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Boletim da Sociedade das

Ciências Antigas
Publicação da Sociedade das Ciências Antigas — Todos os Direitos Reservados

Volume 1, edição VI Setembro de 2010

Nesta edição:
A Igreja e o Templo - Robert Amadou
A Igreja católica romana, hoje e por toda a tastrófica, dos anti-feministas; mas se abste-
A Igreja e o parte, proíbe seus fiéis, tanto laicos quanto ve com inteligência e caridade de seguir as
Templo - clérigos, de aderirem à Franco-Maçonaria; respectivas conclusões que tendem a conde-
1
Robert Amadou aos Franco-Maçons ela recusa a comunhão nar a instituição maçônica, bem como os
eucarística. De antemão, a Santa Sé recusou anglicanos que a ela pertencem.
a competência das autoridades eclesiásticas
locais de anular ou suspender essas disposi- Vários organismos protestantes, de diversas
Discurso ções canônicas. Tal é o direito e é fato a confissões e de diversos níveis, denunciaram
Iniciático - 12 anulação, em 1983, dos na Franco-Maçonaria um
Dr. Marc Haven compromissos firmados anti-cristianismo, ou a-
a partir de 1974, após cristianismo, sem alterar
longos anos de discus- nem a liberdade dos
sões e de reconciliações. crentes de tais confis-
Contos É também fato que os sões, nem a harmonia
Espirituais 14 motivos expostos não que muitos dentre eles
são de ordem contin- encontram na sua condi-
gente, mas necessária: o ção de cristão Franco-
julgamento negativo da Maçom.
Igreja contra as associa-
ções maçônicas, quais- As críticas antecipadas
quer que sejam, perma- por alguns representan-
nece imutável, após um tes de Igrejas cristãs à
breve tempo, porque parte da Igreja católica
seus princípios sempre romana tocam, assim
foram e sempre serão como a atual posição
considerados como in- desta, doravante no cer-
conciliáveis com a dou- ne da questão; e as con-
trina da Igreja. Intérpre- denações locais, as refle-
tes autorizados explicam Robert Amadou (1924 — 2006) xões individuais confir-
que o Franco-maçom e o mam o caráter funda-
cristão estariam sujeitos, respectivamente, a mental, declarado por Roma, do problema
viver de modos incompatíveis com relação a que a história ilustra em numerosos e espo-
Deus. rádicos acontecimentos.

A Igreja do Oriente, a Igreja chamada orto- A Kirk presbiteriana da Escócia acaba, por
doxa não exprimiu opinião, nem legislou na sua vez, de lançar um julgamento muito se-
matéria, embora a Igreja de Hélade tenha vero, embora não se arrogue o direito de
condenado a Franco-Maçonaria como uma obrigar seus fiéis a se posicionarem contra a
religião pagã, em 1933, e tenha reiterado Franco-Maçonaria. Tal julgamento, também,
essa condenação. toca no fundo da questão. Mas quando a
kirk do século XVII, estrita e oficial, tolerava
A Igreja da Inglaterra adotou, em 1986, uma paradoxalmente ritos maçônicos de cunho
relação estúpida e má, que vinga bastante oculto que se acreditava assimilados ao pa-
mesquinhamente a derrota, no entanto ca- ganismo pela sua teologia, não ultrapassava
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ela a prudência do menos mal (de preferência ritos intenção de um sincretismo vago e ingênuo, os melho-
maçônicos a superstições católicas romanas!), para res intérpretes da Maçonaria o compreendem, pron-
convir na verdade que a Franco-Maçonaria bem com- tos para modificar a ortografia, no sentido de um mo-
preendida não invade em sentido algum a mais altiva noteísmo bíblico. As preces são de intercessão e não
Igreja, e não encorajava ela antecipadamente a resol- de adoração, e não há pellagianismo a temer, pois, se,
ver o problema que ela própria vai levantar três sécu- no plano da salvação pelos sacramentos, o Santo vem
los depois? ao homem, este pode tomar a iniciativa no processo
dos mistérios ou pagão - ousamos a palavra - e é nes-
Religião se plano exclusivamente que a Franco-Maçonaria ope-
ra. Vamos além.
1- Franco-Maçonaria e religião: são os termos de um 5- Religiões fundadas na história, religiões fundadas na
problema. Qual é a posição da instituição maçônica natureza: o cristianismo está fundado na história, mas
relativamente à religião? Qual é a posição das institui- recapitula os cultos de natureza ao recapitular a natu-
ções religiosas face à Franco-Maçonaria? É um proble- reza, bem como os cultos. Eis a doutrina e a prática
ma fundamental, independentemente dos acidentes da imposta: nada de luz incriada que não seja visível pelo
história; independentemente também dos casos cari- homem transfigurado por ela, e é a mística; mas tam-
catos em que, por razões específicas, o problema é bém - e é o mistério (a informar pela mística) - nada
ora atenuado, ora negado. de cosmologia que não seja cosmosofia, nada de natu-
reza que a Sabedoria não redima a Deus, presente
2- Por razões históricas e geográficas, esse problema como uma alma do mundo, ou sua suserana, certa-
de duas faces se manifesta principalmente no caso do mente criada assim como a luz correspondente, cuja
cristianismo e particularmente no Ocidente cristão. própria percepção, de repente, está no âmbito dos
Os não-cristãos podem legitimamente também se mistérios. Qualquer homem, naturalmente lógico, é
preocupar com tal problema, em se tratando tanto de capaz disso. Mas também a alma do mundo é uma
suas próprias religiões quanto do cristianismo, cujos manifestação das energias divinas que a Santíssima
dogmas e Igrejas os tocam de maneira variada; o cris- Trindade irradia, embora a Sofia eterna se identifique
tianismo oriental, quaisquer que possam ser as inquie- particularmente ora com o Logos, ora com o Espírito
tações, em geral ocidentalizantes, de algumas autorida- Santo. Nada de luz criada que não dependa, sem con-
des eclesiásticas do Oriente, precisa o problema e fusão, da luz incriada.
mostra o caminho para uma solução, ao mesmo tem-
po em que explica a origem e a gravidade da coisa, do 6- A transfiguração - do homem e do mundo pelo
problema pelo significado histórico, incluídos na histó- homem - é coisa da igreja; formas sagradas de con-
ria dogmas e instituições da Franco-Maçonaria e da templação e de ação são acessíveis ao homem fora da
Igreja romana. Igreja visível e ao cristão fora de sua atividade litúrgica
expressa. Mas é sempre através de Cristo que tudo se
3- Aplanemos as dificuldades. A Franco-Maçonaria não opera e toda atividade do cristão que participa da li-
é atéia: seus estatutos proíbem-na de sê-lo; bem como turgia. Em outras palavras, toda atividade do homem
a consciência do sistema. A Franco-Maçonaria não é é, deve ser litúrgica, explícita ou implicitamente, regu-
deísta: suas preces rituais, quaisquer que sejam suas lar ou selvagem e cristã com ou sem a letra. O cristão,
formas ou sua matéria, demonstram isso; a crença na por sua condição, reintegra, assim como sua doutrina
vontade revelada do Grande Arquiteto do Universo recapitula, toda atividade de aparência extra-litúrgica e
também. A Franco-Maçonaria não é indiferentista: do não cristã na Igreja inevitável, espiritualmente; ele se
contrário, como poderia ela convidar o candidato a fortalece, ao se desmascarar, pela articulação.
escolher um volume da Lei sagrada, entre todos, isto
é um Livro santo entre todos aqueles que fundam uma 7- O templo é o local particular de Deus, um ponto
religião particular? crucial de sua presença: o homem, espírito, alma e
corpo, e meu espírito, minha alma e meu corpo, por
4- Continuemos a aplanar. O juramento é de direito excelência metódico; o cosmos; a sociedade em qual-
natural; os castigos cuja ameaça o acompanha são evi- quer escala; os edifícios construídos ou a construir
dentemente simbólicos e estão ligados, a esse título, pela mão humana e segundo as regras da arquitetura
aos sinais de ordem; além disso, a Grande Loja Unida natural, pelo que - peso, número e medida - a Sabedo-
da Inglaterra aboliu a respectiva menção em 1985, ria divina rege todos os templos e todas as ordens. E
para evitar qualquer equívoco, e numerosas obediên- todos os templos, de todas as ordens, devem ser
cias seguem o exemplo. O segredo, de resto, não é construídos; também, por conseguinte, a pessoa e a
mais do que discrição. "Jahbulon" é uma palavra com- comunidade, e ainda o próprio cosmos: os ritos por
posta de fantasia, atestada no final do século XVIII, toda a parte e sempre dão auxílio ao mundo. Os ritos
confirmada em 1835; a fim de evacuá-la da eventual sacramentais segundo seu modo eminente e sua eficá-
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cia única. geralmente contempladas. Porém "os homens muda-


ram a majestade do Deus incorruptível em imagens
8- Quando Coustos, em seu processo de Inquisição, que representam o homem corruptível, pássaros, qua-
em Portugal, relata estas sentenças ouvidas por ele em drúpedes e peixes". (Romanos, I, 2, 3). O artifício do
1728: "O Mestre diz ao iniciado que a religião que ele homem caído favorece o aumento da obscuridade que
professa doravante é muito mais nobre do que a Or- sua decadência fez cair sobre o mundo. O erro, no
dem do Velocino de Ouro, do Espírito Santo, de Cris- entanto, não é fatal.
to e de todas as outras no mundo, pois sua religião é
mais nobre e mais antiga do que todas essas...", cuida- 12- Em Abraão e em Moisés, a aliança não é anulada, é
do com o contexto! cuidado para captar que "religião" de uma outra ordem e Deus se revela na singularidade
significa aqui ordem ou confraria. O que não exclui dos acontecimentos históricos. Em Cristo a aliança
que a religião do maçom em sua qualidade não seja não fica anulada, ela se realiza. O cristianismo nos
também a mais antiga, a ponto de ser a única. arranca da horizontalidade, qualquer que seja a sua
profundeza, do cosmos. Cristo, diz Eusébio de Cesa-
9- A religião da Maçonaria, ou do maçom em sua qua- réia, não traz uma mensagem nova, mas restabelece
lidade, é específica, mas não é especificamente maçô- em sua pureza a religião da humanidade primitiva pro-
nica, embora não se encontre em nenhuma outra par- visoriamente substituída pelo cristianismo (Dem. ev. I,
te - e talvez nem mesmo ali - no 6).
estado puro. É o Noaquismo, a
religião de Noé cujas duas carac- 13- Existe uma revelação natural
terísticas são a antigüidade (é até de Deus em sua criatura, na natu-
mesmo primitiva, desde a queda reza e no espírito humano; é pró-
evidentemente, e cá para nós, a pria à dialética do processo dos
única) e a universalidade (é a ve- mistérios e, se quiser, do paganis-
lha e única religião católica). Reli- mo, da religião pagã. Contudo, a
gião de natureza e não da nature- revelação natural que o homem
za (como se diz, ou como se deve encontra nele no mundo, na Sofia
dizer, não filosofia da natureza, criada (segundo a expressão te-
mas filosofia de natureza, para merária, porém sugestiva, de
designar o respectivo reflexo es- Boulgakov, e com a reserva de
peculativo). Os noáquidos explo- que ela não esteja caída, de fato,
ram a natureza na aliança. Os três na sabedoria terrestre, sensual,
grandes artigos teístas de Noé diabólica (Tiago, III, 15)), na ima-
impedem que o homem se dissol- gem de Deus, está manchada de
va na natureza, e que até mesmo erros e de ilusões. A revelação
o esforço de conhecimento e de divina, com a qual a Franco-
amor do homem que Deus insta- Maçonaria não se preocupa, mas
lou na natureza tenda para alguma que o Franco-Maçom e, em parti-
fusão romântica, à moda de No- cular, o Franco-Maçom cristão ou
valis, por exemplo. o cristão Franco-Maçom não es-
quecerá, é, simetricamente, uma
10- A aliança de Noé subsiste nas religiões arcaicas, descida de Deus no homem.
mas, nos mistérios a ordenar, não é mais o cosmos
que é mediador do mistério, é a pessoa: a de Deus faz 14- Primeiramente, contemplação de Deus, comunhão
homem e do homem que, no Espírito, se torna Deus. direta com Deus, visão da luz incriada. Mas, depois
O homem, rei de existência universal, é também o (segundo a hierarquia e primeiramente segundo certa
respectivo padre, capaz de revelar, para enchê-lo de pedagogia), contemplação da natureza, conhecimento
Deus e para oferecê-lo a Deus, o ser das coisas. O dos seres, isto é, dos "segredos da glória de Deus
primeiro passo consiste na revelação natural, mas se escondidos nos seres" (Isaac, o Sírio). Essa segunda
não houver um segundo, será o cientista moderno ou espécie é a primeira revelação, a primeira aliança com
o feiticeiro diabólico, que se tomará pelo padre da o Logos em que são criadas todas as coisas. O Pere-
natureza. grino russo aprende a linguagem da criação: sublima
uma atividade pagã ao santificá-la: do cosmos litúrgico
11- Há uma verdade das religiões fundadas na nature- à liturgia cósmica. À intuição direta da luz e da ação de
za, que correspondem à aliança primeira de Noé: Deus nas naturezas visíveis está ligado, na doutrina e
Deus se revela na regularidade dos ritmos naturais e talvez na prática, o conhecimento racional em que a
no sentido metafísico de todas as coisas, algumas ten- alma vê a si própria: reflexão filosófica ou contempla-
dendo mais a ser emissárias a esse respeito e mais ção do nous chamado para descer até o coração pre-
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parado. em sua pretensão toda, participando, constitui uma


das tarefas da Franco-Maçonaria. Assim ela se mostra-
15- Os sacramentos da Igreja não passam por ritos ria não como adversária, mas como auxiliar da verda-
exercidos na loja maçônica, à sombra ideal do Tem- deira Igreja, e de todas as verdadeiras ciências. Cabe à
plo, e em seu movimento não há nenhuma rivalidade. Franco-Maçonaria, bem como a qualquer sociedade de
Os sacramentos são de instituição divina direta (por iniciação natural, completar em alguns pontos a orto-
Jesus Cristo ou por sua Igreja que é seu corpo místi- doxia: ortocosmogonia, ortocosmologia e ortogênese.
co), os ritos são de origem natural, como a revelação
primitiva, e indiretamente divina. Os ritos iniciáticos 19- A filosofia e o estudo da natureza são as únicas
prometem e significam a salvação, os sacramentos dão atividades que, sem ser especificamente religiosas,
acesso a ela. Natureza, ritos, mundo devem ser co- deixam ser admitidas pela religião, mas não sem rela-
nhecidos e devem servir tendo em vista a sua transfi- ção com ela: falar-se-ia melhor de filosofia natural - ou
guração. É bom que todo homem os conheça e os de ciências ocultas com seus mantenedores e com sua
sirva, é necessário que todo cristão recolha esse co- saídas em ciência e em neo-ciência - e de filosofia de
nhecimento e esse serviço, na medida em que isso lhe natureza. O ocultismo consiste numa filosofia de natu-
for requerido, no processo de transfiguração em que reza que coroa e compreende a filosofia natural. A
está engajado desde o momento em que se engajou. É iniciação dá acesso a ele. O esotérico, que liberta a
útil que o cristão, que tem a vocação, conheça e sirva iniciação natural, leva ao interior da natureza e do
o que a todo homem cumpre transfigurar entre ou- homem, os seus segredos. Também ao interior das
tros, com tudo. Do bom uso da ciência; ainda é preci- Escrituras sagradas. E ao interior do homem e das
so que seja da boa ciência. Escrituras sagradas, quando se trata de revelação na-
tural em que o processo vai do homem e quando o
Ciência homem é, em parte, de natureza e seu esforço natural
se deve servir da abertura do homem a Deus.
(Somente o dom de Si mesmo, permite ao homem
16- Na qualidade de ciência, seja em seu sentido mo- perfazer sua aproximação com Deus, este é o ponto
derno, seja no sentido do ocultismo (cuja idéia, na onde Saint-Martin vê a iniciação perfeita.)
falta de nome, é tradicional), a religião pode tolerar a
ciência e manter a respectiva cultura como lícita. Não 20- Na origem de sua instituição, a Maçonaria está
seria a evidência em parte enganosa? Não dissimularia, fundada nas ciências e nas artes liberais, mas mais par-
pelo menos, a complexidade? No caso das ciências ticularmente na quinta destas últimas, que é a geome-
ditas ocultas (adivinhação, a astrologia num alto grau, tria. Esse saber de geometria, ou de arquitetura, atesta
magia, alquimia), a suposta relação de coexistência a estrutura platônica das ontologias arcaicas e tradici-
corre o risco de ser mais delicada, porque mais ínti- onais ao mesmo tempo que o caráter arcaico e tradi-
ma, com a recusa do ocultismo de ser cortado da cional da ontologia maçônica. A lendária história da
religião e desembocando normalmente na teosofia; a Franco-Maçonaria relata o mesmo saber aos egípcios,
ciência moderna, ao contrário, situa-se deliberada- aos discípulos de Pitágoras, aos druidas, aos essênios e
mente na ignorância do religioso. aos cabalistas. E a história inscreve a ideologia da
Franco-Maçonaria moderna no movimento da filosofia
17- Na realidade, a relação, no primeiro caso, corre o oculta no Renascimento que Frances Yates analisava
risco de ser sem razão uma relação de concorrência, numa filosofia hermética cristã, com uma aliança parti-
ao mesmo tempo que se oferece para ser uma relação cular e rosacruziana de magia e de ciência. A ortocos-
de articulação; tem a verdadeira religião licença de mogonia, no Oriente como no Ocidente, contentava-
conceder a autonomia a qualquer ciência que seja? se com a alquimia mesmo cristianizante e Campanella
Ocorre que a ciência dita moderna, ou racionalista, o organizava em Roma para o papa Urbano VIII, que
cientificismo (ao qual acontece de passar por um ocul- nela entrava, ritos mágicos.
tismo transviado), que acredita no poder de uma ra-
zão sem Deus, recusa qualquer ingerência da religião e 21- Não conteria a ciência em questão, a ciência ma-
quer aliená-la completamente. O problema não é, por- çônica também, ou assim, fragmentos sem dúvida lon-
tanto, mais difícil, como pareceria, com a ciência pura ge de estarem caducos, daquela (ciência) que Clemen-
e simplesmente - e pura e simples: é resolvido anteci- te de Alexandria torna o objeto das tradições secretas
padamente, em detrimento de uma religião que não se dos apóstolos? Essa ciência é especificamente cosmo-
reduza à sua própria caricatura pseudo-racionalista. sófica e fornece um fundo de mistérios: trata da desci-
Com as ciências ocultas, o problema é árduo, porém da (Encarnação) e da nova subida (Ascensão) de Cris-
passível de uma solução eqüitativa e fecunda. to através das esferas celestes e da experiência do
crente conhecedor, do Gnóstico, realizada pela imita-
18- Da ciência às ciências ocultas e vice-versa, a neo- ção, pela identificação e, por isso, análogo. Essa expe-
ciência que restaura a ciência tradicional e a respeita riência verifica, e vivifica, um saber teórico no prolon-
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gamento das mesmas tradições inter-testamentárias que ora se corromperão em cientificismo e em racio-
que os apóstolos manteriam no cerne do judaico- nalismo materialista: uma razão sem Deus que a ilumi-
cristianismo e que a Cabala repartirá em duas grandes ne, uma ciência que esquece o desregramento das
categorias: o começo, ou a Gênese (que é também o relações entre o homem e a natureza, bem como a
Logos ou a Sabedoria principais), e o Carro, ou a via- missão sacerdotal, que persiste, do homem no mundo;
gem visionária. Em continuidade de um esoterismo ora se comporão numa religião com pretensões histo-
judeu do tempo relativo ao domínio muito definido ricistas abusivas.
dos segredos do mundo celeste, as tradições secretas
dos apóstolos revelam no cristianismo, e segundo a 26- O lugar da alquimia é, em relação à religião cristã
feliz fórmula de Jean Daniélou, o mistério de Cristo e à Igreja, análoga a ela na Franco-Maçonaria, que é
em suas dimensões celestes e angélicas. essencialmente ritualística. Maurice Aniane foi o pri-
meiro que discerniu essa situação teológica e é preci-
22- Os procedimentos de concentração, de meditação so inspirar-se nele. A alquimia é uma ciência de sacrifí-
e de contemplação, que conhecemos do Judaísmo, do cios das substâncias terrestres, uma aplicação psico-
Islamismo e do Cristianismo visam a união estática cósmica do cristianismo, literalmente ou não. Detém
com a Divindade. um papel maior na religião tornada, por perversão, a-
cósmica, isto é, anti-cósmica. A alquimia é, portanto,
23- A economia divina que tem por objetivo a transfi- uma ciência sacramental (não sacramentaria), sonha
guração do criado implica na política e no social. A com a natureza transfigurada, lembrança do Éden e
revelação natural e a pedagogia dos mistérios também. espera a parousia no coração do homem, o ser cen-
tral e consciente da criação. O alquimista celebra ana-
24- A Franco-Maçonaria logamente uma missa cujas
ensina a ciência. A letra espécies são a natureza
inicial "G" está no centro inteira; a alquimia segue
de sua estrela flamejante. uma dupla lógica da reinte-
Mas esse G só designa a gração, da guerra e do
gnose como geometria, amor.
historicamente significação
primeira da inicial, e dou- 27- A alquimia é ainda uma
trinalmente radical. A ciên- ciência cosmológica que
cia maçônica, arte da Ma- nunca pretendeu bastar-se
çonaria, arte da geometria, a si mesma: sempre esteve
gnose maçônica, gnose subordinada a uma via de
simbólica, é uma ciência união propriamente espiri-
tradicional e se opõe se- tual, que se trate
gundo o espírito, que fixa (exemplos de Maurice
uma mentalidade, à ciência Aniane) da parte sacerdo-
moderna. Mas ela tem o tal da tradição egípcia, do
direito de recuperá-la. A sufismo, do hesicasmo
ciência tradicional tende a contaminar, para sua salva- bizantino, ou da grande mística intelectual ocidental
ção, a ciência moderna; é auxiliar da liturgia, é trans- até Mestre Eckhart e Angelus Silesius. Essas considera-
mutável como é ordenada, no segundo grau, à trans- ções (que pedem um melhor discernimento da teolo-
mutação. É, em compensação, conforme ao espírito gia inerente à alquimia bizantina e siríaca) são passíveis
dos ritos apoiar-se em sacramentos e conduzir até de transposição para o plano da Franco-Maçonaria.
eles os que ignoram por vezes até o seu próprio no-
me. Faz parte do espírito dos sacramentos recuperar 28- O encontro entre a alquimia e a Franco-Maçonaria
os ritos, ou, pelo menos, seu produto e de encami- na história, no decorrer de quatro séculos, transforma
nhar até eles os que desejam efetuar tais aplicações erroneamente, aos olhos de alguns, a analogia em uma
particulares da vida litúrgica. A mentalidade mística, identidade. A alquimia, de fato, só é a chave da Franco
entretanto, não é a mentalidade dos mistérios. A re- -Maçonaria por causa do objetivo último em que elas
velação natural não poderia arrebatá-la, nem, para um tendem juntas para um mundo deificado pelo homem
cristão, extraí-la da hierarquia. deificado, com a tomada de consciência, de uma parte
da luz inclusa no homem e na natureza, de outra parte
25- Mistérios e não mística: platonismo dos símbolos e em correlação, que essa luz é transparente à luz de
geométricos, hermetismo, reforma geral apregoada Deus que a criou. O método alquímico pode ser feito
pelos rosacruzes da ciência e da religião - entenda- pelo método maçônico, mas este não se reduz àquele.
mos: em suas relações mútuas - são os ingredientes
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29- A magia é inerente à Franco-Maçonaria; seus ritos compreendidas com a ajuda de símbolos. O período
são mágicos por definição. A aprendizagem maçônica, liminar é marcado por um amplo uso dos símbolos
que depende da ciência e da magia, pode voltar à asce- femininos, enquanto o estado de salvação futuro, e de
se e a magia, à teurgia. Alguns desejam e se juntam a libertação, é marcado por símbolos de masculinidade.
nós no coração da problemática do Templo e da Igre-
ja. 34- A religião gnóstica está fundamentada numa ten-
são entre o espírito e a matéria. A Sofia é o símbolo
30- Se a letra do maçom era e continua sendo a letra da queda ora como iniciadora, ora como iniciador; é o
inicial de "Geometria", a palavra do maçom, aquela a símbolo da salvação ora como iniciador e ora como
que se referia o juramento secreto e cuja transmissão iniciadora. A feminilidade é essencial à criação, nela
era cerimonial (donde o juramento que permanece e incluída a humanidade, "que se revela finalmente na
as cerimônias que se estenderam) era e continua sen- maternidade da Virgem e no sustentáculo da Igre-
do composta dos nomes de duas colunas do templo ja" (Louis Bouyer). Os mistérios orgíacos são uma
de Salomão: Jakin e Boaz. Independentemente de es- degenerescência do culto devido à sabedoria, como o
ses nomes se referirem à ação do Grande Arquiteto culto sádico do esperma é uma perversão tanto do
do Universo e independentemente de essas colunas culto devido à luz criada quanto da imersão na luz
estarem erguidas nas portas do Templo, tais colunas, incriada. A feminilidade é essencial à criação. A Terra
como todas as colunas, simbolizam também o eixo é a Sofia cósmica, princípio feminino do mundo criado
sagrado, a árvore da vida ígnea do binário. Qualquer que se chama: “divinização”. A Sofia de criatura está
milagre, na verdade, na natu- orientada para o céu, mas a
reza vai do um ao três pelo Sofia caída é exorcizada pela
dois. O iniciado aprende a Encarnação. Cabe combater a
conhecer e a encontrar o dupla tentação: transferir o
terceiro termo que conduz à trágico sofiânico no próprio
unidade. Deus (e por vezes, correlati-
vamente, satanizar a Trindade
Luz em quaternidade); não des-
mascarar a sabedoria debaixo,
quer dizer a que está embai-
31- A gnose em questão, ou xo e vem debaixo, "terrestre,
a ciência maçônica em várias sensual, diabólico", escreve o
disciplinas, não é a gnose apóstolo Tiago, caída numa
apofática, que perfaz todo palavra, e que está embaixo
conhecimento, em que "na mas vem de cima, a que, de
Tua Luz nós vemos a Luz": É repente, perderia, a nossos
a experiência da luz incriada, olhos, sua realidade ao mes-
enquanto a luz maçônica, mo tempo que seu espírito e
assim como pedra filosofal, é sua verdade.
a luz criada, que é de Deus sem ser Deus. "Hiram é a
sabedoria adquirida, Salomão é a Sabedoria recebi- 35- Síntese de Saint Maxime le Confesseur. Deus atri-
da" (Mgr Germain de Saint-Denis). buiu ao primeiro homem a função de unir nele o con-
junto da criação e ao mesmo tempo alcançar a perfei-
32- Gnose subordinada então; ou bem essa gnose ta união com Deus e conferir assim à criação toda o
incompleta volta à humanidade laica, como a ciência estado de deificação. Ele deveria, antes de tudo, supri-
que escapa da filosofia da natureza deixa de ser filoso- mir em sua própria natureza a divisão em dois sexos,
fia natural para voltar ao cientificismo. A Franco- seguindo a via impassível segundo o arquétipo divino.
Maçonaria tem direito de ser um gnosticismo, com a Estaria, então, em posição de juntar o paraíso ao resto
condição de limitar a ambição. A mitologia gnóstica da terra, visto que, carregando incessantemente nele
tem uma função transformadora (não transfiguradora) o paraíso e, estando em comunhão com Deus, ele
na ordem do simbólico (não na do Ser). Não é uma poderia transformar a terra inteira em paraíso. Em
mitologia, pois não é uma mitologia de salvação nem seguida, deveria ultrapassar as condições espaciais não
de libertação, mas de passagem. somente em espírito mas em seu corpo, juntando
céus e terra, a totalidade do universo sensível. Tendo
33- É a intuição e o paradoxo de um gnosticismo, ma- ultrapassado os limites do sensível, lhe ocorreria de
çônico por exemplo, o fato de as rigorosas estruturas penetrar no universo inteligível por um saber igual
cosmológicas, sociais e antropológicas deste mundo àquele dos espíritos angelicais, a fim de unir nele os
extraírem sua origem da ambigüidade e da desordem mundos inteligível e sensível. Enfim, somente Deus
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restando exterior, bastaria ao homem dar-se inteira- significar outra coisa além da penetração íntima do
mente a Ele num total abandono de amor, e assim poder de Deus invisível no seio do univer-
voltar a Ele a totalidade do universo criado, reunido so?" (Athanasius Kircher, 1601-1680). Mas a verdade
em seu ser. Deus se daria, então, reciprocamente ao diz: “a inteira Luz é a luz sem forma, a Santíssima Trin-
homem que possuiria desde então por graça tudo o dade, sujeito e objeto não de mistérios mas de místi-
que Deus possui por natureza. Mas Deus falhou no ca”.
cumprimento de seu dever de deificação de si e do
universo. Impõe-se, portanto, a intervenção de um 40- "Os procedimentos dos antigos taumaturgos, da-
segundo Adão, do novo homem, Cristo. queles que se chamavam magos ou adeptos, graças aos
quais se perpetuou um pouco da luz original colocada
36- Seqüência da síntese de Maxime le Confesseur. pelo Pai na criação": é o ocultismo segundo um dos
Impôs-se um segundo Adão. Por seu nascimento da seus mestres cristãos, no século XX, Sédir. Espírito
Virgem Maria, Cristo suprimiu no homem a divisão universal, luz, sim, e ainda alma do mundo. Luz da na-
entre masculino e feminino. Na cruz, ele junta o paraí- tureza, escreve Paracelso: cumpre reintegrar a nature-
so com a terra do homem caído. Em seguida, passan- za com sua luz. Paracelso evita, especialmente, a lin-
do através das esferas, ele une o mundo espiritual ao guagem da religião que ele contudo segue, pois quer
mundo sensível. Enfim, qual um novo Adão cósmico, restituir-lhe seu vetor cósmico cujo primeiro segmen-
apresenta ao Pai todo o universo restaurado nele, to começa com o ocultismo, e a linguagem de uma
unindo o criado ao incriado. Santo Filoteu comentará religião descarnada frustaria a manobra mágica a servi-
que a Sabedoria construiu uma casa para si, quer dizer ço da piedade. Existe ainda uma luz astral que perten-
que a sabedoria do Pai preparou para si a mais pura ce à Sofia caída, e alguns ocultistas, vítimas da ambigüi-
carne da Virgem assumida pelo Verbo. dade, a substituem pela luz que resulta, no final das
contas, da do Verbo-Sabedoria, segundo o Gênesis e
37- Sofia - Sabedoria -, em seguida Sofia incriada e segundo São João. Mais geralmente (pois vale também
Sofia criada em que esta se reflete e faz a alma do para o zen budismo e para o ioga hindu), que um pres-
mundo. A hipótese de Boulgakov é bastante audaciosa tígio nos pareça manifestar até mesmo a luz criada, é,
para ser inaceitável em sua integridade, e para forne- segundo São Gregório Palamas, o efeito de um volteio
cer à reflexão variedades e abusos que cumpre discri- favorito do diabo. Nunca se deve eliminar a hipótese
minar, no progresso da reflexão. Prossigamos, então, de cara.
com o autor: a unidade das duas Sofias, ou dos dois
aspectos respectivos de Sofia, faz o panteísmo (tudo 41- Os últimos nomes de cidades modernas levam a
está em Deus, mas não tudo é Deus). Sua diferença, uma dupla observação: é um acaso que os enviados de
ou a diferença dos aspectos da Sofia, faz a temporali- Deus de alguma maneira extra-canônicos, de Albert le
dade, a história e uma parte do Boulgakov chamou de Grand e Raymond Lulle a Martines de Pasqually e a
"a filosofia da economia" (de outra forma do plano Boehme, de Saint-Martin e Cagliostro a Philippe Nizier
divino). Em todo caso, para os Padres, a Sofia criada e a Papus (para ficar no círculo familiar), é um acaso
participa da glória da Sofia incriada e identificada seja que esses apóstolos da moral evangélica também o
com o Espírito Santo, seja com o Logos. Já, para Paulo, sejam da revelação natural, que esses amigos de Deus
a criação é glorificada e unida em Cristo, e é a Sabe- se misturem tão freqüentemente com ciências tradici-
doria. onais tanto quanto com caridade e se, em tempo
oportuno, que eles tenham outros laços, talvez não
38- O zen-budismo, e os procedimentos análogos, heterogêneos, com a Franco-Maçonaria? Seria um
mostram a luz criada. Donde, observa Olivier outro acaso se os partidários de Satã privilegiassem -
Clément, ele ensina a ver e repousa na sacramentali- fato patente - as mesmas formas?
dade do cosmos. Mas esta só existe para tornar-se
transparente à luz incriada. Depois de descrever o 42- Limite extremo deste capítulo: Pai, Verbo e Espíri-
simbolismo cósmico do templo mosaico, Clemente de to são a tripla luz da Divindade, de que toda a criação
Alexandria, João Crisóstomo, Teodoro de Ciro, na recebe a luz. Os anjos são luzes secundárias. A natu-
linha de Filon, explicam que o mundo físico é, por sua reza intelectual do homem é também luz. A imagem
vez, apenas um intermediário simbólico oferecido ao divina no homem fica obscurecida pelo fato de sua
espírito em busca de realidades mais altas. separação de Deus. O recebimento da luz plena está,
portanto, ligada a uma nova iluminação, ou, como diz
39- "O divino Denys atesta que todas as criaturas são Gregório Palamas, advém quando o homem vestiu o
apenas espelhos que nos remetem os raios da divina hábito de luz que ele desposou quando desobedeceu a
Sabedoria. Assim, os sábios do Egito julgavam que Deus. Essa luz é a graça e a energia incriadas de Deus.
Osiris, tendo confiado a Ísis a carga de todas as coisas, A experiência mística da deificação (que está relacio-
impregnava, invisível, o mundo inteiro. Poderia isso nada com a prece contínua) é a visão da luz divina.
Página 8 Boletim da Sociedade das Ciências Antigas

Aquela luz não é um meio criado, nem um símbolo da e o folclore da Europa do leste. Eliade afirma sua es-
glória divina, mas uma energia incriada, na verdade perança em um cristianismo renovado graças à contri-
derivada da essência de Deus, sua graça. Todavia o buição do cristianismo cósmico. Sabemos doravante
superior não anula nem desqualifica o inferior, quando que os aspectos ontológico e cosmológico do cristia-
este lhe é ordenado e no mesmo sentido: é ele que o nismo lhe pertencem de direito, mas que somente a
ordena ao contrário e lhe dá sentido. revelação ao mesmo tempo pessoal e histórica funda,
justifica e explora ao mesmo tempo que exalta a reve-
Cosmos e História lação natural. Quando o judeu-cristianismo é anti-
cósmico, faz falta a si próprio; seria trai-lo e prevenir
sua reabilitação rejeitar o cristianismo histórico em
43- Religiões fundadas na natureza, religiões fundadas prol de uma ontologia arcaica e anti-histórica a pró-
na história - luz criada e luz incriada que cumpre con- pria essência de um cristianismo histórico. Seja como
templar - Mircea Eliade viveu o drama de um conflito for, a Franco-Maçonaria, com sua religião de natureza
ou de uma confusão, e tentou desembaraçá-lo; con- e sua filosofia de natureza, não tem autoridade alguma
cluiu-se, portanto, de maneira contraditória sobre o para erigir em absoluto uma revelação cósmica. O
seu "arcaísmo" e sobre o seu lugar fica livre para uma teologia
cristianismo. Douglas Allen tra- historicista, que não tem, entre-
çou as linhas da perspectiva de tanto, mais direito de se impor
uma inteligência. A ontologia ar- como loja.
caica primeiro, no estado puro,
por assim dizer, eminentemente 45- O antropocentrismo bíblico é
na Índia. Os místicos indianos, responsável por nossa atitude tirâ-
esforçando-se para abolir o tem- nica face à natureza, e pelo cientifi-
po profano e a história, mostra- cismo correlativo. O que se tem
ram que a unificação e a cosmisa- como assegurado, até mesmo co-
ção do universo, concebidas em mo evidente, só é verdadeiro para
função dos ritmos da natureza e uma época e para uma área cultu-
dos outros fenômenos cósmicos, ral dadas, em virtude de uma com-
só constituíam uma fase interme- preensão mediada pela Bíblia, co-
diária e imperfeita. É um estágio rolário de uma evolução moderna
que deve ser ultrapassado e se se do cristianismo, teologia e Igreja.
quer atingir a transcendência da Na realidade, o homem e a nature-
condição cósmica enquanto tal. za, frente a frente segundo a Bíblia,
Somente uma religião cósmica só se determinam aos olhos do
poderia dar acesso à absoluta historiador: de outra maneira no
transcendência do que é finito e contexto bíblico, de outra maneira
limitado, à consciência de uma na tradição pós bíblica, de outra
liberdade não condicionada que maneira na Idade média e na Re-
não existe em nenhuma parte no nascença, no Ocidente. De outra
cosmos. Vê-se o passo antecipa- maneira, enfim, no encontro do
damente, vê-se também o passo judaísmo e do cristianismo com o
que falta dar. (Fiquemos atentos e pensamento grego, sem esquecer
a fórmula do padre Jules Moncha- que a cristandade oriental inclui,
nin, em vez de nos desviar, nos guiará: o Espírito so- também, e antes de tudo, a Igreja de Antióquia onde
pra na Índia (sopra para onde quer)), mas a Índia não se efetua um outro encontro: o do judeo-cristianismo
conhece o Pai, tampouco o Filho. Eu ousaria forçar com um pensamento fundamentalmente semítico que
resumindo ainda: na Índia falta a Santíssima Trindade, reativa e enriquece o judaísmo bíblico e pós bíblico do
não, não mais enigma, mas solução em forma de mis- cristianismo. (Entretanto, não há antagonismo, mas um
tério. E a Índia só está aqui para nos servir de exem- acordo freqüente e uma complementaridade dos Pais
plo, mesmo que seja permitido nela ver um exemplo gregos e dos Pais de língua siríaca.)
privilegiado. Monchanin acrescenta que o Ocidente
cristão se preocupa muitíssimo pouco com o Espírito. 46- O inverso é do mesmo modo verdadeiro; pelo
Ponho em contraste a fidelidade da Igre-ja do Oriente efeito de uma reação que corresponde ao fruto de
à sua "teologia mística". uma evolução diferente, o antropocentrismo bíblico é
responsável pela atitude dita ecológica, quer dizer pela
44- As expressões religiosas ocidentais que mais inte- atitude laica e naturalista, tendendo à sacralidade, que
ressam a Eliade são as que se situam fora das grandes parodia nossa vocação ao sacerdócio cósmico.
correntes religiosas históricas: o misticismo, a alquimia
Volume 1, edição VI Página 9

47- Essa vocação que é, no final das contas, o fruto do Proclus, de Thomas Taylor de uma parte e de Yeats,
mais fiel e do mais justo desenvolvimento da revelação de outra. Acrescentemos, com a tradição judaico-
bíblica, de seu desenvolvimento tradicional, entroniza cristã, que realiza o platonismo que falta a uma certa
o homem como esposo e padre da natureza, como densidade deste mundo: se não, mais cosmosofia, no
deus da natureza, chamado para tornar-se Deus e, por sentido cristão da sofiologia. Realizar o platonismo,
sua própria deificação, para deificar a natureza. voltar a ele "dar consistência" (Jean-François Var).

48- A Bíblia dessacralizou a natureza; assim foi dado 52- Compreender bem a arte da Maçonaria ou da
lugar à ciência. Ciência e técnica modernas desmistifi- arquitetura, ou da geometria, que é a arte universal,
cam, dizem, as antigas mediações cósmicas. Mais vale- como o arquiteto da Renascença é o uomo universale,
ria dizer que a Bíblia demoliu o ídolo da natureza. Pois tem valor pedagógico para o não-cristão; tem igual-
não se trata de deixar lugar à transfiguração do mun- mente para o progresso do cristão dentro do cristia-
do pelo homem liberto dos ciclos cósmicos. As pró- nismo.
prias ciências do mundo, longe de estar evacuadas,
estão fortificadas e carregadas de missão. O desencan- 53- O homem não pode ser salvo pelo universo, ele é,
tamento do mundo significa apenas que o sagrado não ao contrário, responsável pelo mundo. Pode salvar o
é o Santo e que o Santo dispõe do sagrado. universo pela graça. Enquanto Logos, palavra de um
Logos mudo, de uma palavra muda, pois o cosmos
49- Assim, na Franco-Maçonaria, o homem não cristão tomou um aspecto noturno, mas Cristo abriu, reabriu
mantém em parte e da melhor maneira possível neste a via da deificação, e o cristão é aqui, como em qual-
mundo seu papel de cristão, isto é, de homem segun- quer outra parte, um outro Cristo. "Um outro Cris-
do a antropologia cristã (e também, nós vislumbrare- to": Tertuliano permanece, entretanto, ambíguo em
mos isso, segundo o judaísmo e o islã). O cristão con- relação a Paulo que afirma: "Não sou eu que vivo, é
fesso, praticante, mantém aí plenamente e da melhor Cristo que vive em mim." Digamos, portanto, melhor:
maneira possível esse papel. O cristianismo, segundo o próprio Cristo, ou um "pequeno Cristo".
Eliade, é a hierofania suprema. É também, a teofania
suprema. É preciso empunhar as duas extremidades 54- "O Grande Arquiteto do Universo concebeu e
da cadeia, cujos elos são a Franco-Maçonaria e a Igre- realizou um ser dotado de duas naturezas, a visível e a
ja. invisível: Deu criou o homem, tirando seu corpo da
matéria preexistente que ele animou com seu próprio
50- O Verbo se dá ao homem nas coisas. Louis- Espírito. Assim nasceu de alguma maneira um universo
Claude de Saint-Martin, havia cogitado o título novo, ao mesmo tempo grande e pequeno. Deus o
“Revelações Naturais” para a obra que ele finalmente colocou na terra (...), esse adorador misturado para
intitulou “O Espírito das Coisas”. James Anderson, em contemplar a natureza visível, ser iniciado no invisível,
1723: Se compreende bem a arte, declara o artigo reinar sobre as criaturas da terra, obedecer às ordens
primeiro das primeiras constituições da Franco- do Altíssimo, realidade ao mesmo tempo terrestre e
Maçonaria moderna, se ele compreende bem a arte, o celeste, instável e imortal, visível e invisível, ficando no
franco-maçom reconhecerá, em suma, a existência, meio entre a grandeza e o nada, ao mesmo tempo
com as exigências que ela acarreta, do Grande Arqui- carne e espírito, animal a caminho para uma outra
teto do Universo. Isso está completamente relaciona- pátria e, cúmulo do mistério, tornado semelhante a
do com a Sagrada Escritura. Assim, Paulo: "Sua realida- Deus por uma simples condescendência da vontade
de invisível [de Deus] - seu eterno poder e sua divin- divina." (Maxime Confesseur). O homem neste mundo
dade - tornou-se inteligível desde a criação do mundo, tem vocação para artesão, cavaleiro e padre. A Franco
através das criaturas, de sorte que não têm desculpa. -Maçonaria faz dele um artesão e um cavaleiro; ela o
Pois, tendo conhecido a Deus, não o honraram como prepara para receber ou para exercer o sacerdócio
Deus nem lhe renderam graças; pelo contrário, eles se universal, do qual o homem nunca foi despojado, até
perderam em vãos arrazoados, e seu coração insensa- mesmo para receber e exercer o sacerdócio da Igreja,
to ficou nas trevas. Jactando-se de possuir a sabedoria, e ela reúne os dons, as palavras seminais espalhadas
tornaram-se tolos." (Romanos, I, 20-23). Tolos, isto é, por toda parte.
idólatras e o ateísmo é evidentemente uma forma de
idolatria. 55- Assim como na natureza, o verbo se revela num
Livro Santo que na Maçonaria se chamaria a lei sagra-
51- A realidade primordial e a primazia do espírito. A da. Saint Maxime le Confesseur acrescenta a esses
natureza é um sistema de aparências e de imagens que dois primeiros graus da incorporação do verbo, um
reflete uma ordem metafísica: Platão, certamente, mas terceiro grau que reconcilia os dois precedentes: a
também Denys o Areopagita, a cabala, o hermetismo, Encarnação. Mas não se deve falar disso em loja hoje
a alquimia... sem distinguir o platonismo filosófico de (mesmo que as primeiras constituições da Franco-
um Plotino e o platonismo mágico de Iâmblico e de Maçonaria moderna dêem testemunhos disso). A
Página 10 Boletim da Sociedade das Ciências Antigas

Franco-Maçonaria fica aquém daquele terceiro grau: de ser cristão. É como que um "cristianismo renova-
ela não ignora o segundo. O esforço de inteligência e do" com purificações abraâmicas. Como memória, só
de cultura de mistérios do mundo, que a Franco- há, tradicionalmente, no Islã, ciências tradicionais.
Maçonaria requer de seus membros, só tratará os
livros sagrados, qualquer que seja a confissão que as 58- Os dois parágrafos que precedem, relativos ao
reivindique misticamente, da mesma maneira que ela judaísmo e ao Islã, gostariam de sublinhar o parentes-
trata a natureza: misteriosamente, isto é, decifrando co entre três religiões abraâmicas, fundadas na história
os hieróglifos. Aquilo a que se poderia chamar esote- e numa história em parte comum; sua eventual com-
rismo natural do texto escrito, bem como do texto plementaridade; sua contribuição para a formação dos
cósmico, e um esoterismo penetra particularmente a ritos e da ideologia maçônica em que predomina a
cosmologia e a antropologia. influência propriamente cristã; a oportunidade de vis-
lumbrar o parentesco, até mesmo a complementarida-
56- A Torá ou o Antigo testamento, e a tradição ju- de de suas respectivas problemáticas, tratando-se das
daica nas suas diferentes ramificações desenvolvem o relações com a Franco-Maçonaria, (sem prejuízo de
simbolismo ativo e cósmico do Templo e do homem. sua própria teoria e de sua experiência, ó quão dife-
Isaac Luria analisa os três momentos cabalísticos: rente, dos dois eixos segundo os quais os três mono-
Deus se contrai e dá lugar à sua criação (Tsim-Tsum); teísmos se edificam: a lei e o messianismo.)
alguns vasos não suportam a luz infusa, eles se que-
bram em pedaços esparsos, O Grande Homem
quais cascas solitárias, mas a
luz continua apegada. A tare-
fa da humanidade consiste no 59- "A Maçonaria abraça a
tikkun, que repara ou restau- universalidade das ciências e
ra o mundo quebrado, pela os verdadeiros filósofos a con-
colheita, notadamente sexual, sideram com razão como o
das centelhas luminosas. O ponto de partida de todos os
simbolismo do tempo e do conhecimentos do mundo
espaço, seu poder mediador primitivo." (La Réunion des
relativo e subordinado, se étrangers, 1784). A única loja
enriquece para Luria com seu inglesa contemporânea que
caráter de entidades espiritu- visa um objetivo esotérico (a
ais; o homem não as conhe- saber a Lodge of Living Stones,
ceria nem mesmo se ele não a leste de Leeds) lembra que a
se correspondesse inconsci- Franco-Maçonaria pratica a
entemente (para começar) com o espíritos angélicos. fraternidade, a ajuda e a verda-
Em todo caso, antes que os olhos dos iniciados con- de. Mas que o último objetivo é pouco considerado.
templem nos tempos messiânicos a transfiguração dos No entanto, mais do que um sistema de moral, a Fran-
mundos, o homem é o lugar desses mundos, tendo co-Maçonaria tem também por objetivo "as verdades
em vista a redenção "inexorável" (Mopsik). "Não é escondidas da natureza e da ciência"; ela colabora com
concebível encarar a construção desse templo a não as hierarquias celestes e seu fim é o retorno da alma a
ser com o objetivo da manifestação tangível do Deus; digamos a ajuda ao retorno da alma a Deus.
"Coração divino" (A. D. Grad.). Para esse fim conspi- Albert Pike, discípulo de Eliphas Levi e doutor do es-
ram as duas funções da cabala teórico-prática: levar ao cocismo: "A Maçonaria, quando é convenientemente
êxtase que procura a união; celebrar os ritos da teur- exposta, é ao mesmo tempo, a interpretação do gran-
gia, cujas funções procedem, segundo Moshé Idel, res- de livro da natureza, o resumo dos fenômenos físicos
pectivamente, de um ponto de vista antropocêntrico e e astronômicos, a mais pura filosofia e o depósito
de um ponto de vista teocêntrico. onde estão em segurança, como num tesouro, todas
as grandes verdades da revelação primitiva que for-
57- As iniciações artesanais no Islã têm uma estrutura mam a base de todas as religiões." (Deixemos o últi-
ritualística que Louis Massignon valorizou, e se relacio- mo membro da frase: ele é exorbitante.) Na Maçona-
nam tanto às associações fundadas no pacto de honra ria, "é aí enfim que o cientista Bacon, que o brâmane
cavalheiresco quanto às confrarias místicas. Massignon indiano e que o ministro fiel do cristianismo vêm es-
observa, também, que Salman Pak, o persa de origem tender a mão de associação, estudar à porfia, praticar
cristã, é o iniciador, por excelência, no Sufismo e o essa ciência universal de que todos os conhecimentos
senhor das pessoas de carreira. Ora, ao tornar-se humanos são os raios, de que o homem que é seu
muçulmano, Salman não deixou, segundo Massignon, objeto oferece a vasta circunferência e de que o cen-
tro emanador não é nada menos do que o princípio
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adorável que tudo criou." (Irmão pastor Pierre de 62- Impossível no cristianismo tradicional, ver Cristo
Joux, 1801). sem a Igreja e a Igreja sem Cristo; Cristo está na Igre-
ja e a Igreja está em Cristo. A Igreja grande homem,
60- "A iniciação maçônica, escreve Henri Tort- macro-anthropos, dizem os Padres. Fomos do Templo
Nouguès, não quer salvar, mas despertar a consciência à Igreja. Vamos agora da Igreja ao Templo.
do homem, direcioná-lo para uma procura". Sim, con-
trariamente ao sacramento e com a reserva de qualifi- 63- A regeneração da natureza humana em Cristo não
car a procura na causa como sacramental. No que somente a libertou dos laços com a corrupção e com
obteve êxito André Doré, a quem só falta Deus na a morte, mas também dos ciclos cósmicos; alçou-a
história para assemelhar-se a um Pai da Igreja: "A inici- acima de sua condição anterior à queda, pela deifica-
ação ritualística conduz o ser humano a uma conversa ção e pela orientação para o Deus Pai. A regeneração
permanente com o universo, consigo mesmo, com seu e a deificação da natureza humana são realizadas em
passado, com seu presente e com seu futuro. E ainda: Cristo e acessíveis pelos sacramentos da Igreja. Por
A “revelação primitiva” é a entrevisão acidental do esses meios, pela graça do Espírito Santo que eles
universo do real, da energia subjacente ao mundo veiculam, o homem se torna em Cristo um vencedor
fenomênico que ela anima e condiciona." A Franco- do pecado, transcende o poder da corrupção e da
Maçonaria é a busca da palavra e da luz: a palavra é morte, e entra na vida do corpo de Cristo, isto é na
aquela da construção do Templo, e de seus construto- vida da Igreja. Os sacramentos capitais, ou aqueles nos
res; a luz é aquela que reside no Templo e, simbolica- quais a economia de Cristo está inteiramente resumi-
mente, difusa da loja que trabalha no Templo. da, são o batismo e a eucaristia. Pela virtude de sua
natureza e de seu objetivo, a Igreja constitui uma
61- Da Franco-Maçonaria cristã. Muito geralmente, a "comunhão de deificação".
Franco-Maçonaria contemporânea não é cristã; a
Franco-Maçonaria moderna foi descristianizada, segun- 64- Da Igreja ao Templo, sempre. Com um olho espi-
do um processo longo e imperfeito. É desejável que ritual, diz Isaac o Sírio, nós vemos os segredos da gló-
os elementos cristãos à letra que são mantidos desa- ria de Deus escondida nos seres; com o outro olho
pareçam. É essa Franco-Maçonaria de que tratamos no espiritual, contemplamos a glória da santa natureza de
decorrer desta exposição, aquela com a qual a Igreja Deus. E o mundo, diz Ephrem o Sírio, é "um oceano
encontra dificuldades. Mas regimes maçônicos se pro- de símbolos", sendo cada símbolo revelação de uma
clamam cristãos. É um caso à parte, não obstante as realidade. E ainda Maxime le Confesseur: o mistério
interferências, na problemática da Igreja e da Franco- da Encarnação do Logos contém em si todos os signi-
Maçonaria. Esses regimes, de fato, impõem o que a ficados das criaturas sensíveis e inteligíveis. Aquele
Franco-Maçonaria universal não impõe e dizem o que que conhece o mistério da Cruz e do Túmulo da cria-
não tem, segundo a Franco-Maçonaria universal, de ção do céu e da terra, segundo o Gênesis, o advento,
ser dito em loja. Tais regimes tentam realizar de ma- segundo o Apocalipse, dos novos céus e da nova ter-
neira proposital a articulação que perfaz a Franco- ra. Estamos no meio, com a Franco-Maçonaria, o
Maçonaria aos olhos de um cristão. Pois a pedra angu- Templo e a Igreja.
lar do templo maçônico são os mistérios ou cultos da
natureza, salvos da idolatria; sua pedra fundamental e N.B. Essas notas são preparatórias de um livro que
sua pedra de sustentação é o Grande Arquiteto do será publicado, Deus queira, com o mesmo título.
Universo, e no pináculo é a iniciação. Ora, o cristão Pareceu oportuno e até mesmo necessário publicá-las
sabe que além dos protótipos, dos esboços e dos em- in extenso, desde agora, tais como estão, de tão ur-
briões, Cristo é a pedra fundamental, Cristo é a pedra gente que é a gravidade do problema em questão.
de sustentação, Cristo é aquele que foi alçado ao piná- Ora, esse problema é dos mais delicados. Após uma
culo do Templo; é ele que é a Via, a Verdade e a Vida. amostra publicada na revista “l'Autre Monde”, em
O Templo se realiza, então, na Igreja. Se o cristão 1990, comuniquei, portanto, essas notas a vários cor-
franco-maçom sabe, a Franco-Maçonaria cristã afirma respondentes relacionados ou interessados, no seu
e não confunde, por exemplo, a ressurreição em Hi- uso, mas sobretudo pedindo suas observações, de que
ram, que abre para uma nova existência moral, com a uma boa nota foi tomada: um agradecimento especial
ressurreição em Jesus Cristo que confere a vida eter- a Ch. G., Cl. G., J.-F. V.. Hoje, com esse opúsculo, que
na e deidificante. Joseph de Maistre, partidário de um surgiu primeiro em folhetim na revista “L'Esprit des
regime maçônico cristão, propõe, todavia, nele admitir Choses” (nº 4/5 (1993) a nº7 (1994)) no seio de um
candidatos que não professariam o cristianismo, confi- círculo mais amplo, porém ainda especializado, é ao
ando na "ciência do homem" da qual o Regime Esco- público, como se diz, que venho solicitar que critique
cês Retificado (visto que é desse regime que se trata) essas notas.
fará do aprendiz maçom um cristão e até mesmo um Publicação do Cirem - 1995
católico romano. Centro Internacional de Pesquisas
& de Estudos Martinistas
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Discurso Iniciático - Dr. Marc Haven


Homem de Desejo, Irmão desconhecido, tu que mar- Assim, viciado no seu corpo e no seu espírito antes
chas para Tebas, em qualquer região das nossas terras mesmo de o poder utilizar, vai entrar na triste tutela
onde te encontrares, é em ti que penso e é a ti que dos que o cercarão na sua primeira idade e que seme-
me dirijo, porque, nos desertos preparatórios, apren- arão aleatoriamente nesta terra, maus e desordenados
deste nossa língua materna e os verbos primitivos dos germes.
nossos Anciãos, como nós, de luminosas tochas, ó
viajante desconhecido a quem amo como um irmão. A juventude, a idade viril, vai ser apenas um desenvol-
vimento sucessivo de todos os germes. Um regime
Amanhã serás o Mestre poderoso do reino terrestre. físico quase sempre contrário à natureza vai continuar
Não eras ontem o escravo da última das raças e não a pressionar o contra-senso e o princípio da sua vida.
servias aos répteis da terra?
Desviado cada vez mais da sua linha, ávido de conheci-
Hoje, discípulo de um Mestre, incerto do futuro, tími- mentos exteriores, exterioriza e dispersa todas as
do ainda, estás amedrontado às portas da luz. faculdades do seu espírito em vez de levá-lo para seu
interior onde possui todo o co-
Talvez, repassando em tua me- nhecimento e prodigaliza todos
mória as etapas percorridas para os tesouros.
chegar até lá, encontres uma
nova segurança, alguma lição Perde-se em ocupações frívolas e
para o presente. ilusórias, que tomam aos seus
olhos a aparência de realidade e
Quando viestes, saindo do mun- que lhe apagam até à passividade
do até nós, eras apenas mais do tempo.
uma lembrança do homem do
qual levavas ainda o nome. Mas É assim que, no meio de uma
todas as tuas faculdades, todas tempestade perpétua, chega ao
as tuas virtudes, todas as pro- fim da sua vida, torturado pelos
messas feitas aos teus antepassa- métodos de uma medicina igno-
dos estavam mergulhadas no rante, de uma filosofia mundana e
esquecimento voluntário onde dolorosa ao seu espírito e que se
as tinhas deixado adormecidas. evade mais uma vez.

Pertencias a esta massa humana Ali estavas perdido viajante, quan-


concebida em pecado e pelo do uma voz te chamou pelo no-
pecado, tendo em vista as iniqüi- me; um nome ardeu em teu cora-
dades inconscientes daqueles ção e viestes engrossar as fileiras
que lhes geraram. Quão lúgubre Dr. Marc Haven - Emmanuel Lalande dos Homens de Desejo, apesar
era o quadro desta vida humana (1868 - 1926) dos temores, apesar dos sofri-
à qual pertencias inteiramente! mentos.

O homem porta desde o seio materno tais hereditari- Ora, qual foi a tua ascese? Qual método, quais ciências
edades e carrega antes da vida um destino já doloro- foram-te ensinados para sublimar teu ser?
so, e ao nascer é esmagado sob o peso destas
"tenebrosas passividades". Os que te chamaram, dos que gostavas como irmãos,
foram como amigos reencontrados, e aos que pedias
Nasce e vai receber interiormente o leite impuro des- para dirigir os teus passos para as cidades luminosas,
tas mesmas manchas e, exteriormente, de mil trata- mostraram-te, atrás de ti, o deserto.
mentos inábeis que vão deformar seu corpo mesmo
antes que seja formado. Fizeram-te compreender que qualquer obra aqui neste
plano, devia ser em ti; que demorarias 40 dias e 40
Concepções depravadas, línguas falsas e corrompidas noites em meditação para aprender a conhecer-te,
vão sitiar todas as suas faculdades e o espiar durante o distinguir os teus inimigos dos teus amigos, as hierar-
seu desenvolvimento para lhe infectar imediatamente. quias e suas forças. Fizestes a descoberta de todos os
princípios na tua alma, e devia ser assim, porque não
Volume 1, edição VI Página 13

teria sido renovada em todas as suas substâncias, se Sol passa ao meridiano inferior antes de surgir glorio-
não recebesses tão elevadas verdades pela tradição, se so no Oriente; antes que a vida nos penetre, é neces-
não tivesses recebido o conhecimento íntimo dos sário que o absoluto sofrimento, a aflição, a devasta-
nomes pela experiência e pelo sentir. ção congele nossas veias e destrua em nós tudo o que
tornava a sua presença impossível. É esta via de morte
Silenciosamente, esperavas por alguma mudança que que deve atravessar todo homem o mais rapidamente
amadurecesse em vós o Desejo e que o teu espírito e alguns mais penosamente, para depois se elevar às
se iluminasse. alturas celestes. É a via que seguiram os nossos Mes-
tres, é a via do verdadeiro Filósofo Desconhecido.
Lentamente, o progresso se fez; compreendestes inici-
almente um pensamento de Deus e o teu ser real, a Terminada a prova, deixas o deserto, vitorioso e mu-
tua verdadeira individualidade pode finalmente estar nido de uma clareza intelectual e de um íntimo ardor,
plenamente nele. fruto dos teus trabalhos, marchando outra vez para a
cidade dos Homens. Mas tens que te livrar dos símbo-
Um dos sinais mais vivos do teu avanço nesta via foi o los materiais; não tens mais nada em comum com eles,
dia em que pudestes provar e sentir que as coisas não vives mais este penoso sonho. Portador de armas
deste mundo não são reais; desta forma, um só mo- muito fortes e muito bem protegido contra os ataques
mento da tua vida inverteu todos teus ídolos e reve- ilusórios dos teus inimigos, não sabes mais agir no
lou a diferença que separa o mundo espiritual desta mundo da passividade; o egoísmo e a dúvida te provo-
montagem de fantasmas polimórficos, fugitivos, in- cam crises terríveis de incerteza que te paralisam e te
constantes, que compõem a região natural onde são prosternam.
vinculados aos nossos corpos. Foi a tua Iluminação.
Então, como aquele que estava orgulhoso da sua ele-
Tudo o que chamamos hoje desapareceu, tudo reto- vação se curva, volta e procura um apoio e suplica na
mou o nome universal do Ancião dos Dias. Ao Norte, noite, para que um Irmão mais experiente, mais ins-
ao Sul, ao Oriente e ao Ocidente, penetraste o espíri- truído pela possessão dos poderes de um Adepto,
to universal. Ora, depois de quatro dias como Lázaro, apareça e lhe fale.
vivificastes as tuas quatro grandes faculdades primiti-
vas. Se tais são as tuas angústias, Irmão do meu espírito,
coração unido ao meu coração, ouçamos juntos
Sem descanso e continuamente, até despertar em vós o que revelou o Mestre sobre os quatro Mestres reu-
a impetuosidade vital, que foi teu combustível, porque nidos no Jardim das Granadas.
devias expulsar de vós todos os vendedores que tives-
sem vindo estabelecer a sede do seu negócio no inte- A quatro vozes, irão cantar o cântico da alegria, ale-
rior do teu Templo. gria delirante, alegria suprema, alegria arrebatadora,
alegria que fecunda.
A continuidade do esforço, a luta diária e a tensão
permanente da alma: são as condições indispensáveis Tu que desejas saber, fala e aprende. Não é suficiente
para a iluminação espiritual. que o Homem seja um Pensamento de Deus, e é aí
que estanca a nossa Ciência, é necessário ainda que
Enquanto maiores foram os teus progressos maiores seja uma palavra. Apenas assim será regenerado na sua
foram os obstáculos que se elaboraram em teu cami- natureza original. No maravilhoso Jardim ao qual re-
nho. tornamos ninguém se perde em contemplações imó-
veis, mas sim na luz perpétua, é uma ativa e contínua
Em ti mesmo, os interrogadores, os céticos e interlo- criação. O pensamento não pode se afirmar sem criar
cutores estéreis se acercaram para lançar a perturba- ao redor de si uma série de seres que formam as suas
ção na tua razão e os milagres que te pediram, realiza- operações e que tornam as suas faculdades ativas. A
dos ou recusados, deixaram-te mais fraco na frente morte e as palavras de destruição são desconhecidas,
deles. Sofrestes as tentações, as ameaças, as provas, porque a vida flui e ultrapassa os muros em flores do
antes de deixar o teu deserto. Jardim. Desafortunados os Profetas que ensinam as
doutrinas do terror, do ódio e da destruição: fujam
Mas foi uma feliz e forte batalha e isto porque conhe- aqueles que desprezam a carne e o sangue, a Alma em
cias a Lei. plenitude das suas formas, pois que todas as promes-
sas serão realizadas e a regeneração é uma obra viva.
É ao preço de grandes sofrimentos que se faz a Rege-
neração. Amai, falai e agi. Ao redor de ti, de todos os lados,
nascem guerreiros para apoiar os teus esforços; hoje,
Todos os símbolos, todas as tradições ensinam-nos. O poetas, os vossos Irmãos, estão na rua. Falam sobre
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os lugares, vêm os gestos como palmas e


o verbo como espada. Através das palavras dos Mestres compreenderás on-
de terminam os teus poderes e onde começa a obra
Mas, que seja ou não o teu destino ser feliz, semeia ao da Providência. Instruído por eles, cruzarás os três
redor de ti as potências regeneradas e das quais sois o graus da Iniciação Real.
depositário e não o proprietário. Sejas o Terapeuta
dos materialistas e instintivos, o guia dos anímicos. É por isso que os Sábios Cabalistas davam aos seus
Envolve-te para descer. discípulos nomes bem diferentes no seu nascimento
ao mistério, a sua maioria simbólica, ao seu adeptado
Recorda as palavras: "não é a luz da aurora que devia tradicional. É assim que, o que sabia ler nas estrelas as
anteriormente avisar a tua alma dos vossos deveres vontades de Deus antes que fossem executadas sobre
diários e da hora em que o incenso devia queimar a terra, se chamava TEKOA, o homem de sofrimen-
sobre os vossos lares, é a tua voz interior que devia tos, o filho de JOCHAI; e, quando retornou mestre,
chamar a luz da aurora e fazê-la brilhar sobre a obra, os seus discípulos chamaram-no como chamamo-lo
para que seguidamente pudesses do alto deste Orien- desde sempre: RASCHBI, o NOVO.
te, verter-te sobre as nações adormecidas na sua ina-
ção e arrancá-las das trevas”. Dr. Marc Haven

Aí está o teu papel, o teu dever, Homem Regenerado; Emmanuel Lalande


és um intermediário entre o Eterno e o Temporal, genro do Mestre Philippe Nizier
entre o Presente e o Futuro.

Contos Espirituais

A Reconciliação como malfeitor, a companhia perversa do cárcere


induziu a ser mau a quem queria ser bom. E quando
terminou a sua pena, andou pelo mundo com o estig-
“Lembra-te de mim Senhor, quando entrares no teu ma de criminoso e nunca mais encontrou entre os
reino”. “homens honestos” quem lhe desse uma migalha de
“Em verdade te digo, ainda hoje estarás comigo no amor.
paraíso”.
Arrastou-se pela existên-
Diálogo mais estranho do cia noturna com a alma
que este nunca se travou gelada duma frialdade
no mundo, de cruz a polar. Só na hora supre-
cruz, entre dois moribun- ma da vida, no alto do
dos. patíbulo, encontrou final-
mente, um homem huma-
“Lembra-te de mim”, no, seu companheiro de
quem pede apenas uma suplício. Encontrou um
gota de amor no meio de homem que mais acredi-
um inferno de dores não tava na sua alma do que
é homem mau. O homem nas maldades da sua vida.
intimamente mau, maldiz Encontrou um homem
os seus sofrimentos e os que o amava e lhe queria
autores dos mesmos. O bem.
homem mesquinho pede
libertação dos tormentos E o “bom ladrão” sentiu
ou aceleração da morte. uma tépida aura de benevolência a envolver-lhe a gela-
da alma. E, por entre o degelo primaveril desse olhar
O ladrão na cruz pede apenas uma lembrança, um de amor, pediu ao colega de tortura que dele se lem-
pouco de amor. Pede uma migalha daquilo cuja falta o brasse, à luz do seu reino. Não pediu vingança para
tornara celerado, perverso e cruel. Desde pequeno, seus inimigos, não pediu alívio na atroz agonia, pediu
queria ele ser bom, mas os homens o fizeram mau, aquilo cuja falta fizera de sua vida um inferno: uma
porque lhe negaram compreensão e amor. Deu um migalha de amor! Uma lembrança apenas! Um pensa-
passo em falso e as leis dos homens o condenaram mento carinhoso! Uma gota de amizade!
Volume 1, edição VI Página 15

reuni-las em um todo.”
“Lembra-te de mim, quando entrares no teu reino”.
A Purificação
E conseguiu na morte, de um moribundo, o que em
vida jamais conseguira dos vivos. E pelo pouco que
pediu, recebeu o muito que não ousara pedir: “Ainda Um jovem monge, que vivia num mosteiro no deserto,
hoje estarás comigo no paraíso”. sentindo-se pouco inteligente e incapaz de guardar os
ensinamentos espirituais recebidos, procurou o seu
Sobre as cabeças da multidão ululante trava-se então, mestre e disse-lhe:
de cruz a cruz, entre dois moribundos, uma amizade
sincera, sagrada e eterna. - Mestre, grave desgosto me acabrunha. Apesar dos
esforços constantes que faço, não chego a conservar
Amizade entre um homem divino e um homem mau na memória, durante muito tempo, as instruções que,
que queria ser bom, e que se faz bom pelo amor da- para boa conduta na vida, recebo dos mestres. Vão,
quele que é, que foi e que será. também, para o esquecimento, os trechos mais belos
que leio, diariamente, nos Santos Evangelhos!
Hoje, ao lado do Cristo Glorioso há um homem Glo-
rificado! O Mestre, que tinha em sua cela dois cântaros vazios,
disse-lhe:
O que é a vida? - Meu filho, toma um daqueles cântaros; joga-lhe um
pouco d’água; lava-o depois cuidadosamente; enxuga-o
Um discípulo perguntou à seu Mestre: “Mestre: o que com teu próprio hábito e deixa-o ficar no lugar em
é a vida?”. que está.

E o Mestre respondeu: “Vai para a rua, caminha por Maravilhado, embora, com tais palavras, fez o jovem
elas e visita as três primeiras tendas que encontrares”. monge exatamente o que o mestre lhe determinara.

O discípulo entrou na primeira tenda que encontrou e Concluída a tarefa, o mestre perguntou-lhe qual dos
viu que as pessoas trabalhavam com metal. cântaros estava mais limpo, mais claro e puro.

Entrou na segunda tenda e viu que as pessoas traba- O jovem monge tomou nas mãos o cântaro que aca-
lhavam com cordas. bara de enxugar e respondeu: - Este, por certo, está
Entrou na terceira tenda e viu uma carpintaria. mais limpo. Lavei-o com muito cuidado.

O discípulo pensou então: “será que isso é que é a Retorquiu, então, o mestre: - E, no entanto, repara
vida? bem, meu filho, esse cântaro não mais retém vestígio
algum da água que o purificou. Também aquele que
Voltou para o Mestre para ser esclarecido e este lhe ouve, confiantemente, a palavra de Deus, embora não
disse: “Agora você encontrou o caminho para desco- grave na memória o teor dos santos ensinamentos,
brir a vida e um dia compreenderás”. traz o coração tão puro como um cântaro lavado.

O discípulo ficou muito aborrecido por não ter com- A Corda


preendido, mas como nada podia fazer foi percorrer o
mundo. Anos depois chegou a um jardim onde ouviu
uma música tocada por um instrumento que não co- Esta é a história de um alpinista que sempre buscava
nhecia. Era uma cítara. Ficou encantado com o som e superar mais e mais desafios. Ele resolveu depois de
de repente percebeu que os carpinteiros, os ferreiros muitos anos de preparação, escalar uma montanha
e as outras pessoas que trabalhavam nas tendas, fazi- que nunca tinha sido conquistada pelo homem. Mas
ele queria a glória somente para ele, e resolveu escalar
am parte da construção de um todo.
sozinho sem nenhum companheiro, o que seria natu-
O discípulo teve um estalo, levantou-se e dançou. O ral no caso de uma escalada dessa dificuldade.
músico, surpreso, parou de tocar, mas o homem con-
tinuou dançando e o músico perguntou: “O que há Ele começou a subir e foi ficando cada vez mais tarde,
com você?” Ele respondeu: “Agora entendi o que é a porém ele não havia se preparado para acampar, re-
vida, ela é tudo, anos atrás entrei em três tendas e solveu seguir a escalada decidido a atingir o topo. Es-
não havia cítara, nem havia música, mas todas as peças cureceu, e a noite caiu como um breu nas alturas da
estavam lá. Precisava, apenas, colocá-las em ordem e montanha, e não era possível mais enxergar um palmo
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à frente do nariz, não se via absolutamente nada. Tudo E VOCÊ? Está segurando firmemente sua corda?
era escuridão, zero de visibilidade, não havia lua, e as
estrelas estavam cobertas pelas nuvens. POR QUE VOCÊ NÃO A SOLTA?

Subindo por uma parede e a apenas 100m do topo ele


escorregou e caiu.... caia a uma velocidade vertiginosa, A Água
somente conseguia ver as manchas que passavam cada
vez mais rápidas na mesma escuridão, e sentia a terrí- Nos Alpes Italianos existia um pequeno vilarejo que se
vel sensação de ser sugado pela força da gravidade. dedicava ao cultivo de uvas para produção de vinho,
uma vez por ano, lá ocorria uma festa para comemo-
Ele continuava caindo... e nesses angustiantes momen- rar o sucesso da colheita.
tos, passaram por sua mente todos os momentos feli-
zes e tristes que ele já havia vivido em sua vida... de A tradição exigia que, nesta festa, cada morador do
repente ele sentiu um puxão forte que quase o partiu vilarejo trouxesse uma garrafa do seu melhor vinho,
pela metade... Shack! Como todo alpinista experimen- para colocar dentro de um grande barril que ficava na
tado, havia cravado estacas de segurança com gram- praça central.
pos a uma corda comprida que fixou em sua cintura.
Entretanto, um dos moradores pensou: "Porque deve-
Nesses momentos de silêncio, suspen- rei levar uma garrafa do meu mais puro
so pelos ares na completa escuridão, vinho? Levarei uma cheia de água, pois
não sobrou para ele nada além do que no meio de tanto vinho o meu não fará
gritar: falta."

Ó MEU DEUS ME AJUDE!!! Assim pensou e assim fez.

De repente uma voz grave e profunda No auge dos acontecimentos, como


vinda do céu respondeu: era de costume, todos se reuniram na
praça, cada um com sua caneca, para
QUE VOCÊ QUER DE MIM MEU FI- pegar uma porção daquele vinho, cuja
LHO? fama se estendia além das fronteiras do
país.
Me salve meu Deus por favor!!!
Contudo, ao abrir a torneira do barril,
VOCÊ REALMENTE ACREDITA QUE um silêncio tomou conta da multidão.
EU POSSA TE SALVAR ? Daquele barril saiu apenas água. Como
isto foi possível?
Eu tenho certeza meu Deus!!!
Acontece que todos pensaram como aquele morador:
ENTÃO CORTE A CORDA QUE TE MANTÉM PEN- "A ausência da minha parte não fará falta".
DURADO...
Nós somos muitas vezes conduzidos a pensar "Tantas
Houve um momento de silêncio e reflexão. O homem pessoas existem neste mundo que se eu não fizer a
se agarrou mais ainda à corda e refletiu que se fizesse minha parte isto não terá importância."
isso morreria...
O que aconteceria com o mundo se todos pensassem
Conta o pessoal de resgate que no outro dia encon- assim?
trou a um alpinista congelado... morto... agarrado com
força... com as suas duas mãos a uma corda... Todos temos um missão a cumprir, o melhor é tentar
realizá-la da melhor maneira possível. Sempre amando,
A TÃO SOMENTE DOIS METROS DO CHÃO... amparando e respeitando o próximo.

Publicação da Sociedade das Ciências Antigas


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