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DOUTDR41/450 2 0 09.

Alain Coulon

30 - 3k
3dvul-E,

ETNOMETODOLOG1A.
Tradução de
Ephraim Ferreira Alves

\'OZES

Petrópolis
1995

Utchm.ific;t_., R(9- 1 te, hef ✓i7


DOO ri)U- D.o ASA- 2W
Presses Universitaires de France, 1987
108, boulevard Saint-Germain
75006 Paris Sumário
Título do original francês: liethnométhodologie
Direitos de publicação em
língua portuguesa no Brasil:
Editora Vozes Ltda.
Rua. Frei Luís, 100
25689-9'00 Petrópolis, RJ Introdução 7
Brasil Capítulo I — Os Precursores 9
1. Parsons e a teoria da ação 9
FICHA TÉCNICA;
2. Schütz 10
COORDENAÇÃO EDITORIAL: 3. O interacionismo simbólico

Avelino Grosai 14

C
•%ri. EDITOR:
Antônio De Paulo
Capítulo II — História do Movimento Etnometodológico
1. 1949: crimes inter-raciais e definição da situação
19
19
COORDENAÇÃO INDUSTRIAL:
José Luiz Castro 2. 1952: a tese de Garfinkel 20
EDITOR DE ARTE:
3. Cicourel e a constituição da "rede" 21
BU- oo 1 275 Li9- 3

• •
1 ) Ornar Santos
.r.C»
4. A difusão intelectual 22
: C.•
= h . EDITORAÇÃO: 5. 1967: o livro fundador 24
Editoração e organização literária: JaimeA. Clasen
1/1 Cl
Revisão gráfica: Revitec S/C 6. O crescimento do movimento 25
e. -4 •
Diagramação:Josione Furiati
hW, Supervisão gráfica: Valderes Rodrigues 7. A difusão no exterior 27
(11.•
rY
Capítulo III — Os Conceitos-chave da Etnometodologia. 29
I'. 1 . . 5,15
e."
ISBN 2 13 04356-4 (edição francesa) 1. Prática, realização 29
I.5 I
>...
.51
ISBN 85.326.1411-6 (edição brasileira) 2. A indicialidade 32
44.
rtr: 3. A reflexividade 38
hfl
4,55 5
tre I/ I
4. A accountability 42
5,1
5. A noção de membro 47
Capítulo IV — Sociologia Leiga e Sociologia Profissional 49
1. Conhecimento prático e conhecimento científico 52
Este livro foi composto e impresso pela Editora Vozes Ltda. 2. O ator social não é um idiota cultural 53
Rua Frei Luís, 100. Petrópolis, RJ — Brasil — CEP 25689-900
Tel.: (0242)43.5112 — Fax.: (0242)42-0692 — Caixa Postal 90023 3. Objetivismo e subjetivismo 53
End. Telegráfico: VOZES — Inscr. Est. 80.647.050 4. O método documentário de interpretação 55
CGC 31.127.301/0001-04,
em abril de 1995. 5. Um experimento 58
v. rx yi utiett pf011881Unal . 10
7. O raciocínio sociológico prático e a análise de
conversação 72
Introdução
Capítulo V — Questão de Método 79
1. A postura de "indiferença etnometodológica" 79
2. A provocação experimental 82
3. A contribuição metodológica de Cicourel 83
4. Etnometodologia, etnografia constitutiva e
c
so iologia qualitativa 85
Capítulo VI — O Trabalho de Campo 93 A etnometodologia é uma corrente da sociologia ame-
1. A educação 96 ricana, surgida nos anos 60, que se instalou inicial- def
104 mente nos campi da Califórnia. Conquistou em
2. A delinqüência juvenil seguida outras universidades americanas e européias,
3. A vida de laboratório 109
particularmente inglesas e alemãs. No entanto, a etno-
4. A burocracia 112 metologia era praticamente desconhecida do públi -co
Capítulo VII — Críticave Convergências 115 francês até a difusão de alguns textos fundadores e de
1. Um ataque violento 116 comentários que começam a se multiplicar. Todavia,
119
mais de vinte e cinco anos depois da publicação da obra
2. Um contra-senso fundadora de Harold Garfinkel, Stuties in Ethnome-
3. Uma seita? 122 thodology, ainda não se acha traduzida em francês. As
4. Tentativa de síntese 125 raras traduções de textos etnometodológicos estão dis-
5. Marxismo e etnometodologia 126 persas em algumas revistas.
Conclusão 129 A importância teórica e epistemológica da etnome-
todologia se deve ao fato de efetuar uma ruptura
Bibliografia 131 radical com modos de pensamento da sociologia tradi-
cional. Mais que teoria constituída, ela é uma perspec-
tiva de pesquisa, uma nova postura intelectual.
(ft, sio
A entrada da etnometodologia em nossa cultura
anuncia uma verdadeira reviravolta de nossa tradição
sociológica. Essa mudança ocorre com uma ampliação
do pensamento social. Dá-se hoje maior importância à
compreensão que à explicação, à abordagem qualitati-
va do social que à quantofrenia das pesquisas socioló-
gicas anteriores.
A pesquisa etnometodológica se organiza em torno
da idéia segundo a qual todos nós somos "sociólogos em
estado prático", segundo a bela fórmula de Alfred
Schütz. O real já se acha descrito pelas pessoas. A

7
linguagem comum diz a realidade social, descreve-a e
ao mesmo tempo a constitui. Capítulo I
Contra a definição dtirkheimiana da sociologia
construída a partir da ruptura com o senso comum, a
etnometodologia mostra que temos à nossa disposição Os Precursores
a possibilidade de apreender de maneira adequada
aquilo que fazeinos para organizar a nossa existência
social. Analisando as práticas ordinárias no aqui e
agora sempre localitado das interações, ela vem so-
mar-se a outras correntes mantidas à margem da
sociologia oficial, em particular a sociologia de inter-
venção que leva também em conta o fato de todo o Admite-se de modo geral que as duas fontes princi-
grupo social ser capaz de se compreender a si mesmo, pais da obra de Garfinkel, mas não de todos os etno-
comentar-se, analisar-se. metodólogos, sejam as obras de Talcott Parsons e
Alfred Schütz. Estes são dois autores mais ou menos
A corrente que vamos aqui apresentar não é uma contemporâneos, mas com itinerários diferentes. Par-
escola marginal. Segundo Richard Hilbert, existe mes- sons nasce nos EUA e desenvolve uma imponente obra
mo um vínculo muito estreito entre a etnometodologia que rapidamente influencia o pensamento social ame-
e as sociologias de Durkheim e de Weber'. A etnometo- ricano. Schütz, ao contrário, emigra para os EUA
dologia não é um ramo separado do conjunto da pes- quando já tinha quarenta anos, em 1939, e exerce por
quisa em ciências sociais. Pelo contrário, acha-se em vinte anos, até falecer em 1959, influência bem mais
relação, mediante múltiplas ligações, com outras cor- discreta. Não é universitário, salvo no fim da vida. Mas
rentes que, como o marxismo, a fenomenologia, o exis- dá conferências, publica muitos artigos, e hoje se ava-
tencialismo e o interacionismo, alimentam a reflexão lia sempre mais o seu papel na sociologia contemporâ-
contemporânea sobre a nossa sociedade. 2 nea. A isto vem somar-se a influência do interacionismo
simbólico.

1. Parsons e a teoria da ação


Parsons foi uma figura dominante da sociologia ame-
ricana do século XX'. Em oposição à corrente geral do
seu tempo, reabilitou a _sociologia teórica de matriz
..

européia integrando em sua teoria dã_Wáo Os traba-


liiOs deDiik-heim,, Weber, Pareto, etc. nra- ao mesmo
1. Richard A. Hilbert, The Classical Roais of Ethnomethodology. Durkheim,
Weber, and Garfinkel, Chapel. Hill, University of North Carolina Press,
1992. 1. Para uma exposição do seu pensamento, consulte-se particularmente T.
2. As traduções, salvo indicação em contrário, são de minha lavra. Agradeço Parsons et alii, 1951: 7btuards a General Theory of Action, Cambridge,
a Harold Garflnkel a autorização para traduzir certas passagens de Masa., Harvard University Presa; T. Parsons 1963: The Structure of
Studies In Ethnomethodology, bem como, pela mesma razão, a Basil Social Action, Nova York, Free Press; em francês: Eléments pour une
-131ackwell-LtcL, editor-da-segunda-ediç-ão dessa-obra. sociologie de l'action, Paris, Plon 1955.

8 9
_ - .....•••••••••vv.&•V, ,7%•1.4. U9./0,1 VaillellW
elaborar a sua primeira obra publicada em 19322 .
deBLEadapresentava
•ar particularmente a vantagem usserl que lhe propôs
de reunir a sociologia propriamente dita, a psicologia o cargo de assistente. Schütz declinou a oferta, mas
social é a antropologia. Ali se formou toda uma geração conservou relações de trabalho com Husserl até sair
de sociólogos americanooãiqúiiiiii_g. definitivamente do país, em 1938, fugindo do regime
Segundo Parsons,as motivações dos atores sociais são nazista. Depois de passar um ano em Paris, instala-se
integradas em moleRa normativos_ que regulam _ as definitivamente nos EUA, onde morre em 1959. So-
condutas e as apreciações recíprocas. Assim se explica mente após a morte é que se tornou um clássico da
a estabilidade dáordem social e sua reprodução em sociologia, mas desde os anos 40 ele ministra conferên-
cada encontro entre os indivíduos. Compartilhamos cias em Nova Iorque, onde conta entre seus ouvintes
valores ue nos transcendem e_ governam.. Temos a Peter Berger, Thomas Lückmann.
tendência, para ,evitar angústia e castigos, a nos con-
formarmos com as regras da vida em comum. Voltemos porém à obra de 1932 _que funda a feno-
rnenobj— ja social.
Mas como é que acontece que respeitemos em geral
essas regras da vida em comum sem refletir sequer? Max Weber, embora lhe tenha sublinhado a impor-
Parsons recorreu ,a Freud para explicar essa regulari- tância, não clarificou a noção de Verstehen - o com-
dade da vida social. Freud mostrou que no decurso da preender em contraste com o explicar, Erkltiren - que
educação as regras da vida em sociedade são inte- se refere ora ao conhecimento do senso comum, ora a
riorizadas pelo indiViduo e constituem o que ele deno- um método específico das ciências sociais. Schütz vai
mina o "super-ego", isto é, uma espécie de tribunal desenyolyer o primei ro . significado do Verstehen-P p ro-
interior. Esse sistema interiorizado governa, segundo o estudo dos processos de interp_tetação_que_utilir__
Freud e Parsons, os nossos comportamentos e até zamos em nossa vidã- de-vs6--"Cria para dar sentido a
mesmo os nossos pensamentos. noss~s e às dos outros. Aqui reside provavelmen-
Para a nossa co.m_unicação sempre nos servimos de te a idéia central, o aporte essencial de Schütz. Como
sím6-6-1-6-s, que tomam sentido ., em totalidades como a o sublinha Patrick Pharo, é "a idéia simples que se
linguagem, que preexiste a nossos encontros, como encontra em Schütz, mas também de certo modo em
sistema_de-referência e'corrio recurso eterno, inekaurf; Wittgenstein", segundo a qual "a compreensão se acha
vel e estável. A etnometodologia vá'i colocar o probFein -ii sempre já realizada nas. _atividA.U8—mais_urric~s
de outro modo: a_relação entre ator e situação não se da vida ordinária" (p. 160) 3. Como o observa Schütz, "a
od-è-V---=ã--i1.CaTeúdos
ei culturais nem a regras , mas será linguagem cotidiana çsconde_tado_um__tesoura_de_tipQs_
produzida por .processps_de . interpretação. Dá-se aí e características pré-constituídos, de essência social,
uma mudança de paradigma sociológico: com a etno: que abrigam 65nteu os.inexploradasr. O mu-RO social
inetodologia_se_passa__de um paradigma normativo de Schütz é o da vida cotidiana:vivida por pessoas que
para um paradigma interpretativo.

2. Schütz 2. At Schütz, 1932: Der Sinnhafte Aufbau der sozialen Welt, Wien, Springer
( 1960); trad. ingl.: The Phenomenology of the Social World. Evanston,
Alfred Sch estudou ciências sociais na Univer- Illinois, Northwestern University Press 1967, e Londres, Heinemann
1972.
sidade deiena no começo deste século. Tomou como
3. E Pharo, 1985: "La description des etructures formelles de l'activité
ponto de 'partida uma reflexão sobre Max 'Weber, para sociale", em: Décrire: un impératif?, Paris, EHESS, t. 2, p. 159-174.

10 11
não têm interesse teórico, a priori, pela constituição do do olhar, difere conforme o ponto de vista. No entanto,
mundo. Este murtdo_sociaLémminuiidPiiiriiiiibje- tio, estarão todos de acordo em dizer que todos os especta-
mundo de rotinas, em que a maioria dos aiiii -dirrida dores acompanharam a mesma partida. Em princípio,
cotidiana são em geral ,realizados maquinalmente. A o fato de os atores não verem a mesma coisa deveria
realidade parece mattiral e sem problemas. Para impedir toda possibilidade de um real conhecimento
Schütz a realidade social é intersubjetivo. Este, porém, não é o caso graças a duas
"a soma total dos objetos e dos acontecimentos do mundo "idealizações" usadas pelos atores: a da possibilidade
cultural e social, vivido pelo pensamento de senso co- da troca de pontos de vista de um lado (pode-se trocar
mum de homens que vivem juntos numerosas relações de lugar e mudar assim os ângulos de visão) e da
de interação. É o mundo dos objetos culturais e das conformidade do sistema de pertinência de outra parte
instituições sociais em que nascemos todos nós, onde nos (todos os espectadores supõem que os outros tenham
reconhecemos... 'Desde o princípio,n6s, os atores no vindo assistir à partida pelas mesmas razões que eles,
çenário social, vivemos o mundo como um mundo a-O que se interessam por ela do mesmo jeito ou pelo menos
mesmo tempo de a.tura naturali-, -fião como um se interessam por ela empiricamente, de modo idênti-
mundO15-fiV----a-db--iiiás-iiitesübretiVo, ou seja, que nos é co, e isto apesar de suas diferenças biográficas). Con-
cornum_,que nos 6dad -6-6ü -i¡iie é potencialmente acessí- sideradas em conjunto, essas duas idealizações com-
vel a cada um deriéS. E" isso implica a intercomunicação,
põem "a_tese_gP_ral_da reciproctdade_das_perspediva.s"
ea
que marca o caráter social da estrutura do mundo-vida
Os homens nunca têm, seja lá no que for, Qxperiên- de cada um.
cias idênticas, mas supõem ,que elas sejam idênticas, Essa. çiescrição de Schütz __permite compreender
?azem como se fossem idênticas, para todos os fins
práticos. A experiênçia subjetiva de um indivíduo é como mundos experienciais "privados", singulares, po-
inacessível a outro indivíduo. Os próprios atores ordi- dem ser transcendidos em um mundo comum: é me-
nários, que no entanto não são filósofos, sabem que não diante esSaid-UitSid-eilliz4ões que vejO- a mesma coisa
vêem jamais os mesmos, objetos de maneira comum: que meus companheiros de partida, inclusive aqueles
não se colocam no mesmo ponto de observação desses que, não tendo ido até o estádio, assistem o jogo pela
objetos e não têm as mesmas motivações ou os mesmos televisão. Vemos juntos a mesma partida, a despeito
objetivos, as mesmas intenções, para observá-los. Nin- de nossos lugares diferentes, de nossas diferenças de
guém vê a mesma coisa, quando vai assistir a uma sexo, de idade, de condição social, etc. Igualmente, "nós
dois vemos o mesmo pássaro voando, apesar. de.nosias
partida de futebol, quer esteja sentado nas tribunas
centrais quer nas arquibancadas. Todo mundo sabe tão diferenças de posição no espaço, nossas diferenças de
Sexo e de idade, e a despeito do fato de você ter a
bem disso que se aceita, para assistir a uma mesma
intenção de caçá-lo ao passo que eu quero simplesmen-
partida, que os preços sejam diferentes porque a qua-
te admirá-lo".
lidade do espetáculo, ou Mais exatamente a qualidade
Por este processo de permanente ajuste, expresso
nessas duas idealizações, os atores são capazes de
dissipar as suas divergências de percepção do mundo.
4. A. Schütz, 1962: Concept and Theory Formation in the Social Sciences, A "atitude natural" esconde uma extraordinária capa-
em: Colleeted Papem p. 48-66, Ten Haag, Martinus Nijhoff. Trechos da cidade de tratar os objetos e, de modo mais geral, as
obra de Schütz foram coligidos e traduzidos em francês: A. Schütz, 1987:
chercheur et le quoddieis, Paris, Méridien, Klincksieck. ações e os acontecimentos da vida. social, em vista de

12 13
inanuer um mundo comum. Ela implica igualmente As criticas. metodológicas_dos sinteracionistas-são -
uma capacidade de interpretação tal que o mundo já radicais. Rejeitam o modelo da pesquisa quantitativa
se acha descrito par seiis membros. e suas conseqüências sobre a concepção do -Figni.—eda
causalidade nas ciências -S-Oeiais. Um confieClinento
3. O interacionismo simbólico
Sociológico adequado não1Yeíd-e-fia ser elaborado pela
observação de princípios metodológicos que procurem
01drafonta-da-striqmetodologia,é o inter_acionig19 extrair dados de seu contexto a fim de torná-los obje-
simbólico. Encontra a sua primeira origem na "Escola tivos. A utilização de questionários, de entrevistas, de
de Chicago" 6, cujos principais representantes são Ro- escalas de atitude, de cálculos, de tabelas estatísticas
bert Park, Ernest ,Burgess e William Thomas 6. Essa etc., tudo isso cria uma certa distância, afasta o pes-
corrente de pensamento popularizou o uso.dos métodos . quisador, em nome da própria objetividade, do mundo
qualitativos na pesquisa de campo, método_s_ade.qua- social que deseja estudar. Esta concepção cientificista -
dospara estudar a realidade social, em particular as produz evidentemente um curioso modelo do ator, sem
reviravoltas sociais rápidas provoCadas pelo cresci- relação com a realidade social natural em que este KJ
mento urbano de Chicago. O interacionismo simbólico' vive.
se move na'contracorrente da concepção durkheimiana () autêntico conhecimento sociológica_nos_é_conce:
do autor. Durkheirn, embora reconhecesse a capacida- dido na experiência imediata, nas interações de todos
de do ator para desérever os fatos sociais que o cercam, Os- aias. Deve:sé-iiii primeiro lugar levar em conta o
acha que essas descriçõàs são por demais gagas, muito ponto de vista dos atores, seja qual for o objeto de
ambíguas, para que o pesquisador possa usá-las de estudo, ois é através do sentido que eles_a_trauLem_aos_
modo científico, sendo tais manifestações subjetivas objetos,___saituações, aos árnbol9s que os_cercam, que
não subordinadas aliás ao domínio da sociologia. Ao os atores constroem seu mundo social.
invés, o,interacionismo simbólico afirma que a concep-
ção que os . atores fazem ,para si domundo social cons- No conjunto, a sociologia negligenciou a importân-
títui em última análise o objeto essencial da pesquisa cia dos aportes metodológicos e teóricos do interacio-
sociológica. nismo simbólico, visto em geral com certo desprezo,
como uma empreitada de tipo jornalístico', sem um
verdadeiro estatuto científico. Quando muito lhe reco-
5. Cf. Alain Coulon, L'Ecole de Chicago, Paris, PUF (1992], 2 1993 ("Que
nheceram uma utilidade eventual de pesquisa preli-
saia-je?", n. 2639).
6. R.E. Park e E.W. Burgess 1921: Introduction to the sciences of Sociology,
Chicago, University of Chicago Presa; W.I. Thomas e F. Znaniecki,
1918 1920: The Polish Peasant in Europe and America. Chicago, Chica-
- 8. Robert Park, um dos primeiros fundadores da Escola de Chicago, era um
go University Presa (New , Yrkk, Knopf, 1927). W. Thomas foi um dos ex-jornalista. É primeiramente um aluno de Simmel, em Berlim. Tem
primeiros a usar em sociologia materiais biográficos e autobiográficos quarenta e nove anos quando começa a lecionar Sociologia na Universi-
em seu monumental estudo (mais de 2.200 páginas) feito em conjunto dade (1913). Mas não renega o seu passado de jornalista. A seu ver, o
com F. Znaniecki, sobre os camponeses poloneses exilados na Europa e sociólogo é uma "espécie de super-repórter, informa de maneira um pouco
na América. mais precisa e com um pouco mais de distância que a média". As
7. Quem pela primeira vez formulou a expressão "interação simbólica" foi pesquisas e sondagens sociológicas não são para ele, em seu conteúdo e
Blumer (1937). Sobre o interacionismo, cf. H. Blumer, 1969: Symbolic em suas técnicas, mais que formas superiores de jornalismo: "A ciência
Interactionism. Perspective and Method, Chicago, University of Chicago é simplesmente um pouco mais persistente em sua curiosidade, um
Presa. Em francês, cf. Arlitelm Strauss: Miroirs et masques. Une intro- pouco mais exigente e exata em suas observaç5es do que o senso comum"
duction à l'interactioniàme. Paria, A.M. Métailié 1992. (Park e Burgess, 1921: op. cit,, p. 188).

14 15
minar. Tbdavia o interacionismo se acha bem ancorado regras e sanções a um `ofensor'. O desviante é uma
na tradição de pesquisa anglo-sax8nia, e continua pessoa a quem este rótulo , pôde ser aplicado com suces-
exercendo. Uma certa influência, como se pode ver em so. O comportamento desviante é o comportamento de-
????
signado como tal"9.
particular nos estudos: sobre o desvio social.
É considerável o interesse do interacionismo sim- Noutras palavras, um indivíduo não vem a ser um
bólico, não apenas porque insiste..no_papel. criativo desviante pelo mero fato de realizar uma certa ação. O
desempenhado pelot atores na_construção.de sua vida desvio não é inerente ao comportamento.
C."oti
--""-ca,
ranmas também pela sua atenção aos porm—erio- O desviante é aquele que é assumido, definido,
res dessa construção, Também não se deveria crer que isolado, designado e estigmatizado. Esta é uma das
o interacionismo não passe afinal de uma "sociologia idéias mais fortes da teoria da designação: pensar que
selvagem", sem hipóteses teóricas. Ela tem, seu apoio as forças do controle social, designando certas pessoas
em uma tradi ão teórica bem .viva, segundoa__qual os como desviantes, as confirmam como desviantes por
obj e. os sociais são.construidos. O signifiàaasociaLdos causa do estigma que se apega a essa designação. A tal
objetos se deve ao 1a- to de lhes darmos sentido no ponto que se chegou a dizer que o controle social,
decurso de nossas interações. E se alguns desses ifg: paradoxalmente, gerava e reforçava os comportamen-
nificados gozam de estabilidade no tempo, devem ser tos desviantes, ao passo que foi instituído para origi-
renegociados a cada nova interação. Define-se a inte- nalmente combatê-los, canalizá-los e reprimi-los: a
ração como uma ordem negociada, temporária, frágil, pessoa se torna assim como á descrevem'''.
que deve ser permanentemenieieConstruídka.fim_de Para os etnometodólogos, que às vezes se vão ins-
interp retar o mundo. Este cou nstr tiv.Luno, que tem pirar na teoria da atribuição de rótulos, o desvio não
afinidaes com o ramento de K. Marx, vai aparecer se definirá unilateralmente como desobediência a nor-
tanto na fenomenolOgia social como sob uma outra mas. Nele se há de ver o efeito de uma construção
forma na etnometodologia. social, uma produção ao mesmo tempo daqueles que se
A teoria da atribdção de rótulos — labeling theory ocupam com os desviantes e os rotulam e dos próprios
— que faz parte, do interacionismo simbólico, leva ao desviantes que se rotulam como tais, confirmando por
extremo essa orientação segundo a qual o mundo social seus comp "rtamentos ulteriores a. atribuição social
não é dado mas construído "aqui e agora". inicial do rótulo.
desviantes?!?!?!?!?!
Os indivíduos são por exemplo "rotulados" como
desviantes. O desvio não é mais considerado como uma 9. Howard Becker, 1963: Outsiders: Studies in the Sociology aí Deviance.
"qualidade", uma característica própria da pessoa, ou Nova York. The Free Press, p. 9 (Trad. francesa: Outsiders. Etudes de
ainda como algo produzido pelo desviante. Pensa-se Sociologie de la déviance, prefácio de.J.-M. Chapoulie, Paris, A.-M
Métailié 1985.
que o desvio é ao contrário criado por um conjunto de
10. Este fenómeno tem alguma semelhança com o da predição em fa mil ia,
definições instituídas, pela reação do social a atos mais aplicando-se ao desempenho escolar dos filhos e ao nível escolar que se
ou menos marginais, em suma, acredita-se que o des- supõe que serão capazes de alcançar. Trata-se em muitos casos de uma
vio é o resultado ou a conseqüência de um juízo social. verdadeira atribuição, e os filhos não fazem mais que realizar a predi-
ção-proclamação dos pais: "...ele não vai passar do Primeiro Grau...". O
E o que sublinha Howard Becker: mesmo se aplica sem dúvida quando se diz por exemplo a respeito de um
aluno: "não é bom em matemática". A criança logo fica convencida disso,
"O desvio não é a qualidade do ato cometido por alguém, e seu desempenho logo alcança efetivamente o nível atribuído, realizan-
mas antes a conseqüência da aplicação, por outros, de do assim a profecia familiar.

16 17
Capítulo: II

História do Movimento
Etnometodológico

A. etnometodologia começa com os trabalhos do soció-


logo Har9.1.d.Garfinkel, Nascido em 1917, faz os seus
estudos doutorais em 1946, na Universidade..de_Har-
yard, sob a direção de Talcott Earsons, Ao mesmo
tempo se inicia na fenomenologia, lê Edmund Husserl,
Aaron Gurwitsch, Alfred Schütz e Maurice Merleau :
Ponty,quesbrlvãxcnomeifluêa.

1. 1949: crimes inter-raciais e definição


da situação
Publica o seu primeiro trabalho em 1949'. Trata-se
de um artigo sobre os homicídios inter e intra-raciais
e sobre OE processos e condenações que lhes estão
relacionados. Garfinkel toma emprestada de William
Thomas a idéia segundo a qual os atores tomam parte
ativa na "definição da situação". Dizer que os atores de
um fato social, por ocasião de suas interações, "definem
a situação" significa que definem sempre em sua vida
cotidiana as instituições em que vivem. Como irá su-
blinhar mais tarde Ervin Goffman, deve-se definir o
"quadro"para compreendê-lo e agir. Contrariamente

1. H. Garfinkel, 1949: Research Note on Inter- and Intra-Racial Homicides,


Social Forces, 27, p. 370-381.

19
à sociologia, que procura saber como os indivíduos ensejo de efetuar uma pesquisa sobre os jurados de.
agem em situações já definidas fora deles e preexisten- tribunais. Na UCLA, Garfinkel fiea conheCendo Dell
tes a suas interações, á etnometodologia vaLtentar. 1 Hymes, que é um dos fundadores da etnologia da
compreender_como_é..queros individuoa vêern, descra- / comunicação. Trabalha nessa altura no Instituto Na-
y_em e_propãem_eni_conju'into uma definição da. situa- !" cional das Doenças Mentais e se consagra a trabalhos
242— no contexto da Escola de Medicina da UCLA. Ali é
levado a se interessar pelo "caso Inês", um transexual
2. 1952: a tese de Garfinkel que constituirá o objeto de um dos estudos mais céle-
bres de Garfinkel.
Em 192, Garfinkel defende a sua tese de doutora- Influencia nesse período um pequeno grupo de
mento'. Parsons exerceu sobre ele uma influência de- estudantes da UCLA. Em 1956, Garfinkel publica um
cisiva e ele jamais deixará de reconhecê-lo. No entanto, estudo sobre as "cerimônias. de. degradação" 5 . Encon-
de modo algum pode ser chamado "discípulo" de Par- tra - se nesta publicação uma orientação que evoca um
sons, no sentido de seguimento que geralmente se liga tema desenvolvido já por Jean-Paul Sartre, quando ele
a esta noção. Mas sempre reconhecerá a sua dívida, opunha filosofia essencialista e filosofia existencialista.
como escreverá mais' tarde lembrando que seus traba- Com efeito, Garfinkel critica o conceito das "essências"
lhos que, diz ele, não &conceito científico mas um construto
"encontram a sua origem na leitura dos escritos de da. vida cotidiana. Esse construtivismo, que tem ínti-
Talcott Parsons, Alfred Schütz, Aaron Gurwitsch e Ed- ma relação com o e o interacionismo
mund Husserl... O'trabalho de Parsons de modo parti- simbólico, torna:-se a. esta. altura um tema central da
cular até hoje impressiona pela profundidade e pela etnométodologikem_astado_nascente. Em 1959, Gar-
precisão do seu raciocínio sociológico prático quanto às
tarefas constitutivas do problema da ordem social e de finkel toma parte no IV Congresso Mundial de Socio-
sua solução" (Studies, p. logia de Stresa, onde faz uma comunicação que será
publicada, e cujo título deixa ver claramente as suas
Depois de ter defendido a tese, Garfinkel obtém um preocupações intelectuais 6.
cargo na Universidade de Ohio e depois, em 1954, na
Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA),
onde sempre lecionará. Entre esses dois cargos, tem 3. Cicourel e a constituição da "rede"
Em 1955, Aarão Qicourel, que irá desempenhar um
pap el_decisiv_o_na_história_sla-etnometadologi a, obém
2. D.H. Zimmerman e D.L. Wieder, 1970: Ethnomethodology and the seu título de Mestre na UCLA. Mais tarde publica, em
Problem of Order: Comment on Denzin, in J.D. Douglas (Ed.), Under. 1963, com John Kitsuse, um estudo sobre os decisores
standing Eueryday Life, Lorkdres, Routledge & Kegan Paul, p. 285.295.
3. H. Garfinkel, 1952: The Perception of the Other: A Study in Social Order,
Ph.D. Dissertation, Harvard University.
4. H. Garfinkel, 1957: Studies in Ethnomethodology, Englewood Cliffs, NJ,
Prentice Hall. Esta obra, considerada "a Bíblia" da etnometodologia, foi 5. H. Garlinkel, 1956: Conditions of Successfull Degradation Ceremonies,
reeditada em 1984 em Cambridge, Polity Press. Doravante será citada American Journal of Sociology, 61, p. 420-424: trad. francesa em Socié•
como Studiet. Dela se encontrara alguns extratos traduzidos em Argu- tés, Paris, Masson 1985, 5, vol. I.
mente ethnométodologiques, Problèmes d'dpientmologie en seieneee aoeía• 6. H. Garfinkel, 1969: Aspecto of the Problem of Common Seno e Knowledge
te" III, Paris, CEMS-EHESS, s.d. (1984], 174 p., obra que daqui em of Social Structures, em: 7)-arutactions of the Fourth World Congress of
diante será mencionada como argumenta. Sociology, Milão, Stresa 4, p. 51-65.

20 21
em matéria de educação'. No ano seguinte vem a cularmente com o funcionalismo-estrutural de Talcott
público a sua nova obra sobre o método e a medida em Parsons e de Robert Merton que dominara a geração .
sociologias. Em 1965 anima, com Garfinkel, um semi- precedente de sociólogos. No entanto, a etnometodolo-
nário informal. Ali se encontram Harvey Sacks, Law- gia se desenvolve sempre no seio dos departamentos
rence Wieder, Don H. Zimmermann, bem como a s_universidades-e até, de modo mais_de.socilgã
diversos etnólogos, entre os quais Michael Moerman, amplo, das organizações nacionais e internacionais da
Bennetta Jules-Rosette e Carlos Castaileda. De 1965 sociologia, com suas revistas, seus congressos, ainda
a 1966 se acha em Berkeley, onde forma um bom grupo que a etnometodolo a continue em • osi 7. -
de estudantes como Roy Turner, David Sudnow. Fica mente marginaLno_s_e_u_feudo_californiano. Nesse mo-
então alternando seu magistério entre Berkeley e Los mento os caminhos intelectuais da etnometodologia
Angeles onde continua lecionando Garfinkel. Nesse começa m a il saraurapúblico_mais_amplo, com
mesmo período, Harvey Sacks começa a desempenhar a ascensão concomitante_dalenomenologia_social. Al-
um importante papJ.Ein 1962-1963 organiza o grupo fred Schütz morrera em 1959. Deixou uma obra rela-
de_Berkeley, que se dedica a trabalhar.em cima. das tivamente dispersa. Acha-se reunida nos Collected
publicapes de Garfinkel. Neste grupo se encontram Papers, editados por Maurice Natanson em 1962 com-
el Schegloff, David Sudnow e Roy Turner. Todos pondo o primeiro volume. Peter Berger e Thomas
se deslocam, na Califórnia, de um campus para o outro, Luckmann publicam a sua famosa obra sobre a cons-
formando aquilo de Nicolas Mullins (p. 192-193) vai trução social da realidade em 1966, traduzida em
apresentar corno uma, "rede" 9. Todavia o centro dessa francês vinte anos depois w. Os mesmos autores conti-
rede, sempre segundo Mullins, parece que está na nuam a publicação dos Collected Papers em 1968.
UCLA, em torno de Garfinkel, apesar dos talentos
organizacionais de, Cicourel, cujo centro de Santa Bár- Ao mesmo tempo se vai desenvolver em torno de
bara ganha sempre mais importância. Don H. Zimmer- Cicourel uma orientação cognitivista fortemente mar-
mann vem unir-se a este centro com Sudnow em 1965; canPelas pesquisas lingüísticas. Cicourel trabalha
faz a sua defesa de tese doutoral no ano seguinte. principalmente_com_JohuGumperz, um Pf-nnlingiliata
Empreendem-se estudos sobre a aquisição da lingua-
gem e da copmpetência interpretativa das crianças.
4. A difusão intelectual
Sacks, por seu turno, dedica-se a trabalhos que vão
No_ final_.dos anos 60, o -caráter aparentemente levar à v_ertente, conv ers cioni s ta dg_ etnom_e_to dologi a
anti-sociológicoda.etn.omatodologia,começa a manifes- Segundo Mullins a r- . - • *e etodo-
tar-se mais claramente, em um consfeVEiTecrise da logia compreezde, PM 1964, _ R5
sociologia e de um movimento estudantil contestador Ao mesmo tempo, Garfinkel publica artigos impor-
e de contracultura.''Torna-se visível a ruptura,_Parti- tantes, entre os quais "Trust", um artigo sobre a con-

7. A. Cicourel e J. Kitsuse, 1963' The Educational Decision.Makers, India-


napolis, Bobbs-Merrill.
8. A. Cicourel, 1964: Method and Measurement in Sociology, Nova York, 10. E Berger e T. Luckmann, 1986: La construction sociale de la réalité,
Free Press. Paris, Méridiens Klincksieck, trad. de The Social Construction of Rea-
9. N. Mullins, 1975: Theories and Theory Groups in Contemporary Anaeri- lity, Garden City, Doubleday 1966. Tradução brasileira: Petrópolis,
can Sociology, Nova York, Harper & Row. Vozes 8 1990.

22 23
fiança, em 1963 11 . Alguns de seus trabalhos, dispersos, 6. O crescimento do movimento
vão ser coligidos nos Studies in Ethnomethodology que
Garfinkel resolve publicar sob a pressão, dizem, de No final dos anos 60, forma-se uma nova geração
circunstâncias universitárias e do seu círculo em 1967. nos campi californianos e começam a se multiplicar as.
defesas_de_tese, sobretudo em Santa Bárbara_emtorns
5. 1967: o livro fundador de Ci_w_ur_e Lawrence Wieder defende sua tese em
1969; Hugh Mehan em 1971 defende tese sobre as
No Prefácio dos Studies, Garfinkel revela q_ue in- interações educativas em uma sala de aula 13 ; Marshall
versão de perspectivaá as suas pesquisas o levaram: Shumsky, no ano seguinte, uma tese sobre os grupos
de encontro californianos (encounter groups) a partir
"Contrariamente a certas formulações de Durkheim, da experiência que tem desses grupos enquanto ani-
que ensina que'a realidade objetiva dos fatos sociais mador"; Robert McKay defende a sua simultanea-
é o principio fundamental di sociologia, iremos
titulo de programa de pesquisa, que para os membros mente, bem como Kenneth Leiter, Kenneth Jennings,
que fazem sociologia o fenômeno fundamental é_a_reali :_ Schwartz, David Roth e outros. Segundo Pierce Flynn
dade objetiva dos._latos_upiajs, enusggo_realização (1991, p. 44), dezesseis teses de orientação etnometo-
contínua das atividades combinadas da vida cotidiana dológica foram defendidas em Santã-13 r entre
dos membros que utilizam, coriSiabranda-os como co- 1 67 e 197215. Em1972-, 5-0 —
etnOnietodólogosse acham,
nhecidos e eçrlinnTií, processos ordinários e engenho- recenseadoS;
sos, para essa realização" (p. VII).
Esses anos de expansão e de florescimento do mo-
Os fatos sociais não se nos impõem a nós, contra- vimento são da mesma forma caracterizados por im-
riamente ao que afirma Durkheim, como realidade portantes publicações. Não é possível citar todas.
objetiva. O postulado da sociologia vem a ser então, Mencionemos, quanto ao essencial, além dos Studies,
com Garfinkel: devem-se considerar os fatos sociais a obra de David Sudnow sobre a administração hospi-
como realizações práticas. Çlâtgisocial não é um objeto talar da morte 16 , a de Cicourel sobre a delinqüência
estável, mas o produtn (In rontínua_atividade dos_.hp.n. juvenil" e no mesmo ano a de Peter McHugh sobre a
meus, que aplicam,seuR conhecimentos, processos,.re 7. definição da situação 18 . Deve-se acrescentar o apareci-
grasdecomptni„_sua,metodlgi
leiga cuja análise constitui a verdadeira tarefa do
sociólogo.
No ano seguinte, a Crítica e a contra-ofensiva dos 13. H. Mehan, 1971: Accomplishing Understanding in Educational Set-
tings, Unpublished Ph.D., University of California, Santa Bárbara.
sociólogos principiain com um artigo de J.S. Cole-
14. M. Shumsky, 1972: Encounter Groups: A Forensie Scene. Unpublished
man 12 . Ph. D. University of California, Santa Bárbara.
15. P. Flynn, 1991: The Ethnomethodological Movement. Semiotic Interpre-
tations, Berlin, Nova York, Mouton-de Gruyter. Nesta obra, Pierce Flynn
distingue quatro gerações de etnometodólogos entre 1950 e os anos '80.
11. H. Garfinkel, 1963: A Conception of, and Experimenta with. "Trust" as 16. D. Sudnow, 1957: Passing on: The Social Organization of Dying,
a Condition of Stable, Concerted Actions, em: O.J. Harvey (Ed.), Moti- Englewood Cliffs, NJ. Prentice Hall.
vation and Social Interaction, Nova York, Ronald Press. 17. A. Cicourel, 1968: The Social Organization of Juvenile Justice, Nova
12. J.S. Coleman, 1968: Review Symposium on H. Garfinkel's Studies in York, Wiley.
Ethnornethodology, American Soclological Reuiew, 33, p. 122.130. 18. P. McHugh, 1968: Defining the Situation, Indianapolis, Bobbs•Merrill.

24 25
mento em 197U de um importante artigo de Don Zim- 7. A difusão no exterior
mermann e Melvin Pollner sobre o mundo cotidiano
como fenômeno", artigo às vezes considerado como a A partir desse momento a etnometodologia começa-
apresentação mais sistemática, para aquela época, da a____Im_realimpacto
ter i além da Califórnia. Vai instalar-
postura etnometodológica, em oposição à da sociologia se na costa te com uma nova geração (Alan Blum,
padrão. Esses autores mostram que a sociologia pro- McHug , Robert McKay, George Psathas, Jeff Coulter)
fissional tem suas raízes na sociologia leiga, que aí vai que conquista postos universitários nos departamen-
buscar seus "recursos" que usa de maneira não crítica tos de sociologia das Universidades de Nova Iorque ou
e que toma até como temas (topics) de seus trabalhos. de Boston. Vai ultrapassar também as fronteiras dos
Elaboram depois a noção de corpus contingente (occa- EUA, chegando à Inglaterra, em Londres e Manches-
sional corpus), que define o conjunto das práticas ter, onde se concentra um número importante de_etno,
instituintes que caracterizam uma situação localizada. metodólogos, entre os quais Rod Watson, John
A partir dosanos "70, a etnometodologia começa a Heritage, Douglas Benson, John Hughes, Wesley
cindir-se ernidbil---griipos: o dos analistas de conversa- Scharrock, Bob Anderson, John Lee; na Alemanha
ção que tentam descobrir em nossas conversas as encontramos o grupo da Universidade de Bielefeld. O
reconstruções contextuais que perMitem lhes dar um dois grupos
de etnometodo
avanço é bem mais lento em países como a Itália onde
sentido e dar-lhes continuidade; e o dos sociólogos para se observa no entanto o lançamento em 1984 de uma
osq-i-ia-i-i-ii-S--fronteiras reconhecidas de sua dis-ciplina coletânea de textos traduzidos 22.
se acham circunscritas aos objetos mais tradicionais
que a sociologia estuda, como a educação, a justiça, as Na França, foi preciso esperar dez anos para que a
organizações, as administrações, a ciência. etnometologia encontrasse o seu lugar na paisagem
cultural francesa. As primeiras publicações vão surgir
A despeito de ou talvez por causa desses vínculos ern 1973 23 . Em 1981, Christian Bachmann, Jacqueline
mantidos com a atividade sociológica habitual, a_e_tn.o, Lindenfeld e Jacky Simonin publicam uma obra inti-
metodologia' vai constituir o ob'eto em 1975 de novo tulada Langage et communications sociales (Hatier)
ataque espetacular da parte dectewrs os então que consagra um capítulo à etnometodologia. Somente
Presidente da Associação Americana U -S-d-ciologia20 . dez anos depois é que são defendidas algumas teses de
Ele vai apresentar a coj -rente etnorretodolóa_como inspiração etnometodológica 24 . E recentemente, fora
uma s-eita. --dujo desenv—Olvimento poderia a-nie_ago o das grandes publicações sociológicas oficiais, algumas
futuro-a-é-lb- da as,ociplogia americana. A esses ataques
Don Zimmerman de um rc-i-croeHugh Mehan e Houston
Wood, de outro, vão responder no ano seguinte. 21
22. P.P. Giglioli e A. Dal Lago, 1983: Etnometodologia, Bologna, Il Molino.
23. N. Herpin, 1973: Les sociologues américains et le siècle, Paris, PUF,
"Sup"; E. Veron, 1973: Vers une logique naturelle des mondes soxiaux,
19. D.H. Zimmermann e M. Pollner, 1970: The Everyday World as a Communications, 20.
Phenomenon, em: J.D. Douglas (Ed.), Understanding Everyday Life, 24. P. Paperman, 1982: Le travou!: routines et ruptures du sens cornmun,
Londres, Routledge & Kegan Paul, p. 80-103. tese de doutorado de 3 2 ciclo, Université de Paris VIII; L. Pierrot, 1983:
20. L.A. Coser, 1975: Presidential Address: Two Methods in Search o!' a Interactions sociales et procédures cognitiues de production de sens. Le
Substance, American Sociological Reuiew, 406 (dez.), p. 691-700. trauail pour les femmes immigrées, tese de doutorado de 3 9 ciclo, Uni-
21. H. Mehan e 1-1. Wood, De-secting Ethnomethodology, p. 13-21; D.H. versité de Provence; A. Ogien, 1984: Positiuité de la pratique. L'interuen-
Zimmerman, A Reply to Professor Coser, The American Sociologist, 11 tion en psychiatrie comme argumentation, tese de doutorado de 3' ciclo,
(fev.), 1976, p. 4-13. Université de Paris VIII.

BIBLIOTECA
DE CIÊNCIAS
26 27
HUMANAS E

revistas dedicam um dossiê à Etnometodologia (cf.
Bibliografia no fim do volume), A partir dos meados
dos anos '80, ela é ensinada na Maison des Sciences de Capítulo III
l'Homme, em Paris, e em várias universidades, parti-
cularmente Paris VII (Etnologia) e Paris VIII (Ciên-
cias da Educação e Sociologia), 'Dolosa e Nice. Os Conceitos-chave da
Etnometodologia

A etilnletadologialorjou para si, com Garfinkel, um


vocabulário particular. Mas nem sempre é novo, pois
ora toma de empréstimo alguns de seus tersos_ alhu-
res: a indicialidade da lingiUstica, a reflexividade da
fenomenologig, a noção de -membro de Parsons: ora
retoma termos da linguagem corrente modificando-
lhes o sentido. É o que acontece, por exemplo, com as
noções de prática ou de accountability. Mas o que
acima de tudo impressiona, na etnometodologia, é a
complementaridade e a solidariedade de seus concei-
tos. Vamos apresentar aqUi - os mais acessíveis para
quem descobre a etnometodologia.

1. Prática, realização

Desde as primeiras linhaá do Primeiro Capítulo


dos Studies, intitulado "O que é a etnometodologia?",
Garfinkel nos indica que seus, estudos
"abordam as atividades rá_tigas, as circunstânciasprá-
ficas e o raciocmo sociológico prático, como ternale
e—stUdoempíïiéc-i:C-o-n-c-ed—
-- en-do às atividades corriqueiras
da vida cotidiana a mesma atenção que habitualmente
se presta aos acontecimentos extraordinários, tentaremos
compreendê-los como fenômenos de direito pleno".

28 29
a ao
V(.4 1./U.J.
da sociologia, assim como as normas, as regras, as
atividades práticas e, em particular, o raciocínio prá- estruturas, provêm do fato de que a construção do
tico, quer seja profissional ou não. dispositivo sociológico pressupõe a existência de um_
Let_nonetedologia
__ é a pesquisa empírica _ dos mé- mundo significante exterior e indepenente
todos que os indivíduos utilizampar-aTdar sentido e _ ao rapes ..sopais. --P--ara-a sociologia essas hipóteses se
mesmo tempo realizar as suas ações de todos os dias: tornam -de fato recursos implícitos.
comunicar-se, tomar decisCies, racioéinar."12-araPietno- O que a saciologia chama de "modelos" é conside-
metodblUg-os, a etnometodologia será, portanto, o estu- rado pela etnometodologia como "as realiza_ções_contí-
do dessas atividades cotidianas, quer sejam triviais ou nuas. dos .atores". Para a etnometodologia, mesmo
eruditas, considerando que a própria sociologia deve quando os fatos os contradizem, os sociólogos dão um
ser considerada como uma atividade prática. Como jeito para encontrar explicações que se conformem a
observa Georgersathas, a etnometodologia se apre- suas hipóteses preestabelecidas, em particular a da
senta como "uma práticasbcial reflexiva que procura "constância do objeto". A etnometodologia substitui
explicar os métodos,cle todas as práticas sociais, inclu- esta hipótese da "constância do obj_etQ" pela de "proces-
sive_os_seus_próprias n-iétoros" 1 .if
cIL:ere)- o-s nisto so".
dos sociólogos qüe geralmente consideram o saber do
senso comum como.:j.~-ia "Onde outros vêem dados, fatos, coisas, a etnometodo-
sociologia logia vê um processo através do qual os traços da apa-
dologi
—r----iiiriWirsTp_re=as.
_a___Eu e: vo- : -e-bitip ortamento s-cl e- "antiga" rente estabilidade da organização social são continua-
senso comum_como os constituintes necessários . de mente criados" 2.
"todo_comportamento socialmente organizado".
Em um artigo que se tornaria célebre, Garfinkel e
Os etnometodólogos têm a pretensão de estar mais Sacks afirmam (p.__353)_que__"os. fatos _sociais_,são_ as
perto das realidades correntes da vida social que os realizações dos membros".. A realidade social é cons-
ouro s 5-rna-se necessária uma volta à tantemente criada pelos atores,.não_é_um..dado_pree ;
experiência, e isto exige modificar os métodos e as xlstente. dor esse motivo, por exemplo, a etno-
técnicas de coleta , dos dados bem como da construção ~agia dá tanta atenção ao modo como os mem-
teórica. Os etnometociólogos trabalham efetivamente brostomar deEiões. Em vez de fazer a hipótese, que
com a hipótese que os fenômenos cotidianos se defor- os atores seguem regras, o interesse da etnometodolo-
mam quando exarninadps através da "grade da descri: gia é pôr em evidência os_métodospelsts_quais nq }-1f.nríN9
ção científica". As descrições sociológicas ignoram a "atualizam". essaoregras. E o que as faz observáveis e
experiência prática do ator, considerado como um ser descritíveis. As atividades práticas dos membros, em
irracional. Os-etnometodólngos rejeitam as hipóteses
tradicionaio• da sociologia—sobre a .realidade„_social,
Segundo eles, os sociólogosupõem a priori que um
sistema estável de normas e significações partilhadas
pelos atores governa toda sistema social. Os conceitos 2. M. Pollner, 1974: Sociological and Common-Sense Modele of the Labeling
Process, in: R. Urner (Ed.), Ethnomethodology, Harmondsworth, Pen-
guin Books, p. 27-40.
3. Garfinkel e H. Sacks, 1970: On Formal Structures of Practical Action,
H.
1. G. Paatha.s, 1980: Approaches to the Study of the World of Everyday Life, em: J.C. McKinney e E.A. Tiryakian (Eds.), Theoretical Sociology:
Human Studies, 3, p. 3-17. Perspectives and Deuelopments, Nova York, Appleton-Century-Crofts, p.
337-366.

30 31
suas atividades concretas, revelam as regras e os mo- lógicos e dos lingüistas. Podem-se definir como indicia-
dos de proceder. Noutras palavras,. a observação aten- lidade todas as determinaçõeS que se ligam a uma
ciosa e a análise dos _processos apli cados nas ações palavra, a uma situação. Indicialidade é um termo
permitiriarri'Or em evidAiiCia os modos..de. proceder técnico, adaptado da lingüística. Isto significa que,
pelos quais os..at-o-i'es. interpretam constantemente a embora uma palavra tenha uma significação trans-si-
realidade social, inventam a vida em uma.permanente tuacional, tem igualmente um significado distinto em
briélaagm,...~rtanto de importância capital ob- toda situação particular em que é usada Sua com-
servar como os atores de senso comum o produzem e preensão profunda passa por "características indicati-
tratam a informação nos seus contatos e como utilizam vas »5 e exige
• dos indivíduos que "vão além da informação
a linguagem como um recurso. Em suma, como fabri- que lhes é dada".
cam um mundo "racional" a fim de nele poderem viver.
ti
Isto designa portanto a incompletude natural das
palavras, que só ganham o seu sentido "completo" no
seu contexto deprodução,quando são "indexadas" a
:- 2. A indicialidade. uma situação de intercâmbio lingüístico. E ainda: a
indexação não esgota a integralidade do seu sentido
A vida sociaLse constitui através_dalinagen: não potencial. A significação de uma palavra ou de uma
a dos gramáticos, e dos lingüistas, mas a da vida de expressão provém de fatores contextuais como a bio-
todos os dias. Uma pessoa =versa com as outras, gr~o_locutor, sua intenção imediata, a relação
recebe ordens, respondaa perguntas, ensina, descreve única que mantém com seu ouvinte, suas conversações
livros de sociologia, vai ao mercado para as compras, passadas. O mesmo se diga quanto às conversas ou
compra e vende, .mente e trapaceia, toma parte em quanto aos questionários utilizados em sociologia: as
reuniões, faz entrevistas, tudo isso usando a mesma palavras e as frases não têm o mesmo sentido para
lingua. A partir dessa constatação é que se desenvolve todos, e no entanto o tratamento "científico" que o
a interrogação etnometodológica sobre a linguagem. sociólogo é levado a fazer dessas conversas faz como se
Os sociólogos usam em suas pesquisas, em suas existisse uma homogeneidade semântica das palavras
descrições e interpretações da realidade social, os mes- e uma adesão comum dos indivíduos ao seu sentido. A
mos recursos lingüísticos que o homem ordinário, a linguagem natural é um recurso obrigatório de toda
linguagem comum. Os sociólogos passam o tempo "à pesquisa sociológica.
procura de remédios para as propriedades indiciais do Para Garfinkel, as características das expressões
discurso prático" 4 . Epta idéia, as expressões da lingua- indiciais devem ser estendidas ao conjunto da lingua-
gem ordinária são indiciais, não encontra sua origem gem. Segundo a sua convicção, o conjunto da lingua-
na etnometodologia. As expressões indiciais são ex- gem natural é profundamente indiciai, na medida em
pressões, como por exemplo "isto", "eu", "você", etc., que, para cada membro, o significado de sua lingua-
que tiram o seu sentido do próprio contexto. Constituí- gem cotidiana depende do contexto em que esta lingua-
ram já há muito tempo o objeto da preocupação dos


4. Garfinkel e Sacks, 1970: On Formal Structures of Practical Action, op. 5. Y. Bar Binai, 1954 (abril): Indexical Expressions, Mind 63, 250, p.
/i cit., p. 339. 359-387.

32 33
F"
~kr LULU!,
ções sociais, aquelas que fazem a vida de todos os dias,
sentido independentemente das suas condições de uso têm uma interminável indicialidade, e o sociólogo se
e de enunciação. acha diante de "uma tarefa infinita de substituição por
Wilson e Zimmerman (p. 57-58) 6 dão o exemplo expressões objetivas das expressões indiciais" 9 .
desta palavra enigmática, rosebud, pronunciada por Por isso Garfinkel cita Husserl que falava
Kane em seu leito de morte, em Citizen Kane, o filme
de Orson WelleS. O filme é inteiramente construído em "de expressões cujo sentido não pode ser decidido por
torno da buscado significado dessa palavra, o autor do um ouvinte sem que necessariamente saiba ou presuma
roteiro nos arrasta para diversos caminhos que logo se alguma coisa sobre a biografia e os objetivos do usuário
da expressão, das circunstâncias do enunciado, do curso
verificam serem impasses e, no momento em que se vai anterior da conversação ou da relação particular da
renunciar, como as personagens do filme, a compreen- interação atual ou potencial que existe entre o locutor e
der, pode-se entrever, nos últimos segundos do filme, o ouvinte" (Studies, p. 4).
apalavra escrita .no-pequeno--trenó.-de Kane, quando
criança que acaba de ser lançado ao fogo pelos encar- Assim, diz-nos P. Pharo,
resad.Qs_darmiciEi4a.-Só então é que se pode compreen- "A indicialidade não se relaciona s6 com esses termos,
der o sentido ç o caráter pungente dessa última palavra chamados pelos lingüistas de dêicticos (isto é, indicado-
de Kane, depois de se perder em interpretações intermi- res de pessoa, de tempo e lugar envolvidos na interação),
náveis e não satisfatórias, presos nos meandros do mas de modo mais geral com todas as expressões da
caráter irremediavelmente indicial do discurso e da linguagem ordinária cujo sentido, enquanto ocorrência
ação'. de palavras-tipos, não se pode nunca reduzir pura e
simplesmente à significação 'objetiva' das palavras da
Essa noção de indicialidade foi transposta pela expressão".
etnometodologia para as ciências sociais. Ela, quer
dizer que todas as formas simbólicas, como os enuncia- Uma expressão da linguagem corrente foi minucio-
dos, os gestos, as regras, as ações, comportam uma samente analisada por diversos etnometodólogos m :
"margem de incompletude" que s6 desaparece quando trata-se da expressão "et caetera".. Ela desempenha
elas se produzem, embora as próprias compleções muitas vezes a função de complemento de demonstra-
anunciem um "horizonte de incompletude" 8. As situa- ção, subentende: "Você sabe muito bem o que quero
dizer, não preciso insistir, definir com precisão tudo

9. P. Pharo, 1984: L'éthnométhodologie et la question de l'interprétation,


6. T.P. Wilson e D.H. Zirnmerman, 1979-1980: Ethnomethodology, Sociology em: "Argumento ethnométhodologiques". Problèmes d'épistémologie en
and Theory, Humboldt Journal of Social Relations, 7, 1, p. 752-88. sciences sociales, III, Paris, CEMS-EHESS, p. 145-169.
7. Observemos que as obras-primas de ficção, quer sejam cinematográficas 10. E. Bittner, 1963: Radicalism: A Study of the Sociology of Knowledge,
ou literárias, exploram sempre a indicialidade imensa, irredutível, da Americam Sociological Reuiew, 28, p. 928.940; A. Cicourel, 1970: The
linguagem e das situações. Aqueles que são considerados ,como os me- Acquisition of Social Structure: lbward a Developmental Sociology of
lhores cineastas, ou os melhores escritores, parecem saber explorar Language and Meaning, em: J.D. Douglas (Ed.), Understanding Euery•
melhor esses fenômenos de indicialidade, isto é, aqueles que nos permi- day Life, Londres, Rotledge & Kegan Paul, p. 136.168; H. Sacks, 1963:
tem, não saturando o seu relato, pôr em cena o nosso imaginário. Sociological Description, Berkeley Journal of Sociology, 8, p. 1.16; trad.
franc. Jacqueline Robert e Alain Coulon. Cahiers de recherche Ethno.
8. H. Mehan e H. Wood, 1975: The Reality of Ethnomethodology, New York, méthodologique, n. 1, abril de 1993, Laboratoire de recherche ethnomé-
Wiley-Interscience, p. 90. thodologique, Université de Paris VIII.

34 35
aquilo que se relaciona com aquilo que acabo de dizer, às ciências antropo-sociais, extirpar as expressões in-
você pode facilmente completar por si mesmo, conti- diciais, a fim de substituf-lás por expressões objetivas.
nuar a minha demonstração, encontrar outros exem- Mas trata-se de uma tarefa muito difícil, e mesmo
plos para a miniia enumeração, et caetera". A regra do impossível, pois como decidir que esta expressão é indi-
"et caetera" exige que um locutor e um ouvinte aceitem ciai, ao passo que aquela é objetiva? Por isso Garfinkel,
tacitamente e assumam juntos a existência de signifi- mesmo que não tenha certamente introduzido o con-
cações e de compreensões comuns daquilo que se diz ceito de indicialidade, sugere que se examine de ma-
quando as descrições são consideradas evidentes, e neira diferente: as expressões indiciais não constituem
mesmo que não, sejam imediatamente evidentes. Isso expressões parasitas no &Correr de nossas conversas
manifesta a idéia de existir um saber comum social- de-cada-diltr-SkTgel t5--rriesCOi
n r rios e en isdtuU-
mente distribuído. A isso Cicourel deu o nome de vos desse discurso cons ilTi25 graças ao seu uso. A
"caráter retrospectivo-prospectivo dos acontecimen- linguagem cotidiana tem um. senirdo ordinárioTiiie as
tos", que se acha bem "significado" na regra do "et pessoas não sentem dificuldade para compreender. A
caetera" e de suas sub-rotinas: inteligibilidade de nossos diálogos, mais do que sofrer
por sua natureza indiciai, dela depende, e é o conheci-
"Expressões vagas, ambíguas ou truncadas, são identi- mento das circunstâncias do` enunciado que nos permi-
ficadas pelos membros, que lhes dão significações con-
textuais e transcontextuais, graças ao caráter retros- te atribuir-lhes um sentido preciso. E assim, ao invés
pectivo-prospectivo os acontecimentos que essas expres- de criticar a linguagem ordinária porque seria incapaz
sões descrevem. Os enunciados presentes dos fatos des- de explicar um certo númerO de princípios metodológi-
critos, que comportam nuances ambíguas ou cos, Q.arfualceLse_propõe-esturlá-in considerando o seu
previsíveis, podem ser examinados prospectivamente caráter indiciai não como um defeito, mas como uma
pelo locutor-ouvinte em seus sentidos potenciais futu- de..s. uaiiirilicipaTãcaractgrísticas,procurando como é
ros, supondo assim que a completude das significações que_usamma linguagem ordinária dando sentido, de
e das intenções presentes se manifestará mais tarde. Ou uma maneira rotineira.abanal,..à&expLes 'sães
então comentários passados podem de repente clarificar
enunciados presentes. Os princípios de completude e de Falar de indicialidade significa igualmente que o sen-
conexão permitem ao ator manter um sentido da estru- tido é sempre local e não tem generalização possível,
tura social, além do tempo dos relógios e do da experiên- contrariamente ao que nos desejariam fazer crer as
cia, a despeito-Ido caráter deliberadamente vago, ou ciências antropo-sociais. Isto quer dizer que uma palavra,
considerado tal, da informação transmitida pelos atores por suas condições de enunciação, uma instituição, por
no decorrer de seus intercâmbios" 11 . suas condições de existência, só podem ser analisadas
Para os ló 'cos as ex ressões indiciais_ são vistas tomando em conta as suas situações. Por conseguinte,
como In nvenientes, pois não permitem enunciar pro- a análise dessas situações indiciais nunca termina:
posições gerais, 'ou decidir acerca da verdade d.e- urna "Atentativa de limpar o mundo das expressões indiciais,
coisa quandiá-iignoram as circunstâncias contextuais que é uma tentativa de substituir por expressões obje-
de sua préaiifflO.,Daí, mulids vezes, os sociólogos ten- tivas as expressões indiciais, torna-se um tema de des-
tarem, e de modo ainda mais geral os que se dedicam crição e análise ao invés de um esforço para resolver o
problema" 12.

• 11. A. Cicourel, 1972: Cognitivo Sociology: Language and Meaning in Social


Interaction, Nova York, Free Prese, p. 87; a obra está disponível em 12. D. Benson e J.A. Hughes, 1983: The Perspective of Ethnomethodology:
tradução francesa: La sociologie cognitiue, Paris, PUF, 1979. Londres e Nova York, Longman, p. 115.

36 37
3. A reflexividade ajudar os outros a satisfazer o seu comportamento
desviante, nunca confiar nos educadores, etc. As regras
Pablo se 'acha internado em um estabelecimento de do código se tornam aos olhos dos internados máximas
readaptação`para toxicômanos. Ume represálias da de conduta: por exemplo, nunca delatar é sempre ficar
parte de um outro detento recentemente posto em
,
longe e em atitude desafiadora em face dos guardas,
liberdade coridiçional e que em breve chegará também para mostrar claramente aos outros que não há perigo
ao centro. Pablo entra em pânico diante da idéia de o de algum dia delatar os outros tendo logo adotado uma
outro achar que ele é um delator. Alguns anos antes, atitude de proximidade ou simples cordialidade para
eles consumiam e vendiam drogas juntos. Ambos fo- com os guardas. Trata-se de um modo não verbal de
ram detidos, mas, somente o outro foi condenado. As- dizer o código.
sim, Pablo acha que o outro deve pensar que ele o
Wieder ilustra aquilo que denomina uma formula-
denunciou, mas não é verdade. Quer deixar o estabe-
ção reflexiva (p. 152), repetindo a expressão de Pablo:
lecimento, para evitar represálias, inclusive dos seus
"Você sabe muito bem que não sou um delator". A
atuais companheiros que, sabendo de sua propalada
análise desse enunciado faz aparecer diversos elemen-
delação, poderão agredi-lo, talvez até mesmo assassi-
tos:
ná-lo. Sua "confissão" coloca Lawrence Wieder 13 na
pista do código implícito em vigor entre os detentos. —Enuncia o que acaba de se passar, por exemplo: "Você
Wieder certamente já descobrira, desde o começo do me convidou a delatar".
seu estudo sobre o centro, a existência de tal código, — Formula aquilo que o jovem faz quando diz: "Minha
como existe em todos os centros de detenção, mas resposta é não responder".
jamais tivera a ocasião, exceto no "caso Pablo", de — Formula o "motivo" da não resposta, a saber, a lei do
analisar casos de, delação, de ver funcionando esse "silêncio.
código. Mas Rabio, durante uma conversa, diz a um —Indica a distância permanente e institucionalizada
educador do centro: "Você sabe muito bem que não sou entre um detido e um educador, um vigilante ou um
um delator". sociólogo.
Os detidos falavam facilmente desse código, verda- —Corta de saída a possibilidade da solicitação potencial
deira ordem moral que regia seus comportamentos daquele que faz as perguntas, que está do outro lado da
cotidianos, bem como dos castigos aplicados aos "puxa- barreira.
sacos, delatores e aos maricas". Esse código, constan- Pode-se dizer que os primeiros elementos fazem
temente aplicado mas não formalizado dessa•maneira referência à interação; os segundos, ao contexto insti-
pelos detidos, se referia portanto em primeiro lugar à tucional que funda, segundo Parsons, as relações entre
delação, mas também por exemplo ao fato de não se os papéis. Mas se estes aspectos, como observa Wid-
queixar dos roubos de que se é vítima, compartilhar ou mer 14 postos em destaque pela análise de Wieder,
,

vender aos outros detidos a droga que se conseguiu, podem levar a pensar em uma demarche de análise

14. J. Widmer, 1986: Langage et action sociale. Aspects philosophiques et


13. D.L. Wieder, 1974: IbIling the Code, em: R. '111rner (Ed.), Ethnometho- séntiotiques du langage dans la perspective de l'ethnométhodologie, Tese
dology, op. cit., p:'144472. de doutorado em Letras, Universidade de Friburgo, Suíça.

38 39
sociológica, na realidade estamos sempre no terreno ao mesmo tempo estrutura a situação. Pode aflorar à
da etnometodologia. Com efeito, admite-se que tudo linguagem.
aquilo que é realçado pela análise permanece ampla- Não se deve confundir a reflexividade com a refle-
mente implícitorna resposta do jovem interno. É uma xão. Quando se diz que as pessoas têm práticas refle-
maneira de atualizar o código em uma fórmula que é xivas, isto significa que refletem sobre aquilo que
exigida pela situação presente, pela interação. Como a fazem. Os membros não têm evidentemente consciên-
codificação do saber mágico de Don Juan, descrito por cia do caráter reflexivo de suas ações. Seriam incapa-
Castafieda", é uma tradução analítica de um conheci- zes, caso disso tomassem consciência, de dar prosse-
mento vernacular, a análise da lei do silêncio, da guimento às ações práticas a que se entregam. Como
mesma forma é também um discurso erudito, analíti- o frisa Garfinkel, os membros se desinteressam pelas
co, sobre uma espécie de linguagem secreta do interdi- circunstâncias práticas e ações práticas enquanto te-
to que traduzi a lei implacável do grupo de delin- mas. Não se preocupam em teorizar e
qüentes. Lei que não se formula na realidade a não ser "consideram essa reflexividade como algo evidente. Mas
em situação e em uma interação concreta. reconhecem, demonstram 'e tornam observável a cada
Wieder apresenta de início a lei do silêncio dos um dos outros membros o caráter racional de suas
práticas concretas — o que significa ocasionais — embora
jovens do centro como o faria um sociólogo descrevendo / considerando essa reflexividade como uma condição
leis informais em "subculturas desviantes". Mas a inalterável e inevitável de suas pesquisas" (Studies, p.
seguir ele acentua o aspecto reflexivo e interacional 9, e "Arguments", p. 61-65).
dessaa.formulações. ic-rérao silêncio" é constitutiva da Em vez de considerar a reflexividade_ comc _um
situação. A linguagem constitui o mundo, no decorrer cama-m-116 para a manufeijão: e a compreensão c.ta _
das atividades indiciais. Não existe um lugar a partir ordem social,GarfinkeLa torna ao cOntrário como uma
do qual o mundo seria produzido; ele se auto_produz. O condição primeira.
código não é uma coisa exterior à situação. É algo de
prático, com enunciados indiciais. A interação "diz" o Areflexividade designa portanto aspráticas que ao,
código. Não se pode separar o código daquilo que está mesmo
. ._ tempo
__. descreveme constituem eo quadro social.
É a propriedade dío.1" —SITVICWesque pressupõem' ao
codificado, isto é, o interdito constantemente ativado
mesmo tempo que tornam observável a mesma coisa.
nas ações, no momento em que surge o perigo de No decorrer de nossas atividades ordinárias, não pres-
transgressão do interdito. Pablo corre o perigo da
transgressão. O código emerge porque Pablo teme que
tamos atenção ao fato de que ao falar construímos ao
mesmo tempo, enquanto fazemos nossos enunciados,
o código lhe seja aplicado. O código não é o objeto de o sentido, a ordem, a racionalidade daquilo que esta-
conversações, de comentários mundanos entre os de- mos fazendo naquele momento. As descrições do social
tentos; ele é vivido. O código é geralmente tácito, mas se tornam, assim que proferidas, partes constitutivas
daquilo que descrevem:
"Para os membros da sociedade, o conhecimento de
senso comum dos fatos da vida social é institucionaliza-
do como conhecimento do mundo real. O conhecimento
de senso comum não pinta apenas uma sociedade real
15. C. Castafieda, 1972: A Journey to 'aliem, Nova York, Simon & Schuster. para os membros, mas, à maneira de uma profecia que

40 41
se realiza, as características da sociedade real são pro- Suicídio de Los Angeles (SPC em inglês), o caso Inês,
duzidas pela aquiescência motivada das pessoas que já a. descoberta do pulsar ótico e enfim uma conversação
alimentam essas perspectivas" (Studies, p. 55). ordinária relatada e analisada nos Studies. Examina-
.escrever iim A AituaçÃo é constitui -la,A reflexivi- remos os dois primeiros exemplos neste capítulo; va-
dade designa a. equivalência entre descrever e produiii.— mos nos encontrar de novo com os dois outros quando
interação, entre a compreensão e a expressão uma apresentarmos os terrenos de aplicação da etnometo-
dess_ac.ompreensão .. E vamos ver que Garfinkel chama dologia.
cle-acount o suporte, b vetor, o veículo dessa equivalên- O estudo das atividades do SPC aparece no primei-
cia. "Fazer" uma interação é o mesmo que "dizer" a ro capítulo dos Studies. Este Centro realiza, a pedido
interação: &reflexividade pressupõe do juiz, pesqUisas sobre casos de morte não natural.
"que as atividades pelas quais os membros produzem e Deve estabelecer se • se trata de suicídio ou de outra
administram as situações de sua vida organizada de coisa. Garfinkel quer saber se as sondagens do pessoal
todos os dias sãO idênticas aos procedimentos usados do SPC são comparáveis, por seu procedimento de
ra tornar essas situações descritíveis" (Studies, p. 1). senso comum e de sociologia leiga, às deliberações do
júri de um tribunal, à seleção dos doentes para um
4. A accountability tratamento psiquiátrico ou aos procedimentos de codi-
ficação do conteúdo de dossiês médicos por estudantes
No prefácio aos Studies, escreve Garfinkel: de sociologia, bem como "aos procedimentos profissio-
"Os estudos etnometodológicos analisam as atividades nais, dos mais diversos, aplicados na realização de
cotidianas dos.membros como também dos métodos que uma sondagem antropológica, lingüística, psiquiátrica
fazem essas mesmas atividades visivelmente racionais
e relatáveis a, todos os fins práticos, isto é, descritíveis ou sociológica". Na conclusão deste mesmo capítulo,
(accountable), enquanto organização ordinária das ati- Garfinkel enuncia algumas recomendações que cons-
vidades de todos os dias". tituem um elemento importante de metodologia em
Louis Quéré 6, sublinha "duas características im- matéria de pesquisa etnometodológica.
portantes da accountability: ela é reflexiva, é racional. Quéré comenta essas recomendações sublinhando
Dizer que ela é reflexiva é o mesmo que sublinhar que que existem dois níveis de análise: o da auto-organiza-
a accountability' de uma atividade e de suas circuns- ção do Centro de Pesquisas — o SPC — e o dos accounts,
tâncias é... um elemento constitutivo dessas ativida- ou da representação do outro:
des". Dizer que é 'racional significa "sublinhar que ela
"No primeiro nível o SPC se auto-organiza comoreali-
é metodicamente produzida em situação, e que as dade objetiva ordenada, finalizada, dotada de naciona-
atividades são inteligíveis, podem ser descritas, e ava- lidade e coerência. Esta auto-organização se traduz por
liadas sob o aspecto de sua racionalidade". Quéré vai arranjos materiais, por uma divisão do trabalho, pela
pedir emprestados de Garfinkel quatro exemplos de definição de procedimentos de pesquisa, de procedimen-
accountability: o estudo do Centro de Prevenção do tos de constituição e de revisão de dossiês, de métodos
de arquivamento, pelo acúmulo de recursos (informações,
redes de informações, agendas com endereços, etc.). No
segundo nível, o organismo constrói, mediante práticas
16. L. Quéré, 1984: L'argument sociologique de Garfinkel, em: 'Argumente
de investigação e interpretação sobre si mesmo, accounts
ethnométhodologiquee", p. 100-137. em que ele se lança no palco como se fosse realidade

42 43
objetiva, dotada de lidentidade, finalidade e estrutura de mal". Essa produção do seu ser-mulher é uma tarefa
ordem (racionalidade, coerência, eficiência, clareza...). prática que não cessa, jamais acabada, pois ela não
Os membros têm à sua disposição, a partir dos accounts, possui um domínio rotineiro da feminilidade. Ela deve
que lhes são fornecidos e que contribuem para produzir, ao contrário controlar continuamente as próprias ati-
uma representação do organismo como realidade obje- tudes, quando come, quando vai à praia ou quando
tiva, racionalmente ordenada em função de fins ou de
dissimula a sua anatomia dia.nte da amiga com a qual
razões sociais. Esses accounts, deste modo, são parte
integrante de suas circunstâncias práticas e informam partilha o apartamento. Mostra assim, segundo a fór-
a sua atividade de pesquisa; fornecem-lhes recursos mula cara a Simone de Beauvoir: "Ninguém nasce
para ao mesmo tempo garantir a inteligibilidade, a mulher; torna-se". Em geral se nasce em um corpo de
descritibilidade e a racionalidade de suas práticas e , varão ou de mulher, mas em seguida é preciso tornar-
produzi-las q6Mo práticas ordenadas e racionais" (Qué- se culturalmente um rapaz ou uma moça e mostrar ao
ré, p. 104). mesmo tempo para o próprio círculo o caráter efetivo
Aqui se pode compreender que os etnometodólogos da masculinidade ou da feminilidade.
procuram definir e teorizar a accountability, dizer em A accountability, aqui, é esta "exibição" da perso-
que os accounts são "informantes" ou "estruturantes" nalidade sexual nas atividades e nos comportamentos
da situação de enunciação". de cada dia. É sua declaração constantemente renova-
O segundo exemplo proposto por Quéré é a história da, ao passo que de modo geral ela se vive como natural
de Inês, que ocupa todo o quinto capítulo dos Studies. por ser rotineira. Mas Inês deve tomar cuidado no
modo como faz essa "auto-apresentação", a fim de se
Inês é um transpxual que decidiu tornar-se mulher mostrar corno um "caso da coisa real". O trabalho de
e pediu para ser operado na clínica da UCLA, onde se
instituição da sexualidade em cada um de nós é geral-
apresentou em 1958, quando tinha 19 anos. Mandou
extrair o pênis e substituí-lo por uma vagina..Garfin- mente escondido e olvidado, mais ou menos como em
kel invervém no caso a título de perito no contexto de Karl Marx os produtores esquecem a produção da
_uma pesquisa sobre a transexualidade, organizada mercadoria no processo da reificação". Essa reificação
pela clínica. Durante 35 horas ele conversa com Inês, e esse esquecimento surgem como efeito das
que a esta altura trabalha como secretária. Ele a "disposições mediante as quais a sociedade esconde de
descreve como seus membros as suas atividades de organização e os
leva assim a apreender os seus traços como objetos
"uma moça bonita, com medidas impressionantes, uma determinados e independentes" (Studies, p. 182).
pele feminina, totalmente imberbe, maquiagem discre-
ta, de porte fino, 'com pés um pouquinho grandes, voz Dizer_que-o_mundo_soci RI é _CLCCO untable__signifi c a
doce, feminina, m ias grave". que ele é algo disponívetást_oLdescritível tinteligível,
Garfinkel mostra que Inês deve continuamente relatámgL_aualiaáxd, Essa analisabilidade do mundo
exibir, em todas; as atividades da vida cotidiana, as social, a sua descritibilidade e sua objetividade se
características ctilturais da mulher considerada "nor- mostram nas ações práticas dos atores. O mundo não

1'7. D.H. Zimmermann e M. Pollner, 1970: Understanding Everyday Life. 18. Sobre este processo de reificação, cf. J. Cabal, 1962: La fausse conscien-
Londres, Routledge & Kegan Paul. ce. Paris, Minuit.

44 45
F ui uuuas. cale se realiza em nossos 5. A noção de membro
atos práticos.
No vocabulário etnometodológico a noção de mem-
Então a etnometodologia
bro não se refere à pertença social mas ao domínio da
"aborda os relatos do mundo social feitos pelos seus linguagem natural;_
membros como realizações em situação, não como indí- "A noção de membro constitui o fundo do problema. Não
cios daquilo que se passa verdadeiramente. A etnome- usamos o termo em referência a uma pessoa. Refere se -

todologia, de modo geral, se preocupa em elucidar a sobretudo ao domínio da linguagem comum, que ouvi-
maneira, como os relatórios ou relatos, ou as descrições mos da maneira seguinte. Afirmamos que as pessoas,
de um acontecimento, de uma relação ou de uma coisa, por causa do fato de falarem uma linguagem natural,
são produzidos em interação, de tal modo que atingem acham-se de certa forma empenhadas na produção e na
um estatuto metodológico claro, por exemplo estabele- apresentação objetivas do saber de senso comum de seus
cido ou ilusório, objetivo ou subjetivo etc." negócios cotidianos enquanto fenômenos observáveis e
relatáveis.
Contrariamente ao que às vezes se pretende, os
etnometodólogos não tomam como descrições da reali- Com uma freqüência e uma insistência universais,
dade social os relatórios dos seus atores. A análise os membros empregam fórmulas destinadas a reme-
diar o caráter indicial de suas expressões e, concreta-
desses relatos ou relatórios não lhes é útil a não ser na
mente, procuram substituir as expressões indiciais por
medida em que mostra como os atores reconstituem expressões objetivas" 2° .
permanentemente uma ordem social frágil e precária,
a fim de se compreenderem e serem capazes de inter- Parece até que Garfinkel teria passado da concep-
ção parsoniana da noção de membro, que insistia na
câmbio. A propriedade dessas descrições não é a de
collectivity membership 21 , isto é, o fato de pertencer a
descrever o mundo, mas de lhes mostrar sem cessar a uma comunidade, àquela, mais "lingüística", que su-
constituição. É o, sentido que se deve dar, em todos os blinha o domínio da linguagem natural.
estudos etnometodológicos, à expressão, tão repetitiva
e tão misteriosa, de account: se eu descrevo uma cena Mais recentemente, conversando com Bennetta
Jules-Rosette 22 , Garfinkel volta a usar o conceito de
da minha vida cotidiana, não o faço enquanto ela me membro e rejeita mais nitidamente ainda que em 1970
"diria" o mundo que minha descrição pode interessar a definição parsoniana do "membro":
a um etnometodólogo, mas enquanto essa descrição,
"Em uma fórmula-manifesto, falo da produção local e do
em se realizando, "fabrica" o mundo, o constrói. Tornar caráter naturalmente `disponível-e-favorável' da ordem
o mundo visível significa tornar a minha ação com- social. Nossas pesquisas nos remetem fatalmente a
preensível, descrevendo-a, pois eu mostro o seu sentido Merleau-Ponty, para reaprender o que ele nos ensinou:
pela revelação a outrem dos processos pelos quais eu a nossa familiaridade com a sociedade é um milagre sem
a relato.

20. H. Garfinkel e H. Sacks, 1970: Ori Formal Structures of Practical Action,


op. cit., p. 342.
21. Garfinkel indica mui claramente, nas notas das páginas 57 e 76 dos
Studies, que a expressão collectivity membership deve ser tomada exa-
tamente no sentido que lhe é atribuído por T. Parsons, em The Social
System particularmente.
19. D.H. Zimmerman, 1976: A Reply to Professor Coser, The American 22. B. Jules-Rosette, 1985: Entretien avec Harold Garfinkel, Sociétés, n. 5,
Saciologist 11 (fev.), p. 4-13. setembro, vol. I, p. 35-39.

46 47
cessar renovado. Essa familiaridade, tal como a conce-
bemoé, abrange o conjunto das realizações da vida coti-
diana como práticas que se acham na base de toda forma Capitulo IV
de colaboração e de interação. Temos que falar das
aptidões que, enquanto competência vulgar, são neces-
sárias para as produções constitutivas do fenômeno
cotidiano da ordem social. Resumimos essas competên- Sociologia Leiga e
cias introduzindo a noção de 'membros'. Sociologia Profissional
Usar a noção de 'membros' é algo que envolve
'

riscos. Na sua acepção mais comum, para nós ela é pior


que inútil. O mesmo se diga quanto aos conceitos de
`pessoas párticulares' ou 'indivíduos'. Certos sociólogos
insistem, e segundo eles em harmonia conosco, que
temos de conceber membros como indivíduos coletiva-
mente organizados. Nós rejeitamos redondamente Em 1967, um encontro organizado em Purdue reuniu
essa alegação. Para nós, as 'pessoas', 'pessoas particu- durante dois dias cerca de duas dezenas de sociólogos,
lares' e 'indivíduos' não passam de aspectos observá- que lá estavam para discutir sobre a etnometodologia.
veis de atividades ordinárias". Durante esse colóquio Harold Garfinkel foi convidado
'Ibrnar-se um membro significa filiar-se a um gru-, pelo Presidente da sessão a precisar as relações entre
po a uma instituição, o que exige o progressivo domí- a etnometodologia e a etnociência, e a se explicar assim
nio da linguagem institu.cionalcomum.. riãrriliãgõ sobre as origens da palavra'.
repousa sobre a particularidade de cada um, sua ma- Ele então contou como, em 1954, fora levado a
neira singular de enfrentar o mundo, de 'esfar-nci- trabalhar com Fred Strodtbeck e Saul Mendlovitz, que
munasanstituições soCiaié da vida cotidiana. Uma então lecionavam na Faculdade de Direito de Chicago,
v—e-Frigados à coletividade, os membros não têm neces- sobre urna pesquisa que estavam efetuando acerca dos
sidade. de se interrogar sobre o que fazem. Conhecem jurados dos tribunais. Strodtbeck tinha secretamente
auregtaaimplicitas_ de seus comportamentos e acei- instalado microfones na sala de deliberações do tribu-
tam as rotinas inscritas nas práticas sociais. dom isso nal de Wichita, a fim de gravar as deliberações dos
não se é um,estranho à própria cultura e, ao invés, os . jurados. Garfinkel se deixara impressionar pelo fato
codiPortamenos e as perguntas de um estrangeiro de que os jurados, sem serem formados nas técnicas
podem nos parecer estranhos. jurídicas, eram capazes de examinar um crime e pro-
Um membro não é portanto apenas uma pessoa
que respira e pensa. É uma pessoa dotada de um . .
conjunto_sle.modos de agir, de métodos, de atividades, 1. As atas deste colóquio foram publicacks por Richard J. Hill e Cuthlecn
de savoirfairq, que a fazem capaz de inventar dispo- Stones Crittenden (Eds.), 1968: Proceedings of the Purdue Symposium
on Ethnomethodology, Institute Monograph Series, n. 1, Insti tu te for the
si-CiWí.-ae adaptação para dar sentido ao mundo que a Study of Social Change: Purdue University (Review Symposium in
cerca. É alguém que, tendo incorporado-os etnométo,
, American. Sociological Review, 33, 1968).
A entrevista do Garfinkel (p. 5.11) foi depois parcialmente reproduzida
dochturn grtipo social considerado, exibe "natural-. em Ilumer, 1974, op. cit., p. 15-18. Esse extrato foi por sua vez traduzido
men " a..-competência social que o_agrega_a_esse grupo em "Argumenta ethnométodologiques", p. 60-70, assim como em Socié-
—elite permite fazer-se reconhecer e aceitar. tés n. 4,1985 vol. 1,p. 5-6.

48 I 49
nunciar-se sobre a culpabilidade dos seus autores. etnometodologia ou o termo etnometodologia eram to-
Para faztgo, lançavam mão de procedimentos e de mados neste sentido".
uma lágicia,de senso comum, como por exemplo distin- Os jurados utilizam portanto etnométodos, isto é,
guir o verdadeiro do falso, o provável do verossímil, uma 16gica do senso comum que "têm dentro de si
eram capaies de avaliar a pertinência dos argumentos mesmos", que é "encarnada" e que não é uma lógica
aduzidos.,do decurso do processo: jurídica especializada tomada de empréstimo não se
"Eles samostravam preocupados com a exatidão de suas sabe de onde para as necessidades da causa:
descriçõeS, de suas explicações e de seus argumentos. "Eu tinha encontrado jurados que agiam de uma manei-
Não pretendiam estar usando o 'senso comum', quando ra muito semelhante à dos habitantes das Ilhas Molu-
utilizavam noções de 'senso comum'. Queriam agir no cas, provavelmente quando se servem da sua termi-
espírito da lei, e ao mesmo tempo queriam ser justos. Se nologia etnomédica para seus problemas de etnomedi-
você os pressionasse, no sentido de dizerem o que enten- cina... Pensei que eram situações aparentadas... No caso
diam por estar no espírito da lei, a sua atitude mudava dos jurados, o bom senso das investigações de cada um
imediatamente e respondiam: 'Não sou um jurista. Nin- dava na vista, era para todos observável e reconhecível.
guém pode verdadeiramente esperar de mim que eu Era disponível, de uma maneira ou de outra, ao olhar
saiba o que é legal e dizer-lhe. O jurista, afinal, é o singular de cada membro".
senhor!"
Isto leva Garfinkel a discernir dois sentidos, não
Havia ali práticas de avaliação, de certo modo, e de contraditórios, mas ao contrário complementares, da
julgamento, passíveis de descrição, mas que Garfinkel palavra etnometodologia:
não conseguia ainda designar por um termo adequado.
Ele encontrou o termo etnometodologia um pouco mais a) Ele faz expressamente a aproximação entre este
tarde, em 1955, parece, e conta como o "acaso" o termo novo — etnométodos — que ele tem que inventar
ajudou, não mais trabalhando com as deliberações dos para "colar um rótulo" no fenômeno que observou em
jurados, mas lendo documentos etnográficos: seu estudo sobre o trabalho dos jurados, e de outras
expressões bem definidas, tomadas de empréstimo do
"Eu estava trabalhando com o fichário das áreas trens- campo da antropologia, como a etnomedicina e a etno-
culturais de Yale. Folheei por acaso o catálogo sem a
intenção de encontrar esta palavra. Fui percorrendo os botânica. Da mesma maneira que a botânica é tratada
títulos e cheguei à secção etnobotânica, etnofisiologia e como um corpus na expressão etnobotânica, assim a
etnofísica. Ora, eu estava pesquisando jurados que apli- metodologia, na expressão etnometodologia, é conside-
cavam uma metodologia... Mas como dar um nome a rada como um tema de estudos e não é reduzida a uma
essa habilidade, mesmo que fosse apenas para me re- aparelhagem científica. As metodologias — que Garfin-
cordar de sua substância?" kel designa como "raciocínio sociológico prático" — em-
"E foi assim.que a palavra etnometodologia foi usada no pregadas pelos membros comuns da sociedade,
início. Etno sugeria de uma forma ou de outra que um observados na gestão corrente dos seus negócios coti-
membro dispõe do saber de senso comum de sua socie- dianos, vêm a ser o corpus da pesquisa etnometodoló-
dade enquanto saber 'do que quer que seja'. Se se tra- gica. Ela vai portanto interessar-se pelos métodos que
tasse de etnobotânica, estaríamos lidando, de uma eu e meus semelhantes empregamos, que nos permi-
maneira ou de outra, com o conhecimento e com a tem reconhecer-nos como vivendo no mesmo mundo.
compreensão que os membros têm daquilo que, para
eles, constituem métodos adequados para abordar ques- b) Sem terem previamente recebido alguma forma-
tões de botânica. É tão simples assim, e a noção de ção jurídica, os jurados estão de posse dos métodos

50 I 51
adequados, enquanto os membros de sua sociedade nenhum deles se pode desenrolar fora do domínio de
conhecedores da moral de sua vida cotidiana, para uma 'linguagem natural' e sem aplicar toda uma série
comprovar a 'sua competência para julgar questões de propriedades indiciais que lhe não aferentes" (ibi-
judiciárias. Esses métodos são locais, particulares de dem , p. 70).
uma "tribo", e não são logo de início legíveis para um Para os etnometodólogos, o corte epistemológico
estranho. Designá-los como "etnométodos" significa entre conhecimenta_prático e conhecimento científico
marcar a pertença desses métodos a um grupo parti- habitualmentenãoédamesturzqoc
cular, a uma organização ou instituição local. A etno- admitido pelos sociólogos.
metodologia vem então a ser o estudo dos etnométodos
que os atores utilizam no dia-a-dia, que lhes permitem 2. O ator social não é um idiota cultural
viver juntos„inclusive de maneira conflitiva, e que
regem as relações sociais que eles mantêm entre si. Garfinkel subverte a relação do ator com seu meio;
ele solapa a tendência sociológica que consiste em opor
o desconhecido e o manifesto. Para a sociologia, com
1. Conhecimento prático e conhecimento
efeito, o sentido das ações dos membros só é acessível
científico 'ç ao sociólogo profissional. Só ele, como o psicanalista
A produção deluma visibilidade do social passa por diante do seu cliente, é capaz de elucidar o segredo
uma objetivação que não é monopólio da atividade social dos comportamentos humanos. O ator ignora a
científica. Para a etnometodologia, a atividade cientí- fonte de suas ações cotidianas, não sabe que vai ao
fica é, como tal, o produto de um modo de conhecimento museu ou que bate fotografias por ser um membro da
prático que pode, ele mesmo, tornar-se objeto de pes- classe média. O sociólogo cientista o trata assim, se-
quisa para a sociologia, ser por sua vez cientificamente gundo a insolente fórmula de Garfinkel, como "um
interrogado. A sociologia de Garfinkel "se institui sobre idiota cultural":
o reconhecimento da capacidade reflexiva e interpre- "Os sociólogos concebem o homem em sociedade como
tativa própria de todo ator social" 2 . O modo de conhe- um idiota desprovido da capacidade de julgar... O ator
cimento prático é social dos sociólogos é um 'idiota cultural' que produz a
estabilidade da sociedade agindo em conformidade com
"esta faculdade de interpretação que todo indivíduo, alternativas de ação preestabelecidas e legítimas que a
erudito ou comum, possui e aplica na rotina de suas cultura lhe fornece" (citado em "Arguments").
atividades iiiáticas cotidianas... Procedimento regido
pelo senso comum, a interpretação se põe como indisso-
ciável da ação e como igualmente compartilhada pelo 3. Objetivismo e subjetivismo
conjunto dos atores sociais... O modo de conhecimento
científico não se distingue em nada do modo de conhe- Podemos formalizar essa reviravolta utilizando
cimento prático quando se considera que se acham termos que não são de Garfinkel, nem os da etnometo-
confrontados com um problema de elucidação similar: dologia, mas que nos parecem pertinentes para indicar
o lugar polêmico da etnometodologia, assim como de
outras correntes contemporâneas, na sociologia:
— O objetivismo isola o objetivo da pesquisa, intro-
2. A. Ogien, 1984: Positioité de Ia pratique. L'interuention en psychiatrie duz uma separação entre observadores e observados,
comine argumentation, tese doutoral do 3 9 ciclo, Univereitá de Paris VIII,
g. 62. relega o pesquisador a uma posição de exterioridade,
,

52 53
sendo este corte epistemológico julgado necessário à ele capaz de raciocínio, de compreensão e de interpre-
"objetividade" da observação; nega-se a subjetividade tação de suas ações? O papel do sociólogo, nestas
do pesquisador, deixa-se em suspenso, é colocada entre condições, ficaria modificado, tendo neste caso que
parêntesis, durante o tempo da pesquisa. É sempre analisar as racionalidades demonstradas pelo ator no
considerada em nome da objetividade, como parasita decurso de suas atividades correntes. Numa palavra,
do processo de pesquisa. A tradição objetivista vai à o ator age ou é agido?
procura de objetos de pesquisa que aceitam as pressões
dos métodos de observação e de produção que são Podem - se adivinhar as conseqüências de tamanho
geralmente baseados na quantificação, ou ao menos na antagonismo no campo da sociologia. São dois pontos
obsessão metronômica de tudo medir; a concepção de vista opostos, a respeito das instituições, um ligado
global do quadro de análise tem como base a idéia de ao objetivismo e o outro ao subjetivismo: um definirá
que uma ordem ideal se reproduz, ordem na qual o ator a instituição como uma forma social definida fora dos
não tem consciência do significado dos seus atos. Eis atores, como um conjunto de normas que se impõem a
af a "fixidade", a universalidade, a estabilidade relati- eles; o outro inverterá a relação que os membros man-
va desta ordem, que a faz analisável. têm com suas instituições, que contribuem ao contrá-
rio para fabricar em uma permanente bricolagem
— O subjetivismo opera na contracorrente dessas
institucional. Sem dúvida, essas questões têm sempre
concepções: o objeto não é mais uma entidade isolada,
uma importância capital. A oposição epistemológica
está sempre eyi inter-relação com a pessoa que o
que encerram não é nova. Ela perpassa a reflexão
estuda; não existe corte epistemológico, a necessária
objetivação da prática leva em conta as implicações de sociológica desde as suas origens, com duas concepções
todo o gênero ,do pesquisador, cuja subjetividade é da ciência, da prática, da racionalidade, da relação do
restabelecida e analisada como um fenômeno perten- ator com essa racionalidade e com o que significam as
WIii(0.1 1

cente de pleno direito ao terreno considerado, que é suas ações.


heuristicamente levado em conta; os métodos usados Para os etnometodólogos não existe diferença de
dependem mais da análise qualitativa, a única que natureza entre, de um lado, os métodos empregados
pode ser significativa, assim como o não-mensurável; pelos membros de uma sociedade para se compreende-
os quadros sociais resultam de uma contínua constru- rem e compreenderem o seu mundo social e, de outro
ção, de uma permanente criação das normas pelos lado, os métodos usados pelos sociólogos profissionais
próprios atores; 'o subjetivismo reabilita o transitório, para chegarem a um conhecimento com pretensões
o tendencial o,singular. científicas deste mesmo mundo. Garfinkel demonstra
Fundamentalmente, objetivismo e subjetivismo essa identidade de métodos entre sociologia leiga e
não estão de acordo quanto à natureza da ação social profissional por um experimento ao qual consagra um
e quanto ao papel atribuído ao ator. Será ele manipu- capítulo dos Studies.
lado, sem o saber, por determinismos que o superam?
O trabalho do sociólogo consistiria, então, em mostrar 4. O método documentário de interpretação
os significados ocultos, em tirar para fora do seu escon-
derijo o trabalho clandestino dos determinismos so- Garfinkel toma emprestado de Mannheim o con-
dais. Ou, ao contrário, como o pretende a etnome- ceito de "método documentário de interpretação" que
todologia, durante suas atividades cotidianas, não será o Autor dos Ensaios sobre a teoria do conhecimento

54 55
reservava para o conhecimento científico s. Ele mostra de interpretação. Como o sublinha Jacqueline Signo-
que esse "método dbcumentário" já opera na sociologia rini (p. 78):
leiga, isto é, nos procedimentos pelos quais as pessoas "O pattern é o tema, mas é também o procedimento de
se compreendem reciprocamente e pesquisam o pró- enunciação—dizer e como dizer: os elementos de biogra-
prio mundo cotidiano: fia comuns a duas pessoas, a inquietude, a cumplicida-
"O método documentário de interpretação contrasta de, o modo de tonduzir—a—vida—familiar..._0 pattern
com o método de observação literal, mas leva em conta pertence aos elementos do conhecimento do senso co-
aquilo que muitos pesquisadores em sociologia, amado- mum, aos fatos socialmente sancionados. A accountabi-
res ou profissionais, fazem realmente. Segundo Man- lity do pattern é algo que se supõe conhecido de todos.
nheim, o método documentário de interpretação implica Eis por que, na organização de uma atividade prática
a busca de tim 'padrão idêntico homólogo subjacente a como a conversação, continuamente se faz referência a
uma enorme variedade de realizações totalmente dife- um pattern para compreender os elementos de detalhe,
rentes de sentido'. O método consiste em tratar uma os indiciais da conversação. A linguagem é deste ponto
aparência de fato como `um documento de', como capaz de vista o meio natural de exibição e de confecção dos
de 'designar' ('mostrar'), como 'sendo em nome de' um patterns"5 .
suposto, modelo subjacente. Este modelo subjacente é Com efeito, sempre se está à procura de patterns
não apenas derivado das evidências documentárias in- na elaboração de nossas conversas cotidianas, caso
dividuais, mesas evidências documentárias individuais contrário nossas trocas de idéias não teriam sentido.
pOr sua vez. são interpretadas na base do que é 'conhe-
eido' desse padrão subjacente. Cada um é utilizado para Os patterns subjacentes devem imperativamente ser
elaborar o outro" (Studies, p. 78). convocados para compensar e "colocar em xeque" a
irremediável indicialidade da linguagem. Mas isto não
Wilson, por seu lado, resume o método documentá- é verdade só relativamente à linguagem. O método
rio da seguinte maneira (p. 68): documentário de interpretação permite ver as ações
"É um processo que consiste em identificar um 'pattern' dos outros como a expressão de "patterns", e esses
(padrão) subjacente a uma série-de-aparências, de tal atterns" permitem-ver—o-que-são-as_ações. Os indiví-
modo que cada aparência seja considerada como refe- duos desvelam para si a realidade social, eles a tornam
rente a, como Sendo uma expressão ou um 'documento' "legível", construindo "patterns" visíveis. Sem cessar
do padrão subjacente. No entanto, o padrão subjacente são as ações interpretadas em termos de contexto, e o
como tal se identifica através de suas aparências indi-
viduais concretas, de tal sorte que as aparências que contexto por sua vez compreendido como sendo o que
refletem o padrão e o próprio padrão se determinam é através dessas ações. Com isso podemos reinterpre-
reciprocamente"4 . tar posteriormente certas cenas vividas, modificar
nossos juízos sobre as coisas, sobre os acontecimentos.
Deve-se compreender "pattern" como aquilo que é
"accountable", isto é, relatável-observável-descritivel, Garfinkel pretende que esse "método" permite sa-
que remete a um sentido, e, portanto, a um processo ber aquilo de que uma outra pessoa fala, dado que ela
nunca diz exatamente o que deseja exprimir. E igual-
mente aplicado pelos sociólogos profissionais:
3. J. Gabei, 1987: Mannheim et le marxisme hongrois. Paris. Méridiens
Klincksieck.
4. T.P. Wilson, 1970: Normative and Interpretative Paradigma in Sociology, 5. J. Signorini, 1985: De Garfinkel à ia communauté électronique Géocub.
em: J.D. Douglas (Ed.), Understanding Everyday Life, Londres, Routled- essai de méthodologie (et recherche dee fondements), DEA de etnologia,
ge & Kegan Paul, p. 57-79. Univeraité de Paris VII.

56 57
"O método documentário é utilizado toda vez que o estudante deve resumir suas impressões sobre o diá-
pesquisador constrói uma história de vida ou uma 'his- logo inteiro, e depois é entrevistado.
tória natural'. A tarefa de historicização da biografia de
uma pessoa repousa sobre o uso do método documentá- As respostas "sim" ou "não" dos "conselheiros"
rio para sele6ionar e ordenar os acontecimentos passa- eram de fato determinadas de antemão, graças a uma
dos, de sorte que se atribua às circunstâncias presentes tabela de números aleatórios. No entanto, elas foram
a sua pertinência passada e suas perspectivas futuras, sempre consideradas pelos estudantes, mesmo quando
O uso do método documentário não está reservado aos eram surpreendentes ou contraditórias, como respos-
casos de procedimentos 'suaves' e 'descrições parciais'. tas às perguntas feitas, como se vai ver nos trechos
Intervém igualmente em casos de procedimentos rigo- seguintes (Studies, p. 80-88, e Signorini, 1985, p. 41-
rosos onde se imagina que as descrições esgotam um
54).
conjunto definido de possíveis observáveis" (Studies, p.
95). "SUJEITO: Eis a situação em que me encontro. Sou
de religião judaica, e já faz agora uns dois meses que
estou saindo com uma moça que não é judia. Meu pai
5. Um experimento não se opõe abertamente a essa situação, mas eu sinto
ao mesmo tempo que ela não lhe agrada verdadeira-
O funcionamento do método documentário de in- mente. Mamãe pensa que enquanto papai não se opõe
terpretação se torna visível mediante uma experiência abertamente a essa situação, eu deveria continuar
de laboratório. Garfinkel convida dez estudantes vo- saindo com essa moça até que ele diga explicitamente
luntários parai participarem de uma experiência que ser contra. A razão pela qual eu penso que ele não está
"consistia em estudar métodos alternativos de psicote- gostando é que nunca diz: não saia com ela; mas ao
rapia como um meio de aconselhar as pessoas sobre os mesmo tempo ele insinua e sugere algumas coisas que
seus problemas individuais". Cada estudante é visto me deixam mal quando vou sair com essa moça. Per-
individualmente por um experimentador, que lhe é gunto então: você pensa que nessas circunstâncias
apresentado como um conselheiro e orientador. Depois devo continuar ou parar de sair com essa moça? Diga-
de ter exposto o contexto do problema sobre o qual mos, de modo mais preciso: pensa que eu deveria
deseja ser aconselhado, deve o estudante apresentar continuar a sair com essa moça?
ao "conselheiro" ao menos dez perguntas, de tal modo "EXPERIMENTADOR: Minha resposta é não.
que o experimentador possa responder-lhe, dizendo "SUJEITO: Não. Ora, é interessante. Não me pa-
sim ou não, e aconselhá-lo assim do melhor modo rece que haja uma grande animosidade entre papai e
possível. À. primeira pergunta apresentada o experi- mim mas, então, talvez ele sinta que dessa situação
mentador, que se encontra num cômodo vizinho, res- poderá surgir um desacordo mais profundo. Suponho,
ponde sim ou não por um interfone. O estudante deve ou talvez seja mais fácil para uma pessoa de fora ver
então desligar o sistema de comunicação de sorte que certas coisas para as quais sou cego no momento.
o conselheiro :não possa ouvir suas observações" e
• "Eu gostaria de fazer agora a minha segunda per-
registrar num megafone os comentários que faz da
gunta.
conversação que acaba de ter, e claro da resposta que
acaba de obter. Terminado o comentário, ele de novo "EXPERIMENTADOR: Pois não.
liga o sistema e faz a pergunta seguinte, e assim por "SUJEITO: Você acha que eu deveria ter uma nova
diante até que termina a conversação. Em seguida, o conversa com papai sobre esta situação, ou não? Eu

58 59
deveria discutir com papai sobre o fato de sair ou não constitui o objeto de outra pergunta. Estou pronto para
com esta moça que não é judia? a quarta pergunta, agora.
"EXPERIMENTADOR: Minha resposta é sim. "Se, depois de ter discutido isso com papai e rece-
bido uma resposta positiva, mas percebendo ao mesmo
"SUJEITO: Bom, penso que isto é razoável mas não tempo que a sua opinião não é sincera, você acha que
sei na verdade o que lhe dizer. Quero dizer que ele não seria bom para mim fazer minha mãe intervir, a fim
parece muito compreensivo. Noutros termos, ele pare- de discutir seriamente com ele e tentar por conseguin-
ce ter medo de discutir explicitamente a situação. Ao te obter a verdadeira opinião de papai sobre a situa-
menos é o que me parece no momento. Mas imagino ção?
que valeria a pena ter uma conversa com papai, se
quero de fato continuar saindo com. ela. Não estou "EXPERIMENTADOR: Minha resposta é sim.
apaixonado de verdade por ela, mas não sei verdadei- "SUJEITO: Parece-me correto. Penso que ele será
ramente o ,que pode acontecer. Penso que deveríamos talvez mais honesto com mamãe a este respeito. Com
discutir o assunto e ver quais as futuras possibilidades certeza, poderia haver ainda um problema. Mamãe
e como é que ele se situa com relação a isto. Pode ser será completamente sincera comigo? Ela parece mais
que ele não esteja tão firmemente contra porque por liberal que papai, o que não quer dizer que mamãe
enquanto à6 estamos saindo juntos, mas talvez ele veja mentiria, mas ela poderia ser um pouco mais liberal
complicações futuras sobre as quais gostaria de dizer sobre coisas corno estas e talvez durante a conversa
o que verdadeiramente pensa. Estou pronto para a com papai ela se esforçasse para me apoiar e, por
minha terceira pergunta. conseguinte, mais uma vez eu obteria duas respostas.
Se continuo pensando assim, creio que não vou chegar
_fr

"Se, depois de ter conversado com meu pai, ele me


diz para continuar a sair com essa moça, mas ao a um primeiro elemento de resposta, mas apesar de
r: 4Csom * is

tudo sinto que avançamos um pouco. Estou pronto


mesmo tempo ele me der a impressão de ser contra, de
não querer que eu saia com ela, mas se comporta assim para a minha quinta pergunta.
porque pensa em ser um bom pai, devo nessas condi- "Você pensa que devo dizer a esta moça não judia,
ções continuar a sair com esta moça? com quem estou saindo, o problema que tenho com
,

meus pais em casa, ou deveria esperar até... mas esta


"EXPERIMENTADOR: Minha resposta é sim.
m

é outra pergunta. Você pensa que eu deveria falar com


2,61 it) 1114

"SUJEITO: Ah! Sua resposta me causa verdadeira esta moça, com quem estou saindo, sobre os problemas
surpresa. Eu espprava uma resposta negativa. Isto se que tenho em casa a respeito de sua religião?
explica talvez pelo fato de você não conhecer meu pai "EXPERIMENTADOR: Minha resposta é não.
e suas reações, e jele parece uma pessoa sensível e, por
conseguinte, presta muita atenção à sua maneira de "SUJEITO: Pois bem, mais uma vez fico surpreen-
se comportar. Embora ele pudesse ter dito: — continue dido. Com certeza, isso pode depender do apego que se
saindo com esta moça, — eu poderia talvez me sentir pode ter a uma moça e do tempo que espero sair com
culpado, sabendo que ele não queria de verdade que eu ela. Mas pessoalmente penso que é correto, simples-
continuasse saindo com ela. De fato, eu não sei o que mente, falar sobre o problema, pois se ela está mais
esclareceria realmente a situação. Portanto, vamos comprometida que eu poderia... seria melhor para nós
talvez examinar mais amplamente este ponto e isto compreendermos a situação em sua totalidade, e se ela

60 61
pensa que isto será um obstáculo, penso então que isso não for levada a seus extremos, é boa. Cada pessoa
poria fim à situação, diretamente, sem que eu lhe deveria receber uma certa dose de educação religiosa
falasse. Pareceme que eu manifestarei isto de várias ministrada dessa maneira. Talvez constituísse uma
maneiras e ela não ficará a par da situação verdadeira solução para o problema. Parece-me que eu deveria
e talvez reaja contra mim de uma certa maneira, prosseguir neste sentido um pouco mais a ver exata-
estragandO a nossa relação e todo o resto... Estou mente o que acontece. Estou pronto para o número
pronto para a minha sexta pergunta. oito.
"Se eu estivesse apaixonado por essa moça e dese- "Se fosse para nos casarmos, seria preferível para
jasse fazer projetos de casamento, você acha que seria nós vivermos em uma nova comunidade onde não
correto lhe pedir que trocasse a sua religião e adotasse teríamos contato com nossos pais, se tivéssemos que
a minha? • suportar muitas pressões familiares por causa de nos-
sas diferenças religiosas?
"EXPERIMENTADOR: Minha resposta é não.
"EXPERIMENTADOR: Minha resposta é não.
"SUJEITO: Então, não. Ora, estou num impasse.
Não. Afinal, penso sinceramente que fui educado de "SUJEITO: Ora, sinto-me tentado a concordar com
uma certa maneira e creio que ela também, e acho que esta resposta. Penso que não adianta muito fugir de
sou bastante apegado à minha crença. Não que eu seja um problema e talvez seria uma das coisas que acaba-
totalmente ortodoxo ou algo semelhante, mas com toda ríamos aceitando a longo prazo, e assim nossas famí-
a certeza sempre há pressões familiares. E estou mais lias e nós poderíamos continuar vivendo juntos em
ou menos certo quanto ao que ela sente, infelizmente harmonia. Ao menos desejo que isso ocorresse assim,
nunca vi uma família com diferenças confessionais ter se a situação chegasse a esse ponto. Penso que será
êxito realmente na sua superação. Então, não sei. preferível para as duas famílias saber que não vamos
Penso que eu seria talvez tentado a pedir-lhe que resolver o problema se fugirmos dele. Então, o melhor
mudasse. Mas não acho que seria verdadeiramente é que fiquemos aqui e procuremos resolvê-lo. Estou
capaz. Estou pronto para o número sete. pronto para o número nove.
"Você pensa que a situação melhoraria se fôssemos "Caso chegássemos a nos casar, e educar nossos
casados e se nenhum de nós desejasse falar das dife- filhos, você acha que deveríamos explicar e dizer a
renças confessionais, ou adotar esta ou aquela opinião, nossos filhos que tivemos outrora esta diferença reli-
e se educássemos nossos filhos em uma religião neutra, giosa, ou deveríamos nos contentar em educá - los nessa
diferente daquelas em que nós dois acreditamos? nova religião, que seria a religião deles, de que fala-
mos, e deixá-los acreditar que era aquela na qual nós
"EXPERIMENTADOR: Minha resposta é sim. mesmos havíamos crido?
"SUJEITO: Então, talvez isto fosse uma solução. "EXPERIMENTADOR: Minha resposta é não.
Se pudéssemos encontrar uma religião que integre as
nossas duas crenças até um certo ponto... Percebo que • "SUJEITO: Mais uma vez, estou mais ou menos de
isto seria quase impossível de conseguir. Talvez, em acordo com você. Penso que seria preciso dizer - lhes,
certo sentido, esta religião neutra seria uma coisa feita pois eles o descobririam sem dúvida alguma. E se
quase por nós mesmos. Pois eu penso honestamente descobrirem a diferença que havia entre nós antiga-
que a educação religiosa, seja qual for a confissão, se mente, poderão pensar que dissimulamos ou tentamos

62 63
esconder-lhes alguma coisa e esta não seria a melhor essas personalidades reagiriam ou teriam reagido a
situação tampouco. Por isso eu creio que esta seria a essa situação. As respostas que recebi indicavam na
melhor situação. Estou pronto para o número dez. maioria, pelo que percebi, que ele estava bem cônscio
"Você pensa que nossos filhos, se os tivermos, te- da situação à medida que íamos avançando, no sentido
riam também eles problemas religiosos por causa de em que eu interpretava suas respostas, embora sendo
n6s, seus paia,_e_de nossas dificuldades? por sim ou por não, como plenamente refletidas com
"EXPERIMENTADOR: Minha resposta é não. base nas situações que eu ia lhe apresentando e ti-
nham bastante sentido para mim. Senti que suas
"SUJEITO: Ah! não sei na verdade se devo ou não respostas no conjunto eram muito úteis e que ele se
concordar com isto. Talvez tenham dificuldades, caso interessava pela situação na maior parte do tempo e
se estabeleça a confusão, caso se vejam numa situação não em reduzi-la ou diminuí-la deste ou daquele modo.
em que não sabem o que é verdadeiro e o que é falso, Ouvi o que desejava ouvir na maior parte das situações
ou que partido tomar se não querem ser bloqueados apresentadas naquele momento. Talvez eu não tenha
por sua religião,, Mas ao que me parece, se a religião ouvido o que desejava realmente ouvir. Mas, talvez, de
deles fosse uma religião completa, que suprisse as um ponto de vista objetivo, fossem as melhores respos-
necessidades de uma religião, que essa religião o ga- tas, porque uma pessoa envolvida em uma situação é
rantisse, não deveria haver problemas com eles. Mas em parte cega e não pode ter este ponto de vista
suponho que o tempo será capaz de dizer se vão apa- objetivo... A conversação e as respostas dadas tinham,
recer tais problemas. Terminei agora meus comentá- creio eu, muito sentido para mim. Creio que talvez
rios. fosse o que eu teria ouvido de alguém que conhecesse
integralmente a situação. E penso que isso tinha muito
"EXPERIMENTADOR: Pois não, também termi- sentido para mim e significava muito. Ademais, penso
no". que as perguntas que eu fazia eram muito pertinentes
Depois que o experimentador lhe entregou uma e ajudavam a compreender a situação dos dois-lados,
lista de pontos que poderia comentar, se quisesse, o que eu mesmo, o experimentador e a minha reação às
sujeito fez o seguinte comentário após a conversação. respostas, como já disse acima, estávamos de acordo a
"Ora, a conversação me pareceu unilateral pois era maior parte do tempo".
eu sozinho que a realizava. Mas penso que era extre- Trata-se aqui de um experimento extremamente
mamente difícil para M. McHugh responder plena- rico. Mostra claramente que o sujeito não tem nenhu-
mente a essas perguntas sem conhecer completamente ma dificuldade para dar continuidade ao diálogo, para
as personalidades das diferentes pessoas envolvidas, ir até ao fim da série de perguntas que fora prevista.
nem como era a própria situação. As respostas que Por outro lado, embora as respostas fossem aleatórias,
recebi, devo diier que a maioria delas era formulada vê-se que o sujeito escuta as respostas do experimen-
talvez de maneira idêntica àquela que eu teria usado tador, como se fossem respostas a suas perguntas. Ele
para responder, conhecendo os diferentes tipos de pes- compreende "aquilo que o conselheiro tem em mente",
soas. Uma ou duas delas tiveram em mim o efeito de entende "de imediato" aquilo de que fala, ou seja, o que
uma surpresa, e penso que a razão pela qual ele talvez significa. lbdos os estudantes que participaram na
respondeu desse modo a estas perguntas vem do fato experiência consideraram que tinham sido realmente
de não conhecer as personalidades envolvidas e como "aconselhados".

64 65
Não houve evidentemente perguntas pré-progra- Falar de "método documentário de interpretação"
madas. "A pergunta que se seguia era motivada pelas significa, portanto, que os atores utilizam os aconteci-
possibilidades retrospectivas-prospectivas da situação mentos em curso como recursos para interpretar as
presente, possibilidades modificadas por cada inter- ações passadas e para descobrir e atribuir-lhes novos
câmbio efetivo" (p. 89). "Durante a conversação, os significados. Esse procedimento apresenta diversas
sujeitos modificavam o sentido precedente de sua per- características bem significativas. Por um lado, o es-
gunta para adaptá-la à resposta em vista de uma tudante vai criando sentido a partir da interpretação
pergunta retrospectivamente revista". que faz dos 'sim' e dos 'não' do experimentador, vividos
como conselhos efetivos. Por outro lado, escolhe a cada
"O mesmo enunciado era utilizado para responder passo elementos do contexto para dar prosseguimento
a diversas perguntas diferentes escalonadas no tempo. à pesquisa de interpretação. Enfim, vai a cada instante
Os sujeitos qualificavam isso de "clarificação nova" construindo o quadro de referência do padrão.
sobre o passado".
Assim, o que preocupa o estudante no início da sua
Quando as respostas lhes pareciam insatisfatórias, conversa com o experimentador é que a moça, com
os sujeitos esperavam as respostas seguintes a fim de quem está saindo, não pertence, como ele, à religião
decidirem quanto ao sentido a atribuir às precedentes. judaica. E os elementos do contexto que ele vai docu-
"As respostas incongruentes eram resolvidas atribuin- mentar pelo conselho são as atitudes e as intenções que
do conhecimento e intenção ao conselheiro. Os sujeitos ele atribui a seus progenitores, em particular ao pai.
pressupunham aspectos conhecidos-em-comum da co- São elementos que oferecem um terreno para a inter-
ldtividade como um corpo de conhecimento de senso pretação. É o caráter interpretado da desaprovação do
comum admitido por cada pessoa. E referiam a esses pai que a documenta como um fato percebido ao qual
pressupostos-padrão o que ouviam das respostas do o estudante atribui realidade, tornando o seu proble-
conselheiro". ma descritivel.
O trabalho' de "documentação" consiste, aqui, em Observa-se desde o começo que o estudante supõe
"procurar e determinar um padrão, em considerar as conhecidos ao experimentador os elementos do conhe-
respostas do conselheiro como sendo motivadas pelo cimento de sentido comum que lhe permitem apreen-
sentido implicado na pergunta, em esperar as respos- der logo o problema apresentado. O estudante acha
tas seguintes para clarificar o significado das prece- que ele conhece a preocupação religiosa das famílias
dentes, em achar respostas para as perguntas não judaicas, os pormenores quase etnológicos de suas
feitas". relações familiares, por exemplo, os papéis respectivos
do pai e da mãe. Supõe-se que o experimentador,
"Os valores ¡ normais percebidos daquilo que fora independentemente de suas competências científicas,
aconselhado eram verificados, reconsiderados, manti- compartilhe conhecimentos comuns com o estudante.
dos, restabelecidos, em uma palavra, produzidos. É Isso lhe permite considerar o conselho como resposta
falso pensar, por conseguinte, no método documentário a seu problema.
como um procedimento pelo qual as proposições são
relacionadas com um corpus científico. Pelo contrário, Desde a primeira pergunta, que se relaciona com o
o método documentário desenvolveu o conselho, de fato de continuar a sua relação com esta moça, à qual
modo a continuamente 'reconsiderá-lo'" (p. 94). o experimentador responde não, vê-se como funciona

66 67
a interpretação. Em vez de ouvir esse não como refe- tar esses problemas. O conhecimento comum deve ser
rente à sua namorada, em vez de relacioná-lo com a compreendido como um conjunto estruturado de fatos.
pergunta que ele mesmo fez, o estudante o interpreta "A arquitetura estrutural do conhecimento é transmi-
como referindo-se à suposta desaprovação de seu pai. tida com e pelos fatos... Não existe fato sancionado
Esse não se converte em um sim que documenta o socialmente, e seu modo de operação ou sua descritibi-
receio dos sentimentos-do-pai.—E--então começa a son- lidade. O fato é um dado_estrutural„constituído e
dagem sobre o pai documentário, e não sobre a moça, constitutivo do dado"6.
momentaneamente posta de lado. Utilizam-se as su- Nós usamos com muita freqüência este "método"
posições para tornar possível a interpretação: "Se de- nas conversas de nossa vida cotidiana. E não o encon-
pois que eu tiver falado com papai... Se eu continuo tramos apenas nas situações experimentais como no
pensando assim... Se ela estiver mais apaixonnan que caso anteriormente estudado. Mostra aliás Garfinkel
eu... Se eu estivesse mesmo apaixonado por esta (Studies, p. 38-39) que o "método" funciona constante-
moça..." O fato interpretado ganha no futuro a reali- mente em nossa vida comum, nas conversas corriquei-
dade que ainda não adquiriu no presente. ras entre marido e mulher, por exemplo (ver o ponto 7
Como se pode ver claramente pelos comentários deste capítulo). Esse método nos permite reconstituir
feitos pelo estudante, após a conversação, este caso o sentido de uma conversação da qual não se pegou o
mostra que a pesquisa realizada pelo estudante para início, que dá um sentido a mímicas, a gestos etc.
analisar, interpretar, documentar os diversos aspectos Temos também oportunidade para aplicá-lo constante-
do seu problema repousa sobre o uso implícito de um mente na linguagem cotidiana, nas conversas triviais
conhecimento'de senso comum que supõe compartilha- que se têm todos os dias. A pessoa se empenha nesse
do pelo experimentador. Isto mostra igualmente, como trabalho de documentação cada vez que tem que deci-
dir a respeito do sentido de uma palavra em função de
já havíamos aprendido com a psicanálise, que os con-
um contexto. Selecionamos, modificamos, ordenamos
selho's são construídos pelo sujeito. Trata-se de inter-
as potencialidades de seus significados à medida que
pr- :se- em - -- •
progride a conversa, que se alimenta com nossas infi-
classificar ou eliminar, eventualmente, "organizar" os nitas interpretações. Aqui cada um se empenha em um
elementos do contexto. O sujeito consulta o que ele trabalho interminável: em outras experiências os es-
supõe dos significados das respostas do conselheiro, e tudantes se confessavam incapazes de conseguir, fos-
dá interminavelMente um sentido a respostas aleató- sem quais fossem o nível de elaboração e a sofisticação
rias. O sujeito é que é o operador do conselho, e não o de seus comentários, dar uma descrição completamen-
conselheiro. te unívoca e significante daquilo que se achava com-
Este conhecimerito comum que supostamente é preendido em um fragmento da conversação que lhes
compartilhado pelo conselheiro e pelo sujeito é deno- fora dado manter.
minado por Garfinkel esquema de interpretação. É
constituído pelos fatos sancionados socialmente. Refe-
rir-se implicitamente a esses fatos organizados do 6. Jacqueline Signorini (op. cit., p. 102) mostra bem como funciona este
sistema social é a prova para os atores de que perten- fenómeno ao nos falar de seu trabalho de programação em informática:
cem a uma comunidade cultural e social, que autoriza "Programar é produzir a estrutura do pensamento. Não há portanto
diferença entredizer 'eu' e 'eu tenho urna idéia'. O pensamento e o objeto
e legitima a documentação sobre certos problemas, e do pensamento são a mesma coisa. Não se pode chegar ao pensamento,
oferece_ca recursos de senti perm item interpre- o seu', mas sempre a produtos estruturados".

68 69
6. A prática profissional
sador... reconsidera as seqüências passadas em uma
Pode-se, fora de dúvida, generalizar estas reflexões pesquisa retrospectiva do seu caráter conclusivo... Es-
e estender esta, análise ao raciocínio e à prática socio- sas características são tão facilmente reconhecíveis
lógicos. Garfinkel estima (p. 94-95) que "em toda a nas atividades cotidianas que podem ser denominadas
parte onde se pratica a pesquisa em sociologia se com razão "situações de escolha dependentes do senso
encontram exemplos que ilustram o uso do método comum". A idéia é: quando pesquisadores recorrem ao
documentário"'. "Seu uso se manifesta nas inúmeras "caráter racional" atribuindo o estatuto de conclusões
oportunidades de exploração de sondagens de opinião, a resultados de pesquisas, encorajam o uso de tais
quando o pesquipador, voltando às notas que tomou na características como contexto de interpretação para
entrevista mi relatando as respostas de um questioná- decidir acerca da racionalidade e da validade. As con-
rio, deve decidir, o que é que o entrevistado tinha em clusões, enquanto resultados do método documentário,
mente.,. Quando um pesquisador se interroga sobre "o decididas nas circunstâncias de situações de escolhas
caráter motivado" de uma ação, ou sobre uma teoria, do senso comum, definem a expressão de "conclusões
ou sobre a adesão de uma pessoa a uma justa causa, e racionais" (p. 99-100).
outras coisas parecidas, ele utiliza o que de fato obser- "Uma grande parte daquilo que se pode denominar
vou para 'documentar' um padrão subjacente. O méto- `o coração da sociologia' consiste em 'conclusões racio-
do documentário é utilizado para resumir o objeto"8. nais'. Muitas, se não a maioria, das situações de pes-
E Garfinkel continua: "Muitas situações de pesqui- quisas sociológicas são situações de escolhas que
sas sociológicas profissionais têm as mesmas caracte- dependem do senso comum". Nós usamos sem cessar
rísticas que as situações vividas pelos estudantes" (na essas características, no decorrer de nossas "pesqui-
simulação do conselho)... Assim, por exemplo, nas en- sas", para compreender o que foi dito. Um aconteci-
trevistas, o pesquisador recorre a "um conjunto de mento real é logo interpretado para documentar as
táticas ad hoc para adaptar se à oportunidade presen-
- circunstâncias presentes da situação. O trabalho de
te, táticas geralmente decididas em vista daquilo que documentação estabelece uma correspondência de
o pesquisador desejaria ter achado no final da conver- sentido entre uma ocorrência real e a ocorrência hipo-
sa. Nessas circunstâncias, mais correto seria falar de tética, a fim de que esta ganhe evidência, como a
um pesquisador agindo em vista de satisfazer suas verificação daquilo que se quer estudar. Assim não
esperanças (p. 98)... Ocorre muitas vezes que o pesqui- seria o fato em si mesmo, tal como se nos apresenta,
que seria submetido à análise, mas ocorrências passa-
das do mesmo fato ou de fatos próximos e semelhantes,
dos "documentos" racionais, de senso comum, desses
7. Na nota da p. 94, Garfinkel indica que, no seu artigo "On the Interpretation fatos. Por isso acontece, como o ressalta Garfinkel, que
of Weltanschauung", Mannheim afirma que o método documentário é se pode decidir esperar os desenvolvimentos futuros de
próprio das ciências sociais. Existem nas ciências sociais numerosas
expressões que se referem a isso, tais como "o método compreensivo", "a uma situação para verificar que esses futuros são
introspecção compadecente", "o método analítico", "o método de intuição", informados pela situação presente. Deste modo o pes-
"o método interpretativo", "o método clínico", "a compreensão empática",
etc. As tentativas dos sociólogos para identificar uma coisa chamada "a
quisador se entrega ao trabalho de sondagem retros-
sociologia interpretativa" implicam a referência ao método documentário pectiva que confia ao futuro a tarefa de legitimar o
com a base para encontrar e legitimar seus resultados. presente. Esse trabalho evidentemente evoca aquele a
8. O grifo é meu. que se entrega Inês: tendo mudado de sexo, ela se serve

70
71
das aparências presentes como de um recurso para bém aborda outros domínios das ciências sociais e
interpretar o passado e descobrir novos significados humanas. Embora a linguagem esteja constantemente
utilizáveis no futuro de sua aprendizagem, jamais no coração do problema da coleta dos dados, a sociolo-
terminada, de "ser-mulher". gia não fez dela um dos seus temas de estudo. H. Sacks,
pelo contrário, faz da conversação o tema central de
O trabalho do método documentário é esse esforço
incessante-de-ver as coisas em perspectiva, de avaliar suas pesquisas.
possibilidades oferecidas, de levar em conta as condi- A análise de conversação é o estudo das estruturas
ções temporais, ao qual o ator se entrega permanente- e das propriedades formais da linguagem. Para pode-
mente para compreender os seus atos bem como os dos rem desenvolver-se, as nossas conversações são orga-
outros. nizadas, respeitam uma ordem, que não temos neces-
sidade de explicitar durante o decurso de nossas con-
7. O raciocínio-, sociológico prático e a análise versas, mas que é necessária para tornar inteligíveis
de conversação as nossas conversações. Noutras palavras, demonstra-
mos, no decorrer de nossas conversações, a nossa com-
Um dos campos mais desenvolvidos e mais ricos da petência social para conversar com nossos
etnometodologia é sem dúvida o denominado análise semelhantes, de um lado expondo, tornando com-
de conversação 9 . A tal ponto que foi possível considerá- preensíveis aos outros o nosso comportamento e, de
lo como um campo autônomo, separado da etnometo- outro lado, interpretando o comportamento dos outros.
dologia, porque se afasta da problemática habitual da Pode-se, com John Heritage, resumir as três hipóteses
sociologia. Mas, por outro lado, pode-se considerar a principais da análise de conversação da seguinte ma-
análise de conversação como o programa mais comple- neira:
to da etnometodologia. Esta prática, fundada por Har- a) a interação é estruturalmente organizada;
vey Sacks em meados dos anos '60, é evidentemente
central pois ela_se—refera rpelo próprio objet b) as contribuições dos participantes dessa interação
pesquisas sobre os intercâmbios verbais, sobre as con- são contextualmente orientadas: o procedimento de
versas corriqueiras, ao conjunto dos outros campos indicação dos enunciados a um contexto é inevitável;
pelos quais a etnometodologia se interessou, mas tam- c) essas duas propriedades se realizam em cada deta-
lhe da interação, de tal sorte que nenhum detalhe
pode ser posto de lado, como se fosse acidental ou
não pertinente.
9. Para urna apresentação mais completa da análise de conversação, cf. a -Garfinkel ilustrou essas propriedades pedindo a
obra de John Heritage, 1984: Garfinkel and Ethnomethodology, Cem-
bridge, Polity Prese, especialmente o Capítulo 8. Há que se consultar seus estudantes que transcrevessem um trecho de sua
sobretudo os cursos de Harvey Sacks, enfim publicados: Harvey Sacks, conversação familiar corriqueira e desenvolvessem o
1992: Lectures on Conversation, 2 vol., Oxford, Basil Blackwell. Em
francês, apontamentos de Gail Jefferson em conferências dadas por seu sentido comentando a conversação escolhida. Eis
Harvey Sacks entre 1964 e 1972 são publicados em "Argumente... op. esse trecho, mostrando à esquerda a conversação tal
cit., p. 138-144. Cf. também, no mesmo volume, o artigo de B. Conein, como efetivamente ocorreu (há de se observar que o
L'enquête sociologique et l'analyse du langage: les formes linguistiques
de la connaieeance eociale, p. 6 30; ou ainda B. Conein, 1983: Langage
-
sentido é relativamente inacessível a um terceiro); à
ordlnaire et convereation: reeherchee socio/ogiquea en analyse du dia- direita o comentário do estudante que "explicita" o
couro, Mote, 7, p. 124.142; e B. Conein, 1987: Les intime polltiques sont
aceomplies locador:tent et tatuporellement. Raison présente. 82. p. 59-83. sentido dessas conversas (Studies, p. 25-26):

73
72
MARIDO: Dana conseguiu Hoje à tarde, quando eu ia
colocar uma moeda no par- Os estudantes acharam que dizer, da maneira mais
levando Dana, nosso filho
químetro hoje, sem que eu de quatro anos, para casa, completa possível, o sentido de suas conversações ba-
precisasse levantá-lo. ele conseguiu ficar bastante nais da vida cotidiana é coisa bem difícil! No entanto,
alto para pôr uma moeda no os protagonistas da conversa real não tinham dificul-
parquímetro quando paramos dade alguma para se compreenderem um ao outro, por
em uma área de estaciona- meias-palavras como se diz, graças ao arranjo das
mento pago, enquanto até seqüências, por exemplo o fato de as perguntas e as
agora tinha sido preciso respostas serem associadas aos pares, que Sacks deno-
levantá-lo para isso. minou pares adjacentes. O que significa que os enun-
ESPOSA: Você o levou à loja Se ele pôs uma moeda no ciados são localmente organizados graças ao emprego
de discos? parquímetro, isso quer de dispositivos como os pares adjacentes, que nos dão
dizer que você fez uma pa- a trama da conversação, permite-nos compreendê-la e
rada com ele. Sei que você
dar prosseguimento à conversa. Utilizamos constante-
parou na loja de discos,
quando foi buscá-lo ou na mente esses procedimentos em nossas conversações.
volta. Era na volta, quando Não são os únicos: falamos por exemplo cada um em
ele já estava contigo ou você seu turno. Usamos outros ainda quando apresentamos
parou em algum lugar convites, ou quando cumprimentamos alguém ou
quando ia buscá-lo ou ao quando queremos encurtar uma conversa poderia ir
voltar? longe demais.
MARIDO: Não, no sapatei- Não, eu parei na loja de Sacks mostra a importância de conhecer o contexto
ro. discos quando fui buscá-lo e no exemplo seguinte:
no sapateiro quando volta-
va para casa com ele. A: Tenho um filho de catorze anos.
ESPOSA: Para quê? Sei de algum motivo para B: Muito bem.
você parar no sapateiro. A: Tenho também um cachorro.
Qual exatamente?
B: Oh! sinto muito!
MARIDO: Comprei cadar- Você se lembra. Outro dia arre- Não se pode compreender essa conversa, a não ser
ços novos para os sapatos. bentei um dos cadarços dos
meus sapatos marrons, e en- qu'e se saiba que A é um locatário potencial, e negocia
tão parei para comprar com B, o proprietário de um apartamento. O tema da
novos. conversa é constituído pelos parceiros. O contexto é
que torna a conversa coerente e inteligível.
ESPOSA: Teus sapatos bem Eu achava que você poderia
que precisam de saltos no- ter feito outra coisa. Podia O acordo sobre a construção do sentido, porém,
vos. levar os sapatos pretos que nem sempre é tão simples assim. Pode dar margem a
precisam de urna boa refor- muitas negociações. Don Zimmerman o mostrou, por
ma. Seria bom que você ocasião de uma conferência que deu em Paris, em
cuidasse logo disso.
junho de 1987, analisando os mal-entendidos e o con-
flito que se seguiu, durante um chamado telefônico de

74
75
urgência": um homem chama os bombeiros de Dallas podem ter contribuído para documentar a conversa.
(Texas) e pede que eles enviem com urgência uma Outras gravações de chamadas a esse mesmo serviço
ambulância porque sua mãe, diz, "está com dificuldade mostram que os mesmos empregados se comportam de
para respirar". Discussão, logo tensa, com o recepcio- maneira totalmente diferente, conforme o modo como
nista, depois coma enfermeira que deseja falar com a lhes é apresentado o caso de urgência. Por exemplo, se
mulher doente e só com ela, depois com o oficial-de-- a primeira frase da conversa for: "Mandem-depressa
serviço no momento. Mas a doente não pode se deslocar uma ambulância! Há uma crise cardíaca!", a única
e, seja como' for, não está em condições de falar ao pergunta é esta: "Qual é o endereço?", e a ambulância
telefone. A conversa se torna um drama de incom- parte sem demora.
preensão: diversas vezes o filho diz que a situação é Isso significa que as formas da conversa determi-
grave, é absolutamente necessário que mandem logo nam a sua compreensão, que é intersubjetivamente
uma ambulância. Nada a fazer. Ele desliga. Alguns construída. No campo da linguagem como também nos
minutos depois, torna a chamar, não é imediatamente outros, acha-se na análise da conversação a preocupa-
reconhecido, e recomeça suas explicações. Quando vem ção permanente da etnometodologia: aquela de des-
finalmente a ambulância, treze minutos depois da crever os processos que usamos para construir a
primeira chamada, é tarde demais. ordem social. B. Conein il o mostrou em um domínio
bem diverso, analisando as conversas que ocorrem
A análise da conversação, automaticamente regis- durante um "comitê de greve", na época do "movimen-
trada nesse serviço de urgência, permite compreender to" estudantil de dezembro de 1986, na França:
como a situação de disputa e de incompreensão é "Uma gramática da ação pode realçar a competência dos
construída. A discussão é uma luta de influência. Sua participantes para produzir ações políticas (p. 59)... A
análise mostra as rotinas burocráticas do serviço de competência política faz parte do conhecimento comum
urgência, mas 'também as expectativas do filho, que da estrutura social, esta competência deve ser descrita
pensa sem dúvida estar pedindo um serviço não con- e não construída" (p. 63).
dicional, que se deve satisfazer imediatamente—sem
maiores delongas. Com o pânico a acossá-lo, ele se
comporta, observa Zimmerman, como se estivesse pe-
dindo uma pizza pelo telefone: poderia então legitima-
mente esperar que ninguém lhe perguntasse por quê.
O serviço de urgência, sim. Por outro lado, escutando
a fita e as tonalidaqes de voz dos protagonistas, pode-
se supor, diz Zimmerman, que a enfermeira é negra e
o homem que ligou é homossexual. Esses elementos

10. J. Whalen, D. Zimmerman e M.R. Whaken, 1988: When Words Fail: A


Single Case Analysia, Social Problema, 35, 4, p. 336.362; trad. francesa:
Une conversation fatale, Rimou, 1992, n. 55, p. 145-178; cf. também: D.
Zimmerman, 1987: 8equential and Institutional Contexto in Calle for 11. B. Conein, 1987: Les actions politiques sont accomplies localement et
Help, The Social Psychology Quarterly, 50, 2 (junho), p. 172-185. temporellement, Raison • résente 82 59-63.

76 77
Capítulo V

Questão de Método

Um contra-senso, que se deve a uma divisão mal feita


do termo, constitui muitas vezes um obstáculo para a
compreensão do termo etnometodologia. Há quem pen-
se que a etnometodologia se define como uma nova
metodologia da etnologia. De modo algum. Já se viu
que é preciso dividir o termo de outro modo e recordar
com Garfinkel que a etnometodologia se definiu desde
a origem como a "ciência" (logos) dos "etnométodos",
isto é, dos procedimentos que constituem aquilo que
Garfinkel denomina "o raciocínio sociológico prático".
Mas, como abordar o estudo dos etnométodos, se este
é o objeto da etnometodologia? Existirá uma "metodo-
logia" nova?

1. A postura de "indiferença etnometodológica"

Os etnometodólogos não acreditam que os compor-


tamentos e as atividades de um indivíduo sejam dire-
tamente induzidos por sua posição social. Eles pensam
que os sociólogos até agora "super-socializaram" o com-
p6rtamento dos atores sociais e que sua hipótese sobre
a internalização das normas, provocando comporta-
mentos "automáticos" e impensados, não explica a
maneira como os atores percebem e interpretam o
mundo, reconhecem o familiar e constroem o aceitável,
e também não explica como as regras governam con-
cretamente as interações.

79
Como já observava Garfinkel em sua tese: "o mun- supõe que a realidade social exista, de certo modo,
do empírico do sociólogo é povoado_ por tipos" p. r—222). independentemente das pesquisas das quais é objeto.
O homem observo pelo soei logo uma Esta é a razão pela qual os estudos sociológicos desco-
construção
_ cuja ra ciOn
. ali dade_não-tem-outroobj ativo brem sobretudo "coisas racionais" e produzem "traba-
senão verificar_a_pertinênciandPlo O homem do lho documentário" (Studies, p. 99-100). Para os
sociólog_o_não_temliografia, não , tem história, não tem etnometodólogos, a sociologia praticamente não ultra-
p~ -sobretudo incapaz de juizo. Qarfinkel -faz- passou ainda a fase da "atitude natural" da fenomeno-
umacrítivlenj")P,comsviu ó- logia, sua prática ainda continua "ingênua".
log5s-j---f3ro is-si-orialii-e os atores de senso comum cons-
Mas como observa Garfinkel no Prefácio dos Studies:
-

troem os seus mundos da mesma maneira. A análise


"Não há razão para se querelar em torno do raciocínio
"não é monopólio dos filósofos nem dos sociólogos profissio- sociológico prático, pois as pesquisas sociológicas são
nais. Os membros da sociedade se envolvem na conduta práticas de ponta a ponta. Assim, essas querelas não
social dos seus negócios e assuntos cotidianos. O estudo precisam ser levadas a sério, salvo se forem considera-
das atividades de senso comum consiste em considerar das como fenômenos interessantes para estudos etno-
como fenômenos problemáticos os métodos pelos quais metodológicos. Os estudos etnometodológicos não se
os membros de uma sociedade, ao fazerem sociologia, destinam a trazer ou a demonstrar corretivos. São inú-
leiga ou profissional, tornam observáveis as estruturas teis se conduzidos como ironias. Embora se destinem à
sociais das atividades de todos os dias" (Studies, p. 75). preparação de manuais sobre os métodos da sociologia,
A sociologia profissional é uma atividade prática não são de maneira alguma suplementos aos procedimen-
como outra qualquer e pode-se analisá-la enquanto tos estandardizados, mas distinguem-se deles" (p. VIII).
prática. Foi isso que permitiu dizer que a etnometodo- Garfinkel e Sacks definiram o que se devia enten-
4 logia não era nada mais nada menos que a sociologia der por essa "indiferença etnometodológica":
1 da sociologia, o que não está errado, mas é certamente
,
"Os estudos etnometodológicos sobre as estruturas for-
redutor. O projeto da etnometodologia é mais sutil. mais se destinam ao estudo de fenômenos como, por
Insistindo nos_fundamentoà-de senso-comum-da-socio- exemplo, suas descrições pelos-membros,quaisquer que
logia 'profissional, tomando-os como uma "folk discipli- sejam, abstendo-se de todo juízo sobre a sua pertinência,
ne", ela começa a fazer parte da realidade que se seu valor, sua importância, sua necessidade, sua "prati-
e
propõe estudar. A pesquisa sociológica repousa em calidade", seu sucesso ou conseqüência. Damos a esse
5 cima de uma visão do mundo tácita, de senso comum. modo de proceder o nome de "indiferença metodológica".
Até as estatísticas, muitas vezes consideradas e utili- Nosso trabalho não consiste em modificar, elaborar,
11
zadas como limites fiáveis, indicadores seguros, não
escapam a esta observação: elas dependem diretamen- crimes que já existiam antes, mas não eram "contabilizados" da mesma
te das capacidades de julgamento dos atores que cole- maneira? As estatísticas se referem sempre às mesmas categorias de
tam os dados, verificam, cotejam etc.' A sociologia delitos? Não há agora controles mais numerosos? Trata-se de furtos, de
tigressbes ou mais simplesmente de usuários que viajam sem ticket? É
preciso, para responder a essas perguntas, pesquisar as pesquisas. Isso
tentam fazer em alguns de seus trabalhos J. P. Briand, J. M. Chapoulie
- -

e E. Peretz, Les atatistiques acolaires comme représentation et comme


1. Os usuários do metrô parisiense podem perguntar qual o crédito que se réalité, Revue française de Sociologie, XX, 4, out.-dez. de 1979, p.
deve dar às inúmeras declarações dos políticos, batidas com a insistência 669 702; J. Peneff, La fabrication statistique ou le métier du père,
-

que se conhece pela grande imprensa, a respeito do "aumento da delin- Sociologie du nuvail, 2, 1984, p. 195-211; D. Merllié, 1983: Une nomen-
quancia no metrô de Paris". Como é que são fabricadas as estatísticas clature et sa mise en oeuvre. Les statistiquea sur ]'origine sociale des
dos crimes, e quem sa faz? Pelos agente* da RATP, por policiais, por ét-udianta, Actee de la recherche en eciences sociales, 50, nov. de 1983,
juízes? Será que náckhouve uma mudança na maneira de ver certos "Qu'est-ce que elasserr, p. 3-47.

80 81
contribuir, detalhar, dividir, explicar, fundamentar a
relação ao raciocínio sociológico profissional, como tam- dos parceiros. Por exemplo, Garfinkel vai mostrar que
pouco a nossa indiferença a essas tarefas. A nossa indi- se você e eu estamos jogando cartas, estamos a par das
ferença se refere sobretudo ao conjunto do raciocínio regras do jogo que aceitamos de comum acordo preli-
sociológico prático, e esse raciocínio implica inevitavel- minar. Se saio da sala, as regras ficam simplesmente
mente para'nós, sejam quais forem as suas formas, o suspensas até que eu volte, e estamos sempre na
domínio da linguagem natural. O raciocínio sociológico relação de confiança. Mas se eu saio das regras de
profissional não se distingue de maneira alguma como maneira provocadora — e posso fazê-lo para pôr à prova
fenômeno que chama a atenção de nossa pesquisa. As o último plano de confiança — produzo um escândalo
pessoas ao realizarem estudos etnometodológicos po- que revela o a priori de confiança sem o qual as
dem preocupar-se nem mais nem menos com o raciocínio relações sociais não poderiam manter-se de forma
sociológico profissional do que com práticas do raciocínio duradoura. O escândalo não reside tanto no fato de
jurídico, do raciocínio das conversações, do raciocínio romper a regra do jogo, mas antes, principalmente, no
divinatório ou psiquiátrico, e assim por diante" 2 . ter atentado contra a confiança que é a condição fun-
damental mas habitualmente escondida do jogo com
2. A provocação experimental suas regras combinadas.
Nos Studies se acham muitas observações, expe- Todavia, o conjunto desses procedimentos não
riências e mesmo experimentos, como aquelas do fa- constitui um novo estoque de técnicas de campo. As
moso breaching que consiste em "desarrumar" as técnicas aplicadas por Garfinkel, e depois por seus
nossas rotinas. Essas rotinas se fundamentam, como discípulos, fazem parte do patrimônio da sociologia
observara Parsons, em uma ordem moral que é neces- qualitativa moderna. Seria inútil por conseguinte pro-
sária para a realização de nossas ações. Essa necessi- curar aqui preceitos para estudar os fatos sociais.
dade de uma ordem moral como garantia para o bom Aliás, o próprio Garfinkel nos adverte a esse respeito:
êxito das interações acha a sua transposição etnome- não se trata de corrigir os procedimentos da sociologia
todológica na noção garfinkeliana da confiança, noção standard, nem de escrever um novo capítulo de meto-
que dá até o título a um artigo de Garfinkel 3. Neste dologia para os manuais de sociologia em circulação.
artigo, o Autor toma como ponto de apoio a análise de Mas em compensação a crítica dos métodos da sociolo-
rupturas experirnentais em jogos de sociedade para gia tradicional, e mais particularmente dos métodos
mostrar, pela desarrumação (breaching), o pano-de- quantitath os, ocupa lugar importante nas obras fun-
fundo moral das atividades comuns. Mas se em Par- dadoras da etnometodologia. A primeira delas, e a mais
sons os parceiros se conformam a regras sociais que famosa, é aquela que Cicourel consagra em 1964 ao
lhes são exteriores, embora internalizadas pela educa- método e à medida nas ciências sociais.
ção, em Garfinkel, pelo contrário, é graças aos modelos
de último plano que se poderão interpretar as ações 3. A contribuição metodológica de Cicourel
Aaron Cicourel foi o primeiro discípulo importante
de Garfinkel. Em 1964, publica uma obra importante,
2. H. Garfinkel e R. Sacks, 1970: On Formal Structures of Practical Action, intitulada Method and Measurement in Sociology 4
op. cit., p. 345-346.
3. H. Garfinkel, 1963:A Conception of, and Experimenta with 1'rust" as a
Condition of Stable, Concerted Actions, in: O.J. Harvey (Ed.), Motivation
and Social Interaction, Nova York, Ronald Press. 4. A. Cicourel, 1964: Method and Measurement in Sociology, Nova York,
Free Presa. ••

82
83
Esta obra constitui uma base epistemológica capi- reflexão poderia sugerir que, como os conceitos sobre
tal, pois ambiciona mostrar as interações entre teoria, os quais se baseiam as teorias sociológicas não têm, por
métodos e dados. Cicourel tem como propósito abordar essência, propriedades numéricas, não se pode saber
a pesquisa sociológica examinando de um ponto de que propriedades numéricas procurar na realidade.
vista crítico os fundamentos do método e da medida, Cicourel não adota uma posição tão categórica nos
não perdendo de vista, como o afirma MacIvers, que "a •capítulos seguintes, consagrados sucessivamente à ob-
estrutura social 'é, quanto ao essencial, criada". servação participante, aos diálogos, aos questionários,
De inicio, Cicourel precisa que ele pressupõe que à múltipla escolha, ao método demográfico, à análise
as decisões metodológicas tomadas na pesquisa em de conteúdo, à pesquisa experimental e finalmente à
ciências sociais têm as suas contrapartidas teóricas e, lingüística. Ele não propõe aos sociólogos que cessem
por outro lado, que os pressupostos teóricos dos méto- toda a pesquisa e toda a medida até que consigam
dos e da medida em sociologia não podem ser separa- clarificar todas as categorias fundamentais da vida
dos da linguagem que os sociólogos usam em sua cotidiana. No entanto, não se trata de tentar aperfei-
teorização e em sua pesquisa. A primeira tarefa do çoar os sistemas de medida a fim de torná-los "melho-
sociólogo será por conseguinte esclarecer a linguagem res", mas de consolidar as fundações metodológicas da
que utiliza. A pesquisa sociológica exige uma teoria da pesquisa sociológica. Os sociólogos não atribuem, se-
instrumentação e uma teoria dos dados, de tal sorte gundo Cicourel, suficiente importância ao estudo das
que se possa distinguir entre o que depende dos proce- variáveis "subjetivas", em particular as que contri-
dimentos e da intervenção do observador e o material buem para o caráter contingente da vida cotidiana.
que ele denomina dados.
Uma outra questão é suscitada nesse livro: a da 4. Etnometodologia, etnografia constitutiva e
utilização freqüente dos sistemas matemáticos e dos sociologia qualitativa
„sistemas de medida na pesquisa em ciências sociais.
Cicourel diz não_ querer afirmar que os-fatos-sociocul- Na prática, e quando vão para uma pesquisa de
turais não possam ser medidos, com o auxílio das campo, os etnometodólogos — corno não produziram
funções matemáticas existentes, mas os fatos funda- uma tecnologia original — se vêem obrigados a usar
mentais da ação social deveriam ser clarificados antes instrumentos de pesquisa. Tomam esses instrumentos
de impor postulados de medida que não lhes corres- emprestados da etnografia.
pondem. Para ilustrar este ponto, vamos apresentar duas
O primeiro capítulo examina detalhadamente o contribuições: a de Hugh Mehan relativa à etnografia
problema da medida. O argumento principal é que os constitutiva, aplicada mais especialmente ao domínio
atuais dispositivos de medida não são válidos pois da educação, ao qual ainda voltaremos, mas que vale
representam a imposição de procedimentos numéricos também para o conjunto dos domínios. A ela Don
que são exteriores tanto ao mundo social observável Zimmerman dá o nome de tracking.
descrito pelos sociólogos como às conceitualizações ba-
seadas nessas descrições. Levada a seu extremo, essa A) A etnografia constitutiva
Hugh Mehan propõe novo enfoque, inspirado na
etnometodologia, que denomina "etnografia constitu-
5. R.M. Maclver, Social Caueation, Boston, Ginn. 1942, p. 20-21. tiva". Eis em que consiste esse enfoque:

84 85
"Os estudos de etnografia constitutiva funcionam em Na pesquisa de campo os etnometodólogos adotam
cima da hipótese interacionista segundo a qual as estru- os métodos empregados por outras sociologias qualita-
turas sociais são construções sociais"'. tivas ou clínicas. Os instrumentos para a coleta dos
dados usados pelos etnometodólogos são extremamen-
Aí se reconhece um dos princípios fundamentais da
te variados: observação direta nas salas de aula, obser-
etnometodologia, segundo a qual "os fatos sociais são vação participante , diálogos, estudos dos dossiês
construções práticas". administrativos e escolares, dos resultados aos testes,
"A convicção central dos estudos constitutivos sobre a gravações em vídeo dos cursos ou das conversações de
escola é que os 'fatos sociais objetivos', assim como a orientação, projeção do material gravado para os pró-
inteligência dos estudantes, as suas performances esco- prios atores, gravações dos comentários feitos no de-
lares ou seus planos de carreira, bem como as bases correr dessas projeções. Esses métodos dependem do
rotineiras do comportamento, como a organização da método etnográfico que tem como indicação metodoló-
classe, se realizam nas interações entre professores e
gica primeira a observação de campo, a observação dos
alunos, aplicadores de testes e estudantes, diretores e
professores... A etnografia constitutiva é o estudo das atores em situação.
atividades estruturantes que constroem os fatos sociais Além dessas técnicas de coleta dos materiais, exis-
da educação" (p. 36). te uma postura particular de pesquisa adotada pelos
Além dessa orientação teórica, há quatro grandes pesquisadores dessa corrente. Pode-se resumir pela
princípios característicos da etnografia constitutiva: posição expressa por Hugh Meham em sua tese: como
as condições institucionais da pesquisa têm grande
—a disponibilidade dos dados consultáveis (documentos influência sobre a própria pesquisa, constituem um
em áudio ou vídeo, por exemplo, ou transcrição integral); dos materiais de pesquisa:
—a exaustividade do tratamento dos dados, que é um "Os problemas encontrados pela equipe de pesquisa se
meio de luta contra a tendência a só explorar ele- tornaram parte integrante da pesquisa. As interações
mentos favoráveis às hipóteses dos pesquisadores; que tivemos com os funcionários da escola, para recolher
— a convergência entre os pesquisadores e os partici- o material, não podem separar-se do próprio materiar s .
pantes sobre a visão dos acontecimentos, com os Este princípio não é tão trivial como parece à
pesquisadores tendo a certeza de que a estrutura primeira vista, pois instaura o reconhecimento do ca-
que descobrem nas ações é a mesma que orienta os ráter indicial, isto é, contextual, de todo fato social,
participantes nessas ações. Usam-se "dispositivos traço que a análise deveria, em vista dessa indiciali-
de verificação", como o pedido de confirmação, junto dade, evidentemente, levar em conta.
aos pesquisados, que os quadros de análise estão
corretos;
—a análise interacional, que evita ao mesmo tempo a
redução psicológica e a reificação sociológica.
Como a organização dos acontecimentos é social- 7. Esta noção de observação participante — aliás corrente na tradição
mente construída, há de se procurar essa estruturação sociológica, tem alguma semelhança com a noção de "competência
única", ou melhor, "competência implicada" (unique adequacy) proposta
nas expressões e nos gestos dos participantes. por Garfinkel. Ela indica que o pesquisador deve adquirir familiaridade
com o meio sobre o qual vai dirigir a sua sondagem. Garfinkel desenvolve
esse ponto de vista especialmente na conversação com B. Jules-Rosette
publicada em: Sociétés, n. 5.
6. H. Mehan, 1978: Structit'tring School Structure, Harvard Educational
Reuiew, 48, I (fev.), p. 32-64. 8. H. Mehan, 1971, Ph.D., op. cit., p. 22.

86 87
Isso foi bem observado também por outro pesqui- muito bem o que procurar no início. Queriam estudar
sador, Steve Woolgar que, no seu estudo em parceria as lições nas classes, mas como o diz Mehan:
com Bruno latour sobre a vida em um laboratório de
pesquisa 9, levou a termo, inspirando-se na etnometo- "Nós não podíamos nos servir a não ser de vagos termos
descritivos, como por exemplo: 'queremos observar a
dologia, o que ele 'chama de "etnografia reflexiva". A maneira como vocês ensinam as crianças, o tipo de estilo
etn- grafia—refièxiva tem como propósito explicar si- que usam; como decidem que uma resposta está correta
multaneamente o objeto da pesquisa e a demarche ou não; queremos ver se o vocabulário de vocês coincide
empregada durante a pesquisa, a partir desta hipóte- com o empregado pelas crianças na classe'. Essas des-
se: tanto aquele como esta se acham não apenas liga- crições vagas eram necessárias porque não éramos de
dos, mas o conhecimento de um permite igualmente fato capazes de dizer à professora o que queríamos antes
apreender melhor a outra. de tê-la visto, e também porque receávamos que o seu
comportamento fosse influenciado por isso" (p. 26).
Vamos encontrar a mesma demarche na tese dou-
toral, de Carlos Castafieda, tese constituída em parte Traço essencial da etnometodologia é exigir a des-
pelo "diário de viagem" do pesquisador em busca do crição. Como a etnometodologia fixa para si o objetivo
segredo das plantas alucinógenas 19. de mostrar os meios utilizados pelos membros para
organizar a sua vida social em comum, a primeira
Outra particularidade impressionante no trabalho tarefa de uma estratégia de pesquisa etnometodológi-
de pesquisa que Mehan refere em sua tese: o abandono ca é descrever o que os membros fazem. Isto implica
das famosas "hipóteses-de-antes-da-ida-ao campo". A também a escolha deliberada de um certo localismo,
equipe de pesquisa, dirigida por A. Cicourel n, não sabia que não é uma contra-indicação para uma prática
científica da sociologia.
9. B. Latour e S. Woolgar, 1979: Laboratory Life, the Social Construction of B) O tracking
Scientific Facta, Beverly Hills. Ensaio. O título (completo) da obra deles
evoca evidentementeco da P. Berger e T. Luckmann (1966), The Social Proponho que se-traduza como "espreita" termo
Construction of Reality, op. cit.
10. C. Castafieda, 1972: L'herbe du diable et la petite fumée, Paris, Plon.
que evoca a leitura dos romances policiais — a noção de
Em razão das normas universitárias, C. Castafieda separou nessa obra tracking, assim como é usada por Don Zimmerman 12
o "diário de viagem" e a análise estrutural de inspiração muito etnome- uma acepção muito diferente do uso que lhe dão no em
todológica que lhe segue. Mas apresentou e publicou os dois ao mesmo
tempo, contra a tradição etnológica que separa os géneros, como o faz sistema educacional americano, onde esse termo de-
por exemplo Michel Leiria ao publicar de um lado seu diário sob o título signa habitualmente uma classificação dos alunos, ao
de L'Afrique fantônie , Paria, Gallimard 1934 e, de outro, memórias mesmo tempo em grupos de nível e em grupos de
científicas como o trabalho consagrado à possessão e seus aspectos
teatrais nos Etíopes de Gondar, em: L'Homme, Plon, 1958. René Lourau currículo. Zimmerman toma o termo tracking no sen-
comenta, o diário . de Castafieda em Journal de terrain, journal de tido corrente de "seguir a pista de alguém, caminhar
recherche, "account", Pratiques de formation, 11-12, p. 124-127.
11. A equipe de pesquisa era composta de Hugh Mehan, Robert MficKny,
seguindo os vestígios de alguém" 13 .
Marshall. Shumsky, Kenneth Leiter, David Roth, Kenneth e Sybillin
Jennings, todos alunos de Cicourel, e trabalhando em cima de aspectos
diferentes. O conjunto dessas pesquisas, realizadas em 1968 e 1969, no
decorrer das quais cada um foi o "assistente" doa outros, produziu tantas
teses doutorais — todas originais e defendidas em Santa Bárbara —
quanto& eram os pesquisadores. Este trabalho coletivo deu também 12. Documento comunicado pelo Autor, intitulado Fieldwork as a Qualtta-
ensejo a uma obra coletiva, em 1974: A. Cicourel et alii, 1974: Language tive Method.
Use and School Performance, Nova York, Academic Press.
13. Harrap's, 1984.

88 89
Segundo Zimmerman, para se situar na posição de Sem dúvida, deve-se chegar a extrair das informa-
ções coletadas o significado dos acontecimentos obser-
um indivíduo da coletividade, o pesquisador necessita
vados. Para tanto, o recurso evidente se encontra
levar em conta suas próprias implicações na estratégia
naquilo que dizem os indivíduos. Comentam sem ces-
de pesquisa. Por outro lado, adquirir "uma visão ínti-
sar as suas atividades. Por exemplo, em uma univer-
ma de um mundo social particular" supõe comparti-
sidade os estudantes falam constantemente dos seus
lhar com os membros uma linguagem comum, a fim de
evitar os erros de interpretação. Captar o ponto de cursos, dos professores, do trabalho universitário, mas
também dos seus fins-de-semana. Deve-se portanto
vista dos membros não consiste simplesmente em es-
descrever os acontecimentos repetitivos e as ativida-
cutar o que dizem nem mesmo em pedir-lhes que
des que constituem as rotinas do grupo que se estuda.
explicitem o que fazem. Isto implica situar as descri-
Deve-se estar ao mesmo tempo em posição exterior
ções deles em seu contexto, e considerar os relatos dos
para escutar e ser um participante das conversações
membros como instruções de pesquisa.
naturais onde emergem as significações das rotinas
O interesse dedicado ao ponto de vista dos mem- dos participantes.
bros é muitas vezes considerado o sinal de um enfoque
"Pôr-se à espreita" (tracking) é um dos traços da obser-
subjetivo. Recorda Zimmerman que a noção de mem- vação participante. Isto consiste em observar o maior
bro deve ser interpretada no sentido etnometodológico: número de situações possíveis no decorrer da pesquisa
chama-se de membro aquele que possui: "o domínio da de campo. Pela "espreita", o pesquisador tenta ver aqui-
linguagem natural", a competência social da coletivi- lo que o sujeito vê. A pesquisa assume a forma de
dade em que vive. Não se deve perder de vista o reportagem quando, por exemplo, se refere às ativida-
princípio do diálogo etnográfico que consiste em obter des da polícia, quando se pode mostrar que elas são de
de uminformante o saber socialmente sancionado de fato atividades rotineiras "espreitando" os policiais,
sua comunidade: suas descrições e suas explicações como o fez Raymond Depardon em Faits divers, título
evocador de um filme que se pode considerar como
são reconhecidas como válidas, apropriadas, pelos ou- excelente ilustração da problemática etnometodológica.
tros membros competentes da comunidade. As infor- A "espreita" etnográfica é uma solução para o problema
mações recolhidas devem constituir o objeto de uma da posição do observador face à diversidade dos compor-
"validação intersubjetiva". Mas isto não significa de tamentos sociais. Permite não apenas observá-los, mas
modo algum,' insiste Zimmerman, que haja qualquer também descobrir o que os participantes dizem a esse
transferência de competência da "autoridade analítica respeito. Naturalmente, supõe-se aqui que o pesquisa-
para os sujeitos da pesquisa". dor possa deslocar-se livremente no interior do seu
quadro de pesquisa.
Para penetrena comunidade que se quer estudar,
deve-se ter uma estratégia de ingresso, que irá variar Esta estratégia de pesquisa tem como base esta
com o campo e a pêsquisa. Mas é preciso acima de tudo idéia:
prestar atenção, acha Zimmerman, ao aplicar o que eu "a vida social é metodicamente realizada pelos mem-
chamaria de dispositivo de observação e pesquisa: bros. Nas características dessas realizações residem as h),00-A- -
propriedades dos fatos sociais da vida cotidiana: o cará- th- ,
"O etnógrafo deve encontrar os meios para estar onde
tem necessidade de estar, ver e ouvir o que pode, desen- ter repetitivo, rotineiro, padronizado, transpessoal e
trans-situacional dos modelos da atividade social do
volver a confiança entre ele e os sujeitos a estudar, e
fazer muitas perguntas". ponto de vista do membro".

90 91
A construção do mundo social pelos membros é
metódica. Apóia-se nos recursos culturais comuns que
permitem não somente construí-lo mas reconhecê-lo: Capítulo VI
"Uma compreensão detalhada dos métodos dos mem-
bros para produzir e reconhecer os seus objetos sociais,
acontecimentos, atividades... serve também para impor
uma disciplina aos analistas da atividade social... Só
O Trabalho de Campo
quando se sabe como os membros constroem as suas
atividades é que se pode ter razoável certeza do que são
realmente essas atividades".
Este último trecho constitui um resumo feliz da
doutrina etnometodológica: é uma doutrina, como diz construtivista
Mehan. fundamentalmente ,•enstrutivista 14 .
O segredo da aglutinação social não reside nas
estatísticas produzidas por membros "peritos" e utili-
Os etnometodólogos consagraram, desde a origem do
zadas ppr. outros "especialistas sociais" que se esque-
movimento, a maioria dos seus estudos a problemas de
ceram 'do seu caráter reificado. Ele se desvela ao
contrário pela análise dos etnométodos, isto é, dos sociedade. Já, como se viu, nos escritos juvenis do seu
procedimentos que os membros de uma forma social período pré-etnometodológico, Garfmkel se ocupa com
usam para produzir e reconhecer o seu mundo, para tribunais e criminologia. Ele continua com estudos
torná-lo familiar aglutinando-o. sobre as decisões tomadas pelos jurados, ou as pesqui-
sas a respeito de suicídios... Todas as teses defendidas
na corrente etnometodológica têm como objeto um
problema social e como demarche a abordagem quali-
tativa de campo, segundo procedimentos geralmente
tomados de empréstimo à etnografia, como se acaba de
ver. Mas a ruptura com a sociologia positivista ocorre
alhures, não nas técnicas de campo: ela reside no fato
de que, para cada domínio estudado, os etnometodólo-
gos põem ênfase nas atividades interacionais que cons-
tituem os fatos sociais. Os fatos sociais não são coisas,
mas realizações práticas: eis, enunciado na linguagem
de Garfinkel, o novo paradigma sociológico que é, como
se viu, o resultado de toda uma corrente da sociologia
americana e que servirá de fio condutor para cada
pesquisa de campo.
Esses campos ou terrenos correspondem a alguns
dos grandes domínios de pesquisa da sociologia, entre
14. H. Mehan, 1982: Le constructivisme social en psychologie et en socio-
logia, Sociologiee et Sociétés, XIV, 2, p. 77-95. os quais:

92 93
— a educação que deu lugar a numerosas pesquisas':
diagnóstico, de atendimento, de tratamento e de
descreveram-se as interações nas classes e a organi- trabalho social nos hospitais psiquiátricos e os ser-
zação das lições, as práticas dos testes e de exames, viços hospitalares para as doenças mentais':
os procedimentos de conselho e orientação 2 , a "desi-
gualdade em ato" 3 ou ainda, no campo do ensino — os processos organizacionais. Bittner submeteu o
superior, a aprendizagem da "profissão" de estudante': conceito de organização e o ideal-tipo weberiano a
uma análise crítica. Zimmerman estudou as intera-
—o sistema judiciário, os tribunais e as prisões, bem
ções no interior do sistema organizacional 5 ;
como as práticas policiais que são um terreno parti-
cularmente explorado pela etnometodologia; deve- —a pesquisa científica: Garfinkel se interessou, com
se destac'ar aqui os trabalhos de Bittner, de Gar- diversos pesquisadores trabalhando sob a sua dire-
finkel (Studies, p. 104-115), de Cicourel, de Emer- ção, como Michael Lynch e Eric Livingstone, pelas
son, de Sacks, de Wieder, de Pollner 5 . Esses Autores atividades de laboratório da pesquisa científica. E
descreveram as práticas empregadas pela Polícia Livingstone fez a sua tese sobre o trabalho dos
para estabelecer os "fatos criminosos" e pelos juízes matemáticos. Lynch consagrou a sua tese ao proble-
e pelos tribunais, bem como pelos homens da lei, ma do artefato num laboratório científico s .
para constituir os "fatos judiciários"; Além disso:
—as práticas médicas, e sobretudo a gestão da morte —diversos etnólogos não demoraram a se interessar
nos hospitais,5, as categorizações formais e informais pela orientação etnometodológica. Podem-se citar,
dos pacientes. (Studies, p. 186-207), as práticas de

1. Cf. A. Coulon, 1993: Ethnométhodologie et éducation, Paris, PUF. Tradu-


zido pela Vozes (1995).
7. A. Ogien, 1984: Positivité de la pratique. L'interuention en psychiatrie
2. Além dos já citados trabalhos de Hugh Mehan e Cicourel, convém comme argumentation, tese de doutorado do 3 2 ciclo, Université de Paris
mencionar outro artigo importante de H. Mehan, 1980: The Competent VIII.
Student, Anthropology and Education Quarterly, XI, 3, p. 131.152.
8. E. Bittner, 1965: The Concept of Organization, in R. Turner (Ed.), 1974:
3. J.E. Rosenbaum, 1976: Making Inequality, Nova York, Wiley. Ethnomethodology, Harmondsworth, Penguin Books, p. 69-81. D.H.
4. A. Coulon, 1990: Le métier d'étudiant. Approches ethnométhodologique et Zimmerman, 1969: Fact as a Practical Accomplishment, in R. Turner
institutionnelle de l'entrée dans la uie uniuersitaire, Use de doutorado (Ed.), 1974: Ethnomethodology, Harmondsworth, Penguin Books, p.
de Estado, Université de Paris VIII, 3 vol. 1130 p. 128-143.
5. E. Bittner, 1967: The pOlice, on skid-row, American Sociological Reuiew, 9. H. Garfinkel, M. Lynch e E. Livingston, 1981: The Work of a Discovering
32, p. 699.715; A. Cicourel, 1968: The Social Organization of Juuenile Science Construed with Materiais from the Optically Discovered Pulsar,
Justice, Nova York, Wiley; R. Emerson, 1969: Judging Delinquents, Philosophy of Social Sciences, 11, p. 131-158; E. Livingston, 1978: An
Chicago, Aldine; H. Sacks, 1972: Notes on Police Assessment of Moral Ethnomethodological Inuestigation of the Foundations of Mathematics,
Character, in D. Sudnow (Ed.), Studies in Interaction, Nova York, The Ph.D. dissertation, University of California at Los Angeles; M. Lynch,
Free Press, p. 280-293;t.L. Wieder, 1974: IbIling the Code, in R. Turner 1979: Art and Artefact in Laboratory Science: a Study of Shop Work and
(Ed.), Ethnomethodology, Harmondsworth, Penguin Books, p. 144-172; Shop Tolk in a Research Laboratory, Ph.D. dissertation, University of
M. Pollner, 1974: Socio)ogical and Common-Senses Modele of the Label- California at Irvine.
ling Process, in R. Turner (Ed.), Ethnomethodology, Harmondsworth, Também se pode consultar a este respeito D. Bloor, 1976:Knowledge and
Penguin Books, p. 27-4Q. Social Imagery, Londres, Routledge & Kegan Paul (trad. francesa 1982:
6. D. Sudnow, 1967: Passing on: The Social Organization of Dying, Engle- Socio(logie) (de la) logique, les limites de l'épistémologie, Paris, coll.
wood CEM, N.J. Prentice Hall. 8Pandore", bem como a obra já citada de B. Latour e S. Woolgar, 1979:
Laboratory Life, op. cit.

94
95

entre outros, Moerman, Bellman, Jules-Rosette, pais, pertença étnica); e obtêm-se, na saída, fracasso
Castafieda"; escolar, desistências, de maneira que "o filho terá a
mesma profissão do pai" e a desigualdade se reproduz.
— Bittner se interessou pelos movimentos políticos Mas não se vê como é que essa reprodução é fabricada
radicais. Em época mais recente, Georges Lapassa- dentro da "caixa-preta", ou seja, a escola. Embora a
de, Bernard Conein e Louis Quéré tentaram definir educação seja uma variável muito importante em suas
as bases etnometodológicas de um estudo sobre o próprias teorias, os sociólogos da educação não exami-
movimento estudantil do outono de 1986 11 . naram diretamente os processos educacionais.
Apresentar-se-ão agora, a titulo de ilustração, al- Acredita Mehan que o estudo das condições concre-
guns dos assuntotá abordados em uma perspectiva tas em que se desenrola cotidianamente o processo
etnometodológica. educativo é indispensável para quem quer compreen-
der a influência da escola sobre a vida futura das
1. A educação pessoas. Ele quer mostrar concretamente como fatores
tais como o número de alunos por sala de aula, os
A maior parte dos estudos de sociologia da educa- métodos pedagógicos ou ainda o tamanho das salas dos
ção, segundo acredita Mehan, aborda as estruturas cursos, "operam em situações educativas práticas". Da
sociais como se fossem "fatos sociais", obrigatórios e mesma forma, a influência de fatores como a classe
objetivos: social, a raça, a atitude do/a professor/a, deve ser
"Procurando relações estatísticas entre essas estrutu- mostrada em sitliação, nas interações entre os parcei-
ras, esses estudos não chegam a considerar a maneira ros do ato educativo:
pela qual,,esses fatos sociais são produzidos" 12 . "As performances dos alunos na escola não são inde-
Tudo se passa como se a educação, como processo, pendentes dos procedimentos avaliativos produzidos
fosse tratada como uma "caixa-preta", que se esquece pelos accounts dos sucessos, das capacidades e dos pro-
propositalmente de analisar, para se interessar ape- gressos dos alunos. Análises sobre a estruturação da
nas pela entrada e pela saída. Colocam-se, na entrada estrutura escolar foram realizadas em dispositivos par-
ticularmente importantes na orientação dos alunos: em
do sistema, variáveis "input" (sexo, idade, CSP dos
classe ou no momento dos exames ou nos encontros com
conselheiros de orientação. Todas elas mostraram que
os fatos educativos próprios desses dispositivos se aglu-
10. M. Moerman, 1968: Accomplishing Ethnicity, in R. nirner (Ed.), Ethno- tinam nas interações entre os participantes... O estudo
methodology, Harmondsworth, Penguin Books, p. 54-68; B. Bellman, das sessões de orientação mostrou como as escolhas de
1975: Village of Curers anui Assassina, La Haye, Mounton; B. Bellman,
1984: The Language ofSebrecy, New Brunswick, NJ, Rutgera University orientação dos estudantes são estruturadas na intera-
Press; B. Jules-Rosette, 1975: African Apostles: Ritual and Conuersion ção entre os orientadores e os alunos no decorrer de suas
in the Church of John Maranke, Ithaca, Nova York, Cornell University entrevistas" (p. 40).
Press; C. CastaSeda, 1068: The Teaching of Don Juan, Berkeley, Univer-
sity of California Press (trad. franc. 1972: L'herbe du diable et la petite
fumée, Paris, Plon, "10-18" (há tradução brasileira). A) As interações na sala de aula
11. E. Bittner, 1963: Radicalism: A Study of the SociolOgy of Knowledge,
American Sociological Review, 28, p. 928-940; G. Lapassade, B. Conein Quando se observa uma classe, diz Mehan, ela nos
e L. Quéré, 1987: Comment comprendre le mouvement?, Raison présen • parece organizada: os professores e os alunos falam
te, 82, p. 9-16.
cada um em sua vez, em momentos bem precisos. Os
12. H. Mehan, 1978: Structuring School Structure, Harvard Educational
Review, 48, 1 (fev.), p. 32 alunos escrevem, fazem trabalhos em pequenos grupos

1
.

97
96
ou lêem em silêncio. Em suma, estamos diante de uma Bras. Um aluno competente será portanto aquele que
conseguir realizar a síntese entre o conteúdo acadêmi-
verdadeira organização social. Trata-se, é claro, de co e as formas interacionais necessárias à realização
uma ordem instituída. É a maneira como nascem e se
de uma tarefa. Toda separação da forma e do conteúdo
estruturam essas instituições que se trata de analisar.
será imediatamente interpretada pelo professor como
Mehan e seus colaboradores "videoscopiaram" uma
o sinal de uma incompetência. Isso deveria levar-nos
sala de aula, com alunos de etnias e idades diferentes,
a uma nova definição da capacidade de um aluno, como
durante um ano escolar. Analisaram nove cursos e
o mostraram aliás as pesquisas dos etnometodólogos
mostraram que é o trabalho de interação entre os
da educação sobre os exames, de um lado, e os diálogos
professores e os alunos que produz esta organização da
de orientação, de outro.
classe. Os professores e os alunos marcam as frontei-
ras das seqüências interacionais, dos intercâmbios
temáticos, das fases e até das lições, por modificações B) Os testes e os exames
dos seus comportamentos gestuais, paralingüísticos e Mehan estudou a maneira como as respostas são
verbais. Essas mudanças de comportamento têm como produzidas no decurso da aplicação dos testes. Já se
função indicar aos interlocutores onde é que estão no mostrou que a significação das perguntas, contraria-
decurso de suas intercomunicações. Essas mudanças mente a uma das hipóteses fundadoras do próprio
estruturam a situação de intercâmbio. Pode-se dizer princípio dos testes, não é a mesma para todos. O
que eles são marcadores ou delimitadores das situações. sentido deles não é compartilhado, bem longe disso,
Permitem a cada um situar-se na temporalidade da entre os adultos que aplicam os testes e os alunos
sala de aula. testados. As respostas falhas provêm no mais das vezes
Centrando-se nas interações durante a aula, Me- de uma interpretação diferente do material conceitual
han" mostra que boa quantidade de atividades aí se utilizado, e não de uma falta de conhecimentos ou de
desenrola simultaneamente. Os alunos desenvolvem incapacidade para raciocinar corretamente. Vê-se en-
conscientemente as suas próprias estratégias a fim de tão claramente que tratar os resultados nos testes
levar a bom termo objetivos independentes daqueles como fatos objetivos dissimula os processos mediante
do professor e governar assim os seus próprios assun- os quais os alunos chegam a elaborar suas respostas.
tos. Nisso mostram os alunos a sua "competência inte- Entretanto essa elaboração deveria ser julgada funda-
racional". Um certo número de regras gerais é baixado mental pelos educadores, pois o seu exame permitiria
pelo professor, como por exemplo: "não correr na sala avaliar as capacidades reais de raciocínio dos alunos.
de aula", "ser limpo", "respeitar os outros", mas nenhu- Mehan registra com o auxílio de um magnetoscópio
ma dessas regras diz quando e como devem ser aplica- a aplicação do WISC 14 a crianças da zona rural de
das. Os alunos devem descobrir em cada situação, nas Indiana. Normalmente, os aplicadores do teste devem
interações que realizam entre si mesmos e com o anotar, assim que o aluno respondeu, O, 1 ou 2, em
professor, a significação e o funcionamento dessas re- função da qualidade da resposta do aluno, e passar logo
construção do senso comum das regras sociais à pergunta seguinte. De fato, a análise do filme mostra

13. H. Mehan, 1979: Learning Lessons, Cambridge, Masa., Harvard Uni-


vereity Press, cf. também H. Mehan, 1980: The Competent Student, 14. Weschler Intelligence Scale for Children (WISC).
Anthropology and Education Quarterly, XI, 3, p. 131.152.

98 99
■•••■••••114MR, -

que, dentre 65 perguntas, 21 foram "parasitadas" por Erikson examinou o papel desempenhado pelo;,
intervenções do aplicador do teste, que ora repetia a orientadores no processo de seleção dos alunos'''. ièn-
pergunta, ora dava indicações ou incitava o aluno a dar do trabalhado como orientadores em um bairro negro
uma segunda resposta, o que tinha como efeito aumen- de uma grande cidade americana, a seleção e a discri-
tar o seu escore de 1 para 2 em 50% dos casos. O escore minação racial de que foi testemunha cotidiana duran-
final de um aluno pôde assim ser 27% superior ao que te três anos o levaram a interrogar-se sobre o papel
teria sido se ele não tivesse sido ajudado pelo aplicador desses orientadores de todos os tipos, encarregados de
do teste. Em Outro teste, as crianças solicitadas pela manter a ordem social branca. Mais tarde, tendo-se
pessoa que aplicava o teste aumentaram 44% o núme- tornado professor universitário, decidiu analisar os
ro de suas respostas corretas. encontros que os alunos dos liceus têm com esses
Tomar os resultados de um teste como um fato orientadores, cuja influência é muito grande. O papel
objetivo dissim;ffla portanto três tipos de mecanismos: desses orientadores é ambíguo: são ao mesmo tempo
os defensores dos alunos e os juízes empregados pela
— aquele pelo qual os alunos interpretam as perguntas administração:
e o material apresentado, para chegar a uma resposta; "A certos estudantes a sociedade e a escola são apresen-
—aqiiele pelo qual o aplicador do teste interpráta e tadas como uma estrutura aberta, em que podem esco-
escolhe aquilo que, entre muitos comportamentos, lher o que querem e agir efetivamente para atingirem o
constitui uma resposta válida; seu fim. A outros são apresentadas como uma estrutura
fechada, em que os indivíduos não escolhem por si
—enfim, aquele pelo qual os aplicadores dos testes e os mesmos e onde há muitos obstáculos a transpor. Segun-
alunos produzein conjuntamente as respostas no do a atitude que os conselheiros decidem adotar, os
decorrer da aplicação do teste. estudantes vivem os conselhos recebidos como estímu-
los positivos ou como restrições" (p. 46).
C) Os orientadores escolares
Os orientadores não tratam os alunos da mesma
Os orientadores desempenham um papel impor- maneira. Supõe-se que as entrevistas se desenrolem
tante no aconselhamento dos alunos particularmente na base de critérios objetivos e universais mas, de fato,
no segundo grau. Cicourel e Kitsuse ig mostraram como os participantes deixam escapar constantemente, no
decisões arbitrárias, com base no racismo e em precon- decurso das interações, informações particulares que
ceitos sócio-econômicos ligados às suas representa- são de fato "sinais" que fundamentam a orientação.
ções, podiam ser tomadas pelos orientadores dos liceus Assim pôde Erikson constatar que os alunos que esta-
a propósito da passagem para o ensino superior. Os belecem um bom grau de comunicação — falando de si
trabalhos etnometodológicos em educação têm como mesmos, de suas atividades esportivas, dos interesses
propósito analisar como é que são tomadas essas deci- comuns com o orientador — beneficiam-se de conselhos
sões, capitais para o futuro dos estudantes. mais positivos. Ele mesmo descobriu, analisando mi-
nuciosamente as gravações dos diálogos, que havia às

15. A. Cicourel e J. Kitause, 1963: The Educational Decision Makers, 16. F. Erikson, 1975: Gatekeeping and the Melting Pot: Interaction in
Indianapolis, Bobbs-Merrill. Counselin Encounters Harvard Ed ai' • nal • • 1

100 101
vezes um verdadeiro acordo corporal — respiração no etnometodologia nos parece extremamente fecunda.
mesmo ritmo, vozes macias e harmoniosas, gestos Abrindo a "caixa-preta" da instituição escolar, a etno-
sincronizados — entre o orientador e o estudante. As metodologia permite que se veja, segundo a expressão
decisões de orientação, tomadas no decorrer das inte- de Mehan, toda uma maquinaria interacional habi-
rações, dependem portanto do juízo subjetivo do orien- tualmente dissimulada, feita de relações verbais e não
tador, das representações que ele se faz do aluno. verbais. Ela mostra como os fatos educativos "objeti-
Utilizam-se algumas características, outras não. Cons- vos" emergem das atividades estruturantes que são a
tituem o objeto de uma triagem totalmente subjetiva, seguir escondidas por um processo de reificação.
arbitrária: às vezes se dá ênfase às notas escolares, à
maneira de se vestir, ao porte atlético. Ora se dará
preferência à raça, ao sexo, à beleza física, à maneira D) A profissão de estudante
de falar. Ora ainda ao poder aquisitivo, à provável
classe social, à distinção etc. Muitos desses atributos Este fenômeno é particularmente visível quando se
são determinados pelo acaso do nascimento e nada têm examinam as práticas de filiação graças às quais um
a ver com qualquer mérito escolar. Mas o processo real calouro, durante as primeiras semanas de seu ingresso
dessa seleção desaparece por trás do diagnóstico do na vida universitária, deve aprender aquilo que desig-
orientador. nei como a sua "profissão", quando passa do grau de
Assim os estudos etnometodológicos da classe e das calouro para o de universitário u . A filiação é um pro-
instituições escolares nos ajudam a compreender os cesso que consiste em descobrir e apropriar-se das
mecanismos cotidianos, ordinários, pelos quais se or- rotinas e das evidências — os etnométodos — dissimu-
ganiza e se produz localmente a seleção social. Esses ladas nas práticas do ensino superior, sem o que o
mecanismos da "desigualdade em ato" 17 são encarna- calouro não poderá agregar-se ao seu novo grupo, e logo
dos nas situações interacionais, inúmeras, da escola no estará em situação de fracasso ou abandono. Mostrei
dia-a-dia. A seleção escolar que alimenta a reprodução que não reconhecer, decifrar e depois incorporar os
social não se faz simplesmente sozinha. A demonstra- códigos clandestinos que governam os intercâmbios
ção etnometodológica não tem evidentemente como sociais universitários constitui uma das principais ra-
intuito acusar ou culpabilizar o corpo docente, o dos zões dos abandonos e dos fracassos que ocorrem tantas
orientadores ou o , dos administradores escolares. Mui- vezes no decurso do primeiro ano de universidade.
to ao contrário, permitindo o acesso aos mecanismos Para ter sucesso na Universidade, é necessário mos-
dessas interações'e à sua compreensão, poderia contri- trar a sua competência de estudante, tendo aprendido
buir para modificá-los. Os trabalhos de sociologia da a manipular a praticalidade das regras fundadoras do
educação raramente fogem a um certo fisicalismo ob- trabalho universitário e fazer uso metafórico dessas
jetivista, que tendp a representar-se o mundo como regras. Um estudante faz que se reconheça a sua
constituído de uma série de classificações objetivas, competência mostrando socialmente que se tornou
independentes da intervenção do sociólogo. Por isso a membro, isto é, que agora consegue categorizar o mun-
do da mesma forma que a comunidade universitária.

17. J.E. Rosenbatun, 1976: Making Inequality, Nova York, Wiley.


18. A. Coulon, 1990: Le métier d'étudiant, op. cit.

102 103
2. A delinqüência juvenil em seguida a estrutura da justiça para menores, as
representações verbais que fazem dela os educadores
Entre os estudos etnometodológicos já menciona- especializados, os adolescentes e os pais. Em seguida,
dos, sobre a delinqüência juvenil,' vamos deter-nos, ele nos apresenta diversos casos de delinqüência que
para uma apresentação mais detalhada, no estudo que teve ocasião de conhecer durante a sua pesquisa. Eis
Cicourel realizou em duas cidades da Califórnia du- dois exemplos, o de Audrey e o de Linda:
rante quatro anos". Este estudo tinha como finalidade
mostrar que a delinqüência juvenil, enquanto fenôme- Audrey, jovem negra de 15 anos, cometeu pequenos
no social, constitui o objeto de uma construção social. furtos de dinheiro, sendo seus colegas de classe as
Mais precisamente, tratava-se de mostrar como a Po- vítimas. Audrey pertence a uma família da classe
lícia, os juizes de menores, os tribunais, mas também média, vive numa casa "muito bem construída", mas
os próprios pesquisadores, transformam as ações dos os pais não exercem, diz a Polícia, nenhuma vigilância
sobre ela. Além do mais, ela teve relações sexuais "com
jovens em dnrumentos, textos e relatórios escritos, que
são depois usados como uma evidência para caracteri- ao menos dois rapazes", dizem os policiais, que acres-
zar determinados ou atividades como delinqüentes, centam ser ela muito "atraente e simpática", "não é
ilegais, perigosos ou suspeitos. Cicourel vai, portanto, nem anti-social nem psicótica". Embora tenha cometi-
conduzir uma pesquisa sobre as investigações dos po- do muitos pequenos furtos, Audrey não responde ao
liciais, dos educadores e dos magistrados, pois são as perfil habitual dos ladrões crônicos. Sua aparência,
investigações destes, com seus aspectos contingentes, tanto física como comportamental — sua ausência de
que estabelecem as classificações sociais que designam insolência, por exemplo — não podem servir como "do-
e permitem reconhecer as categorias de desvio e de cumento" para explicar seus furtos. Ibrna-se assim
conformidade. uma candidata às interpretações clínicas. Um relató-
rio psiquiátrico sugere que ela é "emocionalmente per-
Cicourel apresenta em primeiro lugar um certo turbada". A jovem é internada para observação no
número de estatísticas, cuja pertinência para explicar hospital psiquiátrico durante três meses, e depois é
os delitos deveria, segundo ele, ser questionada, pois entregue novamente ao convívio da família. Tendo sido
particularrnente as categorias não são adequadas, ou assim "rotulada", seus futuros comportamentos serão
são ambíguas, ou mesmo heterogêneas. Trata-se de sempre interpretados em função desse rótulo pela
categorias ad hoc, muito distantes das noções de pre-
polícia ou pelos assistentes sociais, como por exemplo
cisão e lucidez habitualmente associadas à idéia que uma ligeira briga na escola, em que ela se viu envolvi-
se faz do trabalho da justiça. Algumas dessas catego- da para defender uma colega. Cada incidente, mesmo
rias são até mesmo curiosas, como por exemplo as .
de pouca monta, é utilizado para confirmar o diagnós-
"badernas" e "brigas" de adolescentes. Cicourel mostra
tico social e psicológico inicial, servindo essa categori-
zação para de fato construir a identidade delinqüente
de Audrey.
19. Em um quadro que não apenas o da delinqüência juvenil, mas que Cicourel mostra em outros casos como essas ocor-
aborda a criminalidade em geral, consulte igualmente Jack Katz, 1988: rências de delinqüência são negociadas no decurso das
Seductions of Crime. Moral and Sensual Attractions in Doing Buil, Nova
York, Basic Books. audiências perante o tribunal. A sorte dos adolescentes
20. A. Cieourel, 1988: The Social Organization of Juvenile Justice, Nova vai depender de um grande número de fatores, como
York, Wiley. por-exemplo-as-descrições-do-caso pela políciaa atitu-

104 105
de dos pais .e do/,a adolescente, a presença ou não de zes e moças, fogem saltando a cerca. Dentro da casa,
um advogado etc. totalmente embriagada, Linda está se vestindo e de-
clara que acaba de fazer amor com dez dos rapazes,
Linda tem treze anos. Sua mãe a leva a uma soirée entre os quais Robert. O relatório policial indica, se-
dançante organizada para a festa do Natal por seu gundo as declarações de Linda, que todos se teriam
colégio. De fato, ela não vai ao baile, sai com outros três
feito passar por Robert. Para os rapazes do colégio,
rapazes, e só volta para casa dois dias depois. Seus Linda, depois daquele incidente anterior, se tornara
pais, preocupados com essa fuga, procuram a polícia.
"presa fácil". Bastava dar-lhe bebida.
Linda saiu da colégio na companhia de três rapazes,
se embriagou éom uísque roubado por um dos rapazes, A delegada da liberdade condicional, no decorrer
manteve relações sexuais com eles, e não voltou para de sua investigação, interroga Linda sobre a sua esco-
casa enquanto durou a bebedeira. A polícia descreve o laridade, as notas obtidas, sua primeira relação se-
caso como "apimentado", o relatório, detalhado, ocupa xual, seus sentimentos religiosos etc. Todas essas
várias páginas. Os inspetores do esquadrão de meno- informações documentam a opinião da delegada. Lin-
res, diz-nos Cicourel, se interessaram especialmente da coopera bastante bem com a investigação, responde
pelas atividades sexuais de Linda. Robert, treze anos, "bem" a todas as perguntas, parece mostrar-se culpa-
um dos rapazes, desde o começo foi visto como o orga- da. Ela diz lamentar os seus atos, não vai fazer mais
nizador desse encontro. Seu comportamento na escola "até se casar", os rapazes estão enganados a seu res-
o tinha feito aparecer como um delinqüente potencial. peito, diz ela. Protesta porque agora toda a escola acha
Na escola é considerado como aluno incorrigível. Ro- que é uma "moça sem-vergonha", desde que Robert
bert com efeito se viu envolvido em quinze "incidentes" contou para todo o colégio que ela "tinha tirado toda a
escolares, por exemplo: "fumar", "tagarelar continua- roupa e deixara os colegas fazerem o que quisessem".
mente", "sair da classe sem permissão", "perturbar as Não se trata bem de uma negação do ato cometido, diz
outras salas de aula", "puxar um canivete para um dos Cicourel, mas ela se mostra bastante preocupada com
colegas", "exibir sempre um ar desafiador" e assim por a sua reputação. Essa conversa nos mostra que a
diante... Segundo o relatório policial, ele é o único dos delegada a princípio tem uma boa opinião a respeito
três rapazes que teve relações sexuais com Linda, de Linda. As perguntas que ela vai fazendo constituem
descrita como "mais experiente". Os garotos a descre- de certa forma um roteiro para que Linda dê respostas
vem aliás como'"uma putinha que só pensa naquilo". "boas", aquelas que mostram a sua vontade de mudar,
Mas o relatório policial, ao contrário, descreve Linda de apagar seus comportamentos "acidentais": "Você
como uma mocinha bonita, bem vestida, com o cabelo acha que Deus vai perdoá-la? Então, você acha que se
e o modo de falar, mostrando pertencer a uma família comportou mal?... Você agora vai esperar até o casa-
de classe média. Linda transmite a impressão de ser mento?... E agora, você vai mudar?" A delegada procu-
"uma boa moça". ra também na vida dos pais, e mesmo dos avós, os
fatores de estabilidade ou instabilidade que poderiam
O caso se complica, dois meses depois, quando o pai
ter alguma relação com a conduta de Linda. Em con-
de Linda vai à delegacia e declara que Linda não voltou versas ulteriores, Linda declara que o pai lhe dá bebi-
para casa desde a noite anterior, quando tinha ido a das alcoólicas em casa e a mandou descrever deta-
uma festa que, segundo ele, era "regada a álcool". lhadamente as suas experiências sexuais com os cole-
Quando os pais de Linda, acompanhados pela polícia,
gas. Assim o pai começa a ser suspeito de responsável
chegam ao endereço indicado, 30 pessoas, entre rapa-

106 107
por tudo aquilo que aconteceria a Linda. Ele é, dizem, em que o caso vem à tona no decurso cotidiano das
apaixonado por Psicologia. Teria mesmo certa vez hip- questões judiciárias" (p. 333).
notizado Linda. Ela é submetida a diversos testes Contrariamente ao que parecem indicar-nos a ati-
psicológicos. As duas delegadas que trabalham n',) caso vidade policial e as estatísticas judiciárias, os delin-
chegam a um acordo sobre este ponto: recomendar ao qüentes não são tipos sociais naturais que se poderiam
tribunal que Linda fique internada em hospital psi- encontrar ao nosso redor. A delinqüência é o produto
quiátrico, de três a seis meses, com terapia intensiva de uma negociação social.
e depois ser mandada de volta para casa. Multiplicam-
se as conversas com Linda e com os pais, com o diretor
da liberdade condicional, o juiz de menores, os profes- 3. A vida de laboratório
sores de Linda. Os primeiros relatórios das delegadas Já se teve ocasião de insistir neste ponto mais de
pendiam pela criminalização do caso. Depois, os ele- uma vez: para a etnometodologia, os fatos sociais são
mentos colhidos a respeito do pai fizeram progressiva-
produtos, mas costuma-se "esquecer" as atividades
mente de Linda um caso psiquiátrico. O diálogo que se práticas que os constituíram. H. Garfinkel e dois de
estabelece no decorrer da audiência mostra que o juiz seus estudantes, M. Lynch e E. Livingston, voltam a
se utiliza, no dossiê, de elementos já "julgados" de certo abordar a questão a propósito da atividade científica''.
modo no decurso das conversas que instruíram o caso. A problemática da "ciência em ato" já fora abordada
Os pais aceitaram a sentença do tribunal: Linda foi anteriormente, em trabalhos que confessam a sua
internada no Hospital psiquiátrico, onde passou um dívida para com a etnometodologia 22. A abordagem
mês, antes de voltar para casa. Como não havia nenhu- etnometodológica renova com efeito a problemática da
ma acusação pesando sobre ela, não foi mais acompa- sociologia da ciência, que se interessava por exemplo
nhada. Três meses mais tarde, Linda fugia de novo de pela influência dos fatores sociais sobre as descobertas
casa, por ocasião de outra "festa"... e as produções científicas. O fim das pesquisas dos
etnometodólogos sobre a ciência não é mostrar como
Segundo Cicourel, esses casos mostram, entre ou- as estruturas sociais agem sobre a atividade científica.
tras coisas, como é administrado e negociado o proces- Elas se interessam pelo trabalho científico em si mesmo.
so de instrução judiciária por atividades socialmente
Garfinkel e seus colaboradores relatam a descober-
organizadas para lidar com casos de delinqüência. Os ta do pulsar ótico, feita por quatro astrofísicos ameri-
policiais e os juízes, como todos os outros membros da canos no dia 16/01/69. Eles trabalharam em cima das
sociedade, fazem o seu trabalho com "expectativas de gravações das conversações entre os pesquisadores
último plano e normas da estrutura social" que lhes
permitam decidir sobre o que é normal e o que não o é,
distinguir um "bom rapaz" de um delinqüente, definir
21.H. Garfinkel, M. Lynch e E. Livingston, 1981:The Work of a Discoveri n g
"o desafio à autoridade" ou então o que é uma "boa Science Construed with Materiais from the Optically Discovered Pulsar,
Philosophy of Social Sciences, 11, p. 131-158.
família":
22. Cf. as obras já citadas de Bloor, de um lado, e de Latour e Woolgar, de
"Um delinqüente é um produto emergente, transforma- outro. O próprio Steve Woolgar também trabalhou a partir de 1975 em
do no tempo por uma série de encontros, de relatórios torno dos pulsares, como o atesta o doutorado que defendeu em 1976:
The Ernergence and Growth of Research Áreas in Science with Special
escritos e orais, de leituras prospectivas e retrospectivas Referente to Research on Pulsar, Ph.D. dissertation, Emmanuel College,
daquilo 'que aconteceu', e das circunstâncias práticas Cambridge.

108 109
durante a noite em que fizeram a descoberta, sobre os testemunham e dos quais são autores; as práticas dos
seus blocos de apontamentos manuscritos e sobre a observadores são `naturalizadas'; no artigo, os detalhes
publicação em uma revista especializada de um artigo que identificam o pulsar são dados pela voz de um
que refere os seus resultados. A pergunta que fazem analista transcendente. A`voz do analista' nos relatórios
então Garfinkel e seus colaboradores é esta: em que científicos corresponde à do narrador na obra de ficção...
consiste a descoberta do pulsar ótico? Eles usam uma O pulsar ótico, enquanto fenômeno astronômico, não é
metáfora "gestaltista" para explicá-la: diferente das atividades que levaram a descobri-lo" (p.
138).
"A sua descoberta e a sua ciência consistem em encon-
trar astronomicamente 'o animal no meio da folhagem'. Aos olhos de um terceiro, o trabalho de descoberta
A 'folhagem' é a historicidade local de suas práticas de dos cientistas parece um conjunto de práticas compe-
pesquisadores. O 'animal' é esta historicidade local rea- tentes analisáveis. A descoberta deles consiste em ex-
lizada, reconhecida e compreendida como um procedi- trair "um objeto cultural": o pulsar. Mas isto não
mento metódico competente... A sua ciência consiste na significa de modo algum, insiste Garfinkel, que este
descoberta do pulsar ótico enquanto produção da obser- objeto, o pulsar, seja um account; ele permite que o
vabilidade prática do seu trabalho noturno ordinário" trabalho de descoberta seja accountable: "o pulsar não
(p. 132). se encontra nas palavras, mas não pode ser encontrado
É evidente, nas conversas registradas e em seus sem as palavras. O pulsar fica ligado à natureza atra-
apontamentos, mas não no artigo científico, que eles vés do account" (p. 142). Para Garfinkel, a astronomia,
somente obtiveram o resultado no decorrer de uma enquanto "ciência capaz de descobrir" objetos do mun-
série de observações historicizadas, feitas em tempo do real, é uma ciência da ação prática.
real e em uma ordem precisa. Assim, no decurso das Com a etnometodologia, o problema examinado
observações n. 18, 19 e 20, eles precisam ajustar a pela sociologia da ciência já não é, portanto, avaliar as
regulagem do telescópio, regular a abertura do dia- influências socioculturais que atravessam os pesqui-
fragma, lançar o programa informático, verificar as sadores, nem saber se a ciência é uma atividade social
informaçbes dadas pelo osciloscópio. Para que enfim como uma outra. A intenção da etnometodologia no
fosse registrada a pulsação de uma estrela, no decorrer campo científico é afinal mais ambiciosa. Ela tenta
das observações n. 21, 22 e 23. Essa pulsação, depois, mostrar que os cientistas utilizam, em suas pesquisas,
vai cessar, enquanto o trabalho vai prosseguir até a
um certo número de recursos que lhes parecem natu-
observação de n. 37. O objeto desse trabalho é exata- rais (teorias, raciocínio lógico, resultados de experiên-
mente isto: ele é discernido através de uma série de cias anteriores), de cujo caráter objetivado se esque-
gestos, palavras ; deduções, dúvidas, incertezas, esta- cem, que não relacionam mais com a atividade prática
dos de excitação mgntal. O trabalho científico é preci- de laboratório que as construiu. O trabalho científico
samente o objeto de uma construção localizada.
não é transmissível a não ser sob a condição desta
Na sua publicação científica, diz Garfinkel: ocultação, como o mostram todos os artigos de revistas
científicas relatando alguma descoberta.
"o pulsar é descrito como a causa de tudo aquilo que é
visto e dito a seu respeito; é descrito como se existisse Este campo de pesquisas sobre a ciência, aberto
ant e s e independentemente de todo método para detec- pela etnometodologia, parece extremamente fecundo e
tá-lo; os fenômenos tecnicamente detalhados do pulsar promissor. Terá certamente no futuro boa chance de
parecem (na publicação) estranhos a Cocke e Disney que chegar a aplicações concretas. Pois, caso se chegue a

110 111
analisar as atividades pelas quais os pesquisadores titui um dos critérios de validade do requerimento.
encontram os seus resultados fundamentais, pode-se Como o frisa Zimmerman24, a Administração Pública
pensar que essa nova inteligência provoque maior estabelece sua ação em cima de provas objetivas. Mas
produtividade científica. No domínio das ciências e das o que é que confere a uma folha de papel validade
técnicas aplicadas também se vislumbra qual poderia oficial? Como é que os funcionários reconhecem, nesse
ser o objeto de um trabalho etnometodológico: basta documento, um suficiente valor probante e, ao contrá-
pensar em algumas das grandes catástrofes, mais ou rio, o que lhes serve de base para recusarem outro
menos recentes, em que falhas humanas caracteriza- documento, cujo conteúdo é no entanto igual ao do
das foram detectadas: nucleares (Three Mile Island e primeiro? Estudando os processos trabalhistas e os
Tchernobyl); marítirhas (marés-negras, ferry-bóat do argumentos usados em um órgão de assistência social
Mar do Norte ou o navio do Mar Negro); aéreas (Tene- de uma cidade grande do Oeste americano, Zimmer-
rife, Washington, Madri, entre outras); ecológicas (po- man constata que, pára ne funcionários da agência, os
luições químicas graves, Bhopal, Seveso, etc.). Tanto documentos têm em geral um caráter evidente. São
nesse domínio como em outros, as pesquisas etnome- para eles naturalmente pertinentes para estabelecer
todológicas poderiam ter efeitos de formação e preven- a validade de um dossiê, por exemplo. No entanto,
ção. malgrado a existência de uma lista precisa de elemen-
tos a fornecer, há sem cessar negociação para julgar se
4. A burocracia um requerimento pode ser favoravelmente despacha-
do, entre o funcionário e o cliente. Há um "efeito
A teoria moderna da burocracia começa com Max recíproco" entre as rotinas e os obstáculos, entre a
Weber. Mas conforme Bittner", Max Weber utilização "evidente", não questionada dos documentos
"não percebeu que a significação e as justificações do com caráter administrativo, e os incidentes permanen-
conjunto das propriedades da burocracia estão insepa- tes que fazem essa utilização observável como depen-
ravelmente inseridas naquilo que Alfred Schütz deno- dente de processos racionais. O caráter "evidente" de
minava as atitudes da vida de todos os dias e em um documento depende com efeito da representação
tipificações de senso comum socialmente consagradas"
(p. 74).
do mundo que se fazem tanto o funcionário como o
cliente. O reconhecimento pelo funcionário do caráter
Não basta, para provar a sua data de nascimento, evidente de um documento é sinal de sua competência
escrevê-la em uma' folha de papel qualquer, sobretudo profissional. Quando um documento desperta algum
se esta prova for necessária para instruir um processo problema, dá margem à análise das regras e dos pro-
administrativo, em vista de obter algum auxílio social, cedimentos pelos quais se tomaram as decisões sobre
uma bolsa de estudo, uma pensão por invalidez, uma a recusa ou aceitação.
aposentadoria etc. Deve-se em geral apresentar uma
prova mais sólida da própria idade, quando isso cons-

24. D.H. Zimmerman, 1969, Fact as a Practical Accomplishment, em:


23. E. Bittner, 1966, em: R. Turner (Ed.): Ethnomethodology, Harmonds- Turner (Ed.), 1974: Ethnomethodology, Harmondsworth, Penguin
worth, Penguin Books, p. 69-81. Books, p. 128-143.

112 113
Em outra publicação, fruto da mesma pesquisa de
campo 25 , Zimmerman analisa esta aplicação prática
das regras que devem ser obedecidas pelos funcioná- C apít
rios encarregados de receber e orientar em diferentes
serviços os clientes do órgão de assistência social.
Devem de imediato avaliar o problema, a fim de orien- Críticas e
tar eficazmente as pessoas em seus requerimentos. Os
funcionários usam um conjunto de regras rotineiras
Convergências
para fazer o trabalho. Trata-se para eles de uma esco-
lha "em situações de senso comum". O uso competente
de uma regra particular se baseia no modo como os
funcionários compreendem o caso. Eles devem decidir
quanto a usar esta regra de preferência a uma outra,
para resolver de maneira "normal" o problema susci-
tado. Este uso, que é o "saber" do funcionário, se baseia O caráter radical da etnometodologia não poderia
em sua experiência, sua capacidade de aplicar ou deixar de lhe atrair a hostilidade da sociologia estabe-
adaptar as regras ou até inventar novas regras ad hoc lecida. Como escreve Patrick Pharo:
que permitam tratar o caso "sem problema", de "dar "Por esta maneira de designar a especificidade do seu
um jeito". Esse desvio eventual não é sinal de uma tema de estudos, não se apresentando como um sub-
transgressão das regras, mas pelo contrário a prova da ramo da sociologia (...), mas declarando sobretudo que
competência do funcionário, de sua capacidade de ava- 'as pesquisas sociológicas profissionais são práticas de
liar a situação e produzir soluções "racionais" em rela- ponta a ponta' (Studies, p. VIII), a etnometodologia se
ção às regras e ao problema surgido. coloca desde o princípio em posição delicada (...). Tudo
acontece como se pelo mero fato de proclamar a identi-
dade formal dos raciocínios sociológicos provenientes
dos leigos e dos profissionais, residindo esta identidade
em seu comum caráter de realizações práticas, a etno-
metodologia começasse a serrar o galho no qual a socio-
logia está sentada" 1 .
Em outros termos: no meio sociológico, o rumo
proposto nos Studies era urna declaração de guerra.
Jamais, provavelmente, houvera um questionamento
tão radical da sociologia.
E estourou a guerra. Começou em 1968, com a
célebre publicação da recensão que J.S. Coleman con-

25. D.H. Zimmerman, 1970: Tho Practicalities of Rule Use, em: J.D.
Douglas (Ed.), Understanding Everyday Life, Londres, Routledge &
1. P. Pharo, 1984: L'ethométhodologie et la question de l'interprétation, em:
Kegan Paul, p. 221-238.,
Argumenta, op. cit., p. 145 169.
-

114
115
sagrou na American Sociological Revim aos Studies 2 . apóia sobre a regressão linear e a análise multivariad a
A guerra atingiu o ponto culminante em 1975 com o considerando até que os outros métodos quantitativos
ataque de Lewis Coser na Associação Americana de estão ultrapassados:
Sociologia. "Fascinados pelo uso de novos instrumentos de pesqui-
sa, assim como o computador eletrônico, esquecem nos-
1. Um ataque violento sos colegas que a medida é apenas um meio de análise
it Qin ,--0 ,-te, vc-i\ t e de explicação" (p. 692).
Em ‘osto de 1975, Lewis Coser, então Presidente A fraqueza dos conceitos e das noções teóricas não
da poderosa Associação Americana de Sociologia 3 , ata- poderia ser reparada pela medida, por mais precisa
cou violentamente no discurso de abertura pronuncia- que pareça. A utilização desses métodos lhe parece
do, por ocasião do Congresso Anual da Associação, abusiva, muitas vezes guiada pela preocupação de
aquilo que considerava como as duas grandes tendên- uma carreira rápida.
cias que punham em perigo a sociologia n•
Depois ele se volta para a etnometodologia:
análise quantitativa, de um lado, e a etnometodologia,
do outro lado. "Os fins que a etnometodologia persegue são agressiva-
mente desprovidos de qualquer conteúdo teórico relacio-
Desde o inícioda sua intervenção, Coser se declara nado com a sociologia. Ela mesma se limita à observação
"inquieto com os atuais desenvolvimentos da sociologia concreta dos códigos de comunicação, das categorias
americana que parecem favorecer o crescimento ao mes- subjetivas, dos gestos que acompanham uma conversa-
mo tempo de atividades estreitas e rotineiras, e de ção...
ruminações esotéricas e sectárias". Essas duas tendên- "Ignorando os fatores institucionais em geral, e a cen.
cias são "a expressão de uma crise e de uma lassitude &alidade do poder na interação social em particular, ela
no seio da disciplina e de seus fundamentos teóricos'''. se restringe a descrever as formas pelas quais os atores
Passemos rapidamente em vista a crítica que ele individuais e os estudantes explicam suas ações...
faz à corrente da sociologia Quantitativa, cuja excessi- "Ela sustenta que nenhuma abordagem objetiva gene-
va sofisticação lamenta, cujo credo modernista se ralizante é possível nas ciências sociais que, por sua
própria natureza, só são capazes de fornecer descrições
ideográficas. Em certas versões da etnometodologia a
intersubjetividade é conscientemente negada, de sorte
2. J.S. Coleman, 1968: Review Symposium on H. Garfinkel's Studies in que se acaba pensando os indivíduos como simples mô-
Ethnomethodology, American Sociological Review 33, 1 (fev.), p. 122- nadas sem janelas, fechadas em um universo de signi-
130. ficações privado e não compartilhável..."
3. A Associação Americana de Sociologia é muito poderosa graças ao grande
número de sociólogos profissionais que congrega, e não só os universi- Coser censura ainda a etnometodologia por não ter
tários. Contava em 1975 cerca de oito mil membros e mais de dez mil
em 1992. Publica diversas revistas (entre as quais as mais conhecidas
jamais procurado se fazer aceitar na sociologia, limi-
são The American Sociological Review, Contemporary Sociology, Socio- tando pelo contrário de prop6sito "o seu apelo a alguns
logical Theory), exerce controle sobre o seu conteúdo, recebe e adminis- fiéis devotos, unidos na crença de possuir uma parti-
tra fundos de pesquisa, facilita a obtenção de empregos para seus
membros, bolsas para os seus pesquisadores, em suma, exerce um cular perspicácia, é claro, negada aos outros" (p. 696).
verdadeiro domínio, ideológico principalmente, sobre a profissão de
sociólogo.
A linguagem esotérica empregada, cuja função é
4. L. Coser, 1975: Presidentia,1 Addreas: 'nvo Methods in Search of conhecida como delimitadora de fronteiras e de aliena-
Substance, American Sociological Reuiew, 40, 6 (dez.), p. 691-700. ção dos membros

116 117
"nas comunidades de crentes"... "camufla idéias relati- atropelado s, o que o leva desenvolver toda uma "socio-
vamente triviais"... "Uma outra característica é o hábito logia do golpe de vista". Schegloff consagra uma parte
dos etnometodólogos de limitar suas notas de referência importante de sua vida de pesquisador para estabele-
1 quase exclusivamente aos membros pertencentes ao cer a maneira como começam e terminam as nossas
grupo ou a não sociólogos... Além disso mostram parti- conversas telefônicas'''.
cular propensão a remeter a manuscritos não publica-
dos, a apontamentos de cursos, ou a diários de pesquisa" Alguns estudos excelentes não compensam
(p. 697). "a enorme tagarelice que cerca a etnometodologia, que
Esses últimos traços mostram a escola etnometo- acaba caindo em uma orgia de subjetivismo, uma em-
presa auto-indulgente na qual análises metodológicas
dológica como uma seita: sem fim e auto-análises conduzem a uma regressão
"O leitor há de ter reconhecido nas características que infinita, onde a descoberta das inefáveis qualidades do
sublinhei os traços de uma seita, mais que as de um analista e de suas construções particulares da realidade
campo especializado. As seitas são tipicamente sistemas serve para mascarar as qualidades tangíveis do mun-
fechados, gel'almente dirigidas por líderes carismáticos do... Tentando descrever o conteúdo manifesto das expe-
e seus discípulos imediatos. Procuram reduzir ao máxi- riências dos indivíduos, os etnometodólogos negli-
mo a comunicação com o mundo exterior, intensificando genciam esta área central da análise sociológica que são
porém as interações entre os fiéis". as estruturas latentes"... "Excluem de propósito do seu
Coser argumenta a partir das diferenças entre campo a maioria dos domínios que a sociologia costuma
Garfinkel, Sacks, Blum e Cicourel para "demonstrar" explorar desde Augusto Comte".
que existe uma organização sectária: alguns "admitem 'Ibmos que tomar cuidado, conclui Coser, senão
a existência de regras e modos de proceder invariantes "vamos aprender cada vez mais sobre cada vez menos'.
que transcendem as situações, outros negam a possi- Os termos empregados nesse ataque de Coser eram
bilidade de analisar uma situação que não seja especí- particularmente severos para com a etnometodologia.
fica". Em suma: existe entre os etnometodólogos uma Suas observações provocaram, no ano seguinte, um
enorme variedade de fontes e pontos de vista, mas acalorado debate no seio da sociologia americana, não
todos eles seriam "idealistas": somente com os etnometodólogos mas também com os
"A única coisa que eles parecem ainda compartilhar é a "quantitativistas", pois o discurso de Coser foi sentido
recusa da possibilidade de estudo e explicação objetivos por alguns como um "terremoto".
da sociedade e de sua história, bem como a celebração
deste velho cavalo de batalha alemão que é a filosofia
idealista" (p. 698). Todavia, apesar da "hipertrofia da
2. Um contra - senso
verborréia da etnometodologia, é possível que algumas
Na réplica publicada no ano seguinte, Zimmer-
idéias fecundas se desenvolvam em meios sectários,
como aconteceu muitas vezes, do começo do puritanismo
man7 acha pouco convincente, e mesmo confusa, a
até a emergência da psicanálise na seita vienense dos
discípulos imediatos de Freud".
5. D. Sudnow (Ed.), 1972: Studies in Social Interaction, Nova York, Free
Todavia, diz - nos Coser, não se pode deixar de ficar Press.
6. E. Schegloff, 1968: Sequencing in Conversational Openings, American
impressionado com a "trivialidade" dos problemas pe- Anthropologist, 70 (dez.), p. 1075-1095.
` los quais a etnometodologia se interessa. Sudnow per- 7. D.H. Zimmerman, 1976: A Reply to Professor Coser, The American
gunta por exemplo como atravessar a rua sem ser Sociologist, 11 (fev.), p. 4-13.
, r's1

118 119
argumentação de Coser sobre "a crise da disciplina". estudos etnometodológicos. E Zimmerman responde,
Sua alusão a trabalhos consagrados à sociologia da não sem alguma insolência:
Ciência é mais "cerimonial" do que propriamente orien- "Não cabe a uma autoridade incerta legislar sobre aqui-
tada por uma preocupação científica. Coser que, diga- lo que convém estudar no mundo social".
se de passagem, reduz a idéia de medida às técnicas
De fato, conclui Zimmerman, Coser não compreen-
estatísticas, não apresenta nenhuma razão séria para
fazer crer que a sociologia americana esteja em crise. deu a etnometodologia. Não percebeu por exemplo a
distinção entre o conteúdo de uma interação social,
Ele consagra urna parte importante do seu discur- assim como a podem apreender os participantes ou o
so à afirmação segundo a qual a etnometodologia seria sociólogo observador, e a forma desta interação, que só
uma seita, com o intuit9, diz Zimmerman, de demons- pode ser claramente percebida se o nosso interesse
cy
\. 3 trar o seu papel no declínio da disciplina. Este ato falho pelo quê os indivíduos fazem for substituído pelo de
' se fundamenta em citações truncadas, tiradas do con- descrever como o fazem. A isso aliás, Zimmerman de-
' texto. Por outro lado, Coser "dá o exemplo do erro nomina "redução etnometodológica' s .
cometido por muito's dos comentadores da etnometo-
O subjetivismo "que agita tanto o Professor Coser pare-
que confundem o problema estudado e o seu ce ser compreendido como o interesse único para com
quadro de ocorrência". Assim houve quem pudesse aquilo que os membros têm em mente, a descrição
censurar Garfinkel, no seu estudo sobre Inês, que ele desses conteúdos constituindo a tarefa principal. Além
se havia interessado por um caso de transexualidade disso, insinua-se que a etnometodologia aborda essas
ao invés do problema da tomada de decisão no hospital. descrições como se elas constituíssem a própria realida-
O mesmo se diga quanto aos processos que Coser usa de social". Mas isso é um contra-senso, com efeito: "As
para desacreditar o artigo de Sudnow sobre as intera- formulações dos membros não constituem o objeto de
ções entre motoristas e pedestres, que pretendia mos- uma abordagem particular, nem são tampouco conside-
trar que as duas partes, com um simples "golpe de radas como descrições de, ou proposições de algum cam-
po (Que os membros assim acreditem é outra questão).
vista", decodificam a situação para determinar como A nosso ver, as formulações são traços constitutivos dos
se comportarão. A"condensação" produzida pela extra- quadros em que são produzidas".
ção de uma ou duas frases do seu contexto leva o leitor
a acreditar que Sudnow, e portanto a etnometodologia, Esta resposta de Zimmerman é capital para me-
só se interessa com efeito por coisas muito triviais, lhor compreendermos a etnometodologia que
como esses "golpes de vista". Coser transpõe isto, ob- "aborda os relatórios do mundo social, feitos pelos mem-
serva Zimmerman, para "os conselhos que os pais dão bros, como realizações em situação, não como indícios
aos filhos para que sempre tomem cuidado e prestem daquilo que acontece na verdade. A preocupação da
etnometodologia em geral é elucidar a maneira como os
atenção aos carros antes de atravessar uma rua". Com relatórios, ou as descrições de um acontecimento, de
isso Coser se lança ao ataque para mostrar a "triviali- uma relação ou de uma coisa, são produzidos em inte-
dade" das preocupações etnometodológicas. "Entre-
gou-se a uma caricatura, selecionando ainda por cima 7 . 1

dois exemplos bastante especializados entre uma enor-


me variedade de estudos etnometodológicos". 8. D.H. Zimmerman e M. Pollner, 1970: The Everyday World as a cno-
menon, em: J.D. Douglas (Ed.), Understancting Everyday Life, Chicago,
Pode-se, portanto, ter alguma razão em suspeitar AIdine, p. 80-103. Esta fórmula é evidentemente derivada da célebre
das acusações de trivialidade de que sofreriam os redução fenomenológica de Husserl.

120 121
ração, de tal modo que cheguem a um estatuto metodo- "A sociologia aborda as estruturas sociais como 'fatos
lógico claro, por exemplo, confirmado ou ilusório, obje- sociais objetivos e peremptórios'. Os etnometodólogos
tivo ou subjetivo etc." afirmam, ao contrário, que as estruturas sociais objeti-
vas e peremptórias são constituídas por 'atividades so-
ciais estruturantes' que se denominam práticas,
3. Uma seita? métodos, modos de proceder — atividades estruturantes
que a sociologia ignora. A etnometodologia estuda as
Coser, já se viu, firmava que a etnometodologia é atividades estruturantes que aglutinam as estruturas
uma seita em viáta da existência de líderes carismáti- sociais".
cos, de uma linguagem esotérica que une os seus Esta concepção tem sua origem na fenomenologia,
adeptos, de sua ignorância da comunidade sociológica, mais precisamente na leitura que Garfinkel faz de
de seu estilhaçamento em facções. Mas a história do Hursserl, de Schütz e de Gurwitsch. Esses fenomenó-
pensamento intelectual ocidental, respondem Mehan logos consideravam o mundo da vida de todos os dias
e Wood 9, não passa de uma enorme sucessão de grupos como um complexo de "atos mentais de consciência".
que se comportam como seitas. A etnometodologia é Garfinkel transformou esses atos mentais em ativida-
um movimento intelectual que, como os outros, nasce des públicas, interativas: "A realidade dos fatos sociais
na obscuridade e acaba sendo conhecido por um públi- é abordada (pela etnometodologia) como uma contínua
co mais amplo. realização de atividades combinadas da vida de todos
A despeito de pretenso esoterismo de sua lingua- os dias" (Studies, p. VII). As atividades sociais, en-
quanto interações, constituem os fatos sociais, que não
gem, ela produziu, no decorrer destes últimos anos, existem independentemente das práticas que os cons-
diversas compilações que lhe asseguraram a difusão
dos trabalhos. A institucionalização das idéias etnome- tituem.
todológicas acha-se agora bem adiantada, contrarian- Os etnometodólogos analisaram os procedimentos
do as alegações de Coser quanto ao seu pretenso pelos quais os pesquisadores em ciências sociais cole-
aspecto confidencial. tam na vida diária ou nas estatísticas oficiais informa-
ções que vão transformar em dados com o auxílio de
Quanto às "cisões" são de fato correntes que se práticas de codificação, e depois manipulam esses da-
desenvolvem no seio da etnometodologia. Não são si- dos objetivados, para apresentá-los sob a forma de
nais de fraqueza, mas ao contrário de uma diversidade matrizes de correlação.
e de força sempre maiores. Se for real a crise da
Esses trabalhos mostram a construção social da
sociologia, sua fonte' não está na etnometodologia. Na
pesquisa em ciências sociais. Os pesquisadores deci-
realidade o verme já está dentro da fruta, a crise é
endógena, é provocada pelo conformismo que Coser
dem sobre a verdade de alguma coisa através das
discussões que fazem juntos, dos argumentos que tro-
gostaria de impor à sociologia.
cam entre si. Um consenso organizado decide acerca
A etnometodologia se interessa pelos mesmos fenô- da verdade do conhecimento científico: "Nas ciências
menos que a sociologia mas com perspectiva diferente: sociais a verdade não é revelada, mas argumentada".
Coser afirma que a etnometodologia tende a igno-
rar nas suas pesquisas "o mundo real". Mas, para ele,
9. H. Mehan e H. Wood, 1976: De-secting ethnomethodology, The American "o mundo real" é o reino dos "grupos sócio-econômicos,
Sociologist, 11 (fev.), p. 13-21.
dos mecanismos políticos, das funções e disfunções, do

122
123
manifesto e do latente", independentemente das ações 4. Tentativa de síntese
cotidianas das pessoas concretas. Esses conceitos cap-
tam apenas uma parte da vida social. A etnometodolo- Pierre Bourdieu tenta estabelecer uma síntese en-
gia procura dar mais significado a essas noções, tre os dois grandes pólos da sociologia contemporânea.
procurando compreender como noções, por exemplo, de Pretende superar, ao que parece, o processo contra a
"poder político", "fatores institucionais" trabalham nas etnometodologia, embora dirigindo-lhe uma crítica
conexões da vida cotidiana. fundamental. Por ocasião de uma conferência proferi-
da em março de 1986, na Universidade da Califórnia
A noção de prática constitutiva não reduz, contra- (San Diego) 1° , ele volta a abordar um certo número de
riamente ao que diz Coser, o problema da ordem social perguntas capitais da sociologia, e explica suas opções
à psicologia. A etnometodologia, através da análise das teóricas fundamentais. Se ele tivesse, diz, de caracte-
atividades humanas, tprocura estudar os fenômenos rizar o seu trabalho em duas palavras, apor-lhe uma
sociais incorporados , em nossos discursos e em nossas etiqueta, falaria de constructivist structuralism ou de
ações. structuralist constructivism il :
A etnometodologia não se reduz tampouco à redu- "Com o termo estruturalismo quero dizer que há no
ção fenomenológica. Métodos muito variados são de mundo social, no próprio mundo e não apenas nos siste-
fato empregados; experimentações em laboratório, etno- mas simbólicos, linguagem, mito etc., estruturas objeti-
grafias e estudos de campo, sondagens, utilização de vas, independentes da consciência e da vontade dos
filmes ou vídeos: Todos esses métodos são utilizados agentes... Com o termo construtivismo quero dizer que
com o maior rigor. há uma gênese social, de um lado, dos esquemas de
percepção, de pensamento e ação que são constitutivos
Coser pretende ainda que a etnometodologia não daquilo que denomino habitus e, de outro lado, das
nos ensina muita coisa. De fato, respondem substan- estruturas sociais e em particular daquilo que denomino
cialmente Mehan e Wood, se alguns de nós nos volta- campos e grupos, particularmente daquilo que em geral
mos para a etnometodologia, é precisamente porque a se chama de classes sociais" (p. 147).
sociologia tradicional não esclarecm coisa alguma proposta interpretativa da
as práticas sociais que pretende compreender, ao passo etnometodologia A ciência social, afirma Bourdieu, oscila entre duas
posições aparentemente inconciliáveis, o objetivismo e
que a etnometodologia pode chegar a isso pondo a nu
o subjetivismo:
as práticas que estruturam a vida cotidiana, inclusive
"a opressão, o dogmatismo, o absolutismo". Saber como "De um lado ela pode 'tratar os fatos sociais como coisas'
é que essas estruturas sociais operam na vida de todos — segundo a velha máxima durkheimiana — e deixar
os dias permite aos atores mudá-las. assim de lado tudo aquilo que devem ao fato de serem
objetos de conhecimento na existência social. De outro
Conclusão: a sociologia de Coser é um pouco ana- lado, pode reduzir o mundo social às representações que
crônica, repousa sobre a crença segundo a qual os dele se fazem os agentes, consistindo então a tarefa da
métodos das ciências naturais são os mais adequados ciência social em produzir 'um relatório dos relatórios'
ao estudo dos fatos sociais. A sociologia tradicional foi
construída na época do positivismo triunfante. Deve
agora ser reinventada, a fim de adaptar-se a uma nova 10. P. Bourdieu, 1987: Choses dites, Paris, Editions de Minuit, p. 147-166.
imagem da pesquisa rigorosa, que apareceu com filó- Aaron Cirourel e Hugh Mehan lecionam atualmente na Universidade
sofos como Sartre, Merleau-Ponty, Heidegger ou Witt- da Califórnia (San Diego), no Departamento de Sociologia.
genstein. 11. Em inglês no texto.

124 125
(account of :4 accounts) produzidos pelos sujeitos so- algumas páginas a essa questão 12. Zimmerman con-
ciais" (p. 1444 cluiu o seu artigo de 1978 na mesma perspectiva de
Na obra de Schütz e nos trabalhos dos etnometo- aproximação 13 . Chua realça alguns pontos de conver-
dólogos Bourdieu percebe "a expressão mais pura da gência importantes, como: a etnometodologia pode ser
visão subjetivista". Segundo ele, o problema nesta considerada como uma prática de desmistificação e de
visão é que o conhecimento científico "está em conti- "desobjetivação" das categorias reificadas da "atitude
nuidade com q conhecimento de senso comum, pois não natural". Ela põe à mostra a realidade enquanto a rea-
passa de uma construção das construções". Por outro lização social na sociedade capitalista contemporânea 14 .
lado, o objetivismo se caracteriza por "uma ruptura Tpdavia, segundo Jean-Marie Brohm, as relações
com as representações primeiras". sociais parecem reduzir-se, para a etnometodologia, a:
E Bourdieu pretende ultrapassar essa oposição, "um pulular de iniciativas práticas individuais, um ar-
entre objetivismo e subjetivismo, por considerá-la ar- ranjo de ações conscientes, livres e autônomas de agen-
tificial. A este respeito escreve: tes que têm a possibilidade de escolher entre múltiplas
alternativas ou variantes lingüísticas ou pragmáticas._
"Eu poderia dar em uma frase um resumo de toda a Até a noção de estrutura e de relação social parece
análise que proponho: de um lado, as estruturas objeti- totalmente ausente da abordagem etnometodológica" 15 .
vas que o sociólogo constrói no momento objetivista,
descartando as representações subjetivas dos agentes,
Com efeito, existe um fundo comum às obras de
são o fundamento das representações subjetivas e elas Marx e Garfinkel. Há uma dupla convergência: ela diz
constituem as leis estruturais que pesam sobre as inte- respeito, de um lado, à construção permanente da
rações; mas, de outro lado, essas representações devem sociedade por si mesma; e implica, de outro lado, o
também ser levadas em conta, caso se queira compreen- esquecimento dessa construção e a transformação, em
der em particular as lutas cotidianas, individuais ou linguagem sartriana, das obras da atividade prática
coletivas, que visam transformar ou conservar essas em mundo prático-inerte".
estruturas. Isto quer dizer que os dois momentos, obje- J. - P. Sartre criticava o "fetichismo da totalidade"
tivista e subjetivista, se acham em relação dialética e em Kurt Lewin. Lewin — escrevia Sartre — esquece a
mesmo que, por exemplo, o momento subjetivista pareça produção do grupo enquanto totalidade que se dá como
muito próximo, quando tomado em separado, das aná- natural e completa, como um organismo unificado.
lises interacionistas ou etnometodológicas, acha-se se-
Ora, diversamente do organismo que serve de modelo
parado delas por uma diferença radical: os pontos de
vista são apreendidos como tais e relacionados com as
posições na estrutura dos agentes correspondentes" (p.
150).
12. H, Mehan e H. Wood, 1975: The Reality of Ethnomethodology, Nova
York, Wiley-Interscience.
5. Marxismo e etnometodologia 13. D.H. Zimmerman, 1978: Ethnomethodology, The American Sociologist,
13.
Seria de se esperar um antagonismo mais violento 14. B.H. Chua, 1977: Delineating a Marxist Intetest in Ethnomethodology,
The American Sociologist, 12, p. 24-32.
ainda entre marxismo e etnometodologia. Ora, consta- 15. J.M. Brohm, 1986: L'ethnométhodologie en débat, Quel corps?, 32-33,
ta-se que tanto de um lado como do outro existem p, 2-9.
tentativas de ajiroximação. Mehan e Wood dedicam N. J.-P. Sartre, 1960: Critique de la raison dialectique, Paris, Galli mard.

126 127
para o funcionalismo estrutural, nunca se dá totalida-
de grupal mas sempre totalização em curso. Essa
análise fenomenológica de Sartre não se achava muito Conclusão
distante daquilo que Garfinkel escrevia na mesma
época.
Em 1965, Cornelius Castoriadis, a partir de uma
orientação ao mesmo tempo marxista e fenomenológi-
ca, opõe a "sociedade instituinte" e a "sociedade insti-
tufda" 17 . Louis Quéré propôs que se desse início a um
cotejo entre essa orientação e a etnometodologia indi-
cando que esta última, sem usar os termos, se dá ela
também como objeto o "trabalho de instituição" 18. No dia 30 de setembro de 1987, no contexto de um
rPnli7rIn
n c.ry, Pnr;o 1
colóquio realizado •-■ —1. -1 c_
Enquanto a sociologia tradicional vê nas institui- _ ca..k pi vie-
ções o quadro já pronto e regra inevitável de nossas riu uma conferência intitulada: "A estranha seriedade
práticas, a etnometodologia insiste sobre o instituinte da sociologia profissional", que celebrava o 50° aniver-
ordinário operando na vida cotidiana, sobre o trabalho sário do lançamento da obra de Taicott Parsons The
de instituição no dia-a-dia. Ela capta a instituição no Structure of Social Action. Durante a conferência, que
sentido ativo de instituir, e não em sua estabilidade também coincidia com o 20 9 aniversário da publicação
reificada. dos seus Studies, Garfinkel lembrou que a etnometo-
dologia nascera de uma releitura daquilo que denomi-
no o aforismo de Durkheim, segundo o qual "a
realidade objetiva dos fatos sociais é o princípio funda-
mental da sociologia".
Repetindo em Paris, vinte anos depois, a sua célebre
definição que se encontra já nas primeiras linhas do
prefácio dos Studies, mostra Garfinkel que aí está o
slogan, ou seja, a fórmula-chave que dá o acesso mais
direto e mais profundo à empreitada etnometodológica.
"A análise de conversação e a etnometodologia, diz-nos
Garfinkel, fazem novo exame desse aforismo que se deve
interpretar de outro modo e reler de tal sorte que se
possa compreender do que ele falava".
Passa a soar então deste modo:

1. Este Colóquio, conjuntamente organizado pelo CNRS e o CNET (PUCES,


17. C. Castoriaiis, 1975: L'institution imaginaire de la société, Paris, Seuil. Greco n. 100), intitulava-se: Análise da ação e análise da conversação.
18. L. Quéré, 1986: Comprendre l'ethnométhodologie, Pratiques de Forma- 'ave lugar na Maieon des Sciences de l'Homme, em Paris, do dia 28 ao
Non, 11.12. dia 30 de setembro de 1987.

128 129
"A realidade objetiva dos fatos sociais, enquanto toda
sociedade é produzida localmente, naturalmente orga-
nizada e reflèxivamente descritfvel, é uma realização Bibliografia
contínua e pratica, enquanto esta realidade objetiva é
em toda a parte, sqmpre, apenas, exata e inteiramente
o trabalho dos membros, constitui o fenômeno funda-
mental da sociologia".
Mas atenção, conclui Garfinkel, é necessário não
se apegar somente às palavras desse slogan, que deve
constituir antes;de tudo um conjunto de instruções de
pesquisa. É mister fazê-lo funcionar em pesquisas
concretas de campo que justifiquem plenamente este A maioria dos trabalhos etnometodológicos propria-
modo de falar a respeito da sociologia. mente ditos se acha publicada em inglês. Há poucos
É o que mostra Garfinkel na última parte de sua textos traduzidos. Todavia, indicamos aqui algumas
conferência em Paris. Lembra ele que vinte anos após revistas francesas que lhes consagraram todo ou parte
a publicação dos Studies ainda existe "um vasto corpus de um número especial. As obras que foram traduzidas
de estudos empíricos das ações práticas". Cita alguns para o francês foram privilegiadas. Mencionam-se,
desses trabalhos etnometodológicos que exploram o todavia, algumas obras fundamentais em inglês.
conjunto do campo sociológico e demonstram que a
ordem social é 9ocal e interacionalmente produzida, 1) Obras de introdução
naturalmente organizada e reflexivamente descrití-
BACHMANN, C., LINDENFELD, J. et SIMONIN, J.,
ver. Esses estudos, diz Garfinkel, revelaram fenôme-
1981: Langage et communications sociales, Paris,
nos de que nem mesmo se suspeitava a existência.
Hatier.
Caracterizam-se e se distinguem radicalmente dos
estudos clássicos de sociologia pela sua insistência BENSON, D. e HUGHES, J.A., 1983: The Perspective
sobre a produção e a descritibilidade da ordem social. of Ethnomethodology, Londres, Longman.
Somente esses estudos são capazes de mostrar como BLUMER, H. 1969: Symbolic Interactionism: Perspec-
os membros de uma sociedade "produzem e mostram, tive and Method, Englewood Cliffs, NJ. Prentice-
juntos, na sua vida ordinária, a coerência, a força, o Hall.
caráter ordenado, a significação, a razão e os métodos
da ordem social". DOUGLAS, J. (ed.), 1970: Understanding Everyday
Life, Londres, Routledge and Kegan Paul.
FLYNN, P., 1991: The Ethnomethodological Move-
. ment. Semiotic Interpretations, Berlin, Nova York,
Mouton-de-Gruyter.
HANDEL, W., 1982: Ethnomethodology, how people
make sense, Englewood Cliffs , NJ, Prentice-Hall,
HERITAGE, J., 1984: Garfinkel and Ethnomethodolo-
gy, Cambridge, Polity Press.

130 131