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CRIMIN OLO GIA

Rumo à militarização da
marginalização urbana
L O ÏC WA C Q U A N T*

O projeto penal do neoliberalismo en- nante do mercado todo-poderoso irradiada


cerra um paradoxo: pretende incrementar dos Estados U nidos, reduzem ou abando-
“mais Estado” nas áreas policial, de tribu- nam as prerrogativas do Estado nos assun-
nais criminais e de prisões para solucionar tos socioeconômicos que elas devem, de
o aumento generalizado da insegurança todas as formas, aumentar e reforçar sua
objetiva e subjetiva que é, ela mesma, cau- missão nos assuntos de “segurança” – após
sada por “menos Estado” no front econô- terem-na reduzido abruptamente à sua úni-
mico e social nos países avançados do Pri- ca dimensão criminal – e, além disso, fa-
meiro Mundo. Isto reafirma a onipotência zer a assepsia do crime da classe baixa nas
do Leviatã no domínio restrito da manu- ruas em vez de enquadrar as infrações da
tenção da ordem pública, simbolizado pela classe alta nas grandes corporações. Isso
batalha em curso contra a delinqüência de porque expandir o Estado penal lhes per-
rua e a migração clandestina que surgiu mite, em primeiro lugar, abafar e conter as
em todos os lados, precisamente quando o desordens urbanas geradas nas camadas
Estado declara e demonstra ser incapaz de inferiores da estrutura social pela simultâ-
impedir a decomposição do trabalho assa- nea desregulamentação do mercado de tra-
lariado e de conter a hipermobilidade do balho e decomposição da rede de seguran-
capital que converge para desestabilizar ça social. Também permite que os eleitos
todo o sistema social ao esmagá-lo em um para cargos majoritários contenham seu
brutal e tentacular movimento de ataque. déficit de legitimidade política com a con-
E, como já mostrei em outros lugares, isso firmação da autoridade estatal nessa limi-
não é uma mera coincidência: é precisa- tada área de ação, em um momento no
mente devido ao fato de que as elites esta- qual têm pouco mais a oferecer a seus elei-
tais, convertidas à nova ideologia domi- tores1 . Mais significativamente ainda, o pro-

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jeto penal do neoliberalismo é muito mais cularmente eficientes – de fato, sabemos
sedutor e muito mais nefasto quando se agora que elas mostraram ser notavelmen-
infiltra nos países atravessados por profun- te ineficientes, até mesmo contraproducen-
das desigualdades de condições sociais e tes em alguns aspectos, no próprio ambi-
de oportunidades de vida, privados das tra- ente no qual se originaram 2 ; mas elas são
dições democráticas e desprovidos das ins- idealmente adequadas para encenar publi-
tituições públicas capazes de amortecer os camente seu compromisso, recentemente
choques provocados pelas concomitantes descoberto, de exterminar o monstro do
transformações do trabalho, dos laços so- crime urbano e por rapidamente se alia-
ciais e dos sujeitos no limiar do novo sé- rem aos estereótipos negativos dos pobres,
culo. alimentados pela sobreposição dos precon-
ceitos de classe e etnicidade. Mas, além
Isto significa dizer que a alternativa entre de seus benefícios simbólicos, o desdobra-
o tratamento social da pobreza , suas cau- mento da retórica penal “ made in U S A ” e
sas e correlações, apoiado em uma visão a implementação das políticas pró-ativas
duradoura guiada pelos valores da justiça de apenamento da marginalidade urbana
civil e solidariedade, e o tratamento pe- derivada dessa retórica, prometem ter conse-
nal , dirigido às frações mais disruptivas do qüências mais amplas sobre o tecido social,
(sub)proletariado e focado no curto prazo assim como nas relações Estado-sociedade
dos ciclos eleitorais e nos pânicos morais e no formato do Estado pós-keynesiano que
orquestrados por uma máquina de mídia emergiu da revolução neoliberal. Isto é par-
comercial ansiosa por tirar proveito da ticularmente verdadeiro no Brasil, que figu-
dramaturgia moral do crime, diante da qual ra entre os mais entusiastas defensores das
a Europa se encontra na trilha dos Estados plataformas anti-crime copiadas da N ova
U nidos, se coloca em termos particular- Iorque de Giuliani e que provê, nesse senti-
mente dramáticos na América do Sul, em do, um laboratório vivo para antecipar o
países recém-industrializados e que sofre- impacto desastroso da “tolerância zero” nos
ram décadas de regimes autoritários, como países do Segundo Mundo.
o Brasil e seus principais vizinhos, Argen-
tina, Colômbia e Venezuela, os quais se Desigualdade vertiginosa
situam entre os principais importadores do e a cor da violência
estilo estadunidense de discurso e de polí-
ticas penais. D e Brasília a C aracas ou Em primeiro lugar, por motivos relaci-
Buenos Aires, os agentes públicos têm se onados à sua longa história colonial e à
apressado em adotar medidas que imitam sua posição subordinada na estrutura das
aquelas apresentadas pelo (ou amplamen- relações econômicas internacionais (uma
te atribuídas ao) então prefeito Rudolph estrutura de dominação encoberta pela ca-
G iuliani na cidade de N ova Iorque; e os tegoria hipocritamente ecumênica da “glo-
políticos têm feito de tudo para serem fo- balização”), e apesar do enriquecimento
tografados ao lado da encarnação viva do coletivo trazido pelas décadas de industri-
rigor penal, W illiam Bratton, profeta con- alização, a sociedade brasileira permanece
temporâneo da poderosa religião da “tole- caracterizada por uma desigualdade social
rância zero” e “consultor em policiamento vertiginosa e pela pobreza disseminada.
urbano” pago a peso de ouro por suas con-
ferências ao redor do mundo, após ter sido Após a “década perdida” dos oitenta,
demitido da chefia do D epartamento de marcada pela estagnação econômica e por
Polícia da cidade de N ova Iorque, em uma constante deterioração dos principais
1994. N ão que essas políticas sejam parti- indicadores sociais, o Brasil implementou

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uma série de reformas econômicas e soci- Sul e Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro),
ais que reduziram drasticamente o papel enquanto os roubos à mão armada em ôni-
do Estado e abriram a economia ao capital bus, assaltos em zonas comerciais e seqües-
e comércio além-mar3 . Juntos, a desigual- tros de residentes abastados se tornaram
dade social abissal, os serviços públicos mais comuns. As ruas de classe média e as
deficientes ou inexistentes e o extremo residências de classe alta se tornaram ver-
desemprego e subemprego no contexto de dadeiras fortalezas protegidas por portões
uma economia urbana polarizante e de um de ferro, interfones, cães de ataque, guar-
sistema de justiça corrupto alimentaram o das armados dentro de guaritas ou por ba-
inexorável crescimento da violência crimi- tidas policiais depois do anoitecer, enquan-
nal que tem sido a calamidade das grandes to as “comunidades cercadas”, isoladas da
cidades do Brasil e da maioria dos países cidade por muros altos e tecnologias avan-
da América Latina. Assim, estima-se que çadas de vigilância, se espalharam e trans-
cerca de 140.000 pessoas morram por cau- formaram-se em um ingrediente desejado do
sas violentas todos os anos nos centros ur- status de elite6 . Uma enorme indústria de
banos do continente, onde um em cada segurança privada cresceu para prover prote-
três habitantes é vítima direta ou indireta ção personalizada a edifícios residenciais,
de agressão interpessoal 4 . empresas e clubes sociais, assim como para
indivíduos ricos e suas famílias.
D esde 1989, o crime letal tem sido a
principal causa de mortalidade no Brasil, Como resultado da onipresença da vio-
com o homicídio recebendo o título de lência nas ruas e escolas, nas festas popu-
“grande vilão da saúde pública” nos anos lares de final de semana e nos jogos de
oitenta, durante os quais o índice nacional futebol, assim como na televisão, dois ter-
duplicou para chegar a 20 em cada 100.000 ços dos adolescentes justificam o seu com-
habitantes – duas vezes mais que o pico portamento agressivo como meio de auto-
dos Estados U nidos no início dos 1990 e defesa, e quatro em cada dez apelariam à
cerca de quinze vezes o nível das socieda- violência para proteger um amigo ou res-
des da Europa O cidental 5 . A incidência de ponder a uma afronta à sua dignidade. Ao
homicídios no Rio de Janeiro, São Paulo e mesmo tempo, praticamente todos concor-
Recife atualmente excede os 60 em cada dam em que a violência deve ser combati-
100.000 habitantes, um índice próximo ao da. N o entanto, na ausência de uma rede
das metrópoles mais violentas das Améri- social de segurança que seja viável, a ju-
cas nos últimos anos (Nova Orleans, Detroit ventude dos bairros populares, esmagados
e Washington ao norte, e Caracas, Lima e pelo peso do desemprego e subemprego
Medellín, no sul, ostentam índices acima crônicos, certamente continuará a procu-
de 80 no início dos anos noventa), e muito rar o “capitalismo de rapina” das ruas (como
mais alto do que qualquer área urbana bra- Max Weber diria) como meio de sobrevi-
sileira tenha experimentado anteriormente. vência, para obter bens de consumo dese-
jados e para alcançar os valores do etos
O temor e a insegurança físicos se dis- masculino da honra, se não para escapar
seminaram por todas as metrópoles enquan- da privação cotidiana.
to as batalhas entre gangues e o fogo cru-
zado entre a polícia e os bandidos forte- O aumento espetacular da repressão
mente armados se espalharam para os dis- policial nos últimos anos, simbolizada pela
tritos adjacentes, devido à proximidade ocupação militar nas favelas do Rio como
espacial entre ricos e pobres nas cidades forma de prevenir incidentes durante a
brasileiras (como nas áreas altas da Zona Conferência das N ações U nidas para o

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Meio Ambiente e o D esenvolvimento 7 , em sável por investigações judiciais, à tortura
maio de 1992, ou novamente em março através da pimentinha (choques elétricos) e
de 2003, quando o Exército foi chamado do pau-de-arara 11 para fazer os suspeitos
para patrulhar as principais avenidas da “confessarem”, ao seqüestro e à extorsão de
cidade com tanques para proteger as festas suborno dos acusados, suas testemunhas e
do carnaval contra ataques de gangues do parentes, assim como execução sumária e
tráfico, tem sido ineficaz porque a repres- “desaparecimentos” inexplicáveis, mantém
são não tem influência sobre as causas dessa um clima de terror entre as classes baixas,
criminalidade que visa, através da predação, que são seu alvo principal, e banaliza a bru-
criar uma economia à margem da econo- talidade no coração do Estado. Uma estatís-
mia oficial, assim como prevenir a agres- tica: em 1992, a Polícia Militar de São Pau-
são pelo desenvolvimento de uma dissuasão lo matou 1.470 civis – contra 24 mortos
violenta 8 . E, também, porque a polícia não pela polícia da cidade de Nova Iorque e 25
é nem um remédio, nem uma agência ex- pela de Los Angeles –, representando um
terior ao vórtice maligno do conflito vio- quarto das vítimas de morte violenta na
lento, das drogas e da vingança privada que metrópole aquele ano. Esse é, de longe, o
corrói o tecido das regiões da classe mais recorde absoluto nas Américas12 . Essa vio-
baixa e alimenta sua punição no discur- lência policial partilha uma tradição nacio-
so público, mas um elemento essencial nal secular de controle dos despossuídos atra-
daquilo que seus habitantes melancoli- vés da força, produzida pela escravidão co-
camente chamam “condomínio do dia- lonial e pelos conflitos agrários e reforçada
bo ” 9 . Eles mesmos estão profundamen- pelo regime autoritário de G etúlio Vargas
te envolvidos no tráfico de drogas, ven- (1937-1945) e por duas décadas de ditadura
da de armas, seqüestros, extorsões, e or- militar (1964-1985) apoiada pelos Estados
denam atividades ilegais das quais ex- Unidos, durante a qual a luta contra a “sub-
traem subornos em troca de tolerância versão interna” se disfarçou como repressão
ou proteção. A polícia é tão temida e da delinqüência. Essa violência também é
despre z ada pelos habitantes das z onas respaldada por uma concepção hierárquica
pobres como os bandidos que ela deve- e paternalista de cidadania baseada na opo-
ria combater. U ma pesquisa de 1996 re- sição cultural entre “feras e doutores”, os
vela que quatro em cada dez brasileiros “selvagens” e os “cultivados”, a qual tende
não têm “confiança alguma na polícia” , a assimilar marginais (“de vida social bai-
e outros três apenas “alguma confiança” . xa”), trabalhadores e criminosos, de tal for-
O s moradores do Rio vêem a delegacia ma que a aplicação da ordem de classe e a
policial como um lugar perigoso no qual aplicação da ordem pública estão efetiva-
seus direitos, honra e integridade física mente misturadas13 .
serão mais provavelmente violados do
que defendidos. Conseqüentemente, ape- O utro fator que complica ainda mais o
nas uma em cada cinco vítimas cariocas assunto: a estreita conexão entre hierarquia
de roubo ousa registrar queixa 10 . de classe e estratificação racial e a discrimi-
nação de cor endêmica à polícia e às buro-
De fato, a insegurança criminal no Bra- cracias judiciais brasileiras. Apesar de o
sil urbano é diferente no sentido de que não Brasil ter desenvolvido um sistema flexí-
é atenuada mas sim agravada pela interven- vel de relações etno-raciais baseado no
ção das forças defensoras da lei. O uso roti- fenótipo, admitindo uma multiplicidade
neiro da violência letal pela Polícia Militar, de categorias ambíguas e permitindo uma
sob a alegação de manutenção da ordem, e mobilidade intra e intergeracional ao lon-
o recurso habitual da Polícia Civil, respon- go de um continuum de tons de pele –

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muito diferente do rígido padrão dicotô- ções e o arquivamento de acusações, à con-
mico dos Estados U nidos, baseado na denação, sentença e administração da pu-
ancestralidade –, que se traduziram na au- nição. Isso é prontamente reconhecido pe-
sência de segregação rígida e de guetização, los habitantes das grandes cidades, três
existe uma associação de longa data entre quartos dos quais concordam com a opi-
negritude e periculosidade que remete às nião de que os negros e mulatos são “mais
lutas contra a escravidão e ao medo disse- visados que os brancos” pela polícia.
minado dos libertos logo depois da liber-
tação14 . Pessoas com aparência africana têm Está documentado que, em São Paulo e
sido historicamente percebidas como físi- em outras grandes cidades, os detentos de
ca e culturalmente inclinadas à ilegalida- pele escura se “beneficiam” da vigilância
de, depravação e imoralidade, e os negros especial por parte da polícia, que eles têm
têm sido amplamente considerados como mais dificuldade em ter acesso à ajuda le-
principais responsáveis pela desordem nas gal e que, pelos mesmos crimes, recebem
cidades, tornando-os os alvos prioritários sentenças mais pesadas que seus compa-
da repressão penal. Tanto que “o incipiente triotas brancos 18 . O resultado é que, de
papel da polícia como agente disciplinador forma muito semelhante a seus homólogos
direcionado contra os escravos deixou um dos Estados U nidos, os estabelecimentos
legado persistente nas técnicas policiais e brasileiros de detenção são ocupados predo-
nas atitudes mutuamente hostis entre polí- minantemente por negros e mulatos: em me-
cia e aqueles setores da sociedade que senti- ados dos anos oitenta, sete em cada dez in-
ram o peso de suas ações” durante décadas ternos nas cadeias e prisões do Rio de Janei-
após a abolição15 . No início do século XX, ro eram negros ou pardos, aproximada-
Raimundo N ina Rodrigues, professor de mente o dobro da proporção dessas duas
medicina legal na Universidade da Bahia, categorias afro-brasileiras na população
elaborou uma influente tipologia racial que da cidade. Similarmente, os afro-brasi-
diferenciava brancos, mulatos e negros e im- leiros formavam 52% dos encarcerados
putava aos últimos tal tendência natural para em São Paulo, mais de duas vez es seu
a ofensa criminal que justificaria o estabele- peso na demografia da metrópole (22%)
cimento de diferentes padrões de responsa- naquela época 19 . E, uma vez postos atrás
bilidade penal e, dessa forma, códigos le- das grades, os condenados de pele escu-
gais separados para cada grupo16 . Depois, ra estão sujeitos às condições mais du-
nos anos entre-guerras, os criminólogos bra- ras da detenção e sofrem as mais sérias
sileiros se uniram no compenetrado debate violências carcerárias, apenas pelo fato
nacional sobre a mistura de raças, discutin- de serem oriundos das frações mais des-
do se a miscigenação era responsável pelo tituídas e vulneráveis da classe trabalha-
alto índice de “delinqüência social” entre dora. A penar a pobrez a contribui para
as massas, com a famosa declaração de la- tornar “invisível” a questão da cor e re-
mento do professor do Recife Laurindo Leão: força a dominação etno-racial ao assegu-
“ Uma nação mestiça é uma nação invadida rar-lhe a homologação do Estado20 .
por criminosos” 17 .
Além disso, junto com a desigualdade
Atualmente, a percepção negativa em e marginalidade urbanas profundamente
relação às pessoas de pele escura contami- arraigadas, a violência urbana no Brasil
na e incide no funcionamento da totalida- encontra um segundo apoio importante na
de das instituições encarregadas de lidar cultura política, que permanece marcada
com o crime, desde a vigilância e apreen- pela experiência de uma virulenta repres-
são policial até a condução de investiga- são do Estado sobre as batalhas agrárias e

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as lutas da classe operária, assim como lamentação neoliberal: o pavoroso Estado
pelas cicatrizes do domínio militar21 . Sob dos cárceres, prisões e cadeias do país, que
tais condições, oferecer o Estado penal para mais parecem campos de concentração
responder às desordens geradas pela des- para os despossuídos ou empreendimen-
regulamentação da economia, pela des- tos públicos para a reciclagem industrial
socialização do trabalho assalariado e pelo dos restos sociais e estão bem longe da
relativo e absoluto empobrecimento de imagem de instituições judiciais voltadas
seções do proletariado urbano através do a alguma proposta penal identificável – seja
aumento dos meios, alcance e intensida- a dissuasão, a neutralização ou a retribui-
de da intervenção do aparelho policial e ção, deixando de lado a reabilitação. O
judicial contribui para (re)estabelecer uma sistema penitenciário do Brasil efetivamen-
verdadeira ditadura sobre os pobres . Mas, te ostenta os defeitos das piores cadeias do
considerando a legitimidade dessa admi- Terceiro Mundo, numa escala digna do Pri-
nistração autoritária da ordem social e essa meiro Mundo, devido a seu tamanho ab-
política de “limpeza da rua” através do soluto, a seu enraizamento urbano e à per-
uso sistemático da força do Estado sobre a sistente indiferença dos políticos e do pú-
base da estrutura étnica e de classe, quem blico, que entretanto demonstra reiteradas
pode definir o perímetro para tais ações? E vezes ser favorável aos crescentes excessos
como podemos ignorar que, na ausência no campo correcional.
das garantias jurídicas mínimas que ape-
nas uma burocracia racional (adequada, Pelos padrões ocidentais contemporâ-
grosso modo , ao esquema w eberiano) neos, os estabelecimentos carcerários do
investida da administração da justiça pode Brasil padecem de doenças que lembram
oferecer, o recurso a técnicas punitivas de os calabouços feudais. Seus prédios são ti-
lei-e-ordem e a políticas “ made in U S A ” é picamente decrépitos e insalubres, com
fundamentalmente antiético para o esta- concreto desmoronando por toda parte,
belecimento de uma sociedade pacífica e pintura descascando, encanamento defici-
democrática, cujas bases devem ser a igual- ente e instalações elétricas defeituosas, com
dade de todos diante da lei e de suas agên- água de esgoto correndo pelo chão ou ca-
cias de aplicação? O atual funcionamento indo pelas paredes – o fedor dos dejetos
da polícia e dos tribunais brasileiros é tão era tão forte na cadeia “modelo” de Lemos
ineficiente, deficiente e caótico, do ponto de Brito (Rio de Janeiro) na primavera de
de vista estritamente jurídico, que preci- 2001 que um dos bens mais apreciados
sariam ser reorganizados de cima a baixo pelos presos era o desinfetante perfumado
para poderem fazer emergir as mínimas que borrifavam em suas celas na tentativa
normas estipuladas pelas convenções in- de combater a sufocante pestilência. A ex-
ternacionais, ao menos para assegurar os trema ruína física e a grotesca superlotação
níveis básicos de uniformidade e justiça criam condições de vida abomináveis e uma
através das linhas de cor e de classe 22 . situação catastrófica em termos de higie-
ne, diante da total falta de espaço, ar, luz,
Calamidade carcerária água e muitas vezes comida. Em 1987, as
e o impasse punitivo autoridades penais do país estimaram que
enfrentavam um déficit de aproximadamen-
U ma última consideração confronta te 50.000 leitos; em 2003, a diferença en-
fortemente a crescente confiança no apare- tre a capacidade e o número de internos
lho carcerário para controlar as seqüelas t i n h a a u m e n t a d o p ara 1 0 4 . 0 0 0 , n ã o
da marginalidade e da desordem urbana obstante o fato de aproximadamente me-
exacerbadas no Brasil logo após a desregu- tade dos condenados estarem foragidos: o

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Ministério da Justiça estima que os casos problemas de pele piorados pelas condi-
de “mandados não cumpridos”, sentenças ções insalubres da detenção 25 . Apesar das
não executadas porque o réu não é locali- deploráveis condições de saúde dos inter-
zado ou fugiu, excede a população atrás nos, poucos estabelecimentos contam com
das grades! Apesar da permanente constru- os serviços de um médico em horário inte-
ção de presídios, acelerada após uma onda gral; em quase todos, as enfermarias fun-
de tumultos em 1997, não é raro que os cionam com enfermeiros e presos volun-
estabelecimentos penais brasileiros funci- tários; os únicos medicamentos que os
onem com uma lotação de quatro a seis presidiários recebem vêm de suas famí-
vezes maior do que sua capacidade. N os lias (exceto no estado do Rio de Janeiro,
cárceres da polícia urbana, os detentos, que que recentemente melhorou seu apoio
em sua maioria não foram acusados nem farmacêutico para os condenados), que
julgados, ficam amontoados durante me- também fornecem as roupas e acessóri-
ses e até anos a fio, numa situação de com- os de cama e de banho. O s presos grave-
pleta ilegalidade, em número de até oito mente doentes raramente são transferi-
em uma cela projetada para apenas um . dos para tratamento externo e freqüente-
N a Casa de D etenção, no complexo de mente morrem dentro das instalações
Carandiru, em São Paulo, os internos com- prisionais, que não são equipadas para
primidos dos blocos disciplinares recebe- (nem têm intenção de) tratá-los. Como
ram o apelido de “amarelos” 23 . N a maior explica um detento que sofria de A ids e
parte dos casos, os presos brasileiros dor- não estava recebendo medicação em um
mem amontoados uns contra os outros no cárcere de São Paulo: “ Q uando nós pe-
ch ão , so bre um co b ertor o u um fi n o dimos à polícia para nos levar ao Pronto
colchonete de espuma fornecido pela fa- Socorro, eles di z em que os ladrões me-
mília ou comprado de outros presidiári- recem morrer” 26 . Essa é uma violação fla-
os, mas muitos são forçados a descansar grante da política correcional oficial, mas
pendurados nas grades das celas ou dei- o recurso a advogados está fora das pos-
tados em redes devido ao espaço insufi- sibi l idades da maiori a dos presos, os
ciente no chão. A superlotação é exacer- defensores públicos estão distantes e são
bada pela incompetência burocrática , poucos, e os monitores dos direitos hu-
que faz com que milhares de presos a manos estão sobrecarregados e sem con-
cada ano permaneçam sob custódia de- dições de providenciar uma solução.
pois do término de sua sentença, sendo
essa cruel humilhação o motivo princi- N o entanto, a deficiente assistência
pal para os tumultos furiosos que perio- médica e os inqualificáveis serviços legais
dicamente agitam o sistema carcerário ficam em segundo plano diante da violên-
brasileiro 24 . cia generalizada entre os presidiários, seja
por maus-tratos, extorsão, surras, estupros
A seguir, vem a negação maciça de aces- e homicídios incentivados pela absurda
so à assistência legal e aos cuidados bási- superlotação, pela falta de separação em
cos de saúde, resultando na disseminação diferentes categorias de presos, pela ocio-
acelerada de tuberculose, Aids e outras sidade forçada (apesar de o Código Penal
doenças contagiosas entre a classe traba- estipular que todos os prisioneiros devem
lhadora urbana. Estudos revelam que mais participar de programas de educação ou de
de um quinto da população carcerária do trabalho) e pelas falhas da supervisão do
Brasil é HIV positiva, e um percentual não estabelecimento. A brutalidade letal é uma
revelado sofre de infecções respiratórias característica banal nas casas de detenção
sérias, doenças causadas por bactérias e brasileiras; ciclos de abuso, agressão e vin-

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gança marcam o tempo da vida cotidiana empregos, programas de educação, visitas,
atrás das grades na maioria das instalações27 . drogas e outros bens que entram nessa eco-
Em 1994, o censo nacional das prisões re- nomia paralela. Em muitas prisões de São
portou 131 mortes entre presidiários e 45 Paulo, a relativa segurança das celas fechadas
suicídios, mas sabe-se que os incidentes deve ser comprada ou alugada com o “xerife”
letais são significativamente sub-relatados. local por algumas centenas de dólares, dei-
N a Casa de D etenção de São Paulo, uma xando os internos pobres e fracos dormindo
média de dez presos por ano foi assassina- nos corredores, onde ficam expostos à vio-
da a facadas no final dos anos noventa e a lência. Nos cárceres do Rio de Janeiro, as
maioria dos esfaqueamentos ocorreu nas gangues ou facções que dominam a econo-
segundas-feiras, “dia de coleta”, quando mia criminal implantada nas favelas da cida-
as dívidas contraídas devem ser pagas após de também impuseram sua regra atrás das
a visita das famílias nos domingos. O utros grades: durante uma visita a uma unidade de
foram enforcados, sufocados, surrados até segurança média do vergonhoso complexo
a morte, envenenados ou injetados com penitenciário de Bangu, em outubro de 2001,
doses maciças de drogas para disfarçar os todas as minhas propostas e pedidos (falar
homicídios como suicídios28 . O s assassi- com os presos, tirar fotos, percorrer uma de-
natos e as ameaças de morte entre os presi- terminada ala do edifício ou entrar em uma
diários ocorrem diante da indiferença, cela) tiveram de ser autorizados não apenas
quando não da aquiescência, das autorida- pelo guarda carcerário mas também pelo lí-
des prisionais – em alguns casos, os inter- der interno do Comando Vermelho, que nos
nos são recompensados com favores pelos acompanhou por todo lado.
guardas, que os usam como um instrumento
a mais para a manutenção da ordem. Porém, o pior da vida sob encarceramen-
to no Brasil ainda é a excessiva violência das
A violência assassina entre os prisionei- autoridades, desde a brutalidade cotidiana até
ros é estimulada por uma grande falta de pro- a tortura institucionalizada, execuções sumá-
fissionais nas instalações e pelo treinamento rias e mortes em massa durante e após as
e pagamento insuficiente dos guardas, os quais rebeliões que periodicamente irrompem como
podem ser facilmente subornados para dei- reação às condições desumanas de detenção,
xar entrar não apenas comida, celulares e vi- cujo ponto máximo continua a ser o massa-
sitantes, mas também drogas e armas. Em cre no Carandiru, em 1992, durante o qual a
2001, a Casa de Detenção de São Paulo con- Polícia Militar assassinou 111 prisioneiros em
tava com apenas uma dúzia de guardas para uma orgia de selvageria estatal. Em algumas
vigiar cerca de 1.700 internos – havia inclu- penitenciárias, os condenados, ao chegarem,
sive menos agentes no serviço nas segundas- recebem surras como ritual de “boas-vindas”,
feiras, quando o absenteísmo se aguçava –, e para ensinar os padrões locais de disciplina,
a situação é pior hoje em dia nos cárceres e o saqueio das celas e roubo de pertences
das grandes cidades, onde é comum que um pessoais são parte da ronda comum da vida
único guarda vigie cerca de duzentos detentos. carcerária. Tentativas de fuga e tomada de re-
Na maioria das instalações, os funcionários féns são reprimidas com especial crueldade,
permanecem longe das galerias dos internos, com os guardas infligindo danos corporais
por medo de serem agredidos. Isso cria um indiscriminados que frequentemente chocam
vácuo de poder, que os grupos criminosos e até os mais experientes especialistas em au-
os líderes mais cruéis rapidamente preen- tópsia29 . Como ocorre com outras formas de
chem. As gangues e os prisioneiros violen- violência vindas de cima, o abuso da força
tos, chamados de “xerifes”, exercem, então, carcerária costuma encontrar-se com a indi-
o controle de fato sobre o acesso a comida, ferença das autoridades, incluindo o juiz da

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Vara de Execução Penal, especialista encarre- Estado penal brasileiro. E isso certamente
gado de fiscalizar o cumprimento das sen- irá agravar os males dos quais o Brasil já
tenças; assim, esses excessos ocorrem com sofre em sua dura jornada rumo ao estabele-
quase total impunidade, mesmo em casos cimento de uma democracia que seja mais
que atraiam grande cobertura da mídia, pres- que uma mera fachada, a saber, “a deslegiti-
são constante de grupos dos direitos huma- mação de várias instituições da lei e justiça,
nos e atenção internacional. “Apenas mortes a escalada tanto da criminalidade violenta
de presidiários – cujos corpos são difíceis de como do abuso policial, a criminalização
ignorar – parecem merecer investigação e pro- dos pobres, um crescimento significativo no
cesso e, mesmo assim, a condenação e o sub- apoio às medidas ilegais de controle, a alas-
seqüente encarceramento dos culpados são trada obstrução do princípio de legalidade e
extremamente raros”, arrastando-se os casos a distribuição desigual e irregular dos direi-
durante anos pelas cortes militares, sem qual- tos dos cidadãos” 33 .
quer solução, isto quando chegam a receber
algum tipo de julgamento 30 . A ferocidade Em uma época anterior de desarticula-
carcerária é publicamente tolerada, se não ção social na história da América do Sul,
aprovada, devido à noção generalizada de que durante a qual a penitenciária era apresen-
os condenados não merecem atenção ou pro- tada como uma solução eficiente para os
teção, pois, como marginais, seus direitos crescentes crimes e desordens urbanas, “a
foram revogados há muito tempo em virtude elite, fascinada pelas inovações européias e
de sua origem social, da cor de sua pele e do norte-americanas, adotou esses projetos sem
seu desprezível status cultural. Isto é pronta- considerar sua exequibilidade”, e a impor-
mente admitido pelos próprios operadores do tação dos discursos e das políticas penais
sistema penal, como deixa claro o chefe do dos países mais avançados que simboliza-
terceiro distrito policial de São Paulo ao alertar vam a “civilização” revelou mais sobre as
os pesquisadores do Human Rights Watch so- obsessões e os delírios da classe dominante
bre o que os aguardava, com essas precisas da América Latina do que sobre o estado de
palavras: “Vocês vejam, é como um recipien- sua sociedade34 . Isso continua sendo verda-
te de lixo: os prisioneiros aqui foram jogados deiro hoje. Ao colocar sob a luz teórica e
fora como lixo. As condições são subumanas. sob uma perspectiva internacional as cau-
Vamos lá, escrevam isso: subumanas”31 . sas e funções da difusão do estilo penal
neoliberal inventado nos Estados U nidos
Dessa forma, em seu atual estado de cri- para assegurar o novo regime do emprego
se e calamidade crônicas, o aparelho desregulamentado e para legitimar as divi-
carcerário brasileiro serve apenas para con- sões etno-raciais herdadas, esta análise pre-
centrar violência e para alimentar a crimina- tende contribuir para amplificar os discur-
lidade com sua evidente desconsideração sos sediciosos sobre crime, lei e sociedade
pela lei, violação maciça dos direitos fun- no Brasil urbano e em seus vizinhos35 que
damentais e a intensa cultura de desconfi- se empenham, à contra-corrente da frenéti-
ança com relação ao Estado. A adoção de ca exploração da mídia e das fantasias polí-
medidas, ao estilo dos Estados Unidos, de ticas de uma coação rígida da lei-e-ordem,
limpeza das ruas e de encarceramento em agora compartilhada ao redor do mundo
massa dos marginais, dos inúteis e dos que pelos governos de direita e esquerda, para
resistem às regras do mercado desregulamen- reconectar a questão penal e a questão soci-
tado lançaria uma verdadeira “lei penal de al, a insegurança física da qual a violência
terror32 ” sobre os destituídos de capital eco- de rua é o vetor e a insegurança social gera-
nômico e cultural necessário para se prote- da em todo lado pela dessocialização do
gerem a si mesmos da total ilegalidade do trabalho assalariado, pela redução da prote-

211
ção social e pela grande transformação das midam seus ocupantes, disparam indiscrimi-
relações humanas em mercadoria. nadamente, fecham lojas e escolas e reali-
zam prisões em massa por “vadiagem” (apre-
Rumo à militarização ensão dos favelados que não portam docu-
das clivagens urbanas mento de identidade consigo), gerando uma
tensão ilimitada com sua seqüência de tor-
Uma série de semelhanças estruturais e
mentos, indistinguíveis, em suas táticas e
de espirais políticas paralelas emerge nas
efeitos, de uma incursão militar em um ter-
tramas da pobreza aguda, da violência co-
ritório ocupado 36 . D e forma análoga, nas
tidiana e da detenção punitiva nas metró-
degradadas zonas centrais ( inner cities)37
poles dos Estados U nidos e do Brasil, ape-
norte-americanas, as agências federais, esta-
sar das gritantes diferenças econômicas,
tais e municipais de imposição da lei con-
burocráticas e tecnológicas entre ambos.
duzem emboscadas, arrastões e ataques
As semelhanças merecem ser destacadas
centrados nos conjuntos de moradia públi-
porque sugerem que o modelo analítico
ca e nas esquinas das ruas que envolvem
inicialmente elaborado para explicar o
seus arredores segregados; essas ações roti-
hiper-encarceramento de afro-americanos,
neiramente restringem a livre circulação e
e estendido para iluminar a presença des-
convívio, invadem a esfera privada e atrope-
proporcional de migrantes pós-coloniais
lam o espaço familiar sem escrúpulos; su-
nas prisões da U nião Européia, pode ser
jeitam os transeuntes a investidas humilhan-
mais refinado para nos ajudar a apreender
tes de “procura e revista” e a prisões abusivas;
as diversas formas assumidas pela crimi-
e limitam as salvaguardas legais de tal for-
nalização da marginalidade urbana e suas
ma que invalidam os direitos constitucio-
conseqüências no âmbito das sociedades
nais básicos e efetivamente tratam os mora-
do Segundo Mundo e das pós-soviéticas,
dores como se fossem estranhos.
colhidas pela revolução global neoliberal
antes que pudessem usufruir dos benefíci- As táticas de saturação, a vigilância de
os da era fordista. todos os lados e a coerção exercida pelo Es-
tado sobre os remanescentes do gueto e das
Primeiro, os estigmatizados bairros de
favelas de forma a “restaurar a ordem” para
abandono em ambos os países se tornaram
– segundo as autoridades – o posterior be-
alvos principais da ação virulenta da polícia
nefício de seus moradores seriam considera-
e lugares centrais para inovações e exibições
das intoleráveis, se não evidentemente dita-
da agressiva imposição da lei através da qual
toriais, se aplicadas em bairros de classe
o Estado reafirma, ritualisticamente, sua ca-
média ou alta. (Seria inimaginável, no Upper
pacidade de ação. Como resultado, em
East Side de Manhattan, ou no Tribeca, a
ambas as sociedades a solução penal ganhou
cena de uma pessoa desarmada, parada no
nesses bairros uma intensidade e destruti-
salão de um edifício luxuoso, assassinada
vidade bélicas sem precedentes, algo hoje
pela polícia com 41 tiros; ocorreu a Amadou
inimaginável em qualquer outro distrito ur-
D iallo em seu prédio decrépito no South
bano, especialmente depois que, em geral, Bronx em 1999, e o tribunal julgou lícito o
o trabalho da polícia se tornou mais disci- homicídio, totalmente de acordo com as re-
plinado e decoroso. Nas cidades brasileiras, gras da corporação). No entanto, apesar de
a Polícia Militar entra rotineiramente nas seu caráter totalmente discriminatório e ar-
favelas com blitz, durante as quais helicóp- bitrário, tais táticas encontraram defensores
teros de vôo rasante arrancam os precários expressivos ao longo do espectro político,
telhados das casas e as tropas jogam abaixo inclusive entre os políticos de esquerda, e
portas e janelas, saqueiam moradias e inti- receberam o apoio enfático de especialistas

212
de direito que se apresentam como “pro- vidam à crescente intrusão e brutalidade
gressistas” 38 . do Estado, e isso aterroriza os moradores
locais; no entanto, ao mesmo tempo, for-
Uma segunda semelhança reside no fato nece-lhes um lastro indispensável para seu
de que a mudança da indústria fordista para sustento material. Muitas famílias pobres
os serviços empresariais como o principal que vivem no coração do South Side de
motor econômico das metrópoles estilha- Chicago ou em Vigário G eral, Rocinha,
çou as bases materiais tanto do gueto ne- Jacarezinho ou Mangueira, no Rio de Ja-
gro americano como da favela brasileira e, neiro, estariam ainda mais necessitadas e
no processo, esfacelou suas estruturas so- desalentadas se não fosse pelo trabalho re-
ciais e forçou uma drástica reorganização gular e o fluxo de renda confiável do tráfi-
das estratégias de vida. A contração e des- co de drogas, da venda de bens roubados,
regulamentação do mercado de trabalho se do jogo e de atividades ilícitas semelhan-
combinou com uma retração social e com tes. D iante das carências decorrentes das
a retirada de investimentos urbanos por mudanças no mercado de trabalho e no
parte do Estado, afundando esses bairros assistencialismo, a participação no comér-
em um vórtice de insegurança social e fa- cio e na indústria ilegais tornou-se um com-
zendo seus moradores mergulharem mais ponente essencial das estratégias de manu-
fundo na economia informal. Mas a cons- tenção da estrutura doméstica e de susten-
tituição e as características do comércio to do bairro. D e forma que o Estado, em-
de rua também mudaram quando as ativi- bora periodicamente engajado em ações
dades e redes criminais se difundiram e espetaculares de controle da economia cri-
dominaram a comunidade excluída. Assim minal e de contenção de seus excedentes,
como o setor subterrâneo do hiper-gueto tem interesse em tolerar essas atividades,
americano tem sido dominado por gangues desde que se realizem dentro dos limites
corporativas competindo para monopoli- dos bairros excluídos, seja no Brasil ou nas
zar o comércio ilícito através da intimida- metrópoles americanas 40 .
ção e de confrontos físicos, com a distri-
buição de drogas em larga escala tomando Em terceiro lugar, as divisões etno-raci-
o lugar de “políticas públicas” e outros ais originadas na era da escravidão nas
“negócios de proteção” como forma de Américas desempenharam um papel deci-
geração de dinheiro e status , o tráfico de sivo mas diferente na nociva combinação
cocaína e de armas pelos “comandos”, do Estado penal com o centro urbano em
unidades coordenadas que controlam as implosão nos Estados U nidos, por um lado,
transações criminais nas favelas cariocas, e as favelas e periferias decadentes no Bra-
substituiu a loteria popular do jogo do bi- sil, por outro. N o primeiro, uma irrefutável
cho como regulador da vida e do comércio e c a t egóri c a c l i v age m arra iga d a n a
na favela 39 . hipodescendência e no “princípio de uma
gota” 41 [one-drop rule] criou uma “linha
N os dois lugares, então, a violência da de cor” inflexível e impenetrável que tor-
economia oficial do trabalho assalariado ceu a gama de políticas públicas em uma
dessocializado alimenta a economia da direção constritiva, intensificou e concen-
violência informal que justifica a elabora- tro u a p o bre z a urb a n a e d isp aro u a
ção da estratégia penal , mas com uma implementação e o direcionamento do
mudança inesperada que simultaneamen- aparelho repressivo sobre um grupo parti-
te estimula e restringe o ativismo das agên- cularmente isolado, visível e manchado,
cias de imposição da lei. A expansão e o os (sub)proletários urbanos e negros. N as
racionamento da economia criminal con- grandes cidades do Brasil, um confuso

213
“ continuum de cor”, graduado pelo fenótipo la brasileira no final do século é que am-
(considerando tom de cor, textura do cabe- bos estão conectados ao sistema carcerário
lo e traços faciais) e qualificado por indi- de seu país através das práticas de policia-
cadores sociais secundários (posses, nível mento agressivo e dos tribunais repressi-
educacional, residência), conjugou e acen- vos, pelo lado do Estado, e da “prisioniza-
tuou o espectro de desigualdades para aju- ção” acelerada de seu tecido social e de
dar a intensificar a violência do Estado so- sua ecologia organizacional, pelo lado da
bre quem se situava na base das camadas cidade. Essa conexão é estreita e continua
sobrepostas de privação. N as duas socie- se estreitando, a ponto de quase formar
dades, as divisões multisseculares de casta uma rede institucional no coração urbano
ou cor assombraram a configuração do es- racializado dos Estados U nidos; permane-
paço urbano e continuam a operar sobre o ce comparativamente mais solta e menos
funcionamento da série de instituições de envolvente nas cidades brasileiras, devido
imposição da lei , desde a polícia e os tri- ao funcionamento caótico das burocracias
bunais até as administrações correcionais penais locais e à maior fluidez social, di-
e suas extensões. N os dois países, a crimi- ferenciação interna e capacidade coletiva
nalização da marginalidade urbana se ba- dos favelados para sabotar ou embotar as
seia em – e alimentam – associações sim- ações dessas burocracias, particularmente
bólicas entre negritude e periculosidade, através do dispositivo do clientelismo 42 .
vício e violência, forjadas ao longo da es- D a mesma maneira, mas partindo de dire-
cravidão e depois dela. Mas a maneira ções opostas, nos dois países as gangues
como a “raça” interage com o mercado e de estilo corporativo assumiram o papel
com o Estado penal nos dois países é, ape- principal na solidificação das amarras so-
sar de tudo, diferente. N as metrópoles bra- ciais e culturais cada vez mais densas que
sileiras, as distinções preconceituosas de cor agora unem os resíduos urbanos e os
exacerbam a repressão estatal que, na ausên- superlotados depósitos carcerários com as
cia de tais distinções, seria exercida sobre as categorias julgadas material e simbolica-
áreas estigmatizadas das classes baixas e seus mente inúteis pela reestruturação neoliberal
membros; a pigmentação da pele acelera a da metrópole.
velocidade dos golpes penais mas não os dis-
para nem os dirige por si mesma. Nos Esta- Tanto no Brasil como nos Estados U ni-
dos Unidos, em contraste, nem o desman- dos, o encolhimento ou a ausência do Es-
telamento gradual do Estado previdenciário tado social e o simultâneo desenvolvimento
herdado do New Deal nem a rápida constru- do Estado penal nos execrados enclaves de
ção de um Estado carcerário hipetrofiado no marginalidade concentrada – onde ele ca-
rastro dos movimentos pelos Direitos Civis rece de legimitidade – acabam perpetuan-
teriam ocorrido como ocorreram se não fos- do e inclusive agravando os mesmos pro-
se pelas revoltas afro-americanas que procu- blemas que esse desenvolvimento deveria
raram derrubar as instituições estabelecidas remediar. Policiamento beligerante, repres-
de contenção de casta nos anos sessenta, são judicial incisiva e deportação em mas-
e pela indiferença coletiva quanto à sufo- sa para uma prisão suburbana ou rural em
cação penal do subproletariado negro que zonas remotas são as principais fontes de
a rígida segmentação ento-racial do espa- deslocamento urbano forçado. Contribu-
ço social, físico e mental gerou entre os em para consolidar a marginalidade ao sa-
cidadãos. botar as trajetórias de vida de seus alvos,
dificultar a estabilidade doméstica, enfra-
Um último ponto de convergência en- quecer a estrutura social local e sua capa-
tre o hiper-gueto negro americano e a fave- cidade para o controle social informal, e

214
ao alimentar as condutas ilegais e a vio- ca de “política criminal como derramamen-
lência interpessoal pelas e contra as forças to de sangue” dos desprezíveis e despoja-
da ordem. N ão diminuem o crime de rua, dos pobres44 , dos “indivíduos” sem rumo,
da mesma forma que falham em mitigar inúteis e anônimos que representam o
seu motor principal, a saber, o capitalismo antônimo vivo da adequada encarnação
de pequena escala de venda e predação que brasileira de “pessoa” respeitável e reco-
preenche o vácuo deixado pelo declínio nhecida – de forma semelhante à maneira
da economia de trabalho assalariado. E pela qual a “subclasse” tem sido retratada
conspiram para manter um clima sufocan- nas políticas e debates acadêmicos dos Es-
te de medo e desconfiança das autoridades tados U nidos como a condensação coleti-
nos bairros marginais. Enfeixando-os numa va de todos os defeitos morais e perigos
apertada rede vigilância e ação diligente físicos com os quais o subúrbio [inner city]
por seu exército de imposição da lei, o Es- ameaça a integridade dos Estados U nidos
tado contribui assim, diretamente, para como uma nação essencialmente feita de
aprofundar o abismo social e simbólico que “famílias trabalhadoras” suburbanas45 de-
separa esses habitantes da sociedade urba- centes e obedientes à lei.
na ao seu redor.
A relação recursiva e mutuamente
D e acordo com um padrão bastante reforçadora entre as regras do mercado li-
desgastado na história da prisão, a nature- vre, a reconstrução do Estado e a crescente
z a iatrogênica do tratamento penal da instabilidade e divisão sociais na base da
marginalidade e do estigma nas metrópo- h i erarqu i a d e l ugares n as m etrópo l es
les brasileiras, assim como em seus cor- neoliberalizadas prende as autoridades em
respondentes nos Estados U nidos e Euro- uma espiral penal que promove não ape-
pa, demonstra não ser um obstáculo para a nas a barricada interna das zonas de classe
contínua administração desse método. Pelo baixa, o gradeamento externo dos bairros
contrário, a própria falha do apenamento de classe média e a secessão cívica das for-
gera as condições sociais, os incentivos talezas de poder e privilégio da classe alta,
políticos e os alvos concretos e evidentes mas resulta em uma total militarização das
necessários para sua aplicação contínua e clivagens urbanas46 . Por isso o caso brasi-
expandida 43 . Além disso, não se propõe a leiro é especialmente valioso e instrutivo:
contenção punitiva apenas por seus efeitos a evolução da favel a carioca em sua
instrumentais sobre a rejeição social da conflituosa negociação com o aparelho
nova ordem metropol itana através da local de imposição da lei e da justiça cri-
incapacitação ou dissuasão, e menos ain- minal funciona como um revelador histó-
da pelos benefícios econômicos que ela rico das tendências subterrâneas e das con-
fornece ao Estado ou aos operadores co- seqüências de longo prazo da política de
merciais envolvidos nesse projeto, como eliminação penal dos detritos humanos de
os cr í t i c os d o “ c o m p l e x o i n d ustr i a l uma sociedade na qual as relações huma-
prisional” gostariam de fazer crer. Essa pro- nas são transformadas em mercadoria, inun-
posta é implementada simultaneamente dadas em insegurança social e física. D es-
por sua capacidade de, a curto prazo, con- pro v i d a d a pro t e ç ã o f orn e c i d a p e l a
finar as desordens ao perímetro expandido racionalidade burocrática e pelo humani-
dos bairros marginais e seus apêndices tarismo burguês, a articulação da extrema
carcerários e por seu valor teatral mais desigualdade, da violência das ruas e da
amplo aos olhos das audiências das clas- punição em massa nas cidades brasileiras
ses média e alta. Para elas, o Estado ofere- sob o duplo Consenso de Washington47 na
ce, então, uma vívida performance públi- economia de mercado e no controle do

215
cri m e est i m u l a a ef et i v a re d u ct i o a d ficado em um momento em que efetiva-
absurdum do Estado a seu aparelho repres- mente abandonou ambos na frenética bus-
sivo e à fusão de suas forças militares e ca pelo comércio expandido 50 ; da mesma
civis para a manutenção da ordem. Isso forma, a militarização dos execráveis bair-
transforma a segurança pública em um ros de pobreza urbana serve para moldar e
empreendimento marcial, e o combate ao projetar a nova aparência desse peculiar
crime em um campo de prova para uma “transcendental histórico” que é o Estado
liderança política vigorosa voltada para os neoliberal ao exagerar sua capacidade de
“resultados” imediatos e tangíveis. E faz controlar as populações e os locais proble-
com que a imposição da lei nos e ao redor máticos da cidade grande e reestabilizar,
dos infames bairros de classe baixa se trans- através da imposição agressiva da lei, as
forme, literalmente, em uma guerra com hierarquias que suas classificações oficiais
seus moradores, com batalhas armadas e idolatram 51 . Isso nos traz de volta ao para-
manobras, espionagem e execuções blin- doxo central do projeto neoliberal com o
dadas, controle de fronteiras e contagem qual iniciamos este artigo: a promoção do
de corpos, extensos “efeitos colaterais” e a mercado como a inovação ideal para orga-
vil demonização do “inimigo” pela mídia nizar todas as atividades humanas requer não
e as autoridades, incluindo o visível “re- apenas um “pequeno governo” minimalista
púdio de qualquer referência aos direitos no front social e econômico mas, também,
dos criminosos” 48 . e sem contradição, um Estado ampliado e
diligente, armado para intervir com força
O corre com a contenção punitiva da para manter a ordem pública e prolongar os
marginalidade e do estigma urbanos o evidentes limites sociais e étnicos.
mesmo que com a mistura das populações
e culturas ocidentais e não-ocidentais: longe Longe de se esvaecerem no cenário social,
de ser um retardatário, o Brasil “pode pro- como alguns discursos sobre “exclusão” di-
ver aos norte-americanos e aos europeus riam, os bairros de abandono urbano – as
um vislumbre de seu futuro” 49 nesse domí- favelas decadentes no Brasil, o implosivo
nio sombrio, ao revelar o quanto a crimi- hiper-gueto nos Estados Unidos, os degrada-
nalização desmesurada leva a assimilar os dos banlieues na França e as desoladas inner
limites inferiores sócio-espaciais dentro da cities na Escócia ou Holanda – mostram ser
cidade às fronteiras estrangeiras. Sob essa o principal espaço físico e social dentro do
abordagem, as agências urbanas de impo- qual o Estado penal neoliberal está sendo
sição da lei operam como patrulhas de fron- montado, adotado e testado de forma con-
teira e forças de ocupação nas áreas po- creta . No final do século XIX, os pobres acu-
bres, tratadas como “zonas de guerra” do- mulados nos bairros desgraçados das metró-
mésticas que abrigam uma população poles em expansão forneceram uma força
alienígena despida das proteções e privilé- de trabalho voluntariosa para a expansão da
gios normais da lei. A comparação é perti- indústria e uma agitada população ajustada
nente: a “escalada do policiamento” nas à estrutura do incipiente braço protetor do
sensíveis divisões internacionais, tais como Estado de previdência, com a invenção do
aquelas entre os Estados U nidos e México trabalho social, a generalização da escola
ou entre o extremo sul da Europa e a África primária, a introdução dos esquemas de apo-
do N orte, “tem sido menos sobre dissuasão sentadoria e os empreendimentos públicos
do que sobre a criação de uma imagem” nos serviços humanos, de saneamento, mo-
para apoiar simbolicamente a reivindica- radia e saúde. No final do século XX, foram
ção do Estado pelo comando e comissariado reduzidos a matéria-prima para a criação de
territorial de um corpo (pós)nacional uni- instituições penais mutáveis e prolíferas que

216
compõem a face cruel do Estado neoliberal beiro, “The Drug Trade, Crime and Policies of
que se impõe sobre os rejeitados da socie- Repression in Brazil”, Dialectical Anthropology,
dade de mercado. 20, 1, maio de 1995, pp. 95-108; e Vera Malaguti
Batista, Difíceis ganhos fáceis. Drogas e juventude
pobre no Rio de Janeiro, Rio de Janeiro: Freitas
Bastos, 1998. Para uma abordagem desse tema na
Venezuela, ver Patricia C. Márquez, The Street is
* Tradução de Fernanda Bocco.
my Home: Youth and Violence in Caracas, Stanford,
Notas CA: Stanford University Press, 1999; para uma
1 comparação com Europa e Estados Unidos, Loïc
Loïc Wacquant, Les Prisons de la misère (Paris: Raisons Wacquant, “ O retorno do recalcado: violência
d’agir, 1999; tr. As Prisões da miséria , Rio de urbana, ‘raça’ e dualização em três sociedades
Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2001). avançadas”, Revista Brasileira de Ciências Sociais,
2
Um exame abrangente das pesquisas sobre o assunto 24, fevereiro de 1994, pp. 16-30 (reimpresso em
conclui que “há pouca evidência de que as mu- Wacquant, Os condenados da cidade , Rio de Ja-
danças genéricas no policiamento sejam respon- neiro: Revan, 2001, capitulo 1).
sáveis pela redução dos crimes violentos” nos anos 9
Zaluar, Condomínio do diabo , Rio de Janeiro: Revan,
noventa, e aponta as medidas da “tolerância zero” 1994, esp. pp. 13-35.
ao estilo Nova Iorque como o fator “menos plau- 10
sível” de contribuição para o declínio recente nas Paulo Sérgio Pinheiro, “Democratic Governance,
agressões a pessoas nas metrópoles dos Estados Violence, and the (Un)Rule of Law”, Daedalus,
Unidos (John E. Eck e Edward R. Maguire, “Have 129, Primavera de 2000, pp. 140-141 e 127. O
Changes in Policing Reduced Violent Crime?,” in envolvimento rotineiro da polícia na economia
The Crime Drop in America, Alfred Blumstein e criminal é amplamente reconhecido pelo ex-chefe
Joel Wallman (eds.), New York: Oxford University de polícia do estado do Rio de Janeiro Carlos
Press, 2000, p. 245. Magno Nazareth Cerqueira, “A criminalidade da
3 polícia”, Revista Brasileira de Ciências Criminais,
Para um exame e avaliação concisos, ler Renato 19, julho-setembro de 1997, pp. 243-252.
Bauman (ed.), Brazil in the 1990s: An Economy 11
in Transition Basingstoke: Palgrave, 2002, esp. Instrumento de tortura consistindo em um pau roliço
pp. 8-21. que, depois de ser passado entre ambos os joelhos
4 e cotovelos flexionados, é suspenso em dois su-
Susana Rotker (ed.), Citizens of Fear: Urban Violence portes, ficando o torturado de cabeça para baixo e
in Latin America. New Brunswick, NJ: Rutgers como que de cócoras. [N. da T.].
University Press, 2002. 12
5 Chevigny, Edge of the Knife , p. 148. Esses dados
Ednilsa Souza, “Homicídios no Brasil: o grande vilão diminuíram a cada ano desde então, chegando a
da saúde pública na década de 80”, Cadernos de cerca de 700 em 2000 devido aos esforços con-
Saúde Pública , 10, 1, janeiro de 1994, pp. 45- juntos entre o governo federal e as sucessivas ad-
60; sobre o enorme aumento da violência homici- ministrações governamentais para controlar os
da nas cidades do continente, ver Jerome L. homicídios da polícia.
N eapolitan , “ Cross- N ational Variation in 13
H omicides: The C ase of Latin A merica, ” Roberto da Matta, Carnivals, Rogues and Heroes: An
International Criminal Justice Review , 4, 1994, Interpretation of the Brazilian Dilemma , Notre
pp. 4-22. Dame, IN: University of Notre Dame, 1991 (orig.
6 1979). Original: Carnavais, malandros e heróis:
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Inverno 1996, pp. 303-328. violência e poder, São Paulo: Brasiliense, 1983.
7
Evento mais conhecido como Eco-Rio 92. [N. da T.] 14
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8
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interpretação da criminalidade urbana violenta”, Wisconsin Press, 1991, pp. 46-50; e Neder Gizlene,
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217
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bro de 1995, pp. 45-63. Infelizmente, a proposta R io de J aneiro, Rio de Janeiro: Espaço e Tem-
do estudo de Adorno não lhe permite examinar po/IUPERJ, 1987, e Eneleo Alcides da Silva,
registros criminais e deslindar os efeitos de classe e “ Violência sexual na cadeia: honra e mascu-
cor, não podendo indicar quão “poderoso” é este linidade”, in R evista de Ciências H umanas ,
último como um “instrumento de discriminação 21, abril de 1997, pp. 123-138.
na provisão de justiça” 28
19
Para descrições sobre o caos da vida na prisão
Moema Teixeira, “Raça e crime: orientação para uma mais infame do Brasil (fechada em 2002), ler
leitura crítica do Censo Penitenciário do Rio de a n arrati va d e D rau z i o Varel l a , Estação
Janeiro”, Cadernos do ICHF , 64, 1994, pp. 1-15. Carandiru , Rio de Janeiro: Companhia das
Não estão disponíveis dados confiáveis sobre essa Letras, 2000. O complexo Carandiru foi o
tendência da cor, mas tudo leva a pensar que a maior estabelecimento penal da América La-
crescente repressão penal se traduziu em um tina, com 6.500 presos em 1998.
“escurecimento” da população carcerária do país. 29
20
Ler o meticuloso registro da terrível violência ofici-
Pedro Rodolfo Bodé de Moraes e Marcilene Garcia de al após as revoltas e tentativas de fuga em sete
Souza, “Invisibilidade, preconceito e violência raci- estados, compilado no Human Rights Watch ,
al em Curitiba,” in Revista de Sociologia e Política, Behind Bars in Brazil , op. cit., capítulo 8.
13, novembro de 1999, pp. 7-16, e Jorge da Silva, 30
“The Favelados in Rio de Janeiro, Brazil”, in Policing Ibid., pp. 61-65. A brutalidade penal pode ser
and Society, 10, 1, 2000, pp. 121-130. inclusive politicamente lucrativa: o coman-
21
dante militar das tropas de choque responsá-
Maria Cecilia Paoli et al., A violência brasileira, São veis pelo grande massacre no Carandiru, em
Paulo: Brasiliense, 1982, e Juan E. Méndez, 1992, foi eleito para a Assembléia Legislativa
Guillermo O ’Donnell e Paulo Sérgio Pinheiro de São Paulo, o que lhe valeu imunidade
(eds.), The (un)Rule of Law and the Underpri- parlamentar para o processo.
vileged in L atin America , N otre D ame, IN : 31
University of Notre Dame Press, 1999. Ibid., pp. 54-55; ver também César Barros Leal,
22
“The Prison System in Bra z il : The APA C
Paulo Sérgio Pinheiro, “Violência, crime e sistemas Ex p eri en c e ” , i n C ari b b e a n Jo urn a l of
policiais em países de novas democracias”, Tempo Criminology and Social Psychology , 4, 1-2,
Social , 9, 1, maio de 1997, pp. 43-52; Carlos janeiro-julho de 1999, pp. 254-267.
Magno Nazareth Cerqueira, “Ensaio sobre um 32
projeto de avaliação do sistema de justiça crimi- René Ariel D otti, “ A crise do sistema penitenci-
nal”, Revista Brasileira de Ciências Criminais, 27, ário”, in R evista dos Tribunais , 768, agosto
julho-setembro de 1999, pp. 265-287; e Sérgio de 2003, p. 425.

218
33
Teresa Caldeira e James H olston, “ D emocracy cípios é evidentemente limitada apenas a es-
and V iolence in Bra z il” , in C omparative sas “comunidades”.
Studies in Society and H istory , 41, 4, outu- 39
Leeds, “ Cocaine and Parallel Polities on the
bro de 1999, p. 692.
Brazilian Urban Periphery”, art. cit.; Zaluar
34
Ricardo D . Salvatore e Carlos Aguirre (eds.), e Ribeiro, “The Drug Trade, Crime and Poli-
The Birth of the Penitentiary in L atin America: cies of Repression in Brazil”, art. cit.; e Zuenir
Essays on Criminology, Prison R eform, and Ventura, Cidade partida (Rio de Janeiro: Com-
S oci al C ontrol , 1830-1940 , A usti n , TX : panhia das Letras, 1994), sobre a preponde-
U niversity of Texas Press, 1996, p. xii. rância da violência criminal relacionada às
35 drogas em Vigário G eral.
Invoco aqui a revista D iscursos S ediciosos - cri-
40
me, direito e sociedade , publicada pelo Insti- A mesma relação simbiótica entre a insegurança do
tuto Carioca de Criminologia, no Rio de Ja- trabalho assalariado e a insegurança física extrema
neiro, que tem trabalhado para quebrar os ocorre nas cidades do Sul da África, nas quais o
dogmas da lei-e-ordem que reduzem e en- estado pós-apartheid deve ao mesmo tempo re-
quadram o debate público sobre o crime e a primir e acomodar a economia criminal em ex-
punição no Brasil. pansão (John Western, O utcast Cape Town ,
36 Berkeley, CA: University of California Press, ed.
Ler os “contos de guerra” cariocas de Juliana
expandida 1996, e Mark Shaw, Crime and Policing
Resende, O peração R io. R elato de uma guer-
in Post-Apartheid South Africa: Transforming
ra brasileira , São Paulo: Página Aberta, 1995, Under Fire , Bloomington, IN: Indiana University
evocativos dos ataques periodicamente reali-
Press, 2002), e nas grandes cidades da Venezuela
zados pelo exército israelense na Faixa de
e seus vizinhos (Yves Pedrazzini e Magaly Sánchez,
G aza ou nas cidades do W est Bank ocupado. Malandros, bandas, y niños de la calle. Cultura de
37
D evido ao processo de degradação dos centros urgencia en la metrópolis latinoamericana , Cara-
urbanos e ao êxodo das classes médias às cas: Vadell Hermanos Editores, 1992). Essa cone-
periferias residenciais, o termo virou sinôni- xão está presente, mas de forma muito atenuada,
mo de zona central degradada e qualificativo nos banlieues [subúrbios, N. da T.] da decadente
do tipo de comunidades, formas de vida e classe trabalhadora da França, devido à forte pre-
atitudes que crescem nesse tipo de áreas ur- sença local do Estado social e de uma maior capa-
banas [N . da T.]. cidade de organização coletiva de seus habitantes
38
(Michel Kokoreff, La Force des quartiers. De la
N o Brasil, representantes do Partido dos Traba- délinquance à l’engagement politique , Paris:
lhadores (como José G enoíno, candidato der- Payot, 2003).
rotado ao governo do estado de São Paulo, e 41
Marta Suplicy, prefeita da capital paulista) O princípio de hipodescendência se refere ao fato
defenderam as táticas brutais de imposição de descendentes de um casal “misto” (branco e
da lei como medidas necessárias para con- negro) serem designados integrantes do mais
trolar a escalada da violência criminal. N os “baixo” entre os grupos (as crianças são conde-
Estados U nidos, os especialistas de direito nadas a ser negras). O one drop rule é um
conhecidos como a “ N ova Escola de Chica- antigo princípio racista de acordo com o qual
go” das normas sociais têm fornecido cober- bastava uma simples gota de sangue negro (ou
tura jurídica para a redução policial dos di- de qualquer outra minoria racial) para ser con-
reitos dos moradores dos guetos com os prin- siderado membro dessa raça. [N . da T.]
cípios do “ community burden-sharing ” e do 42
Marcos Alvito, “Um bicho-de-sete-cabeças”, in Um
“ guided discretion ” [determinando as ocasi-
século de favela , op. cit., pp. 181-208, e Robert
ões em que a justiça deve acolher o julga-
Gay, Popular Organization and Democracy in
mento comunitário e garantindo, ao mesmo
R i o d e J a n e iro : A Ta l e of Tw o F a v e l as ,
tempo, que essa confiança no exercício co-
Philadelphia, PA: Temple University Press, 1994).
munitário do poder não degenere em abu-
43
sos. N . da R.] (Tracey L. Meares e D an M . De acordo com um mecanismo bem demonstrado
Kahan, Urgent Times: Policing and R ights in por Michel Foucault, Discipline and Punish:
In n er- C i t y C o m m u n i t i es , B ost o n , M A : The Birth of the Prison (New York: Pantheon,
Beacon Press, 1999). A validade desses prin- 1977, orig. 1975), pp. 273-286F.

219
44 47
Nilo Batista, “Política criminal com derramamen- O Consenso de Washington é um conjunto de
to de sangue”, in Discursos Sediciosos – crime, políticas que, acreditava-se, seria a fórmula para
direito e sociedade , no 3, 5/6, 1998, p. 77. promover o crescimento econômico na Améri-
45 ca Latina, embora não para todos os países. Foi
D avid J. H ess e Roberto da Matta (eds.), The apresentado pela primeira ve z por John
Brazilian Puzzle: Culture on the Borderlands Williamson, do Instituto para Economia Inter-
of the Western World , New York: Columbia nacional, em 1989. [N . da T.]
University Press, 1995, pp. 7-8 e 22-278, e
48
Ken A uletta, The U nderclass , N e w York: Cerqueira, “Remilitarização da segurança públi-
Random House, 1982, para o retrato jornalístico ca”, art. cit., pp. 60-61.
que forneceu o tom injurioso para o debate nos 49
H ess e da Matta, The Brazilian Puz zle , op. cit.,
Estados Unidos nos 1980 com sua enumeração
p. 2.
diversificada de tipos sociais perigosos (inclu-
50
indo, principalmente, “os hostis criminosos de Peter Andreas, Border G ames: Policing the U .S.-
rua”) com o objetivo de documentar que “a Mexico D ivide , Ithaca, N Y: Cornell U niversity
subclasse normalmente opera fora dos limites Press, 2000, p. 143. Para um mais extremo e
geralmente aceitos da sociedade”. brutal uso do controle de fronteira militarizado
46
No caso do Brasil, é uma “remilitarização” que per- c o m o f orm a d e e l i m i n ar a f i c ç ã o d a
homogeneidade etno-racial do corpo nacio-
petua os piores abusos da ditadura militar, como
nal, ver Alfred Bonstein, “Borders and the
apontado por Carlos Magno Nazareth Cerqueira,
“Remilitarização da segurança pública: a Opera- U ti l ity of V iol ence : State Effects on the
‘Superexploitation’ of West Bank Palestinians”,
ção Rio” in O futuro de uma ilusão. O sonho de
in Critique of Anthropology , 22, 2, junho de
uma nova polícia , Rio de Janeiro: Revan Editora,
2001, pp. 45-67. Essa escalada marcial das auto- 2002, pp. 201-220.
51
ridades é, por sua vez, auxiliada e acelerada pela P i err e B o urd i e u , Pasc a l i a n M e d i t a t i o ns ,
militarização do tráfico de drogas nas favelas. Cambridge, Polity Press, 2000 [1997]), p. 209.

FLORILÉGIO
Fora da lei (séc. XIX)
“ N ão obsta a esta disposição ( o artigo 60 do Código Criminal de
1830, que cominava açoites para os condenados escravos) o art. 179,
§ 19 da Constituição do Império (que proibia a pena de açoites), por
isto que os escravos achão-se fóra della.”
Cons. Vicente Alves de Paula Pessoa, Código Criminal do Império do
Brasil, Rio, 1885, ed. A.A.C. Coutinho, p. 138.

Fora da lei (séc. XXI)


A lei permite que o governo norte-americano detenha por tempo
indeterminado prisioneiros estrangeiros considerados “combatentes
inimigos” sem indiciamento nem julgamento e autoriza a CIA a usar
violência e táticas obscuras de interrogatório.
U m dos pontos mais criticados da lei tira a autoridade dos tribunais
de ouvir os argumentos dos prisioneiros que afirmam estarem detidos
ilegalmente. Procuradores que aprovaram a decisão alegaram que os
prisioneiros não são cobertos pela Constituição.
Folha de S.Paulo, 21.fev.07, pág. A 6.

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