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COMITÊ BRASILEIRO DE BARRAGENS

XXV SEMINÁRIO NACIONAL DE GRANDES BARRAGENS


SALVADOR, 12 A 15 DE OUTUBRO DE 2003
T92 - A03

CRITÉRIOS PARA FIXAÇÃO DE VALORES LIMITES DA


INSTRUMENTAÇÃO CIVIL DE BARRAGENS DE CONCRETO E DE TERRA

Selmo Chapira Kuperman


Maria Regina Moretti
Sergio Cifu
Tarcisio Barreto Celestino
Giácomo Re
Klaus Zoellner

THEMAG ENGENHARIA E GERENCIAMENTO S/C LTDA.

Julio César Pínfari


Edvaldo Fabio Carneiro
Sergio Luiz Guimarães Rossetto
Ruitter Prada Reigada

CESP – COMPANHIA ENERGÉTICA DE SÃO PAULO S. A

RESUMO

Este trabalho tem como finalidade apresentar os critérios adotados para a


fixação de valores limites da instrumentação civil das barragens de concreto,
terra e enrocamento das usinas hidrelétricas Ilha Solteira, Jaguari, Eng°. Souza
Dias (Jupiá), Paraibuna e barragem do Paraitinga, da CESP - Companhia
Energética de São Paulo. O critério utilizado prevê que situações de alerta ou
atenção são atingidas quando os valores de referência de leituras são
ultrapassados ou, quando as medições indicam o início de uma tendência que
foge do padrão estabelecido ao longo do tempo e, que é função das ações
atuantes e seus efeitos.

ABSTRACT

This paper presents the criteria used to assign limiting values for the
instrumentation of concrete, earthfill and rockfill dams from Ilha Solteira,
Jaguari, Eng°. Souza Dias (Jupiá) and Paraibuna hydropowerplants and
Paraitinga dam, owned by CESP - Companhia Energética de São Paulo. The
criteria indicates that “attention” or “alert” conditions are reached when
reference values for readings are exceeded or, when measurements start to
indicate a tendency that is different from a pattern established along the years.

1
1 - INTRODUÇÃO

Estabelecer valores admissíveis de deslocamentos e pressões piezométricas é


tarefa bastante complexa que precisa contemplar condições de estabilidade e
tensões desenvolvidas na estrutura, para diversas hipóteses de solicitação.
Este trabalho tem como finalidade apresentar os critérios adotados para a
fixação de valores limites da instrumentação civil de barragens da CESP -
Companhia Energética de São Paulo, definidos conjuntamente entre esta e a
THEMAG, empresa contratada para a prestação de serviços de reavaliação
dos valores limites da instrumentação de auscultação das barragens de
concreto, terra e enrocamento, da CESP.

As barragens que foram objeto deste trabalho, Jaguari, Paraibuna, Paraitinga,


Eng°. Souza Dias (Jupiá) e Ilha Solteira, foram construídas há cerca de 30
anos ou mais e possuem um registro histórico de comportamento, seguindo as
recomendações de controle , quando da elaboração dos projetos, através de
inspeções periódicas efetuadas pela CESP e através da instrumentação de
auscultação nelas instalada.

Este registro histórico indica, na sua quase totalidade, que as estruturas


apresentam comportamento estável, tanto no que diz respeito a deslocamentos
como a subpressão. Ademais, as indicações da instrumentação, em geral, são
valores de grandeza muito reduzida, com certeza muito aquém de qualquer
valor admissível que fosse estabelecido. Logo, a fixação de valores limites
muito além dos observados, historicamente, poderiam não alertar para alguma
alteração de comportamento que ocorresse em determinado instrumento ou
conjunto de instrumentos, levando a um adiamento da tomada de ações de
investigação da ocorrência e de prevenção de algum problema maior. Cumpria,
portanto, estabelecer valores limites que impedissem tal situação.

2 - FINALIDADES DA INSTRUMENTAÇÃO

A instrumentação tem como objetivos a mensuração das ações atuantes na


estrutura ou seus efeitos. Seu propósito principal é o de fornecer dados que
auxiliem na avaliação da segurança de uma estrutura, através de seu
desempenho ao longo do tempo e que possibilitem a detecção precoce de
problemas potenciais. Seu objetivo secundário é o de permitir a comparação do
comportamento da estrutura com o esperado pelo projeto. Instrumentos
convenientemente instalados, leituras realizadas de maneira correta e
avaliações adequadas realizadas nas épocas apropriadas são fundamentais na
determinação do desempenho de uma barragem.

A maioria das ruínas ocorridas em obras construídas pelo ser humano,


provavelmente, poderiam ter sido evitadas caso os comportamentos destas
estruturas tivessem sido inspecionados, monitorados e analisados
continuamente e, se medidas corretivas adequadas tivessem sido adotadas a
tempo.

2
Cada barragem representa uma situação única e requer uma solução individual
para seu projeto de instrumentação. Por isto, o fato de algumas barragens
existentes possuírem pouca ou nenhuma instrumentação não é, em absoluto,
sinal de que um sistema de auscultação deva ser instalado. No entanto,
quando os instrumentos adequados são instalados para avaliação da
segurança, é vital que os mesmos sejam lidos e interpretados dentro das
rotinas estabelecidas, pois podem fornecer informações valiosas sobre o
desempenho das estruturas e suas condições de segurança.

O fato de existir instrumentação instalada numa barragem não garante que os


problemas ou anomalias que ocorrerem serão por ela detectados. Um dos
problemas comumente encontrados em quaisquer tipos de barragens diz
respeito a vazamentos: estes podem ocorrer sem que a maioria dos
instrumentos consiga medir ou identificar quaisquer anormalidades; no entanto,
a instalação de instrumento que mensure vazamentos (medidor de vazão)
possibilitará um acompanhamento de sua evolução, podendo indicar alguma
deficiência mais séria (caso de aumentos exagerados de vazão) ou apenas se
os valores lidos estão coerentes com o que seria esperado pelo projeto.

As três fases típicas de auscultação do comportamento de uma barragem são


as de construção, enchimento do reservatório e operação. Nas barragens de
terra e enrocamento, as ações atuantes que têm sido medidas são os
carregamentos hidráulicos provenientes dos níveis d’água que resultam em
pressões neutras e subpressões. Nas barragens de concreto além deles, às
vezes são medidos, também, os carregamentos térmicos. Os efeitos destas e
outras ações refletem-se nas medições de deslocamentos (deformações,
inclinações, etc.).

3 - INSTRUMENTAÇÃO DAS BARRAGENS DA CESP

A maior parte da instrumentação instalada nas barragens de Ilha Solteira, Eng°.


Souza Dias (Jupiá), Jaguari e Paraibuna-Paraitinga (cerca de 3.009
instrumentos instalados e 2.318 ainda em funcionamento) teve como objetivo
principal verificar as hipóteses, os critérios e os parâmetros adotados em
projeto, a adequação de métodos construtivos bem como a obediência das
estruturas de terra e concreto aos critérios de segurança correntes. Alguns
instrumentos foram instalados, nestas obras, para obtenção de informações de
peças estruturais particulares, nas quais se antecipava a possibilidade de maior
discrepância entre o esquema estático adotado para o cálculo, forçosamente
simplificado, se comparado com os recursos atualmente disponíveis e a
evolução da técnica e, o comportamento real, com vistas principalmente à
obtenção de elementos esclarecedores para futuros projetos. Outros
instrumentos foram instalados com o fito de facilitar a aquisição de
conhecimento nacional nas áreas de fabricação e instalação de aparelhos, bem
como na de análise de resultados. Uma quantidade pequena de certos
instrumentos foi instalada em alguns empreendimentos com a finalidade de
pesquisa. Finalmente, alguns foram instalados com função temporária, para
determinar a eficácia de tratamentos específicos ou ajudar na determinação de
certos parâmetros.

3
Alguns tipos de aparelhos instalados com a finalidade de pesquisa ou avanço
da técnica de instrumentação civil, simplesmente deixaram de funcionar ainda
durante a fase construtiva ou logo após a construção. Outros, que tinham como
função o monitoramento da fase construtiva e do período inicial de operação
continuam a ser lido até o presente. Determinados tipos de medições foram
extremamente úteis em fases anteriores das obras, porém não o são mais
nesta fase de operação.

Deixaram de ser essenciais para o acompanhamento sistemático e as análises


de segurança das estruturas de concreto os instrumentos indicados a seguir:

• detetores de trincas; extensômetros para concreto; tensômetros de


armadura; tensômetros para concreto; termômetros; extensômetros de
grande base.

Estão diretamente relacionados com a segurança das estruturas de concreto


os seguintes instrumentos:

• piezômetros elétricos e de tubo; medidores de vazão; extensômetros de


hastes; pêndulos diretos e invertidos; medidores de junta; bases de
alongâmetro.

Nas barragens de terra existem inclinômetros e medidores de recalque. Estes


foram muito úteis durante as fases de construção e enchimento do reservatório
mas, atualmente, estão com comportamento quase estabilizado, não podendo
ser classificados como de suma importância para o acompanhamento da
segurança destas estruturas, embora devam ter um acompanhamento
periódico. São fundamentais para o acompanhamento da segurança das
barragens de terra:

• piezômetros e medidores de vazão.

4 - CRITÉRIOS PARA FIXAÇÃO DE VALORES LIMITES

4.1 - GENERALIDADES

O estabelecimento de valores limites para qualquer instrumento de medição,


seja de uma grandeza física ou química é uma das metas que se procura
atingir.

No caso das barragens da CESP, os projetos realizados nas décadas de 1960


e 1970 adotaram os critérios que normalmente eram empregados na época e
que sofreram algumas modificações para barragens construídas nas décadas
de 1980 e 1990.

Não era costume, na época, a fixação determinística de valores limites


máximos para a maioria dos instrumentos instalados não só pelas dificuldades
de se realizar esta operação através dos procedimentos de cálculo, então

4
disponíveis, como também pela falta de representatividade que tais valores
poderiam apresentar. Em geral, os únicos efeitos de ações que possuíam
limites bem definidos eram as subpressões e temperaturas em estruturas de
concreto: as primeiras a partir de diagramas elaborados com base nos critérios
estabelecidos pelo Bureau of Reclamation, dos EUA e as segundas a partir de
estudos de propagação térmica realizados pelo método dos elementos finitos.

Nas barragens de terra, no máximo, fixavam-se níveis limites para instrumentos


instalados no dreno horizontal em função de estudos de estabilidade.

Às vezes, alguns instrumentos eram brindados com estimativas de valores de


referência de leitura, baseadas em casos históricos similares, mas raramente
se chegava a impor previamente ao enchimento do reservatório um limite
máximo, seja de atenção, alerta ou emergência, que indicaria uma situação de
insegurança da barragem.

Assim, do ponto de vista de segurança da estrutura os únicos instrumentos


instalados que possuem um limite máximo definido em projeto, para as
barragens mencionadas, são os piezômetros colocados nas fundações das
estruturas de concreto das UHE Eng°. Souza Dias ( Jupiá) e UHE Ilha Solteira.
Infelizmente, no caso de barragens, não é possível aplicar-se valores limites
estatísticos obtidos a partir de um universo de barragens construídas, visto
que, cada unidade tem comportamento ímpar e que reflete as situações
específicas do projeto e da construção, além de materiais empregados,
condições das fundações, aspectos ambientais, entre diversos outros fatores.

Os modelos e cálculos que normalmente podem ser empregados são:

• Determinísticos

Desde que se disponha dos projetos completos, da geometria das


estruturas, das cargas reais atuantes, das propriedades dos materiais das
estruturas e suas fundações.

• Estatísticos

Desde que se disponha de uma série histórica razoável de medições das


ações e seus efeitos.

• Híbridos

Desde que haja dados para a estimativa de um dos componentes


referente a um dos efeitos medidos, embora não haja registros para se
estimar os outros componentes.

Nenhum destes modelos é perfeito e sua utilização deve ser bem criteriosa.
Uma análise efetuada, pela Themag, em todos os instrumentos mostrou que a
grande maioria das leituras apresentava valores coerentes sendo mínimos os
casos que podem ser classificados como de leituras errôneas.

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Avaliações das condições de estabilidade e padrões de percolação,
considerando-se as leituras dos instrumentos, mostraram adequada situação
de segurança estrutural.
Por estas razões optou-se pelo uso do modelo estatístico para a fixação de
“Valores de Referência de Leituras da Instrumentação”.

Concluiu-se, também, que a fixação de valores para caracterizar “Limites de


Alerta” e/ou de “Emergência” de todos os instrumentos carece de significado
para as barragens em pauta. O critério recomendado, pela Themag e
explicitado mais adiante prevê que “Situações de Alerta” ou “Atenção” são
atingidas quando os Valores de Referência de Leituras são ultrapassados ou
quando as medições indicam o início de uma tendência que foge do padrão
estabelecido ao longo do tempo e que é função das ações atuantes e seus
efeitos.

4.2 - CRITÉRIOS ESTATÍSTICOS

4.2.1 - Conceituação Utilizada

Levando em conta que as barragens da CESP, objeto deste estudo, têm mais
de 30 anos de construção e operação, possuindo uma extensa série histórica
de leituras, praticamente ininterruptas (exceto em poucos casos), que retratam
as condições por que passaram e sabendo através da análise de relatórios e
inspeções que o comportamento das mesmas é normal, decidiu-se empregar a
estatística como ferramenta nestes estudos. Uma das hipóteses básicas foi a
de que, se os valores medidos pelos mesmos instrumentos permanecerem
variando dentro de uma determinada faixa, ao longo do tempo, mantendo-se
todas as outras condições idênticas às passadas, o comportamento das
estruturas continuará dentro da normalidade. Outras duas premissas foram de
que os valores medidos obedecem a uma distribuição normal e o grau de
confiança deve ficar entre 70% e 100%.
Os conceitos básicos estatísticos utilizados contemplaram: distribuição
contínua; distribuição normal ou de Gauss; distribuição “t“ de Student; intervalo
de confiança; testes de hipótese e significância (teste F); regressão linear
simples e correlação; regressão linear múltipla e correlação.

4.2.2 - Critério Estatístico para Adoção de Valores de Referência

Foram adotados limites que garantissem que pelo menos 95% das leituras da
série histórica estivessem dentro da faixa (Figura 1 e 2).

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FIGURA 1 – Distribuição com intervalos de aceitação e rejeição para um grau
de confiança.
Na Figura 1, tem-se:

(1-a) – área sob a curva que delimita a região de aceitação, para um


determinado grau de confiança.
a – área sob a curva que representa o total da região de rejeição – (área
hachurada)
a/2 – área sob a curva que representa a região de rejeição da direita e região
de rejeição da esquerda
Para um determinado grau de confiança a região de aceitação encontra-se
delimitada no eixo das abscissas, por “ µ - eo “ e “ µ + eo “ , onde:
“ µ “ = média dos dados do estudo
eo = Pr . Sd (Sd é o desvio padrão e Pr é um valor que depende do grau de
confiança adotado e do número de dados do estudo em questão).

Para um grau de confiança igual a 95%, ou seja (1- a), na Figura 1, e um


número de dados superior a 120, o valor de Pr, tabelado (Student), é de 1,960.
Se for mantido o grau de confiança, mas o número de dados estiver no
intervalo entre 30 e 60, o valor de Pr foi adotado como 2,021. Este valor
corresponde, na realidade, a um número de dados igual a 40 e é intermediário,
na tabela de Student, entre os valores de 30 (2,042) e 60 (2,000). Houve
consenso de que as diferenças seriam insignificantes, para os casos
analisados.

FIGURA 2 - Distribuição com intervalos de aceitação e rejeição, para um grau


de confiança.

Na Figura 2, para um grau de confiança igual a 95%, os limites do intervalo de


aceitação “X 1” e “X 2” são:

X 1 = µ – (1,960 . Sd) e X 2 = µ + (1,960 . Sd) para um número de dados do


estudo superior a 120
Ou,

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X 1 = µ – (2,021 . Sd) e X 2 = µ + (2,021 . Sd) para um número de dados do
estudo entre 30 e 60.

Aplicando esta analogia à série história das leituras dos instrumentos do


estudo, o intervalo de aceitação é o intervalo compreendido pelas linhas
chamadas de Valores de Referência, Superior ou Inferior. A Figura 3, a seguir,
mostra como exemplo o gráfico da série histórica das leituras de um
piezômetro da fundação de estrutura de concreto da Usina Ilha Solteira, ao
longo de 16 anos, onde podem ser observadas duas linhas paralelas ao eixo
das abscissas, representando o limite superior e inferior. Dada a escolha de
95% como grau de confiança, no mínimo 95% das leituras devem se encontrar
entre estas duas linhas, portanto dentro do intervalo de aceitação. Os valores
que saírem deste intervalo merecem especial atenção, não querendo
representar, necessariamente, que a estrutura se encontra em perigo, devendo
ser seguidas as recomendações constantes do item “Situações de Alerta”,
descrito adiante.

UHE ILHA SOLTEIRA - PZ 219

282
Cota piezométrica (m)

280

278

276

274

272

270
14/11/1984 11/8/1987 7/5/1990 31/1/1993 28/10/1995 24/7/1998 19/4/2001

Período

Cota Piezométrica (m) Valor referência superior = 276,89 m


Valor referência inferior = 271,71 m

FIGURA 3 – Série histórica de leituras de um piezômetro de fundação de


estrutura de concreto, com as linhas representando os Valores de Referência
Superior e Inferior, delimitando o intervalo de aceitação.

4.2.3 - Metodologia Aplicada

O roteiro seguido para a análise estatística dos dados de instrumentação das


barragens de Ilha Solteira, Jaguari, Eng°. Souza Dias (Jupiá), Paraibuna-
Paraitinga, bem como seus diques, começou com a representação gráfica da
série histórica de leituras de cada instrumento, inspeção visual dos gráficos à
busca de traços marcantes, tendências, oscilações sazonais, oscilações
associadas a eventos relevantes, enfim, toda e qualquer característica que
pudesse servir de orientação para a análise estatística.

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Foram efetuadas análises de correlação das leituras com as ações atuantes, a
saber: nível d’água montante, nível d’água jusante, diferença de nível d’água
entre montante e jusante e temperatura. Para alguns instrumentos, tais como
os piezômetros e medidores de vazão, foram examinadas as correlações das
leituras com o nível d’água de montante, com o nível d’água de jusante e com a
diferença de nível d’água (montante-jusante).

Para outros, tais como os pêndulos diretos e invertidos, foram examinadas


correlações múltiplas com os níveis d’água e temperatura e tentou-se, em
alguns casos verificar se havia correlação com as deformações sofridas pelos
extensômetros de hastes instalados no Vertedouro de Superfície da barragem
de Ilha Solteira.

A Figura 4 mostra um exemplo de correlação obtida para um dos pêndulos


diretos e sua comparação com os valores medidos. A equação de correlação,
neste caso, foi:

d = - 2,566740 - 0,186390 (Nam-Naj) + 0,412306 T(30) (1)

onde “d” é o deslocamento na direção montante-jusante, Nam e Naj são os


níveis d’água montante e jusante, T(30) é a média da temperatura dos trinta
dias anteriores à realização da leitura e que resultou em melhor coeficiente de
correlação (0,89).

UHE ILHA SOLTEIRA - PD 405

3,00
2,00
Mont/Jus (mm)
Deslocamento

1,00
0,00
-1,00
-2,00
-3,00
-4,00
14/11/1984 11/8/1987 7/5/1990 31/1/1993 28/10/1995 24/7/1998 19/4/2001

Período

Deslocamento Mont/Jus (mm) Deslocamento Mont/Jus calculado (mm)


Valor referência superior = 1,87 mm Valor referência inferior = - 3,30 mm

FIGURA 4 – Comparação entre valores medidos e valores calculados a partir


de correlações, para pendulo direto da UHE Ilha Solteira

Em todos os casos foram feitos testes estatísticos da significância das


correlações, com análise não apenas do coeficiente de determinação mas
também do fator de significância (teste F). Em alguns casos selecionados,
foram analisadas as leituras de instrumentos destinados a medir os mesmos
efeitos (subpressões, por exemplo) situados nas mesmas posições em locais
distintos.

9
Nas barragens em estudo, a maioria dos aparelhos indica ou uma estabilização
de leituras (Caso 1) ou variações em consonância com as oscilações do nível
d’água do reservatório ou com a temperatura ambiente (Caso 2).

Esse comportamento regular e dentro das expectativas está ocorrendo há


muito tempo. É mais sensível para o acompanhamento do comportamento do
conjunto estrutura/instrumento, efetuar-se a análise estatística do histórico dos
registros, a qual permite indicar parâmetros característicos de cada
instrumento.

Em função dos dois casos acima apresentados, há duas linhas


complementares de tratamento estatístico que precisam ser utilizadas para a
definição dos valores limites máximo e mínimo de referência.

Na primeira linha de tratamento, de aplicação genérica, considera-se que a


média e o desvio padrão das leituras, calculados a partir de uma grande
amostra de dados colhidos durante longo período de tempo, são parâmetros
que refletem fielmente o comportamento do instrumento e podem, portanto, ser
diretamente utilizados para o estabelecimento de valores de referência, entre
os quais se enquadrem determinadas porcentagens dos dados historicamente
registrados.

Na segunda linha de tratamento, utilizada principalmente com piezômetros,


quando as leituras apresentaram variações significativas e com elevada
correlação com o nível d’água do reservatório, é necessário vincular os valores
também às ações (níveis do reservatório, por exemplo). Assim, a partir do
tratamento estatístico dos dados históricos os valores de referência são
estabelecidos, em função do nível d’água (de acordo com as correlações
identificadas).

De acordo com o tipo de instrumento foram estudadas diversas correlações


possíveis, não somente com o nível d’água de montante e com o de jusante,
mas também com a diferença entre eles, com a temperatura ambiente, com a
temperatura local do instrumento, etc.

Cabe ressaltar que os piezômetros de tubo, quando instalados em materiais de


baixa permeabilidade, apresentam um tempo de resposta retardado em relação
à variação da solicitação (nível d’água do reservatório). Esse fato, muitas
vezes, gera um coeficiente de correlação baixo entre a leitura do instrumento e
a ação. Em tais situações foi investigada a defasagem que maximizava a
correlação e, sempre que essa correlação se revelou significativa, foram
acrescentados os limites de acordo com o Caso 2.

No caso da temperatura ambiente, em virtude de ela necessitar de algum


tempo para atuar em toda a estrutura, foram investigadas correlações com as
médias dos 30, 60 ou 90 dias anteriores à leitura.

As correlações estudadas que apresentaram valor do coeficiente de correlação


linear “r” menor que 0,7 não foram consideradas, pois tais correlações explicam
apenas cerca de 50% das variações observadas nas leituras (r² = 0,49).

10
Também foram rejeitadas correlações cujo fator de significância “F”, fosse
incompatível com a hipótese de significância da correlação para o nível
adotado de 5% (100% - 95%).

Adotaram-se limites que garantissem que, pelo menos, 95% das leituras
históricas estariam dentro da faixa.

Os valores limites assim estabelecidos (chamados Valores de Referência de


Leitura) foram calculados através de expressões matemáticas para cada um
dos casos anteriormente mencionados.

• Caso 1 – Valores de referência (VR) estabelecidos a partir da média e


desvio padrão das leituras.

Calculados a média e o desvio padrão das leituras, a partir deles estabeleceu-


se um intervalo de 95% de confiança para a média das leituras. Os limites
desse intervalo são os valores de referência procurados. Esses limites foram
obtidos somando à media ou dela subtraindo o resultado da multiplicação do
desvio padrão pelo coeficiente da distribuição “t” de Student associado à
probabilidade escolhida. Adotando-se 95% para o intervalo de confiança, esse
coeficiente será 1,96 para um número de leituras superior a 120 (caso da
maioria dos instrumentos analisados). A única exceção é referente ao estudo
dos extensômetros de hastes instalados na UHE Eng? . Souza Dias (de Jupiá),
onde o número de leituras situava-se entre 40 e 60 e o coeficiente 2,021 foi
adotado para multiplicar o desvio padrão. As expressões matemáticas para a
obtenção dos limites, foram as seguintes:

VR = VM + 1,96 Sd (uso geral) ou


VR = VM + 2,021 Sd (uso nos extensômetros de hastes da UHE Jupiá), onde:
VR - são os valores de referência superior e inferior das leituras;
VM - é o valor médio dos registros históricos do instrumento;
Sd - é o desvio padrão dos registros históricos do instrumento.

Os valores limites foram calculados para todos os instrumentos envolvidos na


segurança das estruturas de concreto e para aqueles que apresentavam
pequena magnitude de variação e baixa correlação com os níveis d’água, no
caso das estruturas de terra e suas fundações.

A Figura 5 exemplifica um dos casos analisados.

• Caso 2 - Valores de referência estabelecidos a partir da correlação entre


o nível d’água do reservatório, a leitura e o fator erro da correlação.

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PARAITINGA - PZ-10 - VALORES DE REFERÊNCIA

641
640,5
Cota Piezométrica (m)

640
639,5

639 P

638,5
638
637,5
637
698 700 702 704 706 708 710 712 714 716
NA Montante (m)

Cota Piez. (m) Limite Sup. Limite Inf. Linear (Cota Piez. (m) )

FIGURA 5 – Valores de Referência obtidos a partir de correlação entre cotas


piezométricas e níveis d’água montante, de piezômetro da barragem de terra
de Paraitinga, entre 1986 e 2000.

Também, neste caso foram propostos limites que garantissem que 95% dos
registros históricos se enquadrassem na faixa estabelecida. A diferença em
relação ao caso anterior consistiu no fato de que a faixa foi definida em relação
à correlação entre as leituras e o nível d’água do reservatório.

4.3 - VALORES DE REFERÊNCIA DE LEITURAS

Foi feita uma análise da série histórica da instrumentação, com individualização


de tendências e variações sazonais, e identificadas as características do
processo estacionário resultante (essencialmente desvio padrão). A partir
destas análises foram estabelecidos critérios técnicos e estatísticos para
fixação de níveis de referência.

Os Valores de Referência de Leituras, máximos e mínimos, foram


determinados a partir de critérios estatísticos de tal maneira que 95% das
leituras históricas ficassem dentro da faixa histórica. Em alguns casos verificou-
se que estes níveis não poderiam ser estritamente estatísticos, pois existem
limites físicos para as leituras de alguns instrumentos (como os medidores de
vazão, por exemplo) e, além disto, em alguns casos mesmo desvios
“estatisticamente significativos” podem ter impacto relativamente pequeno
sobre a segurança da obra.

Os Valores de Referência de Leituras têm como propósito orientar a CESP no


processo de análise do comportamento dos diversos instrumentos instalados
em suas barragens. Tem sido úteis para os observadores que podem,
12
doravante, verificar ao mesmo tempo em que realizam as medições dos
aparelhos se o valor encontra-se dentro da faixa considerada como adequada.
Esta adequação advém do fato de que os estudos efetuados comprovam que
as estruturas inspecionadas comportam-se de acordo com o que seria
esperado, sob o aspecto ações atuantes e seus respectivos efeitos. Tem sido
úteis para o corpo técnico da CESP nas análises preliminares sobre o
comportamento das estruturas, caso sejam constatadas variações repentinas
de valores, nas verificações de consistências com dados anteriores, na
indicação de algum erro de medição e na ocorrência de alguma anomalia do
instrumento ou da estrutura.

Em situações normais as leituras dos instrumentos deverão estar próximas às


obtidas no passado, sob mesmas condições de carregamento. A utilização das
equações de correlação obtidas pode ser muito útil nas verificações
preliminares. O comportamento das barragens deve seguir o padrão
estabelecido já há muito tempo e em alguns casos certas ocorrências devem
ser levadas em consideração nas análises: influência da água de chuva nas
medições de vazão das barragens de terra, variações térmicas nas infiltrações
através de fissuras em estruturas de concreto, etc.

4.4 - SITUAÇÕES DE ALERTA

Foram consideradas Situações de Alerta, a partir de leituras de instrumentos,


aquelas onde ocorram:

• medição de qualquer instrumento relacionado como importante para as


avaliações de segurança da estrutura fora da faixa de Valores de
Referência e manutenção deste valor mesmo após terem sido tomadas as
precauções normais de verificação de consistência de leitura (tais como
repetição da operação por intermédio de outro técnico, verificação da
integridade do instrumento e do aparelho de medição, etc) ;

• manutenção do valor médio de cinco leituras consecutivas efetuadas no


mesmo instrumento, com espaçamento semanal entre elas, próximo da
medida considerada anômala;

• alteração na Tendência de Leitura, seja de aumento ou diminuição de


valor medido. Esta alteração, em geral, pode ser notada visualmente a
partir da elaboração de gráficos temporais da grandeza medida, tanto a
longo prazo quanto de curto prazo. Caso a Tendência tenha se
modificado, mesmo que os Valores de Referência de Leitura não tenham
sido ultrapassados, configura-se um caso de Situação de Alerta.

No caso dos piezômetros instalados nas estruturas de concreto das UHE Ilha
Solteira e Eng?
. Souza Dias (Jupiá), além dos Valores de Referência de Leituras
foram também fixados, deterministicamente, “Limites de Alerta”, configurando
uma faixa de variação.

13
As linhas dos “Limites de Alerta” foram definidos, para dois pares de valores
dos níveis d´água de montante (Hm) e de jusante (Hj) levando em
consideração o efeito da existência e funcionamento efetivo dos drenos para
redução das subpressões.

O nível piezométrico registrado pelos instrumentos não deve em princípio


ultrapassar, individualmente, a linha do “Limite de Alerta” resultante da
combinação dos níveis d´água de montante e jusante no dia da leitura. Desvios
poderão ser tolerados desde que o diagrama total numa determinada seção
possua área inferior àquela definida pelo “Limite de Alerta“ correspondente.
Esta confirmação, entretanto, constitui uma Situação de Alerta, exigindo
conseqüentemente, intervenções para que seja restabelecida a normalidade.

A análise de uma Situação de Alerta pressupõe além de verificações da


instrumentação, aumento das freqüências de leituras e de interpretação,
inspeções periódicas detalhadas dos locais e verificações sobre o
funcionamento das estruturas como um todo. Caso sejam detectados
problemas estes deverão ser corrigidos.

Às vezes acontece de um instrumento indicar um valor que, se verdadeiro,


representa uma séria anomalia da barragem. Medidas urgentes (tais como as
indicadas) devem ser implementadas de modo a se evitar o acionamento de
Situações de Emergência.

Como o critério estatístico leva em consideração o histórico de um determinado


período é conveniente que os Valores de Referência sejam reavaliados a cada
cinco anos, caso tenham ocorrido variações significativas de níveis d’água ou
de outras ações atuantes sobre as estruturas. Se a faixa de variação das ações
não se alterar ao longo do tempo esta reavaliação deverá ser realizada, no
mínimo, a cada dez anos.

Toda Situação de Alerta deve ser imediatamente analisada de modo que nunca
seja necessário o acionamento de uma Situação de Emergência.

4.5 -SITUAÇÕES DE EMERGÊNCIA

Situações de Emergência podem ser detectadas caso inspeções periódicas


efetuadas indiquem fatos extraordinários (surgências que possam levar a
piping, trincas inesperadas, problemas na interface de equipamentos
mecânicos com as estruturas civis, etc) ou acontecimentos inusitados (sismo,
galgamento, cheia excepcional, etc).

No caso dos piezômetros instalados nas estruturas de concreto das UHE Ilha
Solteira e Eng? . Souza Dias (Jupiá), foi fixado, deterministicamente, um “Limite
de Emergência” como uma linha definida a partir do critério de projeto utilizado
para verificar a estabilidade dos blocos estruturais.

Para efeito de verificação da segurança a “Linha de Emergência” foi traçada a


partir dos níveis mínimos de montante (Hm) e de jusante (Hj), considerando,

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em correspondência da galeria de montante, redução de 2/3 da diferença
(Hm–Hj).

A configuração de emergência denota uma situação em que os fatores de


segurança da estrutura estão muito próximos daqueles utilizados no projeto,
como referência. Embora ainda não ocorra risco imediato para a estabilidade
da estrutura, a situação é indesejável e deve ser imediatamente corrigida.

Não se prevê que um instrumento, localizado em qualquer uma das barragens


da CESP em questão, indique valores que configurem uma “Situação de
Emergência”, exceto se uma “Situação de Alerta” tiver sido identificada e
nenhuma providência tenha sido tomada. O corpo técnico da CESP está
suficientemente apto para reconhecer quando ocorre um ou outro caso e
dispõe da autonomia e ferramental necessário para tomar as precauções
necessárias com a maior brevidade possível.

5 - CONCLUSÕES

• Quando instrumentos adequados são instalados para avaliação da


segurança de uma barragem, é vital que os mesmos sejam lidos e
interpretados dentro de rotinas estabelecidas;

• Recomenda-se que um dos critérios empregados para análise dos


resultados da instrumentação e avaliação da segurança de barragens
enfoque as denominadas “Situações de Alerta” ou “Situações de
Atenção”, que são atingidas quando os “Valores de Referência de
Leituras” são ultrapassados ou quando as medições indicam o início de
uma tendência que foge do padrão estabelecido ao longo do tempo e que
é função das ações atuantes e seus efeitos;

• Os Valores de Referência de Leituras tem como propósito orientar o


processo de análise do comportamento dos diversos instrumentos.
Permitem verificar, ao mesmo tempo em que se realizam as medições
dos aparelhos, se o valor encontra-se dentro da faixa considerada como
adequada. Tem sido úteis para o corpo técnico da CESP nas análises
preliminares sobre o comportamento das estruturas, caso sejam
constatadas variações repentinas de valores, nas verificações de
consistências com dados anteriores, na indicação de algum erro de
medição e na ocorrência de alguma anomalia do instrumento ou da
estrutura.

6 - AGRADECIMENTOS

Os autores agradecem as autorizações da CESP e da THEMAG para a


divulgação de informações sobre as usinas de Ilha Solteira, Jaguari, Eng?
.

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Souza Dias (Jupiá), Paraibuna e Paraitinga, neste trabalho. Agradecem às
importantes contribuições dos engenheiros Cláudio Casarin, Lia Marina Knapp,
Kenia Damasceno Kimura, Manfredo de Vicenzo e Marcelo Cardoso Gontijo.
Especial agradecimento ao Prof. Dr. Waldemar Coelho Hachich pelo valioso
suporte na parte estatística do trabalho.

7 – REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1. Comitê Brasileiro de Barragens – “Auscultação e instrumentação de


barragens no Brasil”, Junho/1995.

2. ICOLD – “Dam Monitoring”, Bulletin 60, 1988

3. ICOLD – “Monitoring of dams and their foundations”, Bulletin 68, 1989.

4. ICOLD – “Improvement of existing dam monitoring”, Bulletin 87, 1992.

5. Cruz, P.T – “100 Barragens Brasileiras”, 1996.

6. Themag – Diversos relatórios sobre a reavaliação, complementação,


fixação de valores limites e fixação de freqüências de leituras da
instrumentação civil das barragens da CESP – Nov/2000.

7. CESP- Sistema informatizado de segurança de barragens da CESP-


SICESP.

8. CESP- Relatórios periódicos de auscultação emitidos pela CESP.

9. CESP – Projetos executivos das estruturas.

10. Cliff T. Ragsdale - Spreadsheet Modeling and Decision Analysis – 3 rd


Edition – 2001.

11. Thomas H. Wonnacott and Ronald J. Wonnacott – Introductory Statistics for


Business and Economics – Second Edition – 1977.

12. Pedro Luiz de Oliveira Costa Neto – Estatística – 1981.

13. Davis M. Levine, Mark L. Berenson and David Stephen – Estatística: Teoria
e Aplicações – 1998 / 2000.

14. Kuperman,S.C., Cifu,S., Moretti,M.R., Re,G., Pínfari,J.C., Carneiro,E.F.,


Rossetto,S.L.G., Reigada,R.P. “Reavaliação da instrumentação de
auscultação instalada em barragens da CESP”, XXV SNDB, Salvador,
2003.

16