a cordo , nego c iação . ' No Oi tizeir q ' ~! f '

e s cravo s fugido s se aquilornbaram, encontr a ram pou s o , t r abalh () ;co i li . i pro v a v elmente roça s e até filmo e aguardente long e de s eus s enhor es, Paia;~

o Oitizeiro era um quilombo .

' .

NfJTAS-

( I ) Este artigo é parte de um projeto mais amplo apoiado pelo C Nl ' q , Agradeço. cipação lia coleta de dados de Vera N. dos Santos Silva e Marcia GabricluD, dcAmlint'(bóls1~táfr

.'<

nmc/orna): e os comentários de Flávio Gomes e dos alunos (Jailton, Sara, Wlamyru e Zucnrins}

tio seminário "Escravidão e liberdade" que dirijo no mestrado em História da UFBa. (2) Ver Erivaldo Fagundes Neves, U ma c om unida d e ser t a n eja: d a ses m a ri a (/ou;in(lll!/dio

(u n: e s tu d o d e h is t ó r ia l oca l ), Salvador, EDUFBan, o prelo, capo 2 ; Simeão

Ribeiro Pires, I ?u b ' s tl t ;

, Minas Gerais, Montes

Claros, Minas Gráfica Editora, 1979, caps. 1.5 e 16; e Waldir P ( ' () íl i l N \k

Oliveira, "Os Saldanha da Gama da Bahia", Universltos, 33 (1985). (3) Em 1829, um juiz de paz de Salvador lamentava que nessa época sem mais controlados com mão de ferro como 110 tempo do conde da Ponte:

Eduardo Silva, Negociação e con f lito: a resistência negra /10 B rasil escravista;São'Pail.!o. ( ' \ \ 1 \ 1 -

panhia das Letras, 1989, p. 52.

. (4) " O f fí ci o do Governador Conde da Ponte para o Vi sonde de Anadia [16/6/1 ~ 0 7 r'. " l/ltl i , \ da B i bl i o t e ca Naciona l do Rio de Janeiro (doravante ABNRJ), 37 (1918), p. 460.

os escruvos uno fos- verJoão JIls6 Hds c'

(5)

( 6) "Descrição de Joaquim

Arquivo Público do Estado da Bahia (APEBU),

Ordens régias, 1798,9, vot, 89, do<" 1\1.

Pereira da Costa ao príncipe regente n o s so s e n h o r " ( I ,loho;!,

1-31, 3 0, 8 3 ; "Conde da Ponte par a ()Vi S( \ I I Í\ ( k i h '

1 1 51 l 8 (0) , Biblioteca Nacional,

t\l1i\(lill",

16/611807, p. 460. Sobre o volume do tráfico baiano no período, Herbert Klein, "fI, d l 'I ! l ti gl :I!la d l l

tráfico atlântico de escravos para o Brasil", Estudos

(7) Sobre quilombos no governo do conde da Ponte, estou etaborundo um. I':!tlo. "Qullom- bos baianos 110 século X I X". Vários autoresjá estudaram as révoltas escravaa bilii\iJiIS\Ítwlusil'l~cll

próprio: João J. Reis, "Recõncavo rebelde: revoltas escravas.nos cng(:IlII(I~bni 1 \ l Hls '' ' ' ' f) ' f I · t \ . \ ' i ( / .

Econômicos, 1.7(J 9K7). p,1 \1,

15

(1992), pp. 100"26 (sobre

as revoltas no tempo de Ponte;

pp. j () J , - S) ; k k l1 l , l k l x l i l1 l 1 I ' Si T' l l ' Il

110 Br asil: a história d o l ev an t e do s m a l ês( 1 8 35 ), São Paulo,

uma discussão da historiografia

revoltas escravas da Ba hi a" , in .r. Reis (org.),

B r a s ili e n s e , 1988), pp. 87-140.

Brnsilfcnae, 19H6; entro 0 \ 1 1 1 ' 0 :; . Pam

das revoltas baianas, ver meu "Um \ l n : I : I I I , '( 1 dos o , ; ~ l llt l { ~ s1obre t i s

Escravidão i ' i n v e n ç ii u d a Ii/J,I/tllldl'

U'iil0 Paulo,

(8) Oi t t z e i ro ou oiii: "árvore da famüin das rosãceus (Ml J qui lt ' IIIIl I Jl ( ' I I!llsa ) " , comum no

Nordeste, que dá um fruto amarelo, carnoso, de "nromu c saboi' intens o s " INovo di c ion â ri o Au-

ré l io) . O quilornbo do Oi t i z e ir o não é roralmcntodesconhccido dos historiadores, ma s salvo engano nunca foi estudado com maior detalhe, Entre os autores que o mencionam, Pédro Tomás Pedreira, "Os quilombos baianos",.ReviS/II Brasileira de Geografia (1962), p. 88 (mas esse au- tor localiza o Oitizeiro erroneamente em Minas do Rio de Contas, cidade da Chapada Diaman- tina); J o ã o da Silva Campos, Crônica da capital/ia de São Jorge dos I lhéus, Rio de Janeiro, Mi- nistério da Educação e Cultura/Conselho Federal de Cultura, 1981, p. 190; Stuart Schwartz,

Cambridge, Caro-

bridge University P ress. 1985, pp. 479-80; Judith Allen, " The Indi a n s of Pedra Branca" (texto

inédito), pp. 1l·2. (9) Baltbasar da Silva Lisboa, "Memória sobre a c om a rc a de Ilhéus [1802)", A BN R l, 37

(191-5), p. 13. (10) Luís dos Santos Vilhena, A Bania n o século X VIII , Salvador, Itapuã, 1969, li , p. 505. (11) Lisboa, "Memória", p. 1.3; "Carta muito interessante do advogado da Bahia, José da Silva Lisboa, para o dr , Domingos Vandelli [18/10/1781 J", ABNRJ, 3 2 (1910), p. 503. Ver também, Campos. Cr ô ni c a , pp. 105, 138, 162, 175,

Sug ar P la n tat i o n s i n the F ormat i on ofBtatllian

S oci e ty . B ah ia , 1550- ] 83 5 ,

(1.2) Sobre pressões e reações relativas à política colonial para a lavoura

de abastecimento

interno, ver Thules de Azevedo, Povoamento d a c id ade d o S a l va d o r , Salvador, Itapuã, 1969, pp. 277 e segs.; Campos, Crônica, p. 170. Citação de Manoel Ferreira da Camara, "Carta n", in João

Rodrigues de Brito, Cartas ecollômico-po/(ticas

e comércio d a Boh i a, Sal-

vudor, J \ l 'E ll a , 1985, p. 102. O desernbargador Brito também escreveu: "obrigam o Lavrador 1 1 ucupur com a mesquinha plantação de mandioca, que se dá em toda li qualidade de terra, os raros

sobre a agricultura

(58) Alguruus dessas características apontadas para a primeira metade do

Schwurtz, Slaves, Peasants, and Rebels, 1'1'. \06-7.

(59) Situação parecida na Carolina do Sul (EUA), segunda metade do século lid i ! em Meaders, D ea d or A live , pp. 149,154-5.

( 60) Citado por Flávio dos Santos Gomes, "Histórias de quilombolas: mocambosq(·

nidades de senzalas no Rio de Janeiro - século XI X" , dis. mestrado, Unicamp, 1992,p.41 outra passagem desse documento de 1854, produzido por fazendeiros de Vassouras te111ç rebeldia escrava, lê-se que eles deviam "permitir que os [seus] escravos tenham ao solo pelo amor da. propriedade". (lbid., p. 418). (61) As alforrias pagas eram fenômeno mais comum nos centros urbanoS,laC1JI~ sistema de ganho, que colocava os escravos bem no coração da economia mercantilq~e cidades. Sobre escravidão li rbana, sistema de ganho, alforrias e libertos em Salvador,v' outros, Maria Inês Cortes de Oliveira, Os libertos; seu Inundo e osoutros, São PatllO,G 1988; Maria José Andrade, A mão-de-obra escrava em Salvad o r ; 1811-1860, SãoPaulo

pio, 1. 9 8 8(por d escuido d a editora o período i nd i ca d o no título cio livro não é COll'eto,p<)

ria indicar 1888 e não 1 . 860) ; Kátia M, de Q u e ir ó s Mat t os o , "A propõsito de

Anais de História, 4 (1972), pp. 23-52; Stuart Schwartz, "The Manummission " f · II I" , "" o . ;

nial Brazil: Bahia, 1684-1745", Hispanic AmeriC(11/ Historical Review,.54

Cecília Moreira Soares, "A mulher negra na Bahia no século XIX ", dissertaçãodenu

UFBn, 1994, e spc a ps, 11 e 11I. (62) Arquivo d a Cúria de Salvador, Devassa nas Freguesias das Comarcas

cartas de n.l

IlO Ano de 1813, não catalogado,

fls. 8, 9v, 20, Agradeço a Luiz Mott

por ter colocád()iü

disposição suas anotações desse documento.

.

(63) Tomích, Slavery in the Circuit ofSugar, p , 260. Vale a pena

11 cuaçaocompíeu

o senhor, us roças eram um meio de garantir trabalho barato. Para os escravos, elaborar um estilo de vida autônomo. A partír dessas perspectivas conflitivas luta-sobre as condições de reprodução material e social, nas quals os

priar de aspectos destas atividades e desenvolvê-Ias sidades", (64) Mullin, Af r ica in America, comparando

nhor provia 11 subsistência dos escravos e o sistema de roças era restri to (principalmente Jamaica) - onde as roças eram fundamentaispara

Vos -:' concluiuque no segundo caso os escravos desenvolveram uma cultura bem Jl1ais r!

ma e umaresistência

em torno de seus

as relações senhoriais nos .EUA - • ( 1)(

••

a subsistência\lt)g

mais persistente.

(65).yomes, "Histórias de quiiombolas", pp. 49-51,85-9. (66) Num trabalho anterior, sugiro que se possa fazer aproximaçõesentJ'9(~ç(

quilombola e formas de produção camponesa: João Reis, "Resistência esCraVl\9111Jlhi

documento inédito" ,Anais do APEBa, 44 (1979), pp

los Magno Guimarães, "Quilómbo e brecha camponesa-s- Minas Gerais do Departamento de História [da UFMO], 8 (1989), pp. 28-37. (67) Lara, Campos da violência, p. 246, sugere a expressão (que prudentell1t~ntcl\V.

. Ver também sugestivo !lItigO

290-1

panhar de UIIl si nal de interrogação) para fugitivos que passavam a servir ti colteiroscomn:

sem senhores.

.

CANTOSEQU~OMBOSNUMA CONSPIRAÇÃO DE ESCRAVOS HAUSSÁS

Bahia , 1814*

Stuart·J3,··Schtvt:tl'tz

A história da resistência escrava no Brasil é nonnalmel1tedivhlidt\.t'lll

dois temas paralelos e algo distintos: a fuga e fonnaçãodequilollllJOS:t!ll,rnn des revoltas escravas, geralmente de natureza urban~,especiqhnent(~aflud'ls que ocorreram na Bahia na primeira metade do sécl!loXIx,l:llnhol'(\üUII'OS aspectos da resistência escrava também recebessem .•~\lgunlaiMcn9i\(), dois fenômenos dominaram as discussões. sobreotema,IlHlsentggrol ( '0 1 \\ 0 atividades distintas, como duas estratégiasdiferentes.de •enírentamemo .do

regime escravocrata.

to, oferece a oportunidade de ver ligações possíveis entre 11 resist(;uüH\ endê-

mica à escravidão representada pelosquilornbose.aslllclloS .comuna embora

com freqüência dramáticas, revoltas deJargacscala;cvp.I'ur(o. a p(' n ( l~ COl1lO atividades diversas com amesrnaorigem na l'esi~têncit\,.lnus çnlllo· tãticas

mutuamente articuladas na guerrados escravoscontraãescrav

Neste estudo pretendo analisar um inquérito judíclnl, até ag or a tn é dito. de uma revolta planejada pelosescravoshaussás em 1814, masque foitraídae abortada (ver Anexo ).2 A organização e"oplallo dessa revolta acentuam certos temas conhecidos dos levantes baianos, quais sejam: a maneira como escravos urbanos e rurais cooperaram e coordenaram suas ações; o papel das "identi- dades étnicas" e sua significação num contexto colonial; a adesão e participação de libertos nesses movimentos; e, finalmente, o papel que a fuga e os quilom- bos podiam desempenhar na coordenação e mobilização dos escravos rebeldes, Na longa história da resistência contra a escravidão brasileira não houve, de fato, nada parecido com a série de revoltas e conspirações que sacudiram a cidade de Salvador e a zona agrícola contígua, o Recôncavo, entre 1807 e T833:-Foi um período turbulento, caracterizado no Brasil por revoltas de caserna, o fim do regime colonial, a abdicação de um monarca, instabilidade

() reexame das revoltas baianas.do séwlo X J X , lIO e i ll l l l l -

i d ã o , I

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r conflitos políticos generalizados, turbulência intensificada pelas re\)o!J

escravas, elas próprias um produto dessas condições. As revoltas e S~ I · baianas foram em geral organizadas e desenvolvidas em torno das etnjà~." às vezes a participação e a liderança ultrapassavam essas fronteiras clll1l1i algo artificiais. Homens e mulheres escravos e libertos ocasionalnie)ll~~ uniam na ação comum. As revoltas escravas baianas constituíramUfl1.tI de campanhas ou batalhas numa longa guerra contra a escravidão. OU ; . disse um escravo.ç'urna guerra dos pretos,'. A relação entre essaguw tradição de fuga e quilombo precisa ser explorada. O levante ha:usSád~:

permite que se comece a fazê-Io.» As rebeliões escravas baianas têm sido explicadas a partir de váriqs.f

1 los, seja religioso, político, conjuntural ou étnico. O fato de que alguíllfi~\lI

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tação

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- como a dos m.~~~~~Je~l?.maiJo"radelas - ~amf(j~~pi~!}~ islâmica, leY9.Ea uma explicação religiosa, mas outros estudiosos ~.•\.l Ji . •~

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riram que nem todos os rebeldes eram muçuunanos ou tinham obj~tiX9§!7~ cificamente religiosos. Alguns autores argumentaram que omol))~R~9 rebeliões - em meio à longa "Revolução Atlântica"t(1776-18401~.~~·

camente à inquietação polftica associada à independência brasileir~Xl?; não foide maneira alguma acidental e que as rebeliões devem sercollsí.d sob esse âng ul o. ' Ao mesmo tempo, o caráter fortemente étnico de nttliGl4"JJl revoltas, tendo sido organizadas por grupos africanos diversos, a f~ha(kpítl ticipação em larga escala de crioulos (negros nascidos no Brasil)e.A1l.I14,I{},:

além das divisões de cor, status e origem dentro das comunidadesafto~t)J!Ü1} leiras, vão de encontro à idéia da influência unificadora do jacobitÜsl1i§~61r( coentre. os escravos. Esse tipo de pensamento político maisinçlu~iy~t:

exemplo da França parecem ter sido mais importantes nos movimento.~ipf> cosrepublicanosdo período; que envolveram pessoas livresde cor,eB1Slc

o processo haitiano teve mais impacto sobre estas e sobre os seI111QKP8

. escàt:vos'doque. sobre os próprios e s cravos. '

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CONTEXTOS

A cap i tani a da Bahia foi p o r muito t empo um impo~nteie r~"a í ~

fico de escr a vos , mas as mudanças na economia atlântica, especiah l1 cnt?H

a revolução haitiana de '1792, criaram novas condições paraa .expall~n(1

escravidão em terras baianas.-Wo início do século XIX, cerca de8 !nUa} O africanos chegavam anualmente ao porto de Salvador. Entre dois terç6$~1 quartos desses africanos vinham do golfo de Benim ou do que os port:úgl1ú:

chamavam de Costa da Mina. Em 1806, por eXemplo,8Q37 minas d e : ~i . t ] ll ~[ ll ; :r'

1. Vista de Salvador, C.··185S .' < .·. i\i··

i

("Vue de Bahia", Brasil pitoresco. Álbumdé.vist{ls,paisagtll/S; monumentos, costumes ete., Paris, Lemercier, 1861. Repi·od,HattcrSú).

caram na Bahia, comparados com 2588 escravos deArigolâel3êllgucJtt 6 A Bahia tinha uma longa tradição de comérclocomaguelàpültOdacosta africana e muitos senhores de escravos haviam desenvolvido'uma preferência

por trabalhadores dessaregião.?

• • •

~~~timü!~Ç.iiQJJo"-~itj~92.!!l9"PX,?,~~~~"êg.r,

ª,Ç?,S~::;/l~:P9

. •.(lq r$'t.119!j~~.·.º;~

i

1-7-9-2-estlmular~a.e:Ke~~~~9J!º-~,~ªI!~vlal~.!!Q.~J.1\§il,eáreas

açucareiras tradi-

cionais, como a Bahia; floresceram comacriação de novas oportunidadesde mercado. Essa expansão foi acompanhada por um aumento da importação de escravos para os engenhos, o que também resultou no inchamento da popu-

lação escrava da cidade-porto de

. .Na primeira década do século XIX;. a capitania. como um todo tinha uma

população de mais de 400 mil pessoas, das quais um terço era de escravos.

formada por

Salvador tinha uma população de mais de 50 mil, cerca de metade

negros, 22% por pardos e apenas cerca de 25% por brancos. Os escravos re- presentavam talvez 40% da população da cidade.' O que distinguia a popu-

lação escrava de Salvador da do resto da capitania (e também daquela da maior

parte

ros,era aodgci.lluJricallH da maioria dos escravos. Na Bahia desse período os

elo Brasil), e que sempre provocava comentários de viajantes estrangei-

ufrh i Ul O S provavelmente representavam 60% da população escrava. À~~4i~ u população ficava cada vez mais africana, ficava mais desequilibraqti, umHOs d e distribuição sexual (proporção homem/mulher) e etãria d~yí p re domin â ncia de homens jovens vítimas do tráfico, O crescimento d<>{r trunsatlântico intensificou a proporção - cerca de dois terços - dos h()c nu população escrava de Salvador. iAs chances de escravos baianos~111 trareru escravas e formarem famílias 'eram piores nesse período do quetip sido desde o século XVI. Finalmente, na estrutura etária da populaç~o~~q predominavam jovens adultos, que constituíam cerca de 60% .da mão~~ escrava da cidade." Eis então uma população escrava que, no in í ci õ do . XIX, era cada vez mais jovem, africana e masculina. Não surpreengeX cente preocupação dos senhores, cercados por uma enchentedees,> estrangeiros, nativos da África, escravos cujos ajuntamentos, béitllguese~j. ças haviam transformado partes da cidade em algo semelhante ao "sei"(t ' costa da Mimt.ioNão surpreende a onda de inquietação escravaesolf dades étnicas no interior da complexa estrutura da sociedadeesêtoây~ baiana e no contexto da resistência tracücional. lli . A insegurança natural da sociedade escravocrata se intensificaranà"iJ do século. Quilombolas e assaltantes tornaram as estradas niais inseg~f Manoel de Araújo e Goes , que vi via no engenho Carnor ogi ét cerca de2S<: "

metros da cidade de Santo Amare, no coração da zona açucareira,queixQlfi·tit.'Y;CS

que, nas viagens para seu

ameaçado pelos bandoleiros e "mesmo seus próprios escravos". 12 Epe~~}i, para carregar sua pistola. Andar desarmado no Recôncavo passara a serpe~Jg! Tais preocupações não eram infundadas. Os quilombolaser<\múú1., blema presente; Às vezes africanos recém-chegados aproveitaVal1lt\pi'~Il\ chancepara fugir e juntar-se a outros já cansados, com o que o c<?llsll1fV' chamava de. "despotismo intolerável" dos senhores. I ) . Osquíloillbos.~~ Ihavam pela zona rural e serviam de farol e refúgio par<l:os escravos-dos, nhos. A inter-relação entre engenhos e quilornbos - e a natureza da ai', -'- se torna. clara no exame da carreira de Severin~ereira, "Capitã()~m(! entradas e assaltos do distrito de São José das 'Itapororocaachefe.de'Mi efetiva da Redução dos escravos foragidos e dos fortificados nosquiloq115[ coitos"; em outras palavras, um capitão-do-mato. Pereiraarrolou ent\'c. serviços zelar pela "segurança interna dos povos e domínio dos senhOl'i;!Si' escravos e malfeitores", detalhando atividades que revelàrriàresistêncià

va." Em 1789, ele atacara um quilombo formado pbrescravo$qucJ)~lyr

escapado do engenho de Bento Simões de Brito e se reunidonasTl1.út:IS

outro engenho, o Santana de Pojuca, ele

r. Águas Verdes. Em '1791, ele havia sido feridoduas

vezes n( l,\ (il q n ~ f <

quilombo nas imediações das matas do CôncaVO,li(~J'io:IIlCHrp(},::Il:lllid.tl\,i

serviço tinha sido chefiar uma expedição de duzentos homens contra D S

quilombos do Orobó e Andaraí, cujos escravos andavam, emsuuspalavl'us, "desolando fazendas, invadindo [sic] viajantes nas estradas, induzindo í\OS nu- tros escravos e levantando-os por força para seus reprovados u~os".I;EhlIJl1ha

especial orgulho de suas ações contra os "inimigos tade" que haviam construído um reduto grandemente

LImarede de galerias. subterrâneas, armadilhas e estrepe s . ErnoutrtlSptllnv/'us, uma povoação permanente e fortemente, protegida." Esses. BSerViÇ():-;"C>I:UIl

típicos dos caçadores de escravos do período." Cada freguesia QUluÜ.11!tll Ü!;SC:i; capitães-do-mato, que não s6 perseguiam quilombolas individuaismas (;11\1

bém mobilizavam grupos ou milicianos para atacar os quil~nWos,< '

do Bstadc.deSua majes-

fortificado,pr6t(:~gidoP()1'

naB , l N . ª d c~ ( k'(r i í l f\i jo

da escravidão de africanos, a preocupação do governo com eJess\.linll\Jí~tllo

COuP9 .fina• l cI?~écul0 ~VIII, esp~~ialn~ent~

Embora os quilombos tivessem sido endêmicos

rd.

desse s

o

•.C?.• I~ .•~ ~re~~~.nt~.n.lJ'1,l'I\O('~'

§ç,'.seg~jÍH~II'4.yi)llnJli,1

n1?~ , s

.•I ÜW. " ~ SÚ\ y . t lnll ( Jj \ ~ t' · i ll , I S

afri C~ll~~~'ti:azTao,sü·.']?m:.ti .a,.·expalJ§~o~gríc91a (J , ll ~

Haiti;Ap?~ l.8~1,~ot1ai.ondaqe revoltas",o, probfFT~,.Ótlpef?,.i1l8!Vl~I}I)W(lo,

. n úcle()s 'pópu't àéionais, ás 'cidades e e~ge~ih()s,·.~soRreVivj fÚll(J~ ,UtüqÚ(':{·.\Y(I~1

tóJ 1 íou :S~• .•lnaís. ' ~l g~do. ' Muft9~

·coI1i~êt?'"°ê~ií:pôpül~~ôe~':Viziúl~~';'·.N'9~Jl!ífi?'~fs~fli)~~:~IK,.,·(I((Ü'll,Flí'ilb\.IS

s 11bll1oba~lq;';;' .'ho Cabulá, 'Matitt'uoulhlpõan;nasilncdiá'ç(\dS

estúval;ls,ªga vez mais illtegràdosà vida .dà esciavidã(júii'I)Ú1JrI.l:irlvÚ~.··ln0:\nl(;

'sávli14Q.~s-x~~~s:coin()

'([?Snlv:lc!(),' ,'"

~ ; ~ l . nlf \.\.ils ~'.•a s si~

d~ihinaQão-d~fLlg~\stenll)()ráI·ias

têflÇii'l,.~,,9\!SCanSopara os •escravos ':urban()s.IH.()S(.IlIllhi'üb()IJ1~}\SW~,':~

entraY~R1 Il~cl~a?~

dosq~nonlbosaayaaos

.paravénder'p.r?~p~os:r~)\l?a7I(}s,0i)i~}llú'111\1·n()·ldlilÜY()

africanos ·a.challC:e de mant c t 'e : n) ' UÚ 1 1t C i . l r lt rHllt Q tl O - '

.

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~lIia. cl1rt~!~l ;Jô'nge(~as .•r~str ~çõe~ci yls .;~ · . ed . ~s i ~s t i~ n sll < l s ~) ~ ' i ~ ~ " :l~ ' k < ~ on. li. - 'naniêt'llle suprinlia aprátiQ~'d~s'r~li~iõés' at"l.oiclll1llK.,I;.'PquiJnlnb\lsl.oWrPbp,

destr\!IgÇ?;~m.1.84_6;"abrl.gaV~,:~!h'f.\iBª'911jbj~.z(J·ATotalividade. çlo~ bHhjülntes

nesses .;q?i19mP9~ .,

dos ataquespoliciais,alg'uns.ôon'seglliam

clestr~ljçe~:de úmquilé~b,o,quase invarü\vehlle~ltéalg~nS' d?s fugitiv()§€wi~.·· tavamsercapturadoseestabeleciam outrdquilomb6, para', serem 10goprÚ~ curados por riovosquiíombora», numa espécie de dialética da resistência escnwa.A.formaçãodequil()mbosera um problema crônico para os senhores baianose uma tática permanente dos escravos baianos.

sl.lb~rbar()sP8clia

•sel·. Jllt~\~ là~l.embÓI.·àf(')SS~nlpJ"eS~\,f;;iÇ

il.

soiJreyiver durante a I1?S;'ApóSJ\ .

l1.

O

SHAussAsE SUA "NAÇÃO' :

f\I( ) . i ll1í C I O( I O século XIX a população escrava da capitania e da cidade í!lç;h()'\l,qJr~I!~Ú~JlllnlCr(d) e escravos minas chegava, particularmente dos gru-

"

1:

P(H; ('11 " na ç õ e s " conhe c idas na Bahia como nag ô (iurubá), jeje (aja-f6 i\

w,/"rt ou aussã (hau s s á ) . " Em muitos sentidos, essas designações étnica s . ~ l ·it . L ' I ' j ! l l .•.õos coloniais porque não reconheciam diferenças políticas, cultu~~i~

l ' d i g iosa s na África. Assim, os nagôs podiam todos falar iorubá mas villll~ de s ociedades diferentes e freqüentemente hostis : O mesmo pode ser ditBA .' da o rnea nos, os jejes. " A formação de novas identidades e "comuni< l ~ Jd imaginárias" de acordo com rótulos coloniais foi um processo compl~ * ()

i

ncompleto que teve lugar no Brasil . 23

'.,i

'

Os haussás também estavam divididos por origens regionais e difeI ' ~l l r

religiosas . O processo de islamização no

incompleto, e continuava na Bahia, já que a conversão continuou aac:9!1 ce r. " Os hau s sás não eram o grupo mais numeroso na Bahia, e n a p l ' Ópl

c idade de Salvador e l es c on s t i tuía m ap e nas cer c a de 6 % da popul a çã C;e s c r ~i ~'>

va. Mas começaram a entrar na capitania em bom número, juntamente ; p ~ ~m /' outros povos do golfo de Benim, depois de 1780 e, em número malor,de que o líder fulanl Shehu Usumanu Dan Fodio iniciou . a jihad em t~ t ' dt l haussá em 1804, que resultou no controle de grandes áreas pelos fula . l 1Ís~

eventual ' formação do califado de Sokoto. O conflito durou seis aD8s~.g duziu grande número de prisioneiros de guerra, muçulmanos e nãom~ç mano s do Sudão c e ntr a l ." Com o tempo , a expansão i s lâmica pro v oêôú U I ~ l ; H

s érie de gue rr as na área io r ubá, na medida e m que a lgumas c i dades-e s tH ~ ~ I ; ~ ;' foram islarriizadas e novos estados surgiram." Essas guerras gerarâm ~ rjJ j ) ;i: ' lhares de prisioneiros, que , foram vendidos para o tráfico atlântic()$âlQ< I ( l princi palmente do po r to de Lago s , na Nigéria . Nas primeirasdécâ ~ i fsT rlQ ; século XIX, a maioria dos muçulmanos chegados à Bahia era haussá. i O S V ) ( l !,

país haussá tinha sido violeB t ,

jantes alemães

"muito pretos, altos,musculosos e muito ousados" , opinião C()l1lpª , ~~bR "

' por um cônsul francês na Bahia que

fones e menospassíveís de se resignarem à escravidão do que outi'osgr Uhi J? Ele também notou que na sua maioria eles tinham sidoguel)"çiro$el~ l : i sioneiros de guerra, e que era raro ver uma mulher haussá na Bahia;~7 ::S \ l t t observações pessoais são confirmadas por pesquisas re c entes . " .

Spixe Martius os viram em Salvador e osqualifi9 ' a t ' ~1 l1 i ~ . l ~ '

acreditava serem

o s haussãs fisiga mi '

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i,;'

. Oshaussás

cedo começaram a causar problemas naBahia,~ml~ ()9 i ! ~l \ . ;

1807. Uma suposta conspiração foi descoberta pelogovernador,ocQl1d ~ (j\~ , Ponte, na qual o s escra v os haussás da capital tinham eleito um"goyen úl d Çl I ' ; \ que, com a ajuda de um secretário liberto, começara a estab , elece r c ( ) llú~t \ ' l ' ~ com os haussás dos engenhos do Recôncavo, Urna outranotíciadá i c ôi l ~q i ( l ~ ' que "capitães" tinham sido indicados para cada freguesiada, cidade; z9A . 1 . ] ' 1' t\~ ; ha v iam sido reunida s e o levante , combinado entre e sc ravo s d a c jd a , cjc ~( , t ü ~ S"

e n ge nho s , terialuga f no d i a de Corpu s Christi , quando a . Y i g ilâ n c i a~)I · Q \ I { J Y ~ l "'

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mente estaria relaxada. O conde da Ponte agiu rápido, suprimindo o movi - mente, prendendo líderes e postand o gu a rdas nas fontes públicas , por temor de que fossem envenenadas. 30 Essa conspiração foi comentada por uma ordem régia de outubro de 1807, que ob se rvava que a r epressão impedia os conspi-

radore s de " violar o s direito s de s eu s re s pectivos senhores nem também per-

turbar a segu r ança e o soss e go público de que depende a conservação

estados" . " Os líderes foram executados e dez outros escravos açoitados PU"

blicamen t e . Um toque de r ecolher foi impo s to a todos o s e s c r a v os na cidade e mesmo a circulação de p e ssoas liberta s foi restringi da . Nem esses primeiros rebeldes hauss á s nem o conde daPonteeram

ingê