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A primeira dessas reformas referia-se ao tráfico negreiro transatlântico.

Deci-
o apôr fim ao comércio de escravos africanos que só crescera desde o Bill Aberdeen,
,'vemo inglês aumentou, ao longo de 1849, a sua esquadra encarregada de comba-
,00 tráfico nas proximidades da costa brasileira e, em 22 de abril de 1850, deu or-
ns para que a mesma não limitasse mais suas operações apenas ao alto-mar, po-
ndo penetrar em águas territoriais e inclusive nos portos brasileiros para dar bus-
apreender ou afundar embarcações negreiras. Seguiu-se uma série de inciden-
'ao longo da costa brasileira, havendo até troca de tiros entre um brigue de guerra
'tânico e o forte de Paranaguá. A ação ostensiva inglesa mais uma vez causou uma
neralizada indignação popularno Brasil, como um atentado que era à soberania
iõhal; falou-se até em guerra contra a Inglaterra. Pressionado, por um lado, pela
:õcfê potência mundial da época e, por outro, pela opinião pública do país, o go-
PARTEB mo conservador brasileiro buscou uma soluçãü-d~compLOmisso:~eliminar..o tráfi-
CONSOLIDAÇÃO E CRISE DO IMPÉRIO negrciro afro-brasileiro, mas não por meio de um novo tratado com a Inglaterra-
que'denotaria fraqueza e sujeição -, e~sim pela cr}aç!.o de uma lei brasileira - o que
, ria a entender que a iniciativa e a decisão partiram do governo imperial, de acordo
,mos interesses nacionais. Em 12 de julho de 1850, Eusébio de Queiroz apresen-
üàCâmara um projeto de lei que abolia o tráfico negreiro para o Brasil, tornando-o
alente à pirataria e estabelecendo tribunais marítimos especiais para julgar os
os "de infração. Aprovado rapidamente na Câmara e no Senado, converteu-se na
Ide 4 de setembro de 1850. Aplicada com rigor, o tráfico de fato chegou ao fim; em
51, desembarcaram no Brasil apenas três mil, duzentos e oitenta e sete escravos
A HEGEMONIA SAQUAREMA 'canos, contra oitocentos no ano seguinte, ocorrendo em 1855 o último desem-
'que registrado (noventa escravos). A repressão feita pelo Governo - facilitada,

O govern? con~ervador que diri~iu a ~~íti~ajmperial a partir de setembro de


1848 fOIo mais forte que teve o Impeno até então, sobretudo depois da refor-
,rcerto, pelas reformas centralizadoras de 1840 e 1841 - recaiu essencialmente
bre os traficantes, julgados pela Auditoria da Marinha, com recurso ao Conselho
mulação realizada um 8 de outubro de 1849, quando o visconde de Monte Alegre, Estado, ao passo que os compradores, julgados pelo júri, ficaram, assim, pratica-
José da Costa Carvalho, substituiu Araújo Lima na Presidência do Conselho de Mi- ente livres de qualquer punição. A partir daí, o tráfico negreiro somente se realiza-
nistros. Reúne-se, então, respectivamente nas pastas da Justiça, da Fazenda e dos internamente, entre as províncias, verificando-se umain-tensificação progressiva
Estrangeiros, ~ célebre "trindade saquarema" - Eusébio de Queiroz Matoso da Câ- transferência de escravos de regiões em crise, como o Nordeste, para áreas mais
mara.joaquim josé Rodrigues Torres (futuro visconde de Itaboraí) e josé Soares de issoras, como o Vale do Paraíba e o Oeste Paulista.
Sousa (depois visconde de Uruguai): Er~m estes os principais líderes dos saquare- Asegunda reforma promovida pelo gabinetesaquaremaestava intimamente re-
mas, denominação que se referia, fundamentalmente, a um grupo de políticos con- ionada com o problema diretamente colocado pelo fim do comércio de escravos
servadores da província fluminense ligados à cafeicultura, mas que logo se generali- ricanos: o suprimento de mão-de-obra para as grandes fazendas, sobretudo para
zou de forma a abranger os políticos conservadores de todo o Império. ~~er a expansão cafeeira. Como a população escrava dependia de influxos exter-
Como destacou limar Rohloff de Mattos, em trabalho fascinante, I foi este gru- s para crescer, já que o seu índice de mortalidade era maior do que o de natal ida-
po que, afirmando-se como classe dirigente, logrou estabelecer a sua hegemonia po- ,e como a mão-de-obra nacional era descartada, por ser considerada desqualifica-
lítica, ao integrar os conservadores de todo o Império e conseguir, por meio da força , a ~~~~o só poderia ser a imigração de trabalhadores estrangeiros (particular-
e do consenso, que os liberais afinal aderissem ao princípio da ordem. À frente de_~ ente e.uropeus) para o Brasil. Isto, por sua vez, implicava o estabelecimento de
governo coeso, contaram os saquaremas com o apoio de uma Câmara conservadora- ~põIí~ica de terras que as tornasse inacessíveis a esses imigrantes, pois, caso con-
mente homogênea (havia apenas um único deputado liberal) e de um Conselho ~e -~"ao chegarem ao Brasil, não iriam estes, trabalhar para os grandes fazendeiros,
Estado também afinado com seus interesses, no qual sobressaíam Bernardo "~.;; ~~ara eles mesmos, nas terras que logo adquiririam. Por outro lado, havia tam-
de Vasconcellos e Honório Hermeto Carneiro Leão. Desta forma, tiveram a._orça '~~ma necessidade urgente de definir um novo regime de acesso e posse das ter-
necessária não só para reprimir, com sucesso, o derradeiro ato de rebeldia liberal-o ~Jaque o sistema de sesmarias dos tempos coloniais havia sido suspenso desde 17
movimento praieiro -, como também para promover uma série de reformas bast,"'" Julho de 1822 e nenhuma lei congênere o havia substituído até então. Neste con-
to, uma lei de terras fazia-se premente, visto ser preciso regularizar não só as an-
246 te polêmicas que completariam a obra do Regresso.
tigas sesmarias, que estavam em situação jurídica caótica, como as posses ilega], de 1862. Nas palavras de José Murilo, a Lei de Terras, que não deixou de represen-
mente efetuadas desde 1822, sobretudo aquelas grandes concentrações resultan_ r um avanço em relação a suas propostas regulamentadoras, sofreu o veto dos barões.
tes da expansão cafeeira. ta
Mas, ..
por outro lado, ela mesma se consutuiu tam bé~m em u~ veto as camad as d e b al-
às cama .
Somente em 1842 o problema foi enfrentado pelo primeiro gabinete conse-, condição social quanto ao acesso à terra, cumpnndo, assim, o seu papel de preser-
vador formado após a Maioridade, que solici tou ao Conselho de Estado que elaboras_ var e de favorecer a concentração fundiária nas mãos dos detentores de capi~al.
se uma proposta de legislação sobre regime de terras e colonização. O projeto, que Outra das reformas saquaremas foi a que, em 19 de setembro de 1850., modificou
tinha Bernardo Pereira de Vasconcellos como relator, e era inspirado no plano de E. Guarda Nacional. A pretexto de acabar com a desorganização da instituição a nível
G. Wakefield para a colonização e ocupação de terras na Austrália, foi apresentado ~õcal,admitida por conservadores e por libe~ais, efetuou-se uma reforma que a colo-
com algumas modificações, pelo então ministro da Marinha Rodrigues Torres à Câ- cou sob o forte controle do governo central. E suprimido o princípio e1etivo para o ofi-
mara dos Deputados, em 10 de junho de 1843, e propunha: a aquisição de terras de- cialato, e o ministro da Justiça - que desde o início já nomeava os coronéis-chefes e
volutas somente por meio da compra em dinheiro, com pagamento à vista e sõ6ãi: majores de legião da cidade e da província do Rio de Janeiro (nas demais províncias, as
tos preços; a revalidação das sesmarias concedidas até julho de 1822 e a legitimação nomeações eram feitas pelos presidentes) - passa, então, a nomear, com base nas pro-
das posses de mais de um ano e um dia feitas desde então; a exigência de registro õe postas dos respectivos comandantes, todos os oficiais da corporação (à exceção dos
todas as terras dentro de um prazo de seis meses, sendo confiscadas as propriedades suboficiais e oficiais de companhia, nomeados pelos comandantes de sua unidade e
de quem não fizesse a declaração dentro de seis anos; a medição e a demarcação de pelos presidentes de província, respectivamente). Além disso, as atribuições do Go-
todas as terras, sob pena de serem consideradas terras devolutas; a criação de uma verno multiplicaram-se, indo desde a organização especial das unidades nas províncias
taxa de revalidação (direito de chancelaria) e de um imposto territorial sobre às de fron teira até a aprovação do número e do fardamento dos componentes das bandas
ras, as quais seriam confiscadas caso o imposto não fosse pago por três anos, conse- de música. Dentro ainda do propósito de eliminação da ingerência das autoridades
cutivos ou não; a aplicação dos recursos provenientes da venda de terras no financia- sujeitas ao poder local sobre o comando da Guarda, sua instância imediata de subordi-
mento da imigração. O projeto causou grande polêmica na Câmara, não tantopelâs nação deixou de ficar a cargo dos juízes de paz e juízes criminais, passando a estar dire-
medidas relativas ao suprimento de mão-de-obra (embora a imigração só interessas- tamente submetida, nos lugares fora da Corte e das capitais provinciais, à autoridade
se, naquele momento, aos cafeicultores fluminenses), mas sobretudo pelas medi- policial mais graduada. A renda para o ingresso na Guarda foi uniformizada em duzen-
das que acarretariam despesas e perdas aos proprietários, como as de teor tributário, tos mil-réis e a idade mínima baixou para dezoito anos.
as exigências de medição e demarcação, e as cláusulas de expropriação. Conforme Dentre esta série de reformas deve ser mencionado, ainda, o Código Comer-
assinalou José Murilo de Carvalho, aos não fluminenses, o projeto parecia pretender cial do Império do Brasil, promulgado em 25 de junho de 1850 e até hoje em vigor. O
uma socialização de custos e uma prioatizaçâo de benefíciospor parte dos cafeicultoresfluminen- Código sistematizava e atualizava a confusa legislação comercial anterior, em boa
ses. Apesar das controvérsias que gerou, o projeto foi aprovado na Câmara sem gran- parte procedente da época colonial. Arrastando-se pela Câmara e pelo Senado des-
des modificações, e enviado ao Senado em outubro de 1843, onde permaneceu es- de 1834, ao ser promulgado veio prontamente regulamentar a febre de negócios
friando durante todo o qüinqüênio liberal, só sendo reaquecido pelo gabinete saquare- provocada pela liberação de capitais até então aplicados no tráfico negreiro e pelo
ma de 1848. Após serem suprimidas algumas daquelas disposições mais polêmicas, notável crescimento dos investimentos estrangeiros (sobretudo inglês e francês)
como o imposto territorial e a expropriação de terras (substituída por multas), o no país, particularmente no Rio de Janeiro. Enquan to de 1830 a 1850 o Governo ha-
projeto finalmente passou pelo Senado, voltando para a Câmara, onde foi rapida- via autorizado o funcionamento de apenas dezessete companhias, deste último ano
mente aprovado, tornando-se a Lei 601 de 18 de setembro de 1850, sancionada ca- até 1860 este número subiu para cento e cinqüenta e cinco, destacando-se aí os se-
torze dias depois da lei de abolição do tráfico negreiro. tores bancário e de serviços públicos de infra-estrutura urbana. Daí a importância da
Mas, ao contrário desta, a chamada Lei de Terras sofreu sempre todQ.tipo de regulamentação das sociedades anônimas feita pelo Código.
resistência dos proprietários ao se tentar colocá-Ia em prática. A maioria das sesma- Por tudo isso, o ano de 1850 é visto pela historiografia como um marco decisivo
rias e das posses permaneceu sem revalidação e Iegitimação; as terras públicas con- no processo de consolidação do Estado ImperiaT;-para o que se mostr-;~e funda-
tinuaram a ser ocupadas ilegalmente; nunca veio a ser obedecida a determinação de mental importância a hegemonia saquarema. Esta, como assinalou limar Rohloff de
que as posses, para serem reconhecidas, deveriam, no máximo, igualar-se em ta~a- Matt?s, não se limitou ao gabinete instituído em setembro de 1848, continuando
nho às últimas sesmarias concedidas; grande parte das propriedades não foi medld~, no m~nistério conservador que o sucedeu, o de 11 de maio de 1852, presidido por
demarcada e registrada, ou foi de maneira imprecisa; as multas freqüentemente n~o Rodngues Torres, e no célebre Ministério da Conciliação, formado em 6 de setembro
eram pagas; e as províncias pouco informavam sobre suas terras devolutas. Além dIS- de 1853, sob o comando de Honório Hermeto Carneiro Leão, visconde e depois
so, o objetivo da lei de atrair imigrantes europeus resultou em relativo fracasso, de- marquês de Paraná. O Tempo Saquarema ainda se prolongaria pelos três gabinetes

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vido às melhores condições (doação de pequenos lotes de terra, com qualidade su; ~onservadores seguintes (presididos, respectivamente, pelo visconde de Abaeté,
Angelo Ferraz e marquês de Caxias), só chegando ao fim com o renascer liberal marca-
p_~!~el~~~~st:~:_~:"~~~~~I~~~~~~aed~~T~~~~:~~~~~~: d~elo ministério de2::J..de~marco de 1862~.__ ~ _ 249
POLÍTICA EXTERNA NO PRATA: bém o apoio de outra província argentina, Corrientes. Irineu Evangelista de Sousa
A GUERRA CONTRA ORIBE E ROSAS dispôs-se a financiar a resistência uruguaia à Oribe em Montevidéu. A estratégia
brasileira era atacar primeiro Oribe para, depois de vencê-Io, derrotar Rosas. E as-
Resolvidos os conflitos internos e realizadas as reformas pendentes o 1m ,. sim foi feito, contando as forças brasileiras com Caxias, à frente do Exército, e com o
derá - vo I tar novamente sua atenção para assuntos externos que' desdpeno
po era, entao, almirante inglês Grenfell, no comando da Marinha. Oribe foi facilmente derrotado
.. eram o bijeto dee iinteresse e desentendimentos,
tempos co Ioruais nomeadame e os
t aindaem 1851 e Rosas pouco depois, na batalha de Monte Caseros, em 3 de feverei-
aqu~le~ r~l~cionados à região plat,i~a. En:re as décadas de 1850 e 1870 o Imp~i: ro de 1852.
brasileiro na desenvolver uma política de intervenções militares no Prata, que terá Com isso, o Império estabeleceu seu domínio ostensivo no Prata, que iria se
início na guerra contra Oribe e Rosas (1851-1852) e terminará com a Guerra do Pa- prolongar durante todo o terceiro quartel do século. O Uruguai foi colocado na con-
raguai (1864-1870), passando pela campanha contra Aguirre (1864-1865). Confor- dição de um semiprotetorado brasileiro, sendo-lhe imposto cinco tratados - um de
me destacou José Luiz Werneck da Silva, a política externa do Brasil Imperial foi aliança, que garantia sua Independência, mas previa a intervenção brasileira, a pedi-
marcada, de um lado, por uma face de relativa dependência e submissão em relação do do governo legal uruguaio, e outros quatro de limites, comércio e navegação, ex-

\ à Inglaterra e, de ou tro, por uma face de interferência e dominância relativa perante


as questões platinas; faces estas que se articulavam, dada a consonância muitas ve-
zes observada entre os interesses político-econômicos ingleses e brasileiros no to-
cante ao Prata, como na sustentação das divisões políticas e territoriais existentes,
tradição e subsídio, que asseguraram a delimitação das fronteiras segundo a vontade
brasileira, a liberdade de iniciativa para Evangelista de Sousa, a exploração brasileira
das pastagens do Uruguai e o controle das finanças públicas uruguaias. A Confede-
ração Argentina ficou também sob certo controle, recorrendo U rquiza aos emprésti-
mos de Mauá e do governo brasileiro, permitindo a livre navegação e o comércio re-
na defesa da liberdade de navegação nos rios Uruguai, Paraguai e Paraná, e na prote-
ção e no fomento aos capitais dos dois países que penetravam, não raro associados, gular, aceitando a ingerência brasileira sobre o Uruguai e reconhecendo a Indepen-
na região. dência do Paraguai. E deste obteve o Brasil um tratado de navegação e comércio e
A primeira dessas intervenções tem origem na postura cada vez mais agressiva uma convenção de limites. Apesar de tudo, o domínio brasileiro era incerto, e novas
e ameaçadora do governador da província de Buenos Aires, juan Manuel de Rosas, demonstrações de força seriam mais tarde necessárias para rnantê-lo.
em relação ao Uruguai e ao Paraguai, possivelmen te pretendendo reconsti tuir o an-
tigo Vice-Reino do Prata; na postura desfavorável ao Brasil do governador de Mon- A CONCILIAÇÃO
tevidéu, o blanco Manuel Oribe, aliado de Rosas; e na política intevencionistasaqua-
rema desenvolvida pelo ministro dos Negócios Estrangeiros Paulino Soares de Sou- A direção saquarema reafirmou-se no Ministério da Conciliação.., uma composição
sa, tendente a impor o domínio brasileiro na região, para assegurar a satisfação dos conjunta de conservadores e liberais à frente do Governo, sob as diretrizes dos pri-
interesses platinos do Império. Até 1850 o Brasil, ainda inteiramente voltado para a !f!eiros. Além da própria participação de políticos dos dois partidos no mesmo gabi-
resolução de seus conflitos internos, procurou manter uma posição de neutralidade nete, o principal aceno de abertura para os liberais consubstanciou-se na proposta
e não-ingerência acerca das questões do Prata. Mas, a partir daquela data, com a de reforma eleitoral que procurou garantir a representação das minorias. As sucessi-
efetivação da hegemonia saquarema e o fracasso da intervenção franco-britânica vas revoltas políticas que desde os tempos regenciais abalavam o Império, sobretu-
(1845-1850) contra Rosas, o Império irá adotar uma política agressiva na região. Te- do a última delas, a Praieira (o principal artífice da Conciliação, Honório Hermeto
mia-se, então, que o caudilho argentino, sentindo-se fortalecido pelo confronto Carneiro Leão, fora presidente de Pernambuco após o malogro do movimento), en-
bem sucedido com as potências européias, e já controlando o Uruguai, levasse sinaram aos conservadores que o alijamento duradouro dos liberais do poder coloca-
adiante o seu expansionismo em direção ao Paraguai, cuja Independência não reco- va em risco a estabilidade do sistema e a própria unidade do país. A reforma que pro-
nhecia, e, quiçá, ao Rio Grande do Sul, sobre o qualjá demonstrara viva ambição (em punha a chamada Lei dos Círculos Eleitorais (ou distritos) consistia na introdução
1843, Rosas, interessado em uma separação que enfraqueceria a província, recusara de dois pontos centrais: o voto distrital único e as incompatibilidades elêitõrais. O
um pedido de colaboração do Império para combater a Farroupilha). Da mes~a ~or- primeiro, ao acabar com a circunscrição eleitoral única por província e dividí-la em
ma, Oribe, além de aliar-se a Rosas, criava entraves aos vultosos negócios braSileiros div~rsos distritos eleitorais, cada qual representado por um deputado, conferiu
em Montevidéu (sobretudo a cargo de Irineu Evangelista de Sousa) e impedimen- mais força aos potentados locais, favorecendo sua ascensão em detrimento dos líde-
tos para que os estancieiros brasileiros que também tinham propriedades no Uru- ré~partidários nacionais e dos presidentes de província, tornando-se, assiffi:uma
guai, passassem seu gado pela fronteira rumo às suas estâncias no Rio Gran~e do for~a de romper o monolitismo das grandes bancadas provinciais e permitir uma
Sul, gerando uma série de inciden tes na área. Decidido a derru bar os dois caudtlhos, maIOr diversidade e autenticidade da representação. Já o segundo ponto visava re-
o Império firmou alianças com o Paraguai, presidido por Carlos Antonio Lópe~, e duzir a influência do Governo sobre o resultado das eiêiçõeserestringir õêfomínio
com os inimigos políticos de Oribe e Rosas em seus próprios países - respectl~a- e~ercido pelos funcionários públicos, especialmente os juízes, na Câmara dos De-
mente, Frutuoso Rivera, chefe do Partido Colorado (que se opunha ao Partido pUtados, ao tornar inelegíveis, nos distritos em que exercessem suas funções, os
- .-.-.-----. _ •.•_:_~_da
funcionários nÚblic.o.sLdeutr.eos ouaís.nresidences de.nroví ncia. secretários mo~in.... 2<;
ciais, inspetores gerais da fazenda pública, comandantes das armas, juízes de p Todavia, no mesmo ano de 1855, justiniano romperia com Paraná, pronuncian-
de direito e municipais, chefes de polícia, delegados e subdelegados. Outra novi:~ do em 19 de maio, um duro discurso contra este na Câmara, em que atacava a sua po-
de proposta era a eleição de um suplente para cada deputado. Como era de se e; a rtica personalista, acusando-o de despótico e o responsabilizando pelas prisões ar-
rar, a lei provocou grande polêmica no Parlamento, só sendo promulgada, em 19P;; ~itrárias que vinham sendo cometidas. Uma semana depois, faria um emocionado
setembro de 1855, graças ao empenho de Paraná, que a tratou como "questão ._ ronunciamento autobiográfico na Câmara, onde destacava a coerência de sua tra-
.
nlstena . I". ml
~tória política, como jornalista e deputado, e os serviços que prestara ao Partido
Os efeitos da leijá se fizeram notar nas eleições de 1856, quando se registro bonservador, sem deixar de mencionar alguns pequenos favores oficiais que rece-
uma ampla renovação da Câmara (67%), com o decréscimo do número de funcioná~ bera em troca (tais como verba para financiar seus jornais e escravos apreendidos no
rios públicos eleitos (e o aumento do de profissionais liberais) e com um crescimen_ contrabando de africanos). Era o fim da curta carreira política de Justiniano; concluí-
to elevado da quantidade de lideranças locais, algumas vezes suplantando nomes de do o seu mandato, não seria mais reeleito.
maior projeção (como é o caso do filho de Paraná, qerrotado, em um distrito de Mi- Mesmo sendo ridicularizadas por Paraná, as críticas feitas por [ustiniano vie-
nas Gerais, por um padre desconhecido nacionalmente). Diante de tamanho im- ram ao encontro do que muitos pensavam a respeito da conduta personalista do pre-
pacto, a lei foi aiterada já em 18 de agosto de 1860, passando os distri tos a eleger três sidente do Conselho de Ministros. Mas, além disso, a Conciliação desagradava tanto
deputados, ao invés de um. Mesmo assim, com círculos de um ou de três deputados, a liberais como a conservadores intr~ntes, pois, enquanto estes a viam como
a reforma eleitoral conseguiu o seu maior intento: garantir a representação da oposi- um sinal de fraqueza do partido e do Governo, aqueles a encaravam como uma ma-
ção, no caso, os liberais, cujo número de deputados aumentou consideravelmente nobra política para encobrir suas idéias e enfraquecer o Partido Liberal. O principal
nas legislaturas de 1857-1860 e 1861-1863, apesar de persistir a maioria conserva- adversário do gabinete, o conservador Ângelo Ferraz, defendia justamente o emba-
dora. Com isto, abrira caminho para a virada liberal de 1862. te de idéias e de princípios como a essência do governo representativo, sustentando
Além da reforma eleitoral, o Ministério da Conciliação também procurou reorde- que a pluralidade de partidos era necessária para que um fiscalize e contenha o ou-
nar a vida financeira do Império, recriando, pela terceira vez, em 1853, o Banco do tro. No entanto, não pretendia a Conciliação eliminar os partidos e a diversidade de
Brasil, que passou novamente a deter o monopólio das emissões de dinheiro e de tí- opiniões, mas não se pode negar que havia um sentido de reduzir as'margens de con-
tulos do Governo, o que desde meados do período regencial vinha sendo feito por flito e de cooptar os liberais sob uma direção conservadora. Como afirmou Francisco,
bancos regionais. Iglésias,foi antes a conciliação de homens que de princípios. ••. -
O espírito da Conciliação foi muito bem traduzido pelo jornalista e político con- A morte de Paraná, em 3 de setembro de 1856, abalou ainda mais a política da
servador [ustiniano José da Rocha, em seu notável panfleto Ação; Reação; Transação, Conciliação. Seu substituto na presidência do Conselho de Ministros, o marquês de
publicado em 1855. Embuído de uma visão cíclica, de sentido evolucionista, da his- Caxias, e menos ainda o sucessor deste, o marquês de Olinda, não conseguiram revi-
tória política do Brasil Imperial, justiniano a entendia como a sucessão de uma eter- gorá-Ia, apesar de manterem o discurso conciliador e de seus gabinetes permanece-
na luta entre os princípios da Autoridade e da Liberdade, produzindo, progressiva- rem mistos. Enfrentaram uma oposição ainda mais acirrada, sobretudo da parte dos
mente, momentos de Ação -democrática (no período entre 1822 e 1836) -, de Reação conservadores, que perdiam espaço para os liberais, pesando sobre estes ministérios
-monárquica (de 1836 a 1852) e de Transação - entre os dois princípios (iniciado em a acusação de indefinição política. A crise financeira que voltou a assolar o Império a
1852 e ainda em curso quando da escrita do texto). Para [ustiniano, se a Ação demo- partir de 1857 constituiu outro objeto de severas críticas ao Governo, gerando insa-
crática, partindo do medo e da suspeita em relação ao poder, aniquilara, por seus ex- tisfação inclusive dentro do próprio ministério Olinda; isto porque o ministro da Fa-
cessos, a autoridade, a Reação monárquica, partindo do medo e da aversão à anarquia, zenda, o liberal Bernardo de Sousa Franco, em 1858 recorreu a um novo empréstimo
e também pecando por excessos, aniquilou a liberdade; era indispensável, porta,nto, externo, contraído com a casa bancária inglesa Rothschild, e, em face da carência de
se ter liberdade como condição da ordem, ordem como condição da liberdade. Em sua visão, a moeda circulante e à falta de recursos do Banco do Brasil, decidiu permitir a vários
sociedade brasileira havia chegado agora a um período de maturidade política, liv~e bancos regionais o direito de emitir, aumentando, assim, o custo de vida e a especu-
de ódios e de paixões radicais, próprio, portanto, para o advento de uma transaçao lação. Afalta de unidade política do ministério, somado à crescente oposição da Câ-
que teria em vista apenas as necessidades públicas e o bem comum, independ~~te mara e do Senado, determinou a sua queda, em 12 de dezembro de 1858.
de partidos. Era evidente, assim, o seu obj.f:tÍ.YQ..ap.olog~t.teo·de fortalecer a poht~ca h . O I~pera~or, que sempre fora um entusiasl&. da Conciliação,_percebe que não
concilia~a cf~Paraná. Mas Justiniano não deixava de reconhecer que, a despelt.o avia mais condições de sustentá-Ia, e decide manter os conservadores no Governo,
ãsPromessas entusiastas, esta política fora, até 1855, infecunda quanto a prodUZir q~e C~ntavam com ampla maioria parlamentar. Segue-se, então, uma sucessão de

t
uma transação efetiva, aludindo, neste ponto, ao autoritarismo e à concentração de t~es ministérios conservadores, o primeiro dos quais presidido pelo ex-liberal Anto-
poderes do ministério, particularmente do chefe de gabinete. Apesar disso, mostra- Paulino Limpo de Abreu, visconde de Abaeté, vindo depois os gabinetes de
va-se confiante de que, no decorrer de 1855 e de 1856, o equilíbrio necessário entre d gelo Ferraz e do marquês de Caxias. Mas, sem condições efetivas de governabili-
os princípios democráticos e monárquicos (a Transação) seria alcançado, evitan- ade, não se manteriam no poder por muito tempo. Além da persistência do proble-
252 do-se, assim, o retorno aos períodos sucessivos de Ação e de Reação. ~a financeiro, a ol2osição liberaLcrescera significativamente com as eleições de 22
1860, quando voltaram à Câmara vários liberais históricos; entre eles, Theophilo d rante a Regência. Pensava, assim, que o Estado podia ser o elemento garantidor
Ottoni, que levou o povo de volta às ruas na Corte, com sua campanha simbolizada du liberdade e dos direitos do cidadão contra o arbítrio do poder privado, um instru-
pelo uso do lenço branco, e que redigiu, na ocasião, a famosa Circular Dedicada aos a ntO pedagógico de civilização, que preparasse o povo para o autogoverno. Partin-
Srs. Eleitores de Senadores pela Provincia de Minas-Geraes, causando grande repercussão ;edo princípio de que a tirania de um poder que está próximo, logo muito prfSente,
no país. Embora os conservadores ainda obtivessem, de início, a maioria parlamen_ é ~áis insuportável do que a de u~~~d.er mais dist.ante, l!ruguai irá defender a cen-
tar, esta de pouco lhes adiantaria, pois estavam agora divididos entre as lideranças 1ãIíiação política, como forma de dirigir e harmonizar os interesses comuns de uma
tradicionais, mais afeitas ao antigo espírito partidário, e as novas, mais moderadas. t~b tão heterogênea e com baixo pível ç!e ipstrução, e de asseguraJl...~sim!....auni-
Herdeiros da Conciliação, irão estes dissidentes aliar-se aos liberais históricos, tam- ãã(le do país. Mas, reconhecendo os males de uma centralização excessiva para a li-
bém descontentes com a orientação que seu partido vinha seguindo, formando, as- õêrÕade dos cidadãos e para a vida nas localidades, e a maior agilidade e competên-
sim, em princípios de 1862, a Liga Progressista. Sem sustentação política, e diante cia destas em resolver determinados assuntos mais particulares, defenderá também
da moção de censura ao gabinete Caxias aprovada pela Câmara, os conservadores uma certa descentralização administrativa. Preferia, portanto, para um país como o
são, afinal, apeados do poder e substituídos, em 24 de maio de 1862, pelo gabinete Brasil- ainda em formação, sem tradição de autogoverno, multifacetado e pouco
presidido por Zacarias de Góis e Vasconcelos, um dos principais articuladores da ilustrado -, a organização político-administrativa francesa (centralizada) do que a
nova composição política na Câmara, ao lado do conservador dissidente Nabuco de inglesa ou a estadunidense (descentralizada), desde que adaptada às peculiarida-
Araújo, no Senado. des e às necessidades brasileiras, de modo a se evi tar a centralização excessiva e a se
introduzir gradual, parcial e seletivamente alguns dos princípios administrativos do
o RENASCER LIBERAL self-government.
Mas, mesmo entre os conservadores, havia agora quem aceitasse certas propo-
o chamado renascer liberal dos anos sessenta já fora anunciado, no início deste sições que, desde o Primeiro Reinado, integravam a bandeira de luta dos liberais. É
•...••.•.. período, por uma série de textos políticos que marcaram época na história do Impé- o caso de Ferreira Vianna, em seu panfleto A Conferência dos Divinos, de 1867, uma
~ rio, três dos quais devem ser destacados. O primeiro, de 1860, é a mencionada Circu- alegoria crítica ao Poder Moderador. Nele, dom Pedro 11 é retratado como um dés-
lar Dedicada aos Srs. Eleitores de Senadores pela Provincia de Minas-Gemes, de Theophilo pota dissimulado, conversando com um tirano que parecia ser Nero e com mais ou-
Ottoni, na qual, narrando a trajetória política de sua vida e do país, recorda a antiga tro, os quais lamentavam não terem conseguido subjugar os anseios por liberdade e
luta liberal e reafirma seus princípios, reacendendo a chama há tanto tempo apaga- justiça de seus povos. O Imperador brasileiro Ihes conta, então, como conseguia go-
da da luta contra os conservadores e da causa liberal. O segundo é o livro de Zacarias vernar acima de tudo e de todos, sem recorrer à violência, apenas fazendo uso do seu
de Góis e Vasconcelos, Da Natureza e Limites do Poder Moderador, lançado também poder pessoal para corromper e manipular seus súditos; deu-lhes empregos públi-
em 1860 e republicado dois anos depois, que constitui um firme ataque ao que con- cos e os dividiu em partidos, que jogava uns contra os outros, às vezes fingindo con-
siderava o peso excessivo do Poder Moderador no sistema constitucional, por meio ciliá-los para confundi-los e enfraquecê-Ios ainda mais, servindo-se arbitrariamente j

do qual o Imperador dispunha livremente do poder de dissolver a Câmara, de nomear ora de um, ora de outro, conforme lhe convinha.
e demitir os ministros, e de, assim, promover a ascensão e a queda dos partidos, con- O revigoramento liberal do início dos anos sessenta consubstanciou-se também
forme a sua vontade pessoal. O terceiro escrito, por fim, publicado pela primeira vez na própria Liga Progressista, que levou adiante o ideal da conciliação de partidos,
entre setembro de 1861 e março de 1862, no Correio Mercantil, do Rio de Janeiro, são mas, desta vez, sob uma orientação predominantemente liberal, ditada, sobretudo,
as Cartas do Solitário, do deputado Tavares Bastos, que constitui a mais completa por Zacarias de Góis e Theophilo Ottoni (a despeito da maior parte de seus integran-
exposição feita até então dos princípios liberais; ao longo de trinta missivas, o autor tes serem dissidentes conservadores e dos esforços de Nabuco de Araújo - principal
apresenta uma ampla defesa de temas como a descentralização política e adminis- mentor da nova composição egresso do lado conservador- para imprimir a direção da
trativa, a separação entre Igreja e Estado, a liberdade de culto, a liberdade de co- mesma). Tanto assim que, ao passar de um simples bloco parlamentar, transforman-
mércio (opondo-se ao protecionismo alfandegário como forma de incentivo à indús- do-se no Partido Progressista, em 1864, constava em seu programa (o primeiro for-
tria nacional), a liberdade de navegação (com a abertura do Arnazonas às nações.es- m~l~ente elaborado durante o Império) a descentralização e a responsabilidade dos
trangeiras e o fim do monopólio nacional da navegação de cabotagem), o estrerta- ~mlstros pelos atos do Poder Moderador, assim como a reforma da lei regressista de 3
mento dos laços com os Estados Unidos, a emancipação dos escravos e a imigração e dezembro de 1841, considerada excessivamente coerci tiva, no intui to de dar mais
européia. gar~ntias à liberdade individual, separar as funções policiais das judiciais e conferir
As idéias de Tavares Bastos contrastavam com as do líder conservador viscon- maIOr.autonomia e profissionalização aos magistrados. As antigas proposições liberais
de de Uruguai, em seu famoso Ensaio sobre o Direito Administrativo, publicado em pareciam ser quase que um patrimônio comum neste momento.
1862, e nos Estudos Práticos sobre a Administração das Províncias no Brasil, de 1865, am- . Tanto na legislatura de 1864-1866 como na de 1867-1868, os progressistas do-
bos em dois volumes. Para Uruguai, não era apenas o Estado que ameaçava a lib~r- ml~~ram a Câmara. Todavia, esta, em ambos os momentos, não foi capaz de dar es-
254 dade, mas também os poderes locais, como evidenciara a anarquia n.~Qrovínclas 1I1dade
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1868, sucederam-se nada menos que seis gabinetes (o primeiro dos quais, de Zaca- atacados pela sentinela e submetidos a maus-tratos na cadeia, Christie exigiu uma
rias de Góis, durou apenas seis dias, caindo diante de um voto de desconfiança da censura às autoridades policiais envolvidas no caso e um pedido de desculpas do go-
I1
Câmara, a qual seria, por sua vez, dissolvida cerca de um ano depois); foi o período verno imperial pelo que considerou um insulto à marinha britânica, acrescentando
de maior instabilidade ministerial do Império. Na realidade, era frágil o predomínio também a exigência de indenização pelo primeiro incidente. Em represália à recusa
liberal na aliança progressista, de tão heterogênea composição. Nunca houve de do governo brasileiro em atender suas reivindicações, Christie ordenou ao almirante
fato ali uma comunhão de princípios e de interesses, e era intensa a troca de posi- Warren que bloqueasse o porto do Rio de Janeiro, o que de fato ocorreu entre os dias
ções partidárias. Mesmo o eleitorado das diferentes partes do Brasil encarava com 31 de dezembro e 5 de janeiro do ano seguinte, sendo capturados, ainda, cinco navios
desconfianças a identidade da nova facção política; Joaquim Nabuco, na magistral mercantes brasileiros. As ruas da Capital foram tomadas por multidões em polvorosa,
biografia que escreveu sobre seu pai, Nabuco de Araújo, relata que, nas eleições de que ameaçavam atacar a legação bri tânica, e só foram contidas por um apelo fei to pes-
1863, foi preciso apresentar a agremiação de maneiras diversas: nas províncias onde soalmente pelo Imperador. No dia 5, o governo brasileiro aceitou pagar, sob protesto,
os liberais eram mais fortes, como São Paulo e Minas Gerais, dizia-se que correspon- uma indenização pelo primeiro incidente, mas rejeitou as demais exigências, e ainda
dia ao Partido Liberal, ao qual alguns conservadores mais progressistas haviam ade- se deu o direito de cobrar um pedido expresso de desculpas e uma compensação por
rido, enquanto que naquelas onde estes é que predominavam, como a Bahia, o in- parte da Inglaterra, pela violação cometida ao território brasileiro. Diante da recusa
verso era dito, ao passo ainda que nas províncias onde ambos os partidos se equipa- do governo inglês, o Brasil rompeu suas relações diplomáticas com a Inglaterra em
ravam em poder, como em Pernambuco, explicava-se a coalizão como uma aliança 1863, ficando o caso sujeito ao arbitramento do rei Leopoldo I, da Bélgica. Este emi-
em igualdade de condições, mas conservando cada partido sua individualidade e tiu parecer favorável ao Brasil, mas as relações diplomáticas entre os dois países só fo-
suas aspirações próprias. ram reatadas em novembro de 1865, quando o enviado inglês Edward Thornton apre-
sentou desculpas em nome de seu governo ao Imperador, apesar de não ser paga a
À instabilidade política interna somaram-se graves conflitos externos. O pri-
compensação requerida. .
meiro deles, mais uma vez com a Inglaterra, por conta do incidente diplomático cria-
do pelo representante britânico na Corte, William Dougal Christie. As relações en- Na mesma época em que se desenrolava a Questão Christie, o Império envol-
tre os dois países encontravam-se tensas desde a recusa brasileira em renovar o tra- veu-se em um conflito internacional mais sério, desta vez tendo o Prata novamente
tado comercial de 1827 e as controvérsias em torno da questão do tráfico negreiro. A como cenário. O domínio brasileiro no Uruguai ficou ameaçado quando oblanco Ber-
Inglaterra não revogou o Bill Aberdeen mesmo depois que aquele comércio foi aboli- nardo Berro elegeu-se presidente, em 1860, e procurou restringir o assentamento
do (a revogação só ocorreria em 1869), alegando que o Brasil se recusava a firmar um de brasileiros (que, em número de mais de vinte mil, constituíam mais de 10% da
população uruguaia, possuindo cerca de 30% das terras do país), assim como o direi-
novo tratado que autorizasse o governo inglês a manter a supressão do tráfico. O
Império brasileiro queixava-se, assim, da vigência do ato e das capturas navais e sen- to de possuírem escravos (já que este tipo de trabalho barateava a produção do char-
tenças proferidas por conta do mesmo, ao passo que a Inglaterra, em represália, re- que, prejudicando os produtores uruguaios, que empregavam mão-de-obra livre);
clamava antigas compensações pelas perdas sofridas por seus súditos em função dos além disso, se recusou a renovar o Tratado de Comércio e Navegação com o Brasil,
distúrbios ocorridos durante o processo da Independência brasileira e da Guerra que expirou em 1861, e tentava controlar e taxar o comércio bovino feito através da
Cisplatina. A comissão bilateral instituída em 1858 para avaliar as queixas terminou fronteira e a passagem do gado para as charqueadas do Rio Grande do Sul. Assim,
em impasse, em face da recusa inglesa em aceitar as reivindicações brasileiras, sen- quando o general colorado Venâncio Flores iniciou uma rebelião contra os blancos de
do afinal dissolvida, o que estremeceu ainda mais as relações entre os dois países. Berro, em abril de 1863, o Brasil o apoiou tacitamente, bem como a Argentina, cujo
governo, afinal unificado pelo portenho Bartolomé Mitre, em 1862, recebeu a ajuda
Sob este pano de fundo é que se daria a chamada Questão Christie, configurada
de Flores, na luta travada contra as províncias federalistas de Entre-Ríos e Corrien-
a partir de dois incidentes sem muita importância, não fosse a disposição do diploma-
tes, que eram comandadas por Urquiza e recebiam apoio do governo uruguaio.
ta inglês (e de seu governo) em fazer disso um grande problema. O primeiro decorreu
do naufrágio, em 7 dejunho de 1861, da fragata inglesa Prince ofWales em um ponto re- Em meio à luta civil uruguaia, o Império enviou, em abril de 1864,já sob a pre- -
moto do litoral do Rio Grande do Sul, seguido da pilhagem da carga que chegara às sidência do sucessor de Berro, o também blanco Atanasio Aguirre, uma missão diplo-
.praias, pairando ainda a suspeita, nunca comprovada, de que alguns tripulantes haviam mática chefiada por José Antonio Saraiva, que, a pretexto de exigir o respeito aos di-
sido assassinados na ocasião. Julgando que as autoridades brasileiras delongavam a reitos antes adquiridos pelos brasileiros no país e a punição dos funcionários uru-
apuração do caso, Christie decidiu interferir nas investigações, enviando, a mando do guaios que haviam cometido abuso de autoridade contra os mesmos, buscava, de
governo inglês, o capitão Thomas Saumarez para acompanhar o inquérito, o que foi fato, criar condições para justificar uma intervenção militar no Uruguai. Acompa-
impedido pelo presidente da província. A esta altura (junho de 1862), ocorreu o se- nhado por uma esquadra comandada pelo então vice-almirante Tamandaré, Saraiva -
gundo incidente, envolvendo três oficiais da fragata inglesa Fort, que, bêbados, à pai- ainda tentou impor uma recomposição do governo uruguaio, no sentido de substituir
sana e sem se identificar, entraram em atrito com uma sentinela quando voltavam de os blancos do ministério por colorados. Aguirre, que já entrara em entendimentos com
um passeio pelo Alto da Tijuca, no Rio de Janeiro, do que resul tou sua prisão, relaxada o vizinho Paraguai, esperando contar com o apoio do presidente Sola no López, re-
256 no dia seguinte. Acei tando a versão dos marinheiros de que estavam sóbrios, foram cusou-se a ceder às pressões brasileiras, o que motivou o ul ti mato dado pelo enviado 257
imperial, em zr de agosto, ameáçanao-mvadlr-o-país-;-cãSo-an~·xlgenclas·5fa-slleTt pegllrao-erelT(}SeUUToT~euveTamau:<ruecau<rue-r;"m:,,;"essasceseS-COITl'rpl- iri

não fossem atendidas em um prazo de seis dias. ComoAguirre manteve sua posição, tórias do conflito vêm sendo questionadas por trabalhos mais recentes, como os
no dia 12 de setembro tropas brasileiras invadiram o Uruguai, aliando-se às forças de Ricardo Salles, de Francisco Doratioto e de Leslie Bethell. ~odos estes autores
rebeldes locais, enquanto Tamandaré bloqueava o porto de Montevidéu. O governo e testam os principais fundamentos revisionistas - a mão oculta do imperialismo
argentino apenas manifestou apoio diplomático velado ao Brasil, mas se manteve con da guerra, a tota I su bserviencia do Brasi'1
b~· ânico a manipular o desencadeamento
'A'

formalmente neutro, temendo a reação contrária de Entre-Rios e Corrientes. Em fita


e-daArgentina diante da I nglaterra, e a.autono~l1Ia
ia ee aa p~ospen
orosoerid a d e p~rAa~uaIa.
. Ar ~u-
fevereiro de 1865, Flores conseguiu, enfim, tomar o poder em Montevidéu, selando rarn assim que não era o Paraguai um pais avesso a presença britânica e muito
men, ' o' • -

um acordo de paz com o Império.Aesta altura, um novo conflito, de proporções mu- nos auto-Suficiente; se, em comparaçao a seus vizinhos do Prata, ocupava de fato
ito mais sérias, já se iniciara, quando o Paraguai decidiu declarar guerra ao Brasil. me a posição periférica no contexto dos investimentos ingleses na região, isto, em
um
J1rimeirolugar, se deve mars ., a um ~enor mteresse d a I ng Iaterra po~ es~e ~als ' d o que
uma opção própria de desenvolvimento, e, em segundo lugar, nao significa qu~ o
A GUERRA DO PARAGUAI
~apital inglês estivesse afastado do Paraguai, co~o atest~m ascasas ~omerciai~ bri-
No dia 12 de novembro de 1864, em resposta à intervenção imperial no Uru- tânicas existentes em Assunção, as crescentes importaçoes paraguaras de tecidos,
guai, o Paraguai capturou o vapor mercante brasileiro Marquês de Olinda, que zarpara artigos de ferro, utensílios industriais e material bélico oriundos da Inglaterra, e a
de Assunção em direção à Corumbá e transportava o presidente da província de contratação de técnicos ingleses para serem empregados em empreendimentos
Mato Grosso. Em seguida, rompeu relações diplomáticas com o Brasil e, a 13 de de- manufatureiros e de infra-estrutura. P~!!l0nstrar, por sua vez, a incon~ruência
zembro, declarou formalmente guerra a este país, dando início à invasão do Mato da idéia de total submissão do Brasil e da Argentina em face da Grã-Bretanha, basta
Grosso. Começava, assim, a Guerra da Tríplice Aliança, mais conhecida no Brasil assinalar o fato do governo brasileiro estar enfrentando esta potência européia na
como a Guerra do Paraguai. Questão Christie, inclusive estando, no início da guerra, com as relações diplomá~i-
As razões do conflito suscitaram um polêmico debate historiográfico, ainda cãs cortadas com a mesma, por iniciativa do Império brasileiro, asquais só foram rea-
~ hoje em curso, em torno do qual interpretações distintas foram produzidas. A visão tadas quando o governo inglês decidiu pedir desculpas a este. Quanto a se atribuir
dita tradicional, composta, basicamente, por relatos militares e diplomáticos, sur- ao imperialismo inglês o papel de eminência parda na deflagração do conflito, argu-
giu logo após a guerra, predominando até fins da década de 1950. Dotada .. de forte
.~,.,. mentam aqueles autores que o mesmo não interessava em absoluto à Inglaterra,
cunho patriótico, factual por excelência, e centrada nas batalhas, nas negociações cujo anseio maior (tal como o do Brasil) era justamen te preservar o mapa geopolí tico
diplomáticas e nos atos dos grandes heróis ou vilões, esta visão atribui o conflito às do Prata, mantendo, assim, o equilíbrio de poderes existente na região (até porque
pretensõesexpansionistas ou hegemonicasnaregião platina ao presidente para- o Paraguai estava longe de ser uma potência regional emergente ou de representar
guaio Francisco Solano López, sempre retratado como um ditador sangumano e qualquer ameaça aos interesses bri tânicos); além disso, a guerra não só poderia colo-
megalomaníaco, ao passo que os brasileiros nada mais teriam feito do que reagir à car em risco as vidas, as propriedades e os negócios britânicos na região, como, ao
agressão sofrida, sendo figuras como Tamandaré, Osório e Caxias, s06retudo, apre- seu término, o que se observou foi, não um maior incremento ou abertura, mas o de-
sentadas como os grandes heróis da guerra, salvadores da pátria ultrajada. créscimo dos investimentos e das importações de produtos ingleses para o Paraguai.
A partir da década de .1960, no bojo da crítica marxista às ditaduras militares Isto não quer dizer, todavia, que, uma vez tendo sido detonada a guerra, qualquer
sul-~ericaQas, surgem versões revisionistas do conflito, como as do historiador ar- que fossem seus desdobramentos e desfecho, não importariam à Inglaterra; não há
gentino Leon Pomer e do jornalista brasileiro Julio José Chiavenato, que se contra- como negar que havia por parte desta uma certa preferência pelos países aliados,
põem radicalmente à "história oficial", pretendendo apresentar uma visão crítica da q~e, afinal de contas, concentravam a maior parte dos investimentos ingleses na re-
guerra. De acordo com estas versões, ao contrário do Brasil ~_<.!~ ..Algentina, sub- grao, mas daí a inferir que o conflito teria sido estimulado, promovido QU mesmo
/'I
servien tes ao capi tal e ao governo ingleses, o Paraguai seria, an tes da guerra, uma re- correspondido aos interesses da Grã-Bretanha é, se não um disparate, um grande
pública próspera, cujo Estado provia o país de uma via nacionalista de desenvolvi- exagero.2
mento econômico auto-sufi-ciente, que o mantinha independente da ingerência ~ . Assim, parece mais apropriado pensar a Guerra do Paraguai como um conflito
do capital estrangeiros, fomentando a produção industrial e põSslí)illtando aos cam~ c~~otivações encontram-se, essencialmente, na QróPJjWinâmica de constitui-
poneses a posse de pequenas extensões de terra, em grande parte p"'ertencentes ao s
çao,d.o Estados nacionais platinos e na disputa, entre esses países, pelo predomínio
POhtlco-econoAm' d b 1-
EStado,~ão_a uma aristocracia rural. Nestas condições, o Paraguai seria um obstá- nh- . ICO a regiao, ~m ora nao se possa negar que "ª.pre;sença.Ulg esa te-
'0 o •

~lo e uma ameaça à expansão britânica no Prata, sendo a guerra provocada por Bra- ,~~,dõum fator complicador a mais neste processo. O Brasil já era então um país
sil e Argentina, que, temendo a potência do país vizinho, teriam agido como instrU- ~?Itlcamente consolidado, que exercia um certo controle sobre o Prata, mas que
mento do imperialismo inglês na região, ainda que tivessem, diante da heróica re- la sempre esta preponderância ameaçada pela Argentina e, mais recentemente,
l
sistência paraguaia, que destruir todo o país e massacrar a quase totalidade de sel.l ~: o Paraguai. A primeira assegurara há pouco a unificação do país, com a centraliza-
258 povo. ao efetuada em torno de Buenos Aires, mas também se sen tia ameaçada não só pela 259
ascensão do Paraguai como potênciâ'iii.iritar emergente no cenano prannor como, arravcssaram as ivussrorres e mvatrrrsrrrsao Bo-rJá'e'depols urugualana, no KlOLrran-
mais especificamente, pelas boas relações nutridas por este com as províncias de de do Sul. Todavia, não conseguiram manter-se aí por muito tempo, e nem, tarn-
Entre-Rios e Corrientes, onde o ideal federalista ainda não fora de todo extirpado. pouco, alcançar o Uruguai, sendo logo contidas pelas forças aliadas, obrigando Esti-
Já o Paraguai procurava assumir uma posição de destaque no Prata e estabelecer um garribia a render-se em Uruguaiana, em 14 de setembro. Antes disto, em 11 de ju-
novo equilíbrio na região; para o que, além de fortalecer-se militarmente, como vi- nho, na batalha naval do Riachuelo, no rio Paraná, a marinha de guerra paraguaia ata-
nha fazendo, precisava, por um lado, aproximar-se do Uruguai, d~_modo a impedir a
ª
ingerência do Brasil sobre o mesmo e poder ampli~u comércio exterior (me-
cou a brasileira, mas foi vencida e destruída por esta, que, em seguida, empreendeu
um efetivo bloqueio do Paraguai, mantido até o fim da guerra. Ao final do primeiro
diante o acesso ao porto de Montevidéu), e, por outro, manter acesos os entendi- ano de conflito, a única parte do território aliado ainda ocupada por tropas paraguaias
mentos com úrquiza, a fim de enfraquecer a união argentina(embora em ambos os era uma região, de interesse secundário, situada no Mato Grosso.
casos, evitasse, a princípio, firmar uma aliança formal, que poderia desencadear A segunda e mais importante fase da guerra foi, por sua vez, marcada pelo
uma reação mais enérgica por parte do Império e da Argentina) . Quanto ao Uruguai, avanço das forças aliadas, com o início da invasão do Paraguai, a 16 de abril de 1866.
durante o domínio blanco buscou estabelecer uma aliança com OParaguai, desenvol- Estabeleceram seu quartel-general em Tuiuti, onde, em 24 de maio, venceram a
vendo uma política avessa ao Brasil e à Argertina que muito interessava a este, mas, primeira grande batalha terrestre, rechaçando a investida paraguaia. Depois disto,
ao serem os coiorados recolocados no poder pela intervenção brasileira contra Aguir- somente em 3 de setembro os aliados conseguiriam avançar novamente, ao baterem
re, voltou a ficar sob o controle do Império. Acrescente-se a tudo isto a tensão exis- seus inimigos em Curuzu. No dia 22 do mesmo mês, porém - dez dias após o então
tente em razão da indefinição das fronteiras entre Argentina, Brasil e Paraguai, e da comandante-em-chefe das forças aliadas, Bartolorné Mitre, rejeitar a proposta de
liberdade, sempre ameaçada, de navegação nos rios da bacia platina. pôr fim à guerra apresentada por López (que oferecia vantagens incluindo conces-
Ao declarar guerra ao Brasil, não sem antes adverti-Io para não invadir o Uru- sões territoriais, em troca da preservação de si mesmo e do território paraguaio res-
guai, Solano López acreditava poder contar com a ajuda deste país, ainda em poder tante) -, os aliados sofreram, em Curupaiti, a sua pior derrota na guerra. No mês se-
dos b/ancos e já em luta contra o Império, e de Entre-Rios e Corrientes, gue, segundo guinte, o então marquês de Caxias era nomeado para substituir Mitre no comando
imaginava, se não entrassem na guerra do lado paraguaio, ao menos forçariam o go- geral das forças navais e terrestres, o qual só seria assumido pelo marechal brasileiro
verno argentino a se manter neutro no conflito. Além de superestimar o potencial em janeiro de 1868. Enquan to isso, os governos da Argen tina e do Uruguai enfren ta-
bélico de seu país e de subestimar o brasileiro, não contava López com a rápida der- vam sangrentas rebeliões internas, e no Mato Grosso dava-se, em maio e junho de
rota de Aguirre e com a negativa daquelas províncias argentinas em lhe prestar apoio. 1867, o episódio - celebremente relatado na obra homônima de Alfredo d'Es-
Para piorar, depois de ver recusado o pedido de permissão para que suas tropas atra- cragnolle-Taunay - da Retirada da Laguna pelas tropas brasileiras que tentavam
vessassem o território argentino das Missiones, de forma a poder então atacar o Rio por ali invadir o Paraguai. Nenhum avanço aliado foi registrado até julho de 1867,
Grande do Sul, o presidente paraguaio, em 18 de março de 1865, declarou guerra à quando se iniciou o movimento de cerco à grande fortaleza fluvial de Humaitá (que
Argentina, invadindo e ocupando Corri entes em seguida. A esta altura, o Uruguai bloqueava o acesso ao rio Paraguai e à Assunção), só efetivamente tomada em 5 de
estava de novo sob o poder colorado e a tutela brasileira. agosto do ano seguinte. A partir daí, o avanço aliado não mais seria detido, culminan-
Estavam criadas, assim, as condições para que, em 12 de maio, fosse formada a do na campanha da Dezembrada (dezembro de 1868), cOm sucessivas vitórias nas
~~ -.-~--~-..~
Tríplice Aliança, reunindo Brasil, Argentina e Uruguai. Os termos do tratado secre-
to de aliança definiam como objetivos destituir a ditadura de López; garantir a livre
batalhas de Itororó.Avaí, Lomas Valentinas (onde o exército paraguaio foi aniquila-
do) e Angostura. Entre 12 e 5 de janeiro de 1869, a Capital Assunção foi finalmente
navegação pelos rios Paraguai e Paraná, destruindo as fortificações fluviais para- conquistada pelas tropas brasileiras.
guaias existentes; impor aoParaguai o pagamento de indenizações pelasdespesas Mas uma terceira fase da guerra ainda viria em seguida, quando Solano López,
aliadas com a guerra e pelos prejuízos causados a particulares; e estabelecer os limi- que escapara da investida aliada, organizou um novo exército e liderou uma campa-
tes do Paraguai com.o.Brasil,e com a.:\.rgentin~~ntindo para estes os territórios nha de guerrilha COntra essas forças, desde 15 de abril comandadas pelo conde d'Eu.
sobre os quais julgavam ter direito (o primeiro, a área situada entre os nos Apa e Em 11 de junho, é estabelecido um Governo Provisório emAssunção, integrado por
Branco, e a segunda, a zona do Chaco). Se a guerra não fora planeT;da nem desejada representantes aliados. Em 12 de agosto, dá-se o ataque bem sucedido à Peribebuí,
por nenhum dos aliados, nem por isso deixou de representar uma oportunidade para centro da resistência paraguaia, e, quatro dias depois, as tropas restantes são massa-
enfraquecer ou mesmo destruir um poder emergente incômodo para todos, ainda cradas na batalha de Campo Grande ou Acosta Nu, López, todavia, escapou de
mais porque era crença geral (inclusive do Paraguai) que seria um conflito de curta novo, seguindo rumo ao norte do país, com as tropas brasileiras em seu encalço; em
2
duração, cada lado acreditando em uma rápida vitória sobre o outro. 1 de março de 1870, é afinal encurralado e morto em Cerro Corá. Terminada a guer-
O tempo, porém, não tardaria a mostrar o quanto eram equivocadas estas pre- ra, a última tropa brasileira só deixaria o Paraguai em 22 de junho de 1876, permane-
visões. Uma'longa guerra estava então apenas se iniciando. Em sua primeira fase, foi cendo, ainda, uma força argentina até maio de 1879.
esta marcada pela ofensiva paraguaia, quando, após ocupar Mato Grosso e Corrien- A Guerra do Paraguai foi o conflito internacional de maior duração do conti-
260 tes, as tropas comandadas pelo coronel Estigarribia, entre maio e agosto de 1865, nente americano, superando inclusive a Guerra de Secessão (1860-1865), nos Esta- 261
dos Unidos. Foi também a mais destrutiva das guerras que assolaram a América do Independência, nem os acontecimentos subseqüentes tiveram êxito em desenvol-
Sul em toda a sua história, e, segundo Leslie Bethell, com exceção da Guerra da Cri- ver um sentimento profundo de identidade nacional (esboçada apenas na xenofo-
méia (1854-1856, envolvendo Rússia, Inglaterra e França), foi, ainda, a guerra inte- bia manifesta, sobretudo, em relação a portugueses e ingleses) -, José Murilo de
restados mais violenta ocorrida em todo o mundo entre 1815 e 1914. As estimativas Carvalho destacou a Guerra do Paraguai como ofator mais importante na construção da
existentes acerca do número de combatentes e de mortos apresentam grande dis- identidade brasileira no século XIX, superando inclusive, mais tarde, a Proclamação
paridade. As tropas brasileiras eram compostas pelo Exército regular de linha, pela da República. Da mesma forma, Ricardo Salles enfatizou a forte impressão cívica
Guarda Nacional, pelos corpos de Voluntários da Pátria, e por contingentes de ho- marcada pela Guerra na vida de todos aqueles segmentos populares (livres e, até en-
mens livres recrutados à força e de escravos libertados com o fim de servirem nas tão, escravos) que, a despeito de sua posição social marginalizada, participaram das
frentes de batalha, perfazendo um efetivo estimado ao longo do conflito entre cen- lutas em defesa da pátria ameaçada. A Guerra agitou todo o país, constituindo-se
to e trinta mil e cento e cinqüenta mil indivíduos (a imensa maioria, proveniente da em um poderoso elemento integrador, e despertando um sentimento patriótico
Guarda Nacional e dos voluntários). Estas tropas representavam pelo menos dois nunca antes visto em escala nacional. Cerca de cinqüenta e cinco mil pessoas, ou
terços das forças aliadas, as quais eram compostas também por algo em torno de vin- seja, mais de um terço de todo o contingente brasileiro enviado para a guerra, apre-
te e cinco mil a trinta mil soldados argentinos (amplamente reduzidos após a com- sentaram-se espontaneamente como voluntários para irem lutar nos campos de ba-
pleta expulsão dos paraguaios da Argentina, a ponto de, em 1869, restarem apenas talha. Provinham de todos os cantos do país, o que permitiu que, pela primeira vez,
cerca de quatro mil em armas) e por reles cinco mil soldados uruguaios. Quanto às entrassem em contato, se conhecessem e lutassem juntos por uma causa comum
forças paraguaias, chegaram a reunir aproximadamente oitenta mil homens, ou seja, brasileiros de origens geográfica, social e cultural as mais distintas. Havia aqueles
quase toda a população masculina adulta do país. De todo este contingente, estive- que se dispuseram a ir para as zonas de guerra para atuarem não como combatentes,
ram em operação, nos momentos de maior mobilização, entre cem mil e cento e cin- mas em funções como médicos, enfermeiros, engenheiros e cozinheiros. Muitos ou-
qüenta mil combatentes. Ao todo, morreram cerca de trezentas mil pessoas (entre tros ainda, que não puderam ou não quiseram ir para os campos de batalha, preferi-
militares e civis) ao longo dô..s:2.nflitq,em combate, ou em decorrência de doenças e ram prestar sua colaboração de várias maneiras diferentes: fazendo doações em di-
epidemias. Agrande maioria era oriunda do Paraguai, que, ao final da guerra, perdeu nheiro, em mantimentos ou em materiais diversos (roupas, tecidos, remédios);
cerca d(95% de sua população adulta masculina. dando prêmios em dinheiro ou financiando as despesas para quem se alistasse; e
O saldo da guerra, evidentemente, foi bastante negativo para o Paraguai; além oferecendo-se para prestar gratuitamente certos serviços, como confeccionar far-
do massacre que sofreu sua população, das perdas materiais e da devastação de seu das, realizar exame médico nos praças que se alistavam, ou mesmo servir nos corpos
território, teve toda sua economia arruinada (agricultura, pecuária, comércio inter- policiais ou da Guarda Nacional permanecidos no país, em substituição àqueles que
nacional e indústria emergente), ficou sob a tutela do Brasil no imediato pós-guerra haviam partido para a guerra. De quase todas essas atividades participavam não só
(ainda que preservando sua Independência formal), foi-lhe imposta pelos aliados homens, como também mulheres. Houve, inclusive, o caso peculiar da cearense [o-
uma vultosa indenização (revista mais tarde, embora pelo Brasil somente durante a vita Alves Feitosa, que, aos dezoito anos de idade, apresentou-se, em Teresina,
Segunda Guerra Mundial) e ainda perdeu cerca de 40% de seu território para Brasil como vol untário para o combate, fazendo-se passar por homem, e mesmo tendo sido
e Argentina. Esta, apesar das perdas elevadas que teve em termos de vidas humanas descoberta a sua identidade, foi aceita pelas autoridades provinciais, recebendo o
e recursos materiais, dos prejuízos econômicos e dos empréstimos contraídos com a posto de sargento. De especial importância também foi a ampla participação de ne-
casa bancária inglesa Baring Brothers, conseguiu assegurar para si o território litigioso gros livres e libertos, a ponto de constituírem a maior parte das tropas brasileiras.
das Missiones e a região do Chaco central, embora, graças à intervenção da diploma- Um desses negros livres é particularmente digno de nota: Cândido da Fonseca Gal-
cia brasileira, o mesmo não tenha ocorrido com a pretendida área norte do Chaco. O vão, o popular Dom Obá 11d'África, conforme se intitulava; como relatou Eduardo
Uruguai, cuja participação na guerra fora bastante limitada, quase não foi afetado Silva, este baiano de Lençóis apresentou-se como voluntário à frente de mais trinta
pela mesma, pouco lucrando ou perdendo. Quanto ao Brasil, obteve do Paraguai companheiros, todos possuídos do mais vivo e denodado patriotismo, e, recebendo o pos-
todo o território que reivindicava, entre os rios Apa e Branco, e passou a exercer um to de sargento, com eles passou a integrar o 242 Corpo de Voluntários da Pátria, que
controle sobre o Paraguai ainda maior do que o que tinha no Uruguai, além de ver es- seguiu para a guerra, tendo, inclusive, tomado parte na batalha do Tuiuti, Deve-se
timulada a sua produção fabril têxtil e de artigos bélicos; mas, por outro lado, teve ainda observar que sociedades patrióticas formaram-se no Brasil inteiro, incenti-
enormes perdas humanas e materiais (só superadas, talvez, pelas do Paraguai), fi- vando os combatentes, estimulando as colaborações e o voluntariado (inclusive or-
cou com as finanças públicas profundamente abaladas e se viu obrigado a pedir, ganizando arregimentações coletivas), ajudando a fomentar, enfim, um sentimento
em setembro de 1865, um empréstimo de sete milhões de libras ao banco de integração nacional. O patriotismo foi também exaltado e impulsionado durante
Rothschild. e logo após a guerra por cerimônias cívicas, pela música e pela poesia (eruditas e po-
Um outro efeito teve, ainda, a Guerra do Paraguai sobre os quatro países en- pulares), por espetáculos teatrais, pela pintura e, sobretudo, pela Imprensa (quer
volvidos: favoreceu o fortalecimento dos laços nacionais e, entre os vitoriosos, a con- sejam os jornais, quer sejam as revistas, com destaque para as charges). Ainda que o
~ solidação dos Estados nacionais. No caso brasileiro - em que, como visto, nem a entusiasmo e o apoio diminuíssem à medida que a guerra se prolongava, e que tenha 263
)
havido muita resistência ao recrutamento forçado a que também se recorria, não se Neste espaço, as transformações que iriam se processar foram já anunciadas
pode negar a importância da Guerra do Paraguai na formação de uma identidade na- com a crise política desencadeada pela queda do último (o terceiro, desde a volta
'dos liberais ao poder, em 1862) gabinete Zacarias de Góis. As divisões políticas e a
cional brasileira, forjada no vivenciamento da própria luta ou na assimilação de seus
significados simbólicos.' Todavia, a definição desta identidade traria consigo uma instabilidade que marcaram todo o período de predomínio da Liga ou do Partido
Progressista acentuaram-se ainda mais em decorrência do andamento da guerra e
conscientização que teria desdobramentos ainda mais profundos sobre o desenvol-
do agravamento da crise financeira produzida por esta. O apoio geral que o Parla-
vimento do Império brasileiro.
mento dera à guerra em sua fase inicial foi crescentemente dando lugar a críticas,
como demonstrou Amado Cervo, primeiro por parte da oposição conservadora e
AS NOVAS COMPOSIÇÕES POLÍTICAS depois pelos liberais; questionava-se a monopolização da condução das operações
E O CLAMOR PELAS REFORMAS pelo gabinete, sem o devido respeito e atenção às atribuições do Parlamento, o fo-
mento ao militarismo e o descuido dos problemas internos, o excessivo prolonga-
Os anos que se seguiram ao término da Guerra do Paraguai assinalam um novo mento da guerra e seus altos custos, e a dita incompetência do comando das opera-
e decisivo período de inflexão na história do Império. O Brasil passava, então, por ções. Os desentendimentos culminaram nas divergências, referentes ao comando
profundas transformações econômicas e sociais, que teriam efeitos marcantes sobre das operações no Paraguai, entre Caxias, que era ligado ao Partido Conservador, e
[ a política imperial. A lavoura cafeeira encontrava-se em expansão acelerada, com o o ministério Zacarias, resultando na saída deste, para o que também contribuiu a
desenvolvimento, c:fêsde meados do século, da produção do Oeste Paulista, a qual, escolha pelo Imperador do já agora conservador Sales Torres Homem para o Seria-
aproveitando-se de condições geológicas mais favoráveis e de técnicas de beneficia- rdo. Pedro II decidiu, então, chamar de volta os conservadores ao poder, convocan-

l
mentomais aperfeiçoadas, irá progressivamente suplantar a do Vale do Paraíba, até ~do para presidir o novo gabinete, de 16 de julho de 1868, um antigo líder do parti-
superá-Ia por volta de 1880. Por outro lado, para resolver o problema da substituição do, o visconde de Itaboraí.
da mão-de-obra cativa - imposto pelo fim do tráfico negreiro lnte.JnaciQn~, pelo au- J O retorno dos conservadores ao governo fora uma decisão pessoal de dom Pe-
mento crescente do preço dos escravos adquiridos no tráfico interno (deslocados dro, já ql!e estes não contavam com maioria no Parlamento, dominado pelos pro-
das lavouras nordestinas em crise e dos centros urbanos para as prósperas zonas ca- -gressistas.A decisão, todavia, correspondia a uma tentativa de acabar com a instabi-
feeiras) e pela tradicional resistência ao aproveitamento do trabalhador livre nacio- lidade politica que as divisões entre os progressistas só vinham a acentuar; também
nal->, a imigração européia (principalmen te italiana e portuguesa) passou a ser esti- era uma forma de alinhar a direção da guerra exterior com a política interna. Mas o
mulada, sobretudo para aquelas zonas; contando com a subvenção parcial do gover- ato do imperante deflagrou uma forte oposição parlamentar, que considerava o novo
no provincial (paulista), a vinda de imigrantes dava-se agora não mais sob o fracassa- ministério legal- pelas prerrogativas de que o Poder Moderador gozava consti tucio-
do sistema de parceria, introduzido por Nicolau Vergueiro em 1847 (que resultou nalmen te -, porém não legí ti mo - por não corresponder à von tade da maioria dos re-
em uma revolta dos colonos da fazenda Ibicaba, em Limeira, em fevereiro de 1857), presentantes da nação, eleitos pelo povo. Daí a célebre formulação de Nabuco de
mas por regime assalariado ou de locação de serviços. Os meios de transporte, por Araújo em seu discurso do sorites, pronunciado no Senado, em 17 de julho, em que,
sua vez, tiveram um grande aperfeiçoamento, com a co'fistrução de ferwylas - que após acusar de absolutista a convocação de um gabinete cujo partido fora derrotado
agilizaram enormemente o escoamento e reduziram os custos da produção.cafeeira nas urnas, declarava: Vede este sori tes fatal, este sori tes que acaba com a existência do siste-
- e a substituição das embarcações a vela por navios a vapor. Nas principais cidades, ma representativo: o Poder Moderador pode chamar a quem quiser para organizar ministérios;
verifica-se um processo de urbanização acentuado, com a expansão do espaço físico estapessoa faz a eleição,porque há defazê-Ia; esta eleiçãofaz a maioria. Eis aí está o sistema re-
~das freguesias urbanas, a conversão de áreas rurais em suburbanas, a introdução de presentativo do nosso paisl. O dilema de Nabuco colocava, assim, em questão o próprio
diversos melhoramentos nos serviços públicos de infra-estrutura urbana (ilumina- funcionamento do sistema representativo imperial, que, regulado pelo Poder Mo-
ção a gás, rede de esgotamen to sani tário, abas tecimen to domiciliar de água encana-
derador e sujeito à interferência determinante do partido governista no processo
da, bondes de tração animal, calçamento com paralelepípedo) e a multiplicação dos eleitoral, afigurava-se falseado em seus fundamentos.
espaços de sociabilidade (passeios públicos, teatros, cafés, confeitarias, livrarias, as-
O discurso ousado de N abuco, conclamando à concentração de todas asforças libe-
SOCiações literárias, artísticas e musicais). Além disso, ocorre também nas cidades
rais para o grande fim da salvação do sistema representativo do Brasil, além de precipi tar a
um notável incremento do comércio e dos negócios, com a criação de indústrias,
dissolução da Câmara - substituída, como a confirmar o sorites, por uma unanime-
bancos, instituições de crédito, companhias de seguro, sociedades anônimas e esta-
( mente conservadora (os liberais, em protesto, abstiveram-se do pleito) -, deu novo
belecimentos comerciais de todo tipo. Desenvolve-se, assim, o mercado interno e
ânimo aos liberais e a sua dissidência progressista. Estes, com a volta dos antigos
emergem novos grupos sociais - os fazendeiros do Oeste Paulista, os empresários,
ç~nservadores, se reagruparam, em 3 de outubro de 1868, no Centro Liberal, presi-
as camadas médias urbanas (profissionais liberais, intelectuais, funcionários públi-
dido por Nabuco de Araújo, embrião do novo Partido Liberal, fundado no ano se-
cos, artesãos, pequenos e médios comerciantes) -, que logo se mobilizarão e passa-
guinte. No manifesto que as lideranças do Centro dirigiram ao público em 30 de
rão a manifestar suas idéias, suas aspirações, e a disputar o espaço político de forma
março de 1869, o ministério Itaboraí é acusado de ignorar as reformas pendentes e 265
são.reiteradas as críticas ao.sistema representativo. imperial, acusando-se o.Governo deralismo e república seriam expressões equivalentes -, embora Tavares Bastos
de, sob uma capa democrática, ser de fato absoluto, empregando. a máquina admi- não. se declarasse republicano.
nistrativa, judiciária e policial, e todo. tipo. de fraude e violência, para obter a vitória Em meio a essa recomposição das forças políticas, uma ala mais radical de libe-
nas eleições: o Governo absoluto não perde o seu caráter, porque se rodeia de um Parlamento. rais históricos que estiveram ligados ao.Partido. Progressista foi mais além e fundou,
Se ele mesmo elege o Pari cimento, não há senão simulacro de Parlamento. Mas não. se atribui ainda em 1868, o.Clube Radical, núcleo. do futuro Partido Republicano. Já desde
~ 1866 que esses elementos, descontentes com a hesitante orientação progressista,
culpa ao.Imperador, e sim à Reforma do.Código. do.Processo. Criminal, que teria res-
tringido. as liberdades individuais e deixado o.cidadão. sujeito às arbitrariedades po- procuraram marcar sua posição exal tada, fundando, na Corte, o.jornal Opinião Libe-
[ liciais e judiciárias. Do Centro Liberal irá sair, em 7 de abril, o.Clube da Reforma, ral, redigido. por Francisco. Rangel Pestana, Henrique Limpo de Abreu e J. L. Mon-
que, alicerçado no.jornal cario.caA Reforma, dirigido. por Francisco. Otaviano, irá pro- teiro de Sousa. Em novembro de 1869, os dois primeiros passaram a editar o.Correio
rnover os principais pontos que constituiriam o.programa, lançado. em 16 de maio. de Nacional, de feições mais agressivas, que será o.porta-voz na Imprensa do Clube Ra- ~
1869, do. no.vo.Partido. Liberal. Defendia-se, neste documento, além das clássicas dical.íO programa desta agremiação. foi o.mais radical oficialmente proposto duran-
teses liberais (responsabilidade ministerial, descentralizacão política e administra- te tod-o o.Império, nele constando propostas como. o.fim da Guarda Nacional, da vi-
tiva, supressão. do Senado. vitalício, Conselho de Estado. apenas administrativo, e li- taliciedade do Senado, do.Conselho de Estado e do Poder Moderador, a eleição dos
berdades de comércio, indústria, conSCiência e educação), propostas cama: uma re- presidentes de província, o sufrágio direto e universal, e a abolição da escravidão],....
forma eleitoral, que instituísse a eleição. direta nas capitais e cidades cam mais de Além da Imprensa, o Clube Radical serviu-se também, em 1870, de uma série de
dez mil habitantes; uma reforma policial e judiciária, que limitasse as poderes dos conferências públicas sobre Direito Constitucio.nal, de ampla repercussão. na épo-
chefes de polícia e delegados, que confiasse toda a jurisdição. definitiva criminal ou ca, proferidas, entre outros, pelo senador e professor daAcademia de Direito de São
cível aos juízes de direitos, e que assegurasse e ampliasse as garantias individuais Paulo, Silveira da Mora, no teatro Fênix Dramático, na Corte; o objetivo era não. só
contra a prisão. arbitrária; a suspensão. da recru tamento forçada; a fim da Guarda Na- divulgar as reformas radicais propostas, mas também dar início a um movimento em
cional; e a emancipação dos escravos, a começar pela libertação. do.ventre e a alforria favor do desenvolvimento de práticas autênticas do sistema representativo, de for-
gradual dos cativas existentes. - ma a que tais reformas partissem da opinião pública mobilizada, e não. do.Governo,
Um das principais integrantes deste renovado movimento liberal de oposição como de hábito.
é Tavares Bastos, que, em 1870, publica a sua abra mais impo.rtante,A Província: Es- Em 1870, com o fim da Guerra do Paraguai, os setores políticos e sociais emer-
tudo sobre a Descentraiização no Brasil. É a con tribuição pessoal do au tor ao.movimen to [ gentes sentiram-se liberados para dar mais vazão aos seus anseios por reformas, Sur-
pelas reformas constitucionais, indicando-se a que era precisa reformar para revigo- ge, então, no Rio.de Janeiro, o Partido Republicano, que lança, em 3 de dezembro, o.
rar a Império. e manter a sua integridadejj'retendendo resgatar a espírito liberal dos ~i[esto Republicano. Este, além de atacar o Poder Moderador e a centralizaç_ão
primeiros anos da Regência, e opondo-se às idéias centralizadoras defendidas pela corno fontes do despo.tismo, denunciava a ficção. e a cor~ão gue se imputava
visconde de Uruguai em suas abrasjTavares Bastas retomou alguns temas antes como a marca inerente (e, portanto, incorrigível) ao sistema representativo impe-
discutidas nas Cartas do Solitário, corno a emancipação. das escravas e a imigração. eu- rial, e o isolamento. em que se achava o.Brasil, em relação. tanto à Europa, pela dis-
ropéia, e introduziu outros, coma o.ensina público. obrigatório e gratuito, a abolição tância e indiferença desta, como, sobretudo, à América, pela forma singular de go.-
da Guarda Nacianal (que se transformara em instrumento da despatismagoverna- verno e pelas insti tuições arcaicas adoradas. Somos da América e queremos ser america-
mental) e a fim do.Senado. vitalício. (cam m-andato de oito anos). Todavia, a autono- nos. A nossaforma de governo é, em sua essência e em sua prática, antinômica ehostil aos interes-
~ --- ses dos Estados americanos. A permanência dessaforma tem de serforçosamente, além da ori-
mia provincial, a federalismo, continuava a ser a centro. de suas atenções, agora de
forma ainda mais elaborada e contundente. Defendia, assim, a restituição. dos pode- gem da opressão no interior, afonte perpétua da hostilidade e das guerras com ospovos que nos
res conferidos às assembléias legislativas pelo. Ato Adicional, a criação. de Senados rodeiam. Reconhecendo apenas o Q.rincíJ2i2.da soberania do povo co.mo fontelegí.tima
provinciais (com mandato de quatro anos), a eleição. dos presidentes de província do.poder, o manifesto defendia, como bandeira política do partido, a instauração da
(feita, a princípio, pelas assembléias legislativas), a instauração. de tribunais da Re- Re~ública e a adoção do sistema federativo, com um Senado de mandato temperá-

t
laçãa em cada província e a autonomia municipal (cabendo. às câmaras municipais a rTo@as não pregava a \7ia~evolucionária paraa re~ização de seus fins; O caminho.
poder de legislar sobre as despesas, a aplicação. dos recursos, a fixação. de impostos, \f'~\C para tanto. deveria ser o.esclarecimen to da população sobre as van tagens de tais pro-
os empréstimos e as posturas das municipalidadeslÊornente o.federalismo. evitaria ",,'
" postas, de modo a sensibilizar e mobilizar a opinião pública e o Parlamento em favor
novas revoluções e a desintegração. da Impéria)á iminente em vista da crescente da causa republicanal Prevalecia, ainda, a velha lógica liberal: cumpre realizar logo
sujeição e espoliação impostas às províncias pelo. governo central. O federalismo, as reformas para prevenir a revolução.
segunda a político alagoano, era a base da governo representativa, equiparava-se à I9 s meios de que se serviram os republicano.s para promover essa conscientiza·
liberdade, opondo-se ao. despotismo, que era produto da centralização. Assim, da çãojforam, sobretudo, a I!!lprepsa, os clubes e partidos, e as manifestações públicas
fórmula que concebeu - absolutismo, centralização, império, são, neste sentido, expressões Nelson Werneck Sodré info.rma que, somente entre 1870 e 1872, surgiram mais de
266 sinônimas - é possivel inferir que o.oposto fosse também verdadeiro -liberdade, fe- vinte jornais republicano.s em todo. o.país, do .A;nazo.nas ao.Rio. Grande do Sul, pas
maior autenticidade do governo representativo ou com as liberdades individuais, e
sando por Pará, Piauí, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Bahia, São Paulo, Minas Gerais
quanto à escravidão, apesar de reconhecerem o problema, mantiveram uma postura
e Paraná, além, é claro, do Rio de Janeiro. Foi na Corte que, em 3 de dezembro de
evasiva, r~legando a sua solução para mais tarde ou a deixando a cargo dos partidos
1870, o primeiro desses periódicos -A Republica - apareceu, estampando o Manifesto ~ [
Republicano; redigido por Quintino Bocaiúva, Aristides Lobo e Manuel Vieira Ferrei- monarquistas. "-
De qualquer forma, o movimento republicano, já na década de 1870, foi um-
ra, e financiado por Luís Barbosa da Silva, ojornal chegou a ter uma tiragem diária de
dos principais agentes responsáveis pelo reativamento da esfera pública. Desde os
dez mil exemplares, índice bastante elevado para a época, em se tratando de uma
primeiros anos da Regência (afora, provavelmente, a euforia inicial por ocasião da
publicação nova e com um público mais específico. Na Corte, como nas províncias,
Guerra do Paraguai), não se observava no Império uma mobilização tão intensa em
formaram-se logo clubes e partidos republicanos - muitas vezes a partir dos clubes
termos de atividades públicas de "massa", de criação de clubes e associações políti-
radicais até então existentes -, os quais, não só serão responsáveis pela publicação
{ cas, e de proliferação de jornais. Para tanto, também desempenhou um papel funda-
de diversos periódicos, como também irão promover, a exemplo das conferênciasradi-
mental um outro movimento, que só teria real consistência a partir deste período: a
cais, inúmeras conferências públicas (em geral, realizadas em teatros) e concorridos
campanha abolicionista.
comícios de rua - os chamados meetings populares.
[Todavia, o movimento republicano só será realmente forte na região Cen-
tro-Sul do país, particularmente no Rio de Janeiro, em São Paulo, em Minas Gerais e A POLÍTICA REFORMISTA DO GABINETE RIO BRANCO
no Rio Grande do SuÍ.\E, ainda assim, apresentará diferenças marcantes quanto a ~,Ç;v c,(\o-\o c4 ~ ~
sua composição sociaG forma de luta e mesmo ao seu conteúdo político-ideológico. A abolição do tráfico negreiro africano, em 1850, não foi seguida, nas próximas
O melhor exemplo destas divisões é dado pelos dois centros onde a propaganda re- duas décadas, por qualquer outra medida efetiva de caráter emancipacionista, o que
publicana mais se desenvolveu: Rio de Janeiro e Sãô Paulo. No primeiro, predomi- bem demonstra o quanto ainda havia de consenso acerca da permanência da escra-
navam no partido indivíduos provenientes das camadas médias urbanas, particular- vidão, ao menos a curto e a médio prazo. A Guerra do Paraguai, todavia, contribuiu
mente intelectuais e profissionais liberais, como atesta o perfil sócio-profissional para colocar novamente a escravidão como tema de deb'"ate na sociedade brasileira.
dos que assinaram o Manifesto Republicano; a quase totalidade dos seus cinqüenta e Aampla participação de elementos que não desfrutavam sequer dos direitos civis, e
oito signatários - como Quintino Bocaiúva (o au tor principal do documento), Salda- muito menos políticos, de cidadão (como no caso do grande número de escravos
nha Marinho, AristidesLobo, Cristiano Ottoni, Francisco Rangel Pestana, Henri- alistados nas fileiras do exército, em troca de sua liberdade), bem como o notável
que Limpo de Abreu, Salvador de Mendonça, Lopes Trovão e Antonio Paulino contingente de negros e mulatos livres que se prontificaram a combater como vo-
Limpo de Abreu - pertencia àquelas camadas: eram advogados, jornalistas, médi- luntários, eVidenciaram, de imediato, o paradoxo acerca de como podefíããSalvação
cos, engenheiros, professores, funcionários públicos e negociantes (para apenas um ~a pátria depender de elementos totalmente excluídos doWatuto da cidadania ou
fazendeiro e um "capitalista"). Já no Partido Republicano Paulista, fundado em relegados a uma ínfima condiçãosocial; como poderia o Estado imperiaIrecorrer a
1873, destacavam-se os proprietários rurais, especialmente os cafeicultores, sendo indivíduos aos quais negava os mais êtementareSâireitos e que, portanto, não goza-
a participação de profissionais liberais também expressiva, mas com muito menor vam de uma situação condizente com a importância do papel que vierani a desem-
peso político em relação aos fazendeiros ou em comparação ao que o mesmo grupo penhar? É claro que toda esta participação, ainda mais valorizada no contexto da re-
detinha no Rio de Janeiro. tórica patriótica da época, contribuiu para que a escravidão fosse seriamente coloca-
da em questão, inclusive pelos negros libertos. Se a guerra teve tanta importância
A esta diferenciação quanto à composição social dos núcleos carioca e paulista
na formação de uma identidade nacional brasileira, que, por definição, colocava to-
do Partido Republicano corresponderam algumas diferenças ideológicas entre os
dos os indivíduos em igualdade de condições perante a nação, não poderia esta
mesmos. Embora os postulados básicos enunciados no manifesto de 1870 (repúbli-
identidade se definir sem ser acompanhada de uma reflexão sobre as desigualdades
ca e federação) fossem comuns a ambos, as idéias defendidas pelos republicanos do
profundas que ela de fato encerrava.
Rio de Janeiro, expressando os anseios dos setores urbanos emergen tes, estavam re-
A ascensão política e social, nesta mesma época, das camadas médias urbanas -
vestidas de um liberalismo mais democrático (na linha de Stuart Mill), que se evi-
em geral, pouco comprometidas com o sistema escravista -, também contribuiu para
denciava na crítica maior à inconsistência do sistema representativo imperial, na
que, nos principais centros citadinos, se desenvolvesse uma consciência contrária à
preocupação mais acentuada com as liberdades e garantias individuais, e, como tal,
permanência indefinida da escravidão ou, ao menos, à não tematização da questão,
na atenção que se veio dar à questão da escravidão. Os republicanos de São Paulo,
enquanto um problema a ser resolvido da forma mais conveniente possível; ainda
por sua vez, empenharam-se em organizar uma sólida estrutura partidária, e, refle-
mais porque indivíduos oriundos desses mesmos segmentos lutaram lado a lado com
tindo os interesses dos cafeicultores do Oeste Paulista - que, dada a importância
ex-escravos na guerra.\.Éstes setores remediados urbanos é que passaram, então, a ~
econômica que tinham, se sentiam sub-representados na política imperial e preju-
constituir o núcleo do movimento abolicionista que tomou forma organizada a partir
dicados pela centralização-, reivindicavam, antes de tudo, o federalismo, de modo
de fins da década de 1860}urgem e proliferam-se, assim, jornais e clubes em defesa
a que pudessem melhor colocar o governo provincial, mais fortalecido, a serviço de
da causa, também propagada em conferências e comícios. Nestes espaços, começam 269
seus interesses; afora algumas exceções, não estavam, assim, preocupados com a
a sobressair-se algumas grandes lideranças negras ou mulatas, como os jornalistas recusa do visconde de Itaboraí em levá-Io adiante e a incapacidade política do su-
Luís Gama e José do Patrocínio, o poeta romântico Castro Alves e o engenheiroAndré cessor deste, Pimenta Bueno (então visconde de São Vicente), em congregar as for-
Rebouças, embora a maior parte dos abolicionistas fosse formada por brancos. Cum- ças políticas necessárias. Com a renúncia deste, Pedro 11chamou, a 7 de março de
pre notar também que, da mesma forma que mUltos repu5Iicanos nao eram abolicio- 1871, outro conservador para compor um novo ministério, José Maria da Silva Para-
nistas, havia muitos dentre estes -como Joaquim Nabuco - que se mantiveram fiéis à ~conde do Rio Branco, que colocou a questão na Fala do Trono daquele ano e,
Monarquia. Nesta fase inicial, o movimento abolicionista (assim co~ o republicano) mesmo sofrendo forte oposição de uma Câmara unanimemente conservadora, apre-
mostrava-se ainda cauteloso, limitando-se, em geral, a sensibilizar a opinião pública sentou à mesma o projeto.
para o problema e a pregar, não a abolição imediata, a agitação das massas e a rebelião Este, possuía vários pontos em comum com as propostas formuladas por Per-
nas senzalas, mas sim a adoção de reformas parlamentares que melhorassem a condi- digão Malheiro. Estabelecia que estariam libertos os filhos de mães escravas que
ção dos escravos e promovessem uma emancipação gradual. nascessem a partir da data em que a lei fosse promulgada, com a ressalva, porém, de
É esta a idéia defendida por Perdigão Malheiro em sua obra A Escravidão no que, até os oito anos de idade, ficariam sob a autoridade dos senhores de suas mães,
Brasil: Ensaio Histórico, Jurídico, Social, publicada, em três volumes, em 1866-1867. os quais, a partir de então, ainda poderiam optar entre libertar a criança, mediante
Como advogado que era, seu livro é permeado por um enfoque jurídico, reunindo a indenização, ou utilizar os seus serviços até que completasse vinte e um anos; no
legislação escravista produzida desde os tempos coloniais, e particularmente du- primeiro caso, os menores poderiam ser recolhidos em determinadas associações, as
rante o Império, para apresentar um quadro exaustivo da situação jurídica do escra- quais também era facultado o direito de aproveitar gratuitamente os serviços dos
vo brasileiro (recorrentemente confrontada com a escravidão antiga), tanto na área mesmos (sendo, inclusive, permitido alugá-Ios a terceiros) até que fizessem vinte e
cível, como na criminal. Para Malheiro, a escravidão afri~a não~jl!§tificava nem um anos. Previa-se, ainda, a matrícula de todos os cativos em registros municipais
pelo direito_llatl,!r.aI,!lemEefa doutrina cristã, e, aléO} de couomper a sociedade e (os não-matriculados seriam considerados livres), a criação de um Fundo de Eman-
ser uma ameaça permanente à ordem pública, era contrária ao progressc.marerial.e; cipação para a libertação de escravos a serem sorteados, e o direito do escravo re-
}
econômico da.Nação, Contudo, não chegava a propor medidas ousadas, como a abo- mir-se quando conseguisse reunir uma quantia estipulada judicialmente.
iÇão i~diata e sem indenização - que, além de contrariar o direito de propriedade, Apesar dos atenuantes que, na prática, retardavam o propósito central de li-
levaria à desorganização da produção, à desordem pública e à falência do Estado -, e bertação do ventre, as críticas ao projeto vieram de todos os partidos. O ponto cen-
sim uma emancipação gradual, tornando livres os filhos de escravas nascidos a partir tral que, paradoxalmente, unia tanto conservadores, como liberais e mesmo repu-
de uma data próxima a ser.estabelecida RQr.JeilficanQo os mesmos sob a auto-ridade ,~blicanos, era a idéia de que o projeto obedecia à inspiração imperial, e não nacional
dos senhores de suas mães até os vinte e um anos), e todos os cativos pertencentes (ou do Parlamento), sendo, portanto, fruto docesarismo. Mas é claro que havia moti-
ao Estado e às ordens religiosas (sem indenização). Defendia também ãCriação de vações mais profundas para tamanha oposição, particularmente por parte dos con-
um fundo de emancipação, o registro de todos os escravos do Império dentro de cin- servadores, cujas bases provinham das províncias cafeeiras (que concentravam o
co anos, e um tratamento mais humanitário para os mesmos - dando-Ihes acesso à maior número de escravos) do Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais, as quais,
educação, respeitando os seus eventuais pecúlios ou bens e as suas famílias, assegu- evidentemente, não interessava qualquer medida emancipacionista. Tanto que,
rando-Ihes o direito de comprar a sua liberdade por um preço justo e infligindo-Ihes mais do que divisões entre os partidos, o que se observou nas discussões travadas na
castigos com moderação -, de forma a, não só melhorar a sua condição, mas, por ex- Câmara foi, conforme demonstrou José Murilo de Carvalho, uma clivagem regional:
tensão: torná-Ios mais produtivos e menos ameaçadores aos seus senhores e à pró- enquanto 83% dos deputados do Norte-Nordeste - províncias onde o trabalho es-
pria sociedade. cravo tinha uma menor importância - manifestaram-se a favor do projeto (e apenas
A iniciativa de estabelecer uma política emancipacionista, neste momento, 17% contra), entre os representantes das províncias do Centro-Sul a situação inver-
coube à Coroa, e não ao Parlamento. Em 1866, o Imperador já havia encomendado a tia-se completamente, sendo 64% contrários a sua aprovação (e 20% favoráveis).
[ um de seus mais próximos conselheiros, Pimenta Bueno, cinco projetos abolicionis- Tanto liberais como~consenrad()reS-eHG0fl.t..ffWam-sg.,-assim,Jn~nte divididos
tas, que, ao serem entregues ao então presidente do Conselho de Ministros, mar- - 'o~J~0!!~jms~enffentando o dilema de apoiar úrrqfrojeto qu-eCOriStituía uma de
.quês de Olinda, foram por este rejeitados. Na mesma época, dom Pedro também suas principais bandeiras de luta, mas à custa de fortalecer o tradicional adversário
surpreendeu ao responder ao apelo da Junta Francesa de Emancipação em favor da que lhe tomava a frente na implementação da idéia, e os últimos hesitando entre
libertação dos escravos que seria dada prioridade ao assunto tão logo terminasse a dar apoio ao gabinete em mãos de seu próprio partido ou atender as demandas es-
guerra. E, em 1867, por ocasião do terceiro gabinete Zacarias de Góis, o problema foi cravistas das zonas cafeicultoras. Além disso, fazendeiros e comerciantes do Rio de
colocado pela primeira vez na Fala do Trono, causando enorme rebuliço, ao mesmo Janeiro, São Paulo e Minas Gerais enviaram representações à Câmara e ao Senado,
tempo em que o Conselho de Estado, respondendo à consulta que lhe fora feita criticando o projeto, sob o argumento de que, se aprovado, tornaria frágil a autorida-
pelo Imperador, elaborava novo projeto, propondo a libertação dos nascituros. Con- de dos senhores e estimularia os escravos à rebelião.
tudo, com a volta dos conservadores ao poder, o projeto, que passou a constar no pro- Apesar da forte resistência, a Lei do Ventre Livre foi, afinal, promulgada em 28
)
ro grama do novo Partido Libe~al, sofreria, inicialmente, alguns contratempos, dada a de setembro de 1871, graças não só ao empenho da Coroa e ao apoio parlamentar 271
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F A I nna aooliêionista e, de certo modo, aos temores gerados pela maior indisposição dos - - já que ela mesma concedia isenção para diversas categoria sociais (tais como, indiví-
escravos em se submeterem ao cativeiro. Era este o primeiro claro divórcio entre o duos com curso superior, padres, caixeiros de lojas comerciais, proprietários rurais e
Estado Imperial e os grandes proprietários de terras e de escravos que constituíam a feitores) e permitia algumas formas de se evitar o serviço, como apresentar um
sua base socioeconômica. substituto ou pagar uma quantia de um conto de réis; assim, o recrutamento conti-
Ainda durante os debates sobre o Ventre Livre, outra importante reforma foi J nuou a recair sobre os pobres e desprotegidos. Além disso, as punições corporais, o
levada a cabo pelo gabinete Rio Branco: a que alterava a famigerada lei de Reforma recrutamento forçado e o posto de cadete permaneceram existindo na prática.
do Código do Processo Criminal. Obra do Regresso, sempre criticada pelos liberais Havia, ainda, outra reforma - de cunho eleitoral- prevista no programa d..2.&a-
pelo seu excesslvõ centfâriSãiõ e pelas restrições às liberdades individuais, a lei de 3 binete Rio Branco, já que as modificaçoes mtrodüzidas em 1855 e 1860 pelas leis
de dezembro de 1841 tornara-se alvo de críticas também dos conservadores. Coube, dos círculos de um e de três deputados não amainaram a demanda por uma maior
assim, ao ministro da Justiça Saião Lobato implementar, em 20 de setembro de verdade eleitoral. Em 1872, Francisco Belisário Soares de Souza publicou em livro
1871, a reforma judiciária, já pedida pelo ImQerador em sua Fala do Trono daquele (O Sistema Eleitoral no Império) uma avassaladora crítica ao sistema vigente de elei-
ano. As n~ medídàS am..RliavamOhãbeã;-c~rpus (estend~-se para os casos.~ ção e ao sistema representativo imperial. A obra vinha à luz pouco depois de aprova-
que a prisão fosse ordenada pelo chefe de polícia); instituíam a fiança provisória, re- da a Lei do Ventre Livre, atribuída por Belisário a uma imposição do Poder Executi-
gulamentavam a prisao preventi;;-e ;;paravan; as funções judiciárias e policiàis vo sobre o Legislativo, dada a ampla presença de funcionários públicos na Câmara;
(perdendo o chefe de polícia o poder de julgar pequenos delitos). -- para Belisário, era esta uma prova do falseamento da representação, já que a passa-
Dois anos depois, ainda durante o gabinete Rio Branco, foi a vez da Guarda gem da lei se dera contrariamente à vontade de boa parte do Partido Conservador,
Nacional passar por uma nova reforma. A instituição - politizada, eleitoreira, desvir- particularmente da bancada do Rio de Janeiro, a qual ele pertencia. Por isto, defen-
tuada, enfim, em seus princípios originais desde pelo menos 1850 -, há mui to vinha dia, não só as incompatibilidades eleitorais, como meio de reduzir a influência do
sendo objeto de críticas, tanto de liberais como de conservadores, que cogitavam re- Governo, pela restrição da presença de funcionários públicos na Câmara, como tam-
formá-Ia ou mesmo extingui-Ia. O papel fundamental que a corporação desernpe- bém uma maior exclusão eleitoral, de forma a melhorar a qualidade do voto e, por-
=nhou na Guerra do Paraguai, demostrando o quanto era necessária para a segurança tanto, a representação. Para Belisário, o deputado era quase sempre feito pelo Go-
externa (além da interna) do país, foi decisivo para que a primeira alternativa preva- verno, e o principal responsável por isto era o votante nas eleições primárias, que,
lecesse; convinha, porém, limitar a sua atuação a casos emergenciais. Assim, a reor- dependente, ignorante, analfabeto, alheio às discussões travadas nos jornais, clubes
ganização efetuada pela lei de 10 de setembro de 1873 praticamente fez desapare- e comícios, e, logo, sem a mínima consciência política, prestava-se a todo tipo- de
cer a Guarda Nacional em tempos d; ~assando os guafdas - qualificadõs agora marupulação, por dever de gratidão, deQendência ou em troca.deJl!!~J.guer .fa~9r e
de dois em doisanos, e;;-t-relndivídüõs com idade máxima de quarenta anos p-ãfã o suborno. Belisário chega a afirmar que as eleições mais regulares eram aquelas feitas
serviço ativo e os demais para a reserva - a serem convocados, nestas circunstâncias, a~e pena, isto é, sem a participação dos votantes, forjando-se uma ata como se
apenas uma vez por ano para revista e exercícios de instrução, O que, logicamente, tudo houvesse transcorrido normalmente. Desta forma, a solução para se garantir a
afetava em mui to o seu potencial combativo. A milícia cívica ficava, portanto, redu- lisura e a representatividade das eleições seria tornar o voto mais seletivo e reduzir
zida a agir somente em casos de comoção nacional, por ocasião de guerras externas e as disputas locais, suprimindo-se a figura do votante e as eleições primárias (ou seja,
revoltas internas, estando, então, a sua mobilização a cargo do poder central, do go- introduzindo-se a eleição direta) e estabelecendo-se certos requisitos para o exercí-
verno provincial ou, excepcionalmente, da autoridade policial do termo ou distrito cio do voto, como O pagamento de impostos e a alfabetização.
onde o distúrbio ocorresse. ~rtir deste mom~nto, até ser extinta em 5 de dezem- í A crí tica de Belisário assinalava a adesão dos dissiden tes conservadores ao voto
bro de 1918, a Guarda Nacional permanecerá desmobili~ad-; em tempos de paz, e, ~ direto, já reivindicado pelos liberais, e que, todavia, não constava no projeto gover-
em decorrência disto (e da-ascensão do Exército), sofrerá uma militarizaçâocres- L namental da reforma eleitoral que se arrastava no Parlamento. Crescia, assim, a opo-
cente nas situações extraordinárias. -_. sição à política reformista do gabinete Rio Branco, a qual só fez aumentar após a dis-
Uma reforma militar foi também empreendida, com a Lei de Recrutamento solução, em 22 de maio de 1872, da Câmara. Se os conservadores foram, em boa par-
Militar, de 26 setembro de 1874. Esta, substituía o abominável recrutamento força- te, contrariados pela Lei do Ventre Livre, os liberais viam as suas bandeiras de luta
1 do aleatório - fei to com grande violência e arbi trariedade, e incidindo praticamen te sendo esvaziadas pelas iniciativas tomadas pelo ministério conservador. Por todo
apenas sobre as camadas livres de mais baixa condição social (desempregados, vadios, lado hostilizado, Rio Branco percebeu que a sua permanência no Governo inviabili-
criminosos, trabalhadores rurais sem proteção de algum proprietário) - pelo serviço zava a reforma eleitoral e a própria governabilidade, e, assim, indicou Caxias para
lrnilitar obrigatório. Estabelecia o alistamento de todos os homens entre dezenove e substitui-Io, o qual, em 25 de junho de 1875, formou um novo gabinete, capaz de
vinte e cinco anos de idade, que deveriam servir por um período de seis anos, e o re- apaziguar a dissidência conservadora e tocar à frente aquela reforma.
crutamento por sorteio para cobrir a falta de contingente, assim como abolia os cas- Aprovada, afinal, em 20 de outubro de 1875, a chamada Lei do Terço estabele-
272 tigos corporais, eliminava o posto de cadete e previa uma recompensa generosa para cia um sistema de voto incompleto, em que os votantes elegiam apenas dois terços 273
O·O~~C:;-Tc;-rL-U·rO\:)"""~-o·\;T""a"""pu.""J..-o,;.r·"l~"-'-"-"''''&-&-'&-'&.'''''~~.&''''''--''''-'

em somente dois terços dos deputados que iriam representar a província, de modo ----'DTa~U1TOS,em~r~çao a IntroduçaoaüSistema méti1co âecimaCO novo sistema de
que, em ambos os casos, o terço restante das vagas fosse destinado à minoria, ou pesos e medidas foi instituído pela lei de 26 de junho de 1862, que previa, porém,
seja,para a oposição. As incompatibilidades eleitorais foram, por sua vez, ampliadas, um prazo de dez anos para ser posta em execução. Assim, a primeira reação popular
e
1
ao se impedir que vigários e bispos - que, devido à união entre Igreja e Estado, eram só ocorreria em 1871, no Rio de Janeiro, quando pesos e medidas foram quebradõS
também funcionários públicos - pudessem candidatar-se em suas paróquias e bis- destruídos nas feiras e praças pela população, desconfiada de que estava sendo en-
pados; até empreiteiros de obras públicas foram incluídos na proibição. Por fim, foi ganada e roubada pelo novo sistema. Mas foi entre a população rural do Nordeste
introduzido o título eleitoral, acabando-se, assim, com a qualificação de eleitores que o movimento tomou dimensões mais sérias, em 1874-1875. Nas províncias de
feita a cada eleição, que a tantas fraudes dava margem. Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e A1agoas multidões que variavam de
sessenta até oitocentas pessoas invadiram feiras para destruir os novos padrões, ata-
caram câmaras municipais, coletorias e cartórios para queimar e rasgar documentos
RESISTÊNCIAS POPULARES ÀS MUDANÇAS p6blicos relativos à registro de proprieâades, hipotecas e listas de impostos, e assal-
taram caâeias para soltãr presos. Além da q uéstão da' in trodução do sistema métrico,
À medida em que o Estado Imperial ia melhor se estruturando burocratica-
men te, na segunda metade do século XIX, desenvolvia progressivamen te uma ação outros fatores também estavam por trás dos distúrbios, como a criação de novos im-
reguladora sobre a sociedade, buscando um gerenciamento mais racional da mesma postos e o aumento de outros já existentes pelas assembléias provinciais, e os abu-
e uma maior eficácia administrativa. Com isto, acabou interferindo no cotidiano de sos verificados na cobrança dos mesmos pelos arrematantes, em meio à crise da la-
amplos segmentos populares, modificando suas tradições e seus costumes. Provo- voura na região; daí a recusa de muitos proprietários de terras, também afetados
pela política tributária, em ajudar na repressão ao rnovimenmA e~e_problema de
cou, assim, resistências extremadas e violentas, pequenos e súbitos movimentos
populares, que, conforme apontou José Murilo de Carvalho, configuravam uma ci- teor econômico somavam-se Outros de ordem político-religiosa, como o conflito en-
dadania em negativo, na medida em que constituíam uma forma de participação polí- tão e~urso entre: o Estado ImpenaJ e a Igreja Católica (a chamada Questão Religiosa,
que serãvlsta !:!l.aisadiante) - reDefiClonos gritos de viVas à ieTigiao e morras à mo-
,,[tica que se dava não a partir da organização de grupos de interesse que reivindica-
vam ao Estado demandas surgidas na sociedade, mas sim em reação a mudanças im- nàrquia dados pelos revoltosos, nos ataques a lojas maçônicas e na participação de
postas de cima para baixo, objetivando preservar uma situação pretérita." padres instigando o povo à revolta - e como a retomada, desde a queda do gabinete
I Como demonstrou Hamilton de Manos Monteiro, o Nordeste foi o palco Zacarias, da pregação revolucionária liberal radical, contestando, em jornais e pan-
fletos incendiários, o Poder Moderador, a política reformista de Rio Branco, a prisão
principal das revoltas deste tipo. As primeiras ocorreram já em 1851, em reação a
dois decretos, de 18 de junho deste ano, que instituíam o Censo Geral do Império e dos bispos, os impostos provinciais e o próprio regime monárquicoIPor fim, há que
o Registro Civil dos Nascimentos e Óbitos. Além da tradicional desconfiança da po- se considerar também a interconexão do Quebra-Quilos com um outro movimento
de resistência, o de reação à nova lei do serviço militar obrigatóriq) IltiLt
pulação em relação a qualquer medida do Governo que implicasse algum tipo de re-
gistro (geralmente associado ao recrutamento militar ou à cobrança de impostos), CNos anos 1875 e 1876, diversas províncias registraram disrúrbios contra a Lei
muito contribuíram para a exaltação dos ânimos os boatos espalhados - em um mo- de Recrutamento Militar, sendo Minas Gerais a mais atingidaJBoatos novamente
mento em que já se previa a falta de braços para a lavoura, em vista da recente aboli- correram afirmando que tudo não passava de um plano para reduzir os alistados à es-
ção do tráfico negreiro - informando que os registros, na verdade, visariam escravi- cravidão. Mesmo os setores proprietários ficaram alarmados com a notícia de que a
zar as pessoas livres em geral ou, pelo menos, os negros e mulatos livres ou libertos. nova lei iria igualar todos perante o serviço militar, impedindo que somente as ca-
Os distúrbios assolaram o interior de Sergipe, Ceará e, sobretudo, Pernambuco, Pa- madas menos favorecidas fossem recrutadas; muitos, assim, não hesitaram, mais
raíba e Alagoas, tendo moradores ejornaleiros como principais protagonistas, muitas uma vez, em se negar a auxiliar a repressão ou mesmo em organizar grupos de revol-
vezes insuflados por párocos que se sentiam afetados pela introdução do Registro tosos. Em todas as áreas afetadas, bandos de cinqüenta a quatrocen tas pessoas inva-
Civil. Os manifestantes atacavam vilas e engenhos, ameaçavam e expulsavamjuízes diram igrejas durante as reuniões das juntas encarregadas de fazer o alistamento,
de paz e seus escrivães (responsáveis pelos registros), e invadiam as igrejas para im- dispersaram seus membros (juiz de paz, subdelegado e pároco) e destruíram listas e
pedir a leitura do regulamento. As ações concentraram-se nos meses de dezembro livros de registro e exemplares afixados da lei, tudo, muitas vezes, em meio a grande
de 1851 e janeiro do ano seguinte, só arrefecendo-se quando, em 29 de janeiro de violência de arribas as partes. Muitos desses ataques eram feitos por grupos de mu-
í1852, o Governo decidiu suspender a execução dos dois decretos. O censo somente lheres, temerosas de perder seus maridos e filhos, como em Mossoró, onde o chefe
veio a ser realizado em 1872 e, dois anos depois, um novo decreto seria instituído re- da revolta era Ana Floriano, que chegou a reunir cerca de trezentas mulheres. Repri-
~guiando o Registro Civil (agora incluindo o registro de casamentos), gerando, então, ~dos pelas fQ!:Çaspoliciais e por tropas.do Exército, os distúrbios, todavia, vortaram
I novos protestos. a.Qcorrer, com ca.@cterlsticãs bem semelhantes~m 18/8~L882, l885eJ.887.
Foi particularmente na agitada década de 1870 que, aliás, os movimentos des- Em 1873, estourou no Rio Grande do Sul um movimento de caráter bastante
274 se tipo se fizeram sentir[O de maior amplitude foi a chamada revolta d.o.J distinto dos ocorridos até então: a revolta dos Mucker. Na colônia alemã de São Leo-
poldo, no Vale do Rio dos Sinos, formou-se, em 1868, uma comunidade messiânica, 275
em reação, segundo Janaína Amado, às rápidas transformações por que passara, nas pessoas reuniu-se no campo de São Cristóvão, e, insuflada pelo republicano Lopes
duas últimas décadas, a até então relativamente fechada, coesa e igualitária socie- Trovão, elaborou uma petição ao Imperador, pedindo a revogação do imposto iníquo
dade local, composta predominantemente por lavradores católicos e protestantes; (evexatório. Dirigiu-se, em seguida, pacificamente a? palácio impe~ial de São Crist~-
neste meio tempo, estreitaram-se as comunicações e os contatos comerciais com.o vão para entregar o documento a dom Pedro, mas fOIbarrada no trajeto por um efeti-
restante da província, a pequena sociedade crescera e se diversificara, verificou-se vo policial, dispersando-se sem conflito. Lopes Trovão, porém, espalhou panfletos
um processo de especulação e de concentração fundiária e, conseqüentemente, de pela cidade convocando um novo comício, marcado para 1 de janeiro, no largo do
Q

empobrecimento da maioria da população, as Igrejas Católica e Protestarite hierar- Paço, desta vez requerendo que os passageiros dos bondes boicotassem o pagamen-
quizaram-se, passando a combater a religiosidade popular e a se hostilizarem mutu- to do imposto. A manifestação reuniu cerca de quatro mil pessoas, que saíram em
amente, e, por fim, quebraram-se os fortes laços de parentesco e compadrio, bem passeata rumo ao largo de São Francisco de Paula. A uma quadra do destino, todavia,
como a solidariedade comunal~ movimento Mucker foi, assim, uma saída, pela via os manifestantes subitamente amotinaram-se, passando a arrancar trilhos, tombar
messiânica, a este turbilhão de mudanças, buscando recuperar traços da antiga vida bondes, esfaquear mulas, espancar condutores, disparar tiros e montar bar
comunitárlã\ Tinha, a princípio, caráter pacífico, resumindo-se a práticas de curan- Mais de seiscentos soldados do exército, unidos à polícia, atacaram a multidão, e só
deirismo reà1izadas pelos líderes João Jorge Maurer e sua mulher Jacobina, que atri- conseguiram restabelecer a ordem no final da noite, deixando um saldo de três mor-
buíam as curas à inspiração divina; Jacobina, inclusive, sofria de crises misteriosas tos e cerca de quinze a vinte feridos. Nos três dias seguintes registraram-se, ainda,
que a deixavam em uma espécie de transe (durante o qual, além de suas atividades pequenos e isolados distúrbios, voltando tudo ao normal no dia S. Não se sabe ao
curadoras, fazia profecias), sendo vistas pela população como um fenômeno místi- certo de que lado partiu a violência, mas o fato é que o Governo imperial foi respon-
co. Os mucker (nome pejorativo pelo qual os adversários designavam os adeptos do sabilizado por um grupo de senadores e deputados liberais - como Silveira da Mota,
movimento, significando "fanático" ou "beato") reuniam-se na casa dos Maurer Joaquim Nabuco e Saldanha Marinho -, que, em 3 de janeiro, redigiu um manifesto
para entoar cânticos e ouvir interpretações livres da Bíblia, acreditando que o fim do de protesto. Em S de setembro, diante da persistência da pressão popular (cada vez
mundo estaria próximo e que eles, os eleitos de Deus, estariam a salvo do juízo final mais passageiros recusavam-se a pagar o imposto), parlamentar e das próprias com-
e viveriam uma nova era de justiça, igualdade e prosperidade. Para isto, deram início ~ panhias de bondes, o Governo decidiu, afinal, abolir o imposto do vintém. Sandra
a sua purificação, deixando de fumar, beber, jogar, votar, possuir bens ou dinheiro, e
-- "O

Graham interpretou o motim do Vintém como um marco na mudança da cultura po-


freqüentar escolas, igrejas e eventos sociais. Um movimento assim, que chegaria a lítica da Corte, inaugurando uma nova forma de ação política, doravante manifesta
ter entre setecentos e mil adeptos, é claro que desagradou aos potentados civis e re- diretamente nas ruas, despertando o interesse de um público mais amplo; parece,
ligiosos locais, que perdiam seus trabalhadores, dependentes, eleitores e fiéis. O no entanto, mais acertado pensar este movimento como parte, e não como catalisa-
combate verbal logo deu lugar, em maio de 1873, a uma intervenção policial, que le- dor, deste processo, que já estava em curso desde o início da década de 1870.
vou à prisão dos Maurer. Soltos pouco depois, retomaram suas atividades, suceden-
do-se, então, uma série de incidentes entre os mucker (que tiveram suas próprias
pessoas e propriedades atacadas), a sociedade circundante e as autoridades que le-
AS QUESTÕES RELIGIOSA E MILITAR
varam à radicalização do conflito. Os mucker ainda enviaram um abaixo-assinado ao
Nos anos de 1872 a 187 S, o Estado Imperial, que, como visto, já vinha perden-
Imperador, onde pediam justiça contra as arbitrariedades, mas o documento foi in- do suas bases de sustentação, envolveu-se em um conflito com outro importante
deferido. Cada vez mais hostilizados, passaram a crer que o reino dos céus só adviria segmento em que se apoiava: a Igreja Católica. A união entre ambos, consagrada
pela força, e lançaram-se, assim, ao ataque, realizando, em 2S de junho de 1874, uma pela Constituição, estabelecia o Catolicismo como a religião oficial do Império, mas
matança generalizada na região. Já no dia seguinte, porém, a população local organi- concedia ao Imperador, pela instituição do padroado, o poder de criar e prover o preen-
zou-se e atacou os muckere suas propriedades, e no dia 28 um destacamento militar chimento dos cargos eclesiásticos mais importantes, dependendo apenas da poste-
promoveu um ataque contra o reduto rebelde, mas foi derrotado. A notícia alarmou rior confirmação da Santa Sé, e também, pelo direito do beneplácito, o poder de sub-
toda a província e uma nova investida, com uma força estimada em quinhentos ho- meter ao seu parecer as bulas e determinações do papa, que só seriam cumpridas
mens, foi desfechada, com sucesso, em 19 de julho. Contudo, os mucker remanes- aqui com oplacet (permissão) imperial. O Governo pagava, ainda, o salário dos sacer-
centes passaram a atacar as forças legalistas, empregando a tática de guerrilha, mas dotes, tratados como funcionários públicos.
não resistiram à ofensiva final daquelas forças, em 2 de agosto, na qual Jacobina foi - O problema começou quando, em uma festa em comemoração à promulgação
sumariamente executada (seu marido havia fugido antes). da Lei do Ventre Livre, na loja maçônica Grande Oriente, na Corte, o padre Almeida
f Resta, por fim, destacar uma úl tima revol ta, ocorrida já em 1880, em plena Ca- Martins proferiu um discurso em homenagem ao visconde de Rio Branco, então
Wital do Império: o motim do Vintém. Em 31 de outubro de 1879, o Parlamento criou presidente do Conselho de Ministros e grão-mestre da Maçonaria brasileira, e foi
um imposto de urrivintém (vinte ré~s) sobre as passagens de bondes da Corte, que depois suspenso por isto pelo bispo do Rio de Janeiro, dom Pedro Maria de Lacerda.
,) deveria entrar em vigor a partir de 12 de janeiro. A população da cidade reagiu in- Era este um ferrenho adepto do u/tramontanismo, doutrina defendida pelo papa Pio
5 dignada à medida, e, no dia 28 de dezembro, uma multidão de cerca de cinco mil IX, consagrada pela bula Sy/labus (1864) e pelo Concílio Vaticano I (1869-1870), e 277
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"que visava reforçar o poder do papa frente ao clero e mesmo aos governantes de cada
país; o u/tramontanismo postulava a infalibilidade do papa - cuja autoridade em as- Vital, e em 17 de dezembro, para dom Macedo. Recusando-se a se defenderem, sob
suntos morais e da fé não deveria ser questionada Ror católico algum - e combatia a alegação de não haver competência no poder laico para julgar questões religiosas,
veementemente as idéias e instituições liberais e racionalistas associadas à seculari- os dois foram presos, respectivamente em 2 de janeiro e 28 de abril de 1874, e con-
zação e ao anticlericalismo. A Maçonaria era um dos principais alvos desta doutrina, denados em 24 de fevereiro e III de julho a quatro anos de prisão com trabalhos, ape-
que condenava, assim, as estreitas relações sempre nutridas pelo clero brasileiro sar da defesa realizada por Cândido Mendes (no primeiro caso), Ferreira Viana (no
segundo) e Zacarias de Góis (em ambos).
com tal sociedade secreta. Esta, entretanto, no manifesto que lançou em 27 de abril
de 1872, em repúdio ao incidente, reafirmava a plena compatibilidade entre ser ca- Por conta disso, fracassara a missão diplomática enviada ao Vaticano, em agos-
tólico e maçom; ojesuitismo ultramontano é que seria incom patível com a Maçonaria. to de 1873, pelo Governo imperial em a chamada Missão Penedo em, que, antes da
O episódio, em si mesmo, não passou deste ponto, mas abriu caminho para ~denúncia e prisão dos bispos, havia até conseguido que Pio IX reprovasse o interdito
das irmandades, o qual logo voltou atrás, contudo, quando soube do processo movi-
que dois outros bispos ultramontanos investissem de forma mais enérgica contra os
padres maçons. O primeiro foi dom Vital Maria, bispo de Olinda, que, promovendo do contra seus dois prelados. Ásperas, porém sábias, foram as palavras escritas pelo

r
uma campanha para que os católicos abandonassem a Maçonaria, em 28 de dezem- papa a dom Pedra II, ao tomar conhecimento da condenação dos bispos: VossaMajes-
tade [... ] descarregou oprimeiro golpe na Igrf!ia, sem pensar que ele abala ao mesmo tempo os
bro de 1872 determinou à irmandade do Santíssimo Sacramento (e às outras da lo- alicerces do seu trono.
calidade) que expulsasse seus membros maçons, e, não sendo atendido, lançou um
interdito sobre a mesma, ameaçando os maçons de excomunhão. O problema ad- Pio IX e Pedra II, todavia, chegaram posteriormente a um acordo, quando, em
quiriu foros de Estado porque dom Vital passou a criticar publicamente a prerroga- 17 de setembro de 1875, já durante o gabinete Caxias, o Imperador concedeu anis-
tiva imperial do beneplácito e porque as bulas e encíclicas papais que condenavam a tia aos bispos, e o papa, em seguida, levantou os interditos COntra as irmandades de
Maçonaria (nas quais o bispo de Olinda se amparava) não haviam recebido o p/acet Olinda e do Pará. Permaneceria, porém, até o fim do Império, a Controvérsia quanto
imperial, não tendo legalmente, portanto, validade alguma no país. Além disso, a ir- à política regalista e à preponderância do poder temporal ou do poder espiritual, irn-
mandade atingida enviou um recurso ao governo provincial, que, por sua vez, o en- passe este que só poderia ser resolvido pela laicização do Estado e pela liberdade re-
caminhou ao Governo imperial, sob a alçada do Conselho de Estado. Este, em pare- ligiosa, o que, entretanto, por motivos óbvios, não interessava ao Governo imperial e
nem, tampouco, à Igreja Católica.
cer de 23 de maio de 1873, declarou que dom Vital tinha exorbitado de suas atribui-
ções, ao punir a irmandade, cuja constituição orgânica era da competência do poder Alguns anos mais tarde, um novo conflito envolveu o Governo com outro impor-
civil, e, em particular, ao atacar o direito do beneplácito, devendo, portanto, o bispo tante setor da sociedade brasileira: os militares. Após a vitoriosa campanha na Guerra
levantar o interdito. Este, não apenas ignorou a ordem, como estendeu o interdito a do Paraguai, o Exército se modernizou, adquiriu grande prestígio social e imbuiu-se
outras irmandades, e, em um longo arrazoado, voltou a sustentar seu dever de obe- de espírito de corpo. Mas, ao mesmo tempo em que reivindicavam maior espaço polí-
diência ao Papa e a condenar o beneplácito e a decisão do Governo, chegando a insi- tico, os oficiais militares (em grande parte oriundos dos extratos médios urbanos),
nuar que o Império era súdito da Santa Sé; e foi mais além, ao publicar, sem o placet sentiam-se desprezados pela Coroa, em vista dos baixos salários, do não pagamento
imperial, o último breve papal- Quamquam Dolores, que reafirmava o combate à Ma- de pensões, das promoções lentas e injustas, da drástica redução dos efetivos e do cor-
onaria -, e ao chamar o Imperador de César. te percentual do orçamento militar. Em meio à crise que atravessavam as instituições
Antes disso, um ou tro bispo, dom Antônio de Macedo Costa, do Pará, engaja- civis e pOlíticas imperiais, começou, e~~-ª-se ds:senvolvef_no E~.trçilQ..umi.deal de J'>-
salvação nacional, acreditando os militares que estariam investidos de tal missão sal-
ra-se na luta antimaçônica, proibindo, em pastoral de 25 de março, os maçons de
continuarem a participar das irmandades e confrarias religiosas, sob pena de serem vadora, que teria o propósito de moralizar a política e a vida pública brasileiras e de
trazer o progresso ao país. Paralelamente, ~s propagandas republicana e, sobretudo,
excluídos do direito à sepultura eclesiástica e da absolvição sacramental, e de serem
abolicionista difundiam-se pelos quartéis, especialmente entre a Jovem oficÜiTidãde,
suspensas tais organizações. A reação foi a mesma que a verificada em Olinda, com o
presidente de província encaminhando ao Governo imperial o recurso à Coroa irn-
e o Positivismo, por influência do major e professor Be~jamin Constam, penetrãva
petrado pelas irmandades da Ordem 3a de Nossa Senhora do Monte do Carmo, do fundo entre os ãlunos (e também instru tores)'da Escola Mili tar do Rio de Janeiro. No
Senhor Bom Jesus dos Passos e da Ordem 3a de São Francisco. Foi também o mesmo início da década de 1880, jornais como O Soldado e a Tribuna Mi/itar, pu blicados na
o parecer emitido, em 9 de agosto, pelo Conselho de Estado, condenando a conduta Corte pela oficialidade do Exército, defendiam, além das reformas corporativas, a
arbitrária do bispo e determinando a suspensão dos interditos. Mas a resposta de abolição da escravidão, a imigração, o incentivo às indústrias, a construção de ferrovias,
dom Macedo foi ainda mais incisiva que a de dom Vital, simplesmente não reconhe- o Sufrágio universal, e já apareciam, em suas páginas, idéias revolucionárias. Embora
cendo no Governo autoridade alguma para interferir nos assuntos religiosos, e recu- atacassem duramente os vícios das instituições monárquicas, os militares, em sua
sando-se, então, a cumprir as ordens que lhe foram dadas. rnaioria (em particular a aita oficialidade), ainda não pregavam a adoção da República,
rnas mantinham-se, em geral, indiferentes quanto aos destinos da Monarquia.
Diante de tanta insubordinação, não restou outra alternativa ao Governo, se-
278 não apresentar denúncia contra os bispos, o que é feito em 10 de outubro, para dom Neste contexto já conturbado é que se daria a chamada Questão Militar, que, na
<;erdade, constituiu um conjunto de incidentes entre o Exército e o Governo irnpe- 279
I
ria!. Na raiz do problema estava a tentativa deste último de disciplinar oficiais que como Cunha Mattos era liberal e Pedro de Lima conservador (partido que, desde
ousassem discutir em público questões políticas ou militares, o que, desde 1859, agosto de 1885, estava no poder, com o ministério do barão de Cotegipe), conseguiu
era proibido por avisos. A ascensão social dos mili tares e a crescente instabilidade do o acusado que o deputado piauiense Simplício de Resende pronunciasse um discur-

j Sistema político imperial, todavia, encorajaram muitos oficiais, no início da década so na Câmara difamando Mattos, afirmando que este instruíra os paraguaios no uso
de 1880, a manifestar pela Imprensa seus descontentamentos, protestando, sobre- da artilharia, quando fora feito prisioneiro na Guerra da Tríplice Aliança. Cunha
tudo, contra as promoções e as transferências consideradas arbitrárias e injustas, Mattos, que já havia sido censurado por ter anteriormente publicado artigos políti-
atendendo a motivações políticas. Ao mesmo tempo, crescia, por todo o país, o en- cos na Imprensa, respondeu ao deputado no mesmo tom, por meio de um jornal 10-
volvimento dos militares com as questões políticas, especialmente com a campanha cal. A esta aitura (junho), junqueira renunciou e foi substituído por Alfredo Chaves,
abolicionista. Eram, assim, constantes os atritos ocorridos entre os integrantes des- que advertiu Mattos por infringir os avisos de proibição. Este, sem titubear, atacou
ta corporação e os sucessivos ministros da Guerra. também o ministro, que, assim, o mandou prender, em julho, por quarenta e oito
O primeiro incidente mais sério da Questão Militar propriamente dita teve iní- horas.
cio em maio de 1884, quando o tenente-coronel Antônio de Sena Madureira, diretor Os radicais militares -cada vez em maior número, e mais agitados pela insatis-
da Escola de Tiro de Campo Grande (no Rio de Janeiro), convidou para visi tar a es- fação com o gabinete escravocrata de Cotegipe e pela campanha abolicionista que
cola Francisco do Nascimento, líder dos jangadeiros abolicionistas do Ceará .illr9- fervilhava mais do nunca - aproveitaram mais este novo incidente para promover
víncia que fora a primeira a abolir a escravidão, em março daquele ano, tendo os jan- um movimento em defesa da liberdade de opinião dentro do Exército e da honra
,gadeiros contribuído para tanto, recusando-se a transportar escravos). Apesar do militar. No Parlamento mais uma vez foi aberta a polêmica, com o senador visconde
abolicionista cearense já ter sido recebido pelo comandante do Forte de São João de Pelotas saindo, em 2 de agosto, em defesa de seu amigo Cunha Mattos, como já
(na Baía de Guanabara) e pelo próprio Imperador, a atitude de Sena Madureira não fizera no caso Sena Madureira. De novo, em face da crise política, transformava-se
foi apreciada pelo ajudante-general visconde da Gávea, que, alegando ser um absur- um episódio casual em uma celeuma nacional.
do um oficial a serviço de um império escravocrata receber com honrarias um líder Foi quando Sena Madureira voltou à cena, protagonizando outro incidente po-
abolicionista, enviou um assessor à Escola de Tiro para repreender o militar. Madu- lêmico. O agora diretor da Escola de Tiro do Rio Grande do Sul retomou, em setem-
reira, porém, recusou-se a ouvir o assessor, capitão Ávila, por este lhe ser hierarqui- bro, os ataques ao ex-ministro Franco de Sá, sendo, por isto, censurado pelo atual
camente inferior, e, depois de ser advertido por escrito pelo visconde, comuni- ministro Chaves. Madureira publicou, então, um manifesto no jornal gaúcho A Fede-
cou-lhe que, como diretor da Escola de Tiro, só devia obediência ao comandan- ração, dirigido por Júlio de Castilhos, exigindo a convocação de uma corte marcial
. te-geral de artilharia, o conde d'Eu. Como este não se manifestou sobre o assunto, para colocar em questão a constitucionalidade dos avisos proibitivos. Havia aí uma ~
I Madureira foi transferido para o Rio Grande do Sul[9 que estava por trás da punição du~la provoc~ção: alén: de desrespe.i:a~ a proibiçã.o imposta por ta~s a~iso~, ~adurei-
ra ainda o fazia por mero de um periódico republicano. Chaves nao so rejeitou o pe-
l
.
do coronel era a sua simpatia pela causa abolicionista. Procurava-se, assim, evitar
• que o seu ato servisse de exemplo para que outros oficiais passassem a discutir ainda dido, como ainda ordenou ao então general Deodoro da Fonseca, que estava presi-
.,mais abertamen te (e impunemente) a aboliçã~ Era esta a linha de raciocínio segui- dindo a província gaúcha, que disciplinasse o coronel; em seguida, determinou' tam-
da pelo ministro da Guerra, Franco de Sá, pelo seu ajudante-general e pelo conde bém que fossem punidos os responsáveis por uma declaração de apoio a Sena Madu-
d'Eu (daí sua propositada omissão). reira, assinada, no dia 30 de setembro, por vários oficiais.ÍDeodoro, todavia, embora
A transferência não passaria de mais uma das tantas punições deste tipo por sempre tivesse sido um militar conservador, recusou-se ~punir Madureira e os ma-
motivos políticos, se não fosse Sena Madureira um dos oficiais mais populares do nifestantes, alegando que já havia chegado a um acordo com os mesmos1
exércitor~ste conseguiu, assim, converter o corriqueiro episódio em uma polêm.i~a LA crise aprofundou-se durante a primeira semana de outubro, com as adesões
acerca da fiberdade de expressão dentro da instituição militar, uma luta pela aqursi- de diversas guarnições do Rio Grande do Sul aos rebeldes, e o incentivo dado aos
ção de um direito civil elementar pelos militare~ Divulgado pela Imprensa, o caso mesmos por parte da Imprensa gaúcha e cariocaJNo Congresso, o liberal Silveira
repercutiu na opinião pública e dentro dos próprios quartéis, onde críticas ao Go- Martins, inimigo político de Deodoro e de Pelotas, acusou a fraqueza do Governo
verno e manifestações de apoio a Madureira foram feitas. Logo desencadeou-se por não ter ordenado a prisão imediata do general. Temendo os efeitos desastrosos r--S
também um grande debate no Parlamento, com vários liberais e conservadores cri- de uma tal medida, Cotegipe decidiu manter, por enquanto, Deodoro no poder pro- /'
ticando o ministro da Guerra e o visconde da Gávea. vi~cial, ao mesmo tempo em que encaminhou ao Conselho Supremo Militar a ques-
Em fevereiro de 1886, outro incidente marcaria a Questão Militar. O coronel tão da constitucional idade dos avisos de proibição. Em 10 de outubro, Benjamin
ErnestoAugusto Cunha Mattos, outro oficial de grande prestígio dentro do Exérci- çonstant promoveu uma grande manifestação militar no Rio de Janeiro- e guarni-
to, em uma viagem de inspeção à província do Piauí, constatou diversas irregulari- ções de várias províncias emitiram telegramas de solidariedade. Mas, quatro dias
dades e negociatas ocorridas na Companhia de Infantaria, apontando, como respon- 'epOlS, Se na Madilleira foi-preso, exaltando-se aindã rriãis os ânimos. No dia 18, o
sável, o capitão Pedro Iosé de Lima. O novo ministro da Guerra, Oliveira Iunqueira, Conselho Supremo Militar decidiu que os oficiais poderiam discutir publicamente
determinou, então, que o capitão fosse submetido à corte marcial. Entretanto, o que desejassem, exceto questões de serviço, e, pouco depois, dom Pedro afirmou 281
rial. Na raiz do problema estava a tentativa deste último de disciplinar oficiais que como Cunha Mattos era liberal e Pedro de Lima conservador (partido que, desde
[ ousassem discutir em público questões políticas ou militares, o que, desde 1859, agosto de 1885, estava no poder, com o ministério do barão de Cotegipe), conseguiu
era proibido por avisos. A ascensão social dos mili tares e a crescen te instabilidade do o acusado que o deputado piauiense Simplício de Resende pronunciasse um discur-
sistema político imperial, todavia, encorajaram muitos oficiais, no início da década so na Câmara difamando Mattos, afirmando que este instruíra os paraguaios no uso
} de 1880, a manifestar pela Imprensa seus descontentamentos, protestando, sobre- da artilharia, quando fora feito prisioneiro na Guerra da Tríplice Aliança. Cunha
tudo, contra as promoções e as transferências consideradas arbitrárias e injustas, Mattos, que já havia sido censurado por ter anteriormente publicado artigos políti-
atendendo a motivações políticas. Ao mesmo tempo, crescia, por todo o país, o en- cos na Imprensa, respondeu ao deputado no mesmo tom, por meio de um jornal 10-
" volvimento dos militares com as questões políticas, especialmente com a campanha cal. A esta altura (junho), Junqueira renunciou e foi substituído por Alfredo Chaves,
abolicionista. Eram, assim, constantes os atritos ocorridos entre os integrantes des- que advertiu Mattos por infringir os avisos de proibição. Este, sem titubear, atacou
ta corpo ração e os sucessivos ministros da Guerra. também o ministro, que, assim, o mandou prender, em julho, por quarenta e oito
~ O primeiro incidente mais sério da Questão Militar propriamente dita teve iní- horas.
cio em maio de 1884, quando o tenente-coronel An tônio de Sena Madureira, diretor Os radicais mil itares - cada vez em maior número, e mais agi tados pela insatis-
da Escola de Tiro de Campo Grande (no Rio de Janeiro), convidou para visitar a es- fação com o gabinete escravocrata de Cotegipe e pela campanha abolicionista que
cola Francisco do Nascimento, líder dos jangadeiros abolicionistas do Ceará (pro- fervilhava mais do nunca - aproveitaram mais este novo incidente para promover
víncia que fora a primeira a abolir a escravidão, em março daquele ano, tendo os jan- um movimento em defesa da liberdade de opinião dentro do Exército e da honra
,gadeiros contribuída para tanto, recusando-se a transportar escravos). Apesar do rnili tar. No Parlamento mais uma vez foi aberta a polêmica, com o senador visconde
abolicionista cearense já ter sido recebido pelo comandante do Forte de São João de Pelo tas saindo, em 2 de agosto, em defesa de seu amigo Cunha Mattos, como já
(na Baía de Guanabara) e pelo próprio Imperador, a atitude de Sena Madureira não fizera no caso Se na Madureira. De novo, em face da crise política, transformava-se
foi apreciada pelo ajudante-general visconde da Gávea, que, alegando ser um absur- um episódio casual em uma celeuma nacional.
do um oficial a serviço de um império escravocrata receber com honrarias um líder Foi quando Sena Madureírã-voÍtou à cena, protagonizando outro incidente po-
abolicionista, enviou um assessor à Escola de Tiro para repreender o militar. Madu- lêmico. O agora diretor da Escola de Tiro do Rio Grande do Sul retomou, em setem-
reira, porém, recusou-se a ouvir o assessor, capitão Ávila, por este lhe ser hierarqui- bro, os ataques ao ex-rninistro Franco de Sá, sendo, por isto, censurado pelo atual
camente inferior, e, depois de ser advertido por escrito pelo visconde, comuni- ministro Chaves. Madureira publicou, então, um manifesto no jornal gaúcho A Fede-
cou-lhe que, como diretor da Escola de Tiro, só devia obediência ao comandan- ração, dirigido por Júlio de Castilhos, exigindo a convocação de uma corte marcial
te-geral de artilharia, o conde d'Eu. Como este não se manifestou sobre o assunto, para colocar em questão a constitucionalidade dos avisos proibitivos. Havia aí uma ~ I
Madureira foi transferido para o Rio Grande do Sul[9 que estava por trás da punição dupla provocação: além de desrespeitar a proibição imposta por tais avisos, Madurei- i>
•... .'' do coronel era a sua simpatia pela causa abolicionista. Procurava-se, assim, evitar
que o seu ato servisse de exemplo para que outros oficiais passassem a discutir ainda
ra ainda o fazia por meio de um periódico republicano. Chaves não só rejeitou o pe-
dido, como ainda ordenou ao então general Deodoro da Fonseca, que estava presi-
t - mais abertamente (e impunemente) a aboliçã~ Era esta a linha de raciocínio segui-
da pelo ministro da Guerra, Franco de Sá, pelo seu ajudante-general e pelo conde
dindo a província gaúcha, que disciplinasse o coronel; em seguida, determinou"tam-
bém que fossem punidos os responsáveis por uma declaração de apoio a Sena Madu-
d'Eu (daí sua propositada omissão). reira, assinada, no dia 30 de setembro, por vários oficiaisrDeodoro, todavia, embora
A transferência não passaria de mais uma das tantas punições deste tipo por sempre tivesse sido um militar conservador, recusou-se ~punir Madureira e os ma-
motivos políticos, se não fosse Sena Madureira um dos oficiais mais populares do nifestantes, alegando que já havia chegado a um acordo com os mesmo~
exercirofksre conseguiu, assim, converter o corriqueiro episódio em uma polêmica LA crise aprofundou-se durante a primeira semana de outubro, com as adesões
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ção de um direito civil elementar pelos militare~ Divulgado pela Imprensa, o caso mesmos por parte da Imprensa gaúcha e cariocaJNo Congresso, o liberal Silveira
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Em fevereiro de 1886, outro incidente marcaria a Questão Militar. O coronel tão da constitucionalidade dos avisos de proibição. Em 10 de outubro, Benjamin
ErnestoAugusto Cunha Mattos, outro oficial de grande prestígio dentro do Exérci- çonstant promoveu uma grande manifestação militar no Rio de Janeiro e guarni-
to, em uma viagem de inspeção à província do Piauí, constatou diversas irregulari- ções de várias províncias e~tira~jêlegramas_~~ ~iedadtE. Más, quatro dias ,.
dades e negociatas ocorridas na Companhia de Infantaria, apontando, como respon- 'epOls, S"ê'i1ãNIadurelra fOI preso, exaltando-se ainda mais os ânimos. No dia 18, o
sável, o capitão Pedro José de Lima. O novo ministro da Guerra, Oliveira junqueira, Conselho Supremo Militar decidiu que os oficiais poderiam discutir publicamente
280 determinou, então, que o capitão fosse submetido à corte marcial. Entretanto, o que desejassem, exceto questões de serviço, e, pouco depois, dom Pedro afirmou 281
que os oficiais tinham o direito de manifestar livremente suas idéias pela Imprensa. urar a unidade do partido; além disso, em um momento delicado como aquele, era
Todavia, os avisos proibitivos não chegaram a ser suspensos. Confiando, assim mes- preciso conter, de acordo com o sistema da gangorra ministerial, a radicalização dos
mo, no efeito pacificador destes pronunciamentos, Cotegipe, após sucessivas ten- liberais, há quase dez anos afastados do poder.
tativas de obter o.apoiode Deodoro, afa1.tou..::Q., em 5 de novembro, da prêSidência O principal projeto do programa de Governo apresentado por Sinimbu à Câ-

f
da província e do comando das armas do Rio Grande do Sul, enviando-o de volta ão mara dos Deputados era a realização de uma nova reforma eleitoral, que introduzis-
Rio de Janeiro. Deodoro rebateu com severas críticas ao Governo, acusando-o de ser se, afinal, o voto direto. O curioso é que, para garantir que o Parlamento aprovasse
responsável pela agitação militar, em função dos insultos e ofensas proferidos con- uma reforma que visaria a moralização do sufrágio, o novo ministério lançou mão do
tra oficiais respeitados. Já solto, e renunciando à diretoria da Escola de Tiro, Seria VelhO recurso -legal, porém não-legítimo, segundo a lógica do sorites, de Nabuco-
Madureira decidiu seguir junto com Deodoro para a Corte, sendo ambos aclamados,
na despedida, pelas tropas sediadas em Porto Alegre. jde dissolver, em 11 de abril, a Câmara de maioria conservadora; e é claro que a se-
guinte viria a ser composta não só por maioria, mas por totalidade liberal. A campa-
Ao chegarem à Capital do Império, em 26 de janeiro de 1887, foram recebidos ~Ia eleição direta fundamentava-se, mais uma vez, n~ ~stificativas da guali-
em triunfo pelos instrutores e alunos da Escola Militar, a despeito da proibição, bai- dade do voto, da lisura do sufrágio e da autenticidade da representaç.illhJnas havia
xada por Cotegipe, para que os dois oficiais não fossem recepcionados. Por causa tam~ma velada preocupaçâo com a redução dos cl!.§..tos~da vez.mais elevados,
disto, o diretor da instituição, general Severiano (irmão de Deodoro), foi sumaria- que representavam as eleições para potentados locais, em face da necessidade da
mente demitido, o que provocou uma manifestação de apoio dos estudantes em seu compra de votos e da sustentação, mesmo fora da época dos pleitos, dos espoletas elei-
favor. No dia 2 de fevereiro, mais de duzentos oficiais, reunidos no Teatro Recreio torais (ociosos mantidos nas propriedades com fins eleitoreiros). A principal causa
Dramático, incumbiram Deodoro de solicitar ao Imperador anistia para todos os ofi- atribuída a estes problemas - já exposta no livro de FranciscoBelisjjio - era a exten-
ciais punidos, mas o general não só viu rejei tada a reivindicação, como ainda foi afas- sa participação eleitoral, recaindo a culpa maior da corrupção e do falseamento das
tado, no dia 6, do novo posto a que fora designado de quartel-mestre-general. O pe- eleições sobre o analfabeto, visto como sem as mínimas condições de ent,en-dimen.to
riódico O Pais, então redigido por Quintino Bocaiúva, saiu em defesa de Deodoro, e de independência para exercer adequadamente o direito de voto.A solução apon-
passando a destacar-se na incitação dos militares. tada era, en tão, a supressão das eleições primárias, com a in trodução "do voto jire!,.Q.e
r Durante todo o mês de maio, um grande debate foi travado no Congresso e na mclusão dos analfabetos. Nos debãtes travados na Câmara, poucos foram aqueles
, Imprensa acerca do problema, ainda pendente, dos avisos de proib.ição. Falando em que se manifestaram contrários a tais medidas, argumentando que os verdadeiros
nome da oficialidade, Rui Barbosa redigiu o Manifêsto ao Parlamento e à Nação, no qual corruptores do sistema eram o Governo e os políticos, e não o povo miúdo. Entre os
exigia a revogação de tais avisos, que faziam da boafama dos oficiais brasileiros simples que ponderavam desta forma, estavam Joaquim Nabuco, Saldanha Marinho e José
propriedade do governo, e alertava, em tom ameaçador, que havemos de manter-nos no Bonifácio, o Moço; este último o fez em um antológico discurso, pronunciado em 28
posto de resistência à ilegalidade, que é o nosso dever, do qual nada nos arredará, enquanto o di- de abril de 1879, em oposição ao projeto odioso, no qual, após recordar inicialmente o
reito postergado não recebera sua satisfação plena. No dia 14 daquele mês, Deodoro e Pe- sacrifício feito pela Pátria, durante a Guerra do Paraguai, por milhares de cidadãos
lotas publicaram um ultimato, exigindo que o Governo rescindisse os avisos ou en- analfabetos e de baixo nível de renda, concluía:
tão renunciasse. Temendo que o Exército tomasse as ruas em franca rebelião, Cote-
gipe optou pela primeira saída, revogando, em junho, os tão famigerados avisos. A Os sustentadores do projeto, depois de meio século de governo constitucio-
decisão arrefeceu os ânimos dos militares naquele momento, mas a força crescente nal, repudiam os que nos mandaram a esta Câmara, aqueles que são os ver-
.por estes demonstrada durante a crise e a liberdade de expressão conquistada de- dadeiros criadores da representação nacional. Por quê? Porque não sabem
Iram maior confiança e melhores condições para que se engajassem ainda mais nas ler, porque são analfabetos! Realmente a descoberta é de pasmar! Esta so-
~atividades políticas. berania de gramáticos é um erro de sintaxe política. Quem é o sujeito da
oração? Não é o povo? Quem é o verbo? Quem é o paciente? Ah! descobri-
~ ram uma nova regra: é não empregar o sujeito. Dividem o povo, fazem-se
AS ELEIÇÕES DIRETAS E O GOLPE eleger por uma pequena minoria, e depois bradam com entusiasmo: Eis
NA PARTICIPAÇÃO ELEITORAL aqui a representação nacional!

Entre a ~iosa e a Questão Militar, acentuaram-se as críticas ao siste- Apesar dos diversos apoiados ao discurso do depu tado, o projeto foi aprovado na
ma político imperial. U~ dos principais _objetos de insatisfação çojjjinuava a se~, Câmara. No Senado, contudo, encontrou fortes resistências e acabou rejeitado, não
{ apesar das reformas já feitas, o sistema representativo, e, portanto, o processo elei- ~tanto em função das medidas propostas, mas da forma como se pretendia instituí-lo
toral que o configurava. Em 5-de janeiro de 1878,-os liberais retÕrriáfãõ1"71Opoder, - por meio, não de uma lei ordinária (passando pelas duas Casas legislativas), e sim
com a formação do gabinete dirigido por João Lins Vieira Cansanção de Sinimbu. Os da convocação de uma Constituinte especialmente destinada a tal fim (por tra-'
conservadores, com o afastamento de Caxias do ministério por motivo de saúde, ha- tar-se de matéria constitucional, neste caso com o concurso apenas da Câmara). A
aRa_viam esgotado seus quadros de liderança capazes de dar força ao Governo e de resta- derrota no Senado e, sobretudo, a impopularidade do ministério após a criação do 283
imposto do vintém e a violência empregada no combate à revolta levaram à queda do analfabetos (que constituíam aproximadamente 84% da população brasileira) e o
gabinete Sininbu, substituído, em 28 de março de 1880, por outro liberal, a cargo de ) maior rigor na verificação da renda, determinados pela nova lei. Esta, neste sentido,
José Antônio Saraiva. Este, conseguiu, afinal, a aprovação da reforma nos termos em marcou um enorme retrocesso em termos do exercício político da cidadania. O índi-
que desejava o Senado, por lei ordinária de 9 de janeiro de 1881. A chamada Lei Sarai- ce percentual de participação nas eleições primárias verificado anteriormente à lei
va insti tuía a eleição direta em turno único (assim eliminando o votante), estabelecia de 1881 só seria superado muito mais tarde, no pleito de 1945 (13,4%).
critérios rígidos para a comprovação da renda de duzentos mil-réis exigida para os ele- Na realidade, as sucessivas leis gue regulamentaram o direito de voto ao long~
itores (o que praticamente vetou os assalariados que não eram funcionários públicos, do Império, apesar de alguns avanços louváveis (como as introduções do voto distri-
ao não mais se aceitar como prova de renda a declaração do empregador), excluía os tal,~compatibilidades eleitorais e do título de eleitor), caracterizaram-se pela
analfabetos do direito de voto, tornava o voto facultativo, restabelecia divisão eleito- progressiva redução do eleitorado. As eleições de 1821 para as Cortes de Lisboa,
ral das províncias em círculos de um só deputado, exigindo-se maioria absoluta na vo- apesar de indiretas, adotaram o sufrágio universal masculino. Já o pleito para a
tação (que, não sendo alcançada, se procederia a um segundo escrutínio, entre os dois Constituinte de 1823 excluiu os assalariados e os estrangeiros. A Constituição de
candidatos mais sufragados), e concedia o direito de elegibilidade aos naturalizados e 1824 instituiu o voto censitário, ainda indireto, com a renda mínima anual de cem
aos não-católicos. Em 1882, a lei sofreu uma pequena modificação liberalizante, com mil-réis para os votantes e duzentos mil-réis para os eleitores. A reforma eleitoral de
a redução da idade mínima exigida de vinte e cinco para vinte e um anos. 1846, ao calcular a renda em prata, dobrou as quantias exigidas, além de excluir as
® A reforma eleitoral de 1881 resultou em uma drástica redução do eleitorado.
\
praças-de-pré. E a lei de 1881, embora introduzisse as eleições diretas e reduzisse o
Até então, era relativamente baixo o índice de exclusão eleitoral, tomando-se como censo exigido para os cidadãos que elegiam diretamente seus representantes, reti-
referência a participação do votante; a maior parte da população livre trabalhadora rou o direito de voto dos analfabetos e estabeleceu minuciosos critérios de verifica-
ganhava mais do que a renda mínima anual exigida de cem ou duzentos mil-réis, De ção da renda, praticamente excluindo os assalariados não funcionários públicos. Cu-
)acordo com o censo de 1872, havia então 1.097.698 votantes para 10.112.061 habi- riosamente, a busca da moralização das eleições e da autenticidade da representa-
tantes, ou seja, cerca de 10,85% de toda a população brasileira tinha direito a voto, ção -nunca alcançada - se fezt-QQBrasil Imperial, no sentido de restringir o acesso à
ou 13% se forem excluídos os escravos; Richard Graham estimou que 50,6% dos ho- cidadania política formal, seguindo um processo que transcorna exatamente na
mens adultos livres votavam no início daquela década. O índice eleitoral brasileiro cõritrãmão do que se ~otava em quase todos os países europeus, ondeas reformas
era, assim, conforme demonstrou José Murilo de Carvalho, mais alto do que o verifi- eTeitorãis do. último quartel do s.éculQJ).lomoviam-aampfiação da paiticipação elei-
cado na maior parte dos outros países da época, como a Grã-Bretanha, berço do sis- toral, rumando para o sufrágio .~mive~l. - -'-
tema constitucional-representativo, onde a participação eleitoral em 1870 chegava
apenas em torno cerca de 7% de toda a sua população; Portugal, cujo índice era de
9%; e a Itália, que tinha somente 2% de eleitores.' O sufrágio universal masculino A ABOLIÇÃO, O REPUBLICANISMO
apenas existia em alguns poucos países em todo o mundo, como a França, a Suíça, os E A CRISE FINAL DO IMPÉRIO
Estados Unidos (neste, mais formalmente do que na prática, em virtude dos meca-
nismos de exclusão dos negros, nos estados do Sul) e a Argentina; nos demais, pre- No decorrer da década de 1880, houve um aceleramento do processo históri-
valeciam restrições diversas, de cunho censitário ou relativas em nível de instrução. co de derrocada do sistema político imperial. O Império brasileiro passaria, então,
- Todavia, é preciso considerar que, como as eleições brasileiras eram, até en- por momentos decisivos, que ressaltariam ainda mais a sua fragilidade diante das
tão, indiretas, o alto índice assinalado de participação eleitoral referia-se apenas aos novas demandas políticas e sociais, e apontariam claramente em direção ao fim do
votantes nas eleições primárias, que, na realidade, não eram aqueles que elegiam regime. No centro dessas demandas estava a questão da Abolição. Os acanhados
diretamente os seus representantes na Assembléia Geral. Os que exerciam de fato efeitos da Lei-do Ventre Livre ~,fize(am crescer e intensificar a campanha aboli-
este direito - os eleitores, que deveriam ter pelo menos o dobro da renda exigida clonist,a. Multiplicaram-se por todo o país os jornais e clubes do movimento, assim
para os votantes - correspondiam a uma porção irrisória da sociedade; em 1870, ha- como os comícios e conferências, onde, além da ~ropaganda feita, arregimenta-
via somente 20.006 eleitores, o que representava infimamente cerca de 0,2% de varn-se novos militantes e arrecadavam-se donativos. Advogados prestavam asses-
toda a população, ou 0,23% descontando-se os escravos. soria jurídica e recorriam à ignorada lej de 7 de novembro de 1831, gue extinguia o
O maior mérito da reforma de 1881 foi transferir aos eleitores de fato a renda tráfico negreiro, para moveremJ2rocessos judiciais.,..m.uitas....vezes...b.errLs..!lcedidos,
de duzentos mil-réis antes exigida para os votantes, agora suprimidos; com isto, au- r~querendo a libertação de escravos ilegalmente introdl!zid~noBrasil após aquela
mentou o número daqueles que escolhiam diretamente os deputados e senadores, _data;-Lüís Gama conseguiu a libertação de mais de mil escravos com este arjifícip.
o qual passou, nas eleições daquele ano, a cerca de 150.000 (dos quais, efetivamen- AAbolição imediata e incondicional passava a ser exigida sem rodeios ou medidas
te votaram 96.411). Mas, por outro lado, este número é quase insignificante quando paliativas. Em 1883, é fundada a Confederação Abolicionista, presidida por João
omparado à massa de votantes que antes compareciam às urnas e que agora perde- Clapp, no intuito de dar uma unidade ao movimento, congregando as associações
am o seu direito ao voto. Os principais responsáveis por isto foram a exclusão dos e clubes espalhados pelo país. 285
- No mesmo ano, Joaquim Nabuco publicou a maior obra abolicionista brasi- grande alvoroço e, ao lado da pressão exercida pelo movimento abolicionista, contri-
?
, l~ira, Abolicionismo: Dizendo.-se. in:estido ~e um mandato da raça negra, Nabuco buiu para que a Coroa colocasse de novo em pauta a questão servil. Esta tarefa foi le-
sintetrzou, em seu livro, as pnncipais bandeiras de luta do movimento, apresen- vada a cabo pelo ministério liberal Sousa Dantas, formado em 6 de junho de 1884,
Lando, em primeiro lugar, os motivos pelos quais se deveria acabar logo com a es- que apresentou à Câmara um pro~propondo a libertação, sem indenização, dos
cravidão: economicamente, porque era responsável pelo atraso econômico brasi- escravos sexagenários,_assim como o fim do tráfico negreiro interprovincial e a am-
leiro, ao inviabilizar o desenvolvimento industrial, o comércio, a imigração estran- pli'ãção do Fundo d~ Emancipação. O projeto, entretanto, foi rejeitado por duas le-
geira a rentabilidade agrícola e a valorização do trabalho, criando uma riqueza ins- gislaturas (de maioria liberal) consecutivas, na primeira provocando a dissolução da
tável e promovendo a imobilização e a concentração do capital; socialmente, a es- Câmara e na segunda a inevitável queda do gabinete.
, cravidão, seria responsável pelas desigualdades, conflitos e dissolução sociais, O ministério seguinte, de 6 de maio de 1885, ficou novamente a cargo de Antô-
pela desagregação da família, pela disseminação de doenças e pela contaminação nio Saraiva, que elaborou um outro projeto, incorporando as medidas propostas pelo
da raça brasileira; culturalmente, corrompia a língua, a educação, a religião, a moral anterior, mas introduzindo algumas modificações importantes: previa uma indeniza-
~ e o caráter, e impedia a formação de uma verdadeira identidade nacional; politica- ção por escravo alforriado, na proporção inversa a sua idade, e, a tftulo também-de in-
mente, enfim, alienava o povo, estimulava o mandonismo local e o paternalismo, denização, obrigava os escravos que seriam alforriados a partir dos sessenta anos a con-
denegria a imagem do país no exterior e ameaçava a segurança nacional; além do tinuarem prestando serviços para seus senhores por mais três anos ou até completa-
que, legalmente a escravidão já deveria estar extinta, se respei tada a primeira abo- rem sessenta e cinco anos. Com estes atenuantes em respeito ao direito de proprieda-
Iição do tráfico negreiro, em 1831. Sendo assim, Nabuco defendia a Abolição ime- de, o projeto é, então, aprovado na Câmara, com o apoio de parte da bancada conserva-
Oiatae sem indenização, seguida pelo incentivo à imigração européia e pela ado- dora, capitaneada pela adesão de Antônio Prado, representante da lavoura cafeeira
ção de um programa de reformas capaz de recuperar e reintegrar o ex-escravo à so-
Ú
paulista. A fim de garantir a passagem do projeto no Senado (dominado pelos conser-
ciedade. Acreditava residir no movimento abolicionista a força capaz de influir de- vadores), Saraiva retirou-se do ministério, passando-o, em 20 de agosto, para as mãos
cisivamente no processo emancipatório, difundindo a propaganda e mobilizando dos conservadores, sob a presidência do barão de Cotegipe. Com os esforços conjuga-
a opinião pública em torno da causa. Rejeitava, porém, qualquer ação que promo- dos de Saraiva e Antônio Prado (que assumiu a pasta da Agricultura), foi finalmente
vesse agitações nas cidades, nas senzalas ou nos qui lombos, qualquer estímulo à promulgada, em 28 de setembro, a Lei dos Sexagfnários.
resistência ou à sublevação escravas; sua via era a legal e pacífica: É, assim, no Parla- Logo após ser aprovada a nova lei, houve um certo arrefecimento temporáric
mento e não em azendas ou quilombos do interior, nem nas ruas epraças dáS cidades, que"sehá da campanha abolicionista na Corte e em algumas capitais provinciais (desaponta-
de ganhar, ouperder, a causa a t erdadef.§m semelhante luta, a violência, !J,C[ime,o desen- do, Nabuco escreveu, em 1886, O Eclipse do Abolicionismo). Mas o movimento nãe
111~'1
cadeamento de ódios acalentados, só poder ser prejudicial. _ ~f. ~ '\) CA tardou a recrudescer, especialmente a partir de 1887, e em outras partes do Impérie
A obra teve uma enorme repercussão na época, animando ainda mais a campa- a calmaria nem sequer se verificou, sobretudo nas áreas de maior concentração de
nha. A posição de Nabuco, todavia, expressa o pensamento de uma vertente do mo- escravos do interior paulista e fluminense. Nestas regiões, a rebeldia es~ atin,
vimento, mais moderada, que, temendo os efeitos desagregadores das agitações de às
giu níveis nunca antes alcançados: recusas sistem~tiêas aotrabalho e ordens rece·
rua e rebeliões nas senzalas, pretendia circunscrever o processo abolicionista à bidas, im~rreições-;- fugas e abandonos em massadas fazendãS,õ"çupações de terra~
conscientização da opinião pública e à esfera parlamentar, tudo dentro da lei e da or- disponíyeis., destruição de lavouras e assassinatos de senhore0eitores e capi,
dem. Mas, com a evolução do movimento, sobretudo a partir do início da década de tães-do-rnato levaram ao desgoverno das fazendas, à desorganização da produção, ;
1880, desenvolveu-se também uma vertente mais radical.xía qual fazia parte José
I
disseminação da 9~so.rde.m e ao pânico generalizado entre osproprietários. Muita:
!~I do Patrõcmio, e que, ~do, e~bora não abrindo mão, da morosidade dos ca- dessas ações foram promovidas com o estímulo e o apoio dos frI.ijgsei, que ampliararr
minhos parlamentares e pacíficos, pregava uma participação popular mais ativa, não as suas atividades nesta época, fundando umjornal,A Redenção, emjaneiro de 1887
"'' ;1
hesitando em patrocinar fugas das senzalas e em incitar pequenas insurreições de e desenvolvendo diversos tipos de estratégias de luta: percorriam as fazendas dis
escravos. É neste contexto que tem início, a partir de 1882, a atuação dos caijases, farçados de mascates e viajantes, incitando os escravos à rebelião e à fuga; infiltra
grupo organizado em São Paulo pelo advogado Antônio Bento de Souza e Castro, vam ex-escravos nas plantações com o mesmo fim conspiratório; elaboravam sofisti
que, além de mover açõesde liberdade, se dedicava, principalmente, a promover fugas cados planos de fugas, envolvendo proprietários que davam acolhida e comida ao
coletivas de escravos das fazendas; dispunha, para isto, de uma articulada rede de fugitivos, e cocheiros, ferroviários e barqueiros que os transportavam clandestina
poio, com a colaboração de advogados, jornalistas, escritores, estudantes, tipógra- mente para o Quilombo do Jabaquara, na Baixada Santista, fundado por abolicionis
ros, ferroviários, comerciantes, ex-escravos e até alguns proprietários. tas em 1882 e comandado por Quintino de Lacerda; ou, ainda, associando-se ai
Em março de 1884, o Ceará, devastado pela grande seca de 1877-1878 (que Quilombo de Vila Matias, este sim de iniciativa de escravos fugidos, liderados po
acentuou a venda de escravos para o Sudeste), tornou-se a primeira província brasi- Pai Felipe; no período da safra, chegavam até a oferecer, em regime assalariado, es
leira a extinguir o cativeiro, o mesmo fazendo, pouco depois, o Amazonas. Ainda que cravos fugidos de outras partes para senhores de cujas fazendas haviam tambén
286-as duas províncias tivessem poucos escravos a libertar, a iniciativa de ambas causou promovido fugas.
f
É claro que os proprietários escravistas resistiam a essas ações, tanto por meios maio, o projeto transformou-se na Lei Áurea, assinada pela regente Isabel, liber-
legais - fazendo representações queixosas ao ?~ve~no, recorrendo às fo~ças policiais
para restabelecer a ordem e processando abolicionistas por atos de sediçãr, _, como [ tando cerca de setecen tos mil escravos.
A Abolição foi recebida com festas nas ruas e nas senzalas de todo o país. Mas,
por meios ilegais - organizando milícias privadas e mandando matar agen tes abolici_
ao contrário do que pretendia Nabuco e os abolicionistas, os ex-escravos foram
\ onistas e escravos rebeldes. A violência, de ambas as partes, disseminou-se pelos
abandonados a sua própria sorte, sem~~perem ...9yalquer ..tiPo ~e ;ssistên~ia. O
) centros cafeeiros (e mesmo açucareiros, como Campos) do interior paulista e flumi- rôpno movimento ab-oliêiÜnista oesmobilizou-se logo em seguida, e não mais se
nense. Outros senhores buscaram uma solução de compromisso, concedendo alfor-
preocupou com o destino daqueles por quem tanto lutaram.A muitos libertos não
rias em massa condicionadas à prestação gratuita de serviços por um determinado
restou outra alternativa senão permanecerem trabalhando nas fazendas onde esta-
período de tempo. Mas nada disso bastou para Conter o avanço do Abolicionismo, vam, sob condições que pÕuco diferiam da gue sempre viveram, sujeitos à tutelã de
seja nas áreas rurais, seja nas capitais urbanas, onde se intensificaram as atividades
seus antigo"Ssêi1hores. A maioria, porém, identificando a liberdade ao direito de li-
dos clubes e jornais (tipógrafos chegaram a se negar a imprimir artigos e panfletos
vre deslocamento,decidiu partir em direção às áreas mais produtivas, em busca de
de teor cscravista), e os comícios nas ruas reuniam milhares de pessoas.
um melhor salário. Outros, passaram a perambular sem rumo pelos campos ou foram
- Ainda em 1887, a causa abolicionista recebe a adesão de importantes segmen- para as cidades, onde se juntaram ao contingente já ali existente de desocupados;
tos políticos e sociais. O Partido Liberal reforça a sua linha abolicionista e recomen- sem perspectivas, logo seriam enquadrados nas leis de repressão à vadiagem, que se
da à Coroa o fim do cativeiro. O Partido Republicano Paulista abandona as evasivas e tornaram mais rigorosas a fim de cercear a liberdade conquistada.
finalmente manifesta-se claramente em defesa da Abolição, ficando decidido que Quanto aos ex-proprierários.de escravos, algumas poucas indenizações, embo-
J'eus membros libertariam todos os seus escravos até 14 de julho de 1889. O mesmo ra não previstas na lei redentora, começaram a ser pagas, mediante requerimento,
posicionamento abolicionista é tomado, em 13 de novembro, pelos conservadores mas foram logo suspensas. Muitos se viram, assim,arruiuadus..JIa nOiS.f.Rarao dia. A
paulistas liderados por Antônio Prado (que libertou todos os seus escravos). É so-
mente então que se pode dizer que os cafeicultores do Oeste Paulista colocaram-se
quebradeira atingi.!!, Earticular~. nte, o~produtores decadentes do Vale do Paraíba G
fluminense, ao passo que a maior parte dos cafeicultores do Oeste Paulista, mais di- ~
a favor da Abolição. O Exército, por sua vez, na esteira da QuestãoMilitar, marcou de nâmlcos, poucOtoi afetada, iiSto já terem ~ ~sfeito de suas escravarias,
vez a sua entrada na política com a fundação, em 22 de junho, do Clube Militar do
Rio de Janeiro (logo surgiriam associações semelhantes em todo o Império), presi-
dido por Deodoro da Fonseca, que, em outubro, enviou uma petição à princesa Isa-
rI substituindo-as I2QLimigrantes eUEweus. - --
-----Com a Lei Áurea, o Governo imperial perdeu mais um de seus principais sus-
~entáculos - os fazendeiros escravistas, sobretudo do Rio de Janeiro -, que, irritados
-

bel (então na regência do trono), soliciantando que os militares não mais fossem
com a Abolição e ainda mais com a maneira como foi feita, sem indenização ou qual-
destacados para caçar escravos fugidos; diante da recusa da regente, o Exército as-
\ quer outra medida compensatória, passaram, em grande parte, a se desinteressar
sim mesmo decidiu não mais capturar tais fugitivos, alegando ser esta atividade \ pelo destino da Monarquia, quando não a engrossar as fileiras da oposição ao regime,
_uma imoralidade que denegria a imagem e a dignidade da instituição militar. Com
} aderindo ao movimento republicano; eram os republicanos do 14demaio, como os cha- ~
isto, o Governo e os proprietários escravistas ficaram desguarnecidos para enfrentar mou José do Patrocínio. Por outro lado, como os abolicionistas em sua maioria eram
a ação dos abolicionistas e dos escravos rebeldes, pois a Guarda Nacional estava pra-
\ republicanos, e, em geral, atribuíam a Abolição à campanha realizada por seu movi-
ticamente desmobilizada e as forças policiais eram pequenas demais para conter a
desordem geral. mento, e não à iniciativa da Coroa, continuaram, assim, como defensores intransi-
.gentes da República (exceção feita, entre outros, aos monarquistas Joaquim Nabu-
Diante de tantas pressões e da situação caótica, a Coroa também decidiu fa- co e José do Patrocínio). Os inimigos de véspera =-ãbolicionistas e escravocratas c

zer a sua parte. O primeiro passo foi demitir, em 10 de março de 1888, o gabinete ~niam-se a ora em torno dO ideal republicano. ~I'(.\O _ 'fC(R.~ ~htl\JlH1Ã
do barão de Cotegipe, mais identificado com o escravismo, substituindo-o pelo de as o movimento repu -liêano já vinha ganhando força mesmo antes da Abblr='v,
João Alfredo de Oliveira, também conservador, mas favorável àAbolição. Este, em ção, desde o início da década de 1880, acompanhando o desgaste do regime vigente.
3 de maio, apresentou à Assembléia Geral um projeto que propunha a Abolição Multiplicaram-se os clubes e jornais por todo o país (chegando a um total de cerca
imediata, mediante indenização, e na condição de permacerem os libertos traba- de duzentos e setenta e três clubes e setenta e sete periódicos), bem como os dire-
lhando até a passagem da safra e de se fixarem por seis anos no município em que tórios partidários, enquanto os congressos e os meetings populares atraíam, nas gran-

f:
estivessem estabelecidos. A bancada abolicionista, que a esta alturajá constituía es cidades, um número cada vez maior de entusiastas. O movimento republicano,
ampla maioria, não estava, entretanto, disposta a aceitar condições, e o momento todavia, nunca chegou a cristalizar-se em um partido unificado em escala nacional,
não era propenso a maiores delongas. Um novo projeto de lei foi, então, encami- verificando-se, antes, a permanência de núcleos regionais, com interesses muitas
nhado ao Parlamento no dia 7 de maio; composto de apenas dois artigos, o primei- L vezes específicos, como já visto.
ro declarava extinta a escravidão no Brasil e o segundo revogava as disposições em Da mesma forma como ocorreu com o movimento abolicionista, também o
contrário. Tão crítica era a situação que só nove deputados (oito dos quais, da pro- republicano cindiu-se em duas correntes, no que se referia à forma como deveria
288
víncia fluminense) e seis senadores votaram Contra a orooosta. Assim .. sm.Lí.de
cheaar a seus fins. Já foi observado que, ao ser lançado o movimento, em 1870, pre- 28í
conizava-se que a República seria implantada de forma gradual e pacífica, por nas Gerais tinha vinte, Bahia, catorze, Pernambuco, treze e Rio de Janeiro, doze. Há
meio da conscientização da opinião pública e do Parlamento, advindo por via elei- que se considerar, ainda, os fatores de ordem financeira, como os pesados encargos
toral ou por reforma parlamentar; o principal expoente deste pensamento, Quin- tributários que recaíam sobre a província, que contribuía com a sexta parte
tino Bocaiúva, acreditava que a evolução da sociedade brasileira levaria fatalmen- (20.000.000$000) da renda total fornecida anualmente pelas províncias ao governo
te à República, a qual corresponderia ao progresso da humanidade. Todavia, com a central, deste recebendo em troca somente 3.000.000$000.
ampliação do movimento, em meados da década de 1880, a esta corrente evolucio- Estes eram os principais argumentos apresentados por aqueles que defen-
nista iria se opor uma ala mais radical de intelectuais e profissionais liberais de ex- diam o ideal separatista, com ou sem luta armada. A proposta foi levada por delega-
tração urbana, que, sob a liderança do advogado Silva Jardim, passaram a pregar dos de alguns municípios do Oeste cafeeiro ao Congresso do Partido Republicano
abertamente em comícios, conferências, panfletos e artigos de jornal a revolução Paulista de 1887, mas, apesar das numerosas adesões que recebeu, acabou não se
popular como forma de instaurar a República. Fervoroso adepto da Revolução .mpondo, ficando de ser rediscutida posteriormente; prevaleceu a idéia de se conti-
Francesa, Silva Jardim achava que o destino da Monarquia deve. ria ser selado em uar lutando pela República federativa. A Pátria Paulista, porém, permaneceu pai-
1889, ano do centenário daquele movimento, ou, quando muito, no dia da morte rando como um alerta e uma ameaça.
de Pedro 11, evitando-se, assim, um Terceiro Reinado que teria um estrang~iro Outra ameaça que veio a fortalecer o movimento republicano, em sua reta fi-
\
como governante (o conde d'Eu). - nal, foi o fantasma de um Terceiro Reinado iminente. Muitas pessoas recusavam-se
- - Um grup~ de republicanos paulistas foi ainda mais longe e chegou a defender a ou hesitavam em apoiar um eventual governo republicano por estima, e sobretudo
separação de São Paulo do restante do Brasil, adotando um governo nos moldes de lealdade, ao velho imperador, de fato muito popular e respeitado fora dos meios po-
uma república federalista. Já cogitada desde fins da década de 1870, a idéia transfor- líticos (e até mesmo aí), principalmente entre as camadas pobres. Mas a doença de
mou-se em propaganda aberta em 1887, iniciada pelo jornal Diario Popular, fundado dom Pedro, anunciada no primeiro dia de março de 1887, e ainda mais a sua partida
três anos antes por José Maria Lisboa e Américo de Campos, e logo seguida pela para tratamento na Europa, em 23 de junho, deixando sua filha Isabel como regen-
Provincia de São Paulo, de Rangel Pestana e Alberto Sales. Este último, também pu- te, tornaram claro que o reinado estava próximo do fim. Em sua volta, em 9 de julho
blicou, no mesmo ano, um livro inteiro a respeito, sugestivamente intituladoA Pá- de 1888, recebeu uma acolhida triunfal, mas não foi isto o bastante para desfazer a
tria Paulista, onde chegava a cogitar a divisão futura do Brasil em várias confedera- sensação de desgoverno, produzida_pela instabilidade_p.nlúica aguda do país. Cres-
ções, uma das quais integrando São Paulo ao sul de Minas Gerais e do Mato Grosso e cia a idéia de que o Imperador,já aparerÍ-tando cansaço, não era mais capaz dê gover-
ao Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. nar, de que o país estava acéfalo, sem rumo. Os opositores ao regime habilmente ex-
A idéia separatista teve uma considerável ressonância na província, interes- ploravam a situação, alarmando a população sobre a suposta sandice do imperante. A
sando, particularmente, aos poderosos cafeicultores da região, que, a despeito de perspectiva de um Terceiro Reinado desagradava não só aos republicanos, que, com
constituírem o setor mais importante da economia brasileira, não desfrutavam da isto, viam seu movimento crescer, conquistando novos adeptos ou, ao menos, redu-
mesma posição privilegiada no âmbito da política nacional. Basta notar que, dos zindo o seu índice de rejeição. O que mais se temia era a entrega da,..C-.Qroaa um es-
trinta ministérios que se sucederam da criação do cargo de Presidente do Conselho trangeiro, oj!:mde d'Eu, ma..!i~o·de Isabel, exrremamen~ impgpular Mas a as~n-
de Ministros, em 1847, até o final do Império, em 1889, apenas dois chefes de gabi- . . cesa ao trono também não agradava a maiO/ja da.Ro]2ulação, salvo os cató-
~ líêos mais ferVorosos e, após a AbolÍção, os libertos e alguns poucos abolicionistas,
nete eram oriundos de São Paulo, ao passo que onze provinham da Bahia, cinco de
Minas Gerais, cinco de Pernambuco (dos quais, quatro foram a mesma pessoa, o como José do Patrocínio, que então organizou a Guarda Negra, espécie de tropa de
marquês de Olinda) e quatro do Rio de Janeiro (duas vezes Itaboraí e duas Caxias), assalto, integrada por ex-escravos, dedicada a atacar os comícios republicanos na
sendo os restantes do Maranhão, A1agoas e Piauí, cada qual com um. Além disso, dos Corte (a confusão e a violência geradas só serviram, no entanto, para impopularizar
cento e treze ministros que passaram pelos catorze gabinetes sucedidos após a crise ainda mais a Monarquia).
política de 1868, somente dez eram políticos de São Paulo, enquanto vinte e seis O movimento republicano expandiu-se n.@.~e1l!re os ci"yis,!l1astambém nos
provinham da Bahia, dezoito de Minas Gerais, quinze do Rio de Janeiro, doze de meios militares. Após a Questão Militar, o Exército revestiu-se de uma importância
Pernambuco e dez do Rio Grande do Sul, além de seis do Maranhão, cinco do Piauí, central na p~lítl.c~acional, ao mesm0..le~po em qus..,a oposiç§.q regime crescia
quatro do Ceará, quatro da Paraíba e três de A1agoas. O mesmo se observa em rela- para além da jovem oficialidãde ag~errida, germinando entre os oficiais)llais g~ua-
ção aos setenta e dois conselheiros que passaram, até 1889, pelo segundo Conselho dos, gu.iéletinham pós-tos de comando. Para tanto, t:!luit,9cODrribuiu a difusão 9,0
de Estado, criado em 1841: eram três paulistas para dezenove fluminenses (incluin- Positivismo nos ,9,uartéis; com suas Idéias de ditadura republica.!!!' de ênfase na hie-
do a Corte), quinze baianos, doze mineiros e quatro pernambucanos, entre outros. rarquia, de tecnicismo, 9.SconcilBção da"ord~m com o progresso, dE subordinação
1 à m~l.J e~enefício da comunhão soc~, de pater!lalism~e~messia-
Quanto aos senadores, dos cinqüenta e nove existentes em 1889, apenas três eram • u'

de São Paulo, o mesmo número que possuía o Pará, enquanto Minas Gerais tinha nisrno Q2.!.ftko; se~ ~l~no propóSitõOeãbolição da escravatura,,Embém compar-
dez, Bahia, seis, Pernambuco, seis e Rio de Janeiro, cinco. Por fim, a representação tilhado por boa parte dos militares. Estes ideais, ãfiados à indisposição com o bacha-
290 paulista na Câmara dos Deputados resumia-se a nove deput~dos, ~o passo que 1\11- relismo, com os casacas, vistos como responsáveis pelo desgoverno e pela imoralida-
,
de política, contribuíram para estimular, nos meios militares, a construção de uma ãO dos bata~hões militares, espalhand~-os p~las p.rovíncias, enquanto c~r.riam boa-
auto-imagem que os identificava como os únicos capazes de promover a regenera- tos de que diversas outras unidades senam dissolvidas, a fim de, desmobilizando-se
ção do país. Paralelamente, ganhava força a idéia de que o melhor meio para isto se- ~o Exército, assegurar o advento tranqüilo do Terceiro Reinado.
ria uma intervenção direta - rápida, precisa e sem violência ou desordem - que Foi o bastante para que, ainda em outubro, iniciassem, na Corte, as articula-
abreviasse o caminho para a República. Em maio de 1889, a solução militar recebeu a ções entre militares descontentes (capitaneados pelo tenente-coronel Benjamin

r
aprovação dos civis, no Congresso do Partido Republicano. Aguardava-se apenas o Constant, pelo capitão Mena Barreto e pelo major Solon Ribeiro) e republicanos ci-
momento oportuno. vis (Quintino Bocaiúva, Francisco Glicério e Aristides Lobo à frente), para conven-
_cer Deodoro a liderar o movimento instaurador da República. No dia 9 de novem-
bro, o ~e-Mttitar, em assembléia presidida por Constant, deliberou pela derru- ~ '
A PROCLAMAÇÃO DA REPÚBLICA
bada do Império, antes da abertura da nova legislatura, no dia 20. No dia 11, en- ">
Em 7 de junho de 1889 dava-se mais uma mudança de ministério, com a queda quanto oImperador homenageava os oficiais da marinha chilena no Baile da Ilha
do gabinete João Alfredo, envolvido em um escândalo de corrupção (era acusado de Fiscal, Benjamin, Solon, Bocaiúva, Glicério, Lobo e mais Rui Barbosa reuniram-se
facilitar negócios ilícitos do Governo com a firma Loyos, cujo diretor era seu paren- ~ casa de Deodoro, onde foi acertado o desfecho do golpe.
na .
te). O novo gabinete, liberal, chefiado pelo visconde de Ouro Preto, ao apresentar Os boatos de que Deodoro seria preso precipitaram os acontecimentos. Na
seu programa de governo à Câmara, propôs uma série de reformas, inspiradas na escola manhã do dia 15 de novembro o general assumiu o comando das tropas revoltosas,
democrática, visando salvar a Monarquia: ampliação do direito de voto, colocando-se desde a madrugada reunidas no Campo de Sant'Anna, e dirigiu-se ao quartel-ge-
como condição a alfabetização e o exercício de qualquer profissão lícita (eliminan- neral do Exérci to, depondo o ministério que estava ali reunido. O Imperador, que se
do-se, portanto, o critério de renda); maior autonomia municipal e provincial, com a encontrava em Petrópolis, voltou rapidamente a São Cristóvão e ainda tentou orga-
eleição dos administradores dos municípios e a nomeação dos presidentes e vi- nizar um novo gabinete, mas, ao saber que a República havia sido oficialmente pro-
ce-presidentes de província pelo poder central, mas feita agora a partir de listas con- clamada, na Câmara Municipal, às três horas da tarde, nada mais fez. Dois dias de-
tendo os nomes dos candidatos eleitos pelos cidadãos; liberdade de culto, ternpora- pois, a família imperial partia para a Europa. Não houve reação de nenhum setor da
lidade do Senado; Conselho de Estado com funções meramente administrativas, e jociedade, nem grandes manifestações populares de apoio. Desapontado com a for-
não mais políticas; nova lei de terras, para facilitar a aquisição das mesmas; criação ma como tudo se deu, sem uma participação popular efetiva, Aristides Lobo diria,
de instituições de crédito; e elaboração de um código civil. A sessão foi bastante tu- mais tarde, que o povo assistira a tudo bestializado, sem compreender o que se passa-
multuada, ficando evidente a insatisfação dos deputados; a certa altura, à provoca- va, julgando tratar-se, talvez, de uma parada militar.
ção do deputado Pedro Luís dizendo serem tais reformas o começo da República, A queda do Império resultou de um longo processo de transformações que
Ouro Preto retrucou: Não: é ainutilização da República. De maioria conservadora, a Câ- tem em fins dos anos 1860 e princípios da década seguinte o seu ponto original de
mara aprovou, assim, uma moção de desconfiança, e, em 17 de junho, acabou dissol- inflexão. José Murilo de Carvalho já demonstrou a dialética da ambigüidade que carac-
vida. Nas eleições de 31 de agosto, o Governo, naturalmente, saiu vitorioso, aumen- terizava a dinâmica das relações entre o Estado Imperial e os grandes proprietários
tando a crise. rurais (também presente no plano das idéias e das instituições): o primeiro muitas
Toda esta instabilidade política só vinha a dar ainda mais força ao movimento vezes contrariando os interesses dos segundos (como na Lei de Terras e na política
republicano e aos ideais salvacionistas nutridos pelo Exército. Para se ter uma noção abolicionista), apesar de depender das rendas e do apoio político que estes propicia-
desta conturbação, basta notar que, enquanto na agitada década de 1870 sucede- vam; mas também estes em relação àquele, ao exigirem reformas que reduzissem a
ram-se apenas quatro gabinetes ministeriais, na de 1880 foram nada menos que concentração de poderes nas mãos do Imperador ou do governo central, e, ao mes-
nove; sem contar que todas as quatro legislaturas que passaram por este último pe- mo tempo, cobrarem a intervenção deste Estado para a resolução dos mais diversos
ríodo foram dissolvidas. problemas e conflitos que afetavam as elites.
Para piorar a situação, novos incidentes ocorreram entre os militares e o Go- É claro que ambigüidades assim marcam, até certo ponto, as relações comple-
verno. Em setembro, o tenente Pedro Carolino de Almeida, comandante da guarda xas entre qualquer Estado e os grupos dominantes, pois, da mesma forma como ne-
militar do Tesouro, foi preso por ter estado fora do posto. Deodoro, por sua vez, já nhum Estado se reduz a ser meramente um instrumento passivo nas mãos dos gru-
admitia votar em candidatos republicanos, depois de saber da nomeação de Silveira pos dominantes, estes também não se ajustam por completo às diretrizes, necessi-
Martins, seu antigo desafeto, para a presidência do Rio Grande do Sul, e de Cunha dades e interesses daquele. Mas no Império brasileiro os desajustes políticos chega-
Mattos, com quem se indispusera após a Questão Militar, para a presidência do Mato ram a um ponto tal, a partir daquele período crítico, que acabou inviabilizando a ma-
Grosso. Em outubro, o tenente-coronel Medeiros Mallet, comandante da Escola nutenção do regime, frente às novas demandas surgi das após a Guerra do Paraguai,
Militar do Ceará, foi demitido por reclamar da nomeação de um tenente instrutor. com a ascensão de novos grupos sociais em busca de espaço político (as camadas
Ao mesmo tempo, convencido de que era preciso enfraquecer o Exército, o Governo médias urbanas, os militares, os cafeicultores paulistas) e o deslocamento do eixo
2921 reforçou o contingente da Guarda Nacional e deu início a uma manobra de disper- econômico do Vale do Paraíba para o Oeste Paulista. 293
vida, tempo epensamento de um homem livre de cor. Rio de Janeiro: Companhia das Letras, 1997, pp.
Em suas duas últimas décadas, o Estado Imperial foi se incompatibilizando 38-56.
com sucessivos segmentos da sociedade que compunham as suas bases de sustenta- 4. CARVALHO, José Murilo de. "Cidadania: tipos e percursos", ob. cit., pp. 352-356; e IDEM, De-
ção- parte do clero (com a Questão Religiosa), parte da oficialidade do Exército (com senvolvimiento de Ia Ciudadanía en Brasil, ob. cit., pp. 62-63.
~ 5. CARVALHO, José Murilo de. Desenvolvimiento delaciudadaníaen Brasil, ob. cit., p. 25; eGRAHAM,
a Questão Militar), parte dos grandes proprietários rurais (com as leis abolicionistas),
Richard. Clientelismo e política no Brasil do século XIX. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 1997, pp.
parte, enfim, da própria elite política (com os problemas da centralização e do siste-
147-149.
ma representativo). Se tais fatos não provocaram o descontentamento desses seg- 6. COSTA, Emília Viotti da. Da Monarquia à República: momentos decisivos. São Paulo: Brasiliense, s/do
mentos em sua totalidade, e se, em si mesmos, não explicam o advento da Repúbli- (511ed.), "A Proclamação da República", especialmente pp. 327-361.
ca, como salientou Emília Viotti da Costa," nem por isto deixaram de ter um papel
decisivo para a derrocada do Império, ao caracterizarem e fomentarem um processo
\ de aguda crise política que minou o regime. BIBLIOGRAFIA
- Conflitos do Estado com o clero, com os militares, com os proprietários rurais e As principais obras de caráter geral que abrangem todo o período imperial são: os cinco volumes
no interior da elite política, assim como críticas à centralização e ao sistema repre- dedicados ao "Brasil Monárquico", dirigidos por HOLANDA, Sérgio Buarque de (dir.), e CAMPOS,
sentativo, sempre existiram ao longo do Império. Mas eram bem administrados e Pedro Moacyr (assist.). Histôriageral da civilização brasileira, tomo II - o Brasil mondrquico, São Paulo: Di-
fel, 1985 (411ed.); a parte da Cambridge history of Latin America dedicada ao Brasil, sob a organização de
\ contidos, em função da relativa homogeneidade dessa elite política e da crença na
BETHEL, Leslie (org.). Brazil. Empire and Republic, 1822-1930. Cambridge: Cambridge University
capacidade singular da Monarquia de regular as disputas e de preservar a ordem, as Press, 1989; o notório livro de COSTA, Emília Viotti da. Da Monarquia à República: momentos decisivos.
estruturas socioeconôrnicas e a unidade político-administrativa. Diante, porém, São Paulo: Brasiliense, s/do (5ª ed.); os capítulos VII a XII dos dois volumes de FAORO, Raymundo. Os
11
das profundas transformações operadas nas décadas de 1870 e 1880 - sobretudo do donos do poder: formação do patronato político brasileiro. São Paulo: Globo, 1991 (9 ed.); o livro
pró-monarquia de TORRES, João Camillo de Oliveira. A democracia coroada (teoria política do Império do
descompasso criado entre o poder político e o poder econômico, com a ascensão dos
Brasil). Rio de Janeiro: José Olympio, 1957; o clássico de LIMA, Manuel de Oliveira. O império brasileiro
cafeicultores do Oeste Paulista, das pretensões políticas assumidas pelos militares, (1822-/889). Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1986 (2ª ed.); e, para uma pequena síntese,
após o prestígio adquirido com a Guerra, e da emergência política das camadas mé- MONTEIRO, Hamilton de Mattos. Brasil Império. São Paulo: Ática, 1986.
dias urbanas, alterando a tradicional composição de forças no interior dos partidos Especificamente sobre o período joanino no Brasil, há os trabalhos clássicos de LIMA, Manuel
de Oliveira. Dom João VI no Brasil.' 1808-1821. 3 vs, Rio de Janeiro: José Olympio, 1945 (2ª ed.);
imperiais -, as críticas à centralização e à ficção do~istema representativo tomaram
EDMUNDO, Luiz. A Côrte de Dom João no Rio de Janeiro (1808-1821). 3 vs. Rio de Janeiro: Conquista,
um novo vultõ:Aõínesmo tempo, o ideal republicano deixava de ser llina aspiração 1957 (211ed.); NORTON, Luís. A Corte de Portugal no Brasil (Notas, alguns documentos diplomáticos e cartas
difusa dentro de certas situações limites e passava a ser incorporado a um movimen- da imperatriz Leopoldina}. São Paulo: Nacional / Brasília: Instituto Nacional do Livro, 1979 (2ª ed.);
I to político mais substantivo, que crescia na mesma medida em que diminuía o pres- PRADO, J. F. de A1meida. D. João VI e o início da classedirigente do Brasil (depoimento de um pintor austríaco
no Rio de Janeiro). São Paulo: Nacional, 1968 (211ed.); e o Tomo V de VARNHAGEN, Francisco Adolfo
tígio da Monarquia. A República, todavia, foi fruto muito mais da insatisfação gera-
de. História geral do Brasil: antes da sua separação e independência de Portugal. São Paulo: Melhoramentos,
"'-. I

t, da pela incapacidade do Estado Imperial de articular as velhas e novas demandas- 1978 (911ed. integral). Uma pequena síntese atual encontra-se emALGRANTI, Leila Mezan. D. João
desua crise de legitimidade - do que da crença geral e efetiva nas vantagens do regi- VI: Os bastidores da Independência. São Paulo: Ática, 1987. Bem mais específico é o premiado trabalho de
l me republicano. NEVES, Guilherme Pereira das. E receberá mercê: a mesa da consciênciae ordens e o clero secular no Brasil-
1808-1828. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 1997. Há, ainda, a tese de doutorado de MALERBA, [u-
randir. A Corte no exílio: interpretação do Brasiijoanino (1808 a 1821). São Paulo: Faculdade de Filosofia,
Letras e Ciências Humanas - Universidade de São Paulo, 1997 (mimeo).
NOTAS Percorrendo desde a época joanina até a Regência (em uma linha que transi ta en tre a história
1. política, a história social e a história econômica), na perspectiva do processo de imeriorização da Metró-
MATTOS, Ilmar Rohloff de. O tempo saquarema: a formação do Estado Imperial. São Paulo: pole, situam-se a obra de LENHARO, A1cir. As tropas da moderação (o abastecimento da Corte na formação
HUCITEC, 1990 (211ed.), especialmente parte lI. política do Brasil -1808-1842). Rio de Janeiro: Secretaria Municipal de Cultura, Turismo e Esportes-
2. Diferentes interpretações do conflito encontram-se em CHIAVENATO, Julio José. Genoddio 11
Departamento Geral de Documentação e Informação Cultural- Divisão de Editoração, 1993 (2 ed.);
americano: a Guerra do Paraguai. São Paulo: Círculo do Livro, s/do (a }li ed. é de 1979); e os trabalhos de MARTINHO, Lenira Menezes. "Caixeiros e pés-descalços: conflitos e tensões em
DORATIOTO, Francisco Fernando Monteoliva. A Guerra do Paraguai (Zll Visão). São Paulo: Bra- um meio urbano em desenvolvimento", e GORENSTEIN, Riva. "Comércio e política: o enraizamen-
siliense, 1991; MARQUES, Maria Eduarda Castro Magalhães (org.). A Guerra do Paraguai: 130 to de interesses mercantis portugueses no Rio de Janeiro (1808-1830)", reunidos no livro Negociantes e
anos depois. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1995 (ver, particularmente, os artigos de Leslie Bet- caixeiros na sociedade da Independência. Rio de Janeiro: Secretaria Municipal de Cultura, Turismo e
hell encontrados no livro); POMER, Leon. A Guerra do Paraguai: a grande tragédia rioplatense. São Esportes - Departamento Geral de Documentação e Informação Cultural- Divisão de Editoração,
Paulo: Global, 1980 (a ed. original argentina é de 1968); e SALLES, Ricardo. A Guerra do Para- 1993.
guai: escravidão e cidadania na formação do exército. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1990. Sobre o processo de Independência do Brasil, são referências sempre importantes as obras clás-
sicas de VARNHAGE0J, Francisco Adolfo de. História da Independência do Brasil. São Paulo: Melhora-
3. Cf. CARVALHO, José Murilo de. Desenvolvimiento de Ia ciudadania en Brasil. México: Fondo de
mentos, 1978 (611ed. integral); a monumental obra (que ainda hoje aguarda uma reedição) de SILVA,
Cultura Económica / El Colegio de México / Fideicomiso Historia de Ias Américas, 1995, pp.
Joaquim Manuel Pereira da. Historiadafundaçãodo Império Brazileiro. 7 vs, Rio de Janeiro: B. L. Garnier,
58-60; IDEM, "Cidadania: Tipos e Percursos", in Estudos Históricos, V. 9, nl! 18, Justiça e cidada-
1864-1868; os dois volumes de MORAES, Alexandre José de Mello. História do Brasil-Reino e do Bra-
nia. Rio de Janeiro: CPDOC - Fundação Getulio Vargas, 1996, pp, 350-352; IDEM, Pontos e bor- sil-Império. Belo Horizonte~ ltatiaia/ São Paulo: EDUSP, 1982 (211ed.); LIMA, Manuel de Oliveira. O
dados: escritos de história epolítica. Belo Horizonte: Editora UFMG, 1998, pp. 246-248 e 332-335; 11
movimento da Independência: 1821-1822. Belo Horizonte: Itatiaia / São Paulo: Edusp, 1989 (2 ed.); 2~
294 SALLES, Ricardo. ob. cit., capítulo IV; e SILVA, Eduardo, Dom Obá II d'Africa. opríncipe do povo: