Você está na página 1de 318

Ka rl Korsc h

MARX ISM O E FILOS OFIA

APRESENTAÇÃO E TRA DU ÇÃO

José P au l o N et t o

Editora UFRJ
Rio de Janeiro
2008
COLEÇÃO PENSAMENTO CRÍTICO

Títulos publicados:

1. Marx (sem ismos)


Francisco Fernández Buey
2a. edição
2. Democracia ou bonapa rtismo : triun fo e
decadên cia do sufrág io universal
Domenico Losurdo
3. Revolução e dem ocrac ia em M arx e Engels

Jacques Texier
4. Por um socialismo indo-am erican o
José Carlos Mariátegui
Seleção e introdução Michael Lowy
5. Dialética e materialismo: M arx entre Hegel e Feuerbach
Benedicto Arthur Sampaio e Celso Frederico
2a. edição
6. Sociedade civil e hegemonia
Jorge Luis Acanda
7. Gramsci, materialismo histórico e relações internacionais
Stephen Gill (org.)
8. Roteiros para Gramsci
Guido Liguori
9. O jovem Marx e outros escritos de filosofia Gyõrgy Lu kács
Organização e apresentação

Carlos Nelson Coutinho e José Paulo Netto


10. Para além dos direitos: c idad ania e
hege monia n o m undo moderno
Haroldo Abreu
11. Socialismo e democratiz ação
Gyõrgy Lukács
Organização e apresentação
Carlos Nelson Coutinho e José Paulo Netto
pensamentoÇnf/co
12

UFRJ

Reitor
Aloisio Teixeira
Vice-Reitora
Sylvia Vargas

Coordenadora do Fórum de Ciência e Cultura


Beatriz Resende

Editora UFRJ

Diretor
Carl os Nelson Co utinho
Coordenadora de Edição de Texto
Lis a Stu art
Coordenadora de Produção
Janise Duarte
Conselho Editorial
Carlos Nel son C outinho (presi dente)
Charles Pessanha
Diana M aul de Carvalho
José Luís Fiori
José Paulo Netto
Leandro K onder
Virgínia Fontes
Copyright © 2008 Editora UFRJ

Os direitos autorais sobre a apresentação e a tradução desta obra foram cedidos


gratuitamente por José Paulo Netto à Editora UFRJ.

Ficha Catalográfica elaborada pela Divisão


de Processamento Técnico - SIBI/UFRJ

K84m Korsc h, Karl , 1886-19 61.


Marxismo e filosofia / apresentação e tradução José Paulo
N etto. - Rio de Janeiro : Editora UFRJ, 2008.
172 p.; 14 x 21 cm (Pensamento Crítico ; v. 12)
1. M arxism o. 2. Ma rx, Karl , 1818-18 83 - filos ofia. I. N etto,
José Paulo, trad.
CDD: 335.4

ISBN 978-85-7108-329-5

Edição de Texto
Lisa Stuart
Capa e Projeto Gráfico
Ana Carreiro
Editoração Eletrônica
Marisa Araújo

Universidade Federal do Rio de Janeiro


Fórum de Ciência e Cultura

Editora
Av. UFRJ250 / sala 107
Pasteur,
Praia Vermelha
22290-902 Rio de Janeiro - RJ
Te l./Fax : (21) 2542-7646 e 2295-0346
(21) 22 95 -15 95 r. 124 a 127
http://www.editora.ufrj.br

Apoio

111 Fun daç ão Unive rsitária


Ull Jo sé Bonifácio
SUMÁRIO

Apr esen taçã o 7

M arxism
filosofia
eo 23

Estadoatualdoproblem a(anticrítica) 83
Aconcepçãom aterialistadahistória 123

dialética
A de
M arx 147
A dialética materialista 153

Lenin e a Internacional Comunista 159


APRESENTAÇÃO

José Paulo Netto

Q ua nd o se menc iona m as “obras m alditas” (K. Axelos) do m ar


xism o no século XX, dois nom es são inevitav elm ente citados: Gyõrgy
Lukács (1885-1971) e Karl Korsch (1886-1961). Os autores e os seus
livros - respe ctivamen te, História e consciência de classe e Marxismo efilo
sofia, ambo s publicados em 1923 e ulteriorm ente consid erados com o
fundantes do mal chamado marxismo ocidental (Merleau- Ponty)1- foram
“conden ados” de cambulhada por figuras então de proa do m ovim ento
comunista e, por via da Terceira Internacional, no seu V Congresso
M undial - real izad o em Moscou, em 1924 institucionalme nte des
aut oriz ad os com o expressões f ilosóficas de “desvios” idealistas e neo-
hegelian os. M ais precisamente: naquele evento, Zinovie v - à data , o
prin cip al dirigente do org anismo - , vituperou o “m arxismo de pro
fess ores que elucubra m suas teorias m arxistas” , citou textualm ente o
italia no Graziade i além de Lukác s e Korsch e con cluiu esta passagem
da sua intervenção com a fra se def initiva: “Não pod em os tolerar, na
nossa Internacional Comunista, a presença desse revisionismo teó
rico”.2Paradoxal mas não inexplicavelmente, também os corifeus da
socialdemocracia (como Kautsky) somaram-se, na desqualificação
das duas obra s, aos críticos de e xtração bolchevique.
Os dois autores reagiram de modo mu ito diverso em fac e da “co n -.
den ação ”. Lukács pre pa rou u m denso m aterial de resposta a seu s críti
cos, mas jamais o publicou: disciplinadam ente, autocr iticou- se e, mal
grado divergências e discrepâncias, perm anec eu até à mo rte vinculado
organicamente ao movimento comunista.3Korsch manteve suas posi
ções, foi expulso do P artido em 1926 e evoluiu de mod o m uito diverso.4

.
1
Karl Kors ch nasceu em Todst ed, pe rto de Ham bu rgo , em 15 de
agosto de 1886. Fez estud os de d ireito, filosof ia e eco no mia em várias
universidades (Munique, Berlim, Genebra), até doutorar-se em di-
8♦ J os é Pau l o N etto

reito pela Universidade de Jena,5em 1910, com a tese Die Beweislast


beim qualifizierten Geständis (A ponderação da prova na confissão),
um ano depois publicada em Bonn.
En tre 1912e 1914,vi ve na Inglaterra; nestes anos, já casado com
Hedda Korsch, née Gagliardi (que conh ecera em 1908 e com q uem t e
rá duas fil has), man tém c onta tos com a Soc iedad e Fabiana e dedica- se
ao estudo do direito inglês, de que resultará o ensaio, publicado em
1913, Beiträge zu r Kenntnis und zu m Verständnis des englischen Rechts
(Contribuiçõ es ao conhe cimen to e à com preensão do direito inglês).
Retorna à Alemanha quando da eclosão da Primeira Guerra
Mundial, e dela participa como oficial. Em 1919, vincula-se ao cen
trist a Pa rtido Socialdemocrat a Alemão Indepen dente (USPD), em que
pontificavam K. Kautsky e R. Hilferding; no ano seguinte, ingressa no
Partido Comunista Alemão (KPD), no qual desempenhará papel
proem in ente até 1926 —dirigiu, inclusive, a sua revista teórica, Die
Internationale (A Internacional). Não foi apenas um protago nista do
“m ovim ento dos conselhos” , tam bém tem atizou o “con trole op e
rário” num ensaio dado à luz em 1922, Arbeitsrecht fü r Betriebsräte
(Direito do tra balho ao controle das fábri cas); 6no m esm o ano, d ivul
gou um a edi ção anotada da Crítica ao prog rama de Gotha, de Mar x -
Randeglossen zum Programm der deutschen Arbeiterpartei (Gl osas m ar 
ginais ao program a do Partido O perário Al emão) - , e publicou Kern
punkte der materialistischen Geschichtesaufflasung (Que stões centrais
da concepçã o materia lista da história), em que critica Ka utsky. Integrou
em 1923 (como min istro da Just iça) o governo da efêmera república ope 
rár ia da Turíngia. En tre 1924 e 1928, foi deputad o ao R eichstag, ao mes 
mo tempo em que continua desenvolvendo atividades acadêmi
cas: desde 1923, torn ara -se professor de direito na Universidade de Jena.
Rom pe com a Terceira Interna cional em 1925 e, um ano depois, é forma l
mente expulso do Partido Comunista Alemão, mas não interrompe
sua militância polí tica: articula ou tros dissident es em to rn o da revi sta
Kom munistisch e Poli tik (Política Comunista) e, em seguida, no p erió 
dico Gegner (Adversário ). A partir de 1928, porém, desvincula-se de
qualq uer organização partidári a.
A exclusão do P artido e a ausência de vínculos organizativos não
interrompem a sua atividade intelectual: entre 1926 e 1930, publica
A pres ent ação ♦ 9

vário s ensaios, tem atiz an do as lutas de classes na Un ião Soviética, cri


ticand o a orientação da T erceira Internacional e deba tendo a pro du 
ção teórica m arxista (po r exemplo, o t rabalho de E. Pac huka nis). É d e
1929 um novo livro contra Kautsky: Die materialistische Geschicht-
saujflassung. Eine Auseinan dersetzu ngm itKau tsky (A concepção m ate
rialista da h istória. U ma polêm ica com Kautsky). E, em 1932, prefacia
um a nova edi ção do li vro 1 de O capital.
Com a chegada de Hitler ao poder (1933), deixa a Alemanha.
Gira pela Inglaterra e pela Dinam arca, ond e estabel ece sóli da e dura 
doura relação pessoal com B. Brecht. Em 1936, fixa-se nos Estados
Unidos, traba lhan do como profess or e prosseguindo em sua ativi dade
ensaís tica - de que um prime iro prod uto é o seu Karl Ma rx (1938)7—,
atividade de que são prova os inúmeros textos que publica, entre

1938 e 1946, em vários periódicos norte-americanos de esquerda e


extrema-esquerda ( Living Marxism, M odem Quaterly, New Essays,
Partisan Review, Politics ) .8
Faz um a via gem à Euro pa em 1950, passand o pela Alemanh a e
pela Suíça, e pronuncia ndo conferências, mas seu exílio nos Estados
Un idos prosseguirá até s ua m orte, ocorrida em 21 de o utu bro de 1961
(Belm ont, M assachusetts), aos 7 5 anos de idade.

2.

Marxismo e filosofia - com j usti ça o text o mais men cionad o de


toda a produç ão intel ectual de Ko rsch - foi srcinalmen te publicado,
em 1923, pelo periódico a que Grü nbe rg vinc ulou seu n om e,9 e, no m es
mo ano, tom ou a forma de livro. Tra tava- se de um ensai o c on tun de n
te e enxuto , com pouc as dezenas de págin as,10m as esta va destinado ,
para a inicial surpresa de seu autor, a c onstitu ir um a peça em ble m áti
ca do dilem a teórico-po lítico viv ido pela tradição marxista nos cruciais

anos 1920socialista
revolução - dil ema no
funda m entalm
Ocidente (maisente determ inado
exatamente: pelo f racasso
na Alemanha) e da
pelo conseqüente in sulam ento do pro jeto revolucio nário na Rússia
dos s ovietes, insulam ento que responde, em grande m edida, pela de
generescência stali nista.
10 ♦ J os é Pau lo N etto

A eclosão da Primeira Guerra Mundial encontrou a tradição


marxista hegemonizada por uma ideologização de cariz positivista,
de que é paradigm ática a concepç ão idea l elabora da p or Kautsky, teó
rico p ar excellence da Segun da Interna cional : um a interpretação evolu

cionista
lução comdo oprocesso histórico,
lógico, natu de que de resultado
ral e inevitável rivava da
um dinâ
a projeção da revo
mica capital ista.
Ar quitetura ideal e prática pol ítica es tavam aqui m edular mente vincu 
ladas: o materialismo mecanicista em que assentava a concepção
teórica (que form alm ente se intit ulava e se prete ndia “dialéti ca”) fun 
dava um a prática polít ica (qu e, também form alme nte, s e apresentava
com o “revo lucion ária”) de es pera pe lo dia D em que u m a crise econô-
mico-social de monta levaria à ruína necessária do Estado burguês.
A Revolução de Ou tubro e a con juntu ra revolucionária eu ro
péia (Alemanha, Itália, Hungria) - dois momen tos de um mesmo p ro
cesso —revelara m, com nitid ez cristalina, a com ple ta inép cia da versão
kautskiana do pensam ento marxist a e a incapacidade da orientação
política dom inante na Segunda Internacional, co nectad a àquela v er
são, para dirigir a ação revolucionária proletária. O fluxo revolucio
nár io socialista, que v ai em crescendo até 1920- 1921 e re flu i em 1923,
qu an do se registra a de rro ta da revolução ale mã, cria a s condições para
um mo vim ento de crític a rad ical ao marxism o vulgar, de que a pro du 

ção mais
efeito, representativa
a colocaçã da m
o, pelo Segunda Internacio
ov im en to das c lassesnalsociai
era exemplar . Com
s, da revolu ção
soci alista proletária na ord em do dia instaura as condições histórico-
sociais par a o re sgat e da inspiração teórico-re volu cion ária m arxiana.
Este resgate implicava , todavia, condições tam bém de natu reza
estritam ente teóric a - em esp ecial, e como prelim inar, o expurgo da
con tam inaçã o n aturalista-positivista que viciava a vulgari zação m ar
xista; para tanto , tornava-se imperativa a restauração da dime nsão d ia
lética, componente estrutural do legado marxiano e herança (assu
mid a criticam ente p or Marx) de He gel. Ora, poucos eram os teóricos
que, f orm ados n o eixo da Se gunda Internacional, dispu nh am da cul
tura teóri co-filos ófica indi spen sáve l para um a em presa de tal porte "
(situação agravada pel o caráter até então inédito de textos marx ianos
que pod eriam estimular diretamente a pesquis a nesse sentido). A pa r
te Lenin ,12os pens ador es mais do tado s que, com níveis de consciência
A pres ent ação ♦ 11

individual muito diferenciados, propuseram-se a resgatar a dimensão


dialética da teoria revolucionár ia marxiana nada inco rporavam da ideo
logia do m inan te da Segunda Inter nacional ou da sua atmosfera inte
lectual - antes, questionav am -na abertam ente; e foram três: Lu kács,
Korsch e Gramsci - como, aliás, o prim eiro deles o assin alou .13Ademais
de se educarem politicamente fora dos marcos postos pela Segunda
Internacional, tin ham substantiva cultura universitária e sólido con he
cim ento d a tradição hegel iana (c aso dos dois pri m eiros) ou se form a
ram sob influxos de um diálogo crítico com intelectuais que manti
nham relações com Hegel (caso de Gramsci14).
O dilema teórico-político antes refer ido consistiu exatamen te no
seguinte : a con jun tur a inaugu rada pel a Revolução de Ou tub ro (1917)
perm itiu às forças revolucionárias rom per politicam ente com a inepta
estratégia da Segunda Internacional (a estratégia socialdemocrata ),
assim com o o as censo revolucionário no Oc idente (1918- 1923) ofe
receu objetivamente as bases sociopolíticas imediatas para o resgate
da dialética na t radição marxista . É nest e restrito lapso tem pora l que
se criam as condições para elabora ções como História e consciência de
classe e Marxism o e filosofia e també m para os ger mes que, desenvol
vidos irregular e pouco sistematicamente, anos depois configurarão
os gramscianos Cadernos do cárcere.En tretanto, o process o da ruptu ra
teórica que estes textos (os de Lukács e Korsch, descontados o destino
dos Cadernos sobre a dialética leninian os e o dos Cadernos do cárcere
gramscia nos, dada a posterioridade do regi stro e, sobretudo , da p ub li
citação do pensam ento de Gramsci) inaug urara m n ão foi mais do que
um episódio. As condições sociopolít icas que o pro picia ram foram re
vertidas a p artir de 1923 —com a derrota da revolução n a Alem anha —
e inteiramente liquidadas na segunda metade da década, quando o
isolamento da União Soviética, submetida ao cerco imperialista, a
bolchevização da Terceira Internacional e dos partidos a ela ligados
levaram ao surgimento do stalinismo. Em poucas palavras: foi bre
víssima a conjuntu ra que poderia permitir uma rup tura, completa e r a
dical, t eórica e prático-política, com as hipotecas que co m prom etiam
o marxismo vulgar desenvolvido na/pela Segunda Internacional. O
emergente stalinismo e a bolchevização enterraram por décadas o
ajust e de contas com as medulares contamina ções positivi stas e natu-
12 ♦ J os é Pau lo N etto

ralistas que o marxismo vulgar intr oduziu duradou ramen te na t radi


ção marxista, e as duas obras de Kors ch e Lukács acab aram por per m a
necer com o ícones is olados d e um a possibili dade abor tada.

3.

O íntimo parentesco da matriz de pensamento desenvolvida


por Lukács e Korsch nos começos dos anos 1920 tem vários indicado
res indiscutíveis, m uito p ara além da t entativa de re cu pe rar a dialét ica
(e, poi s, a herança de Hege l) como estrutu rado ra da o bra marxiana,
com claríssi mas inci dências no plano prático-p olítico que, de fato, con 
duziram, à época, a nítidos posicionamentos doutrinários e estrei
tos - com tud o se passando, p ara ambos, com o se a revolução, em
escala mundial, estivesse em curso (não esquecer que os próprios e
princip ais dirigen tes da Revolução Russa inicialm en te a descreveram
com o o “prólogo da revoluçã o m un dia l”).15
De fato, os dois autores com bateram então ig ualm ente em duas
frentes: criticaram tanto o marxismo vulgar quanto as alternativas
(conservado ras, burguesas) que a ele se co ntra pu nh am - assim, o seu
fogo crí tico incide, é verdad e que diferencialm ente, qu er sobre o mec a
nicismo, o naturalismo e o reducionismo das contaminações posi
tivistas na tradição marxista, quer sobre a elaboração burguesa das
ciênci as soc iais, no tada m en te a soci ologi a em vi as de ins titucio na li
zação acadêmica; e o caráter de suas críticas é muito similar. Con
tudo, o trato do mar xismo vulgar, tanto em Korsch com o em Lukács,
não se volta apenas con tra o passado (a Segunda Interna cion al): a m 
bos se confronta m com a sua continuid ade conte m porâ nea, no in te 
rior mesm o da Internacional Co mu nista - de que é prova inconteste
o rechaço que ambos manifestaram em face do Tratado de materia
lismo histórico, de B uk ha rin.16
Mas é preci so salientar que os doi s autores, lavrand o na m esma
seara que colidia frontalmente com a herança teórica e política da
Segunda Internacional (e não só com ela), e sendo igualmente com
batidos pela “nova ortodoxia comunista” (tal como, a nosso juízo im 
propriamente, Korsch designará o dogmatismo do marxismo to rn ado
ideologia oficial), não produziram obras comparáveis. O lugar -
A pres ent ação ♦ 13

comum segundo o qual História e consciência de classe e Marxismo e


filosofia con stituem as “obra s m alditas do m arxis mo do sécu lo XX”, se
tem proc edên cia ao ind icar - além de suas b ases teóricas simila res e
algumas de sua s impl icações prático-polít icas aproxim adas - o verda
deiro exílio a que elas foram condenadas na tradição marxista, esse
lugar com um , tam bém pode indu zir a colocá- las no mesm o níve l teó 
rico. Um a tal equalização é despropositada: Marxism o e filosofia carece
da exaustiva fun dam entaç ão filosófica sobre a qual se e rgue História
e consciência de classe;17sob retud o, há algo que as distingue essencial 
mente: a apreensão das mediações entre teoria e práxis (nomeada
mente a práxispolítica revolucionária ).18
Concordando-se ou não com as complexas mediações que o
Lukács de 192 3 leva em con sideraç ão en tre est es dois ní veis - e nã o es

quec er que, polêmicas e problemáticas, tais mediações conferiam ao


Partido C om unista, clar amente pensado à mo da de Leni n, um estatuto
privilegiado -, o fato é que, na estrutura teórica de História e consciência
de classe, sistemas de mediaçõ es en tre teoria e práxis, consciên cia e ser,
ideologia e ação polític o-interv entiva são cent rais. E aquilo de que ca re
ce, justa mente , a refle xão korschiana de 1923 é, na consideraçã o d a rela
ção entre teoria e práxis , a apreensão e a po nde ração das mediações.

4.

C on tun de nte e apaixonado, o ensaio de Kors ch, escrit o na m a


turidade dos seus 37 anos, é o que de mais seminal ele produziu em
sua vida. Apóia-se numa tese central: a de que a debilidade prático-
política revelada pela capitulação socialdemocrata do 4 de agosto de
1914 - qu an do , no dizer de Rosa Luxem burg, a socialdemo cracia
“torno u-se um cad áver malcheiros o” - man ifest ou mais do que inép
cia po lítica ou traição (sem, naturalm ente , excluí -las ); trazen do à l uz

um a tend
sadas ência
no ab perceptível
andon há décad
o da dialética as, tinh
materi ali staa raíz
d e Mesarx-Engel
t eórica s, co
s - nd en 
aban
do no devido à incompreensão, própria do marxismo vulgar, da relação
entre a ciência fund ada pelos doi s pensad ores e a filosofia.
Com a revolução na ordem do dia (1917 = “prólogo da revo
lução mundial”), a problematização desenvolvida por Korsch, sem
14 ♦ J os é Pau lo N etto

sub estim ar seu nível teórico, é medu larm ente polític a: trata-se de ade
qu ar a teoria do prole tariado à sua pr áxis, que, nest e m om en to, é práxis
política revolucionária. Mais : trata-se de fazer a teoria con stituir-se co
mo se co nstituiu srcinalmente em Marx-Engels - com o expre ssã o
(teóri ca) do mo vim ento re volucionário do proletariad o. E a condição
eleme ntar para tan to cons iste em trazer à teoria a dialética que, po sta a
atualida de da revolução, estava no p rime iro plano da realidade his tó
rica. Se já se dete rm inara qu e não há políti ca revo lucion ária sem teo
ria rev oluc ion ária,19em Kors ch se determ ina q ue o caráter rev olucio
nário da teori a est á hipotecado ao se u méto do /con teúd o dialético - e,
para garantir este caráter, a ciência fundada por Marx-Engels ainda não
prescinde da filosofia (de uma filosofia determ inada), ainda (quando a
revol ução m un dia l está no seu “prólog o” - depois tudo se transform a

rá, até asO ciências matem


leitor acom áticas!)
pa nh é, tam
ará a argu mebéntação
m ela, de
a seu m ch,
Kors od o,asfilosofia.20
suas in ú
meras digressões, as inferências e ilações que extrai e/ou desenvolve
ao longo do ensaio. Não cabe aqui su mariá-las. Mas este é o lugar para
ressalt ar que a r elação teoria/práxis é posta po r Kors ch com o u m a rela
ção im edi ata e direta: seu t exto não deixa dúvidas qua nto a este po nto.
Se ele bu sca m ediaçõ es en tre a filosofi a de Hegel e a revolu ção b urg ue
sa,21 não o faz com os mesmos cuidad o e ri gor q uan do busca p ens ar o
m arxismo, especialmente o que lh e era contem porâ neo ; se pesquis a
mediações , p ara ser conseqüente com a afi rmação hegeliana que tanto
aprecia (a filosofia vista como “a sua época apreendida pelo pensa
m en to”) qu and o tra ta da rel ação filosofia burgu esa/realidade, no caso
do m arxism o contenta-se com a ef etiva abstração segu ndo a qu al a “no
va ciência de M arx e de Engels ” é a “express ão geral do m ov im en to re 
volucionário autônomo do proletariado”. Esta concepção não é exclu
siva da arg um entaçã o central d e Marxismo e filosofia: é a concep ção de
Korsch nos ano s 1920 - reafirm ada n ou tro texto, de març o de 1923,
em que o “socialismo científico” é iden tificado à “consciê ncia de classe
org aniz ada do p ro leta ria do ”.22Nã o h á equívoco nessas abstraçõ es, mas
lhes falt a a conc reção que as to rna ria verdadeiras. Substa ntivam ente,
Kors ch acaba po r pensar a t eoria (de Marx-Engels) não mais que co
mo a expressão - racional e cient ífica - da pr áxis.
Do p on to de vista teórico, a mais evidente conseq üên cia necessá
ria dessa concepção é, no limite, uma distinção puramente formal
A prese ntação ♦ 15

entre teoria e práxis ou, ainda, a dissolução da peculiaridade teórica


na práxis. Uma tal concepção redutora da teoria, além de implicações
específicas, limita compulsoriamente a compreensão das instâncias
mediadora s da práx is política - não é c asua l que Marxismo e filosofia
não pronuncie uma só palavra sobre a problemática da organização
do proletariado revolucionário, uma só frase sobre o partido revolu
cionár io (sua natureza , sua estrutura , sua função, seus li mites etc.).2 3

5.

Mas este ensaio de Korsch é, como referimos, seminal - nele


com parecem , ainda que sem desdobr ame ntos intensivo s, algumas id éias
abso lutam ente fecu ndantes, à época e depois (sejamos diretos: atuais
hoje), par a o desenvolvimen to d a tradição m arxista. T rês delas, entre
outr as, m erecem a ate nção do leitor.
A primeira diz respeito à concepção da obra marxiana como
exemplar de um a sólida e coeretite unidade. M esmo assinalando infl e
xões na con stituição do pensa me nto de Marx (e de Engels), subl inh and o
alteraçõ es, enfatizando gir os - por exemp lo, a diferença introdu zida
na reflexão de Marx pela desco berta da relevância da crítica da ec on o
mia política na anál ise so cial-, Korsch sustenta a inteireza unitária (não
iden titária) da teoria soci al de Mar x.
Em segu ndo lugar (e, de alguma forma, em estreita relaçã o com
o anterior), a claríssima recusa de compatibilizar esta teoria social
com os “recortes epistemológicos” que passaram a fundar (e legiti
mar) as ciências sociais. Há, em Marxismo e filosofia, uma concepção
de fund o - mais q ue argumentos - para dem onstrar a gen ética rel ação
de exclusão en tre a “ciência do pr olet ariad o” e a discursividade das dis
ciplinas socia is autô no m as e parcel ares .
Em terceiro lugar, Korsch contribui decisivamente para es
clarecer a relaç ão M arx-H egel: são fun dam entais as suas obser vações
acerca, de um a parte, da indescartabilidade da filosof ia hegeliana pa ra
a constituição da nova dialética de Marx e, de outra, do caráter ex
tremamente complexo das op erações teórico-críticas que perm itiram a
Marx fundar uma “nova ciência”, reduzindo a pó a vulgarização
relati va à m era “inversão” materialista.
16 ♦ J os é Paulo N etto

A evolução teórico -política de Kor sch a pós a sua rup tu ra com


as organizações pol íticas do m ovimen to co mu nista não o levou a um
imediato afastamento do núcle o teórico que explici tou em Marxismo
e filoso fia. Ao contrário, na sua “Anticrítica”, procura defendê-lo, ao
m esm o te m po em que revis a radicalm ente a sua relação com Lenin24
e se distancia p oliticam ente da experiência sov iética. Mas, a pouco e
pouco, a partir de m eados dos anos 1930, Korsch foi abrin do um fosso
entre sua reflexão e a tradição marxista (o seu Karl Ma rx já o indica):
aquele distanciamento político foi se acentuando fortemente, deri
vando num obsessivo anti-sovietismo e, no plano teórico, resultou
numa completa minimização do contributo de Marx e de Engels à
cau sa soc ialist a.25
Levando em conta esta evolução, um marxista do calibre de
Hob sbawm não hesita em afirmar , depois de r econhecer a im po rtâ n
cia de algumas das formulações de Korsch em 1923, que, “definitiva
mente, não há uma razão fundamental, hoje, pela qual devêssemos
lê-lo”.26Perm itim o-n os discordar do h istoriad or ilust re, rec orda ndo a
notação de Lukács, feita em março de 1967, acerca da representativi-
dade do seu História e consciência de classe: “ Um poderoso m omento
histó rico de transiçã o deba tia-se então [à época da redação do livr o]
por sua expressão teórica. Mesmo quando um a teoria não expressava
a essênci a objeti va da grande crise, mas apenas um a to m ada de posi

ção
ad qutí irir
picau dian te dos
m certo seu s problemas
significado fu . ndam
histórico entais,
Esse era el acreio
o caso, aindahoje,
p odia
de
História e consciência de classe”.27A notação cabe , como u m a luva, tam 
bém para Marxismo e filosofia: para além de seus méritos singulares
(configuradores da sua seminalidade), o ensaio korschiano de 1923
dispõe da representatividade que só as raras obras, e os raros autores,
que protag onizaram o dil ema da ruptu ra teóri ca e prática com o mar
xism o vulgar possuem - e po r est a representatividade e pe la persi s
tência do dilema vale a pena ser lido.

6 .
A presente tradução de Marxismo e filosofia não é a primeira
em portug uês: há m ais d e trin ta anos, est a obra de Korsc h teve um a
edição lusita na, desde m uito esgotad a.28
A pres ent ação ♦ 17

A versão que ago ra se publica no Brasil - e em q ue se pro cu rou


preservar as marcas estilísticas próprias de Korsch que, to dos reco
nhec em , não é pro pria m en te um escritor de prosa c ristalina2 9- teve
por base a edição francesa (K. Korsch. Marxisme et philosophie. Paris:
Minuit, 1968, tradução de Claude Orsoni), cotejada com a edição
alem ã (K. Korsch. Marxismus und Philosophie. F rankfurt: Europäische
Verlagsanstalt, 1966). Mas, ressalte-se, o conteúdo do volume que o
lei tor tem em mãos difere tanto do da ed ição ale mã qu anto do da ed i
ção francesa (e, ainda, da já men ciona da lusitana) no qu e toca não só
aos capítu los ,30 mas tam bé m ao fato d e que inv ertem os a ord em de
apresentação da Anticrítica, pospondo-a ao ensaio Marxismo e filo
sofia. Esta inversão restabelece a ordem cronológica dos dois textos e
nos parece mais favorável à compreensão da polêmica expressa na
Anticrítica.
Quando possível, as referências bibliográficas e textuais de
Korsch - nem todas com plet as e sufi cie ntes - foram rem etidas a
versões já existent es em p ortug uês, indicadas po r nós e ntre colchetes
(aliás, todas as notas entre colchetes sã o da no ssa respon sabilidade);
mas cumpre observar que a sua tradução nem sempre coincide exata
mente com a apresentada nas versões referidas. P ara m aior cl areza, por
vezes repe timo s a fonte de K orsch, mesmo qu an do não houvesse ne
cessidade de faz ê-lo. E sempre que u m título em alemã o aparece pela
prim eira vez, ele foi traduzido.
Im po rta assi nalar que, ori ginalmente, Marxismo efilosofia não
tinha as características com que hoje se apresenta ao leitor: o ensaio,
com o já dissemos, um texto de cerca d e meia cen tena de páginas, te ve
a sua primeira publicação no número 2, de 1923 do Archiv fü r die
Geschichte des Sozialismus un d der Arbei terbewegun g (Arqu ivo de His
tória do Socialismo e do Movimento dos Trabalhadores ), de G rün be rg, e,
no me sm o ano, um a edição au tôn om a em b roc hu ra.31A “Anticrítica” ,
redigida em 1929, só passou a fazer parte de Marxismo e filosofia em
1930, quando Korsch publicou, através do editor C. L. Hirschfeld
(Leipzi g), a segun da edição.
A presente traduçã o - para a qual fo i inest imável a colabor ação
de Carl os Nels on C ou tinho - tem um expr esso objet ivo: con tribuir
para to rnar acessíveis a um m aio r núm ero de leitores um pensador e
um a obra que, sem dúvida s extremamente problemáticos, tamb ém sem
18 ♦ J os é Pau lo N etto

dúvida s permanecem seminais para todos aque les que se con frontam
com a sociedade do capital e, neste confronto, querem valer-se do
acervo da tradição marxista.

Notas

1 Da la rga bibli ografi a sobre o marxismo ocidental (e seus representantes), refira-


se, ilustrativa e aleatoriamente: N. Mclnnes, The Western Marxists (Londres:
Alcove Press, 1972); G. S. Jones et al., Western Marxism: A Criticai Reader
(Lo ndre s: Verso, 1978); R. J acoby, Dialectic o fD efe at (Nova Yo rk: C amb ridge
Un iversity Press, 1981); J. G. Merquior, O marxismo ocident al (Rio de Janeiro:
Nova Fro nte ira, 1987); K. A nderson, Lenin, Hegel and the Western M arxism
(Chicago: University of Illinois Press, 1995); P. Anderson, Considerações sobre o
marxismo ocidental. Nas trilhas do materialismo histórico (São Paulo: Boitempo,
2004).

2 No
bémlongo discurso inaugu
ao italiano ral deinZititu
A. Bordiga) noviev,
la -s e esta parte
“A lu (que reser
ta contr vava-eatsqaques
a o ‘ultra uerdtam
is m 
o’
e o revisionismo teórico”; toda ela encontra-se reproduzida em Peter Ludz,
org., Georg Lukács: Schriften zur Ideologie und Politik (Newied-Berlim:
Luchterhand, 1967, p. 719-726).
3 Redi gido provavelmente en tre 1925 e 19 26, o m aterial refer ido só ve io à l uz
postum am en te (em 1996), sendo vertido ao inglês pouco depois - ver G. Lukács,
A Defense o/History and Class Consciousness. Tailism and the'Dialectic (Uma
defesa de História e consciência de classe. Reboquismo e dialética) (Londres:
Verso, 2000). A visão retrospectiva do teórico hún garo sobre História e cons
ciência de classe e a sua cuidadosa autocrítica podem ser lidas especialmente
no texto que escr eveu em 1967 para a primeira reediçã o autorizad a da obra -
disponível em G. Lukács: História e consciência de classe (São Paulo: Martins
Fontes, 2003) -, mas há também elementos pertinentes em G. Lukács, Pensa
mento vivido. Autobiografia em diálogo (São Paulo: Ad Hominem; Viçosa:
Editora da Universidade Federal de Viçosa, 1999).
4 A part ir de fi nais dos anos 1960, a divul gação de t extos de Ka rl Kor sch (m ui
tos deles até então praticamente inacessíveis, ademais de outros inéditos) veio
crescendo; as edi ções mais autorizada s são a s que, nos volu me s da sua Gesam
tausgabe, faz a Europäische Ver lagsa nstal t (F rank furt) desde 1980. Paralela
me nte, a bibli ografi a sobre ele regis trou notável aum ento - os tít ulos têm se
mu ltiplicado, n a Euro pa e nos Estado s Unidos. As poucas indicações segui ntes
podem oferec er ao le itor interess ad o várias fontes para ava nçar no conheci
mento do autor:
a) textos dedicados especialmente a Korsch: C. Pozzoli (org.), Über Karl Korsch
(Frankfurt: Fischer, 1973); P. Goode, Karl Korsch: A Study in Western Marxism
(Londres: Macmillan, 1979); M. Buckmiller (org.), Z ur A ktu alität von Karl
Korsch (Frankfurt: Europäische Verlagsanstalt, 1981);
A pres entaçã o ♦ 19

b) textos em que há significativas considerações sobre Korsch: G. Vacca, Lukács


o Korsch? (Bari: De Donato, 1969); A. Arato e P. Breines, The Young Lukács
and the Origins of Western Marxism (Nova York: The Seabure Press, 1979); E.
J. Hobsbawm, Revolucionários. Ensaios contemporâneos (Rio de Janeiro: Paz
e Terra, 1982); M. Jay, Mar xism & Totality. The A dventures o f a Concept fro m
Lukács to Habermas (Berkeley-Los Angeles: University of California Press,
1984); L. Kolakowski, Las principales com ente s dei marxism o. III. La crisis
(M adri: A lianza, 1985); L. Sochor, “Lukács e Kors ch: a discus são filosófi ca no s
anos 20”, em E. J. Hobsbawm (org.), História do marx ismo (Rio de Janeiro:
Paz e Terra, 1987, v. 9);
c) textos de introdução a obras de Korsch: K. Axelos, apresentação a K. Korsch,
M arx ism e et philosophie (Paris: Minuit, 1964); E. Gerlach, introdução a K.
Korsch, M arx ismus und Philosophie (Frankfurt: Europäische Verlag, 1966);
F. Halliday, introdução a K. Korsch, Marxism an d Philosophy (Londres: New
Left Books, 1970); A. Sánchez Vázquez, prólogo a K. Korsch, M arx ismo y
filoso fia (México, D.F.: Era, 1971); S. Bricianier, apresentação a K. Korsch,
Marxism e et contre-révolution dans la prem ière moitié du XXe. siècle (Paris:
Seuil, 1975); D. Kellner, introdução a K. Korsch, Karl Korsch: Revolutionary
Theory (Austin: University of Texas Press, 1977).
Na revista Telos, editada nos Estados Unidos (em Saint Louis) por Paul Piccone,
encontram-se, nos números 26 (inverno de 1975-1976), 27 (verão de 1976)
e 34 (inverno de 1977-1978), substantivos materiais sobre Korsch.
Esta universidade - aliás, aquela à qual Marx apresentou, em 1841, a sua dis
sertação sobre a diferença entre as filosofias da natureza de Demócrito e
Epicuro -, a que Korsch, em 1923, retornará como professor, foi caracterizada
p o r Hobsb awm como “ultra dir eitis ta ” (ver Revolucionários..., ed. cit., p. 157).
Em bora vinculad o ao pensa me nto conse lhista, a contribuição teórica de Kors ch
a esta corrente comunista não tem a densidade daquela oferecida por autores
como Max Adle r - Démocratie et conseils ouvriers (Paris: M aspero , 1967) -
e Paul Mat tick - Integração capitalista e ru ptura operária (Porto: A Regra
do Jogo, 1977). Ver, também, C. Collet e C. Smith (org.), La contre-révolution
bureauratique (Paris: UGE, 1973); A. Pannekôek et al., Conselhos operários
(Coimbra: Centelha, 1975); P. Mattick et al., Comunistas de conselhos (Coimbra:
Centelha, 1976).
Obra reeditada somente um quarto de século depois: K. Korsch, Karl Marx
(Nova York: Rüssel & Rüssel, 1963).
N o volu m e La contre-révolution bureaucratique, citado na nota 6, estão reu
nidos textos de K. Korsch, P. Mattick, A. Pannekoek, O. Rühle e H. Wagner,
publicados em algum as das revistas acim a referidas , bem co m o in fo rm ações
sobre elas. É interessante observar que, nos primeiros anos de seu exílio ame
ricano, Korsch colabora com Kurt Lewin e com ele publica um ensaio sobre
modelos matemáticos em psicologia e sociologia.
O periódico Archiv fü r die Geschichte des Sozialismus und der Arbeiterbewegung
(Arquivo de História do Socialismo e do Movimento dos Trabalhadores ), que
20 ♦ J os é Paulo N etto

circulou entre 1911 e 1930, e que se tornou conhecido simplesmente como


Grünbergs Arch iv (Arquivo de Grilnberg), era editado em Leipzig por Hirschfeld,
e nele também foram publicados textos de Lukács (por exemplo, o ensaio
“Moses Hess e o problem a da dialét ica ideal ista”). Recorde-se que Cari Grünb erg
(1861-1940), professor da Universidade de Viena na última década do século
XIX, assumiu em 1924 a direção do Instituto de Pesquisa Social de Frankfurt
(da qua l se afast ou em 1928, po r razões de saúde); a r elação en tre G rünb erg
e o instituto (qu e patrocin ará a “Escola de Frankfurt”) é sumariad a p or Phil Sl ater
no primeiro capítulo de Origem e significado da Escola de Frankfurt (Rio de
Janeiro: Zahar, 1978).
111 O opú sculo só ganh ará mais corp o q uan do, reed itado em 1930, Korsch lhe acres
centar a “Anticrítica”.
11 Talvez Fran z M ehring (1846-1919) constituísse, aqui, um caso pa rticu lar de alta
qualificação intelectual. De todo modo, sua morte torna especulativa qualquer
hipótese acer ca de um event ual protagonismo seu n um a em presa com o es sa.
12 O único rem anesc ente da Segunda Interna cion al que s e m os trou qualifi cado
pa ra isso foi Lenin; prova-o a sua verdadeira descoberta de Hegel no exílio suíço,
registrada nas reflexões que constituem os seus Cadernos sobre a dialética, um
deles tomando como objeto específico a Lógica hegeliana (sob o título de “Cons
pecto do liv ro de Hegel Ciência da lógica”·, este exercício leniniano está dis
ponível no to m o 6 das suas Obras escolhidas em seis tomos (Lisboa: Avante!;
Moscou: P rogresso, 198 9, p. 89-212). Ma s este material - que traz à luz um
pe nsad or inteiramen te diverso daquele que se identifica em Materialismo e empi
riocriticismo e que, ademais, é um pressuposto teórico-filosófico da elabo
ração de O Estado e a revolução - perma neceu inédito até 1929, e Korsch,
port anto , desco nhecia-o à época da redação de Marxism o e filosofia, e, prova

velmente por “Anticrítica”


ração da sua não ter tido acesso a ele, nãoprático-política
A importância o considerou quando da prepa
da leitura de Hegel
por Lenin, no seu exílio suíço, é posta em relevo n um bre ve ensaio de M.
Lõwy - “Da grande l ógica à estaçã o Finlândia” inserto em seu livro Método
dialético e teoria política (Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1975). A linha de pensa
mento inscrita nos Cadernos... leninianos, porém, não haveria de florescer no
clima intelectual que se instaurou sob Stalin.
13 “Nos anos v inte, Kor sch, Gram sci e eu tentam os, cada qu al seguin do seu pr ó
prio cam in ho, enfr enta r o pro ble m a da ne cessidad e social e da su a in te rp re 
tação mecanicista que constituía a herança da Segunda Internacional. Her
damos o problema, mas nenh um de nós - nem m esmo G rams ci, ta lvez o ma is
dota do dos três - o resolveu” (entrevis ta de Lukác s à New Left Review, n. 68, July
1971, reproduzida no volume organizado por M. Lõwy: G. Lukács. Littéra-
ture, philosophie, marxisme. Paris: PUF, 1978, p. 158).
14 Po r razões históricas sobejamen te conhecidas, o im pacto teó rico- po lítico do
pensam ento de Gramsci - diferentem ente do de Lukács e de Korsch - será
muito mais tardio.
A pres entaçã o ♦ 21

Rem em orand o o clima polít ico da época, Lukács obser vou: “Considero essen
cial o fato de que éramos todos sectários messiânicos. Acreditávamos todos
na revol ução mu ndial como n um fato par a acontec er aman hã” ( Pensamento
vivido..., ed. cit., p. 77).
A crítica de Lukács, muito mais desenvolvida do que a de Korsch, foi publi
cada no Archiv de G rünberg (n. 11, 1923), e pode ser lida em An tonio Roberto
Bertelli (org.), Bu kh árin, teórico marxista (Belo Horizonte: Oficina de Livros,
1989, p. 41 e ss.). Recorde-se que Gramsci também criticou o mesmo livro de
Bukh ári n - ver A. Gramsci, Cadernos do cárcere (Rio de Janeiro: Civilização
Brasileira, 1999, v. 1, p. 114 e ss.). Por outro lado, não se esqueça o juízo de
Lenin sobre o autor, anotado antes da publicação do Tratado...: “Bukhárin
não é somente um teórico muito valioso e importante do Partido; [...] mas seus
conceitos teóricos só podem ser classificados de plenamente marxistas com grande
reserva porque há nele algo de escolástico (nunca estudou dialética e, penso, nun
ca a entendeu de todo)” (trecho do “testamento” de Lenin, com itálicos não
srcinais). Ver Antonio Roberto Bertelli, Capitalismo de Estado e socialismo. O
tempo de Lenin. 1917-1927 (São Paulo: IPSO-IAP, 1999, p. 87).
E - faça-s e a necessár ia justiça ao auto r - Korsch, com o verifi cará o leitor
desta obra, jamais ignorou essa diferença.
Um dos analistas que mais enfatizou este ponto crucial foi Sánchez Vázquez
(ver o seu prólogo a M arx ismo e filosofia, citado na nota 4).
Lenin, já em Que fazer?, an otara que “sem t eoria revoluci onária não p ode ha
ver também movimento revolucionário” (ver Obras escolhidas em três tomos.
Lisboa: Avante!; Moscou: Progresso, 1977, v. 1, p. 96-97).
A observação sobre a matemática está num texto que precede a elaboração
de M arx ismo e filo so fia (ver, infra, o capítulo “A concepção materialista da
história”, de 1922); quanto à filosofia, como Korsch nota depois da publi
cação de M arx ismo e filosofia, no comunismo ela não será mais que “um
pon to de vista ultra passado” (ver, infra, o capítulo “A dialética m ate rialista”,
de 1924); há plena continuidade entre essas considerações e o núcleo teó
rico de M arx ismo e filosofia.
Há diferenças entre a apreciação de Korsch sobre a filosofia de Hegel em
M arx ism o e filos ofia e aquela que ele enuncia após a Segunda Guerra Mun
dial, expressa n um as sum árias “T eses sobre Hegel e a revolução” (rep roduz idas
no número 16, de 1959, da revista parisiense Arg uments).
Ver, infra, o capítulo “A dialética de Marx”.
Quanto a isso, é flagrante a diferença, que já sugerimos, entre Marx ismo
e filosofia e História e consciência de classe.
Assim, aquele que, no texto de 1923, aparecia como “fiel discípulo de Marx”,
o “arguto crítico”, “o cérebro da revolução proletária na Rússia” etc., surge
agora, na “ An ticríti ca”, quase com o u m delinq üen te filosóf ico. Mas o ressen 
timento que brota dessas páginas, publicadas na segunda edição (1930) de
22 ♦ J o sé P aulo N etto

Marx ismo e filosofia, não deve obscurecer o fato de que o Lenin de M ate
rialismo e empiriocritidsmo merece críticas substantivas.
25 M inimizaçã o e vidente, por exemplo, na segunda das sua s “Dez t eses sobre
o marxismo hoje” (igualmente publicadas em Argum en ts, cit., supra, na nota
21), que reza: “Todas as tentativas para restaurar a doutrina marxista como
um todo e em sua função srcinal de teoria da revolução social da classe ope
rária são atualmente utopias reacionárias”. Mas cumpre observar que Martin
Jay, em nota ao seu M arx ism & Totality (cit., p. 147), remete a uma entre
vista de Hedda Korsch, concedida a New Left R eview (n. 76, Nov.-Dec. 1972),
segundo a qual Korsch nunca rejeitou completamente o marxismo.
26 E. Ho bsbaw m. Revolucionários..., ed. cit., p. 162. Outro marxista, o já citado
Sánchez Vázquez, mesmo observan do que o Kor sch dos último s anos esta va,
com o pensador, em “ruínas” , cons ider a, ao con trário, que m uito da crític a kors-
chiana “não perdeu a sua validez em nossos dias” (ver o prólogo citado na
nota 4, p. 13 e 18).
27 G. Lukács. História e consciência de classe. São Paulo: Martins Fontes, 2003,
p. 28-29.
28 K. Korsch. M arx ismo e filosofia. Porto: Afrontamento, 1977, tradução de
António Sousa Ribeiro.
25 Ob serva o respo nsável pela versão francesa que, em Marx ismo e filosofia, “o
pensam ento só se deixa apre ender através de frases in te rm in áveis, nas qua is
a proliferação de advérbios, adjetivos e qualificativos de todas as espécies e
a repeti ção exce ssiva dos t erm os co nstituem, de q ualqu er m odo , o preço dos
esforços do autor para conferir a mais exata expressão à nuance mais sutil”
(K. Axelos, cit., p. 18). E anota outro conhecedor da obra de Korsch: “O estilo
tumultuado de Korsch torna por vezes difícil acompanhar o curso de suas
considerações” (L. Sochor, cit., p. 62).
* O artigo “Lenin e a Internacional Comunista”, de 1924, não procede das
duas fontes citadas: foi traduzido a partir da edição que teve em K. Korsch.
Marx ismo y filosofia (México, D.F.: Era, 1971).
31 É ao epílogo desta edição q ue Korsch s e refer e na “An ticrítica” , ao m enc ion ar
seu acordo com Lukács (ver, neste volume, p. 85).
MARXISMO E FILOSOFIA

Devemos nos dedicar ao estudo sistemático da filosofia de Hegel do po nto


de vista materialista.
Lenin, “Sob a bandeira do marxismo”, 1922

1.

A afirmação de que as relações entre o marxismo e a filosofia


levantam um problema teórico e pr ático da mai s alta imp ortân cia não
enc ontrou , até mu ito recente mente, mai s do que um a limitada co m 
preensão en tre os intelectuais, burgueses ou marxistas. Para os p ro 
fessore s de fil osof ia, o m arxism o rep resentava, no m elh or dos cas os,
um a seção pouc o m ais que negli genci ável de um cap ítulo d a história
da filosofia no século XIX, merecendo uma rápida exposição sob o
título “A dissolução da escola hegeliana”.1Os “marxistas” não atri

buem
motivos. m aio r valor
Já Marx ao “ladoque
e Engels, filosófico” da sua
com firmeza teoria, mas
e insistência por outros
sublinha
ram que o movimento operário alemão recolhera no “socialismo
cien tífico” a hera nç a da filosofi a clássica alemã,2 não en ten dia m po r
esta recolha q ue o social ismo cient ífico ou o c om un ism o fosse essen
cialmente uma “filosofia”.3Ainda mais: eles lhe atribuíam a missão de
“sup erar” ( aufheben ) e “su prim ir” ( überwinden ) definitivamente, no
seu conte úd o e na sua forma, não apenas a f ilosof ia idealista burgu esa
até então desenvolvida, mas, simultaneamente, toda filosofia em
geral. Explicaremos em detalhe em que consistiria (ou deveria con
sistir), na concepção srcinária de Marx e Engels, estas superação e
supressão. Por ora, anotarem os som ente que, na seqüê ncia, a maioria
dos marxista s não viu ni sso o m enor problema. A m elho r forma de
caracter izar o mo do como eles liquidara m a questão seria retom ar os
24 ♦ K arl K or sc h

term os tã o expres sivos de Enge ls ao descrever a atitu de de Feuerb ach


diante da filos ofia de Heg el, qu and o diz que aquele a tinh a “simp les
mente po sto de lado, sem cerim ôn ias”.4 É a mesm a de sen vo ltura de
que d ará provas, mais tarde, u m grande nú m ero de marxistas em f ace
não só do hegelianismo, mas da filos ofia em ge ral, seguind o d a ma ne i
ra aparentemente mais “ortodoxa” a lição dos mestres. Assim é que
Franz Mehring exprimiu, mais de uma vez, o seu próprio ponto de
vista marxista o rtod ox o sobre a f ilosofia, declara ndo que fazia su a a
“recusa de qualquer elucubração filosófica”, recusa que “foi para os
mestres (Marx e Engels) a condição de suas criações imorredouras”.5
Estas pala vras - de um h om em que tinha todo o direito de dizer que s e
ocupara mais do que ninguém “dos primeiros passos filosóficos de
M arx e Engels” - são m uito característi cas da posição mais difun dida
entre os teóricos marxistas da Segunda Internac iona l (1889-1914) em
face de todo s os pro blem as “filosóf icos”. Me smo o fato de se oc up ar de
questões que não são estritamente filosóficas, relativas aos princípios
gnosiológicos e me todológicos mais ge rais da t eoria m arxista, apa re
cia aos teóricos marxistas mais desta cados da época com o u m a perda
de tempo e de ener gia. No interior do campo marxista admitiam-se,
nolens volens,6 controv érsias filosóficas e delas se participava , m as sem 
pre se declarando que o esclarecim ento dessas questões era e deveria
permanecer irrelevante para a práxis da luta de classes pro le tá ria .7 É

claro que u m a tal concepção só ser ia logicamente justifi cada se o ma r


xismo fos se considerado como um a teoria e uma práxi s que disp en
sasse, esse ncial e substantiva men te, u ma posição d eter m ina da em face
de quaisq uer questões fil osóf icas - e, então, um teó rico m arxista re
conh ecido p od eria m uito bem , na sua vida privad a filosó fica, ser, po r
exemplo, um representante da filosofia de Arthur Schopenhauer.
Neste único ponto - quaisquer que fossem, de resto, as diver
gênci as entre ciência burg uesa e ciên cia marx ista estes dois extre
mos, à época, pareciam se tocar. Persuadindo-se m utu am ente de que
o marxismo não possuía nenhum conteúdo filosófico próprio, os
professores burgueses de filosofia acreditavam estar dizendo algo im 
porta nte contra ele ; de seu lado, os marxistas ortodo xo s se pers uad iam
mutuamente de que o seu marxismo não tinha, em sua essência, ne
nh um a relação com a filosofi a e, com isto, acreditava m estar dizendo
M a r xi smo e fi l oso fi a ♦ 25

algo importante a seu favor. Sobre as mesmas bases surgiu, final


m ente, u m a tercei ra tendência, a úni ca que, nest a época, ocupou -se
mais ou meno s seriam ente do lado fil osófico do socialismo em geral:
os vários tipos de socialistas “filosofantes”, que se colocavam como
tarefa “completar” o sistema marxista recorrendo à sua cultura fi
losóf ica ou extrain do eleme ntos da fi losofia de Kant, Dietzgen, Mach
e ou tro s m ais. Se esses socialistas recon hec iam que o sistem a m arxista
neces sitava de um com plem ento filosófico, reve lavam q ue tam bém
para eles o marxismo, em si, estava despro vido de conte údo filo
sófico.8
É fácil de m on strar hoje que es ta interpretação p ura m en te ne
gativa das relações entre marxismo e filosofia, na qual convergiam
aparentemente intelectuais burgueses e marxistas ortodoxos, re

pousava, nos dois casos, em um a compreensão m uito in com pleta e


superficial dos fatores históricos e lógicos. Mas, como os dois grupos
chegaram àquela convergência em condições parcialmente muito di
versas, nós as apresentarem os separadam ente. No e ntan to, apesar da
con sideráv el diferença de seus respecti vos mo tivos, de sde logo se evi
denc ia entre el es um a confluência nu m po nto capit al. De fat o, na se
gunda metade do século XIX, os intelectuais burgueses, ao mesmo
tempo em que esqueciam a filosofia de Hegel, perderam completa
mente a visão “dialética” da relação entre a filosofia e o real, entre a
teoria e a práxis , que fora, ao tem po de Heg el, o prin cípio vivifi cador
do c on jun to da filo sofia e da ci ência; mas verem os que, à mesm a ép o
ca, os marxistas deixaram também cair na sombra de um esqueci
m ento cada v ez maior a sign ificação daquel e p rincípio que, no s anos
1840, os joven s hege lianos Ma rx e Engels, afastando -se de Hegel, q ue 
riam con scientem ente “ salvar, transferin do -o da filosofi a alemã para
a concepç ão materialist a da na turez a e da história” .9
Ap resentare mos, inic ial e breve me nte, as razões que levaram,
desde mead os d o século X IX, os filósofos e os histor iad ore s burgueses
a abandonar progressivamente a concepção dialética da história da
filosofia, o que os imped iu de com preen der e d e apresentar a de qu a
da m en te a natu reza pró pr ia da fil osof ia marxista e a sua signi ficação
no desenvolvimento do conjunto das idéias filosóficas no curso do
século XIX.
26 ♦ K arl K or s ch

Poder-se-á argumentar que eles tinham, para ignorar e defor


m ar a fil osof ia marxista, outras razões, m uito mais plausí veis - e não
seri a necessário invocar o ab and ono da dial ética para explicar a s ua
atitude. É verdade que um instinto de classe joga conscientemente
certo papel no ma u tratam ento que a hi stor iogra fia burguesa da filo

sofia dá ao marxismo - de igual modo que condici ona o tratam ento a


“ateus” ou “materialistas” burgueses como David Friedrich Strauss,
Bru no Bauer e Ludwig Feuerbach. Mas seria um a simplificação dos fato s,
realmente muito complexos, acusar os filósofos burgueses de colocar
sua filos ofia ou sua história da filosofia consciente e mera mente a servi
ço de um interesse de c lasse. Há caso s, certame nte, em q ue esta grossei
ra suposição é cabível.1 0C on tud o, o repre sen tan te filosóf ico de uma
classe geralmente m anté m com ela um a rela ção mu ito complexa. Toda
classe —diz M arx e m O dezoit o brumário..., on de se deteve especifica

me nte sobre essa relação - cria e dá forma, a pa rtir das suas “bases m a
teriais” , a “toda um a su pe restru tura de sentim entos, ilusões , mane iras
de pensar e concepções de vida distintas”; e a sua filosofia, pelo seu
con teúd o e, enfi m, tam bém pela sua forma, é um elem ento da supe r
estrutura condicionada pela classe, elemento particularmente afas
tado das “bases materiais, econôm icas”.11C on seq üen tem en te, se qu e
remo s apreend er, “de mod o m aterialista e , pois, científico” (no sentid o
que Marx confere a estas palavras1 2), a total in com pree nsão dos h isto
riógrafos burgueses diante do conteúdo filosófico do marxismo, não

podem os nos contentar com a explicação deste fato partindo, direta


mente e sem nenhuma mediação, do seu “núcleo terrestre” (a cons
ciênc ia de classe e os interesses e con ôm icos qu e,“em últim a instância”,
ela recobre). Devemos, ao contrário, trazer à luz, detalhadamente, as
mediações, um a vez que elas permitem co mpre ende r p or q ue os filósofos
e historiadores burgueses, mesmo quando acreditavam dedicar-se à
pesquisa mais “imparcial” da “verdade pura”, foram necessariamente
cond uzido s a negligenciar totalm ente a essênc ia da filos ofia con tida
no marxismo ou a formular sobre ela uma idéia muito incompleta e
muito falsa. E a mais importante dessas mediações, neste caso, con
siste em que, desde m ead os do século XI X, tod a a filosof ia bu rgu es a e,
em partic ular, a história burgu esa da filosofia se desv incula ram, em razão
da sua situaçã o sócio-h istórica, da filos ofia de Hegel e do seu m éto do
M a r xi sm o e fi l osof ia ♦ 27

dialético, prendendo-se a um método de investigação que pratica


mente as incapacitou para compreender de forma elementar fenô
menos como o socialismo científico de Marx.
Nas histórias correntes da filosofia do século XIX escritas p or au

tores burgu
da que, q uaneses,
do apar ece ger
é preenc hida,almente
é-o por, nesta
meiosaltartura, um s.
ificiai a lacuna p roossí
Seri a imp fu n
vel aos historiadores que pretendem apresentar o desenvolvimento
do pensamento filosófico do modo mais ideológico e desesperada
m ente n ão dial ético - ou sej a, como p ura “história da s idéi as” - esta r
em condiç ões de explicar racio nalm ente p or que a grandiosa filo sofia de
Hegel , de cuja influência espiritual todo-p ode rosa n em mesm o os seus
mais ença rniçado s advers ários (po r exemplo, Schopenhauer, Herb art)
podiam libertar-se ainda nos anos 1830, já não tinha mais, desde os
anos 1850, partidários na Alemanha e sequer era compreendida. Na
sua maioria, esses histor iadores nem ensaiar am u m a tentativa p ara ex
plicar o fato - contenta ram -se em registrar, nos seus anais, “a disso
lução da escola hegeliana”. Designavam, com esta fórmula puramente
negativa e tão insufici ente, todas as discuss ões, de conte úd o extrem a
mente significativo e de um nível filosófico excessivamente elevado
para os padrõ es atuais, que se estenderam dura nte os anos su bse
qüe ntes à mo rte de Hegel e nas quais s e defro nta ram a direita, o centro
e as diver sas tendênc ias da esquerda hegeliana (especialmente Strauss,
Bauer, Feuerbach, Marx e Engels). E eles consideram a conclusão
deste período como um a esp écie de “final” absoluto do mo vim ento
filosófico, abrindo-se então - segundo ta is historiadores, nos anos
1860, com o re torn o a Kant (Helmholtz, Ze ller, Liebman n, Lang e) -
um a nova fa se, apare ntem ente desvi nculada de todo o proce sso im e
dia tam ente anterior. Um a “história da fil osof ia” dest e gênero padece
de três grandes limitaç ões, duas das quai s po dem ser evidenciada s po r
um a revisão crít ica operada a partir da pró pria perspectiva da pura
“história das idéias” - e, sobre es sas dua s limitações, alguns h isto ria
dores da filo sofi a con tem porâ neo s mais qualif icados, com o D ilthey e
sua escola, já ampliaram consideravelmente o restrito horizonte da
histo riografia convencional. Podemos, pois, con sidera r essas duas li
mitações como, em princípio, superáveis, mesmo que, de fato, sub
sistam atualm ente e seja prováve l que subsis tam aind a po r longo tem 
28 ♦ K arl K or sc h

po. A terceira, porém , é abso lutamente insuperável da perspectiva da


pura histó ria das idéias e, por isso, sequer foi abord ada pela atual his
tória burguesa da filosofia.
A prim eira das três limita ções de que padece a história da filo
sofia elaborad a pela burgu esia na segund a metad e do século XIX pode
ser carac terizada com o “pu ram en te filo sófica”: os ideólogos ign orara m
que as idéias contidas numa filosofia podem sobreviver não apenas
em outras filosofias, mas também nas ciências positivas e na práxis
social (foi isto, muito especificamente, o que ocorreu com a filosofia
de Hegel) . A segunda limitação, sob retudo típica dos professores ale
mães de filosofia da época, é “local”: os bo ns alemães igno rar am a exis
tência, para além das fronteiras da Alemanha, de outros filósofos e
negligenciaram inteiramente (salvo poucas exceções) o fato de que o
sistema hegeliano, sepultado na Alemanha, permanecia muito vivo
no exter ior, não só no seu conteúdo, mas ainda como sist ema e como
m étod o. C om as duas primeiras limita ções ul trapassadas na teoria nos
último s decênios, o qu adro que traçamos da historiografia fil osófica
alemã viu-se positivam ente transform ado; em con trap artida , os filó
sofos e historiadores “burgueses” m ostram -se ab solutam ente in cap a
zes de sup erar a terceira l imitação, já que, para isto, teriam de aba nd o
nar aposição de classe que rep resenta o apriori mais essencial de tod a
a sua ciência f ilosófi ca e histórica. O des envo lvime nto d a filosof ia no
século XIX, processo que em aparência decorre da pura “história das
idéias”, só é verd ade iram ente compreensível em sua essência e em sua
totalidade se for relaci onado ao desenvolvimento histórico real da so
ciedade burguesa - e é precisamente esta relação que a história bu r
guesa da filo sofia, no seu estado atual, já não é capaz de es tuda r escru
pulosa e imparcialm ente. Explicam-se, pois, por que certas passagens
do desenvolvim ento filosófico ge ral do século XIX perm ane cem para
ela “transcend entes” e po r que se enco ntram nos seus mapeam entos
curiosos “espaços em branco”, como a lacuna a que nos referimos (o
“fina l” do m ov im en to filosófico nos anos 1840 e o vazio qu e se lhe se
gue até o “desp erta r” dos anos 1860). E tam bém se explica po r que a his
tóri a da filosof ia burg ues a é hoje incapaz de oferecer um a visão corre ta
e com pleta da época da fil osof ia al emã cuja natureza, an teriorm ente ,
ela chegara a compreender. O desenvolvimento do p ensa m ento filo-
M arxi smo e fil os ofía ♦ 29

sófico, antes ou depois de Hegel, torna-se ininteligível se considerado


tão-somente no puro plano da “historia das idéias”. Toda tentativa
para com preender a essência e a plena significação desta grande época
filosófica configurada pelo “idealismo alemão” estará destinada ao
fracasso se , na sua co nsideraçã o, não se levar em c on ta - ou se levar-se
em con ta apenas de mo do superfi cial e anacrô nico - as relaç ões capi
tais (pa ra a sua form a e o seu c urso) que se estabelec iam entre o “mo vi
m ento das idéi as” e o “m ovim ento revolucionário” de então. O m odo
como Hegel caracterizou, na sua Historia da filosofía e em outras
passagens de sua obra, a natu reza da filosofia dos seus predecessores
im edia tos (Kant, Fichte , Schelling) va le para to da a época do “idealis
mo al emã o” e tam bém para a sua culminação, o sis tema heg eliano, bem
com o para os confro ntos subseqüentes, nos anos 1840, entre as diversa s

tendências hegelianas. Nos sistemas filosóficos desta época autenti


cam ente revolucionária, “a revo lução est á present e enq uan to en un 
ciada e consignada na fo rm a do pen sam ento” .13Exprim indo-se assim,
Hegel não se referia a o que nossos historiado res burgue ses designam
serenamente como uma revolução do pensamento, ou seja, um pro
cesso que se ope ra na qu ietude de um gabinete de est udo, afastado do
campo árido das l utas conc retas; para o maio r pensado r produ zido pe
la sociedade burguesa em sua época revolucionária, “a revolução na
form a do pe nsam ento” é tom ada com o elemento rea l do processo so
cial da revo lução re al.14É o que p ode mos ver na seg uinte citação:
Apenas dois povos participaram desta grande época da
história universal, cuja essência profunda cabe à filosofia da
história compreender: os franceses e os alemães, apesar, ou
sobretudo por causa, da sua oposição. As outras nações não
p a rticip ara m dela in tim am en te: povos e governos lim ita 
ram -se ao p lano polít ico. Est e princípio fl uiu , na A lemanha,
sob a forma de idéia, espírito, conceito; na França, desatou
na realidade efetiva ( Wirklichkeit ); o que a realidade pôde

pro vocar n a A le m anha apare ceu com o violênc ia ex ercid a p o r


circu ns tânc ias exteriores e reação co ntr a ela.15

Algumas páginas adiante, referindo- se à filos ofia de Kant, ele


reto rna à mesm a idéia:
Rousseau já situara o Absoluto na liberdade; Kant tem o
mesmo princípio, mas o toma prioritariamente sob o aspee-
30 ♦ K arl K or sc h

to teórico. Os f ranceses concebem -no no plano da von tade -


diz o seu provérbio: il a la tête près du bonnet.'6 A França tem
o sentido da realidade, da realização ( Fertigwerden ); lá, a idéia
se traduz mais diretamente na ação e, por isso, lá os homens
voltam-se mais para a realidade prática. Mas, conquanto
a liberd ad e seja em si concreta, lá ela foi aplicada à realidade
sem te r sido desenvo lvida na sua abstração - e fazer valer
as abstrações na realidade é destruir esta última. O fanatis
mo da liberdade, na posse do povo, torna-se terrível. Na
Alemanha, este mesmo princípio suscitou o interesse da
consciência e se desenvolveu apenas teoricamente. Temos
em nossas cabeças e sobre nossas cabeças todas as espécies
de inquietudes; mas o alemão prefere manter bem assen
tado na sua cabeç a o barrete de d or m ir17 e deixar a inq uie 
tude o perar apenas na sua c abeç a. - Im m anuel K ant nas ceu,
em 1724 , em Kõ nisb erg .18

Etc., etc. Estas frases de Hegel contêm o princípio que permite


compreender a essência desta grande época da história universal: a
relação d ialética en tre a filos ofia e a reali dade; e, com o Hegel explicou
de m od o m ais gera l no utr o lugar , este vínculo dialético faz que a fil o
sofia não possa ser outra coisa que “a sua época apreendida pelo
pensam ento ” (ihre Ze it in Gedanken erfast );19e, send o ind isp ens áve l à
compreensão do desenvolvimento do pensamento filosófico, é-o
ainda mais quando se trata de compreender o desenvolvimento do
pensam ento num a época revolucionária de dese nvolvim ento da so
ciedade. E aqui reside, justamente, a fatalidade que uma força irre
sistível fez pesar sobre o desenvolvimento das pesquisas filosóficas e
históricas da classe burguesa no século XIX: esta classe, que, em mea
dos desse século, deixara de ser revolucionária na sua práxis social,
perd eu ta m bém , a partir de então, por um a necessidade in te rn a, a
capacidade de pensar, na sua significação verdadeira, as relações dia
léticas entre a evolução das idéias e a da realidade, em p arti cu lar en tre
a filosofia e a revolução. Po r isso, o declínio e o exau rim en to reais que
o movimento revolucionário da classe burguesa experimentou na
sua práxis soc ial em meados do sécul o XIX teria de en co ntr ar sua ex
pressão ideológica no declínio e no exaurim ento apare nte s do m o
vim en to filosófico a que se refer e ainda hoje a histo riog rafia burguesa .
Ex emp lifica-o a apreciação da filos ofia de mea dos do século XI X com
M arxi smo e fil oso fia ♦ 31

que Uberweg-Heintze abre o capítulo correspondente de seu livro


(ibid., p . 180-1 81): à época, a fi losofia enc ontra r-se -ia “num estado de
pro stração geral” e a “sua influência sobre a vida cultura l se reduzia
pro gressivamente”. Segundo o autor, este deplorável fenômeno seria
causado, “em última análise, por tendências psíquicas primárias à
insta bilid ad e”, cabe ndo a tod os os “fatore s exte rno s” um a funç ão a pe 
nas “se cu nd ár ia”. E o célebre hist or iad or burg uês d a filosofia “explica”
assim a essência dessas “tendências psíquicas primárias à insta
bilid ade”: “Abandonava-se o idealismo exagerado que im perava nas
conc epçõ es de vida e na especulação m etafísica [! ] e aspirava-se a um
alimento espiritual mais substancial”. Se, ao contrário, recupera-se a
concepção dia lét ica - mesm o sob a forma como se enco ntra em
Hegel , a inda não plena mente desenvol vida e conscien te de s i - que
a filosofia burguesa perdeu de vista (ou seja, a dialética idealista de
Hegel, em oposição à dialética materialista de Marx!); e se, sob esta
perspectiva, analisa-se sem reticências e de m odo conseqüente o de
senvolvimento filosófico no século XIX, este logo adquire um aspec
to muito diferente e bem mais acabado, mesmo no que concerne à
história das idéias. Em vez de uma inflexão descendente e um exau-
rime nto do m ovimento revol ucioná rio no dom ínio do pensamento,
aparece, sob esta luz, nos anos 1840, uma alteração profunda e sig
nificativa neste movimento. Em vez do declínio da filosofia clássica
alemã, v ê-se que esta - que co nstituiu a expres são ideoló gica do m ovi
m ento revo lucionário da cl asse burguesa - cede lugar à nova ciência
que d orav ante será, na história das id éias, a ex pressão ger al do mo vi
m ento revo lucionário da cl asse operária, ou seja, cede l ugar à teoria
do “sociali smo cientí fico” tal como M arx e Engels a fun da ram e fo rm u
laram na década de 1840. Portanto, para compreender correta e
com pleta m ente a relação ess encial e necessár ia entre o idealismo ale
mã o e o marxism o - relaçã o que o s historiad ores burgues es até hoje
ignoraram ou conceberam e apresentaram do mod o mais incompleto
e falso - , b asta su bstituir a m aneira hab itual de pensar , abs trata e ideo
lógica, pró pr ia aos historiadores burgueses da fil osofia, por um po nto
de vista não especificamente marxista, mas simplesmente dialético
(hegeliano ou marxista). Então, de um só golpe, poder-se-á com
preender n ão apenas as relações que existem entre a filosofia idealista
32 ♦ K arl K or sc h

alemã e o marxismo, mas também a sua necessidade interna. Com-


preender-se-á que o sistema marxista, expressão teórica do m ovim en
to revolucionário do proletariado, deve manter com os sistemas da
filosofi a idealista alemã, no pla no ideológico, a s mesma s relações que o
mo vim ento revolucionário do proletariado mantém , no plano da pr áxis
social e política, com o movimento revolucionário burguês. É me
diante u m único e mesmo proce sso de desenvolvimento histórico que
sur ge, de um lad o, do m ovime nto revolucionário do terceir o estado,
um movimento proletário “independente”; e, de outro, da filosofia
ideali sta burguesa , em oposição a el a e de forma “in de pe nd en de nte ”,
a nova teoria m aterialist a do m arxismo. To dos e stes fenô m eno s inte 
ragem reciprocamen te. Em ter mos hegeliano-marxist as, o surgim en
to da teoria marxista é tão-somente o “outro momento” do surgi

men to do m
con junto conovim ento proletário
stituem a totalidader concreta
eal; os dois mo m entos
do proc tom ados
esso histór ico.em
Esta perspectiva dialética nos permite compreender quatro
movimentos diferentes como quatro momentos de um único pro
cesso de desenvolvimento histórico: o movimento revolucionário da
burguesia, a filosofia idealista de Kant a Hegel, o movim ento re vo
lucion ário do pro letariad o e a filosof ia materialista do m arxismo. Ela
nos p ropicia ap reend er a verdadeira natureza da nova ciênci a que, sob
a forma teórica que lhe deram Marx e Engels, constitui a expressão
geral do m ov im en to revo lucion ário au tôn om o do p role taria do .20 E,
igualmente, com preend em os p or que a hist ória burguesa d a filosofia
con den ou-se a ignorar esta filosofia materiali sta do p roletariado revo
lucion ário, surgida dos siste mas altame nte d esenvolvidos da fi loso fia
idealista da burguesia revolucionária, ou a conceber a sua natureza
de for m a ne gativa e falsa (Verkehrt).2l Assim como os objetivos esse n
ciais do mo vim ento operário n ão pod em realiza r-se no marco da soc ie
dade burguesa e do seu Estado, também a filosofia própria a esta
sociedade não pode compreender a natureza das concepções gerais
nas qua is, de um mo do consci ente e autô no m o, se expre ssa o m ovi
men to revolucionário proletário. O ponto de vista burguês, p ortanto ,
deve deter-se necessariamen te - excet o no caso de s e dis po r a dei xar de
ser “burg uês ”, ou seja, se dispuser -se a su prim ir a si mesm o - na mesm a
altura em que é obrigado a deter-se na práxis social. É somente na
M arxi smo e fil oso fia ♦ 33

me dida em q ue a história da filo sofia supera esta l imitação q ue o socia


lismo cientí fico deixa de se r para ela um além tra nsc en den te e torn a-
se objeto de um conhecimento possível. A situação muito particular
e que faz tão difícil a correta compreensão do problema marxismo e
filosofia consiste no seguinte: parece que justamente nesta superação
dos limites postos pelo po nt o de vista burguê s, indispensáv el para que
o co nte úd o filo sófi co essencial mente novo do marxism o se torn e o b
jeto de um conhecim ento possível, tal conteúdo é simultaneamente
superado (aufgehoben ) e destruído enquanto objeto filosófico.
Com o salientamos n o iníci o do nosso traba lho, M arx e Engels,
fundadores do socialismo científico, não tinham a menor intenção
de edificar uma nova filosofia. Contrariamente aos burgueses, eles
possuíam plena consciência da estreita relação histórica entre a sua

teoria e a filosofia idealista burguesa. No que diz respeito ao seu con


teúdo, de acordo com Engels, o socialismo científico é o produto das
novas concepções que, numa determinada fase da evolução social,
surgem nece ssariame nte na cl asse operária, em razão da sua sit uação
material; contudo, no que diz respeito à sua fo rma específica e cien
tífica (que o distingue do socialismo utópico), ele se constituiu par
tindo da filosofia idealista alemã, especialmente do sistema de Hegel.
Nesta ótica, portanto, o socialismo, transitando da uto pia à ciência,
nasceu da filosofia idealista a lem ã.22 Rec onh ece r esta o rige m filosóf ica
(puramente formal) não significa afirmar, porém, que este socialis
mo, no seu estado atual de auto nom ia e desenvolvim ento, perman eça
um a filo sofia . Desde 1845, pelo men os, M arx e Engels ca racte rizara m
a sua nova perspectiva m aterialista e cientí fica como já não sendo filo
sófic a.23 E, se é prec iso con side rar, aq ui, que , pa ra am bo s, filosofia foi
sinônimo da filosofia idealista burguesa, é preciso levar em conta o
sentido desta identificação, porque se trata de uma relação análoga
àquela e xistent e en tre o marxism o e o Estado : M arx e Engels não c om 
bate ram sim plesm ente um a fo rma histórica dete rm in ada de Estado,
mas o Estado em g eral, identificado pelo materialism o histó rico com
o Estado burguês, e, sobre esta base, atribuíram ao comunismo o
objetivo final d e su prim ir o Est ado; similarm ente, M arx e Enge ls não
combatem um sistema filosófico determinado, mas querem, no fim
das contas , su per ar e sup rim ir, com o socialismo científico, a filos ofia
34 ♦ K arl K or sc h

em geral.24 Pre cisam ent e aí reside a opo sição de p rin cíp io en tre a
concepçã o “reali sta” (ist o é,“materialista dialét ica”) do m arxism o e as
“patran ha s ideol ógica s, jurídicas e de ou tro tipo ” próp rias ao lass allis-
mo e a todas as outras variedades, antigas ou recentes, desse “socia
lismo vulgar” que , no plan o dos princí pios, não u ltrapasso u aind a o
“nível bu rg uês ”, ou seja, o p ont o de vista da “socie da de b ur gu es a”.25Se
prete ndem os elucidar a questão das relações entre m arx ism o e filo
sofia é, pois, indispensável tomar como ponto de partida as decla
rações de Marx e de Engels, nas quais afirmam, inequivocamente,
que a superação ( Aufhebung ) não apenas da filosofia idealista bur
guesa, mas, ao mesmo tempo, da fil osof ia em geral é um a co ns eq üên 
cia necess ária da sua no va per spectiv a ma teria lista d ialética .26 Nã o
devemos escam otear a s ignificaçã o pro fun da desta posição em fac e da
filosofi a e apr esen tá-la com o um a simpl es querela verbal, afirm and o,
por ex em plo, que M arx e Engels tã o-s om ente altera ra m a nom en
clatura de alguns princípios epistemológicos que a terminologia he-
geliana designa como “o aspecto filosófico das ciências” e que a
tran sfo rm açã o m aterialista da dialética hegeliana cons erv ou de fato.2 7
Há, é certo, em Marx e, sobretudo, em escritos tardios de Engels
algum as afirma ções q ue pare cem suge rir um a tal conc epç ão .28 Mas é
fácil co nclu ir que não se suprim e a fi loso fia com a simples supressão
do seu n om e.29 Para es tud ar a fun do as relações entre m arx ism o e fi
losofia devemos, então, deixar de lado essas questões puramente
terminológicas. A nós, o que importa, antes de mais nada, é saber o
que devemos entender por esta supressão da filosofia mencionada
por M arx e Engels especialmen te no seu prim eiro perío do, nos anos
1840, mas igualm ente referida mais tarde. Como este fenômeno deve
processar-se ou já se pro cesso u? M edia nte que ações? Com que
rapidez? E pa ra quem? É preciso con cebe r a supressã o d a filosofi a, po r
assim dizer, como uno actu,i0 leva da a cabo de um a vez por todas, po r
um ato cerebral de Marx e de Engels ou pelos marxistas ou por todo

odevemos
proletariado ou pocomo
representá-la r todaum aprocesso
hum anidade?3
histórico1revolucionário
Ou, ao contrário,
muito longo e penoso, desenvolvendo-se através de diversas fases
(co mo é o caso da sup ressão do Estado )? E, se assim f or, qual a relação
do marxismo com a filosofia enquanto este demorado processo não
alcançar seu objetivo final, a supressão da filosofia?
M a r xi sm o e fi l oso fi a ♦ 35

Posta nest es term os a questão, fica claro que nã o estamos às vol


tas com sutilezas há mu ito desprov idas d e sentido, mas com u m p ro 
blema extremamente im portante, tanto teórica q uanto praticamente,
pro blem a cuja im portância cresce na fase atu al do co mbate prole tá 
rio. A atitude dos marxi stas ort odoxos, que dura nte ta nto tem po se co m
portaram neste caso como se aqui ou não existisse nenhum a questão
ou existisse apenas uma daquelas questões cuja solução é e sempre
será indifer en te p ara a práxis d a luta de cla sses, essa atitu de se reve la
agora ainda mais problemática. E isto se mostra mais ace ntua dam ente
qu and o se considera o par ticular paralel ismo que parece exist ir nov a
me nte aqu i entre os do is probl emas: mar xismo efilosofia e marxismo e
Estado. Este último, como Lenin observou na sua obra O Estado e a
revolução ,32tam bém “preocu pou m uito pouco os teóri cos e os publi

cistas mais destacados


pois, indagar da Segunda
se a mesm a relaçãoInternacional (1889-1914)”.
que existe entre Cabe,
o pro blem a da su
pressão do Estado e o pro blema da supressão da filosofia permite ex
plicar a indiferença dos m arxistas da Segunda Intern acional para com
ambos. Mais precisamente: devemos nos perguntar se a relação mais
gera l que, segundo o arguto crít ico Leni n, perm ite explicar a i ndife
rença dos marxistas da Segunda Internacional frente à questão do
Estad o não intervém igualmente no problema de q ue nos ocupamos -
ou seja, se a indiferenç a daqueles mesmos marxistas em face da ques 
tão filosófic a tem a ver com o fato de as questões gerais da revolução em
geral os terem preoc upado tão pouco . P ara esclarecer tud o isso, é preci so
exa min ar mais de perto a naturez a e as razões da cri se, a mais im por 
tante de todas as que afetaram a teoria marxista, q ue na últim a década
dividiu os ma rxistas em três campo s inimi gos.
No início do século XX, quando o longo período de desenvol
vim ento pur am en te evoluti vo che ga ao fim e se anu ncia u m nov o pe 
ríodo de lutas revolucionárias, inúmeros indícios mostraram que a
teoria do m arxismo experimentava um a sit uação crí tica, simultânea
à modificação das condições práticas da luta de classes. Este marxismo
vulgar, extrao rdina riam ente triv ial e simpli ficado, resultado da deg e
neração da doutrina marxista pela ação dos epígonos, possuindo
apenas um a confusa consc iênci a da tot alidade dos seu s próprios pro 
blemas, não tinha posições claras sobre to da um a série de questões.
36 ♦ K arl K ors ch

Esta crise da teoria marxista se manifesta especialmente na questão da


ati tud e que a revolução socia l deve assumi r diante d o Estado. D esde o
esmagam ento do primeiro m ovimento revolucioná rio proletár io, na
metade do século XIX, e da insurreição, em 1871, da Comuna, afo
gada em sangue, esta questão capital não m ais s e coloca ra com força
na prática. Com a guerra m undia l, a prim eira e a segun da revol uçõe s
russas de 1917 e a derrocada dos impérios aliados em 1918, ela entra
con cretam ente na ordem do dia ; e perc ebe-se e ntão que não existia,
no campo marxista, nenhuma posição unânime em face de todos os
im po rtante s problem as do objeti vo fina l e da transição, como os da
“con qu ista do po der po lítico pela c lasse ope rária ”, os da “ dita du ra do
proletariado” e os da “extinção final do Estado” na sociedade com u
nista. Ao contrá rio: logo que ta is questões s e colo caram na realidade

e que ses etocon


teorias rn ofronta
u impos
ramsível contorná-las,
, todas pretenden pelo m marxistas,
do-se enos três diferent es
e cujos re
presenta ntes mais em inen tes (Renner, Kautsky, Lenin) eram co nsi
derados, antes da guerra, não apenas marxistas, mas marxistas orto
do xo s.33 E a atitu de assu mida em relação a es sas que stõ es pelas d i
versas correntes socialistas revelou a natureza da crise que, já há vá
rios anos, grassava nas fileiras dos partidos socialdemocratas e dos
sindicat os da Segunda Internac ional disfarç ada de um a querela entre
marxism o o rto do xo e revision ism o34 e que era, apenas, a form a pr o 
visória e distorcida de um a fratura bem mais pro fun da q ue dividia a
frente do próprio marxismo ortodoxo. Constitui-se, de um lado, um
neo-revisionism o marxista , que logo s e vinculou m ais ou men os es
treitamente aos revisionismos precedentes; de outro, os teóricos do
novo partid o proletário engajar am-se no combate, ao mesmo tem po,
contra o velho reformismo dos revisionistas e contra o novo refor
m ismo do “centro marxista” , tendo como palavra de ordem a restau
ração do marxismo puro ou revolucionário.

cam po Não se deve


m arxista inteeira
à prim rpreta r as
prova de razões desta resultado
f ogo, como crise, que
d aeclodiu
covardi no
a
ou d a debilidade das convic ções revolucionárias dos teóricos e public is
tas respons áveis pela trivialização e pelo empo brec im ento da teoria m ar 
xist a, cuja conseqüência f oi o marxism o vulgar ortodo xo da Segunda
Internacional; esta seria uma interpretação muito superficial, de
M a r xi smo e fi l oso fi a ♦ 37

forma alguma marxista e materialista, sequer hegeliana e idealista:


seria uma interpretação simplesmente não dialética. E seria igual
mente superficial e não dialéti co imaginar seriamente q ue a grande po 
lêmica en tre Leni n, Kauts ky e os outros “marxistas” tinh a v erdade i
ramente, como único objetivo, a restauração do marxismo, o resgate
fiel da au tên tic a do ut rin a de Mar x.35 Para um a investigação desse ti
po, o único “m éto do materialista e, pois, científico” (M arx) consiste
em reto m ar o ponto de vista di alé tico introd uzido po r Hegel e Marx
na análise hist óric a e que nos serviu, até agora, par a o exame do ide a
lismo alem ão e da teoria m arxista que de le surgiu e aplicá-lo tamb ém
ao desenvolvimento poster ior desta teoria até nos sos dia s. No utr os te r
mos: devemos nos esforç ar por com preender todas as transformações,
desenvo lvimento s e regressões des ta teoria, na sua for ma e no seu con 
teúdo, desde o seu nascimento a partir do idealismo alemão, como
produtos necessários do seu tem po (Hegel) - ou, mais precisam en te,
com preendê-los com o condicionados pela totalidade do processo his
tórico e social de que são a expressão geral (Marx). É assim que co mpreen
derem os as verdadeiras razõ es da degeneraç ão da teo ria marx ista e m
ma rxism o vulgar e apre endere mo s a real significação dos apaixon ado s
esfor ços em preen dido s pelos teóricos da Terc eira Intern aciona l, ap a
rente m ente de caráter tão ideol ógic o, para restabelecer a “verdadeira
doutrina de Marx”.
Se aplicarmos dest e m odo a dialét ica materialista à história do
marxismo, verificaremos que a teoria marxista percorreu, desde o seu
nascim ento, três grandes períodos, e que sua rela ção com o desenvol
vimento real da sociedade tornou necessárias estas três etapas. A
prim eira começa por volta de 1843 (na h istó ria das idéias, com a Crí
tica da filosofia do direito de Hegel) e chega ao fim co m a Revolu ção de
1848 (na h istó ria das idéias , com o Manifesto comunista). A segunda
se inicia com a sangren ta repressão a o proleta riado parisiense em ju 

nho de 1848,
dências seguida
em ancip adorpela liquidação
as da de todas“ as
cl asse operária, nuorganizações
m a época de eatividade
ten
ind ust rial febril, de descalabr o m oral e de rea ção po lítica” magistral
mente descrita por Marx na Mensagem inaugural de 1864. Estende
remo s sua dura ção até a virada do sécu lo porqu e não se trata, aqui, da
história do proletariado em geral, mas da evolução interna da teoria
38 ♦ K arl K or sch

de Marx em suas relações com a história do proletariado e, por isso,


deixamos de lado fases de menor importância (fundação e declínio
da Primeira Internacional; episódio da Comuna; confronto entre
lassallianos e marxistas; lei anti-socialista; sindicatos; fundação da
Segu nda Inte rna cion al). A terceira vem dessa época aos nossos dias e
se estende até um futuro ainda indeterminado.
Dividido assim, o desenvolvimento da teoria marxista apre
senta o seguint e quadro: na sua prim eira forma (que, na consciênci a
de Marx e de Engels, permanece essencialmente idêntica, inclusive
na época mais tardia, quando, na verdade, em seus textos, não conti
nuou totalmente inalterada), ela aparece, apesar da sua rejeição da
filosofia, como um a teoria - imp regnada de espírito fi losófico - do
desenvo lvimento social percebido e concebido como totalidade viva o u,
mais precisamente, como teoria da revolução social com preend ida e
posta em prá tica co mo to talidad e viva. Nesse m om ento , não se põe a
questão de separar em suas respectivas disciplinas os aspectos eco
nômicos, políticos e espirituais desta totalidade viva, por mais que
fielmente se possa apreender, analisar e criticar as particularidades
con cretas de cada u m deles. É evidente que a econo mia , a política e a
ideologia, mas também o devir histórico e a atividade social cons
ciente, estão conectados na unidade viva da “práxis revolucionária”
(Teses sobre Feuerbach ). É naturalmen te o Manifesto comunista o me
lhor teste m unh o desta prim eira forma da teoria marxista como teoria
da re volu ção social.36
Do p on to de vista da dialétic a materialista, não é difícil com pre en
de r que es ta primeira forma da teoria marxista não pod eria subsistir
sem modif icações duran te o longo perí odo, na prática m uito pouco revo
lucionário, que cobriu a segunda metade do século XIX na Europa.
Cabe aplic ar, natur alm en te, à c lasse operária , na sua lenta progressão
rumo à sua própria libertação, o que Marx, no prefácio à Crítica da
economia política, diz sobre a humanidade em geral, ou seja, que ela
[...] só se propõe as tarefas que pode resolver, pois, se con
siderado mais atentamente, chegar-se-á à conclusão de que
a própria tarefa só aparece onde as condições materiais de
sua solução já existem, ou, pelo menos, são captadas no pro
cesso do seu d evir.3 7
M ar xi smo e fil os ofia ♦ 39

E a questão não se altera em nada se um a tarefa que transcen de


as condições atuais já enc ontro u sua expr essão teórica num a época pr e
cedent e. Atribuir à teoria uma exist ência indepen dente do m ovim en
to real é um a concepção não materialis ta nem sequer dialé tica , mesm o
no sentido hegeliano: é uma concepção simplesmente metafísica
ideali sta. Ao co ntrá rio, p ara a concepção dialét ica, que situa tod as as
formas, sem exceção, no curso do movimento, a teoria da revolução
social de Marx e de Engels deveria experimentar necessariamente im
portantes modificações no curso do seu desenvolvim ento. Quando,
em 1864, Ma rx elaborou o Manifesto inaugural e os Estatutos da Primeira
Internacio nal tin ha inteira c lareza de que decorreri a “um b om tem po
até que o movimento, após o seu despertar, reencontre a sua antiga
ou sa dia de lingua gem ”.38 Isto n ão vale apen as pa ra a linguag em , vale
para to dos os outros elem entos da teoria. Por isso, encontram os no
socialismo científico de O capital (18 67-1894) ed as outras obras tardia s
de Marx e de En gels uma form a notavelm ente m odificada e desenvol
vid a da teori a m arxi sta e m comparação com o com unism o imed iata
men te revolucionári o do Manifesto comunista de 1847-1848, da Miséria
da filosofia, de As lutas de classes na França e de O 18 brumário... No
entanto, nos seus traços mais importantes, a teoria marxista perma
nece , m esm o no s últim os escritos d e Marx e de En gels, inalte rad a no
essenci al. M esmo sob a f orm a desenvolvida do socialismo científ ico,
o ma rxism o de Marx e Engels contin ua a ser o amplo conjunto de um a
teoria da revolução s ocial. A modifi cação ocorrida na últim a fase con 
siste apena s em que os diferentes eleme ntos des te tod o, ou seja, econ o
mia, polít ica, ideologi a - teoria cient ífica e práxis so cial - separam -se
mais uns dos outros. Pode mos dize r, utilizando u ma express ão de Marx,
que se cor tou o cordã o um bilical da sua conexã o natu ral. Um tal cor te,
porém, não significa, em absoluto, que em Marx e em Engels aquele
todo te nh a sido substi tuído por um a m ultipli cidade de element os inde
pendentes; o que se encontra é uma outra composição das diversas
partes do sistem a, elaborada com um a m aio r exatidão científica e
sobretudo construída tendo como infra-estrutura a crítica da eco
nomia política. O marxismo como sistema não se resolve, nos seus
fundadores, numa soma de disciplinas particulares a que se acres
centaria, do exterior, uma aplicação prática dos seus resultados. Os
40 ♦ K arl K or sc h

inúm eros intérpretes burgueses de Marx - e tamb ém os marxi stas -


que acred itaram em segui da poder estabe lecer uma d istinção entre a
ma téria históri ca e os el ementos de teoria econômica co ntidos em 0
capital tão-somente demonstraram que não haviam compreendido
nad a do m étodo que M arx uti liza na crít ica da econo mia políti ca, já
que uma das características essenciais do método materialista dialé
tico é a não-existência daquela distinção: ele é, essencialmente, uma
com preensão teóric a da hi stóri a. Do mesmo mod o, tam bém a indisso
lúvel ligação entre teoria e práxis, que constitui o traço mais notável
da prim eira exp ressão do materi alismo mar xista, de ne nh um a m an ei
ra desaparece na form a ulterio r do sistema. Somente um exame muito
superfi cial pode con duzir à i mpressão de que a pura teoria do pen sa
me nto secu ndarizo u a práxi s da vontad e revolucioná ria. Em tod os os
text os deci sivo s, particula rm ente no prim eiro livro de O capital, salta
à luz esta vontade revolucionária contida em cada linha da obra de
M arx - basta pensa r no céleb re capít ulo sobre a t end ência h ist órica
da acum ula ção capita lista.39
Pois bem: n o que concerne aos par tidár ios e sucess ores de Marx ,
a despeito de tod os os jura m en tos de fideli dade à teo ria e ao méto do
da concepção materialista da história, constata-se que efetivamente
se pr od uz iu entre eles essa dissolução da teoria u nitá ria da revolução
social in disj ecta me mb ra ,40Par a esta teoria , cor reta m en te in te rp re ta 
da como dialética e revolucionária, ciências particulares autônomas
umas das outras são t ão imposs íve is quanto um a invest igaç ão p ur a
mente teórica, livre de quaisquer pressupostos e separada da práxis
revoluc ionária; em troca, os marxistas mod ern os con cebem cada vez
mais o s ocia lismo cient ífico como um a soma de conhecim entos pu ra
men te cient íficos sem nen hu m a rela ção imediata - pol ítica ou outra -
com a práxis da luta de classes. Para dem onstrá -lo, bas ta-no s rem eter
às afirmações de um único teórico marxista, mu ito represen tativo, da
Segunda Internacional sobre as relações da ciência marxista com a
política; eis o que escrevia, em dezem bro de 1909, Rudolf Hilferding,
no prefácio a O capital fina nceiro ,41 obra em que se e sforç a po r “com 
pre ender c ientificam ente” os fenômenos econômicos d o mais re cen
te desenvolvimento capitalista, “quer dizer, integrá-los no sistema
teórico d a econ om ia política cl ássica”:
M arx is m o e fil oso fia ♦ 41

Aqui, é suficiente dizer que, para o marxismo, o estudo


da po lít ica tem com o único objet ivo descob rir nexos ca usa is.
Conhecer as leis da sociedade produtora de mercadorias
significa, ao mesmo tempo, assinalar os fatores que deter
minam a vontade das classes desta sociedade. Descobrir a
determinação da vontade das classes, segundo a concepção
marxista, é a tarefa de uma política científica, isto é, de uma
política que enuncia ne xos causais. Tanto quanto a te oria, a
polí tica do m arxis m o está isenta de ju íz os de valor. Por isto,
é equi vocada - em bora est eja mu ito difundida intra et extra
muros - a opinião que ident if ica s implesme nte m arxismo
e socialismo, uma vez que, considerado logicamente (ou
seja, unicamente como um sistema científico, abstraídos os
seus efeitos históricos), o marxismo é apenas uma teoria das
leis do movimento da sociedade, formuladas pela concepção

marxista
mia da história
marxista à épocaemdatermos gerais
produção de emercadorias.
aplicadas pela
O econo
socia
lismo é o resultado de tendências que se impõem na socie
dade produtora de mercadorias. No entanto, reconhecer o
valor do marxismo - o que i mpli ca com preender a nece ssi 
dade do soci al is mo - não sig ni fi ca, d e nen hu m m odo,
enunciar juízos de valor nem, menos ainda, dar instruções
p ara o co m p o rtam en to práti co. R econhecer um a necessi
dade e colocar-se a seu serviço são duas coisas diferentes.
É perfeitamente possível que alguém que esteja absoluta

m ente disto,
convencido da vitória fi nal odoconhecimento
social ismo sedas
dedique,
apesar a combatê-lo. Contudo,
leis do movimento da sociedade, que o marxismo pesquisa,
confer e a quem o adquire um a cer ta superi oridade - e o s
inimigos mais perigosos do socialismo são, sem dúvida,
aqueles que provaram o fruto do seu conhecimento.

Se persiste, t odavia, a identi ficação do m arxism o - isto é, um a


teo ria q ue lo gicam ente é “ciê ncia objet iva, i senta de juízos de valo r” -
com as aspirações socialistas, este fato é “facilmente” explicado por
Hilferding pela “inve ncível aver são da cla sse do m ina nte a reconh ecer
os resultado s do m arxism o” e de, ademais, subm eter-se, par a este f im,
ao “can sativo” estud o de um “sistema tão com plicad o”: “S om ente nes 
te sentido é a ciênci a do pro letariad o e se opõ e à econ om ia burguesa,
en qu an to aspira firm em ente —com o tod a ciência —à validez univer sal
obje tiva do s seus re su ltado s”.42 A concepção m ate rialista da histó ria,
42 ♦ K arl K or sc h

cuja essência , em M arx e em Enge ls, era a dialét ica m aterialista, tran s-
forma-se assi m, nas m ãos dos seus epígonos, em algo essencialmente
não dialé tico: para uns, um a espécie de princípio heurístico que dirige
a investigação nas ciências particulares; para outros, a flexibilidade
m etodológ ica da dialé tica materialis ta se cristal iza num a série de pr o
posições teóricas co ncernentes à causalidade dos eventos históricos
nos diferentes d om ínios da vida so cial, ou seja, em algo que seria m elhor
designa r com o uma sociologia sistemática geral. Desse mo do, un s tratam
o princ ípio materialista de Marx como “um princ ípio subjeti vo váli do
apenas para o juízo reflexivo” (no sentido kantiano43), enquanto ou
tros tomam a doutrina da “sociologia” marxista como um sistema
pertinente ora à econom ia, ora à geografia biológica.44 Poderíam os
resumir todas essas deformações, e muitas outras menos evidentes,
que os epígonos infligiram ao marxismo no segundo período do seu
desenvolvimento afirmando que a teoria global e unitária da revo
lução social foi transformada numa crítica científica da economia e
do Estad o burgu ês, da edu cação pública, da religiã o, da arte, da ciência
e de todas as outras formas culturais próprias à burgue sia, crítica que
não desem boca mais nu m a práxis r evolucionária, tal como sua es sên
cia implicava,4 5mas que é suscetível de con du zir (e, n a s ua p ráxis co n
creta, geralmente conduz) a toda série de tentativas de reforma que
não u ltrapassam em princípio o quad ro da socied ade burguesa e do

seu Estado. É suficiente, para comprová-lo, comparar o Manifesto


comunista ou mesmo os Estatutos da Primeira Internacional, redi
gidos por M arx em 1864, com os program as dos pa rtido s socia listas
da Euro pa C entral e Ocide ntal e, sobretudo, com os do Pa rtido Social-
democrata Alemão na segunda metade do século XIX. Sabe-se da
severida de e do rigor com que Marx e Enge ls se pr on un cia ram sobre
as reivi ndicações quase unicam ente reformistas , tanto no plano polí
tico quanto no cultural ou ideológico, apresentadas pela social-
democracia alemã, o partido marxista dirigente da Europa, nos seus
programas de Gotha (1875) e de Erfurt (1891), reivindicações nas quais
nad a mais se enc on tra do prin cípio rev olucion ário do m arxism o.46
Foi esta situação que propiciou, primeiro, no fim do século XIX, a
vulnerabilização do marxismo ortodoxo pelos assaltos do revisio
nism o e, depois, no iníci o do século XX, qua nd o signos antecipa dore s
M arxi smo e fil oso fia ♦ 43

anu nc iaram a emergência de gr andes con flitos e confron tos rev olu
cionários, a crise decisiva do marxismo que se desenrola até hoje.
Um a vez com preendido , à luz do m aterialismo dial ético, qu e a
passagem da teoria originária da revolução social a um a crítica cien
tífica da sociedade sem conseqüências re volucioná rias essenc iais ape
nas exprime as transformações sobrevindas na práxis social da luta
proletária, estes dois processos surgem simplesm ente como duas fases
necessárias do desenvo lvime nto ideológ ico e materia l global. O refor 
mismo surge como tentativa de expressar, numa teoria coerente, o
caráter reform ista que, na prática, sob a infl uência de condições histó 
ricas novas, adqu iriram as reivin dicações econômica s dos sindicatos
e a luta política dos partidos proletários. Por seu turno, o chamado
ma rxismo ortodoxo deste perí odo, degenerado em m arxismo vulg ar,
surge, na sua m aior parte, com o tentativa de teór icos que, prisioneiros
da tradição, procura vam m ante r a teori a da revolução so cial (forma
prim eira do marxismo) sob a form a de um a teoria pura, o mais abs
trata, que não co nduzia a qualqu er imperati vo prático e procurava m
rejeit ar com o n ão m arxist a a t eoria reformista que exprimia então o
caráter rea l do m ovimen to. E comp reende-se m uito bem po r qu e, na
emersão do período revolucionário, foram justamente os marxistas
ortod ox os da Segunda Internacio nal, mais do que t odos os outros, os

que
çõesseentr
sentira m m ais
e o Estado e a impo tentes proletária.
revolução diante deOs questões com opossuíam
revisionistas a das rela
ao m enos um a teoria sobre a atit ude do “povo trab alh ado r” em face do
Estado, aind a que esta teoria n ada tive sse a ver com o m arxism o. Em
teoria como na práti ca, há m uito tinh am renun ciado à revoluç ão soc ial
para conquistar e destruir o Estado burguês e instaurar a ditadura do
pro leta riado; tinham trocado a revolução social pelas reform as polí
ticas, sociais e culturais no quadro do Estado burguês. Quanto aos
ortodoxos, esses se haviam contentado, na sua rejeição ao revisio
nism o e no tra to das questões pertinentes à época da transiçã o, com a
repetição dos princípios do marxismo. Todavia, por mais que se ati-
vessem ao AB C da teoria marxist a, não p ude ram conservar verdadei
ramente o seu caráter revolucionário srcinal: também o seu socia
lismo científico fora inevitavelmente transformado em algo diverso
de um a teoria da revoluçã o soc ial. Duran te o longo período em que o
44 ♦ K arl K ors ch

marxismo se propagou lentamente sem ter qualquer tarefa revolu


cionária a desempenhar na prática, os problemas revolucionários,
para a grande maioria dos marxistas - tanto ortodoxos quanto revisio
nistas —, deix aram de existir no p lano te órico com o p rob lem as do
mundo real. Se, para os reformistas, tais problemas tinham desapare
cid o co m pletam ente, tamb ém p ara os marxi stas ortodox os eles per
deram o caráter de atualidade que lhe s fora atribuído pelo s autores do
Manifesto comunista, desl ocados progressivamente para um futuro lon
gínquo e, por fim, transcend ente.47Na con creta realidade co nte m po 
rânea, adquiriu-se o hábito de prati car a polít ica que enc on trou a sua
expressã o teórica nas posições reformistas, con den adas oficialmente
nos congressos par tidários, m as adotada s não men os oficialmente pe los
sindi catos. No início do sécu lo, qua ndo se desenha um novo p eríodo de
desenv olvimento, a questão da revoluçã o soci al reto rna à ord em do dia
em to da a sua dimen são e com tod a a sua s ignificação concreta; então, o
marxismo ortod oxo da teoria pura, que r epresentara at é a guerra a do u
trin a oficial na Segunda In ternacio nal, entra em falênci a e verif ica- se
o seu colapso — mas isso foi apenas a inevitáve l con seq üên cia de um a
de terio raç ão in ter na já antiga.4 8 E é igualm ente n esta ép oca que ve
mos de senha r-se, em diferentes pa íses e especial mente entre os m ar 
xistas russo s, o terceiro período de desen volvimento , caracterizado pelos

seus representantes
Não é difícilcomo
com opre
daender
restauração doesta
p or que marxismo.
nova transform ação da
teo ria m arxis ta se efetuou e se efetua ainda sob a co be rtur a ideológica
do retorno à doutrina autêntica do marxismo srcinal, bem como
apreender, pa ra além do aspect o ideológi co, o verdadeiro signi ficado
de toda essa operação. Neste dom ínio, teóricos como Rosa Luxemburg,
na Alem anha, e Lenin, na Rússi a, na realidade não fizeram e não fazem
mais do qu e resp on der às e xigências práti cas do novo perío do revolu
cionário da luta de cla sses, rejeitando as tradições paralisantes do m ar 
xismo socialdemocrata do segundo período, que pressionam “como
um pesadelo” as própria s massas operárias,49cuja situação social e econô 
mica, objetivamente re volucionária, já há muito não c orresp ond e à qu e
las dou trina s evolucionista s. Expl ica-se, pois , o aparen te res surg ime n
to da teoria m arxista srcinal na Te rceira Internacio nal simplesmen te
porq ue, num a nova época revolucionária, não apenas o m ovim ento
M arxi smo e fil oso fia ♦ 45

pro letário, mas ta m bém as concepções teóricas dos com unistas, que
con stituem a sua express ão teórica, deve m revestir expressam ente um a
forma revolucionária. É por isto que hoje vemos reviver importantes
partes do sistema marxista que pareciam esquecidas no fim do século
XIX. Esta situa ção perm ite também com preen der o co ntex to em que,
meses antes da Revol ução de Ou tubro , o cérebr o da revol ução p role
tária n a Rússia escre veu um a o bra cuja tarefa, nas suas palavras, er a,
“em prim eiro luga r, restabelecer a autêntica d ou trina de Marx sobre o
Estado” . Os própr ios aco nteci mentos tinh am colocado na ordem do
dia, no plano prático, o problema da ditadura do proletariado; que
Leni n, num m om ento decisivo, tenha fei to o mesmo no p lano teó ri
co, foi o prim eiro signo de que então se retom ava co nsc ientem ente a
relação interna que o marxismo revolucionário estabelece entre
teo ria e pr átic a.50
Mas também a recolocação do problema mar xismo e filosofia
m ostr a-se um a part e im portante des te g rande em preend imen to res
tau rad or. Já descrevem os seu lado negati vo: a perd a do cará ter prático
revolucionário do m ovim ento marxista que enco ntro u a sua expressão
parcial no desprezo da maioria dos teóricos marxistas da Segunda
Internacional para com todos os problemas filosóficos e a sua ex
pressão teórica geral no simultâneo deperecimento do princípio vivo
da dialética materialista no marxismo vulgar dos epígonos. É certo
que, como já indicamo s, os próp rios Marx e En gels negaram co nstan 
temente que o socialismo científico fosse ainda uma filosofia. No
entanto , é bastan te fá cil dem onstrar - e vamos fazê-lo com provas
irrefutáveis - que, para os dois dia léti cos revolucio nários, a oposição
à filosof ia repre sen tou algo totalm ente diver so d aquilo que signi ficou
para o marx ism o vulgar posterior. Nada lhes era mais estranho que
atrib uir valor a um a pesquisa puram ente científica, livre de quaisquer

premissas
ma ioria dose ou
acim
trosa marxista
de to da sposição
da Segundedaclasse - comoacabaram
Internacional Hilferdingpor
ea
fazer.51A est a ciência p ur a da sociedade burg uesa (econ om ia, história,
sociologia etc.), o social ismo científi co de M arx e de Eng els ad eq ua 
dam ente com preend ido opõe-se ai nda mais vigoros amente do que à
filosofia, na qual o movimento revolucionário do terceiro estado
en co ntro u o ut ro ra a sua mais alt a expressão teórica.5 2 E de adm irar,
46 ♦ K arl K or sc h

assi m, a perspicácia desses no vos m arxista s que, im pression ado s p or


algumas conhecidas expressões de Marx e sobretudo de Engels em
seus últim os escritos, supõ em que para am bos a supressão da fi losofia
significaria a sua substituição por um sistema de ciências positivas
abstratas e não dialéticas. A oposição real entre o socialismo científico
e tod as as filosof ias e ciências burguesas consiste ape nas no seguinte: o
social ismo cient ífico é a expre ssão teórica de um processo rev olucio 
nário que terminará com a supressão total dessas filosofias e dessas
ciências, e, ao m esmo tem po, com a supressão d as condições materi ais
que nelas en co ntr ara m a sua express ão ideológica.5 3
A recolocaç ão do problem a marxismo efilosofia já seria necessária,
portanto , do sim ples ponto de vista teó rico, para resg atar a significa
ção autê ntic a e íntegra da dou trin a de Marx, edu lcorada e desfigurada
pelos epígonos. Mas - tal como no pro blem a marxismo e Estado - é
evidente que, aqui, a tarefa teórica se põe a par tir das exigências e das
necessi dades da pr áxis r evolucionária. No p eríod o de transição rev o
lucionária no qual o proletariado, tendo conquistado o poder polí
tico, encontra-se, tan to no dom ínio ideol ógic o qu anto no político e
no ec onôm ico, dian te de tarefas preci sas que con tinu am a se influe n
ciar reciprocamente, também a teoria científica do marxismo deve
volta r a ser, não po r um simpl es retorno, mas po r um desenvolvimento
dialético, o que foi para os autores do Manifesto comunista: u ma teori a
da revolução soci al que abrange, na sua total idade, tod os os dom ínios da
vida social. E, para ta nto , é preciso re solver, confo rm e o m aterialism o
dialético, não só o prob lem a da “posição do E stado diante da revolução
social e da revolução social diante do E stado ” (Lenin), mas aind a o p ro 
blema da “posição d a ideologia diante da revolução social e da revolu
ção social dian te da id eologia”. Elu dir tais prob lem as antes da revolução
prole tá ria significa favorecer o oportunism o e levar o m arx ismo a
uma crise interna, tal como os marxistas da Segunda Internacional,
eludindo o problem a revolucionár io do Est ado, real mente favorece 
ram o op ortun ism o e provocaram no campo marxista uma cri se int erna.
Mas a recusa de tomar uma posição determinada sobre estes pro
blem as ideológicos da transição depois da conquista do p od er polít ico
pelo pro letariado pode também te r conseqüências práticas fatais: a
confusão e a divisão teóricas podem entravar consideravelmente a
M a r xi sm o e fi l oso fi a ♦ 47

condução enérgica e oportuna das tarefas que então se impõem no


domínio ideológico. Por isso, na época revolucionária da luta de
classes em que já nos enco ntram os, é precis o form ular de m od o intei
ram ente novo a questão capit al das r elaçõe s entre a revol ução p role

tária e a oideologia,
qua nto prob lem atão
polínegligenciada pelos
tic o da ditadura do teóricos socialdemocratas
proletariado, e , ao mesmo
tem po, restau rar em sua autenticidade a concepção dialét ica revo lu
cioná ria do m arxism o srcinal. E sta taref a, poré m , só pod e ser l evada
a cabo se, em prim eiro lugar, colocarmos a questão q ue co ndu ziu M arx
e Engel s a abord are m o prob lem a da ideologia em ger al: qu ais as rela
ções entre a filos ofia e a revolução social do proletariado? A tentativa,
fun da da nas in dicaç ões ofere cidas po r Marx e Engels, de oferecer a tal
quest ão a respost a compatível com os princípios da dialétic a m ateria 
lista nos co nf ro nta rá em seguida com a questão mais ampla: qual é a
relação entre o materialismo de Marx-Engels e a ideologia em geral?

2 .

Qual a relação en tre o socialismo científico de M arx e Engels e


a filosofia? N enh um a, responde o marxismo vulgar - e acr escenta
que o velho ponto de vista filosófico e idealista foi justamente refu

tado e supe
xismo. Todasrado pelo pon
as idéias to de vi sta filosóficas
e especulações ci entí fico são
e materiali stacomo
rejeitadas do m ar
elucubrações irreais e desprovidas de objeto, que só continuam a
freqüentar as mentes como uma espécie de superstição apenas por
que a classe dominante tem um interesse bem real e material na sua
m anu tenção . Liquidada a dom inação capit ali sta, l ogo se dissi parão,
por si m esmos, os últim os vestígios dessas fantasm agorias.
É suficiente mostrar, como intentamos fazê-lo até aqui, a su
perficialidade dessa atitu de cientificista em face da filosofia p ara re co
nhecer im ediatam ente que est a forma de resolv er o problem a filo sófi 
co não tem nada a ver com o espírito do materialismo dialético mo
derno de Marx. Ela pertence inteiramente à época em que Jeremias
Ben tham , “o gênio da estupid ez burg ue sa”, dava, na sua enc iclopé dia,
a seguinte definição da palavra “r eligi ão”: “Substan tivo fe min ino. Re
presentações su persticiosas”.54 Insere-se na atm osfera intelectu al dos
48 ♦ K arl K ors ch

séculos XVII e XVIII, ainda que largamente difundida hoje e inspi


radora da fil osofia de E. Dü hring ,55para quem , na socied ade fu tu ra -
co nstr uid a segundo a sua receita - , já não haveria cult o religioso: um
sis tema soc ial corretam ente com preend ido deveria, ao con trário, su
primir todo o apa rato da feitiç aria cler ical e, pois, todo s os elemen tos
essenciais dos cultos. N ada se opõe mais a esta atitude rasam ente racio
nalista e puramente negativa em face de fenômenos ideológicos co
mo a religião, a filosofia etc. do que o m od o pelo qu al o materia lism o
moderno ou dialético, na sua perspectiva nova e estritamente cientí
fica - conf orm e M arx e Engels - , concebe as formações espirituais .
Para mo strar tod a a profundidade dest a oposi ção, podem os afirm ar o
seguinte: é da essência do materialismo moderno conceber teorica
mente e tratar praticamente as criações espirituais, tanto a filosofia
quanto qualquer outra ideologia, como realidades. Marx e Engels
iniciaram, no seu primeiro período, a sua atividade revolucionária
luta nd o co ntr a a real idade da fi losofia; e m ostra rem os que, se depois
m odificara m radica lm ente as s uas i déias sobre a relaçã o da ideol ogia
filosófica com outras ideologias no seio da realidade ideológica
global , não d eixar am n un ca de trata r todas as ideologias - e a filos ofia
em particu lar - com o realid ades verdadei ras, jamais como quimeras.
Nos an os 1840, quando Marx e Engels em pre enderam , pri
meiro no plano teórico e filosófico, o combate revolucionário pela
emancipação da classe que “não está em oposição parcial às conse
qüências da sociedade existente, mas sim em oposição geral às suas
cond ições de ex istência” ,56 estavam conv encidos de atac ar assim um
dos elemen tos mais im por tantes deste ti po de so cied ade. Sobre o edi
torial do número 179, de 1842, da Kölnische Zeitung (Gazeta de
Colônia), M arx já escre vera: “A filosofia não se situa fora do m un do ,
tal como o cérebro n ão se situa for a do hom em pela si mples razão de
nã o se en co nt ra r no seu estôm ago”.57 Mais tarde, n a “In tro du çã o” à
Crítica da filosofia do direito de Hegel -te x to em q ue, confor me Marx
dirá, quinze anos depois, no prefácio à Crítica da economia política,
ele reali zara a pas sagem definitiva a seu po nto de vista mat eriali sta u l
terior -, ano tou, no m esmo sent ido, que “a próp ria filo sofia pass ada
pertence a este m undo e é o seu complemento , ainda que id eal”.58E o
dial ético Marx, no m om ento em que transita da concepção idea lista
M arxi smo e fil os ofia ♦ 49

à materialista, afirma expressam ente que a f ração política prática co me


tia à época, na Alem anha, ao rejeitar toda filosofia, um erro tão grande
qu an to o que c om etia a fraç ão polít ica teórica ao não condenar a filo
sofia com o tal. Esta últim a acredit ava, de fat o, que pod ia co m ba ter o
m un do alemão na sua reali dade sit uando-se na per specti va da filos o
fia, ou seja, a partir das exigências que extraía ou pretendia extrair da
filos ofia (com o mais tarde o f ará Lassalle, ten do Fichte co mo refe rên 
cia) , e, assim, não levava em conta que o próp rio po nto de vi sta filo
sófico pertencia a este mundo alemão. Mas a fração política prática,
que pre ten dia realiza r a negação da filos ofia “voltan do as costas à filo
sofia, olhando para qualquer outra par te e m urm uran do um pun hado
de frases triviais e mal-humoradas” sobre ela, também se encontrava,
fundo, aprisionada nos mesmos limites: também ela recusava-se “a
11 0

inserir a filosofia na realidade alemã”. Assim, a fração teórica supu


nha “pode r realizar (praticam ente) a filosofia sem a su pe rar (te oric a
m en te)”; mas a fração prática com etia erro análogo ao quer er supera r
(praticamente) a filosofia sem realizá-la (teoricamente), ou seja, sem
conce bê-la co mo realidad e.59
Vê-se nitidam en te em que sen tido Marx (e Engels, que, à me s
ma -época, concluía uma evolução semelhante, como ambos, poste
riormente, reconheceram inúmeras vezes60) já tinha efetivamente
sup era do, nesta altur a, o po nto de vista filosófi co dos seus anos de es
tudante; mas, também, vê-se em que sentido esta superação ainda
conserva um caráter filosófico. Três ordens diferentes de razões nos
auto rizam a falar de um a superação do p on to de vist a fil osóf ico. Pri
meiro, o pon to de vista teórico em que M arx s e coloca agora está em
oposição não apenas parcial às conseqüências, mas em oposição geral
aos princípios orientad ores de toda a fi losofia alemã precede nte - da
qua l Hegel , pa ra M arx e Engels, era o repres enta nte maior. Em se gun
do lugar, esta oposição não era somente uma oposição à filosofia, no
fundo a cab eça ou o com pleme nto ide al do m und o existente: er a uma
oposição à totalidade dest e m undo . Finalmente, e sobretudo, esta op o
sição não era pur am en te teóri ca: era , simu ltanea me nte, prá tica e ativa.
Eis o que afirm a catego ricamen te a última das Teses sobre Feuerbach:
“Os filósofos apenas interpretaram o mundo de diferentes maneiras;
porém, o que im porta é transfo rmá-lo ”. No entanto, esta superaç ão do
50 ♦ K arl Kors ch

ponto de vista puram ente filosófico ain da conserva um caráter p ro 


fun da me nte filosófico; para veri ficá-lo, basta cons idera r com o esta nova
ciência do proleta riado , que Marx coloca no lugar da filosof ia ideali s
ta bur gu esa e que pela sua orienta ção e objetivos se opõe r adic alm ente
às filosofi as preced entes, diferencia-se tão po uco destas pela sua na tu 
reza teóri ca. Já tod a a filo sofia do idealismo alemão ten der a, mesmo no
plano teórico, a ser mai s que um a teoria e um a fil osofia - o que se com 
pre ende facilmente ao se levar em conta sua relação dialética, antes
referida, com o movimento revolucionário burguês que, na prática,
lhe era contem porân eo (algo que será nosso o bjeto num trabalho futu 
ro ). Em Hegel , est a tendência - característica de todos os seu s pre de 
cessores (Ka nt, Schelli ng e, pa rticu larm en te, Fichte ) - parece, à pri
meira vista, sofrer uma inversão; mas, na realidade, ele atribuiu à
filosofia uma miss ão que desborda o dom ínio pro priam en te teóri co
e, em certo sentido, é de ordem prática, missão que não consiste, é
óbvi o, com o em Marx, na transformaçã o do mu ndo, mas, ao co ntrá 
rio, em reconcil iar, m edian te o conceit o e a com preen são ( Einsicht ),
a Razão enquanto Espírito consciente de si com a Razão enquanto
Realidade dada.'1' Contudo, não se pode sustentar que, colocando-se
este objetivo de sign ificação uni versal (que, para a linguagem co rre n
te, constitui mesmo a própria essência de toda fi losofia ), a filosofia
idealista alemã, de Kan t a Hegel, te nha de ixado de ser um a filosofia; com
ma ior razão, é infu nda do declarar que a teoria de Marx não é mais um a
teoria fil osófica porque pretende desem penha r um a taref a não mais
pura m ente teórica, mas sim ultaneamente revolucionária e prática.
Pode-se afi rmar, ao co ntrário, que o materialism o dialéti co de M arx e
de Engels, tal como se exprime nas onze Teses sobre Feuerbach e nos
textos da m esm a época, publicado s ou in éditos ,62deve abs olu tam ente
ser considerado, na sua natureza teórica , com o u m a filo sofia - mais
precisamente, deve ser considerado uma filosofia revolucionária que
se insere como tal nas lutas revolucionárias que então se travam em
toda s as esferas d a realida de social co nt ra o regime existente e que se
col oca como taref a lutar efeti vament e nu m a esfe ra determ inad a des
ta realidade, a esfera da filosofia, com o objetivo de chegar, no exato
momento em que se realize a superação do conjunto da realidade
soci al exist ente, à superação real da filosofi a mesm a, que é pa rte in te
M arxi sm o e fil o so fía ♦ 51

gran te —aín da que ideal —desta reali dade. Co mo Marx diz: “Não po 
deis s upe ra r a filosofía sem realiz á-la”.63
E de concluir-se, pois, que, para os revolucionários Marx e
Engels, no momento mesmo em que transitavam do idealismo dialé
tico de Hegel para o materialismo dialético, a superação da filosofía
não signif icav a, de fo rm a alguma, o seu simples aban don o. E para s e
compreender a sua atitude ulterior em face da filosofía, é essencial
tom ar como p on to de partida e ter s empre pr esent e um fat o inco n
testáve l: M arx e Enge ls já eram dialét icos antes de s e torn ar em m ate
rialistas. A significação do seu materialismo estará necessariamente
com prom etida, d o m odo mais n efa sto e mais i rrepa rável , qu and o se
perd e de vista que, desde o inicio, ele foi histórico e dialético - ou seja,

um materialismo
lucionar cujo aobjetivo
praticamente é compreender
totalidade teoricamente
da vida histórica e social e-, revo
e que
assim perm aneceu, ao contrário do m aterial ismo cientí fico abstrato
de Feuerbach e de todos os materialismos abstratos, burgueses ou
marxistas vulgare s, que o precederam ou sucederam . Pode ria ocorrer,
e de fat o oco rreu, que, no desenvol vimento do seu princípio m ateria
lista, Marx e Engels atribuíssem à filosofia um peso m enos im po rtan te
no processo histórico-social que aquele que inicialmente lhe confe
riram . Todav ia, para u m a concepção verd adeiram ente dialética e m a
terialist a do pro cesso h istór ico, seria impossível fazer (e M arx e Engels
nu nca o fizeram ) que a ideologia filosófi ca, ou me sm o a ideologia em
geral, deixasse de ser um elemento efetivo do conjunto da realidade
histórico-social, isto é, um elemento que é preciso compreender em
sua realidade segundo uma teoria materialista e que é preciso revo
lucionar na sua reali dade m ediante um a práxis materia list a.
Nas suas Teses sobre Feuerbach, o jovem Ma rx opôs o seu novo
materialismo não apenas ao idealismo filosófico, mas também, e

vigorosamente,
mesmo modo, aemtodas todosasosformas precedentes
seus escritos do materialismo;
posteriores, do subl i
M arx e Engels
nharam a oposição do seu materialismo dialético ao materialismo
vulga r, não dialético e abstrato; em particu lar, tinh am consciência da
importância considerável dessa oposição no que concerne à inter
pretação teórica das realidades “espirituais” (ideológicas) e à atitu de
prá tica a ser tom ada em face delas. M arx observa a p ropósito das re
52 ♦ K arl Kors ch

presentações intelectuais em geral e do m étodo adequado a um a v er


dad eira h istó ria crítica das rel igiões:
Em realidade, é muito mais fácil descobrir o cerne terre
no das nebulosas representações religiosas, analisando-as, do
que, seguindo o caminho oposto, descobrir, partindo das
relações da vida real, as formas celestiais correspondentes a
essas relações. Este último é o único método materialista e,
p o rtan to , cie ntífic o.64

Ora, uma práxis revolucionária que se limitasse à ação direta


contra o núcleo terreno das concepções nebulosas da ideologia, sem
se pre oc up ar com a revolução e a superação das próprias ideol ogias ,
seria natu ralm ente tão abstrat a e não dial ética qua nto o m étodo teó 

rico assimdedescrito,
remissão tod as asque se contenta,ideol
representações como ógicas
o de Feuerbach, comterreno
a o seu núcleo a .
Ao adotar esta atitude negativa e abstrata em face do caráter
real da ideologia, o marxismo vulgar comete o mesmo erro que os
teóri cos do p roletariado que, apoiando-se na idé ia marxist a do co n
dicio na men to ec onô mico das re lações jurídicas, das form as de Estado
e de tod a ação políti ca, quiseram dela deduz ir que o prole tariado po 
deria e deveria lim itar-se à ação eco nôm ica d ireta.65Sabe-se com que
vigor Marx opôs-se a tendências similares, especialmente em sua
polêmica contra Proudhon, mas também noutras oportunid ades. Ao
longo de sua vi da, todas as vezes em que se def ron tou com um a co n
cepção desse gênero (que, ainda hoje, sobrevive no sindicalismo),
Marx sempre sublinhou, com a máxima energia, que esse “desprezo
tran sce nd en tal” em fac e do Esta do e da ação políti ca é abs olutam ente
não m aterialista e , por con seqüência, insufici ente no plan o teórico e
nefasto no pla no po lítico.66Esta conc epção dialética das relações e n
tre a economia e a política tornou-se uma parte essencial da teoria
marxista - e a tal po nto que mesmo o marxismo vulgar da Segu nda
Internacional, se negligenciou in concreto a el ucidação dos problem as
da transição política revolucionária, não p ôde ne gar a sua exi stênci a
in abstracto. En tre o s mar xist as ort odoxo s, nen hum susten tou que o
interesse teóric o e prátic o pelas questões políticas era, par a o m arxis 
mo, um po nto de vi sta ultrapass ado. Isto era deixado para os sindica
listas, que jam ais tiveram a pretensã o de ser marxistas orto do xo s, ainda
que alguns dele s se diss essem vinculados a Marx. Em troca, no toc an 
M ar xi smo e fil oso fía ♦ 53

te às realidades ideológicas, inúmeros bons marxistas assumiram e


assumem uma posição teórica e prática inteiramente comparável
àquela dos sindicalistas em face das realidades políticas. Estes mate
rialistas, diante da negação sindicalista da ação política, replicam,

seguindo a Marx, que “ o mo vim ento social não excl ui o mo vim ento
político”67 e, re spondendo ao anarquism o, freqüente m ente subli
nham que, me sm o após a r evoluçã o vitori osa do pro letariado e apesar
de todas as tran sfo rm açõ es que o Estado burguê s vai sofrer, a realidade
po lítica subsistirá ain da p or largo tem po. Mas estes m esmos materia
listas manifestam um desprezo transcendent al, tipicamente ana rcos sind i-
calista, quando se lhes assinala que a tarefa espiritual que se impõe no
domínio ideológico não pode ser substituída, ou tornada supérflua,
nem p elo m ov im en to social da luta de c lasse proletária , nem. pela união
dos mov imen tos soc ial e político. Ainda atualmente, a maioria d os te ó
ricos marxistas con cebe a realidade des ses fatos “espirituais” apenas nu m
sentido pura m en te negati vo, t otalm ente abstrato e não dial éti co, em
vez de aplicar rigoros am ente a este dom ínio da reali dade soc ial o ú n i
co método materialista e, por conseqüência, científico em que insis
tiram M arx e Engel s. Dev er-se-ia fazer um esforço par a compreender,
ao lado da vida social e pol ítica, a vida espirit ual; pa ra com preende r, ao
lado do ser e do d evir soc ial no sen tido mais amplo (a eco no mia , a po

lítica, o direito como


manifestações, etc.), um
a própria consciência
elemento social,
real, ainda nas suas
que ideal diversas
(ou “ideoló
gico”) , da realidade histórica em sua t otalidade . Mas, em lugar dist o,
defi ne-se t od a a consciê ncia do m odo mais abstrat o (nu m regresso à
metafí sica dualista) com o refl exo dos processos materiai s, tom ado s co
mo os únicos reai s, reflexo intei ra ou relat ivamente depe nden te, po rém ,
em últim a instância, sem pre dep end ente daqu eles.68
Em sendo assim, a tentat iva de reintrodu zir o méto do m ateria
lista di alét ico - segundo Marx, o único cie ntífico - na com preensão
e no trato das realidades ideológicas deve chocar-se com resistências
ainda mais consideráveis do que aquelas que obstaculizaran! o res
gate da autên tica teoria m ateriali sta e dialét ica do m arxism o so bre o
Estado. De f ato, no caso do Estado e da política, a vulgarização d o m ar
xismo sobrevinda entre os epí gonos consis tia unicam ente em que os
mai s em inentes teóricos e publ ici sta s da Segunda In ternac iona l não
se ocu param sufici entemente, de forma concreta, dos problem as p o 
54 ♦ K arl K or sc h

líticos da transição revolucionária; no entanto, reconheceram, pelo


menos in abstracto, e sublinharam energicamente no curso de suas
polêmicas —primeiro, contra os anarquistas, m ais tarde, contra os sin
dical ista s - que, na concepção m aterialista da história, tan to a es
trutura econômica da sociedade, base material de todos os outros
fenôm enos h istóricos e s ociais, qu anto o direito e o Estado, superes
tru tur a jurídica e política, constituíam realidades e que, por co nseqüên 
cia, não se pod eria ignorá-los o u descart á-los, como o fazia m an arq uis
tas e sindic alist as, mas deveriam se r realmen te trans form ado s po r um a
revolução política. Em troca, inúmeros marxistas vulgares se recu
sam, ainda hoje, a reconhecer , mesm o in abstracto, a realidade das for
mas de consciência e da vida espiritual. Ap oiand o-se em certas passa
gens de M arx e sobr etu do de Engel s,69 apr esen ta-se to da a estrutura
espiritual (ideológica) da sociedade como uma pseudo-realidade
(Scheinwirklichkeit ) que só e xiste no cérebro dos ideólogos com o erro,
imaginação, ilusão, sem ter jamais um objeto real. E isto valeria, em
qu alq ue r caso , par a tod as as ideologi as ditas “ sup erior es”. No que diz
respeito às representações políticas e jurídicas, é certo que essas têm
também um caráter ideológico de irrealidade; todavia, elas ao me
nos se relacionam a qualquer coisa de real, ou seja, às instituições
políticas e ju rídicas que co nstituem a superestrutu ra da sociedade.
Em contrapartida, às representações ideológicas “que pairam ainda
mais alto no ar ” (as i déias rel igiosas, est ética s, filosóf icas) ela borad as
pelos hom ens não corresp onderia nenhum objeto real. Exagerando
esta visão das c oisas, apenas para t orn á-la mais cla ra, pode ríam os di
zer que, nela, existem três graus de realidade: 1) a econom ia, ún ica rea
lidade verdadeira em última instância, despida de qualquer caráter
ideológico; 2) o direito e o Estado, já menos reais, apresentando até
certo po nto um aspect o ideo lógico; 3) a pu ra ideolo gia, s em qu alque r
obje to, totalme nte irreal (a “pura absurdidad e”).

3.

Para restabelecer a teoria das realidades espirituais conse


qüente com o princípio materialista dialético impõem-se, em pri
meiro lugar, determinações de natureza terminológica. Em seguida,
M ar xi smo e fi l oso fi a ♦ 55

cum pre clarif icar o m odo pelo qual o po nto de vis ta materiali sta dia
lético concebe a relação entre a consciência e seu objeto.
Terminológicamente, é preciso afirmar, antes de mais nada,
que Marx e Engels nunca pensaram em caracterizar a consciência
socia l e a vida espiritual co mo pu ra ideologi a. A ideologia é some nte
a consciência falsa ( verkehrte ), particularmente aquela que atribui a um
fenóm eno parcia l da vid a so cial um a exis tênci a autô no m a - po r
exemplo, as representações jurídicas e políticas que consideram o
direito e o Estado como poderes autón om os que pairam acima da so
ciedade.7 0Na passagem em que M arx de u as indicaçõ es m ais precisas
sobre a s ua term ino log ia,71 veri fica-se que, no co nju nto de rel ações
materiais que Hegel designou como sociedade civil ( bürgerlische

Gesellschaft
da soci edade)),con
as relações
stituem s oociais
fundamde prod
ento uç
realãosobre
(a esotru turse
qual a eco nôm
ergue ica
uma
superestrutura jurídica e política, de uma parte, e a que correspon
dem , de ou tra p arte, formas determ inadas da consciência s ocial. Des
tas formas d a consciência soc ial, tão reais na sociedade q ua nto o direito
e o Estado, f azem parte sob retudo o fet iche da me rcad oria ou o valor,
anal isados po r M arx na Crítica da economia política, bem como as ou 
tras represen taçõe s econôm icas que del es derivam. O ra, a concepç ão
de M arx e Engel s se caracter iza precisam ente pelo fato de eles jama is
qualifi carem com o ideol ogia e sta ide ologi a econôm ica fund am ental
da sociedade burguesa. Ass im, segundo a terminologia marxiana, ape
nas as formas de consciência jurídicas, políticas, religiosas, estéticas
ou filosó ficas pod em ser ideológ icas - e mesm o estas , com o veremo s,
não o são n ecessariam ente em tod os os ca sos; só se to rn am ideologi as
sob cert as cond ições, qu e já indicamos. É e ste lugar pa rticu lar con fe
rido às represen tações econôm icas que assi nala a nova concepç ão da
filosofia que distingue o materialismo dialético do último período,
que alcançou m aturida de ple na, do material ismo dial ético ainda não
totalme nte desenvolvido do primeiro período. E ntão, na cr ítica teó
rica e prá tica d a sociedade a que se dedicam Marx e Engel s, a crít ica da
filosofia pa ssa a ocup ar o segundo - pod em os m esmo dizer: o ter ceiro,
o q ua rto ou o últim o - lugar. A “filosofia crítica” , que, pa ra o M arx dos
Anais franco-alemães, represen tava a ind a a tarefa essencial,7 2 vê-se
transform ada nu m a crít ica mai s radi cal da s oci edade - que tom a as
56 ♦ K arl K ors ch

coisas pela sua ra iz73- e se embasa na “críti ca da e co nom ia p olítica ”.


Inicialmente, Marx afirmou que o crítico “poderia tomar qualquer
forma da consciência teórica eprática e expor, a partir das formas p ró 
prias da realidade existente, a realidade verdadeira como seu dever
(a/s ihr Sollen) e seu objetivo final”; 74sub seq üe nte men te, reco nhe ceu
que todas as relações jurídicas e políticas, como todas as formas da
consciênci a social, para serem compreend idas, não pod em ser tom a
das em s i mesmas n em a partir do desen volvimento geral do espírit o
humano (como o faziam a filosofia hegeliana e pós-hegeliana), por
que elas têm suas raízes nas condições materiais de existência que
con stituem “a base material e a ossatura” do con junto da organização
social .75 A par tir daí, u m a crítica radic al da socieda de bu rgu es a nã o

pode mais, como Marx escrevia em 1843,76to m ar qualq uer fo rm a de


consciência teórica e prática: deve tomar aquelas formas que encon
traram a sua expressão científica na economia política da sociedade
burguesa. A crítica da economia política passa, assim, ao prim eiro
lugar, tanto n a teoria qua nto na prática. Contudo , esta form a mais pro 
funda e mais radical da crítica revolucionária de Marx à sociedade
não deixa de ser um a crítica de toda a sociedade burguesa e, pois, tam 
bém de todas as s uas formas de consciênc ia. Ainda que, no seu último
período, a crítica da filosofia pareça ocupar apenas in cid entalm ente a
Marx e a Engels, eles jamais a descartaram; de fato, desenvolveram-
na d e mod o m ais radica l e mais profundo. Para dem onstrá-lo, ba sta -
em face da idéia e quivocada que geralme nte se faz dela nos dias c or
rentes - restabelecer a significação plenam ente rev olucion ária da
crítica da economia política em Marx; com isto, não só ela é reinse-
rida no sistema da crítica marxiana da sociedade, mas, ao mesmo
tempo, reencontra-se a relação que ela mantém com a crítica de
ideologias com o a filoso fia.
A crítica da economia política, teórica e praticamente o ele
m ento mais im porta nte da crítica s ocial do marxismo, c ons titui - e
este é um fato universal men te reconhecido - tanto um a críti ca das
formas da consciência soc ial próp rias à época capitali sta qu an to um a
crít ica das s uas r elações materiai s de pro duç ão. A dm ite-o até m esmo
a pu ra “ciência científica” , livre de q ualqu er idéia prévia, do marxism o
vulgar ortodoxo. O conhecimento científico das leis econômicas de
M a r xi sm o e fi l osof ia ♦ 57

uma sociedade revela, ao mesmo tempo, de acordo com Hilferding


(ver supra, p. 40-41 ), “os fatores que de term ina m a vo ntad e d as classes”
que a com põe m e é, po rtan to, ta mbém um a “política científica” . Mas,
na perspectiva totalm ente abstra ta e não dialética do m arxis mo vulgar,
apesar desta relação e ntre a econo mia e a política, a crítica ma rxista d a
economia política, enquanto “ciência”, só tem uma tarefa puramente
teórica a cumprir: criticar os erros da economia política burguesa,
clássica ou vulgar. Por seu turno , o pa rtid o político pro letár io u tiliza
os resultad os desta pesquisa crí tico-científica para form ula r seus obje
tivos prát icos, direcionados a transform ar a estrutu ra ec onôm ica re al
da sociedade capitalista, a s relações materiais de pro du ção . (E, ocasio
nalmente, os resultados de sse marxismo p odem ser empregados co ntra
o partido proletár io, com o o faz em Simkhovitch ou Paul Lens ch.)
O prin cipa l defeito des se soc iali smo vulgar consiste na sua a ti
tude absolutamente “não científica”, para utilizar termos marxianos:
ele se apega ao realis mo ingên uo com o qual o bo m senso - esse
“m etafí sico da pio r espéci e” - e, com ele, a ciência positiva vulg ar da
soci edade burgu esa separam m uito n itidam ente a consciência e o seu
objeto. Ambos não têm a menor idéia de que esta oposição, que
possuía apenas um valor relativo para o ponto de vista tra nsc endental
da filosofia crític a,77 foi com pleta m ente sup erad a pela con cepção
dialética.7 8 No m elh or dos casos , acr edit am que qu alq ue r coisa de sse
gênero ocorreu na dialética idealista de Hegel e é justamente nisto,
pensa m ambos, que consiste a “mistificação” que a dialética teria “so
frido nas mãos de Hegel” (Marx), “mistificação” que seria radical
mente extirpada da forma racional da dialética (ou seja, da dialética
materialista de M arx ). Mas a verdade é que - com o m ostra rem os log o
a seguir - M arx e En gels, seja no seu prim eiro per íodo , filos ófic o, sej a
no segund o, científi co e pos itivo, estav am m uito afastados dess a con 
cepção m etafísica d ualista da relação ent re a consciên cia e o real, a tal
ponto que jamais consideraram que se pudesse in te rp retar as suas for
mulações de um m odo tão nefast o e acabaram até po r favorece r inte r
pre tações equívocas co m o em prego de algumas expressões (que, no
entanto, podem ser facilmente corrigidas com o recurso a centenas
de outras!). Façam os abstração de tod a filosofia: a coincidência entre a
consciência e o realcaracteriza tod a dialéti ca e, tamb ém , a dialética m ate 
58 ♦ K arl K or sc h

riali sta marxista; dela deriva que a s relaçõe s materiais de pr od uç ão da


época c ap italista só seja m o que são em relação às form as sob as quais
eles se refletem na consciência tanto pré-científica quanto científica
(burg uesa) dessa época e que só possam subsistir na realidad e graç as
a elas - e, sem ta l coincidê ncia, jamais a crítica da eco nomia política po
deria tornar-se o elemento mais imp orta nte de um a teoria da rev olução
social. D eriva daí , inversamen te, que os teóricos marxistas para os quais
o m arxismo já não consisti a essenci almente um a teoria da revolução
social seriam necessariamente levados a considerar aquela coinci
dência entre a consciência e o real como supérflua e, em seguida e
finalm ente, co mo teoric am ente falsa (não c ientífica).7 9
Quando se examinam as passagens em que Marx e Engels, ao
longo das diver sas fa ses da sua ati vidade re voluc ionária teóric a e prá 
tica , pro nu nc iara m -se sobre a rela ção entre a consciência e a realida
de, qu er no níve l da economia, q uer no níve l superior d a política e da
ju risprudência , quer naquele, ainda mais elevado, da arte, da religião
e da filosofi a, é sem pre necessário co nsi der ar o alvo a que visam as for 
mulações ne las contidas (trat a-se freqüentemente, so bretud o no últim o
período, de observações ocasionais). Nessas passagens se encontram ,
realmente, coisas muito diversas, conforme sejam dirigidas contra o
m éto do idealista e especulativo d e Hegel e dos hegelianos, ou co ntr a

à“omoda”,
m éto dodepois
vulgar,daessencialmente
“denúncia do mconceito
etafísico à Wolff e que
especulativo” agora
feita por volta
Feuerbach, prop aga do n o novo materialismo das ciên cias da natureza
de Büchner, Vogt e Moleschott e c om o qual “ tam bé m os econom istas
burgueses tinham escrito suas alentadas e desconexas obra s”.80 So
m en te em fac e do prim eiro, ou sej a, do m étod o dialéti co de Hegel, é
que Marx e Engels tiveram necessidade, desde o início, de esclarecer
a sua posi ção. Jamais duv idaram de que el e deveria ser o seu po nto de
partida. Para M arx e Engels, o pro ble m a co nsistia apenas em saber
quais as modificações que este método dialético deveria sofrer, uma
vez qué não era mais , como em Hege l, o métod o p róp rio a um a con 
cepção de mundo secretamente materialista, mas exteriormente
idealista, tornando-se, ao contrário, o órganon para uma concepção
expressa men te m aterialista da sociedade e da história .81 Hegel já es 
clarecera que o método (filosófico-científico) não é uma simples
M arxi smo e fil oso fia ♦ 59

forma do pe nsam ento, indifer ente ao con teúdo a que s e apli ca - ele é
tão -so m en te “a con struçã o da totalidade elevada à sua ess ência pura”
(“de rB au des Gan zen in seiner r einen W esenheit aufgestellt” ). E o pró
prio Marx, num escrito juvenil, afirmara que “a fo rma não tem valor
se não é a form a de um con teúd o”.82N um a perspe ctiva lógic a e me to
dológica, tratava-se, p ara Marx e En gels, “de estabel ecer, retiran do -lhe
os véus ideal istas, o mé tod o dialétic o na form a simples em que se to r
na a ún ica fo rm a justa do desen volvimento do pe ns am en to”.83Assim,
diante da form a especula tiva e abstrata em que Hegel deixara o m éto 
do dialético e da form a com o havia sid o desenvo lvido pela s diver sas
escolas hegeli anas, nu m sentido a inda m ais ab strato e f orma l, M arx e
Eng els esta belec em vigorosa s formulações como: to do pens am ento
não é mais que “o produto da elaboração de percepções e represen
tações em con ceitos” ; con seqü entem ente, todas a s categorias do p en 
sam ento, m esm o as mais ger ais, são som ente “a s rel ações un ilaterai s,
abstratas, de um conjunto concreto, vivo, já dado”; e, no entanto, o
objet o to m ad o pelo pensam ento como real “su bsiste, ant es como de
pois, em sua autonom ia, fora do espírito”.84Apesar disto, Marx e Engels
sempre permaneceram muito distanciados da atitude não dialética
que opõ e à real idade dada im ediata mente o pensam ento, a per cepção,
o con hecim ento e a int eligência des ta rea lida de com o essên cias au tô 
nomas, dadas, também elas, imediatamente; prova-o perfeitamente
um a frase do Anti-D ühring, de Engels - frase duplam ente d em on stra
tiva, vis to que, segundo um a interpretação m uito d ifundida, Eng els,
contrariamente a seu amigo Marx, mais versado em filosofia, teria
tardiamente derivado para uma concepção de mundo própria de um
materialismo naturalista. Ora, justamente num texto do seu último
perío do, Engels - após caracterizar o pensam ento e a co nsc iência
como produtos do cér ebr o hum ano e o pr óprio hom em como p ro

duto da natureza - recus a, d e modo ine quí voco, a concepção pu ra


mente “naturalista” que toma a consciência, o pensamento, “como
algo dado, oposto a prio ri ao ser e à na tu re za ”.85 Con fo rm e o m éto do
(não ab strato e natu ralista, mas dialét ico e, pois, o único científico) do
materialism o de M arx e Engels, a consciência pré-científica e extra-
científ ica, assim com o a pr óp ria con sciência científica,8 6 não são
autôno m as em f ace do m und o natural e , sobretudo, do m un do sócio-
60 ♦ K arl K or sc h

histórico; antes, estão nele , como elemento real , efet ivo - “ain da que
ideal e espiritu al” - deste m undo . Eis aqui a prim eira diferença espe
cífica entre a dialética materialista de Marx e de Engels e a dialética
idealista de Hegel. Se este, por um lado, afirmara que a consciência
teórica do indivídu o não pode “e scapar” ao seu m un do e ao seu tem po,
por o utro integrara mais o mundo na filosofia que a filosofia no m un
do. A esta prim eir a diferença entre a dia lética hegeliana e a ma rxia na
está m ui to relacionada a se gund a:
Os op erários com unistas - escre veu Marx já em 184 4,
em A sagrada fa mília - sab em muito bem que propri edade, ca
p it al, d in h eiro , tr abalh o assala riado etc. não são sim ple s
quimeras, mas produtos muito práticos e muito objetivos
da sua própria auto-alienação, produtos que é preciso, conse
qüentemente, suprimir de um modo prático e objetivo para
que não somente no pensamento e na consciência, mas tam
b é m na sua existência enquanto se r social, o h o m em se to r
ne um ser humano.

Esta frase exprime, com a máxima clareza materialista, que,


em razão das inter-relações de todos os fe nômenos no in terio r da so
ciedade capitali sta, as for mas de cons ciência pró prias a est a não po
dem ser suprimidas apenas pelo pensamento. A sua supressão no
pensam ento e na consciência só é possível se for acom panhada pela
transformação objetiva e prática das relações materiais de produção
apr een did as até então po r estas formas de cons ciência. E ist o vale para
as formas de consciência social mais elevadas, como a religião, mas
igualmente para os níveis médios da existência e da consciência
sociais, com o a família.87Esta conseqüênc ia do novo materia lism o, já
sugerida na Crítica da filosofia do direito de Hegel, encontra a sua ex
pressão mais clara e o seu desenvolvimento mais pleno nas Teses sobre
Feuerbach, que Marx escrev eu, visa ndo auto-esclarecer-se, em 1845:
A questão de saber se ao pensamento humano cabe al
guma verdade objetiva não é uma questão da teoria, mas
uma questão prática. Na prática tem o homem de provar a
verdade, isto é, a realidade e o poder, a natureza terrena do
seu pensamento. A disputa acerca da realidade ou não-reali-
dade de um pensamento que se isola da prática é uma
questão puramente escolástica .8S
M arx i smo e fil oso fia ♦ 61

Estas palavras, porém, seriam errada e funestamente interpre


tadas, deslocando-se simplesme nte do terren o da abstração filos ófica
da pu ra teoria para o terreno opo sto e igualmente abstrato, antifilo
sófico, da pu ra práxis, s e fossem enten didas como afirmativas de que
a crí tica prática deve mera m ente s ubs tituir a crítica teórica. Não é na
“pura p ráxis hu m an a”, mas n a “práxis hu m ana e na s ua comp reensão”
que reside, para o materialista dialético Marx, a solução racional de
todo s os m istérios qu e “mergulham a teoria no m isticism o”. Liberar a
dialétic a da m istif icação que sofrera nas mãos de Hege l e condu zi-la
à “forma racional” da dialética materialista de Marx consiste, por
tanto , em torná -la o órgano n desta at ividade revolucionária unitária,
cuja crí tica é simultaneam ente p ráti ca e teóri ca, órganon de um “m é

to do essen
teórico cia lm en te cr ítico
está essencialmente e rev
contido no olu cio ná “Não
prático”. rio ”.89seJádeve
em ima
Hegel, “o
ginar que o homem, de uma parte, pense e, de outra, queira, que te
nha n um bolso o pensamen to e no ou tro a vontade - esta seria um a
repre senta ção vazia” . Mas, pa ra Hegel, a tarefa prática que cabe ao c on 
ceito “em sua atividade pensante” (ou seja, à filosofia) não concerne
ao dom ínio da ativi dade “práti ca, hum anam ente sensível” (Marx) -
consiste, ao contrário, em “compreender o que existe, porque o que
existe é a Razã o”.90 Em tro ca , M arx c onc lui a pesqu isa pa ra esclarecer
o seu método dialético, na décima primeira tese das Teses sobre
Feuerbach, da seguinte maneira: “ Os filós ofos apenas inter pretaram o
mundo de diferentes maneiras; porém, o que importa é transformá-
lo”.9'Esta frase, contrariamente ao que imaginaram os epígonos, não
equi vale a declarar que to da filosofia é um a simples quim era; ela ape
nas exprime um a recusa cat egórica de toda teoria, filosófi ca ou cien 
tífica, que n ão seja simultaneamente práxis, e práxis real, terr en a, deste
m und o, práxis hum anam ente sen sível - recus a cat egóric a da ativi 

dade
apenasespeculati
a s i mesmvaa.daCrítica
Idéia filos ófica
te órica e r que , n o fim
evolução das contas,
prática, apreendco
concebidas e
mo duas ações indissociáveis, não num sentido qualquer da palavra
ação, mas como a transformação concreta e real do m un do concreto
e real da sociedade burguesa: estas duas express ões exprim em do m o
do mais preciso possível o princípio do novo método materialista
dialético do socialismo científico de Marx e de Engels.
62 ♦ Kar i . K orsch

M ostram os as conseqüências r eais que decorrem do p rincípio


materialista dialético do marxismo para a concepção das relações
entre a consciência e a realidade e, ao fazê-lo, trouxemos à luz o ca
ráter inexato de todas as concepções abstratas e não dialéticas, tão
difundidas entre os marxistas vul gar es de vári as tendências, no trato
teórico e prá tico das realidades “espiritu ais”. Nã o é som ente às forma s
de consciência econômicas em sentido estrito, mas a todas as form as
sociais de consciência que se aplica a frase de Marx segundo a qual
elas não são simples quimeras, porém realidades sociais “muito prá
ticas, mu ito objetivas” que é prec iso, “po r conseq üência, su prim ir de
form a p rática, objetiva” . Apenas o pon to de vista do sólido bo m senso
burguês, que considera o pensamento independentemente do ser e de
fine a verdade com o a concordânc ia da representação com u m objet o
situ ad o fora d ela e que nela se “reflete”, ape nas este po nto de vista inge 
nu am ente metafí sico pode sustentar que, se as formas de consciência
econ ômica s (as idéias econôm icas da consciência pré e extra-c ientífica
e da economia científica) têm uma significação objetiva, já que lhes
corres pon de u m a realidade (a reali dade das relaçõe s materiais de pro 
dução que elas apreendem), todas as representações superiores se
riam elucubrações sem objet o, destinadas —um a vez trans form ad a a

estrutura
ju rídica eeconômica
política -daà sociedade
dissoluçãoe no
suprimida a superestrutura
nada que já agora as constitui.
Somente na aparência as representações econômicas mantêm com a
realidade das rel ações materiais de prod uçã o da sociedade burgu esa a
relação da imagem com o objeto que ela reflete; realmente, a sua re
lação é a de um a parte bem determ inada de um todo com um a outra
parte deste todo. A economia burg uesa pertence, ta nto quanto as
relaçõ es materiais de produç ão, ao todo da soci edade burguesa. Mas a
ele pertencem, igualmente, as representações jurídicas e políticas e
seus objetos apa rentes, que os juristas e os polít icos burgue ses - esses
“ideólogos da propriedade privada” (Marx) -, na sua perspectiva
ideológica falseada ( verkehrter ), tomam como essências autônomas.
E àquele todo também pertencem, finalmente, as ideologias de um
nível ainda mais elevado, a arte, a religião e a filosofia da sociedade
burguesa. Se, aparente m ente , não vemos nessas re presentações o
objeto que poderiam refletir bem ou mal, por outro lado já com
M ar xi smo e fil oso fia ♦ 63

preendem os que as representações econômicas, políticas e jurídicas


absolutamente não possuem um objeto específico, que existe inde
pendente e isoladam ente dos outros fenômenos da sociedade b u r
guesa - opor-lhes tais obj etos se ria adotar u m pon to de vi sta burguês,
abstra to e ide ológic o. El as també m apenas exprime m, à sua man eira
particular, o todo da sociedade burguesa, como o fazem, igualmente,
a arte, a religião e a filos ofia. C on stitue m to das, em c on jun to, a estru
tura espiritual da soci edade burguesa, que corresponde à sua estrutu ra
econômica, do mesmo modo que, sobre esta estrutura econômica, se
eleva a superestrutura jurídica e política desta sociedade. A crítica
social revolucionária do socialismo científico, materialista e dialé
tica, que incide sobre a totalidade da realidade social, deve criticá-las
a todas na teo ria e revolucioná-las na prática, tal como deve f azer - e
ao mesm o tem po - com a estrutu ra econômica, jurídica e polít ica.92
Assim como a ação econômica da classe revolucionária não torna
supérflua a ação política, a ação econômica e política em conjunto
não torna supérflua a ação espiritual: esta, ao contrário, deve ser
também conduzida a seu ter mo, na teori a e na prát ica , e nqu anto crí
tica cientí fica revolucio nária e traba lho de agitação antes da tom ada
do pod er pel o proletariado e enqu anto trabalho científ ico de organi
zação e dita du ra ideológica após a conq uista do poder. E o que vale em
geral par a a ação espiritual co ntr a as formas de consciência próp ria s à
sociedade burguesa tal como a conhecemos vale ainda mais para a
ação filosófica em particular. A consciência burguesa, que, necessa
riamente, se pretende autônoma em face do mundo, como pura
filosofia crítica e ciência imparcial, do mesmo modo como o Estado
e o direito burgueses, que parecem situados autonomamente acima
da sociedade - esta consciênc ia deve igualmen te ser com batid a no
plano filosófico pela dialética materialista revolucionária, a filosofia
da classe pro letár ia, até que se ja, ao fim de sse comb ate, tot alm en te s u
perada e su prim ida no plano teórico, sim ultaneam ente à total trans
formação, no plano prático, da sociedade existente e de suas bases
econ ôm icas. “Não pod eis sup erar a filosofia s em realizá-la” .93
64 ♦ K arl K or sc h

Notas

1 Ass im, K uno Fi sc her , na s ua Geschichte der neuren Philosophie (História da


fi losof ia m od ern a), em nove vol um es, consagra, nos doi s tom os d edicados
à filosofia de Hegel, u m a página (p. 1.180) ao “socialismo de Estado” (o de
Bismarck) e ao “ com un ism o”, que, segundo el e, fo i f un dad o p or F erdinan d
Las sal le e Karl M arx, despac had o e m duas linhas; qua nto a Friedrich Engels ,
el e o cit a ape nas para , com a ref erência, den egrir ind iretam en te seus c ol egas
especialistas. Nos Grundrisse der Geschichte der Philosophie... (Elementos de
história da filosofia, do início do século XIX aos nossos dias), de Uberweg-
Heintze (11a. ed., 1916), duas pági nas (p. 208-209) tratam da vida e da d o u 
tri na de M arx e Enge ls e m enciona-se em algumas linhas com o si gnif ic at iva
p a ra a h is tó r ia d a filo so fia a c o n c e p ç ã o m a te r ia lis ta d a h is tó ria , d e fin id a c o 
m o “a exat a inversão da co ncepç ão ideal ist a” de Hegel. Na sua Die Gesch ichte
des Materialismus (H istória do m ateriali sm o), F . A. Lange só evoca M arx
nu m as po ucas anotações h is tór icas , como “o m ais profun do especi al is ta vi vo
da história da eco nom ia polít ica” , sem tratar m inim am ente de M arx e Eng el s
com o teóricos. Es sa s pos içõ es caract eri zam at é m esmo m ono grafi as que têm
p o r o b je to o c o n te ú d o “filo s ó fic o ” d o m a r x is m o - ver, p o r e x e m p lo , B e n n o
E rdm ann, “Die ph il osophischen Vorausset zungen der m ater ial is ti schen
G eschichtsauffassung” (Pressupostos fil osóf ic os da co ncepç ão m aterial ist a da
história) ( Jahrb. f. Ge setzbeg., Verw. u. Volksw., n. 31, 1916, p. 919 e ss.,
esp. p. 970-972). Ver mais exemplos adiante, noutro contexto.
2 São est es os term os do p róp rio Engel s na últim a fr ase, be m con he cida, do
seu Ludw ig Feu erba ch e o fi m da filo sofia clássica alemã (188 8) , m as form u

la ções s em elhantes enco ntram -se em quase todas as obras de M arx e Enge ls
em seus diversos períodos. Ver, por exemplo, as últimas palavras de Engels
no prefácio à primeira edição do seu Do so cialismo utópico ao so cialis mo
científico (1882).
3 Ve r so bre tud o a polêm ica do M anifest o com unis ta de 1847-1848 contra o
social ism o alemão ou soci al is m o “ verdadeiro” , com o tam bém a abertu ra de
um art igo sobre o s ocial is m o al emão que Engel s publicou n o A lm a n a q u e do
Partido Operário para 1892 (divulgado em alemão na N eue Z eit, v. 10, n. 1,
p. 58 0 e ss.) - a q u i, a p a r e n te m e n te e m p le n o a c o r d o c o m a h is tó r ia b u r 
guesa da filosofia, Engels caracteriza esta tendência do socialismo alemão

anterior
“um m às ov imjornad as de m
ento teórico arço, das
s urgido “queruínas
o nomda f e de ilMosof
arxialogo d om
de He gel” ino u” , com
e opõe, sem o
am bigüida de, os “ex-fi lósofos” , rep resentan tes desta t en dên cia, aos “o p erá 
rios” , que apresen ta com o a segunda das duas correntes que se f un diram em
1848 para dar srcem ao comunismo alemão.
4 Ludw ig Feu er bach ..., p. 12. [Ver F. Engels, Ludw ig Feu erba ch e o f im da filo
sofia clássica alemã, em K. M arx e F. En gels. Obras escolhidas. Rio de
Janeiro: Vitória, 1963, v. 3, p. 178.]
M arxi smo e fil os ofia ♦ 65

N e n e Z e it, v. 28, n. 1 , p. 686. Fó rm ulas sem elhantes en co ntra m -se no ca


p ítu lo s o b r e A ideologia alemã da biograf ía de M arx que M ehring escr eveu
(p. 116-117) [há ed. po rt.: F. M ehring . Karl Marx. Vida e obra. Lisboa:
Presença, s.d., 2 v.]). Quando se comparam estas passagens com as partes
correspondentes da biografía de Engels escrita por Gustav Mayer (1920,
p . 2 3 4 - 2 6 1 ), v ê -se o q u a n to M e h rin g ig n o r o u a sig n ific a ç ã o d a o b r a f ilo 
sóf ica de M arx e Engel s, cuja publicação, i nfeli zm ente, perm ane ce inc om 
p le ta a té h o je .
[Q i lerendo não querendo.]
U m exem plo i nteres sante encontra- se num pequeno confl it o de que há in 
dicações na N ene Ze it , v. 26, n. 1, p. 695-898, 1907-1908. Quando da divul
gação de um artigo de B ogdano v s obre “Ernst M ach e a revoluçã o”, a redaçã o
(Karl Kautsky) publicara conjuntamente uma advertência na qual o tradutor
anônimo do texto sentia-se obrigado a censurar a socialdemocracia russa por
que “as divergências táticas m ai s séri as” entre bolcheviqu es e m enche viques
eram “agravad as” na Rússia por “ um a qu estão que, a nosso j uízo, é totalmente
independente delas, ou seja, a de saber se, do ponto de vista gnosiológico, o
m arxism o é com patível com Spinoza e d’ H olbach ou com M ach e A venarius” .
Por seu turno, a redação (Lenin) do órgão bolchevique russo Proletarier (O
Proletário) julga que é preciso anotar que “esta questão filosófica, na reali
dade, não co nstit ui, nem dev e s e tornar, em nosso entend er, um a questão
de fração” - sabe- se, poré m , que o auto r des sa expr ess a afirma ção, o grande
tático Lenin, publicou em russo, no mesmo ano de 1908, a sua obra filo
sófica M ate ria li sm o e empirio criticism o.
N is to , el es v ia m u m a la cu n a da te o ria m a rx is ta e não, c o m o os m a rx is ta s “o r to 

dox os” , um a su pe riorida de do socialismo - que teria evo luído da fil osofi a à
ciência -, e se esforçavam para salvar o resto da teoria socialista, em parte
ou integralmente. Mas, na polêmica entre ciência burguesa e ciência prole
tária, adotara m desde o i níci o o po nto de vi st a do adversári o burg uês e pr o 
cu raram unica m en te evi tar , na m edida do possí vel , as conseq üênc ias m ais
extrem as deri vadas daquele pon to de parti da, conseqüên cias po rém necessá
rias. Quando, depois de 1914, na seqüência dos eventos da guerra e da crise,
não foi mais possível eludir a questão da revolução proletária, todas as va
riantes do so ciali sm o fil osofante m ostra ram , com a nitidez desejável , a sua
verd ade ira f ace. Os soci ali stas fi lós ofos, ab ertam en te antim arxistas ou não
m arxi st as, com o Bernst ein ou Koig en, m as t am bém a ma iori a dos m arxi st as
fi lósof os (discí pulos de Kant, Dietzgen, M ach) d em on straram então, por
fatos e palavras, que não somente a sua filosofia, mas ainda a sua teoria e a sua
p rá x is p o lític a s, n e c e s sa ria m e n te v in c u la d a s à q u e la , p e r m a n e c ia m p re s a s ao
p o n to d e v is ta d a so c ie d a d e b u rg u e sa . É su p é rflu o e s te n d e r- s e s o b re o c a rá te r
reform ist a burgu ês do m arxismo k antiano , um a ve z que el e é indis cutí vel.
Lenin m ostrou , já em 19 08 , no se u con fronto co m o em piriocrit icism o, a
que caminho o marxismo ligado a Mach deveria conduzir necessariamente
66 ♦ K arl K or sc h

os seus adeptos (e já condu ziu a maioria del es). Q uan to ao m arxismo à mod a
de Dietzgen, também já caminha parcialmente no mesmo rumo, como o
pro va in conte stavelm ente um a pequena brochura de D ietzge n filho: este
“neomarxista” meio ingênuo não se contenta com felicitar seu “fiador”
(Eideshelfer ) Kautsky pelo abandono da maioria das idéias do “marxismo
antigo”, mas lamenta que, apesar de tantas modificações nas suas con
cepções, dele ainda conserve alguns resíduos (1925, p. 2). Mas é o exemplo
de Davi d Koige n que com prova m elhor como era correto o instinto polít ico
de Franz Mehring quando preferia, diante de tais elucubrações filosóficas,
ren un ciar a tod a filos ofia - para atestá-lo, bast a reler a crític a benévo la de
Mehring à obra em que Koigen fazia sua estréia de filósofo-aprendiz (“Neo-
Marxismus” [Neomarxismo], Neue Zeit, v. 20, n. 1, p. 385 e ss.; e M a rx -
Engels Nachlass, [Obras póstumas de Marx e Engels], v. 2, p. 348) e levar em
conta, em seguida, a rapidez com que esse filósofo converteu-se, mais tarde,
num “socialista cultural” antimarxista dos mais vulgares, sob o estímulo de
Bernstein (1903), e, enfim, num romântico reacionário dos mais confusos
(sobre esta última fase, ver, por exemplo, o artigo de Koigen em Zeitsc hrift
fü r Politik [Revista de Política], 1922, p. 304 e ss.).
5 Engels, Anti-D ührin g, p. 40 (prefácio à segunda edição, 1885 [ver F. Engels.
Anti-Dührin g. São Paulo-Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1990, p. 10]). Ver
também as declarações análogas de Marx no fim do posfácio à segunda
edição de O capital (1873).
10 O m elho r exem plo é oferecido pelas seguintes declarações de E . von Sydow
em seu livro Der Gedanke des Idealrek hs in der idealistischen Philosophie
von Kant bis Hegel (A concepção do mundo ideal na filosofia idealista de Kant
a Hegel): “Aqui [no idealism o alemão, que “logici za” a história e a tran sfo rm a
de “cadeia de fatos” em “séri e de conceitos”], o pe nsam ento do Ideal , sendo
historicizado ( historisiert ), perde a sua força explosiva. Se o Ideal é uma ne
cess idad e lógico-históri ca, t od o em penho para alcançá- lo torna-s e prem aturo
e inútil. Esta elaboração do pensamento do Ideal foi o mérito dos idealistas
absolutos. É a eles que devemos agradecer pelo fato de a nossa ordem social e
econômica desfrutar ainda de uma longa existência. Enquanto as classes diri
gent es se libertavam d a fantasmagoria histórica do ideali smo e enco ntravam ,
com a vontade da ação, a coragem para agir, o proletariado sempre teve fé no
lixo materi aliza do d a concep ção idealista - e é desejável que esta situa ção se
pro lo ngue por m uito tem po. O principal m érito desse trab alho, como em to 
das as outras questões de princípios, cabe a Fichte” (1914, p. 2-3) etc. Numa
nota, Sydow assinala expressamente que se poderia “invocar este fato contra to
dos aquel es que, mais ou m enos abertam ente, afi rmam que a filos ofia carece
de qualquer importância política ”!
11 Ver Marx , O dezoito brumário de Luís Bonaparte [ver K. Marx. O 18 bru
mário de Luís Bonaparte e Cartas a Kugelmann. Rio de Janeiro: Paz e Terra,
1969, p. 45] (sobre a relação entre uma classe e a sua representação ideoló
gica em geral); ver , adem ais, Engel s, Ludwig Feuerbach [ed. bras. cit., p. 203]
M ar xi smo e fil os ofia ♦ 67

(sobre a filosofia). Aqui também se pode recordar uma anotação de Marx,


em sua tese doutoral, em que ele se opõe em geral à tentativa de explicar os
erros cometidos por um filósofo “a partir da sua consciência particular”, de
fendendo a construção, objetivamente, da “forma essencial da sua consciên
cia, da elev ação desta a um a es trutu ra e a um a signif icação determ ina das e, po is,
da sua simultânea superação” ( Nachlass , v. 1, p. 114 [ver K. Marx. As filo
sofias da natureza em Demócrito e Epicuro. Lisboa: Presença, 1972, p. 158]).
Ver como Marx (a propósito da história das religiões!) caracteriza o método
a que aqui nos referimos como “o único método materialista e, portanto, cien
tífico” [K. Marx. O capital. Crítica da economia política. Rio de Janeiro:
Civilização Brasileira, 1968, livro 1, v. 1, p. 425, nota 89]. Adiante ofere
cemos mais detalhes sobre este ponto.
Hegel, Werke (Obras), v. 15, p. 485.
Também em Kant - diga- se de pas sagem - o termo revolução, que ele em
prega pre ferencia lm ente no dom ín io do puro pensam ento , poss ui um signi
ficado muito mais concreto (real) que nos kantianos burgueses atuais. Basta
evocar as numerosas declarações de Kant (em Confli to das faculdades e alhu
res) sobre o fato real da revolução: “Esta revolução de um povo espiritual a
que assis timos hoje desperta na alma de todos os espectadores (que não estão
diretamente implicados nela) uma simpatia que se aproxima do entusiasmo”;
“Um fenômeno como este, na história da humanidade, torna-se inesque
cível”; “Este acontecimento é demasiado grande, toc a m uito de pert o os inte 
resses da hum anidad e e inf luencia tão profund amen te todas as parte s do m un 
do que, na prim eira ocasião fa vorável, os povos dele s e lembrarão e desper tarão
para repetir te nta tivas co m o esta”. Estas declaraç õe s - e outr as similares -

de Kant
im foram coligidas(Literatura
18. Jahrhundert no volumepolítica Die politische
1 de alemã do século Literatur der Deutschen
XVIII), publicado
p or von G eism ar em 1847 (!), na ed itora W ig and (p. 121 e ss.).
Sabe -se que Marx inco rporo u con scientemente e des envol veu est a int erp re
tação de Hegel sobre o papel de fra nceses e alemães na Revolução Burguesa.
Ver, a propósito, todos os escritos do seu primeiro período ( Nachlassausgabe
[Obras pó stum as], edit adas por M ehri ng, v. 1), ond e se enco ntram form ula
ções c omo: “Em política, os alemãe s pensaram o que os outro s povos realiza
ram”; “A Alemanha só acompanhou o desenvolvimento dos povos modernos
na atividade abstrata do pensamento” e, por isso, o destino dos alemães no
mundo real consistiu, no fim das contas, “em ter compartilhado das restau
rações dos povos modernos, sem compartilhar das suas revoluções”. [Todas
estas passagens encontram-se em K. Marx. Crítica da filosofia do direito de
Hegel. São Paulo: Boitempo, 2005, p. 151, 153 e 146.]
[Expressão popular traduzível aproximadamente por ter o coração nos lábios
ou, ainda, fa zer ferv er em pouca água.]
[Hegel ironiza aqui uma palavra da expressão referida na nota anterior: bon-
net, que significa boné, barrete.]
68 ♦ K arl K ors ch

18 H egel, Werke, v. 15, p. 518, nota 44.


19 Prefácio à Rechtsp hilosoph ie (Filosofia do direito), ed. Meiner, p. 15. [Ver G. W.
F. Hegel. Princípios da filosofia do direito. Lisboa: Guimarães, 1986, p. 13.]
2(1 Ver a con he cid a pa ssage m d o M anifesto com unis ta em que a idéia de Hegel

sobre a relação dialética entre fil osofi a e realidade é despida da form a ainda
mistificada que ele lhe atribuiu (a filosofia é “a sua época apreendida pelo
p e n s a m e n to ” ), e f o rm u la d a d e m o d o ra c io n a l: as c o n c e p ç õ e s te ó ric a s d o s
com un istas “são apen as expressões ger ais de relações ef eti vas de um a luta de
classes que existe, de um movimento histórico que se processa diante de
no sso s o lh o s”. [Ver K. M arx e F. Engels. M anifesto do Part id o C om unis ta .
São Paulo: Cortez, 1998, p. 21.]
21 “Pro du to da dissolução da fi los ofi a de H ege l” (est a é a conc epçã o d o m i
nan te); “col apso ti tânico do ideal is m o alem ão” (Pl enge); um a “ concepção
d e m undo ( Weltanschauung ) fundada na negação dos valores” (Schulze-
Gävernitz). O caráter absurdo típico dessa concepção do marxismo revela-
se claram ente no fato de os elem entos do sist em a m arxist a que ela con sidera
o s eu “ esp íri to m aligno” , pre cipitados do céu do idea li sm o alem ão p ara os
abis m os infernais do m ateri ali sm o, j á estarem em ger al presentes no s sist e
mas da fil osofi a ideal is ta burg uesa, incorp orad os p or M arx sem m odifi cações
sens ív ei s - po r exem plo, a idéi a da n ecess idade do m al para o d esenvolvi
m ento d o gênero h um an o (Kant, Hegel) , a idé ia da nec essár ia rel ação entre
o crescim ento da riqueza e o da m is éri a na sociedade burgue sa (Hegel, Filo
sofia do direito, parágrafos 243, 244 e 245 [ver, na ed. port. cit., p. 193-195]).
Trata-se, po r co nseqü ência, das forma s pelas quais a cl ass e burguesa, no apo 
geu do seu desenvolvimento, tomou em certa medida consciência de seus
p r ó p r io s a n ta g o n is m o s d e cla sse. O p ro g re s s o re a liz a d o p o r M a rx c o n s iste
em ter apreend ido tai s an tagoni smo s - que a consc iênci a burguesa absol u-
tizara e tornara insolúveis na t eoria e na práti ca - não com o alg o na tural
e absoluto, mas histórico e relativo e, pois, superáveis, prática e teorica
m ente, nu m a form a sup erior de organização soci al . Es se s f il ósofos burgueses
concebem, portanto, o marxismo ainda de uma forma limitada pela pers
p e c tiv a b u r g u e s a e, p o is , n e g a tiv a e fa ls a.
22 Ver Eng els, Dührin gs U mwälzung de r W issens ch aft {A subv ersão da ciência p o r
Dührin g), v. 1, p. 5 e ss. [ver F. Engels. Anti-D ührin g, ed. bras. cit., p. 23-24],
Sobre o f at o de a f il osofi a cl áss ic a alemã n ão ter si do, m esm o no plan o te ó ri

co, a única
ao pref áciofonte
da pdo rim
socialismo científico,
eira ediçã o de verDo
a nota acrescentada
so cialismo por Engels
utópico ao so ci alismo cie ntí
fico. Ver também as suas observações sobre o fragmento de Fourier “Über
den Handel” (“Sobre o comércio”) ( Nachla ss , v. 2, p. 407 e ss.).
23 São deste ano as Teses sobre Feuerbach, de Marx, a que adiante nos referi
remos. Ademais, nesse momento, Marx e Engels acertaram as contas conr
a s ua c onsc iência fi losóf ica “de antes” , sob a form a d e um a crít ica ao co n
ju n to d a filo s o fia p ó s -h e g e lia n a (A ideologia alemã ) - ver o que M arx di z
no prefácio à Crítica da economia política, de 1859. A partir de então, a po-
M ar xis m o e fil oso fia ♦ 69

Iêmica de Marx e Engels acerca de questões filosóficas só tem por fim escla
recer ou refutar seus adversários (Proudhon, Lassalle, Dühring, por exem
plo ), já não se tr ata mais de “clarificação pess oal”.
Ver, por agora, a passagem do Manifesto comun ista aqui pertinente (ed.
Du nker, p. 28 ): “Com certeza - dirão - as idéias religiosas, mora is, f ilo
sófi cas, políti cas, j urídicas etc. se mo dificaram n o curso d o d esenvo lvimento
histórico. Mas a religião, a moral, a filosofia, a política, o direito sempre se
mantiveram nestas mudanças. Além disso, existem verdades eternas, como
Liberdade, Justiça etc., que são comuns a todos os estágios sociais. Mas o
comunismo abole as verdades eternas, a religião, a moral, em vez de lhes
da r novas formas; contradiz, assi m, todos os desenvolvimentos históricos ante
riore s’. A que se reduz esta acusa ção? A história de tod a socied ade mo veu-
se até hoje entre antagonismos de classes, que em diferentes épocas histó
ricas tiveram formas diferentes. Mas, fosse qual fosse a forma assumida, a
exploração de uma parte da sociedade pela outra é um fato comum a todos
os séculos passados. Não é de admirar, portanto, que a consciência social de
todos os séculos, a despeito de toda a multiplicidade e diversidade, tenha-se
movido dentro de certas formas comuns, em formas de consciência que só
se dissolvem completamente com o desaparecimento total do antagonismo
de classes. A revolução comunista é a ruptura mais radical com as relações de
pro priedade tra dicion ais; nã o ad mira , portanto , qu e no cu rso do seu desen vo l
vim en to se rom pa, da m aneira mais radical , com as idéi as tradicionais” [v er,
na ed. bras. cit., p. 29], O marxismo mantém, pois, com a filosofia, a religião
etc. basicamente a mesma relação que possui com a ideologia econômica
fund am ental da sociedade burgues a, o feti chismo da m ercadoria ou o va lor.
Ver, a este respeito, Das Kapital, v. 1, p. 37 e ss., esp. notas 31-33 [ver, na
ed. bras. cit., p. 89 e ss., notas 31-33], e as Randeglossen zu m Programm...
(Glosas marginais ao programa...), p. 25 e ss. (valor), 31-32 (Estado) e 34 (reli
gião) [ver K. Marx. “Crítica ao Programa de Gotha”, em K. Marx e F. Engels.
Obras escolhidas em três volumes. Rio de Janeiro: Vitória, 1961, v. 2, respec
tivamente p. 215-216, 222-223 e 225-226],
Ver as Randeglossen zu m Programm, cit.; as expressões citadas encontram-se
às p. 27 e 31 [ver, na ed. bras. cit., p. 217 e 226].
Ver, por exemplo, a observação de Engels (formulada num tom de certo mo
do ideológico) em Lud wig Feuerbach: “A filosofia, em seu conjunto, termina
com Hegel: por um lado, porque em seu sistema se resume, da maneira mais
grandiosa, todo o desenvolvimento filosófico; por outro lado, porque este filó
sofo nos indica, ainda que inconscientemente, a saída desse labirinto dos
sistemas para o conhecimento positivo e real do mundo” [ver, na ed. bras.
cit., p. 175],
Há efetivamente teóricos burgueses e mesmo marxistas (vulgares) capazes de
imaginar que a exigência do comunismo marxista da supressão do Estado (em
vez do combate a apenas algumas das suas formas históricas) tem, no fundo,
tão-somente esse significado puramente terminológico!
70 ♦ K arl K ors ch

28 Ver, so br etu do , Diihrings Umwälzung, p. 11 [na ed. bras. cit., p. 23] e


Ludwig Feuerbach, p. 56 [na ed. bras. cit., p. 194]. Citamos estas duas passa
gens, cujo conteúdo é totalmente concordante com a forma que lhe é dada
no Anti-D iihring: “Tanto num caso como noutro [no que concerne à his
tória e no qu e toca à natureza ], o materi alismo m ode rno é substancialmente
dialético e já não há necessidade de uma filosofia superior para as demais
ciências. Desde o instante em que cada ciência tenha que se colocar no qua
dro geral das coisas e do conhecimento delas, já não há margem para uma
ciência que seja especialmente consagrada a estudar as concatenações uni
versais. Tudo o que resta da antiga filosofia, com existência própria, é a teo
ria do pensamento e de suas leis: a lógica formal e a dialética. Tudo o mais
se dissolve na ciência positiva da natureza e da história” [na ed. bras. cit.,
p. 23],
29 É claro que as declarações de Enge ls que acab am os de citar nã o co ntêm , tal
como se apresentam, mais que um a mu dança dest e gêner o - porque, no fun 

do, não se vê
a pretensa nenhuma diferença
conseqüência entre omarxista
da dialética que Engels desenvolve aqui
ou materialista e, decomo
outra
parte, o que re sulta da dialética id ealista de Hegel ou do que este já ap re
sentara como uma conseqüência do seu ponto de vista idealista dialético.
Também Hegel indica às ciências particulares a necessidade de tomarem ple
na consciência do lugar que ocupam na concatenação universal e afirma, em
substância, que, por conseqüência, t oda v erdadeira ciênci a se torn a necessa
riamente filosófica. Daqui resulta, do ponto de vista terminológico, exata
mente o contrário da transformação da filosofia em ciência, anunciada por
Enge ls. Mas, no f und o, el es parecem dizer a mesm a coi sa - am bos qu erem
sup rim ir a oposição entre as ciênci as particulares e a filosofia, situad a acima
delas: Hegel o expressa elevando as ciências particulares ao nível da filosofia,
ao passo que Engel s, ao con trário , com a absorção da fil osofia pel as ciênci as
particulares. Nos do is casos, parece qu e se chega ao mes mo resu ltad o: as ciê n
cias particulares deixam de se r parti culares e , no m esmo m ovim ento, a filo
sofia de ixa de ser um a ciênci a pa rticular superior às outras. Co m o veremos
mais adiante, há por trás dessa diferença, puramente terminológica em apa
rência, alg o de m ais pro fu nd o e bem m enos vis ível nestas passa gens de Engel s
e, em geral, nos seus escritos tardios, bem como nos de Marx (ou de Marx e
Engels) elaborados anteriormente. Mas, aqui, é já importante constatar que
Engels, sempre reconhecendo o valor da “ciência positiva”, quer, ao mesmo
tempo , assegurar a subsistê ncia, “de mod o indep end ente”, de um dom ínio pr e
ciso e limitado de “tudo o que constituiu a filosofia até hoje” (a teoria do
pensam ento e de suas leis, a lógica fo rm al e a dialética). N ão há dúvid a de
que o problema decisivo é saber qual o significado, em Marx e Engels, do
conceito de ciência ou de ciência positiva.
30 [Ato único.]
31 Mais adiante veremos que bo ns materi alis tas aproxima ram -se, às vezes de um
modo alarmante, de uma concepção assim, absolutamente ideológica! E a
M ar xis m o e fil o so fia ♦ 71

observação tardia de Engels, citada supra na nota 26, também pode ser en
tendida no seguinte sentido: no plano intelectual, pelo menos em essência,
a filosofia já foi superad a e suprim ida, inconscientem ente pelo próp rio Hege l
e, depois, conscientemente, pela descoberta do princípio materialista. Ve
remos, contudo, que a interpretação sugerida pela fo rma em que Engels se

expressa não exprime o sentido verdadeiro da concepção de Marx-Engels.


Ver o capítulo 6, “A vul garização do marx ismo pelos op ortu nis tas” [ed. port.
em V. I. Lenin. Obras escolhidas. Lisboa: Avante!; Moscou: Progresso, 1978,
v. 2; o cap. 6 está nas p. 292 e ss.].
Sobre a forma assumida inicialmente pelo confronto dessas teorias durante a
guerra, ver Renner, Marxismus, Krieg un d Internationale (O marxismo, a guerra
e a Internacional); o texto de Kautsky contra Renner, “Kriegssozialismus”
(“Sociali smo de gu erra”), Wiene r Marx-Stud ien (Estu dos vienenses de M arx ),
v.· 4, n. 1; e a polêmica de Lenin contra Renner, Kautsky etc. em O Estado
e a revolução e também em “Contra a corrente”.

Ver, por exemplo, Kautsky, “Drei Krisen des Marxismus” (“Três crises do
marxismo”), Neu e Zeit, v. 21, n. 1, 1903, p. 723 e ss.
O leitor que se aproximar dos escritos de Lenin sem um conhecimento apro
fundado da conjuntura teórica e prática será facilmente levado a crer que
ele incorpora uma concepção ideológica, psicológica e moralista plenamente
burg uesa , in duzid o pela fo rm a acerba e pessoa l co m que este auto r (n isto
como fiel discípulo de Marx!) conduz a sua polêmica contra o “marxismo
vulgar” e pela exatidão e precisão filológicas com que trata os textos de Marx.
Um exame mais atento, porém, demonstra que Lenin nunca considerou o
fator pessoal como explicativo da evolução operada por decênios, e em es
cala internacional, que result ou gradati vam ente, no curso da segunda m eta
de do sécul o XIX, no em pobrecim ento e na degene resc ênci a da do utrin a m ar
xista em marxismo vulgar. Ele só utiliza esta espécie de razões para explicar
alg uns fenômenos his tór icos deter minados, próprios do último período ante
rior à gue rra m un dia l e no qual já s e anunciava a crise social e políti ca. Ad e
mais, seria incidir em grave erro sobre o marxismo sustentar que, para este,
o aca so e as qualidades de indi víduos singu lares não desem penh am nen hum
pap el, seja na his tó ria m undia l, seja em fe nôm enos histó ricos dete rm in ados
(ver a conhecida carta de Marx a Kugelmann, de 17 de abril de 1871, na
Neu e Zeit, v. 20, n. 1, p. 710 [ver K. Marx. O 18 brumário..., ed. bras. cit.,
p. 293-294] e, na “Intr odução” à Crítica da economia política, a observação
geral sobre a “justif icação do acaso” , que se enc on tra n o ú ltimo capítulo afo 
rístico [ver K. Marx. Para a crítica da economia política. Salário, preço e lu
cro. O rendimento e suas fontes. São Paulo: Abril Cultural, 1982, p. 20 (“Os
economistas”) mas, segundo a doutrina marxista, o fator pessoal deve ser
tanto menos invocado quanto mais o fenômeno a ser explicado se estende no
tempo e no espaço. E é deste modo verdadeiramente “materialista” que, co
mo pode verificar qualquer leitor, Lenin procede em todos os seus escritos.
Ademais, o prefácio e a primeira página de O Estado e a revolução m ost ram,
72 ♦ K a r l K orsch

imediatamente, que ele não considera como o objetivo principal dos seus tra
b a lh o s te ó ric o s a “ re sta u ra ç ã o ” id e o ló g ic a d a a u tê n tic a d o u tr in a de M a rx . [A
ob ra de M arx a que Korsc h sem pre s e re fe re como Crítica da economia polí
tica é o li vro, pu blicad o e m 18 59 , Para a crítica da economia política; a “Intro 
du ção ” é, po r sua vez , o texto redigi do p or M arx em 18 57 , parte dos m an us 
critos publicados postumamente (1939-1941) sob o título Gründrisse der
Kritik der poli tischen Ökonomie. R oh entw urf (El ementos fun da m en tais para a
crít ica da e conom ia políti ca. R ascunhos) - não se dev e confu nd ir est a “In tro
dução” (que foi publicada pela primeira vez na N eue Z eit , em 1903, por
Kautsky) com o “Prefácio” do livro, de 1859.]
36 M as te x tos co m o As lutas de classes na França e O 18 brumário de Luís
Bonaparte , cro nologicam ente poster ior es, t am bém pertencem a es ta f as e.
37 [N a ed . br as . c it., p. 26.]
38 Bri fw echsel (Correspondência), v. 3, p. 191. É significativo que Kautsky
tenh a negli genci ado est a p ass age m, extrem am ente im po rtante para a com 
p re e n sã o d o M anifestó inaugura l, no prefácio que preparou para a edição de
1922 do texto, no qual cita literalmente longos extratos desta carta (p. 4-5),
o que l he perm it e (p. l i e ss. ) contr apor o tom com edido do M anifesto in a u
gural de 1864 ao estilo inflamado do M anifesto com unis ta de 1847-1848 e
aos “agentes ilegais da Terceira Internacional”.
39 O utros bo ns exem plos encon tram -se no últ im o parágrafo do cap ítulo de O
capital, l ivr o 1, sobre a jor na da de trabalho : “ Pa ra protege r-se c on tra a ‘serpe
de seus to rm en tos ’, têm os t raba lhad ores de se un ir e , com o clas se, com pelir
a qu e se pro m ulg ue um a lei” etc . [na ed. bras. cit ., p. 344] ; ver tam bé m a
con hecida passagem em que M arx retom a esta idéi a (l ivr o 3, t . 2, p. 355) .
Há centenas de outros passoS de O capital que nos dispensam de referir os es
critos posteriores de Marx, abertamente revolucionários, como o M anifesto do
Conselho Geral sobre a revol ta da Co m una (em A guerra civil na França, 1871
[ver K. Marx. A guerra civil na Fran ça. São Paulo: Global, 1986]).
® [Em membros dispersos.]
41 [R . H ilf erding. O capital fi nanc eiro. São Paulo: Abril Cultural, 1985 (“Os
eco no m istas”); ver , pa ra a citação seguinte de Korsch, p . 28- 29.]
42 Q ue m , até 19 14 ou 19 18 , pô de acreditar, lendo estas li nha s com olho s pro le
tári os, que H il ferdi ng e outros m arxi st as ort odo xos que su stentaram posi ções

sem elhantes só form ularam es sa pretensão à validade objet iva (is to é, sup erior
à posição de cla sse) das suas propo sições guiad os p or razões práticas e teóricas
no interesse do proletariado teve, desde então, a oportunidade de mensurar,
tam bé m na prática, a ext ensão do se u err o. O exem plo de marxist as com o P aul
Lensch m os tra qu e esta e spéci e de “c iênci a científ ica” (!) po de m uito “pe rfeita 
m en te” ser util izada contra o social ismo. Observe-se, de passagem, qu e Sim kovitch,
o crítico burguês de Marx, levou a distinção de Hilferding entre marxismo
e social ismo, que aqui criti cam os, às suas mais absurdas conseqü ências - ver o
seu livro, srcinal e interessante só por esta razão, M arxism us gegen Sozialis mus
M a r xi smo e fi l osof ia ♦ 73

(Marxismo contra socialismo). M. Rubinow ofereceu uma apreciação deta


lhada desta obra em “M arx’ Proph ezeiungen im Lic hte der m od ern en S tat ist ik”
(“Projeções de M arx à l uz da estat íst ica m od ern a” ), Grünbergs Archiv, n. 6,
p . 1 2 9 -1 5 6 .
Ver Kritik der Urteilskraft (Críti ca do j uíz o) , ed. Reclam, p. 283. Kant carac
te ri za t am bém nest e pas so um a m áxi m a semelha nte como “ um fio con dutor
p a r a o e s tu d o d a n a tu r e z a ”, de ig u a l m o d o c o m o M a rx , n o p re fá c io à Crítica
da economia polí tica, caract eri za as pr oposições que con stituem a substância da
sua concepção m ateri ali sta da históri a com o u m “f io co nd uto r” que ex tr aiu,
p a ra seu tr a b a lh o u lte rio r, d o s seus e s tu d o s filo só fic os e cie n tífic o s. P o d e r-s e -
ia, pois , dizer que M arx enunciou o se u próp rio princípio m ateri ali sta como
u m simples fi o co nd utor, no sentido da fil osofi a crí ti ca de Kant, para o estud o
da sociedade e i nvocar, ainda, t od as as afi rmaçõ es nas qua is M arx con testou
os crí ti cos qu e o acu saram de, na sua crít ica da econ om ia políti ca, ter elabo
rado construções a priori ou uma teoria geral da filosofia da história com
um a vali dade, po r ass im di zer , sup ra-histórica (ver o posfáci o à segun da ed i
ção alemã de O capital , de 1873, bem como a conhecida carta a Mikhailovski,
de 1877). Já expus no ano passado, porém, em meu livro Kernpunkte der mate-
rialistischen Geschichtsauffassung (Questões cent rai s da concepção m ateria
lis ta da histó ria) (Berlim , 192 9, esp. p. 16 e ss. e os dois prim eiro s ap ênd ices),
as razões pelas quais não se esgota o sentido do princípio materialista esta
b e le c id o p o r M a rx to m a n d o - o c o m o u m p r in c íp io s im p le s m e n te h e u r ís tic o .
Ver, nos meus Kernpunkte (cit., p. 18 e ss.), o prefácio e as declarações contra
Ludwig W oltma nn. E ntr e al guns t eóric os m arxis tas m od erno s que pertencem ,
p o r su a p r á tic a p o lític a , ao c o m u n is m o r e v o lu c io n á rio t a m b é m se e n c o n tr a
um a fort e tendênc ia a identi fi car a c oncepção m arxist a a um a “s ociol ogia ge

ral”. Ver Bukharin, Theorie des historischen Materialismus, p. 7-8 [ver N.


Bukharin. Tratado de m aterialismo hist órico. Rio de Janeiro: Laemmert, 1970],
e W itt fogel, Die W isse nsc haft der bü rgerlichen Gesellschaft (A ciência da socie
dade burguesa), p. 50 (todos os dois editados em 1922).
Ver a Crít ica da füo so fia do direi to de Heg el, na qu al M arx declara qu e a cr ít ica
do Estado moderno, da realidade que ele mantém e de toda a consciência
p o lític a e j u r íd ic a a le m ã s d ev e d e s e m b o c a r n a p rá x is , e n u m a p rá x is “ à a ltu r a
dos p rincíp ios” , ist o é, na revolução - não nu m a “ revolução p arcial , sim 
p le s m e n te p o lític a ”, m as n a re v o lu ç ã o p r o le tá ria , q u e n ã o e m a n c ip a a p e n a s
o hom em po lít ico, m as o ho m em soci al na sua integridad e [na e d. bras. c it .,
p . 151, 15 4 e 156 ],
Ver as declarações de Marx e Engels sobre o programa de Gotha na minha
edição das Glosas marginais... (B erlim, 1922) e, ain da , En gels, “C rítica ao
Programa de Erfurt” ( N eue Zeit, v. 21, n. 1, p. 5 e ss.).
Ver a fra se de K auts ky na sua polêmica co ntra Bernstei n ( Bernstein und das sozial-
demokratische Programm [B ernst ein e o program a da socialdem ocracia],
p. 172), c ritic a d a p o r L en in , em 1917, em O Estado e a revolução: “A decisão
sobre o prob lem a da dit adu ra prol etár ia, pod em os dei xá-l a m uito tran qü ila
74 ♦ K arl K or sc h

m en te ao fu tu ro” [ve r V. I. Lenin. O Estado e a revolução. São Paulo: Global,


1987, p. 149],
48 Ver a “variante” da d o utrin a m arxist a da d itadu ra do proletariado in tro 
duzida p or Kautsky na sua últ im a obra, Die pro leta risch e Revolutiori u n d ih r
Programm (A revolução proletária e seu programa) (1922, p. 196): “No seu
célebre texto de crítica ao programa do partido socialdemocrata, Marx
escreveu: ‘Entre a sociedade capitalista e a sociedade comunista, estende-se
o período de t ransform ação revoluci onári a de um a na ou tra. A e le corres
p o n d e ig u a lm e n te u m p e r ío d o d e tra n siç ã o p o lític a , d u r a n te o q u a l o E sta d o
só po de ter a form a da ditad ura revo lucionária do pro letariado ’. C om base
no q ue nos ensina a exper iênci a dos úl ti m os anos sobre o problem a do go 
verno, podemos hoje modificar esta frase da seguinte forma: ‘Entre a época
do Estado pura m ente burguês e a do Estado puram ente proletári o, este nde-
se o período de tr ansform ação de um no outro. A e le correspond e igual
m ente um período de transi ção polí ti ca, durante o qual o governo tom ará

a form a de u m governo de coali zão”’ .


45 V er M a rx , O 18 brumário..., p. 13 [Korsch alude à frase de Marx: “A tradição
de toda s as gerações m ortas op rim e com o um pesadelo o cérebro do s vivos”
(ed. bras. cit., p. 17)].
50 Esta rel ação d ialéti ca qu e exist e entre o Le nin teórico e o Lenin p rático é
p a r tic u la r m e n te v is ív el n o p o sfá c io d e O Estado e a revolução, escrito em
Petrogrado a 30 de novembro de 1917: o segundo capítulo deste opúsculo
“(consagrado à experiência das revoluções russas de 1905 e 1917) deverá
p ro v a v e lm e n te se r a d ia d o p o r m u ito te m p o ; é m a is a g ra d á v e l e m a is ú til
viver a ‘ex pe riênc ia da rev olu ção ’ do qu e escrever sob re ela” [e d. bras . cit. ,
p. 163],
51 Ve r, po r agora, o que M arx afir m a na M is éria da filo sofia acerca da relação
en tre os t eóricos d o p roletariado, os soci ali st as e o s com unistas, e os repre 
sentantes científicos d.a burguesia [ver K. Marx. M iséri a da fi lo sofia. São
Paulo: Ciências Humanas, 1982, p. 117-119], assim como acerca do caráter
do socialismo e do comunismo científico materialista em oposição ao socia
li sm o utóp ico d ou trinário: “ A partir des ta observação [observação da rea
lidade, na qual a luta de classe revolucionária do proletariado subverte a
velha sociedade (N. do T.)], a ciência produzida pelo movimento histórico,
e que se vincula a ele com pleno conhecimento de causa, deixa de ser dou
trinária e se torna revolucionária” [idem, p. 119].
52 Ver os m eus Kernpunkte, cit., p. 7 e ss.
53 M ostrarem os, mais adiante, que a ex pres são “ ciênci a positi va” não tem em
M arx e Engel s ou tro signif icado s enão est e. Aos m arxist as qu e defen dem
a interpretação antes referida, deixemos por agora que um especialista bur
guês em M arx l hes dem on stre o s eu err o catast rófi co - o sueco Sve n
H erl ander, que publicou u m li vr o (Marx und Hegel [Marx e Hegel], Jena,
192 2) m uito superfici al e cheio de equí vocos grosseiros mas q ue, no seu
M a r xi sm o e fi l oso fi a ♦ 75

conjunto, compreende melhor o aspecto filosófico do marxismo (o que ele


designa como a concepção de mundo socialdemocrata) do que ordina
riamente o fazem os críticos burgueses de Marx e o marxismo vulgar con
ven cional. Ñ as páginas 25 e s s. , há pertinen tes indicações de q ue só se pode
fal ar de um sociali sm o “ cientí fico” no m esm o se ntido em que H egel “cr it ica

os críticos da sociedade e lhes recomenda dedicar-se ao estudo da ciencia


e a ap ren de r a discernir a necessi dade e o fun da m en to do Estado, o que
terá efeitos benéfico s nas suas sutilezas crít icas” . Esta passagem é m uito
caracterís tica do qu e há de m elhor e de pio r no livro de Herland er. As pala
vras de Hegel , cuja font e não é i ndicada p or H erl ander, encon tram -se no
p re fá c io à Filosofia do direito - aí , Hegel não m enciona a ci ência, mas a f il o
sof ia . Por o u tra pa rte, o si gnifi cado d a ci ência em M arx não consist e, com o
o da filosofia em Hegel, na reconciliação com a realidade, mas, ao contrário,
na sua tr an sform açã o radical (ver a passagem da M iséria da filo so fia citada
supra, na nota 51).
M Ve r o que M arx e sc re ve sobr e Bentham em Das Kapital, livro 1, esp. p. 573-
574 [na ed. bras. cit., 1968, livro 1, v. 2, p. 708].
55 Ver o feroz sarcasm o de E ngels sobre ist o n o A n li -D ü h rin g [na ed. bras. cit.,
p . 1 8 -1 9 ],
56 Nachla ss, v. 1, p. 397 [na ed. bras. cit. da Crítica da filosofia do direito de
He ge l, p. 155-156].
57 Nachlass , v. 1, p. 259.
58 Nach lass, v. 1, p. 390. [A Gazeta de Colônia, diário conservador e católico
p u b lic a d o d e s d e 1 802, c o n tr a p u n h a as su a s p o siç õ e s às d e f e n d id a s p e la
Rhein is che Z e itu n g ( Gazeta Renana), qu e M arx dir igi a em 184 2. O artigo
em questão - “O editori al do núm ero 179 da Gazeta de C olônia” - f oi pu bli
cado nas ed içõe s de no s 191 (10 de julh o d e 1 842), 193 (12 de jul h o d e 1842)
e 195 (14 de julho de 1842) da Gazeta Renana; a fr ase r ecolhida p o r Korsch
enc on tra-se nesta últim a edi ção. ]
59 Nachla ss, v. 1, p. 390-391 [na ed. bras. cit. da Crítica da filosofia do direito
de Hegel, p. 150-151].
60 Ver , p o r exem plo, a ob serv açã o de M arx no seu p refácio à Crítica da eco
nomia política (1859), p. lvi-lvii [na ed. bras. cit. de Para a crítica da
economia política, p. 24-26],
61 Ver o prefácio à Filosofia do direito, ed. Meiner, p. 15-16 [na ed. port. citada,
p. 1 1 -1 3 ], b e m c o m o as o b se rv a ç õ e s d e H e rla n d e r, c ita d o n a n o t a 53.
62 Incluem-se entre tais textos, além da Crítica da filosofia do direito de Hegel,
já m e n c io n a d a , a c rític a d e A quest ão judaica , de Bauer, de 1843-1844 [ver
K. Marx. Para a questão judaica. Lisboa: Avante!, 1997] e A sag rad a fa m ília,
de 184 4 [a pu blicação desta o bra é de feverei ro de 18 45 (N. do T.)] e, so bre 
tud o, o grand e acerto de contas com a fi losof ia pós-h egeliana a que M arx
e Engel s s e de dicaram , em con junto, em 18 45 , no m anu scrito de A ideologia
76 ♦ K arl K ors ch

alemã. A i m portâ ncia deste últ im o para o nosso prob lem a surge já na passa
gem do prefácio a A sagrada fa m ília , no qual os autores anunciam que ex
porão positiv am ente , nos seus pró xim os trabalh os, as suas idéias ac erca de
“novas doutrinas filosóficas e sociais” [ver K. Marx e F. Engels. A sagrada
família. São Paulo: Bo itemp o, 200 3, p. 16] . Infelizmente, es se m an usc rito -
de relevância capital para quem quiser analisar de modo fiel e exaustivo o pro
blem a das relaçõ es entre o m arx ism o e a filosofia - perm anece parcia lm ente
inédito até hoje [ao tempo em que Korsch escreveu Marxism o e filosofia, só se
conheciam fragmentos dessa obra; há ed. bras. integral: K. Marx e F. Engels.
A ideologia alemã. São Paulo: Boitempo, 2007]. Mas as partes publicadas, espe
cialmente “São Max” ( D okum ent des Sozialismus [Docum entos do Socialis
mo], n. 3, p. 17 e ss.) e “O concílio de Leipzig” ( A rchiv für Sozialwissenschaft
und Sozialpolitik [Arquivo de Ciência Social e Política Social], n. 47, p. 773
e ss.), mais as informações muito interessantes fornecidas por Gustav Mayer
sobre a parte ainda inédita deste material (ver a sua Biografia de Engels, v. 1,
p. 239 -2 60), m ostram que é a qui qu e se deve procurar o enuncia do do p rin 
cípio materialista dialético de Marx e Engels na sua totalidade e não no Ma
nifesto comunista ou no prefácio à Crítica da economia política, onde a apre
sentação dest e princípio é unilateral - acentuada, no prim eiro, a s ua signi
ficação revolucionária prática e, no segundo, a sua significação teórica, eco
nômica e histórica. Perde-se freqüentemente de vista que as célebres frases
do prefácio à Crítica da economia política sob re a concepção m aterialis ta da
história têm por objetivo apresentar ao leitor “o fio condutor do estudo da
sociedade” de q ue M arx se servi u nas suas pes quisas sobre econo m ia po lítica,
e que ele, por esta precisa razão, não exprimiu, nesta passagem, a totalidade
do seu novo princípio materialista dialético; e, no entanto, isto ressalta clara
mente, tanto do conteúdo quanto da forma dessas observações. Por exem
plo, lê-se: n um a era de revolu çã o social, os hom ens to m am co nsc iê ncia do
conflito que irrompeu e ingressam na luta; a humanidade só se propõe cer
tas tarefas sob determinadas condições; e mesmo a época de grandes trans
formações está acompanhada de uma consciência determinada. Como se
verifica, a questão do sujeito histórico que realiza realmente esta transfor
mação da sociedade, com uma consciência justa ou falsa, não é minima
m ente tratada . Por conseqüência, se se quiser tom ar o princíp io m aterialis ta
dialét ico em sua totalidade, é i ndispens ável com pletar a descrição aqui ofere
cida por M arx da sua nova concepção da história com os seus outros esc ritos

edos
ospequenos
de Engelstextos
(sobretudo aqueles
dos últimos do primeiro
anos). Foi o queperíodo, deum ano,Oem
além há
tentei fazer
capital e
minha pequena obra Kern pun kte der materialis chen Geschichtsauffassung, cit.
63 [Ver, na e d. bras. cit. da Crítica da filosofia do direito de Hegel, p. 151.]
64 Ver Das Kapital, livro 1, p. 336, nota 89 [na ed. bras. cit., livro 1, v. 1, p. 425,
nota 89], bem como a quarta tese das Teses sobre Feuerbach [na ed. bras. de
A ideologia alemã, cit., p. 534 e 538], inteiramente concorde com esta passa
gem. Com o se vê cl aram ente, o q ue Marx considera aqui como o único mé-
M a r xi smo e fi l osof ia ♦ 77

todo materialista e, por conseqüência, científico é justamente o método mate


rialista dialético, que se opõe ao método materialista abstrato e deficiente.
Ver igualmente, na carta de Engels a Mehring, de 14 de julho de 1893 (repro
duzida nos meus Kernpunkte..., p. 55-56 [ver F. Fernandes (org.). Marx-Eng els/
História. São Paulo: Ática, 1983, p. 465]), as observações sobre o que falta ao
méto do materialis ta empregado po r este últi mo na sua Lenda de Lessing e que,
diz Engels, “ñas coisas de Marx e minhas não foi regularmente destacado
de mo do suficiente”: “Nós col ocamos inicialmente - e tínhamos de fazê-
lo - a ênfa se principal, ant es de mais nada, em derivar dos fatos económicos
básico s as co ncep ções políticas, ju rídicas e de mais co nce pçõ es ideo lógicas,
bem co m o os atos m ediados p o r elas. Com isso, negligen ciam os o lado fo r
mal em função do conteúdo: o modo e a maneira como essas concepções
etc. surgem”. Veremos, em seguida, que esta autocrítica de Engels, referida
a escritos seus e de Marx, só em pequena medida é pertinente ao método
que utilizaram. A unilateralidade apontada por Engels aparece bem menos
em Marx do que nele e, mesmo em relação a seus próprios trabalhos, é me
nor do que sugere essa autocrítica. E é preciso dizer que, pela sua convicção
de não ter levado suficientemente em conta a forma, Engels, na sua última
fase, cometeu por vezes o erro de considerá-la de modo não dialético e errô
neo - pensam os em tod as aque las pas sage ns do A nti-D ührin g, de Ludw ig
Feuerbach e especialmente das suas últimas cartas, coligidas por Bernstein (Do-
kumente des Sozialismus, n. 2, p. 65 e ss.), relativas ao “campo de aplicação
da co ncepção m aterialista da h istoria” , passage ns em que Engel s, a noss o juí
zo, tende a cometer o erro que Hegel denunciou no apéndice ao parágrafo
156 da sua Enciclopédia (Werke, v. 6, p. 308-309), um “comportamento intei
ramente sem conceitos”; em termos hegelianos, Engels não ascende ao con
ceito, retornando às categorias de reação, ação recíproca etc.
65 Este po nto de vist a é express o, caracteristicamente, nas observações em que
Proudhon explica a Marx, na sua famosa carta de maio de 1846 ( Nachlass, v. 2,
p. 336), co mo colocava o prob lema: “reintroduzir na sociedade, por uma com
binação econômica, as riquezas que dela foram extraídas por uma outra combi
nação econômica. Noutros termos: na economia política, voltar a teoria da
Propriedade contra a Propriedade, de modo a engendrar o que os senhores,
socialistas alemães, chamam comunidade ” [na ed. bras. cit. de Miséria da
filosofia, p. 202]. Marx, em troca, mesmo qu and o ainda nã o havia el aborado
o seu ponto de vista materialista dialético, já percebera claramente a relação

dialéti ca que ob no
tões econômicas rigaplano
a colocar e resol
político: ver exemplo,
ver, por - teórica ae carta
pratica m ente
a Ruge, de-se
as qu es
tembro de 1843, na qual Marx responde aos “socialistas vulgares”, para os
quais questões políticas, como a da diferença entre o sistema estamental e
o sistema representativo, eram “absolutamente negligenciáveis”, com a indi
cação dialética de que “esta questão apenas exprime, no plano político, a dife
rença entre o reino do homem e o reino da propriedade privada” ( Nachlass,
v. 1, p. 382).
78 ♦ K arl K or sc h

66 Ver, em particu lar, as última s páginas de Miséria da filosofia.


67 [Refer ência a um dos último s parágrafos de Miséria da filosofia (na ed. bras.
citada, p. 160), em que Marx afirma: “Não se diga que o movimento social ex
clui o movimento político. Não há, jamais, movimento político que não
seja, ao mesmo tempo, social”.]
68 Sobre a questão de saber at é que po nto Engel s, em seu últim o perío do , fez
algumas concessões a este ponto de vista, ver, supra, a nota 64.
69 Sabe-se que Engels, no seu ú ltim o pe ríodo (carta a Con rad Schm idt, de 27 de
outubro de 1890, em Dokum ente des Sozialismus, n. 2, p. 69), a propósito das
“esferas ideológicas que pairam ainda mais alto no ar”, a religião, a filosofia
etc., afirmou que elas continham um elemento pré-histórico de “bobagem
prim itiv a” [ver F. fe rn andes (o rg .). Marx-Eng els/História, cit., p. 461-462].
E, nas Teorias da mais-valia (v. 1, p. 44), Marx se refere à filosofia de modo
semelhante, na aparência puramente negativo [ver K. Marx. Teorias da mais-
valia. História crítica do pensamento econômico. Rio de Janeiro: Civilização
Brasileira, 1980, v. 1, p. 27],
7(1Ver especialm ente as ob servaçõ es de Engels sobre o E stado no seu Lud wig
Feuerbach [na ed. bras. cit., p. 201-203],
71 Ver Kritik der politischen Ökonomie (p. liv e ss. [na ed. bras. cit. de Para a crítica
da economia política, p. 14 e ss.]). A obra d o m arxólogo b urguê s Ha m m acher,
Das philosophisch-ökonomische System des M arx ism us (O sistema filosófico-
econômico do marxismo) (1909) apresenta, esp. nas p. 190-206, um quadro
muito elaborado de todo o material filológico e terminológico relativo a esta
quest ão. O q ue distingue Ham m acher dos outros crí ticos burgues es de Marx

éenquanto
que seu exame deste problem
os demais, a teme oBarth,
como Tõennies mé ritosempre
de re correr a todasa asex
se limitam fontes ,
pressõ es ou frases iso ladas de Marx.
72 Ver a ca rta de M arx a Ruge, de se tem bro de 1843 ( Nachlass, v. 1, p. 383).
73 É assim que M arx d efine o term o “rad ical” na Crítica da filosofia do direto
de Hegel [na ed. bras. cit., p. 151],
74 Ver a carta de M arx a Ruge, de setem bro de 1843 {Nachlass, v. 1, p. 383).
75 Ver a introdução e o prefácio à Crítica da economia política [na ed. bras. cit.
de Para a crítica da economia política, p. 3 e ss.].
76 Mesm o em 1843, esta frase não exprimia de mo do inteir am ente corr eto as r eais
concepções de Marx. Na mesma carta a Ruge (setembro de 1843), de que
extraímos as nossas citações, Marx afirma, poucas linhas antes, que as ques
tões que interessam aos representantes do princípio socialista dizem respeito
à realidade do verdadeiro ser humano; mas que, ademais disso, é preciso tam
bém pre ocupar-se com o outr o aspecto desse ser e fazer da ex istência teórica
do homem (logo, da religião, da ciência etc.) o objeto da crítica. Nesta pers
pectiva, po de-se re su m ir a evolução do pen sa m ento de Marx do seguinte m o
do: ele começou a criticar a religião do ponto de vista filosófico, depois a re
M a r xi sm o e fi l oso fi a ♦ 79

ligião e a filosofia do ponto de vista político e, enfim, a religião, a filosofia,


a políti ca e t odas as outras ideol ogia s do p onto de vist a econô mico . São m ar
cos dessa evolução: 1) as observações de Marx no prólogo da sua dissertação
filosófica (crítica filosófica da religião); 2) a notação sobre Feuerbach, na
carta a Ruge, de 13 de março de 1843: “Os aforismos de Feuerbach só não
me sati sfaz em n um ponto: ele põe demasi ado o acento na naturez a e dem a
siado pouco na política. E esta é, porém, a única aliança capaz de permitir
que a filosofia atual se torne verdade”. Ver também a conhecida passagem da
carta a Ruge, de setembro de 1843, em que Marx afirma que a filosofia se
“secularizou” e , pois, que “a própria consciência fi losófica e nco ntra-se eng a
ja da nos to rm ento s da luta, nã o ap en as exterio rm ente , mas ta m bém in te
riormente”; 3) os passos da Crítica da filosofia do direito de Hegel, em que
M arx af irma que “a r elação entre a indústria, entre o m un do da riqueza em
geral, e o m un do políti co é um problem a capit al dos tempo s m od ern os”, mas
que este problema, “posto pela realidade política e social moderna”, situa-se
necessariamente fora do status quo da filosofia alemã do direito e do Estado,
mesmo na sua forma “última, a mais conseqüente e a mais rica”, a que Hegel
lhe forneceu (ver Nachlass, v. 1, p. 68; Doku men te des Sozialismus, v. 1,
p. 386-387; Nachlass, v. 1, p. 380, 388-389 e 391 [na ed. po rt. cit. da dis ser 
tação, p. 124-125 e 218-220; na ed. bras. cit. da Crítica filosofia do direito
de Hegel, p. 149, 151]).
A este respeito, são particularmente eloqüentes as declarações de Lask no se
gundo capítulo da sua “Rechtsphilosophie” (Filosofia do direito), em Festgabe
fü r Kuno Fischer (Homenagem a Kuno Fischer) (v. 2, p. 28 e ss.).
Ilustra-o perfeitamente a obra, profu nda men te influenci ada - no seu espirito e
no seu m étod o - pela f ilosofía idea lista alemã, do general Cari von Clausewi tz,
Da guerra [ed. bras.: Da guerra. São Paulo: Martins Fontes, 1979]. No
capítulo 3 do livro 2, Clausewitz indaga se deve falar-se de uma arte ou de urna
ciência da guerra e conclui que“é mais correto dizer arte que ciência da guerra”.
Mas isto não lhe basta: retoma a questão e afirma que, em última análise, a
guerra “não é, no verda deir o senti do do termo , nem u ma arte, nem um a ciên
cia” e, na su a forma m odern a, também não é um “ofi cio” (com o o foi, ou tro ra,
ao tempo dos condottieri). Na realidade, a guerra é sobretudo “um ato do
comércio humano”. “Dizemos, pois, que a guerra não pertence ao domínio
das artes e das ciências, mas ao da vida social. Ela é um conflito de grandes
interesses resolvido sangrentamente, e é apenas nisto que difere dos outros
conflitos. Seria melhor compará-la, mais que a qualquer arte, ao comércio,
que também é um conflito de interesses e de atividades humanos; ela se
assemelha ainda mais à política, que, por seu turno, pode ser considerada,
pe lo m enos em parte, um a espécie de co mércio em grande escala. Ademais,
a política é a matriz a partir da qual a guerra se desenvolve; seus lineamentos
já fo rm ados ru dim enta rm ente estão nela contidos com o as pro priedades dos
seres vivos nos seus embriões” (la. ed., 1832, v. 1, p. 143). Pensadores científico-
positivistas m odernos, prisioneiros de ca tegorias metafísicas rígidas, gosta
80 ♦ K arl K or sc h

riam de objetar a esta teoria que o seu célebre autor confunde o objeto da
ciência da guerra com esta pró pria ciênci a. No e ntanto , Clausewi tz sabia mu ito
be m o qu e é um a ciência no sentido vulgar e não dialético. Ele afirma expressa
m ente que aqu ilo que a linguagem corrente cham a ora de arte, ora de ciê ncia
da guerra não pode ser o objeto de uma ciencia “no verdadeiro sentido do
termo” porque não se trata aqui de uma “matéria inerte”, como ñas artes (ou
ciências) mecânicas, nem de um “objeto vivo, mas passivo e submisso”, co
mo ñas artes (ou ciências) ideais, “mas de um objeto que vive e reage". Um
tal objeto pode, todavia, como todo objeto não transcendente, “ser esclare
cido e mais ou menos exposto em sua coesão interna pela investigação do
espírito” e “isto é suficiente para justificar uma teoría” (ibid., p. 141, 144).
A semelhança entre esta concepção de teoria de Clausewitz e a de ciência no
socialismo científico de Marx e Engels é tão evidente que não precisa ser co
men tada - e não surpreende, já q ue ambas derivam da mesma fonte, a id éia
de ciência e de filosofia dialéticas de Hegel. Além disso, as glosas dos epí

gonos
em seudetom Clausewitz sobre
e conteúdo, daseste aspecto dadesua
observações teoria semarxistas
inúmeros aproximam muito,
científicos
modernos sobre a teoria de Marx; citemos umas poucas frases do prefácio
de Schlieffen à sua edição do livro de Clausewitz: “Clausewitz jamais con
testou o valor em si de uma teoría sensata; o seu Da guerra está simples-
men te saturado do esfor ço para coloc ar a t eoria em concordân cia com a vida
real. É isto o que explica, em parte, a predominância dessa maneira de ver
filosófica, que nem sempre agrada ao leitor'contemporáneo” (p. iv). Como
se vê, o marxism o não foi o único o bjeto de vulgarização na segunda me tade
do século XIX.
79 Esta liga ção entre o espírito não revo lucioná rio e a inco m preen são to tal do
caráter dialético da crítica marxista da economia política é particularmente
visível em E du ard Bernstein; el e conclui se u estud o sobre as teorias do v alor
com um a observaç ão que, com parada com o senti do verdadeiro da teoria do
valor de Marx, soa comovedora: “Atualmente, estudamos [!] as leis de for
mação dos preços por uma via mais direta que aquela que se vê embaraçada
por essa coisa metafísica ch am ad a ‘valor’” ( Dok um ente des Sozialismus, n. 5,
1905, p. 559). De igual modo, entre os idealistas do socialismo,-partidários
do regresso a Kant ou outros, o ser e o dever ser novamente se dissociam; ver
a crítica ingênua de Herlander, no já citado M arx und Hegel (p. 26): “Pela
sua própria natureza [!], a maioria dos homens pensa kantianamente, isto
é, faz uma diferença entre o ser e o dever ser”. Ver, ainda, a notação de Marx
sobre John Locke, na Crítica da economia política (p. 62 [na ed. bras. cit. de Para
a crítica da economia política, p. 63]), na qual se afirma que este penetrante
filósofo burguês “demo nstrou até, num a ob ra espe cia l, que a razã o burguesa
era a própria razão humana normal”.
80 A melhor apresentação de todo este status causae metodológico encontra-se
no segundo dos dois artigos que Engels publicou, a 6 e 20 de agosto de 1859,
no hebdomadário alemão de Londres Das Volks (O Povo), a propósito da Crí
M arxi smo e fil os ofia ♦ 81

tica da economia política de Marx, então recentem ente ed itada, col igi dos no
número 4 dos D okum ente des Sozialismus (1900) e hoje mais acessíveis em
Friedrich Enge ls-Bre vier [Friedrich Engels - Breviário], de Ernst Drahn (1920,
p. 113 e ss.); as ex pres sõ es que citamos, e o utr as que vã o no m esm o se ntido,
estão às páginas 118-119. (“Poder-se-ia acreditar que o reino da velha meta
física, com suas categorias rígidas, tinha recomeçado na ciência”; “numa
época em que o conteúdo positivo da ciência de novo preponderava sobre
o aspecto formal”; as ciências da natureza “entravam na moda” e também
“a antiga maneira metafísica de pensar, inclusive a vulgaridade extrema de
Wolff”;“o modo de pensar filisteu limitado da época pré-kantiana reproduz
até a mais extrema vulgaridade”; “o caminho anquilosado do senso comum
burg ués” e tc.). [Ver os dois artigos, sob o títu lo “A Contribuição à crítica da
economia política de Karl Marx”, em K. Marx e F. Engels. Obras escolhidas.
Rio de Janeiro: Vitoria, 1961, v. 1; as citações encontram-se na p. 308.]
Sobre esta distinção entre as relações da concepção de história de Hegel com a de

Marx
ibid., ep.as120
relações do bras.método
[na ed. cit. nalógico de Hegel p.com
nota anterior, o de Marx, ver Engels,
310].
Ver Nachlass, v. 1, p. 319. A frase de Hegel, referida imediatamente pouco
antes (e extraída da Fenomenología do espirito [ver G. W. F. Hegel. Fenome
nología do espírito. Petrópolis: Vozes, 1992, v. 1, parte 1, p. 47]), está mais
amplamente reproduzida nos meus Kernpunkte, cit., p. 38 e ss. A incapa
cidade de apreender esta relação de identidade entre a forma e o conteúdo é
o que distingue o ponto de vista transcendental, que toma o conteúdo como
empírico e histórico e a forma como necessária e universalmente válida, do
p o nto de vista dialé tico - idealista ou m aterialista - , para o qual a fo rm a
como tal se encontra também envolvida na caducidade do empírico e do his
tórico e, por conseqüência, nos “tormentos da luta”. Verifica-se aqui,
claramente, como a pura democracia e a pura filosofia transcendental se vin
culam mutuamente. [Quanto à frase de Marx, ver, infra, a nota 9, no ca
pítulo “A co ncep ção m aterialista da his tó ri a”.]
Ver Engels, ibid. [Friedrich Engels-Brevier, cit.], que acrescenta considerar a
elaboração deste método, base da Crítica da economia política de Marx, co
mo um result ado que “ pouco fica a dever em im portânc ia à próp ria concepção
mate rialista fu nd am en tal” [na ed. bras. cit ., p. 310]. Ver, ademais, as conh ecidas
afirmações de Marx no posfácio à segunda edição alemã de O capital
(1873).
Todas estas expressões foram extraídas do texto, publicado postumamente,
“Introdução geral à crítica da economia política”, que é o documento mais
instrutivo para o estudo da verdadeira posição metodológica de Marx e
Engels. [Trata-se do texto que, na ed. bras. cit. de Para a crítica da economia
po lítica, encontra-se às p. 3-21.]
Ver A nti-D ührin g [ed. bras. cit., p. 32], Um exame mais atento desta passa
gem e de escritos ulteriores de Engels nos mostra que, sob o condiciona-
82 ♦ K arl K or sc h

mento “em última instância” de todos os fenômenos sócio-históricos (in


clus ive a s form as sócio-históricas de consciência) pela econ om ia, ele percebe
ainda, em último lugar, um “condicionamento na tural” ( o último de todos!) -
mas, com isso , ele apenas acentua consideravelme nte um a tend ência j á pr e
sente em Marx. Contudo, como o mostra a frase que citamos, essas derradei
ras fórmulas de Engels, que complementam e fundamentam o materialismo
histórico, não modificam em nada a concepção dialética da relação entre
a consciência e a realidade.
86 Sabe-se que a expressão “conceitual ização pré-cien tífica” é da lavra do k an 
tiano Rickert. Objetivamente, é natural que o conceito surja onde quer que
se aplique às ciê ncias soc iais um pon to de vista transcenden tal ou dialético (p or
exemplo, igualmente em Dilthey). Marx distingue do modo mais nítido e
prec iso “a apre en são do m undo pelo cérebro pensa nte ” da “ap ro pria ção deste
mundo pela arte, pela religião, pelo espírito prático” (“Introdução geral à
crítica da economia política”, p. xxxvii [na ed. bras. cit. de Para a crítica da
economia política , p. 15]).
87 Ver a s conseqüências do novo p on to de vist a m aterialista pa ra a religião e
para a família, que M arx desenvolveu prim eir o na quarta tese das Teses sobre
Feuerbach e, depois, em várias passagens de O capital.
88 [Ver, na ed . bras. cit. de A ideologia alemã, p. 533 e 537.]
89 Ver a frase freqüentem ente citada que se enco ntra no fim do prefáci o (1873)
à segunda edição alemã de O capital [na ed. bras. cit., livro 1, v. 1, p. 17].
50 Ver, de um lado, o suplem ento ao parágrafo 4 e, de outro , os últim os p ar á
grafos do prefácio à Filosofia do direito [na ed. port. cit., p. 13],

91 [Ver, na ed. bra s. cit. de A ideologia alem ã, p. 535 e 539.]


92 Ver sobre tudo as af irmações de Lenin, no seu artigo “S ob a ban deir a do m ar 
xismo” ( Kommunistische Internationale, n. 21, outono de 1922, p. 8 e ss.).
[Ver, infra, a nota 3, no capítulo “A concepção materialista da história”.]
93 [Ver, supr a, a n ota 63.]
ESTADO ATUAL DO PROBLEMA
(ANTICRÍTICA)

1.

Habent sua fata libelli.' O livro, publicado em 1923, sobre o


“problema teórico e prático da mais alta importância”2das relações
entre o marxismo e a filosofía não desconhecia, apesar do seu caráter
rigor osam ente científico, o s vínculos concretos que t inh a com as lutas

da
no época,
plan o que então
teórico, eleatingiam o seudaparoxismo.
encon traria, Tudo leva
parte da tendência que va
coma crerbatia
que,
na prática, an im osidad e e recus a. Em troca, pode r-se-ia esperar que a
cor rente cuja tendên cia prática el e sustentava com seus meios teóricos o
exam inaria com o tal, com imparcialidade e mesm o com s impatia. Pois
ocorreu exatamente o contrário. Eludindo as premissas e as conse
qüências prática s da tes e defendida em Marxismo e filosofia, apreen
den do de m od o u nilateral a pró pria tese e, assim, alteran do-a , a crítica
operada sobre este livro em nome da ciência e da filosofia burguesas
assum iu um a atitu de posi tiva diante do se u con teúdo teórico. Em v ez
de expo r objetivam ente e criticar o resultado efetivo globa l, revo lucio
nário tanto na teoria quanto na prática, que esta investigação pre
tendia fun da m en tar e d esenvolver, ela val orizou parcialm ente aquilo
que o po nto de vista burguê s considera como o “lado bom ” - o reco
nhe cim ento das real idades es pirituais - , ignoran do aquilo qu e, para o
mesmo ponto de vista, constitui o “lado mau”: a proclamação da des
truição total e da superação dessas realidades espir ituais , bem com o da

sua base material,


material median
e espir itual, te a ação,
d a classe simulta nea mente
revolucionária, p rática
li eia saud e teórica,
ou esse resu l
tado parcial com o um progres so ci entífico.3D e ou tro lado, repre sen
tantes credenciados das duas principais tendências do “marxismo”
oficial contemporâneo, com seguro instinto, logo farejaram neste mo
desto ensai o um a rebeliã o herética con tra alguns dogmas co muns ainda
hoje - e apesar de todas as oposições aparen tes - às duas confiss ões da
84 ♦ Kar i . K orsch

velha igreja marxista ortodoxa: dian te do concí lio reunido , cond ena ram
as idé ias expressas neste livro com o desvio da doutrina estabelecida,A
À primeira vista, o que chama a atenção, nos argumentos crí
ticos com os quais os representantes ideológicos dirigiram “teorica
m ente ” a acusaçã o de her esia pron unc iada co ntra Marxismo e filosofia
nos dois congressos de 1924, é, antes de tudo, a total concordância do
seu conteúdo - algo surpreenden te qu ando se levam em conta as diver
gências teóricas e práticas que , sob tantos aspectos, sepa ram os seus au 
tores. Qu an do o socialdem ocrata We ls cond ena as id éias do “Profes
sor Korsch ” com o heresi a “comu nista” e quand o o com unis ta Zinovi ev
as conde na com o heresia “ revisionista” , o que se tem é apenas um a dife
rença de terminologia. De fato, todos os argumentos que Bammel,

Luppol, B ukh pertencente


outros críticos arin, D eb orin,
s aoRe la I<un,
Partido CoRudas,
munistaThdirigi
alhe ram
ime r,contra
Du ncaskemi
re
nhas idéi as, seja diretame nte, seja indiretam ente (em relação com o r e
cente processo de heresia, ao qual me referirei, con duz ido c ontra G yõrgy
Lukács), todos esses argumentos tão-somente retomam e desenvol
vem aqueles que o teórico do Partido Sociald emocrata , Karl Kautsky, re
presentante credenciado da segunda fração do marxismo oficial, já
havia formulado há algum tempo numa detalhada resenha do meu
livro, publicada na revis ta teórica da social democracia alem ã.5 Isto
significa que, se Kautsky imagina combater, neste texto, as idéias de
“todos os teóricos do comunismo”, a linha divisória, nesta discussão,
de fat o se situa alhures. Neste debate fun da men tal sobre a situação do
marxismo contemporâneo, previamente anunciado por inúmeros
sinais e hoje aberto, encontraremos, no que diz respeito às questões
decisivas (a despeito de querelas secund árias e passageiras) , de um la
do, a anti ga ortod oxia marxista d e Kauts ky e a nova ortod ox ia do m ar
xismo russo ou “leninista” e, de outro, todas as tendências críticas e
avan çadas d a teoria do movim ento operário contem porâne o.
Esta situação de conjunto da teoria marxista contem porân ea pe rmi
te compr eende r po r que as críticas a meu livro, na sua maioria, ocu para m-
se menos do do m ínio bem limit ado defini do pelo s termo s marxismo
e filosofia do que de outros dois problemas que assi nale i de passage m,
sem tratá -lo s a fundo . Trata-se, em prim eiro lugar, da própria concep
ção do m arxis mo sobre a qual rep ousa m todas as asserções do livro e ,
Estado atu a l do pr obl ema (anticrI ti ca) ♦ 85

depois, de u m a questão mais ger al, sobre a qual se desenro la a inve sti
gação particu lar conce rnen te às relações entre o m ar as m o e a filosofi a,
ou seja: a investigaçã o sobre o conceito marx ista de ideologia, o u sobre a
relação entr e a consciência e o ser. É neste último p on to q ue as concl u
sões do m eu livro se apr ox im am mu itas v ezes dos estudos dialéti cos de
Gyõrgy Lukács, publi cados quase a o me smo te mpo sob o títu lo Geschichte
und Klassenbewusstsein. Studien über marxistische Dialektik (História
e consciência de classe. Estudos de dialética marxista),6 e que se fun
dam sôbre um a base filosófica mais ampla. Em um epílog o de m eu livro,
declarei esta r fundam entalm ente de acordo com G. Lukács, reserván do
me par a ulteri orm ente tra tar de mod o mais pre ciso das divergências, tan 
to sobre o conteúdo quanto sobr e o método, que pod eriam existir entre
nós. Est a declara ção foi apresentada, sob retud o pelos críticos de ob e
diência comunista, como o reconheci mento de um acordo completo - e
eu mesmo, naquele m om ento, não tinha suficientemente escl arecida a
dimensão das divergências (não apen as “particu lares ”, mas ve rda de ira
me nte fu ndam entais) em relaç ão a Lukács, não obstan te os vários pon
tos com uns de nossas tendências teór icas . P or est a razão, e po r m uitas
out ras q ue n ão cabe discutir aqui, recusei a s várias sugestõ es de m eus
adversári os do Partido Co m unista para “ delim itar” as minhas idéias
em face das de Luká cs; pref eri su po rta r com p aciência que os críticos
assimilass em aos de Luká cs - com o eles gostam de fazer - os meus
pró prio s “desvios” diante da “doutrina m arxista-leninista”, fora da qual
nã o há salvaçã o. A inda hoje, qu and o não m e é mais possível acrescentar
à segunda ed içã o inalterada do m eu livr o um a sem elhante aprovação
fu nd am en tal das idéia s de Lukács, e qua nd o todas as razões que m e im 
pediam de me exprimir claram ente sobre as nossas divergências estão
caducas, creio, no essencial, encontrar-me objetivamente ao lado de
Luká cs na atit ud e crítica em f ace da antiga e da nova orto do xia m ar 
xist a, socialdem ocrata e com unista.

2 .
O prim eiro c ontra -ataque d ogmático que os c ríti cos da antiga e
da nova ortodox ia m arxist a dirigiram contra a concepção do marxis
mo (antes de tudo, não dogmática e antidogmática, histórica e crítica e,
86 ♦ K arl K ors ch

conseqüentemente, para fal ar com propri edade, materialista) que expo


nho em Marxismo e filosofia, ou seja, no fundo, contra a aplicação da
concepção materialista da história a ela mesma, tal contra-ataque é
apresentado como um a obj eção de ordem “histórica” e jamais como
“dog má tica”: fui censurado po r manifestar, no livr o, um a predileção
objetivame nte in justifi cada pela for ma “primitiva ” que Marx e Engels
tinh am inicialmente da do às novas i déias dial ético-materialistas, a pa r
tir da qual constroem um a teoria r evolucionária, em imediata rela ção
com a práxi s revolucionári a. Por isto, eu teria subestimado o valor positi
vo do desenvolvimento que os marxistas da Segunda Internacional
proporcio nara m à teoria de Marx e de Engels; e, mais ainda, eu teria
negli genci ado po r comp leto que e stes últi mos, po steriorm ente, m od i
fica ram pro fun dam ente e desenv olvera m aquela teoria srci nal, o que
lhes pe rm itiu alçá-la à sua form a histórica mais acabad a.
Coloca- se aqui, es tá claro, uma que stão da máxim a imp ortân cia
para a interp retação histórico-m aterialista da teoria marxista: a ques
tão das fases sucessivas de desenvolvimento que o marxismo percorreu,
da sua prim eira elaboraçã o à época atual, na qual se vê estil haçad o em
diferentes form as históricas; a questão das relações dessas diversas fa
ses entre si e de sua signif icação para o inteiro dese nvolvim ento his tó
rico da t eoria do m ovimento operário m oderno.
É evidente q ue ess as fases históricas de des env olvim ento serão
consideradas de modo muito diferente segundo se adote o ponto de
vista dogmático de uma ou outra das várias tendências “marxistas”
que atualm ente se confron tam viol entamente, t am bém no plano teó 
rico, no interior do movimento operário socialista. Não uma, mas
inúm eras tendências bem disti ntas emergiram do colap so da Prim eira
Intern acion al nos anos 1870, assim com o da bancarro ta, cau sada pela
guerra mundial, da Segunda Internacional - e todas reivin dicam M arx

e dispoutam
corta a propried
n ó górdio ade
dess as do “anel
quere verdadeiro”
las dogmáticas para.7C
se ontud o, qu
colocar noand
terro e
se
no do c onhe cim ento dial ético (o que simbolicamente se exprime pela
afirmação de que o “anel verdadeiro” se perdeu); se se recusa, pois,
mensurar dogmaticamente, graças a não se sabe qual câno ne a bs trato
de uma “ do utrin a p ura e autênti ca”, a concordância m aior ou m enor
das diver sas variantes em m atéria de teoria marxista; e s e se considera,
Estado atu a l do pr obl ema (an ti crít ica) ♦ 87

ao contrário, todas essas ideologias marxistas passadas ou presentes


de modo unicamente histórico, materialista e dialético, como pro
dutos de um desenvolvimento hi stór ico - então, e m função do pon to
de vista do qual pa rtiu a anál ise, chegar-se-á a um a apreciação m uito
diferente das diversas fases desse processo de desenvolvimento e de
suas relações recíprocas.
No m eu livro, que tra ta do problema particular das relações entre
o mar xism o e a filosofia, distingui, a este respeito, os três grandes pe
ríodos de desenvolvim ento percorridos, desde o seu nascimento, pela
teoria marxista, n o curso dos quais suas r elações com a filosofia viram -
se modificadas de maneira característica.8Este ponto de vista parti
cular, decis ivo apen as pa ra a his tória de Marxismo e filosofia, justifica
especialmente a delimitação (pouco realçada sob ou tros po nto s de vis
ta) do segundo período : conside ro-o com o o dos anos 1850, inici ado
com a ba talh a de 1848, e da época que se lhe se guiu, assinalada p or um
vigor sem preced entes do capital ismo, períod o que envolve inclusive a
liquidaç ão, no s anos 1850, de todas as organizações e cor rente s em an 
cipadoras da cl asse operária constituídas ante riorm ente - e considero
que esta segun da fas e se pro lon ga até cerca do fim do século.
É certo que se pod eria pergu ntar s e um tal pro ced im ento não é
exces siva mente abstr ato, abarcando um período tão longo e negli gen
ciando vários m om en tos signi ficativos para a evoluç ão global do m o
vim ento operá rio, aind a que se trate som ente de expor as relações entre
o marxismo e a filosofia. Do ponto de vista histórico, é incontestável
que, neste dom ínio, não houv e transforma ção mais dec isiva do qu e a ex
tinç ão to tal da filosof ia, que sobreveio em m ead os do século X IX e que
atingi u não apenas a intei ra burguesi a alemã, mas tam bém - em bora
de ou tra m aneira - a classe operária a lemã. C ontud o, u m a história
detalh ada das rel ações entre a teoria m arxista e a filosofi a na se gund a

metade d traços
ração dos o século XIX,
gerai qu se
s des e não po deria
m ovim ento conten tar-se
histórico, com aente
seguram recufaria
pe
aqui distinções m uito im portan tes. Q ua nto a isto, meu liv ro, de fato,
deixa em abe rto um grande nú m ero de questões, que, ao que se i, ainda
não fo ram objeto de nenh um exame. Assim, po r exemplo, qu an do F.
Engels, no final de seu livro Ludwig Feuerbach e o fim da filosofia
clássica alemã, descrevia, em 1888, numa frase que ficou célebre, o
88 ♦ K arl K or sc h

movimento operário alemão como o “herdeiro da filosofia clássica


alemã”, essa frase ta lvez de vesse ser avaliada com o um signo ante cipa -
do r do terceiro período, n o curso do qual as relações entre o marxismo
e a filosofia re tom ari am um caráter positivo (em fac e desta “espécie de
renasc imento da filo sofia clássica alemã no estrangei ro, par ticu larm en 
te na Inglaterra e nos paíse s escandinavos e mesm o n a Ale manh a”9), o
que, é verdade, a ssum iu inicialmente, graças a os marxistas kan tianos
revisi onista s, a form a de um a inserção, na teoria m arxista, da palavra
de or dem burguesa do retorno a Kan t. Ademais, no que toca à s quatro
década s intermed iárias, 1850-1890, caber ia determ inar re trospe cti
vam ente as form as precisas pela s quais esta “antifilosofia” aind a em si
filosófica (co mo designamos a teoria dialético-m aterialista, crítica e
revolucio nária de Marx e de En gels nos anos 1840) en co ntro u, no d e
curso da época seg uint e, um prolonga me nto ambivalent e: de um lado ,
com o progressivo abandono de toda filosofia em favor da “ciência”
soci alista, to rna da “positi va”; de outro, e sim ultane am ente, com um a
renovação filosófic a (aparentemente contrária à primeira tendência,
mas, de fa to, complem entand o-a), que se pode vislumbra r inici almente,
desde os ano s 1850, nos p róprio s Marx e Engels e, depois, nos seus me lho 
res discípulos (A . Labriola, na Itália, Plekhanov, na Rússia), um a re nova
ção que s e pode definir, quan to ao seu caráte r teórico, como um a espécie
de re tor no à filosofia de Hegel e não simple smente à “antifilosofia” essen
cialmente crítica e revolucionária da e squerda hegelianizante do Sturm
undDrang (Tempestade e imp etu os ida de )10dos anos 1840 .“
Esta tendê ncia filosófica do desenv olvimento u lterior da te oria
de Marx-Engels não se manifest a apenas d e forma direta na m uda nça de
atitud e em face da filosofia, cuja prov a é o Ludwig Feuerbach de Engels.
Ela i mplic a tam bém determinadas conseqüênc ias para o desenvolvi
mento da economia marxista (a Crítica da economia política,'2 de
1859, e O capital de Marx mo stram -no d istintame nte) e, mai s ainda,
para os trabalhos pertinentes às ciências da natureza, que são espe
cialment e devidos a Engels (dem onstra m -no o seu m anu scrito sobre
A dialética da natureza e o seu texto de polêmica contra Dühring).
Portanto, é apenas na medida em que o mo vime nto operário alemão
adotou, qua ndo do nascimento da Segun da Internacional, a teoria de
Marx-Engels por inteiro e, por conseguinte, também os seus ele-
Estado atu a l do pr obl ema (anticrIt ica) ♦ 89

mentos filosóficos, é apenas então que el e pode ser considera do como


o “herd eiro da filosofia cl ássica alem ã”.
Todav ia, nos ataques que dir igem co ntra a min ha d isti nção d os
três grandes períodos de desenvolvimento do marxismo, os meus
crí ticos não ab orda m esses problemas. Não proc uram dem on strar s e
essa distinçã o seq uer é ut ilizável para os meus lim itados p ropó sitos.
Eles me imputam, antes de mais nada, uma tendência a apresentar,
de mod o pu ram en te negat ivo, todo o desenvolvimento históri co do
marxismo na segunda m etade do séc ulo XIX como u m proces so ú n i
co, linear e unívoco - processo de degenerescência da teoria revolu
cionária o riginal de M arx e de Engels e isto de um a m an eira geral, sob
todo s os po nto s de vis ta e não som ente no que tange às relações entre
marx ismo e f ilosofia. 13 Eles polem izam ard oro sam ente co ntra u ma
concepção que jamais professei; creditando-me falsamente a idéia
absurda de que Marx e Engels seriam “responsáveis” pela vulgari
zaçã o e pelo em pob recim ento da sua próp ria teori a, eles a com batem
e não se cansam de de m ons trar o caráter posi tivo - que ningu ém
contest a - da evol uçã o que conduziu do com unismo revol ucioná rio
srcinal do Manifesto de 1848 ao “marxismo da Primeira Interna
cional” e, depois, ao marxismo de O capital e das últimas obras de
Marx e Engels; e chegam assim, imperceptivelmente, a reivindicar
também para os “marxistas da Segunda Internacional” o “mérito
positivo” do desenvolvim ento da teoria marxista, que nin guém nega
a Marx e a Engels no seu último período. Mas é precisamente aqui
que e merge, visivel mente, a tendência dogmática dissimulad a, desde o
início, sob os at aques aparen tem ente dirigi dos con tra o meu m od o de
apresentar o desenvolvimento do marxismo na segunda metade do
sécul o XIX - trata-se, tão-só, de defender dogm aticam ente a tes e orto
doxa e tradicional sobre o caráter fun da men talm en te ma rxista que teri a
sido conservado pela teoria da Segunda Internacional até agora,
segundo uns (Kautsky), ou até, pelo menos, o “pecado o riginal” do 4 de
agosto de 1914, segundo outros (os teóricos do Partido Comunista),u
É em Ka utsky que se manifesta m ais clar am ente esta estreiteza
dogmática da ortodoxia marxista em face do desenvolvimento his
tórico real do marxismo. Para ele, não foi somente a transformação
que as diver sas correntes da Segunda Intern acion al imp use ram à teo-
90 ♦ K arl K or sc h

ria de Marx-Engels, mas t am bém “o aperfeiçoamen to do m arxismo


já realizado por M arx e Engels desde o Manifesto inaugural (1864 )15
até à ‘In tro du çã o’ de Engel s à nova edição (1895) de As lutas de classes
na França, de Marx”, o que pe rm itiu “ alargar” a teoria da revolução so 
cial do proletariad o e fazer dela uma t eo ria“váli da não apenas para o está
gio da revolução, mas também para as épocas não revolucionárias”
(ibid., p. 313). Aqui, Kautsky, ainda que d esign and o-a c omo u m a“teo-
ria d a luta de classes ”, retira d a teo ria de M arx e En gels o seu c aráte r
essencialmente revolucionário. Mas e le não tard ou em avançar ainda
mais nesta direção e, na sua última grande obra sobre A concepção
materialista da história, fez tábula rasa da rela ção fun da m en tal en tre
a teoria ma rxista e a luta proletária. E le protesta co ntra a “acusa ção” de
em pobrec imen to e vulgarização do marxismo que eu teri a supos tam en
te l evantado c on tra Marx e Engels em seu últi m o período - porém , o
que prete nde é, apenas, di ssimular a sua próp ria tentativa para a poiar
(de novo, escol ástica e dogm aticam ente) sobre a “auto rida de ” de Marx
e de En gels o recente a band ono, p or ele e po r outros, dos último s ves
tígios, há m uito quase irr econhecí veis, da teori a m arxista que o utro ra
assum iram da boca para fo ra.
Mas, tamb ém aqui, comprova-se a inteir a solidari edade teórica
entre a nova orto doxia c om unista e a velha ortodo xia socialdemocrata.
Quan do os críticos do Partido Comunista me acusam de, “mediante
uma excessiva abstração e uma esquematização da problemática,
obscurece r conceitos como o de marxismo da Segunda Internacional”
(Bammel, ibid., p . 13), é preciso ve r, sob essa arg um ent açã o, a tentati va
para defender dogmaticamente este mesm o marxismo do qual Lenin
e os seu s jamais recusara m a herança espiritual, a despeito das palavras
que pronu ncia ram no ardor do combat e. Como é usual entre os “teóri
cos” do Partido Comunista em casos semelhantes, o meu crítico co

m
dounmista
se prote
o dá ge
da re sponsa bilidadealpessoal
- ele sedeabriga
fazers eob
ssaa apologia
arxism Segunda Internacion eno rm e
som bra de Lenin. Para mo strar como, em Marxismo e filosofia, a “abs 
traç ão ” e a “esquem atizaçã o” obscurece m o conceito de “m arxis mo da
Segunda In tern acio na l”, meu críti co, conforme um há bito esco lástico
bem estabelecido, cita uma frase em que o grande tático Lenin re co
nheceu, nu m a con juntu ra táti ca particularm ente complex a, “o mérito
Estado atu al do pr obl ema (an ti crít ica) ♦ 91

histórico da Segunda Internacional” no desenvolvimento prático (e


não t eórico) do m ovim ento o perário m od ern o.16Mas l ogo o te órico
comunista se atrapalha: pressente que se poderia aplicar à teoria
socialdem ocrata esta opinião de Leni n sobre os “lados bo ns ” da práxis
socialdemocrata; porém, ao invés de concluir isto com clareza, ele
balb ucia apenas, “de m aneira excessivam ente abstrata e obscura”,
qua lque r coisa com o “não seria difícil dem on strar que se po deria sus
ten tar o mesm o, em algu ma medida , a propósito do fun dam ento teó 
rico do m arx ism o” (ibid., p. 14).
Ora, a verdade (que, num de meus artigos publicados alhu
res, con trib uí pa ra escl arecer ) sobre o caso do “marx ism o da Segund a
Inte rn acio na l” é a seguint e: de f ato, o mo vim ento socia lista, des pe r
tado e fortalecido nas novas condições hist óricas do últim o terço do
século XIX, jamais adotou - como s e pret endeu - o marxismo em sua
totalidade.'7 Co nfo rm e a ideologi a dos marxist as ortod oxo s, e dos seus
adversários que se situam no mesm o terren o dogm ático, “a adesão ao
marxismo”, nesta fase do movimento operário moderno, teria sido,
tan to n a teoria qu anto na pr áti ca, a a des ão ao marxismo em sua tota
lidade·, na realidade, tal adesão diz respeito, também teoricamente, a
algum as “teo ria s” econô micas, políticas e soc iais cuja significação ge
ral já vinha m odificad a pelo fa to de estarem d esvinculadas da persp ec
tiva r evo lucion ária de Marx, ademais de m utiladas e falsificadas em
seu pr óp rio con teúd o. E a ênfase sobre o caráter rigorosamente “mar
xista ” do programa e de toda a teoria des te nov o mo vim ento op erário
socialde mo crata não se situa na época em que el e mais s e ap ro xim a
va, na sua práxis, à teoria marxiana, época na qual este movimento
contav a com a estreita colaboração dos “dois ve lhos de Lon dres” (e de
Friedrich Enge ls sozinho, após a morte de Marx, em 1883). P arado xal
mente, ela data do período posterior, quando já surgiam, na práxis
política e sindical, as novas tendências que, em seguida, encontrarã o
a sua expressão ideológica no que se designa por “revisionismo”. No
m om ento mesmo em que a ori entaçã o práti ca do mo vimento alc an
çava o seu mais al to po nto revoluci onário - sob o contragolpe do pe 
ríod o de cri ses e depressões da dé cada de 1870, sob a força da reação
política que se seguiu à derro ta da Com una de Paris, em 1871, sob o
efeito d a lei anti-socialista na Alemanha, do fracasso p ós- 1884 da nas 
92 ♦ Kari . K orsc h

cente agitação socialista na Áustria e da repressão às reivindicações


em prol da jorn ada de oito horas na Améri ca, em 1886 - , nesse m o
mento a teoria do movimento era essencialmente democrática, no
sentido do “parti do po pu lar”, lassalliano, dü hrin guia no; e só era m ar
xista do modo mais esporádico."’ Depois, a partir dos anos 1890, as
coisas experim entam um novo im pulso na Europa e particularm ente
na Alemanha; com a anistia aos cornmunards na França (1880) e a rev o
gação da lei anti-socialista na Alemanha (1890 ), surgem os prim eiros
indícios de um manejo “mais democrático” do poder estatal no con
tine nte europ eu. É som ente então qu e se vê surgi r, nes te contexto prá 
tico novo, um a espécie de de fesa teórica e de consolação metafísica: a
adesão form al a todo o mar xismo . É neste sentid o que se pod e inv erter

asionismo”
rela ção com um ente aceita
de Bernstein entre o “marx
e, sobretudo, ism o” ade Kauts
caracterizar ky e o “revi
ortodoxia mar
xista de Kautsky com o a ou tra face, o reve rso teórico e o com plem ento
simétrico do revisionismo de Bernstein ,19
Considerando esses fatos históricos, evidencia-se que não são
apenas in justificadas, m as carentes d e sentido as censur as dos críticos
ortodoxos em face da minha pretensa predileção pela forma “primi
tiva” da teoria de Marx e Engels, do meu supo sto d esprezo pelo ap er
feiçoamento realiza do sobre est a forma srcinal do m arxism o - seja
pelos próprio s Marx e Engels, seja pelos marxistas posteriores - no
curso da segunda metade do século XIX. O “marxismo da Segunda
Inte rna cio nal” - segundo os meus críticos, desenvolvimento positivo
da teoria o riginal de Marx e Engels - é, na realidade, u ma fo rm a his
tórica nova da teoria proletária de classe. Ela nasceu da modificação das
condições práticas da luta de c lasses nu m a época nova e m ant ém com
a teoria de Marx e Engels (seja na sua forma srcinal ou na sua forma
ulterior, mais desenvolvida) relações inteiramente diferentes, muito

mais complexas
feiçoamento ou,do
aoque imaginam
contrário, umaaqueles que mencionam
estagnação, um
uma regressão e aper
uma
atrofia da teoria de Marx no marxismo da Segunda Internacional. O
marxismo de Marx e de Engels não é, pois, uma teoria socialista “ul
trapassada” do ponto de vista do m ovimento operá rio co ntem porâ 
neo, com o Kautsky o prete nde (ele só o diz e xpressam ente a pro pós ito
da sua forma srcinal, o “marxismo primitivo do Manifesto comu-
Estado atu al do pr obl ema (anticrIt ica) ♦ 93

nista”, mas sua afirm ação val e, de fat o, par a todo s os elem entos revo
lucion ários da teoria ulterior de Marx e Enge ls). Tam bém não é, por
ou tro lado, um a teoria que, por força de al gum prodigio, fo i e perm a
nece ainda por longo tempo mais avançada que o desenvolvimen
to do m ovim ento o perário; nem est e continuaria, com a sua pr ática,
atrasado (por assim dizer) em relação à sua própria teoria, somente
podendo progressivam ente ocupar no futu ro o lugar que ela já lhe
tinh a reser vado - tud o isso foi freqüentem ente sustentado, no início
do terce iro pe ríod o (ou se ja: no fim do sécul o passado), pelos repre
sentantes das tendências revolucionárias da ortodoxia marxista social
democrata e ainda é sustentado por alguns marxistas contemporâ
neos.20 É necessário com pree nde r de um m odo totalm en te diverso a
defasagem entre a teoria “marxista” revolucionária, altamente de
senvol vida, e um a práxi s que permanece m uito atra sada em relaç ão a
ela e, em parte, chega a contradizê-la diretamente; esta defasagem é
real no P artid o S ocialdemocrata da Alem anha desde s ua evoluçã o no
sentido de to rnar-se p artido “marxi sta” (aproximadam ente concl uída
com o Programa de Erfurt, de Kautsky-Bernstein, de 1891) e foi pro
gressiva e peno sam ente sent ida, no per íodo seguinte, po r todas as for
ças vivas do p artido (de direita e de esquerda!) - som ente a ortod oxia
marxis ta do ce ntr o a negou. Ess a defasa gem deve-se sim plesm ente ao
fato de que, desde o início, nesta fas e histórica, o “ m arx ism o” não foi,
para o m ovim ento operário, que a ele aderira apenas form almente, uma
verdadeira “teoria” - isto é, “expressão geral, e nada mais, do movi
mento histórico real” (Marx) -, mas sim e somente uma “ ideologia ”,
trazid a já p ro nt a e acabada “ de fora” .
Q uan do, nesta situaç ão, “marxistas orto dox os” com o K autsky
e Lenin sustentavam energicamente que o socialismo só podia ser
introduzido no movimento operário “de fora” por intelectuais bur
gueses vinculad os a es te mo vim ento ,21ou mesm o qu an do radicais d e
esquerda, como Rosa Luxemburg, vinculavam a “estagnação” veri
fica da no m arxism o, de um a parte, à criati vidade espiritual de Marx,
m un ido de todo s os recursos que a cultu ra burgue sa de c lasse pusera
à sua d ispos ição, e, de out ra, às “condições sociais de existên cia do pr ole
taria do na sociedad e atual”,22 que permanecem inalteradas durante
toda a época capitalis ta - tud o iss o sig nifi ca sim plesm ente faze r da
94 ♦ K arl K or sc h

neces sid ade m om entâ nea um a vir tude eterna. A expl icação ma teria
lista da contradiçã o aparente entre teoria e práxi s na Segunda Inter-
nacional“marxista”, e, ao mesmo tempo, a solução racional de todos
os mistérios im aginados pela ortodoxia m arxista da época par a resol
vê-la residem nu m fato histórico: adotando de modo puramente for
mal o marxism o com o ideo logia, o movim ento op erário de então pe r
ma necia, em s ua práxis, sobre es ta sua nova base , bem abaixo do nível
de desen volvim ento geral (e teórico, e m pa rticula r) a tingido, sobre a
base mais estreita de antes, po r todo o mo vimento revolucionári o e, com
ele, pela luta de classe do proletariado em meados do século XIX,
quando se esgotava o primeiro ciclo de desenvolvimento do capi
talismo. Neste momento, o movimento operário, anteriormente
elevado a um maior grau d e evolução, exp erim entou um a estagnação
provisória m ais longa e, mesmo depois, quando outras condições ob
jetivas se deram, despertou apenas gradualm ente; a teoria que Karl
Marx e Friedrich Engels conceberam em direta relação com a práxis
do m ov im en to revolucioná rio s ó pôde, então, desenvol ver-se no pla
no teórico. É certo que este aperfe içoame nto ulterio r jamais foi o sim
ples produto de estudos “pu ram ente teóricos”: era tam bém resultante
de novas experiências da luta de classes que renascia sob formas di

versas. Mas é igualm ente ce rto que esta teoria de M arx e Engel s, ava n
çando para um grau de elaboração cada vez mais alt o, não estava mais
diretam ente liga da à práxi s do m ovime nto operá rio que lhe era co n
tem po rân eo . Ao contrário , estes dois processos - o desenvolvimento,
em novas condições, da antiga teoria herdada de uma época finda e a
nova prá xis do m ovim ento operário - evol uem lad o a lado, mas d e m o
do relativamente independente. É assim que se explica o nível ele
vado e “extemporâneo” (no pleno sentido da palavra) que a teoria

marxist
aspectosafi- losóficos
tanto em-seu conjunt eo atq uanto,
conservou, particularmente,
é reforçou, nos perseus
no curso desse ío
do, em Marx e Engels e nuns poucos discípulos seus. Também assim
se explica, po r ou tra parte, o fat o de o movim ento operário, d esperta do
desde o último terço do século XIX, permanecer na total impossi
bilidade de aderir não apenas formal, mas efetivamente, a esta teoria
marxista tão altam ente desenvolvi da.23
Estado atu a l do pr obl ema (an ti crít ica) ♦ 95

3.

Os críticos socialdemocratas e comunistas obedientes à orto


doxia m arxista dirigiram seus ataques a um ou tro aspecto capital : em

meu livro,que
vimento sublinhei a necessidade,
exp erim neste
entam os desde terceiro
o iní cio período
do sécul o XX,deded esenvol
recon 
siderar o pro blem a das r elações entre ma rxism o e filosofia. Eu via ai a
obrigação de revalorizar o lado filosófico do marxismo, em contraste com
o desprezo precedentemente manifestado (sob formas variadas, mas
com o mesmo resultado) pelas diversas correntes do marxismo em
face dos e lemen tos fil osóf icos revo lucionários da d ou trin a de M arx e
Engels. Com isto, eu me opunha a todas as tendências do marxismo
alemão ou internacional, surgidas no período anterior, como cons
cientem ente “revisionistas”, vincu ladas à escola de Kant, de Mach ou de
outros filósofos. Op unha-m e igual ment e à cor rent e que conduzira pro 
gressivamente a tendência centrista dominante da ortodoxia social-
dem ocrata a um a concepção cientificista-positivista do marxismo, ad
versária de to da filosofia —e à qual revolucionários ortod oxo s, co mo
Franz M ehring, também capitul aram antes, m anifest ando o se u des
prezo para com toda “elucubraçã o” filosófica. Porém, esta concepção
da missão rev olucio nária atual da filo sofia est ava (c omo logo s e veria )

em oposição aind a mais vi olenta - se tal é possível - a um a terceira ten


dência, surgida recentemente nas duas frações constitutivas do mar
xism o russo e representada particularmente na fase atual pelos teó
ricos do novo “marxismo-leninismo” bolchevique.
Desde a sua publicação, os estudos de Gyõrgy Lukács sobre a
dialét ica marxista, assim como a prim eira edição de Marxismo e filo
sofia, encontraram uma recepção extraordinariamente hostil na
imprensa russa e comunista de todos os países. A explicação é sim
ples: após a m orte de Lenin, no m om ento em que os diádoco s dis
putavam seu legado ainda mais avidam ente do que quando ele vivia
e, quase simultaneamente, no momento em que os eventos alemães
de outubro e novembro de 1923 impunham ao comunismo inter
nacional do Ocidente uma dura derrota na práxis política, a direção
do Pa rtido C om unista russ o em preendeu, sob a palavr a de orde m de
“prop ag and a d o leninism o”, a “bolchevização ” ideológica de todo s os
96 ♦ Karl Korsch

partidos não russos vinculados à In ternacio nal Com unista .24 O ele
mento central, o núcleo dess a ideolo gia “bolcheviq ue” era um a ideolo
gia es tritam ente filosófica que se pretendia a restaurad ora d a verdadei
ra e autên tica filosof ia marxista e tentava, nesta cond ição, enfren tar-
se com todas as outras tendências filosóficas no interior do movi
m ento operário moderno.
Esta filosofia marxista-leninista que se propagava para o Oci
dente encontrava nos meus textos, nos de Lukács e de outros co
m unistas “ ocidentais” uma tendência filosófica anta gôn ica , no próprio
seio da Internacional Comunista; aí colidiram, de fato, a s duas ten dê n
cias revolucionárias surgidas no pré-guerra da Internacional Social-
democrata e que, na Internacional Comunista, apenas aparen
temente tinham se unificado. Os debates entre estas duas tendências
haviam inc idid o até entã o apenas sob re questões política s e táticas;2 5
agora, pela primeira vez, elas se enfrentavam num embate direta
mente filosófico. Tal confro nto, po r razões históricas de q ue falarei em
seguida, não passou naquele momento de um eco débil das dis
cussões polít icas e táticas - vigo rosas, tant o de um lado qu ant o d o o u
tro - dos anos ime diatamente anteriores; e logo passou a s egundo
plano, em razão das lutas entre as frações políticas que, desde 1925,
ressurgiram no seio do Partido russo e, a partir de então, com cres
cente violência, envolveram todos os partidos comunistas. No en
tanto, aquele confronto teve uma significação transitória não negli-
genciável no quadro do desenvolvimento geral, constituindo a pri
meira tentativa pa ra ro m per a “i m permeabilidade recíproca” que até
então re inara entre as ide ologi as re spect ivas dos com unis m os russo e
ocidental, de acordo com as palavras de um crítico russo excepcio
nalm ente bem info rm ado sobre a situação teórica nos dois cam pos.26
Resumamos esta querela filosófica de 1924, sem lhe retirar por
agora a form a ideológica de que se revestiu na consciência dos parti
cipan tes: tratava-se de u ma discus são entre a interpretação leninista do
materialismo de Marx e Engels ,27 então solenemente canonizada na
Rússi a, e os juízos de G yõrgy Lukác s e de vários teórico s dos Par tido s
Com unistas húngaro e alemão, consi derados (certa ou erra dam ente)
“adep tos” de Lukács - juízos que se “desviavam” daquele câno ne para
deriva r no idea lismo, na cr ítica kantiana do con hecim ento o u na dia-
Estado a tu al do pr obl ema (an ti crít ica) ♦ 97

lética idea lista d e Hegel.2*No que diz re speito a Marxismo efilosofía, a


acusação quanto ao “desvio idealista” repousava, em parte, na atri
buição, a seu autor, de idéias que não estão abso lutamente co ntidas
no livro e que ele rejeita formalmente, em particular a pretensa re
cusa da “dialética da natureza".2'’ Mas os ataques se dirigiam, igual
mente, a opiniões de fato defendidas em Marxismo e filosofia, em
especial a reiterada recusa dialética do “realismo ingênuo” de que se
soco rre “o prete nso bo m senso, e ste metafísico da pio r espécie” e, com
ele, a “ciéncia positiva” corre nte da sociedade b urgu esa e, em seguida,
tam bém e infelizmente, o m arxism o vulgar de li oje, al heio a toda re
flexão filosófica, “para separar nitidamente a consciência e seu obje
to” e tom ar a consciência c omo “um dado, oposto a prio ri tan to ao ser

quanto A
à natureza” (o queconcepção
crítica desta Engels, já primitiva,
em 1878, critica em Dühring).
pré-dialética e até pré-
transcendental da relação entre a consciência e o ser me parecia, então,
óbvia para qualquer dialético materialista, para qualquer marxista
revo lucion ário - po r isso, eu não a expus em detal he, tom ei-a mai s
como pressuposição; todavia, sem me dar conta, com ela ataquei o
ponto capital da concepção “filosófica” ( Weltanschauung ) bem par
ticular que M oscou pretendia propagar para todo o O cidente como o
verdadeiro fundamento da nova ortodoxia chamada “marxismo-
leninismo”. Com uma ingenuidade que, do ponto de vista herético-
ocidental, só pode ser caracterizada como “virgindade filosófica”,
os categorizados porta-vozes do novo “marxismo-leninismo” russo
responderam a esse ataque supostamente “idealista” recorrendo ao
bê-á-b á “m aterialista”, que sabem de cor e salteado.311
O debate propriamente teórico com a filosofia materialista de
Leni n - que seus epígonos da Rússi a sovi ética susten tam literalm ente
até hoje , a despeito de inconseqüências grotesc as e contrad ições gri
tantes - aparece aqui com o um a tare fa secundária; c om efeito, o
próprio Lenin , enquanto vivo, não ofereceu à filosofia um fun
dam ento especifi camente t eóri co; e le a defendeu so bretud o rec orre n
do a argum entos polí ticos de ordem prát ica, aprese ntando -a como a
única filosofia “útil” ao proletariado revolucionário diante do kan
tism o, da filosofia de Mach e de ou tra s filosof ias idealistas que lhe são
“n ocivas” . Tu do isto está exp resso, sem o m en or equívoco, n a cor res
98 ♦ K arl K or sc h

pondência particula r que ele manteve com Maxim Gorki sobre essas
questõe s “filosóficas”, depois da pri meira revo lução russa de 1905. Lenin
não se cansa de explicar a seu amigo pessoa l - que, ao m esm o tem po,
era seu adversário em filos ofía políti ca - “que um h om em de partido,
quando está persuadido do caráte r totalme nte erróneo e nocivo de uma
certa t eoria, tem , p or isto, o dever de atacá-la e que o m elho r que pode
fazer, se um tal ‘com bate ’ é absolu tam ente inevitável” é, co mbate ndo ,
“zelar para que o trab alho prático indispensável a o Partid o n ão sofra
com isso”.31Do m esm o m odo, a significação real da obra filosófica pr in
cipal de Len in não reside nos argu mentos filosóficos me dian te os quai s
ele ataca e “refuta” teoricamente as diversas tendências idealistas da
filosofía burg uesa m oderna, que - urn as kantianas, outras “empirio-
criticistas” baseadas em Mach - haviam estendido sua influência so
bre as correntes revisionista e centrista do m ovim ento socialista de
então; reside, sobretudo, na conseqüência extrema que ele extraiu
para com bate r e tentar liquidar pra ticam ente tais tendências filo
sóficas contemporáneas considerando-as como ideologias errôneas do
ponto de vista do Partido.
Assim, o promotor desta pretensa restauração do verdadeiro
materiali smo de Marx e de Engels - apena s para m encio nar u m dos
aspec tos mais im po rtan tes32- jamais põe em dúvida que eles, nos anos
1840, após acertarem definitivamente as contas com o idealismo de
Hegel e dos hegeli anos, tenham se limitado , no restante do seu trab a
lho teór ico33per tin en te à gnosiologí a, “a corrigir os erros de Feu erbach,
a zom bar das banalidad es do materialista Düh ring, a criticar o s equ í
vocos de Büchner, a sublinhar que a dialética estava ausente entre
esses escritores, os mais populares e conhecidos nos meios operários”.
“Quanto às verdades fundamentais do materialismo, proclamadas
em incontáveis publicações pelos vendedores ambulantes de idéias,
Marx, Engels e Dietzgen só se preocupavam em evitar que fossem
vulgarizadas, simplificadas excessivamente e pudessem conduzir à
estagnação do pensamento (‘materialismo em baixo, idealismo no
alto’), ao esquecimento do fruto precioso dos sistemas idealistas, ao
olvido da dialética hegeliana, pérola que os Büchner, os Dühring &
Cia. (aí incluído s Leclair, Mach, Avenarius e muito s ou tro s) não so u
beram extrair do lixo do idealismo ab so luto ”. Em suma, em razão das
Estado atu a l do pr obl ema (an ti críti ca) ♦ 99

con diçõe s histó ricas em q ue se operav a o seu trab alh o filos ófico, “e/es
tomaram mais cuidado com a vulgari zaçã o das verdades fun da m en 
tais do m ateriali smo do que com a sua próp ria defesa ”, assim como, na
luta política, “tom aram mais cuidado com a vulgar izaç ão das reivin
dicações fundamentais da democracia política do que com a sua
defesa”. Em tr oc a, Lenin af irm a que, nas condições histó ricas presentes —
a seu ver totalmente modificadas sob este aspecto -, o mais impor
tante, para ele e para tod os os outros marxista s revolucion ários, não é
a defe sa, na política, da s reivindi cações funda mentais da dem ocracia
política (?), mas, em filosofia, a defesa das“verdades fundamentais do
materialismo filosófico” contra os seus adversários modernos do
camp o burguê s e os cúmpli ces que e les encontram no p róp rio campo

da classe
cam poneopsaserária, bem com
e atrasadas o a divulgação
da Rús sia, da Á siadee de
lastod
entre
o oas
mamplas
un do , remassas
ivin
dicando abertamente o materialismo revolucionário burguês dos
sécu los XV II e XV III.34
Co mo se vê, Lenin não prioriza em tud o isto a questão teórica
da verdade ou da falsi dade da fil osof ia materialista que defende; para
ele, trata-se u nicam ente da questão prática da sua utilidade pa ra a luta
revolucionária da classe operária ou, naqueles países que ainda não
experimentaram o estágio mais alto do desenvolvimento capitalista,
da classe ope rária e de todas a s camadas popu lares oprim idas. O po nto
de vista “filosófico” de Lenin aparece assim como uma forma muito
particula r da posição que exam inei já na primeira edição de M ar
xismo efilosofia e de que o jovem Marx, de mod o pe netr ante , indicara
o defeit o essenc ial qua nd o se bateu contra “o partido po lítico prático que
se considera em condições de supri mir (praticam ente) a filosofia s em rea
lizá-la (teoricamente)". Posicionando-se sobre as questões filosóficas
somente em função de razões e conseqüências extra-filosóficas, sem
considerar ao mesmo tempo o seu conteúdo filosófico-teórico, co
me te-se o mesm o erro em que incorreu, outro ra, com o o diz Marx, “a
facçã o política prá tica na Alem anha”, qu and o ac redito u po de r realizar
“a negação da filosofia” (em Lenin: de tod a filoso fia idealista !) co rre 
tamente reivindicada “voltando as costas à filosofia, olhando para
qua lquer ou tra parte e m urm ura nd o um pun had o de fr ases triviai s e
m al-h um or ad as”.35
100 ♦ K arl Kors ch

Para po der em itir um juízo de Lenin sobre a fi losofia e tod a a


ideologi a em ger al, é necessá rio antes pr opo r um a questão d a qual de
pende a avaliação da “filosofia materialista” peculiar defendida por
Lenin. Co nfor me o prin cípio ado tado p or ele, essa questão é de ordem
histór ica: a época atual ap resenta de fato es sa pretens a transfo rm ação
de to da a situação ideológica ( geistesgeschichtlich ), em dec orrência da
qual não seria mais necessário, no materialismo dialético, op or a dia
lética ao materialismo vulgar, pré-dialético e atualmente, inclusive,
abertamente não dialético e antidialético da ciê ncia burguesa conte m 
porânea, mas, ao contrário , caberia opor o materialismo às crescen
tes tendências ideal ista s da fi losofia bur guesa? No m eu e nten de r - e
já o expliquei noutro lugar - , não é este o caso. Superficialmente, a

atividade
oposiçõesfilosófica
e nela s eepodem
científica da burguesia
discern ir contraapresenta
corr enteshoje algumas
efetivas; m as, a
despeito di sso, a tendên cia dom inan te que imp era (com o há ses sent a
ou setenta anos) na filosofia, nas ciências naturais e nas ciências hu
manas da burguesia não é uma concepção idealista, mas algo que se
inspira numa concepção materialista naturalista.36 Se Lenin pensa o
con trário, a sua atitude - em estreita relaç ão ideológi ca com sua teo 
ria político-econôm ica do i mperialis mo - tem, como tam bém nes ta
teoria, suas raízes materia is na situação econôm ica e social particular
da Rússia e nas tarefas políticas particulares, teóricas e práticas , que pa
recem se impor, e de fato se impõem, à Revolução Russa num período
estri tamente delimitado. Mas toda esta teori a “len inista” não exprim e
satisfatoriamente as necessidades práticas postas pela lut a de class es do
pro leta riado in ternacio nal no seu estágio atual de desenvolvim en to,
e, por tan to , a filosofia materialista de Lenin, que serv e de fund am en to
ideológico a essa teoria, não representa a filosofia proletária revo
lucionária correspondente a tal estágio.
O caráter teórico do m aterial ismo de Le nin correspond e, igual
mente, àquela situação histórica e prática. No curso do seu prim eiro
período revolucionário, Marx e Engels formularam um a concepção
materialista dialética, aind a necessariamente “fil osóf ica” po r sua n a
tureza, m as que, po r seus obje tivos e tendên cias presentes, já se ori en 
ta para a supressão total da filosofia; e a única tarefa revolucionária
que se im põe hoje, no plan o filosóf ico, é elevar essa conc epçã o a um
E stado atuai , d o pr o b l e m a (a nt i cr í t i ca ) ♦ i0J

nível superior. A o con trário , o filósofo Lenin, assim com o seu m estre
Plekhanov e outra discípula deste, L. Axelrod-Orthodox, pretende
muito seriamente permanecer simultaneamente hegeliano e mar
xista. De fato, como Leni n com preen de a pa ssage m da dialéti ca idea
lista de Hegel ao materialismo dialético de Marx e de Engels? Com
pre ende-a como a p ura e simples substituição da co ncepção ideal ista
que está na base do método dialético em Iiegel por uma outra con
cepçãofilosófica , nã o mais “idealista” e sim “m ate ria lista ”; e ele parece
não susp eitar que u ma tal “inve rsão m ateriali sta” do ideali smo he ge
liano só pod eria con duzir, no m elhor dos caso s, a uma alteração ter
minológica: o Abso luto já não seria o “Es píri to”, e sim a “M atér ia”. O
materialism o de Lenin, poré m, encerra al go ainda mais gra ve. Ele não

anula
Hegel,apenas a última
realizada inversão
por Marx materialista
e Engels; ele fazdaretroceder
dialética idealista
tododeo con
fronto entre materialismo e idealismo a um nível de desenvolvimento
histórico anterior ao alcançado pela filosofia idealista alemã de Kant a
Hegel. Desde a d issoluç ão d a metafísica de Leibniz e de Wolff, iniciada
com a filosofi a transcen den tal de Kant e l evada a se u term o pela dia
lética d e Hegel, o “Abso luto” fora de finitivam ente ba nid o do ser (tanto
do ser do “espírito" quanto do ser da “matéria") e transferido ao movi
mento dia lético da “idéia”. A invers ão m aterialista desta dialética idea
lista de Hegel po r M arx e Engels con sistiu sim plesm ente em liberá-la
do seu último invólucro mistificador, em descobrir no “automovi-
mento dialético da Idéia” o movimento histórico real aí dissimulad o e
em p roclam ar como último e único “Absoluto” este mo vim ento revo
lucionário. · ’7Mas ei s que Lenin reto rna às oposições ab solutas entre o
“pensamento” e o “ser”, o “espírito” e a “matéria”, já superadas diale-
ticam en te p or Hegel e que foram objeto , nos século s XVII e XVIII, da
con trovérsia filosófica - e, ainda, em parte reli giosa - que o pu nh a as

duas tendências da Aujklàrung.™


N aturalm ente, um tal materialism o, que tem como ponto de
partida a represen tação metafísica de um Ser d ad o no abso luto, nada
tem realm ente a ver - apesar d e todas a s ins istências forma is - com
um a concepçã o dialética univer sal e sob retud o dialético-materialista.
Lenin e os seus seguidores tran sp orta m un ilateralm en te a dialética ao
ob jeto (vale dizer, à naturez a e à história ) e descrevem o co nh ec im en 
102 ♦ Kari . K orsch

to como simples reflexo e reprodução passivos deste ser objetivo na


consciência subjetiva; assim, suprimem efetivamente toda relação
dialética entre o ser e a consciência e, por uma conseqüência necessá
ria, en tre a teoria e a práxis. Não conten tes em pagar, desta form a, um
involuntário tribulo ao “kantismo” que tinham ardentemente
combatido, não contentes em fazer retroceder a questão das relações
entre a totalidade do ser histórico e todas asformas históricas existentes da
consciência (já postas amplamente pela dialética de Hegel e, espe
cialmen te, pela dialética materialista de Marx e de Engel s) e de re to r
nar ao prob lem a “gnosiológico” muito m ais limitado das relações entre
o objeto e o sujeito do conh ecimento, el es concebem este conh ecim ento
como um processo evolutivo que se desenrola sem enfrentar contra
dições f unda me ntais e com o urna progressão infinita em direção a uma
Verdade absoluta. Abandonando completa mente a co ncep ção m ate
riali sta dialética que Marx tinh a das relações entre a teo ria e a práxis,
tanto em ger al quan to em face do m ovim ento revolucionário, el es re 
torna m à oposi ção - a ma is abstrat a pos sível - entre um a teoria pura
que descobre as verdades e uma prática pura que aplica à realidade
essas verdades enfim descobertas. “A unidade real de teoria e prática
se realiza na transfo rma ção prática da real idade pel o m ov ime nto revo
lucionário, que se apóia nas leis de desenvolvimento do real descober
tas pela teoria”. É com este dualismo, que corresponde cabalmente às
representações do mais vulgar idealismo burguê s, que um intérprete
filosófico de Le nin (que não se afasta um milím etro da do utr ina d o m es
tre) o pera a degradação da magistr al unidade dialético-materiali sta da
“prá xis revolucion ária" de M arx .y)
O utra conseqü ência inevitável de ssa deli berada ênfase no m a
terialismo às expensas da dialética é a esterilidad e dessa fil osofia m ate 
rialista em face do desenvolvimento efetivo das ciências sociais e das
ciências da natureza. De fato, tornou-se moda, no marxismo oci
den tal, enfatizar o “m étod o” materialista dialético e os resultados o b
tidos graças a ele nas ciências e na filosofia, mas esta atitude ignorava
totalm ente o esp írit o da dial ética, sobretud o da dia léti ca m ateri alist a.
Com efeito, para um a concepção dialé tica, método e conteúdo são inse
paráveis e, segundo a fórmula bem conhecida de Marx, “a form a não
tem valor se não é a form a de um conteúdo’’.'"' Subja z àque la ênfase, to 
E st ado atu al do pr obl ema (an ti crít ica) ♦ 103

davia, a idéia inteiramente correta de que a importância assumida


pelo m aterialism o dialético, desde a m etade do século XIX, nas ciên
cias sociais e nas ciências da natu reza diz respeito, ante s de m ais nada,
ao seu método.41
Marxism o e filosofia expôs como se deu, depois do refluxo do
m ov im ento revolucion ário prático nos anos 18 50, esta separação ine
vitáve l do des envo lvime nto da filosofia e das ciências positivas, da teoria
e da prática; então, d ura nte um longo período, a nova concepção dia-
lético-materialista e revolucionária de Marx e de Engels resistiu e se
desenvol veu principa lme nte aplicando-se a todo o domínio das ciências
sociais e das ciências da natureza enquanto método materialista dia
lético. É a este per íod o q ue rem on tam todo s os juízos nos qu ais Eng els,
perto do fim de sua vida, pro clama a indep endência das diversas
ciências em face de “tod a filosofia ” e atr ibu i a esta, “expulsa da nat u
reza e da história”, como único campo de atividade que lhe resta, “a
teo ria do pe nsa m en to e suas leis, a lógica formal e a dialética”; ou seja,
limita, de fato, essa pretensa “filosofia” a uma ciência empírica parti
cular ao lado das outras e não acima delas.42 Po r m ais p ró xim o que
este po nto de vist a de En gels pare ça estar daquele mais tarde adota do
por Lenin, eles se d istinguem como o dia da noite pela simples razão
de que Engels concebe que a tarefa essencial da dialética materialista
consiste em “salvar a dialética consciente transferindo-a da filosofia
ideali sta al em ã para a concepção m aterialista da natu reza e da histó
ria ”,43 ao pa sso que Lenin, ao c on trário, vê nesta ta ref a a defesa e a
manutenção da própria posição materialista que , no fundo, ning uém
atacou com seriedade. Assim, enquanto Engels declara que, confor
me o progresso e a evolução das ciências, o materialismo moderno,
aplicado à na ture za e à história, “ é, nos dois cas os, essencialme nte dia
léti co e não necessita de um a filosofia situada acim a das ou tras ciên
cias”, Lenin co nt in ua a fazer chic anas co ntr a os “desvios filosóficos”-
não apenas dos seus adeptos ou adversários políticos ou dos ideólogos
filosóficos , m as até do s cientistas mais p ro du tiv os 44e reivind ica p ara a
sua “filosofia materialista” uma espécie de autoridade judiciária su
perio r diante de to dos os resultados passados, presentes e futu ro s da
pesquisa científica.45 Esta tutela da “filosofia” m aterialista - exercida
tanto sobre as ciências sociais quanto sobre as ciências da natureza, e
104 ♦ K arl K or sc h

tam bém sobre todas as outra s manifestações cult urais (a literatura , o


teatr o, as artes plásticas etc. ) - seria desenvolvida pel os epígo nos de
Lenin até su as mais absurdas conseqüências. Po steriorm ente, cond uzi
ria à formação de um a ditadura ideológica parti cular, estranham ente
oscilante entre o progresso revolucionário e a mais obscura reação,
ou sej a, a que a tualm ente se exerce na Rússi a sovié tica - em n om e do
que se ba tizou como “marx ismo -leninism o” - , sobre a vida intelectual
não apenas da confraria no poder, o Partido, mas sobre toda a classe
operária; reação que, mais recentemente, tentou-se esten der, para além
da Rússia, a todos os partidos comunistas do Ocidente e do mundo
inteiro. E justamente essa tentativa mostrou os limites com os quais
colide necessariamente a extensão artificial de uma tal ditadura na

arena
diretameinternacional, onde nen
nte. O V Congresso d ahum a coerç ãolestat
Internaciona Comalunista
pode su stentá-l
(1924) evoa
cava ainda, adotando o projeto de programa comunista internacional,
“a luta conseqüente contra o idealismo e contra toda filosofia que
não seja o materialismo dialético”; em troca, a redação definitiva do
programa adotad o qu atro anos mais tarde, no V I Congr esso, me ncio 
na, bem mais imprecisamente, um c ombate c ontra “ todas as varieda
des da concepção bu rguesa de m un do ” e caracteriza o “materialism o
dialético” de M arx e d e Engels “não mais co mo um a filosofia materia
lista ”, mas ap ena s com o “um método [!] revolucion ário p ara conhe cer
a realidade visan do à sua transfo rm açã o re volu cio nária ”.46

4.

Este último fato indica bem que a nova ideologia “marxista-


leninista” já começa a renunc iar às pretensões que, aind a re cen tem en
te, e la explic itava na aren a internac ional; mas o problem a subjacente
a esta “filosofia materialista” de Lenin e do marxismo-leninismo
perm anece irresoluto. Impõe-se um a tarefa, que deve ser em preendida
com a inteir a retomad a do problema marxism o efilosofia e da q uestão
mais geral da relação entre a ideologia em seu conjunto e a práxis do mo
vim ento revol ucioná rio diante do “ marxism o-leninismo ” comunista;
trata-s e de ga ran tir o méto do de aná lise materialista (vale dizer, his tó
rico, crítico e não dogmático) que nos serviu para definir o caráter
E st ado atu a l do pr obl ema (an ti críti ca ) ♦ 105

histórico da ortodoxia “kautskyana” da Segunda Internacional com


objeti vo de aplicá-l o rigo rosame nte à ortodoxia “leninista” da Terceira
Internacional e, mais geralmente, à evolução histórica do marxismo
russo em suas relações com o marxismo internacional, evolução de que
o atual “ma rxism o-leninism o” constitui o últi m o prolo ngam ento. O
estudo m aterial ista do desenvolvi mento históri co real do m arxismo
russo e interna ciona l não pode ser rea lizado aqui - pode mo s, tão-
somente, indicar as suas linhas gerais. Mas ele levará à brutal consta
tação de que est e marx ismo russo, ainda mais ortodoxo (se é que isto
é possível ) do q ue a orto do xia m arxista alemã, t eve em toda s as et apas
do seu desenvolvimento um caráter ainda mais ideológico do que
aquela e esteve em co ntrad ição ainda mais viol enta do que aquela com
o m ov im en to h istórico real de que deveri a ser a ideol ogia.
Isto já valia para a primeira fase histórica em que, segundo a
pertinente análise feita porTrotski em 1908, a doutrin a m arx ista ser
viu - preci samente enq uanto instrum ento ide ológi co - para recon
ciliar a intelectualidade russa com o desenvolvimento capitalista, uma
intelectualidade até então saturada do “espírito balcuninista de ne
gação total da cu ltu ra capitalista ”.47E vale tam bé m pa ra a segunda fase,
que atingiu seu apogeu históri co qu and o da primeira revolu ção russa
de 1905. Todos os marxistas revoluc ionários russos, não apen as Lenin
e Trotsk i, declararam então o soci alismo in ternac iona l - ou seja: para
eles, o marxismo ortodoxo - “carne da sua carne, sangue do seu san
gue”; por seu turno, Kautsky e a sua Neue Zeit fizeram, em todas as
questões teóricas, causa comum com a ortodoxia marxista russa,
incl usive no q ue conc erne ao s funda m ento s filosó ficos do m arxism o
(mesmo levando em conta a influência dominante do teórico russo
Plekhanov, de quem a ortodoxia alemã era credora). Ora, se uma tal
frente internacional da ortodoxia marxista pôde manter a sua uni

dade
ainda foi pela razão
na Rússia do maior
que nade que,panum
Euro ladoou
Central como no outro,ese tamais
O cidental, unidade
situava-s e apen as n o nível ideológico e não era mais do que ideologia.
Este mesmo caráter ideológico, a mesma contradição que ele necessa
riamente acarreta entre a teoria “ortodoxa” estabelecida e os verda
deiros traços históricos do movimento se encontram também na
terceira fas e de d esenvo lvimen to do m arxismo russo - e se exprim e da
106 ♦ K arl K or sc h

forma mais flagrante na teoria marxista ortodoxa e na práxis intei


ram ente h etero do xa do revo lucionário Lenin,4 8m ostra nd o a sua gro 
tesc a caricatu ra nas gritantes contradiçõ es que existem entre a teoria
e a práxis do “m arx ism o soviético” .
Schif rin, adversário políti co do Pa rtido bolchevique atua lme nte
no po der na Rússi a, e já várias vezes citado, co nfirma inv olu ntaria men
te, mediante as suas posições acerca dos princípios filosóficos gerais
do “marxism o soviético” , que o caráter gera l do m arxism o russo não
mudou substantivamente até hoje. Na Gesellschaft (Sociedade ), v. 4,
n. 7, ele faz um ataqu e apare ntem ente du ro ao “marx ism o soviético” que,
no entanto , no plano ideol ógico, é um a tentat iva para defender es se ma r
xismo (que “sinceram ente pretende edificar o ma rxism o na sua for ma
mais conseqüente e mais ortodoxa” - ibid., p. 42) con tra a degeneres
cência “subjetivista” ou “revisionista” posta pelas insuperáveis difi
culdades que ele encontra (por exemplo, contra “o esquecimento das
declarações mais importantes dos mestres”- ibid., p. 53). Este traço surge
ainda m ais claramente num ou tro arti go do m esmo aut or, publicado
recentemente (agosto de 1929) na Gesellschaft, v. 6, n. 8. Nele, Schifrin
saúda so lenem ente a últim a ob ra de Ka utsky, represe ntan te ilustre da
ortodo xia alemã, como o iní cio da “restauração do marxismo em sua
integridade”, ao m esm o tem po em que crit ica vivamente a m aioria das
posições particulares do autor e em que lhe atribui a “tarefa ideológica”
de superar tanto “ a desintegração subjetivis ta do m ar xis mo”, apare
cida recentem ente sob di versas formas não só no Ocidente com o ta m 
bém no “m arx ismo russo sovietizado”, quanto “ a crise ideológica ”que
ela susci ta no c on junto do marxismo c on tem po râne o49- eis aí, em t o 
da a sua clareza, a solidariedade que subs iste, aind a em nossos dias, na
sua concepção de mundo, na ortodoxia marxista internacional em seu
conjunto. A Schifrin escapa totalmente, quer na sua crítica ao “leni

nis m o” dosmmo”
“kautsky arxis
conmo
temsoviéti co de
po râneo hoje,
, que est que r nafor
as duas suamas
atitude e m faces do
ideológica do
marxism o, saíd as da velha tradição da ortod oxia russa e interna ciona l,
são atualmente apenas configurações históricas agonizantes, pertencen
tes a um período ultrapassado do movimento operário moderno. Tam
bém aí se revela, na apreciação do caráter histórico do “m arxismo-
lenin ism o” ou “marx ism o soviético” , a pr of un da un idad e de visão que
E st ado a tu al do pr obl ema (an ti crít ica) ♦ 707

existe entre a velha e a nova, atual, escola da ortodoxia marxista: a


socialdemocracia e o com unism o. Antes , vimos os teóricos com unistas
suste ntar, contra Marxismo e filosofia, o caráter positivo e progressista
do mar xism o da Segunda Inte rnacional. Agora , vemos o m esmo : na r e
vista da socialdem ocracia ale mã, o teórico men chev ique en tra n a liça
como defensor do que há de “universalmente válido” e “definitivo”
nos traços filosóficos do marxismo da Terceira Internacional.

5.

Com estas observações, concluímos a apresentação do estado


atua l do problem a ma rxism o e filosofia, que, desde 1923, viu-se con

sideravelmente
Tam bém com elas mo esperamos
dificado p ter
or novas expe do,
escl areci riências
ao mteóricas
eno s noe prá ticas .
essencial,
a evolução sofrida a pa rtir de então pela s noss as concepções. Mas re 
nu ncia m os à retificaç ão, nos seus detal hes, das noss as concepçõ es de
então sob a luz da noss a posi ção atual, exc eto num únic o po nto : sob
várias formas, foi freqüente a má com preen são da exig ência , que fo r
mulamos em Marxismo e filosofia (p. 62-63 da presente edição), de
estender, no p rocesso da revolução social , a “ditadura” igualmente ao
domínio da ideologia. Sobretudo Kautsky, na sua crítica a meu livro
(ibid., p . 312 e ss.), m ostra ao m esmo tem po com o se equivoca acerca
das minhas intenções e quantas ilusões alimentava sobre a situação
efeti vamente reinante na Rús sia - po r exempl o, qua ndo decl ara, ain
da em 1924, que “ningu ém , nem me smo Zinoviev ou Djer zinski” , ja 
mais pen sou nu m a “ditad ura no do m ínio das idé ias”! Apresentada
sob aquela form a abstrata, nossa exig ênci a parec e tam bém a nós, e de
nossa perspectiva atual, prestar-se a equívocos. Eis por que decla
ramos expressamente que a continuação da luta proletária revolu
cionária - que , em Marxismo e filosofia, designamos com o “ditadura
ideológica” - disti ngue-se p or três a spect os do sistema de opressão inte
lectual que, em n om e do q ue se cham a “ditadu ra do p role tari ad o”, se
exerce hoje na Rússia. Em prim eiro lugar , ela é um a d itad ura do p ro 
letar iado, não um a ditad ura sobr e o proletari ado. Em segund o lugar,
é um a dita du ra da cl asse, não do Partido o u dos dirigente s do Partido.
Enfi m, e aci ma de tudo , é uma d itadura revolucionária, um simples
108 ♦ K arl K or sc h

elem ento no processo de transform ação socia l radical que, com a su
pressão das classes e dos seus antagonismos, cria as condições para a
“extinção do Estado” e, simultaneamente, para a supressão de toda
coer ção ideológi ca. Ass im c omp reendida, a “ditadu ra ideológica” tem
por tarefa essencial s uprim ir as suas pró prias causas m ateriais e ideo 
lógicas, tornando-se ela mesma inútil e impossível. E o que distin
guirá, desde o pri mei ro dia, esta ditadu ra proletária autêntica de todas
as suas contrafações é que e la não criará som ente as condições de u ma
tal liberdade espiritual para “todos” os trabalhadores, mas também
para “cada um deles” to m ados co mo tais - liberd ade que jam ais
existiu, em qualquer parte, para os escravos assalariados do capital,
op rim ido s fís ica e intelectualm ente na socie dade de cla sses burguesa,
a despeito de tod a “dem ocracia” ou “li berdade de pensa m ento ” que se
possa invocar. Esta concretização do conceito m arx ia no de ditadura
proletária revolucionária faz desaparecer a contradição que, sem esta
determinação mais precisa, pareceria subsistir entre a exigência de
uma “ditadura ideológica” e o princípio essencialmente crítico e
revolucio nário do m étod o materialista dialé tico e da concepção co m u
nist a do mu ndo . Tanto nos seus fin s quanto nos seus meios, o socialismo é
um combate pela realização da liberdade.

Notas
1 [Os livros também têm a sua sina.]
2 [Korsch reproduz aqui as palavras iniciais do seu próprio ensaio; ver, nesta
edição, p. 23.]
3 Ver, po r exe mplo , Politische Literaturberichte der Deutschen Hochschule für
Politik (Relatório da literatura política da Escola Superior Alemã de Política),
v. 1, n. 2: “Particularmente notável é a recusa da concepção marxista vulgar que
vê na estrutura espiritual (ideológica) da sociedade uma pseudo-realidade.
Seu eminente conteúdo de realidade é precisamente valorizado pelos próprios
prin cípio s do pensa m ento marxista”. Ou, aind a, as conclusões da resenh a pe
netrante e detalhada de Lászlo Radványi, no Archiv fü r Sozialwissenschaften
(Arquivo de Ciências Sociais ), v. 53, n. 2, p. 527 e ss.: “Mesmo quem não com
pa rtilha das convicções fundam en tais do auto r deve levar em conta a idéia
de que o marxismo srcinal não é um pan-economicismo, não considera a
estrutura econômica com o o único dom ínio pleno da reali dade, mas que v ê
igualmente nas esferas espirituais uma parte constitutiva e plenamente real
do conjunto da vida social” (ibid., p. 535).
Estado atu a l do pr obl ema (anticrí ti ca) ♦ 109

Ver, no congresso (1924) do Partido Socialdemocrata da Alemanha (SPD),


o discurso de abe rtura do seu presi dente, Wels (reprodu zido no órgão central
do SPD, o Vorwärts [Avante], de 12 de junho 1924) e, no V Congresso da
Internacional Comunista, realizado quase ao mesmo tempo, o discurso de
abertura do seu presidente, Zinoviev (reproduzido no periódico comunista
Intern ationale Presse Korrespondenz [Correspondência de Im prensa Inte r
nacional], v. 4, n. 76, 28 jun. 1924, p. 931 e ss., e no n. 79, 2 jul. 1924,
p. 965 e ss.).
Ver Die Gesellschaft (A Sociedade), v. 1, n. 3, junho de 1924, p. 306 e ss.
Os argumentos, que retornam estereotipadamente em todos os críticos do
PC, es tão reunido s na introduç ão crít ica do ed itor G . Bammel para uma tra
dução russ a de M arxism o e filo sofia lançada em 1924, pel as edições Oktob er
des Geistes, de Moscou (uma outra tradução, sem introdução, apareceu pou
co antes nas edições Kniga, Leningrado e Moscou, 1924).
[Há edição brasileira: G. Lukács. História e consciência de classe: estudos
sobre a dialética marxista. São Paulo: Martins Fontes, 2003.]
[Referência a uma passagem da obra de Lessing, Nata n, o sábio.]
Kautsky ( ibid., p. 312) considera o “marx ismo prim itivo” - o único que,
de acordo co m ele, t odos os ou tros te óricos marxist as e eu mesm o recon he
cemos - como a teoria das “obras de juven tude de Marx e En gels, el aboradas
antes de completarem trinta anos”; e Bammel, que segue, por seu turno,
cegamente e em todos os pontos de sua crítica o exemplo de Kautsky (ibid.
p. 13 e ss.), aponta co mo sin al da minha igno rância (fazen do gala, assim e
fora de propósito, da sua própria erudição) que eu tenha “iniciado a biografia
intelectual de Marx no ano de 1843, com a Crítica da filosofia do direito de
Hegel”. Para responder aos dois, basta-me aqui sublinhar que falei expressa
mente dos três períodos percorridos pela teoria marxista desde o seu nasci
mento e que considero como a expressão ideológica do primeiro período não
apenas as “obras de juventude”, mas também as obras elaboradas a partir da
Crítica da filosofia do direito de Hegel [sob este título, Korsch refere-se sempre
à “Crítica da filosofia do direito de Hegel. Introdução”, texto disponível em K.
Marx. Crítica da filosofia do direito de Hegel. São Paulo: Boitempo, 2005],
[Ver F. Engels. Ludwig Feuerbach e o fim da filo sofia clássica alem ã, em K.
Marx e F. Engels. Obras escolhidas. Rio de Janeiro: Vitória, 1963, v. 3,
p. 169.]

[Originalmente, na história da literatura, a expressão Sturm un d Dran g uti


lizou-se para designar o pré-romantismo alemão do último quartel do século
XVIII, tipificado na obra Os sofrimentos do jovem Werther, de Goethe.]
Ver, sobre este segundo “retorno” a Hegel operado por Marx e Engels desde
o final dos anos 1850, algumas observações interessantes em Riazanov,
Marx-Engels Archiv (Arquivo Marx-Engels), n. 2, p. 122 e ss. A retomada pos
terior, por Labriola e Plekhanov, desta linha hegeliana de desenvolvimento
filosófico se expressa em seus livros e se prolonga, também, em Lenin, dis-
110 ♦ K arl K or sc h

cípul o fi losófi co de Plekhanov, sob um a form a d eterminad a, que exp oremo s


mais adiante.
12 [Ao l ong o de M arxism o e filosofia, é sob esta designação que Korsch se refere
ao texto marxiano Para a crítica da economia política (ed. bras.: K. Marx.
Para a crítica da economia política. Salário, preço e lucro. O rendimento e suas
fo nte s. São Paulo: Abril Cultural, 1982).]
13 Para a po iar esta afir m ação, K auts ky ci ta em detalhe du as passagens extraí das
das notas 35 e 78, mas isolando-as de seu contexto e omitindo a frase em que
exprim i s em equívoco, no lugar que lhe ca be na seqüência da exp osi ção, a m i
nha opinião sobre esta questão (respectivamente, p. 71-72 e 79-80 desta
ediçã o) e na qual caracterizei expressam ente est e “social ismo científi co u lterior
que se encontra em O capital de 1867-1894 e no utro s escrit os de M arx e
Engels” como “um a fo rm a desenvolvida da teoria ma rxista ”, contrastando-o
com “o com unism o esp on tanea m ente revo lucionário de épocas prece den tes” .
Outras provas da minha atitude francamente positiva em relação à última
for m a da teoria de Marx-Engels encontram-se em m inha introdução à e di ção
de 1922 das Glosas marginais ao programa do Partido Operário Alemão, de
Marx, de 1875, e no meu artigo “O marxismo da I Internacional” ( Die
In te rnati on ale [A Inte rnacio nal] , 1924, p. 575 e ss.). [As Glosas marginais,
mais conhecidas como “Crítica ao programa de Gotha” podem ser lidas em K.
M arx e F. Engels. Obras escolhidas. Rio de Janeiro: Vitória, 1961, v. 2.]
14 [Nest a data - em q ue eclo de a Prim eira Gue rra M undial, com a i nvasão da
Bél gi ca por tropa s alemãs - , os s ocial dem ocrat as ale mães, em torno dos quais
gravitava a Segunda Internacional, aprovaram, através da sua bancada no
p a rla m e n to , os c ré d ito s d e g u e rra ex ig id o s p elo K ais er.]
15 [Referência ao M a n if esto inaugural (redigido por Marx) da Associação
Internacional dos Trabalhadores (depois conhecida como Primeira Inter
nacional), fundada em Londres em 28 de setembro de 1864. Sob o título
“Manifesto de lançamento da Associação Internacional dos Trabalhadores”,
encontra-se em português em K. Marx e F. Engels. Obras escolhidas. Rio de
Janeiro: Vitória, 1961, v. 1.]
16 A fr ase é extraída de um a respo sta es cri ta p or L enin, antes do Co ngresso de
Lu cerna da Intern ac iona l de Berna (jul ho de 1919) , a u m arti go d o diri gen te
ope rári o ingl ês Ramsay M acdona ld (consider ado então co m o u m soci al ist a de
esquerda) sobre a “Terceira Internacional”, recentemente aparecida na cena do
m ovim ento ope rári o co m um manifes to ina ugural . Em ale mão, el a s e encontra
na revista D ie ko m m un is ti sch e Inte rnationale (A In te rnacio nal C om un is ta),
n. 4-5, p. 52 e ss., à época publicada pelo Secretariado da Internacional
Comunista para a Europa Ocidental.
A pass agem invoc ada por Bamm el para respal dar um a afir mação intei rame nte
di vers a não tem, n o c ontexto real em q ue L enin a ut il iza , ri goro sam ente nada
a ver com a t eori a m arxis ta da Segunda Internacional - Lenin quali fi ca co 
mo “mérito histórico” e “conquistas imperecíveis” da Segunda Internacional,
Estado a tu a l do pr obl ema (an ti crít ica) ♦ 111

“incontestáveis para qualquer operário politicamente consciente”, pontos


estrit am ente p ráti cos, t ai s com o “a organi zação das m ass as ope rárias, a criação
de organizações cooperativas, sindicais ou políticas de massa, a utilização do
p a r la m e n ta r is m o b u r g u ê s e, e m g eral, d e to d a s as in s titu iç õ e s d a d e m o c ra c ia
b u r g u e s a e tc .” (ib id ., p. 60 ).
Ver m eu ú lti m o te xto, Die mater ialistisch e Geschichtsauffassung. Ein e A u sein
anders etzung m it Karl Kautsky (A concepção materialista da história. Uma po
lêmica com Karl Kautsky) (citado, na seqüência, como A usein andersetzun g
m it Kauts ky [Polêm ica com K aut sky]) , particularme nte o últi m o capít ulo,
sobre a s ig nif ica ção his tóri ca do kautskysm o (não re prod uzido na reedição p ar
cial do A rc h iv fü r die Gesch ichte des Sozi alism us u n d der A rb eiterb ew eg ung
[.Arq uivo de H istória do Socialismo e do M ov im en to dos Trabalhadores], de
G rü nb erg , n. 14 , p. 17 9 e ss. ).
Ver a correspon dên cia da época entre M arx e Enge ls, reprod uzida na m inha
edição das Glosas marginais ao programa do Partido Operário Alemão e as
notas a ela pertinentes na minha introdução, p. 6 e ss. As Cartas de F.
Engels a Bernstein (1881-1895), posteriorm en te pub li cad as ( B erli m , 1925 ),
contêm outros esclarecimentos importantes relativos a esta questão.
Ver em particular, na Volkswirtschaftlehre in Selbstdarstellungen (Auto-
representações da teoria econômica popular) (Leipzig, 1924), a exposição
concordante que agora fazem Bernstein (p. 12 e ss.) e Kautsky (p. 134 e ss.)
da m ud anç a o corrida àqu ela é poca em suas res pecti vas rel ações com a t eoria
m arxist a, ao m esm o tem po em que em suas r ela ções teóri cas recípr ocas. Es sa
exposição reti fica com pletam ente a l enda acerc a do ca ráter “m arxista” que
m arcaria a teoria soc ial dem ocrata antes da s ua “r evisão” p or Be rnst ein.

A despeito de sua fórmula célebre (“Quanto a mim, não sou marxista”), o


p r ó p r io M a rx c o n tr ib u iu o c a s io n a lm e n te p a ra esta c o n c e p ç ã o alg o d o g 
mática e idealista das relações entre a sua teoria marxista e os aspectos ulte
riores reais do movimento operário. Ver, por exemplo, nas Glosas marginais
ao programa do Partido Operário Alemão, de 1875, seus reiterados quei
xum es acerca do “ret rocesso teórico que causa rea l indigna ção ” dess e projeto
de programa em face do nível superior de conhecimento já alcançado e a
p r o p ó s ito d o “ a te n ta d o m o n s tr u o s o c o n tr a u m a c o n c e p ç ã o tã o d if u n d id a
entre a massa do P artido” com eti do pel os autores do projet o. M as os adver
sários radicais de esquerda do revisionismo e da ortodoxia centrista ergueram
m ais tarde, a partir des sa concepçã o, um si st ema com a ajuda do qual ten ta
ram expli car a “ est agnação” que constat avam no d esenvolvimen to teóri co
do marxismo. É assim, por exemplo, que Rosa Luxemburg, em seu artigo do
Vorwärts (14 de março de 1903), afirma, com a maior seriedade, que, se a
teoria do m ov im ento est á agora em “ po nto m or to” , is to n ão se dev e “a que
nós, e m noss o com bate pr át ico, t enham os superado M arx , mas, a o co ntrá
rio, deve-se a que Marx, em sua obra científica, tenha avançado mais que
nós, partido militante de luta; não se deve a que Marx não responda mais
às nossas exigências, mas ao fato de qúe nossas exigências ainda não são
112 ♦ K arl K or sc h

o bastante grandes pa ra que possam os nos beneficiar do pe nsam ento de M arx” .


E o erud ito m arxista Ria zanov, que reeditou ess e art igo em 192 8, na a nto lo
gia K. M ar x als Denke r, Mensch und R evolutionär [ed. bras.: D. Riazanov.
M arx : o hom em , o pe nsador, o revo lucionário. São Paulo: Global , 1984] , co m 
p le m e n ta , d o p o n to d e v ista c o n te m p o r â n e o , as p o n tu a ç õ e s q u e h a v ia m sid o
fei tas quase trinta anos atrás por R osa Lu xem burg, com est a si ngela observa
ção: “A práxi s da R evolução Russa m ostro u que cada fa se nova e sup erior
da luta pro letária pode sem pre extrair do inesgot ável arsenal da teoria m ar 
xista [! ] as arm as exigidas pelo novo estágio da luta em an cipa do ra da cl ass e
op erária” (i bid., p . 7). N ão se po de afirm ar qu e a rel ação en tre teoria e pr áxis ,
que Rosa Luxemburg colocara de cabeça para baixo, esteja assim reposta
sobre seus pés.
21 Ver a polêmica d e K aut sky (em Neue Zeit, n. 21, p. 68 e ss.) contra o projeto
de uma nova redação do programa de Heinfeld, apresentado em 1901 ao
congres so do Pa rti do austr íaco (Viena). N um a parte qu alquer dess e projet o,
diz-s e q ue o pro letariado se al ça à consciênci a da po ssibil idade e da necessi
dade do socialismo através das lutas que lhe são impostas pelo desenvol
vim ento capit ali st a. K aut sky pr eci sa m uito p ertinentem en te o sen ti do de ss a
afirmação ao observar: “Conseqüentemente, a consciência socialista seria o
result ado necessário, dir eto, da luta de cl as se proletária”; prossegue , poré m ,
textualmente: “Mas isto é completamente falso. Como doutrina, é evidente
que o soc ial is m o tem as s uas r aí zes nas r el ações econ ôm icas atuais, exata
m ente do m esm o m od o q ue a luta de c la ss e do p roletariado e, tal com o est a,
o social ismo deriva da luta das massas con tra a pob reza e a m iséri a, pobreza
e miséria geradas pelo capitalismo. Mas o socialismo e a luta de classes sur

gem um ao lAado
diferentes. do o utrosoci
consciência e não ali
derist a vam
m odu ernm do outro;pod
a não s eurgem
surgir de premiss
senão na base as
de profu nd os co nhe cim entos cie nt íf icos. C om efe ito, a ci ênci a econô m ica co n
tem porân ea é tanto um a condição d a produção socia li st a quan to, por exem 
p lo , a té c n ic a m o d e r n a , e o p r o le ta ria d o , p o r m a is q u e o deseje , n ã o p o d e
cri ar nem um a nem outr a - am bas sur gem do proc ess o soc ial con tem po 
râneo. Mas o portador da ciência não é o proletariado: são-no os intelectuais
burgueses; fo i do cérebro de alguns m em bros dest a cam ada que surgiu o socia
li sm o m od erno , e f oram el es que o t ransm it iram aos proletári os intelectual
m ente m ais desenv olvi dos, o s quais , po r s ua vez , i ntro du ze m -no na luta d e
classe do proletariado onde as condições o permitem. Deste modo, a cons
ciência socialista é algo introduzido de fora na luta de classe do proletariado
e não algo que surge espontaneamente no seu seio. De acordo com isto, já o
velho programa de Heinfeld dizia, com toda a razão, que a tarefa da social
democracia é levar ao proletariado a consciência da sua situação e da sua
m is são. O ra, is so não seri a necessár io s e t al consciência deri vasse au tom a
ticam en te da luta de cl asses” (ibi d., p. 79). N o an o segu inte (19 02 ), Len in
desenvolveu o essenci al das idé ias d e Kautsky no seu cél ebre pro gra m a p olí
tico Que fazer?. Aí, repro du z textualme nte es sa s “pal avra s profun da m en te
E st ado atu a l do pr obl ema (an ti críti ca) ♦ 113

justas e im portantes de Kautsky” e delas extrai a expressa co nseqüência de “que


nem sequer se pode falar d e uma ideolog ia independe nte elaborada pelas pró 
prias massa s operá ria s no curso do seu m ovim ento ” [V. I. Len in. Obras esco
lhidas. Lisboa: Avante!; Moscou: Progresso, 1977, v. 1, p. 107]. A mesma idéia
reaparece em várias outras passagens do seu livro. Por exemplo, nestas pala
vras inequívocas: “ A história de todo s os pa íses teste m unh a que a classe op e
rária, exclusivamente com as suas próprias forças, só é capaz de desenvolver
uma consciência trade-unionista, quer dizer, a convicção de que é necessário
agrupar-se em sindicatos, lutar contra os patrões, exigir do governo estas ou
aquelas leis necessárias aos operários etc. Por seu lado, a doutrina do socialis
mo nasceu de teorias filosóficas, históricas e econômicas elaboradas por repre
sentantes instruídos das classes possuidoras, por intelectuais” (ibid., p. 101).
Ibid., p. 63 e ss. Na sua obra Liter atu ra e revo luçã o, publicada em russo nos
finais de 1923 e um ano depois em alemão ( Ve rlagfür Literatur u nd Poli tik.
Viena, 1924) [ed. bras.: Literatu ra e revolução. Rio de Janeiro: Zahar, 1969],
Leon
de queTrotski
retoma e desenvolve porelaborar
sua própria
umaconta
a tese luxemburguista
“a classe operária não poderá ciência e uma arte pró
prias senã o quando estiver com ple tam ente em ancipada da su a atu al situação
de classe” (ibid., p. 80-81, 113 e ss. e sobretudo 12,7 e ss.) e que, especifica
mente, o método de pesquisa de Marx só se tornará plenamente apropriado
pelo pro le ta ria do - que, então, não mais existirá co mo tal - na socieda de
socialista.
Para indicações mais detalhadas sobre esta questão, ver o meu /1 useiuader-
setzung mit Kautsky, p. 119 e ss.
Ver o meu artigo programático “Lenin und die Kominter” (“Lenin e a
Internacional Comunista”), divulgado para o V Congresso da Internacional
Comunista (que estava prestes a se realizar) na revista científica do Partido
Comunista Alemão, Die In te rnati onale (1924, p. 320 e ss.). [Ver, no pre
sente volume, p. 159 e ss.]
Pense-se aqui nas ásperas críticas que Rosa Luxemburg e Karl Liebknecht
dirigiram, nos primeiros momentos da Revolução Russa e antes da institui
ção formal da Internacional Comunista, à tática e à política dos bolche
viques; e, ainda, nas discussões, que culminaram em 1920-1921, entre a es
querda radical, liderada pelos comunistas holandeses Pannekoek e Gorter,
e a tendência bolchevique russa, sob a direção de Lenin.

Ver o estudo detalhado de Max Werner (A. Schifrin) sobre o marxismo so
viético (Sowjet Marxismus [Marxismo soviético]), particularmente esclare
cedor para o leitor não russo graças à profícua análise de documentos apenas
acessíveis aos conhecedores da língua russa (Die Gesellschaft, v. 4, n. 7,
p. 42 e ss. e sobre tudo p. 60 e ss.). É preciso, de um lado, con siderar qu e esta
apreciação dos comunismos russo e ocidental é a de um opositor político do
partid o atu alm ente no poder na Rússia soviética; mas, de outro, o au tor, in te 
lectualmente um plekhanoviano ortodoxo, situa-se, no que toca à concepção
114 ♦ K arl K or sc h

de mundo, ao lado do marxismo russo. Por isso, sua crítica não incide sobre
o co njun to do “marx ismo sovi ético”; incide apenas sobre os seus aspectos car i
caturais recentes, nos quais ele não vê a continuação e o “desenvolvimento”
mas, antes, a “deturpação” e a “degenerescência” das tradições do marxismo
russo (“Plekhanov, obviamente, não tem nenhuma responsabilidade pelo
marxismo soviético”). E, em seguida, observa, de forma ideológica e bem
superficial, que “é muito difícil e quase impossível, aos comunistas ocidentais
e tam bém , m ais ger almente, a t odos os marxist as europ eus de esquerda, a to 
dos aqueles fo rma dos nas tradiçõ es teóricas de R. Luxemburg e de F . Me hring,
uma adaptação intelectual ao marxismo soviético”. E explica este fenômeno,
de uma parte, de modo puramente ideológico: este marxismo ocidental da
esquerda radical “não tem , atrás de s i, as tradições ilum inistas ( aufklärerisch)
do marxismo russo”; de outra parte, muito superficialmente, vê a razão do
fenômeno na “formação particular” do marxismo soviético, “que as tarefas
do Estado soviético modelaram como uma ideologia oficializada”. O que o

crítico
(p. 63 não
e ss.) percebe é que as
para explicar as oposições
mesm as razões
entre ahistóricas e depolítica
teoria cl assedoque invoc a
marxismo
ocidental e do radicalismo de esquerda que o precede, de um lado, e, de outro,
a do bolchevismo russo são i gualmente as razõ es pro fun das e verda deiras das
oposições teórico-ideológicas entre o marxismo russo e o marxismo revolu
cionário da Europa ocidental.
27 Ver, a este respeito, dois pe quen os livr os editados tam bé m em 1924: A. Deb orin.
Lenin der kämpfen de Materialist (Lenin, materialista militante) e Lenins Briefe
an Maxim Gorky. 1908-1913 (Cartas de Lenin a Maxim Gorki. 1908-1913),
bem como a tradução alem ã (que chegou postfestum, muito atrasada) da obra
pro gram áti ca de Lenin , M ate rialism us und Empirio kritizism us. Kritisch
Bemerkungen über eine reaktionäre Philosophie (1927) [há ed. port.: M ateria
lismo e empiriocriticismo. Notas críticas sobre uma filosofia reacionária. Lisboa:
Avante!; Moscou: Progresso, 1982], O livro de J. Luppol, aparecido em 1929,
Lenin und die Philosophie (Z ur Frage des Verhältnisses der Philosophie zu r
Revolution) (Lenin e a filosofia: sobre a relação entre filosofia e revolução),
é um trabalho anodino, eco tardio de toda essa literatura.
28 Ver, p or e xemplo, a anticr ítica filosófic a de A. Deb orin, a pare cida à mesma
épo ca - em resposta à Geschichte und Klassenbewusstsein. Studien über
marxistische Dialektik, de Lukács -, “Lukács und seine Kritik des Marxis
mus” (“Lukács e sua crítica do marxismo”), na revista A rb eiterlitera tur
(Literatura Operária ), n. 10, p. 615 e ss., publicada pela Verlag für Literatur
und Politik, Viena, 1924, e o resumo da situação tal como ela se refletia
no cérebro dos principais representantes do “leninismo” filosófico: “Lukács
já te m seu discípulos e, de qualq uer m odo, está à fr ente de um a tendência
a que pertencem os camaradas Korsch (ver seu livro M arxismo e filosofia),
Fogarasi, Révai e outros. É impossível ignorar pura e simplesmente um tal
estado de coisas. Devemos submeter à crítica os princípios fundamentais dessa
nova corre nte do marxism o” (ibi d., p. 618) . No Pravda de 25 de julho de 1924,
Estado a tu a l do pr obl ema (anticrít ica) ♦ 115

há uma apresentação semelhante: “O livro de Lukács deve chamar a atenção


de todo teórico marxista, porque atrás de Lukács há um certo número de
comunistas: K. Korsch, Révai, Fogarasi e alguns outros”; e, mais adiante: “K.
Korsch pertence ao grupo de comunistas alemães que o camarada Zinoviev
mencionou incidentalmente no V Congresso da Internacional como teóri
cos que se desviam da linha do marxismo ortodoxo no plano da filosofía”.
Apreciações como essa encontram-se em quase todos os teóricos que parti
ciparam da cam panha, conduzida então pel o conjun to das revis tas e diári os
comunistas, contra este novo “desvio”.
Ver os próprios termos do artigo, já citado, do Pravda, bem como a maioria
das críticas provenientes do Partido Comunista. Ver em M arxism o e filosofia
(p. 23 e ss. da presente edição) a expressão totalmente oposta ao que me
é atribuído. O mesmo vale a propósito da afirmação estereotipadamente
repetida po r todos os crít icos vi nculados ao Parti do C om unista, segundo os
quais eu teria sublinhado, nesta questão, uma diferença essencial entre as
idéias
supra, adenota
Engels e ascapítulo
85, no de Marx. Na verdade,
“Marxismo tanto em
e filosofia”) face desta
quanto questão (ver, M ar
em geral,
xismo e filosofia não se solidariza com a parcialidade com que Lukács e Révai
trataram as idéias de Marx e de Engels como opiniões inteiramente diver
gentes. De igual forma, não se solidariza também com a atitude intrinse
camente dogmática e, por conseqüência, não científica, dos “ortodoxos”,
para os quais a concord ância to ta l e abso luta das doutr in as elabora das pelos
dois pais da Igreja constitui um artigo de fé imutável, estabelecido a priori.
“Ao ABC da filosofia marxista, a definição da verdade como a correspondên
cia da representação com os objetos que lhe são exteriores, Korsch qualifica
de ‘o po nto de vi sta ing enua m ente metafísico do bom senso bu rgu ês’, sem
compreen der, ou sem querer com preender, qu e é o seu próprio po nto de vist a
que, aqui, é burguês, uma mescla idealista da filosofia da identidade com
a doutrina de Mach” ( Pravda, 27 de julho de 1924). A mesm a p ostu ra co mpa rece
em G. Bamm el, editor e com entado r crí tico da traduçã o russ a de Marxismo
e filosofia·, na p. 18 da sua introdução, ele cita textualmente o que digo das
conseqüências desse “ponto de vista ingenuamente metafísico do bom senso
burg uês” para a ati tu de teórica e prá tica em face das “ideo logias ditas supe
riores” (p. 56 e ss. da presente edição); depois declara que esta frase e todas
as considerações seguintes são “totalmente ininteligíveis” e formula a ques
tão acusatória: “Se, para o camarada Korsch, o ponto de vista que define a
verdade como a correspondência da representação com o objeto exterior que
ela ‘representa’ é ‘o ponto de vista ingenuamente metafísico do bom senso
burg uês’, ele ain da se encontra nas fileiras do m arx ism o materialista? Será
preciso fazer n o ta r que o seu ponto de vista sobre esta questã o é um a capi
tulação diante da teoria idealista do conhecimento?” Já que é fácil responder
a es ta indagação triunfan te com ou tra - “então, por que pu blicar al go tão
ordinário?” -, o penetrante crítico subitamente se recorda da sua respon
sabilidade como editor e se defende com as circunstâncias atenuantes:
116 ♦ K arl K or sc h

“Entretanto, este é o fundo da questão: o camarada Korsch ignora tudo da


gnosiologia que diz respeito ao problema que lhe interessa”.
31 Estas frases são extraídas de uma carta de L enin de 24 d e ma rço de 1908;
os itálicos são dele mesmo. Vê-se, por esta carta e pelas seguintes, que Lenin,
como “hom em de pa rtido ”, subordina grosseiramente todas as questões teó
ricas ao interesse do Partido; no entanto, o editor russo da versão alemã de
Materialismo e empiriocriticismo, A. Deborin, forja uma lenda anacrônica,
apresentando agora as coisas como se existisse desde então uma “diferença
fundamental” entre o ponto de vista tático de Lenin ao examinar essas ques
tões filosóficas para o público e o dos outros marxistas e comunistas orto
doxos da época, como o Kautsky de então. Porém, a carta de Lenin a Gorki,
acima mencionada, a partir da qual Deborin sustenta suas afirmações (ibid.,
p. xix e ss.) não conclui, de fato, com uma declaração de hostilidad e, mas com
a proposição diplomática de uma “ neutralidade condici onal" - condi cional
no sentido de que seria preciso” fazer uma nítida distinção entre a fração
e toda essa querela” (ibid., p. 29-31). E, na primeira edição de Marxismo e
filosofia (ver, supra, a nota 8, no capítulo “Marxismo e filosofia”), já havía
mos reproduzido a singular retificação publicada naquele momento pela
redação do periódico russo Proletarier (O Proletário) (Lenin) na Neue Zeit
dirigida por Kautsky (10 de março de 1908, v. 26, n. 1, p. 898); trata-se
de uma resposta às observações críticas aparecidas numa edição precedente,
relativas aos diferendos filosóficos no interior do Partido Socialdemocrata
russo; ali, em nome dos bolcheviques da socialdemocracia russa, Lenin de
clara explicitamente: “Esta querela filosófica [ou seja, segundo as obser
vações críticas referidas, “saber se, do ponto de vista de uma crítica gnosio-
lógica, o marxismo está de acordo com Spinoza e d’Holbach ou com Mach
e Avenari us”!] não é e nem deve se tornar - para a redação - um a que stão de
fração. É absurdo pretender apresentar as divergências de opinião como
marcas distintivas de frações no interior do Partido. Nas fileiras das duas fra
ções há partidários e há adversários de Mach e de Avenarius”. Lenin se situa,
assim, no mesmo ponto de vista da Neue Zeit, que, nas suas notas críticas
de 14 de fevereiro de 1908, apresentava essa disputa filosófica como o agra
vamento inútil de “divergências táticas já muito sérias entre bolcheviques e
mencheviques”. Deborin (ibid.) polemiza duramente contra “a evidente inép
cia, para todo marxista”, do conselho que, um ano depois, numa carta de 26
de março de 1909, Kautsky repetia ao emigrado russo Bendianitsé: considerar

aprivada”;
adesão àsmteorias detoMach
as o his porimmembros
ria dor do Partido
parcial deve afirm como
ar, ao uma “questão
contr ári o, que Lenin,
nas duas passagens mencionadas antes, considerava, um ano antes, a adesão
a Mach como uma “questão privada” não só no Partido, mas ainda na fração.
E, um ano mais tarde, no decorrer de uma conferência realizada em Paris pela
“redação ampliada do Proletarier ” (ou seja, o centro bolchevique do Partido),
a cisão foi provocada desde o princípio por essas questões filosóficas, não entre
as frações bolchevique e menchevique, mas no interior da própria fração
bolchevique ; Lenin afirma então, na sua resposta oficial à declaração de
E st ado atu al do pr obl ema (an ti críti ca) ♦ 117

ruptura de Bogdanov, que este fato significava a ruptura de Bogdanov com


a fraç ão bolchevique, não com o Partido, porque “a fração não é um partido,
e um partido pode envolver urna gama de nuanças cujos extremos podem
chegar a ser absolutamente contrários” ( Pages choisies [Páginas escolhidas]
de Lenin, Paris, 1926-1927, v. 2, p. 329, nota 2, com comentários cuidado
sos do apresentador P. Pascal). De fato, neste momento, Lenin e Kautsky
assum iram explicitamente a mesmo atitude em face d essa questão e somente
o seu desenvolvimento ulterior fez aparecer a profunda divergência entre as
suas concepções gerais.
Ver, para o restante, a passagem consagrada a esta questão em Materialismo
e empiriocriticismo, sob o título “Sobre a dupla crítica a Dtihring” [na ed.
port. cit., p. 181-184], de que ex traím os to das as nossas citações textuais
(os itálicos são de Lenin).
Neste asp ecto , Lenin negligencia os períodos de desenvolvimento de Marx e
de Engels a que fizemos referência e fala muito genericamente da época em
que “Marx e Engels, como J. Dietzgen, intervieram nas polêmicas filosó
ficas” (ibid., p. 219), compreendendo manifestamente por isto as suas posi
ções ulteriores, depois do fim dos anos 1850. É preferível, para avaliar as
diversas declarações de Marx e Engels, tomar mais em consideração os seus
destinatários específicos (como tentei em Marxismo e filosofia ) do que fazer
distinções cronológicas.
Sobre este aspecto positivo da propaganda materialista de Lenin, ver sobre
tudo o seu artigo programático, particularmente útil para avaliar correta
mente a significação histórica real desse materialismo, publicado na revista
russa Sob a bandeira do marxismo (v. 1, n. 3, março de 1922; versão alemã

na
de revista Kommunistische
Sob a Bandeira Internationale,
do Marxismo, v. 1, n. 1,n. março
21, reimpressa
de 1925,).na [Sob
edição alemã de
o título
“Sobre o significado do materialismo militante”, este artigo encontra-se em V.
I. Lenin. Obras escolhidas. Lisboa: Avante!; Moscou: Progresso, 1979, v. 3.]
Crítica da filosofia do direito de Hegel, ed. de Mehring das Marx-E nge ls
Nachlass (Obras póstumas de Marx-Engels), 1841-1850, p. 390 [na ed. bras.
cit., v. 1, p. 150]. Não é este o lugar para demonstrar em detalhe que à gran
de parte da argumentação de Lenin contra a filosofia idealista cabe a crítica
de Marx que referimos. Basta-nos, aqui, mencionar o argumento de que ele
se serve para “refutar” na experiência a doutrina (filosófica) transcendental
das relações entre o sujeito e o objeto, aludindo ao antigo estado de matéria
em fusão que constituía o globo e não permitiria ainda nenhuma “represen
tação” subjetiva. Lenin recorre reiteradamente a este argumento filosófico
tão particular e sob múltiplas formas numa passagem de seu livro especial
mente dedicada a esta questão (p. 60 e ss., sob o título “A natureza existia
antes do homem?” [na ed. port. cit. de Materialism o e empiriocriticismo,
p. 56 e ss.]); mas o arg um ento já desem penha um a fu nção no seu p rede
cess or, o m aterialista Plekhanov, que invoca - em lugar do “globo em fu
são” - a “era se cun dária” mais recente em relaç ão às “cat egorias subjetivas
118 ♦ K arl K ors ch

do ictiossauro”. Uma interpretação estreita do bem conhecido exemplo da


alizarina que Engels contrapõe à “inapreensível coisa em si de Kant” no
segundo capítulo do seu L udw ig Feuer bach e o f im da fi lo so fia clássica
alemã, perm it ir ia ta m bém inseri-lo nessa categoria (ver Len in, ibid., p. 66
e 84 [na ed. port. cit. de M ate ria li sm o e em pir io -c ritic is m o, p. 62 e 81] e
as passagens de Plekhanov e Engels que ele cita a propósito).
36 Ver as determ inaç ões q ue ofereço no meu A usein and ersetz u ng m it K auts ky,
p. 29 e ss., e no A rch iv fü r die Gesch ichte des Sozi alis m us und der A rb eit er
bewegung de Gr un be rg, n. 14, p. 205 e ss. Lenin, dian te da nova inflexã o -
que e le preten de c onstatar - do materialis mo bu rguês primitivo em direção
ao idealismo e ao agnosticismo, invoca repetidamente a introdução de Engels,
de 1892, à edição inglesa de Do socialismo utópico ao socialismo cientifico·, mas
é preciso notar aqui que, neste escrito notável (publicado em alemão na
N eue Z eit, v. 10, n. 1, e reeditado agora no livro de Engels sobre Feuerbach,
Berlim-Viena, 1927), Friedrich Engels não considerava, realmente, esse novo

idealismo
movimentoe revolucionário
agnosticismo burguês
operário,como
e não ohesita
principal perigo teórico
em qualificá-lo comopara
um o
“materialismo envergonhado”, cobrindo de ironias as esperanças que a bur
guesia depositava numa tal defesa ideológica.
37 Ver, de um a pa rte, a conh ecida passagem do posfácio à segunda edição de
O capital, de 1873, e, de outra, nos parágrafos introdutórios do seu Ludw ig
Feuerbach, a apreciação de Engels sobre “a significação real e o caráter revo
lucionário” da filosofia de Hegel, que ele considera como “o coroamento de
todo o movimento filosófico iniciado com Kant”. Nas lrases iniciais de Lud wig
Feuerbach: “O conservadorismo desta concepção é relativo; seu caráter
revolucionário é absoluto; é o único absoluto que ela deixa de pé” [ver, na
ed. bras. cit., p. 172-173]. É desnecessário observar que o termo absoluto tem,
seja em En gels, seja em nosso pró prio texto, um sentido figurad o - pre ci
samente quando, de repente, Lenin e os seus recomeçaram a falar alegre
mente de um Ser absoluto e de uma Verdade absoluta num sentido que
nada tem de figurado!
38 Ver, na Fenomenologia do espírito, a notável cr ítica histórica - a despeito da
inevi tável mistif icação idealista ne la contida - que Hegel dirige con tra as
duas tendências da A u fk lä ru n g nos séculos XVII e XVIII: “Um dos ilumi-
nismos denomina essência absoluta esse absoluto sem predicados que está
pa ra além da consciência efetiva no pensam ento do qu al se part iu ; o outro,
o chama matéria. Se fossem distinguidos como N atu reza e Espírito ou Deu s,
faltaria então ao existir carente de consciência de si mesmo, para ser natu
reza, a riqueza da vida desenvolvida; e faltaria ao Espírito ou Deus a cons
ciência que em si mesma se diferencia. Os dois são pura e simplesmente
o mesmo conceito, como vimos. A diferença não reside na Coisa, mas pura
mente apenas nos diversos pontos de partida das duas formações, e no fato
de que cada uma se fixa em um ponto próprio no movimento do pensar.
Se fossem mais adiante, teriam de se encontrar e de reconhecer como o mes
E st ado atu a l do pr obl ema (an ti crít ica) ♦ 119

mo o que par a um - como el e pret ende - é uma abominação e , para o out ro,
uma loucura” [G. W. F. Hegel. Fenomenologia do espírito. Petrópolis: Vozes,
1992, v. 2, p. 89]. Ver também, em A sagrad a fa m ília , a crítica materialista
que Marx dirige não a esta apresentação de Hegel do materialismo e do
teísmo como “as duas partes de um só e mesmo princípio”, mas ao ralo
xarope que dela extrai Bruno Bauer ( N achla ss , v. 2, p. 231 e ss. [ver K. Marx
e F. Engels. A sa gr ad a fa m ília . São Paulo: Boitempo, 2003, p. 143 e ss.]).
Ver, de um lado, as Teses sobre Fetierbach, de Marx (1845) e, de outro, a
exposição da relação “dialética” entre teoria e práxis revolucionária por A.
Deborin, na sua anticrítica contra Lukács (“Lukács und seine Kritik des
Marxismus” [citado supra, na nota 28], p. 640 e ss.). Seria supérfluo demons
trar detalhadamente que Lenin vincula resolutamente a teoria de Marx a
uma concepção não dialética, o que se pode constatar em cada linha da sua
obra filosófica; observem os apenas que, nessa obra, cujas quase qua trocen tas
pá gina s tr ata m das relaçõ es entre o ser e a co nsciên cia, ele as to m a so m ente

anhecim
partir do ponto
ento de vista
no mesm gnosiológico
o plano das out mais abstrato.
ras formas histEleórico-soci
jamais situa o co
ais da consciên
cia, jamais o examina como fenômeno histórico, como “supe restru tura ”
ideológica da respectiva estrutura econômica da sociedade (ver o prefácio
de Marx à Crítica da economia política ) ou como simples “expressões gerais
de relações efetivas de uma luta de classes que existe” (Manifesto
comunista...) [ver K. Marx e F. Engels. M anifesto do P art id o C om unis ta .
São Paulo: Cortez, 1998, p. 21].
Ver Nachla ss, v. 1, p. 319. [Esta exata fórmula de Marx, a que Korsch retor
nará, encon tra-se em t exto não ver tido a o português - precisame nte num
dos artigos da série em que, na R heinische Z eitu n g (G azeta R enana), Marx
analisou os debates da VI Dieta renana acerca da lei sobre os roubos de le
nha (edição de 3 de novembro de 1842).]
Isto foi reconhecido à época pelo mestre de Lenin em filosofia, o teórico
russo Plekhanov, considerado durante algum tempo por toda a ortodoxia
marxista do Ocidente e do Oriente como a verdadeira autoridade em todas
as questões filosóficas do marxismo. Por exemplo, ele escreve em Questões
fu n d a m en ta is do m arx ism o (publicado em alemão em 1913 [ed. bras.: Rio de
Janeiro, Vitória, 1956]), quando passa da exposição da filosofia materialista
à discussão do método materialista dialético e de sua aplicação às ciências
da natureza e às ciências sociais: “A concepção materialista da história tem,
antes de tudo [!], uma significação metodológica". No plano filosófico, as re la 
ções entre Plekhanov e Lenin são tais que é o discípulo que, aceitando cega
mente o essencial das doutrinas do mestre, leva-as às últimas conseqüências,
desembaraçando-se de quaisquer outras considerações. É, pois, historica
mente inexato descrever como uma conseqüência do seu “desvio socialpa-
triótico ” dura nte a guerra a “ revis ão”, por Plekhanov, em seu últim o p eríodo,
e por sua discípula Axelrod-Orthodox, de suas concepções filosóficas ante
riores “no sentido de uma aproximação à filosofia de Kant”, como o fazem
120 ♦ K arl K or sc h

os bolcheviques, mas também, por exemplo, o menchevique de esquerda


Schifrin (ver o seu estudo crítico sobre o “marxismo soviético”, em
Gesellschaft, v. 4, n. 7, p. 46 e nota 6). Na realidade, Plekhanov, já antes e
em particular nas primeira e segunda edições (1902 e 1905) da sua tradução
de Lud wig Feuerbach, de Engel s, estava próxim o - mu ito mais do que Lenin
em qualquer m om ento - da t eori a do conhecimento tingi da de kanti smo de
alguns cientistas modernos. Ver, na nota 7 da edição alemã de Materialism o
é empirio-criticismo, as duas formulações da “teoria dos hieróglifos” de
Plekhanov; o auto r desta nota, L . Rudas , retom and o servilmente a concepção
que Lenin sustentava por razões táticas, apresenta a segunda fórmula como
uma retificação do que, na primeira, seria “equívoco”. Mas, quando se com
param as duas fó rm ulas de m odo científico e im pa rcial, conclu i-se que
Plekhanov, em 1905, quando recusa à coisa em si “qualquer forma” fora da
sua ação sobre nós, é, no mínimo, tão agnóstico no sentido leninista do
termo como quando, em 1902, caracteriza as nossas sensações como “uma
espécie de hieróglifos” que, sem serem semelhantes aos eventos, “traduzem,
todavia, de um modo perfeitamente correto tanto os próprios eventos
qua nto - e isto é o essenci al - as relaçõ es que m an têm entre s i”. A única
vantagem desta última fórmula sobre a primeira é que ela “não faz qualquer
concessão terminológica aos adversários” e, portanto, que a incompreensão
total do problema gnosiológico sobre o qual repousa toda a teoria dos
hieróglifos torna-se menos visível sob estas novas vestes. Detive-me,
detalhadamente, sobre esta questão no meu A usein anderselz ung m it
Kautsky, p. 111 e ss. [A edição portuguesa citada de Materialism o e em pirio-
criticismo não contém a nota de Rudas mencionada por Korsch; mas há
referência à questão, na nota editorial 75, p. 283-284.]
42 Ver especialmente o últim o capítulo de Lu dwig Feuerbach e o fim da filosofia
clássica alemã, no qual Engels afirma expressamente que a concepção mate
rialista dialética que Marx e ele professam torna toda filosofia “inteiramente
supérflua” tanto no domínio da história quanto no da natureza [ver, na ed.
bras. cit., p. 208]; ve r tam bém as ge neralidad es da in tr odução ao A nti -
Dühring, quando se diz que, do ponto de vista do materialismo moderno
“essen cialm ente dialé tico”, que convoca cada ciência a compreender o lugar
que ocupa no encadeamento geral das coisas e do conhecimento das coisas,
“toda ciência particular das concatenações universais torna-se supérflua" [ver
F. Engels. Anti-D ührin g. São Paulo-Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1990, p. 23],

43 Prefá cio de 188 5 à seg un da edição do Anti-D ührin g [ver, na ed. bras. cit.,
p. 10].
44 Um exemplo entre tan tos outros: o come ntário “fi losófi co” tão p articular
de Lenin ao M anual de ótica fisiológica de Helmholtz, no qual, na mesma
págin a, as se nsaçõe s são caracte rizadas, prim eiro , co m o “símbolos dos
fenômenos exteriores, sem qualquer espécie de analogia ou semelhança com
as coisas que representam” e, em seguida, como “ efeitos que os objetos que ve
mos ou que imaginamos produzem sobre o nosso sistema nervoso e sobre a
E st ado atu a l do pr obl ema (anticrít ica) ♦ 121

nossa consciência”. Diante da primeira caracterização, Lenin grita - e is o agnos


ticismo! - e, dian te da segunda, esbraveja - eis o materialismo! - , sem consi
derar minim am ente que não há nenhu ma contradição entr e essas dua s afirma
ções de Helmholtz: para este, não é necessário que um “efeito” tenha qualquer
relaç ão de semelhança ou de conformidade com sua caus a; a pretensa “incon 
sequência” do cientista em sua exposi ção deco rre do fato de o crítico “filosó
fico” exigir-lhe não ciência, mas a adoção “conseqüente” de tal ou qual ponto
de vista filosófico e metafísico [ver, na ed. port. cit. de Materialism o e empirio-
criticismo, p. 177].
45 Se quise r apre end er-se a semp re encob erta e cega adm iração de Lenin, no
exercício do seu inquisitorial filosófico, pelo materialismo científico da segun
da m etade do séc ulo X IX , tão abstrato quan to poss ível, desprovido da m enor
inspiração dialética e, ao mesmo tempo, a enorme diferença do materialismo
de Lenin, “f ilosófico” e unilateral, em fac e do materia lismo histórico concreto,
basta com parar o últim o capítulo da su a obra “Ernst Haeckel e Ern st M ach”
(ibid., p. 319 e ss. [na ed. port. cit. de p. 262
Materialismo
e ss.]), com as apreciações críticas que o radical e empiriocriticismo,
de esquerda alemão Franz
Mehring faz ( Neue Zeit, v. 18, n. 1, p. 417 e ss.) sobre os Enigmas do universo,
de Haeckel. Toda a insuficiência e toda a parcialidade do ponto de vista mate
rialista de Lenin em sua obra aparecem flagrantemente nesta frase de Mehring,
citada pelo próprio Lenin (p. 327 [na ed. port. cit. de Materialismo e em pi
riocriticismo, p. 269]): “A obra de Haeckel é, tanto pelos seus aspectos menos
bons quanto pelo seus aspectos m uito bo ns, extraord in ariam ente valiosa pa ra
ajudar a esclar ecer al gumas concepções um tanto confusas no nosso partido
acerca do que é para ele o materialismo histórico, por um lado, e o mate
rialismo histórico, po r outro ” - ou, ai nda, nou tra frase sign ificat iva : “Que
leia o livro de Haeckel quem quiser apreender tangivelmente esta incapa
cidade (do materialismo das ciências da natureza para tratar das questões so
ciais), que m quiser tom ar consci ênci a de quanto é necessár io ampliar o m ate
rialismo das ci ências da naturez a até o materialismo histórico, a fim de fazer
dele uma arma verdadeiramente invencível na grande luta libertadora da
humanidade” (Mehring, ibid., p. 418 e 419). Vale confrontar também, a este
propósito, a pertinente crítica que, nos seus man uscritos sobr e Dialética e n atu
reza, Engels dirige ao naturalista materialista Haeckel, que tanto Mehring
quan to Lenin apreciam posit ivamente - ver Mar x-Engels Archiv, v. 2, sobre
tudo p. 177, 234 (“Promammale Haeckel”!), 259 e 260 [há ed. obras.: F. Engels.
Dialética da natureza. Rio de Janeiro: Leitura, s. d. Todas as referências a
Haeckel se encontram na seção “Apontamentos”, p. 126-214], Lenin, em troca,
fala em termos muito positivos do célebre naturalista Haeckel (sem aspas) por
oposição ao “célebre filósofo Mac h ” (aspas) e do “ todo vigoroso materialismo”
do primeiro (op, cit., p. 321 [na ed. port. cit. de Materialismo e em pirio-
criticismo, p. 263 e ss.]).
46 Sobre as diversas redaç ões d o p rog ram a, ve r In tern ationa le Pressekorres-
pondenz , v. 4, n. 136, de 18 out. 1924, p. 1.796, e v. 8, n. 133, de 30 nov.
1928, p. 2.630; ver, ademais, os discursos de Bukharin nos V e VI Congressos
122 ♦ K arl K or sc h

(Intern ationa le Presse korrespo nden z, 1924, p. 989 e 1.170; e 1928, p. 1.520
e 1.682).
47 Ver o artig o de Trotski para o 25° aniversá rio de Neu e Zeit, v. 26, n. 1,
p. 7 e ss. Em Sch ifrin, “Z ur Genesis de r so zialõ konom ischen Ideologien in
der russischen Wirtschaftswissenschaft” [“Sobre a gênese das ideologias eco-
nômico-sociais na ciência econômica russa”] {Archiv für Sozialwissenchaft
und Sozialpolitik [Arquivo de Ciência e Política Social], n. 4, p. 720 e ss.);
também na excelente introdução do editor Kurt Mandelbaum à versão ale
mã das Cartas de Marx e de Engels a Nicolai-on (Leipzig, 1929, p. v-xxxiv)
há outros exemplos persuasivos desta evolução contraditória da ideologia mar
xista e do movimento real na Rússia, tanto para esta primeira fase de desen
volvimento quanto para as subseqüentes.
48 Ver o me u a rtigo, j á citad o, Lenin und die K om intern (p. 40 [ver, no presente
volume, p. 159 e ss.]).
49 Ib id ., p. 149 e ss. Os itáli co s são de Sch ifrin.
A CONCEPÇÃO MATERIALISTA DA HISTÓRIA

1.

O marxismo, para os nossos eruditos burgueses, não repre


senta apenas uma dif icul dade teór ica e práti ca de prim eira ordem -
representa, ainda, um a dificul dade teóri ca de segunda ord em , o u seja,
uma dificuldade “epistemológica”. Ele não se deixa encaixar em ne
nh um a das gavet as tradicionais do sist ema das ciênc ias burguesas. E
mesm o se fosse abe rta especialm ente pa ra ele e seus con gên eres m ais
pró xim os um a nova gaveta, chamada sociologia, o marx ismo não se
aquietaria nela: logo estaria passeando por todas as outras. “Econo
mia”, “filos ofia”, “h istór ia”, “teoria do d ireito e do Es tado ” - nen hu m a
dess as rubrica s é capa z de aprisioná-lo e ne nh um a e staria a salvo de
suas incursões caso s e pretendesse en carcerá-lo em o utra . De fato, o
marxismo carece daquela característica que Karl Marx celebrou,
certa fei ta, como “a rai z da moral e da p robida de alemãs, com uns tan 
to às classes qu an to aos indiv íduo s”: esse “egoísmo modes to, que re i
vindica a sua pró pria estr eiteza de espíri to e permite, de bo a vontade,
que a censurem”. Independentemente de qualquer outro traço pe
culi ar, reconhec e-se que o marxism o é totalm en te estra nh o ao “cará
ter alemão”, graças a esta inconstância bem latina com que despreza
todas as tentativas de classificação, mesmo as dos mais eminentes dig-
natários da república b urguesa das le tras.
A razão desta dificuldade insuperável para a epistemología
burguesa reside em que o marxismo não pode ser c onsidera do co mo
um a “ciênc ia”, mesm o que se dê a esta palavra o sentid o b urg uê s mais
amplo, que compreende inclusive a filosofia mais especulativa. Até o
presente, designou-se como “científico” o socialismo e o com unism o
marxistas, em o posição aos sist emas “crítico -utó pico s” de um Saint-
Simon, um Fourier, um Owen etc., e assim se forneceu um consolo
inde scri tíve l à ho nesta consci ênci a pequ eno -burgu esa de num erosos
socialdemocratas al emães - mas es te belo sonho é cruelm ente des-
124 ♦ Kak i . K oks ch

feito qua nd o se verifica que, precisamente no sentido decoroso e bur 


gués da palavra, o m arxismo jamais fo i u m a“ciénci a” e nun ca poderá
sê-lo enquanto permanecer fiel a si mesmo. Ele não é uma “econo
mia”, um a “fil osofia”, um a “história ” nem qualq uer ou tra “ciênci a hu 
mana” ( Geiteswissemchaft) ou uma combinação dessas ciências en 
tendid as se gun do o p on to de vista do “espírito científico ” burgu ês. Ao
con trário, a pri ncipal o bra econ ômica de Marx é , do princípio ao fim ,
uma crítica da economia política, como diz o seu subtítulo e o con
firma to do o se u conteú do; e é preci so com preen dê-la com o um a crí
tica da economia política tradicional, pretensamente “imparcial”
mas, na realidade, pu ram en te “burguesa” , isto é, determ ina da e limi
tada p or prem issas burguesas. Isso signif ica que est a crítica da eco no 
mia burguesa adere abertamente à perspectiva da única classe que,
dentre todas as existentes, não tem nenhum interesse na manutenção
dos p recon ceitos burgueses e cuj as condições de existência, ao con 
trário, conduzem imperativamente à sua definitiva destruição, prá
tica e teórica . E o que s e afirma da e co nom ia m arxista vale par a tod os
os outros elementos tio sistema de pensamento marxista, ou seja, as
doutrinas que o marxismo professa sobre as questões que a episte
mología burguesa classifica tradicionalmente nos âmbitos da filo

sofia,
da suada história
dou trin a,ocom
u deoqualq uer oa su outras,
em t odas tr a“ciênci a hunão
Marx m an
s ea”.
preNestas partes
ten deu um
“Hércules fundador de impérios”. A erudição burguesa e semi-
socialista comete um erro total quando pressupõe que o marxismo
pretenderia estabelecer uma nova “filosofia” no lugar da antiga (bur
guesa), um a nova “ historiogra fia” no lugar da antiga (bu rgu esa ), uma
nova “teo ria do direito e do Estado ” no lugar da antiga (bu rgu esa ) ou,
ainda , um a nova “sociologia” no lug ar desse edifício inac aba do que a
epistemología burguesa apresenta atualmente como “a” ciência socio
lógica. A teo ria marxista não qu er nad a disso, assim com o o movim en
to político e social do marxismo (de que ela é a expressão teórica) não
quer substituir o antigo sistema dos Estados burgueses e todos os
mem bros que o com põem po r novos “Estados” ou p or um novo “ sis 
tema de E stado s”. Karl Marx se prop õe , ao co ntr ário , realizar a crítica
da filosofia burguesa, a crítica da historiografia burguesa, a crítica de
todas as ciências humanas burguesas; em suma: a crítica da ideologia
A CONCEPÇÃO M ATERIALISTA DA HISTÓRIA ♦ 125

burguesa em seu conju nto - e, para em pre ender esta crítica da “ideo
logia” burg uesa, tal com o a crítica da “ eco nom ia” burg uesa, assu me o
ponto de vista da classe proletária.
En qu an to a ciência e a fil osofia burguesas perseg uem o fantas 
ma engan oso da “objetividade” , o m arxismo, e m p rincíp io e em todo s
os seus aspectos, re nun cia a e sta ilusão. Ele não preten de ser um a ciên 
cia ou uma filosofia “puras”; antes, deve criticar impiedosamente a
“im pureza ” de toda ciência ou filosofia burguesas conhecidas, d esm as
carando sem complacência os seus “pressupostos” implícitos. E esta
crítica, por seu turno, nunca quer ser uma “pura” crítica no sentido
burguês da palavra. Ela não é realizada de m odo “objetivo”; ao con
trário, m anté m a mais estr eita rel ação com a luta prática que a classe o pe 
rária trava pe la sua eman cipação, luta de que es ta crítica não é mais do
que a expressão teórica. Ela se distingue, em conseqüência, de toda
ciência ou filosofia burguesas não críticas (dogmáticas, metafísicas ou
especulativas), assim como, também radicalmente, de tudo aquilo que se
designa po r “crítica ” na ciência e na filosofia burgu esas tr adic iona is e cu 
ja fo rm a teórica m ais acabada se encontra na filosofia crítica de Kant.
Pois bem: qual é o ponto de vista novo e particular assumido
pelo m arxism o-enquanto expressão geral“de relações efetivas de um a
luta de cl asses que existe” 1- para realizar a sua crítica da economia e
tia ideologia da burgues ia? Para comp reend ê-lo, é necessár io ter um a
idéia clara e nítida da espec ífica concepção ma rxista da vida social, co n
cepçã o que os seus adeptos e os seus adversários designam ha bitu al
mente com o “concepção ma terialista da histó ria”, design ação que não
é exatamente adequada a todas as suas dimensões. E, aqui, é preciso,
previamente, colocara questão: qual a relação, no sislcma global do ma r
xis m o , entre as duas partes da sua doutrina que antes distinguimos,
ou sej a, entre a crí tica da economia e o que cham am os crítica da ideo 
logia? Observ em os, logo de iníc io, que e las constitue m um a u nida de

indivisível. E absolutamente
micas " t:lo ma impossível
rxism o aceitando, ao mesmrecusar
o temas
po,“teorias econô“ma r
uma posição
xista” em face das q uestões políticas, jurídicas, históricas, so ciológicas
ou de outras questões extra-econômicas. E o inverso é igualmente
impos sível, ainda que freqüentem ente tentado por econom istas bu r
gueses que não p ude ram furtar-se à verdade das “teorias econômicas”
126 ♦ K arl Korsc h

do marxismo: não se pod e concordar com a “crítica da econ om ia po lí


tica” de M arx e, ao mesm o tem po, rejeitar as conseqüências dela para
os problem as políticos, jurídicos etc.
A “crítica da economia política” e a “crítica da ideologia” da
classe burguesa constituem, pois, no sistema marxista, uma unidade
indivisível, na qual nenhuma parte pode ser isolada das outras e to
mada em si mesm a. Mas a imp ortân cia de cada um a delas no in terior
do sistema marxista é m uito d iferente - pode-se verificá-l o, entre
outras coisas, pelo tratamento particular oferecido a elas por Marx
nas obra s que cheg aram até nós. Ka rl Ma rx, que no se u p eríod o de ju 
ven tude ado tava um po nto de v ista filosófico (o qual, segund o a sua
pró pria term inologia posterior, ter-se-ia de qualificar como p u ra
mente “ideológico”), só conseguiu liberar-se dele após um longo e
difícil trab alh o de rellex ão. Entre o per íod o de juv en tud e e o da ma tu 
ridade da sua atividade criadora interpôs-se um largo trabalho de
“clarificaçã o pes soa l” ( Selbstverstãndigung ), graças ao qual liberou-se
tão rad icalm ente de tod a ideologia que, nos s eus perío do s posteriores,
forneceu à “crítica da ideologia” apen as ob servações oc asiona is, vis to
que cada vez mais se dedic ava à “crític a da e cono mia p ol ítica ”. Assim,
ele construiu a sua obra começando pela “crítica da ideologia”, em
que d escob riu o se u novo po nto de vi sta materialist a que, a partir de
então, apli cou de mod o extremam ente f ecundo, sempre que se ap re 
sentou a ocasião, a todos os domínios; explorou-o ao máximo,
porém, naquele dom ínio que, a seu juízo, era o mais im portante : o da
economia política. Estes diversos estádios do desenvolvimento de
Marx estão perfeitamente assinalados nas suas obras. O segundo e
mais importante período da sua produção começa com a Crítica da
filosofia do direito dc I Icgel (1843-1844), ins pirada pela crítica da rel i 
gião feita por Feuerbach e, alguns anos depois, juntamente com seu
amigo Engels, consagrou “dois grossos volumes in octavo" a uma
crítica do conjunto da filosofia pós-hegeliana alemã. Renunciou,
co ntu do , á publicação desta segunda obra e , já entra do em seu perío 
do de maturidade, deixou em geral de valorizar a execução de uma
crítica detalhada da ideologia, passando, desde então, a consagrar
todas as suas energias à investigação crítica do domínio econômico,
no qual descobriu o eixo real de todos os movimentos sócio-histó-
A CONCEPÇÃO M ATERIAL ISTA D A HISTÓRIA ♦ 127

ricos - e, neste cam po, Marx cond uziu a sua “crítica” até o fim. El e
criticou a economia política tradicional da classe burguesa de uma
maneira tanto negativa quanto positiva, opondo - para r etomar uma
das suas expressões favor itas - à “econom ia política da pro pr ied ad e” a

“econom ia políti
tária burguesa, ca do p roletariado
a propriedade privada”.domina
Na econo mia da classe
(inclusive prop rie
teorica
mente) toda a riq ueza so cial, o trabalho m orto acu mulado do pass ado
dom ina o trabalho vivo do pr esent e. A o contrário, na econo mia p olí
tica do p role taria do , assim co mo na sua “expressão teó rica”, o sistema
econ ôm ico do marxismo , a “sociedade” ( Sozietät ) domina o seu pro
du to - vale dizer, o tra balho vi vo domina o trabalho morto acum ulado
ou “ca pita l”. Aí se enc on tra, de acord o com Marx, o ei xo em to rn o do
qual deve se articu lar a próxima transform ação radi cal do m un do ; é,
pois, aí que se deve centrar, no plano teórico, um a confrontação “ra
dical” - qu er dize r, que “ tom a as co isas pel a raiz” (Marx) - entre a
ciência e a filosofia burguesas e as novas idéias que a classe operária
elabora ao avançar no sentido da sua emancipação. Uma vez isto com 
preendido em pro fu ndidade, também se com preendem com clareza
as ou tras tr ansform ações, aquel as que ocorrem em todos os dom ínios
ideol ógico s. Qu an do se aproxima a hora da ação histórica, toda crític a
“ideológica” do passado apar ece apenas como um a forma im atura do
conhecimento a que está ligada, em última análise, a transformação
prática do m undo histórico. Podemos afirm ar que “a crítica da reli
gião foi a condição prévia de toda crítica” somente se considerarmos
retrospectivamente o desenvolvimento histórico da consciência re
volucionária da nossa época; se dirigirmos o olhar para o futuro,
vemos, ao con trário , que a luta co ntra a reli gião apen as mediatamente
é a luta contra o mundo do qual a religião é o “aroma espiritual”. Se
qu iserm os che gar à ação históric a real , é necessári o, pois, tran sfo rm ar
a “crítica d o céu” nu ma “críti ca da terr a”. Tra nsfo rma r a “crítica d a reli
giã o” em uma “crítica do dire ito”, em u ma “crítica da teolog ia”, em um a
“crítica da política” é só um p rim eiro passo neste cam inho . Com tud o
isto, apenas tom am os a “outra face” do ser hu m ano ; aind a n ão tom a
mos a sua verdadeira “reali dade”, nem “a questão pro priam en te terre
na na sua grandeza natural”. Para tanto, temos de enfrentar o adver
sário no terreno real de todas as suas atividades e, ao mesmo tempo,
128 ♦ Ka ki . K or sc h

de todas as suas ilusões: o terr eno da econom ia, da pro du çã o m aterial .


Toda crítica da religião, da filos ofía, da historia , da po lítica e do d ireito
deve emb asar-se , em últim a análise, na m ais “rad ical” de todas as crí 
ticas: a crítica da economia política.2
No sistema crítico do marxism o, a “economía política” ocupa,
portanto, uma posição fu ndamental (os burgueses diriam que ela é a
“ciencia fundamental”do marxismo!) e, por isto, não é necessária, para
fundar teóricamente o marxismo, nenhuma crítica minuciosa da
ciência jurídica e política, da historiografia e das outras “ideologias”
burguesas, de form a a constitu ir urna nova ciencia marxista do di
reito e do Estado. Os epígonos de Marx, que se incluem eles mesmos
entre os “marxistas ortodoxos”, equivocam-se completamente quan
do ·- como Renn er, na Austri a, ou Cunow, n a A lemanha - sentem a
irresistível necessidade de “completar” a economia política do mar
xismo com uma teoria marxista acabada do direito ou do Estado ou
ainda com uma soci olog ia marxista. O s istema marxista pass a m uito
bem sem esses complementos e sem uma “filologia” ou um a “m ate 
má tica” marxistas. () con teúdo dos sistemas matem áticos é, t ambém
ele, con dicio nad o histórica, s ocial, econô mica e pra ticam ente - e é
significativo que este dom ínio suscite hoje bem meno s polêmicas que
outros domínios, incomparavelmente mais concretos, do saber hu
mano. Não há nenh um a dúvida d e que ante s, duran te e sob retud o de 
pois da transfo rm ação radical do mundo sócio-histórico que se ap ro
xima , as matem átic as também conhecerão um a transfo rm ação “mai s
ou menos r áp ida ”. A validez da concepção mate rialista da h istór ia e da
sociedade estende-se igualmente às matemáticas. Mas seria ridículo
se urn m arxi sta - apoiando-se no se u conhecimento mais apro fun 
dado das realidades econômicas, históricas e sociais, que determinam
também, “em última instância”, o desenvolvimento passado e futuro
da ci ênci a m atemática - pret endesse opor uma nov a m atemáti ca
“marxista” aos sistemas que os matemáticos edificaram laboriosa
mente curs o de século s. Pois é exata mente isto que Ren ner e Cunow
1 10

tentaram fazer, com meios absolutamente insuficientes, em outros


cam pos científ icos determina dos - no dom ínio secular d a “ciência
ju rídic a” e no de um a ciência “burguesa” mais jovem , a “sociologia”!
E é isto o que in ten tam vários ou tro s ps eudo ma rxistas que imaginam,
A CONCEPÇÃO MAT ERIA LIST A DA HISTÓRIA ♦ 129

me diante a repetição m on óto na da sua profis são de fé, acre sce nta r algo
de novo aos resultados positivos da pesquisa histórica ou da filosofia
ou de qu alquer ou tra ciênc ia hu m ana o u natural. Um Ka rl Ma rx e um
Friedrich Engels jamais se entregaram a idéias tão insensatas e tão

delirantes - eles, que, edom seu


vam os conhecimentos maistempo
de um
dedo m inio
forma científ ico, con trola
verdadeiramente
enciclopédica. Deixavam essa empresa aos IXihring & Cia. que, no
seu tempo, tal como hoje e sempre, abundavam. Em face de todas as
ciências que excediam a sua especialidade econômica e os conheci
mentos filosóficos e sociais que lhe eram conexos, Marx e Engels se
limitavam estritamente a uma crítica radical, não dos seus resultados
positivos, mas do ponto de vista burguês m anifesto nessas esferas “e s
pirituais”. E precisam ente no esclarecim ento dessas man ifestações
mais tênues que eles revelam uma genialidade sem equivalente em
nen hu m ou tro cien tista - e que tal vez seja en co ntrad a só em alguns
poetas. Para efetivar este esclarecimento, era-lhes indispensável apro
priar-se com rigor dos métodos e do objeto das ciências em questão e
é evidente que cérebros como os de Marx e Engels não deixariam de
fazer algumas d escobertas posi tivas, mesm o em do m ínios cientí ficos
bem afastados da sua especialidade económico-sociológica. Não era
este, todavia, o objetivo que perseguiam; visavam apenas rastrear o
ponto de vista burguês, contra o qual lutavam, desde suas bases eco
nômicas até suas ramificações “ideológicas” mais tênues e, mesmo
nestes seus últim os re dutos, trava r o com bate com as arm as da crít ica.

2.

Este exame permitiu-nos verificar, ao mesmo tempo, a uni


dade interna d o siste ma de pen sam ento de Marx e a significação pa rti
cular de cada um de seus elemen tos no interior do con jun to. Foi por

meio
pontodadecrítvista
ica da ideol ogia tradicional
“materialista”; que Karl
foi essa crítica queMlhe
arx m
elabor
ostroou
u oofator
seu
econôm ico ou a “economia políti ca” como fat or funda me ntal ou d e
term inan te da vida s ocial e histórica do hom em . Ded icou-se, a pa rtir
de então, a este domínio fundamental, desenvolvendo até as últimas
conseqüências a crítica das idéias burguesas tradicionais. Em seu últi
130 ♦ K ahl K orsch

mo período, o com bate que travav a contra a i deolog ia burguesa p rosse


guiu essencialmente neste domínio, uma vez que se enraízam nele,
base da concepção burguesa da sociedade, todas as ideologias b u r
guesas; em contrapartida, só ocasionalmente se entregou à análise
crítica da ideologia na s outra s esfer as da vida soci al e histó rica, em al
guns text os aparentemen te pouco importantes, formalm ente m uito
con den sado s e acabados.
A coerên cia intern a do sist ema de pensam ento de Marx d em on s
tra também , indiretamen te, o absurdo dos lamentos - tão enterne-
cedores qu ant o freq üentes - pelo fa to de ele não ter deixado, com o o
fez no q ue diz respeito à su a“econ om ia política” , um a exposição d eta 
lhada, n um a o bra específica, das suas concepções filosófi cas (vale di 

zer, do ponto
rialista” de vistae edadohistória).
da sociedade método Deda fato,
sua nova
Marxconcepção
expôs, com“mate
toda a
precisão desejável, as suas idéias “materialistas” com todas as suas con
seqüências em suas obras, especialmente na mais importante delas,
O capital e, deste modo, revelou-nos mais claramente a essência da
sua concepção do que se recorres se a um a exposição teóri ca. A signi
ficação de O capital não s e esgot a, em absoluto, no do m ínio exclusivo
do “econômico”. Nesta obra, Karl Marx não se limitou à crítica pro
funda da econo mia polít ica da classe burguesa - criticou, ao m esmo
tem po, tod as as ideologi as burguesas derivadas dessa ideologia bás ica.
Evidenciando como a filosofia e a ciência burguesas estavam con
dicionada s pela ideol ogia econômica, el e criti cou, ao m esm o tem po e
da forma mais radical, o seu princípio ideológico. Em face da “eco
nomia política” da burguesia, não se contentou com uma crítica
puram ente negativa; sem nunca abandonar in teiram ente o terreno
da crítica, ele opôs a esta economia um sistema completo e novo: a
economia política da classe operária. De igual maneira, simultanea

mente à refutação
burguesas, ele lhedoopôs
princípio “ideológico”
um novo ponto dedavista
filosofia
e ume novo
da ciência
método: a
concepção materialis ta da classe operária sobre a história e a socieda de ,
concepção que ele elaborou com o concurso de seu amigo Friedrich
Engels.
Neste sentido, há no sistema teórico de Karl Marx um a “ciên
cia”, a ciência nova da economia marxista, e uma “filosofia”, a nova
A CONCEPÇÃO MA TERIALIST A DA HISTÓRIA ♦ 131

conce pção m aterialista que afirma a vinculação recíproca de todos os


fenômenos históricos e sociais; isso parece contradizer o que decla
ramos inici almente, mas trata-se de um a contradição ap arente e não
pudemos evitá-la porque é impossível esclarecer tudo de um só golpe.
Na realidade, quando nos referimos a u ma “economia” ou a uma “fi
losof ia” no m arxism o, est as não são um a ciência ou u m a filo sofia no
sentido burguês tradicional dessas palavras. É certo que a “doutrina
econômica do marxismo”, bem como o seu princípio geral, a “con
cepção materialista da história”, contêm ainda, mesmo que parcial
me nte, algo de aná logo à ciência e à filosof ia burguesas. Elas não p o 
dem refutar e superar estas últimas sem permanecerem, sob certo
aspecto, ciênc ia e filosofia. Mas, po r ou tro lado, el as já se situ am m ui

to além do
também hoorizo
com nte daquando
Estado: ciênciaoecombate
da filo sofia burguesas.
político e socialÉdoo prole
que o corre
tariado lhe perm ita a conqu ista e a transfo rma ção do Estado burguês,
o órgão que o sucede r conservará ainda, sob certo aspecto, o cará ter de
“Estado” (no sentido atual da palavra), mas, por outro lado, sendo
apenas uma trans ição pa ra a sociedade com unista futura, sem cla sses
e, pois, sem Estado, não será mais um “Estado”, mas algo já superior.
Esta comparação, assim como a precedente exposição sobre a
essência da doutrina de Marx, provavelmente serão pouco esclare
cedoras, de início, para aqueles que ainda não avançaram mais pro
fundamente no seu estudo. Pedem-nos uma apresentação da “con
cepção m aterialista da história” e nós com eçamos com afirmações que,
elas mesmas, j á se situam inteiram ente no c amp o desta nova con cep 
ção marxista e , por tan to, já a pressup õem - mas est a via, po r m enos
praticável que pareça à primeira vista, é a única que pode conduzir a
uma verdadeira compreensão do ponto de vista novo e singular de
Karl Marx. I legel, na sua Fenomenologia do espírito, dem anda à cons
ciência do indivíduo que confie inicialmente nele e no seu método
dialético, ainda que este modo de pensar lhe pareça a princípio uma
tentat iva sem elhante a “cam inhar sobre a pró pria cabeça”; do m esmo
modo, aquele q ue queira comp reender ver dadeiramente o m étodo de
Marx, ou seja, a dialética materialista, oposta à dialética idealista de
Hegel, deve, em primeiro lugar, confiar, tanto quanto possível, nesse
método : ne nh um professor d e natação pod e ensinar a quem se recusa
132 ♦ K arl K or sc h

a entrar na água antes de saber nadar. O próprio Karl Marx, em O


capital e nas suas obras da maturidade, procede de forma tal que o
ponto de vista materialista põe-se com o subentendid o exatamente
nestas obras que devem desenvolvê-lo e aprofundá-lo. Este é o caso
não só da Crítica da economia política, m as da sua crítica a tod a ciência
e a toda filos ofia burguesas, ou seja, o que designam os p or “crítica d a
ideologia” no sentido marxiano do termo. Nos escritos de Marx, há
somente uma passagem em que ele se esforçou para circunscrever
explícit a e com ple tam en te o pon to de vi sta esp ecífico a pa rti r do qual
elaborou a sua obra posterior a meados dos anos 1840. Esta passa
gem - da qual cada palavra d eve ser lida, rel ida e cuid ados am ente p en 
sada, caso se queira assimilar verdadeiramente a significação de suas
frases extrem am ente co ndensadas - enco ntra-se no prefáci o da Críti
ca da econom ia política, de 1859. Co m a enérgica clar eza que carac te
riza o seu estilo, Marx nos oferece, aqui, algumas breves “indicações”
sobre o curso dos seus estudos de econo mia polít ica, com eçan do p or
um relato da sua formação universitária e da su a curta atividade jo r
nalística. Foi esta que o colocou “em apuros”, ao ter de se pronunciar
sobre os “cham ado s inter esses materiais” , e o con duz iu, à custa de d o
loroso conflito interior, a rom per com o pon to de vi sta que sustentava
até então, o do idealismo hegeliano. Seu jornal foi interditado pela
censu ra alg uns meses depois de assum ir a chefia da red ação e e le ap ro 
veitou “avidamente” a oportunidade para deixar a cena pública e reti
rar-se ao seu “gabin ete de estu do s” a fim de esclarecer a s suas dúvidas:
O primeiro trabalho que empreendi para resolver a dú
vida que me assediava foi uma revisão crítica da filosofia do
direito de Hegel, trabalho este cuja introdução apareceu nos
A n a is F ra n co -A le m ã es ( D eu tsch -F ra n zö sis ch e J a h rb ü ch er),
editados em Paris em 1844. Minha investigação desembocou
no seguinte resultado: relações jurídicas, tais como formas de
Estado, não podem ser compreendidas nem a partir de si
mesmas, nem a partir do assim chamado desenvolvimento
geral do espírito humano, mas, pelo contrário, elas se enraí
zam nas relações materiais de vida, cuja totalidade foi resu
mida por Hegel sob o nome de “sociedade civil” ( bürgerliche
Gesellschaft), seguindo os ingleses e franceses do século XVIII
e que a anatomia da sociedade civil deve ser procurada na eco-
A CONCEPÇÃO MA TERIALI STA DA HISTÓRIA ♦ 133

nomia política. Comecei o estudo dessa matéria em Paris,


mas tive que continuá-lo em Bruxelas, para onde me transfe
ri em conseqüência de uma ordem de expulsão do sr. Guizot.
O resultado geral a que cheguei e que, uma vez obtido, ser
viu-me de fio condutor aos meus estudos, pode ser formu
lado em poucas palavras: na produção social da própria vida,
os homens contraem relações determinadas, necessárias e
independentes da sua vontade, relações de produção estas que
correspondem a uma etapa determinada de desenvol
vimento das suas forças produtivas materiais. A totalidade
dessas relações de produção forma a estrutura econômica da
sociedade, a base real sobre a qual se levanta uma super
estrutura jurídica e política, e à qual correspondem formas
sociais determinadas de consciência. O modo de produção

da
cial,vida material
política condicionaNão
e espiritual. o processo em geraldos
é a consciência de vida so
homens
que determina o seu ser, mas, ao contrário, é o seu ser so
cial que determina a sua consciência. Em uma certa etapa
de seu desenvolvimento, as forças produtivas materiais da
sociedade entram em contradição com as relações de pro
dução existentes ou, o que nada mais é que do que a sua
expressão jurídica, com as relações de propriedade dentro
das quais aquelas até então tinham se movido. De formas de
desenvolvimento das forças produtivas essas relações se trans
formam em seus grilhões. Sobrevêm então urna época de
revolução social. Com a transformação da base econômica,
toda a enorme superestrutura se transforma com maior ou
menor rapidez. Na consideração de tais transformações é
necessá rio d ist inguir semp re entre a transform ação m ateri al
das condições econômicas da produção, que pode ser obje
to de rigorosa verificação da ciência natural, e as formas jurí
dicas, políticas, religiosas, artísticas ou filosóficas, em re
sumo, as formas ideológicas pelas quais os homens tomam
consciência desse conflito e o conduzem até o fim. Assim co
mo não se julga um indivíduo a partir do julgamento que ele
se faz de si mesmo, da mesma maneira não se pode julgar
uma época de transformação a partir de sua própria cons
ciência; ao contrário, é preciso explicar essa consciência a
p a rtir das contr adiç ões da vida m ate ria l, a p a rtir do confl it o
existente entre as forças produtivas sociais e as relações de
produção. U m a fo rm aç ão social nunca perece an tes que este
jam desenvolv id as to das as fo rç as produtiv as para as quais
134 ♦ K arl Kors ch

ela é suficientemente desenvolvida, e novas relações de pro


dução mais adiantadas jamais tomarão o lugar, antes que
suas condições materiais de existência tenham sido geradas no
seio mesmo da velha sociedade. É por isso que a humanidade
só se propõe as tarefas que pode resolver, pois, se se considera
mais atentamente, se chegará à conclusão de que a própria
tarefa só aparece o nde as condições m ateriai s de sua s oluç ão
já ex istem, ou, pelo men os, são cap tadas no pro cesso de se u
devir. Em grandes traços podem ser caracterizados, como
épocas progressivas da formação econômica da sociedade, os
modos de produção: asiático, antigo, feudal e burguês mo
derno. As relações burguesas de produção constituem a últi
ma forma antagônica do processo social de produção, anta
gônica não em um sentido individual, mas de um antago
nismo nascente das condições sociais de vida dos indivíduos;
contudo, as forças produtivas que se encontram em desen
volvimento no seio da sociedade burguesa criam ao mesmo
tempo as condições materiais para a solução desse antago
nismo. Daí que com essa formação social se encerra a pré-
história da sociedade humana.3

Estas pouc as fras es resum em , com tod a clare za e precisão dese


jáveis, o quadro e os elem entos do que convém entender por “co n
cepção ma teria lista da sociedad e e da histó ria”. No en tan to, nelas nã o há
nen hu m a tentativa de oferece r qualqu er demon stração de sua s asser
ções, nem se assinalam suficientemente as conseqüências teóricas e
práticas delas dec orrentes, de m odo a forn ecer ao le itor que não
conheça as principais obras de Marx uma avaliação da sua impor
tância ; enfim, não há nelas nen hum a advertência para evitar os m al
ente ndid os que, po r seu cont eúdo e sua forma, el as po dem em alguma
medida favorecer. Tais cuidados seriam supérfluos, dada a finalidade
ime diata dessas bre ves “indicações” . M arx m ostra ao leito r o “fio con 
d uto r” de que se serviu nas suas inves tigações econô mic as e sociais . E,
evidentemente, ele só tinha um meio de demonstrar teoricamente
que o seu método era “adequado”: aplicá-lo a um domínio determi
nad o da pesquisa científ ica, em parti cu lar o exame dos fatos da “eco
nomia política”. Friedrich Engels, num contexto parecido, citou o
provérb io inglês - The proof of the pudding is in the e a t i n g Nunca
uma discussão teórica mais ou menos confusa pode demonstrar se
A CONCEPÇÃO MATE RIAL ISTA DA HISTÓRI A ♦ 135

um método científico é correto ou não; só pode fazê-lo uma prova


“prática” - po r assi m dizer - dest e m étodo. Como M arx ass inal a ex
pressamente, não se deve p rocurar nessas frases, tal como se apresen
tam, m ais que um “fio co nd utor ” para o estudo dos dados em píri cos
(isto é, históricos) da vida social do homem; posteriormente, Marx
m anifestou-se m ais d e um a vez con tra os que nela s procu rara m ver
algo mais que aquele “f io co nd uto r”.
Contudo, é indubitável que, por trás dessas frases, há mais do
que elas exprimem imediatamente. Não apreenderemos todo o seu
sentido se nos limitarmos a ver nelas o enunciado hipotético de um
“princípio heurístico”. Elas contêm o essencial do que Marx escreveu
antes e depois e nelas se enc on tra o que merece - mais do que qu al

quer
d e r ndas
a - opretensas
título de“filosofias” produzidas
“visão fi losó pela
fica” de mu época
ndo. De burguesa mosepa
fato, a rígida
ração e ntre a teoria e a práxi s, que justam ente caracteriza ess a época,
e que a filosofia da Antiguid ade e da Idade M édia des con hece u, é aqui,
pela primeira vez nos tempos m odern os, com pletamente superada (o
que Hegel já prep ara ra, ao elaborar o se u m étodo dialético). Páginas
atrás, citamos algumas palavras de uma célebre passagem do M ani
festo comunista con cern ente s à significação das “conce pções te óric as”
no sistema do comunismo marxista:
[...] as concepções teóricas dos comunistas não repousam
sobre idéias, princípios inventados ou descobertos por este
ou aquele reformador do mundo. Elas apenas exprimem, em
termos gerais, as condições reais de uma luta de classes que
existe, de um movimento histórico que se desenvolve sob
nossos olhos.

Eis aqui a antítese exata da ideologia burguesa, que repousa


sobre o s princ ípio s e os ide ais teóricos con siderad os co mo essênci as
ideais válidas em si mesmas, autônomos em face da realidade co
mum , terrena e material , de s orte que o mun do pode ser m elhorad o a
partir de uma Idéia que lhe é exterior. Tais palavras do Manifesto co
munista encontram fundamentação, a mais precisa e detalhada, nas
onze Teses sobre Feuerbach, redigidas po r M arx para a sua “clarifi cação
pessoal”, em 1845, mais tarde dadas à luz por Friedrich Engels como
um apêndice de suas próprias idéias filosóficas (LudwigFeuerbach e o
136 ♦ K arl Kors ch

fim da filosofia clássica alemã, 1888). As onze Teses sobre Feuerbach


contêm m uito mais do que “ o emb rião genial da nova concepção de
m un do ”, que é com o Engels as apresenta. Nela s se enc on tra , com um
audacioso rigor e uma luminosa clareza, toda a concepção filosófica
fundamental do marxismo. Sob esses onze golpes sabiamente diri
gidos, vemos destruíd os todos os suportes em que se apoiava a filo
sofia bur guesa. M arx não s e detém min imam ente no dualism o banal
entre pensamento e ser, vontade e ação, que ainda hoje caracteriza a
filosofia vulgar da época burguesa - ele em preen de im ediatam ente a
crítica dos dois grandes grupos de sistemas filosóficos que já tinham
aparentemente ultrapassado, no interior do mundo burguês, esse
dualismo: de um lado, o sist ema do “ m aterialismo ” anterior, que cul
mina em Feuerbach; de outro, o sistema do “idealismo” de Kant-
Fichte-Hegel. Ambos têm seu caráter equivocado posto a nu e, em
seu lugar, surge o novo materialismo que dissipa todos os mistérios
da teoria d e um só g olpe ao situar o hom em , como ser a o mesm o tem 
po pensante e atuante , no mundo; e ao to m ar agora a objetividade do
mundo em seu co njunto como o “ pro du to” da “atividade” do “homem
socializado” ( vergesellschafteten ). Esta inflexão filosófica decisiva se
exprime de modo mais conciso e significativo na oitava tese: “Toda
vida social é essencialmente prática. Tod os os mistérios qu e induzem
a teoria ao misticismo en con tram sua soluçã o racional na prática h u
mana e na compreensão desta prática”.5
Para compreender o que há de verdadeiramente novo nesta
concepção de Marx, é necessário tomar consciência do que a dis
tingue, de u m lado, do “idealismo” e, de ou tro, d o “m ater ialis m o” que
a precederam. Em oposição ao “idealismo”, que, mesmo na filosofia
hegeliana da identidade, contém sempre visivelmente o “além” como
momento principal, o “materialismo” de Marx situa-se sempre no
âmbito de um “aquém” plenamente realizado: não apenas todos os
“ideais” ético-práticos, mas igualmente todas as “verdades” teóricas
têm, para Marx, uma natureza estritamente terrená. Que os deuses
eternos cuidem das verdades divinas e eternas! Todas as verdades que
disseram ou dirão respeito a nós, s eres terrenos, sã o de nat ure za terr e
na e, po rtan to, est ão subm etidas - sem qu alque r privi légio - à
“cad uci dad e” e a todas as outras cham adas “insuficiências” dos fenô-
A CONCEP ÇÃO MAT ERIA LISTA DA HISTÓRIA ♦ 137

menos terrenos. Contudo, de outra parte e ao contrário do que fre


qüe ntem ente im aginou o anti go “materialismo” , nada no m un do do
homem é um ser morto, um jogo cego de forças inconscientes e de
m até ria sem s entid o - assim com o n ão o são a s “verdad es”. Todas a s
“verdade s” hum anas sã o sobretudo, como o próprio h om em que a s
pensa, um produto - e um produto hum ano, à diferença dos cha
mados puros “produtos da natureza” (que, enquanto naturais, não
podem ser, no sentido pró prio da palavra,“produto s”!). Elas são, pois,
em term os m ais precisos, um p rod uto social, cri ado ao me smo tem po
que outros prod utos da at ivi dade human a pela cooperaçã o dos h o
mens no marco da divisão do trabalho, nas condições naturais e so
ciais de pro du ção de um a époc a determin ada da h istória da natureza
e da história hu m ana.
Temos, agora, a chave de tod a a “concepção materialista da so
ciedade” de Kar l Marx. Todos os fenôm enos d o m un do real em que se
desenvolve a nossa exist ência de seres pensantes e de ser es atua nte s -
ou de ser es ao mesm o tem po pensantes e atuantes - dividem-se em
dois grupos principai s: de um a part e, pertencemo s (nós e tud o qu an 
to exi ste) a um m un do que pod emo s considerar como “natureza” , um
mundo “não humano”, totalmente independente do nosso pensa
mento, da nossa vontade e da nossa ação; de outra parte, enquanto
seres capazes de pensar, querer e agir, estamos situados num mundo
sobre o qual exercem os um a ação prática, cujos e feitos prático s expe ri
mentamos e que, portanto, podemos considerar essencialmente
como noss o p rodu to, da mesma forma que somos produto dele. Entre
tanto, esses dois mundos, o mundo natural e o mundo da prática
histórica e social, não existem sepa radame nte - constituem , na rea
lidad e, u m só m un do —, e a sua un idad e advém de que am bos estã o
envolvidos na existência passiva-ativa dos seres humanos, que con

tinuamdoente
visão trab reprod uzemseu(pel
alho e pelo a suameatividade
pensa c ole
nto) o con tiva da
junto nosua
marc o da di
r ealidade.
Mas o vínculo en tre es ses doi s m un do s assi m c onsiderad os só pode
residi r na econ om ia ou, mais exatamente, na “produ ção materia l”; Marx
o disse expressamente numa “Introdução geral” à sua crítica da eco
nomia política, “esboçada” em 1857 também para o seu “esclareci
mento pessoal” :b a vida histórica e social do homem se constitui, se
138 ♦ Ka r l K orsch

renov a e se desenvol ve sob a interação de mú ltiplos fatores e, dentre


todo s este s, é o processo de p rod uç ão mater ial que os “vincula” a todos
entre si e os organiza numa unidade real.
Ludwig Woltmann, antropólogo político, filósofo kantiano e

social ista revisi onista, na sua obra consag rada a O materialismo histó
rico,7 distingue seis aspectos dif erentes do m aterialismo qu e, segundo
ele, devem ser todos considerados como partes integrantes do “mar
xismo com o visão de m un do ”. Afirma o autor:
O marxismo, como visão de mundo, representa, em seus
traços gerais, o sistema mais acabado do materialismo. Ele
compreende:
1. o materialismo dialético, que examina os princípios
gnosiológicos gerais que regem as relações entre o ser e o
pensam ento ;
2. o mater ialism o filosófico, que resolve, no sentido da ciên
cia moderna, os problemas da relação entre o espírito e a
matéria;
3. o materialismo biológico do evolucionismo derivado de
Darwin;
4. o materialismo geográfico , que demonstra que a his
tória cultural do homem depende da configuração geográ
fica e do meio físico no qual a sociedade se desenvolve;
5. o materialismo econômico, que esclarece a influência das
relações econômicas, das forças produtivas e do estado da téc
nica sobre o desenvolvimento social e intelectual. Ele cons
titui, com o materialismo geográfico, a concepção materia
lista da história em sentido estrito;
6. o materialismo ético, que significa a ruptura radical com
todas as representações religiosas do além e desloca para a
realidade terrena todos os fins e todas as energias da vida e
da história."

Pode-s e perfeit amente conceder a W oltmann que o m arxismo


m anté m um a certa rel ação, mais ou m enos imediata, com tod os es ses
aspectos do materialismo. Mas o marxismo não os contém como ele
m ento s necessários da sua essê ncia. A “concepção m aterialista da so
ciedade e da história” de Marx só compreende efetivamente os dois
últimos aspect os do material ismo assina lados por Wo ltmann. O m a-
A CONCEPÇÃO MATERIA LISTA DA HISTÓRIA ♦ 139

terialismo de Marx é, de fato, um materialismo “ético”, tal como


W oltmann o car acte riza; não te m, poi s, nada em com um com a atitu 
de ética na qual “ o interesse privado se considera como o fim ú ltimo do
m un do ” e que Marx esti gmatizou n um de seus escr itos de juventude
como “materialismo depravado” (“A lei sobre os roubos de madeira”,
em Nachlass [Obras póstumas], v. 1, p. 321). O marxismo abandona
essa es péci e de “ma terialism o” ético aos representan tes d a con cepção
burg uesa do m undo e de ce rta m ora l m ercantil que um órgão capi
talista ainda recentemente glorificava nos seguintes termos:
O comerciante que , tom ado de um falso pu do r diante de
um ganho excessivo resultante de uma especulação exitosa,
renunciasse voluntariamente à sua parte, enfraqueceria a
sua força de resistência a perdas futuras e a sua ação seria
economicamente absurda, sem ser deforma alguma moral
mente boa. (Deutsch Bergwerkszeitung, editorial de 23 de
março de 1922)

Em opo sição a esse “ma terialism o ético” da class e capitalista, o


“materialismo ético” da classe operária significa essencialmente, co
mo Woltmann assinala, a ruptura radical com todas as represen
tações do além — e sob est e term o é preciso designar nã o so m ente as
representações própria, expressa e conscientemente “religiosas”, mas
igualmente (e Wo ltmann, como kantiano, não o reconheceu suf icie n
temente) todas as representações substitutivas postas em seu lugar
pelo ilum in ism o e, depois, pela filosofia idealista crítica (p or exem
plo: a idéia de um puro im pério da Razão pelo im perativo categórico).
Enfim, como veremos mais de perto, caso se queira de fato romper
“radicalmente” com “todas” as representações do além e consumar
“com pleta mente ” esta inflexão para a reali dade terrena, há m uito mais
a considerar: ademais das idéias e dos ideais éticos, práticos, da reli

gião
dadese do
da m oral burgu esa
conhecimento dualistomadas
teórico ta, també m p ertence
enquanto m ao“em
verdades al ém
si”,as ver
“eternas”, imperecíveis e imutáveis, que a ciência e a filosofia teriam
por missão pesquisar e, uma vez descobertas, estariam adquirid as pa
ra todo o sempre sob forma definitiva. Uma semelhante concepção
não pas sa d e um sonh o - e um m au sonho, p orqu e idéi as imutáveis ,
invar iáveis , seriam necessariamen te idéia s insuscept íveis de qualqu er
140 ♦ K arl Kors ch

desenvolvimento. Um a tal concepção só pode interessar a um a cla sse


satisfeita, que se sente bem e realizada no presente; ela não tem ne
nh um valor para uma classe emp enhad a na luta e no esforç o para p ro 
gredir, imersa n um a situação que a deix a necessariamente insati sfeita .
Em segundo lugar, o materialismo marxista é mesmo um
“materialism o e con ôm ico”. O vínculo en tre a evol ução da n aturez a e
a evolução da sociedade humana é, para ele, o processo econômico
concebido co mo “pro du ção m aterial” , graça s ao qual os ho men s re pro 
duzem e desenvolvem continuamente os seus meios de existência e,
pois, a sua própria existência e todo o conte údo desta. Diante desta
“reali dade” d e im portânc ia primordial, todos os demais f enôm enos
da vida histórica, socia l e prática - que envolvem, tamb ém , a vida “ es
piritual” - revelam-se n ão como sendo m enos reais, mas como menos
influentes sobre o desenvolvimento do conjunto: no edifício da vida
social, eles formam, para retomar uma imagem de Marx, a super
estrutura, com a base constituída pela “estrutura econômica” da
soci edade considerada. Ma s o antropó logo W oltmann, colocando-se
no ponto de vista das “ciências da natureza” e não no das “ciências
sociai s”, carece de raz ão ao afirmar que, em c onju nto, “o m ate ria
lismo geográfico e o materialismo econômico” constituem a “con
cepção materialista da história em sentido estrito”. Se se quiser dis

tinguir um materialis mo no sentido “ estrito” de um materialismo no


sentido “lato ”, há certa mente qu e fazê -lo no espírito do pr óp rio Marx,
que diferenciou o seu materialismo, concepção materialista da vida
“sócio-histó rica”, daquele ma terialismo “naturalista ” que ele m esmo
criticou, juntamente com Engels.9O fator geográfico, assim como o
biológico e todos os outros fatores “naturais” que podem influir no
desenvolvimento históri co da so ciedade permanecem , po rtan to, fora
da “concepção ma terialist a da história em sentido estrito” .
Esta ver dade , obscur ecida por Woltman n e po r m uitos o utros
que dissertaram sobre a concepção materialista da história de Marx,
impõe-se necessariamente àquele que se dá ao trabalho de examinar
com liberdade os seus textos. Assim como Hegel, Herder e um bom
número de filósofos, historiadores, poetas e sociólogos dos séculos
XVIII, XIX e XX, Karl Marx considera decisiva a influência dos
fatores naturais, físicos ou outros, sobre o desenvolvimento da so
A CONCEPÇÃO M ATERIALIS TA DA HISTÓRIA ♦ 141

ciedade. Mas isto, para ele, não é evidentemente algo de exterior ou


superior à “natureza”; por exemplo, ao fim da “Introdução geral” à
Crítica da economia política, encontramos, na enumeração dos pontos
a serem posteriormente desdobrados, o reconhecimento explícito
deste sentido lato do c once ito de na tu re z a -“subentendendo es sa pa
lavra tud o o que é objetivo, inclu indo , po rta nto , a soc ieda de”.10 E
Marx anota expressamente: “Naturalmente, o ponto de partida das
dete rm inid ade s; subjetiva e objetiv am ente. Tribos, raças e tc.”11Poste
riormente, em numerosas passagens, muito esclarecedoras, de O ca
pital, el e indico u essas determ inações “ nat ura is” do desenvolvim ento
econô mico e soc ial. A correspo ndên cia com Engels atesta o valor que
Marx atribuía aos dados das “ciências da natureza”, que fundam e

complementam
plo, para citar oapenas
seu materialismo
um trechosócio-histórico. Eis, apor
m uito sintético, suaexem
observação
bem significativa sobre a natural selection de Darw in, na c arta de 19 de
dezembro de 1860: “A despeito da sua pesadez tão inglesa, este livro
contém todos os ele mentos da hi stória natural que podem fund ar as
nossas idéias”.
En tretanto , nada dist o nos autoriza a considerar a con cepção
materialista da história e da sociedade como a simples e direta apli
cação dos princípios da investigação científica ao curso dos eventos
históricos e s ociais; tal consideração constituiria u ma grosseira inco m 
preen são das idéias e das intenções não apenas de Marx mas igual
mente de Engels (estamos convencidos de que, também sobre esta
questão, hav ia concord ância entre ambo s). Os fundadores do com u
nism o m aterialista, form ados na esco la de He gel, não se per m itiriam
superficialidades deste gênero. O conjunto das condições naturais,
no seu estado respectivo e na “his tória nat ur al ” da sua evolução, exer
ce, segundo eles, uma influência mediata de primeira importância

sobre o desenvolvi
influência sempre mento h istór
mediata. Os ico da soc
fatore iedarais
s natu de -(cli
masma,trata-se de um a
raça, riquezas
naturais etc .) nu nca inter vêm diretam ente no desenvolvimento his-
tórico-social; apenas condiciona m, em cada re gião, o grau de desen 
volvim ento das “força s materiais de pr od uç ão”, ao que co rresp on dem ,
por seu tu rno, relações sociais determinadas, as “relações materiais
de pro du ção ”. Só estas é que formam , en qua nto “ es tru tur a econôm ica
142 ♦ Ka r l K orsch

da soc iedade ”, a “base real” que con dicio na o con junto da vid a soci al
(incl usive as suas dimensõ es “espirituais”). Marx, todavia, sem pre dis
tingue criteriosa me nte est es diver sos el ementos. Mesm o que um a ob 
servaçã o sua pareça refer ir-s e à v ida natura l do hom em em suas rela
ções com a natureza, um exame cuidadoso revelará que sempre está
em q ue stão a vida histór ica e so cial; e esta s e desenvo lve (s ob re a ba se
natural que a condiciona e sobre a qual, num efeito de retorno, ela
exerce infl uência) segu ndo as suas pró pria s leis sócio -históricas e n u n 
ca con form e simples “leis na tur ais ” en qu an to tais. Um a passagem do
livro primeiro de O capital, que trata novamente de Darwin, ilustra
particula rm ente a fidelidade indefectível de Marx a seu ponto de vista
social e a seu objeto social; ei-la:

Darwin interessou-nos na história da tecnologia natural,


na formação dos órgãos das plantas e dos animais como ins
trumentos de produção necessários à vida das plantas e dos
animais. Não merece igual atenção a história da formação
dos órgãos produtivos do homem social, que constituem a
ba se mate rial de to da organizaç ão social? E não seria mais fá
cil reconstituí-la, uma vez que, como diz Vico, a história hu
mana se distingue da história natural por termos feito uma
e não termos feito a outra? A tecnologia revela o modo de
proceder do h om em para com a natu reza, o pro cess o im e

diato de produção da sua vida e assim elucida as condições


de sua vida social e as concepções mentais que dela de
co rre m .12

Assim, até mesmo a “tecnologia”, isto é, o estudo da natureza


não em si mesma, mas t al qual e la se oferec e à atividade h um an a co 
mo seu objeto e seu material , elucidando o proces so de prod uç ão na 
tural da vida hum ana , esc larece “també m” o process o de pro du ção das
suas condições sociais de existência. Todavia, como o diz ainda mais
exp licitamente a “Intr od uç ão geral” de 1857, já citada, “a econo mia
política” não pode ser identificada à “tecnologia”: ela pe rm anece sem
pre a ciência de um “objeto social”.
Em última análise, todas as incompreensões de Woltmann e,
parece-me, quase todas as verificadas até agora no que tange à essência
da concepção materialista da história e da sociedade de Marx têm
uma única razão: uma implementação ainda insuficiente do prin-
A CONCEPÇÃO MA TERIALISTA DA HISTÓRIA ♦ 143

ripio da “imanência” (Diesseitigkeit). Todo o “m aterialism o” de Marx,


para form ulá-lo do modo mais sintético, constitui precisam ente a
aplicação, levada às conseqüências extremas, deste princípio à exis
tência sócio -históric a do hom em . E, se a pal avra “ m aterialis m o”, aliás
excessi vamente equívoca, cabe para design ar a concepção marxista, é
exclusivamente porque exprime, da maneira mais clara, este caráter
“absolutam ente” imanen te do pensam ento de Marx. El a expri me esta
sig nificação única e fundam ental do marxismo do m elhor m odo que
um a só palavra pode expre ssá- lo.
Com o vimo s, todo o “materialism o” tem suas raí zes na crítica
da religião. A socialdemocracia alemã, ao considerar, em seus pro
gramas, a religião como “assunto p rivado ”, ao invé s de levar seus pa rt i
dários a manifestar explicitamente a sua “irreligiosidade”, já com isto
entrava em conflito aberto com um princípio fundamental do mar
xismo. Para o dialético materialista, a religião, como qualquer outra
ideologia, não pod e n un ca ser um “assunto pr ivad o”. Se não recuam os
diante dos paradoxos, p odem os apresentar, a o co ntrário , as coisas da
seguinte maneira: a irreligiosidade, a crítica da religião em geral, e
não a críti ca, já realizada do pon to de vista burgu ês de mo crático, de tal
ou qu al religi ão em suas pretensões excl usivas à dom inaçã o, adqu ire
para o revolu cio nário materialista a mesma significação que a reli
gião t em par a o crente. Trata-s e aqui de um “proble ma m aterialista de
tran sição ”, sem elhante ao que apo ntam os prec eden tem ente acerc a do
“Esta do”, da “ciênc ia” e da “filosof ia”. Na medida em qu e é um pro cess o
intelec tual que s e desenr ola no cére bro hu m ano antes , d ura nte e de
pois da transform ação das condições sociais de produção, transfor
mação q ue fu nd a tod o o res to, a tarefa de crit icar, com bater e supera r
a religi ão conserva inevitavelmente - especialmente no que toc a à
sua supe ração —um a certa form a de “re ligiã o”. Neste sentido , q ua nd o
se caracteriza o socialismo ou o comunismo como “religião deste mun
do ”, esta fórm ula, freqü entem ente um a simples m aneir a de fa lar,
adqu ire de fato - ainda, e talvez sobretudo , no estágio atual de evo
luç ão da socie dade eu rop éia- u m a significação profun da. A “religião
deste mundo”, primeira etapa, todavia muito insuficiente, na tran
sição para a consciência do mundo totalmente imanente ( diesseitig )
própria da sociedade comunista, corresp onde efetivam ente ao Estado
144 ♦ Ka r l K orsch

da “dita du ra revolucionária do proletariado” no p eríodo da tran sfo r


mação revolucionária d a socied ade capit alista em sociedade comu nista.
Uma irreligiosidade radical, um ateísmo ativo se apresentam,
pois, com o a condiç ão prév ia de um pensamento e de uma atividade
ple nam ente te rrenos no sen tido do materialism o m arx ia no. No en
tanto , esta plena imanê ncia não resu lta ainda da s imples vitória sobre
as represen tações religiosas do além. Resta rá sempre um “além” mes
mo no interio r “dest e m un do ” enqu anto se acreditar no valor intem 
poral - e, pois, su prate rre no - de quaisquer “idéias” teóricas ou práti 
cas. E, mesmo qu and o o pensam ento hu m an o supe rar es ta etapa, pode
oco rrer qu e careça desta imanê ncia especí fica (e, no final das contas,
a única real) que, de acordo com Marx, só se encontra na práxis hu
mana (seg und a tese das Teses sobre Feuerbach). A verdad eira realizaçã o
da “imanência” da concepção materialista da história e da sociedade
de Karl Marx só é possível com a superação deste último “além” que,
resíduo intac to do dualismo da época burguesa, con tinua ad erido ao
materialismo simplesmente “naturalista” ou “contemplativo” ( ans-
chauenden). O n ovo m aterialismo marxista rea liza definiti va e fu nd a
m entalm ente a sua imanência c on trapo nd o a reali dade da “exist ênci a
prática, social e histó rica do hom em ” à realidade consid erada como
pura “natu re za”, no sentido estrito e científico da palavra.
Com o o testem unh am o livro de Woltmann e centenas de outros,
e sob retu do a evolução histórica dos par tido s social istas e se misoci a-
listas da Eur op a e da América em suas diversas tendênc ias, o m ateria lis
mo essencial mente natu ralista e contem plativo é totalm ente incapaz
de ofe rece r, seg und o o seu po nto de vi sta, um a solução “mate rialista”
ao problem a da revolução soci al, dado qu e, para ele , a idéia de um a re 
volução que deve realizar-se no mundo real graças a uma atividade
humana real não tem nenhuma “objetividade” material. Um mate
rialismo desse gênero, para o qual a objetivi dade da ação hum ana prá
tica perman ece em últim a análise semp re n um “além” imaterial, s ó pode,
conse qüen tem ente, assum ir uma de duas pos ições em fac e das real i
dades “ materiais prá ticas”: ou a ban don a, como o refere a prim eira das
Teses sobre Feuerbach, “o desenvolvimento do aspecto ativo ao idea
lismo”- v ia que escol hera m e es colhem todos os marxi stas kantianos,
revi sionis tas ou reformis tas - , ou con sidera o declí nio da soci edade
A CONCE PÇÃO MA TERIALI STA DA HISTÓRIA ♦ 145

capitalista e o surgimento da sociedade socialista-comunista como


uma necessidade econômica que, cedo ou tarde, “virá inevitavel
m en te” po r força de leis naturais - essa via foi a escolhi da pela m aioria
dos soc ialdem ocratas alemães até a guerra e é hoje, com a passagem
da socialdemocracia ao reformismo aberto, a posição característica
dos “mar xistas ce ntris tas”. Esta via tem toda s as chances de levar a f e
nômenos “extra-econômicos” que parecem cair do céu e permanecer
propriamente inexplicáveis, tais como a guerra de 1914-1918, que, até
agora, não foram explor ados para a em ancipaçã o do proleta riado . Bem
ao con trár io, c om o Karl Marx e Friedri ch Engels repetiram ince ssante
me nte em todas as suas obras, da juve ntud e ao fi m da vida, a des peito
de toda teoria das “duas almas” ( Zweiseelentheorie),n somente uma
revolução realizada p ela ati vidade hum ana prática pode c ond uzir da
sociedade capitalista à sociedade comunista —e esta revolução não
deve ser concebida como uma mutação “intemporal”, mas, antes,
como um longo períod o de l utas r evolucionár ias, no qual a ditadura
revolucionária do proletariado deve realizar a transformação da so
ciedade capitalista em sociedade com unista (Marx, Glosas marginais ao
programa do Partido Operário Alemão, 1875). E isto p or qu e —co nfo r
me o princípio geral formulad o por M arx trinta anos antes, com um a
concisão clássica, na terceira das Teses sobre Feuerbach, prime iro esboço
da sua nova concepção materia lista—“a coincidência entre a alter ação
das circunstâncias e a atividade humana só pode ser apreendida e
racional mente entendida como prática revolucionária ”,14
Março de 1922

Notas

1 Ver Manifesto comunista, cap. 2, “Proletários e comunistas” [ver K. Marx e


F. Engels. Manifesto comunista. Sâo Paulo: Cortez, 1998, p. 21].
2 As citações das fra ses precedentes foram extraídas do artigo de M arx sob re a
lei contra os roubos de madeir a, da cor respondênci a M arx-R uge -Feu erbach -
Bakunin e da Crítica da filosofia do direito de Hegel, todos publicados em
Nachlass, v. 1.
3 [Ver K. Marx. Para a crítica da economia política. Salário, preço e lucro. O rendi
mento e suas fontes. São Paulo: Abril Cultural, 1982, p. 24-26. Os res
pon sáveis p o r esta versão, em nota , esclarecem a razão da tr adução d iferen
ciada de bürgerliche Gesellschaft (sociedade civil/sociedade burguesa).]
146 ♦ K arl Kors ch

4 Ver Enge ls, pref ácio à edição ingl esa de Do socialismo utópico ao socialismo
científico (1892), reproduzida na Neue Zeit, v. 11, n. 1, p. 15 e ss. [F. Engels.
Do socialismo utópico ao socialismo científico, em K. Marx e F. Engels. Obras
escolhidas. Rio de Janeiro: Vitória, 1962, v. 2, p. 285 e ss. A prova do pudim
está em comê-lo, ou seja, só a experiência comprova . ]
5 [Ver K. M arx e F. Engels . A ideologia alemã. São Paulo: Boitempo, 2007,
p. 534 e 539.]
6 Esta “In tro du çã o”, que nos ofer ece o resum o m ais profu ndo das premissas da
investigação de Marx, foi publicada pela primeira vez na Neu e Zeit, v. 21,
n. 1, p. 710 e ss. [Ver, supra, a nota 35, no capítulo “Marxismo e filosofia”.]
7 D üsseld orf, H. Michels Ed., 19 00. Entre o s trab alh os até hoje pub lica do s em
língua alemã sobre os fundamentos filosóficos do marxismo, este é de lo nge -
a despei to da posi ção errada que criticaremos - o melhor .
8 Ibid ., p. 6. E surp ree nd en te que Wo ltman n, no item 1, aprese nte o simples
“exame” das relações entre o ser e o pensamento como sendo já um “mate
rialismo” (o materialismo dialético!). Em vez disso, deveria dizer, no míni
mo: o ma terialismo dialético (ou a dial éti ca m ateriali sta), contra riam ente ao
idealismo dialético (ou a dialéti ca ideal ista) de Hegel , concebe o pen sam ento
e o ser como momentos de uma unidade na qual não é o pensamento que
determina o ser, mas é o ser que determina o pensamento. Se Woltmann,
aqui, evita tomar uma posição clara, isto se deve à sua postura gnosiológica
kantiana, que criticamos.
9 Ver, no ú ltim o c apítulo da “Intr oduç ão geral” à Crítica da economia política,
o parágrafo 4, aliás característico (ibid., p. 779 [ver K. Marx. Para a crítica da
economia política... , ed. bras. cit., p. 20]). Marx, noutras passagens de O ca

pital, refere-se
das ciências mais precisamente
naturais”, que não levaà em
insuficiência do “materialismohistórico”,
conta o “desenvolvimento abstrato
contrapon do-lhe, como “úni co método materi alista e, por conseqüênci a, cien
tífico”, aquele que não se contenta com a recondução, pela análise, das for
mas e dos conteúdos dos fenômenos “sociais” e “espirituais” da existência histó
rica a seu “núcleo terreno”, mas que, também, pela via inversa, mostra o seu
desenvolvimento a partir das “condições reais da vida” ( Das Kapilal, v. 1, p. 336,
nota 89 [ver, supra, a nota 82, no capítulo “Marxismo e filosofia”]).
111 [Ver K. Marx. Para a crítica da economia política..., ed. bras. cit., p. 21.]
11 [Ib id., p. 20.]

12 [Ver K. Ma rx. O capital. Crítica da economia política. Rio de Janeiro: Civi


lização Brasileira, 1968, v. 1, livro 1, p. 425, nota 89.]
13 [Alusão a um verso de G oethe , no Fausto, I: “Zwei Seelen wo hne n, ach! in mei ner
B ru st ...” - ao pé da letr a: “Duas almas m oram , ah!, em m eu peito... ”, mas
assim na versão de Jenny Klabin Segall: “Vivem-me duas almas, ah!, no seio...”
(J. W. Goethe. Fausto. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1981,
p. 64).]
14 [Ver K. M ar x e F. Enge ls. A ideologia alemã, ed. bras. cit., p. 534 e 538.]
A DIALÉTICA DE MARX

A contribuição teórica de Karl Marx para a prática da luta de


classe proletária possui um a imensa im portância: coube-lhe sin teti
zar, pel a prim eir a vez e na unidad e e na totalidad e vivas de um sistema
científico, todo o conteúdo das novas idéias que, transcendendo o
horizonte b urguês, surgem inelutavelmente na consci ência do p role
tariado a pa rtir da sua si tuação s ocial. Karl Marx não criou o m ovim en
to proletário (como , m uito se riamente, pensam inúm eros burgue ses
adoradores do diabo). Também não criou a c onsci ência proletári a; p o

rém,
qu ad ofereceu
a e, com ao seuelevou
isto, conteúdo
esta aconsciência
expressão teórica
a um enível
científica adeA tr a
super ior.
duçã o das representações “natu rais” ( naturwüchsige ) do proletariado
em co nceitos e propo sições teóricas e a sua pode rosa sistematização
nada têm a ver com um reflexo puram ente pas sivo do m ovim ento h is
tórico do pro letariado - são, a nte s, um a parte constitutiva e insub sti
tuível deste proces so históric o. O m ovim ento histórico do pro letar ia
do não pod eria tornar-se “ autô nom o” nem “ un itário ” ( einheitlich ) sem
a constituiç ão de uma cons ciência prole tária também autô no m a e un i
tária. O movimento proletário organizado e maduro no plano polí
tico e econô mico , nacional e internaciona l, distingue-se das prim eiras
convuls ões que agitaram aqui e acolá o proletariado, da mesm a form a
como o “socialismo científico”, a “consciência de classe organizada”
do pro letariado distingue-se das representações e dos sentim entos d i
fusos e amorfos com que começa a exprimir-se a consciência prole
tária ai nda im atura. E, num a perspec tiva prática , a constituição te ó
rica do socialismo em ciência, levada a cabo por Marx no Manifesto

comunista
plo processoe em O capital, revela-se
de desenvolvim um elemento
ento histórico no qualnecessário
o m ovimdoento
amope
rári o, pouco a pouco, desco lou- se do m ovimento revoluci onário bu r
guês do terc eiro estado e gr aças ao qual o proletariad o se tran sfo rm ou
em um a classe au tôn om a e unitária . Para liberar- se radicalm ente das
idéias burg ues as a que estava estreitam ente associado po r sua srcem,
o conjunto das idéias proletárias que constitui o conteúdo do “so-
148 ♦ K a r i. K orsch

cialismo moderno” tinha de assumir o estatuto de uma ciência rigo


rosa . Some nte com o “ci ência” o socialismo po deria de fato cu m pr ir a
missão que Karl Marx e Friedrich Engels lhe atribuíram: enquanto
“expressão teórica da ação revolucionária do proletariado”, esclarecer
as condiçõe s histó ricas e a natureza desta ação e, assim, “elevar a classe
que, atualmente oprim ida, é convoc ada a atuar à consciê ncia das con 
diçõe s e da naturez a da sua p róp ria ação” .
Ca racte rizan do assi m a signif icação prática da fo rma científica
do socia lismo mod erno ou marxista , ao mesmo tem po definim os o sen
tido do método dialético empregado por Karl Marx. Se é certo que o
con teúdo do sociali smo preexi stia, como representação br uta, à sua
elaboração científica, também é certo que a forma científica que ele

ad
proqupriam
ire naente
s obra s defoi
dito) Maessencialmente
rx e Engels (ou oseja , o “socialism
resultado deste mo odo
cientídefico”
pen
sar que ele s de signar am com o o seu “ m éto do dialético” . E não o foi por
um acaso histórico, como supõem muitos “marxistas” contempo
râneos — se assim o fo sse, pode r-se-iam hoje re tom ar as proposiçõ es
cie ntí ficas estabel eci das po r Marx graça s a ta l m étod o sepa rando -as
dele, que, aparecend o com o inteiram ente superad o pelos avan ços rea
lizados pelas ciências, poderia e deveria então ser necessariamente
sub stituído p or ou tro m étodo. Uma concepção c omo esta só é possí
vel com a completa incompreensão do que é o mais importante da
dialética marx ista. So mente esta incom preen são expli ca que se possa
pensar, num m om ento em que a lu ta de classes se acentu a em todas
as esferas da vida social (e , em particu lar, da vida espirit ual) , em ab an 
donar “o método essencialmente crítico e revolucionário” que Marx
e Engels contrapuseram, como método novo da ciência proletária,
simultaneamente ao “modo de pensar metafísico” e à “estreiteza de
espírito específica dos últimos séculos” e a todas as formas prece
dentes de “dialética” (especialmente à dialética idealista de Fichte-
Schelling-Hegel). Somente negligenciando totalmente a diferença
essencial que distingue de todo outro modo de pensar a “dialética
proletá ria” de Marx, na qual o conteúdo novo das idéias pro letá rias,
nascidas na luta de classes, pode encontrar a única expressão teórica
e cient ífica que c orres pon de a s eu se r real - som ente assim pod e-se
forjar a idéi a de que o m od o de pensar dialét ico, sendo “apenas a for-
A DIA LÉTIC A DE MA RX ♦ 149

ma” do socialismo científico, seria também “algo de exterior e de


indiferente ao objeto”, de maneira que, por conseqüência, o mesmo
conteúdo conceituai objetivo poderia ser expresso tão bem ou até
m elhor n ou tra forma. É mais ou m enos o que ocorre qua nd o alguns
“marxistas” contemporâneos imaginam que o proletariado poderia
lutar praticamente contra a ordem econômica, política e social da
burg uesia adota ndo outras “form as” que não precisamente a fo rm a
bárbara e prim itiv a da luta de classe revolucionária. Ou quando eles
se persuadem - e persuadem o utros - de que o proletar iado poderia
cumprir a sua tarefa positiva (a realização da sociedade comunista)
por meios outros que não a ditadura proletária (servindo-se, p or exem
plo, do Estado ou da democracia burgueses).
Karl Marx tinha, porém, posições muito diferentes; ele, que
nu m texto de juve ntud e já escrevera que “a form a não tem v alor s e não
é a forma do seu conteúdo”, mais tarde sublinhou continuamente que
o emprego con sciente do m étodo dial ético é o único que perm ite ace
der à compreensão real, positiva e negativa (quer dizer, conscien
temen te revo lucionária), do process o de desenvolvimento histórico-
social, compreensão que é a própria essência do “socialismo cientí
fico”. Certa m en te q ue esta dialética no va o u “pro letá ria”, sob re a qu al
se fund a a form a cient ífica do sociali smo marxista, não se distingue,
em tod os os aspec tos, apenas do m odo de pensar vulg ar, estreit ame nte
metafísico. El a é, adem ais, “abso lutam ente dis tinta ”, em ra zão de seus
fundamentos, da dialética burguesa que encontrou no filósofo ale
mão Hegel a sua form a mais acabada: é, em certo sentido, o seu “direto
co ntrá rio”. Nã o é pos sível, aqui , e seri a segu ram ente supérfluo, tra tar
em detalhe as mú ltiplas conseqü ências dess as diferenças e o posições.
Basta-nos sublinhar, para os nossos objetivos, que elas se devem
inteira m en te ao fato de que a “dialéti ca prole tária” co nstitu i precisa
me nte a form a na qual o mo vimen to revolucionári o do proletariado
encontra a expressão teórica que lhe é adequada. Quando se com
preende isto, ou mesmo quando apenas se entrevê esta relação, então,
de um só golp e, compreend e-se toda um a sér ie de fenôm enos de o u
tro modo ininteligíveis. Compreende-se por que a classe burguesa
contemporânea esqueceu-se completamente da época em que ela
mesma - enq uan to ter ceir o est ado - conduziu, contra a estrutura
150 ♦ K arl K or sc h

econô mica feudal e con tra a sua sup erestrutu ra política e i deol ógic a
(nobreza e clero), um combate tenaz, por vezes heróico, época em
que um de seus porta-vozes ideológicos, o abade Sieyès, colocou à
ordem social dominante uma questão perfeitamente “dialética”: O
que é o terceiro estado? Tudo. O que tem sido na atual ordem política?
Nada. O que exige? Ser alguma coisa.
Agora que o Estado feudal está liquidado e que, no Estado
burguês, a burguesia não é apenas “alguma coisa”, mas tu do - agora,
para os olhos da burg uesia, só há duas posições em face da dialética:
ou a dial ética é um po nto de vi sta totalm ente ultrapassado, respeitável
apenas historicam ente com o um a es pécie de del írio sublime do p en 
samento filosófico no empenho de ultrapassar os seus limites na
turais, delírio a que um homem sensato, um bom burguês, não se
pode deixar arrastar; ou o movim ento dialético deve deter-se defi
nitivamente, agora e para sempre, no ponto final absoluto que já lhe
fora de term inado po r Heg el, o últi mo filósofo r evolucionário da b u r
guesia. Ele não deve ultrapassar com os seus conceitos os limites que
também a sociedade burguesa não pode ultrapassar realmente sem
sup rim ir-se a s i mesma. A sua última palavra - a am pla síntese que
contém tud o e na qual t odos os ant agonismo s est ão definit ivamente
solucio nado s ou po dem sê-lo - é o Estado . Diante do Estado burguês,

cujo desenvolvimento
interesses da burguesia integral representa a satisfação
e, conseqüentemente, o objetivo de
finaltodos os
da sua
luta, não exist e mais , para a consciência burgu esa, n en hu m a antítese
dialética, nenhuma contradição irreconciliável. Todo aquele que se
coloca prática e teoric am ente co ntra esta rea liza ção abso luta da Idéia
burguesa e vai além do círculo sagrado do m undo burguês se coloca fo
ra do d ireito , da liberd ade e da paz burgue ses e, pois, de tod a filosofi a
e de toda ciênci a burgues as. Com preende-se que, para um po nto de
vista segundo o qual a única forma pensável e possível da vida social
é a sociedade burguesa atual, a “dialética idealista” de Hegel, que en
con tra n a Idéia do Estado burguê s o seu term o idea l, de ve ser a única
forma pensável e possível de dialética. Em troca, compreende-se
igualmente que, nesta sociedade, a “dialética idealista” da burguesia
não ten ha mais valo r para a outra cla sse, levada dire tam en te à revolta
con tra tod o este m un do burguês e seu Esta do “por um a m iséri a abso-
A di a l ét i ca d e M ar x ♦ 151

lutamente imperiosa, que já não se pode eludir ou atenuar e que é a


expressão prática da necessidade”, porque esta classe representa, con
cretame nte, no con junto das su as co ndições de vida material, a antí
tese formal, o co ntrá rio absoluto da sociedade burguesa e de seu Esta do.
Para esta classe, surgida na sociedade burguesa pelo mecanismo in
terno do desenvolvimento da propriedade privada, por “uma evolu
ção ind epend ente dela, inconsci ente, involuntária, determ inada pela
natureza das coisas”, para esta classe, que vê seu objetivo e sua ação
histórica revolucionários “inscritos de modo sensível e irrevogável
nas próprias circunstâncias da sua vida e em toda a organização da
sociedade burg ue sa at ual”, para esta cl asse impõe-se necessariam ente
também, em virtude da sua situação de classe, uma dialética nova,
revolucionária, não mais burguesa e idealista, porém proletária e
materialist a. A “dialética ideali sta” da bu rguesia so mente pod e abolir
os antag oni sm os materiais da “riqueza” e da “pobre za” existente s na
soci edade burguesa na “ idéia” - na idéi a do Esta do p uro, dem ocrático
e burguês - , de form a que es tes antagonismos, solucionados “ideal
mente”, subsistem integralmente na realidade social “material” e se
acentuam con tinuam ente em exte nsã o e profundidad e. Ao contrário,
o que con stitui a essênc ia próp ria da nova “dialética mater ialista” do
pro le ta riado é que ela su prime no concreto a oposição m aterial entre
riqueza burguesa (o capital) e pobreza · prole tári a sup rim indo a socie 
dade burguesa e seu Estado de classe na realidade material da so
ciedade comunista sem classes. A dialética materialista constitui,
pois, como “expressão teórica” da luta histórica do pro letariado pela
sua emancipação, o fundamento metodológico indispensável do
“socialismo científico”.
Março de 1923
A DIALÉTICA MATERIALISTA

No artigo “Unter dem Ban ner des M arxism us” (“Sob a b an
deira do m arxis mo”), publicado há dois anos [1922], no n úm ero 21 da
revista Kom munistische Internationale , Vlad imir Ilitch Lenin afirmava
que urna da s tar efas importantes posta s ao com unism o, no dom inio
ideológico, era “organizar, de um po nto de vista m aterialista, o estudo
sistemático da d ialét ica hegel iana , que M arx aplicou com tan to êxit o
em O capital e em seus textos históric os e político s”. Com o se constata ,
Lenin não acreditava, absolutamente, que “pela via da filosofía idea
lista do neo-hegelianismo” surgissem na teoria marxista-comunista
“desvi os ideológicos” - crença de que hoje m uitos de nossos desta 
cados camaradas dão provas quando alguém se propõe a executar
aquela tar efa. Alguns exemplos podem ser invocados. Há um ano, as
Ediçõ es Meiner pub licaram , pel a prime ira v ez em oiten ta anos, um a
nova edição da grande Lógica de He gel;1logo depois, a Rote Fahne ( Ban
deira Vermelha) fez aparecer, no n úm ero de 20 de maio de 1923, um a
sole ne advertência co ntra os perigos que e la representava p ara todos
aqueles que não trouxessem ao estudo da dialética hegeliana “o co

nhec im
vesse ento crítico de
familiarizados todaos métodos
com a históri aedaosfilo sofia e, ademais,
principais resultadosnão
dasesti
ciências da natur eza e das matem áticas desde o tem po de Hegel” . Oito
dias mais tar de, o utro representante da tendência então dom inante,
teórica e praticamente, no Partido Comunista Alemão (KPD), con
denou formalmente, na mesma Rote Fahne (28 de maio de 1923), o
con junt o de ensaios em que Gyõr gy Lukács pro cur ara “iniciar ou m es
mo ensejar uma discussão realmente proveitosa do método dialé
tico”.2 Já a revista científ ica do par tido alemão, Die Internationale,
considerou mais simples silenciar completamente sobre o livro do
camarada Lukács. No último número (o 33) da Kommunistische
Internationale, Bela Kun, em seu artigo s obre “A prop ag an da do len i
nis m o”, ch am a a atenção não só para os desvios já surgidos mas, além
disso, para “alguns publicistas comunistas que, embora ainda sem
154 ♦ K arl K or sc h

rótulo político, podem logo abandonar o marxismo ortodoxo enve


redan do po r novos cam inhos reform istas” (!).
Esses exemplos, que poderiam ser facilmente multiplica
dos, ilustram a débil acolhida que Leni n en co ntro u en tre os teóricos
dirigentes da Internacional Comunista, e particularmente entre os
do Partido Co m unista al emão, a o dem anda r que, em nosso t rabalho
de formação, estudássemos de um ponto de vista materialista e sis
tematicamente tanto a dialética de Marx e de Engels quanto “a dia
léti ca de Hegel” - dem and a que, s e ele form ulou pela últim a vez no
artigo de 1922, já explicitara antes e que ele mesm o já aten de ra d eta 
lhadamente. Se procurarmos as causas desse fenômeno, teremos de
com eçar por um a dis tinç ão. Para a lgu ns - tipicamente representados

no espírito
aquilo que, da
de obra
fato,des óBukharin3-, toda atotal
depois da vitória filosofia é já, atualmente,
da revolução pro letária,
na segu nda fas e da socie dade com unista, haverá de s er: o po nt o de vis
ta ultrapa ssado de um passado ainda im erso na ignorância. Este s ca
maradas supõ em que o m étodo emp írico das ciên cias da na turez a e o
método histórico-positivo correspondente das ciências sociais resol
veram, de uma vez por todas, a problemática do método científico.
Eles não suspeitam que est e métod o - palavra d e ord em com a qual a
burguesia dirigiu, desde o início, a luta em prol da sua dom in ação - é,
ainda hoje, o m étod o especificamente burguês da investigação científi
ca; é verdad e que, po r vezes, no perío do a tual de declínio da socieda de
burguesa, alguns representantes da ciência modern a teoricam en te o
recusam, mas, na prática, permanecem firmemente apegados a ele.
H á o utra tendência - e, nes te ponto, as coisas s ão ainda mais
complexas. E la vê como “ perigoso” o estudo, mesm o qu e de u m po nto
de vista “m ateria lista”, do m étod o dialético de Hege l po rqu e é um pe 
rigo que conhece bem por experiência própria e do qual, efetiva

m ente
vist , é vítimé ailustrada
a ousada, sem pre eque
atéa diretam
e le se expõe. Estaprovada
ente com afirm ação,
p oràuprim
m artieira
go
de A. Thalheim er, “Üb er den Stoff der D ialektik” (“ O ob jeto da dia lé
tica ”), publicado ta nto em Die Internationale (v. 6, n. 9, maio 1923)
quanto no Boletim Inform ativo da Acade mia Co m unista de Moscou.
O cam arad a Thalheim er retoma neste artig o a tese defendida po r Franz
Mehring (em nosso juízo, a única sustentável) segundo a qual, do
A DIALÉT ICA MATE RIALIS TA ♦ 155

ponto de vista dialético-m aterialista de Marx, não é conveniente e, a


rigor, nem é mesmo possível tratar este método “materialista dia
lético” fazendo abstração de todo “objeto” concreto. Ele afirma que
M ehring t em c ertamen te razã o quan do recusa o tratam en to abstrato
do m étod o d ialét ico com o tal , mas que, no e ntanto , ele “vai longe de
mais”. A elab ora ção de um a dialética seria “urg en te” pela razão , entre
outras, de que, “nas camadas mais avançadas do proletariado mun
dial, faz-se sentir , ademais dos imperativos práticos da luta pela cons 
trução socialista, a necessidade de forjar uma ampla e coerente con
cepção do m undo ” (!), o que im plicaria a “exigênci a de u m a dialética” .
O camarada Thalheimer precisa que, para uma tal remodelação da
dialét ica, é necessário pa rtir criticam ente de Hegel , “não apenas c on 
sideran do o m étod o, mas tam bém o objeto” . Ele pretend e “escl arece r
a relação inte rna , universal, sist emática, de toda s as categorias do pe n
sam en to”, que, realiza ndo um prog resso genial, Heg el estabeleceu. Es te
escl areci mento impor-se-ia como tare fa também para a dialét ica mate
rialista; para realizá-la, bastaria inverter o método hegeliano: não é a
consciência que d eterm ina a exi stência, mas sim a exi stência que d ete r
mina a consciência - e isto nos cond uziria a um a dialéti ca materialist a.
Parece-nos que esses escl areciment os do c am arad a Thalheimer,
malg rado a sua brevidade, m ostram à saci edade que el e não consegue
conceber o m étod o dialét ico senã o de um m odo hegeli ano-ideal ist a.
Com isto, não o quali ficamos como um dialético idealista; no utra op or 
tunidad e,4 argum entamo s que o camarada Thalheimer prof ess ava ,
num artigo recente, um método pretensamente dialético-materia-
lista que, de fato, nada tinha de dialético, sendo, antes, puro positi
vismo. Ava nçar emos agora e completare mos: o ca ma rada Thalheim er,
se é dialético, é um dialético ideal ista - ele só concebe o m éto do dialé 
tico sob a sua form a ideali sta hegel iana. É o que d em on strare mos agora

de
da mo do positivo,
dialética indicaisto
ma terialista, nd oé em que consiste,
, a dialética a nosso
hegeliana juízo,daa po
utiliza e ssência
r Ma rx
e Lenin numa perspectiva materialista. Retomaremos, aqui, as con
clus ões do nosso trab alho , recentem ente publicad o, sobre as r elaç ões
entre marxismo e filosofia.
Já é tem po de colocar um po nto final na con cepção sup erfi cial
que visuali za o trân sito da dialét ica de Hegel à dialét ica de M arx co 
156 ♦ K arl K ors ch

mo um a operação tão simp les que se poderia efet ivar meram ente p or
um a “infl exão” ou “invers ão” de um mé todo que, quan to a tod o o res
to, permaneceria inalterado. É verdade que há passos muito conhe
cidos de Marx nos q uais el e caracteriza a diferença en tre o seu pró prio

método e o de Hegel dessa maneira abstrata, como uma simples


contraposição. Mas se penetrarmos na práxis teórica de Marx, ao
invés de determinar a essência do seu método a partir de citações,
rapida m ente veremos que aquel e “trâns ito” metodo lógico - como
todas as pass agens dest a natureza longe de aparecer com o uma in
flexão puramente abstrata, envolve um conteúdo concreto de enor
me riqueza.
Ao tempo em que a economia clássica desenvolvia a lei do
valor sob a forma “mistificada”, abstrata, a-histórica que Ricardo lhe
conferira, a filosofia alemã tentou, também ela de forma mística e
abstrata, super ar intelectualmente os limi tes d o pens am ento burguês.
Assim com o a le i do valor de Ri cardo , o “mé todo dialético” - ela
borado, co mo tal lei, à m esma época revolucionária da sociedade b u r
guesa - trans cen de esta so cieda de nas suas conseqüên cias (do mesmo
modo como o movimento revolucionário prático da burguesia já a
ultrapassa parcial mente, em seus fins, enqu anto o mo vime nto revo
lucionário p roletário ainda não se constitui “auto no m am ente ”). Mas

todos os conhecimentos
burguesas perm anecem, adquiridos
em últimgraças à economia
a análise, conhecime à entos
filosofia
“p uro s”:
seus con ceitos são o “ser restab elecid o”, e suas teo rias, o mero “reflexo”
passivo deste ser, pura s “ideologias” no sentido mais estrito e preciso
desta palavra em Marx. A ci ência econô mica e a filos ofia burgu esas
podiam reco nhec er as “contradições”, as “antinom ia s” da economia e
do p ensam ento burgueses e até torná-las transparentes; m as, no fim
das contas, tinham de deixá-las subsistir. Essa espécie de encanta
mento só pode ser rompida pela nova ciência do proletariado, que
não é nem preten de ser, como a ciênci a burguesa, um a “pur a” ciênc ia
teór ica, e sim, a o m esmo temp o, um a práxis revolucionária ( umwälzen
de Praxis). A econ om ia política de Ka rl Marx e a dialética ma terialista
do proletariado conduzem, na sua implementação prática, à reso
lução d aque las con tradiç ões n a realidade da vida soci al e, por sua ve z,
do pens am ento , que del a é parte constitutiva. Com preend e-se, ass im,
A DIALÉTICA MATE RIALIS TA ♦ 157

que Karl Marx atribua à consciência de classe proletária e ao seu


método dialético-materialista uma força que o método da filosofia
burguesa jamais teve, inclusive em sua form a últim a, a mais rica e
mais elevada, a de Hegel. Somente o proletariado mostra-se capaz,
mediante o desenvolvimento da sua consciência de classe, tornada
tendencialmente prática, de super ar o l imite d e um a últim a “Im edia-
ticidade” ou um a ú ltima “ Abstração” - limit es que subsistem e s e tor
nam manifestos nas sua s contradições i nsuper áveis no m arco da pers
pectiva de um conhecim ento puro e m esmo da dialética idealista de
Hegel. É aqui - e não n um a m era “ inflexã o” ou “inver são” abstratas -
que reside o dese nvolvim ento revolucio nário da dialét ica idealis ta e
da filosofia burguesa clássica em uma dialética materialista, dialética
que M arx est abel eceu teoricamente com o m étodo da ciê ncia e da prá 
xis novas do proletariad o e que Lenin emp regou teórica e praticam ente.
Ora, s e se conside ra sob est e po nto de vista o “ trân sito ” da d ia
lética burguesa de Hegel à dialética proletária de Marx e Lenin, veri-
fica-se que é absurd o pensar a concepção da dialéti ca m aterialista co
mo um “sistema” autônomo. Somente um dialético idealista pode
pre te nder auto nom iz ar todas as form as do pensam ento (d ete rm i
nações , categori as) - de que , po r um a parte, faz emos uso consciente
na práxis, na ciência e na fil osof ia, e, por o utra p arte, pe rpassam ins
tint iva e inconscien teme nte o nosso espí rito - do objeto da intui ção,
da imaginação e do desejo, com o qual estão ordinariamente envol
vidas, para considerá-las em si mesmas, como um objeto particular.
O últim o e m aior do s dial éticos i deal istas, o burguê s Hege l, já d en un
ciara em p arte a “fal sidade” de um tal pon to de vi sta e “in trod uz iu o
conteúdo na lógica” (ver as precisões feitas no prefácio à segunda
edição da Lógica, ed. Lasson, p. 17 e ss.). Mas, para o dialético mate
rialista, e ste proce dim ento é absurdo. Uma dialética verd adeiram ente

“materiali sta” não


do pensamento em sipod e dizer nem
mesmas, rigorosamente n ada das d eterminações
das suas inter-relaçõesj fazendo
abstração do seu conteúdo histórico concreto. Apenas de um ponto
de vista ideal ista (isto é , burguês), a di alética poderia - aten de nd o à d e
m an da de Th alhe im er - “esclarecer a relação intern a, universal, s is
tem ática, de tod as as c ategor ias do pens am en to”. Em troca, do p on to
de vista materialista, é preciso retomar, a propósito de todas as cate
158 ♦ K arl K or sc h

gorias ou determinações do pensamento em geral, o que Marx ob


servo u em relação à s “categorias econôm icas” : elas não m an têm entre
si relações “na idéia” (concepção obsc ura q ue valeu a Pr ou dh on a se
vera censura de Marx), não estão numa “relação interna sistemá
tica”; ao contrário, o seu encadeamento, em aparência puramente
lógico e sistemático, é “determinado pelas relações que elas mantêm
entre si na sociedade burguesa moderna”. Com a transformação da
realidade e da práxis hist órica s, transform am-se tam bém as categor ias
do p ens am en to e toda s as suas relaçõe s. Negligenci ar es ta co rres po n
dência histórica e pretender enquadrar as determinações do pensa
m ento e suas rel ações num sistema abstrato significa s acrifi car a dia 
létic a “mate rialista ”, prole tária e revolu cioná ria a um m od o de pen sar
que só teoricam ente beneficiou-se da inver são “material ista” e que co n
tin ua a ser, na re alidade p rátic a, a velha dialética “idealista” da filosofia
burguesa. A dialética materialista do pro leta riado não pode ser en si
nad a de forma abstrata, nem mesmo com a ajuda de pretensos exem
plos, co mo um a ciência particular que dispõe de um objeto pró prio.
Ela só pode ser aplicada concretamente na práxis da revol ução p role
tária e nu m a teoria q ue se ja parte co nstitutiva, im ane nte e real de sta
práxis revolucionária.
Junho de 1924

Notas

1 Hegel. Wissenschaft der Logik [Ciência da lógica ], ed. Lasson, Leipzig, 1923.
2 G. Lukács. Geschichte und Klassenbewusstsein. Studien über Marxistischen Diale
ktik. Berlim: Malik Verlag, 1923 [ed. bras.: História e consciência de classe.
São Paulo: Martins Fontes, 2003],
3 N. Buk hari n, Theorie des historischen Materialismus, Hamburgo, 1922 [ed. bras.:
Tratado de materialismo histórico. Rio de Janeiro: Laemmert, 1970].
4 Ver o artigo “Le nin un d die Komintern” , Die Internationale, v. 7, n. 10-11, 2 jun.
1924, p. 310 e ss. [ver, no presente volume, a p. 159 e ss.].
LENIN E A INTERNACIONAL COMUNISTA

1.

“Leni n e a Internacional Comunista. Fu ndam entos e pro pa gan 


da do le ninism o” é o primeiro p on to d a ordem do dia do V Congresso
M undial da Internac ional C om unista .1Isto não significa apenas um a
adesão do congresso ao espirito do leninismo e uma manifes
tação explícit a da vontad e dos seus particip antes de resolver tod as as

questões que nele se possam colocar com o espírito do verdadeiro


leninism o. E não pod e sign ificar, ademais , que certos problem as que,
no último ano da Int ernacional Comunista, constit uíram n a Europa
Central e Ocide ntal o ful cro da polémica, e que só s ão arrolad os s ub 
seqüentemente, devam ser resolvidos antecipadamente, pelo con
gres so - isto é, antes da a nálise da situação econ ôm ica m un dial, a ser
tratad a no segundo pon to da ordem do dia . É indis cutí vel que , no p e
ríod o atual de ev oluç ão da Internacion al Co m unista, den tre todas as
tarefas do comunismo centro-europeu, europeu-ocidental e ameri
cano, a mais decisiva é aquela que nos foi indicada por Lenin, a da
“conquista da maioria entre as camadas mais importantes da classe
trab alh ad or a”; e não há dúvidas de que e ssa tarefa, ainda não realizada
por nós, só pode ser cum prid a verdadeiramente conform e o espírito
do leninism o - mais concreta mente, conforme o espírito daq uelas “con 
clusões” que, do m od o mais impressio nante, Lenin (n a sua ob ra clá ssi
ca sob re A doença i nfa ntil do “esquerdismo” no com unism o 2) extr aiu da
história dos bolcheviques russos e das experi ência s dos p artido s eu ro 

peus. “Encontra
métodos, mesmo r, sentir
ainda nãoe totalmente
realizar o plano co ncreto das
revolucionários, que m edid ascondu
e dos
zam as massas à verdadeira, última e decisiva grande luta revolucionária”,
nisto consist e, de fato, ainda hoje , neste ano de 1924, exa tam en te c om o
Lenin pr oc lam ou há q uatro an os (e atua lm ente de form a mais visível,
depois de três ano s de aplicaç ão da ch am ada “tática da fre nte única ”),
a tarefa princi pal do com unismo contemporâneo na Europ a O cidental
160 ♦ K a r l K orsch

e na América. À s olução deste problem a prático central está dedicada


toda uma série de pontos comuns, nenhum deles excludente, da
ord em do d ia do congresso, e é neste sentido qu e tam bé m entre eles se
pode in cluir o prim eiro ponto, referente aos “fu ndam ento s” e à “pro
paganda do lenin ism o”. É que a Intern acional C om unista pode e deve
dem onstrar, e hoje - qua tro anos depois da las timável m orte de
Vladim ir Ili tch Leni n, seu grande líder e fund ado r - mais do que
nunca, que tem condições de aceitar também teórica e ideologica
mente (e que está disposta a levá-la adiante) a herança de Lenin; que
deseja conservar e pr osseguir ma ntend o em sua teoria e e m sua práti
ca, de m od o vivo e at ual, o “espírito” de Le nin com o realidad e h istó
rica, com o len inism o; e que, assi m, n a sua efeti vidade, va i fazer suc e
der, também na sua função teórico-ideológica, o falecido Lenin por
um a po der osa coletividade de lenini stas vivos .3
Ao colocar o tem a “Len in e a Internacio nal C om un ista” na o r
dem do dia do V Congresso M undial, o Com itê Exe cutivo proclam ou
ao m un do que, na reali zação desta grande t arefa, a maio r de que jamais
se encarregou algum partido na históri a, devem co laborar teórica e
pra ticam ente não apen as o principal herd eiro de Lenin, o Partido
bolcheviq ue ru sso, mas to das as dem ais seções da Internacional
Comunista, o nosso grande partido comunista. E já o próprio con
gresso deverá dar os primeiros passos importantes neste rumo. De
fato, será seu dever formular clara, completa e detalhadamente, de
m odo válido para tod a a Internacional Com unista, a divi sa da “P ropa 
ganda do leninismo”, que na ordem do dia aparece somente como
vaga indicação; será necessário assinalar, para cada seção da Inter
nacional Comunista, as tarefas parciais especialmente importantes
para obte r o efeito desejado, considera ndo a sua situação e o seu es
tado de evolução atuais, e definir as grandes diretrizes segundo as
quais se deverá pro ced er n a sua reali zaçã o.
N o enta nto , o significado do prim eiro ponto da o rd em do dia
do V Congresso Mundial é muito maior. É preciso ter clareza de que,
mediante uma definição mais precisa das múltiplas tarefas parciais
referentes à “Propaganda do leninismo”, o congresso apenas se pro
nun ciará sobre o aspecto técni co d o “leninism o”. Eviden temen te, es te
aspec to tem e norm e im portância, posto que a “Propagan da do leni-
L enin E a I nt erna ci onal C omun i st a ♦ 161

nin ism o” representa um aspect o ess encial da grande taref a com unista
co nj un ta d e “organização da r evolução” . E não re stam dú vidas de que
o cumprimento desta tarefa propagandística apresenta, mesmo em
condições le gais (para não m encio nar no qu adro de i legal idade) , um
grau de dif iculdade extraordinário para aquel as seç ões da I nter nac io
nal C om un ista que, ao c ontrário da Rús sia soci alista proletária, aind a
não conquistaram o poder estatal, isto é, para todas as seçõçs euro
péias e am erican as; p or isto m esm o, deverá adotar, nestas seções, fo r
mas muito diferentes, formas adaptadas com exatidão às condições
de cada paí s, o que r eq uer u ma análise e um a definição mais precisa s do
órgão sup rem o da Inter nacional Co m unista (o Congresso M undial) .
Co ntud o, ess as questões mai s ou men os té cnic as não co nstituem , em

absoluto,Nao realidade,
núcleo do problema.
com o tema “Lenin e a In te rn acio nal Com unista.
Fu nda mentos e propa gand a do leninism o”, o que se i nscreve na ordem
do d ia do congresso é o método da teoria bolchevique como ta l. M edian 
te o esclarecimento dos “fundamentos do leninismo” e a elaboração,
em todas as seções da Internacion al Com unista, de um sistema de “pro 
paganda do lenin ism o” neles em basad o, a In tern acio nal Com unista,
em seu conjunto, consolidar-se-á ideologicamente numa firme uni
dade sobr e o terreno c om um do método m arxista revolucionário, so b a
fo rm a em que Lenin, o teórico do bolchevismo, o “restaurou” e o opôs aos
falseamentos e às confusões dos chamados “marxistas” da Segunda Interna
cional unificada. Assim como no terceiro ponto da ordem do dia se
examinará o programa da Internacional Comunista, na questão do
“len inism o” se disc utirá o método da nossa teoria bolchevique.

2 .

Terá o V Congresso Mundial da Internacional Comunista


condições para resol ver este problem a, ao mesmo tem po tão im po r
tan te e tão difícil? Co nseg uirá fixa r os fund am entos metodológicos do
“leninismo” de modo tão preciso e correto que, sobre eles, se possa
construir uma propaganda leninista metódica e sistemática? Teria
o processo de unificação ideológica no interior da Internacional
Co m unista prog redido a po nto de reu nir o con junto de s uas seções e
162 ♦ K a r l K orsch

de seus grupos na adesão a um método teórico que, em seus traços


essen ciais , deve ser o mesm o p ara todos?
Surgem aqui dificuldades enormes, que quase excluem uma
solução que toque nas ra ízes profu ndas do problema. P or um lado, não
se pode falar ainda, nas di versas seções da Internacio nal C om unista -
e, em particular, no Partido Com unista al emão - , do reconhecimento
geral do “leninism o” como o único méto do válido da teoria m arxist a.
Por outro, tam bém subs istem hoje pon tos de v ista substancialmente
divergentes acer ca da es sência do leninism o com o m étod o (inc lusive
entre aqueles que o aceita m com o tal). De fato, grande pa rte dos teó ri
cos marxistas, dirigentes e dirigi dos, que se consid eram o rga nica men
te vinculados à Internacional Comunista e estão dispostos, em sua
prática política, a atu ar “leninisticamente”, recusam firm em ente a afir
mação de que se deva considerar o método de Lenin, também teori
cam ente, como o m étod o res taurado do “marx ismo científico” . Acei
tam o m étod o leninista como sufi cien te para os f ins políticos práticos
da luta de cl asses no per íodo atual (ou se ja, um per íod o que, n o plano
internacio nal, e na Euro pa e na América sequer no plano n acional, não
é aind a o da tomad a do poder polít ico), a ceitam-no com o orien tado r
desta luta; mas, em troca, não o reconhecem como o método mais
concreto e verdadeiro da dialética materialista, como o método res
taurad o d o m arxismo revoluc ionári o. C onsideram com o tal , ante s, o
método de Rosa Luxemburg, fundadora do Partido Comunista ale
mão; o u declaram c omo unilaterais se ja o mét odo leninista, seja o luxem-
burguista, reco nhecen do unicam ente como verdadeiramente m ar
xista o método utilizado pelo próprio Marx em sua maturidade.
É impossível , nu m arti go tão breve como este, até mesm o i ni
ciar uma discussão profunda com esses adversários do método leni
nista (como um dos métodos ou, alter nati vamente, como o métod o do
marxismo científico). Esta discussão será conduzida nos próximos
núm eros desta r evista, contando com a cola boraç ão do m aior nú m e
ro possí vel de teór icos comunistas. Por agora , lim itar-n os-em os a afir
m ar que, para nós, a prática política do bolchevismo e a form a “res
taurada” - po r Len in - da te oria marxi sta r evol ucioná ria cons tit uem
um todo tão indissoluve lmente coere nte que não vemos com o é poss í
vel partilhar na “política prática”, na questão do papel do Partido
L enin E a I nt erna ci onal C omun i st a ♦ 163

Comunista na revolução proletária, da posição comunista da Reso


lução do II Congresso Mundial da Internacional Comunista e, ao
mesm ó tem po , como “marxista cientí fico”, com preen der o vínculo
entre a evolução econô mic a e a luta de cl asse proletária p or meio das
formas especif icamente l uxemb urguistas do méto do dial ético m ate
rialista. Parece-nos que a concepção bolchevique do “papel do par
tid o” só é caba lmen te compreensível a pa rtir do p on to de vista daquele
materialismo totalmente “materialista” de Marx, “restaurado” por
Lenin e por ele levado ai nda mais adiante, qua nd o inclui tam bém em
sua verdade o bjetiva a at ividade e a prátic a hu m an a sens ível com o tal;
o p on to de vista da dialética luxemburguista, que, no q ue toca à pr ática ,
não é uma dialética tão “materialista” como a de Lenin, acrescenta à
concepçã o leninista do papel do par tido um problemático resíduo “ sub-
jetivista”. De qualquer modo, uma resolução sobre os “fundam entos do
leninismo” e um sistema de “propaganda leninista” que eventual
me nte fosse m aprovados no V Con gres so M undial pel o conjun to de
marxistas “luxemburguistas” e “leninistas” (a que se somaria um ter
ceiro grupo, o daqueles marxist as que não r econhecem com o autêntico
e legítimo nem o desenvolvimento luxem burgu ista nem a restauração
leninist a) seriam tão ins atisfat órios qua nto um prog ram a comu nista
aprovado p ara toda a I nternacion al Com unista po r esses mesm os teó
ricos. O co m pleto esclareci mento da relação ent re os métodos luxem 
burguista e leninista da teoria marxista constitui a premissa indispen
sável para a determinação dos “fundamentos” e da “propaganda do
leninismo”.
Co ntud o, m esmo descartando completamente a polêmica e ntre
luxem burgu istas e lenini stas, verifica-se que ain da nã o existe hoje c on 
senso algum sobre a questão da essência do leninismo como método
teórico - ou, m elho r dizendo, o consenso sobre i sso é mais raro do que
anterio rm ente. Mas é perfeit amen te compreen sível que - em um a
época na qual, em razã o de um a crise aguda, a s quest ões mais im por 
tantes da prática bolchevique s e conv erteram em objeto de um áspero
con fronto de frações - tamb ém a ques tão do métod o teórico do leni
nismo se veja arrastada pelas torrentes desta luta, dado que a cons
ciência que um partido comunista marxista tem do seu método não
permanece acim a ou fora da sua prática, antes constitu in do um ele-
164 ♦ K a r l K orsch

m ento im po rtante dela. Não deve nos sur preender, pois , que nas ten
tativas leva das a cabo hoje pelos diversos represen tante s das várias con 
cepçõ es acer ca do m étodo da dia lética leninista acabemos p or rec onh e
cer todas aquelas tendências que, igualmente no seio da Inte rnac ional
Com unista, se enfre ntam tam bém prati camente nos dom ínios da tá
tica e de outras questões de política prática. Sob este aspecto, é parti
cularm ente interess ante um arti go do c am arada Thalheim er “sob re o
em prego d a dialéti ca materialista po r Lenin em algumas questões da
revoluçã o p roletá ria” (publicado no n. 1- 2 da nova revi sta com unista
Arbeiterliteratur [Literatura Operária}).

3.

O cama rada Thalheim er pretende ilustrar o méto do leninista -


que, também segundo ele, é apenas o método marxista da dialética
ma terial ista uti lizado po r Leni n com a mesma audácia mas, ao mes
mo tem po, com a mesma exati dão e cuidado de Marx - à luz da ev olu
ção de três questões part iculares : a questão da ditadu ra do p role taria 
do, a questão agrária e a questão das guerras civil e imperialista. A
parte referente à questão da ditadura do pro letariado term in a com a
observação de que L enin não conside rou a forma soviét ica do Estado

como “a form
da cl asse a política
trabalh ado ra,fimas
nalmente
apenasdescobert
com o “uma” novo
- talvez
tip -o”dadeditadu ra
Esta do,
observação que já conte mp la a possibil idade de “ variedades, gêneros e
form as” de tal ti po. N o que diz respeit o à questão agrá ria, Th alheim er
assevera que, pelo trat am en to qu e lhe ofereceu, Lenin dem on stro u “um a
aplicação particularmente instrutiva e exata do método materialista
dialético” (de acordo com a exposição de Thalheimer, essa aplicação
consistiu n o fato de que, para salv ar o núcleo da causa da revolução p ro 
letári a - isto é, a passagem do pode r ao prolet ariado - , Lenin deixou
de lado toda s as ex igências “rígidas” do p rog ram a agrário bolcheviqu e
an ter io r e co nf iou e m que, no curs o d a “vida ”, tod o o resto se realizaria
“po r si mesm o”, com o “result ado da força do exemplo e de co nside
rações prá ticas”). Na terceira e última parte, o cam arada T halhe ime r
declara como “um verdadeiro modelo exemplar de análise dialética
con creta” a circuns tância de que, no trata m en to da que stão nacional,
L enin E a I nt ernaci onal C omuni st a ♦ 165

Lenin liquide criticamente, por um lado, com as falsificações do


socialpatriotismo e, por outro, sublinhe que, em determinadas con
dições, mesmo na Europa da guerra mundial, a transformação da
gu erra im perialista em g uerra civ il “não é provável” , sem dú vida, mas
é “teoricamente possível”.
Pois bem: nada está mais distante do nosso espírito que de
m onstrar um a admiraç ão m ini mam ente men or que a at ribuída p elo
camarada Thalheimer à solução leninista dessas três importantes e
difíceis questões. Mas devemos colocar muito seriamente a pergunta
sobre em que med ida, mediante um tratam en to del as tal como o ca
marada Thalheimer o descreve, Lenin proporcionou precisamente
esses modelos exemplares “particularmente” instrutivos e exatos da
aplicação do método dialético materialista do marxismo. Em que
consist e, p o r exemplo, a apl ica ção particu larm ente instrutiva e exata
do m étod o dialético materialista na atitude de Lenin em fa ce da que s
tão agrária? Tam bém Karl Marx, como se sabe, at rib uiu à cl asse revo 
lucionária, logo que ela se levanta, a capacidade de “encontrar dire
tame nte n a sua próp ria situa ção o conteúd o e o m ateri al da sua ativi
dade revolucionária, isto é, de liquidar inimigos, de adotar medidas
impostas pelas necessidades da luta etc.: as conseqüências de suas
pró prias ações fo rç am -n a a ir em frente, sem pro ceder a qualq uer
análi se teó rica da sua pró pria tarefa” .·1Da m esm a form a, o teórico e
prá tico da Revolução Russa, em meio à luta, p oderia confiar n aquela
dial éti ca n atural, inconsciente e imanente, que se impõe “po r si mes
ma” na “vida” e na luta de classes revolucion ária. Mas será q ue ele ap li
cou, precisamente aqui, quando renunciou (para tomar as palavras
de M arx) “a qu alq uer análise teórica da sua pr óp ria tarefa” , o m étod o
dialético? E o aplicou de forma “particularmente instrutiva e exata”
pre cisam ente a isto?

espaço emNossa
que opin
mesmoião,a ao contrário,
dialética é que exatamente
materialista aqui seque
mais desenvolvida, toca no
deve com pree nd er plename nte o proce sso hist órico da revol ução p ro 
letári a, chega a se u limit e: o espaço em que o processo histó rico co n
creto dec orre a ind a dial eticamente, sem dúvida, em sua objetividade,
mas no qual seu curso já não pode continuar sendo compreendido,
du rante um certo est ágio, pe lo teórico dia lético. Co nstitui par te das
166 ♦ K a r l K orsch

exigências de uma teoria exata do método marxista não ignorar a


existência d esse limite - mas, de fat o, é um exag ero quer er situar nes
te aspecto o núcleo me sm o da dialética ma terialista de Marx e de Leni n.
De form a análoga, nos dois ou tros exemplos que escolh e da util ização

leninista
converte do método
determ dialético
inado materialista,
s traços do métod oocamarada Thalheimer
m arxista-l eninista (traç os
que certamente faz em part e de um método v erdadeir amente m ate
rial ista e não ideal ista , mas que não com põem , abs olutam ente, a su a
essênc ia mais íntima) no com ponen te centra l, no cerne do m ateria
lismo, do m arxism o e do leninismo em geral. E a esta defo rma ção da
essênci a do m étodo marxista- leni nista , qu e real iza con cretam ente em
seus três exemplos, o camarada Thalheimer acrescenta, ademais, na
intro du çã o e no utras observa ções disper sas do s eu ar tigo, um a teoria
geral , igua lme nte def orm ada, daq uela essên cia. Com efeit o, exagera o
pensam ento fundam ental de Marx, segundo o qual a verdade é
sempre concreta, até convertê-lo na caricatura de que os resultados
do pe nsam ento material ista d ialético, tan to em Lenin qu anto em Marx,
jamais e sob qualq uer form a podem ser aplicados mais generaliza-
damente, para além do círculo momentâneo da experiência de que
derivaram e a que estã o vi nculados - como se os próp rios M arx (po r
exemplo, na carta a Mikhailovsky5 ) e Lenin (por exemplo, n a in tro 
dução a O esquerdismo, intitulada “Em que sentido se pode falar do
significado internacional da Revolução Russa?”6) não tivessem dis
tingu ido co m m uita exatidão o s resultados de sua inve stig ação m ate
rialista dialética que podem ser generalizados daqueles que não
podem sê-lo. Qual o valor de um m étodo “materialista dialético ” que
não nos ofer eça absolut am ente nada que de alguma form a vá al ém da
experiênc ia atual, do que já conhecemos, e que só prod uz a resultados
históricos - ou, confo rme a expres são de Thalheimer, sej a apenas, por
um lado, reflexo teórico (!), análise teórica de um tempo concreto e,
por outro , norm as para a luta do pro letariado num m om ento tam 
bém delimitado?
De fato, este novo método criado pelo camarada Thalheimer,
mediante a deformação da dialética materialista marxista-leninista,
já não te m nada a ver com a dialética materialista. Realm ente, em seu
esforço para compreender o método materialista de Marx e Lenin, o
Lenin E a I nt erna ci onal C omun i st a ♦ 167

camarada Thalheimer ultrapassou a fronteira do que se pode desig


nar como dialética materialista e desembocou num historicismo,
num positivismo e num praticismo totalmente adialéticos. Se Rosa
Luxemburg não se fez totalmente materialista em sua concepção de
prática hum ana, perm anecendo, neste aspecto, co mo já sugerim os,
um a dialética hegel iana , o cam arada Thalhei mer, em troca, expurgou
do m étod o d a ciê ncia marxist a, junt am en te com os restos da dial étic a
hegeliana, todo elemento dialético; e, com efeito, o método mate
rialista dialético de Marx, que é essencialmente a compreensão con
creta da revolução proletária como processo histórico e como ação
histórica da cl asse pr oletária, t ransfo rm a-se nas su as mãos nu m me ro
“refl exo” ideológico, pas sivo, de contingê ncias histórica s pa rticula res,

distintas
do m étodono materiali
espaço e sta
nodia
temlético
po. Esse falseamento
marxista-l eninistteórico
a conduzda, na
essênc ia
prá ti
ca, a um a desvalor ização de todos os resultados obtidos com este mé
tod o de investigação po r Marx, Eng els, Len in e outro s m arxistas. E é
fácil perce ber a fon te dessa tendê ncia à desvalori zação de tais re sulta
dos, bem com o a via a que ela conduz . A título de exem plo, tom em os a
afirma ção de Thalhe imer , repetid a cem vezes, segund o a qua l o Estado
soviét ico é apenas designado p or Lenin como um tipo de Estado, sus
cetível de gradações e variações. Ora, aqueles resultados do método
m arxis ta-len inista só pod em ser desvalori zados a tal po nto ao se pre 
tender, deliberada ou inconscientemente, desvincular-se deles. A con
cepção do Estado soviético tão-somente como um tipo, e nada mais,
da dita du ra proletá ria, com m últiplas variações poss ívei s, perm ite ao
teórico do “leninismo” desvincular-se das formas “rígidas” da dita
dur a dos c onselhos (que, segundo o verdadeiro Leni n designa apenas,
sem dúvida, o “começo”, suscetível de um desenvolvimento ulterior,
da form a socialist a de democracia, mas apenas o “começ o” !) na dire 
ção das várias “gradações, variações” e degeneraç ões similares e, entre
outra s, na direção do “gove rno dos trabalh ado res” à m oda saxônica. E
o mesmo se passa com todos os demais “resultados” da teoria mar
xista e leninis ta: se tod os não são mais do que “resultad os h istó rico s”,
ligados a suas premissas históricas concretas e aplicáveis somente às
condi ções d e um mo me nto e de um paí s deter minados, torna-se ób 
vio que, sob novas condições, em face de novas experiências e de
168 ♦ K a r l K orsch

necessid ades políticas transform adas, tod os os “resultad os” anteriores


do m arxismo perdem validez e pode m e deve m ser substit uídos, pelo
m anip ulad or “leninista” da dial ética material ista, p elos novos co nhe 
cim entos e pelas novas n orm as que “ref letem” a nova situação. Ass im,
pois, o ca marada Thalheim er, tra nsform ando o materialism o dialé
tico e revolucion ário de Marx e Le nin num a ciênc ia e nu m a prática
experim entais pura m ente hist óricas , que j á não são di aléti cas e, p or 
tanto, já não são revolucionárias (ou, inversamente, já não são revo
lucionárias e, portan to, não são dia léticas ), sob a máscara tenta dora
de “leninismo”, põe efetivamente no lugar do método revolucionário
do marxismo um método tendencial mente opo rtunista e refor mista.

4.

Ocupamo-nos da concepção do método leninista sustentada


por Thalh eim er com particular atenção não só porq ue o camarad a
Th alhe ime r figura com o o segundo expositor da questão do progra ma
no V Congresso M undia l e, po r conseqüência, a sua voz ser á sem d úv i
da ouvida tamb ém com particular atenção no ponto relat ivo à essên 
cia do leninismo como método ; mas também nos ocupamos dela po r
que nos interessa so bretud o m ostrar, de mod o extenso e claro , com o
auxílio de um exemplo típico, que a tentativa de uma determinação

dos “funMda
gresso me ntodas do
undial, essêleninism
ncia doo”
m e,étodo
especialmente, a fixação,
leninist a enfren no V C on
ta grandes di
ficul dades, atualm ente ainda quase i nsuperávei s - e que, ademais,
contém alguns perigos, tanto maiores quanto, precisamente neste
terre no pu ram ente teórico e tão afasta do da luta prática das f rações,
podem mais facilmen te passar inadvertidos. Sob a bandeira do “leni
nism o”, cara a todos nós, procura-se introdu zir hoje, sub-repticiam en-
te, na prática e na teoria do com unism o revolucionário, todas as es
pécies de contrabando revisionista, reform ista e op ortu nista .

formuladaE, em seu sent


agora pelo ido mais profun
camarada do, a teoria
Thalheimer do mapenas
significa étodo uma
leninista
teo ria fals a para u m a prátic a política f alsa. A form a com o se relaciona
na Alemanha a tática op ortu nista e ref orm ista da frente única, utili
zada desde o congresso do P artido em Leipzig, com o m éto do revolu-
L enin E a I nt erna ci onal C omun i st a ♦ M 9

cionário da agitação e da mobilização das massas é análoga à forma


como se relaciona o método “leninista” de Thalheimer e dos cama-
rada s que pensa m como ele com o verdadei ro m étodo do lenini smo
revolucionário, isto é, com o método dialético materialista, restau
rado e enriquecido por Lenin, do marxismo revolucionário. O V
Cong resso M und ial, s eja em relação a todas as demais questões d ire
tam en te práticas da política comu nista, seja em rel ação ao exame das
bases teóricas desta política, do program a e dos fundam ento s do leni
nism o, deve l evantar alguns mu ros de proteção em fac e da m aré as
cendente do revisionismo comunista. Com esta operação negativa,
poderá re verter com força a decadência im inente do m éto do da ciên
cia revolucionária marxista, restaurado e enriquecido por Lenin, e
que, em sua essênci a, não é mais do que a consciência teórica da ação
revoluc ionária da classe proletári a. Em troca, para um a fixa ção positi
va da essênc ia do leninismo como método, o m om ento atua l do desen
volvimento da Internacional Co mu nist a é tão pouco indicado como
o é para a fixação de um programa comunista definitivo, válido para
tod a um a época da polít ica comunista.
1924

Notas

' [O V Co ngresso M un dial reali zou-se em M oscou (c om o, al iás, tod os os


outros), em junho-julho de 1924, e justamente nele foram combatidas as
posiçõ es teóricas de Korsch. Recorde-se que o co ngresso co nstituía o fó rum
mais alto da Internacional Comunista, formalmente dirigida, entre um con
gresso e outro, pelo seu Comitê Executivo; construída para ser um “partido
mundial”, a Internacional Comunista via nos partidos comunistas as suas
“seções nacionais”.]
2 [Ma is adiante, Korsc h se referi rá a est a obra de Leni n com o O esquerdismo.
Há edição portuguesa em V. I. Lenin. Obras escolhidas em três tomos. Lisboa:
Avante!; Mo scou : P rog resso , 1979, v. 3 - ver, aí, à p. 333, a pas sag em logo
a seguir reproduzida por Korsch.]
3 Ver mai s detalhes pa rticularme nte na últ im a parte do artigo de Zin oviev , “V.
I. Lenin - Genie, Lehre r, Fíi hrer u nd Men sch” (“V. I. Lenin - gênio, m estre,
líder e homem”), publicado nos n. 31-32 de D ie kom m unisti sche In ter n a ti o
nale (A Internacional Comunista) e, no n. 33 (p. 320), o artigo especial de
Bela Kun, “Die Prop agan da des Leninism us” (“À propag and a do leninism o” ).
170 ♦ K arl Korsc h

4 Ver Klassenkãmpfe in Frankreich, ed. Dietz, p. 31 [ver K. Marx . As lutas de


classes na França (1848-1850). São Paulo: Global, 1986, p. 59],
5 [Kors ch se refer e aqui a um a carta de Marx, de novemb ro de 1877 , só pu bli
cada postumamente (1886) e de que não registramos versão em português.
Uma fonte acessível é K. Marx. Oeuvres. Paris: Gallimard, 1968, v. 2,
p. 1.55 2-1.555.]
6 [Ver, na ed. port. cit. de Obras escolhidas em três tomos, p. 279-280.]