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Plataforma de Transferência de Carga sobre Aluviões Lodosas

Tratadas com Colunas de Jet Grouting


Alexandre Pinto
JetSJ Geotecnia, Lda., Lisboa, Portugal, apinto@jetsj.pt

Rui Tomásio
JetSJ Geotecnia, Lda., Lisboa, Portugal, rtomasio@jetsj.pt

João Ravasco Mendes


Somague Engenharia, S.A., Lisboa, Portugal, jmendes@somague.pt

RESUMO:No presente artigo são descritos os principais critérios de conceção e de execução adop-
tados na solução de tratamento dos materiais lodosos existentes no interior da Doca do Terreiro do
Trigo, no Jardim do Tabaco, em Lisboa, de modo permitir o seu posterior aterro. A solução imple-
mentada, que visou permitir a futura construção do novo Terminal de Cruzeiros de Santa Apolónia,
em Lisboa, consistiu na execução de uma malha de colunas de jet grouting com Ø1500mm, subja-
centes a uma plataforma de transferência de carga, materializada por duas geogrelhas biaxiais, per-
mitindo assim a construção de um aterro de 4,2m de altura, diretamente sobre os materiais lodosos.
As colunas de jet grouting asseguram a transferência da carga do aterro directamente para o substra-
to Miocénico competente, localizado a mais de 20,0m de profundidade, sem necessidade de trans-
mitir cargas significativas aos lodos (resistência ao corte não drenada entre 15kPa e 20kPa) e, con-
sequentemente, sem despoletar fenómenos de consolidação hidrodinâmica relevantes. Referem-se
ainda os trabalhos de reabilitação e de recalçamento dos muros periféricos que possibilitaram que os
mesmos viessem a acomodar os impulsos transmitidos pelo aterro da Doca. São igualmente apre-
sentados os principais resultados da instrumentação da obra. Por último, são ainda descritos os prin-
cipais resultados dos ensaios de carga verticais realizados, à escala real, sobre colunas de jet grou-
ting, com objectivo de avaliar a viabilidade das mesmas colunas poderem vir a ser integradas na
solução de fundações do edifício do novo Terminal.

PALAVRAS-CHAVE: Jet Grouting, Microestacas, Plataforma Transferência de Cargas.

1 INTRODUÇÃO acomodar os impulsos transmitidos pelo


aterro da Doca;
As soluções apresentadas ao longo deste artigo  Aumentar a área e a cota do terrapleno, a-
inserem-se na empreitada de “Reabilitação e través do aterro da Doca;
Reforço dos Cais entre Santa Apolónia e o Jar-  Construir uma nova infraestrutura que
dim do Tabaco – 2ª Fase” (Pinto et al, 2011). permita a utilização do cais por navios de
Esta obra desenvolve-se numa extensão total de cruzeiro, com maior calado.
cerca de 1.100m, incluindo o aterro da Doca do Do ponto de vista estrutural os muros cais e-
Jardim do Tabaco, com uma área de cerca de xistentes e que confrontam para o Rio Tejo são
700x55m2 (Figura 1). constituídos, em geral, por uma estrutura em
Como principais objetivos da intervenção pilares de concreto de cal hidráulica, afastados
descrita podem ser destacados os seguintes: de cerca de 14m, dispondo de superstrutura em
 Reabilitar a estrutura dos muros cais cen- alvenaria de pedra, apoiada sobre lintéis em
tenários, que apresentava deficiências, de abóbada, vencendo o vão entre pilares.
modo a que os mesmos pudessem vir a
O conjunto encontra-se assente sobre um  Fecho da Doca através da execução de
prisma de enrocamento ou directamente sobre o uma estrutura porticada, constituída por
substrato Miocénico. O prisma de enrocamento estacas de concreto armado, encabeçadas
da base encontra-se, por sua vez, fundado no por uma grelha de vigas de concreto ar-
substrato, quando este se encontra acima da cota mado e travadas horizontalmente, no to-
-15m (ZH), ou numa vala dragada nos lodos, po, com recurso a microestacas inclina-
com rasto a cotas variáveis. (WW, 2008) das. Adicionalmente, de forma a garantir a
Com vista ao incremento da estabilidade glo- continuidade e o efeito de barreira e de
bal da estrutura dos cais, a solução original, confinamento do material fino do aterro,
patenteada a Concurso previa, resumidamente, foi instalada uma cortina de estacas pran-
as seguintes medidas: cha com entrega nos materiais lodosos e
 Execução de colunas de brita ao nível do encabeçada na referida grelha de vigas;
complexo lodoso, adjacente à face exteri-  Execução de colunas de solo-cimento,
or dos muros cais. As colunas de brita de- materializadas através da tecnologia de jet
veriam dispor de um diâmetro de 950mm, grouting, na área de implantação da Doca,
distribuídas numa malha de 2m de lado, para fundação de um aterro com 4,20m de
com excepção da zona da entrada da doca, altura, que permitiu atingir a cota do ter-
e com altura variável, desde a superfície rapleno adjacente (+5.70ZH).
dos lodos até ao substrato Miocénico;
 Execução de um prisma de enrocamento
subaquático, sobre os lodos tratados com
colunas de brita, o qual só poderá, à parti-
da, ser realizado após a conclusão das co-
lunas de brita e do prazo estimado para a
consolidação acelerada dos materiais lo-
dosos;
 Execução de colunas de brita ao nível do
complexo aluvionar, em toda a área de
implantação da Doca. As colunas de brita
deveriam dispor de um diâmetro de
950mm, distribuídas numa malha de 2m
de lado e com altura variável, desde a su-
Figura 1. Vista geral da zona da intervenção, a partir do
perfície dos lodos até ao substrato Miocé-
rio Tejo.
nico.
A solução alternativa proposta e executada
2 PRINCIPAIS CONDICIONAMENTOS
pretendeu eliminar a totalidade dos trabalhos
subaquáticos e de colunas de brita, assegurando
2.1 Geologia e geotecnia
maior previsibilidade do prazo da obra e menor
risco para a estabilidade das estruturas vizinhas
No que se refere o cenário geológico e geotéc-
e a preservar, determinado pela eliminação do
nico, o mesmo era constituído por aterros e por
processo de consolidação acelerada dos lodos
enrocamentos marginais, fundados sobre lodos,
(JetSJ, 2009).
parcialmente ou totalmente, consolidados (zona
No enquadramento descrito, foram executa-
sobre os muros), pelo complexo lodoso, consti-
das as seguintes soluções:
tuído por lodos argilosos com valores baixos de
 Recalçamento e reforço dos muros cais resistência ao corte não drenada e, finalmente,
existentes, através da realização de micro- pelo substrato Miocénico, constituído por arei-
estacas e de colunas de jet grouting, enca- as, argilas e calcários. Os lodos, na zona de
beçadas e solidarizadas por elementos em transição para o Miocénico, apresentavam ca-
concreto armado; racterísticas arenosas.
As três formações definidas anteriormente lação do Metropolitano de Lisboa. As soluções
foram caracterizadas, do seguinte modo: implementadas permitiram minimizar o impacto
 Aterros e Enrocamentos: estrato heterogé- no normal funcionamento destas estruturas e
neo, incluindo, por vezes, enrocamentos infraestruturas, durante e após a conclusão dos
calcários constituintes da fundação dos trabalhos.
muros, também detectados na zona interi-
or da Doca;
 Complexo Aluvionar: constituído, quase 3 PRINCIPAIS SOLUÇÕES
exclusivamente, por lodos, apresentando
algumas intercalações areno-lodosas, es- O aterro da Doca, face à existência de materiais
pecialmente no interior da Doca. A gene- lodosos subconsolidados e de modo a minimi-
ralidade das sondagens realizadas naquele zar os fenómenos da consolidação hidrodinâmi-
lugar detectou, na parte inferior do Com- ca, foi materializado após os trabalhos de reabi-
plexo, uma zona areno-lodosa com con- litação e recalçamento dos muros, recorrendo a
chas, seixos e calhau calcários provenien- microestacas (Figura 2), e de fecho da boca da
tes da erosão do substrato Miocénico; Doca. O aterro foi realizado sobre uma plata-
 Complexo Miocénico: constituído, essen- forma de transferência de cargas (LTP), fundada
cialmente, por estratos calcários fossilífe- sobre colunas de jet grouting, executadas ao
ros-gresosos, alternando com camadas ar- nível dos aluviões lodosos.
gilosas. As bancadas calcárias podiam a- Em função do valor das cargas devidas ao pe-
tingir espessuras da ordem dos 4,0m. As so próprio do aterro e à respectiva sobrecarga de
camadas gresosas (areolas) eram constitu- utilização (30kN/m2) recorreu-se à execução de
ídas por areias finas, micáceas, argilosas, colunas de jet grouting Ø1500mm (com tensão
alternando com camadas de argila, rara- de rotura de 3,7MPa e módulo de deformabili-
mente isentas de areias. dade de 500MPa), dispostas numa malha de
5,7x5,7m2, devidamente entregues ao nível dos
2.2 Estrutura dos muros cais existentes materiais aluvionares arenosos, existentes na
transição com o substrato Miocénico, de forma
Do ponto de vista estrutural os muros cais cen- a permitir a transmissão das cargas essencial-
tenários são constituídos por uma estrutura em mente por atrito lateral. Nas situações em que a
pilares de concreto de cal hidráulica, afastados transição dos lodos para o substrato Miocénico
de cerca de 14m, dispondo de superstrutura em se verificou mais brusca, as colunas foram exe-
alvenaria de pedra, apoiada sobre lintéis em cutadas com uma entrega mínima de 1m no
abóbada, vencendo o vão entre pilares. O con- referido substrato (Figura 2).
junto encontra-se assente sobre um prisma de
enrocamento ou directamente sobre o substrato
Miocénico. O prisma de enrocamento da base
encontra-se, por sua vez, fundado no substrato,
quando este se encontra acima da cota -15m
(ZH), ou numa vala dragada no lodo, com rasto
a cotas variáveis. (WW, 2008)

2.3 Condições de vizinhança

O recinto da intervenção encontrava-se confina-


do entre os muros cais centenários e edifícios de
armazéns industriais (Figura 1). A tardoz dos
muros, do lado terra, localizavam-se ainda, a
Figura 2. Planta e corte transversal tipo.
pequena distância, uma conduta adutora de
grande diâmetro, assim como um poço de venti-
A opção pelo tratamento dos materiais aluvi- numa futura solução de fundações do Edifício
onares através de colunas de jet grouting pren- da Gare de Passageiros do Terminal de Cruzei-
deu-se, essencialmente, com aspectos de natu- ros.
reza construtiva, nomeadamente o recurso a
equipamentos de pequeno porte, que minimiza-
ram as exigências ao nível da plataforma de 4 DIMENSIONAMENTO
trabalho provisória, quando comparados com
soluções tradicionais, como estacas de concreto No âmbito do dimensionamento da solução,
armado ou mesmo colunas de brita. Verificou- nomeadamente na avaliação da percentagem da
se que a materialização de uma plataforma de carga transferida para o coroamento das colunas
trabalho estável, que permitisse a realização dos de jet grouting, foi elaborado um modelo tridi-
trabalhos compatibilizados com a cota das ma- mensional, no programa Plaxis 3D Foundation,
rés, dispensando o recurso a meios marítimos, recorrendo a elementos finitos que respeitam o
foi extremamente importante para o decurso dos critério de rotura de Mohr-Coulomb (Figura 4 e
trabalhos, em condições de segurança e de pre- Figura 5).
visibilidade. Neste enquadramento, para além
do fecho da boca da Doca, foi executada uma
cortina de colunas de jet grouting Ø1200mm
afastadas de 1,0m, ao longo do alinhamento
interior dos muros da Doca, de forma a minimi-
zar a afluxo de água ao interior do recinto da
doca e a assegurar o maior confinamento possí-
vel dos materiais aluvionares localizados no
interior da Doca.
A plataforma de trabalho provisória e a plata-
forma de transferência de cargas definitiva foi
constituída por duas geogrelhas biaxais do tipo
SS20G e SS20, sob camada de material granu-
lar, com 40cm de espessura mínima, sobre a
Figura 4. Modelo de elementos finitos 3D.
qual foi, por uma vez, colocada uma segunda
geogrelha biaxial, do tipo SS20 e uma segunda
camada de material granular, com 60 cm de
espessura mínima (Figura 3).

Figura 5. Resultados do modelo de elementos finitos 3D.

Figura 3. Vista dos trabalhos de aterro da Doca.

A solução de tratamento implementada pre-


viu ainda a possibilidade de vir a ser integrada
O assentamento vertical máximo estimado provenientes do aterro (3,7MPa de resistência à
para o topo de aterro foi de cerca de 76mm. compressão simples não confinada), apenas
Verificou-se durante a construção do aterro, que cerca de 40% das cargas foram transferidas di-
o máximo assentamento vertical registado foi de rectamente para o seu coroamento (Figura 7).
cerca de 350mm, durante a fase de obra, con- Conclui-se, assim, que a zona superficial dos
forme se poderá verificar na Figura 6. A justifi- lodos confinados pela presença das colunas de
cação para esta diferença estará associada ao jet grouting apresentam uma capacidade portan-
valor do assentamento mobilizado antes da con- te bastante elevada, conseguindo acomodar cer-
clusão da plataforma de transferência de cargas. ca de 60% das cargas. Admite-se ainda que as
A título comparativo refere-se que o assenta- percentagens apresentadas venham a ser altera-
mento estimado para a solução de colunas de das ao longo do tempo, nomeadamente através
brita seria de cerca de 1,6m (num prazo de cerca da transferência gradual, por atrito lateral, de
de 1 ano), devido à consolidação acelerada dos carga dos lodos para o fuste das colunas, aca-
materiais aluvionares. bando estas por vir a acomodar a sua carga de
dimensionamento. Os eventuais fenómenos de
consolidação associados a esta transferência de
5 PLANO DE INSTRUMENTAÇÃO E carga, através dos lodos, são reduzidos face à
OBSERVAÇÃO reduzida espessura de materiais lodosos influ-
enciados por este processo, à partida não supe-
O desempenho da solução foi monitorizado, rior a cerca de metade do afastamento entre
durante os trabalhos de execução das colunas de eixos das colunas.
jet grouting e do aterro, com base no Plano de
Instrumentação e Observação implementado. O
referido Plano previa a colocação de marcas
topográficas seladas na base do aterro, exten-
sómetros nas geogrelhas da plataforma de trans-
ferência de cargas e células de pressão no coro-
amento das colunas de jet grouting (Figura 6 e
Figura 7).

Figura 7. Carga instalada nas células de pressão.

Além do confinamento lateral dos lodos, con-


ferido pela existência das colunas de jet grou-
ting, considera-se que o aumento global da ca-
pacidade de carga dos mesmos poderá ser expli-
cado pela contaminação, da zona superficial,
por material granular do aterro.
Figura 6. Evolução dos deslocamentos verticais.

Com base nos resultados produzidos pela ins-


trumentação instalada, nomeadamente as leitu-
ras das células de pressão, foi possível concluir
que, apesar das colunas terem sido dimensiona-
das para acomodarem a totalidade das cargas
6 CONTROLO DE QUALIDADE /
CONTROLO DE EXECUÇÃO

A execução das colunas de jet grouting foi acompanhada


de um apertado sistema de controlo de qualidade e de
controlo de execução, que permitiu a confirmação da
resistência, da rigidez e da geometria previstas no projec-
to. Do ponto de vista do controlo de execução confirmou-
se que a tecnologia associada à execução das colunas
assegura bons resultados, nomeadamente através do regis-
to permanente de todos os parâmetros de execução das
colunas. No que se refere ao controlo de qualidade, foram
Figura 9. Vista geral de um ensaio de carga vertical.
executadas colunas de teste (antes do início dos trabalhos)
e foram realizadas carotagens, em todo o comprimento,
em colunas de teste e aleatoriamente em colunas definiti- Com a realização dos dois ensaios de carga
vas. A partir destas últimas, foram recolhidos provetes, vertical pretendeu-se confirmar as deformações
sobre os quais foram realizados ensaios de compressão verticais (nas suas parcelas elástica e plásticas)
uniaxial simples não confinada (UCS), com medição de das colunas armadas com tubo metálico e avali-
extensões, para aferição dos valores da resistência e da
deformabilidade ( ar a tensão de atrito mobilizável ao longo do
Figura 8). fuste das colunas, para os diferentes materiais
atravessados (Figura 9).

7.2 Características das colunas ensaiadas

As colunas de jet grouting ensaiadas (ensaio 1 –


coluna 111A e ensaio 2 – coluna 149V), apre-
sentavam diâmetro de Ø1500mm e comprimen-
tos totais de 24,0m e 22,5m, respectivamente.
Os referidos comprimentos permitiam assegurar
uma entrega mínima de 3,0m nos lodos areno-
sos, com resistência de ponta equivalente a qc
superior a 5,0MPa, aferida através de ensaios
CPT.
As colunas ensaiadas foram integralmente ca-
Figura 8. Execução de carotes e caixa de provetes.
roteadas e posteriormente armadas com um tubo
de microestaca, em aço N80 (API 5A)
177,0x25,0mm, por sua vez, armado interi-
7 ENSAIOS DE CARGA VERTICAL
ormente, nos 6,0m superiores, com um varão
tipo GEWI Ø50mm, devidamente selado atra-
7.1 Introdução
vés de uma injecção de preenchimento, interior
e exterior, ao tubo da microestaca. O tubo de
Após a conclusão dos trabalhos, foram realiza-
microestaca dispunha de um comprimento sela-
dos dois ensaios de carga à escala real com o
gem, abaixo da base da coluna e devidamente
objectivo de avaliar a possibilidade das colunas
injectado através do sistema IRS (Bustamante e
de jet grouting, se devidamente armadas com
Doix, 1985) de 1,7m e de 3,2m para as colunas
tubos metálicos, poderem vir a integrar a solu-
111A e 149V, respectivamente.
ção de fundação do novo edifício da Gare de
Passageiros do Terminal de Cruzeiros (Figura
9).
Os maciços de encabeçamento, em concreto dos tubos de microestaca e das colunas de Jet-
armado, executados sobre o coroamento de cada Grouting, nomeadamente a geometria, secção
uma das colunas, permitiram a aplicação das transversal e módulo de deformabilidade, foi
cargas verticais de compressão determinadas estimada a degradação em profundidade da car-
pelo programa de ensaio (Figura 10). ga aplicada à cabeça (Figura 11).
Para a referida análise, considerou-se que a
7.3 Metodologia do ensaio / sistema de apli- degradação de carga axial do conjunto “Coluna
cação da carga e Microestaca” ocorreria de uma forma linear,
ao longo do fuste, com a existência de alguma
Os ensaios realizados consistiram na aplicação carga residual no final do elemento, que seria
ao coroamento das colunas de jet grouting (a- transmitida, por ponta, ao terreno competente.
través de maciço/cabeça de reacção) de uma
carga axial de compressão, por patamares, com
um valor máximo de 5000kN e 6000kN, respec-
tivamente nos ensaios 1 e 2. Estes valores cor-
respondiam, no mínimo, a cerca de duas vezes o
respectivo valor de serviço (2500kN).
Como sistema de reacção foram utilizadas
seis ancoragens de seis cordões de 0,6”, devi-
damente seladas no substrato Miocénico e a-
marradas no coroamento através de uma cabeça
metálica (Figura 10).
Entre a face superior do maciço de concreto
armado e o capacete de reação foram intercala-
dos quatro macacos hidráulicos devidamente
calibrados (cada um acoplado a células de carga Figura 11. Variação da carga axial em profundidade.
igualmente calibradas), que permitiram a mobi-
lização e o controlo da carga instalada durante o Conforme é visível no gráfico da Figura 11, o
decorrer dos ensaios. modelo consegue descrever o fenómeno de per-
da de carga por atrito lateral que, face ao grande
diâmetro da coluna, toma um valor total signifi-
cativo, embora correspondendo a valores relati-
vamente baixos de tensão tangencial de atrito
coluna-solo, situação já antecipada devido às
deficientes características geológicas das forma-
ções interessadas pelo corpo da coluna.
Partindo do diâmetro da coluna de jet-
grouting, obtiveram-se valores de tensão colu-
na-solo na ordem dos 20kPa a 30kPa, valores
compatíveis com os da resistência ao corte não
drenada (Cu), aferidos através do estudo geoló-
gico, para os materiais aluvionares lodosos onde
a coluna estava inserida.
Figura 10. Sistema de aplicação da carga. Do mesmo modo, foi possível verificar que
parte significativa da carga, entre os 20 a 30%
7.4 Análise dos principais resultados da carga aplicada à cabeça, é transmitida por
ponta ao solo. Este facto é corroborado pelo
Com base na informação adquirida através dos assentamento diferencial registado entre a cabe-
diferentes aparelhos de instrumentação instala- ça, medido pelos alvos topográficos, e o exten-
dos, assim como das propriedades mecânicas sómetro situado perto da base da microestaca.
No entanto, no gráfico Figura 11 é igualmen- Refere-se ainda a realização de dois ensaios
te visível uma inflexão no final da linha de to- de carga horizontal que permitiram aferir a rigi-
dos os ciclos de carga. Esta inflexão, que pro- dez horizontal da solução de fundações testada.
vem da utilização directa dos dados dos exten-
sómetros, conduz ao que aparenta ser um au-
mento de carga ao nível do comprimento de 7 CONCLUSÕES
selagem. Contudo, tendo em consideração que
nesta zona apenas existe a microestaca, ocor- O caso de obra apresentado permite comprovar
rendo uma significativa redução da rigidez axial o bom desempenho e a versatilidade das solu-
do conjunto, poderá justificar-se a correção dos ções com recurso a colunas de jet grouting e a
valores obtidos e, como tal, estimar um anda- microestacas em ambientes marítimos comple-
mento das cargas conforme indicado no gráfico xos, onde a flexibilidade das soluções e dos
(linha a tracejado). Este fenómeno poderá ainda equipamentos utilizados permite o ajustamento
ser justificado pela transmissão de carga através das soluções aos principais condicionamentos
da base da coluna ao substrato onde se localiza existentes, em particular os de natureza geoló-
o troço final do tubo da microestaca. gica e geotécnica e os de ordem construtiva.
Confirmou-se ainda a adequabilidade das solu-
7.5 Consideração finais ções a cenários geológicos adversos, minimi-
zando substancialmente o risco associado a efei-
A análise dos resultados obtidos com base na tos secundários nas estruturas e infraestruturas
informação produzida pelos ensaios de carga vizinhas, como seria o caso dos fenómenos de
vertical realizados, permitiu, em geral, confir- consolidação acelerada. Por último destaca-se o
mar a adequabilidade da resposta das colunas de fato das soluções propostas terem permitido a
jet grouting ensaiadas às cargas de compressão execução do aterro da Doca com a mobilização
aplicadas no respectivo coroamento. de reduzidas deformações, podendo ainda vir a
Os registos dos assentamentos do coroamento ser incorporadas nas soluções de fundação do
das colunas situam-se dentro de valores expec- novo Edifício da Gare de Passageiros do Ter-
táveis e significativamente inferiores ao assen- minal de Cruzeiros.
tamento elástico, considerando que a carga ape-
nas se dissiparia no substrato competente, loca- AGRADECIMENTOS
lizado a cerca de 20,0m de profundidade (pres-
suposto conservativo de dimensionamento das Os autores agradecem à Administração do Porto
colunas). Os deslocamentos plásticos são i- de Lisboa a autorização para a redação e publi-
gualmente reduzidos, indiciando um comporta- cação do presente artigo.
mento predominantemente elástico, em particu-
lar para as cargas de serviço. REFERÊNCIAS
Relativamente a fenómenos de fluência, veri-
ficou-se a inexistência de assentamentos signi- Bustamante, M. e Doix, B. (1985) Une method pour le
ficativos ao longo dos patamares de carga, no- calcul de tirants et des micropieux injectes,
Bulletin de Liason des Laboratoires des Ponts et
meadamente para a carga de serviço, aplicada Chaussées, Ministére de L’Équipement, du
durante 12horas. Logement, des Transports et de la Mer, Paris, nº
Tendo por base o exposto e admitindo os re- 140, pp. 75-92.
sultados obtidos como representativos do com- Pinto, A. et al (2011). “Fill of the Terreiro do Trigo
portamento das restantes colunas executadas na Dockyard in Lisbon over Alluvial and Hard Soils”.
15th European Conference on Soil Mechanics and
Doca do Jardim do Tabaco, considerou-se que Geotechnical Engineering, Athens, Greece, Part 2
estas estariam em condições de vir a ser incor- – 3.1 – Shallow Foundations, pp. 787 – 792.
poradas na solução de fundações do novo Edifí- WW Consultores, STA. (2008). Projecto de Execução
cio correspondente à Gare de Passageiros do patenteado a Concurso.
Terminal de Cruzeiros de Santa Apolónia. JetSJ Geotecnia, Lda. (2009). Projecto de Execução
Alternativo.