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Escrito por Fernando Araujo Konesuk – 2016

Publicado por Desobediência Sonora – Fevereiro/2018


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desobedienciasonora.milharal.org
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2
Este texto tem por objetivo resgatar o discurso antifascista
nas publicações dos jornais anarquistas paulistanos A Plebe e A
Lanterna, no ano de 1935, trabalhando com a hipótese de que a
imprensa anarquista teve um papel de formação e orientação
fundamental diante do operariado paulistano, o norteando em
atuações de resistência no cotidiano contra o que anarquistas
definiam como fascismo. 1935 carrega o término do ensaio para a
concretização do Estado Novo, uma cidade de São Paulo se
industrializando, com um operariado ainda imigrante, mas que já não
era tão grande assim frente aos nacionais, com uma variação
expressiva de tendências: trotskistas, comunistas do PCB,
anarquistas, socialistas e integralistas. Neste ano, anarquistas não só
atuavam no contexto sindical, mas em diversas ações, como as
antifascistas.

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07 de outubro de 1934, Praça da Sé, São Paulo. Integralistas,
policiais e “antifascistas” (comunistas, socialistas, trotskistas e
anarquistas) inseridos ou não na FUA1, enfrentam-se no centro da
cidade em um embate que foi definido por estes como “A revoada
dos galinhas verdes” 2 ou “Batalha da Praça da Sé”, em analogia aos
integralistas que com o objetivo de se “camuflarem” em meio a
multidão, corriam, tiravam e jogavam suas camisas verdes pelas ruas
do centro de São Paulo. Esta foi uma contramanifestação organizada
em resposta a manifestação militar que comemorava os dois anos de
existência da AIB 3. Esta “batalha” teve impacto nas movimentações

1“Frente Única Antifascista”. Fundada em 1933 (e na ativa até 1934) a FUA teve
participação formal ou não da “esquerda tenentista, passando pelos socialistas
brasileiros e italianos, pelos anarquistas, e chegando aos “trotkistas”” (FIGUEIREDO,
p. 360). Seus objetivos foram: a) Combater ás idéias, ao desenvolvimento e à ação do
fascismo; b) Luta pela mais ampla liberdade de pensamento, reunião e associação e
imprensa; c) Reivindicação e garantia do ensino leigo e da separação da Igreja do
Estado; d) Formação de um bloco unitário de ação contra o fascismo. A FUA também
teve um jornal próprio, intitulado “O Homem Livre”. Sobre a FUA e “O Homem
Livre, ver mais nos dois artigos de Ricardo Figueiredo De Castro, o primeiro
denominado “A Frente Única Antifascista (FUA) e o antifascismo no Brasil (1933 –
1934)” e o segundo “O Homem Livre: Um jornal a serviço da liberdade (1933 –
1934)”.

2Sobre este episodio ver a obra de Fúlvio Abramo, intitulado “7 de outubro de 1934 –
50 anos” o qual narra as movimentações denominadas como “antifascistas” e da FUA
(Frente Única Antifascista) frente as manifestações da AIB.

3A Ação Integralista Brasileira foi fundada em 7 de Outubro de 1932 com bases no


jornal A Razão e na Sociedade de Estudos Políticos, ambos com grande participação
de Plínio Salgado, principal representante da AIB. Em torno de Deus, Pátria e Família,
o integralismo expandiu pelo Brasil ás camisas verdes, o sigma e o anauê através de
contextos católicos e militares, de atividades assistenciais e educacionais e sempre
bem munida de uma estruturada imprensa. A AIB teve uma relação conturbada com o
governo Vargas, ora de aproximação, ora de distanciamento.

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anarquistas na cidade de São Paulo, por exemplo, no dia seguinte a
FOSP4 teve sua sede fechada pela polícia, bem como o jornal A
Plebe5, o qual também recebeu forte repressão. A “revoada” traz a
luz um dos direcionamentos de ação mais freqüentes do meio
operário e anarquista paulistano na década de 1930, a organização em
torno do que se convenciona chamar de “antifascismo”, que além do
enfrentamento nas ruas da cidade São Paulo, se deu através de
atividades que o discutiam e também por livros, panfletos e jornais.
Nos situamos no ano seguinte a esta contramanifestação antifascista
com o objetivo de localizar o antifascismo nas atuações anarquistas
na cidade de São Paulo, mais precisamente através de dois dos mais
importantes periódicos libertários brasileiros, A Plebe e A Lanterna6.
Apesar da imprensa oficial e a comunista da época
afirmarem que não havia movimentações anarquistas na década de
1930 em São Paulo e no Brasil, elas estavam presentes de diversas
formas, do meio sindical ao artístico, do contexto educacional a
imprensa. Uma das formas de localizar estas movimentações é se

4 A Federação Operária de São Paulo foi fundada em 1906 e depois reorganizada em


1931. Seu jornal foi lançado em 1931 e era intitulado O Trabalhador. Como principal
sindicato anarcosindicalista paulistano na década de 1930, a Federação teve um papel
fundamental na organização dos/as trabalhadores/as anarquistas frente as diretrizes de
Vargas. Chegou ao fim em 1937.

5 O periódico A Plebe nasce em 1917 em substituição A Lanterna, frente ás


“urgências” da greve geral daquele ano, de acordo com Edgard Leurenroth, seu
fundador. A Plebe nasce para divulgar a luta do operariado anarquista, para ser o eco
de seus protestos.

6ALanterna foi fundada em 1901 por Benjamim Mota, intitulando-se como “jornal de
combate ao clericalismo”.

5
debruçar na imprensa anarquista da época e folheando as publicações
de A Plebe e A Lanterna de 1935, vemos o anúncio de comícios, de
greves, comunicados e reuniões sindicais, piquenique, arrecadações
de dinheiro, encontros anticlericais, dentre outras atividades que já
indicam algumas das movimentações anarquistas da cidade.
Trabalhando com a atuação anarquista no período, Raquel de
Azevedo aponta que em 1935 haviam 11 grupos anarquistas na
cidade de São Paulo, 4 no interior e 6 no litoral7 (AZEVEDO, 2002,
pp.136-138), no meio sindical, 7 sindicatos da capital que ainda eram
orquestrados por anarquista e 1 no interior8 (AZEVEDO, 2002, pp.
95-97). Havia uma diferenciação no contexto anarquista, que se deu
através de quem somente atuava nos sindicatos e para quem não se
limitava só a ele.
Além do anarquismo outras manifestações políticas vinham
do operariado paulistano neste período, sendo elas as diferentes
matizes do comunismo, os comunistas do PCB, a social-democracia,

7Na cidade de São Paulo: Ateneu de Estudo Científicos e Sociais, Centro de Cultura
Social, Comitê Pró-Presos Sociais, Comitê de Relações dos Grupos Anarquistas de
São Paulo, Escola Moderna, Federação Anarquista Regional de São Paulo, Grupo
Ação Libertária, Grupo Juvenil de Ação Cultural, jornal A Lanterna, Legião de
Amigos de A Plebe e União Cultural da FOSP. No interior Liga Anticlerical de
Campinas, Cultura Libertária da E.F Araraquarense, Biblioteca Operária e Grupo de
Homens Livres. No litoral: Centro de Estudos Sociais, Grupo Humanidade Livre,
Juventude Anarquista e Liga Anticlerical de Santos.

8Liga Operária da Construção Civil, Sindicato dos Manipuladores de Pão e Anexos


Confeiteiros (ou confeiteiros similares), Sindicato dos Operários em Frigoríficos e
Anexos, União dos Artífices em Calçados e Classes Anexas, União dos Operários
Metalúrgicos (UOM), Federação Operária de São Paulo. União Operária de Ofícios
Vários / Sindicato de Ofícios Vários (SOB). No interior: Sindicato Operário de Ofícios
Vários.

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trotskismo, e até o integralismo. O comunismo em São Paulo passava
por algumas mudanças, o PCB havia substituído recentemente suas
lideranças antigas (que vinham do anarquismo) por lideranças
operárias ou filhos de operários, ou ligada ao tenentismo de esquerda.
A ordem do dia, segundo publicação de Astrogildo Pereira9 de 1935,
era que a tática do partido deveria ser a de mobilização das massas,
que o PCB deve-se colar “à frente das massas, a fim de conquistar,
por etapas sucessivas, não só a direção da fração proletária, mas a
hegemonia de todo o movimento” (PEREIRA, 1935, p. 114). Isto se
materializava no controle e na disputa de sindicatos, em uma
imprensa ativa e em algumas junções com outros movimentos, como
o caso das frentes únicas e da própria Aliança Nacional
Libertadora10. Socialistas e trotskistas vinham de organização
recente, também disputavam alguns sindicatos em São Paulo, sendo
lembrados posteriormente acerca deste período pelas ações que
fizeram através destas frentes, compondo com outros grupos,
atuações no contexto operário. Sobre o Integralismo, há dados que
apontam que em 1935 haviam “1.123 núcleos organizados em 548
municípios e 400.000 adeptos devidamente inscritos em seus quadros
(LOUREIRO, 2001, p.205). Mesmo após a “Batalha da Praça da Sé”

9AstrogildoPereira foi um fluminense que atuou no meio anarquista na década de


1910 e em 1922 ajudou a fundar o Partido Comunista do Brasil.

10A Aliança Nacional Libertadora foi fundada em março de 1935 reunindo diversas
tendências da esquerda. Foi considera um dos maiores movimentos populares do
Brasil e foi fechada em junho de 1935.

7
os integralistas faziam suas marchas, possuíam uma imprensa forte e
projetos assistenciais e educativos em diversos lugares do Brasil.
Este operariado paulista que em 1935 se deparava com
diversas correntes políticas que os disputavam, já não era o mesmo
das décadas anteriores. Graças a Primeira Guerra Mundial, a Crise de
1929, o recrudescimento de um nacionalismo europeu, o envio dos
respectivos nacionais á suas colônias, a diminuição das demandas de
mão de obra nos países produtores de artigos nacionais, além das leis
trabalhistas de “proteção” ao/a trabalhador/a nacional, há uma
diminuição no processo de imigração para o Estado de São Paulo, no
entanto um novo fluxo de migrações (principalmente nordestinas) ao
Estado mantém o ritmo de crescimento populacional. Se em 1930
tínhamos 1.505.596, em 1937 o Estado de São Paulo possuía uma
população de 1.846.759 (CARONE, 1976, pp. 9-14). Esta mudança
no meio operário em relação ás décadas anteriores faz com que
gradativamente os nacionais tomem os lugares dos estrangeiros, mas
ainda neste período de 1930 até 1935, o que predomina no meio
operário de São Paulo são italianos/as, espanhóis/as e portugueses/as.
Há uma mudança também nas atuações deste/a operário/a, que
gradativamente sai da agricultura e insere-se no meio industrial.
Diante deste cenário a posse de Getúlio Vargas à presidência
após a Revolução de 30, em 3 de novembro de 1930, marca o fim das
disputas políticas regionais e o fim da Primeira República: “caíram
os quadros oligárquicos tradicionais” e “subiram os militares, os

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técnicos diplomados, os jovens políticos e, um pouco mais tarde, os
industriais”. (FAUSTO, 1997, p. 327). Iniciava assim um novo
período no Brasil, pautando-se em um projeto de industrialização, na
“proteção de trabalhadores”, através de uma “aliança de classes”,
denominada de “Política de Compromissos”, além de um papel
central atribuído as forças armadas, principalmente como garantidora
da “ordem interna” para a criação da indústria de base.
Em 1930 Vargas promove a dissolução do Congresso
Nacional, dos legislativos estaduais e municipais, assumindo o poder
do executivo e legislativo. No início do Governo Provisório demite
todos os governadores dos Estados da federação, com exceção do
mineiro, e escala interventores federais em seus lugares. O Ministério
do Trabalho, Indústria e Comércio é criado, regulando o trabalho de
mulheres e adolescentes, a jornada de 8 horas diárias e as férias,
posteriormente a Carteira Profissional é introduzida. Em 1931,
através do Decreto 19.770, ocorre a regulação do meio sindical,
estabelecendo o sindicato como órgão consultivo e de colaboração
com o poder público, constituindo o sindicato único por categoria
profissional e que os funcionários do Ministério deveriam assistir ás
assembléias nos sindicatos, o que caracterizava um controle das
atividades sindicais. Todos os sindicatos teriam que ter aval do
Ministério, caso contrário ele era colocado na ilegalidade e acerca
destes direitos trabalhistas que citamos, só teriam direito quem
fizessem parte destes sindicatos legais, fato esse que decisivamente

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afetou a atuação anarquista no meio sindical. Desta forma é
fundamental que compreendamos que o sindicato oficial já nasce
cooptado pelo Estado Varguista como recurso que o governo formula
para dar as bases necessárias ao seu projeto de industrialização.
A criação do Ministério da Educação e Saúde acompanha
influência católica e a inspiração fascista com o objetivo de formar
uma elite mais ampla e o início de uma maior estruturação do Ensino
Superior no Brasil. Os estreitos laços com a Igreja Católica, tendo
como marco simbólico a inauguração do cristo redentor na capital
federal, rendem ao governo o apoio da igreja que direciona seus fies
a apoiarem Getúlio, e como contrapartida, por exemplo, o Estado
permite o ensino religioso nas escolas públicas. Na esfera econômica
a federalização da política cafeeira, reduzindo a oferta para sustentar
preços, destruindo anualmente grande parcela da produção nacional.
A criação do Código Eleitoral e da Justiça Eleitoral que dentre suas
ações tiveram a implantação do voto das mulheres em 1932.
A Revolução Constitucionalista de 1932 em São Paulo, cuja
elite paulista defendia uma nova constituição para o país,
considerando os princípios da democracia liberal, colocou 8500
paulistas contra mais de 18 mil só do setor sul do exército nacional.
Este episódio durou três meses e marcou o início da utilização de
aviões nos combates no Brasil. A classe operária paulista não
participou destas movimentações e esse embate “obrigou” Vargas a
dar maior atenção ás reivindicações da elite paulista.

10
Em 1933 o processo de formulação de uma nova
Constituição para o Brasil tem início através da Assembléia
Constituinte, que deságua em sua efetivação em 1934. Inspirada na
Constituição de Weimar (estabelecida na Alemanha no período entre
a Primeira Guerra Mundial e a ascensão do nazismo) e na
Constituição republicana da Espanha de 1931. Ela mantinha o
federalismo e propunha alterações da ordem econômica
(nacionalização progressiva das minas, jazidas minerais e quedas d
água, com o argumento de defesa econômica e militar do país); social
(pluralidade e autonomia dos sindicato, dispondo sobre a legislação
trabalhista, com a proibição de diferença de salários para uma mesma
função, seja por motivo de sexo, idade, nacionalidade ou estado civil;
regulamentação do trabalho de mulheres e adolescentes, descanso
semanal, férias remuneradas, indenização da despedida sem justa
causa e cotas para a vinda de imigrantes); da família, educação e
cultura (ensino primário gratuito de frequência obrigatória e ensino
religioso facultativo) e por fim, da segurança nacional (Conselho
Superior de Segurança e a insistência no serviço militar obrigatório).
Em julho de 1934 Getúlio Vargas é eleito pelo voto indireto da
Assembléia Nacional Constituinte, prevendo eleições diretas à
presidência em 1938 (FAUSTO, 1997, p. 329-395) (CARONE, 1976,
pp. 129 – 151).
Diante deste contexto o anarquismo em São Paulo passava
por algumas dificuldades: a concorrência com outras tendências que

11
atuavam no meio operário, a ingerência do Estado na organização
operária e
a intensificação da repressão policial, em outras palavras, “com o
refluxo do movimento operário provocado, a nosso ver, pela tríplice
conjugação repressão-trabalhismo-comunismo" (AVELINO, 2004,
p.71), faz com que o anarquismo direcione a militância não só para o
sindicato, mas também para outras formas de atuação, como já
apontado anteriormente: no meio anticlerical, em grupos de estudos,
nos centros de cultura, nos projetos educacionais e também em
relação ao antifascismo. Essa teia de ações constituía um projeto
libertário dentro da capital paulista que dava respostas aos/ás
explorados de forma geral e estas respostas eram reunidas através das
matérias que integravam os periódicos da imprensa libertária.
Os jornais anarquistas em São Paulo são registrados entre o
fim do século XIX e o início do século XX, com publicações
principalmente na língua italiana (La BestiaUmana, L’Avvenire, Il
Risveglio, La Nuova Gente, La Battaglia e vários outros) e em
português (Germinal, O Amigo do Povo, A Terra Livre, entre
outros): “Ao criarem esses jornais, os anarquistas no Brasil seguiam
passos habituais dos militantes de outros países, mas também
visavam a criar uma experiência de informação alternativa em meio
à grande imprensa e muitas vezes explicitamente em oposição a ela.
Esses jornais não eram somente um veículo de propaganda, mas
constituíam centros propulsores e coordenadores dos vários grupos

12
no plano local, estadual e, ás vezes, até nacional” (TOLEDO, 2007,
p. 60 In: FERREIRA e REIS, 2007)
Uma publicação alternativa a da grande imprensa, que
visava ainda articular as movimentações anarquistas no território,
incentivando a luta do operariado contra a exploração capitalista,
imprimindo informações cotidianas pertinentes ao universo dos
trabalhadores. A imprensa anarquista tinha uma responsabilidade
grande diante de um projeto libertário, a responsabilidade em pautar
uma nova sociedade a partir das diretrizes anarquistas, a partir deste
que era o único veículo de grande alcance do contexto operário. A
manutenção destes jornais não era algo simples, é comum
encontrarmos em suas publicações estratégias para a arrecadação de
dinheiro, passando pelas doações, a assinaturas dos jornais e até pela
organização de atividades culturais que visavam arrecadar quantias
financeiras.
Os jornais anarquistas, como também outros ministrados por
operários, não possuíam a profissão de repórter enviado “in loco”,
sendo que as informações e denúncias eram enviadas para o jornal
através de colaboradores e colaboradoras, demonstrando uma relação
“integra entre jornais e o leitor” (FERREIRA, 1978, p. 106). Estes
jornais operários assim pensavam a “ação política como uma
atividade de articulação das diferentes frentes e modos de luta que o
povo mesmo se dá” (MARTÍM-BARBEIRO, 1997, p.33),
implicando na luta todos sujeitos a opressão, como capazes de

13
resistência cotidiana.
A busca por conscientização e unidade, através da
participação efetiva do operariado, sem constituir uma elite
intelectual responsável por articular os discursos à classe
trabalhadora, fazem com que a propaganda anarquista seja
compreendida também como uma importante estratégia de “conduzir
o proletariado à ação” e “dar-lhe a orientação adequada para essa
ação” (MARAM, 1979, p. 89), pois problematizava o próprio
contexto, sendo assim o jornal como importante estratégia anarquista
educativa junto ao operariado. A preocupação em acessar o
operariado se materializava na escrita de fácil compreensão destes
jornais, de textos introdutórios ao anarquismo, de imagens que
fossem de rápida compreensão, visando à integração das pessoas
pouco letradas e de imigrantes que ainda não dominavam por
completo a língua portuguesa. Outra estratégia usual era a leitura
coletiva em voz alta destes jornais no meio operário, fazendo com
que pela audição, todos tivessem acesso àquelas informações. Para
materializarmos melhor a atuação da imprensa libertária em São
Paulo, vamos aos periódicos aos quais nos propomos a trabalhar, A
Plebe e A Lanterna.
O Jornal libertário A Lanterna, foi fundado pelo jornalista e
advogado Benjamin Motta11, em 7 de março de 1901, na cidade de

11Benjamin Motta foi um anarquista nascido no Brasil e fundador do jornal A Lanterna


em 1901.

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São Paulo, onde seguiu com seu discurso anticlerical até fevereiro de
1904; nessa primeira fase, foram publicados 60 números. Voltou a
ser impresso em 17 de outubro de 1909, agora sob responsabilidade
de Edgard Leuenroth12. Acaba novamente em 1917, após 293
edições, mas reaparece em julho de 1933, ainda nas mãos de
Leuenroth, para desaparecer definitivamente no final de 1935.
Fundado também por Leuenroth em plena greve geral que paralisou a
cidade de São Paulo por três dias em 1917, o jornal A Plebe surge
para ocupar a lacuna deixada pelo periódico A Lanterna, tornando-se
porta-voz dos/as operários/as e arauto de suas reivindicações. Em
circulação no Brasil e no exterior até 1950, “A Plebe” foi o mais
duradouro órgão da imprensa anarquista brasileira. Além de
Leuenroth, foram também seus redatores: Florentino de Carvalho13,
Manuel Campos14, Pedro Augusto Mota15 e Rodolfo Felipe16, sendo
que este último era o Redator-Gerente em 1935.
Estes periódicos paulistanos possuíam abordagens

12EdgardLeurenroth foi um tipógrafo, jornalista, arquivista e propagandista, é


lembrado pela sua expressiva atuação no contexto anarquista na Primeira República.

13Florentinode Carvalho, pseudônimo de Raymundo Primitivo Soares, foi um


anarcosindicalista espanhol que viveu no Brasil.

14Manuel Campos foi um anarquista espanhol de fins do século XIX e início do século
XX, que atuou principalmente em Santos.

15Pedro Augusto Mota foi um operário gráfico e poeta que atuou no meio sindical e
anarquista nas décadas de 1910 e 1920.
16Rodolfo Felipe foi redator-gerente de A Plebe, sendo preso diversas vezes na década
de 1930.

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diferentes, se de um lado A Lanterna se definia como um jornal de
“combate ao clericalismo”, criticando os desmandados da Igreja e
estabelecendo relações com ligas anticlericais e movimentos
libertários do Brasil e de outros países, mas não se restringindo
somente a esta esfera, pois permeava com simpatizantes do ideário
anticlerical, como associações juvenis, coligações pró-Estado laico,
centro de culturas sociais e livres pensadores como da maçonaria; de
outro lado A Plebe se definia como um “periódico libertário”,
guiando-se pela orientação anarcosindicalista, mas também
conjugando as movimentações fora do contexto sindical e se
preocupando principalmente com a organização de greves e
sindicatos, já que possuía uma forte relação com a Federação
Operária de São Paulo, como também com diversas organizações
libertárias do Brasil e do mundo, o que se reflete em suas páginas
através dos vários correspondentes que anunciavam desde o
surgimento de uma organização antifascista no interior de São Paulo,
até vivencias com o regime de Salazar em Portugal. Colaboradores e
colaboradoras que eram principalmente da cidade de São Paulo e do
interior do Estado, o que não quer dizer que o restante do Brasil e do
mundo não participavam dessas publicações, pois em meio ás
edições de A Lanterna e A Plebe de 1935, assinavam matérias
pessoas de diversos Estados, como Minas Gerais, Rio de Janeiro, Rio
Grande do Sul, Ceará, Bahia, dentre outros e de outros países, como
Espanha, Portugal e Argentina.

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Através da luta cotidiana, imprimindo as vozes de
trabalhadores e trabalhadoras, o campo de atuação de A Lanterna e A
Plebe difere conforme o direcionamento de cada um como já dito
anteriormente. Para materializarmos melhor a atuação de cada
periódico, nos debruçamos em um movimento importante de 1935, a
Aliança Nacional Libertadora e como o movimento anarquista, a
partir de A Plebe e A Lanterna, se situou perante.
O nascimento da Aliança Nacional Libertadora (ANL)
ocorreu em 1935, mas precisamente em 30 de março, com grande
comício realizado no Rio de Janeiro. Luís Carlos Prestes17 foi
aclamado como presidente de honra, sendo porta voz daquela ocasião
o estudante, jornalista e comunista Carlos Lacerda18 (VIANNA,
2003, p. 81). A ANL pode ser entendida, a partir do viés
organizacional, como um desdobramento das frentes únicas que
agrupavam algumas esquerdas cujas bandeiras eram “anti-
imperialistas” e “anti-integralistas”, sendo constituída por tenentes de
esquerda descontentes com os rumos que a Revolução de 30 tomava,
por comunistas, que em grande parte compunham o PCB, além de
socialistas e democratas. A adesão em massa marcou seu início,
como também os freqüentes comícios populares, que percorreram por

17Luis Carlos Prestes foi um militar, tenentista e comunista brasileiro que integrou a
Aliança Nacional Libertadora e o Partido Comunista do Brasil.

18Carlos Frederico Werneck de Lacerda foi um jornalista e político brasileiro. Foi


membro da União Democrática Nacional (UDN), vereador, deputado federal e
governador. Fundador em 1949 e proprietário do jornal Tribuna da Imprensa e criador
da editora Nova Fronteira

17
diversos Estados brasileiros e por diversas cidades do Estado de São
Paulo, o que resulta em seu fechamento já em julho de 1935, através
da Lei de Segurança Nacional (CARONE, 1976, pp. 257–262). A
partir daí alguns integrantes civis da ANL são vigiados e presos, já os
integrantes militares são perseguidos e expulsos do contexto militar.
Neste período de ilegalidade, a luz de Francisco Carlos Pereira
Cascardo, o PCB se apropriou da sigla extinta e começou a se
pronunciar por meio dela, “numa tentativa de fazer crer que a política
revolucionária que pregava não era originária de Prestes ou do
partido, mas sim, continuação da ANL” (CASCARDO, 2007, p. 476
In: FERREIRA e REIS, 2007)
Mesmo lutando ombro a ombro com comunistas, socialistas
e democratas aliancistas contra integralistas, trotskistas e anarquistas
não integravam completamente as fileiras da ALN. Trotskistas viam
a ANL como um movimento “oportunista”, que deveria ser “chefiado
por operários”, já o contexto anarquista engrossava os comícios da
ANL quando se tratava especificamente de combater o integralismo,
por outro lado fazia apontamos acerca do “endeusamento” de Prestes
e da ANL querer tomar o Estado para si e não almejar seu fim, como
anarquistas desejavam (DULLES, 1977, pp. 419-420).
Nas publicações de A Plebe e de A Lanterna de 1935 acerca
da Aliança Nacional Libertadora, temos focos bem distintos, que
dialogam com a própria abordagem de cada periódico. Enquanto A
Lanterna de janeiro a outubro de 1935 fez poucas menções a ANL,

18
sendo que elas narravam, por exemplo, agressões de integralistas, A
Plebe fez mais de uma dezena. Estas matérias anunciavam o
nascimento da ANL, seus comícios e o posicionamento dos
anarquistas, frente ás propostas dos aliancistas. Uma matéria que
ilustra esta abordagem é a intitulada “Quem somos, donde vimos e
para onde vamos: os anarquistas e a Aliança Nacional Libertadora”,
assinada por G. Soler em 6 de julho de 1935, que explana sobre as
diferenças entre a ANL e os anarquistas: “Eles pretendem reanimar
o velho mundo autoritário; nós, sobre a roda viva da liberdade,
queremos levantar um novo edifício social” ...”Porque o capitalismo
de Estado, com Stalin ou Luiz Carlos Prestes á frente, nunca
devolverá ao homem a liberdade perdida, o direito de ser livre que
esse mesmo Estado lhe roubou”(PLEBE, 06.07,1935, p2).
Por outro lado estas publicações também integram matérias
assinadas pela FOSP, que reafirmam a proposta desta Federação em
integrar os comícios “anti-integralistas”, como a matéria intitulada
“O Manifesto da Federação Operaria de Operaria de São Paulo para o
comício do dia 16”, onde a FOSP versa sobre a importância de
integrar a luta anti-integralista, chamando seus integrantes a
participarem de todas as reuniões que contenham tal temática,
mesmo que a Federação não esteja organizando (PLEBE,
22.06.1935, P1). Sobre este comício do dia 16 de junho, A Plebe
publica uma matéria intitulada “O Comício anti-integralista no São
Paulo-Rink”, que narra sobre a participação da FOSP e de uma fala

19
de Edgar Leuenroth, onde ele conta sobre as lutas operárias em 1917,
1919 e 1924. Por fim a matéria enfatiza o posicionamento de A Plebe
de ser contra o “endeusamento” de pessoas, se referindo ao caso de
Prestes (PLEBE, 06.07.1935,p.2). Duas matérias publicadas em A
Plebe no segundo semestre de 1935, intituladas “Investida
Reacionária” e “Maioria e Minorias”, mas precisamente em julho e
agosto respectivamente, falam sobre o fechamento da ANL e a forte
repressão dirigida pela polícia contra organizações operárias, e
também reconhecendo a ANL como “o maior movimento da história
das reivindicações operárias”, mas que o movimento, após seu
fechamento, demonstrou estar mais preocupado com articulações
com parlamentares (PLEBE, 03.08.35, p.1).
Se por um lado a Plebe “incentiva” através de suas
publicações a participação de seus leitores e leitoras em ações
aliancistas que visavam combater o integralismo, por outro questiona
a estrutura hierárquica da ANL e seu projeto em relação a
manutenção do Estado. No primeiro caso uma manutenção da
atuação estratégica dos anarquistas em relação ás “frentes únicas”,
onde eles não aderiam formalmente, mas integravam atividades em
momentos específicos de combate ao integralismo; no segundo caso
apontamentos que refletem a postura dos anarquistas em relação a
própria União Soviética, acerca da valorização de lideranças e da
manutenção e fortalecimento de uma própria lógica estatal.
Mesmo com maior força em terras fluminenses a ANL

20
agitou muitas movimentações no Estado e na cidade de São Paulo, o
que resultou em seu fechamento pelo governo getulista. Esta
repressão principalmente direcionada aos aliancistas também atingiu
o contexto anarquista, principalmente durante a tramitação da Lei de
Segurança Nacional e após sua aprovação.
Se debruçando em publicações dos periódicos A Lanterna e
A Plebe sobre a ANL em 1935, temos algumas pistas sobre a atuação
de cada periódico. Às poucas menções de A Lanterna sobre a ANL
diz sobre seu foco em questões anticlericais, pois só faziam menção a
ela, quando havia “canalhices de algum padre local” (LANTERNA
13.07.1935, p.2) no meio. Já A Plebe discutia a ANL
frequentemente, pontuando seu posicionamento frente aos
aliancistas, localizando as atividades que ocorreriam em São Paulo.
Através da abordagem destes jornais em relação à ANL, temos
alguns elementos que versam sobre a atuação do movimento operário
e anarquista contra o que definiam como “fascismo”. Antes de
entrarmos nestas atuações, vamos ao que o movimento anarquista
compreendia como fascismo, para ai então mapearmos suas ações e
entendermos o que era este “antifascismo” nas páginas de A Plebe e
A Lanterna em 1935.
O anarquista português radicado no Brasil, Edgar
Rodrigues19, em sua obra “Um século de História político-social em

19Edgar Rodrigues é o pseudônimo pelo qual ficou conhecido Antônio Francisco


Correia, historiador, arquivista e escritor nascido em Portugal e radicado no Brasil
desde 1951, vindo fugido da ditadura de Salazar.

21
documentos”, define a atuação fascista no Brasil como variante dos
interesses de grupos políticos, ora sobre a máscara de um
“trabalhismo controlado por leis de exceção”, regido pelo governo
Vargas, ora com uma denominação de “Ação Integralista”. “O
trabalhismo agitado pelos homens que tomaram o poder nas mãos a
partir de 1930 era uma miscelânea de fascismo italiano com uma
compreensível dose “de novidades” enxertadas pelos encarregados
da interpretação, tradução e ajustes aos costumes e necessidades
brasileiras, acrescido de meios “constitucionais” para prorrogar
indefinidamente o governo provisório. O Integralismo tinha um
pouco de fascismo italiano, um pouco de nazismo alemão, com um
tempero português e brasileiro, visava servir a Deus, ao Papa e a
levar ao poder uns poucos egocêntricos capazes de transformar o
Brasil num vasto campo de concentração” (RODRIGUES,
2005:p.29).
Frente a conjuntura estadual, nacional e internacional, à luz
das palavras de Edgar Rodrigues, o fascismo é compreendido pelos
anarquistas através do governo de Getúlio Vargas e suas ações no
contexto operário, pela Ação Integralista Brasileira e através do que é
publicado pela imprensa operária do contexto europeu, em relação a
principalmente as atuações dos governos italiano, português e
alemão. Anarquistas paulistanos pautaram o antifascismo na
imprensa libertária desde 1932, onde já havia um ano da AIB, onde
Hitler e Mussolini começavam a estruturar seus projetos e Getúlio

22
Vargas começando a dar a cara do que seria o “Estado Novo”.
Edgard Leurenroth, buscando uma sistematização da atuação
anarquista em relação ao antifascismo, afirma que os mesmos
tiveram um lugar destacado, “com sua atividade em conferência,
manifestação e comícios nem sempre pacíficos, bem como através de
todos os meios de publicação (LEUENROTH, 2007, p. 106). No
entanto o anarquismo não esteve sozinho neste embate e em diversos
momentos se juntou a outras tendências presentes no operariado
através das frentes únicas. Novamente Rodrigues nos fornece alguns
elementos de como seria a posição dos anarquistas nesta junção com
outros movimentos, afirmando que “Cada um manterá seu ponto de
vista doutrinário para agir no campo de suas idéias ou crenças sem
abandonar, porém, o contato ao integralismo em conjunto com os
demais antifascistas ou particularmente”. O importante é agir sem
tardança contra o nosso maior inimigo – o fascismo
“(RODRIGUES, 2005, p.39)
A composição anarquista destas frentes não era algo formal,
como vimos acerca da ANL e como também foi com a FUA, com
anarquistas integrando estas frentes apenas em atividade específicas,
em comícios ou contramanifestações, com a argumentação de que
feririam seus princípios somando em articulações que não eram
anarquistas. De tal forma que em 1933 a FOSP, o Centro de Cultura
Social (CCS)20 e os jornais A Plebe e A Lanterna fundam o Comitê

20 O Centro de Cultura Social de São Paulo foi fundado em 14 de janeiro de 1933

23
Antifascista, propondo a participação de outras tendências, mas que
resulta na participação apenas de socialistas. A Plebe passa a ter uma
coluna permanente neste ano em suas publicações, chamada
“Movimento de oposição e de repulsa ao Fascismo”, evidenciando os
trabalhos do Comitê, dando notícias sobre o assunto e convocando
reuniões e outras atividades relacionadas. “Em pouco tempo, a
coluna torna-se a página inteira de A Plebe fazendo sobressair a
importância do problema para os anarquistas de São Paulo”
(AVELINO, 2004, p.77). Em 1933 são registradas atividades
antifascistas no Centro de Cultura Social, com a participação de
Maria Lacerda de Moura21, José Oiticica22, representantes do jornal
antifascista O Homem Livre e socialistas. Em uma destas atividades
ocorre a invasão de integralistas ao CCS, fala-se em 200 “camisas
verdes” que foram expulsos do local por antifascistas presentes. Em
1934 este embate chega ao auge, com a já retratada “Revoada dos
Galinhas Verdes”. Posteriormente a esta batalha a FOSP, em um de
seus informes afirma que “o sangue que começou já a correr, será

como remanescente das entidades culturais criadas pelo movimento anarco-sindicalista


e libertário nas primeiras décadas do século XX. O CCS se mantém na ativa até hoje.

21 Maria Lacerda de Moura foi uma “educadora libertária, escritora feminista,


jornalista polêmica e oradora prestigiada, destaca-se por uma vibrante atuação nos
meios políticos, culturais e literários brasileiros e sul-americanos desde as primeiras
décadas do século XX, quando se constitui o movimento operário, com a formação do
mercado de trabalho livre, a industrialização e a vinda dos imigrantes europeus e de
suas doutrinas políticas” (RAGO, 2007, p. 275 In: FERREIRA e REIS, 2007)

22José Rodrigues Leite e Oiticica nasceu no Rio de Janeiro e foi um professor,


dramaturgo, poeta parnasiano e filólogo que dedicou boa parte de sua vida ao
anarquismo.

24
talvez a semente que há de germinar a luta contra o fascismo no
Brasil” (RODRIGUES, 2005, p.51). O antifascismo anarquista
germinou em terras paulistanas, pautando principalmente a AIB, o
que continuaria em 1935, acrescido pelo acompanhamento da
situação na Itália, e Portugal e por uma lei que foi compreendida
pelos anarquistas também como fascista, a Lei de Segurança
Nacional.
A Lei de Segurança Nacional, conhecida pelos/as
proletários/as como “Lei Monstro”, caracterizava como ato
infracional qualquer abalo de ordem política e social, como a greve
de funcionários públicos, a aprovação da animosidade das classes
armadas, a incitação de ódio entre as classes sociais, a propaganda
subversiva, a organização de associações ou partidos com o objetivo
de subverter a ordem política ou social, por meios não permitidos
pela lei (FAUSTO, 1997: p.359). Foi objeto de acirrados debates,
num contexto de radicalização política pouco tempo depois que
setores da esquerda fundaram a ANL. Nos anos seguintes foi
aperfeiçoada e em setembro de 1936 sua aplicação foi reforçada com
o surgimento do Tribunal de Segurança Nacional.
Acompanhando as publicações de A Plebe e A Lanterna de
1935 acerca da Lei de Segurança Nacional, encontramos uma
quantidade de publicações semelhantes, mais de uma dezena de cada,
que datam de janeiro a abril do referido ano. Ambos periódicos
apresentam ao operariado e aos anticlericais a Lei argumentando que

25
ela vai “uniformizar nossas opiniões e enquadrar os nossos
pensamentos” (LANTERNA, 09/02/1935, p2), através da apreensão
de livros, jornais, folhetos e manifestos, permitindo o fechamento de
associações e sindicatos, impondo a “suspensão da publicação de
jornais e aplica aos mesmos formidáveis multas em dinheiro”
(PLEBE, 30/03/1935, p.1). Este último gerador de grande
preocupação, pois são sabidas as dificuldades de manutenção de um
periódico libertário, conforme já falamos.
A Lei de Segurança Nacional só foi aprovada no Congresso
em 4 de abril de 1935, mas mesmo antes disso A Lanterna e A Plebe
imprimiam notícias sobre uma atuação truculenta da polícia, a qual,
de acordo com ambos, já “ensaiava” para a Lei. Esse “ensaio” é
noticiado pelos jornais em Santos (LANTERNA, 09/02/1935, p.2),
em Pedregulho (PLEBE, 30/03/1935, p.2) e em São Paulo (PLEBE,
16/02/1935, p.1) (PLEBE, 30/03/1935, p.3). Sendo que a intervenção
que ocorreu em São Paulo data ao dia 3 de fevereiro, um domingo,
onde pela manhã o Partido Socialista havia organizado um comício
na Praça da Sé contra a Lei de Segurança Nacional, o qual nem
chegou a ocorrer devido à intervenção policial, que inclusive usou
pela primeira vez em São Paulo a bomba de gás lacrimogêneo e a
tarde, com outra intervenção no centro, agora na sede da Federação
Operária de São Paulo, onde dissolveram uma reunião dos Padeiros,
Confeiteiros e Similares e fizeram a apreensão de materiais e de
pessoas.

26
É intensa a freqüência com que os dois periódicos
publicavam sobre a Lei até abril, inclusive em março chegam a
utilizar uma mesma imagem para ilustrar o resultado dela
(LANTERNA, 07/03/1935, p.1) (PLEBE, 30/03/1935), representada
por um ser monstruoso que vai em direção a uma figura feminina
angelical definida como “liberdade”, acompanhada por um padre e
um burguês, ambos sorridentes. Analisando esta mesma imagem,
Raquel de Azevedo diz que esta tríade vitoriosa representa os
inimigos do anarquismo, estabelecendo uma hierarquização entre
elas: “Capitalismo e Igreja seriam, segundo a legenda, os pais da
monstruosa lei repressiva imposta pelo Estado” (AZEVEDO, 2002,
p.225). Os “pais” desta Lei também são considerados como maiores
inimigos destes jornais, sendo o capitalismo mais identificado pela A
Plebe e a Igreja por A Lanterna. Esta diferença é também latente nas
argumentações destes periódicos quando discorrem sobre a Lei de
Segurança Nacional. A Plebe entende-a como uma sequência das
atuações de Vargas, com o Ministério do Trabalho, o controle
sindical, definindo-a, através de uma matéria assinada pela Federação
Operária de São Paulo, como o “fascismo aberto e declarado,
elaborado pelos “revolucionários” e “democráticos” senhores”
(PLEBE, 02/02/1935, p.3). A Lanterna argumenta que esta “lei
monstro” não serve apenas para o governo, “ela se faz também para
atender as conveniências da igreja apostólica romana que forma ao
lado do fascismo para dominar o povo” (LANTERNA, 23/02/1935,

27
p.1). Independente da argumentação, ambos periódicos definem a Lei
de Segurança Nacional como fascista. Fora do contexto nacional, os
dois jornais também compreendiam outras atuações como fascistas,
vamos a elas.
Há uma diferença quantitativa expressiva no que se refere as
publicações que estes jornais compreendiam como fascista fora do
Brasil. A Lanterna publica pouco sobre, com um espaçamento
temporal grande entre elas, já A Plebe, desde o início de 1935 faz
algumas menções, com um aumento expressivo no segundo semestre.
Ilustra a atuação do jornal anticlerical nesta esfera a matéria “Clero e
Fascismo”, publicada no dia 15 de junho do referido ano, a qual
discorre sobre a relação da Igreja com o governo italiano,
argumentando que o “Estado fascista tolera a igreja porque o povo
italiano é essencialmente católico, e que ficariam “descontentes” com
o Duce, se implantasse a separação entre igreja e o Estado”
(LANTERNA, 15/06/1935, p.1). A Lanterna faz considerações com
o objetivo de dizer que no Brasil, os integralistas já sabem como agir
a partir da experiência italiana. Neste mesmo tom, problematizando o
que ocorria no continente europeu em vista do que acontecia no
território brasileiro, A Plebe publica diversas matérias sobre o que
acontecia na Itália e em Portugal.
Em matérias como “Terror em Portugal – uma carta declara
ao mundo as infâmias de Salazar”, “O Terror fascista em Portugal”,
“A obra da ditadura portuguesa é obra de terror, de perseguição e

28
sangue”, “Nas Bastilhas de Portugal” e “Contra a ditadura de
Salazar” a situação portuguesa é relatada a partir das medidas
repressivas da ditadura de Salazar contra o proletariado. Em uma
carta enviada de uma das prisões portuguesas, a qual A Plebe teve
acesso, o anarquista que assina como A, diz: “Continuamos nesta
fortaleza, sujeitos a um inquisitorial e bárbaro regime prisional, pior
do que impera na Alemanha hitlerista e na Itália musolinica”
(PLEBE, 27/04/1935, p.2), A situação portuguesa enxergada por um
anarquista preso, tendo em vista a forte repressão orquestrada aos
mesmos, era pior que a italiana e a alemã.
O olhar de A Plebe sobre a Itália de Mussolini também esta
presente nas matérias “A situação interna na Itália”, “A economia
fascista sobre o trabalho”, “Contra a rapinagem na Etiópia”, “A
Guerra que Mussolini prepara contra os negros da Abissínia” dentre
outras. Além da já citada relação com a igreja situada pela A
Lanterna, A Plebe pontua as ações da Itália em outros países,
compreendendo que o “fascismo, partindo do nacionalismo
extremado, cultiva o ódio no estrangeiro, transformando em
agressividade os sentimentos de fraternidade humana” (PLEBE,
06/07/1935, p.1) e também sobre o controle do operariado italiano,
onde a “última medida adaptada pelo Estado fascista para combater a
desocupação, foi a implantação das 40 horas de trabalho semanal”,
(PLEBE, 12/10/1935, p.1), resultando, como continua Aldo Aguzzi,
que assina esta matéria, no rebaixamento do salário de todos os

29
trabalhadores. Atuações do contexto português e italiano, aos olhares
destes periódicos, não diferiam muito do que acontecia no Brasil
nesta “era Vargas” e não era difícil colocá-los todos no mesmo rótulo
de fascista.
Além da publicação destas matérias, A Plebe também
utilizou de imagens para ilustrar a guerra e o contexto italiano, mais
precisamente três. Uma a qual há uma caveira definida como
fascismo, segurando uma foice sobre o globo terrestre (PLEBE,
31/08/1935, p.1), outra representando um pai indo para a guerra, com
sua filha pedindo para não ir (PLEBE, 28/09/1935, p.1) e por fim
uma ilustração de Mussolini em meio há um cemitério, com os
dizeres “fascismo é a guerra e a morte” (PLEBE, 09/11/1935, p.1).
Estas ilustrações compunham assim, mais uma das estratégias da
imprensa anarquista de acessar o operariado.
Diante desta ameaça de guerra, houve atividades anarquistas
em São Paulo que problematizavam a possibilidade dela acontecer e
pontuavam a posição dos anarquistas sobre. Mas foram através das
ações contra o integralismo que se focaram algumas atuações
libertárias em São Paulo, principalmente A Plebe e A Lanterna.
Mapeando as diversas matérias destes dois periódicos acerca
do Integralismo em 1935, podemos separá-las a partir de alguns
eixos: ilustrações; os conflitos envolvendo integralista; e as que se
referem a divulgação de atividades. Sobre ás ilustrações, enfatizamos
o papel educativo delas, onde um operário que não é letrado em

30
português, em um simples olhar, consegue compreender a
informação passada. Duas das diversas ilustrações de 1935 vão neste
caminho: a imagem de um pé acorrentado pelo símbolo da sigma e
pelo Estado (LANTERNA, 01/06/1935, p.1) e outra com Plínio
Salgado carregando uma cruz, guiando um operário de olhos
vendados (PLEBE, 06/07/1935, p.1). A primeira expõe a relação do
Estado e do Integralismo e a segunda representa o controle do
integralismo ao operariado através do discurso religioso. Sem
desenvolver muito, já que não pretendemos aqui fazer uma analise
minuciosa das ilustrações, queremos apenas enfatizar o importante
papel das ilustrações na imprensa libertária e no antifascismo.
Os conflitos envolvendo integralistas são registrados
inúmeras vezes nos dois periódicos, em diversas partes do Brasil.
Curitiba (LANTERNA, 26/01/1935, p.1), Belo Horizonte
(LANTERNA, 26/01/1935, p.3) (LANTERNA, 09/02/1935, p.1), Rio
Grande do Sul (LANTERNA, 09/03/1935, p.2), Florianópolis
(LANTERNA, 13/07/1935, p.1), Mossoró (PLEBE, 30/03/1935, p.3),
São Paulo (PLEBE, 22/06/1935, p.1) (PLEBE, 23/11/1935, p.2),
dentre outros. A maioria destes conflitos envolve operários de
diversas tendências e também anarquistas. Destacamos aqui os
ocorridos na capital paulista, cujo de junho, um comício anti-
integralista, é apontado como a “derrota moral do integralismo”,
graças ao comparecimento de milhares de pessoas e o de novembro
também como vitorioso, pois os antifascistas conseguiram mais uma

31
vez barrar uma manifestação pública integralista. A imprensa oficial
dificilmente falava sobre estes conflitos e a única forma de acessar
estas informações era através dos periódicos operários. Não só os
conflitos, mas as atividades antifascistas também só tinham espaço
através desta imprensa.
Estas atividades divulgadas por estes jornais vão desde
comícios, a boicotes e até ao nascimento de alguma organização
voltada ao antifascismo. Em 1935 foi divulgado por esses periódicos
uma conferência de Oiticica sobre “O Estado autoritário” no Centro
de Cultura Social (PLEBE, 05/01/1935, p.1), a fundação em Poços de
Caldas de uma Liga anti-integralista (LANTERNA, 26/01/1935, p.2),
uma Coligação Pró Liberdade de Consciência em Uberlândia
dedicada ao combate do integralismo local (LANTERNA,
09/02/1935, p.1), a atuação dos operários de Barretos com um
boletim antifascista (LANTERNA, 06/04/1935, p.2), um comício
antifascista em Petrópolis (LANTERNA, 15/06/1935), a maçonaria
se posicionando contrária ao integralismo (LANTERNA,
07/09/1935, p.1), o Sindicato de Operários Ferroviários Municipal da
Companhia Paulista de Rio Claro protestando contra a AIB (PLEBE,
22/06/1935, p.1), a Federação Operária de São Paulo anunciando um
comício antifascista (PLEBE, 22/06/1935, p.3), a verdade sobre o
número de participantes de uma manifestação integralista em
Araraquara (PLEBE, 22/06/1935, p.2) o anúncio de uma
contramanifestação antifascista em São Paulo (PLEBE, 26/10/1935,

32
p.2) e até uma ação de boicote dos garçons da Bahia, que se
recusavam a atender integralistas (PLEBE, 09/11/1935, p.1), dentre
outras. Sabe-se que o alcance destas divulgações eram bem
expressivos, se materializando, no caso de São Paulo, na sempre
grande presença de operários nas atividades.
O papel destes dois periódicos na luta antifascista em São
Paulo e no Brasil é fundamental diante de um projeto anarquista. Se
contrapondo a uma imprensa oficial, dando vozes aos trabalhadores e
trabalhadoras, preocupando-se em acessar as pessoas não letradas,
divulgando as lutas antifascistas em São Paulo, no Brasil e no
mundo, estes jornais respondem a nossa provocação inicial, aquela
que dizia que não havia anarquismo em São Paulo na década de
1930. Estes periódicos são a prova de que as movimentações
anarquistas estiveram presentes não só no contexto sindical, mas na
imprensa, nos centros de cultura, nas manifestações. Em matéria
publicada por A Plebe em 26 de outubro de 1935, intitulada “As
grandes datas do proletariado – a luta contra o fascismo no Brasil
teve no 7 de outubro do ano passado uma heróica significação”,
assinada por Rodolfo, há o resgate histórico da “Batalha da Praça da
Sé”, como também de outras ações antifascistas orquestradas por
anarquistas na cidade de São Paulo. Façamos da primeira frase desta
matéria, a nossa última:

33
“Rememorar as lutas do passado em favor da liberdade, equivale a
temperar as nossas forças para continuarmos na estrada presente e
prepararmos, desenvolvendo-a, a nossa capacidade de luta para os
dias futuros” (PLEBE, 26/10/1935, p.2).

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Jornal “A Lanterna”

Edição 383 do Jornal A Lanterna, publicado no dia 09/08/1934.

Edição 387 do Jornal A Lanterna, publicado no dia 26/01/1935.

Edição 388 do Jornal A Lanterna, publicado no dia 09/02/1935.

Edição 389 do Jornal A Lanterna, publicado no dia 23/02/1935.

Edição 390 do Jornal A Lanterna, publicado no dia 09/03/1935.

Edição 391 do Jornal A Lanterna, publicado no dia 23/03/1935.

Edição 392 do Jornal A Lanterna, publicado no dia 06/04/1935.

Edição 393 do Jornal A Lanterna, publicado no dia 20/04/1935.

Edição 395 do Jornal A Lanterna, publicado no dia 18/05/1935.

Edição 396 do Jornal A Lanterna, publicado no dia 01/06/1935.

Edição 397 do Jornal A Lanterna, publicado no dia 07/06/1935.

Edição 398 do Jornal A Lanterna, publicado no dia 13/07/1935.

37
Edição 399 do Jornal A Lanterna, publicado no dia 10/08/1935

Edição 400 do Jornal A Lanterna, publicado no dia 07/09/1935.

Edição 401 do Jornal A Lanterna, publicado no dia 05/10/1935.

Jornal “A Plebe”

Edição 73 da “nova fase” (Ano III) do Jornal A Plebe, publicado no


dia 05/01/1935.

Edição 80 da “nova fase” (Ano III) do Jornal A Plebe, publicado no


dia 19/01/1935

Edição 81 da “nova fase” (Ano III) do Jornal A Plebe, publicado no


dia 02/02/1935.

Edição 82 da “nova fase” (Ano III) do Jornal A Plebe, publicado no


dia 16/02/1935

Edição 83 da “nova fase” (Ano III) do Jornal A Plebe, publicado no


dia 02/03/1935

Edição 84 da “nova fase” (Ano III) do Jornal A Plebe, publicado no


dia 16/03/1935

38
Edição 85 da “nova fase” (Ano III) do Jornal A Plebe, publicado no
dia 30/03/1935

Edição 86 da “nova fase” (Ano III) do Jornal A Plebe, publicado no


dia 13/04/1935

Edição 87 da “nova fase” (Ano III) do Jornal A Plebe, publicado no


dia 27/04/1935

Edição 88 da “nova fase” (Ano III) do Jornal A Plebe, publicado no


dia 11/05/1935

Edição 89 da “nova fase” (Ano III) do Jornal A Plebe, publicado no


dia 25/05/1935

Edição 90 da “nova fase” (Ano III) do Jornal A Plebe, publicado no


dia 08/06/1935

Edição 91 da “nova fase” (Ano III) do Jornal A Plebe, publicado no


dia 22/06/1935

Edição 92 da “nova fase” (Ano III) do Jornal A Plebe, publicado no


dia 06/07/1935

Edição 93 da “nova fase” (Ano III) do Jornal A Plebe, publicado no


dia 20/07/1935

39
Edição 94 da “nova fase” (Ano III) do Jornal A Plebe, publicado no
dia 03/08/1935

Edição 95 da “nova fase” (Ano III) do Jornal A Plebe, publicado no


dia 17/08/1935

Edição 96 da “nova fase” (Ano III) do Jornal A Plebe, publicado no


dia 31/08/1935

Edição 97 da “nova fase” (Ano III) do Jornal A Plebe, publicado no


dia 14/09/1935

Edição 98 da “nova fase” (Ano III) do Jornal A Plebe, publicado no


dia 28/09/1935

Edição 99 da “nova fase” (Ano III) do Jornal A Plebe, publicado no


dia 12/10/1935

Edição 100 da “nova fase” (Ano III) do Jornal A Plebe, publicado no


dia 26/10/1935

Edição 101 da “nova fase” (Ano III) do Jornal A Plebe, publicado no


dia 09/11/1935

Edição 102 da “nova fase” (Ano III) do Jornal A Plebe, publicado no


dia 23/11/1935

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