Você está na página 1de 32

Boletim da Sociedade das

Ciências Antigas
Publicação da Sociedade das Ciências Antigas — Todos os Direitos Reservados

Volume 1I, edição XV Julho de 2011

Vida e Obra de Apolônio de Tiana


“Pitágoras disse que a mais divina arte e o que ele disse ou fez lá permane-
é a de curar. E, se a arte de curar é a ceu um mistério.
mais divina, deve ocupar-se com a alma
tanto quanto com o corpo, pois nenhu- A origem e os primeiros anos
ma criatura pode ser saudável enquan-
Nesta edição: to sua natureza superior estiver enfer-
ma” Apolônio de Tiana Nascido em algum momento dos
primeiros anos da era Cristã

A polônio de Tiana (provavelmente entre 1


Vida e Obra de foi o mais famo- e 10 d.C.) em Tiana na
Apolônio de 1 so filósofo do mundo Capadócia, Turquia ou
Tiana Ásia Menor como era
greco-romano do pri-
meiro século, e devo- conhecida na época,
tou a maior parte de Apolônio de Tiana teve
A Egrégora — pais aristocratas, de
22 sua longa vida à purifi-
Michèle Séguret antiga linhagem e fortu-
cação dos muitos cul-
tos do Império e à na considerável. Muito
instrução dos minis- cedo deu mostras de
Instruções para
24 tros e sacerdotes de uma memória prodigio-
Jejum sa e de uma grande dis-
suas religiões. Com a
exceção de Cristo, posição para os estu-
O Mito de Per- nenhum personagem dos, além de ser de
23 uma beleza notável.
seu e Medusa mais interessante apa-
receu na cena da his- Busto de Apolônio de Tiana, Aos quatorze anos foi
Sobre o Ilumi- tória ocidental nesses enviado a Tarso, um
nismo — Joseph no museu de Nápoles, Itália famoso centro de estu-
27
primeiros anos. São
de Maistre muitas, variadas e freqüentemente dos da época, para
(1754 – 1821) contraditórias, as opiniões sobre completar sua instrução. Porém, seu
Apolônio. Além de seu ensino públi- temperamento sério não se acomo-
Contos co, ele teve uma vida à parte, uma dava ao estilo de vida das escolas e
29
Espirituais vida na qual nem mesmo seu discípu- mudou-se para Egue, cidade no lito-
lo favorito entrou. Ele viajou para as ral de Tarso onde encontrou o am-
terras mais distantes, e perdeu-se biente adequado para mergulhar nos
para o mundo por anos inteiros. En- estudos da filosofia.
trava nos santuários dos templos
mais sagrados e nos círculos inter- Freqüentava o templo de Esculápio,
nos das comunidades mais fechadas, onde curas ainda eram realizadas, e
Página 2 Boletim da Sociedade das Ciências Antigas

desfrutou da sociedade e instrução de discí- entre Apolônio e seu irmão mais velho, um
pulos e instrutores das escolas de filosofia jovem dissoluto de 23 anos. Como ainda era
Platônica, Estóica, Peripatética e Epicurista. menor, Apolônio continuou a morar em
Mas, dentre todos esses sistemas de pensa- Egue, mas chegando à maioridade voltou a
mento, foram as lições da escola Pitagórica Tiana para tentar salvar seu irmão de sua vi-
que ele absorveu com uma extraordinária e da de vícios. Seu irmão aparentemente já ti-
profunda compreensão, mesmo que seu pro- nha dissipado sua parte da herança e Apolô-
fessor, Euxeno, não fosse um praticante da nio imediatamente deu-lhe metade de sua
disciplina. Mas ouvir falar não era suficiente própria parte e, com conselhos amorosos,
para Apolônio e, aos dezesseis anos ele inici- devolveu-o ao mundo. Depois distribuiu o
ou-se na vida Pitagórica. restante de seu patrimônio entre alguns pa-
rentes, mantendo para si apenas uma mínima
parte.

Nessa época fez um voto de silêncio por cin-


co anos, que foram passados na Panfília e na
Cilícia. Mas, ainda que passasse muito tempo
em estudo, não se isolou do mundo, mas
manteve-se em movimento e viajava de cida-
de em cidade. Nem mesmo a disciplina do
silêncio o impedia de fazer o bem. Já nessa
tenra idade ele havia começado a corrigir
Planície de Tiana abusos e com os olhos, as mãos e movimen-
tos da cabeça, fazia-se entender.
Quando Euxeno perguntou-lhe como ele ini-
ciaria seu novo modo de vida ele respondeu: Por Filóstrato, seu biógrafo, sabemos que
“Como o doutor purga seus pacientes”. Daí Apolônio passou algum tempo entre os Ára-
em diante ele se recusava tocar qualquer coi- bes, e foi instruído por eles. Os locais que
sa que tivesse tido vida animal, considerando visitava ficavam fora das rotas, longe das po-
que isso densifica a mente e a torna impura. pulosas e agitadas cidades. Dizia que o tema
Ele considerava que a única forma de alimen- de sua conversação requeria “homens, e não
tação pura era a produzida pela terra: frutas povo”. Ele passou o tempo viajando de um a
e vegetais. Também se abstinha do vinho, outro desses templos, santuários e comuni-
pois mesmo sendo feito de frutas, “tornava o dades, o que nos leva a crer que havia entre
éter túrbido na alma”, e “destruía a compos- eles algo em comum, da natureza de uma
tura da mente”. Andava descalço, deixou seu iniciação, que lhe franqueava as portas de sua
cabelo crescer livremente, e vestia-se somen- hospitalidade.
te com tecidos de linho. Agora vivia no tem-
plo, para a admiração dos sacerdotes e rapi- Mas onde quer que estivesse, sempre obser-
damente se tornou tão famoso por seu asce- vava uma divisão regular do dia. Ao nascer
tismo e vida pia, que uma frase dos cilícios do sol praticava certos exercícios religiosos
sobre ele (“Para onde estão correndo? sozinho, cuja natureza ele só transmitia a
Apressam-se para ver o jovem?”) se tornou quem passasse pela disciplina dos “cinco
um provérbio. anos” de silêncio. Então palestrava com os
sacerdotes do templo ou com os líderes das
Quando tinha vinte anos seu pai morreu (sua comunidades, conforme estivesse num tem-
mãe havia morrido alguns anos antes), dei- plo grego ou não-grego com ritos públicos,
xando considerável fortuna, a ser dividida ou numa comunidade com uma disciplina
Volume 1I, edição XV Página 3

própria, à parte do culto público. Incansável viajante


Procurava devolver aos cultos públicos a pu-
reza de suas antigas tradições e sugeria me- Assim Apolônio começou sua vida de via-
lhoramentos nas práticas das irmandades pri- gens. No caminho, provavelmente entre 41 e
vadas. A parte mais importante de seu traba- 54 d.C., na Pérsia, conheceu seu discípulo
lho era com aqueles que estavam seguindo a Damis (“Vamos juntos” – dissera Damis. “Tu
vida interior e que já olhavam Apolônio co- seguirás a Deus e eu a Ti”). Passou pela Babi-
mo um instrutor do caminho oculto. A esses lônia, Tróia, Chipre e Grécia onde se iniciou
discípulos devotava muita atenção, estando nos mistérios de Elêusis. Em 66 d.C. já em
sempre pronto para responder suas pergun- Roma, tentou introduzir junto com o Papa
tas e dar conselhos e instrução. Não negli- Lino, reformas religiosas mas fugiu de lá devi-
genciava o povo, pois era seu costume invari- do às perseguições de Nero. Viajou para a
ável ensiná-lo, pois os que viviam a vida inte- Espanha, Norte da África e Alexandria, no
rior, ele dizia, deveriam no início do dia en- Egito.
trar na presença dos Deuses, isto é, passar
algum tempo em meditação silenciosa. De- Deste ponto em diante Filóstrato baseia-se
pois, passar o tempo até o meio-dia dando e na narrativa de Damis que amava Apolônio
recebendo instrução nas coisas santas, e só com um afeto apaixonado. Ele via em seu
depois devotar-se aos afazeres humanos. Isto mestre um ser quase divino, possuidor de
é, a manhã era devotada por Apolônio à ci- poderes maravilhosos que o assombravam,
ência divina, e a tarde, à instrução em ética e mas que jamais pôde entender. Damis avan-
na vida prática. Depois do trabalho do dia ele çou lentamente na compreensão da real na-
se banhava em água fria, como faziam tantos tureza da ciência espiritual, como tantos dis-
cípulos. Ele sempre ficava nos recintos exter-
místicos da época.
nos dos templos e das comunidades a cujos
Diz Filóstrato que Apolônio resolveu visitar santuários e círculos internos Apolônio tinha
os “Brachmanes” e “Sarmanes” (os Brâmanes pleno acesso e normalmente Damis ignorava
e os Budistas), mas o que o levou a empreen- os planos e propósitos de seu mestre. Ele
der essa longa e perigosa viagem não é escla- menciona isso, em suas notas, como as
recido por Filóstrato, que diz simplesmente “migalhas das festas dos Deuses”, os festejos
que Apolônio imaginou que viajar era algo que ele, na maioria das vezes só podia conhe-
bom para um jovem. Mas é evidente que cer de segunda mão pelo pouco que Apolô-
Apolônio jamais viajou meramente por amor nio julgava conveniente lhe contar. Mas está
da viagem, pois tudo o que ele fez, fez com claro que Damis estava fora do círculo da
iniciação e isso explica seu amor pelas mara-
um propósito específico.
vilhas e sua superficialidade.
E, nessa ocasião, em que seus discípulos ten-
tavam dissuadi-lo da viagem, seus guias, se- Apolônio foi um dos maiores viajantes co-
gundo suas palavras, eram a sabedoria e seu nhecidos da antigüidade. De Nínive Apolônio
orientador interior (“daimon”). “Já que sois vai para Babilônia, onde permanece um ano e
fracos de coração”, disse o peregrino solitá- oito meses, e visita as cidades vizinhas a
rio, “dou-vos meu adeus. Pois eu mesmo de- Ecbatana, a capital da Média. Da Babilônia até
vo ir onde quer que a sabedoria e meu eu a fronteira da Índia nenhum nome de cidade
interior me levarem. Os Deuses são meus é mencionado. A Índia foi atingida, provavel-
conselheiros e não posso fiar-me senão em mente, através do Passo Khaibar, pois a pri-
meira cidade que é mencionada é Taxila
suas direções”.
(Attock). Assim, seguem caminho através dos
tributários do Indo até o vale do Ganges e,
Página 4 Boletim da Sociedade das Ciências Antigas

finalmente, chegam ao “mosteiro dos sábios”, tro parece ter voltado ao Egito, pois Filóstra-
onde Apolônio passa quatro meses. Esse to fala brevemente dele ter passado algum
mosteiro provavelmente ficava no Nepal. tempo no Baixo Egito, e sobre visitas aos fe-
nícios, cilícios, jônios, aqueus, e também à
Quando volta segue este itinerário: Babilônia, Itália.
Ninus (Nínive), Antioquia, Selêucia, Chipre e
então a Jônia, onde passa um tempo na Ásia No ano 81 Domiciano tornou-se Imperador.
Menor, especialmente em Éfeso, Esmirna, Apolônio, que foi firme opositor das loucuras
Pérgamo e Tróia. Dali Apolônio cruza para de Nero, também criticou os atos de Domi-
Lesbos, e embarca para Atenas, onde passa ciano. Com isso tornou-se objeto de suspeita
alguns anos na Grécia, visitando os templos para o Imperador, mas em vez de permane-
da Hélade (Grego é o nome pelo qual os cer longe de Roma, determinou-se a enfren-
romanos designavam os helenos, habitantes tar o tirano face a face. Cruzando do Egito
da Hélade que ficou conhecida como Grécia), para a Grécia e tomando um barco em Co-
reformando seus ritos e instruindo os rinto, navegou pelo caminho da Sicília até
sacerdotes. A seguir o encontramos em Puteoli, e então até a boca do rio Tibre, e daí
Creta e depois em Roma, ao tempo de para Roma. Em Roma Apolônio foi preso e
Nero. depois libertado. Embarcando de Puteoli, no-
vamente voltou à Grécia, onde passou dois
Em 66 d.C. Nero emitiu um decreto proibin- anos. Então, uma vez mais, passou para a Jô-
do qualquer filósofo de permanecer em Ro- nia na época da morte de Domiciano, visitan-
ma, por isso Apolônio mudou-se para a Espa- do Esmirna e Éfeso e outros de seus lugares
nha. Desembarcou em Gades, a moderna favoritos. Então, sob algum pretexto, ele en-
Cádiz, mas parece ter ficado na Espanha por viou Damis para Roma e desapareceu. Espe-
um curto período. Dali cruzou para a África, cula-se que tenha empreendido outra viagem
e por mar, de novo, para a Sicília, onde visi- para o lugar amado acima de todos, a “terra
tou as principais cidades e templos. Então, dos sábios”.
após quatro anos, Apolônio voltou para a
Grécia. De acordo com alguns autores Apo- Domiciano foi morto em 96 d.C., e um dos
lônio estaria com 68 anos de idade. últimos atos registrados de Apolônio é sua
visão deste evento no momento em que
Do Pireu, cidade que inclui o principal porto acontecia. Sobre sua idade na época de seu
Grécia. Quios ou Quio (também grafada misterioso desaparecimento das páginas da
como Chios, Híos, Khios ou Chiou) é uma ilha história, Filóstrato diz que Damis não fala
localizada no mar Egeu, nosso filósofo nada, mas alguns, acrescenta, dizem que ele
embarca para Quios, depois para Rodes e estava com 80, alguns com 90, e outros mes-
então para Alexandria. Em Alexandria ele mo com 100 anos.
permanece algum tempo e tem vários
encontros com o futuro Imperador Seus trabalhos e sua Obra
Vespasiano. Depois empreende uma longa
viagem pelo Nilo até a Etiópia, além das
cataratas, onde visita uma interessante Vemos que a natureza dos negócios de Apo-
comunidade de ascetas chamados de lônio com os sacerdotes dos templos e com
os devotos da vida mística eram de caráter
Gimnosofistas.
íntimo e secreto. Portanto, não temos meios
Em seu regresso a Alexandria foi convidado de conhecê-los pelas narrativas de Damis e
por Tito, recém coroado Imperador, para Filóstrato. Só podemos especular através de
um encontro em Tarso. Depois desse encon- indicações externas.
Volume 1I, edição XV Página 5

O templo de Esculápio em Egue, onde Apo- palavras ocorrem em duas passagens, e em


lônio passou anos, era um dos inúmeros hos- ambas Filóstrato acrescenta que Apolônio as
pitais da Grécia, onde a arte da cura era pra- escreveu, o que demonstra que Filóstrato
ticada. Ali havia uma atmosfera carregada de deparou-se com elas em algum escrito ou
influências psíquicas onde os pacientes acor- carta de Apolônio e, portanto, são indepen-
riam para “consultar o deus”. Para fazê-lo era dentes do relato de Damis.
necessário passar por certas purificações
preliminares e seguir certas regras, prescritas O sentido dessa frase não é difícil de adivi-
pelos sacerdotes. Então passavam a noite no nhar: eles estavam na Terra, mas não perten-
santuário e em seu sono eram-lhes dadas ins- ciam a ela, pois suas mentes estavam estabe-
truções para a sua cura. Os sacerdotes devi- lecidas nas coisas do alto. Eram protegidos
am ser profundamente versados na interpre- pelos seus poderes espirituais inatos, dos
tação desses sonhos e em sua causa básica. quais temos tantos exemplos na literatura
Como Apolônio amava passar seu tempo no indiana e não possuíam nada exceto o que
templo, ele deve ter encontrado lá satisfação todos os homens possuiriam, se apenas de-
para suas necessidades espirituais e instrução senvolvessem o lado espiritual de seus seres.
na ciência interior. Mas esta explicação não é suficientemente
simples para Filóstrato, e então ele recorre a
Em sua viagem à Índia Apolônio viu muitos todas as memórias de Damis, ou antes, às
magos na Babilônia. Ele costumava visitá-los lendas de viajantes, sobre levitação, ilusões
ao meio-dia e à meia-noite, mas o que acon- mágicas e etc. A ênfase principal da narrativa
tecia nesses encontros Damis não sabia, pois de Damis recai no conhecimento psíquico e
Apolônio não permitia que o acompanhasse, espiritual dos sábios. Eles sabem o que se
e ao responder à sua pergunta direta dizia passa à distância, podem revelar o passado e
somente: “Eles são sábios, mas não em todas o futuro, e ler as vidas passadas dos homens.
as coisas”.
Sobre a natureza da visita de Apolônio, con-
A descrição de certo edifício a que Apolônio tudo, podemos julgar a partir da misteriosa
tinha acesso lembra o interior do templo. O carta a seus hospedeiros: “Eu vim a vós por
telhado era em forma de cúpula, e o forro do terra e vós me destes o mar; não, antes, divi-
teto era coberto de “safiras”. Nesse céu azul dindo comigo vossa sabedoria vós me conce-
havia modelos dos corpos celestes, revesti- destes o poder de viajar pelos céus. Estas
dos de ouro, como se se movessem no éter. coisas eu trarei de volta à mente dos gregos,
Além disso, do teto estavam suspensos qua- e conversarei convosco como se estivésseis
tro “lygges” de ouro, que os magos chama- presentes, se eu não tiver bebido da taça de
vam de “Línguas dos Deuses”. Eram anéis ou Tântalo em vão”.
esferas aladas relacionadas à idéia de
“Adrasteia” (ou Destino). É evidente que o “mar” e a “taça de Tântalo”
são idênticos à “sabedoria” que foi concedida
A respeito dessa visita aos sábios indianos a Apolônio, a sabedoria que ele uma vez mais
não é possível concluir muito a partir da nar- traria de volta à memória dos gregos. Ele as-
rativa de Damis e de Filóstrato, porque o sume, assim, claramente que voltava da Índia
que Apolônio ouviu e viu lá não contou para com uma missão específica e com os meios
ninguém, nem mesmo para Damis, exceto o de levá-la a cabo, pois não apenas tinha bebi-
que poderia derivar da enigmática sentença: do do oceano da sabedoria no qual aprendeu
“Vi homens morando na Terra e ainda assim a Brahma-vidyâ (A ciência de Brahman; conhe-
sem estar nela, defesos de todos os lados, e cimento de Brahman; estudo relativo ao
mesmo assim sem defesa alguma, e possuin- Brahman ou a Realidade Absoluta.), mas tam-
do nada exceto o que todos possuem”. Estas bém aprendeu como conversar com eles es-
Página 6 Boletim da Sociedade das Ciências Antigas

tando seu corpo da Grécia e o deles na Índia. nho junto ao túmulo de Aquiles, um dos lo-
cais popularmente mais sagrados da Grécia.
Ao retornar à Grécia, um dos primeiros san- Não sabemos por que ele fez isso, pois a fan-
tuários que Apolônio visitou foi o de Afrodi- tástica conversa com a sombra do herói con-
te de Pafos, em Chipre. A maior peculiarida- tada por Filóstrato parece desprovida de to-
de exterior do culto pafiano da Vênus era a do elemento de verossimilhança. Mas como
representação da deusa por um misterioso Apolônio logo depois visitou a Tessália ex-
símbolo de pedra. Parece ter tido o tamanho pressamente para incitar os tessálios a reno-
de uma pessoa, mas com a forma de uma pi- var os antigos ritos tradicionais ao herói, é
nha com a superfície polida. Aparentemente de se supor que era parte de seu grande es-
Pafos era o mais antigo santuário dedicado a forço para restaurar e purificar a antiga insti-
Venus na Grécia. Seus mistérios eram muito tuição da Hélade, para que, com os canais
antigos, mas não autóctones, foram trazidos tradicionais liberados, a vida pudesse fluir
do continente, de onde depois se constituiu a melhor na nação.
Cilícia, em remota antigüidade. O culto ou
consulta à Deusa se fazia através de preces e Também se cogita que Aquiles teria dito a
da “pura labareda do fogo” e o templo era Apolônio onde encontrar a estátua do herói
um grande centro divinatório. Apolônio pas- Palámedes na costa da Eólia. Apolônio res-
sou algum tempo ali e instruiu os sacerdotes taurou a estátua, e Filóstrato nos diz que a
integralmente a respeito de seus ritos sagra- viu no local. Palámedes foi um dos heróis an-
dos. te Tróia que a lenda diz ter sido o inventor
das letras. Percebe-se que Apolônio via Palá-
medes como o herói-filósofo do período
Troiano, ainda que Homero quase não o
mencione.

Apolônio restaurou os ritos a Aquiles, e er-


gueu uma capela na qual colocou a estátua
desprezada de Palámedes. Também construiu
um recinto em torno do túmulo de Leônidas
nas Termópilas. Os heróis do período Troia-
no, pareceria, ainda guardavam uma relação
com a Grécia, de acordo com a ciência do
mundo invisível na qual Apolônio havia sido
iniciado. Em Lesbos Apolônio visitou o antigo
templo dos mistérios Órficos, que em dias
antigos havia sido um grande centro de pro-
fecia e divinação. Ali também lhe foi dado o
Em primeiro plano, ruínas do privilégio de entrar no santuário interno ou
Templo de Vênus, em Pafos adytum.

Na Ásia Menor ele apreciava especialmente o Chegou a Atenas na temporada dos Misté-
templo de Esculápio em Pérgamo; curou mui- rios Eleusinos e, apesar dos festivais e ritos o
tos doentes lá, e deu instruções no método povo e também os candidatos à iniciação fo-
correto a adotar a fim de se obter resultados ram ter com ele, negligenciando suas obriga-
ções religiosas. Apolônio censurou-os, e
confiáveis através dos sonhos prescritivos.
cumpriu os ritos preliminares necessários e
Em Tróia, Apolônio passou uma noite sozi- apresentou-se para a iniciação, ele que já ha-
Volume 1I, edição XV Página 7

via sido iniciado em privilégios maiores do de Abe, na Fócida, as “grutas” de Anfiarau


que os de Elêusis. As razões para essa atitude (um grande centro de divinação através de
não precisam ser procuradas: os Eleusinia sonhos) e Trofônio, e o templo das Musas no
constituíam uma das organizações intermedi- Helicão.
árias entre os cultos populares e os genuínos
círculos internos de instrução. Eles preserva- Quando entrava nos adyta desses templos
vam uma das tradições do caminho interior, com o intuito de restaurar os ritos, era
mesmo se seus oficiais naquela época hou- acompanhado somente pelos sacerdotes, e
vessem esquecido o que seus predecessores certos discípulos imediatos. Isso sugere uma
conheciam. Para restaurar estes antigos ritos ampliação do significado do termo
à sua pureza, ou para usá-los para seus fins “restauração” ou “reforma”, e quando lemos
originais, era necessário entrar nos recintos em outras partes sobre os muitos locais con-
da instituição, pois nada poderia ser feito de sagrados por Apolônio, não podemos pensar
fora. Apolônio desejava apoiar a instituição senão que parte de sua obra era a re-
dando o exemplo público de procurar a inici- consagração, e com isso a purificação psíqui-
ação ali. ca de muitos destes centros antigos. Seu
principal trabalho externo, contudo, foi ins-
Mas, fosse o hierofante da época ignorante truir e, como Filóstrato diz, “taças de suas
ou estivesse enciumado da grande influência palavras foram colocadas em todas as partes
de Apolônio, ele recusou-se a admiti-lo, ba- para o sedento delas beber”.
seado na alegação de que ele era um feiticei-
ro e que ninguém tão impuro poderia ser Ele não só restaurou os ritos antigos da reli-
iniciado. Apolônio respondeu a acusação gião como também prestou muita atenção às
com ironia: “Vós omitistes a mais séria acusa- antigas constituições e instruções. Assim, o
ção que poderia ser lançada contra mim, isto é, encontramos instando os espartanos a retor-
que embora eu de fato conheça mais dos ritos narem ao seu antigo modo de vida, a seus
místicos do que seu hierofante, eu vim aqui simu- exercícios atléticos, sua vida frugal, e à disci-
lando desejar a iniciação de homens de maior plina da antiga tradição dórica. Acima de tu-
sabedoria que eu”. do, louvou especialmente a instituição dos
Jogos Olímpicos, cujo elevado padrão ainda
Afetado pelas palavras e atemorizado diante era mantido.
da indignação do povo pelo insulto feito ao
seu ilustre convidado e assombrado pela pre- Na primavera de 66 d.C., ele deixou a Grécia
sença de um conhecimento que ele já não indo a Creta, onde parece ter passado a mai-
podia negar, o hierofante implorou para nos- or parte de seu tempo nos santuários do
so filósofo aceitar a iniciação. Mas Apolônio Monte Ida e no templo de Esculápio em Lê-
recusou. “Eu serei iniciado mais tarde. Ele me bene. Mas, curiosamente, recusou-se a visitar
iniciará”. Diz-se que se referia ao próximo o famoso Labirinto em Cnossos, cujas ruínas
hierofante, que presidia quando Apolônio foi haviam sido recém descobertas provavel-
iniciado, quatro anos mais tarde. Durante sua mente porque uma vez foi centro de sacrifí-
estada em Atenas, Apolônio falou aspera- cios humanos.
mente contra a afeminação das Bacanálias e
as barbaridades dos combates de gladiadores. Em Roma Apolônio continuou seu trabalho
de reformar os templos, mas sua permanên-
Os templos, mencionados por Filóstrato, que cia na cidade imperial foi bruscamente inter-
Apolônio visitou na Grécia, têm a peculiari- rompida, pois em outubro Nero coroou sua
dade de serem muito antigos. Por exemplo, perseguição dos filósofos publicando contra
Dodona, Delfi, o antigo santuário de Apolo eles um decreto de banimento. A seguir o
Página 8 Boletim da Sociedade das Ciências Antigas

encontramos na Espanha, fazendo seu quartel jornada até a Etiópia, Nilo acima, nenhuma
-general no templo de Hércules em Cádiz. cidade, templo ou comunidade deixou de ser
visitado. Em todos os lugares havia um inter-
Retornando à Grécia via África e Sicília, onde câmbio de conselhos e instrução nas coisas
visitou Etna, ele passou o inverno (talvez de sagradas.
67 d.C.?) em Elêusis, vivendo no templo e na
primavera do ano seguinte, embarcou para Apolônio nas obras de historiadores,
Alexandria, onde passou algum tempo, a ca-
minho de Rodes. A cidade da filosofia e do filósofos e dos Padres
ecletismo recebeu-o de bra-
ços abertos. Mas reformar
Além da “Vida de Apolô-
os cultos públicos do Egito
nio”, escrita por Flávio Filó-
foi um trabalho muito mais
strato no começo do sécu-
difícil do que qualquer ou-
lo III, há referências sobre
tro. Apolônio entre os escrito-
res clássicos e entre os Pa-
Sua presença no templo de
dres da Igreja. Luciano, es-
Serápis inspirou respeito
critor da primeira metade
universal, tudo sobre ele e
do século II, usa como tema
cada palavra que pronuncia-
de uma de suas sátiras o
va parecia emanar uma at-
aluno de um discípulo de
mosfera de sabedoria e de
Apolônio. Apuleio, um con-
“algo divino”. O sumo-
temporâneo de Luciano,
sacerdote do templo per-
classifica Apolônio junto
guntou com desdém: “Quem
com Moisés e Zoroastro e
é sábio o suficiente para refor-
outros Magos famosos da
mar a religião dos egípcios?”
A resposta de Apolônio: antigüidade.
“Qualquer sábio que venha da
Pela mesma época, a obra
parte dos indianos”. Aqui,
“Quaestiones et Responsiones
como em toda parte, Apo-
ad Orthodoxos” (Perguntas e
lônio opôs-se ao sacrifício
Respostas aos Ortodoxos),
sangrento e tentou substituí
atribuída a Justino, o Mártir,
-lo, como fizera noutros
encontramos a seguinte de-
lugares, pela oferenda de
claração: “Pergunta 24: Se
incenso moldado com a for-
Deus é o autor e mestre da
ma da vítima. Tentou refor-
criação, como os objetos con-
mar muitos abusos do comportamento do
sagrados de Apollonius têm poder nas várias or-
povo, mas foi mais severo com sua selvagem
dens desta criação? Pois, como nós vemos, eles
excitação pelas corridas de cavalos, que fre-
acalmam a fúria das ondas e o poder dos ventos
qüentemente acabavam com derramamento
e impedem o ataque dos vermes e das bestas
de sangue.
selvagens”.
Apolônio parece ter passado a maior parte
Dion Cássio entre 211 e 212 d.C., diz que
dos vinte anos restantes de sua vida no Egito,
Caracala (Imperador entre 211 e 216) hon-
mas por Filóstrato não podemos saber nada
rou a memória de Apolônio com uma capela
do que ele fez nos secretos santuários da-
ou monumento. Foi nessa época (216) que
quela terra de mistérios, exceto que na longa
Volume 1I, edição XV Página 9

Filóstrato compôs sua “Vida de Apolônio”, a entusiástico sobre Apolônio, que prometeu
pedido de Domna Julia, a mãe de Caracala. que se vivesse, escreveria uma breve história
Lamprídio, informa-nos que Alexandre Seve- de sua vida em latim, para que seus feitos e
ro (Imperador entre 222 e 235) colocou a palavras pudessem estar na língua de todos,
estátua de Apolônio em seu lararium pois até então os únicos relatos eram em
(espécie de capela onde os romanos coloca- grego. Esses relatos provavelmente foram os
vam as imagens de seus deuses protetores livros de Máximo, Merágenes e Filóstrato.
do lar) junto com as de Cristo, Abraão e Or- Vopisco, entretanto, não cumpriu sua pro-
feu. Vopisco, escrevendo na última década do messa, mas sabemos que perto desta data
século III, nos conta que Aureliano tanto Sotérico (um poeta épico Egípcio)
(Imperador entre 270 e 275) dedicou um quanto Nicômaco escreveram Vidas sobre
templo a Apolônio, de quem ele tivera uma nosso filósofo, e logo depois Tácio Vitoriano,
visão quando sitiava Tiana que se tinha rebe- trabalhando sobre as obras de Nicômaco
lado contra as leis romanas. Ele contou que também compôs uma Vida. Nenhuma destas
durante o cerco, teve um sonho ou uma vi- Vidas, contudo, chegou até nós.
são, em que Apolônio falava com ele, supli-
cando-lhe poupar a cidade de seu nascimen- Também foi exatamente neste período, os
to. À parte, Aureliano contou que Apolônio últimos anos do século III e os primeiros do
lhe disse "Aureliano, se você deseja governar, IV, que Porfírio e Jâmblico compuseram seus
abstenha-se do sangue dos inocentes! Aureli- tratados sobre Pitágoras e sua escola. Ambos
ano, se você conquistar, seja misericordio- mencionam Apolônio como uma de suas au-
so!" O Imperador, que admirava Apolônio, toridades, e é provável que as primeiras 30
poupou desse modo a cidade. estâncias de Jâmblico sejam tomadas de Apo-
lônio.

Agora chegamos a um incidente que arre-


messa o caráter de Apolônio na arena da po-
lêmica Cristã, onde tem sido debatido até os
dias de hoje. Hiérocles, sucessivamente go-
vernador de Palmira, da Bitínia e de Alexan-
dria e filósofo, por volta do ano 305 escreveu
uma crítica sobre as reivindicações Cristãs,
em dois livros, intitulada “Um Apelo Verdadei-
ro aos Cristãos”, ou “O Amante da Verdade”.
Ele parece ter-se baseado em grande parte
no trabalho anterior de Celso e Porfírio, mas
introduziu um novo tema de controvérsia ao
Lúcio Domício Aureliano contrapor as obras maravilhosas de Apolônio
à reivindicação dos Cristãos de direito exclu-
Vopisco fala dele como “um sábio da mais sivo sobre “milagres”, como prova da divin-
larga fama e autoridade, um antigo filósofo, e dade de seu Mestre. Nesta parte de seu tra-
um verdadeiro amigo dos deuses”, e mais, co- tado, Hiérocles usa a Vida de Apolônio, de
mo uma manifestação da deidade. “Pois quem Filóstrato.
dentre os homens foi mais santo, quem mais
digno de reverência, quem mais venerável, quem A esta pertinente crítica de Hiérocles, Eusé-
mais divinal que ele? Ele foi quem deu vida aos bio de Cesaréia imediatamente replicou em
mortos. Ele foi quem operou e disse tantas coi- um tratado (que ainda existe) intitulado
sas além do poder dos homens”. Vopisco é tão “Contra Hieroclem”. Eusébio admite que Apo-
Página 10 Boletim da Sociedade das Ciências Antigas

lônio era um homem sábio e virtuoso, mas Apolônio era “muito superior” àquele atribu-
nega que haja provas suficientes de que as ído a Júpiter, no que se tratava de virtude.
maravilhas atribuídas a ele tenham mesmo
ocorrido, e se ocorreram, foram obra de Poucos anos depois, Sidônio Apolinário, Bis-
“daimons” (na tradução contemporânea, de- po de Claremont, fala de Apolônio nos mais
mônio). altos termos. Sidônio traduziu a Vida de
Apolônio para o latim para Leão, conselheiro
Depois a controvérsia reencarnou no século do Rei Eurico, e escrevendo para seu amigo,
XVI, e quando a hipótese de ser o “Diabo” a diz: “Lêde a vida de um homem que, religião à
causa primeira de todos os “milagres”, exce- parte, se assemelha à vossa em muitos pontos;
to os da Igreja, perdeu sua força com o pro- um homem procurado pelos ricos, ainda que
gresso do pensamento científico, a natureza jamais tenha procurado riquezas; que amava a
dos prodígios relatados na Vida de Apolônio sabedoria e desprezava o ouro; um homem fru-
ainda era uma dificuldade tão grande que deu gal em meio a festins, vestido de linho no meio
origem a uma nova hipótese, a de plágio. A dos purpurados, austero no meio da luxúria...
vida de Apolônio seria um plágio pagão da Enfim, falando claramente, talvez nenhum histo-
vida de Jesus. Mas Eusébio e os Padres que o riador encontrará nos tempos antigos um filósofo
seguiram não suspeitavam disto, pois viveram cuja vida fosse igual à de Apolônio”.
numa época em que tal asserção poderia ter
sido facilmente refutada. Não há uma só pala- Assim vemos que mesmo entre os Padres da
vra em Filóstrato que demonstre ter ele al- Igreja as opiniões se dividiam enquanto que
gum conhecimento da vida de Jesus e, pode- entre os filósofos o louvor a Apolônio era
mos somente dizer que como plagiador da ardente. Amiano Marcelino, amigo de Juliano,
história do Evangelho, Filóstrato é um óbvio o Imperador filósofo, refere-se ao Tianeu
fracasso. Filóstrato escreve a história de um como “aquele celebérrimo filósofo”, enquanto
homem bom e sábio, um homem com a mis- que uns poucos anos depois Eunápio, discípu-
são de ensinar, revestida das maravilhosas lo de Crisâncio, um dos professores de Julia-
histórias preservadas na memória e embele- no, escrevendo nos últimos anos do século
zadas pela imaginação de uma posteridade IV, diz que Apolônio era mais que um filóso-
indulgente, mas não o drama da Deidade en- fo, era “um meio-termo, por assim dizer, entre
carnada como o cumprimento da profecia os deuses e os homens”, significando com isso
mundial. presumivelmente alguém que tinha atingido o
grau de ser superior ao homem, mas ainda
Mas, mesmo depois da controvérsia, ainda não igual aos deuses. Não só Apolônio era
existe uma larga diferença de opinião entre um adepto da filosofia Pitagórica, mas
os Padres, pois já no fim do século IV João “exemplificou plenamente o seu lado mais divino
Crisóstomo, com grande mordacidade, cha- e prático”. Esta apreciação aparentemente
ma Apolônio de enganador e fazedor de más exagerada talvez encontre uma explicação no
obras, e declara que todos os incidentes de fato de que Eunápio pertenceu a uma escola
sua vida são ficção desqualificada. Jerônimo, que conhecia a natureza das realizações atri-
ao contrário, na mesma época assume uma buídas a Apolônio.
posição quase favorável, pois, após ler Filó-
strato, escreve que Apolônio encontrou em Mesmo depois do declínio da filosofia encon-
toda parte algo que aprender e algo por on- tramos Cassiodoro, que passou os últimos
de se tornar um homem melhor. No começo anos de sua longa vida em um mosteiro, fa-
do século V também Agostinho, enquanto lando de Apolônio como o “renomado filóso-
ridiculariza qualquer tentativa de comparar- fo”. Do mesmo modo entre os autores bi-
se Apolônio com Jesus, diz que o caráter de zantinos, o monge George Syncellus, no sé-
Volume 1I, edição XV Página 11

culo VIII, refere-se diversas vezes ao nosso suas múltiplas formas, mas também tomou
filósofo, e não apenas despido de toda a críti- parte decisiva, embora indireta, na influência
ca adversa, mas declarando que ele foi a pri- dos destinos do Império através de seus go-
meira e mais notável de todas as eminências vernantes supremos.
que surgiram no Império. Tzetzes, crítico e
gramático, chama Apolônio de “todo-sábio e
ante-conhecedor de todas as coisas”.

Apolônio voltou à memória do mundo, de-


pois do esquecimento na idade das trevas,
sob maus auspícios. Desde o início a antiga
controvérsia Hiérocles-Eusébio foi ressusci-
tada, e todo o assunto foi de uma vez retira-
do da calma região da filosofia e história e
arremessado mais uma vez na tumultuosa
arena do amargor e do preconceito religio-
sos. Durante muito tempo Aldus hesitou em Moeda com a efígie de Apolônio
publicar o texto de Filóstrato, e finalmente Sua influência era invariavelmente de nature-
só o fez em 1501, com o texto de Eusébio za moral e não política e era levada a cabo
como apêndice, para que, como ele piamente através de conversas e instrução filosóficas,
diz, “o antídoto possa acompanhar o veneno”. pela palavra falada ou escrita. Do mesmo
Junto apareceu uma tradução latina do flo- modo que Apolônio em suas viagens conver-
rentino Rinucci. A tradução de Rinucci foi sou sobre filosofia, e discursou sobre a vida
retificada por Beroaldus e impressa em Lion de um homem sábio e sobre os deveres de
(1504?), e novamente em Colônia em 1534. um governante sábio com reis, governantes e
magistrados, também tentou aconselhar para
Bacon e Voltaire falam de Apolônio nos mais seu bem os imperadores que se dispunham a
altos termos e mesmo um século antes de
Voltaire, o deísta inglês Charles Blount. As ouvi-lo.
notas de Blount, geralmente atribuídas a Vespasiano, Tito e Nerva eram, antes de sua
Lord Herbert, suscitaram tamanha gritaria elevação à púrpura, amigos e admiradores de
que o livro foi condenado em 1693, e sobre- Apolônio, enquanto que Nero e Domiciano
vivem poucas cópias. As notas de Blount, en-
tretanto, foram traduzidas para o francês um olhavam o filósofo com temor.
século mais tarde, nos dias do Enciclopedis- Durante a breve estada de Apolônio em Ro-
mo, e anexas a uma versão da Vita, – A Vida ma, em 66 d.C., mesmo que nem uma só pa-
de Apolônio de Tíana, por Filóstrato, com os lavra lhe houvesse escapado que pudesse ser
Comentários feitos em Inglês por Charles transformada em um pronunciamento traidor
Blount sobre os Primeiros Livros desta Obra. pelos numerosos informantes, ainda assim foi
levado perante Tigelino, o infame favorito de
Apolônio e os governantes Nero, e submetido a um cerrado interroga-
tório. Aparentemente, até essa época, Apo-
do Império lônio estava trabalhando para o futuro, e ti-
nha restringido sua atenção inteiramente à
Apolônio não só vivificou e reconsagrou os reforma da religião e à restauração das anti-
antigos centros religiosos por algum motivo gas instituições das nações, mas a tirânica
desconhecido para nós, e fez o que pôde pa- conduta de Nero, que não deu paz nem mes-
ra ajudar a vida religiosa do seu tempo em mo ao mais inatacável dos filósofos, abriu
Página 12 Boletim da Sociedade das Ciências Antigas

completamente seus olhos para um mal mais tenha sido posto em julgamento e todos os
imediato, que parecia ser nada menos que a esforços tenham sido feitos para prová-lo
ab-rogação da liberdade de consciência por culpado de complô traidor com Nerva, ele
uma tirania irresponsável. Daí em diante, não pôde ser indiciado por nada de natureza
portanto, encontramo-lo vivamente interes- política. Nerva era um bom homem, disse ao
sado nas pessoas dos imperadores seguintes. Imperador, e não um traidor. Não que Do-
miciano tivesse realmente alguma suspeita de
Na verdade, Damis, ainda que confesse sua que Apolônio estivesse pessoalmente intri-
inteira ignorância do propósito da viagem de gando contra ele. Foi colocado na prisão so-
Apolônio à Espanha depois de sua expulsão mente na esperança de que poderia induzir o
de Roma, presume que tenha sido para apoi- filósofo a revelar as confidências de Nerva e
ar a iminente revolta contra Nero. Ele conje- outros homens eminentes que lhe eram ob-
tura isso a partir de três dias de entrevistas jetos de suspeita, e que ele imaginava que
secretas de Apolônio com o Governador da tinham consultado Apolônio sobre suas
Província da Bética, que veio a Cádiz especi- chances de sucesso. Mas os negócios de
almente para vê-lo, e declara que as últimas Apolônio não eram com a política, mas com
palavras do visitante de Apolônio foram: “os príncipes que lhe pediam conselho sobre a
“Adeus, e lembre-se de Vindex”. virtude”.

É verdade que quase imediatamente depois Profeta e Taumaturgo


irrompeu a revolta de Vindex. Mas toda a
vida e caráter de Apolônio são opostos a
qualquer idéia de intriga política, ao contrá- Apolônio não foi somente um filósofo, no
rio, ele bravamente contestou a tirania e a sentido de ser um especulador teórico ou de
injustiça face a face. Ele se opunha à idéia de ser o seguidor de um modo de vida organiza-
Eufrates, um filósofo de perfil muito diverso, do, escolado na disciplina da renúncia. Ele foi
que teria posto um fim na monarquia e res- também um filósofo no sentido Pitagórico
taurado a república, ele acreditava que o go- original do termo, um conhecedor dos segre-
verno por um monarca era o melhor para o dos da Natureza, e assim podia falar, como
Império, mas desejava acima de tudo ver “o alguém que tinha autoridade.
rebanho da humanidade” conduzido por “um
Ele conhecia o lado oculto das coisas da Na-
pastor sábio e fiel”.
tureza por experiência e não por ouvir dizer.
De modo que embora Apolônio tenha apoia- Para ele a senda da filosofia era uma vida por
do Vespasiano enquanto ele tentou realizar onde o próprio homem se tornava um ins-
dignamente seu ideal, imediatamente censu- trumento do conhecimento. A religião, para
rou-o pessoalmente quando ele privou as Apolônio, não era somente uma fé, era uma
cidades gregas de seus privilégios. “Vós escra- ciência. Para ele o espetáculo das coisas eram
vizastes a Grécia”, ele escreveu. “Vós reduzis- aparências sempre mutantes. Cultos e ritos,
tes um povo livre à escravidão”. De qualquer religiões e crenças, para ele eram todos um
maneira, a despeito de sua censura, Vespasia- só, considerando o espírito correto que jazia
no, em sua última carta a seu filho Tito, con- por trás deles. O Tianeu não via diferenças
fessou que eles eram o que eram exclusiva- de raça ou credo, essas estreitas limitações
mente por virtude do bom conselho de Apo- não eram para ele.
lônio.
Acima de todos os outros ele deve ter rido
Da mesma forma ele viajou a Roma para en- diante da palavra “milagre” aplicada aos seus
contrar Domiciano face a face, e mesmo que feitos. A maioria dos registros de taumatur-
Volume 1I, edição XV Página 13

gia de Apolônio são casos de profecias ou de estado de perpétua inspiração. E assim,


previsão, de visão à distância e visão do pas- sabemos que Apolônio era informado de to-
sado, de ver ou ouvir durante uma visão, de das as coisas desta natureza pela energia de
curar os casos de obsessão ou possessão. sua natureza “daimônica”. Mas, para os estu-
Ainda jovem, no templo de Egue, Apolônio dantes das escolas Pitagórica e Platônica, o
deu sinais da posse dos rudimentos desta “daimon” de um homem era aquilo que po-
percepção psíquica. Não só sentiu correta- dia ser chamado o Eu Superior, o lado espiri-
mente a natureza do passado sombrio de um tual da alma distinto do puramente humano.
rico, mas indigno suplicante que desejava a É a melhor parte do homem, e quando sua
restauração de sua visão, mas previu, ainda consciência física é unificada com o
que obscuramente, o mau fim de um que ha- “morador do céu”, ele tem, de acordo com a
via atentado contra sua inocência. filosofia mística mais elevada da antiga Grécia,
enquanto ainda na Terra, os poderes daque-
Ao encontrar Damis, seu futuro fiel criado les seres incorpóreos intermediários entre
ofereceu seus serviços para a longa jornada à os Deuses e os homens chamados
Índia considerando que conhecia as línguas “daimones”. Um estado ainda mais elevado, e
dos diversos países por onde teriam que pas- o homem vivente se torna um Deus na Terra
sar. “Mas eu entendo-os todos, mesmo que ja- e num estágio ainda mais excelso ele se torna
mais tenha-lhes aprendido a língua”, respondeu uno com o Bem e então se torna Deus. Daí,
Apolônio, em sua maneira enigmática usual, e encontramos Apolônio rejeitando indignado,
acrescentou: “Não vos admireis que eu saiba as a acusação de magia levianamente levantada
línguas dos homens, pois eu conheço até o que contra ele, uma arte que atinge seus resulta-
eles nunca dizem”. E com isso ele queria dizer dos por meio do pacto com as entidades in-
simplesmente que podia ler os pensamentos feriores que enxameiam nos domínios exteri-
das pessoas, não que ele pudesse falar todas ores da Natureza interna. Nosso filósofo re-
as línguas. Mas Damis e Filóstrato não podi- pudiava igualmente a idéia de ser um profeta
am entender um fato tão simples da experi- ou adivinho. Com estas artes ele não tinha
ência psíquica e devem ter pensado que ele nenhuma relação, se alguma vez ele disse al-
sabia não apenas as línguas de todos os ho- go que parecia presciência, era não por adivi-
mens, mas também as dos pássaros e feras. nhação no sentido vulgar da palavra, mas de-
vido “àquela sabedoria que Deus revela ao
Em sua conversa com o monarca babilônio sábio”.
Vardan, Apolônio claramente reivindica pres-
ciência. Ele diz que é um médico da alma e As mais numerosas das maravilhas atribuídas
pode livrar o rei das doenças da mente, não a Apolônio são exemplos de tal presciência
só porque sabia o que tinha de ser feito, isto ou profecia. Devemos confessar que as frases
é, a disciplina adequada ensinada nas escolas registradas são frequentemente obscuras e
Pitagórica e similares, mas também porque enigmáticas, mas este é o caso usual neste
ele antevia a natureza do rei. De fato nos di- tipo de profecia, pois os eventos futuros são
zem que o assunto da presciência, de cuja vistos mais frequentemente em representa-
ciência Apolônio era um profundo estudioso, ções simbólicas, cujo significado não fica cla-
foi um dos principais tópicos discutidos por ro até ocorrer o evento, ou ouvidos em sen-
nosso filósofo e seus hóspedes indianos. tenças igualmente enigmáticas. Às vezes, en-
tretanto, temos exemplos de previsão muito
Como Apolônio fala ao seu amigo filosófico e acurados, como a recusa de Apolônio de em-
estudioso, o Cônsul romano Telesino, para barcar em um navio que veio a naufragar na
ele a sabedoria era um tipo de divinização ou viagem.
de tornar divina toda a natureza, uma espécie
Página 14 Boletim da Sociedade das Ciências Antigas

Os exemplos de visão de eventos presentes xandria, que estava a ponto de ser executado
à distância, contudo, como o incêndio de um junto com um grupo de criminosos. De fato,
templo em Roma, que Apolônio viu quando ele parece ter conhecido o passado secreto
estava em Alexandria, são claros o bastante. de muitos daqueles com quem entrava em
De fato, se as pessoas não soubessem mais contato.
nada do Tianeu, teriam pelo menos ouvido
falar como ele viu, em Éfeso, o assassinato de Se for crível que Apolônio teve sucesso ao
Domiciano em Roma, no exato momento de tratar de obscuros casos mentais, casos de
sua ocorrência. obsessão e possessão, de que nossos asilos e
hospitais estão cheios hoje em dia, e que em
Era meio-dia, segundo o relato de Filóstrato, sua maior parte estão além do âmbito da ci-
e Apolônio estava num dos pequenos par- ência oficial por sua ignorância dos verdadei-
ques ou jardins dos subúrbios, ocupado em ros fatores em operação, igualmente é evi-
dar uma preleção sobre algum tópico filosófi- dente que Damis e Filóstrato tinham pouco
co. “Primeiro ele baixou sua voz como se entendimento nesta matéria, e deram rédea
fosse tomado de alguma apreensão, contudo, larga à imaginação em suas narrativas. Talvez,
continuou sua exposição, mas vacilante e contudo, Filóstrato em alguns casos esteja só
com muito menos força do que antes, como repetindo a lenda popular, cujo melhor
um homem que tem outra coisa em sua men- exemplo é a cura da praga em Éfeso que o
te além daquela sobre a qual está falando. Tianeu havia previsto em tantas ocasiões. A
Finalmente ele cessou de todo de falar como lenda popular diz que a origem da praga esta-
se não pudesse encontrar as palavras. Então, va ligada a um velho mendigo, que fora soter-
olhando fixamente para o chão, deu três ou rado sob uma pilha de pedras pela multidão
quatro passos para frente, gritando: ‘Matem enfurecida. Quando Apolônio ordenou que
o tirano, matem!’ E isto, não como um ho- as pedras fossem removidas, viu-se que o
mem que vê uma imagem num espelho, mas que havia sido um homem tinha se tornado
como um que tem a própria cena diante de agora um cão enlouquecido espumando pela
seus olhos, como se ele mesmo estivesse boca. Por outro lado, o registro de Apolônio
tomando parte nela”. Voltando-se para sua “restituindo à vida” uma jovem de berço no-
atônita audiência, ele lhes disse o que vira. bre em Roma, é contado com grande mode-
Mas ainda que eles esperassem que fosse ração. Nosso filósofo parece ter encontrado
verdade, recusaram-se a acreditá-lo, como se o féretro por acaso, então ele subitamente
Apolônio estivesse fora de si. Mas o filósofo aproximou-se do leito, e depois de fazer al-
gentilmente respondeu: “Vós, de vossa parte, guns passes sobre a donzela, e dizer algumas
estais certos em adiar vosso regozijo até que palavras inaudíveis, “despertou-a de sua mor-
as notícias sejam trazidas a vós do modo usu- te aparente”. Mas, diz Damis, “se Apolônio
al, mas quanto a mim, agradecerei aos Deu- notou que a centelha da alma ainda vivia, o
ses pelo que eu mesmo vi”. que seus amigos deixaram de perceber – se-
gundo consta estava chovendo levemente e
Pouco admira, assim, se lemos não só sobre se via um tênue vapor em seu rosto, ou se
uma quantidade de sonhos simbólicos, mas ele fez a vida nela aquecer-se novamente e
sua interpretação correta, ser um dos ramos assim restaurando-a”, nem ele nem ninguém
mais importantes da disciplina esotérica da presente poderia dizer.
escola. Também não nos surpreendemos de
ouvir que Apolônio, baseado somente em De uma natureza nitidamente mais fenomêni-
seu conhecimento interior, foi útil obtendo a ca são as histórias de Apolônio causando o
libertação de um homem inocente em Ale- desaparecimento do que estava escrito nas
Volume 1I, edição XV Página 15

tabuletas de um de seus acusadores perante com a faca. Pois ele, em verdade, mantinha
Tigelino, ou removendo as cadeias de sua conversas com os deuses e aprendia deles o
perna para mostrar a Damis que ele realmen- que lhes agradava dos homens e o que lhes
te não era um prisioneiro, mesmo que esti- desagradava, e por isso possuía sua natureza
vesse acorrentado nas masmorras de Domi- sábia. Para o restante, dizia, consultava o divi-
ciano. E seu “desaparecimento” do tribunal. no, e mantinha opiniões sobre os deuses que
Essa expressão, porém, só deve ser tomada provavam ser falsas todas as outras, mas jun-
retoricamente, pois o incidente, em outra to a ele, declaradamente, chegava-se a alma
parte da narrativa, é contado nas palavras de Apolo, sem disfarce (isto é, não sob algu-
simples “quando ele deixou o tribunal”. ma “forma”, mas em sua própria natureza),
assim como se aproximavam, ainda que ocul-
Não devemos, pois, supor que Apolônio des- tamente, Atena e as Musas, e outros deuses
prezasse ou negligenciasse os estudos dos cujas formas e nomes a humanidade ainda
fenômenos físicos em sua devoção à ciência não conhecia”.
interna das coisas. Ao contrário, temos di-
versos exemplos de sua rejeição da mitologia Daí que seus discípulos considerassem Pitá-
em favor de uma explicação física dos fenô- goras como um professor inspirado, e rece-
menos naturais. Tais, por exemplo, são suas bessem suas regras como leis. “Em particular
explicações da atividade vulcânica do Etna, e eles mantinham a regra do silêncio a respeito
de um maremoto em Creta, acompanhado da ciência divina. Pois eles ouviam entre eles
de indicações corretas sobre a causa imedia- muitas coisas divinas e inenarráveis sobre as
ta da ocorrência. De fato uma ilha distante quais teria sido difícil manter silêncio, se não
havia explodido por causa de uma perturba- tivessem antes aprendido que era justamente
ção submarina, como mais tarde foi averigua- este silêncio que lhes falava”.
do. A explicação dos maremotos em Cádiz
também pode ser incluída na mesma catego- Esta era a declaração geral da natureza da
ria. disciplina Pitagórica pelos seus discípulos.
Mas, diz Apolônio em sua preleção aos Gim-
O modo de vida de Apolônio nosofistas, Pitágoras não foi o inventor disso.
Foi a sabedoria imemorial, e Pitágoras a havia
aprendido dos indianos. Essa sabedoria, con-
Nosso filósofo era um seguidor entusiasta da tinua, lhe havia falado em sua juventude. Ela
disciplina Pitagórica. Filóstrato quer nos fazer disse: “Pois sabei, jovem senhor, que não te-
acreditar que ele fez mais esforços sobre- nho encantos; minha taça está até a borda
humanos para alcançar a sabedoria do que cheia de fadigas. Abrace qualquer um meu
mesmo o grande Samiano. As formas exter- modo de vida, e deve resolver-se a banir de
nas dessa disciplina, como exemplificadas em sua mesa todo alimento que uma vez teve
Pitágoras, são deste modo resumidas pelo vida, deve perder a lembrança do vinho, e
autor: assim não mais poluir a taça da sabedoria – a
taça que realmente consiste de almas não
“Ele não usaria nada que proviesse de um manchadas pelo vinho. Nem a lã irá aquecê-
animal morto, nem tocaria num bocado de lo, nem nada feito de animais. Dou a meus
comida que anteriormente tivesse tido vida, servos sapatos de fibra, e nela eles podem
nem a ofereceria em sacrifício, nem mancha- dormir. E se os encontro entretidos nos de-
ria de sangue os altares, mas só bolos de mel leites amorosos, logo lhes trago aquela justi-
e incenso, e o serviço de sua canção, subiri- ça que segue os passos da sabedoria, para
am deste homem para os deuses, pois ele resgatá-los e corrigi-los; em verdade, sou tão
bem sabia que eles aceitariam tais presentes rigorosa com aqueles que escolhem meu ca-
muito mais que as centenas de bois imolados
Página 16 Boletim da Sociedade das Ciências Antigas

minho, que mesmo em suas línguas ponho seu modo de vida sobre os outros, mesmo
um ferrolho. Agora ouve de mim quais coisas sobre seus amigos e companheiros pessoais.
ganharás, se perseverares. Assim ele diz a Damis que não deseja proibi-
lo de comer carne e beber vinho, ele apenas
Um senso inato de prontidão e de correção, reserva-se o direito de abster-se e de defen-
e jamais sentir que o quinhão de outrem é der sua conduta se chamado a fazê-lo. Esta é
melhor que o próprio; eliminar pelo medo os uma indicação adicional de que Damis não
tiranos antes que ser um temeroso escravo era um membro do círculo interno da disci-
da tirania; ter tuas pobres ofertas mais aben- plina, e este último fato explica o porquê de
çoadas pelos deuses do que aqueles que lhes um seguidor tão fiel da pessoa de Apolônio
apresentam o sangue dos touros. Se és puro, ainda estivesse na escuridão. E não só isso,
conceder-te-ei como saber as coisas que vi- mas Apolônio mesmo dissuade o Rajá Frao-
rão, e encherei tanto teus olhos de luz que tes, seu primeiro hospedeiro na Índia, que
poderás reconhecer os deuses, os heróis, e desejava seguir sua observância estrita, de
provar e dominar as formas sombrias que fazê-lo, porque isso o afastaria muito de seus
assumem a forma de homens”. súditos.

Toda a vida de Apolônio demonstra que ele Três vezes por dia Apolônio orava e medita-
tentou seguir consistentemente esta regra de va: ao alvorecer, ao meio-dia, e no ocaso.
vida, e as repetidas declarações de que ele Isso parece ter sido seu costume invariável
jamais se juntaria aos sacrifícios sangrentos não importando onde ele estivesse. Parece
dos cultos populares, mas os condenava ter devotado pelo menos uns poucos mo-
abertamente, mostram não só que a escola mentos para a meditação silenciosa nesses
Pitagórica tinha sempre dado o exemplo do momentos. O objeto de seu culto é sempre
modo mais elevado de sacrificar puramente, dito ter sido o “Sol”, isto é, o Senhor de nos-
mas que eles não só não foram condenados e so mundo e seus mundos irmãos, cujo sím-
perseguidos como heréticos por causa disso, bolo é o orbe do dia.
mas foram antes considerados como sendo
de especial santidade, e como seguindo uma Quando foi a julgamento, não fez preparação
vida superior do que os mortais comuns. alguma para sua defesa. Ele tinha vivido sua
vida como ela se apresentava cotidianamente,
A restrição contra a carne de animais, entre- preparado para a morte, e assim continuaria.
tanto, não estava baseada simplesmente em Acima de tudo agora era sua escolha delibe-
idéias de pureza, tinha uma sanção adicional rada desafiar a morte pela causa da filosofia.
no amor positivo para com os reinos inferio- E diante das repetidas solicitações de seu ve-
res e o horror de infligir sofrimento a qual- lho amigo para que preparasse sua defesa,
quer criatura viva. Assim Apolônio aspera- replicou: “Damis, pareces ter perdido teu
mente recusou-se a tomar parte de uma ca- entendimento diante da morte, ainda que
çada, quando convidado a fazê-lo por seu re- tenhas estado tanto tempo comigo e eu te-
al hospedeiro na Babilônia. “Sire”, ele repli- nha amado a filosofia desde mesmo minha
cou, “esquecestes que mesmo quando sacrifi- juventude, imaginei que estarias tu mesmo
cardes não estarei presente? Muito menos preparado para a morte e igualmente conhe-
então farei estas feras morrerem, e todo o cias bem meu generalato nisto. Pois como os
resto quando seus espíritos forem quebrados guerreiros no campo de batalha necessitam
e forem constrangidos contra sua natureza”. não só de boa coragem, mas também daque-
le generalato que os avisa quando lutar, assim
Mas embora Apolônio fosse um irredutível devem os que amam a sabedoria fazer um
mestre de si mesmo, ele não desejava impor cuidadoso estudo das boas épocas de mor-
Volume 1I, edição XV Página 17

rer, para que possam escolher a melhor e não influenciava, e um sacerdote da religião
não encontrar a morte todos despreparados. universal em cujo vocabulário a palavra seita
Que eu escolhi e agarrei o momento que não existia.
segundo a sabedoria era o melhor para a
contenda mortal – isto é, se há alguém que A despeito de sua vida extremamente ascéti-
deseje matar-me – eu provei a outros amigos ca, ele era um homem de compleição forte.
quando estavas perto, tampouco cessei de Mesmo quando tinha alcançado os 80 anos,
ensinar-te isto em privado”. dizem, ele ainda era rijo e saudável em cada
membro e órgão, aprumado e perfeitamente
Sua pessoa, seus modos e formado. Havia ainda um certo charme inde-
finível em torno dele que o fazia mais agradá-
seus discípulos vel de ver do que o próprio frescor da juven-
tude, e mesmo que sua face estivesse cober-
ta de rugas, como o representavam as está-
Diz-se que Apolônio tinha uma bela aparên-
tuas no templo de Tiana no tempo de Filó-
cia, mas além disso não temos nenhuma indi-
strato. De fato, diz seu retórico biógrafo, os
cação muito precisa de sua pessoa. Seus mo-
relatos decantam mais o charme de Apolônio
dos eram sempre doces, gentis e modestos,
em sua idade provecta do que a beleza de
e nisto, diz Damis, ele parecia mais um india-
no do que um grego. Mas, ocasionalmente Alcebíades em sua juventude.
ele impreca, indignado contra alguma barbari-
Em resumo, nosso filósofo parece ter tido a
dade especial. Seu temperamento era fre-
presença mais encantadora e a disposição
qüentemente pensativo, e quando não estava
mais amável. Sua absoluta devoção à filosofia
falando mergulhava em profundos pensamen-
não teve uma natureza eremítica, pois ele
tos, durante o que seus olhos ficavam fixos
passou sua vida entre os homens. Não admi-
no chão. ra que tenha atraído tantos seguidores e dis-
cípulos. Teria sido interessante se Filóstrato
Ainda que, como vimos, fosse ferrenhamente
nos tivesse dito mais sobre estes
inflexível consigo mesmo, estava sempre
“Apolônicos”, como eram chamados e se
pronto para desculpar os outros. Se, por um
formavam uma escola distinta, ou se reuniam
lado aplaudia a coragem dos poucos que per-
em comunidades segundo o modelo Pitagóri-
maneceram com ele em Roma, de outro re-
co, ou se eram simplesmente estudiosos in-
cusou acusar de covardia os muitos que havi-
dependentes atraídos à personalidade domi-
am fugido. Mas sua gentileza não era de-
nante da época no campo da filosofia. Porém,
monstrada simplesmente pela abstenção de
é certo que muitos deles usavam a mesma
acusar, ele era sempre ativo em atos positi-
roupagem que ele e seguiam o seu modo de
vos de compaixão. vida. Também é feita repetida menção aos
acompanhantes de Apolônio em suas viagens,
Uma de suas poucas peculiaridades era gos-
às vezes até dez de uma vez, mas a nenhum
tar de ser chamado de “Tianeu”, mas não é
deles permitia ensinarem até que houvessem
dito o porquê disto. Dificilmente pode ter
sido porque Apolônio fosse particularmente cumprido o voto de silêncio.
orgulhoso de seu local de nascimento, pois
Os mais notáveis destes seguidores foram
mesmo que fosse um grande amante da Gré-
Musônio, que era considerado o maior filó-
cia, tanto que às vezes poderíamos chamá-lo
sofo da época depois do Tianeu, que foi a
de patriota entusiástico, seu amor pelos ou-
vítima especial da tirania de Nero, e Demé-
tros países era igualmente pronunciado. Apo-
trio, “que amava Apolônio” . Esses nomes
lônio era um cidadão do mundo, se jamais
são bem conhecidos da história, outros no-
houve algum, em cuja linguagem a terra natal
mes já desconhecidos são os do egípcio
Página 18 Boletim da Sociedade das Ciências Antigas

Dioscórides que, devido à má saúde, foi dei-


xado para trás na longa viagem à Etiópia. Me- “Quando entrais nos templos, pelo que re-
nipo, a quem livrara de uma obsessão. Fédi- zais?”, perguntou para nosso filósofo o Pontí-
mo e Nilo, que o seguiu deixando os Gimno- fice Máximo Telesino. “Eu rezo”, disse Apo-
sofistas e, é claro, Damis, que nos faz pensar lônio, “para que a retidão possa imperar, pa-
que estava sempre com ele desde a época de ra que as leis permaneçam intactas, para que
seu encontro em Ninus. o sábio seja pobre e os outros, ricos, mas
honestamente”.
Seus ditos e sermões
A fé de nosso filósofo no grande ideal de na-
da ter e ainda assim possuir todas as coisas é
Apolônio acreditava na oração, que era mui- exemplificada em sua réplica ao oficial que
to diferente da oração vulgar. Para ele a idéia demandava como ele pretendia entrar nos
de que os deuses pudessem ser desviados da domínios da Babilônia sem permissão. “Toda
senda da estrita justiça pelas súplicas dos ho- a Terra”, disse Apolônio, “é minha, e me é
mens era uma blasfêmia. Que os deuses pu-
dado que eu a percorra”.
dessem se tornar partidários de nossas espe-
ranças e temores egoístas, para nosso filóso- Há muitos exemplos de dinheiro sendo ofe-
fo era algo impensável. Só sabia de uma coisa: recido a Apolônio por seus serviços, mas ele
que os deuses eram os ministros do direito e invariavelmente recusava e não só isso, mas
os rígidos administradores do justo mereci- seus seguidores também recusavam todos os
mento. A crença comum, que persiste até presentes. Quando o Rei Vardan, com verda-
em nossos dias, de que Deus pode ser desvi- deira generosidade oriental, ofereceu-lhe
ado de Seu propósito, de que pactos poderi- presentes, foram devolvidos e Apolônio dis-
am ser feitos com Ele ou Seus ministros, era se: “Vêde, minhas mãos, ainda que muitas,
inteiramente desprezível para Apolônio. Se- são todas parecidas”. E quando o rei pergun-
res com quem pactos podiam ser feitos, que tou a Apolônio qual presente lhe traria para
podiam ser influenciados e obrigados, não da Índia, nosso filósofo replicou: “Um pre-
seriam deuses, mas menos que homens. As- sente que vos agradará, Sire. Pois se minha
sim encontramos Apolônio, jovem, conver- estada lá me tornar mais sábio, voltarei a vós
sando com um dos sacerdotes de Esculápio
melhor do que sou agora”.
nos seguintes termos:
Um exemplo de como Apolônio transforma-
“Já que os Deuses conhecem todas as coisas, va acontecimentos casuais em boas ilustra-
imagino que alguém que entre no templo ções é o seguinte: Certa vez em Éfeso, em
com uma consciência correta em si rezaria uma das estradas pavimentadas perto da ci-
assim: ‘Dai-me, oh deuses, o que me cabe!’” dade, ele estava falando sobre dividirmos
nossos bens com os outros, e como devería-
E assim também ele rezou, em sua longa jor- mos naturalmente ajudar uns aos outros. Um
nada à Índia, na Babilônia: “Deus do Sol, en- grupo de pardais estava pousado numa árvo-
via-me sobre a Terra até onde for bom para re próxima em perfeito silêncio. Subitamente
Ti e para mim e que eu possa conhecer o um outro pardal chegou voando e começou
bem, e jamais conhecer o mal ou ser conhe- a chilrear, como se quisesse dizer aos outros
cido por ele”. qualquer coisa. Imediatamente todo o bando
começou a pipilar também, e voaram todos
Uma de suas preces mais comuns era, segun- atrás do recém-chegado. A supersticiosa au-
do Damis, assim: “Concedei, oh Deuses, que diência de Apolônio ficou muito impressiona-
eu tenha pouco e não precise de nada”. da pelo comportamento dos pardais, e viu
Volume 1I, edição XV Página 19

nisso um augúrio de alguma coisa importante. sendeiros da sabedoria que nos dá a saúde”.
Também há um número de exemplos de res-
Mas o filósofo continuou seu sermão. O par- postas satíricas ou sarcásticas dadas por nos-
dal, disse ele, convidou seus amigos para um so filósofo, e de fato, a despeito de seu tem-
banquete. Um garoto escorregou em um peramento usualmente grave, ele às vezes
campo próximo e esparramou-se algum grão zombava de seus ouvintes, e às vezes, se po-
que ele carregava em uma bolsa; ele recolheu demos dizer assim, ironizava sua estultice.
a maior parte e foi-se embora. O pequeno
pardal, calhando de encontrar os grãos que Mesmo em tempos de grande perigo esta
sobraram, imediatamente voou para convidar característica se mostrava. Um bom exemplo
seus amigos para o festim. Então a maior par- é a resposta à delicada pergunta de Tigelino:
te da audiência correu para ver se era verda- “O que pensais de Nero?”. “Penso melhor
de, e quando voltaram todos gritando e ges- dele do que vós”, redargüiu Apolônio, “pois
ticulando maravilhados, o filósofo continuou: vós acreditais que ele deveria cantar, e eu
“Vêde que cuidado os pardais têm uns para penso que ele deveria manter-se em silên-
com os outros, e quão felizes ficam em com- cio”. Também sua resposta ao jovem Creso
partilhar seus bens. Mas nós homens não o (Creso, rei da Lídia, ficou famoso por sua
aprovamos antes, se vemos um homem divi- enorme riqueza) da época é tão irônica quan-
dindo seus bens com outros homens, chama- to sábia; “Jovem senhor”, disse ele, “penso
mo-lo de esbanjador, extravagante, e de ou- que não sois vós que possuís vossa casa, mas
tros nomes, e acusamos os homens que re- que vossa casa vos possui”. Do mesmo estilo
cebem a partilha de serem aduladores e pa- é a resposta a um glutão que jactava-se de
rasitas. O que nos resta então senão encer- sua gulodice. Ele copiava Hércules, dizia, que
rarmo-nos em casa como aves de engorda, e era famoso tanto pela comida que comia
empanturrarmos nossos estômagos na escu- quanto por seus trabalhos. “Sim”, disse Apo-
ridão até que rebentemos de gordura?” lônio, “pois ele era Hércules. Mas vós, que
virtude tendes, oh montanha de gordura? A
Em outra ocasião, em Esmirna, Apolônio, única coisa que chama a atenção em vós é a
vendo um navio ser carregado, usou a ocasi- possibilidade de explodirdes”.
ão para ensinar às pessoas a lição da coope-
ração. “Olhai a marujada!”, ele disse. “Vêde A despeito da roupagem literária que é posta
como alguns aprontaram os botes, alguns sobre os discursos mais longos de Apolônio,
subiram as âncoras e as prenderam, alguns eles contêm muitos nobres pensamentos,
dispuseram as velas para aproveitar o vento, como podemos ver pelas seguintes citações
como outros ainda verificaram a proa e a po- das conversas de nosso filósofo com seu ami-
pa. Mas se um único homem falhar em de- go Demétrio, que estava tentando dissuadi-lo
sempenhar uma só de suas tarefas, ou negli- de enfrentar Domiciano em Roma.
genciar suas atribuições, sua navegação será
ruim, e terão a tempestade no meio deles. “A lei”, disse Apolônio, “nos obriga a morrer
Mas se rivalizarem entre si, tentando equipa- pela liberdade, e a natureza ordena que mor-
rar-se cada um a seus companheiros, o barco ramos por nossos pais, nossos amigos, ou
terá céus favoráveis, e um bom tempo e boa nossos filhos. Todos os homens estão ligados
viagem sucederão”. por estes deveres. Mas um dever superior é
imposto sobre o sábio: ele deve morrer por
Novamente, em outra ocasião, em Rodes, seus princípios e a verdade que defende, mais
Damis perguntou-lhe se ele conhecia algo cara que a vida. Não é a lei que lhe impõe a
maior que o famoso Colosso. “Sim”, replicou escolha, não é a natureza é a força e cora-
Apolônio; “o homem que anda nos honestos gem de sua própria alma. Mesmo que o fogo
Página 20 Boletim da Sociedade das Ciências Antigas

e a espada lhe aflijam, não sobrepujarão sua uma vara, ou bastão, usado como cifra para
resolução ou o obrigarão à menor falsidade, despachos escritos. Uma tira de couro era
mas ele guardará os segredos das vidas alhei- enrolada obliquamente em torno, onde os
as e tudo o que lhe for confiado à honra tão despachos eram escritos ao comprido, de
religiosamente como os segredos da inicia- modo que quando desenroladas eram ilegí-
ção. veis. Os comandantes, no exterior, tinham
uma vara de igual espessura, em torno da
E eu sei mais que os outros homens, pois sei qual enrolavam seus documentos, e assim se
que de tudo o que sei, algumas coisas são tornavam capazes de ler os despachos. Daí
para o bom, outras para o sábio, outras para que scytale veio a significar, geralmente, um
mim mesmo, outras para os deuses, mas na- despacho espartano que era caracteristica-
da para os tiranos. Além disso, penso que um mente lacônico em sua brevidade. É evidente
homem sábio não faz nada sozinho ou por si que Filóstrato teve acesso a cartas atribuídas
mesmo, e nenhum pensamento seu é secre- a Apolônio, pois ele cita um número delas, e
to, pois ele mesmo é sua testemunha. E se o não há razão para duvidarmos de sua autenti-
ditado famoso ‘conhece-te a ti mesmo’ é de cidade. De onde ele as obteve, não nos diz, a
Apolo ou de algum sábio que aprendeu a co- menos que fossem a coleção feita por Adria-
nhecer-se e proclamou-o como um bem para no em Âncio.
todos, penso que o homem sábio que conhe-
ce a si mesmo e traz seu espírito em cons- Eis uma, aos magistrados de Esparta:
tante camaradagem, para lutar à sua destra,
não temerá o que o vulgo teme, nem con- “Apolônio aos Éforos, saudações! É possível
descenderá em fazer o que a maioria dos ho- para os homens não cometer erros, mas re-
mens faz sem a menor vergonha”. Nisto te- quer-se homens nobres para reconhecer que
mos o verdadeiro desdém filosófico diante da os cometeram”.
morte, e também o calmo conhecimento do
iniciado, do confortador e do conselheiro de Tudo o que Apolônio coloca é um punhado
outros, a quem os segredos de suas vidas foi de palavras em grego. Aqui, também, há um
confessado, e que nenhuma tortura poderia interessante intercâmbio de notas entre os
jamais extrair de seus lábios. Aqui, também, dois maiores filósofos da época, ambos tendo
temos a plena percepção do que é consciên- sofrido prisão e estando em constante risco
cia, da impossibilidade de ocultar o menor de morte.
traço de mal no mundo interior e ainda o
fulgurante brilho de uma ética superior que “Apolônio a Musônio, o filósofo, saudação!
faz a conduta habitual das massas parecer
surpreendente – “o que eles fazem, e sem Quero ir a vós, compartilhar conversa e teto
vergonha alguma”. convosco, e ser-vos de alguma utilidade. Se
ainda credes que Hércules uma vez resgatou
Teseu do Hades, escrevei o que precisais.
Suas cartas Adeus!”

“Musônio a Apolônio, o filósofo, saudação!


Apolônio parece ter escrito muitas cartas a
imperadores, reis, filósofos, comunidades e “Boa recompensa se reserva para vós por
estados, ainda que não tenha sido correspon- vossos bons pensamentos; o que está reser-
dente prolixo. De fato, o estilo de suas notas vado para mim é um que espera seu julga-
curtas é extraordinariamente conciso, e fo-
mento e prova sua inocência. Adeus.”
ram compostas, segundo Filóstrato, “ao mo-
do da scytale dos lacedemônios”. Scytale era
Volume 1I, edição XV Página 21

“Apolônio a Musônio, saudação! este conteúdo: “É melhor não fazer sacrifício


algum a Deus, nem acender um fogo, nem
“Sócrates recusou ser livre da prisão por chamá-lo por nenhum nome que os homens
seus amigos e compareceu perante os juízes. dão às coisas sensíveis. Pois ele não precisa
Foi condenado à morte. Adeus” de nada, nem mesmo dos deuses, muito me-
nos dos homens pequeninos – nada que a
“Musônio a Apolônio, o filósofo, saudação! Terra produza, nem vida alguma que ela sus-
tente, ou mesmo qualquer coisa que o ar lím-
Sócrates foi condenado à morte porque não pido contenha. O único sacrifício adequado a
preparou sua defesa. Farei o mesmo. Adeus!” Deus é a melhor razão do homem, e não a
palavra que sai de sua boca. Nós homens de-
Contudo, Musônio, o Estóico, veríamos procurar o melhor
foi condenado à servidão pe- dos seres através da melhor
nal por Nero. coisa em nós, pois o que é
bom – age através da mente,
Eis uma nota ao Cínico De- pois a mente não necessita
métrio, um dos mais devota- de coisas materiais para fazer
dos amigos de nosso filósofo: sua oração. Assim, para
Deus, o poderoso Um, que
“Apolônio, o filósofo, a De- está acima de tudo, nenhum
métrio, o Cão (isto é, o Cíni- sacrifício deveria jamais su-
co), saudação! bir.” Historiadores nos con-
tam que os eruditos estão
“Eu vos dei a Tito, o impera- convencidos da autenticidade
dor, para ensiná-lo o caminho deste fragmento. Este livro,
da realeza, e vós em troca como vimos, estava em larga
destes-me poder falar-lhe circulação e era tido na mais
com verdade; e com ele sede tudo, menos alta conta, e diz-se que suas
irado. Adeus!” regras foram gravadas em pilares de bronze
em Bizâncio.
Os escritos de Apolônio
b. Os Oráculos, ou Sobre a Divinação, 4 li-
vros. Filóstrato parece pensar que o título
Mas além dessas cartas Apolônio também integral era Divinação dos Astros, e diz que
escreveu alguns tratados, dos quais, contudo, era baseado no que Apolônio havia aprendi-
apenas um ou dois fragmentos foram preser- do na Índia. Mas o tipo de divinação sobre
vados. Estes tratados são: que Apolônio escreveu não era a astrologia
comum, mas algo que Filóstrato considerava
a. Os Ritos Místicos ou Sobre os Sacrifícios superior à arte humana comum nesta área.
(O título completo é dado por Eudócia, Jô- Ele, porém, nunca soube de alguém que pos-
nia). Este tratado é mencionado por Filóstra- suísse uma cópia desta obra rara.
to, que nos diz que dispunha sobre o método
apropriado de sacrificar a cada deus, as horas c. A Vida de Pitágoras. Porfírio se refere a
propícias para rezar, e as oferendas. Teve este livro, e Jâmblico cita uma longa passa-
larga circulação, e Filóstrato encontrou có- gem dele.
pias dele em muitos templos e cidades, e nas
bibliotecas dos filósofos. Diversos fragmen- d. O Testamento de Apolônio. Foi escrito no
tos foram preservados, dos quais o mais im- dialeto jônico, e contém um sumário de sua
portante é encontrado em Eusébio e tem doutrina.
Página 22 Boletim da Sociedade das Ciências Antigas

A Egrégora — Michèle Séguret

J ácularmente
aconteceu com você de sentir-se parti-
feliz num lugar qualquer, parti-
de suas vontades, um ser coletivo novo cha-
mado Egrégora. La Voix Solaire (A Voz Solar)
cularmente à vontade, sem razão aparente? em seu número de março de 1961 dava-nos
a seguinte definição: "Egrégora: reunião de
Na floresta povoada de claros-escuros cinti- entidades terrestres e supra-terrestres cons-
lantes, sentiu como o Conde de Gabalis, o tituindo uma unidade hierarquizada, movidas
roçar sutil dos gnomos, dos silfos e das sala- por uma idéia-força".
mandras, hóspedes espirituais desses locais?
Esta palavra poderia originar-se no grego
Após uma reconfortante reunião, você saiu "egregoren", que significa "velar". No Livro de
satisfeito, sentindo-se em união perfeita com Enoch está escrito que os anjos que tinham
todos? jurado velar sobre o Monte Hermon teriam
se apaixonado pelas filhas dos homens, ligan-
Quanto a mim, lembro-me de um concerto do-se "por mútuas execrações".
de danças caucasianas, onde a sala inteira en-
contrava-se unida como um só ser. Lembro- Papus, em seu Tratado elementar de Ciência
me de um extraordinário solo de Heifetz no Oculta introduz uma nova noção: as egrégo-
silêncio religioso de quinhentas respirações ras são "imagens astrais geradas por uma co-
suspensas ao som cristalino do violino, silên- letividade" (pág. 561).
cio que permaneceu por alguns segundos
após a última nota do virtuose, antes da ex- Em A Via iniciática, Serge Marcotoune consta-
plosão das aclamações. ta que a energia nervosa se manifesta por
raios no plano astral: "O astral está cheio de
Por outro lado, aconteceu com você de sen- miríades de centelhas, flechas de cores das
tir-me oprimido ao pisar nos restos dos cam- idéias-força. Sabemos que cada pensamento,
pos de concentração, nos campos de batalha cada intenção a que se mistura um elemento
de Oradour-sur-Glane? passional de desejo, se transmite em idéia-
movimento dinâmica, completamente separa-
Diz-se que o sangue dos mártires de todas as da do ser que a forma e a envia, mas seguin-
ideologias clama ao céu sua dor e que a ima- do sempre a direção dada. As idéias-forças
gem dos acidentes impregna os cruzamentos são os elementos mais elementares do plano
onde se produziram. No metrô parisiense, astral; elas seguem a curva traçada pelo dese-
que transporta tantos espíritos heteróclitos e jo do remetente". (pág. 195) É por isso que
libera uma infinita tristeza, quantos têm o precisamos controlar nossos desejos a fim de
coração apertado pela atmosfera que lá im- que eles não pesem sobre nós, acorrentando
pera e pela morosidade dos viajantes que nos -nos, imprimindo à nossa aura cores diferen-
cercam; privados também da "bolha de ar" tes. A meditação e a prece do iniciado rege-
necessária ao bem-estar de nossa aura, sufo- neram-no, permitindo-lhe emitir idéias sadias
camos. e tranqüilizantes. No astral, os "spiritus di-
rectores", os espíritos-guias, canalizam as
Esses estados de espírito podem vir de nossa idéias-força para zonas determinadas.
percepção da egrégora do lugar.
Em A Chave da Magia Negra, Stanislas de
Que é uma egrégora? Guaita analisa a história da Convenção, des-
mascarando as entidades homicidas coletivas
e os atos sanguinolentos delas decorrentes
Ao se reunirem, os seres formam, pela união (pág. 324). De fato, no mundo astral as coisas
Volume 1I, edição XV Página 23

semelhantes aglutinam-se para criar um cole- No Regulamento da Guerra dos Essênios, vê-
tivo, graças às suas idênticas vibrações. A se o mundo angélico inteiro empenhado na
egrégora, ser astral, possui seu centro e seu batalha terrestre. Na China, o Culto dos An-
eixo nesse plano e busca um ponto de apoio cestrais estabelecia um equilíbrio ente a Ter-
terrestre para assegurar-se das formas está- ra e o Céu por meio da Egrégora familiar as-
veis. tral. Papus cita Ovídio no Tratado Elementar
de Ciência Oculta: "Quatro coisas devem ser
O iniciado aproxima-se assim dos seres supe- consideradas no homem: os manes, a carne,
riores e elevados. No astral nascem os ger- o espírito e a sombra. Estas quatro coisas
mes das grandes associações, das grandes são colocadas cada uma em seu lugar: a terra
amizades, das proteções. Em constante modi- cobre a carne; a sombra flutua em redor da
ficação, em evolução, as formas das egrégo- tumba, os manes estão no inferno e o espírito
ras são, na maior parte do tempo, efêmeras. voa para o céu" (pág. 404). Os egípcios pen-
As egrégoras não possuem ponto de apoio. savam que não só o ser humano possui um
Elas podem obstruir nosso caminho ou ser duplo (Kha), mas também todos os animais e
utilizadas por um operador. todas as coisas em que a vida se faz sentir: as
cidades, as províncias, as nações. Henri Du-
Marcotoune escreve: "As egrégoras que po- ville o observa na sua Ciência Secreta:
demos considerar como prontas formam
uma classe à parte. São as egrégoras da ca- E nós...
deia iniciática ou das grandes religiões. Elas
servem à obra sacrifical de expiação do Filho Estamos convencidos, como Beaudelaire que:
de Deus para salvar a humanidade. São dirigi- "A Natureza é um templo onde
das diretamente pelos seres reintegrados e viventes pilares
pela Vontade Divina. Situadas no cume do Deixam às vezes escapar
plano astral, perdem-se na fusão com os pla- confusas palavras,
nos espiritual e divino". (pág. 206) Elas reali- O homem nela passa através de
zam o destino cósmico de todo o universo. florestas de símbolos
Que o observam com olhares familiares..."
Os antigos...
Somos convidados com insistência a decifrar
o que está oculto (ocultismo), a descobrir o
Basta que o mundo invisível seja um podero- que está fora das coisas (esoterismo), a apro-
so auxiliar para os seres humanos, para con- fundar o que nos espanta porque, diz Aristó-
vencê-los de ler os textos antigos. Se os ho-
teles, "do espanto vem a Sabedoria".
mens criaram mitos, foi porque se viram con-
frontados com forças imensas, incompreensí- A noção de Egrégora nos libera dos grilhões
veis, dissimuladas nas profundezas ocultas da religiosos. Na verdade somente o Amor ao
Natureza. Bem e à Verdade, somente nossa ação e nos-
so Coração nos conduzirão à família espiritu-
Sabiam que cotidianamente eram travados al que nos corresponde, segundo a densidade
combates na terra e no céu. Zeus luta contra
de nosso espírito.
os Titãs; Rama combate os demônios gigan-
tescos do Ramayana; Krishna ajuda o guerrei- Como Swedenborg, viajaremos em grupos
ro Arjuna em seus embates com a Vida, os unidos, sendo ensinados pelos diversos gru-
exércitos vindos do invisível são confronta- pos de anjos que formam sociedades à parte,
dos com os do manifesto. elas próprias reagrupadas em um grande cor-
po porque, diz ele, "o céu é um grande ho-
Página 24 Boletim da Sociedade das Ciências Antigas

mem". Paulo, na Epístola aos Romanos (12) e am uma aliança estreita para nossa maior da-
em 1 Coríntios 12, escreve: nação. Devemos estar convencidos que ne-
nhuma de nossas aspirações para o Bem se
"Formamos um único corpo com o Messi- perde e que nossa vida deve produzir Idéias-
as"... "Sim, o corpo é um, mas há vários força poderosas. É o segredo da prece dos
membros e todos os membros do corpo, "fracos". Se utilizamos ritos é porque eles
que são numerosos, formam um único cor- constituem um apelo às forças elevadas. Se
po". Tal é a comunhão dos Santos. realizamos uma Cadeia de União, é para ligar
Jesus dissera: "Onde dois ou três estiverem o visível ao invisível num campo magnético
reunidos em meu nome, estarei entre eles". fechado onde as forças perpendiculares se
projetarão. Ela é ao mesmo tempo criadora e
No Apocalipse, João faz os Anjos responsá- receptora; escudo protetor e receptor de
veis pelas Nações intervirem, porque somos influências astrais e espirituais. As egrégoras
responsáveis pelos erros coletivos cometi- são dinamização das auras num objetivo pre-
dos. Ninguém pode lavar as mãos, como fez ciso. Todo o esforço da vida iniciática tem
Pilatos: guerras, fomes, massacres diminuem por meta utilizar, da melhor maneira possí-
nossa liberdade, porque participamos da vel, nossa vida, nossos ímpetos, nosso amor,
egrégora da terra; da mesma forma que os para equilibrá-los e fazer deles uma base sóli-
genes de nossa hereditariedade marcam a da num esforço de continuidade e de ascen-
história de nosso corpo. Segundo a Bíblia, são.
cidades inteiras foram punidas por causa de
sua egrégora envenenada. "Metamorfoseemo-nos pela mutação de nos-
so pensamento"— é o convite de Paulo na
Phaneg escreveu: "Todo coletivo constitui na Epístola aos Romanos.
verdade uma família no espiritual e tem seu
chefe. É a este chefe que o Espírito fala..." Metamorfoseemo-nos pela mutação de nos-
so coração; é a via cardíaca martinista.
Compreende-se, nessa ordem de idéias, que
jamais se deve responder ao ódio como Esta matéria foi publicada originalmente na Re-
ódio, porque então as duas egrégoras selari- vista L’Initiation no nº 4 de 1983.

Instruções para Jejum

E stamos apresentando este pequeno tra-


balho, contendo importantes ensina-
mentos sobre a pratica do Jejum, a qual reco-
“Esses, só se expulsam com jejum e
oração”. Evangelho Apócrifo de Tomé

mendamos fortemente para todos os mem-


Certamente esta pratica auxiliará na purifica-
bros que realizam práticas Teúrgicas ou Má-
ção individual de cada irmão e auxiliará na
gicas.
liberação do Pântano Ílico.
O valor esotérico do jejum pode ser enten-
dido pelas citações de Nosso Senhor Jesus JEJUM
Cristo à seus discípulos em missão de cura,
quando retornaram ao Mestre reclamando CONCEITO: Jejum é abstenção. Pode ser
terem achado espíritos recalcitrantes que a abstenção de palavras, maus pensamentos, de
nada atendiam e receberam a seguinte res- satisfação de desejos em geral; Jejum é princi-
posta do Mestre: palmente abstenção de alimento tóxico que
vicia e obriga a comer novamente e muito
Volume 1I, edição XV Página 25

mais por vício, inibindo as nossas funções


mentais e físicas. Jejum é exercer sua força Porém onde as 3 forças favorecerem,
de vontade para libertar-se dos vícios alimen- as estatísticas demonstram que a ener-
tares. Eis, pois, a ligação lógica de todo sábio, gia do jejuador aumenta com o 3º, 4º,
santo, iniciado, iluminado ou grande líder re- 5º dia de jejum em vez de diminuir.
ligioso com o Jejum. Eis o porquê os jejuado-
res sempre têm um fundamento espiritual:
PREPARAÇÃO: Para se fazer um Jejum
por meio do Jejum restabelecem um elo de
não basta simplesmente parar de comer, mas
ligação com a Divindade e um retorno às ori-
é necessário preparar o organismo gradativa-
gens, uma liberação das forças bloqueadas, as
mente para a abstinência alimentar que ocor-
nossas forças espirituais.
rerá daqui a 3 dias à saber:
RESULTADO: O corpo elimina os venenos
alimentares depositados no corpo humano 3 Dias Antes:
durante anos de alimentação inadequada e a
mente recupera os poderes que estão blo-
DESJEJUM: - 1 copo de água
queados dentro de nós. As doenças, que são - Sementes de Linhaça com
parasitas alimentados dentro de nosso corpo, ameixas (deve ser preparado no dia anterior
evidentemente deixam o corpo ou morrem da seguinte maneira: coloque em um copo 2
por falta de sustento, durante o Jejum. Por colheres de sementes de linhaça, 6 ameixas
isso seu corpo vai passar por fases de limpe- pretas lavadas e complete o copo com água.
za e desintoxicação que com o correr do No dia seguinte após ter bebido o copo de
tempo lhe permitirão sentir-se muito bem. O água, coma as ameixas pretas em seguida en-
corpo irá sendo re-constituído por si mes- gula as sementes de linhaça e beba a água que
mo, mediante um processo natural de retor-
ficou no copo)
no às suas origens, funcionando de novo co- - Frutas (escolha um dos gru-
mo deveria ser. pos de frutas do anexo I e coma na quantida-
de e variedade que quiser. Não se deve
OBSTÁCULOS: É evidente que esse re-
misturar frutas de grupos diferentes).
torno às origens vai depender de 3 forças
concorrentes-oponen-tes à saber: A força ALMOÇO: - Frutas (comer as frutas co-
mental consciente e subconsciente ou
mo explicado no desjejum)
inconsciente de quem jejua. Se o jejua-
dor não tem convicção do que está fazendo,
é claro que vai fracassar. JANTAR: - Salada + Aditivos (veja anexo I)
- Sopa de Legumes (veja anexo I)
As reações orgânicas de dependência
aos erros alimentares. Se o jejuador está
totalmente degenerado nos vícios alimenta- 2 Dias Antes:
res, mesmo que sua força mental esteja bem
firme, vai ter que lutar longamente para subs-
DESJEJUM: - Igual ao dia anterior.
tituir os hábitos.
ALMOÇO: - Igual ao dia anterior.
As reações vitais regenerativas do cor-
JANTAR: - Salada + Aditivos (veja
po do jejuante. Se o jejuador estiver com
seu organismo quase destruído e com poucas anexo I)
energias vitais disponíveis, a reação de rege- NOITE: - Antes de dormir tomar
neração será muito mais lenta e ineficiente. uma xícara de chá de:
Página 26 Boletim da Sociedade das Ciências Antigas

- Folhas de Senne (Cassia acu-


tifolia - Folhas) ou outro laxante. JANTAR: - Salada + Aditivos (vide anexo I)
- Sopa de legumes (vide anexo I)
1 Dia Antes:

DESJEJUM: - Suco de Frutas à vontade.


ALMOÇO: - Suco de Frutas à vontade.
JANTAR: - Suco de frutas misturando
verduras e legumes (vide anexo I)
NOITE: - Antes de dormir tomar uma
xícara de chá de:
Folhas de Senne (Cassia acu-
tifolia - Folhas) ou outro laxante.

Durante o período que estiver jejuando


beba muita água potável ou água de coco

RETORNO: Se a preparação para se fazer o


jejum foi tão importante o retorno à alimen-
tação também merece muito cuidado e aten- Anexo I
ção.

1º Dia Após o Jejum Frutas

MANHÃ: - Beber durante a manhã suco GRUPO - 1


de laranja misturado com água.
- Laranja - Limão - Abacaxi
TARDE: - 1 copo de caldo de cana.
NOITE: - Dissolver 2 colheres de sopa - Morango - Maracujá - Cajá
- Pitanga - Tomate - Carambola
de Mel em um copo de água e beber.
- Mexirica - Acerola - Tamarindo
- Romã - Caju - Damasco
2º Dia Após o Jejum - Abacate - Manga - Ameixa

DESJEJUM: - Beber durante 2 copos de


suco de laranja. GRUPO - 2
ALMOÇO: - Comer mamão comum o
quanto quiser. - Banana - Figo - Tâmaras
JANTAR: - Sopa de legumes (tomar ape- - Cana - Caqui - Uva
nas o caldo) - Pêssego - Maçã - Graviola
- Jabuticaba - Nêspera - Pêra
3º Dia Após o Jejum - Cereja - Amora - Mamão
- Goiaba - Jaca - Ameixa
- Abacate - Manga
DESJEJUM: - Escolher quantas frutas qui-
ser de apenas um grupo do anexo I.
ALMOÇO: - Escolher quantas frutas qui- GRUPO - 3
ser de apenas um grupo do anexo I.
Volume 1I, edição XV Página 27

- Melão - Melancia Aditivos

Saladas
- Azeite, Azeitona, Óleo de Milho, Óleo de
Girassol, Óleo de Gergelim, Tahine (Pasta de
Escolha à vontade entre estes ingredientes Gerge-lim), Gergelim tostado, Germen de
para se fazer uma boa salada: Trigo, Salsinha, Cebolinha, Alho, Sal.

- Alface, Couve, Almeirão, Erva Doce, Salsão, Referências


Repolho, Cenoura, Nabo, Pepino, Agrião,
Broto de Feijão, Broto de Alfafa, Rúcula, Alga
- O Jejum Curativo de Mário Sanchez -
Marinha (Kombu).
Imery Publicações Ltda
- Jejum: A Dieta Ideal de Dr. Allan Cott -
Legumes
Editora Record
- O Jejum como Dieta Opcional de Dr.
Escolha à vontade entre os ingredientes para Allan Cott - Editora Record
se fazer uma boa sopa. - Dieta para o Jejum - Caminho para a Sa-
úde de Dr. Hellmut Lutzner – Editora Brasili-
- Abóbora, Abobrinha, Vagem, Quiabo, Ce- ense
noura, Couve-Flor, Chuchu, Brócolis, Couve, - O Poder do Jejum de Martin Claret - Edi-
Alga Marinha (Kombu), Bardana, Espinafre, tora Martin Claret Ltda
Salsão. - Práticas do Jejum de Pe. Jonas Abib -
Edições Loyola

Sobre o Iluminismo — Joseph de Maistre (1754 – 1821)

F irme sustentáculo das tradições políticas


e religiosas, conservador e católico,
pensador “reacionário”, o conde Joseph de
É “Cavaleiro Professo” da Ordem dos Cava-
leiros Benfeitores da Cidade Santa (CBCS),
Maistre foi também o representante de uma quer dizer, encontra-se no coração de um
tradição mais secreta e mais importante. dos meios ocultistas mais ardentes da época.
Nas lojas de Willermoz se conservam os en-
Seus cadernos de notas nos informam sobre sinamentos de Martinez de Pasqually, nas
suas leituras e permitem atestar sua curiosi- quais nem tudo se reduz à Teurgia.
dade por místicos como Jacob Boehme,
Mme. Guyon, Eckartshausen, etc. Sobretudo E Joseph de Maistre ouvirá ali, com frequên-
sabemos que, durante longos anos, Joseph de cia, falar de Saint-Martin, a quem possivel-
Maistre foi Franco-Maçom. mente chegou a conhecer, teósofo por quem
mostraria sempre a mais viva admiração, len-
Começou pela Franco-Maçonaria ordinária do, relendo, copiando suas obras com as
na Loja dos “Três Morteros”. Em 1782, numa próprias mãos e impregnando-se de seu pen-
”Memória” sobre a maçonaria dirigida ao du- samento. Assim como na Rússia mais tarde,
que de Brunswick, designa às lojas um papel o interesse do conde Joseph de Maistre pelo
de círculo de estudos políticos, morais e reli- Iluminismo nunca se apagará.
giosos. A partir desse momento encontra-se
em relação com a maçonaria lionesa de Wil- Manterá prudentes reservas por causa de seu
lermoz, ascendendo aos mais altos graus. catolicismo, mas, para ele, esoterismo e o
Página 28 Boletim da Sociedade das Ciências Antigas

cristianismo não se opõem, pelo contrário. de grau em grau até alcançar os mais subli-
O esoterismo é a seus olhos, um meio de mes conhecimentos, tal como os possuíam
antecipar providencialmente a terceira reve- os primeiros cristãos, que eram verdadeiros
lação, de ir mais além dos ensinamentos ofici- iniciados.
ais para um cristianismo íntegro, mais profun-
do e rico. Como poderia duvidar, portanto, Isto é o que certos alemães denominaram
da legitimidade deste movimento, quando Cristianismo transcendental. Essa doutrina é
volta a encontrar, frequentemente, em seu uma mescla de platonismo, origenismo e filo-
caminho as opiniões dos Padres da Igreja ou sofia hermética, sobre uma base cristã.
dos primeiros grandes filósofos cristãos?
Os conhecimentos sobrenaturais são o gran-
O universo se lhe apresenta como uma sa- de objetivo de seus trabalhos e esperanças.
grada realidade, completamente submetido Não duvidam, em absoluto, que seja possível
ao governo divino. A teocracia na sociedade, ao homem pôr-se em comunicação com o
a piedade no coração do homem, não são mundo espiritual, ter contato com os espíri-
mais que as evidentes consequências desta tos e descobrir, desta forma, os mais raros
primeira constatação. mistérios.

De um plano ao outro, passa- Seu firme hábito é o de dar


se pelo jogo das correspon- nomes extraordinários às coi-
dências e das analogias: “O sas mais conhecidas sob deno-
mundo físico não é mais que minação consagrada. Desta
uma imagem, ou se quereis, forma, um homem para eles é
uma repetição do mundo espi- um pupilo, e seu nascimento a
ritual, e é possível fazer o es- emancipação. O pecado origi-
tudo de um no outro, de for- nal é conhecido como o crime
ma alternativa”. primitivo; os atos da potência
divina ou seus agentes no uni-
Todo o esforço do pensador verso são chamados bênçãos, e
tem que tender a por em evi- as penas infligidas aos culpados
dência essas correspondências são as palmatórias.
e avançar por elas, estudando
a historia, a política, refletindo Com frequência recebi as pal-
sobre os princípios das civilizações, a chegada matórias, quando não era possível assegurar-
do cristianismo transcendental, etc. me que tudo quanto diziam de verdade não
era mais que o catecismo cheio de palavras
Algumas páginas das “Veladas” falam por si estranhas.
só.
O Conde Tive ocasião de convencer-me, faz mais de
trinta anos, numa grande cidade da França,
que uma certa classe desses iluminados ti-
“Em primeiro lugar, não asseguro que todo nham graus superiores desconhecidos dos
iluminado seja Franco-Maçom, digo somente
iniciados admitidos a suas reuniões comuns.
que todos os que conheci, especialmente na
França, o eram. Seu dogma fundamental é Tinham, inclusive, um culto e sacerdotes que
que o cristianismo, tal como o conhecemos
designavam com a palavra hebraica Elu Cohen.
hoje em dia, não constitui uma verdadeira
loja azul feita para os profanos, mas que de- Isto não quer dizer que não possa haver e
pende do Homem de Desejo poder elevar-se que de fato não haja em suas obras coisas
Volume 1I, edição XV Página 29

verdadeiramente razoáveis e que chamem a Morreu sem ter querido receber um sacer-
atenção, mas que resultam demasiadamente dote e suas obras apresentam a prova mais
sofisticadas, por mesclar o certo e o falso clara de que não acreditava na legitimidade
com o perigoso, sobretudo por causa de sua do sacerdócio cristão (da Igreja Católica)”.
aversão a toda autoridade e hierarquia sacer-
dotal. Extrato de sua obra “As Veladas” de São Peters-
burgo”, conversação décima primeira: Velada –
Esse caráter está muito generalizado entre Reunião noturna de várias pessoas para agrada-
eles e eu jamais pude reconhecer uma exce- rem-se mutuamente de algum modo. Festa mu-
ção entre os numerosos adeptos que conhe- sical, literária ou desportiva que se faz à noite.
ci. O mais instruído, sábio e elegante dos
teósofos modernos, Louis Claude de Saint- Tradução e divulgação autorizadas pelo
Martin, cujas obras tem sido o código dos GEIMME - Grupo de Estudios e Investi-
homens aos quais estou me referindo, parti- gaciones Martinistas y Martinezistas de
cipava dessa característica geral. España. Publicado no Boletín Informati-
vo Nº 7 - Junio de 2.006.

Contos Espirituais

Amor de Pai Mais tarde chamou a sua filha, levou-a até o


celeiro e lhe disse:

H avia um homem muito rico, possuía


muitos bens, uma grande fazenda, mui-
to gado e empregados a seu serviço.
"Minha filha, já estou velho e quando partir,
você tomará conta de tudo o que é meu, e
sei qual será o seu futuro. Você vai deixar a
fazenda nas mãos dos empregados e irá gas-
Tinha ele uma única filha, uma única herdeira, tar todo dinheiro com suas extravagâncias,
que, ao contrário do pai, não gostava de tra- poderá vender os animais e os bens para se
balho nem de compromissos. sustentar, e quando não tiver mais dinheiro,
suas amigas vão se afastar de você. E quando
O que ela mais gostava era de festas, estar você não tiver mais nada, vai se arrepender
com suas amigas e de ser bajulada por elas. amargamente de não ter me dado ouvidos”.
Seu pai sempre a advertia que seus amigos só É por isso que eu construí esta forca; sim, ela
estavam ao seu lado enquanto ela tivesse o é para você, e quero que você me prometa
que lhes oferecer, depois a abandonariam. que se acontecer o que eu disse, você se en-
Os insistentes conselhos do pai lhe retiniam forcará nela".
os ouvidos e logo se ausentava sem dar o
mínimo de atenção. A jovem riu, achou absurdo, mas, para não
contrariar o pai, prometeu e pensou que ja-
Um dia o velho pai, já avançado na idade, dis- mais isso pudesse ocorrer.
se aos seus empregados para construírem
um pequeno celeiro e dentro do celeiro ele O tempo passou..., o pai morreu e sua filha
mesmo fez uma forca, e junto a ela, uma pla- tomou conta de tudo, mas assim como se
ca com os dizeres: "Para você nunca mais havia previsto, a jovem gastou tudo, vendeu
desprezar as palavras de seu pai". os bens, perdeu os amigos e a própria digni-
dade.
Página 30 Boletim da Sociedade das Ciências Antigas

Desesperada e aflita, começou a refletir so-


bre a sua vida e viu que havia sido uma tola, - Onde está a perfeição em meu filho José?
lembrou-se do pai e começou a chorar e di- Pois tudo o que Deus faz é feito com perfei-
zer:- Ah, meu pai, se eu tivesse ouvido os ção! Mas meu filho não pode entender as
teus conselhos, mas agora é tarde, é tarde coisas como outras crianças entendem. Meu
demais. filho não pode se lembrar de fatos e núme-
ros como as outras crianças. Onde está a
Pesarosa, a jovem levantou os olhos e longe perfeição de Deus?
avistou o pequeno celeiro, era a única coisa
que lhe restava. A audiência estava chocada, sofrida pela an-
gústia do pai e paralisada pela pergunta cruci-
A passos lentos se dirigiu até lá e, entrando, al.
viu a forca e a placa empoeirada e disse:
- Eu acredito, o pai respondeu, que quando
Eu nunca segui as palavras do meu pai, não Deus traz uma criança assim no mundo, a
pude alegrá-lo quando estava vivo, mas pelo perfeição que ele busca está no modo como
menos desta vez vou fazer a vontade dele, as pessoas reagem a esta criança.
vou cumprir minha promessa, não me resta
mais nada. Ele contou então a seguinte história sobre o
seu filho José.
Então subiu nos degraus e colocou a corda
no pescoço, e disse: - Ah se eu tivesse uma - Uma tarde José e eu caminhávamos por um
nova chance... parque onde alguns meninos que José conhe-
cia estavam jogando futebol e José pergun-
Então pulou, sentiu por um instante a corda tou:
apertar sua garganta, mas o braço da forca
era oco e quebrou-se facilmente, a jovem - Pai você acha que eles me deixarão jogar?
caiu no chão, e sobre ela caiam jóias, esme-
raldas, perolas, diamantes; a forca estava Eu sabia que meu filho não era apto para es-
cheia de pedras preciosas, e um bilhete que portes e que a maioria dos meninos não o
dizia: queriam no time deles. Mas entendi que se o
meu filho fosse escolhido para jogar, isto lhe
- Essa é a sua nova chance, eu te Amo muito. daria uma sensação de participação, de auto-
Teu Pai. confiança e de utilidade.

Reflexão Aproximei-me de um dos meninos no campo


e perguntei-lhe se José poderia jogar. O me-
nino deu uma olhada ao redor procurando
Existia uma escola que se dedicava ao ensino pela aprovação dos seus companheiros de
de crianças deficientes. Alguma dessas crian- time. Não conseguindo nenhuma aprovação,
ças permaneciam ali por toda a sua vida es- ele assumiu a responsabilidade em suas pró-
colar, enquanto outras podiam ser educadas prias mãos e disse "Nós estamos perdendo
em escolas normais. Em um jantar beneficen- por 3 a 0 e o jogo está no segundo tempo.
te dessa escola, o pai de uma criança fez um Eu acho que ele pode entrar e tentar jogar
discurso que jamais seria esquecido pelos
por nosso time ".
que estavam presentes.
Fiquei emocionado com esta atitude e quan-
Depois de elogiar a escola e seu dedicado do José abriu um grande sorriso não pude
pessoal, clamou ele:
Volume 1I, edição XV Página 31

conter as minhas lágrimas. Pediram então a Quando José abriu seus olhos, não podia
José para vestir o uniforme do time e jogar. acreditar no que estava vendo: a bola estava
no fundo da rede!!!!
Aos poucos minutos, o time de José marcou
o primeiro gol mas ainda estavam perdendo José correu para pegar a bola e todos os me-
por 3 a 1. Minutos depois, o time de José ninos o ergueram nos ombros fazendo dele o
marcou novamente dois gols e agora o mar- herói, como se ele tivesse vencido um gran-
cador estava 3 a 3. de jogo ou um campeonato.

Logo após, um atacante do time de José so- - Naquele dia, disse o pai docemente e com
freu um pênalti e o capitão do time (que era lágrimas caindo sobre sua face, todos esses
o menino que o tinha aceito para jogar) o meninos alcançaram o nível da perfeição de
escalou para bater a falta! Deus.

O time deixaria José bater a falta nestas cir- E continuou o pai a dizer:
cunstâncias e jogar fora a
chance de ganhar o jogo? - Engraçado como isto é
tão verdadeiro e envergo-
Surpreendentemente, ti- nha a todos nós! Engraça-
nha sido dada a aprovação do como se pode enviar
à José. Todo mundo sabia mil piadas por e-mail e elas
que era quase impossível se espalharem como fogo,
que ele marcasse o gol mas quando você começa
porque José nem mesmo a enviar mensagens sobre
sabia chutar direito, nem algo bom, as pessoas pen-
mesmo correr bem era sam duas vezes em com-
possível! partilhá-las. Engraçado co-
mo a indecência, as coisas
Porém, quando José tomou posição, o golei- grotescas, vulgares e obscenas cruzam livre-
ro do time adversário se moveu alguns pas- mente o ciberespaço, mas quando vocês fo-
sos, num gesto de extrema autoconfiança e rem contar esta história, vocês pensarão du-
desdém para com José. as vezes em fazê-lo, porque vocês não esta-
rão seguros se a pessoa que lhes está escu-
Todo mundo começou a gritar: José, José, tando vai acreditar.
José, José!
- Engraçado como uma pessoa pode se preo-
José olhou a bola, olhou depois para o golei- cupar mais sobre o que as outras pessoas
ro adversário e vacilante e cheio de medo, pensem dela do que o que Deus pensa dela.
correu desajeitadamente para chutar, com os Engraçado não é?
olhos arregalados e assustados.
- Entretanto algumas pessoas não se preocu-
Pareceu-lhe uma eternidade até que ele al- pam com as outras - só com elas próprias!
cançasse a bola com seus pés. Neste instante Mas existem algumas poucas pessoas que se
fechou seus olhos e chutou com toda a sua preocupam com as outras, e este foi o caso
força e escutou uma enorme gritaria de todo do menino que deixou meu filho jogar, que
o público que assistia ao jogo! lhe deu a chance de bater aquela falta, que
acreditou nele, apesar dele não ser normal
como as outras crianças!
Página 32 Boletim da Sociedade das Ciências Antigas

- Vamos todos ter a esperança de que nós era, mas depois ficaram curiosos para conhe-
podemos fazer a vida um pouco melhor para cer aquele que estava bloqueando o cresci-
pessoas que não estão tão bem quanto nós. mento de todos.
Vamos lutar por fazer alguém acreditar nele
mesmo e que tudo pode ser realizado!!! E A agitação no pátio da empresa foi tão gran-
que a Perfeição de Deus abençoe a todos de que foi preciso chamar a segurança para
nós. organizar a fila do velório. Conforme as pes-
soas iam se aproximando do caixão, a excita-
A Culpa ção ia aumentando.

"Quem será que estava atrapalhando meu


Uma empresa estava em situação muito difí- progresso? Ainda bem que esse infeliz mor-
cil. As vendas iam mal, os empregados esta-
reu"
vam desmotivados, os
balanços há meses não Um a um, os funcioná-
saiam do vermelho. rios aproximavam-se
do caixão, agitados. Ao
Era preciso fazer algo olhar o defunto, engoli-
para reverter esta situ- am em seco, ficando no
ação. mais absoluto silêncio,
como se tivessem sido
Ninguém queria assu- atingidos no fundo da
mir nada. Pelo contrá- alma.
rio: o pessoal apenas
reclamava que as coisas
O que havia no caixão?
andavam ruins e que
não havia perspectiva Havia apenas um espe-
de progresso na em- lho que refletia a ima-
presa. Eles achavam gem daquele que se
que alguém deveria to- aproximava e olhava
mar a iniciativa para
para dentro do caixão...
reverter aquele processo.
Pense nisso... Só existe uma pessoa capaz de
Um dia, quando os funcionários chegaram
limitar seu crescimento: Você mesmo.
para trabalhar, encontraram na portaria um
enorme cartaz, onde estava escrito: "Faleceu Você é a única pessoa que pode fazer uma
ontem a pessoa que impedia o seu cresci- revolução em sua vida. Você é a única pessoa
mento na empresa. Você está convidado para
que pode ajudar a si mesmo.
o velório, que acontecerá no pátio da empre-
sa." É dentro do seu coração que você vai encon-
trar a energia necessária para se tornar o
Inicialmente, todos se entristeceram pela
artista de sua própria criação.
morte de alguém, mesmo sem saber quem

Publicação da Sociedade das Ciências Antigas


Todos os Direitos Reservados
www.sca.org.br