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Simulação numérica de um aterro sobre solo mole reforçado com

geocélula
José Orlando Avesani Neto
Escola de Engenharia de São Carlos da Universidade de São Paulo – EESC/USP, São Carlos,
Brasil, avesani.neto@gmail.com

Benedito de Souza Bueno


Escola de Engenharia de São Carlos da Universidade de São Paulo – EESC/USP, São Carlos,
Brasil, bsbueno@sc.usp.br

Marcos Massao Futai


Escola Politécnica da Universidade de São Paulo – EP/USP, São Paulo, Brasil, futai@usp.br

RESUMO: Aterros sobre solos moles são obras de elevada complexidade tanto no quesito da
concepção e projeto como em sua execução. Diversas são as alternativas de utilização, das quais se
destacam a utilização de geossintéticos, seja na aceleração dos recalques como no reforço basal.
Nesta última aplicação se insere a geocélula, que diferente dos reforços planares (geogrelhas e
geotêxteis) possui mecanismos distintos de melhora da capacidade de suporte, fornecendo a este
material algumas vantagens em relação àqueles. Desta forma, o presente artigo apresenta diferentes
simulações numéricas, utilizando um software tridimensional de elementos finitos, comparando
qualitativamente e quantitativamente a melhora exibida devido à utilização da geocélula em aterros
sobre solos muito moles, sendo a análise estendida para a situação pós-adensamento da camada de
solo mole. Os resultados mostraram a melhora significativa do uso da geocélula em relação ao caso
não reforçado, suportando alturas de aterros mais elevadas com redução dos recalques.

PALAVRAS-CHAVE: Melhoria de solos, geossintéticos, MEF.

1 INTRODUÇÃO Outra forma de elevar o conhecimento dos


mecanismos envolvidos neste tipo de reforço é
Apesar de ser utilizado em situações diversas, a simulação numérica computacional.
como controle de erosão em taludes, Utilizando-se de softwares de elementos finitos
revestimento de canais e muro de arrimo, a (MEF) é possivel simular e verificar em
geocélula foi inicialmente desenvolvida com o diferentes escalas tanto o comportamento do
intuito de melhorar a capacidade de suporte de reforço bem como o desenvolvimento de sua
solos moles. Por meio de sua estrutura celular, resistência.
este geossintético confina o material de Mhaiskar e Mandal (1996) realizaram
preenchimento de suas células fornecendo uma ensaios de laboratório e simulações numéricas
significativa melhora de suas propriedades variando a razão de forma (h/d) da geocélula.
geotécnicas, formando uma camada de reforço Eles observaram, tanto experimentalmente
semelhante a uma laje (Figuras 1 e 2). como pelo MEF, que o aumento da razão de
Para melhor entender o comportamento deste forma gera melhores capacidades de suporte e
tipo de reforço, muitos autores realizaram menores deformações. Pelas simulações
ensaios de placa de pequena e grande escala em computacionais, os autores observaram, ainda,
laboratório e alguns propuseram métodos de que independentemente da altura da célula, o
cálculo que consideram a melhora da bulbo de tensões tende a se concentrar na
capacidade de suporte devido a presença da camada de reforço da geocélula, fato este
camada de geocélula. também observado por Meneses (2004).
equivalente para representar em duas dimensões
as características geométricas e físicas
tridimensionais da geocélula. Igualmente foi
observada por eles a concentração do bulbo de
tensões dentro da geocélula. Os autores também
concluíram que geocélulas com pequenas razões
de forma dissipam de forma menos eficaz as
pressões, se comportando semelhante a uma
viga de pequena altura fletindo sob um
carregamento. Por outro lado, geocélulas com
razões de forma mais elevadas comportam-se
como um bloco de fundação, com distribuição
de cargas no solo subjacente e deformações
mais uniformes.
Semelhante ao que ocorre com a geocéula,
Otani et al. (1998) verificaram que tanto o
aumento da altura da zona reforçada como a
elevação da largura do reforço elevam a
melhora da capacidade de carga.
O presente estudo simula um aterro sobre
solo mole reforçado com geocélula de forma a
verificar o ganho de segurança e a redução tanto
Figura 1 – Moldagem de geocéulas in loco a partir de das pressões na fundação como dos
geogrelhas para aplicação em aterros sobre solos moles deslocamentos.
(Tensar, 2011)
2 MATERIAIS E MÉTODOS

2.1- Etapas de cálculo

O estudo e as simulações foram conduzidos


considerando-se todas as etapas de construção
de um aterro sobre solo mole, a saber:

• Situação inicial: situação prévia ao início da


construção (estabelecimento das tensões in
situ);
• Aterro de conquista: construção do aterro
de conquista com a inclusão do reforço de
geocélula em um período de 5 dias;
Figura 2 – Preenchimento de geocéulas feitas in loco com • Execução do aterro: execução do aterro em
aplicação em aterros sobre solos moles (Tensar, 2011),
etapas de 1 m (de um total de 5 m), em 5
dias para cada etapa, e um período de 30
Han et al. (2008) compararam ensaios de
dias entre etapa para adensamento do solo
laboratório com simulações numéricas em
de fundação.
apenas uma célula e observaram paridade nos
resultados obtidos. Os autores destacaram um
2.2- Modelos
comportamento de compressão no topo da
célula e de tração em sua base, local onde o
Para o presente estudo, foi utilizado o software
material e a costura são mais solicitados.
de elementos finitos tridimensional Plaxis 3D
Latha et al. (2009) utilizaram um modelo
Foundation, licenciado pelo Instituto de
Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo A sequência da Figura 3 exibe o modelo da
– IPT. Os modelos construídos foram Simulação 1 com todas as etapas de construção.
compostos por 2.223 elementos triangulares e
6879 nós. Foi utilizada uma redução de 70% na
interface solo-reforço referente ao atrito de
interface solo-geossintético.
Foram realizadas 5 (cinco) simulações com
os mesmos parâmetros do solo de fundação: 1 a b
(uma) sem reforço, para comparação, e 4
(quatro) reforçados, variando a razão de forma
da geocélula, h/d (que é definida pela relação
entre altura da célula – h, pela sua largura - d) e
c d
dimensões da geocélula, conforme a Tabela 1
na sequência.

Tabela 1 – Resumo das simulações realizadas


Simulação 1 2 3 4 5
Condição NR* R* R R R e f
Altura do reforço (cm) - 40 80 120 80
Largura da célula (cm) - 40 80 120 40 Figura 3 – Modelo numérico computacional na condição
Razão de forma - 1 1 1 2 reforçada – etapas: a) inicial de geração das tensões in
*: NR – não reforçado; R - reforçado situ; b) aterro de conquista reforçado; c) 1 m de altura; d)
2 m de altura; e) 3 m de altura; f) 4 m de altura
O solo de fundação foi adotado como uma
argila muito mole, com o nível d’água próximo
3 RESULTADOS
da superfície. Sua espessura total foi de 5 m,
sendo que abaixo deste foi considerado uma
3.1- Deslocamentos e recalques
camada drenante. Para o preenchimento da
geocélula foi utilizado um solo arenoso.
As Figuras 4, 5 e 6 apresentam,
Considerou-se para o aterro um solo de elevada
respectivamente, os deslocamentos totais após a
rigidez e resistência de forma a focar o estudo
construção de 1 m e 3 m do aterro na condição
na deformabilidade e ruptura da fundação. A
de solo não reforçado e após a execução de 1 m
Tabela 2 apresenta os parâmetros utilizados.
do aterro reforçado.
Ressalta-se que foi utilizado um mesmo critério
de cálculo para as 5 (cinco) simulações, critério
de Mohr Coulomb.

Tabela 2 – Parâmetros geomecânicos adotados


Fundação Preenchimento Aterro
Solo Argila Areia Areia
Modelo Mohr-Coulomb
Tipo Não drenado Drenado Drenado
γ (kN/m³) 15 18 20
k (m/dia) 0,01 1 1
E (kPa) 500 6000 10000 Figura 4 – Deslocamentos totais geradas após execução
ν 0,4 0,35 0,35 de 1 m do aterro não reforçado (Legenda: vermelho = 9,5
mm; amarelo = 6,0 mm; verde = 4,0 mm; azul = 0,0 mm)
su (kPa) 10 - -
φ (°) 0 39 39
A Figura 7 exibe os recalques por fase de
cálculo para cada simulação realizada e a Figura
8 mostra os recalques acumulados.

35
Simulação 1
30
Simulação 2

Recalques por fase (cm)


25 Simulação 3
20 Simulação 4
Simulação 5
15
Figura 5 – Deslocamentos totais geradas com a ruptura 10
após execução de 3 m do aterro não reforçado (Legenda:
5
vermelho = 850 mm; amarelo = 500 mm; verde = 400
mm; azul = 0 mm) 0
1m 1m 2m 2m 3m 3m 4m
Adens Adens Adens
Figura 7 – Comparação dos recalques para cada fase entre
as simulações realizadas

40

35 Simulação 1
Simulação 2
Recalques acumulados (cm)

30
Simulação 3
25 Simulação 4
Simulação 5
20

15

10
Figura 6 – Deslocamentos totais geradas após execução
de 1 m do aterro reforçado - Simulação 3 (Legenda: 5
vermelho = 6,8 mm; amarelo = 4,0 mm; verde = 3,0 mm; 0
azul = 0,0 mm) 1m 1m Adens 2m 2m Adens 3m 3m Adens 4m
Figura 8 – Comparação dos recalques acumulados entre
as simulações para cada altura do aterro
Nota-se que na situação não reforçada,
mesmo para 1 m de aterro, a superfície de Destas Figuras se verifica a etapa da ruptura
ruptura se define no interior do maciço da pela elevação dos recalques de cada fase. Para a
fundação (Figura 4), coincidindo com a situação não reforçada (Simulação 1) a ruptura
superfície definitiva na ruptura que ocorre na ocorre com a execução de 3 m do aterro,
construção do 3° metro do aterro (Figura 5). momento em que é registra um recalque de 30
Visualiza-se, também, que esta superfície se cm (sendo o acumulado mais que 35 cm).
inicia quase exclusivamente dentro da fundação, Na Simulação 2 (geocélula de 40 cm x 40
mas na ruptura se propaga no aterro cm), igualmente com a execução de 3 m do
compactado. aterro grandes deslocamentos são observados
Comparando-se a mesma situação para a (15 cm nesta etapa e cerca de 20 cm no
condição não reforçada e reforçada (Figuras 4 e acumulado). Contudo, o reforço impede a
6), verifica-se que para a segunda situação a ruptura nesta etapa, sendo que esta só ocorre
superfície de ruptura não fica definida de forma após o término da execução desta camada e
aparente como na condição não reforçada. Além início do adensamento por deformação lenta
disto, os deslocamentos no aterro compactado para carga constante (conforme descrito em
são de inferior magnitude e mais uniformes, Pinto, 2006).
fruto da melhor distribuição dos carregamentos Nas Simulações 3, 4 e 5, nas quais as alturas
na fundação devido a camada de reforço. das células são mais elevadas, o reforço
apresentou melhores resultados e suportou um minimização das deformações do aterro e a
aterro de até 4 m, rompendo, semelhante ao redução da expulsão do solo mole de fundação.
ocorrido com a Simulação 2, no início da fase Novamente os reforços que apresentaram
de adensamento. melhores resultados na redução dos
Destas Simulações se verifica ainda que a deslocamentos horizontais foram aqueles das
elevação da altura da célula de 80 cm para 120 Simulações 3, 4 e 5.
cm, ou o aumento da razão de forma de 1 para 2
não resultaram em melhoras significativas tanto 3.2- Fatores de Segurança
na altura máxima do aterro como na redução
dos recalques, exibindo comportamentos De forma a complementar as análises, a
semelhantes. Figura 11 apresenta os fatores de segurança
Por fim, as Figuras 9 e 10 apresentam os obtidos para cada Simulação nas diferentes
deslocamentos laterais no pé do talude em cada etapas de construção do aterro.
fase e os valores acumulados, respectivamente.
3,5
25 Simulação 1
Simulação 1 3 Simulação 2
Desloc. horiz. por fase (cm)

20 Simulação 2 Simulação 3
Fator de Segurança
2,5
Simulação 3 Simulação 4
15 Simulação 4 Simulação 5
2
Simulação 5
10
1,5

5
1

0 0,5
1m 1m 2m 2m 3m 3m 4m 4m 1 2 3 4 5
Adens Adens Adens Adens Altura do aterro (m)
Figura 9 – Comparação dos deslocamentos horizontais Figura 11 – Comparação dos Fatores de Segurança entre
para cada fase entre as simulações realizadas as simulações para cada altura do aterro

30 Conforme verificado anteriormente nas


Simulação 1 Figuras 7 e 8, a Simulação 1 (caso do solo não
Desloc. horiz. acumulado (cm)

25
Simulação 2 reforçado) rompe na execução de 3 m do aterro.
20 Simulação 3 Em todas as etapas da obra o solo não reforçado
Simulação 4 apresenta um Fator de Segurança inferior a
15 Simulação 5 qualquer modalidade de reforço com geocélula.
Para os casos com a camada de reforço
10
(Simulações 2, 3, 4 e 5) se verifica que o Fator
5 de Segurança é proporcional a altura da
geocélula, sendo que foi obtido em todas as
0 etapas o maior FS para a Simulação 5
1m 1m Adens 2m 2m Adens 3m 3m Adens 4m
(geocélula de 120 cm x 120 cm).
Figura 10 – Comparação dos deslocamentos horizontais Ainda destes resultados conclui-se que a
acumulados entre as simulações para cada altura do aterro
elevação do fator de forma (razão da altura da
célula, h, pela sua largura, d) contribui apenas
Tal qual ocorreu com os recalques, os de forma marginal para a estabilidade do
deslocamentos horizontais também evidenciam
reforço, conforme verificado nas análises das
a etapa de ruptura de cada simulação. Verifica- Simulações 3 (h/d = 1) e 4 (h/d = 2).
se, ainda, que a presença da geocélula é efetiva
na redução dos deslocamentos horizontais no pé
do talude devido a uma soma de beneficios
como a uniformização das tensões verticais, a
4 CONCLUSÕES Oficina de Textos, 3ª Edição. São Paulo.
Tensar (2011). TensarTech geocell mattress system.
Tensar website: http://www.tensar.co.uk
O presente artigo avaliou, com auxílio do
Método dos Elementos Finitos tridimensional, o
comportamento de aterros sobre solo mole
reforçado com geocélulas de diferentes
geometrias (alturas e larguras das células e
razões de forma). Foi realizado também, como
base de comparação, uma análise de um caso
não reforçado. As principais conclusões são:

• Verificou-se que a geocélula eleva de forma


satisfatória a capacidade de carga dos solos;
• A presença do reforço de geocélula reduz e
uniformiza as deformações tanto na
fundação como no aterro compactado;
• A redução das deformações e a elevação do
Fator de Segurança são diretamente
proporcionais a altura da célula;
• O aumento da razão de forma implica apenas
em ganhos marginais em melhora na
segurança e na redução dos recalques.

AGRADECIMENTOS

Os autores agradecem à Escola de Engenharia


de São Carlos – EESC/USP e a Escola
Politécnica – EP/USP pela oportunidade de
estudo e ao IPT e a Geo Soluções pelo apoio.

REFERÊNCIAS

Han, J., Yang, X., Leshchinsky, D., Parsons, R.L. (2008).


Behavior of geocell-reinforced sand under a vertical
load. Journal of the Transportation Research Board,
2045, 95-101.
Latha, G.M., Dash, S.K., Rajagopal, K. (2009) Numerical
simulation of the behavior of geocell reinforced sand
in foundations. International Journal of
Geomechanics 9 (4), 143–152.
Meneses, L.A., (2004). Utilização de geocélulas em
reforço de solo mole. Dissertação (Mestrado) – Escola
de Engenharia de São Carlos, Universidade de São
Paulo.
Mhaiskar, S.Y., Mandalt, J.N. (1996). Investigations on
soft clay subgrade strengthening using geocells.
Construction and Building Materials 10 (4), 281–286.
Otani, J, Hidetoshi, O., Yamamoto, K. (1998). Bearing
capacity analysis of reinforced foundations on
cohesive soils. Geotextiles and Geomembranes 16,
195–206.
Pinto, C.S. (2006). Curso básico de mecânica dos solos.

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