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UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE

CENTRO DE EDUCAÇÃO
CURSO DE PEDAGOGIA

AMANDA VITÓRIA BARBOSA ALVES

ASSOCIAÇÃO DE PROFESSORES DO RIO GRANDE DO NORTE: A ESCRITA DE


UMA HISTÓRIA (1920-1989)

NATAL
2016
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Amanda Vitória Barbosa Alves

Associação de Professores do Rio Grande do Norte: a escrita de uma história (1920-1989)

Artigo apresentado ao curso de Pedagogia da


Universidade Federal do Rio Grande do Norte,
como pré-requisito para a obtenção do título de
licenciada em Pedagogia.
Orientadora: Maria Arisnete Câmara de Morais.

NATAL
2016
3

Amanda Vitória Barbosa Alves

Associação de Professores do Rio Grande do Norte: a escrita de uma história (1920-1989)

Artigo apresentado ao Curso de Pedagogia do Centro de


Educação da Universidade Federal do Rio Grande do
Norte, como requisito para obtenção do título de
Pedagoga.

Aprovado em ____ de _____________ de 2016.

_________________________________________________
Orientadora Prof.ª Dr.ª Maria Arisnete Câmara de Morais

__________________________________________________
Examinadora Prof.ª Dr.ª Francinaide de Lima Silva

___________________________________________________
Examinadora Mª Janaína Silva de Morais

NATAL
2016
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AGRADECIMENTOS

Agradeço a Deus pela vida e pelo imensurável amor.

À minha Família em especial, a minha querida mãe, Verônica Barbosa, e meu pai, Bento
Roberto (In Memorian) pelo amor e grande ajuda nessa jornada.

À Professora Maria Arisnete Câmara de Morais, pela substancial orientação e oportunidade de


fazer parte do Grupo de Pesquisa História da Educação, Literatura e Gênero.

Ao CNPq pelo apoio financeiro, através da Bolsa de Iniciação Científica.

Aos Funcionários do Sindicato dos Trabalhadores em Educação Publica do Rio Grande do


Norte, pela receptividade e auxílio na busca das fontes.

À Alyson Fernandes, que de forma especial e carinhosa me deu força e coragem, apoiando-
me a seguir em frente.

Aos colegas do Grupo de Pesquisa pela força e ajuda na escrita desse trabalho.

À Catiane Ferreira e Fernanda Vicente, pelo apoio e a amizade durante os quatro anos de
graduação.
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Resumo

O presente trabalho objetiva conhecer a história da Associação de Professores do Rio Grande


do Norte/APRN durante os anos de 1920 a 1989, período de fundação e desativação dessa
entidade. Para realização desse, fizemos pesquisas nos acervos da Biblioteca Central Zila
Mamede/UFRN, Biblioteca Setorial do Centro de Ciências Sociais Aplicadas-CCSA/UFRN,
no Sindicato dos Trabalhadores em Educação Pública do Rio Grande do Norte/SINTE-RN e
no acervo do Grupo de Pesquisa História da Educação Literatura e Gênero, onde encontramos
fotos, livros, jornais, entre outros, relacionados ao objeto em questão. As fontes permitiram
refletir sobre os acontecimentos educacionais a partir de determinada realidade social
construída (CHATIER, 1990). Instalada em 04 de dezembro de 1920, a APRN, destinava-se a
combater ao analfabetismo no estado e defender a classe de professores. A instituição foi
dirigida por conselhos diretores, eleitos pelos sócios em assembleias gerais. Durante o período
estudado, a APRN foi dirigida por mais de vinte diretorias, sua desativação aconteceu em
1989, quando passou ser o Sindicato dos Trabalhadores em Educação. Destacamos que a
Associação de Professores teve papel preponderante na sociedade, uma vez que aglutinava
profissionais da educação num contexto de discussões em torno do ensino no RN.

Palavras-Chave: História da Educação do RN. Associação de Professores. Professores.


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1. Trajetória percorrida até chegar a Pesquisa

Sempre me interessei por estudar história. Desde o primeiro momento que ingressei no
Ensino Médio, estudar as personalidades, os fatos que fizeram parte da historiografia da
humanidade eram um dos robes da adolescência. No ano de 2012, quando me submeti ao
primeiro e único vestibular, uma grande dúvida surgiu diante de mim: prestar vestibular para
o curso de história, que era uma das grandes paixões ou o curso de pedagogia que foi indicado
pela maioria das mulheres da família? Por influência da minha família, fiz a decisão pela
segunda opção, o curso presencial de licenciatura em Pedagogia.
Ao ingressar no curso, deparei-me com um universo totalmente diferente do que
estava habituada na escola secundária: muitas disciplinas e estudos críticos sobre temas
relevantes, o que não era comum a escola em que estudei. Entre as disciplinas oferecidas, tive
a oportunidade de novamente estudar história, neste caso a história da educação, que me
deixou instigada para aprofundar os estudos a respeito das temáticas.
Ainda no primeiro semestre, fui informada da existência de algumas bolsas oferecidas
pela universidade, duas delas foram expostas com ênfase: a Bolsa de Iniciação a
Docência/PIBID e a Bolsa de Iniciação Científica/PIBIC. Pouco tempo depois, participei do
processo seletivo para alunos que estivessem interessados na Bolsa de Iniciação a Docência,
como parecia uma boa oportunidade de ter experiência com uma das áreas da pedagogia, a
docência, me submeti ao exame seletivo, mas o resultado não foi o esperado, não consegui ser
selecionada, porém isso não me deixou fraquejar. Alguns meses depois, surgiu uma nova
oportunidade de bolsa, esta segunda era a PIBIC, estava relacionada à história da educação e a
literatura, assuntos que muito me interessavam, e era coordenada pela professora Maria
Arisnete Câmara de Morais, a quem era conhecida como uma competente pesquisadora.
Como já tinha ouvido falar desta bolsa, logo me apresentei como candidata à vaga.
Após participar da seleção, recebi a notícia que fui selecionada, iniciei como voluntária e após
alguns meses me tornei bolsista efetiva. Sob orientação da Professora Maria Arisnete Câmara
de Morais, coordenadora do Grupo de Pesquisa História da Educação Literatura e Gênero,
desenvolvo uma pesquisa a respeito da Associação de Professores do Rio Grande do Norte.
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2. Palavras Iniciais

O trabalho é vinculado ao Projeto História da Leitura e da Escrita no Rio Grande do


Norte (1910-1980)/Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq),
desenvolvido no Grupo de Pesquisa História da Educação, Literatura e Gênero da
Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Esse projeto tem por objetivo contribuir para a
historiografia no Brasil e de maneira especial no Rio Grande do Norte, analisando as variadas
formas de apropriação da leitura e da escrita nas instituições educativas do RN.
Destacamos que o referido Grupo de Pesquisa foi pioneiro no desenvolvimento de
pesquisas a respeito da história de instituições escolares, instituições que formavam
professores e a atuação dos próprios professores norte rio-grandenses, entre outros, a exemplo
de Francinaide de Lima Silva (2013) que escreve sobre a história da Escola Normal de Natal
e Janaína Silva de Morais (2013) que constrói um trabalho a respeito do Grupo Escolar João
Tibúrcio e o professor José Saturnino.
Entre essas instituições educativas do estado, também destacamos a Associação de
Professores do Rio Grande do Norte/APRN, órgão que aglutinava profissionais da educação e
que foi considerado uma das agremiações de professores mais antigas do país
(CAVALCANTE, 1999). Para esse estudo objetivamos conhecer a história dessa instituição,
concentrando-nos na forma como estava organizada administrativamente e pedagogicamente,
os professores que a lideravam, suas trajetórias e como se deu a sua desativação.
Focaremos nos anos de 1920-1989, que respectivamente, refere-se à criação e
desativação dessa instituição. A sede estava situada no bairro da Cidade Alta na Avenida Rio
Branco, no município de Natal, Rio Grande do Norte, que até os dias presentes continua no
mesmo endereço, mas com o Sindicato dos trabalhadores em Educação Pública do Rio
Grande do Norte/SINTE-RN. No período que pretendemos estudar, estão presentes as
possíveis diretorias, as instituições desenvolvidas e mantidas pela APRN, até a sua
desativação em 1989.
Para a realização do trabalho, fizemos pesquisas nos acervos do Sindicato dos
Trabalhadores em Educação Pública do Rio Grande do Norte/ SINTE-RN, no acervo da
Biblioteca Central Zila Mamede da Universidade Federal do Rio Grande do Norte/BCZM-
UFRN, na Biblioteca Setorial do Centro de Ciências Sociais Aplicadas /CCSA da UFRN e no
acervo do Grupo de Pesquisa História da Educação Literatura e Gênero. Nesses acervos
encontramos livros sobre a história da APRN; estatutos; jornais com manchetes a respeito de
eventos realizados pela instituição; a revista Pedagogium, órgão que divulgava as práticas da
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entidade estudada; algumas Leis, fotos dos ex-diretores, livros ilustrados a respeito de
movimentos sindicais de professores, lista de formandos das turmas da Escola Normal de
Natal e dissertações referentes à instituição estudada ou sobre assuntos relacionados a ela.
O diálogo com as fontes históricas e o confrontamento nos permitiram a configuração
da época e o processo de formação da sociedade naquele contexto histórico. Também nos
revelou modos de convivência ou imposições de grupos nos espaços partilhados,
considerando que, através desses modos e imposições configuram-se novas formas de
comportamento e condutas sociais (ELIAS, 1994). Por mais que compreendemos “que
nenhum texto mesmo o mais objetivo mantém uma relação transparente com a realidade que
pretende configurar” (CHARTIER, 1990, p. 24).
Além disso, nem sempre dada realidade é revelada como realmente é, ela se mostra na
perspectiva que os sujeitos às forjam. As representações do mundo social assim
construídas embora aspirem a universalidade de um diagnostico fundado na
razão são sempre determinadas pelos interesses de grupo que as forjam. Dai
para cada caso, o necessário relacionamento dos discursos proferidos com
posição de quem os utiliza. (CHARTIER, 1990, p. 17)

São modos de fazer pesquisa que me conduzem a Ginzburg (1989) e ao seu saber
indiciário, entre mitos, emblemas e sinais; embora se saiba que o estado fragmentário em que
se encontram os documentos, as lacunas dificultam o trabalho de pesquisa, cuja força está no
detalhe que muito revela.
Através do estudo do passado está à compreensão dos problemas peculiares ao nosso
tempo. No passado encontra-se a chave para se compreender a contemporaneidade, nesse caso
a compreendermos um pouco do surgimento da classe de professores no estado do Rio
Grande do Norte, e como isso relaciona-se com a concepção que a sociedade concebe desse
grupo no presente.
A sensibilidade para o gênero é particularmente importante no estudo do passado.
Adverte Barman (2005). As pessoas e os grupos desse passado falam ao presente com suas
próprias vozes. O estudo acerca de professoras que contribuíram para a formação de nossa
sociedade letrada permite o acesso aos modos de pensar desse tempo.

3. Criação da Associação dos Professores do Rio Grande do Norte/APRN

Com a reabertura da Escola Normal de Natal pelo Decreto n. 178, de 29 de abril de


1908, e por algumas leis que regulamentavam a profissão docente, o magistério começava a
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ganhar apoio e força do poder público para seguir em frente. Como nos apresenta Morais e
Silva (2009). As reformas de ensino e a criação dos Grupos Escolares oriundos dos moldes
republicanos, permitiram aos recém normalistas, a prática sistematizada dos conhecimentos
pedagógicos nos Grupos Escolares.
Por meio das oportunidades que emergiram no contexto educacional da época (1908-
1920), houve um aumento do número de professores no estado. Conforme Morais e Silva
(2009) enquanto, nas primeiras instalações da Escola Normal de Natal (1873-1901) até cinco
alunos se formaram, tornando-se professores, a partir de 1908 (inicio da periodização mais
duradoura da Escola Normal), dezenas de normalistas se formaram, aumentando,
consequentemente, o número de professores em campo.
Com o aumento desses profissionais, houve a necessidade de congrega-los para a
defesa da classe e do ensino. E em 4 de dezembro de 1920 é criada a Associação dos
Professores do Rio Grande do Norte/APRN. Vale ressaltar que essa data foi escolhida para ser
a inauguração, por ser a mesma que há dez anos prestigiou a formatura da primeira turma
(com mais de vinte alunos) da Escola Normal de Natal (1910).
Em meio aos discursos que costumam ocorrer em ocasiões como essas, um
dos convidados a se pronunciar foi o professor Nestor dos Santos Lima. Na
sua fala, lembrou que precisamente dez anos antes ocorria, nesse mesmo
local, a cerimonia de diplomação da primeira turma de professores do Estado
(27, ao todo) formados pela Escola Normal de Natal, ração pela qual essa
data foi escolhida para fundação da entidade. (CAVALCANTE, 1999, p.2)

Sua instalação ocorreu no salão nobre do Palácio do governo em uma sessão solene e
bastante pomposa, com a presença de várias autoridades educacionais e políticas a exemplo
do governador do estado, no período de fundação da instituição.
O salão nobre, deslumbrante de luz, a assistência numerosa, onde figuravam
os mais elevados representantes do ensino e pessoas do maior destaque na
sociedade, davam á festa um tom de espiritualidade que se acentuou ainda
mais no decorrer da sessão. (DUARTE, 1985, p. 17)

A partir de Duarte (1985) constatamos que no período de fundação, Antônio de


Souza era governador do estado. No momento de inauguração ele assumiu a direção da
reunião, convidou Manuel Dantas, Diretor da Instrução Pública e o Professor Nestor Lima,
então Diretor da Escola Normal de Natal-RN, para estarem na mesa diretora. Após a
declaração de instalação da Associação de Professores do Rio Grande do Norte, foi composta
uma comissão pelos professores Anfilóquio Câmara, Luís Antônio, Luiz Soares, Júlia Alves
Barbosa, para a feitura do projeto de estatutos.
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Foi acordado que a Associação de Professores do RN seria dirigida por um Conselho


Diretor composto por um presidente, dois secretários, um orador, um tesoureiro e um
bibliotecário, “todos eleitos em Assembleia Geral, que duraria por um ano, com direito a
reeleição, no todo ou em parte” (DUARTE, 1985, p. 24). Por isso é comum encontrarmos em
algumas das diretorias a reeleição ou a permanência pela alternância de cargo.
A entidade tinha por primeiro objetivo criar escolas e defender o ensino público,
gratuito, leigo, misto relacionado à vida e ao trabalho. Desta maneira, os professores
acreditavam contribuir para formação da nacionalidade brasileira e para construção de uma
nova sociedade. Conforme aponta Cavalcante (1999. p. 3) “Esse programa abrangeria todo o
estado, embora com maior concentração na capital.” O segundo objetivo era defender os
interesses da categoria. Como nos apresenta Cavalcante.
A tentativa de mobilizar a sociedade e os governantes para maior
efetividade desse movimento educacional; a atuação, tendo em vista o
exercício da profissão docente em outros estados do país; por último, a
assistência financeira a ser prestada aos professores e seus familiares,
através de Caixas de auxílio mútuo. (CAVALCANTE, 1999, p. 3)

Imagem 1. Fachada da APRN.


Fonte: (DUARTE, 1985) - acervo do Grupo de Pesquisa.

A APRN foi instalada, a partir de 1942, na Avenida Rio Branco no bairro da Cidade
Alta, em Natal, Rio Grande do Norte, antes a entidade existia no mesmo prédio do Grupo
Escolar Antônio de Souza. Esse bairro, juntamente com o bairro da Ribeira, foi um dos
primeiros da capital, nele estava situado escolas, comércios e as indústrias. Vale ressaltar que
o prédio ainda existe e sofreu pequenas alterações.
Durante o período estudado, mais de vinte diretorias estiveram à frente da instituição,
infelizmente, em algumas delas não conseguimos informações míninas como por exemplo, a
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identificação dos professores que a lideraram, mesmo assim, pretendemos nesse trabalho
destacar os professores que estavam à frente da entidade por meio dos conselhos diretores, os
quais de certa maneira, mobilizaram algumas questões acerca da educação no RN.
Os Conselhos Diretores ou Diretorias, eram eleitos em Assembleia Geral, de acordo
com as normas do estatuto da entidade. Conforme informações de Cavalcante (1999), a
APRN era constituída pela sociedade civil, de adesão voluntária, apartidária, reuniu
professores e outros interessados em defender a questão educacional. Esses sujeitos ao se
tornarem membros dessa sociedade, ocupavam uma das seguintes categorias de sócios, sob
critérios os quais se encontrassem no momento, como mostra a Tabela 1 de acordo com
Cavalcante (1999, p.09).

Tabela 1. Quadro de Sócios da APRN.


Professores primários diplomados pela Escola Normal do
FUNDADORES Estado, de 1910 a 1920;

Categoria onde estava incluído todo e qualquer professor da


EFETIVOS rede pública ou privada do Estado;

Pessoas que fizessem à Associação donativos iguais ou


BENFEITORES superiores a duzentos mil réis;

Pessoas que prestassem importantes serviços à entidade ou à


BENEMÉRITOS causa educacional;

Professores que residissem em outros estados e desejassem


CORRESPONDENTES fazer parte dessa sociedade;

Pessoas que tivessem prestado serviços relevantes às letras, às


HONORÁRIOS artes, à categoria dos professores ou à educação.
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Podemos observar que os sócios benfeitores, beneméritos e honorários poderiam ser


pessoas de outras áreas profissionais. Como aponta Duarte (1985, p. 24) “os sócios
benfeitores, beneméritos e honorários podem ser pessoas estranhas ao magistério, contanto
que sejam conceituadas e tenham posição social”. Para eles se tornarem membros da
Associação de Professores, deveriam ser aceitos pela Assembleia Geral.
Para serem eleitos nos cargos da instituição, os sócios deveriam ser sócios fundadores
ou efetivos, esses poderiam votar e serem votados em ocasião. Além dos presidentes eleitos
em Assembleia Geral, a APRN, tinha uma Presidência de Honra, como destaca Cavalcante:
A APRN tinha também uma Presidência de Honra, composta de um
presidente, o governador do estado; e três vice-presidentes: o Diretor Geral
da Instrução Pública e os diretores da Escola Normal de Natal e do Atheneu
Norte rio-grandese, principais instituições de ensino (nível médio) existentes
no estado, naquele momento. (CAVALCANTE, 1999, p. 10)

Além disso, pudemos compreender que os sócios da APRN defendiam o ideário da


Escola Nova. Esse ideário expressava críticas ao modelo tradicional de ensino, e, “em sua
dimensão metodológica, se desenvolveu de modo a privilegiar a obtenção de conhecimento,
através do processo de pesquisa, ao invés da transmissão de conhecimentos já obtidos.”
(SAVIANI, 1984, p. 50). Também constatamos que na Associação eram proibidas discussões
religiosas e políticas, pois pretendia debater somente assuntos relacionados aos seus objetivos:
o ensino e as causas docentes.

4. As diretorias da APRN

Até por volta dos anos de 1970, a docência era vista como um sacerdócio e não como
profissão (LOPES JUNIOR, 1992). Os próprios professores consideravam seu trabalho como
o de um missionário, seu propósito era o ensino, o resgate, através da educação, das novas
gerações. Isso é observável nos discursos dos professores, a exemplo do professor Oscar
Wanderley, orador da APRN, na década de 1920, no discurso de inauguração do Grupo
Escolar Antônio de Souza.
A missão do mestre, ou antes, a vossa missão, não é simplesmente exibir o
verbalismo dos conhecimentos que trouxestes da sequencia do vosso curso
normal; é, sobre tudo, formar espíritos, criar aptidões, despertar atividades;
em síntese, induzir a criança ao ensino, com o mesmo carinho, o mesmo
cuidado e o mesmo devotamento com que o floricultor amanhã o terreno de
onde, aos beijos orvalhados da manhã, abrem-se a vida deliciosa dos
perfumes os jasmins e as rosas, tão belos, tão cândidos, tão inocentes como
essas rosas e esses jasmins que aí tendes no augusto ceio desta escola
augusta. (...) Velai-lhes a brancura da pureza d’alma e sêde, para a honra do
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vosso sacerdócio, os afetivos jardineiros dessas flores humanas.


(CAVALCANTE, 1999, p. 47)

O fato de serem vistos como sacerdotes do magistério, exigia dos professores regras e
um comportamento que estivesse além do ato de ensinar. Os educadores deveriam ser
exemplos de bons padrões morais, comportamentos irrepreensíveis para que sua imagem
fosse referência de seriedade e comprometimento. Além disso, o professor deveria ter
dedicação exclusiva a sua “profissão”, o que nos remete mais uma vez a noção de docência
como sacerdócio ou missão, como nos revela o Capitulo II, artigo 39 paragrafo I, II, e III a
respeito os Princípios Básicos do Magistério.

Imagem 2 - Princípios Básicos ao Magistério.


Fonte: acervo do SINTE/RN.

As mulheres, nesse contexto das primeiras décadas do século XX, eram influenciadas
pelas ideias do celibato pedagógico, que defendia o magistério como ato de dedicação mais
que sacerdotal, deveriam escolher o trabalho ou a formação de uma família. Segundo
informações de Ribeiro (2003), os republicanos com o intuito de modernizar a sociedade por
meio da educação, através dos ideais filosóficos e sociais do positivismo, viam na mulher um
elemento chave para a disseminação de seus princípios no âmbito escolar. O magistério para
as mulheres, em especial, deveria ser admitido como uma missão, onde a questão salarial não
deveria ser central. Sua natureza materna seria uma base de sustentação do lar e a educadora
bondosa das gerações futuras.
Esses docentes, do período estudado, eram diplomados pela Escola Normal, muitos
deles faziam parte da APRN, e desenvolviam suas atividades, consideradas “resgatadoras”,
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em Grupos Escolares, Escolas Rudimentares, Jardins de Infância, entre outras instituições de


ensino. Além do quadro permanente de professores (diplomados pela Escola Normal,
nomeados pelo Diretor Geral da Instrução Pública/DGIP), podiam atuar nessas instituições, a
exemplo das Escolas Rudimentares, “estudantes normalistas a partir de dois anos de curso;
pessoas com curso complementar ou elementar completo ou aqueles que estivessem fazendo
estágio de um a três meses em um grupo escolar designado pela DGIP” (CAVALCANTE,
1999, p. 14).
Com o aumento do número de professores no estado a partir da década de 1910, alguns
deles a exemplo de Anfilóquio Câmara, Francisco Ivo Cavalcante, Luiz Soares, Julia Alves
Barbosa e Oscar Wanderley, iniciaram a liderança do movimento de professores nos seus
primeiros anos de existência.
E em 1920, após a instalação da APRN, fora aclamada a primeira diretoria, que por sua
vez estendeu-se até o ano de 1933. Essa diretoria foi presidida pelo professor Anfilóquio
Câmara, no qual o Vice- Presidente era o professor Gonzaga Galvão, primeira secretária a
professora Júlia Alves Barbosa, Orador o professor Luís Soares, tesoureiro o professor
Francisco Ivo, bibliotecário professor Braz Caldas.

Imagem 3. Professor Anfilóquio Câmara, diretor no ano de


1920-1933.
Fonte: (RIBEIRO, 2003) - acervo do CCSA.

Como apresenta Duarte (1985) e Cavalcante (1999), o professor Anfilóquio Câmara,


foi o primeiro diretor da APRN. Nascido em Natal-RN, estudou no Colégio Atheneu Norte
rio-grandense; formou-se pela Escola Normal de Natal, na turma de primeiros concluintes, em
1910. Tornou-se bacharel em Ciências jurídicas e sociais, em 1921, pela Faculdade de Direito
de Recife. Dirigiu alguns jornais da cidade, a exemplo do jornal A República. Foi Diretor
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Geral de Estatística do estado, em 1927, no ano posterior, Inspetor Federal do Ensino. Nos
anos de 1933 a 1935, foi Diretor Geral da Instrução Publica, ainda publicou quatro livros:
Cenários Norte rio-grandenses, Cenários Municipais, Povoados do Rio Grande do Norte e
Populações Rurais. Em 1945 ele se aposenta no cargo de Diretor Geral do Departamento
Estadual de Estatística.
Ao observarmos a biografia desse e outros professores que participaram da fundação
da APRN, percebemos que a maioria estudou no Colégio Atheneu Norte rio-grandense e na
Escola Normal de Natal, nessas instituições, os sujeitos tinham contato com as ideias do
pensamento cientifico positivista e liberal. De maneira geral, esses locais eram frequentados
pela elite da cidade, o que nos possibilita entender que, de certa maneira, os professores que
iniciaram o movimento, tinham influencia para a mobilização da causa que defendiam,
contaram com o apoio da população elitista local. Além disso, os políticos da cidade,
especialmente nos primeiros anos da APRN, tinham relações intrínsecas com os docentes que
lideravam a Associação (CAVALCANTE, 1999; SANTOS, 2008), por mais que essa se
declarasse apartidária.
O primeiro Estatuto da Associação dos professores foi criado juntamente com
formação da primeira diretoria. Foi posto em discussão cada capítulo, depois de prolongada
observação, foi aprovado o Estatuto da Associação dos Professores do Rio Grande do Norte.
Esse Estatuto esclarecia qual era o objeto da instituição, que por sua vez, consistia na
propaganda do ensino leigo e o combate ao analfabetismo, à defesa e o elevamento da classe
dos professores. As ações que a entidade deveria realizar para manter seus fins, no qual
consistia:
Pela criação de um órgão de publicidade e feição pedagógica, pela
organização de uma biblioteca escolar, pelo auxílio moral e material, quais
necessários aos seus associados, pela instituição de festas cívicas e
conferencias sobre o ensino, pelo auxílio recíproco e os esclarecimentos que
todos os sócios são obrigados a prestar uns aos outros, pela sua interferência
perante as autoridades e aos estabelecimentos de ensino no sentido de
melhorar as condições do mesmo e a execução dos programas escolares, pela
fundação de escolas e cooperativas, pela convocação de congressos
pedagógicos, nos quais sejam apresentados e discutidos teses e questões
técnicas relativas ao ensino em geral, pela criação de uma caixa de auxílio
mútuo e pela beneficência do ensino e do professorado (DUARTE, 1985, p.
23).

Sob a liderança do professor Amphilóquio Câmara e demais associados, é criado o


primeiro grupo escolar da APRN, o Grupo Escolar Antônio de Souza. Estava situado em
Natal, no bairro de Cidade Alta, na Rua Jundiaí. De acordo com relatos de Lima (1923), a
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criação desse Grupo Escolar foi bem aceita por toda população do bairro, inclusive por
pessoas de destaque da cidade.
A iniciativa da fundação de um grupo escolar na Cidade Alta, para ser
denominado de “Antônio de Souza”, encontrou a mais lisonjeira acolhida
por parte das municipalidades e dos cavaleiros de mais destaque em nossa
vida social. (LIMA, 1923, p.46)

Para construção dessa instituição, uma comissão de sócios da Associação de


Professores, obteve, do engenheiro Décio Fonseca a planta, o projeto e o orçamento do novo
prédio, que fora construído sob direção desse mesmo engenheiro. Como descreve Lima (1923,
p.46) o trabalho regido por um engenheiro é o mesmo que “dizer que nada lhe faltará em bom
gosto, higiene, arquitetura e solidez necessárias a um estabelecimento desta natureza”
Ele era mantido pela a Associação, e auxílios financeiros de terceiros, entre eles
políticos, intendências do interior do estado e professores, como mostram as imagens 4 e 5 , a
respeito dos contribuintes e valores de contribuições para as obras do grupo escolar.

Imagem 4

Imagens 4 e 5. Lista de contribuintes do Grupo Escolar Antônio de


Souza.
Fonte: SINTE-RN
Fonte. Acervo do SINTE-RN.
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O Grupo Escolar recebeu este nome em homenagem ao governador do estado do Rio


Grande do Norte do período em questão, Antônio de Souza. Conforme apresenta Cavalcante
(1999), nele eram oferecidos os cursos infantil e Elementar, e posteriormente, o Curso
Complementar.
Vale ressaltar que, muitos professores, eram favoráveis a uma “educação integral”,
propagada pela Escola Nova. Nessa perspectiva, além de Português, Frances, Aritmética,
História do Brasil, Geometria e Geografia, cursos de trabalhos domésticos para as meninas, a
grade disciplinar, dessa instituição, também contava com Educação Física e Instrução Cívica,
pensado em formar trabalhadores saudáveis, cientes de seus deveres cívicos para a construção
do país.
Outro feito da APRN diz respeito à primeira edição da revista Pedagogium, no de ano
1921, no mês de julho, sob a direção de Nestor Lima, então diretor da Escola Normal de
Natal, e Julia Alves Barbosa como secretária de redação.

Imagem 6. Capa da primeira edição da revista Pedagogium


Fonte. Dissertação de Marlene Ribeiro - acervo do CCSA.

A revista fora formulada com o intuito de divulgar a cultura da Associação dos


Professores do Rio Grande do Norte (DUARTE, 1985), além de ser uma estratégia para
disseminar as ideias pedagógicas dos docentes, como apresenta Ribeiro (2003, p.37) “a
Pedagogium uma revista que, de fato, vem pôr em público o pensamento dos educadores,
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instruindo com suas colaborações e indicando os melhores métodos a serem cultivados nos
meios educativos.” Ela também apresentava modos de fazer para as práticas docentes.
As produções da revista Pedagogium exercem, entre outros aspectos
formativos, a função de orientar o trabalho docente a fim de transmitir os
melhores modos de conduzir o ensino. Este é realizado através de Lições
práticas de conteúdos das diversas disciplinas dos programas escolares,
como: as Lições de Geografia, que compreendem as aulas de geografia
ministradas pelo professor Francisco Ivo Filho, na Escola Normal em que ele
é professor; as Lições de Idioma sob a responsabilidade do professor Israel
Nazareno; a professora Julia Alves Barbosa, enquanto titular da Cadeira de
matemática da Escola Normal de Natal, trata da questão histórica sobre o
Sistema Métrico Decimal. Diante desse universo de informações e
possibilidades de formação da categoria docente, a Revista cumpre, assim, o
programa de contribuir com a formação profissional docente, bem como de
informar com objetivo de enriquecer o magistério e o ensino. (RIBEIRO,
2003, p. 38)

Também destacamos que existiram algumas fases da Pedagogium, a primeira de 1921


a 1927, foi dirigida pelos professores Amphilóquio Câmara, Luiz Soares e Francisco Veras, a
segunda de 1940, dirigida novamente por Luiz Soares, Joaquim Coutinho assume de 1950 a
1953, segundo Ribeiro (2003), que escreveu um trabalho de dissertação sobre a Revista
Pedagoguim, esse último, vem ser o ano do derradeiro exemplar da referida revista,
encontrado.
Além dessas realizações, Em 1925, a diretoria da APRN criou uma Escola Rudimentar
em Genipabu, no período, ainda era um povoado. Para a direção dessa instituição foi
nomeada a professora Nicaulis do Carmo e Silva. Neste mesmo ano foi criada, outra Escola
Rudimentar no lugarejo de Coqueiros, no município de Ceara Mirim, para essa foi designada
a professora Esther Câmara dos Santos.
As Escolas Rudimentares podiam ser fixas ou ambulantes e funcionar à noite com o
intuito de atender um público com idade mínima de 10 anos. O curso tinha duração de dois
anos, e o programa contava com as quatro operações matemáticas, algarismos romanos, as
medidas, noções de geografia, de História do Brasil e de ciências naturais, além disso, o aluno
poderia aprender a ler e escrever. Esse curso, equivalia ao infantil dos Grupos Escolares. Em
um artigo escrito para a revista Pedagoium, Severino Bezerra relata a necessidade dessas
escolas para o combate ao analfabetismo no interior do estado.
As Escolas Rudimentares criadas pela ultima Lei de Ensino e ensaiadas
agora pela benemérita administração Antônio de Souza, que vem procurando
encarar com visão patriótica a verdadeira face dos problemas sociais, têm, a
meu vêr, precípuo e elevado alcance. Por que não é somente as populações
localizadas nas cidades que os governos devem levar a instrução. É
justamente para esses núcleos populosos, afastados das sedes dos
19

municípios, onde vive considerável número de pessoas, a braços com


dificuldades de toda ordem, que o governo precisa olhar com carinho,
cuidando da instrução desses humildes patrícios, cujas aptidões, falta de
quem lhes ministre os primeiros rudimentos do ensino. (BEZERRA, 1921, p.
36)

Em 28 de março de 1928, a Associação criou a Escola Agrícola Juvenal Lamartine, ela


era anexa ao prédio do Grupo Escolar Antônio de Souza. Essa instituição oferecia curso
técnico o que era valorizado pelos discentes do período estudado, pois acreditavam que o
ensino técnico aliado ao convencional, permitiria o desenvolvimento econômico do estado e
do país. Segundo informações de Cavalcante (1999), tal valorização se explica considerando
que a proposta de construção da nacionalidade, apregoada naquele período, consistia também
na formação profissional especializada, por meio da educação.
Em meados de maio de 1930, a APRN criou outra instituição escolar, o Jardim de
Infância Aurea Barros. O nome do referido, era uma homenagem a uma das professoras que
atuou no primeiro grupo escolar da capital, Augusto Severo. O prédio onde funcionava a
instituição estava situado na Avenida Afonso Pena, em Natal, o que mais tarde funcionaria a
Casa do Professor. As aulas eram ministradas ao ar livre, em lugares floridos e arejados,
conforme Cavalcante (1999). Os métodos de ensino nessa instituição valorizavam as
iniciativas dos alunos, estimulavam autonomia no cuidar da própria higiene, e organização do
ambiente de aula.
A segunda diretoria foi formada em dezembro de 1932, mas só se efetivou a partir de
1933. Essa, inicialmente, era presidida pelo professor Anfilóquio Câmara, mas em setembro
de 1933 ele foi substituído por seu vice-presidente, o professor Luís Antônio Souto dos
Santos Lima, isso se deu porque Anfilóquio Câmara assumiu a direção do Departamento de
Educação do estado do Rio Grande do Norte. Desta maneira, o conselho diretor ficou
organizado da seguinte forma: no cargo de presidente o professor Luís Antônio; secretário o
professor Luís Soares, que fora um dos que participaram da primeira diretoria; tesoureiro
Dorvalina Emereciano; orador Manuel de Albuquerque e bibliotecária Olga Barbosa.
20

Imagem 7. Professor Luís Antônio, diretor


no ano de 19933-1936.
Fonte: SINTE-RN

O referido professor Luís Antônio era natural do município de Açu-RN, ele foi um dos
fundadores da APRN, professor e diretor da Escola Normal de Natal, professor do Atheneu
Norte Rio-grandense; diretor do departamento de Educação, professor e diretor da faculdade
de Medicina, também foi um dos fundadores do ABC Futebol Clube. Conforme palavras de
Duarte (1985, p.52) “Homem de pequena estatura, maneiras simples, de riso acolhedor,
destacou-se, sobretudo, como professor e médico”.
Ainda em 1933, sob a direção do referido professor, a Associação dos Professores teve
a primeira Reforma Estatuária, porém tudo o que foi feito pela primeira diretoria continuou.
Essa diretoria esteve à frente a instituição durante três anos.
No final de 1935 foi eleita à terceira diretoria, (assumida efetivamente em 1936)
presidida pelo professor Antônio Gomes da Rocha Fagundes, tinha por vice-presidente o
professor Manuel Varela de Albuquerque, tesoureiro a professora Alba Brandão, orador o
professor Clementino Câmara, secretário o professor Luís Correia Soares de Araújo (que
continuara no cargo) e bibliotecário a professora Beatriz Lima.
21

Imagem 8. Professor Antônio Fagundes,


diretor no de 1936-1939.
Fonte: SINTE-RN

O referido professor Antônio Fagundes nasceu em Canguaretama, cursou o primário


no colégio Santo Antônio, estudou na Escola de Artificie e formou-se pela Escola Normal, na
turma de 1915. Ele foi autor de algumas obras a exemplo de: Os Símbolos Nacionais; Leituras
Potiguares; Noções da Historia e Geografia de Açu; Educação e Ensino; O Cruzeiro; Noções
da História e Geografia do Rio Grande do Norte e Noções de Moral e Civismo (DUARTE,
1985). Sob sua direção, e demais sócios, criou-se a Revista do Ensino da APRN, essa
destinou-se a tratar de assuntos pedagógicos e do ensino em geral. No período de criação da
Revista do Ensino, a Pedagogium estava desativada.
Ainda em 1937 foi eleita a quarta diretoria da Associação de professores para
dirigirem nos anos de 1938 a 1939. O professor Antônio Gomes da Rocha Fagundes
continuou na presidência da entidade, os cargos que receberam novos professores foram o de
tesoureiro que seria Honório Farias e o cargo de bibliotecário, no qual estaria o professor
Clidenor de Farias.
No inicio de 1939, o presidente da Associação dos Professores juntamente com seu
vice-presidente, assumiram a direção do departamento de educação do estado e por isso
deram lugar ao professor Joaquim de Farias Coutinho e José Saturnino, como presidente e
vice-presidente respectivamente (DUARTE, 1985), que continuaram até o ano de 1941,
formando assim a quinta diretoria. No período em que estiveram a frente dessa diretoria,
retornou a revista Pedagogium em 1940, em sua segunda fase de funcionamento, que como na
fase anterior tinha o proposito de instruir e nortear as mentalidades, proporcionando a
pesquisa para o enriquecimento do magistério e ensino (FRANÇA apoud RIBEIRO, 2003).
22

Após esse período a revista Pedagogium foi desativada e só voltou a circular em 1948, em sua
terceira fase.

Imagem 9. Capa da segunda fase da Revista Pedagogium.


Fonte: Dissertação de Marlene Ribeiro – acervo do CCSA.

O professor Joaquim de Farias Coutinho era natural de Guarabira na Paraiba, estudou


na Escola Normal de Natal, foi professor em vários estabelecimentos de Natal e Caicó
desempenhou alguns cargos na secretaria do estado do RN. O referido professor também foi
um dos responsáveis pela criação da Faculdade de Filosofia, Segundo Duarte (1985, p.98) “o
professor Coutinho, indiscutivelmente quem teve o mais vivo desejo de ver funcionando a
faculdade de Filosofia da APRN. Foi o principal baluarte da citada Faculdade [...]”
23

Imagem 10. Professor Joaquim de Farias Coutinho,


diretor no ano de 1940-1941.
Fonte: SINTE-RN

O período de 1942 a 1945, não são encontrados documentos que retratem os


professores que compraram a diretoria desse período, sabe-se apenas que, o professor Alfredo
Lyra era presidente da Associação dos Professores. Em 1942 foi comprado o prédio sede da
instituição, que está situado no bairro de Cidade Alta na Avenida Rio Branco. Essa compra foi
considerada uma das mais importantes aquisições da APRN, considerando que até os dias
presentes abriga o movimento dos professores que tivera inicio em 1920. Vale ressaltar que o
local é um ponto estratégico, no centro da cidade de Natal, em uma das avenidas com maior
fluxo de pessoas da cidade.

Imagem 11. Professor Alfredo Lyra,


diretor no ano de 1942-1945.
Fonte: SINTE-RN
24

O referido diretor, professor Alfredo Lyra fora médico e professor, nasceu em 1891,
na cidade de Mamanguape, no estado da Paraíba, estudou em Mossoró/RN e depois foi
transferido para Natal , onde foi professor da Escola Normal.
Infelizmente em algumas diretorias como essa, foram poucas as informações
recolhidas nos acervos, considerando que em alguns os escritos se perderam com o desgaste
do tempo ou por ausência das informações a respeito de determinados aspectos ou indivíduos.
Após o período de guerra, foi eleita pelo conselho a sétima diretoria, que dirigiu a
entidade de 1946 a 1951 e foi distribuída da seguinte forma: o presidente o professor Luís
Correia Soares de Araújo, o vice-presidente o professor Francisco Ivo, o tesoureiro Acrísio de
Meneses Freire, o secretário o professor Mário Tavares de Oliveira Cavalcante, orador o
professor Clementino Câmara e o bibliotecário o professor Raimundo Soares.

Imagem12. Professor Luiz Soares Correia de Araújo,


diretor no ano de 1946-1951.
Fonte: (PINTO, 2015) - acervo do Grupo de Pesquisa.

O professor Luiz Soares, como era conhecido, então diretor dessa diretoria, havia
passado por outros cargos do conselho diretor da instituição. Ele nascera em janeiro de 1888
na cidade de Açu/RN. Fez o curso primário na escola particular de Dona Nila Câmara e o
curso de humanidade do Atheneu Norte Rio-grandense. Diplomou-se na turma de 1910 da
referida Escola Normal de Natal. Dirigiu vários grupos escolares no Rio Grande do Norte,
além disso, participou da maioria dos conselhos diretores da APRN e foi um dos pioneiros do
escotismo no estado, a prática do escotismo era vista com uma educação perfeita, que inseria
a criança desde cedo no patriotismo. (PINTO, 2015)
Essa diretoria também dirigiu a Revista Pedagogium na sua terceira fase de existência
(1948), que por sua vez circulou trimestralmente. Na primeira fase de sua circulação (1921-
25

1926), as publicações eram feitas três vezes ao ano, posteriormente passou a ser seis. Já na
segunda fase da revista (1940), as publicações se davam quatro vezes ao ano. No período em
questão, tinha por diretor o próprio presidente da Associação, seu propósito nessa fase era ser
um veículo de informações e doutrinação a serviço dos professores através dos artigos que
eram publicados, como mostra a imagem 13 do sumário de uma das edições da revista em sua
terceira fase.

Imagem 13. Capa da Terceira Fase da Revista Pedagogium


Fonte: Dissertação de Marlene Ribeiro - acervo do CCSA.

A oitava diretoria toma posse em janeiro de 1952 e permanece até 1953. Tem como
presidente o professor Joaquim de Farias Coutinho, tesoureiro o professor Paulo Vieira
Nobre, secretário o professor Geraldo Magela Cruz, secretaria professora Margarida Saboia
de Lima e Silva, orador o professor Francisco Rodrigues Alves. Não encontramos quem era o
vice-presidente dessa diretoria.
As principais obras dessa diretoria, sob direção do referido professor e seu conselho
diretor foram: a criação de uma biblioteca denominada de Alfredo Simoneti em 1952,
(infelizmente não encontramos dados que nos orientasse sobre a localização e as devidas
informações a respeito desse estabelecimento); a reforma do Estatuto no mesmo ano, a
divisão e criação dos departamentos da Associação dos Professores.
26

Em 1954 toma posse a nona diretoria que tem novamente como presidente o professor
Coutinho, vice-presidente José Gurgel de Amaral Valente, secretário o professor Raimundo
Soares de Andrade, professora Helena Silva, orador o professor Francisco Rodrigues Alves,
tesoureiro o professor Paulo Vieira Nobre e bibliotecário o professora Ana Leite de Carvalho.
Essa diretoria esteve a frente da APRN de 1954 a 1955.
A partir de Duarte (1985), a nona diretoria da APRN, sob a resolução nº 1 de 12 de
março de 1955, cria a faculdade d Filosofia de Natal, mas sua inauguração só se da no ano
seguinte, na direção da décima diretoria.
Em janeiro de 1956 toma posse à décima diretoria da APRN composta pelos seguintes
docentes do estado: presidência o professor Paulo Vieira Nobre, vice-presidência o professor
Acrísio Meneses Freire, secretário o professor Álvaro Tavares, secretário a professora Maria
Fernandes da Mota e Silva, orador o professore Luís Correia Soares de Araújo, tesoureiro o
professor Raimundo Soares e bibliotecário a professora Ana Leite de Carvalho.

Imagem 14. Professor Paulo Vieira Nobre,


diretor no ano de 1956-1957.
Fonte: SINTE-RN

Nascido em Natal-RN, Paulo Vieira Nobre, formou-se pela Escola Normal de Natal na
turma de 1919, como outros professores citados, ele lecionou em vários estabelecimentos de
ensino no estado, foi Inspetor do Ensino, no período em que esteve a frente da APRN Duarte
(1985, p.124) escreve a respeito dele. “Esteve a frente da Associação de Professores do Rio
Grande do Norte, Exercendo o cargo de Presidente, quando se empenhou a fundo, para a
fundação da Faculdade de Filosofia, sendo um dos batalhadores incansáveis, para a
concretização da mesma [...]”.
Além dos grupos escolares e outras instituições de ensino, a APRN projetou a criação
de uma instituição de Ensino Superior. Alguns professores, dirigentes da APRN, sonharam
27

com essa realização e em 1956 a Faculdade de Filosofia foi autorizada a funcionar, por meio
do decreto Federal nº 40.573, de 18 de dezembro de 1956. A partir de Cavalcante (1999), essa
obra foi fundamental para o surgimento em 1959 da Universidade do Rio Grande do Norte.
Na imagem 15 a fachada da referida Faculdade.

Imagem 15. Fachada da Faculdade de Filosofia.


Fonte: (DUARTE, 1985) - acervo do Grupo de Pesquisa.

No período de criação da referida instituição, seu quadro diretor foi composto da


seguinte maneira:

Tabela 2. Quadro diretor e docente da Faculdade de Filosofia.

DIRETOR Edgar Ferreira Babosa

VICE-DIRETOR Luís da Câmara Cascudo

SECRETÁRIO Honório da Costa Farias

Boanerges Januário de Araújo


Esmeraldo de Siqueira
PROFESSORES Hélio Mamede Galvão
Luís da Câmara Cascudo
Túlio bezerra de melo
Otto de Brito Guerra
28

Manuel da Silva Santos


Maria Núbia da Câmara Borges

O objetivo da instituição era preparar trabalhadores intelectuais para o exercício das


altas atividades pedagógicas e técnicas; preparar candidatos ao magistério do ensino
secundário e normal; realizar pesquisas nos vários domínios da cultura, que constituíssem
objetivo do seu ensino. Inicialmente, a Faculdade oferecia os cursos de Letras Neolatinas,
História e Geografia, posteriormente, em 1960 foram implantados os cursos de Didática e
Pedagogia. Nesse mesmo período, as primeiras turmas colaram grau na faculdade, um total de
36 alunos. Em 1968 a Faculdade de Filosofia mantida pela APRN é incorporada a Fundação
Jose Augusto e passa a ser agregada a Universidade Federal do Rio Grande do Norte.
A décima primeira diretoria (1958-1959), a décima segunda (1960-1961) e a décima
terceira (1962-1963), infelizmente não há tantos dados, sabe-se apenas que o professor
Joaquim Coutinho era o presidente da primeira diretoria citada, o professor Luís Soares foi
presidente da segunda e o professor Geraldo Magela foi presidente da terceira diretoria.
A décima quarta diretoria dirigiu a APRN de 1964 a 1965, seu presidente foi o
Professor Geraldo Magela Cruz, o vice-presidente a professora Francisca Nolasco Fernandes,
o orador o professor Hilton Gouveia, secretário o professor Saly da Costa Mamede, o
tesoureiro o professor Valdomiro Carvalho Dantas e o bibliotecário a professora Maria das
Neves Ferreira Pinto. Infelizmente também não encontramos tantas informações a respeito
dessa diretoria, e o professor que a liderou, mas segundo informações de Duarte (1985), esse
conselho diretor, na pessoa de seu diretor, esteve a frente da Faculdade de Filosofia em seus
momentos mais cruciais, no momento em que esta agregou-se a UFRN.
29

Imagem 16. Professor Geraldo Magela,


diretor no ano de 1964-1965.
Fonte: SINTE-RN

O período de 1966 a 1967 foi dirigido pela décima quinta diretoria, que tinha por
presidente o professor João Batista Pinheiro Cabral, seu vice-presidente era o professor
Acrísio de Meneses Freire, secretaria a professora Maria Aulina, orador o professor Amadeus
Araújo, tesoureiro o professor Eugenio Fernandes e bibliotecário o professor Homero de
Oliveira Dantas.

Imagem 17. Professor João Batista Cabral,


diretor no ano de 1966-1967.
Fonte: SINTE-RN

O professor João Batista Cabral nasceu em Açú-RN, no ano de 1941, quando veio para
Natal, estudou inicialmente no Seminário Bereiano, mas depois ingressou no Atheneu Norte
rio-grandense. Em 1968 formou-se em História pela Universidade Federal do Rio Grande do
Norte, na mesma instituição, iniciou o curso de Direito, mas interrompeu por algum tempo,
quando foi estudar nos Estados Unidos, cursou mestrado em New York. Foi presidente da
30

APRN, “cargo que exerceu com dinamismo e entusiasmo. Com apenas 25 anos, foi o mais
novo presidente daquela associação de classe e também um dos mais eficientes e
empreendedores” (MELQUÍADES, 1985, p. 138)
Na gestão do referido professor, algumas obras foram realizadas para o melhoramento
da entidade, a exemplo da reforma que fora feito no prédio sede da instituição, promoveu a
ampliação do numero de sócios a APRN e seus colaboradores, mobilizou campanhas para o
aumento salarial para a classe de professores do ensino primário e médio, entre outras coisas.
Sua obra intelectual também é densa, com publicações em Jornais e Revistas especializadas,
em 1976 publicou seu primeiro livro, intitulado “O Partido Liberal na História” que tratava da
crise do partido liberal no México.
A décima sexta diretoria dirigiu a entidade de 1968 a 1971, essa, teve por presidente o
professor Acrísio de Meneses Freire, seu vice-presidente era a professora Maria Alexandrina
Sampaio, secretário o professor Joaquim de Farias Coutinho, o tesoureiro o professor Eugenio
Fernandes, orador o professor Geraldo Magela Cruz e o bibliotecário a professora Iolanda
Cortez.

Imagem 18. Professor Acrísio Freire,


diretor no ano de 1968-1971.
Fonte: SINTE-RN

O professor Acrísio Freire, como era mais conhecido, nasceu em 1902. Em 1922
diplomou-se pela Escola Normal de Natal, foi técnico em contabilidade pelo Colégio Santo
Antônio, atual Marista. Como professor, exerceu sua função em diversos municípios do RN,
na capital, trabalhou no Grupo Escolar Isabel Gondim, no Bairro das Rocas, de 1935 até seus
últimos dias de vida. Possuiu cargos como Inspetor do Ensino Primário do estado, professor
da Escola Normal de Natal, professor do Centro de Instrução Almirante Tamandaré (CIAT),
31

diretor e fundador da Escola Técnica de Comércio Alberto Maranhão. Além disso, foi
membro do conselho Regional da União dos Escoteiros do Brasil.
No período que esteve à frente da APRN, organizou a festa dos cinquenta anos da
instituição, promoveu palestras para os professores a respeito de diversos assuntos, a exemplo
de: “O professor e a Igreja atual” palestrante Nivaldo Monte; “A personalidade do Professor”,
palestrante: professor Nivaldo Ferreira; “O valor do Professor Primário” com o padre Agnelo
Barreto.
A décima sétima diretoria esteve à frente da APRN no período de 1972 a 1973 e pela
primeira vez uma mulher esteve sob direção da Associação dos Professores, a professora
Almira Melo do Amaral, seu vice-diretor era professor Geraldo Magela Cruz, secretária a
professora Nancy Gomes dos Santos, orador o professor Acrísio Freire e o tesoureira a
professora Francisca Maciel, foi um conselho diretor composto, em sua maioria, por
mulheres. Infelizmente não encontramos informações a respeito da referida professora.

Imagem 19. Professora Almira do


Amaral, 1ª diretora no ano de 1972-1973.
Fonte: SINTE-RN

A décima oitava diretoria esteve à frente, no ano de 1974 a 1976, sua diretora foi a
professora Olindina Gomes da Costa, seu vice-presidente era o professor João Batista Viana,
o secretario o professor Joaquim Coutinho, secretário a professora Maria Zélia de Souza, o
orador o professor João Ferreira Neto, o tesoureiro a professora Maria das Neves Pereira Pinto
e a bibliotecária a professora Teodelina Albuquerque.
32

Imagem 20. Professora Olindina Lima,


diretora no ano de 1974-1976.
Fonte: SINTE-RN

A professora Olindina Lima Gomes da Costa nasceu em 1919, seu pai fora um
dos presidentes da APRN, o também professor, Luís Antônio dos Santos Lima. Atuou como
professora do Atheneu Norte Rio-grandense estagiou nos Estados Unidos, foi secretária
Municipal de Educação, entre outras coisas, recebeu diversas homenagens e medalhas de hora
ao mérito em educação.
Enquanto esteve à frente da Associação de Professores, organizou algumas
programações que geraram verbas para a organização da Casa do Professor, outrora, nesse
mesmo espaço, funcionou o Jardim de Infância Aurea Barros. Essa instituição tinha
capacidade de abrigar em média cinquenta pessoas, possuía seus próprios funcionários. Ela
servia de abrigo para professores da capital ou de outras regiões que precisasse, por quaisquer
motivo, de hospedagem. Para ter esse direito, teria que ser sócio da APRN e estar em dia com
seus compromissos junto a tesouraria.
33

Imagem 21. Casa do Professor.


Fonte: Acervo do Grupo de Pesquisa.

A décima nona diretoria (1977-1979) foi presidida pela professora Iracema Brandão,
os respectivos secretários foram os professores Manuel Vieira e Maria Queiroz, o tesoureiro a
professora Maria Pinto, orador a professora Francisca Nolasco e o bibliotecário a professora
Francisca Nogueira.

Imagem 22. Professora Iracema Brandão,


diretora no ano de 1977-1979.
Fonte: SINTE-RN

Em 1979, no período em que a referida professora estava a frente da Associação, fora


realizado um movimento grevista por todo o estado do RN, por parte dos docentes. A
diretoria não aderiu ao movimento, tentou buscar soluções junto ao governo para ambas as
partes. Vejamos a declaração da professora Iracema a respeito disso.
[...] a associação de professores teve que enfrentar a luta que se
desencadeou; no estado, com relação ao movimento reivindicatório dos
professores. Movimento esse que teve seu agravamento face ao governo,
com decretação de greve e paralização de aulas em mais de setenta
34

estabelecimentos de ensino oficial, na capital e no interior. Intensa foi,


portanto, a preocupação da associação de professores para controlar o
movimento, evitando os exageros e as posições radicais de alguns. Para isto,
o conselho diretor, de imediato, procurou articular-se com os dirigentes do
Movimento, tentando estabelecer um dialogo com o Governo e encontrar
soluções honrosas para ambos. Como não se concordou com a greve, o
comando negou-se a sustentar conosco o dialogo, ficando, porem, instalado
no prédio da associação e, posteriormente, na casa do professor, por nós
também cedido para sede do movimento. Com esse rompimento, não
tivemos mais condições de segurar a marcha do processo reivindicatório
mas, mesmo assim, a associação de professores procurou o governo, levando
documento de caráter reivindicatório e dando ao professorado o necessário
apoio. Haja vista entregando a eles a casa do professor com o uso do telefone
e todas as instalações durante o período da luta e das negociações. A não
adesão de nossa parte a greve, custou-nos a desconfiança do grupo e,
posteriormente, uma terrível e injusta campanha negativa contra a diretoria
atual, no intuito de desacreditar os membros do conselho diretor em vésperas
de uma luta sucessória para renovação da atual diretoria. Razão pela qual
tivemos uma campanha renhida, difícil e decisiva, contudo, graças ao
equilíbrio, serenidade e sinceridade na condução dos interesses da classe.
Contamos com a compreensão, a solidariedade, o expressivo apoio do
professorado. Ganhamos as eleições, elegendo os candidatos por nos
apoiados.” (BRANDÃO, 1985, p. 170)

Por meio da leitura do relato da referida presidente da APRN, podemos extrair um


pouco do clima de tensão que foi gerado nesse período, ao observarmos, podemos
compreender que houve conflitos dentro e fora da Associação de professores. Nessa
perspectiva, voltemos nossos olhares para Chartier (1998), que reforça a ideia de que as
representações não são neutras, mas construções históricas constituídas por relações de luta,
conflitos e disputas. Dessa maneira, compreendemos indícios do conflito gerado na transição
dessa diretoria.

5. Anos finais e sindicalização da APRN

A partir da vigésima diretoria, percebemos por meio dos documentos e outros


trabalhos a respeito da instituição estudada, que a APRN começou a ser reorganizada em seu
interior, no que diz respeito à intensidade na luta para defesa dos direitos dos trabalhadores da
educação. O que até mais ou menos 1979 era uma entidade corporativista e submissa ao poder
público do estado, cujos educadores eram vistos como sacerdotes, começava a ganhar um
novo caráter, no que diz respeito a uma nova identidade da categoria, um posicionamento
crítico e ativo perante a ordem dominante, o que também devemos a acessão de classes
35

sociais, como a classe média e o contexto politico e econômico da década de 1980 no país
(SANTOS, 2008).
Ao observarmos com atenção podemos perceber que até as vestes dos professores
foram alteradas, olhando as imagens dos diretores citados anteriormente, percebemos que
todos estão vestidos de maneiras formais, fazendo uso de terno e gravata, as mulheres também
aparecem nas imagens com roupas formais. No entanto, se observarmos a imagem 23, do
professor Manuel de Lucena, um dos personagens do início desse novo tempo da APRN,
notamos que suas vestes não eram como às dos professores que o antecedeu, o que nos fez
entender que até em aspectos aparentemente sem importância, como as roupas, houveram
alterações. Sendo assim, acreditamos que a mudança gerada no ideário desses professores,
também se refletiram nas suas vestimentas. Esses indícios nos revela detalhes consideráveis
para a narrativa histórica.
Associação dos Professores nos anos de 1980 a 1982, foi presidida pelo professor
Manuel Barbosa de Lucena, o vice-presidente o professor Geraldo Pinto, os secretário foram
os professores Sara Pimenta e Antônio de Araújo, tesoureira a professora Vilma Tinoco,
orador a professora Maria de Oliveira e bibliotecária a professora Ieda Trigueiro. Essa
diretoria através de alguns projetos buscou a integração estadual das Associações de
professores dos municípios que ainda não faziam parte constituinte da APRN.

Imagem 23. Professor Manuel Barbosa de Lucena,


diretor no ano de 1980-1982.
Fonte: SINTE-RN.

O professor Manuel de Lucena nasceu em janeiro de 1938 na cidade de Rio Tinto- PB,
cursou o primeiro e segundo grau no seminário de São Pedro, cursou filosofia na universidade
Católica de Pernambuco, teologia em fortaleza e mestrado em filosofia contemporânea pela
Universidade Federal de Minas Gerais. Foi professor do segundo grau, professor assistente da
36

Universidade Federal do Rio Grande do Norte e vice-presidente da confederação de


professores do Brasil. Como presidente da associação de professores inaugurou o lar do
professor intitulado Professora Iracema Brandão, essa instituição tinha por objetivo dar
assistência ao professor associado que estivesse aposentado e que não tivesse um abrigo em
sua velhice.
Dos anos de 1983 a 1988, não conseguimos identificar as diretorias que lideravam a
referida instituição, compreendemos através do escritos, que nesse intervalo, gerou-se uma
grande intensificação por parte dos educadores para a sindicalização. Sob influencia do
contexto histórico-social da época, tornou-se frequente os assuntos relacionados às novas
formas de sindicalismo. Artigos pulicados na folha de São Paulo, nos informativos do
Instituto de Informação Social/IPROS, rodeavam o ideário dos professores e participantes da
APRN naquele período.
Na tentativa de informar e até orientar os professores a respeito dessa nova ordem que
perpassava a sociedade trabalhadora, APRN organizou em diversas escolas do estado, um
evento denominado “I Seminário de Organização e Melhoria do Ensino”, como exposto no
Jornal Tribuna do Norte, em agosto de 1984.
37

Imagem 24. Manchete a respeito da orientação aos


professores.
Fonte: SINTE-RN.

Aspecto que também contribuiu para a sindicalização da APRN foi a Constituição de


1988, por mais que tímida, vai permitir, a redefinição de sindicatos e Associações do pais,
inclusive no RN, no que diz respeito o aumento no número de trabalhadores sindicalizados.
(SANTOS, 2008).
Com a criação de outras associações de educadores no estado como a Associação dos
Orientadores Educacionais do RN/ASSOERN e a Associação dos Supervisores Educacionais
do RN/ ASSERN, que partilharam com os ideais da APRN, a ideia de formar um sindicato
único aumentou entre os militantes da educação, como afirma Santos (2008, p.52) “os
educadores passavam a analisar a possibilidade da proposta de mudança das sedes da
ASSOERN e da ASSERN para a APRN fortalecendo com isso ainda mais a unidade da
categoria”. Foi elabora no contexto, uma cartilha que explicitava os benefícios da
Sindicalização para a categoria dos educadores.
38

Como exposto na imagem 25, encontrada no acervo do SINTE-RN, a cartilha criada


expressou de maneira ilustrativa e com certo humorismo as questão do sindicalismo, presentes
na época.

Imagem 25. Cartilha da sindicalização, página referente ao 1º


tempo.

Imagem 26. Referente ao 2º tempo.


39

Imagem 27. Referente ao 3º tempo.

Imagem 28. Referente ao 4º tempo.


40

Imagem 29. Referente ao 5º tempo.


41

No ano de 1989 inicia as movimentações para a sindicalização da APRN e as outras


entidades de educadores do estado, para isso fora realizado um congresso para mobilizações e
concretização do ideário dos militantes da educação. Como exposto no boletim Extra Classe
da APRN.

Imagem 30. Informativo sobre o congresso para


sindicalização da categoria.
Fonte: SINTE-RN

Em 02 de setembro de 1989 é fundado o Sindicato dos Trabalhadores em Educação


da Rede Pública do Estado do Rio Grande do Norte (SINTE/RN), o que marca
consequentemente o final da Associação de Professores do RN. Sua sede é no mesmo prédio
em que funcionava a APRN, mas possui base territorial em todo o estado. Como mostra seu
regimento “É uma entidade de caráter classista, democrática, autônoma, independente perante
o Estado, as religiões e partidos políticos, plural, sem fins lucrativos, com duração por prazo
indeterminado que tem por objetivo a defesa dos interesses dos trabalhadores em educação do
sistema público de ensino municipal e estadual” (SINTERN, 2005, p.04). O sindicato dos
educadores também é filiado a Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação -
CNTE, a Central Única dos Trabalhadores/CUT e ao Departamento Intersindical de
Estatística e Estudos Socioeconômicos/DIEESE.
42

6. Palavras finais

O estudo a respeito da história da Associação de Professores do Rio Grande do Norte,


possibilitou o resgate de uma parte da história da trajetória dos docentes do estado. Através
das pesquisas, pudemos observar que essa instituição desempenhou papel preponderante para
o professorado Norte rio-grandense, uma vez que suas iniciativas, possibilitaram a categoria
dos professores de ter voz no cenário educativo do estado do Rio Grande do Norte, também
permitiu a instrução de gerações.
As transformações do contexto educacional percebidas ao longo do tempo, não
diminuíram o desejo pela melhoria da educação no nosso território estadual, por mais que as
mudanças políticas, sociais e econômicas ocorressem, como ocorreu, o ideal de batalhar pela
educação e as causas docentes perpassou décadas e gerações, e no presente ainda continua
imperando na história dessas entidades.
Percebemos com esse estudo, que muito ainda precisa ser feito para se conhecer
melhor a trajetória da instituição estudada, assim como dos docentes que faziam parte dela e
outras instituições a ela, ligadas. Essa é uma pesquisa que suscita muitas outras,
externalisamos o desejo de continuarmos a investigar fragmentos da história da APRN, que de
maneira clara nos mostrou novos objetos de estudo. A pesquisa em história da educação Norte
rio-grandense está em amplo crescimento, mas ainda precisamos avançar, é necessário apoio
público para o melhoramento dos acervos públicos e incentivo a preservação de documentos
que narram à história educacional no RN.

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