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ISSN 1983-5183

Rev. Odontol. Univ. Cid. São Paulo


2016; 28(2): 135-42,mai-ago

TÉCNICAS DE MANEJO COMPORTAMENTAL NÃO FARMACOLÓGICAS NA


ODONTOPEDIATRIA
BEHAVIORAL MANAGEMENT TECHNIQUES NON-PHARMACOLOGICAL IN
PEDIATRIC DENTISTRY
Lívia Fernandes Pires da Silva*
Nathalia de Carvalho Freire**
Rodrigo Silva de Santana***
José Massao Miasato****

Resumo
É habitual, na vivência odontológica, deparar-se com variados tipos de comportamentos indesejados, gerados
principalmente pelo medo, ansiedade, birra ou dor, interferindo no atendimento odontológico. Nesses casos,
o odontopediatra poderá utilizar técnicas de manejo comportamental não farmacológicas, auxiliando, assim,
no tratamento do paciente infantil. Entretanto, para que tais técnicas sejam mais efetivas, é necessário conhecer
suas possíveis restrições quanto à faixa etária e perfil de cada criança, de modo a promover e estabelecer se-
gurança e qualidade ao atendimento. Este trabalho tem como objetivo revisar e discutir por meio de literaturas
as técnicas de controle comportamental em odontopediatria.
Descritores: O dontopediatria • Criança • Controle comportamental • Ansiedade ao tratamento odontológico

Abstract
It is customary in the dental experience to face different kinds of unwanted behaviors, and these are generated
mostly by fear, anxiety, tantrums or pain, thus interfering with dental care. In these cases, the dentist can use
behavioral management techniques non-pharmacological, thereby assisting in the treatment of child patient.
However in order to such techniques be more effective, it is necessary to know their potential restrictions on
the age and profile of each child in order to promote and establish safety and quality service. This work aims to
review and discuss through the literatures the behavioral control techniques in pediatric dentistry.
Descriptors: Paediatric dentistry • Child • Behaviour control • Dental anxiety

**** Graduanda em Odontologia – Unigranrio – Duque de Caxias, RJ. Email: liviapires26@gmail.com


**** Graduanda em Odontologia – Unigranrio – Duque de Caxias, RJ. Email: nathaliafreire683@gmail.com
**** Graduando em Odontologia – Unigranrio – Duque de Caxias, RJ. Email: digo_ever@yahoo.com.br
**** P
 rofessor da disciplina de Odontopediatria – Unigranrio – Duque de Caxias, RJ. Email: jmassao@gmail.com

135
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Silva LFP Introdução comportamental como um fator importan-
Freire NC
Embora a área odontológica tenha te no tratamento odontopediátrico. Levan-
Santana RS
Miasato JM avançado consideravelmente ao passar do em consideração as diversas maneiras
dos anos, ainda existe a sensação inde- de abordagem infantil.
Técnicas
de manejo sejada relacionada ao medo/ansiedade e Revisão de Literatura
comportamental expectativa do paciente infantil. No âmbi-
não O controle de um comportamento in-
to da odontopediatria, essa sensação pode
farmacológicas
ter uma proporção maior ou menor, de desejado na odontopediatria é quase sem-
na
Odontopediatria acordo com cada criança1. pre avaliado através da identificação com-
O comportamento de uma criança portamental e não apenas da faixa etária.
diante do profissional pode ser bastante Sendo assim, faz-se necessário conhecer
imprevisível, levando-se em consideração os diferentes tipos de comportamento in-
que existem fatores psicológicos relevan- fantil para a correta aplicação das técnicas
tes ao tratamento. Entretanto, o odontope- de controle. Deve-se ressaltar que a comu-
diatra deve ter em mente que cada criança nicação entre a criança e o profissional é
possui reações distintas quanto à aborda- um fator que influencia positivamente na
gem odontológica, pois fatores externos colaboração do paciente e na aplicação
podem influenciar negativamente na co- das técnicas de manejo comportamental
laboração do atendimento2. não farmacológicas6. O comportamento
O primeiro contato da criança deverá apresentado pelo paciente infantil dará ao
ser visto de maneira importante e necessá- profissional a possibilidade de lançar mão
ria, e que os pais possam prepará-la psico- de algumas possíveis técnicas de manejo,
logicamente, a fim de minimizar possíveis viabilizando, assim, o controle durante o
anseios com relação ao tratamento3. Des- tratamento odontológico. As técnicas não
se modo, o contato inicial com o odonto- farmacológicas de manejo comportamen-
pediatra não deve ser meramente técnico, tal em odontopediatria são utilizadas a fim
mas sim com o intuito de construir uma de gerar segurança e tranquilidade duran-
•• 136 •• boa relação entre ambos, para que a te o atendimento, sendo as mais utiliza-
criança se sinta única e respeitada4. das: comunicação verbal, comunicação
O atendimento odontológico infantil não verbal, dizer-mostrar-fazer, controle
requer o gerenciamento comportamental de voz, reforço positivo, distração, mode-
da criança, de forma a viabilizar exames lo, mão-sobre-a-boca e contenção física5.
e intervenções relacionados à promoção A comunicação verbal é aplicada de
de saúde. A abordagem deve se adequar à modo a expressar verbalmente os proce-
idade, ao gênero, ao estado de saúde geral dimentos, dizendo ao paciente o que será
e aos fatores familiares da criança5. O ma- realizado em seu tratamento5, enquanto
nejo do comportamento terá como auxílio a comunicação não verbal tem como
o emprego de técnicas farmacológicas e base o contato, a postura, a expressão fa-
não farmacológicas, com o propósito de cial e a linguagem corporal para orientar o
controlar o paciente durante o atendimen- comportamento do paciente, reforçando o
to. que foi dito verbalmente1.
As técnicas de manejo comportamen- Dizer-mostrar-fazer
tal podem ser amplamente utilizadas na Essa técnica é uma das mais utilizadas
abordagem da criança no consultório na odontopediatria, pois ela envolve ex-
odontológico, possibilitando, assim, a oti- plicações verbais dos procedimentos, uti-
mização do atendimento. Entretanto, para lizando frases/palavras adequadas ao nível
o sucesso do atendimento, o profissional de desenvolvimento do paciente (diga);
deve ter conhecimento e embasamento sendo feita em seguida uma demonstra-
suficiente para discernir uma técnica da ção visual e tátil, buscando tranquilizar o
outra, elegendo a mais adequada para paciente infantil (mostre); e a partir da uti-
Rev. Odontol. lização dessa explicação e demonstração,
Univ. Cid. São
cada criança3.
Paulo O estudo em questão lança mão das deve-se concluir o procedimento (faça)5.
2016; 28(2): técnicas não farmacológicas de manejo O “dizer-mostrar-fazer” pode ser aplicado
135-42,mai-ago
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em conjunto com comunicação verbal e infantis. A música é a mais importante para Silva LFP
Freire NC
não verbal e reforço. A técnica tem por auxiliar no tratamento odontopediátrico,
Santana RS
objetivo ensinar a importância do atendi- pois ela pode diminuir o nervosismo e ali- Miasato JM
mento odontológico, deixando o paciente viar os sons de alguns aparelhos10,11. Po-
Técnicas
à vontade em relação ao atendimento, e demos também acrescentar métodos que de manejo
assim adaptando-o para se obterem res- complementem e colaborem para melhor comportamental
postas positivas para os procedimentos. É aproximação entre o paciente e o profis- não
uma técnica indicada para todos os tipos sional, como conversar com a criança so- farmacológicas
na
de pacientes1, 7. bre outros assuntos e permitir que utilize
Odontopediatria
Controle de voz algum brinquedo desde que não atrapalhe
Trata-se de uma técnica na qual o volu- o procedimento1. Essa técnica citada pode
me e o tom da voz deverão ser adaptados ser indicada para qualquer faixa etária in-
conforme a necessidade, de modo a in- fantil, sem contraindicações5.
fluenciarem ou direcionarem o comporta- Reforço Positivo
mento do paciente infantil8, instruindo de É um processo de motivação do
forma clara e sucinta e estabelecendo, en- comportamento positivo da criança
tão, um guia para o comportamento dese- através de elogios, gestos positivos, ex-
jado. Essa técnica é primordial no manejo pressão facial etc. Essa técnica visa re-
das crianças, pois os pacientes menores compensar comportamentos desejados,
normalmente não cedem ao apelo verbal; tendo como principal objetivo o retorno
dessa forma é indicado que o profissional desse bom comportamento9. Pacientes in-
fale baixo continuamente. A entonação é fantis podem estar nervosos ou ansiosos e
um fator importante, devendo ser utiliza- assim não cooperarem ou não seguirem as
da com o intuito de atrair a atenção da instruções. Caso eles se sintam ameaça-
criança. A expressão facial do odontope- dos por algum motivo em particular, isso
diatra também deve refletir essa atitude de dificultará a sua cooperação. Em caso de
confiança, pois, com a existência de um comportamentos negativos, o profissional
comportamento perturbador por parte da deve se manter calmo e evitar falar pala- •• 137 ••
criança, o controle de voz poderá restabe- vras como “Pare”, “Não faça”, tentando
lecer rapidamente uma relação entre den- sempre explicar e pedir gentilmente para
tista e paciente. Assim, a criança obterá a que a criança se mantenha calma e que re-
orientação e o profissional terá a coopera- alize o que está sendo proposto. Para pa-
ção dela. O controle da voz tem o intui- cientes infantis abrir a boca é uma grande
to de captar a atenção e a cooperação da demonstração de confiança, e elogiá-los
criança, podendo, assim, evitar compor- repetidamente por seguirem as instruções
tamentos negativos do paciente infantil. A pode fortalecer essa relação de confiança.
técnica é indicada para todos os tipos de Podem ser utilizados reforçadores como
pacientes e contraindicada para deficien- lembrancinhas, brinquedos ou até mesmo
tes auditivos9. um simples balão com a luva de proce-
Distração dimento limpa que geralmente é utilizada
Essa é uma técnica que tem como pelo dentista. O reforço positivo pode ser
principal objetivo desviar a atenção da usado em todos os pacientes1.
criança para evitar um possível descon- Modelo
forto com algo do qual ela possa vir a ter Essa é uma técnica na qual o clínico
receio. O dentista deve utilizar procedi- utiliza vídeos ou outra criança, que já está
mentos eficientes para estimular a criança condicionada e adequada ao tratamento,
ao tratamento odontológico, pois a tensão servindo de modelo para o paciente que
psicológica gerada pela situação dentro está tendo o primeiro contato com o den-
do consultório pode acarretar ansiedade tista ou já teve alguma experiência não
e medo no paciente. O profissional deve tão interessante. Dessa forma, é possível
tornar o ambiente favorável ao tratamen- ajudá-lo a ter um novo padrão de compor- Rev. Odontol.
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to, alcançando, desse modo, melhor resul- tamento, evitando ou reduzindo prováveis Paulo
tado. Podem ser utilizadas estratégias de negações ou medos prévios que possam 2016; 28(2):
manejo como músicas, vídeos e histórias existir no paciente, pois a maior parte do 135-42,mai-ago
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Silva LFP aprendizado das crianças é baseada em fissional posicionando as suas mãos sobre
Freire NC
sua observação e imitação de outros10. a boca do paciente infantil, com o intuito
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Miasato JM Entretanto, os pacientes observadores de abafar qualquer som e simultaneamen-
devem estar dispostos e excitados com o te promovendo a aproximação no ouvido
Técnicas
de manejo
fato de estarem assistindo outra criança da criança buscando uma comunicação
comportamental em seu tratamento e o modelo acaba ga- favorável, recorrendo a uma entonação
não nhando um status ou prestígio maior, pois adequada. Quando esta não for eficaz,
farmacológicas ela estará servindo de exemplo positivo o profissional poderá aplicar a variação
na
para outra criança. Pais, irmãos, colegas da técnica, a “mão-sobre-a-boa com res-
Odontopediatria
e o próprio dentista também podem ser- trições das vias aéreas”, que consiste em
vir de modelos, porém podem influenciar colocar as mãos sobre a boca do paciente
negativamente caso expressem expectati- juntamente com o fechamento das vias aé-
vas negativas para a criança ou, no caso reas superiores por no máximo 15 segun-
dos pais, estejam muito ansiosos. Nessas dos com os dedos polegar e indicador3.
situações é melhor que os pais permane- Havendo a colaboração da criança no
çam fora da sala de atendimento, porque emprego da técnica, as mãos deverão ser
para o paciente observador é interessante retiradas imediatamente e a criança deve-
ter como modelo uma pessoa com calma rá ser elogiada por ter colaborado com o
e confiança. Na técnica modelo se tem atendimento. A técnica mão-sobre-a-boca
como objetivo reduzir a ansiedade de uma e sua variação são indicadas para crianças
criança com experiência anterior e intro- com grau de entendimento de três anos ou
duzir uma criança no tratamento odonto- mais, livres de problemas mentais, auditi-
lógico. Ela é um instrumento importante vos e que sejam maduras o suficiente para
no condicionamento do comportamento corresponderem aos comandos do odon-
de crianças em qualquer idade, se mos- topediatra12. Entretanto, é contraindicada
trando mais efetiva em crianças abaixo para crianças incapacitadas, imaturas e
dos 7 anos. Deve-se apenas tomar cuida- que estejam sob o uso de medicações que
•• 138 •• do em casos de urgência, pois o nível de alterem o nível de raciocínio. É de suma
estresse e ansiedade da criança pode estar importância que esse método de controle
elevado e não levar ao o resultado dese- seja explicado detalhadamente para que
jado; independente da técnica utilizada é os pais estejam de acordo com a aplica-
importante para o controle da ansiedade ção da técnica, sendo então formalmen-
da criança estabelecer uma boa comuni- te autorizada por eles, buscando assim a
cação entre profissional-paciente7. otimização do atendimento odontológico.
Mão-sobre-a-boca (HOME) Contenção física
É uma técnica de manejo físico que Trata-se de uma técnica que conta com
tem por objetivo a obtenção da atenção o manejo de restringir fisicamente os mo-
e da colaboração da criança durante o vimentos impróprios do paciente infantil
atendimento odontológico, para que esta na intenção de viabilizar o tratamento
ouça o que o dentista tem a dizer. Embo- odontológico. Essa restrição da liberda-
ra seja uma técnica um tanto controversa de dos movimentos poderá ser aplicada
por conta da aceitação dos responsáveis, parcialmente ou totalmente, fazendo-se o
possui um bom nível de eficácia quando uso de diversos meios e aparatos como:
corretamente aplicada e consentida pe- mãos, cintos, fitas e envoltórios de te-
los pais. É uma técnica empregada nos cidos9. A técnica em questão é uma das
momentos de birra, de choro incontrolá- últimas opções de escolhas dos odontope-
vel e ataques de ira do paciente infantil, diatras, pois não se aplica a todos os ti-
quando for impossível manter um diálo- pos de crianças, devendo ser empregada
go adequado com a criança, devendo ser apenas naquelas menores de três anos de
empregada juntamente com o controle de idade que não cooperam e possuem um
Rev. Odontol. voz, buscando estabelecer assim uma co- grau mínimo de maturidade, naquelas
Univ. Cid. São municação favorável com o paciente e a
Paulo
com algum tipo de deficiência mental que
2016; 28(2): promoção de um atendimento seguro1. O também não colaboram ou naquelas com
135-42,mai-ago método em questão funciona com o pro- alguma deficiência física que impossibili-
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te o manuseio, tendo-se em vista o intuito tivo ou não cooperativo, pode-se aplicar Silva LFP
a técnica que melhor se adeque, desde Freire NC
de minimizar possíveis riscos de acidentes
Santana RS
durante o atendimento e também propor- que esta vise à segurança e ao conforto Miasato JM
cionando, desse modo, um atendimento no atendimento. Algumas dessas técnicas
Técnicas
seguro e de qualidade13. A utilização des- possuem ampla indicação na odontope-
de manejo
se manejo comportamental deverá ser fei- diatria, que são as de manejo verbal, en- comportamental
to juntamente com o consentimento por quanto outras possuem suas contraindica- não
escrito detalhado dos pais. Devendo ser ções e polêmicas, que são as técnicas de farmacológicas
manejo físico. na
explicado a eles o método de escolha para
Odontopediatria
que não enxerguem o uso da técnica como Em relação à aceitação dos pais, foi
uma forma de punição ou agressão pelo visto que, dentre as técnicas de mane-
fato de a criança apresentar um comporta- jo comportamental, as de manejo verbal
mento não cooperativo, reduzindo, então, são as que recebem maior aceitação pelos
a possível existência de queixas clínicas, pais, sendo as de manejo físico mais re-
problemas éticos e legais5. Essa técnica pudiadas, ao ponto de muitos pais afirma-
comumente é aplicada em crianças meno- rem que nunca aceitariam esses tipos de
res em situação de urgência odontológica, técnicas14.
dispensando, assim, o uso da técnica de Dentre as técnicas de manejo verbal
anestesia geral. Não deve ser aplicada em estão a dizer-mostrar-fazer, controle de
crianças cooperativas, quando não hou- voz, reforço positivo, distração, modelo,
ver a possibilidade de aplicação segura comunicação verbal e não verbal. Tais
devido a algum problema físico e/ou sis- técnicas visam atrair a atenção da crian-
têmico ou quando a criança previamente ça, minimizando a ansiedade. Os esclare-
apresentar uma resposta negativa quanto cimentos, através de explicações verbais
ao uso de outras técnicas. Lembre-se que e demonstrações, reduzem o fator “des-
é oportuno avaliar o nível de cooperação conhecido” que acentua as emoções de
da criança antes de escolher qualquer que medo e ansiedade5.
seja a técnica de manejo comportamental. Cada uma dessas técnicas possui seu •• 139 ••
objetivo principal, tendo as palavras
Discussão como instrumento principal na sua aplica-
Baseando-se nas literaturas, é oportu- ção. Na dizer-mostrar-fazer é apresentado
no que a avaliação dos variados compor- algo desconhecido para a criança, os ins-
tamentos infantis perante o atendimento trumentais odontológicos, promovendo a
odontológico anteceda a inserção dos familiarização antes da execução do trata-
métodos de controle comportamental mento. No controle de voz tem-se grande
para que estes não sejam empregados de eficácia para interceptar comportamentos
modo aleatório, pois é necessário identifi- impróprios, sendo utilizados comandos
car o potencial de cooperação e possíveis súbitos e firmes para interromper qualquer
limitações de cada criança, antes de lan- ação negativa que esteja sendo praticada3.
çar mão de alguma das variadas técnicas Por sua vez, a técnica de reforço positivo
de manejo comportamental. tem como foco o uso de elogios para a
É importante ressaltar a importância volta de comportamentos desejados, mas
da participação dos pais no consultório também se faz o uso de “lembrancinhas”
odontológico durante o atendimento na e expressões faciais positivas, assim como
primeira infância, pois nessa fase o afas- da comunicação não verbal, que além de
tamento entre a criança e seus pais pode expressões faciais utiliza a postura e lin-
gerar angústia ou potencializar o medo, o guagem corporal do profissional9.
que impede a cooperação. Entretanto, em A técnica de distração é baseada em
pacientes não colaboradores a presença desviar a atenção do paciente de possíveis
dos pais pode dificultar a capacidade de a procedimentos que possam ser desagra-
criança realizar o que é solicitado; nesses dáveis, podendo ser utilizados músicas e Rev. Odontol.
vídeos. Em estudos mais antigos não se Univ. Cid. São
casos é melhor que os pais se retirem da Paulo
sala de atendimento5. mostrou eficiente, como no estudo de Sta- 2016; 28(2):
Perante um comportamento coopera- rk et al. (1989), mas foi eficaz ao ter sido 135-42,mai-ago
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Silva LFP usada de forma contingente ao comporta- o profissional deverá aplicar a variação
Freire NC da técnica, que seria a mão sobre a boca
mento de colaboração da criança por In-
Santana RS
Miasato JM gersoll (1984), citados por Brandenburg e com restrição das vias aéreas. Embora seja
Haydu (2009)2. aceita pela American Academy of Pedia-
Técnicas
Na técnica “modelo” a criança assiste tric Dentistry (AAPD), a técnica mão-so-
de manejo
comportamental a uma demonstração de um atendimento bre-a-boca mantém-se como a mais con-
não odontológico através de uma fita de ví- troversa dentre as técnicas de limitação
farmacológicas deo, teatrinho, ou assiste ao atendimento usadas por odontopediatras, devendo ser
na utilizada somente com o consentimento
de outra pessoa. Sendo uma técnica com
Odontopediatria
média aceitação dos pais15. dos pais, que devem estar formalmente de
Nas técnicas de manejo físico, conta-se acordo com a possibilidade de sua aplica-
com a contenção física (ativa ou passiva) ção. Entretanto, algumas razões apontam
e com a técnica mão-sobre-a-boca (home para que tal técnica seja aplicada sem a
ou homar). Essas técnicas também fazem necessidade de autorização dos pais, por
parte do grupo não farmacológico, entre- ser considerada de difícil explicação por
tanto são aplicadas de modo a restringir conta de seus efeitos, duração e descri-
movimentos inapropriados da criança ção, podendo causar, desse modo, uma
durante o atendimento odontológico, pre- recusa de natureza meramente emocional
zando instalar, manter e aumentar bons por parte dos pais12. O cirurgião-dentista
resultados no tratamento16. deve ter pleno domínio de manejo para
A técnica de restrição física, seja ela execução da técnica, para que não a uti-
ativa ou passiva, é um método que deve lize de forma a gerar possíveis lesões no
possuir a autorização por escrito de forma paciente infantil. A aplicação da técnica
detalhada dos pais, pois, na ausência des- HOMAR do ponto de vista psicológico,
se consentimento formalizado, problemas legal e comportamental levanta bastante
éticos e legais poderão ser gerados. A téc- questionamento, por assumir um papel
nica consiste em conter fisicamente o pa- com característica punitiva. É significati-
•• 140 •• ciente infantil por meio de mãos, cintos, vo notar por que HOMAR torna-se eficaz
fitas, lençóis entre outros. É indicada para quando HOME não apresenta eficácia: o
crianças imaturas, pacientes especiais paciente apresenta-se desconfortável por
ou para tratamento de urgências destes, conta da restrição das vias aéreas, pro-
dispensando assim a anestesia geral. Na movendo assim o sucesso da técnica16.
maior parte, as crianças sem o uso de con- Quando adequadamente usada, a técnica
tenção física não são cooperadoras e os fará com que a criança aceite o tratamen-
pais acabam aceitando a utilização dessa to odontológico, sendo tratada de forma
técnica, porém ainda é um procedimento a descobrir que as razões para evitar o
com pouca aceitação1. tratamento são ineficazes. Sendo assim,
A técnica de mão-sobre-a-boca é o paciente infantil passará a desejar tra-
utilizada a fim de possibilitar o tratamen- tamentos futuros e o impacto psicológico
to odontológico em crianças ausentes de logo será positivo12.
necessidades especiais, que demonstrem
Conclusão
comportamentos desafiadores, histéricos,
extremamente não cooperativos se im- Do exposto, pode-se concluir que, na
peditivos na realização do tratamento17. odontopediatria, existem variadas téc-
Segundo Levitas, citado por Ferreira et al. nicas à disposição do cirurgião-dentista
(2003)12, nessa técnica deve o cirurgião- para abordar os diversos tipos de compor-
-dentista colocar a mão sobre a boca da tamentos infantis, sendo elas de manejos
criança, cuidando para não restringir-lhe a verbais ou físicos, dentre as quais será uti-
respiração (variação da técnica), dizendo lizada a técnica de eleição que for mais
em baixo tom, próximo ao ouvido, que, apropriada para empregar na fase de de-
Rev. Odontol. para retirar a mão, a criança deve parar senvolvimento do paciente infantil.
Univ. Cid. São de gritar e escutar, pois somente preten-
Paulo
de conversar e olhar seus dentes12. Caso o Agradecimentos
2016; 28(2):
135-42,mai-ago paciente infantil insista em não colaborar, • Agradecemos primeiramente а Deus
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pоr nos tеr dado saúde е força pаrа panheirismo e auxílio na elaboração Silva LFP
superar аs dificuldades. do nosso trabalho de conclusão de Freire NC
Santana RS
• Aos nossos amigos e familiares por curso. Miasato JM
todo o amor, incentivo e apoio nos • Em especial ao Prof. Dr. José Massao
Técnicas
momentos mais difíceis. Miasato pela oportunidade е apoio na de manejo
• À Karinny Gonçalves por todo o com- elaboração deste trabalho. comportamental
não
farmacológicas
na
Odontopediatria

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