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CAPÍTULO 9

Valôres e Misérias
das Vidas Sêcas

1 - Graciliano Ramos em têrmos de construção


do romance e arte �o estilo

SR. GRACILIANO RAMos, autor de quatro romances muito


O discutidos, um dos quais( 1) o princip al, êste, ao que
penso, vi ndo logo após São Bernardo - aparece agora, em
s egu n d a edição, representa um c aso de estu do crítico muito
difícil para os seus contemporâ.neos(2'). Logo os seus roman­
ces nos tentam a confu ndir, em anáJises converg�ntes, a sua
figura de es critor e a sua figura de homem. Existem homens
que expli cam as suas obras, como há obras que explicam os
seus autores. No caso do Sr . Graciliano Ramos, é a obra que
explica o homem. Quero dizer: o homem interior, o homem
psicológico. Estamos diante de um caso semelhante ao de
Machado de Assis, no passado; igual aó do Sr. Otávio de
Faria, no presente. Ã maneira de Machado de Assis, o Sr. Gra­
ciliano Ramos, nas ap arências , nas exterioridades, n a da revela
que o possa d i stin gu ir de um homem comum . Tudo o que
êle tem de especial, de anormal, de misterioso, fica reservado
para a sua literatura e não r,ara a sua vida. A obra de Macha­
do de Assis esclareceu o 'mistério" Machado de Assis. Os
rom an ces do Sr. Graciliano Ramos esclarecerão mais tarde o
"mistério" Gr acil iano Ramos.
Onde se encontra, pois, a dificuldade p ara essa análise
es cl arecedora ? Encontra-se na circunstância de ser o Sr.
Gr a ci lian o Ramos um ·.�utor co nte mporâneo uma figura que
,

enco ntramo s nas ruas todos os dias. Essa prox im idad e deter­
mina a exis tên cia de obstáculos inven cíveis . Outros obstáculos
decorrem do resp eito com. que o crítico está sempre obrigado

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a tratar a figura pessoal de um autor vivo, pois somente a
morte confere o direito de um julgamento defin itivo, de uma
interpretação minuciosa e profunda. Acho que seria uma
violên cia projetar sôbre um autor ainda vivo todos os elemen­
tos de análise que a sua obra ofe rece . Não ta nto pelo autor
�m si mesmo, com um a con s c iência literári a capaz de aceitar
todos os exercícios da crítica, como pelos rigores da vida ordi­
nária. Imagine- s e um ministro da Viação que s uspe i tass e da
psicologia de M ach ado de Assis todo o conhecimento que a
sua ob r a hoje revela com uma c ategoria de certeza . . .
Deixemos pois, para os dias de amanhã, o qu e po d e emer­
gir de mais su gestivo num estudo crítico sôbre o Sr. Graciliano
:fiamos: a interpretação da sua figurn psicológica através dos
seus r omanc e s . O que nos fica p er mitido hoje, neste s e ntido ,
é uma análise limitada . Um estudo que se detém mais
sôbre o romance do que sôbre o rom ancista .
A r esp eito do Sr. Oraciliano Ramos ainda não me foi dado
ler outra págin a mais explicativa do que o capítulo , que lhe
dedicou o Sr. Osório Borba, em A Comédia Literá1·ia(3). Trata­
se de um go lpe de vista muito agu do que se desdobra em diver­
sos aspectos, todos consideráveis. Nessa página encontro suge­
ridas as duas linhas converg en tes da personalid ade do Sr. Gra­
ciliano Ramos: um homem do seu m eio físico e social, ao mes­
mo tempo que um romanci sta voltado para a introsp ecção ,
a análise, os m ot ivos psicológicos.
o

o o

Meio físico - o qu e seria, no rom ance, a paisagem exterior


- não npm·ece m uito obj etivament e no romance d o Sr. Graci­
linno H.amos. füe exprime o ambiente com fidelidade, mas so­
mente em função de seus personagens. A ambiencia é um aci­
dento; o personagem é que é a vida romanesca. A paisagem
cxtol'ior toma-se uma projeção do homem. O romance São
13ema·1·clo desenvolve-se todo dentro de uma fazenda; Paulo
Honól'io coloca a sua ambição no domínio da terra. C ontudo,
n fozoncln o a terra n ão são as realid a des fundamentais de
Sao Bernardo. A re a lidade fundamental do romance é a figura
do Pn1.1lo Honório, com o seu egoísmo , com a sua maldade,
com o seu ciú me, com a sua des umanid ade.

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Em Angústia, a abstração será mais completa. Encontra­
mos certas visões do Rio, de Maceió, de cidades do interior.
Tôdas elas, porém, constituem menos uma literatura :paisagística
do que a localização explicativa do personagem Lu1s da Silva.
E daí a superposição de planos na obra do Sr. Graci­
liano Ramos; o plano regional que se revela nos seus per­
sonagens marcados pelo meio físico e social, na forma
dos diálogos, todos muito fiéis à língua falada, nos ambientes
onde se aesenvolvem as figuras e �s enredos dos seus livros;
o plano universal que se alarga nos dramas dos seus romances,
nos sentimentos complexos dos seus personagens, na lingua­
gem muito rigorosa e pura - pode-se dizer: clássica - do
romancista.
Dois planos, portanto, que chegam a espantar o leitor: o
prosaísmo - mais ainda: uma espécie de vulgaridade - da vida
ordinária dos personagens e a alucinação da sua vida psi­
cológica; a linguagem trivial dos diálogos e a linguagem
literária do autor propriamente; figuras de aparência simples
e rústica - o caso de Paulo Honório, por exemplo - agitadas
por sentimentos complexos e sensações fora do comum.
Em qualquer dêsses aspectos permanece uma preocupa­
ção dominante: a de revelar o caráter humano. Não só o
romancista está dominado por êsse desejo de conhecer os seus
semelhantes, mas esta aspiração é também dos seus persona­
gens. Vivem todos voltados Eara dentro, com olhos que se
inutilizaram quase para os quadros exteriores da vida. Faz uma
confissão neste sentido o personagem principal de Angústia:

Nunca presto atenção às coisas, não sei para que diabo quero olhos.
Trancado num quarto, sapecando as pestanas em cima de um livro, como
sou vaidoso, como sou bêstn 1 Caminhe� tanto e o que fiz foi mastigar
papel impresso. Idiota. Podia estar ali a distrair-me com a fita. Depois,
finda a projeção, instruir-me vendo as caras. Sou uma bêsta. Quando a
r ealidade me entra pelos olhos, o meu pequeno mundo desaba.

Esta preocupação de fixar e exibir o caráter humano pode­


ria significar que o Sr. Graciliano Ramos estima os seus seme­
lhantes e está interessado pela sua sorte. Mas, não. Verifica­
se o contrário; o seu julgamento dos homens é o mais pessi­
mista e frio que se possa imaginar; o seu sentimento em face
dêles é de ódio ou desprêzo. Numa certa ocasião, o perso­
nagem de Angústia diz que tem pena de Marina, que tem

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pena de D. Adélia, que merecem compaixão tôdas as criaturas
que são instrumentos . Contudo, embora tôdas as criaturas
sejam instrumentos do destino ou dos seus· instintos, nos roman­
ces do Sr. Graciliano Ramos, não encontramos em parte
nenhuma aquêle sentimento de piedade que Luís da Silva
sugere. Com uma fria impassibilidade, o romancista contem­
pla a miséria humana de seus personagens. Não lhes con­
cede a mínima piedade. Ao contrário: o romancista chega a
estar animado de um certo prazer sádico nessa contemplação
da miséria humana. Podemos falar, sem exagêro, de uma
crueldade do criador diante da sua criação.
Trata-se de um caso semelllante ao de Machado de Assis,
com muitas linhas de aproximação a estabelecer entre os dois.
Já houve mesmo quem falasse de influência; e o Sr. Graciliano
Ramos se defendeu com um argumento fulminante: que nunca
havia lido antes Machado de Assis. . . O problema dessa influ­
ência será mais tm·de esclarecido pela história literália; o que
interessa agora é um prob le m a de aproximação e semelhança,
que não nasce só da influência direta de um au t o r sôbre outro,
mas de uma certa identidade de sentimentos em face da vida e
da literatura. O que aproxima o Sr. Gr acilian o Ramos de
Machado de Assis é a mesma con cep çã o da vida, o mesmo
julgamento dos homens, ao lado de uma semelha n te estru­
tura temperamental.
Todavia, o Sr. G1·aciliano Ram o s parece-me mais feroz
e cruel n a sua criação romanesca. O s entim e nto de Machado
de Assis: indiferença e ceticismo; o se u humour era destruidor,
mas sereno. O elo Sr. Graciliano Ramos: ódio ou desprêzo,
sendo o seu humour - muito 1·aro, aliás - de um caráter som­
brio e ásper o. Em conju n to , a sua obra constitui uma sátira
violenta e um panfleto ful'ioso contra a humanidade. O que
a t orna , nesse sentido, menos ostensiva e mais m·ejada, é a
circunstância de ser o Sr. Graciliano Ramos um verdadeiro
nrtista, um escrito1· da mais alta categoria .
Dos seus rom ances, acho São Bemarclo o que mais expli­
Cl\ n idéia que o Sr, Graciliano Ramos sustenta a resp eito aos
homens. Será impossível não estender um pouco ao roman­
cista esta conclusão de Paulo Honório:

Bichos. As criaturas que me servirnm durante anos eram bichos.


Hnvia bichos domésticos, como Padilha, bichos do mato, como Casimiro
Lopes, e muitos bichos para o serviço do campo, bois mansos. Os currais

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que se escoram uns nos outros, lá embaixo, tinham lâmpadas elétricas.
E os bezerrinhos mais taludas soletravam a cartilha e aprendiam de
cor os m andament os da lei de Deus.

E não é que Paul o Honório esteja muito acima dos


ou tro s sêl'es que j ulg a tão friamente. A princípio, uma desme­
dida amb ição deu-lhe essa mir agem de superioridade. Depois,
a sua im press ã o desaba no momento mesmo em que al cança
os seus fins. De.s ab a sob o pêso do egoísmo e do ciúme que
devoram Paulo Honório. Jul ga-se, êle próprio , então, nestas
palavras:
O que estou é velho. Cinqüenta anos perdidos, cinqüenta anos
gastos sem objetivo, a maltratar-me e a maltratar os outros.

Em Angústia, Luís da Silva representa uma fi gura de


fracas sado; não existe urna ambição frenética para deter­
miná-lo, como a de Paulo Honório. O seu egoísmo não é o
do conqui stado r, mas o do vencido . Num cer to sentido, repre­
senta o outro lado de Paulo Honório. Luís da Silva não tem
a am bição, não tem a vontade, não tem n enhum sentimento
forte. Paulo Honório é a vid a instintiva que se afirma; Luís
da Silva, a vida instintiva que se dissolve. Conquanto opostos,
êles se encontram na seqüência final dessas vidas instintivas
e materialistas; encontram-se na conclusão de que a vida não
tem sentido nem finalidade.

o o

Estamo s · ante a filosofi a do nada - a da absolut a negação


e destruição - que o Sr. Gra cili ano Ramos cultiva para os seus
personagens. A as cens ã o de Paulo Honório ou a decadência de
Luís d a Silva representam caminhos diferentes para o mesmo
niilismo. Os dem a is personagens não se afastam dêsse fim me­
lancólico� Todos se acham dent r o da viela, como que perdidos
e abandonados, sem nada saber da s ua origem nem do seu des­
tino. Os seus atos se ori ginam e se justifi cam , por si mesmos,
fora de qualqu er preocu p a ção moral e transcen dente.
Um mund o romanesco, o do Sr. Graciliano Ramo s , que
nun ca se afasta da dimensão naturalística. R epresenta, êle, o
estranho fenômeno de um roman cis ta i ntro sp ectivo , interiorista,

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analítico, sem que leve em conta no homem outra condição
que não seja a materialística. Um romancista da alma huma­
na, tendo uma concepção materialista dos homens e da vida.
E o materialismo dos personagens é que os leva logicamente
ao relativismo moral. Nem praticam a bondade, nem acre­
ditam sequer na existênc ia dela . Por detrás de todos os gestos
surge o interêsse egoísta, uma segunda e secreta intenção. Em
Angústia, conta Luís da Silva a propósito da morte do avô:
Iam levando o cadáver de Camilo Pereira da Silva. Corri para a
sala, chorando. Na verdade, chorava por causa da xícara de café de
Rosenda, mas consegui enganar-me e evitei remorsos.

E mais adiante o seu relativismo moral chega a um mo­


mento supremo nest a reflexão:

Um crime, um a ação boa dá tudo no mesmo. Afinal já nem sabe­


mos o que é bom e o que é mim, tão embotados vivemos.

Também Paulo Honório, em São Bernardo, conclui sem


qualquer hesitação:

A verdade é que nunca soube quais foram os meus atos bons e


quais foram os maus. Fiz coisas boas que me trouxeram prejuízo; fiz
coisas ruins que me d eram lucro.

ll:sse relativismo moral i m plica outro i·elativismo de ordem


genérica que se c o n s tit uiu uma espécie de ambiência para
o Sr. Graciliano Ramos, como romancista. Tôda a sua
obra guarda um certo caráter de vertigem, de oscilação, de
ambivalência. ll: o relativismo do tempo, o qual, como se
s abe, representa uma contigência muito importante no desen­
volvimento romanesco. Tendo uma concepção materialista da
vida, o Sr. Graciliano Ramos não poderia utilizar-se do recurso
do tempo metafísico. Por outro lado, para um i·omancista psi­
cológico, o tempo convencional e naturalista seria um obstáculo.
O Sr. Graciliano Ramos deliberou, então, valer-se de um recurso
intermediário: a abstração do tempo. Em Angústia encontra­
mos esta observação reveladora:

Mas no tempo não havia horas.

Em São Bernard,o aparece um relógio, mas que "tinha


parado". O tem po toma-se assim um elemento indeterminado

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e arbitrário. Nunca se sabe exatamente quando a narrativa
corresponde, em tempo e ação, aos fatos e atos que a produ­
zem. Bem: a história de Luís da Silva pode estar contida
em dez meses ou em dez anos, indiferentemente. Sim: "no tem­
po não havia horas".
o

o o

E a ausência do tempo vai determinar a ausência de


"ação" direta no romance. A ação de Angústia é uma ação
reflexiva: Angústia é uma "história", uma narração do pas­
sado, uma vida da memória. De certo modo, isto mesmo
acontece com todos os romances; todos os romances são epi­
sódios já passados e por isso é que podem ser contados; mas
o romancista lhes dá uma ilusão de vida presente, através
de um jôgo malabarístico com o tempo. O Sr. Graciliano
Ramos desdenha esta ilusão. Angústia é certamente um ro­
. mance, porém, em têrmos formais, dir-se-ia um livro de
memórias, um diário, um inventário, um testamento. O mes­
mo que sucede com São Bernardo, em que Paulo Honório con­
fessa que nada mais pretende do que fixar a experiência da
sua viaa. Contudo, São Bernardo ainda contém uma l>rdem
narrativa, uma regular disposição romanesca, enquanto Angús­
tia se realiza sob o signo da r,nais oscilante desordem.
Confesso que essa desordem me agrada porque tem
correspondência no espírito mesmo do romance. O espírito
do romance e n sua Forma se ajustam harmônicamente na
desordem. Desordem que vem de Luís da Silva, a deter­
minar Angústia, como Paulo Honório determina São Bernardo.
Os outros personagens são projeções do personagem principal.
Julião Tavares e Marina so existem para que Luís da Silva
se atormente e cometa o seu crime. Tudo vem ao encontro
do personagem principal - inclusive o instrumento do crime
- para que êle realize o seu destino. Representa esta circuns­
tância uma outra forma de egoísmo, desde que o egoísmo é
o sentimento dominante nos personagens mais característicos
do Sr. Graciliano Ramos.
Na forma de Angúsl:Ja, o egoísmo do personagem principal
se afirma pela concentração do romance em sua própria pessoa.
Luís da Silva é todo o romance Angústia. Contando a sua bis-

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tória, Luís da Silva absorve-a em si mesmo. O romance toma,
por isso, a forma e as dimensões do seu espírito. Torna-se um
diário que o personagem escreve posteriormente. A sua me­
mória se desdobra em ziguezague e a narração romanesca
acompanha fielmente êsse ziguezague da memória de Luís da
Silva. O seu método é o da confissão psicanalítica: uma pala­
vra que explica outra, um pensamento que escl arece outro.
E também o da associação das idéias: uma idéia que atrai
outra idéia, uma lemb1·ança que sugere outra lembrança. Luís
da Silva não vive senão da sua me mória e da sua imaginação.
Mas a sua própria im aginaç ão , no romance, constitui um resul­
tado da memória. Lufs da Silva conta o que imaginou ante­
riormente; a sua imaginação já se tornou um fato do passado,
·

um patrimônio da memória.
Observa-se, por isso, que a veridici dade do romance do Sr.
Graciliano Ramos é uma real idade estática, não dinâmica.
Dinâmica, por exemplo, é a realidade romanesca de Dos­
toievski. A do Sr. Graciliano Ramos, porém, nunca será desta
categoria, porque êle é um rncionalista, um analista, um frio
experimentador. A sua i·aç1t é a ele Stendhal, nunca a de
um Dostoievski. Po1· isso é que do seu romance se depre­
ende mais a "história" de uma angústia do que a "angustia"
em si mesma. Uma ang{tstia racionalizada e histórica, não
uma angústia natuml e p1·esente. O estado de delírio, de exal­
tação, de demonismo, o estnclo dionisíaco capaz ele exprimir
a angústia - êste não será nunca o elo Sr. Craciliano Ramos.
O seu estado pode-se definir com o o do hi s tori ado!' da angústia.
Um estado de razão, ele lucidez, ele sob riedade . O cl'itério
que preside a sua obra é um critério de inteligência; a sua
potência é cerebral e abstrata. Não sei, pol' i s so, que mis­
teriosa intuição parn se definir levou o Sr. Grncilinno Ramos
a es colh.er o título Vidas SiJcas para um de seus romances .
Sem dúvida, todos os seus personagens são ele foto "vidas
sêcas". Os seus pers o n a ge ns e ês te estilo em que se exp rime
o romancista.
Admirável estilo de c:oncisüo, unidade entre as palavras
e os seus sentidos, rígido a scetismo tanto m\ narração como
nos diálogos, rápidos, exatos, precisos. Diálogos e narração
que fazem . do Sr. Grnciliano Ramos um mestre do seu ofício
ele romancista. Um mestre ela arte de esc1·ever, a crescento,
sem nenhum mêdo de estiu· errando.

I ·151
E essa categoria, êle a conquistou com as "vidas sêcas"
que povoam o seu mundo romanesco. �ste mundo roma­
nesco é um mundo sem amor. A sua concepção da vida
está t8da limitada, de um lado pelos instintos hi.Jmanos, do
outro por um destino cego e fatalista. Mas não esqueço o
que essa visão do mundo significa de sofrimento e de tor­
mentos íntimos na figura do seu criador. Por isso, a circuns­
tância de aceitar-se ou não t8da a concepção da vida, que
ressalta dos romances do Sr. Graciliano Ramos, não deve impe­
dir ninguém de admirar o artista que a sustenta; o artista
que transforma êste mundo árido e sombrio numa verdadeira
categoria de arte. Além disso, quem sabe, êstes rom ance s
podem constituir mais elo que uma obra de arte, isto é: a liber­
tação de um homem que se evade de um mundo que detesta,
embora carregando o destino de somente criar mundos seme­
lhantes. E aqui está uma lição: a de que nem sempre a ima­
ginação dispõe de recu1·sos para dominar a vida real( 4).
Outubro de 1941.

II - As "memórias" do romancista explicam


a natureza e a espécie dos seus romances '

Sim, um mundo sem amor e sem alegria, o da ficção do Sr.


Graciliano Ramos. Aparece nos seus romances t8da uma gale­
ria de personagens egoístns, cniéis, insensíveis. Paulo Honório,
em São Bemarclo, e1·gue-se como um símbolo, marcado pelo
ciúme, pela maldade, pelo egoísmo, pelo temperamento áspero
e solitário. Os sêres clt)ste mundo de ficção em quatro i·oman­
ces - um dos mais impressionantes, sobretudo pela constru­

ção literária e pelo senso artístico, em tMa a literatura brasi­


leira - são em geral desgraçados, criaturas em desencontro
com o destino, humilhadas e desti·oçadas. Não encontram sen­
tido para a vida, não se associam nem se solidarizam em movi­
mentos de ascenção; carregam, com a ausência de fé, um tama­
nho poder de negação que só encontra correspondência num!l
espécie de niilismo moral, num desejo secreto de aniquila­
mento e destruição. O ambiente que os envolve tem qualquer
coisa de deserto ou de casa fechada e fria. Nenhuma salva­
ção, nenhum socon:o vh·á do exterior. Os personagens estão

15Z
entregues aos seus próprios destinos. E não contam sequer
com a piedade do romancista. O Sr. Graciliano Ramos movi­
menta as suas figuras huma nas com uma tamanha impassibi­
lidade que logo indica o desencanto e a indiferença com que
olha para a humanidade. Que me lembre, só a um dos seus
personagens êle trata com verdadeira simpatia, e êste não é
gente, mas um cachoITo, em Vielas S�cas. Contu do, a piedade
que não lhes concede diretamente, o Sr. Graciliano Ramos
provoca do s leitores para os seus personagens. E isto só acon­
tece qu an do nas mízes ela vida do romancista também se.
encontram os mesmos traços de infelicidade, tristeza e soli­
dão, os vestígios ou as sombras dos sonhos sufocados e estran­
gulados. O autor n ão podo então exprimir piedade, porque o
pudor e a dignidade mt(stlca o impedem de ter piedade de
si mesmo. ltfo não tem penu dos seus personagens, porque
está projetado nêles, o dispõe ele fôrças sufici en te s para de si
m es mo não ter pena nenhuma. :fl: s te fenômeno ele cl'iaç ã o lite­
rária, nos romances do Sr. Gracilia n o Ramos, apa rece agora
devidamente escl arecid o na revelação ela su a infância por inter­
médio de um livro de memól'ias ( 11).
Sim: é em foftlnclli que J? ode remos encontrar a s ignifica­
ção de São Bernardo e Angustia. As memórias da vida real .
explicam o mu ndo ele f lcçüo do romancista. Ntd ne peut
écrire la vie d'un hom.me qol lut-m�me - clissern Jean Jacques
Rousseau para justificar ns suas Confessions. :fl:Ie envolvera,
no entanto, as misél'ins n confessar numa foi·ma de poesia, por­
que a sua sincericlnclo ern n elo sonhador. O Sr. Graciliano
Ramos é um anti-sonhudol' por excelência; e deu à expressão
das su as lem bra nç as um c1m\ter do lntransigente realismo. :f!:le
não nos revela sequei· os seus sonh os de menino, os sonhos
que ocupam a maior pm'to do univers o das crianças, e que
vão sendo depois esquocldos ou destruí d os pela reaJidade, no
conta to com os adultos. O que vem os aqui já é essa própria
realidade em tôcln n suu clurtlll:íl e crnelclacle. N e nhum a poesia,
nenhum sonho, nonlmmn fontas.ia na .infllncin tl'iste e soli­
tária do romancistn.
Pergunta-se: o quo é i·lgOl'osamente renl o o que é ima­
·

ginàdo ne ste livro elo momói·Jns ? A respostn nüo terá i mp or­


tância para o conhecimento psicol ó gico do autor. A sinceri­
dade do artista não é um protiloma que se i·esolvn nos mesmos
têrmos da sinceridade nas i·elnçües sociais entre os homens. Um

153
artista, ao deformar a vida, não mistifica a ninguém, ape­
nas a si mesmo. Quando um artista traça de si próprio uma
imagem - ela tem sempre autenticidade, se não a dos fatos,
a da vida interior, que e a principal no caso. :Ele é realmente
o que imagina ter sido.
Ora, as memórias do Sr; Graciliano Ramos constituem
a expressão realista das suas lembranças; e são ainda mais.
autênticas ou reveladores nos detalhes que êle, porventura,
lhes tenha acrescentado pela imaginação. Para se definir
e revelar há ainda que levar em conta o processo, o espí""
rito de escolha do memo1ialista. Não lhe é possível
narrar tudo o que aconteceu durante a infância, nem expri­
mir tôdas as impressões e sensações de menino. Muitos
episódios estão mortos pelo esquecimento, a muitas lembran­
ças será difícil ressuscitar porque se tornaram confusas e inde­
cifráveis. As recordações da inf ância em qualquer pessoa repre­
sentam matéria - no sentido da filosofia estética de Bene­
detto Croce: "a emocionalidade ainda não elaborada esteti­
camente" ( 6) - e só adquirem existência pela forma mediante a
intuição, que vem a ser a mesma coisa que a express ão artís­
tica. Digamos então, com mais segurança, que nesse fenômeno
de captar o passado, e dar-lhe forma pela intuição, não há lugar
propriamente para o ato de escolha. Ao abandonar certos
aspectos da infância, ao fixar-se em outros, o artista não o
faz arbitràriamente, mas determinado pelas impressões que
se prolongaram nêle, que o influenciaram, que marcaram depois
os seus sentimentos, iâéias e visões de adulto.

• •

Não será significativo que em lnfdncia não apareçam os


instantes agradáveis, felizes, ilusões e sonhos do menino Gra­
ciliano Ramos ? Que tenham sido conservados pela memória,
de preferência, os momentos de infelicidade, tristeza e solidão,
as humilhações e decepções da infância? � que os primeiros
foram superficiais e efêmeros, talvez porque menos freqüen­
tes, logo esmagados pelos segundos, mais constantes; e foram
êstes que permaneceram, que lhe marcaram a natureza huma­
na. Quando ·se decidiu a escrever um livro de memórias, a
sensibilidade reagiu em tôd� a sua, exacerbação; e exprimiu,-

154
se pela exteriorização daquilo que nela se gravara mais pro­
fundamente.
No mundo infantil do Sr. Graciliano Ramos a injustiça se
erguia no horror dessa divisão: de um lado, crianças submis­
sas e maltratadas; do outro lado, adultos, cruéis e despóticos.
Pais, mães, mestres, todos os adultos pareciam dotados da
missão particular de oprimir as crianças. Um mundo intole­
rável de cas tig os, privações e vergonhas. Uma ou outra exce­
ção, que atravessa de leve essas recordações, não chega a par­
tir a unidade na fisionomia de infortúnio e desolação. Toma
quase que o aspecto de uma fi g ura do outro mundo a pro­
fessôra Maria, coin a voz suave, com seus impulsos de ternura,
que por isso mesmo tanto surpr e en deu a princípio o menino
Grac.iliano Ramos, já acostumado, em casa, com o tratamento
de ''.bolos, chicotadas, cocorotes, puxões de orelhas". A pro­
fessôra Maria, porém, é um episódio que logo desaparece; a
realidade que fica é a da pro fessôr a Maria do O, quase sádica
no tratamento impiedoso dado à menina Adelaide. E o que
foi o espetáculo da infância desgraç ada, para a vi são do Sr.
Graciliano Ramos, vê-se no capítulo comovente A C1'iança Infe­
liz, um dos últimos do livro.
Seria impossível que êsse a mbiente de educação defor­
mada, de crueldade e dureza, não se refletisse na imaginação
do romancista, não influísse decisivamente na sua visão dos
acontecimentos e elos homens. Além das sugestões indiretas,
êle indica claramente as impressões que g u araou para sempre
de certos episódios da infância. Um âia, o seu pai ju lgou que
êle havia escondido um cinturão, quis ob ri gá-l o a encontrar
um objeto em q ue êle não havia sequer tocado. Foi surrado
brutalmente, sem investigação e sem culpa. Ao reviver agora
esta cena, reconstruída no livro com magnífica intensidade
literária, o Sr. Graclliano Ramos vê nela o seu "primeiro con­
tato com a ju stiç a e comenta:
",

As min]ias primeiras relações com a justiça fo ram dolorosas e


deixaram-me funda impressão.

Seu pai, juiz substituto de interior, prendera impulsiva­


mente um pobre-diabo, que nenhuma falta cometera, que não
praticara nenhum crime. Testemunhando êsse abuso de auto­
ridade, escreve agora a respeito :

155
Mais tarde, quando os c a stigos cessaram, tomei-me em casa inso­
lente e grosseiro - e julgo que a prisão de Venta-Romba influiu nisto.
Deve te r aontribuído também para a desconfiança que a autoridade
me inspira.

Teve desde cedo a sensação da desigualdade entre os


homens :
Notava diferença s entr� os in divídu os que se sentavam nas rêde s
e os que se acocoravam nos alpendres. O gibão do meu pai tinha diver­
sos enfeites; no de Amaro havia numerosos buracos.

O folclore do seu ambiente no interior tornou-o cético


qu a nto ao heroísmo :

Mais tarde, entrando na vida, continuei a venerar a decisão e o


heroísmo, quando isto se grava no papel e os gatos se transformam em
papa - ratos. De pe rto, os indivíduos capazes de amarrar fachos nos rabos
dos gatos nunca me causaram admiração. Realmente são e spantosos,
mas é necessário vê-los à distílncia, mod ifi ca d os.

Elogiaram-lhe certa vez, com risos, por pilhéria, o seu


paletó côr de macaco; e êle deixou de acreditar em elogios :
Guardei a lição, conservei longos anos êsse palet6. Conformado,
avaliei o fôrro, as dobras e os pespontas das minhas açõe s côr de
macaco. Paciência, tinham de ser assim. Ainda hoje, se fingem tole­
rar-me um romance, observo-lhe cuidadoso as mangas, as costura s, e
vejo-o como êle é re alm ent e : chinfrim e côr de macaco.

Do a mbiente familiar, a impressão definitiva que lhe ficou


traduz-se nesta confissão :
Foi o mêdo que me orientou nos primeiros anos, o pavor.

Do pai e da mãe revê "pedaços dêles, rugas, olhos raivo­


sos, bôcas irritadas e sem lábios, mãos grossas e calosas, finas
e leves, transparentes".
o

o o

Porque não se sentiu amado, nem teve uma infância de


ternuras e afagos, o Sr. Graciliano Ramos reagiu com senti­
mentos de indiferença e desprêzo em face de tôda a humani-

156
dade. �le não escreveu estas memórias apenas por motivos
literários, antes para se li bert ar dess as lembra nças opre ssiva s
e tor tu rant es . Escreveu a histó ria da sua infância porque a
det esta com amargura. Não se achou, por isso, obrigado a
complacências para com os outros. Refore-se aos pais com
realismo, com objetividade, como se estivesse desligado dêles.
Não manifesta propriamente ódio a nenhum d os sêres que o
fizeram sofrer, mas dá-lhes uma retribuição na frieza, na dureza
implacável com que os revive. E êste rigor, êste sistema anti­
sentimental de observação, estende-se a si mesmo sem qual­
quer condescendência. Verfficamos n estas memórias que a
atitude do Sr. Graciliano Ramos em face da vida não é bem
a do hum-0ttr, mas a do sa1·casmo, produto da revolta de uma
sens i bilidad e vibrátil e tensa. Sensibilidade que, maltratada,
m acera da, s ufocada, i·eagiu d epois por intermédio da criaç ão
de um mundo de fi cção em que se projetara m as so mbras e
as sensações de um pavoroso mundo infantil.

Literàriamente, o Sr. Gmciliano Ramos encontrou no gêne­


r o memórias uma forma de rara adequação p a ra a sua arte
de escritor, para o seu est il o . Creio que êste é o mais bem
escrito de todos os seus livros. Perc ebe -se aqui o apuro d o
trabalho de composição e estilo, o seguro artesanato literário.
A secura , a frieza dessas im pressões de infância e ncontra a
devida correspondência no seu es'tilo sóbl'io, ascético, livre de
adornos. A p rosa elo Sr. Grnciliano Ramos é moclemn, no seu
aspecto desnudado, no vocabulário, no gôsto das pal avras e
d as construções sintáticas, e é clássica pefa correção, p elo tom
como que hierático das frases. O que a valoriza propriamente
não é a beleza, no se n tido hedonístico da pnluvra, mas a sua
pre cisão, a sua cnpaciclnde de h·ansmitir sensações e i mpres­
sões com um mínimo de metá fo ras e imagens, quase só com
o jôgo e o atrito de vocábulos, principalmente de adjetivos.
Destacaria em In.fdnola.. pel o conteúdo clt·nmático e pela arte
l iterá ri a, capítulos como O Moleque José, O Clntttrcio, Minha
Irmã Nat1u·al, Um EntiJrro, Venta-Rom11a, A Criança Infeliz..
Nenhum dêles, porém, chegn a superar o capítulo final, Laura,
em cujas p�ginas desc1·eve a passagem da infl\ncin pru:a a ado­
les cê n cia , com as pl"imeims inquietações dn carne e do sexo.
Ao lado clêstes, certos capftulàs com o O Ftm do Mundo , O
Inferno e Antdnio elo Vale tornam-se mais ou roemos insigni­
ficantes .

157
Imagino que as pessoàs sentimentais, ou as e ducadas nor­
malmente, ficarão constrangidas ao ler as memórias do Sr. Gra­
ciliano Ramos, mas espero que, antes de tudo, também se sin­
tam comovidas. Estas páginas determinam igualmente a com­
preensão dos seus romances, do seu mundo romanesco mar­
cado pela tristeza e pela solidão. Escreveu Wilhelm Dilthey
que "a autobiografia não é senão a expressão literária da
autognosis do homem acêrca do curso de sua vida"(7). A auto­
biografia do Sr. Graciliano Ramos explica o caráter áspero e
sombrio da sua obra de romancista: o criador de São Bernardo
e Angustia já estava no menino amargurado de InfllnC'ia, onde
encontramos agora as raízes do seu niilismo implacável e
devastador.
Setembro de 1945.

III - Romances, novelas e contos: visão em bloco


de uma obra de ficcionista

Um acontecimento ao mesmo tempo literário e e ditorial


é o aparecimento em conjunto de tôdas as obra� de ficção do
Sr. Graciliano Ramos, ciuat:ro romances e um livro de contos(8).
Em rigor, seria prefenvel, porque mais exata, esta classifica­
ção: dois romances: Caetés e Angústia; duas novelas: São Ber­
nardo e Vidas S�cas; um volume de contos : Insônia. A distin­
ção não decorre do tamanho, nem mesmo da qualidade dos
livros, mas do espírito de concepção e realização. A falta de
diferenciação neste sentido é, aliás, muito comum na litera­
tura brasileira, na qual a maioria dos livros classificados como
romances mereceria com mais propriedade o título de nove­
las. Por coincidência, em nosso caso, dos dois livros do Sr.
Graciliano Ramos que nos parecem especl.ficamente romances,
um, Angústia, é a sua obra-prim a, e uma das realizações im­
portantes e características da ficção brasileira, enquanto o
outro, Caetés, é uma obra de tod o falhada e inexpressiva. As
duas novelas, por sua vez, são ambas excelentes e considerá­
veis, não obstante alguns defeitos fundamentais de idealização
e de construção, que serão indicados no decorrer dês tes artigos,
com os quais voltamos pela terceira vez a, tratar de um autor
especialmente estimado e de uma obra calorosamente admi­
rada por todos os seus companheiros de vida literária(º).

158
Nos estudos anteriores, o meu objetivo foi interpretar o
sentido .geral da obra do Sr. Graciliano Ramos, procurando
fixar os traços da personalidade do escritor e a projeção dela
através da arte literária. Tinha imaginado discutir desta vez
a significação política da sua obra, e com uma opinião con­
trária à que se acha estabelecida, no que me vejo impedido
pelas circunstâncias exteriores, pois não seria leal e correto
abrir êsse debate num momento que lhe é pouco oportuno,
prestando-se a minha atitude a explorações extraliterárias ( 10)
.
Procuremos, então, outro terreno para êsses comentários, a fim
de que não redundem em simples repetição ou variação dos
anteriores. :ll:ste terreno poderá ser o da evolução literária
do Sr. Graciliano Ramos, vista melhor através de uma leitura
de conjunto dos seus romances e novelas, fixada em cada um
dos seus livros. Pois a verdade é que êste ficcionista, bastante
limitado, a certo respeito, nas suas visões, jogando com um
ambiente social reduzido, e não muito vastos 1·ecursos de reve­
lação psicológica, conseguiu, no entanto, fazer de cada um dos
seus Ilvros uma obra independente, sempre com elementos
particulares e características próprias, sem se repetir, sem trans­
mitir nunca a sensação de que um dêles está prolongando o
outro através de aspectos semelhantes. Isso é um resultado
da sua arte literária, da sua capacidade de utilizar, com o
máximo proveito, todos os elementos de observação, inspira­
ção, imaginação e cultura, de que dispõe conscientemente.

o o

A primeira edição de Caetés apareceu em 1933; o seu


autor, nessa época, em uma figura municipal, tendo vivido
até a maturidaae numa cidade do interior de Alagoas. Não se
tinha aí a estréia de um rapaz, de um jovem, pois ao publi­
cá-lo já entrara o romancista na casa dos quarenta anos. Essa
circunstância explicará, talvez, que, sendo um livro falhado
e sem valor, Caetés nem sequer tenha deixado suspeitar o
grande escritor que surgiria depois em São Bernardo, Angústia
e Vidas S8cas. Não havia nêle as indecisões, os erros, as per­
plexidades, os excessos, misturados, porém, a certas revelações
ae talento, que nos livros de alguns estreantes nos levam a
jogar certo no futuro dêles. Não; não era êste o caso de Caetés.

'159
Tudo nas suas páginas revelava segurança e estabilidade, mas
ele má qualjdade Um livro maciçamente ruim. A vulgari
. ­

dade do ambiente do romance - e todo êle se processa atra­


vés de coisas reles, pequenas intrigas e conversinhas de uma
cidade do interior - parece ter contaminado a própria arte
do romancista, de modo que assunto e realização permanecem
no mesmo plano medíocre. Logo na primeira página, na pri­
meira cena, encontramos a vulgaridade de expressão daquele
"e deu-lhe dois beijos no cachaço", seguida mais adiante de
outra, que escolhemos apenas entre os possíveis e numerosos
exemp l ares nes te sen tido :
Que cl iabo 1 Se ela me preferisse ao marido, não fazia mau negócio.
E quando o velhote morress e, que aquêle �rambolho não podia durar,
ou amarr ava -me a ela, passava a sócio da firma e engendrav a filhos
muito bonitos.

Estilo correto, o do Sr. Graciliano Ramos, desde êste pri­


meiro romance, mas ainda sem a justeza, o vigor e a expressi­
vidade que lhe são característicos. O ritmo das frases ainda
se apresentava sem regularidade, às vêzes saltitante, às vêzes
telegráfico, como se estivesse comprimido:
Acharam-me apl\tico e murcho. D. Maria José perguntou, solícita,
se as com idas mo desagradavam. Maçada. As comi das eram ótimas,
respondi , mas o estômago e a cabeça não me iam bem. O Dr. Liberato
m e indicou um remédio. Ag ra d eci e recolhi-me.

Por sua vez, o enrêdo de Caetés é comum e destituído de


interêsse. Torna-se simplesm ente monótona aquela pretensão
de João Valério, aquêle projeto de conquista amorosa, que nem
se realiza, nem gera alguma ação romanesca. Arrastada é
a ação, arrastados os diálogos. Além disso, o processo do
romance é de caráter fotográfi co com mais pitoresco do que
,

dramaticidade; os personagens são tipos convencionais, que não


se individualizam nem pefos seus atos nem pelos seus caracte­
res. Costuma-se dizer que êste primeiro romance do Sr. Gra­
ciliano Ramos foi muito influenciado por Eça de Queiroz. Ora,
a não ser em algumas pilhérias, e na página final, que real­
mente parece ter sido inspirada nas últimas p áginas de A Ilus­
tre Casa de Ramires, não vejo nitidamente as linhas dessa
ligaç ão Parece-me que mais verdadeiro foi o Sr. João Gas­
.

par Simões quando o aproximou de Camilo Castelo Branco,


naturalmente de um Camilo Castelo Branco despojado do

160
arcaísmo e da linguagem artificiosa. Por que não me agra­
dou nada êste romance Caetés P Não quero ser categórico
na minha opinião; e tomo a iniciativa de sugerir ao leitor que
talvez ela tenha decorrido da circunstância de só agora o haver
lido, depois de conhecer tôda ,ª capacidade e tôda a arte do
autor de uma obra como Angúst-ia.
o

o o

Apenas um ano depois de Caetés, em 1934, ap arecia São


Bernardo; e dir-se-ia que era o livro de um nôvo escritor, tal
a diferença entre um e outro, quanto ao valor literário e à
significação humana. A não ser que o p r im eiro tenha sido
escrito muitos anos antes do aparecimento, a evolu ção tão
fundamente marcada no segundo, num insignificante espaço
de tempo, é inexplicável, é um elos muitos mistérios da criação
artística. Isso seria assunto, aliás, para uma página de de­
poim ento ou interpretação, a ser e scrita por algum dos com­
panheiros que viveram em intimidade com o Sr. Graciliano
Ramos na sua fase alagoana .

Não é p elo ambiente que o plano de concepção e de cons­


trução do romancista se amplia, engrandecido em São Ber­
Mrdo . O ambiente de Caetés é uma pequ en a cidade do inte­
rior; o de São Bernardo ainda é menor: uma fazenda. Os per­
sonagens também não são nem mais numerosos, nem mais
significativos socialmen te. Pelo contrário : o mundo romanesco
é mais reduzido e concentrado no segundo livro, o que lhe
dá um caráter marcante e seguríssimo de novela bem estru­
turada. A fazenda São Bernardo transfigura-se num autêntico
microcosmo. As figuras apresentam human idade, paixões, dra­
mas, misérias, anseios de felicidade e quedas na irremediável
desgraça. O Sr. Gracilinno Ramos, no criar e movimentar per­
sonagens com o Paulo Honório e Madalen a, parece ter encon­
trndo, definitivamente, o seu plano ele ficcionista: o do roman­
se psicológico. A sua especialidade não é a invenção de acon­
tecimentos, nem mesmo o aproveitamento em extensão, com
objetivos dramáticos, ele acontecimentos porventura observa­
dos ou vividos diret a mente.
Neste sentido, o mundo rom anesco do Sr. Graciliano
R amos é pobre, limitado, deficiente. O que b·ansmite vita-

161
lidade e beleza artística aos seus roman�es não é o movi­
mento exterior, mas a ex istência interior dos p ersonagens . Os
acontecimentos só têm sign i ficação p elos seus reflexos nas
almas, nos caracteres, nos p ensam entos . E isto constitui
a forma superio1· da ficção, tanto m ai s estimável no Brasil
quanto o nosso temperamento não se m ostra muito propício
ao que ela exige de concentração esp iritu al , densidade psico­
lógica e comp lexi d ade literária. Com São Bernardo, o Sr. Gra­
cif i ano Ramos apresentou a sua prim eir a obra de análise psi­
cológica, de iluminação interior de person agens, na linha de
um processo que d ari a em seguida todos os seus resultados
em Angústia. Acompanh ando os assuntos para êsse terreno
subj et ivo, o estilo do romancista adquiriu, por sua vez, a pro­
pried a d e, a elegAncia e o vigor que fazem do Sr. Graciliano
Ramos um dos escritores que melhor m an ej am atualmente a
língua portuguêsa . Às vêzes, em certos trechos, êle me desa­
grada p ela secura e du rez a, como pel a ausência de vibração
e d i nami sm o, mas isto talvez decorra em grande parte daquela
limitação de as s untos e de pr obl em as, acima su gerida .
O pri ncip al defeito de São Bernardo já tem sido apontado
mais de uma vez : é a in v erossimilh ança de Paulo Honório
como n arr ad or, é o contraste entre o livro e seu imagin ário
escritor, o que já se verificara em Caetés. De certo modo, em
todos os romances escritos na prime ira pessoa, concede-se uma
margem para a inverossimilhança. C ontu do, em São Bernardo
ela é excessiva e inaceitável. Uma nov ela de tanta densidade
psicológic a, elaborada com tantos requintes de arte l iterária,
não suporta o artifício de ser ap r esent ad a como escrita por
um p ers o n agem primário, rú s tico, grosseiro , ordinário, da espé­
cie de Paufo Honório. Mesmo com um n arrador im p es soal ,
aliás, ainda subsistiria alg uma i nveros similh ança, pois aquêle
personagem, como aparece no romance, não podia ter a vida
interior que lhe atribui o romancista. li: a inverossimilhança
que se ve rificará , embora sob ou ro asp ecto, em Vida.Y S�cas.
t

Nota- se a p rincípio uma certa hesitação na marcha do


enrêdo de São Bernardo. Os primeiros capítul os se lançam
em vári as direções, como se o próprio rom ancista não esti­
vesse ainda no domínio da linha central do desenvolvimento
dramático. Há mesmo alguns trechos q ue parecem enxert ad os ,
podendo figurar · ou não · no conjunto , indiferentemente, como
o capítulo VII, com a história ind ep endente de "seu" Ribeiro.

162
Como fi cção, rigorosamente, o livro só se afirma e define a
partir do casamento de Paulo Honório com Madalena. E o
seu núcleo central, com efeito, é a existência dêsses dois sêres,
o patético do não. en ten dimento entre êles, o jôgo de contraste
e s ep aração d aqu ela s duas criaturas dentro de uma mesma
casa. Atravé s dessas s itu ações , o rom an cista desvenda e ana­
lis a o caráter de Paulo Honório, o qu e constitui a maior atra­
ção de São Bernm·do. Tratado com uma sob ried a de, que às
vêzes atinge o esqu em atis mo, o assunto se apresenta, no entan­
to, muito rico em sugestões, cabendo ao leitor compreender e
s entir o que está além das p alavr as e dos episódios. Aliás, o
v al or do ·livro se engr an de ce na prop orção em que se apro­
xima do final. A meu ve1-, o seu ponto mais alto é o capítulo
XXXI no suicídio de Madalena. A certo r esp eito , êle sintetiza
tôda a n ov ela : no pri ncíp io, uma breve descrição da fazenda
n aqu ele momento; depois, uma cen a de ciúme de Paulo Honó­
rio e a reação de Mad alena, em d iálog o s e alusões que resu­
mem o drama de am b o s ; em s egu ida, a morte de M ada lena .
E que sutilez a, que ol'iginaliclade, que senso e gôsto literá­
rio ao escritor na prep a ração e na apresent açã o ão episódio 1
ll:le não comete u a banalidade ele l ançar em cena, obj etiva­
mente, o s uicíd io ela mu lher, m as por isso mesmo, p orque o
envolveu numa atmosfera d e mis tério e de s om br a, é que êle
comove intensamente, :fl:ste cap ítul o XXXI de São Bernardo,
sem dúvida, é uma pequena o br a-p rima , que conh·abalança o s
defeitos e defi ciê n ci a s que porventura possam ser ap ontado s
em tô da a novela. Pam encontrar pá g in as semelhantes na o bra
do Sr. Oracilia no Hamos será preciso buscá-las em capítulos
cu lminantes de Angústia, como veremos a seguir.

o o

Em 1936, dois anos depois de São Bernardo, ap arecia


Angústia, num momento, alills, em que o S1·. Graciliano Ramos
se achava na cadeia, pe1·seguido de maneira es túp id a e inex­
plicável p ela policia-polftica que preparava o ambiente para
a ditadura ( 11 ) . N ão e1·a êle 11aq uela época um homem de par­
tido, m as apenas - e como ainda hoje nos seus livr os de
ficção - um es cri tor independente, ten do a consciência de su a
ru.te como expressão de rea lidades hu m an a s , honestamente

163
observadas e superiormente reveladas. Angústia, por sinal, é
o menos "social" dos seus romances, e o mais introspectivo,
o mais impregnado de subjetivismo, o mais voltado para a
vida interior dos personagens, a despeito de alguns aspectos
que dizem respeito à organização da sociedade. O ambiente
não é mais uma fazenda ou uma pequena cidade do interior;
o ambiente de Angústia é a capital de Alagoas, em parte o
Rio de Janeiro, atrnvés das reminiscências de Luís da Silva.
Simples referências nominais, porém; pois o problema do espa­
ço, com o o do tempo, não tem limitações neste romance. Ele
foi colocado num plano em que tanto o autor como o leitor
fazem abstração de locais e de horas. O seu centro vital é
o processo psicológico de um personagem, que vai da norma­
lidade espiritual de um modesto burocrata até a exacerb a­
ção de um delírio de criminoso, cercado de problemas e suges­
tões de dramaticidade. Não obstante êste centralizar da ação
num só personagem, as situações humanas e literárias se des­
dobram de tal maneira que logo identificamos esta obra como
um autêntico romance. Em São Bernardo e Vidas Sêcas, nove­
las, a substância e a forma estão concentradas numa única
direção, dispostas para a revelação de um só drama ou epi­
sódio. An gústia, ao contrário, desdobra-se em vários episódios,
que circulam o drama principal, ou com êle se cruzam em
múltiplas direções, de modo que a ação se processa em diver­
sos planos, dando-lhe a extensão e a amplitude de um romance.
Ao lado de Luís da Silva, surgem Julião Tavares e a criada
Vitória, que provocam ràpidamente o nosso interêsse como
tipos humanos.
Tal como já acontecera em Caetés e São Bernardo, o
romance Angústia está escrito na primeira pessoa, com o per­
sonagem principal como narrador. Mas enquanto João Valério,
um incapaz absoluto, e Paulo Honório, um bandido rústico,
não têm verossimilhança como . imaginários autores daqueles
dois primeiros livros, Luís da Silva, no terceiro, em nada se
choca com as boas regras do jôgo literário nessa debatida
e . complexa questão do personagem-narrador. � certo que
êle se classifica, logo na primeira página, como um pobre-diab o ,
mas tôda a ação do romance, ao contrário do que se observa
quanto a João Valério e Paulo Honório; demonstra que existe
adequação entre êle e a história que nos oferece como pr ota­
gonista. Além disso, Angústia exigia realmente a narração na

164
primeira pessoa, enquanto São Bernardo, a meu ver, se tor­
naria mais verossímil e melhor estruturado com uma narração
impessoal. Assim, uma certa desordem, que se observa em
Angústia, com uma linha condutora em zigue-zague, não é um
defeito, mas um caráter do livro. Defeito de técnica, talvez,
será que a primeira parte se tenha alongado demais em pre­
juízo da segunda. De orientação, porém, n enhum defeit o .
Aqu el a desordem aparente é a conseqüência lógica e p erfe ita
do estado de espírito do personagem-narrador, por �e pró­
prio assim caracterizado :
Há nas minhas recordações estranhos hiatos. Fixaram-se coisas
insignificantes. Depois, um esquecimento quase completo. As minhas
ações surgem baralhadas e esmorecidas como se fôssem de outra pessoa.
Penso nelas com indiferença. Certos atos parecem inexplicáveis. Até as
feições das pessoas e os lugares por onde transitei perdem a nitidez.

O enrêdo de Angústici n ã o tem importância ou signifüca­


ção, nem é sôbre o em·êdo que repousa o valor dêste romance,
como de qualquer outro do Sr. Graciliano Ramos. Numa rua
modesta, . Lu ís d a S ilva apa ixona-se por u m a môça, Marina,
que nada apresenta de es p ec ial ou extraordinário. Aj us tado
já o casamento, aparece Julião Tavares, gordo, l'ico e cretino,
que envolve Marina no c omum processo ile s e du ç ão , separan­
do-a de Luís da Silva, tornando-a sua amante por algum
tempo. Enrêclo s im pl es , até banal, como se vê.. Contudo,
o que principalmente v a loriz a Angústia é que sôbre um enrêdo
dessa espécie o Sr. Gmciliano Ramos ten h a realizado um dos
mais apaixonantes e intensos romanc es da nossa literatura con­
temporânea. De que se formou, então, o romance ? Da vida
interior e ela análise psicológica de Luís da Silva. E não pode
por isso ser re s u mido , n em m es m o apresentado ao leitor. Será
preciso lê-lo por inteiro, e mais de uma vez, acompanhando
com emoção a qu ela figura angu s tiada de Luís da Silva, no
tumulto e d es orde m dos seus ]_)en s am en to s, s en tim entos , remi­
n is cê ncias, inte n çõ es , p roj etos , ilelírios. Por detrás d a ap arente
desordem , a mão do romancista r eúne , di spõ e , co mpõ e com
a mestria de um demiu rgo . Se tivesse de in Cl i c ar dois t1·echos,
como os pontos culminantes da arte literária do Sr. Graciliano
Ramos neste livro, êles s eriam os que se e ncon tr am às pági­
nas 140-149 e 214-223 desta te rc eira edição. O p rimeiro dêles
descreve o m ovimento da idéia do crime a entrar e a insta-

165
lar-se na cabeça já perturbada de Luís da Silva. Dias antes,
em casa, êle olhara um cano com a sensação de que aquêle
objeto era uma arma terrível. Olhou-o com mais insistência e
pareceu-lhe que "o cano se estirava ao pé da parede, como
uma corda" . Agora, no trecho destacado, um amigo lhe traz
de presente uma corda. E a visão dela começa a provocar
em Luís da Silva reminiscências de crimes, de enforcados, até
fixar-se nêle o projeto de assassinar Julião Tavares com êsse
insb.umento. ltste é um capítulo magistral, em que se sen­
tem como que as marchas e as voltas de um pensamento, con­
duzido por uma fôrça secreta e misteriosa para um ponto que,
conscientemente, procura afastar com horror. Daí por diante,
Luís da Silva já não se pertence, nem se domina. Vê-se jogado
cada vez mais para dentro de uma atmosfera de sombra e
anormalidade, movimentando-se como um possesso, em estado
de vertigem e ele alucinação. Assim, num crescendo, êle chega
ao delírio com que s e encerra o romance. E êste é o outro
tiecho que eu destacaria como um dos pontos culminantes de
Angústia. Deve-se ainda assinalar que, dentro embora de um
processo de romance universalmente utilizado, Angústia não
se liga pa1ticularmente a qualquer modêlo europeu ou norte­
. am ericano sendo um livro brasileiro quanto ao espírito e à
,

forma.
o

o o

Aliás, o m ais brasileiro dos livros do Sr. Graciliano Ramos


é sem dúvida a novela Vidas secas, :Rublicada em 1938. Reve­
laram-se nesta obra algumas das melhores qualidades do seu
autor, ausentes no que escrevera antes. Antes, em São Ber­
nardo e Angústia, a sua atitude humana era quas e simples­
mente de "Sarcasmo e revolta egoísta. Em Vidas secas, êle se
mostra mais humano, sentimental e compreensivo, acompa­
nhando o pobre vaqueiro Fabiano e sua família com uma sim­
patia e uma compaixão indisfarçáveis. Aliás, não será signi­
ficativo e explicativo a êste respeito que Vidas secas seja a
sua primeira obra de ficção em que a pessoa encarregada de
narrai' a história não é um personagem, mas o próprio roman­
cista? Não será isto um sinal de que antes deixava os per­
sonagens entregues à própria sor�e, enquanto agora se iden­
tifica com os desgraçados nordestinos de Vidas Secas P

166
Eis uma novidade desta obra quanto à forma: a narra­
tiva na terceira pessoa, com o autor a movimentar direta­
mente os sêres da sua criação. Contudo, tecnicamente, Vidas
Sêcas apresenta dois defeitos consideráveis. Um dêles é que
a novela, tendo sido construída em quadros, os seus capítulos,
assim independentes, não se articulam formalmente com bas­
tante firmeza e segurança. Cada um dêles é uma peça autô­
noma, vivendo ,por si mesma, com um valor literário tão
indiscutível, aliás, que se poderia escolher qualquer um, con­
forme o gôsto pessoal, para as antologias. O outro defeito
é o excesso de introspecção em personagens tão primários e
rústicos, estando constituída quase tôda a novela de monólo­
gos interiores. A inverossimilhança, neste caso, não provém
da substância da novela, mas da técnica. Se houvesse maior
proporção entre episódios e monólogos, entre a vida exterior
e a interior dos personagens, êste problema da ficção teria sido
resolvido de maneira perfeita. Porque, no mais, nenhuma inve­
rossimilhança, nenhum defeito fundamental será encontrado
em Vidas Sêcas. Tudo o que o romancista, nos monólogos
interiores, atribui a Fabiano, sua mulher e seus filhos, são
pensamentos e reflexões à altura do que lhes poderia ter ocor­
rido realmente. �les pensam, imaginam e sentem o que seriam
pessoalmente capazes de pensar, imaginar e s enti r O roman­
.

cista caiu numa inverossimilhança qu anto à técnica de disEo­


sição dos monólo� os, mas se salvou dessa falha no que ruz
respeito ao conteudo dêles. Por outro lado, a falta de uni­
dade formal, acima assinalada, não se verifica na p arte do
assunto. Na substância, a novela apresenta uma perfeita uni­
dade, uma compl e ta harmonia interior. O drama do primeiro
capítulo repete-se no último; e tudo o mais que se encontra
enb·e êles constitui uma matéria de ligação entre os dois epi­
sódios semelhantes.
Além de ser o mais humano e comovente dos livros de
ficção do Sr. Gra cilia no Ramos, Vidas Sêcas é o que contém
maior sentimento da terra nordestina, d aqu el a parte que é
áspera, dura e cruel, sem deixar de ser amada p elo s que a
ela estão l igado s telul'icamente. O que impulsiona os sêres
desta novela, o que lhes marca a fisionomia e os caracteres,
é o fenômeno da sêca. No primeiro capítulo, li'abiano e a sua
família são retirantes, em busca de um nôvo pedaço de terra.
Aloj am-se co�o servidores de uma fazenda, e é ai que vamos

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conhecê-los através de algun s episódios e muitos monólogos.
A cada figura da novela - Fabiano, Vitória, sua mulher, o
m en ino mais velho e o menino mais nôvo - o romancista
dedica um capítulo, que é como que um retrato de caracte­
rização, em que o próprio person agem se aeresenta ao leitor.
Da familia também faz p arte a c ach orra Baleia, e o capitulo
que lhe é dedica do se acha reves ti do de uma humanidade
talvez m aior que a dos sêres humanos, sendo esta uma das
págin as mais famosas do Sr. Graciliano Ramos. Em Vidas
S�cas, no e ntanto , nenhum capítulo me agr a da mais do que
" Fe s ta ", em que , a o po d er descritivo e à c ap a ci d ad e de visua­

lização, o ficcionista ajuntou uma sutileza de tons e de notas


psicológicas realm en te admirável; ou ainda "Inverno", quadro
oe uma fam íli a em noite de frio e mis éria. Por fim , também
a nova fazend a é atin gi d a pela sêca; e Fabiano se de cid e a par­
tir, num a outra etapa do seu destino de movim entar- se sem­
pre como um judeu errante em busca de uma nunca a tin gid a
terra da promissão. O final do livro é uma retirad a, como o
pri ncíp io fôra uma chegada, dentro de uma fatalidade que
o romancista su g ere ao dizer que êles "dali se afastavam rápi­
dos, como se alguém os tan gesse" .
Parece-me que Vidas S�cas rep resenta ainda uma evolu­
ção na obra do Sr . Graciliano Ramos quanto ao estilo e à qua­
lidade estritamente literária. Em n enhu m outro dos seus livros
encontramos t ant a ·beleza e t ant a harmonia na constru ção ver­
bal. E sàmente aqui êste autor, de e sp írito tão pouco poético,
consegue a ti ngi r às vêzes um estado de poesia. Foi também
em Vidas S�cas que o Sr. Graciliano Ramos p el a p rim eira vez
se libertou por inteiro de al gumas quedas no mau gôsto ou
na vulgarid ade de expre ssão , com que nos surpre en de , tão
freqüentemente, em São Bernardo e até em Angústia. Afi­
nal. se Angústia é a sua maior r ealiz a ç ã o como ficcionista,
Vidas S �cas é a obra que nos oferece t6da a sua medida como
escritor, juntamente com Infdncia .

o •

O volu me de contos Ins8nia, com ex ceç ã o de duas ou trê s


peças, representa a part e fraca da obra do Sr. Graciliano
Ramos, s omente não comp arável a Caetés pelas qualidades

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de estilo . Creio que quase todos êstes contos são páginas de
circunstância, escritas para jornais e revistas, sem grandes
cuidados. Rigorosamente, nenhum dêles é um conto. Ins6nia
e O Relógi o âo Hospital são dois monólogos magníficos, mas
como classificá-los na categoria de contos ? Do mesmo gênero
é o capítulo Paulo, mas de qualidade inferior. li:stes três capí-
. tulos, aliás, são variações sôbre um mesmo tema. Um Ladrão,
que provoca a princípio um lnterêsse apaixonante, decepciona
em seguida pelo convencionalismo do desfecho. Peças como
A Prisão de ]. Carmo Gomes, A Testemunha, Ciúmes e Uma
Visita, só desejariamos que nunca houvessem sido escritas ; elas
são literàriamente indignas de qualquer escritor, ainda mais
de um escritor ela espécie do Sr. Gracll iano Ramos ( 12 ) . A meu
ver, os capítulos de mais significação e valor literário dêste
volume, são Dois Dedos e Minsk, sendo também aquêles que
mais se aproximam do que há de paiticular e específico no
conto. Reparando bem, a verdade é que uma peça como
Minsk salva todo um volume , vivendo por si mesma de ma­
neira definitiva . Entre os capítulos que são pequenas obras­
primas, no sentido de pe1-feitas e completas, dentro ela obra
geral de ficcionista elo Sr. Graciliano Ramos, a história de
Minsk bem merece ser incluída ao ]ado da Baleia de Vidas
S�cas. Aliás, o assu nto de Minsk é também um bicho; e quem
sabe se o Sr. Gracili ano Ramos, a êste respeito, não está sen­
timentalmente próximo do seu personagem Fabiano, que "vivia
longe dos homens" e "só se dava bem com a n im ai s ? "

Com meia dúzia ele livros, a obra do Sr. Graciliano Ramos


já avulta hoje como uma da s mais expressivas e valiosas da lite­
ratura brasileira, a d espei to da desproporção que existe entre
a riqueza da su a viela interior e a insuflciêncill do s e u materia]
de obse rvaç ão , enti·e a sua arte de escrever e o seu pequeno
mundo de ficção.
Tidlio de 1947.

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