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mentes que me encarregastes de transmistir a outros; em breve, infe-

lizmente, destinados à extinção, pelo choque das doenças e dos modos


de vida - para eles, mais horriveis ainda - que lhes trazemos; e pe-
rante os quais contrai uma divida da qual não estaria liberado, mesmo
se, no lugar em q!le me colocastes, pudesse justificar o carinho que eles
me iILspiram e o reconhecimento que lhes dedico, ao continuar a mos-
trar-me tal como fui entre eles, e tal como, entre vós, não quero deixar
de ser: seu aluno, e sua testemunha.

JEAN-JACQUES ROUSSEAU,
FUNDADOR DAS CIltNCIAS no HOMEM:I<

o convite a um etnólogo para esta comemoração, não lhe faz so-


mente honra insigne, razão que o torna pesscalmente reconhecido: per-
mite também a urna jovem ciência render homenagem ao gênio de um
homem do qual se teria podido ac:cdita,' que urna legoião copiesa, por
já incluir a literatura, a poesia, a filosofia, a história, a moral, a ciên-
cia política, a pedagogia, a lingüistica, a música, a botânica - e eu
iria além -, bastasse para glorificá-Ia em todos os aspectos. É que
Rousseau não foi somente um obse:vador penetrante da vida campestre,
um leitor ap!'Jxonado dos livros de viagem, um analista atento dos cos-
tumes e das crenças exóticas: sem receio de ser desmentido, pode-se
afirmar que ele havia concebido, querido e anunciado a etnologia um
século inteiro antes que ela fizesse a sua aparição, colocando-a, de pron-
to, entre as ciência.s naturais e humanas já constituidas. Ele teria mes-
mo adivinhado de que forma prática - graças ao mecenato individual
ou coletivo - ser-lhe-ia permitido dar os primeiros passos.
E<5ta profecia, que é, ao mesmo tempo, urna defesa e um programa,
ocupa uma longa nota do Dtscours sur l'origine de l'inégaltté 1, de que

• Discurso pronunciado em Genebra a 28 de junho de 1962 por oca.'iião


das cerimônias pelo 2509 aniversário do nascimento de Jean-Jacques
Rousseau. O texto apareceu primeiro em: Jean-Jllcques lLousseau, pu-
blicado pela Universidade operária e a Faculdade tie Letras da Univer-
sidade de Genebra, Neuchátel. La Baconniére, 1962
1 Discurso sobre a origem da desigualdcuie. (N. T,).
passarei a citar alguns trechos, apenas para justificar a presença. de clareza e uma conClSao admiráveis, o objeto próprio do etnólogo doa
minha disciplina à cerimônia de hoje: ojetoa do moralista. e do historiador:

Tenho dificuldade de conceber, escrevia Rousseau, como num Quando se quer estudar os homens, é preciso olhar perto de
século onde as pessoas se vangloriam de conhecimentos gran- si; mas para estudar o homem, é preciso aprender a dirigir
diosos, não existem dois homens, um que sacrifique vinte mil para longe o olhar; para descobrir as propriedades, é preciso
escudos de seus bens, outro, dez anos de sua vida para uma primeiro observar as diferenças. (Essai sur l'origine des langues3•
célebre viagem de volta ao mundo, com a finalidade de estudar capo VIII).
não só pedras e plantas, mas pelo menos uma vez, os homens
e os costumes ...
Esta regra metódica que Rousseau fixa para a etnologia e que lhe
marca o advento, permite também superar o que à primeira vista, pare-
ceria um duplo paradoxo: em primeiro lugar, que Rousseau tenha po.-
;f-. Toda a terra está coberta de nações, mas só lhes conhecemos dido, simultaneamente, preconizar o estudo dos homen(l mais dij;tante!"
os nomes, e nos atrevemos a julgar o gênero humano! Supo- mas que se tenha dedicado sobretudo ao deste homem particular que
nhamos um Montesquieu, um Buffon, um Diderot, um Con- parece o mais próximo, isto é, ele mesmo; em segundo lugar, que, em
dillac, ou homens dessa têmpera, viajando I:al"a instruir seus
compatriotas, observando e descrevendo, como eles o sabem, toda a sua obra, a vontade sistemática de identificação com o outro
a Turquia, o Egito, os Bérberes, o Império de Marrocos, a GUl- caminhe lado a lado como uma recusa obstinada da identificação consigo
!lé, o país dos Cafres, o interior da Africa e suas costas orien-
tais, os Malabares, os Mongóis, as margens do Ganges, os mesmo .. Porque toda carreira de etnólogo deve, em um momento ou
reinos àe Sião, de Pegu e da Birmãnia, a China, a Tartáüa, outro, superar estas duas contradições aparentes, que se resolvem numa
e sobretudo o Japão; depois, no outro hemisfé.io, o México, única implicação recíproca. A dívida do etnólogo aumenta porque Rous-
o Peru, o Chile, as terras de Magalhães. sem esquecer os Pa-
tagônios verdadeiros ou falsos, o Tucumã,o Paraguai, se pos- seau não só situou com precisão extrema, no quadro dos conhecimentos
srvel o Brasil, enfim as Caralbas. a }o'lórlda e tonas as regiões humanos, uma ciência ainda por nascer, mas com sua obra, pelo tem-
selvagens. Seria a viagem mais importante de todas, e a fa-
zer-se com o máximo ne cuidado. Suponhamos que estes novos peramento e caráter nela expressos, e por cada particularidade, por sua
Hércules, de retorno dessas viagens memoráveis, escrevessem, pessoa e por seu ser, preparou também para o etnólogo o conforto fra-
sem pressa, a história natural, moral e política do que viram:
um mundo novo surgiria, então, de sua pena, e assim apren- ternal de uma imagem na qual este se reconhece. Uma imagem que o
deríamos li. conhecer o nosso... (Discours sur l'origine de ajuda a compreender-se melhor, não como pura inteligência contempla-
Z'inégalité, nota 10). tiva, mas como agente involuntário de uma transformação operada atra-
vés dele. l1: esta transformação que toda a humanidade aprende a sen-
Não será a etnologia contemporânea, seu programa e seus métodos,
tir em Jean-Jacques Rousseau.
que acabamos de traçar aqui? Não são os nomes ilustres citados por
Rousseau os mesmos que os etnógrafos de hoje tomam para modelo'>, Cada vez que está em seu campo de ação, o etnólogo vê-se abando-
sem pretender igualá-los, mas convencidos de que somente seguindo-lhes nado a um mundo onde tudo lhe é estrangeiro, freqüentemente hostil.
o exemplo poderão conferir à sua ciência um respeito que lhe foi, du- Não tem senão este eu, do qual dispõe ainda, para permitir-lhe sobre·
rante muito tempo, regateado? viver e fazer sua pesquisa; mas um eu fisica e moralmente abatido pela
fadiga, a fome, o desconforto, o choque com os hábitos adquiridos, o
Rousseau não se limitou a prever a etnologia: ele a fundou. Inicial-
6urgimento de preconceitos dos quais nem sequer suspeitava; e que se
mente de modo prático, escrevendo este Discours sur l'orig.ine et Zes
descobre a si mesmo, nesta conjuntura estranha, paralitico e estropiado
fondements de l'inégalité parmt les hommes2. Nele se pode ver o pri-
por todas as dificuldades de uma história pessoal responsável. de saída.
meiro tratado de etnologia geral, onde se coloca o problema das relações
por Sua vocação, mas que, além do mais, afetará seu curso, dai para
entre a natureza e a cultura. No plano teórico, distinguindo, com uma.
diante. Na experiência etnográfica, por conseguinte, o observador colo-

2 Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os


homens. (N.T.).
ea-se como seu próprio instrumento de observação. Evidentemente, pre- modl!lcações de minha alma e de suas sucessões". E prossegue: "Fa~i
cisa aprender a conhecer-se, a obter de um si-mesm~, que se revela sobre mim, de algum modo, as operações que fazem os físicos com o ar
como outro ao eu que o utiliza, uma avaliação que se tornará parte in~ para, conhecer-lhe o estado diário". O que Rousseau exprime, por con-
tegrante da observação de outras individualidades. Cada carreira etno- seguinte, é - verdade surpreendente, se bem que a psicologia e a etno-
gráfica tem seu fundamento nas "confissões", escritas ou inconfess.adas. logia tenham-na tornado mais familiar para nós - que existe um "ele"
Mas, se podemos compreender melhor esta experiência através da- que se pensa em mim, e que me faz primeiro duvidar de que sou eu
quela de Rousseau, isto não se deve ao fato de que seu temperamento, quem pensa. Ao "que sei?" de Montaigne (que deu origem a tudo), Des-
sua história particular, as circunstâncias, colocaram-no espontaneamente cartes acreditava poder responder: sei que sou porque penso; ao que
em uma situação cujo caráter etnográfico aparece claramente? Situação Rousseau replica com um "que sou?" de solução incerta, pois esta questão
da qual ele tira logo conclusões pessoais: "Ei-Ios, portanto", diz de seus supõe que uma outra, mais essencial, se tenha resolvido: "sou?"; quando
contemporâneos, "estrangeiros, desconhecidos, nulos, afinal, para mim, a experiência intima fornece apenas este "ele", que Rousseau descobriu
pois eles o quiseram I Mas eu, destacado deles e de tudo, que sou eu? e cuja exploração lucidamente empreendeu.
Eis o que me resta descobrir" (Primeira promenade 4). E o etnógrafo po-
deria, parafraseando Rousseau. exclamar, observando pela primeira vez Não nos enganemos: nem mesmo a intenção conciliante do Vigário
os selvagens que escolheu para sua pesquisa: "Ei-Ios, portanto, estran- saboiano consegue dissimular que, para Rousseau, a noção de ideIl.~~ade
geiros, desconhecidos, nulos, afinal, para mim, pois eu o quis I E eu pessoal é adquirida por inferência e permanece marcada pela ambigill-
destacado deles e de tudo, que sou eu? Eis o que me é necessário desco- dade:
bri1 primeiro".
Porque para conseguir aceitar-se nos outros, objetivo que o etnólogo Existo ...
eis a primeira verdaàe que me atinge e à qLal s~u
forçado (sublinhado por nós~ ... ~enho um Sf'ntr-
a aquiescer
consigna ao conhecimento do homem, é necessário, primeiro, recusar-se mento próprio de minha existênci!l" ou nao a srnt~ ~enão atra-
em si mesmo. vés de minhas sensações? Eis mmha primeira duvrda, que é,
quanto ao presente, impossível de resolver.
l!: a Rousseau que se deve a descoberta deste princípio, o único sobre
o qual podem fundar-se as ciências humanas, mas que deveria permane- Mas é no ensinamento propriamente antropológico de Rousseau - o
cer inacessível e incompreensível enquanto reinasse uma filosofia que, do Discours SUl' l'origine de l'inégalité - que se deSCObre o fundamento
tendo seu. ponto de partida no Cogito, era prisioneira das pretendidas desta dúvida, que reside numa concepção do homem que coloca o outro
evidências do eu, e só podia aspirar a fundar uma fisica, renunciando antes do eu, e uma concepção da humanidade que, antes dos homens,
a fundar uma sociologia e mesmo uma biologia: Descartes acredita pas- afirma a vida.
sar diretamente da interioridade de um homem à exterioridade do mun-
do, sem ver que entre esses dois extremos se colocam sociedades, civili- Só é possível acreditar que, com a aparição da sociedade, se produ-
/
zações, isto é, mundos de homens. Rousseau que, tão eloqüentemente I ziu uma tríplice passagem - da natureza à cultura, do sentimento ao
fala de si mesmo em terceira pessoa, (às vezes, chilgando mesmo a des- conhecimento, da animalidade à humanidade: demonstração que cons-
dobrá-Ia como nos Dialogues), antecipando assim a fórmula famosa: titui o objeto do Discours -, atribuindo-se ao homem, desde a sua con-
dição maís primitiva, uma faculdade essencial que o impele a ven:::er
"eu é um outro" (que a experiência etnográfica deve averiguar, ante'!
de proceder à demonstração que lhe compete de qu.a o outro é um eu). esses três obstáculos. Em conseqüência, uma faculdade que possui, ori-
afirma-se o grande inventor desta objetivação radical, ao definir sua fi- ginal e imediatamente, atributos contraditórios, aliás precisamente nela:
nalidade que é, indica ele na primeira promenade, "de dar-me conta das que seja, ao mesmo tempo, natural e cultural, afetiva e racional, anima~
I e humana; e que, somente sob a condição de tomar-se consciente, possa
mudar de um para outro plano.
• Preferimos manter a palavra francesa por tratar-::e de referência ao
conhecido texto rousseauniano das Promenades Oit~ralm'nte. passeios). Esta faculdade, Rousseau não cessou de repeti-Io, é a piedade. pro-
(N.T.). veniente da identtftcação com um outro que não é, s6, um parente, um
próximo, um compatriota, mas um homem qualquer, a partir do fato tido próprio e o sentido figurado; o verdadeiro nome se desliga pro-
mesmo de que é~; mais ainda: um ser vivo qualquer •. a partir gressivamente da metáfora, que confunde cada ser com outros seres.
d~f~~o mesmo de que está vivo. O homem começa portanto a ~xperi-':- Quanto à música, nenhuma forma de expressão, parece, está mais
mentar-se idêntico a todos os seus semelhantes; ele não esquecerá jamais apta a recusar a dupla oposição cartesiana entre material e espiritual,
esta experiência primitiva, nem mesmo quando a expansão demográfica alma e corpo. A música é um sistema abstrato de oposições e de rela-
(que desempenha, no pensamento antropológico de Rousseau, o papel de ções, alterações dos modos da duração, cuja execução ocasiona duas con-
acontecimento contingente, que teria podido não se produzir, mas que seqüências: primeiramente a inversão da relação entre o eu e o outro,
devemos admitir que se produziu, pois a sociedade é õ) o tiver forçado pois quando eu ouço a mállica, escuto-me através dela; em segundo lu-
8: diversificar seus gêneros de vida para adaptar-se aos meios diferentes, gar, por uma inversão da relação entre alma e corpo, a música vive em
onde seu número aumentado o obrigue a espalhar-se e a saber distin- mim. "Cadeia de relações e de combinações" (Con!essions 7, livro doze).
guir-se a si mesmo, mas, somente à medida que uma penosa aprendiza- mas que a natureza nos ap,resenta encarnadas nos "objetos senslveis"
gem_ o instrua a distinguir os outros: os animais segundo a espécie, a (Rtveries 8, sétima promenade), é enfim, nestes termos que Rousseau
humanidade da animalldade, meu eu dos outros eu. A identificação, que define a botânica, confirmando que, por este meio indireto, ele aspira
consiste na al'Teensão global dos homens e dos animais Como seres sen- também a reencontrar a união do sensivel e do inteligivel, porque ela
síveis, precede a consciência das oposições: primeiro entre as proprie- constitui para o homem um estado primário, acompanhando o desper-
dades comuns; e em seguida, apenas entre humano e não humano. tar da consciência; e que não deveria sobreviver-lhe, salvo em raras e
~ exatamente o fim do Cogito que Rousseau proclama, assim, ante- precio~as ocl!tSiões.
cipando esta solução audaciosa. Porque até então, tratava-se sobretudo O pensamento de Rousseau desabrocha,-I2Ql'tanto,apartir_d~ llm
de colocar o homem fora de questão, isto é, de assegurar-se, com o hu- duplo princípio: o da identificação com o outro, e mesmo com o mais
manismo, uma "transcendance de repli" 6. Ro~seau pode permanecer "outro" de todos os outros, ou seja, um animal; e o da recusa da identifi-
teista, pois esta era a menor exigência de sua educação e de seu tempo: caçíic:>consigo mesmo, isto é, a recusa de tudo o que pode tornar o eu
mas ele arrulna definitivamente a tentativa, recolocando o homem em "aceitável". Estas duas atitudes se completam, e a segunda chega mesmo a
questão.
fundar a primeira: na verdade, eu não sou "eu", mas o mais fraco, o
• Se esta interpretação é exata, se, através da antrol'ologia., Rousseau mais humilde dos "outros". Esta é a descoberta das Confessions ...
revoluciona tão ladicalmente quanto acreditamos a tradição filosófica, Quê escreve o etnólogo, senão confissões? Pri-neiramente em seu
pJdemos compreender melhor a unidade profunda de uma obra de for- nome, como o demonstrei, pois é o móvel de sua vocação e de sua obra;
mas múltiplas, e o lugar verdadeiramente essencial de preocupações, para e nesta própria obra, em nome da sociedade que, através do oficio do
ele tão imperiosas, se bem que fossem, à primeira vista, estranhas ao etnólogo - seu emissário -, procura outras sociedades, outras civiliza-
trabalho do filósofo e do escritor: quero dizer a lingüística, a mósica, e ções, e precisamente dentre as que lhe parecem mais fracas e mais hu-
a botânica. mildes; mas procura-as para verificar até que ponto é, ela própria, "ina-
Tal como Rousseau a descreve no Essai sur Z'origine des Zangues, a ceitável": não forma privilegiada, mas uma somente destas sociedades
marcha da linguagem reproduz, à sua maneira e no seu plano, a da "outras" que se sucederam no curso de milênios, ou cuja precária diver-
humanidade. O primeiro estágio é o da identificação, aqui entre o sen- sidade atesta ainda que, também no seu ser coletivo, o homem deve
conhecer-se como um "ele" antes de ousar pretender que é um "eu".
A revolução rousseauniana, preformando e inidando a revolução
li O grifo é meu. (N. T.) .
etnológica consiste em recusar as identificações forçadas, quer seja a de
e "Transcendêr:zcia de refúgio", literalmente. A expressão "de repli" de-
s~g~ana aqUI uma m~~obra do espírito comparável a um recuo estra-
tegrco para un:a pOSlçao mais segura; no caso, o questionamento do 7 Confissões. (N. TJ.
homem se abngaria no pressuposto de uma transcendêncla não dis-
cutida. (N. C.). l! Sonhos. (N. T.) •
uma cultura a outra cultura, ou a de um individt'.o, membro de uma de humanidade ao abrigo de uma abjeta violência - pesa sobre cada um
cultura, a um personagem ou a uma função social que esta mesma cul- de nós a angústia de viver em sociedade; é agora, digo, que expondo as
tura procura impor-lhe. Nos dois casos, a cultura ou o indivíduo reivindi- taras de um humanismo decididamente incapaz de fundar no homem
cam o direito a uma identificação livre, que só se pode realizar além o exercício da virtude, o pensamento de Rousseau pode ajudar-nos \I,
do homem: com tudo o que vive e, portanto, sofre; c também aquém da rejeitar uma ilusão da qual, infelizmente somos capazes de observar em
função ou do personagem: com um ser ainda não formado, mas dado. nós e sobre nós mesmos os funestos efeitos. Pois, não foi o mito da dig-
Então, o eu e o outro, libertos de um antagonismo que só a filosofia pro- nidade exclusiva da natureza humana, que infligiu à própria natureza
curava estimular, recuperam sua unidade. Uma aliança original, enfim uma primeira mutilação, a partir da qual deveriam, inevitavelmente, se-
renovada, permite-lhes fundar juntos o nós contra o ele, isto é, contra guir-se outras?
uma sociedade inimiga do homem, e a que o homem se sente mais pre- • Começou-se por separar o homem da natureza, e por fazer com que
parado para recusar na medida em que Rousseau, com seu exemplo, en- ele constituísse um reino soberann; acreditou-se assim encobrir seu ca-
sina-lhe como evitar as insuportáveis contradições da vida civilizada. ráter maIS irrecusável, a saber, que ele é, pnmeno, um ser vivo. SJ?er-
Porque se é verdade que a natureza expulsou o homem e que a socie- manecedo-se cego para esta propriedade comum, deu-se total liberda-
dade persiste em oprimi-lo, o homem pode ao menos inverter a seu fa- de a todos os abusos. Nunca melhor que ao termo dos quatro últimos
vor os pólos do dilemfl., e buscar a sociedade da natureza para meditar, séculos de sua história, o homem ocidental pôde compreender senão
nela, sobre a natureza da sociedade. Eis, parece-me, a indissolúvel men- arrogando-se o direito de separar radicalmente a humanidade da anima11-
sagem do Contrat social 9, das Lettres sur la Botanique 10, e das Rêveries. dade. Concedendo a uma tudo o que retirava da outra, ele abria um
Sobretudo que não se veja nisto o resultado de \lma vontade timida, ciclo maldito, cuja própria fronteira, constantemente recuada, serviria
alegando uma busca da sabedoria como pretexto para sua demissão. Os pala desviar os homens dos outros homens, e para reivindicar, em pro-
contemporâneos de Rousseau não se enganaram a este respeito, e menos veito de minorias sempre mais restritas, o privilégio de um humanismo,
ainda seus sucessores: uns, percebendo que este pensamento altivo, estu CQ1:rompido logo ao n~cer, por ter buscado no amor-próprio seu princi-
existência solitária e sofrida, irradiavam uma tal força subversiva que pio e sua noção.
nenhuma sociedade lhe teria ainda experimentado o poder; outros, fa-
Somente Rousseau soube insurgir-se contra este egoismo: ele que,
zendo deste pensamento, e do exemplo desta vida, as alavancas que per-
na nota ao Discours já citada, preferia admitir que os grandes macacos
mitiriam abalar a moral, o direito, a sociedade.
da Africa e da Asia, mal descritos pelos viajantes, fossem homens de
Mas é hoje, para nós que sentimos - como Rousseau o predizia a seu uma raça desconhecida, antes de correr o risco de contestar a natureza
leitor - "o pavor dequeles que terão a infelicidade de viver depois de ti" humana em seres que poderiam possui-Ia. E o primeiro erro teria sido
(Discours), que seu pensamento toma uma suprema amplitude e que menos grave, de fato, pois o respei:o pelo outro conhpce apenas um fun-
ele adquire toda a sua grandeza. Neste mundo mais cruel para o homem, damento natural, ao abrigo da reflexão e de seus sofismas, porqu8 é an-
talvez, do que jamais foi: onde proliferam todos os procedimentos de terior a ela. Fundamento este, que Rousseau percebe, no homem, como
exterminação, os massacres e a tortura, jamais nega'ios sem dúvida, mas Uuma repugnância inata por ver sofrer um semelhante" Wiscours); mas
dos quais nós nos comprazíamos em acreditar que já não tinham impor- cuja descoberta obriga a ver um semelhante em todo ser exposto ao so-
tância, simplesmente porque se os reservava a populações distantes que frimento e possuidor, por isso, de um direito impre~eritivel à comisera-
os suportavam em nosso proveito, segundo se pretendia, e em todo o ção. P_CJ.~que,
para cada um de nós, a única esperanç3. de não ser tratado
caso, em nosso nome; agora que - próxima pelo ,:feito de uma popu- como besta ", por seus semelhantes, é de que todos os seus semelhantes,
lação mais densa que encurta o universo e não dei:r.a nenhuma porção e ele o primeiro, se sintam imediatamente como seres que sofrem e cul-
tivem, em seu foro íntimo, esta aptidão para a piedade que, no estado

• Contrato social. (N. T') .

10 Carta:! sobre Botanica. (N. 'Li.


natural, ocapa o lugar de "leis, costumes e de virtude", e sem o exercic~o calma extasiante, à. qual, cada vez que a recordo, ntlo encon-
da_.llu~l começamos a compreender que, no estado de sociedade, não tro nada comparável em qualquer dos prazeres conhecidos.
pode haver nem lei, nem costumes, nem virtude.
E~,t('célebre texto da segunda promenade encontra eco numa passagem da
Longe de oferecer-se ao homem como refúgio nostálgico, a identifi-
6étilna que, ao mesmo tempo, explica sua razão de ser: "Sinto êxtases,
cação com todas as formas de vida, começando pelas mais humildes,
a.'iOubos inexprimíveLs ao fundír-me, por assim dizer, no sistema dOI!6e-
propõe, pOltanto, à humanidade de hoje, pela voz de Rousseau, o prin-
res, ao identificar-me com a natureza inteira",
cípio de toda sabedoria e de toda ação coletivas; o único que, num mundc
Esta id~ntíftcação primitiva, cuja possibilidade é negada ao homem
em que a superpopulação torna mais difícil, porém muito mais necessário
pelo estado de sociedade, e que,esquecido de sua virtude essencial, o ho-
o respeito recíproco, poderá permitir que os hOl?ens vivam juntos e
mem já não chega a sentir, senão de maneira fortuita e por obra de cir-
construam um porvir harmonioso. Talvez este ensinamento já esteja
cunstâncias irrisórias, leva-nos ao coração mesmo da obra de ~ousseau.
contido nas grandes relígiões do Extremo-Oriente. Mas frent~ a uma
E se lhe concedemos um lugar à parte entre as grande3 produções do gênIo
tradição ocidental que acreditou, desde a antigüidade, que se poderia
humano, é porque seu autor não só descobriu, com a identificação, o ver-
jogar em dois campos ao mesmo tempo, e escamotear a evídência de
dadeiro princípio das ciências humanas e o único fundame]lto poss1vel da
que o homem é um ser vivo e sofredor, semelhante a todos os outros
móral: com sua obra, ele nos restituiu também o ardor há dois séculos e
seres antes de distinguir-se deles por critérios subordinados, quem nos
para sempre fervente neste cadinho onde se unem seres que o amor-pró-
ensinou isto, senão Rousseau? "Tenho uma violenta aversão", escreve
prio dos político; e dos filósofos se empenha, por todà a parte, em tor-
ele na quarta carta ao Sr. de Malesherbes, "por estados que dominam
nar incompatíveis: o eu e o outro, minha sociedade e as outras sociedades,
outros. Odeio os Grandes, odeio seu estado", ~ta declaração não se apli-
a ~ature1.a e a cultura, o 8el1.~1vele o racional, a humanidade e a vida.
ca pIÍmeiro ao homem, que pretendeu dominar os outros seres e gozar
de um estado à parte, deixando assim o caÍn]1o livre aos menos dignos
dos homens, para se prevalecerem do mesmo privílég'o contra outros ho-
mens e torcerem, em proveito próprio, um raciocínío tão exorb1tante nes-
ta forma particular quanto o era, já, em sua forma geral? Numa socie-
dade civilizada não poderia haver desculpa para o único crime verdadei-
ramente inexpiável do homem, e que consiste em acreditar-se perma-
nentemente ou temporariamente superior e em tratar homens como obje-
tos: seja em nome da raça, da cultura, da conquista, da missão, ou do
simples uso de um expediente.
Tem-se conhecimento na vida de Rousseau, de um minuto - um se-
gundo, talvez - cuja significação, a despeito de sua hrevidade, comanda,
aos seus olhos, todo o resto, Talvez por Isso, no crepúsculo de sua exis-
tência, esteja por ele profundamente obsedado; e se alongue na sua des-
crição em sua última obra e ao acaso de seus passeios, retome a ele cons-
tantemente. E que é esse minuto, portanto, senão uma banal volta a si
depois de. uma queda e um desmaio? Mas o sentimento de existir é "pre-
cioso" entre todos os demais por ser sem dúvida tão raro e tão ccn-
testável:

Parecia-me que preenchia com minha tênue existência todos


os objetos que percebia." não tinha nenhuma noção precisa
de minha pessoa individuaL" sentia em todo o meu se.- uma