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UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE

INSTITUTO DE ARTE E COMUNICAÇÃO SOCIAL


CURSO DE ESTUDOS DE MÍDIA

ANA BEATRIZ BRÊTAS DE ARAÚJO

#EuEmpregadaDomestica:
enquadramentos, luta por reconhecimento e protagonismo
político nas redes sociais

Niterói
2016
ANA BEATRIZ BRÊTAS DE ARAÚJO

#EuEmpregadaDomestica
enquadramentos, luta por reconhecimento e protagonismo
político nas redes sociais

Trabalho de conclusão de curso apresentado em 18/01/2017, como


requisito parcial para a obtenção do grau de bacharel em Estudos de
Mídia pela Universidade Federal Fluminense.

Orientador Acadêmico
Prof. Dr. Viktor Henrique Carneiro de Souza Chagas

Niterói
2016/1

3
ANA BEATRIZ BRÊTAS DE ARAÚJO

#EuEmpregadaDomestica:
enquadramentos, luta por reconhecimento e protagonismo
político nas redes sociais

Trabalho de conclusão de curso apresentado em 18/01/2017 como


requisito parcial para a obtenção do grau de bacharel em Estudos de
Mídia pela Universidade Federal Fluminense.

Trabalho aprovado em _____ de __________ de _____.

BANCA EXAMINADORA

Prof. Dr. Viktor Henrique Carneiro de Souza Chagas (Orientador Acadêmico)


Universidade Federal Fluminense

Prof. Dr. Beatriz Brandão Polivanov (Avaliador)


Universidade Federal Fluminense

Prof. Ms. Júlia Silveira de Araújo (Avaliador)


Universidade Federal Fluminense

4
Aos meus companheiros de cela: Fábio, Leandro,
Linike, Rafael e Roberta. Nos encontramos aqui fora.

5
AGRADECIMENTOS


Ao meu amigo e namorado, Leon Navarro, sem você eu passaria sede.
As minhas tias Lenyr e Lelita, que acreditam e tem carinho.
À minha amiga e irmã, Rebeca Sauwen, que não se interessa por nada disso
mas leria todo o trabalho porque fui eu que escrevi.
À minha mãe, que ensinou a questionar.
Ao meu pai, que ensinou a suportar.
À Monique, Rodrigo e Leonardo que ainda andarão tantos caminhos ao meu
lado.
Ao meu orientador Viktor Chagas e sua caneta vermelha, carregada de amor.
À UFF e seu quintal.
À todos os docentes de Estudos de Mídia.
Deus, obrigada também.

6
The caged bird sings
with a fearful trill
of things unknown
but longed for still
and his tune is heard
on the distant hill
for the caged bird
sings of freedom.

(Maya Angelou, I know why the caged bird sings)

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RESUMO

BRETAS, Ana Beatriz. #EuEmpregadaDomestica: enquadramentos, luta por


reconhecimento e protagonismo político nas redes sociais. Niterói:
Universidade Federal Fluminense, 2016. (Monografia de Graduação)

Este trabalho pretende contribuir com os estudos sobre o serviço doméstico


no Brasil, assim como com o conjunto de pesquisas que abordam a forma
como os movimentos sociais tem se reconfigurado a partir das tecnologias
digitais de comunicação. Para isso, foi empreendida uma análise da página
do facebook #EuEmpregadaDomestica, que agrega relatos de empregadas
sobre os abusos vivenciados no trabalho. O objetivo era identificar quais são
os enquadramentos eleitos pelas domésticas para narrar as relações de
exploração as quais foram submetidas. Também foi analisada a forma como
os seguidores da página interagem com o conteúdo destes relatos.

Palavras-chaves: trabalho doméstico, redes sociais, política, luta por


reconhecimento

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ABSTRACT

BRETAS, Ana Beatriz. #EuEmpregadaDomestica: enquadramentos, luta por


reconhecimento e protagonismo político nas redes sociais. Niterói:
Universidade Federal Fluminense, 2016. (Monografia de Graduação.)

This paper intends to contribute to the studies about domestic service in


Brazil, as well as to the set of researches that deal with the way social
movements have reconfigured themselves from digital communication
technologies. For that, an analysis of the page of facebook
#EuEmpregadaDomestica, which aggregates reports of employees about the
abuses experienced in the work, was undertaken. The objective was to
identify which are the frameworks chosen by the domestic ones to narrate the
relations of exploration that were submitted. We also looked at how page
followers interact with the content of these stories.

Key-words: Domestic work, social networks, politics, struggle for recognition

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LISTA DE TABELAS

Tabela CLASSIFICAÇÃO DOS RELATOS DA PÁGINA


3.1 – #EUEMPREGADADOMESTICA................................
Tabela CLASSIFICAÇÃO DOS COMENTÁRIOS DA PÁGINA
3.2 – #EUEMPREGADADOMESTICA................................
Tabela PROBLEMÁTICAS DO TRABALHO DOMÉSTICO NOS
4.1 – COMENTÁRIOS DE
#EUEMPREGADADOMÉSTICA................................
Tabela DIAGNÓSTICOS DAS CAUSAS DO TRABALHO DOMÉSTICO NO
4.2 – COMENTÁRIOS DE
#EUEMPREGADADOMESTICA................................
Tabela SOLUÇÕES PARA OS ABUSOS NO TRABALHO DOMÉSTICO
4.3 – NOS COMENTÁRIOS DE
#EUEMPREGADADOMÉSTICA................................

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SUMÁRIO

INTRODUÇÃO....................................................................... 12
1– LUTA POR RECONHECIMENTO, AÇÃO POLÍTICA E
ENQUADRAMENTOS .......................................................... 16
1.1 – Teoria do Reconhecimento ................................................... 18
1.2 – Ação conectiva e conversa informal....................................... 21
1.3 – Enquadramento e representação........................................... 22
1.4 – Referencial teórico e objeto.................................................... 24
2– EMPREGADAS PROTAGONISTAS .................................... 25
2.1 – Empregadas negras ..............................................................
2.2 – Empregadas mulheres ..........................................................
30
2.3 – Empregadas organizadas ..................................................... 31
3– METODOLOGIA ................................................................... 33
3.1 – Dados dos relatos.................................................................. 42
3.2 – Dados dos comentários......................................................... 43
4– ANÁLISE DE RESULTADOS.............................................. 41
4.1 – Análise dos relatos................................................................
4.1.1– Restrições a alimentação......................................................

4.1.2– Trabalho escravo................................................................... 41


4.1.3– Resistências.......................................................................... 42
45
4.2 – Análise dos comentários....................................................... 48
4.2.1– Problematizações.................................................................... 51
4.2.2– 53
4.3.3– Diagnósticos......................................................................... 54
4.3 – Soluções............................................................................... 55
56
Considerações......................................................................
5- CONSIDERAÇÕES FINAIS................................................. 57
57
REFERÊNCIAS ..................................................................... 63

11
INTRODUÇÃO

Este trabalho pretende contribuir com os estudos sobre o serviço


doméstico no Brasil, assim como com o conjunto de pesquisas que exploram
as formas pelas quais os movimentos sociais têm se reconfigurado a partir
das tecnologias digitais de comunicação. Nos últimos anos, os sites de redes
sociais vem sendo cada vez mais usados como plataforma de mobilização
política, seja através de manifestações online ou como meio de comunicação,
para convidar pessoas em larga escala para atos presenciais.
No trabalho “The logic of connective action”, Bennet e Sergerberg
abordam este tema e desenvolvem o conceito de ação política conectiva para
explicar estas formas insurgentes de engajamento e sua popularização.
Diferente das ações tradicionais, centradas em organizações, com bandeiras
estabelecidas de forma vertical, a ação conectiva convida os cidadãos a se
manifestarem individualmente através do compartilhamento de conteúdos
personalizados, construindo em conjunto a identidade dos movimentos.
É o caso de campanhas feministas como #Meuamigosecreto e
#Meuprimeiroassédio, que propunham as mulheres postarem em seus perfis
online narrativas sobre o machismo e Bastardos da PUC-RIO, que reúne
denúncias de alunos que sofreram agressões verbais e constrangimentos por
serem bolsistas em uma das universidades mais elitistas do Rio.
Pode-se questionar se uma página ou uma campanha online pode ser
chamada de “manifestação”/”movimento social”. Este trabalho opta por
nomeá-las assim por acreditar ser esta uma forma de contribuir para que se
considere a validade e a importância política das manifestações em sites de
redes sociais. Alguns as chamam de “ativismo de sofá”, fazendo uma crítica a
sua suposta ineficácia, desorganização e forma de engajamento preguiçosa.
Entretanto, esta pesquisa parte do pressuposto que as ações online não
devem ser julgadas a partir do que se espera de um movimento tradicional.
Elas têm suas próprias regras, inauguradas com as tecnologias de

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comunicação digitais. Nem sempre trabalham com reivindicações concretas,
mas chamam o público para a discussão pública de questões políticas e
propagam novas gramáticas morais (CAL, GARCEZ, 2016). Como explica
Jane Mansbridge (1996), “para politizar uma (...) escolha coletiva, deve-se
atrair a atenção do público para ela, como algo que o público deveria discutir”
(Mansbridge, 1996, p. 212) e esse processo “não precisa envolver o Estado.
Podemos trazer para a atenção pública não uma decisão produzida de modo
coordenado, mas sim uma que emerja de processos altamente informais,
inconsistentes e agregativos” (ibid).
Esta pesquisa pretende explorar alguns aspectos deste tipo de
manifestação e toma como objeto a página do Facebook
#EuEmpregadaDomestica. O movimento começou no final de julho de 2016,
quando a ex-empregada doméstica Joyce Fernandes fez algumas postagens
em seu perfil pessoal denunciando relações de trabalho abusivas vivenciadas
quando exercia a função. Os depoimentos eram finalizados com a hashtag
#EuEmpregadaDomestica.
Os posts publicados por Joyce ganharam destaque em sua rede de
amigos. Receberam diversos comentários e compartilhamentos, tornando-se
virais. Em pouco tempo, outras empregadas fizeram seus próprios relatos
utilizando a hashtag ou enviaram suas histórias para a caixa de mensagens
de Joyce. Essa mobilização a impulsionou a criar a página
#EuEmpregadaDomestica, com a proposta de reunir narrativas sobre as
agressões que as empregadas vivenciam em seu trabalho. Hoje elas podem
ser enviados para a caixa de mensagens da fanpage e são publicados todos
os dias, anonimamente.
Quem as lê em sequência logo se depara com a repetição de
determinadas situações: a patroa que não permite que a empregada coma na
mesa, as acusações de roubo, a exigência de que a doméstica use talheres
diferentes dos da empregadora, entre outras. Começam então a se delinear
os traços culturais da discriminação racial e social dentro do trabalho
doméstico, onde o assédio moral e o preconceito não são deslizes morais
(GARCEZ, CAL, 2016), mas o comportamento comum, considerado
aceitável.
A classe das empregadas está submetida a diversos tipos de

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preconceito. No Brasil, a grande maioria são negras, (79,8%)1 e mulheres
(93%) 2 . Pesquisas sobre a organização do trabalho em nosso país
(ABRAMO, 2006; IPEA) demonstram que justamente as mulheres negras são
a fatia da população que recebe os mais baixos salários e está quase sempre
empregada sob condições informais e precárias. No serviço doméstico
apenas 27% das trabalhadoras tem sua carteira assinada. (OLIVEIRA, 2016).
Como já apontado, o trabalho doméstico é comumente associado ao sexo
feminino, além de ser considerado um trabalho desimportante, que não exige
grandes habilidades. Além disso, muitos são os casos de meninas que
entram no serviço doméstico ainda crianças ou são pegas para criar por
famílias e se tornam criadas da casa (CAL, 2016). Estas e outras condições
expõe estas trabalhadoras aos mais diversos tipos de exploração.
Dentro disto, este trabalho possui dois objetivos principais: (1)
Identificar como as manifestantes relatam coletivamente a exploração no
trabalho doméstico. (2) Identificar como os seguidores da página se
posicionam sobre os relatos.
Para isso, foi feita uma análise (a) dos relatos publicados na página
num período de dois meses a partir de sua criação (b) dos comentários mais
curtidos encontrados nestes relatos. A escolha do recorte temporal levou em
conta que os meses iniciais foram o momento em que a página obteve maior
destaque nas mídias, neste período de efervescência as postagens
chegaram a acontecer uma vez a cada meia hora. A opção pelos
comentários mais curtidos, por sua vez, permite observar quais deles
receberam mais apoio dos seguidores e, portanto, representam a opinião da
maioria.
No capítulo inicial explicitarei os princípios teóricos que norteiam o
trabalho. Primeiro, o conceito de “quadros sociais” de Erving Goffman (1974),
a partir do qual será possível criar categorias para classificar os relatos e
comentários na página, considerando os diferentes pontos de vista acerca do
trabalho doméstico. Depois, a “Teoria do reconhecimento”, empregada por
Honneth (2003) para explicar os movimentos sociais. Ela é importante porque
propõe que a luta por reconhecimento, ou a luta por ser respeitado pela

1 DIEESE (2013)
2 In: Trabalhadoras domésticas: nossas conquistas, nossas histórias, OLIVEIRA, Creuza

14
sociedade, é a base dos conflitos sociais. Por último, os conceitos de ação
conectiva e personalização, de Bennet e Sergerberg (2012) e de “conversa
informal” proposta por Jane Mansbridge (1996) porque sua argumentação
possibilita que se encare a ação realizada na página como um movimento
político. Bennet e Sergerberg (2012) apontam para o aparecimento de novas
formas de ação política, baseadas na experiência pessoal e Mansbridge
(1996) salienta a importância de se considerar como forma de deliberação
política a conversa informal.
O segundo capítulo apresenta o objeto de forma mais detalhada e
propõe uma discussão sobre as questões específicas do trabalho doméstico,
passando pelo histórico de discriminação social e racial no Brasil e sua
influência na divisão do trabalho, além de abordar a questão do trabalho
feminino.
No terceiro capítulo explico a metodologia empregada para a análise
de conteúdo e de enquadramento e discorro sobre as categorias utilizadas
para compreender o material estudado. Por fim, encerro o trabalho
apresentando a análise e os resultados da pesquisa.
A partir disso pretendo levantar algumas questões importantes sobre a
exploração do trabalho doméstico no Brasil e a forma como as empregadas
criam enquadramentos sobre si mesmas e sobre as opressões que
vivenciam. As leis que regulamentam este tipo de trabalho já são antigas em
nosso país e, entretanto, os relatos da página mostram que as domésticas
continuam relegadas a condições de trabalho exploratórias e precárias.

15
CAPÍTULO 1: LUTA POR RECONHECIMENTO, AÇÃO POLÍTICA E
ENQUADRAMENTOS

Para nortear nossa análise do movimento teremos como base a Teoria


do Reconhecimento, como formulada por Honneth no livro “Luta por
reconhecimento – a gramática moral dos conflitos sociais”. Esta teoria foi
eleita porque nos permite pensar a importância política das mobilizações para
além da formulação ou conquista de reivindicações concretas. Isto porque,
segundo a afirma Honneth, a base dos conflitos sociais é a luta por
reconhecimento ou, em outras palavras, a luta dos indivíduos por serem
reconhecidos no seio da sociedade como sujeitos dignos de direitos. A
obtenção formal ou a institucionalização desses direitos seria apenas um
desdobramento de um reconhecimento social previamente estabelecido
através das relações intersubjetivas.
Esta ideia é reforçada no conceito de conversa informal proposto por
Jane Mansbridge (1996). Em seus trabalhos a autora aponta a importância
de se considerar o papel da conversa cotidiana nos processos de deliberação
política. Mansbridge proõe que se considere ““político” o que “o público deve
discutir” quando essa discussão toma parte de alguma versão, talvez
altamente informal, de uma decisão coletiva” (Mansbridge, 1996, p. 212).
Segundo a autora para politizar determinado assunto é preciso trazê-lo à
discussão pública, processo que nem sempre precisa acontecer através do
Estado, mas pode ser fruto de uma ação descoordenada, informal e
inconsistente.
Estas linhas de pensamento importam especialmente porque estamos
lidando com a análise de um movimento em redes sociais, que emprega uma
nova forma de organização chamada por Lance Bennett e Alexandra
Sergerberg (2013) de “ação conectiva”. Os autores explicam o modelo

16
tradicional de ação política tem uma estrutura vertical, centrada em
organizações, com bandeiras e identidade definidas a priori.
Eles explicam que novas mobilizações em todo o mundo estão
alcançando ampla adesão social graças à horizontalização deste processo. A
partir do uso de tecnologias da comunicação o lugar central das organizações
está sendo deslocado para os indivíduos, que constroem coletivamente a
identidade e bandeiras dos movimentos a partir do compartilhamento em
rede de certos conteúdos personalizados, como narrativas sobre suas vidas
privadas.
Esses movimentos, por isso, não se baseiam sobre reivindicações
concretas mas sobre a troca de informações em larga escala afim de
identificar e divulgar de que maneira as pessoas se relacionam no seu dia-a-
dia com determinadas questões políticas. São, portanto, uma experiência de
reconhecimento dos desrespeitos vividos coletivamente.
Para estudar a construção simbólica deste reconhecimento, nos
apoiaremos na análise de quadros de Erving Goffman (1974) e Entman
(1993). Os autores procuram compreender de que maneira os sujeitos
organizam suas experiências sociais a partir dos conceitos e saberes aos
quais têm acesso. Assim, procurarei compreender a partir de quais
enquadramentos as mulheres que se manifestam na página
#EuEmpregadaDoméstica atribuem significado a experiência do trabalho
doméstico, quais são as possíveis chaves que formam estes
enquadramentos e como a interação na página produz um intercâmbio de
perspectivas entre essas mulheres. Neste capítulo empreenderei uma
explanação detalhada destes conceitos.

1.1 TEORIA DO RECONHECIMENTO

O engajamento individual na luta política restitui ao indivíduo um


pouco de seu autorrespeito perdido (Honneth, 2003, p. 259)

A teoria do reconhecimento como a empregaremos neste trabalho foi


formulada por Axel Honneth, filósofo alemão da terceira geração da escola de
Frankfurt. Honneth propõe uma análise das relações intersubjetivas

17
cotidianas, que volta a atenção para o papel do conflito no processo de auto-
valoração dos sujeitos. O filósofo parte da premissa de que a percepção de si
dos indivíduos é formulada tendo como base as expectativas normativas de
seu meio. Por isso, estes sujeitos estão submetidos a uma constante luta
para que sua individualidade seja reconhecida e valorizada dentro da
normatividade em que estão inseridos.
O termo “reconhecimento” aqui representa, portanto, a percepção do
outro e de si mesmo como sendo socialmente dignos de respeito. Ele
encontra sua origem nas formulações de Hegel, que propõe a correlação
conflito-reconhecimento como uma oposição ao estado natural hobbesiano.
Para Hobbes o estado da natureza, aquele que antecede o surgimento das
leis, caracteriza-se por uma guerra de todos contra todos. Nele a totalidade
dos homens lutam entre si para obter seus interesses próprios e vencer a
disputa por recursos de sobrevivência escassos. O contrato social surge
como um instrumento do Leviatã para mediar os indivíduos de forma a livrá-
los da insegurança de um estado de guerra. Assim, eles delegam sua
liberdade a uma autoridade que passará a regular suas relações, direitos e
deveres.
Hegel, por sua vez, acredita que a motivação dos conflitos é a busca
por reconhecimento. Ele propõe que o indivíduo no estado natural não está
sozinho, mas agrupado em famílias. Nelas, começa a compreender a
existência de individualidades diferentes das suas e, portanto, desenvolve as
primeiras noções de eu e outro. No interior dessas famílias os sujeitos atuam
em conjunto por sua sobrevivência, buscando obter domínio sobre territórios
e recursos. Durante este processo, eventualmente se defrontam com
indivíduos fora daquele núcleo que tentam utilizar-se destes recursos,
causando conflito. Hegel argumenta que este conflito não se da
simplesmente pelo medo de que os bens se esgotem. Aquele grupamento
que tem seu espaço invadido entra em conflito porque foi ignorado pelo
invasor, que agiu sem levar em conta sua existência. O invasor, por sua vez,
age tendo em vista apenas seu próprio contexto e a partir do choque com o
outro ganha a percepção de que seu ato, que a princípio ligava-se apenas a
uma necessidade particular, atingiu indiretamente outros sujeitos. Adquire,
portanto, um conhecimento mais amplo de suas próprias ações.

18
Hegel acredita que é no seio destes conflitos por reconhecimento
recíproco que os contratos sociais começam a se estabelecer, não como uma
solução exterior à luta entre os homens, mas como consequência do
aprendizado sobre as relações sociais que estas lutas propiciam.
Honneth, por sua vez, aprofunda esta noção à luz dos estudos sobre
psicologia social formulados por Mead. Ele propõe três tipos de
reconhecimento: o amor, o direito e a solidariedade. Juntos, eles constituem
a identidade do indivíduo, que é sempre formulada em relação ao outro. O
amor é a primeira experiência de reconhecimento e aprovação social do
sujeito, provendo-o de autoconfiança para participar da vida em sociedade.
Contudo, ele não é suficiente para capacitar este sujeito a se posicionar
politicamente: é necessário que ele seja reconhecido também como alguém
que possui direitos. Além disso, deve experimentar a solidariedade – a estima
social para além dos afetos e da esfera jurídica. Esta última só é possível a
partir do compartilhamento de valores comuns entre os indivíduos e está,
portanto, profundamente ligada à vida cultural daquela sociedade.
A cada uma delas estaria ligada uma forma específica de não-
reconhecimento, respectivamente: os maus tratos, a privação de direitos e a
degradação. O conflito social surge, segundo Honneth, quando o indivíduo
vivencia alguma destas experiências. Todavia, para que ele saia do âmbito
da luta individual e se constitua como movimento social é preciso que os
lesados compartilhem suas experiências de forma que seja possível enxergá-
las como uma vivência comum a determinado grupo identitário do qual fazem
parte.

O surgimento de movimentos sociais depende da existência de


uma semântica coletiva que permite interpretar as experiências de
desapontamento pessoal como algo que afeta não só o eu
individual, mas também um círculo de muitos outros
sujeitos (Honneth, 2003, p. 258)

Os envolvidos devem, portanto, ser capazes de caracterizar e nomear


seu sofrimento. É precisamente a construção desta semântica coletiva que
nos interessa no estudo do movimento “Eu, empregada doméstica”.

19
1.2 AÇÃO CONECTIVA E CONVERSA INFORMAL

O conceito de “ação conectiva” foi desenvolvido por Bennet e


Segerberg (2013) e é o norteador de nossa análise sobre os movimentos
políticos em rede. O nome é uma brincadeira com o termo “ação coletiva”,
como desenvolvido por Olson (1971) no livro “A lógica da ação coletiva”.
Neste trabalho o autor argumenta, que quando um movimento social visa a
obtenção de um bem público, indivíduos munidos do uso da razão optarão
por não participar – na medida em que podem se beneficiar da aquisição
daquele bem mesmo sem terem feito esforço para consegui-lo.
Entretanto, recentemente estão despontando no mundo inteiro
movimentos sociais com ampla adesão popular. Bennet e Segerberg (2013)
fazem um estudo de suas características e propõem que sua popularidade é
consequência de um conjunto de reconfigurações na forma de organização
política. Segundo os autores, estas novas formas de manifestação estão
usando tecnologias digitais para propiciar aos participantes a possibilidade de
construir coletivamente a identidade e as bandeiras dos movimentos dos
quais fazem parte, a partir do compartilhamento em rede de conteúdo
personalizado. Os manifestantes assumem o protagonismo das ações e as
organizações passam a ocupar o lugar de mediadoras ou impulsionadoras de
conteúdo.
Possivelmente a principal potencialidade dessas novas formas
engajamento é a de trazer determinados temas para a discussão pública.
Além de inundarem as redes sociais, estas campanhas levaram suas
temáticas-chave a jornais, revistas, chegando a alcançar a imprensa
internacional. Embora algumas pessoas critiquem esses movimentos por sua
inconsistência, Mansbridge (1996) argumenta que a politização de
determinado assunto nem sempre precisa passar pela instância do Estado.
Através da conversa informal, sujeitos descoordenados podem trazer a
discussão públicas temas que o coletivo considere importantes.
Podemos considerar que estas ações online impulsionam a prática
que Mansbridge (1996) chama de ativismo cotidiano ou ativismo de não-
ativistas. Este tipo de ação política geralmente acontece quando, em seu dia-

20
a-dia, um não-ativista age para mudar as ações ou crenças de outras
pessoas a respeito de uma questão pública.
Por isso, ao convidarem diferentes pessoas a se expressarem sobre
um mesmo assunto essas campanhas de engajamento político
personalizadas se constituem como plataforma para mobilização da agenda
pública. Elas potencializam a capacidade de grupos minoritários se fazerem
reconhecidos pela sociedade. Ao mesmo tempo, permitem que pessoas que
sofrem experiências de não-reconhecimento similares se identifiquem e
troquem percepções sobre suas vivências. São, portanto, um mecanismo
potente para a formação da semântica coletiva apontada por Honneth (2003)
como uma das bases para propulsão da experiência individual de não-
reconhecimento em um luta social coletiva.

1.3 ENQUADRAMENTO E REPRESENTAÇÃO

Desejo abordar também o conceito de enquadramento social como


proposto por Erving Goffman (1974) no livro “Análise de quadros”. Nesta
obra, o autor se propõe a fazer uma análise dos esquemas fundamentais de
compreensão da sociedade. Em outras palavras, Goffman estuda a maneira
pela qual os indivíduos formulam um entendimento sobre o que está
acontecendo nas diferentes situações que vivenciam. Partindo deste ponto
inicial, se propõe a destrinchar os diferentes elementos que permitem a
formulação deste entendimento. Seu conceito-base é o de quadros (no
original, frames):

Pressuponho que as definições de uma situação são elaboradas de


acordo com os princípios de organização que governam os
acontecimentos – pelos menos sociais – e nosso envolvimento
subjetivo neles; quadro é a palavra que uso para definir esses
elementos básicos que sou capaz de identificar. (...) Minha
expressão “análise de quadros” é um slogan para referir-me ao
exame, nesses termos, da organização da experiência (Goffman,
1974, p.34)

O autor aponta que as interpretações das experiências são subjetivas:


variam de acordo com os contextos específicos dos sujeitos e são

21
atravessadas por relações de poder. Além disso, a formulação de
significados é geralmente uma construção coletiva entre interlocutores e
muitas vezes tem como base noções culturais pré-concebidas. Assim, ao
interpretar o que vivenciam, os sujeitos estão menos criando sentidos sobre a
realidade do que tentando encontrar a forma “correta” de avaliá-la, dentro de
um paradigma em que algumas definições possuem mais legitimidade do que
outras. Por isso, a análise que o autor propõe é a da construção de
significados dentro das relações sociais.
Para desenvolvê-la, Goffman (1974) propõe algumas caracterizações
para os quadros de entendimento como esquemas primários e laminações.
Os esquemas primários são aqueles a partir dos quais os indivíduos atribuem
os primeiros significados a realidade, sem eles as situações estão destituídas
de sentido. Eles podem ser divididos em naturais e sociais. Os naturais dizem
respeito a fenômenos da natureza e os sociais a construções culturais
estabelecidas por aquela sociedade.
As laminações, por sua vez, são novas camadas de significado que
eventualmente se sobrepõem aos esquemas primários. Essa sobreposição
pode acontecer com o conhecimento dos que interagem com a situação
(como, por exemplo, quando se encena uma peça) ou sem que estes o
saibam (como quando se conta uma mentira). Goffman (1974, página) chama
o primeiro caso de tonalização e o segundo caso de maquinação. Assim, em
um palco onde se encena uma luta o esquema primário nos permite perceber
que aquilo que estamos vendo é uma luta e a tonalização diz que esta luta é,
na verdade, uma encenação. Caso um dos atores engane o público fingindo
que a encenação desta luta é, na verdade, algo real estamos em contato com
uma maquinação.
A noção de enquadramento foi abordada por diversos outros autores.
(BATESON, 1942; ENTMAN, 1993) Entre eles, Robert Entman explora o viés
político deste conceito para trabalhar a análise do discurso. Segundo o autor,
enquadrar é selecionar e colocar em destaque determinados aspectos da
realidade dentro de um texto comunicativo (MENDONÇA e SIMÕES, 2012).
Ele identifica quatro funções nos enquadramentos: definir problemas,
diagnosticar causas, fazer julgamentos morais e sugerir soluções. Fala
também sobre quatro instâncias: o comunicador, o texto, o receptor e a

22
cultura. O comunicador é aquele que produz enquadramentos ao, consciente
ou inconscientemente, escolher aquilo que irá dizer. O texto é o local onde os
enquadramentos se imprimem e se apresentam através de palavras-chaves,
estereótipos, fontes de informação, etc. O receptor é quem recebe o texto e o
interpreta segundo seus próprios enquadramentos, esta interpretação pode
ou não casar com os enquadramentos do texto. A cultura é o pano de fundo
das outras instâncias citadas, a partir dela se formam o conjunto de
enquadramentos comuns a determinado grupo social (GONÇALVES, 2005).
A partir da aplicação de Entman, iremos desenvolver categorias que
expliquem (a) como as mulheres da página #EuEmpregadaDomestica criam
enquadramentos sobre as explorações vivenciadas em seu trabalho e (b)
como o público da página recebe e interpreta essas informações. Na
metodologia estas categorias serão explicitadas em mais detalhes.

1.4 REFERENCIAL TEÓRICO E OBJETO

Por hora, importa abordar o que cada uma dessas teorias nos diz
sobre o estudo de caso. Da teoria do reconhecimento (Honneth, 2003) trago
a ideia de que os conflitos intersubjetivos são meios a partir dos quais os
sujeitos negociam seu valor social e criam laços identitários com outros que
sofrem experiências de não-reconhecimento semelhantes. Mais importante:
que é na criação desta semântica coletiva que reside o cimento para que esta
experiência se torne um movimento social.
A partir da teoria da ação conectiva (Bennett & Segerberg, 2013),
somo a possibilidade de que o uso das mídias digitais para organização de
ações políticas esteja favorecendo a criação deste cimento, na medida em
que os novos tipos de manifestação chamam os indivíduos a se expressarem
politicamente em rede a partir do compartilhamento de experiências
pessoais. Embora grande parte das manifestações online não tenham uma
reivindicação concreta, elas criam discussões públicas sobre o não-
reconhecimento de grupos minoritários. Este é um passo importante para que
pautas mais objetivas pré-estabelecidas por movimentos tradicionais sejam

23
conquistadas, uma vez que – como argumenta Honneth (2003) – as leis são
apenas a formalização de direitos já negociados nas relações intersubjetivas.
Por fim, a análise de quadros de Goffman (1974) e Entman (1993)
permite observar quais estruturas de entendimento entram em jogo na
construção desta semântica coletiva e quais outras sustentam a validação de
práticas sociais que implicam no não-reconhecimento dos sujeitos. Se as
domésticas têm dificuldade em fazer com que direitos trabalhistas já
estabelecidos vigorem, é porque a instância cultural dos grupos sociais
dominantes em nosso país marginaliza negros, mulheres e pobres. Para as
empregadas, os enquadramentos sobre o serviço doméstico se constroem
majoritariamente junto aos seus patrões. Em posição subalterna, elas têm
pouca ou nenhuma possibilidade de negociar as regras que permeiam estas
relações. Isto leva a banalização de agressões e abusos trabalhistas.
Quanto interagem na página, as empregadas põem em prática
justamente as funções de enquadramento citadas por Entman: definem
problemas, diagnosticam causas, propõem julgamentos morais, sugerem
soluções. As narrativas que produzem impulsionam a percepção das
privações de direitos e dignidade vivenciadas por elas. Constroem, ainda que
sem esta consciência, uma nova gramática moral (CAL, GARCEZ, 2016)
sobre o trabalho doméstico.

24
2. EMPREGADAS PROTAGONISTAS

A fanpage #EuEmpregadaDomestica conta hoje com cerca de 137 mil


seguidores. Seu objetivo é denunciar os abusos, assédios e agressões
vivenciados cotidianamente pelas empregadas brasileiras. Para isso, estas
enviam para a página relatos de suas experiências no serviço doméstico que
são postados diariamente em caráter anônimo.
O movimento teve início em julho de 2016 e em poucos dias a página
ganhou milhares de seguidores, além de ter sido tema de diversas matérias
em jornais, televisão, sites e revistas. Os relatos são postados uma ou duas
vezes por dia e hoje Joyce já reuniu mais de 4 mil histórias, com as quais
pretende fazer um livro. Atualmente, a administradora da página levanta
fundos para este projeto a partir de financiamento coletivo.

A narrativa contará quem são essas mulheres e como lidam com as


suas relações sociais e familiares.

Em determinados momentos da história não será possível distinguir


se é a minha história pessoal ou da minha mãe, ou de outras
personagens ilustradas pelos traços da grafiteira Nenê Surreal
(CATARSE, 2016).

Esta perda do limiar entre uma personagem e outra é provavelmente


um dos aspectos mais notáveis do movimento. No anonimato dos discursos,
proferidos por vozes múltiplas, encontramos uma mesma história: punições,
agressões, acusações que se repetem em diversos lares, a partir das quais
se pode traçar o esqueleto cultural do trabalho doméstico em nosso país.
O tema não é novo. Aliás, ele vem dos tempos do Brasil colônia
quando a escravidão de negros e índios era o principal sustentáculo da
produção nacional. Mais de 500 anos depois, o trabalho escravo já foi abolido
e é considerado crime. Entretanto, ainda nos deparamos com relatos de
empregadas que passaram com cárcere privado, jornadas de 12 horas de

25
trabalho diárias sem folgas, assédio sexual e estupro, agressão física e
psicológica, sem mencionar os quase sempre baixos salários e o não
cumprimento de direitos determinados por lei.
As questões das empregadas domésticas já foram abordadas em
diversos produtos culturais. Enquanto algumas novelas e minisséries como
“Cheias de charme” (Filipe Miguez, Ricardo Linhares, Paula Amaral) e “A
diarista” (Glória Perez) dão mais destaque às personagens, de maneira geral
as empregadas ocupam papel secundário nas tramas. Muitas vezes as
representações reforçam estereótipos preconceituosos, como em “Anjo mau”
(Maria Adelaide Amaral) que conta a história da babá que quer roubar o lugar
da patroa, ou em “Viver a vida” (Manoel Carlos), onde a empregada Cida
seduzia seu patrão. O tema foi abordado por um ponto de vista mais crítico
nos documentário “Doméstica” (Gabriel Mascaro) e no filme de ficção “Que
horas elas volta?” (Anna Muylaert), que problematizam os lugares comuns no
trabalho doméstico, como por exemplo o discurso de que a empregada é “da
família”.
Na academia, o serviço doméstico foi problematizado em trabalhos
como o de Carla Barros (2006) que estuda como as empregadas,
caracterizadas geralmente por suas carências, constroem significados de
consumo junto a suas empregadoras. Jurema Brites (2007) trata da
ambiguidade afetiva entre patrões e domésticas e a manutenção das
relações de exploração nas “tarefas reprodutivas” (aquelas que envolvem o
cuidado de crianças e idosos). Danila Cal (2016), por sua vez, produz um
estudo sobre o trabalho infantil doméstico (TID) no Pará, onde compara a
perspectiva das afetadas e dos media acerca do TID.
O diferencial de #EuEmpregadaDomestica é permitir que as histórias
dessas mulheres sejam contadas por elas mesmas. A página as propicia o
acesso a seu lugar de fala e elas passam a ser as protagonistas de suas
narrativas. A partir do anonimato, suas vozes espalhadas se misturam e
contam juntas um só relato.

2.1. EMPREGADAS NEGRAS

26
Segundo dados de 2013 do DIEESE, 79,8% das empregadas
domésticas brasileiras são negras. Portanto, problematizar essas relações
implica em compreender que o abuso vivido por essas trabalhadoras é
legitimado, entre outros motivos, pela discriminação racial. Inúmeros são os
reflexos do racismo no Brasil atual: o genocídio de jovens negros, 77%3 das
vítimas de homicídios em nosso país em 2012; a baixa representatividade em
cargos públicos eleitorais, apenas 29% dos eleitos em 2016 se consideram
negros contra 70,1% 4 brancos sendo os negros maioria populacional
(53,6%); a dificuldade no acesso ao ensino superior, em 2004 apenas 16,7%5
dos jovens negros brasileiros cursavam a faculdade ainda com a reserva de
vagas, além dos incontáveis casos de injúria racial relatados diariamente nas
mídias.
Essas desigualdades afetam, é claro, o mundo do trabalho. As
mulheres negras correspondiam, em 2006, a “18% da população
economicamente ativa e segundo estatísticas do PNAD sofrem desvantagem
na maior parte dos indicadores do mercado de trabalho” (ABRAMO, 2005). A
taxa de desemprego entre estas mulheres, por exemplo, é quase o dobro da
dos homens brancos.
Os trabalhadores negros como um todo recebem em média 50% do
que ganham os brancos e em relação às mulheres negras o número cai para
32%. Alguns poderiam argumentar que nestas estatísticas estão implícitos
graus preparatórios diferentes, que justificariam o contraste. Porém, os dados
também mostram que em níveis iguais de escolaridade, negros recebem
aproximadamente 30% a menos do que brancos. A comparação entre os
salários de homens brancos e mulheres negras, ambos na faixa de 11 anos
ou mais de estudo, apontam que elas recebem apenas 46% do salário médio
deles (id.).
Cerca de 65,3% dos negros exercem ocupações consideradas
precárias, informais e de baixa renda. A taxa de mulheres ocupada com o
serviço doméstico é de 18%. 76,2% das negras domésticas exercem a
função sem carteira assinada. (id.).

3
Fonte: https://anistia.org.br/campanhas/jovemnegrovivo/ (acesso em 20/10/2016)
4
Fonte: http://nesp.pucminas.br/index.php/2016/10/09/eleitos-em-2016-mulheres-e-
negrossao-minoria/ (acesso em 20/10/2016
Fontes: Síntese de Indicadores Sociais 2004, IBGE
5

27
Relatos sobre racismo e o uso de termos que se referem diretamente
à escravidão são comuns no movimento “Eu, empregada doméstica”, além
das menções ao abuso sexual. Como aponta González (1984), o que parece
é que, muitas vezes, a função da empregada doméstica guarda os traços do
que outrora foram as mucamas. Estas negras escravas que auxiliavam nos
serviços de casa, tornando mais fácil a vida das mulheres brancas, muito
comumente eram objeto sexual dos senhores – o que confere às negras um
duplo estigma.

Quanto à doméstica, ela nada mais é do que a mucama permitida,


a da prestação de bens e serviços, ou seja, o burro de carga que
carrega sua família e a dos outros nas costas. Daí, ela ser o lado
oposto da exaltação; porque está no cotidiano. E é nesse cotidiano
que podemos constatar que somos vistas como domésticas. Melhor
exemplo disso são os casos de discriminação de mulheres negras
da classe média, cada vez mais crescentes. Não adianta serem
“educadas” ou estarem “bem vestidas” (afinal, “boa aparência”,
como vemos nos anúncios de emprego é uma categoria “branca”,
unicamente atribuível a “brancas” ou “clarinhas”). Os porteiros dos
edifícios obrigam-nos a entrar pela porta de serviço, obedecendo
instruções dos síndicos brancos (os mesmos que as “comem com
os olhos” no carnaval ou nos oba-oba [...] só pode ser doméstica,
logo, entrada de serviço. (Gonzalez, 1984, p. 230).

Assim, o trabalho doméstico não aparece culturalmente enquanto


ocupação, mas como uma espécie de destino natural destas mulheres, como
uma punição por sua herança racial. O ambiente do lar, por sua vez, é um
campo fértil para a expressão do racismo, na medida em que o que ali
acontece está resguardado da esfera pública.

2.2. EMPREGADAS MULHERES

Além de negras, 93% das empregadas brasileiras são mulheres. Este


quadro transcende os limites nacionais. Segundo o relato de Creuza de
Oliveira, presidente da Federação Nacional de Trabalhadoras Domésticas, a
Índia é possivelmente o único local do mundo onde os meninos estão tão
presentes no trabalho doméstico quanto as meninas.
Enquanto nos últimos anos, as pesquisas têm constatado o aumento
da participação feminina no mercado de trabalho e no ensino superior, é
preciso refletir que, embora as mulheres estejam conquistando cargos bem
remunerados, com reconhecimento profissional, o trabalho feminino em

28
condições precárias sempre esteve integrado a sociedade. (BIROLI,
MIGUEL, 2014)
Na metade do século XX, a média de escolaridade entre mulheres
começa a superar a dos homens. No ano de 2001, 17,9% das mulheres
possuíam mais de 10 anos de estudo contra 14,3% dos homens e em 2009,
cerca de 60% das matrículas no ensino superior eram femininas. Porém, no
mesmo período a taxa de mulheres negras no ensino superior permanecia
em 10% (id.).
Apesar do aumento parcial da escolarização feminina, o rendimento
mensal médio dos homens em 2012 era quase o dobro do das mulheres. As
negras, por sua vez, têm renda média cerca de 44% menor do que a das
brancas. (id.) As mulheres negras sofrem com um duplo estigma, que afeta
diretamente seu rendimento salarial. Mas a questão vai além pois, como
aponta Angelo Soares (2016), as relações profissionais femininas carregam
também a marca da invisibilidade. Mulheres, especialmente domésticas,
sofrem com o não-reconhecimento de seus atributos profissionais e da
utilidade dos serviços por elas prestados.

No setor de serviços vários trabalhos revelam-se extremamente


ricos e complexos. No entanto, estas características permanecem
“invisíveis” sob a imagem de um trabalho leve, sem qualificações,
que exigem, sobretudo, a submissão e a passividade (Angelo
Soares, 2016, pág. 40).

O serviço doméstico é atrelado culturalmente tanto a suposta


passividade e submissão natural a mulher quanto a lógica escravocrata, que
relega aos negros as piores condições de trabalho. Compreender e
desconstruir o lugar que ele ocupa no mundo do trabalho é essencial para o
fim dos abusos trabalhistas sofridos diariamente pelas empregadas.

2.3. EMPREGADAS ORGANIZADAS

Tendo considerado as relações entre raça e trabalho e gênero e


trabalho, é preciso voltar agora a atenção para a relação das domésticas com
os movimentos sociais. Antes de falar sobre questões específicas do
movimento de empregadas, gostaria de levantar algumas informações sobre
as mulheres e a política.

29
A baixa representatividade feminina nas esferas políticas institucionais
é uma das pautas centrais do movimento de mulheres no mundo. O direito a
voto foi uma das principais reivindicações da luta feminista da metade do
século XIX até as primeiras décadas do século XX, porém anos após a
conquista do sufrágio feminino, os cargos públicos ainda são
majoritariamente ocupados por homens. (MIGUEL, 2016) Uma pesquisa
(Inter-Parliament Union, 2013) feita em 187 países apontou que em apenas
26 as mulheres ocupavam um terço ou mais das vagas em parlamentos
nacionais e o único país onde são mais numerosas que os homens nestes
espaços é Ruanda. No Brasil, as mulheres ocupam menos de 9% da Câmara
dos Deputados, o que nos coloca atrás de 154 países neste quesito.
(MIGUEL, 2016)
A teoria feminista atual se esforça para desenhar os motivos e
possíveis soluções para este esvaziamento político. (id) Um dos pontos a
serem considerados é a dupla jornada, entre as tarefas de casa e o trabalho,
que diminui o tempo hábil a ser investido na esfera pública. A questão é
especialmente problemática no caso das empregadas domésticas, que além
de terem que cumprir com as tarefas do lar em que trabalham e de seu
próprio, são diversas vezes submetidas a jornadas de trabalho exaustivas e
ilegais.
Além disso devemos considerar que, no caso do Brasil, espaço político
é historicamente dominado por uma elite masculina, sendo marcado por
práticas, costumes e construções identitárias que inibem, ou até mesmo
intimidam, a participação das mulheres. (id.) No caso das empregadas, a
baixa escolaridade é um agravante, uma vez que boa parte das notícias e
deliberações políticas pedem uma compreensão do “juridiquês” e do
“economiquês”, o que faz com que pessoas que detêm menos educação
formal não se sintam aptas a tomar parte nestas decisões.
Apesar disso, o Brasil é o país com mais sindicatos de domésticas e
com a categoria mais organizada do mundo (OLIVEIRA, 2016). Esta
organização política não torna mais fácil a obtenção de direitos trabalhistas
para a classe. A luta das domésticas em nosso país inicia em 1936, com a
fundação da primeira Associação das Trabalhadoras Domésticas em Santos
(SP) e é liderada por Laudelina de Campos Melo. Apenas em 1972, 36 anos

30
depois, aparece a primeira lei que reconhece o trabalho doméstico
(OLIVEIRA, 2016). Já então, a emenda 5.782/72 garantia a obrigatoriedade
da carteira assinada, férias remuneradas de 20 dias e recolhimento para a
previdência social. Posteriormente, em 1988, as empregadas conquistaram o
direito a décimo terceiro salário, aviso prévio, licença maternidade, folga aos
domingos e organização sindical. (id.)
Hoje, no ano de 2016, estima-se que apenas 30% das empregadas
trabalhem com carteira assinada, ainda que a lei mais recente (de 2015)
preveja multas aos empregadores que não concedam os devidos benefícios
a doméstica. A PEC das domésticas, promulgada no ano passado, garante a
jornada de até 44 horas semanais, proíbe os descontos salariais relativos a
alimentação, higiene, vestuário e moradia, dá direito ao FGTS, entre outros.
Muitos dos direitos divulgados na mídia como inovações desta PEC, na
verdade já eram garantidos a anos porém sem fiscalização. (id.)
No artigo “Trabalhadoras domésticas: nossas conquistas, nossas
histórias”, Creuza Oliveira aponta os entraves sofridos pelas domésticas na
tentativa de garantir que suas reivindicações fossem pautadas nesta PEC. A
Comissão Mista de Regulamentação, composta por deputados e senadores,
propôs diversas modificações no texto original. Um ponto importante, por
exemplo, foi a tentativa de permitir que houvessem Menores Aprendizes no
serviço doméstico, em um cenário em que a luta contra o trabalho infantil
doméstico é uma das principais pautas do movimento e uma constante na
exploração da mão-de-obra infantil no Brasil. (id.) Houve também a proposta
de que as empregadas poderiam acompanhar os patrões em viagem sem
receber hora extra. Graças às interferências do sindicato, junto a OAB, a OIT
e o Ministério Público, as duas proposições não passaram. Porém, as
empregadas não conquistaram o direito a contribuição sindical, o que
prejudica a organização da categoria, e a questão das diaristas ainda é uma
polêmica. (id.) O vínculo empregatício só passa a ser considerado por lei, se
a doméstica trabalhar mais de 3 vezes por semana na mesma casa (caso
contrário, ela é diarista). Porém, algumas empregadas trabalham, por
exemplo, uma vez por semana no mesmo local durante anos - o que poderia
configurar vínculo, como acontece no caso de ocupações como a de
professor e médico. (id.)

31
Assim, apesar da organização política, as empregadas ainda
encontram problemas ao dialogar com uma esfera institucional constituída
majoritariamente por homens brancos de classe alta. Seguindo a Teoria do
Reconhecimento (HONNETH, 2013), trazer a discussão pública o debate
sobre as condições das empregadas pode ser o primeiro passo para a
efetivação de direitos. O mais importante aqui é que a agenda de discussões
é pautada pelas próprias domésticas, que ao contarem suas experiências
decidem quais aspectos da exploração de seu trabalho devem ser
publicizados.
O movimento online pode representar para as empregadas uma forma
mais acessível de contato com a política – uma vez que possibilita que se
manifestem narrando histórias pessoais. Ao mesmo tempo, ao ler os relatos
de outras trabalhadoras e compará-los com os seus podem identificar com
mais clareza quais são os principais símbolos utilizados para reforçar a
condição de submissão da mulher negra no trabalho doméstico.

32
3. METODOLOGIA

Para a pesquisa acerca da página #EuEmpregadaDoméstica, utilizou-


se uma análise de conteúdo direcionada, a partir de categorias objetivas. As
categorias foram definidas com base: (a) nas funções do enquadramento
propostas por Entman (1993) em sua análise de quadros discursivos (b) na
experiência de campo de observação não-participante da página e (c) na
pesquisa sobre o movimento sindical de empregadas domésticas no Brasil.
Ao final, foi possível deduzir disto certos enquadramentos mais subjetivos.
Foram analisados dois tipos de conteúdos da Fanpage
#EuEmpregadaDoméstica. (1) Posts contendo relatos de empregadas (2)
Comentários mais curtidos nos posts sobre relatos. Analisamos conteúdos
dos dois primeiros meses da página, de 21/06/2016 a 31/09/2016. O recorte
foi assim escolhido porque neste período inicial as postagens contendo
relatos eram mais constantes, chegando a haver dias com um post a cada 30
minutos. Além disso, página ganhou maior notoriedade na imprensa na sua
primeira semana de existência, quando foi tema de matérias em sites como
Géledes, BBC, O Globo, entre outros. Atualmente são postados cerca de um
ou dois relatos por dia e o conteúdo é mais diversificado. Além de relatos,
são postados anúncios de emprego abusivos, conteúdo sobre racismo,
feminismo, trabalho doméstico, convites para eventos relacionados a página,
entre outros.
Para a análise dos posts, foram utilizados todos os relatos publicados
no período determinado. O objetivo era compreender a partir de quais
enquadramentos as participantes do movimento construíram em conjunto o
discurso sobre o trabalho abusivo. Em outras palavras, quais pontos elas
selecionam e destacam para narrar o abuso no serviço doméstico. Foram
analisados 140 posts.
O critério para seleção dos comentários analisados foi o de curtidas. O
objetivo era identificar como os seguidores da página, a partir da cultura em

33
que estão inseridos, criam coletivamente enquadramentos sobre o
movimento. Analisar os comentários mais curtidos nos permite observar tanto
a expressão verbal (comentário) quanto a expressão simbólica (curtida) dos
usuários, de forma que se possa identificar quais opiniões representam a
maioria. Foram analisados os 140 comentários mais curtidos na página.
A coleta foi feita a partir do aplicativo Netvizz, criado para extrair dados
de páginas do facebook. Os dados foram exportados em uma tabela do
Excel. Em seguida foi apagado todo o conteúdo que não se referia aos
relatos. A partir disso, foram criadas classificações que permitissem
quantificar a incidência de determinados conteúdos nos posts e comentários.
A análise observou (A) A autoria do relato: se foi feito em primeira ou
terceira pessoa, pela própria empregada ou por seus parentes/conhecidos;
(B) O posicionamento: como as relatantes narram seu posicionamento diante
dos abusos vividos; (C) O conteúdo dos relatos: quais aspectos da
exploração são selecionadas e destacados nas narrativas. Em relação ao
item (C) foram eles: o trabalho infantil, a discriminação social, a violação de
direitos trabalhistas, a escravidão, a violência sexual e as restrições sobre a
alimentação.
Identificar de quem é a autoria dos relatos é um caminho para
problematizar o acesso das trabalhadoras domésticas a página. Pesquisas
indicam que entre as classes D e E, o acesso à internet ainda alcança
apenas 14%. Na classe C, o número sobe para 48% (Comitê Gestor da
Internet)6. Se eles são enviados por terceiros, como parentes e amigos, de
que maneira isso infere na relação das protagonistas com a publicização de
suas histórias?
O item que observa o posicionamento das empregadas nos relatos,
permite dizer em que medida elas se colocam como resistentes aos abusos
vivenciados e quais são essas resistências. As categorias referentes aos
conteúdos oferecem dados sobre quais são as formas de abusos mais eleitas
para a denúncia e foram criadas com base nas principais pautas do
movimento de empregadas e na repetição de determinados temas nos
depoimentos.

6 Fonte: http://www.cartacapital.com.br/especiais/infraestrutura/O-desafio-da-inclusao-digital
(acesso em 12/10/2016)

34
O trabalho infantil, a discriminação social, a violência sexual e a
violação de direitos trabalhistas são algumas das principais lutas políticas em
relação ao trabalho doméstico identificadas durante a pesquisa (CREUZA,
2009, CAL, 2016). Todas essas pautas foram encontrados nos relatos. Ao
analisar aqueles que falavam sobre violação de direitos trabalhistas
observou-se que haviam graus diferentes de exploração em jogo nos
discursos, por isso foi criada a categoria “trabalho escravo”. Por fim,
houveram muitas ocorrências de relatos a respeito de questões ligadas a
restrições a alimentação das domésticas. Foi criada uma categoria para que
fosse possível quantificar e refletir sobre esses casos. Segue abaixo uma
descrição detalhada do conteúdo de cada uma dessas subcategorias.

TABELA 3.1: CLASSIFICAÇÃO DOS RELATOS DA PÁGINA


#EUEMPREGADADOMESTICA
A: AUTORIA PRIMEIRA/TERCEIRA Analise se os relatos
PESSOA foram feitos pela própria
empregada ou por
parentes
B: RESISTENTES/VÍTIMAS Analisa se nos relatos as
POSICIONAMENTO DOS ABUSOS empregadas narram
histórias em que são
resistentes aos abusos e
quais resistências são
essas.
C: CONTEÚDO TRABALHO INFANTIL Relatos de trabalho
doméstico até os 16 anos
de idade.
DISCRIMINAÇÃO Relatos de agressões
SOCIAL verbais acerca da raça ou
condição social,
acusações de roubo ou
separação
VIOLAÇÃO DE Relatos de trabalhadoras
DIREITOS que não tiveram carteira
TRABALHISTAS assinada, férias
remuneradas, hora extra,
folgas em feriados, entre
outras violações dos
direitos trabalhistas.
TRABALHO ESCRAVO Relatos de trabalhadoras
que consideram suas
condições de trabalho
análogas às de

35
escravidão, foram
chamadas de escravas ou
passaram por situações
que configuram “trabalho
escravo” segundo o artigo
149 do código penal ou
foram impedidas de
frequentar a escola.

VIOLÊNCIA SEXUAL Relatos de domésticas


que sofreram estupro,
abuso ou assédio sexual
ou passaram por
situações nas quais este
medo foi instigado.
ALIMENTAÇÃO Relatos de empregadas
que não tiveram
permissão para sentar a
mesa, que foram
obrigadas a se alimentar
fora da casa, as quais não
era permitido comer
determinados alimentos
que os patrões
consumiam (como carne),
que receberam alimentos
vencidos para se
alimentarem, entre outros
casos similares.
Fonte: A autora.

A análise de comentários baseia-a nas categorias definidas por


Entman (1993) e observou (A) A autoria: se os comentários foram feitos por
empregadas domésticas/parentes ou outras pessoas, (B) Definição do
problema: quais enquadramentos são usadas em comentários que definem
as problemáticas do trabalho doméstico ou que o cercam. (C) Diagnóstico de
causas: como são definidas as motivações dos abusos. (D) Proposição de
soluções: como o público da página acredita que os problemas podem ser
solucionados.
Abordar a autoria dos comentários permite levantar a discussão sobre
lugar de fala. Esta expressão é usada para explicar a importância de se
priorizar a fala dos oprimidos em movimentos políticos que combatem a
opressão. Como a análise é dos comentários mais curtidos pode-se observar
em que medida as falas das domésticas são valorizadas pelo público da

36
página. Os itens B, C e D partem das categorias de Entman e são
destrinchados em subitens aplicados de acordo com a repetição de
determinados temas nos comentários. A tabela abaixo fornece mais detalhes:

TABELA 3.2: CLASSIFICAÇÃO DOS COMENTÁRIOS DA PÁGINA


#EUEMPREGADADOMESTICA

A: A AUTORIA EMPREGADAS, Identificou se os autores dos


PATRÕES E NÃO- comentários se identificam como
IDENTIFICADOS empregadas, patrões ou nenhum
dos dois
B: DEFINIÇÃO TRABALHO Comentários que faziam
DE PROBLEMAS DOMÉSTICO referência a algum aspecto
problemático do trabalho
doméstico
INTERAÇÕES NA Comentários que
PÁGINA problematizavam o comentário de
outro visitante da página
QUESTÕES Comentários que traçam uma
EXTERNAS relação entre questões externas,
geralmente ligadas a vida política
do país e o trabalho doméstico.
C: RACISMO, Comentários que apontavam o
DIAGNÓSTICO MACHISMO E racismo, o machismo e a
DE CAUSAS DISCRIMINAÇÃO discriminação como causa dos
abusos trabalhistas relatados
POBREZA Comentários que apontavam a
ESTRUTURAL falta de oportunidades e de
políticas públicas que protejam
pessoas mais pobres como causa
dos abusos trabalhistas relatados
AÇÃO DO Comentários que apontavam a
GOVERNO ação de um governo específico
como causa dos abusos
trabalhistas relatados
DESVIOS DE Comentários que apontavam
CARÁTER desvios de caráter dos patrões
como causa dos abusos
trabalhistas relatados
D: SOLUÇÕES RESISTÊNCIA Comentários que apontam a
resistência das domésticas como
solução ou resposta para os
abusos vividos.
PROCESSOS Comentários que apontam
JURÍDICOS processos jurídicos contra os
patrões como solução ou resposta
para os abusos relatados
ESTUDO Comentários que apontam que as

37
domésticas devem buscar
educação como solução para
acabar os abusos relatados
APOIO EMOCIONAL Comentários que apontam que as
domésticas devem buscar apoio
emocional como solução para
saberem lidar com os abusos
relatados
OUTROS Comentários que apontam que
outras soluções para acabar com
os abusos relatados

Fonte: A autora.

3.1. DADOS DOS RELATOS

Dentre os relatos analisados, 41,4% (N= 58) foram feitos pelas


próprias empregadas. Os outros 58,6% (N=82) foram enviados, na maioria
dos casos, por filhas/filhos e netas/netos. Em 29% (N=41) dos relatos as
empregadas narram-se como resistentes aos abusos vivenciados.
A análise de conteúdo observou que um quarto dos relatos (N=35)
mencionaram trabalho infantil. Vale apontar que mais pessoas podem ter
entrado no serviço doméstico quando crianças sem terem mencionado isso
em suas histórias. 22,8% (N=32) dos relatos mencionam algum tipo de
discriminação. As denúncias sobre violação de direitos trabalhistas
correspondem a 18,5% (N=26) dos casos. Como colocado no caso do
trabalho infantil, isso não significa que apenas esta porcentagem das
relatantes trabalhasse sem os devidos direitos. Demonstra que 18,5%
optaram por evidenciar este aspecto em sua denúncia. O trabalho escravo é
mencionado em 25% (N=26) dos relatos. Nesta categoria foram incluídos
relatos em que as empregadas foram chamadas de escravas (N=1) ou
disseram que as condições vividas eram análogas à escravidão (N=13).
Também fazem parte histórias que possivelmente ferem o artigo 149 do
código penal, que criminaliza o trabalho escravo. Nestes relatos, as
domésticas não nomearam como “trabalho escravo” o que vivenciaram. Esta
relação foi feita pela pesquisa. As narrativas que mencionam violação de
direitos trabalhistas e trabalho escravo somam um percentual de 41,4%
(N=58) dos relatos. 8,5% (N=12) mencionaram violência sexual. Os relatos

38
sobre abusos ligados a alimentação representaram 37% (N=52) do total. Este
foi o enquadramento mais escolhido pelas empregadas para narrar as
agressões vivenciadas. Ao cruzar os dados, identificou-se que 60% (N= 21)
dos casos de trabalho escravo e 41% (N= 8) dos de violência sexual, eram
também de trabalho infantil. É importante mencionar que as categorias não
são excludentes entre si.

3.2 DADOS DOS COMENTÁRIOS

A análise dos comentários mais curtidos identificou que 16,5% (N=23)


eram de autoria de empregadas domésticas ou seus parentes. 8,5% (N=12)
eram de pessoas que se identificaram como patroas. 75% (N=105) foram
feitos por pessoas que não se identificaram nem como empregadas, nem
como patroas.
35% (N=44) falaram sobre aspectos problemáticos do trabalho
doméstico, alguns faziam referência direta às agressões sofridas pelas
empregadas (N=32), outros problematizaram a conjuntura política do país
(N=8) ou os comentários de outros membros da página (N=4). Dentre os
comentários que se referiam diretamente as agressões à empregadas
(N=32), a maior parte se referia a privações em relação a alimentação (N=14)
ou a humilhações (N=8). Também apareceram menções a violação de
direitos trabalhistas (N=6), críticas ao discurso de que a empregada é “da
família” (N=4) e discriminações sociais (N=3). 32% (N=16) dos comentários
desta categoria eram de empregadas. Todos eles faziam referência direta a
agressão no trabalho doméstico.
21% (N=29) dos comentários mais curtidos trouxeram diagnósticos
sobre as causas da exploração do trabalho doméstico. A maioria (N=14)
apontou o racismo, o machismo e a discriminação social como fatores
motivadores. Também foram enunciadas como causas os valores morais dos
patrões (N=2).
21% (N=29) traziam soluções para a exploração do trabalho
doméstico. A maior parte (N=12) propõe a resistência como a melhor forma
de lidar com as agressões. Os comentários que dizem isso foram feitos

39
majoritariamente por empregadas (N=7). Processar os patrões é a segunda
solução mais comum (N=6), porém não foi mencionada por nenhuma
doméstica. A segunda solução mais mencionada por domésticas foi buscar
os estudos (N=3). Também foram citados por pessoas que não se
identificavam como empregadas a busca de auxílio emocional (N=4), a
valorização do trabalho doméstico pela sociedade (N=1), mudança na
conduta moral dos patrões (N=1) e mudança na conduta das doméstivas
(N=1).
Alguns dos comentários não se encaixaram em nenhuma destas
classificações. 12,8% (N=18) eram críticas aos patrões ou lamentações
acerca dos conteúdo dos relatos. 5% dos comentários mais curtidos eram de
patroas que contavam histórias nas quais eram “boas” com suas
empregadas.
No próximo capítulo, todos estes dados serão expostos com mais
detalhes e analisados junto aos textos dos comentários.

40
CAPÍTULO 4: ANÁLISE DE RESULTADOS

Ao analisar o conteúdo da página, alguns enquadramentos chamaram


mais a atenção do que outros. A pesquisa optou por destacar os conteúdos
considerados mais importantes, assim como os textos nos quais as
domésticas narram resistências aos abusos.
A análise dos comentários mais curtidos, foi feita sobre três categorias
a partir da análise de enquadramentos proposta por Entman (1993).
Procurou-se identificar se eles: apresentavam problemas, diagnosticavam
causas e propunham soluções. Observou-se também se os comentários
eram feitos por empregadas, patrões ou pessoas não-identificadas. Dentro
destas categorias procurou-se identificar quais foram as perspectivas mais
recorrentes e compará-las de acordo com a autoria. Nas análises de relatos e
de comentários, há conteúdos que se encaixam em mais de uma das
categorias propostas e foram contabilizados mais de uma vez.

4. 1 ANÁLISE DOS RELATOS

Sobressaíram os relatos que falavam sobre “alimentação” e “trabalho


escravo”. O tema alimentação destacou-se por ter sido o mais comum
(N=52). Optou-se por comentar “trabalho escravo” pois o conteúdo esteve
presente em um quarto dos relatos, é um assunto de extrema gravidade e
foram encontradas contradições na abordagem que as domésticas dão a ele.
Por último, considerou-se importante falar dos relatos que narravam ações de
resistência e refletir sua sobre sua função dentro da página. Procurou-se
identificar as funções de enquadramento criadas por Entman (1993) -
apresentar problemas, diagnosticar causas, definir julgamentos morais e
propor soluções - dentro dos relatos, quando cabiam.

41
4.1.1 RESTRIÇÕES A ALIMENTAÇÃO

Entre os relatos sobre restrições a alimentação (N=52) apresentam-se


casos de empregadas que não podiam comer os mesmos alimentos que os
patrões (N=27), não podiam comer a mesma mesa ou usar os mesmos
talheres (N=12), eram forçadas a comer restos de comida (N=7), passaram
fome (N=6) ou receberam alimentos vencidos (N=3).
Ao abordar o tema da alimentação em sua pesquisa sobre o Trabalho
Infantil Doméstico, Danila Cal (2016) aponta que:

Dentre as ex-trabalhadoras infantis domésticas e empregadas


domésticas de modo geral, foi possível perceber que existe todo um
conjunto de valores relacionados à oferta de alimento pelos
patrões. Como se estivesse tacitamente colocado que, em troca do
trabalho, por mais que haja algum tipo de remuneração, cabe aos
patrões fornecer alimentação, e essa precisa ser de qualidade. Faz
parte, então, do sentido de “ser bem tratada” no emprego
doméstico, comer da mesma comida que a família empregadora e
em quantidade suficiente. (CAL, 2016, p. 202)

A afetividade apontada pela pesquisadora confirma-se nos resultados


desta pesquisa, já que esse foi o enquadramento mais usado para denunciar
os maus-tratos. As domésticas procuram diagnosticar as causas do
comportamento dos patrões, expondo as contradições no discurso destes.
Enquanto eles justificam a restrição alimentar como uma forma de
economizar dinheiro, as empregadas apontam casos em que as comidas são
jogadas fora para que elas não as consumam. Elas acreditam que motivação
real é a discriminação ou simplesmente restringir o acesso a determinados
tipos de alimento.

“Todas tem uma coisa em comum mesquinhos! Jogam


comida no lixo mas não te oferece! Eu e a emprega tínhamos que
comer a comida do dia anterior assim não havia desperdicio. Não
tínhamos direito a suco ou refrigerante isso era tirado da mesa.
Um dia eu e a empregando pegamos um copo de refrigerante sem
pedir.. A patroa descobriu e fez um barraco Isso foi de algumas
vezes que ela nos humilhou.No dia seguinte a patroa começou a
colocar uma marca com a caneta em todas as garrafas...assim ela
7
sabe se alguém roubou um copo de guaraná” Empregada 1, 2016


7 Todo o conteúdo foi retirado da página do Facebook #EuEmpregadaDoméstica. A
transcrição optou por manter eventuais erros de grafia.

42
“ (...) Certa vez fui tomar um pouco d refrigerante q tinha
sobrado na geladeira quando eles voltaram na semana seguinte
queriam saber onde estava o refri eu disse q tinha tomado e essas
foram as palavras da Patroa *da próxima vez q eu deixar alguma
coisa na geladeira não é pra comer pode deixar estragar mas não é
pra comer ou beber nada (...)” Empregada 2, 09 de agosto de 2016.

“(...) ela já contou e me marcou muito era que na casa de


uma família Portuguesa para qual trabalhou durante alguns anos
havia também babá branca que não era restrita a comidas e nem
bebidas na casa somente minha mãe negra que não podia comer
nem beber sequer a água que havia na casa os patrões diziam
que as raças não podiam se misturar. (...)” Empregada 3, 09 de
agosto de 2016

“(...) Minha mãe grávida de mim trabalhava numa


casa que quando a patroa foi viajar jogou toda comida fora pra
minha mãe não comer. (...)” Empregada 4, 24 de agosto de 2016

As domésticas também reveem julgamentos morais, quando apontam


que por detrás de um suposto assistencialismo da patroa que oferece restos
de alimento, há o desejo de demarcar as diferenças hierárquicas e
financeiras entre uma outra. Elas pontuam que a forma como as patroas
enxergam a condição financeira das empregadas, não condiz com a
realidade. Problematizam o imaginário dos patrões sobre o consumo
alimentício de pessoas mais pobres e apontam que há um prazer dos
empregadores em dizer e acreditar que as empregadas passam
necessidades.

“(...) Já trabalhando em outra casa. Em um belo dia sua


patroa fez uma festa comprou vários doces. No final da festa ela
chamou minha mãe e disse: Leva o resto dos doces e aperitivos
pros seus filhos eles vão gostar nunca comeram isso não? (...)”
Empregada 5, 22 de julho de 2016

“(...) dai comecei a trabalhar tinha uma empregada lá que ia


sair daí ela estava mim treinando tinha que fazer almoço um dia a
empregada estava me ensinando como a senhora dona da casa
gostava de fazer o macarrão daí ela chegou bem na hora em que
iamos escorrer o macarrão dai ela falou assim: nossa vocês
passando fome e a gente jogando essa água do macarrão
fora (...)” Empregada 6, 05 de agosto de 2016

“(...) A Sra. Muito educada foi até a cozinha, pegou com a


mão a carcaça dos perus e começou a limpar os ossos, vezes
colocava na boca outras no pote velho de sorvete. Já conhecia a
fama da bonita e quando ela virou as costas joguei tudo pros
cachorros. Quando estava me preparando para sair ela disse: -
Cadê o pote? - pensei que era pros cachorros. -Tava tão gostoso,
separei para vc. levar pra sua ceia. - Preocupa não dona! Meu
pernil já esta na padaria assando. Não entendo, sempre trabalhei
no Natal porque a grana é boa. As vezes se ganha em dois dias o
que se leva o mes inteiro para ganhar. Mas eles pensavam que eu

43
estava la por comida. Já passei cada uma no Natal. (...)”
Empregada 7, 10 de agosto de 2016

“(...) outra vez o arroz queimou aí eles comeram ela disse


come esse arrozinho queimado e bom eu respondir pra ela nem
quando eu passava necessidade minha mãe deixava nois comer
arroz queimado imagina agora que posso comprar (...)”
Empregada 8, 10 de agosto de 2016

Como podemos observar, a resposta dada pelas empregadas é


demonstrar as patroas que podem pagar por sua própria comida e que
consomem alimentos de qualidade. A noção de uma suposta condição de
miséria vivenciada pelas domésticas parece ser uma das bases das relações
de abuso. Não apenas pelo preconceito social, mas porque ao acreditar que
as empregadas passam fome as patroas entendem que elas ficarão
satisfeitas com qualquer alimento (ainda que sejam restos ou comidas fora da
validade) e que irão se submeter a qualquer forma de exploração.

4.1.2 TRABALHO ESCRAVO

25% (N=35) dos relatos expõe questões relacionadas ao trabalho


escravo. Em 13 deles, são as relatantes que consideram “escravidão” as
situações vivenciadas. Nos outros casos, elas narram situações análogas ao
que o código penal 149 classifica como “trabalho escravo”8 e a pesquisa
optou por incluir estes relatos na categoria. Quando o termo escravidão é
utilizado pelas próprias empregadas, elas estão denunciando o trabalho
doméstico como uma forma de escravidão disfarçada e aceita.

8 Artigo 149. Reduzir alguém a condição análoga à de escravo, quer submetendo-o a
trabalhos forçados ou a jornada exaustiva, quer sujeitando-o a condições degradantes de
trabalho, quer restringindo, por qualquer meio, sua locomoção em razão de dívida contraída
com o empregador ou preposto:
Pena- reclusão, de dois a oito anos, e multa, além da pena correspondente à violência.

§ 1o. Nas mesmas penas incorre quem:

I- cerceia o uso de qualquer meio de transporte por parte do trabalhador, com o fim de retê-lo
no local de trabalho;

II – mantém vigilância ostensiva no local de trabalho ou se apodera de documentos ou


objetos pessoais do trabalhador, com o fim de retê-lo no local de trabalho.

§ 2o. A pena é aumentada de metade, se o crime é cometido:

I – contra a criança ou adolescente;

II – por motivo de preconceito de raça, cor etnia, religião ou origem.

44
“(...) Hoje tenho 30 anos e trabalho numa empresa e sim ainda
conheço algumas pessoas que se acham mais que os outros mas
nada se compara as humilhações que passei como doméstica. Por
vezes eles acham que vc é um escravo. (...)” Empregada 9, 20 de
setembro de 2016

“(...) filhos sem educação que faziam de mim gato e sapato a filha
dessa minha patroa tinha minha idade 14 anos a época e ela até
me batia mas isso eu não deixava revidava então era uma
brigaiada mas como eles não podiam perder a escravinha não me
mandavam embora só ameaçavam!” Empregada 10, 20 de
setembro de 2016

“(...) Sinto justiça quando você expõe esse esgoto que vem da
classe média em forma de atitudes escravagistas. (...)” Empregada
11, 09 de setembro de 2016

“(...) Ela conta que todos os dias encontrava dinheiro espalhado


nos lugares mais imprevisíveis da casa: um jogo comum entre
patrões para testar o caráter de seus escravos ops empregados.
(...)” Empregada 12, 26 de julho de 2016

Nos outros relatos desta categoria as empregadas foram submetidas a


condições de “trabalho escravo” como o “trabalho forçado”, aquele no qual o
trabalhador é obrigado a se submeter a condições de exploração do trabalho,
sem a possibilidade de deixar o local; a “jornada exaustiva”, aquela em que o
expediente é desgastante, vai além de horas extras, colocando em risco a
integridade física do trabalhador uma vez que o intervalo entre jornadas não
é suficiente para reposição de energia; casos em que o descanso semanal
não é respeitado, impedindo que o trabalhador tenha vida social; condições
degradantes: alojamento precário, falta de assistência médica, péssima
alimentação, falta de saneamento básico e água potável, maus tratos e
violência.9
As relatantes que foram submetidas a estas condições, não se referem
aos comportamentos dos patrões como prática criminosa e muitas vezes não
mencionam termos que se refiram a escravidão. Elas narram as condições de
trabalho apenas como humilhantes, cruéis e abusivas.

“(...) Também trabalhei em São Paulo de babá para M. P nora


daquele médico muito conhecido em São Paulo o Dr. J.P nessa
casa tinha que trabalhar muito e sem comer só comiam eles se
vc quisesse comer tinha que ser só pão com manteiga não
aguentei e fui embora dias depois entrou outra babá e desmaiou
de fome (...)” Empregada 13, 30 de setembro de 2016

9 Fonte:
http://escravonempensar.org.br/sobre-o-projeto/o-trabalho-escravo-no-brasil/ (acesso
em 10/11/2016)

45
“(...) A princípio o trabalho era de cuidar da casa e olhar as crianças
(que eram 4 de 4 5 7 e 8 anos. sendo que o de 4 ainda usava
fraldas de pano). Mas na primeira semana de trabalho a senhora
dispensou a lavadeira e a passadeira e passou a obrigar a minha
mãe a cuidar das roupas de toda a famíliia (incluindo as fraldas).
Além disso minha mãe dormia na casa mas não tinha cama ela
tinha que aguardar o esposo da patroa acabar de assistir tv por
volta das 23:30 da noite para dormir no sofá. E deveria acordar as
5:30 para comprar o pão e fazer o café para as crianças e o marido
da patroa. (...)” Empregada 14, 19 de setembro de 2016

“(...) Meu horário era de 06:00 até as 18:00 muitas vezes se


estendendo! As festas não tinham hora pra terminar! Um belo
dia depois de 3 anos trabalhando para famÃlia com o mesmo
salário resolvi pedir um aumento. O que ouvi era que o que eu
ganhava era muito já que eu não pagava moradia e nem comida!
Segundo ela qualquer outro patrão descontaria do meu salário
despesas como luz água e comida! (...)” Empregada 15, 10 de
setembro de 2016

“(...) Certa ocasião uma peça de roupa não fora lavada o


suficientemente bem segundo a patroa então a menina teve a
roupa esfregada no rosto até o nariz sangrar. (...)” Empregada 16,
04 de setembro de 2016

Enquanto em alguns relatos as empregadas diagnosticam que as


relações de trabalho doméstico se assemelham muito a escravidão, em
outros mencionam situações análogas a escravidão sem fazer menção a
ilegalidade das práticas ou a processos e denúncias que possam ter se
desdobrado do ocorrido. Embora estejam cientes dos abusos que vivenciam,
estão distantes das ferramentas legais para combatê-los. As empregadas,
então, narram buscar outras formas de luta que tem mais afinidade com a
informalidade das relações de trabalho que vivenciam.

4.1.3 RESISTÊNCIAS

Em 29% (N=41) as empregadas se posicionam como resistentes às


agressões vividas. Foram categorizadas como formas de resistência: pedido
de demissão, revidar agressões físicas ou psicológicas, defender-se de
acusações, processar os patrões, etc. Relatos centrados em evidenciar a
resistência se direcionam principalmente a outras empregadas. Neles as
relatantes estão dando exemplos sobre como acreditam que se deve lidar
com os abusos dos patrões. Elas também apontam que tipos de atitudes não
devem ser toleradas no trabalho doméstico. Além disso, afirmam o respeito

46
com a qual se deve tratar as empregadas. A medida mais comum de
resistência (N=16) foi o pedido de demissão.

“(...) Quando eu cheguei em Brasília o primeiro emprego que


consegui foi de doméstica assim que me mostrou a casa a patroa
me mostrou alguns objetos e disse vc só pode comer nesse
prato com esse talher e essa xícara. Não pode de jeito nenhum
usar os mesmos objetos que a gente pra comer nunca mais voltei
aquele lugar. (...)” Empregada 17, 21 de julho de 2016

“(...) Eu cuidava de uma criança de 3 anos e fiz brócolis pro jantar


dele acho que ficou muito cozido pq desmanchou então a patroa
falou: - Meu filho não vai comer isso pensa que ele tá acostumado
às suas lavagens? Comer pão com ovo? Pedi demissão no outro
dia! (...)” Empregada 18, 22 de julho de 2016

“(...) daí um outro dia saiu pra o escritório e mas tarde ela ligou em
casa daí eu atendi o telefone ela falou quem é? Eu disse meu
nome ela disse: ninguém quer saber quem é você, você não é
ninguém quando eu ligar aí você tem que falar o meu nome achei
que ela foi muito grossa e mal educada se ela queira que fosse
assim acho que deveria explicar pra mim com educação pois lá no
norte já tinha trabalhado e muitas casas e de pessoas que
trabalhavam na educação e sempre fui tratada com muito
respeito então achei que ela não merecia que eu continuasse a
trabalhar com ela e que eu mas ainda não merecia passar por
essas humilhações no outro dia acordei cedo peguei minhas
coisas falei com o marido dela e ele mim deu dez reais pra pagar a
passagem e fui embora perdi uma semana de trabalho e nunca
mais voltei lá (...)” Empregada 19, 05 de agosto de 2016

Outra forma de resistência encontrada nos relatos é o consumo de


determinados bens que geralmente conferem status à patroa. As relatantes
identificam que as empregadoras acreditam que têm maior valor social ao
consumirem produtos que as empregadas não consomem. Assim,
demonstrar para as patroas que têm acesso aos mesmos bens que elas é
uma forma de resposta.

“(...) Eu sou bolsista integral pelo Prouni e estudo na


mesma faculdade que a filha da patroa. Conversa vai conversa
vem ela soltou a notícia da minha bolsa na Anhembi Morumbi para
a chefe e ela embasbacada soltou que a filha estuda na mesma
univesidade porém pagando. Hehehe (...)” Empregada 20, 25 de
setembro de 2016

“(...) Um dia na hora do jantar usei um pouco de pimenta do


reino dela para colocar no meu prato. A mulher fez um
escândalo disse que aquilo era muito caro que aquelas pimentas
era dela e da família dela. Não era pra eu usar na comida da
empregada. - Onde já se viu? Uma pimenta de 17 reais (...) a
empregada colocar no prato. No dia seguinte comprei as pimentas
com moedor mais caras do supermercado levei pra casa dela.
usava em todas as comidas da casa colocava na mesa a minha

47
pimenta oferecia para os convidados dela usava a rodo. (...)”
Empregada 21, 29 de setembro de 2016

Também identificamos como forma de resistência narrativas sobre a


conquista de empregos com maior prestígio social, através do estudo. São
consideradas formas de resistência porque nessas narrativas as domésticas
contam ir contra as expectativas de patrões que não queriam que
estudassem. Nesses relatos elas destacam a autonomia e a superação de
dificuldades como pontos dos quais se orgulhar.

“(...) Eu estudei acreditei e hoje sou formada em


Historia professora concursada.Contrariando minha tia que
acreditada que estudar era só pros seus filhos que eu ia ser
sempre empregada domestica.Não me envergonho disso sempre
que falo que já trabalhei em casa de família meus alunos ficam
surpresos. (...)” Empregada 22, 08 de agosto de 2016

“(...) Chegando sábado na hora curso me arrumei e disse


á ela que estava indo e que voltava pra limpar a cozinha. Palavras
dela: - Vivian você vai me DESOBEDECER? Disse não!!!
Simplesmente disse que era o melhor para mim e que ia. E fui.
Voltei para limpar a cozinha não estavam em casa. Na segunda o
padrão disse que ela queria me demitir e disse que eu que não
queria mais estar ali. Fui embora! Entrei com 14 anos e saí com 15
anos. Experiência amarga. Hoje com 35 anos sou
enfermeira funcionária do estado concursada e futura enfermeira
obstetrica. (...)” Empregada 23, 03 de agosro de 2016

“(...) Por isso prefiro contar que ela superou tudo isso p
criar 4 filhos sozinha voltar a estudar aos 45 anos cursar
gastronomia pós tecnologia em alimentos e nutrição e hj se
tornar uma grande gastrônoma e Chef de
Cozinha independente respeitada e que não precisa mais se
submeter a situações humilhantes. Uma guerreira uma vencedora
que espero sirva de inspiração a muitas mulheres que passam por
isso ainda hj p que não percam a fé em si e na vida. (...)”
Empregada 24, 21 de agosto de 2016

Nestes casos percebemos que resistir é não se submeter a situações


degradantes de trabalho, mas também ir contra as expectativas do patrão em
relação a sua possibilidade de alcançar boas condições de vida e consumir
produtos de qualidade. Os abusos, portanto, não estão ligados só aos
serviços prestados. Não se trata apenas da exploração da mão-de-obra. Eles
são motivados por desejos de dominação e violência sobre pessoas
consideradas menos dignas devido a sua situação financeira ou a cor de
pele.

48
4. 2 ANÁLISE DOS COMENTÁRIOS

Entre os 140 comentários mais curtidos procurou-se identificar quais


definiam problemas relacionados ao trabalho doméstico (N=44), sugeriam
diagnóstico para os motivos da exploração (N=29) e quais propunham
soluções (N=29). Houveram comentários que não se encaixaram em
nenhuma dessas funções e foram desconsiderados. Observou-se também
quantos dos comentários foram feitos por empregadas (N=26). Haviam ainda
comentários de patroas que narravam histórias de boas relações com suas
empregadas (N=5) e comentários de pessoas não-identificadas (N=109). As
reflexões da análise de comentários voltaram-se para compreender como as
empregadas e pessoas não-identificadas criam enquadramentos nas três
categorias de comentários criadas. Nosso objetivo é comparar estes
enquadramentos.

4.2.1 PROBLEMATIZAÇÕES

A maior parte dos comentários (N=44) procurava traçar quais são os


aspectos problemáticos do trabalho doméstico ou quais são os aspectos
problemáticos da sociedade. Em sua maioria (N=32), estes comentários
falam sobre questões que tem ligação clara e direta com as relações patrão-
empregada. Nos outros casos (N=12) problematizam a conjuntura política do
país (N=8) ou a postura de outros membros da página (N=4). Todos os
comentários feitos por empregadas (N=18) se incluem na subcategoria dos
que apresentam uma relação direta com o tema trabalho doméstico. São
relatos que contam casos similares de abuso, reiterando as denúncias dos
posts ou expondo novas situações de exploração.

49
TABELA 4.1: PROBLEMÁTIZAÇÕES DO TRABALHO DOMÉSTICO NOS
COMENTÁRIOS DE #EUEMPREGADADOMÉSTICA

EMPREGADAS NÃO-IDENTIFICADOS
Relações de afeto Problematizações sobre a conjuntura
no trabalho política dos país (N=8)
doméstico (N=1)

Relações de Problematizações sobre os comentários


humilhação no de outros membros (N=5)
trabalho doméstico
(N=4)

Direitos Relações de afeto


trabalhistas (N=3) no trabalho
doméstico (N= 3)
Problematizações
sobre o trabalho Relações de Relações de
doméstico restrição alimentar humilhação no
no trabalho trabalho doméstico
doméstico (N=7) (N= 4)
Problematizações
sobre o trabalho
Direitos
doméstico
trabalhistas (N=4)

Relações de Relações de
discriminação no restrição alimentar
trabalho doméstico no trabalho
(N=1) doméstico (N=7)

Relações de
discriminação no
trabalho doméstico
(N=3)

Fonte: A autora.

Repetindo o que ocorreu nas postagens, a maioria destes comentários


falam sobre restrições a alimentação (N=7). Observamos que neste espaço
pessoas que se identificam como empregadas procuram narrar histórias
pessoais similares as relatadas nos posts, reafirmando e validando as
denúncias da página.

“(...) Isso aí de passar vontade acontecia msm. Nós (meu


irmão e eu) tínhamos q comer dps dos patrões msm e ás vezes
não sobrava alguma coisa q queríamos comer. Qdo podia minha
mãe separava antes pra gente, mas aconteceu de morarmos em

50
casa de gente ruim q jogava fora ou mandava embalar p levar pra
casa de São Paulo (moramos no litoral) (...)” Seguidora empregada
1, 26 de julho 2016

“(...) É que as guloseimas na casa de família são muitas e nem


sempre se pode comer. Então era comum meninas domésticas
gastar parte do primeiro salario com guloseimas. Eu lembro que
comprei 3 latas de leite condensado. Isso era um luxo. Fiz três
pudins. (...)” Seguidora empregada 2, 05 de setembro de 2016

Entre os comentaristas não-identificados, o tema comida também foi o


mais comum (N=7). Porém, neste caso os textos estão centrados na crítica
aos patrões.

“Ninguém morre por alimentar empregados de uma forma


decente tb.” Seguidor não-identificado 1, 25 de julho

“Fala que é da família, mas tem que ficar do lado de fora


na hora do almoço ? Quem faz isso com alguém da família?”
Seguidor não-identificado 2, 22 de julho de 2016

“Pior que pagam contas altíssimas em restaurantes ou


lojas sem nem olhar a notinha, mais contam os alimentos!”
Seguidor não-identificado 3, 02 de agosto de 2016

“Eu acho engraçado quando alguém quer defender os


patrões em alguns casos usando termos como "em lojas levam
marmitas e talheres para comer na hora do almoço, ou vão almoçar
em casa, ou almoçam fora", mas a pergunta nestes casos é: A
empregada doméstica tem horário de almoço? Ela recebe o seu
vale refeição? Vale alimentação? Ou o Vale transporte para
almoçar em casa?” Seguidor não-identificado 4, 23 de julho de
2016

Observamos que na atuação das empregadas uma identificação com


os relatos dos posts e a reiteração deste conteúdo. Neste sentido, explicitam
ao público da página que as experiências de exploração no trabalho não são
casos individuais. Já pessoas não-identificadas adotam uma postura mais
agressiva, usando recursos como sarcasmo e ironia e apontando as
contradições nas ações e discursos comuns aos empregadores.

4.2.2 DIAGNÓSTICOS

21% (N=29) dos comentários levantavam discussões sobre as causas


da exploração no trabalho doméstico. Em alguns casos os seguidores da
página não enunciam que estão diagnosticando uma causa, mas é possível
notar em seu discurso que eles atribuem a exploração a um determinado

51
aspecto, como por exemplo a empregada não ter os privilégios que tem um
cidadão de classe média.

TABELA 4.2: DIAGNÓSTICOS DAS CAUSAS DO TRABALHO DOMÉSTICO


NO COMENTÁRIOS DE #EUEMPREGADADOMESTICA

EMPREGADAS NÃO-IDENTIFICADOS
Diagnosticam os valores morais Diagnosticam a discriminação racial, social e
dos patrões como causa dos de gênero como causa dos abusos (N=14)
abusos (N=2)
Diagnosticam a ausência de políticas públicas
que auxiliem pessoas pobres como causas dos
abusos (N=5)
Diagnosticam a atuação específica de um
governo como causa dos abusos (N=3)
Diagnosticam os valores morais dos patrões
como causa dos abusos (N=5)

Fonte: A autora

A discriminação social, racial e de gênero foi o principal fator motivador


apontado (N=14). Nestes comentários observamos a reincidência das
adjetivações “branco”, “classe média” e “privilégios”. Pouquíssimos
comentários de empregadas dão diagnósticas das causas da exploração
(N=2). Quando o fazem, atribuem os abusos a valores morais dos patrões.

“(...) Certa vez, meus pais compraram um eletrodoméstico,


mas trouxeram a caixa da loja sem nada dentro. Eu e minha irmã
passamos a brincar com meus pais, dizendo que eles estavam
ficando velhos e não conseguiam nem prestar atenção nas coisas
que compravam. A nossa funcionária, alguns dias depois, chegou
em casa chorando, dizendo que ela nunca tinha roubado nada na
vida, que era honesta. Tentamos de todas as formas dizer que
aquilo nunca foi uma acusação. Que era uma brincadeira da
família. Foi difícil. Me senti mal, me senti culpada por não saber
como lidar com a situação, muito menos como confortá-la. Aí refleti
que se algum dia eu ouvisse alguma brincadeira desse tipo no
trabalho (meus chefes dizendo um para o outro que alguma coisa
sumiu, por exemplo) eu jamais acharia que foi uma acusação para
mim, pois eu tenho o privilégio de estar acima dessas suspeitas.
Tenho o privilégio de ser branca, de classe média. (...)” Seguidor
não-identificado 5, 08 de setembro

“(...) Ela disse a verdade! Qdo disse privilégio de ser branca é


por a maioria das vezes pelo facto de ser negra já é um motivo de
suspeita! (...)” Seguidor não-identificado 6, 08 de setembro

“(...) Não porque não seja num emprego digno mas vendo
esses relatos vejo o que elas passam nos confortos desses lares
de classe média. O Brasil tem uma cultura escravista e

52
desumanizada para quem trabalha com conservação. (...)”
Seguidor não-identificado 7, 02 de agosto

“(...) Gente, acho que independentemente desse caso


específico, a maioria das empregadas domésticas é negra. E a
maiorias das patroas é branca. Então é uma questão racial, sim. E
acho que como branca e patroa tenho a obrigação moral de rever
meus privilégios. (...)” Seguidor não-identificado 8, 22 de julho

“ (...) acredito que gente ruim tem em todas as esferas da


sociedade, pois conheço gente pobre muito ruim e gente rica
muito boa... humanidade, senso de empatia é inerente á classe
social, vem de cada ser... é do caráter da pessoa msm… (...)”
Seguidora empregada 3, 26 de julho

“(...) tinha um salario decente, todos os direitos trabalhistas,


mesmo aqueles que a lei não contemplava. Havia respeito e
cordialidade. Não era da família, mas era uma profissional
respeitada. Ainda frequento a casa, já que a criança apesar de
grande, ainda chama por mim, mas sou remunerada cada vez que
vou la. Gratidão pode vir de duas formas. O respeito é que não
pode ter variações. Ou se tem ou não. (...)” Seguidora empregada
4, 04 de agosto

Poucas empregadas comentam as causas da exploração do trabalho


doméstico ou os seguidores da página priorizam diagnósticos formulados por
pessoas não-identificadas. Metade destes diagnósticos citam racismo,
machismo e discriminação social. O uso dos termos “branco”, “privilégio” e
“classe média” são usados reincidentemente sobre pessoas que se
identificam como tal. Os comentários mais curtidos de empregadas que
tratam de diagnósticos identificam como causas dos abusos a falta de caráter
de certos patrões, que se justificam por terem vivido em alguns trabalhos
experiências consideradas positivas.
O lugar do diagnóstico, portanto, é das pessoas neutras que o fazem
através de um viés teórico, enquanto as empregadas se baseiam em
experiências pessoais. Os comentários de empregadas se identificam
majoritariamente nas funções: identificar problemas e propor soluções.

4.2.3 SOLUÇÕES

Propor soluções foi para os abusos foi a segunda função mais


encontrada (N=29) nos comentários. Foram categorizados como comentários
que propunham soluções aqueles que sugeriam uma ação, davam um
conselho, propunham mudanças ou em que empregadas contavam como

53
responderam a situações similares. Um terço (N=10) deles foram feitos por
pessoas que se identificavam como empregadas.

TABELA 4.3: SOLUÇÕES PARA OS ABUSOS NO TRABALHO


DOMÉSTICO NOS COMENTÁRIOS DE #EUEMPREGADADOMÉSTICA

EMPREGADAS NÃO-IDENTIFICADOS
Propõe a resistência como solução Propõe a resistência como solução aos
aos abusos (N=7) abusos (N=5)
Propõe o investimento em estudos como
solução aos abusos (N=3)
Propõe buscar auxílio emocional como
solução aos abusos (N=4)
Propõe o investimento em estudos
Propõe buscar auxílio da lei como solução
como solução aos abusos (N=3)
aos abusos (N=6)
Propõe a valorização do trabalho doméstico
como solução (N=1)
Propõe que as domésticas revejam seu
posicionamento como solução aos abusos
(N=1)
Propõe que os patrões revejam sua conduta
moral como solução aos abusos (N=1)

Fonte: A autora

A solução mais comum para os abusos foi a resistência (N=12). Estes


comentários sugeriam que as empregadas devem impor seus direitos sobre
os patrões ou negociar as regras da relação de trabalho. Sete destes
comentários eram de domésticas e esta foi a solução mais sugerida por elas.
O que as empregadas expõe nestes comentários é que o abuso é o
comportamento padrão dos patrões e que a empregada precisa agir por si
própria se quiser trabalhar com dignidade. Como a análise é dos comentários
mais curtidos, observamos que o público da página concorda que domésticas
devem enfrentar seus empregadores. Mas o grande apoio a este tipo de ação
também pode implicar na culpabilização de daquelas que se colocam como
vítimas.

“(...) Comigo aconteceu também! Duas notas de 10 euros,


com uma eu fiz um barquinho e a outra um aviaosinho e deixei no
mesmo lugar . Não adimito esse tipo de teste. Ela entendeu o
recado e nunca mais ousou a desconfiar da minha honestidade. (...)”
Seguidora empregada 6, 22 de julho

54
“(...) Longe de querer tirar a culpa do absurdo da postura
dessa "patroa". Mas porque Joana nao disse nada? Ja passei por
situçoes e eventos onde um chefe efetuou uma pratica parecida, e
eu botei a boca no trombone. Nao trabalho sem comer. E já tive que
falar essa frase em várias ocasioes. A hora da minha refeiçao é
sagrada. Direito básico de qualquer trabalhador. (...)” Seguidora
empregada 7, 27 de julho

“(...) Quando trabalhei de babá as patroas queriam que q eu


cuidasse da casa também mas eu sempre dizia pra cuidar do seu
filho perfeitamente tenho que me dedicar só a ele e mesmo assim
insistiam em pagar mais eu dizia não porque criança requer muita
atenção os patrões tem que para de misturar serviço doméstico com
o de babá porque caso o filho se machuque no momento em que a
babá está varrendo a casa imagine o barraco q os patrões vão fazer
(...)” Seguidora empregada 8, 10 de agosto

“ (...) Tenho fama de ser boa babá, mas mal criada. Afirmo que
sou, isso é que dá ser criada sozinha na casa de patrão. Se sua
boca não for grande suficiente, vc é reduzida a um rato. (...)”
Seguidora empregada 9, 28 de julho

A segunda solução mais sugerida foi buscar apoio da lei (N=6).


Porém, nenhuma das pessoas que sugeriu isso era uma empregada. Como
apontado em relação ao trabalho escravo, parece haver uma distância entre
as domésticas e a ação jurídica.

“C.S., não sou advogada, mas até onde eu sei, as leis


trabalhistas não permitem discriminação a portadores de doenças. É
possível que caiba uma ação civil contra a sua antiga patroa.
Informe-se!” Seguidora não-identificada 9, 09 de agosto

“Essa merece uma reclamação trabalhista bem poderosa!


Faz o que faz conscientemente, para se sobrepor a
empregada...mostrar quem tem o "poder", uma profissional de Rh
Jamais tomaria uma atitude dessas sem querer!” Seguidora não-
identificada 10, 13 de agosto

Observamos que as duas principais soluções que os seguidores da


página apoiam para combater os abusos passam pelo enfrentamento dos
patrões. Pessoas neutras apostam na intervenção do Estado como forma de
combate, enquanto que para as domésticas a ação deve se dar fora da
esfera institucional. Esta escolha pela ação informal, remete ao
funcionamento do trabalho doméstico no Brasil, distante da lei. Nos dois
casos, as iniciativas devem partir das próprias empregadas o que implica que
elas são vistas como as responsáveis pelas conquistas de seus direitos. Fica
evidente também a descrença no dever fiscalizador do Estado.

55
4.3 OBSERVAÇÕES

Na análise dos relatos, pode-se perceber que o consumo de bens de


boa qualidade tem um lugar central nas relações entre patrões e
empregadas, sendo utilizado por ambas: como meio de opressão e
ferramenta de resistência. As patroas procuram negar as empregadas
determinados produtos associados a status, como o consumo de certos
alimentos e o ingresso no ensino superior. As domésticas por sua vez
demonstram uma postura crítica sobre esse enquadramento. Resistem, em
muitos casos, acessando estes bens.
Na análise dos comentários foi observado que as empregadas
procuram apresentar problemas e propor soluções, mas não costumam
diagnosticar causas. Atuam no sentido de validar o movimento expondo suas
próprias histórias e de dar apoio as outras empregadas. O diagnóstico de
causas geralmente é feito por pessoas neutras. Estas pessoas se identificam
uma série de vezes como brancos de classe média e atribuem
majoritariamente a discriminação as causas dos abusos no trabalho
doméstico. Oferecem apoio às domésticas em alguns de seus comentários,
mas também atuam no sentido de criticar o comportamento dos patrões e de
responder outros comentários que falam mal da página.
Observou-se também, tanto nos comentários quanto nos relatos, que
embora as empregadas tenham uma postura crítica sobre as relações que
vivenciam no trabalho doméstico, estão distantes de atuarem legalmente no
sentido de reverter essas condições. A isto pode ser atribuído o
desconhecimento da lei, já que elas nem mesmo costumam mencionar seus
direitos. Mas também é possível que elas não acreditem na efetividade das
leis, já que embora a profissão seja regularizada a maioria das domésticas
trabalha sem carteira assinada.

56
CAPÍTULO 5: CONSIDERAÇÕES FINAIS

O principal questionamento que guiou o trabalho foi compreender


como as relações de exploração presentes no trabalho doméstico são
narradas pelas empregadas que enviam seus relatos para a fanpage
#EuEmpregadaDomestica e como os seguidores da página reagem a estes
relatos. A partir do referencial teórico trouxe-se a ideia de que as lutas sociais
são motivadas pelos desejos dos sujeitos em serem reconhecidos como
dignos de respeito pela sociedade (HONNETH, 2003). Para que esta luta se
transforme em um movimento social, é preciso que os indivíduos que passam
por experiências de não-reconhecimento similares criem uma semântica
comum a partir da qual possam narrá-las. A produção desta semântica pode
ocorrer a partir de processos descoordenados e informais (MANSBRIDGE,
1996), como tem se observado recentemente em manifestações que usam as
novas tecnologias da comunicação para mobilização política (BENNET;
SERGERBERG, 2013). No caso de #EuEmpregadaDomestica, esta
mobilização é feita convidando as domésticas a narrarem histórias pessoais.
A pesquisa, então, voltou-se para observação da formulação da
semântica proposta por Honneth dentro da atuação na página. Para fazer a
análise foi utilizada a ideia de enquadramento proposta por Goffman (1976)
e Entman (1993), segundo a qual os indivíduos destacam certos aspectos da
realidade ao narrá-la. Procurou-se compreender quais destaques foram
escolhidos para denunciar as vivências de não-reconhecimento no trabalho
doméstico.
Ao pesquisar sobre o movimento sindical das domésticas, identificou-
se que suas principais pautas são a luta contra o trabalho infantil e a garantia
dos direitos assegurados por lei para a classe. O trabalho doméstico infantil é
uma prática proibida e o serviço doméstico sem os devidos direitos passível
de multa. Apesar disso, as sindicalistas apontam que apenas 29% das

57
domésticas tem sua carteira assinada e que o trabalho infantil nos lares ainda
é muito comum. (OLIVEIRA, 2016)
Na pesquisa sobre as causas da exploração no serviço doméstico,
observou-se que no Brasil pessoas que sofrem discriminação de gênero e
raça estão relegadas às piores condições de trabalho. Mulheres negras têm
os piores salários entre a população e mais da metade dos brasileiros
trabalham em condições consideradas precárias ou informais. (ABRAMO,
2006) Além disso, culturalmente há uma desvalorização de trabalhos
considerados femininos que são vistos como mais fáceis de exercer e de
menor importância. (SOARES, 2016)
A análise de dados, foi feita sobre os posts da página que continham
relatos e os comentários mais curtidos. Para isso, eles foram classificados de
acordo com categorias pré-estabelecidas. Para categorizar os relatos, levou-
se em conta as principais pautas do movimento sindical e os temas mais
recorrentes na página. Também houve a preocupação em perceber se as
empregadas se posicionavam como vítimas ou resistentes em relação aos
abusos vivenciados. Para classificar os comentários, foi utilizada uma
categorização proposta por Entman (1993), na qual o autor define quatro
funções dos enquadramentos discursivos: definir problemas, diagnosticar
causas, fazer julgamentos morais e sugerir soluções que foram empregadas
neste trabalho. O trabalho empregou três: definir problemas, diagnosticar
causas e sugerir soluções. Os comentários também foram divididos entre
aqueles tecidos por pessoas que se identificavam como empregadas e os
que vinham de pessoas não-identificadas.
Nos relatos o tema escolhido mais recorrentemente para narrar a
exploração no trabalho doméstico foram as restrições alimentares. Houve
ênfase nos casos em que as domésticas são proibidas de consumir
determinados tipos de comida. As empregadas fazem o esforço de deixar
claro que as causas destas restrições não são a economia, uma vez que os
patrões preferem jogar comida no lixo a oferecer a elas. Para elas, este tipo
de comportamento é uma forma de humilhação e agressão. Também são
encaradas assim, atitudes de patroas que oferecem restos de comida por
acreditarem que as domésticas são muito pobres. Diante disso demonstrar

58
que não precisam do assistencialismo das empregadoras e que tem
condições de comprar alimentos de qualidade.
Outro problema bastante apontado foi o trabalho escravo. Algumas
das relatantes usavam o termo como forma de denunciar que o serviço
doméstico é uma escravidão disfarçada. Porém, a maior parte das mulheres
narraram situações em que foram submetidas a condições análogas à
escravidão, sem mencionarem que a prática de seus patrões era criminosa.
Também não foram relatados casos de processo jurídico ou de denúncia à
polícia. Sobre isto, a hipótese desta pesquisa é a de que as domésticas
desconhecem a lei ou não acreditam que seus empregadores serão punidos.
Em um terço dos relatos as domésticas se enquadravam como
resistentes aos abusos. A principal medida que narram adotar é o pedido de
demissão. Ao contarem que se demitiram, as empregadas apontam quais
comportamentos dos patrões consideram intoleráveis: não poderem usar os
mesmos talheres, ofensas, serem proibida de estudar, entre outros. Ao
fazerem isso, estão dialogando com outras domésticas, dando exemplos
sobre como lidar com os abusos no trabalho. Algumas narram que
conseguiram um emprego em um lugar melhor após agirem dessa maneira.
Estes depoimentos são formas de apoio a pessoas que passam por
situações similares. Outra forma de resistência comum nos relatos é
demonstrar as patroas que podem consumir determinados bens que estas
associam a status, como frequentar uma universidade pública ou comer um
alimento de preço mais caro. As domésticas contam que os empregadores as
agridem insinuando que elas não são dignas de produtos de qualidade,
estudo ou de melhores empregos.
A respeito dos comentários mais curtidos, a maior parte deles procura
apontar problemas nas relações do trabalho doméstico. O tema mais
abordado foram as restrições alimentares, tanto por empregadas como por
pessoas não-identificadas. Como analisamos apenas os comentários dos
posts contendo relatos, isto é consequência da alta incidência desta questão
na página. Os comentários vindos de empregadas se diferem dos não-
identificados. Elas geralmente comentam narrando suas próprias vivencias
de exploração no trabalho doméstico. Demonstração identificação com os
relatos e procuram reafirmá-los. Os comentários não-identificados, por sua

59
vez, estão mais focados em criticar a atitude dos patrões e evidenciar as
contradições nas ações destes.
Quase nenhum empregada optou por tecer comentários que
diagnosticassem as causas dos abusos no trabalho doméstico. As que
fizeram, apontaram desvios morais como a principal motivação. Segundo
narram já tiveram patrões bons e ruins de forma que a exploração é
consequência do caráter de cada pessoa. A maior parte dos diagnósticos
vindos de pessoas não-identificadas apontam a discriminação racial, social e
de gênero como a razão das relações de trabalho abusivas. Os comentários
vinham diversas vezes de pessoas que se denominavam como brancas de
classe média.
Nos comentários que sugeriam soluções para os abusos, o principal
recurso apontado por pessoas não-identificadas foi que as empregadas
buscassem auxílio da lei. Já as próprias empregadas, acham que a melhor
solução é lutarem elas mesmas por respeito e negociarem as relações de
trabalho com os patrões. Nenhuma empregada apontou buscar a lei como
forma de resolver a questão.
De maneira geral foi identificado que os comentários das empregadas
estão mais preocupados em interagir com as outras domésticas – uma vez
que procuram propor soluções ou validar os relatos. Os comentários não-
identificados por sua vez, embora também interajam com as empregadas,
muitas vezes intentam apenas tecer críticas sobre questões sociais.
Percebemos o engajamento das domésticas em apoiarem umas às outras e
fazerem com que o movimento da página funcione.
Dentro dessas análises, percebe-se que as domésticas têm uma visão
crítica acerca das humilhações vivenciadas no trabalho. Portanto, se
reconhecem como dignas de estima social ainda que nem sempre sejam
capazes de adotar uma posição de resistência às agressões vivenciadas. A
condição de submissão não é internalizada, mas está em disputa. Entretanto,
tanto nos relatos quanto nos comentários, poucas são as que diagnosticam
causas para os abusos. As domésticas também trazem pouco a discussão
as questões da lei. Poucos são os relatos em que mencionam direitos
trabalhistas, como carteira assinada, férias ou décimo terceiro salário.
Também não são citados casos de processos por este tipo de violação. As

60
pautas do movimento sindical: luta contra o trabalho infantil doméstico e
garantia dos direitos assegurados por lei tem relação direta com estas
questões. 60% (N=21) das narrativas que mencionam trabalho infantil,
também relatam condições análogas à escravidão. A violação de direitos
trabalhistas afasta as empregadas do conhecimento da lei e da crença na
sua eficácia.
Neste sentido, é importante que hajam avanços em relação às
políticas públicas contra o trabalho doméstico em condições informais e
ilegais, tanto a partir da fiscalização quanto do debate público sobre o tema.
No site oficial do governo sobre combate ao trabalho escravo 10 , não há
menção ao serviço doméstico. A campanha associa este tipo de prática às
áreas rurais e a trabalhadores do sexo masculino. Em reportagem no portal
do senado11, as imagens ilustrativas são também de homens. Assim, não são
apenas as empregadas mas os orgãos oficiais não relacionam o serviço
doméstico ao crime de trabalho escravo.
Acredito que a principal contribuição desta pesquisa é analisar
conteúdos textuais produzidos inteiramente pelas domésticas. Como este
material não surgiu a partir de entrevistas, as falas analisadas foram criadas
sem a interferência do pesquisador. A exploração do trabalho doméstico é
um tema pouco discutido e que não é devidamente alcançado pelo estado. O
estudo dos relatos da página oferece perspectivas sobre a dimensão do
problema, assim como sobre o posicionamento das empregadas.
Por considerar a própria riqueza do material, acredito que a análise
precisa ser aprofundada. O tema é complexo, os conteúdos podem ser
abordados de diversas maneiras e uma boa observação exige uma
maturação que me parece ainda não ter sido alcançada. Julgo como parciais
os resultados obtidos. É preciso ampliar a investigação sobre a literatura que
trata de questões específicas do trabalho doméstico. Outro ponto importante
é que, apesar de os relatos terem sido escritos pelas próprias domésticas,


10
Fonte: http://mtps.gov.br/trabalhoescravonao/ (acesso em 15/11/2016)
11
Fonte: https://www.senado.gov.br/noticias/Jornal/emdiscussao/trabalho-escravo/trabalho-
escravo-atualmente.aspx

61
sua publicação é mediada pela criadora da página. Contactá-la é também um
caminho para aprimorar os resultados desta pesquisa.

62
REFERÊNCIAS

ABRAMO, Laís. Desigualdades de gênero e raça no mercado de trabalho


brasileiro. In: Ciência e Cultura, vol. 58, n. 4, 2006.
Disponível em: <http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?pid=S0009-
67252006000400020&script=sci_arttext> . Acessado em: 10/10/2016

BENNETT, W. Lance. SEGERBERG, Alexandra. The logic of connective


action. In: Information, Communication & Society, 15(5), 2013.

CAL, Danila Gentil Rodriguez. Comunicação e trabalho infantil doméstico:


política, poder e resistências. Salvador: Editora UFBA, 2016.

ENTMAN, Robert (1993). Framing: Toward Clarification of a Fractured


Paradigm, in Journal of Communication

GOFFMAN, Erving. Os quadros da experiência social: uma perspectiva de


análise. Petrópolis: Editora vozes, 2012.

GONÇALVES, Telmo. A abordagem do Enquadramento nos estudos do


Jornalismo. In: Caleidoscópio, Revista de Comunicação e Cultura, 2005, pp.
157-167

HONNETH, Axel. Luta por reconhecimento: a gramática moral dos conflitos


sociais. São Paulo: Editora 34, 2003.

MANSBRIDGE, Jane. Everyday talk in deliberative system. In: MACEDO, S.


(org.). Deliberative politics: essas on democracy and disagreement. Oxford:
OUP, 1999.

MIGUEL, Luis Felipe; BIROLI, Flávia; Feminismo e política. São Paulo:


Editora Boitempo, 2014

OLIVEIRA, Creuza. Trabalhadoras Domésticas: nossas conquistas, nossas


histórias. In: TRÓPIA, Patrícia Vieira; TOSTA, Tania Ludmila Dias;
GONÇALVES, Eliane; VANNUCHI, Maria Lúcia; SOUZA, Márcio Ferreira.
Mulheres Trabalhadoras: (in) visíveis?. Belo Horizonte, Editora Fino Traço,
2016.

SOARES, Angelo. (In) Visíveis: gênero, emoções e violências no trabalho. In:


TRÓPIA, Patrícia Vieira; TOSTA, Tania Ludmila Dias; GONÇALVES, Eliane;
VANNUCHI, Maria Lúcia; SOUZA, Márcio Ferreira. Mulheres Trabalhadoras:
(in) visíveis?. Belo Horizonte, Editora Fino Traço, 2016.

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