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CURSO DE CONCRETO ARMADO UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE

CENTRO TECNOLÓGICO
Capítulo I – Introdução e Evolução PÓS-GRADUAÇÃO EM ENGENHARIA CIVIL

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I.1 ESCOPO e OBJETIVOS do CURSO

O projeto de estruturas em concreto armado desenvolve-se nas cinco etapas


interligadas, delineadas no quadro 1. Desenhos de forma e de detalhamento das
armações representam suas partes principais, indispensáveis à execução da
construção. O “Curso de Concreto Armado” concentra-se nas etapas 3ª, 4ª e 5ª do
projeto estrutural, tendo como objetivos, capacitar o estudante à: 1º Dimensionar pelo
Método dos Estados Limites, seções de elementos estruturais (vigas, lajes, pilares,
sapatas, blocos, estacas, tubulões, contenções e outros) sujeitas às solicitações de
flexão, cortante, normal e suas combinações; 2º Detalhar, de acordo com técnicas
atuais e com as prescrições da norma ABNT NBR 6118:2014, elementos fundamentais
em concreto armado.
O projeto parte da Concepção Estrutural, na qual se elabora uma “forma” da
estrutura, onde em essência são posicionados os apoios, definidos os vãos e pré-
estabelecidas as dimensões das seções transversais dos elementos estruturais que a
constituem.
Em uma segunda etapa, designada Análise Estrutural, a forma concebida é
modelada para ser submetida aos carregamentos que atuam sobre a construção.
Assim, com recursos da Mecânica dos Sólidos, da Estática e programas calcados no
método da rigidez, são obtidas as solicitações (flexão, cortante, normal, torsor) e
deslocamentos das seções principais.
A partir das solicitações, faz-se então o Dimensionamento das principais
seções transversais dos elementos estruturais representativos do conjunto. Para
estruturas em concreto armado são então selecionadas as resistências do concreto
(classe) e do aço (categoria) a serem utilizados. Empregando-se o Método dos
Estados Limites (M.E.L.), são então ratificadas ou modificadas as dimensões pré-
estabelecidas para as seções na etapa de concepção e calculadas as quantidades de
aço necessárias ao funcionamento seguro destas seções dimensionadas.
Em geral, na etapa subseqüente, denominada Verificação, ainda com base nas
diretrizes do Método dos Estados Limites, convertem-se as quantidades de aço
obtidas no dimensionamento em número exato de barras, com bitolas definidas e pré-
dispostas nas seções estruturais estudadas.

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Capítulo I – Introdução e Evolução PÓS-GRADUAÇÃO EM ENGENHARIA CIVIL

O Detalhamento de Armaduras consiste em uma série de técnicas e


prescrições, finalizando o quadro de etapas que integram a realização do projeto de
estruturas em concreto armado. Nesta etapa final, os três requisitos que formam a
meta essencial do MEL, ou seja; segurança à ruptura, desempenho adequado em
serviço e durabilidade, alcançados nas duas etapas anteriores para as seções
estudadas, são então estendidos integralmente para seus elementos e destes para a
estrutura como um todo.

Quadro 1 - Projeto de Estruturas de Concreto Armado

RECURSOS
ETAPAS DEFINIÇÕES &
OBJETIVOS

1. Materiais estruturais
2. Sistema estrutural
1ª Experiência
3. Posicionamento de apoios
CONCEPÇÃO profissional
4. Processo executivo
ESTRUTURAL acumulada
5. Modulação de vãos
6. Pré-dimensionamento de seções

7. Reações
2ª Sistemas Computacionais
8. Solicitações
ANÁLISE Método da Rigidez
9. Tensões
da Modelagem Estrutural
10. Deslocamentos
ESTRUTURA Carregamentos Normalizados
11. Deformações

DIMENSIONAMENTO 12. Re-ratificação das dimensões pré-definidas NBR 6118: M.E.L.
das SEÇÕES dos na 1ª Etapa Segurança à Ruptura e
ELEMENTOS 13. Áreas de aço Durabilidade
ESTRUTURAIS

VERIFICAÇÃO 14. Re-ratificação das áreas de aço NBR 6118: M.E.L.
das SEÇÕES dos dimensionadas da 3ª etapa Adequação de
ELEMENTOS 15. Bitolas das armaduras Desempenho e Durabilidade
ESTRUTURAIS

DETALHAMENTO 16. Forma beneficiada de barras NBR-6118: Prescrições
dos 17. Comprimento das barras/fios Segurança,
ELEMENTOS 18. Posição longitudinal das barras/fios Desempenho e Durabilidade
ESTRUTURAIS

O curso visa ainda prover conhecimentos para apoio à temas do Setor de


Estruturas, nos quais se prossegue tratando do projeto e execução de pontes,
edificações, fundações e outras estruturas. O dimensionamento e detalhamento de
elementos submetidos à torção, assim como abordagem de demais aspectos ligados à
execução das obras em concreto armado, são examinados posteriormente.

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I.2 CONCEITOS e DEFINIÇÕES GERAIS

Aglomerantes ativos ou ligantes são produtos reagentes, cuja propriedade


principal é a de solidificar ao reagir quimicamente com ar ou água, podendo aglutinar
outros materiais, ditos agregados, partículas minerais quimicamente inertes que
aumentam o volume da mistura reduzindo seu custo. Podem ser orgânicos (à base de
carbono) ou inorgânicos.
Como se vê no quadro 2 e na figura 1, o cimento Portland comum é um
aglomerante hidráulico seco, em pó, à base de cálcio, silício e alumínio,
predominantemente em forma de silicato tricálcico {(CaO)3SiO2 =C3S=alita(≈50%)};
silicato dicálcico {(CaO)2SiO2=C2S=belita (≈25%)} e aluminato tricálcico {(CaO)3Al2O3=
C3A=(≈12%)}, que resultam da pulverização conjunta de gesso (≈3%, para estender o
tempo de pega) e clínquer (≈97%). Este, em corpos de aspecto esférico, essência do
cimento moderno, resulta do processo industrial de calcinação-sinterização conjunta
de ≈90% calcário {CaO} em pedra britada com ≈10% argila-saibro-minério {filito=Al2O3} /
{quartzito=SiO3} / {magnetita=Fe2O3}, à 1450ºC. À mistura clínquer-gesso podem ser
adicionados ainda um dos materiais para moagem: Pozolanas (cinzas), escória de alto
forno ou pó calcáreo (filler). Estas adições modificam química e mecânicamente as
propriedades do produto final e geram os cimentos Portland compostos
apresentados no quadro 3.

Quadro 2 – Aglomerantes: O Cimento Portland

água calor

cimento

cristais agulhas

agulhas aglomeram-se por hidratação Téchne

Seu contato com água forma uma pasta fluida e desencadeia instantânea
reação química exotérmica, denominada hidratação. Esta reação prossegue com o
fenômeno denominado “pega”, que se inicia com o aumento súbito da viscosidade e
liberação de calor, fazendo com que a pasta perca gradativamente sua fluidez, até se
solidificar após algumas horas (poucos minutos na pega rápida até 10 horas na lenta).
Ao final da pega a pasta não se decompõe em contato com água ou ar. A reação
estende-se em nova fase, a de “cura / endurecimento”, na qual a pasta adquire
continuamente resistência mecânica, estabilizando-se ao final de anos. Adicionando-
se o agregado fino (em geral areia: 0,075mm< Φ < 4,8mm) à pasta forma-se uma
argamassa também rígida e resistente.

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Gesso

Calcário

Figura 1 – Fabricação do Clínquer e do Cimento Portland

Quadro 3 – Composições e Principais Tipos de Cimento Portland

Gypsum
(3.5%) COMPOSIÇÃO MÉDIA
Other
(1.5%)

Tetracalcium Aluminoferrite
(8%)
OUTROS
COMUNS

ALUMINATO
TRICÁLCICO
Tricalcium Aluminate
COMPOSTOS
≈ 12%
(12%)
ALITA
Tricalcium Silicate
(50%)
≈ 50%
≈ 50% ALTO FORNO
BELITA
Dicalcium Silicate
(25%) POZOLÂNICO
≈ 25%
ALTA R. INICIAL
RES. à SULFATOS

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Etimologicamente, o termo concreto deriva do latim “concretus”, particípio de


“concrescere”, verbo que se traduz por “crescer junto”, significando “consolidar”. Tal
consolidação configura o efeito mecânico produzido pela reação química entre um
aglomerante ativo, nesse caso o cimento, (também do latim “cæmentu”) e a água.
O concreto simples, como indicado na figura 2, é obtido acrescentando-se
agregados graúdos (geralmente brita: Φ ≥ 4,8mm) à argamassa, responsável por sua
coesão. A dosagem representa a proporção exata da mistura cimento-agregados e
água, da qual resulta o conglomerado sintético viscosco, que após pega e
endurecimento, forma o material pétreo com elevada resistência à compressão. É
comum ainda a incorporação opcional de aditivos em sua produção, tendo por fim a
obtenção de propriedades específicas da mistura, tais como maior fluidez, aceleração
ou retardo de “pega” e outras mais. Ainda que bem variável, a faixa de sua
composição é indicada na figura 2.
Embora o concreto simples resista bem às tensões compressivas, sua
resistência às tensões trativas, da ordem de 10 % da anterior, é extremamente
reduzida. Na atualidade, esta característica restringe acentuadamente seu uso como
material estrutural isolado.
O aço é um produto siderúrgico estrutural, com elevada resistência tanto à
tração como a compressão. Exposto isolada ou desprotegidamente aos agentes
atmosféricos, oxida-se aceleradamente face às dimensões usuais de seus elementos.

AR:1 à 8%

CIMENTO
7 à 15%
BRITAS
31 à 51%
AREIA
24 à 30%
ÁGUA
14 à 21% CLÍNQUER

Figura 2 – Composição do Cimento e dos Concretos

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O concreto armado resulta da associação tecnicamente dimensionada, do


concreto simples à armadura passiva (≈100 kgf/m3 de concreto), geralmente constituída
por barras de aço, e assim denominada por não ser tensionada antes da estrutura
entrar em carga. Os dois materiais resistem solidariamente aos esforços solicitantes e,
com seu trabalho conjunto, as deficiências de cada um são supridas pela presença de
atributos do outro, de tal forma que, o aço trabalhe nas regiões tracionadas dos
elementos estruturais, enquanto o concreto trabalha bem à compressão e o protege
dos agentes atmosféricos. No concreto protendido, introduz-se ainda a armadura
denominada ativa ou de protensão (≈30 kgf/m3 de concreto), previamente tensionada,
para melhorar o comportamento final da estrutura, quando nela são aplicados os
carregamentos aos quais se destina.

I.3 Da ARGILA ao CONCRETO: AVALIAÇÃO de uma TRAJETÓRIA

I.3.1 – A Argila e os Primeiros Aglomerantes

No barro, a argila solidifica com seus demais componentes por secagem, com a
evaporação da água, e não por reação química desta, como nos aglomerantes ativos.

Figura 3 – A Argila: Construções na Natureza

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Enquanto nestes a hidratação fixa parte da água, transformando-a em outras


substâncias, no primeiro ela se evapora, deixando um composto pouco resistente,
inclusive à ação da própria água. Ainda assim, isto não impediu que argilas fossem e
ainda sejam usadas como aglomerantes naturais, como se vê na figura 3. Seu uso
animal, para formação de conglomerados com funções estruturais, precede bastante o
do próprio ser humano.

Síria Tibete América

Figura 4 – Formações Naturais e Argilas: Conceitos e Materiais nas Construções

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Na Antropologia, supõe-se que homem primitivo já teria tido contato com outros
materiais aglomerantes, além de argilas. Ao acenderem fogueiras junto a pedras
calcárias ou gesso, estes ativavam-se formando pós, que hidratados por chuva ou
sereno, convertiam-se novamente em pedra. Extraindo da natureza tanto os conceitos
como os materiais, as primeiras culturas usaram conglomerados à base de argilas,
pedras e suas combinações, para construir habitações em paredes verticais ou
arqueadas, semelhantes às cavernas e aos arcos naturais (fig. 4).
No Antigo Egito, já se utilizavam argamassas à base dos aglomerantes ativos
cal e gesso, porém sem destaque nas maciças construções (fig. 5) que os
distinguiram. Na Grécia Antiga (≈ 650a.C.) o uso de aglomerantes era também
obscurecido, frente ao uso de blocos de pedra cortadas para as arquitraves e colunas
que notabilizaram as construções clássicas (fig. 6).

Figura 5 – A Pedra nas Construções Maciças

Figura 6 – A Pedra em Arquitraves e Colunas

Em seu consagrado texto (≈25a.D.), o construtor romano Vitruvius (fig.7n),


atesta que na Grécia, já se conhecia a “pozzolana”, que misturada (1/3 à 2/3) ao
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calcário hidratado (2/3 à 1/3), ambos não hidráulicos, produzia um aglomerante


cimentíceo e, portanto, dotado de hidraulicidade, com as propriedades já descritas.

I.3.2 – A Pozolana e o Concreto Romano (Fig. 7)

Após sua origem, em vinte e três séculos o Império Romano(f) dilatou-se no


tempo e em seu espaço geográfico para enfim declinar e sucumbir. A queda de suas
capitais, Roma e Constantinopla, pautou a periodização da História encerrando a
Antiguidade, delimitando a Idade Média e iniciando a Era Moderna. Em seu apogeu
impôs e consolidou sua presença em três continentes, por meios militares e civis. Suas
construções e seu concreto pozolânico exerceram papel fundamental nessa trajetória.
Construíram em vasta escala, sem o foco no refinamento estético que marcara
as edificações helênicas: Templos, anfiteatros e estádios, redes de abastecimento,
aquedutos e ampla rede de estradas com suas pontes. Conjugaram dois princípios
construtivos; o da arquitrave-coluna assimilado dos gregos e o do arco semicircular
etrusco(k); com dois materiais distintos; os blocos de pedra e o concreto pozolânico. Os
efeitos dessa conjugação bastaram para estruturar toda a base física que viabilizou a
grandiosidade superlativa de seu Império.
Pozolanas naturais(g,h), nome derivado de Pozzuoli, vila da encosta do
Vesúvio(a,d) na Baía de Nápoles(e), são cinzas arenosas de origem vulcânica, ricas em
silicatos e aluminatos. A Geologia aponta que de 1.282 vulcões ativos nos últimos 100
séculos, apenas três expeliram pozolanas de alta qualidade. Um recentemente no
Pacífico e dois outros no sul da Europa. O primeiro (≈1.500a.C.), Santorini(b) na
Grécia(c) e Vesúvio (79a.D.) o segundo. No presente, cinzas de várias origens, (carvão
mineral, etc.) mas semelhantes propriedades, são denominadas pozolanas e usadas
atualmente como aditivos.
A partir de 150a.D., o desenvolvimento do concreto pozolânico foi o fulcro de
uma revolução nas construções civis e militares romanas. Pouco plástico (adensado
em camadas), não fluia nas formas; lento em seu endurecimento, porém muito
resistente e durável, o concreto pozolânico romano, ainda que rudimentar, possuía
qualidades equivalentes as do concreto de cimento Portland, com durabilidade,
atestada em várias de suas construções, ainda em uso após quase vinte séculos.
Gradativamente, de argamassa auxiliar, à associado da pedra e, finalmente dela
liberado ao estruturar isoladamente arcos e abóbadas, o concreto, nessa trajetória,
impulsionou várias construções: No Anfiteatro de Pompéia(m) (paredes: 75a.C.), no
Coliseu(j) (fundações e paredes internas: 80a.D.), no Aqueduto “Pont du Gard”(o) em
Nimes (no canal e cantarias: 150a.D.) e nas Termas de Caracalla(i) (arcos: 215a.D).
Enfim, a moldabilidade do aglomerante potencializou e expandiu tridimensionalmente a
lógica de funcionamento do arco em pedra, tendo sido intensamente explorada, até
culminar no “domus” do Panteon de Adriano (fig. 8).

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b c

a d e

f h

i j

k l

m n o p

Figura 7 – Pedra e Concreto Pozolânico na Consolidação do Império Romano


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Adriano

Vaticano Londres Madrid Copenhague

Florença Washington Washington

Figura 8 – O Panteon Romano e sua Influência no Ocidente

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No Panteon, a Engenharia Romana atingiu seu máximo brilho e capacidade, ao


aplicar o concreto pozolânico, isoladamente, para vencer o vão de 43 metros de seu
“domus” hemisférico, inclusive explorando agregados leves.
Templo dedicado a todos (“pan”) os deuses (“theo”), concluído em 125a.D. pelo
Imperador Adriano, convertido em igreja no século VII, usado como mausoléu desde a
Renascença e atualmente ponto turístico de Roma, foi, por mais de 17 séculos, o
maior domo no mundo e, até o presente, ainda o maior em concreto simples.
Esta construção singular e inexcedível, bem à frente de seu próprio tempo,
imprimiu por séculos forte influência em diversas (fig. 8) das mais destacadas
construções ocidentais e marcou o concreto e a História das construções.

I.3.3 – O Cimento Portland

Ao final da Antiguidade, a tecnologia do concreto pozolânico praticamente se


perde e o papel do aglomerante torna-se secundário, ou mesmo ausente durante a
Idade Média. As catedrais góticas (fig. 9), grandes realizações desta época, foram
estruturadas exclusivamente em pedra com seus arcos ogivais.

Figura 9 – A Tecnologia do Concreto Pozolânico se Apaga na Idade Média

Antes e até por algum tempo após a invenção do cimento atual(fig.10 i), usou-se
um tipo de cimento chamado “natural” (ou até erroneamente de romano), proveniente
da queima de misturas naturais de calcário e argila. Suas propriedades variavam tanto
quanto as fontes de seus recursos.
Grande esforço foi empreendido na Europa nos séculos XVIII e XIX para se
“redescobrir” um novo tipo de aglomerante hidráulico. As investigações e experimentos
que desembocaram no cimento moderno, à base de calcário e argila, ocorreram em
aproximadamente seis décadas na Inglaterra e França (fig. 10). Em 1812, realizando
testes(b) para construção de uma ponte, Louis Vicat(a) registra, que um cimento
hidráulico artificial, poderia ser produzido pela calcinação de uma mistura
proporcionada de calcário e argila.
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Em 1824, Joseph Aspdin(c) obtém patente do cimento obtido por calcinação


proporcionada de rochas calcárias moídas, argila e carvão. Nomeou-o de Portland,
ilha(d) inglesa da qual se extraiam pedras(e) de cor acinzentada para construção. Em
1885, Frederick Ransome patenteia o forno rotativo(f,g), levemente inclinado, que reduz
o custo, uniformiza sua produção e substitui os modelos em “garrafa” (h).
No Brasil a produção de cimento teve início em 1926, sendo até então um
produto importado.

a b

c d e

cimento
natural
cimento
portland

Figura 10 – A Evolução do Cimento Portland

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I.3.4 – O Ferro e o Aço

Os metais ferrosos são ligas à base de ferro e carbono, podendo conter ainda
silício, manganês, fósforo, enxofre e outros elementos químicos. De seu amplo
espectro, cabe aqui destacar o ferro fundido o ferro laminado e o aço, sendo este
último, o único atualmente empregado como material estrutural da Engenharia Civil.

a b

c d e

Figura 11 – A Evolução dos Metais Ferrosos: Do Ferro ao Aço

Ao final do século XVIII, com o advento da Revolução Industrial, o ferro fundido


e o ferro laminado tornaram-se materiais estruturais atraentes, uma vez que puderam
ser submetidos à padronização e pré-fabricação. Tal fato permitiu que estes materiais,
e posteriormente o aço, produzidos em escala industrial, viessem gradativamente a
substituir a pedra e o tijolo cerâmico como principais materiais estruturais usados ao
longo dos séculos anteriores.
Em 1779, na Ponte de Coalbrookdale(a), Inglaterra, utiliza-se pela primeira vez
como material estrutural um produto siderúrgico, o ferro fundido. Em 1826 é construída
a Ponte pênsil de Menai (d), em Gales, Inglaterra, com 175 metros de vão, empregando
barras de ferro laminado. Em 1860, Henry Bessemer(c) desenvolve na Inglaterra um
forno conversor(e) que possibilita a produção do aço em larga escala. Em 1874, a
Ponte de Eades(b), sobre o Rio Mississipi nos Estados Unidos é a primeira na qual se
emprega o aço como material estrutural (fig. 11).
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ferro hematita pirita coque calcário

a b c

escória
gusa

d e f g h

i j

k1 k2 l m

o p

Figura 12 – A Produção dos Metais Ferrosos: Ferro e Aço


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Com mais de 10.000 anos, a Metalurgia abrange a tecnologia da extração e


purificação de metais, bem como da geração de suas ligas, nas quais algumas
propriedades superam as de suas bases. A siderurgia é seu ramo dedicado à
produção do ferro e do aço.
O ferro da crosta terrestre não se encontra em estado puro, pois se oxida
rapidamente em presença da umidade e do oxigênio do ar, tornando-se pó. Só é
encontrado combinado com o próprio oxigênio ou enxofre, sendo a hematita (Fe2O3) e
a pirita (FeS2) seus minérios mais comuns.
Já que o ferro se funde a ≈1500ºC, sua purificação foi mais difícil e posterior a
do cobre (≈1000ºC) e estanho (≈200ºC), com origem provável na Anatólia, atual Pérsia
≈6.500a.C.
Para se obter ferro puro, o oxigênio ou o enxofre devem ser removidos por
redução química pelo carbono. Como em estado puro o ferro é relativamente macio,
sua evolução como material estrutural se deu pela ligação reduzida e controlada com o
carbono, que o endurece, formando as ligas ferro-carbono, com amplo espectro de
tipos e propósitos. A figura 12 ilustra o fluxo(o) de produção do aço, que ocorre em 5
etapas(p). Na primeira, denominada preparo da carga, faz-se a mistura dos seus
componentes. A segunda, denominada redução, se dá no alto-forno(a), construção
metálica revestida internamente em material refratário, que recebe em seu topo(b) a
carga proporcionada (ou sinter), de minério, coque (carvão betuminoso aquecido sem
combustão, em recipiente fechado) e calcário. Por baixo é soprado(b) ar pré-aquecido a
1000°C e o combustível coque, em contato com o oxigênio, produz calor(c) fundindo(b)
assim a carga metálica, reduzindo (eliminação de O2) o minério e transformando-o em
metal líquido(d), que ao resfriar forma um produto intermediário, o ferro-gusa(e), liga
com alta concentração de carbono (6%), quebradiça e destinada a ser refundida para
obtenção do aço.
Na Aciaria, a etapa seguinte, o refino do gusa líquido (ou sólido) e sucata(f)
processada(g) (de ferro e aço) ocorre em conversores à oxigênio(j) (45 min. refinam 400
tf.) ou fornos elétricos(i) à arco e se dá por meio da injeção de oxigênio(h) na massa
fundida a 1700 ºC, que remove as substâncias que o efraquecem (sílica, fósforo e
enxofre > eliminados como escória) e oxida (extrai) o excesso de carbono (escapa
como CO), reduzindo-o à faixa de 0,05% a 0,08%. (aços: 0,02≤%C≤2,04, ferros:
2,04≤%C≤6,70), convertendo-a em aço líquido(i, j), cuja maior parte é vazada em
lingoteiras(k1, k2), ainda em estado rubro (1200ºC) e solidifica(k1, k2) na forma de lingotes(l)
em seção quadrada, com 15 metros de comprimento.
Na etapa seguinte, os equipamentos de lingotamento contínuo dão forma aos
produtos semi-acabados, blocos e lingotes que seguem para diferentes linhas finais de
acabamento (aços longos e aços planos).
Na etapa final, a de laminação, os semi-acabados, lingotes e blocos são
processados por equipamentos chamados laminadores(m) e transformados em diversos
produtos siderúrgicos(n), dentre os quais os que se destinam ao concreto armado.

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I.3.5 – A Associação do Concreto ao Aço (Fig. 13).

A associação de elementos pétreos à metálicos, já precariamente praticada na


Antiguidade (concreto pozolânico e bronze), foi explorada com singularidade no
Pantheon de Paris(a), (ex-igreja de Santa Genoveva) em 1770. A necessidade decorreu
do maior espaçamento adotado entre colunas, segundo a concepção(c) de Souffllot e
Rondelet. As pedras lavradas e artesanalmente furadas foram unidas às barras(b) de
ferro e os espaços preenchidos com argamassa de cal. A “invenção” do cimento foi o
passo necessário para inversão do processo e a preservação do conceito, produzindo-
se primeiro a armação, com a “pedra artificial fluida” envolvendo-a à “posteriori”.

a b

f g h i

Figura 13 – O Concreto e o Aço: O Desenvolvimento do Concreto Armado

O primeiro registro da associação de argamassa ao ferro foi na Exposição de


Paris de 1855, com Jean-Louis Lambot(f) apresentando um barco(d) de “cimento
armado”, no qual foram unidos os materiais, formando um novo produto denominado
“fer-cimento”. Esta vertente naval, mesmo sem ênfase, segue sendo explorada até os
dias atuais.

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Entre 1861 e 1878, Joseph Monier(g), comerciante e horticultor, tendo


participado da Exposição de Paris, dá início a fabricação e venda de artefatos de
“cimento armado”, passando sucessivamente à produção de reservatórios, tubos, lajes
e finalmente à construção de uma ponte (e) com 17 metros de vão. Trabalhando
empiricamente, obtém patente para seus produtos.
Em 1884, as empresas alemãs “Freytag & Heidschuch” e “Martenstein &
Josseaux” obtém de Monier o direito de patente e garantem a transferência da
tecnologia para toda Alemanha, permitindo seu desenvolvimento de forma acelerada.
Entre 1900 e 1902, Mörsch(h) desenvolve para o concreto armado a primeira
teoria científica consistente, comprovada experimentalmente, e a publica. O trabalho
por ele desenvolvido constituiu por muitas décadas, em todo mundo, os fundamentos
de uma original “Teoria do Concreto Armado” e são ainda parcialmente válidos, após
décadas de intensas pesquisas, utilização e evolução deste material.
No Brasil, as primeiras realizações datam de 1904, com a construção de casas
e prédios em Copacabana. Entre 1912 e 1943, o Engenheiro brasileiro de ascendência
germânica, Emílio Baumgart(i), fluente no idioma alemão, promove enorme
transferência para o Brasil da tecnologia do concreto armado, então em intensa
evolução na Alemanha.

I.3.6– O Desenvolvimento da Normalização Brasileira

No Brasil a “Associação Brasileira de Normas Técnicas – ABNT” é o órgão


legalmente constituído como fórum nacional de normalização, responsável pela
elaboração e atualização das normas nacionais científicas, técnicas, industriais,
comerciais e agrícolas.
Em 1930 a criação do periódico técnico “Cimento Armado” aglutinava
profissionais da área, dando origem a ABC, sendo um de seus objetivos a elaboração
de um regulamento que se basearia nas “Determinações Alemãs”.
Em 1940 é criada a ABNT, sendo a “NB1-1940: Cálculo e Execução de Obras
de Concreto Armado” a primeira norma oficialmente aplicada em todo país. Com
relação à evolução desta norma em si, fez-se sua primeira revisão em 1960, a
segunda em 1978 e, finalmente, em 2003, homologou-se a versão atual que difere
bastante da anterior, pelo fato de abraçar todo espectro relacionado ao projeto de
obras em concreto: Simples, armado e protendido.
A normalização exerce papel importante no desenvolvimento nacional, fixando
procedimentos e referenciais da produção com base tecnológica, lastreando atividades
econômicas, trocas comerciais e, em particular, as atividades da Engenharia Civil. A
normalização e sua aplicação conduzem ao registro do conhecimento tecnológico, uso
adequado de recursos e do tempo, disciplina, segurança, controle no trabalho e na

MAYRA PERLINGEIRO, LEONARDO VALLS e EDUARDO VALERIANO pág. 18


CURSO DE CONCRETO ARMADO UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE
CENTRO TECNOLÓGICO
Capítulo I – Introdução e Evolução PÓS-GRADUAÇÃO EM ENGENHARIA CIVIL

produção. As normas especificam materiais, padronizam componentes, equipamentos,


procedimentos de cálculos e projetos, por meio de informações codificadas. É
fundamental que sejam estudadas e interpretadas, para que adequadamente sejam
aplicadas. O quadro 4 apresenta as principais normas ligadas ao concreto armado.

Quadro 4 – Normas Técnicas Citadas na ABNT NBR 6118

ABNT NBR DENOMINAÇÂO

6118: 2014 Projeto de estruturas de concreto - Procedimento

5738:1994 Moldagem e cura de corpos-de-prova cilíndricos ou prismáticos de concreto


- Procedimento

5739: 1994 Concreto - Ensaio de compressão de corpos-de-prova cilíndricos - Método


de ensaio

6120:1980 Cargas para o cálculo de estruturas de edificações - Procedimento

6122:1996 Projeto e execução de fundações - Procedimento

6123:1988 Forças devidas ao vento em edificações - Procedimento

7480:1996 Barras e fios de aço destinados a armaduras para concreto armado -


Especificação

7481:1990 Tela de aço soldada - Armadura para concreto - Especificação

8522:1984 Concreto - Determinação do módulo de deformação estática e diagrama


tensão deformação - Método de ensaio

8548:1984 Barras de aço destinadas a armaduras para concreto armado com emenda
mecânica ou por solda - Determinação da resistência à tração - Método de
ensaio

8681:2003 Ações e segurança nas estruturas - Procedimento

8953:1992 Concreto para fins estruturais - Classificação por grupos de resistência -


Classificação

9062:2001 Projeto e execução de estruturas de concreto pré-moldado - Procedimento

12654:1992 Controle tecnológico de materiais componentes do concreto - Procedimento

12655:1996 Concreto - Preparo, controle e recebimento - Procedimento

14931:2004 Execução de estruturas de concreto - Procedimento

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