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OPINIÃO

SEMANA SANTA ›

E se Cristo não tivesse ressuscitado?


A Páscoa é a celebração simbólica de que, na cadeia da
criação, cada morte é seguida por uma nova vida, que
ninguém morre em vão
JUAN ARIAS

14 ABR 2017 - 13:40 BRT

Homem carrega estátua de Jesus Cristo antes de procissão em El Salvador. JOSE


CABEZAS (REUTERS)

Todo ano, a Páscoa cristã apresenta à nova teologia o problema da


ressurreição física de Jesus. Este ano ainda mais, já que, depois de
vários séculos, 50 especialistas acabam de restaurar o Santo
Sepulcro de Jerusalém, onde, segundo a tradição, Jesus havia sido
sepultado. Alguns cristãos tremeram ante a possibilidade de que os
arqueólogos pudessem encontrar os restos mortais do crucificado,
o que abalaria a fé na ressurreição “em corpo e alma”.

O papa Francisco luta para recuperar as origens do cristianismo.


Não é fácil, pois ficaram sepultadas por séculos de teologia que
transformaram Cristo em um herói, em vez de um perdedor, que é o
que foi segundo os Evangelhos. O tema da ressurreição “em corpo e
alma” do profeta Jesus, que os cristãos celebram no dia da Páscoa,
foi defendida por Paulo de Tarso, o judeu convertido ao
cristianismo, ao afirmar que, se Cristo não tivesse ressuscitado,
seria vã a fé dos cristãos(1 Coríntios, 15:14). Vinte séculos depois, a
teologia moderna se nega a admitir a ressurreição corporal de
Cristo. A verdadeira ressurreição seria só o símbolo de que a vida é
mais forte que a morte; que nada morre para sempre; e que foi isso
o que Jesus ensinou aos discípulos antes de morrer. Continuaria
vivo na memória dos que o haviam amado. Assim disse aos
apóstolos ao se despedir na última ceia: “Fazei isto em memória de
mim.” Cada vez que os fiéis celebravam a Páscoa judaica ou cristã,
ele estaria ao seu lado.

Quando as mulheres anunciaram aos apóstolos


 MAIS INFORMAÇÕES
que tinham visto Jesus ressuscitado e a tumba
A morte de Jesus:
um fato sobre o qual vazia, o primeiro a não acreditar foi Pedro, que
não sabemos quase quis ir pessoalmente ao sepulcro para
nada
comprovar. Os poderes mundano e religioso
'Ainda não sabemos sempre precisaram de heróis para tecer as suas
quem nem por que
epopeias. Ninguém gosta dos perdedores. As
mataram Jesus', por pessoas se esquecem de que, tantas vezes na
Juan Arias
História, os considerados perdedores são os que
'Paixão e drama de sustentam a fé na humanidade. Todas as
uma ‘pecadora’', por
XICO SÁ
conquistas do ser humano através da ciência ou
da fé, ambas podendo fazer milagres, não
precisaram de heróis nem caudilhos. Foram
obtidas por meio do esforço das milhões de pessoas anônimas que
constroem o dia a dia, com seu pequeno tijolo de fé na existência e
no amor, o grande monumento à vida.

Os verdadeiros fiéis sabem que a história real de Jesus e do


primeiro grupo de apóstolos foi uma história de fracassos.
Crucificaram o Mestre sem provas, por ser revoltoso e antipoder,
com apenas 30 anos. Na cruz, antes de expirar, Jesus pronunciou
aquele verso amargo de incredulidade. “Deus meu, Deus meu, por
que me desamparaste?” (Mateus, 27:46). Um herói teria gritado ao
morrer: “Entrego-me para salvar a humanidade!” Não. Jesus se
sentiu abandonado e traído até mesmo por Deus.

O final dos seus apóstolos tampouco foi mais glorioso. De Pedro a


João, todos sofreram morte violenta. E os primeiros cristãos,
perseguidos e martirizados pelo poder romano, viveram refugiados
nas catacumbas. No entanto, aqueles perdedores acabaram se
transformando numa das maiores alavancas de fé da História.
 

A Páscoa é a celebração simbólica de que, na cadeia da criação,


cada morte é seguida por uma nova vida, que ninguém morre em
vão e que o mundo ressuscita a cada novo nascimento. A Páscoa,
escreveu o teólogo e poeta nicaraguense Ernesto Cardenal, num
poema em que se descrevia como perdedor, é a esperança
renovada de que “uma nova sociedade esteja para amanhecer.”

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