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DE BLACK MIRROR A CAMBRIDGE ANALYTICA: OS LIMITES DA

TECNOLOGIA DA INFORMAÇÃO
Por Mateus Carvalho de Medeiros

Black Mirror é uma série estadunidense do serviço de streaming Netflix que costuma
retratar futuros distópicos. Cada episódio busca trazer um questionamento para o
espectador, geralmente, sobre os limites dos avanços tecnológicos relacionados à ética e
a moral. Com uma pitada de suspense e tramas que parecem permear a nossa própria
realidade, e não um futuro assim tão distante, a série nos provoca a seguinte pergunta: até
que ponto podemos, ou melhor, devemos ir com as tecnologias?

Karin Parker e Blue Colson são duas policiais do sexto episódio da terceira temporada da
trama, chamado Hated in the Nation (Odiados pela Nação). Durante uma investigação de
uma série de assassinatos, todos ligados a pessoas citadas por uma determinada hashtag,
as agentes acabam por descobrir um enorme esquema de espionagem do governo
britânico. Com o uso de abelhas-drones equipadas com câmeras escondidas,
supostamente utilizadas para sanar uma virtual extinção daqueles animais, o Estado podia
ver a tudo e a todos. O desenrolar do enredo é trágico, e nos põe em xeque, tanto enquanto
sujeitos como também enquanto coletivo.

O recente caso da empresa Cambridge Analytica (CA) está muito distante dessa realidade,
ou não? A CA, uma consultoria de marketing digital especializada em usar dados pessoais
para a análise de comportamento, que assistiu à campanha de Donald Trump nos EUA,
esteve envolvida, no início do mês, em uma grande polêmica. Um enorme vazamento de
dados, supostamente obtidos de forma indevida, de mais de 50 milhões de pessoas,
usuárias da rede social Facebook, que pôs o mundo em alerta.

Dois questionamentos pairam sobre esse acontecimento. Como proteger nossa


privacidade? Como essas empresas podem afetar a democracia?

“Essas coisas absorvem quem nós somos. Sabem tudo sobre nós.”, diz Colson para Parker
no referido episódio, se referindo aos celulares e a quantidade de informação que
comportam. A CA se vangloriava de não apenas produzir conteúdo a partir da análise de
dados, mas também de conseguirem alterar o comportamento dos seus consumidores
através dela. “Data-driven behavior change” (mudança de comportamento orientada por
dados) era como chamavam esse processo. Aquilo que Colson diz a Parker fala muito
sobre isso. Fornecemos uma quantidade enorme de informação para as redes sociais e
internet em geral, de forma consentida ou não. Porém, não sabemos de que forma elas
são usadas. Para quê? Por quem? Para onde vão? Creio que ninguém gostaria de estar
entre as 50 milhões citadas anteriormente. Apesar disso, já somos essas pessoas. A vida
privada, um direito humano, parece não ter mais tanto valor para as grandes corporações,
nem para o Estado.

Nesse sentido, empresas como a CA se aproveitam da falta de controle sobre os dados


das pessoas. Constroem narrativas e produzem sentido a partir dessas informações.
Interferem diretamente nas decisões políticas de várias nações. Seria uma escala ainda
mais perturbadora da produção de significado institucional que a mídia faz
constantemente?

O conteúdo que estamos consumindo nós mesmos fazemos. Indiretamente. Fornecemos


nossos gostos, preferências, interesses etc. A partir daí, montam para nós o que
“queremos” consumir. Podemos estar diante de uma ferramenta quase perfeita de controle
social. Se antes a mídia já possuía um elevado poder de manipulação, agora o buraco está
ainda mais em baixo.

Faz-se necessário discutir a quem serve esse tipo de tecnologia. A nós? O povo, no sentido
estrito da palavra, a base da sociedade. Ou eles? As instituições de poder do modo de
produção capitalista. O que nos leva aos seguintes questionamentos: será que as pequenas
conquistas obtidas para o nosso cotidiano valem diante da perda da privacidade
individual? E para além disso, valem diante da interferência direta das corporações dentro
dos nossos sistemas democráticos e da nossa capacidade de decisão?

São perguntas que eu já tenho minha resposta, e você?