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■ A

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■ Capa: Danilo Oliveira

■ Produção Digital: Equiretech

■ Fechamento desta edição: 08.03.2017

■ CIP – Brasil. Catalogação na fonte.


Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ.

Oliveira, Fabiano Melo Gonçalves de


Direito ambiental / Fabiano Melo Gonçalves de Oliveira. – 2. ed. rev., atual. e ampl. – Rio de Janeiro: Forense; São Paulo:
MÉTODO, 2017.
Inclui bibliografia
ISBN: 978-85-309-7566-1
1. Direito ambiental. 2. Proteção ambiental. I. Título.

14-12269 CDU: 349.6(81)


Este livro é como um pequeno barco: permite a travessia de uma margem à outra do rio. Trata-se de
obra instrumental, uma contribuição para o conhecimento dos tópicos fundamentais da emergente e
desafiadora disciplina de Direito Ambiental.
O objetivo é expor o conteúdo necessário para a compreensão da disciplina por meio de modernas
técnicas de aprendizado e de uma estrutura lógica para auxiliar nas etapas de realização das provas
objetivas, das questões dissertativas e do exame oral dos concursos públicos, sem prescindir do exame
da OAB.
Com perguntas de concursos anteriores e inéditas, o livro se propõe a enfrentar e responder questões
dissertativas sem se ater, exclusivamente, aos gabaritos oficiais, que, por vezes, são genéricos, o que
exige apresentar uma “proposta de solução” consistente em apontamentos que contribuam para a
resolução do problema. As indagações de exame oral são inéditas ou inspiradas em sessões já
realizadas, e têm como propósito apresentar ao leitor os temas que podem ser suscitados.
Para o estudante de graduação ou pós-graduação, a obra abrange as exigências curriculares da maioria
das faculdades do País, com a mais moderna metodologia para a compreensão das principais temáticas
ambientais. Por tais motivos, os seguintes ícones são utilizados:
Caso você queira participar com sugestões e apontamentos para as futuras edições, entre em contato
pelo e-mail professorfabianomelo@gmail.com ou por meio das redes sociais.
É uma alegria compartilhar este livro, que foi pensado e elaborado para você!

“Se você for um poeta, verá claramente que há uma nuvem flutuando nesta folha de
papel. Sem uma nuvem, não haverá chuva; sem chuva, as árvores não podem crescer e,
sem árvores, não podemos fazer papel. (…) Se olharmos mais profundamente ainda,
poderemos ver os raios do sol, o lenhador que cortou a árvore, o trigo que o alimentou
na forma de pão e o pai e a mãe do lenhador. Sem todas estas coisas, esta folha de papel
não pode existir. Na verdade, não podemos apontar para nada que não esteja aqui – o
tempo, o espaço, a terra, a chuva, os minerais e o solo, os raios de sol, a nuvem, o rio, o
calor e a mente. Todas as coisas coexistem nesta folha de papel. Assim podemos afirmar
que a nuvem e a folha de papel “intersão”. Nós não podemos ser apenas nós mesmos;
nós temos de interser com todas as demais coisas.”

Thich Nhat Hanh, monge e poeta vietnamita.


Acesso ao conteúdo exclusivo para professor

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de ser o maior, mais eficiente e mais completo grupo provedor de conteúdo educacional do País, o GEN |
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Com mais essa possibilidade, o GEN | Editora Método espera que o professor explore esses novos
recursos da melhor forma possível e deseja uma ótima leitura!
Em termos históricos, a disciplina acadêmica que conhecemos como Direito Ambiental surgiu, à
semelhança de tantos outros ramos jurídicos hoje estudados autonomamente, no seio do Direito
Administrativo, na medida em que parte significativa de seu objeto de estudos sempre envolveu
atividades da Administração Pública voltadas à proteção e preservação do meio ambiente.
Inegável, porém, que nos dias atuais o Direito Ambiental atrai para seu campo de interesses “saberes”
que vão muito além do tradicional regime jurídico-administrativo. Há, indiscutivelmente, muito de
Direito Administrativo nos temas dos princípios, do licenciamento, EIA-Rima e da responsabilidade.
Contudo, a disciplina sofre igual influência das searas criminal, civil, constitucional, empresarial, além –
e isso causa muita preocupação entre os estudantes – de ciências extrajurídicas, como biologia, geografia
etc.
O Direito Ambiental, nesse sentido, é uma espécie de “ramo-ímã”, que atrai para seu objeto
específico de estudos conhecimentos jurídicos e extrajurídicos das mais variadas origens, unidos em
torno da mais urgente das causas: a proteção da “nossa casa” contra a potestade incontrolável do capital.
Conheci o Professor Fabiano Melo há cerca de dez anos, nas aulas da rede de ensino Luiz Flávio
Gomes. Trata-se de um professor-fenômeno, a um só tempo profundo e didático, ídolo de milhares de
alunos e, sem dúvida, o mais importante docente de Direito Ambiental em cursos preparatórios para
concursos públicos e Exame de Ordem no Brasil.
Desde o primeiro instante em que assisti a uma de suas aulas, admirado, desconfiei de que tanto
conhecimento não seria natural para um especialista somente em uma área. Então, descobri que o “grande
Fabiano”, como até hoje carinhosamente gosto de chamar meu amigo, é professor de Direito
Administrativo na PUC/MG, onde ministra aulas concorridíssimas na graduação e na pós-graduação do
campus de Poços de Caldas. No entanto, não é só isso. Além de dominar profundamente os Direitos
Administrativo e Ambiental, transita com a mesma naturalidade pelo Constitucional, Civil e Penal. É um
jurista completo.
Tenho que destacar, ainda, que partilho da mesma visão de mundo do Professor Fabiano. Nós, coisa
rara nesse Brasil de hoje, acreditamos no Direito como um instrumento a serviço dos menos favorecidos,
da redução das desigualdades sociais e da luta contra as elites dominantes.
Sempre disse ao Fabiano que faltava um livro de Ambiental, combinando profundo conhecimento e
didática privilegiada. Um livro que ajudasse os alunos, de uma vez por todas, nos concursos e no Exame
da OAB, a enfrentar as questões cada vez mais sofisticadas nessa matéria.
Faltava no mercado, sobretudo, um livro que tivesse essa visão de mundo tão especial que marca o
Professor Fabiano, como mestre e pessoa: o inconformismo com a realidade social de nosso País.
Agora não falta mais. O livro que o querido leitor tem em mãos chega para preencher definitivamente
a lacuna que existia. Está dividido em 26 capítulos, abordando integralmente todos os temas cobrados em
concursos e Exames da OAB. Serve com perfeição, também, como livro de formação para alunos da
graduação, pós-graduação e profissionais da área.
Por fim, a título de inspiração, transcrevo um trecho da letra de “Sal da Terra”, música do também
mineiro Beto Guedes, cujas palavras considero uma espécie de profissão de fé da causa ambiental:

“Vamos precisar de todo mundo


Um mais um é sempre mais que dois
Pra melhor juntar as nossas forças
É só repartir melhor o pão
Recriar o paraíso agora
Para merecer quem vem depois…”

Que assim seja!

Alexandre Mazza
Doutor em Direito.
Professor da Rede de Ensino LFG.
Apraz-me prefaciar o Direito Ambiental escrito pelo colega Professor Fabiano Melo, pessoa afável,
dinâmica, trabalhadora e grande conhecedora do Direito Ambiental, com vasta experiência didática e
acadêmica. O autor é, na atualidade, uma das pessoas mais conhecidas pelos estudantes de concursos,
pois trabalha há vários anos como professor titular de Direito Ambiental na rede de ensino Luiz Flávio
Gomes (LFG), bem como atua como coordenador da especialização e da pós-graduação lato sensu.
O Direito Ambiental é disciplina complexa, pois vai além da racionalidade jurídica stricto sensu,
exigindo uma visão transdisciplinar e um conhecimento interativo com várias áreas técnicas, humanas e
sociológicas do saber. Portanto, necessita de uma experiência diferenciada dos operadores jurídicos,
visando tanto à compreensão como ao ensino da matéria. Acredito que o autor detém uma ótima visão
nesse sentido, conjugando um impressionante talento didático não só em lecionar, mas também em utilizar
uma metodologia competente para escrever e facilitar o estudo dos seus leitores neste livro.
A obra supera um manual de Direito Ambiental, pois, além da visão ampla dos assuntos, tratados de
forma sistêmica, vai direto ao ponto importante, sem exageros de linguagem e redundâncias na
argumentação, ajuda muito o leitor e é um porto seguro para aqueles que se dedicam aos concursos não
só nas áreas jurídicas, mas também e nas técnicas e nas demais. Importante destacar a didática e a
metodologia contidas na obra, que apresenta a seguinte organização em todos os capítulos:

1) Dicas de memorização;
2) Fique o leitor atento;
3) Resumos esquemáticos;
4) Sínteses;
5) Questões de concursos para fixação; entre outras.

No que tange ao último item, acrescenta e subdivide em Questões Objetivas, Dissertativas e de


Exame Oral.
Parabenizo tanto a Editora, que proporcionou aos seus leitores uma excelente obra, como o autor, que
tem ajudado muito ao transmitir seus conhecimentos e por ser, reconhecidamente, um dos grandes
difusores do Direito Ambiental.

Prof. Dr. José Rubens Morato Leite


Professor-associado dos cursos de graduação e pós-graduação em Direito da Universidade Federal de
Santa Catarina – UFSC; Pós-doutor pelo Centre of Environmental Law, Macquarie University – Sydney –
Austrália; Doutor em Direito Ambiental pela UFSC, com estágio de doutoramento na Faculdade de
Direito da Universidade de Coimbra; Mestre em Direito pela University College London; Membro e
consultor da IUCN – The World Conservation Union – Comission on Environmental Law (Steering
Commitee); Presidente do Instituto O Direito por um Planeta Verde; Coordenador do grupo de pesquisa
Direito Ambiental e Ecologia Política na Sociedade de Risco, do CNPq. Publicou e organizou várias
obras e artigos em periódicos nacionais e estrangeiros. É membro do Conselho Científico da Revista de
Direito Ambiental da Editora Revista dos Tribunais, além de ser sócio-fundador da Aprodab –
Associação dos Professores de Direito Ambiental do Brasil. Foi tutor do PET/MEC. Bolsista e consultor
ad hoc do CNPq e da Fapesc. Premiado como Pesquisador Destaque da Universidade Federal de Santa
Catarina em 2011. Pesquisador 1 D do CNPq.
Capítulo 1 – NOÇÕES INTRODUTÓRIAS
1.1 Conceito jurídico de meio ambiente
1.2 Classificação de meio ambiente
1.3 Meio ambiente como um bem de uso comum do povo
1.3.1 Meio ambiente como macrobem e os microbens ambientais
1.4 Antropocentrismo e biocentrismo
1.4.1 Outras concepções
1.4.2 Afinal, somos antropocêntricos ou biocêntricos?
1.5 Expressões recorrentes no direito ambiental
1.5.1 Preservação, conservação e proteção integral
1.5.2 Biota, biótico, abiótico e biocenose
1.5.3 Intervenções antrópicas
1.5.4 Degradação ambiental
1.5.5 Poluição
1.5.6 Biodiversidade
1.5.7 Recursos ambientais
1.6 Justiça ambiental
1.7 Síntese
1.8 Questões para fixação
1.8.1 Questões objetivas
1.8.2 Questões dissertativas
1.8.3 Questões de exame oral
1.9 Gabaritos
1.9.1 Questões objetivas
1.9.2 Questões dissertativas
1.9.3 Questões de exame oral

Capítulo 2 – DIREITO AMBIENTAL INTERNACIONAL


2.1 Introdução
2.2 A Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano
2.3 O Relatório Brundtland (Nosso Futuro Comum)
2.4 Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento
2.4.1 Declaração do Rio sobre meio ambiente e desenvolvimento
2.4.2 Agenda 21
2.4.3 Convenção-quadro sobre Mudança do Clima
2.4.3.1 Acordo de Paris
2.4.4 Convenção sobre Diversidade Biológica
2.4.5 Declaração de Princípios sobre Florestas
2.5 Cúpula Mundial sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio+10)
2.6 Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável – Rio+20
2.7 A proteção ambiental na organização dos estados americanos
2.7.1 Protocolo de San Salvador
2.7.2 Carta Democrática Interamericana
2.7.3 Medidas cautelares da Comissão Interamericana de Direitos Humanos: o caso Belo
Monte
2.8 Mercosul
2.9 Síntese
2.10 Questões para fixação
2.10.1 Questões objetivas
2.10.2 Questões dissertativas
2.10.3 Questões de exame oral
2.11 Gabaritos
2.11.1 Questões objetivas
2.11.2 Questões dissertativas
2.11.3 Questões de exame oral
Capítulo 3 – DIREITO AMBIENTAL CONSTITUCIONAL
3.1 Introdução
3.2 O art. 225 da Constituição
3.2.1 Do caput do art. 225 da Constituição
3.2.2 Instrumentos de garantia de efetividade
3.2.2.1 Preservar e restaurar os processos ecológicos essenciais e prover o
manejo ecológico das espécies e ecossistemas
3.2.2.2 Preservar a diversidade e a integridade do patrimônio genético e fiscalizar
as entidades dedicadas à pesquisa e manipulação de material genético
3.2.2.3 Espaços territoriais especialmente protegidos
3.2.2.4 Estudo Prévio de Impacto Ambiental (EIA)
3.2.2.5 Controle da produção, da comercialização e de técnicas de riscos
3.2.2.6 Educação ambiental
3.2.2.7 Proteção da fauna e da flora
3.2.3 Normas específicas
3.2.3.1 Exploração de recursos minerais e recuperação do ambiente degradado
3.2.3.2 Responsabilidade em matéria ambiental
3.2.3.3 Macrorregiões consideradas patrimônio nacional
3.2.3.4 São indisponíveis as terras devolutas ou arrecadadas pelos Estados, por
ações discriminatórias, necessárias à proteção dos ecossistemas naturais
3.2.3.5 Usinas nucleares
3.3 Questões para fixação
3.3.1 Questões objetivas
3.3.2 Questões dissertativas
3.3.3 Questões de exame oral
3.4 Gabaritos
3.4.1 Questões objetivas
3.4.2 Questões dissertativas
3.4.3 Questões de exame oral

Capítulo 4 – COMPETÊNCIAS CONSTITUCIONAIS EM MATÉRIA AMBIENTAL


4.1 Competências constitucionais
4.2 Competência legislativa concorrente da União, Estados e Distrito Federal
4.3 Competência administrativa comum
4.4 Lei complementar nº 140/2011
4.4.1 Objeto
4.4.2 Objetivos fundamentais
4.4.3 Instrumentos de cooperação institucional
4.4.4 Delegação da execução de ações administrativas
4.4.5 Ações administrativas dos entes federativos
4.4.5.1 Ações administrativas da União
4.4.5.2 Ações administrativas dos Estados
4.4.5.3 Ações administrativas dos Municípios
4.4.5.4 Ações administrativas do Distrito Federal
4.5 Divisão das demais competências constitucionais
4.5.1 Competência administrativa exclusiva da União
4.5.2 Competência legislativa privativa da União
4.5.3 Competência legislativa exclusiva dos Estados-membros
4.5.4 Competência administrativa exclusiva dos Municípios
4.5.5 Competências legislativas do Município
4.6 A questão do amianto
4.7 Síntese
4.8 Questões para fixação
4.8.1 Questões objetivas
4.8.2 Questões dissertativas
4.8.3 Questões de exame oral
4.9 Gabaritos
4.9.1 Questões objetivas
4.9.2 Questões dissertativas
4.9.3 Questões de exame oral

Capítulo 5 – PRINCÍPIOS DO DIREITO AMBIENTAL


5.1 Noções gerais
5.2 Princípio do meio ambiente ecologicamente equilibrado como direito fundamental
5.3 Princípio do desenvolvimento sustentável
5.4 Princípio da solidariedade intergeracional
5.5 Princípio da função socioambiental da propriedade
5.6 Princípio da prevenção
5.7 Princípio da precaução
5.7.1 Prevenção x precaução
5.7.2 Inversão do ônus da prova
5.8 Princípio do poluidor-pagador
5.9 Princípio do usuário-pagador
5.10 Princípio do protetor-recebedor
5.11 Princípio da informação ambiental
5.12 Princípio da participação comunitária
5.13 Princípio da educação ambiental
5.14 Princípio da cooperação
5.15 Princípio da natureza pública da proteção ambiental
5.16 Princípio da proibição de retrocesso ecológico
5.17 Princípio do progresso ecológico
5.18 Síntese
5.19 Questões para fixação
5.19.1 Questões objetivas
5.19.2 Questões dissertativas
5.19.3 Questões de exame oral
5.20 Gabaritos
5.20.1 Questões objetivas
5.20.2 Questões dissertativas
5.20.3 Questões de exame oral

Capítulo 6 – DA POLÍTICA NACIONAL DO MEIO AMBIENTE


6.1 Introdução
6.2 Princípios da política nacional
6.3 Objetivos da política nacional
6.3.1 Objetivo geral
6.3.2 Objetivos específicos
6.4 Dos instrumentos da Política Nacional do Meio Ambiente
6.4.1 Padrões de qualidade ambiental
6.4.2 Zoneamento ambiental
6.4.3 Avaliação de Impactos Ambientais
6.4.4 Licenciamento ambiental
6.4.5 Incentivos à produção e instalação de equipamentos e a criação ou absorção de
tecnologia, voltados para a melhoria da qualidade ambiental
6.4.6 A criação de espaços territoriais especialmente protegidos
6.4.7 Sistema nacional de informações sobre o meio ambiente
6.4.8 Cadastro técnico federal de atividades e instrumentos de defesa ambiental
6.4.9 Penalidades disciplinares
6.4.10 Relatório de qualidade do meio ambiente
6.4.11 A garantia da prestação de informações relativas ao meio ambiente, obrigando-se o
Poder Público a produzi-las, quando inexistentes
6.4.12 Cadastro técnico federal de atividades potencialmente poluidoras e/ou utilizadoras
dos recursos ambientais
6.4.13 Instrumentos econômicos
6.4.13.1 Servidão ambiental
6.4.13.2 Concessão florestal
6.4.13.3 Seguro ambiental
6.5 Licenciamento ambiental
6.6 Financiamento e incentivos governamentais
6.7 Responsabilidade civil objetiva
6.8 Legitimidade do ministério público
6.9 Sisnama
6.10 Síntese
6.11 Questões para fixação
6.11.1 Questões objetivas
6.11.2 Questões dissertativas
6.11.3 Questões de exame oral
6.12 Gabaritos
6.12.1 Questões objetivas
6.12.2 Questões dissertativas
6.12.3 Questões de exame oral

Capítulo 7 – DO SISTEMA NACIONAL DO MEIO AMBIENTE


7.1 Estrutura do Sisnama
7.2 O Conselho de Governo
7.3 O Conselho Nacional do Meio Ambiente
7.3.1 Competências
7.3.2 Atos do Conama
7.3.3 Estrutura do Conama
7.3.3.1 Plenário
7.3.3.2 Câmara Especial Recursal
7.3.3.3 Comitê de Integração de Políticas Ambientais (Cipam)
7.3.3.4 Câmaras técnicas
7.3.3.5 Grupos de trabalho
7.3.3.6 Grupos assessores
7.4 O Ministério do Meio Ambiente
7.5 O Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama)
7.6 Instituto Chico Mendes
7.7 Órgãos ambientais estaduais
7.8 Órgãos ambientais municipais
7.9 Comissão Técnica Nacional de Biossegurança
7.10 Serviço Florestal Brasileiro
7.11 Síntese
7.12 Questões para fixação
7.12.1 Questões objetivas
7.12.2 Questões dissertativas
7.12.3 Questões de exame oral
7.13 Gabaritos
7.13.1 Questões objetivas
7.13.2 Questões dissertativas
7.13.3 Questões de exame oral

Capítulo 8 – O ESTUDO PRÉVIO DE IMPACTO AMBIENTAL


8.1 Base legal
8.2 Conceito
8.2.1 EIA x Rima
8.2.2 EPIA x EIA
8.3 Função do EIA
8.4 Natureza jurídica
8.5 Pressuposto
8.6 Momento de realização
8.7 Definição de impacto ambiental
8.8 Atividades sujeitas ao EIA
8.9 Requisitos do EIA
8.9.1 Diretrizes gerais do EIA
8.9.2 Estudos e atividades técnicas do EIA
8.10 Conteúdo mínimo do Rima
8.11 Equipe técnica multidisciplinar
8.11.1 Responsabilidade do empreendedor e da equipe multidisciplinar
8.12 Despesas
8.13 Entrega do Rima e fase de comentários
8.14 Sigilo industrial
8.15 Audiência pública
8.15.1 Procedimentos
8.15.2 Publicidade da audiência pública
8.15.3 Sessão pública
8.16 Decisão do órgão ambiental
8.17 Exigência do EIA/Rima em outras leis ambientais
8.17.1 Código Florestal
8.17.2 Lei de Gestão de Florestas Públicas
8.17.3 Lei do Bioma Mata Atlântica
8.18 Síntese
8.19 Questões para fixação
8.19.1 Questões objetivas
8.19.2 Questões dissertativas
8.19.3 Questões de exame oral
8.20 Gabaritos
8.20.1 Questões objetivas
8.20.2 Questões dissertativas
8.20.3 Questões de exame oral

Capítulo 9 – LICENCIAMENTO AMBIENTAL


9.1 Base legal do licenciamento ambiental
9.2 Fundamento do licenciamento ambiental
9.3 Natureza jurídica
9.4 Competência para o exercício do licenciamento ambiental
9.5 Conceito de licenciamento ambiental
9.6 Obrigatoriedade do licenciamento ambiental
9.7 Licença ambiental
9.8 Tipos de licenças ambientais
9.8.1 Licença prévia
9.8.2 Licença de instalação
9.8.3 Licença de operação
9.9 Renovação da licença
9.10 Procedimentos para requerer as licenças ambientais
9.11 Prazos de análise pelos órgãos ambientais
9.12 Prazo para esclarecimentos e complementações
9.13 Requisitos para o ente federativo efetuar o licenciamento ambiental
9.14 Atuação supletiva e subsidiária
9.15 Distribuição de competências no licenciamento ambiental
9.15.1 Licenciamento da União
9.15.2 Licenciamento dos Estados-membros
9.15.3 Licenciamento municipal
9.15.4 Licenciamento do Distrito Federal
9.15.5 Licenciamento em Áreas de Proteção Ambiental (APAs)
9.15.6 Supressão de vegetação no licenciamento ambiental
9.15.7 Taxas de licenciamento ambiental
9.16 Revisibilidade das licenças ambientais
9.16.1 Anulação
9.16.2 Revogação
9.16.3 Cassação
9.17 Fiscalização dos empreendimentos e atividades licenciadas ou autorizadas
9.18 Crimes e infrações administrativas no licenciamento ambiental
9.19 Síntese
9.20 Questões para fixação
9.20.1 Questões objetivas
9.20.2 Questões dissertativas
9.20.3 Questões de exame oral
9.21 Gabaritos
9.21.1 Questões objetivas
9.21.2 Questões dissertativas
9.21.3 Questões de exame oral

Capítulo 10 – CÓDIGO FLORESTAL


10.1 Introdução
10.2 Objeto do código florestal
10.2.1 Uso irregular da propriedade e responsabilidade do proprietário ou possuidor
10.2.2 Natureza real das obrigações
10.3 Objetivos do Código Florestal
10.4 Conceitos importantes
10.5 Área de preservação permanente
10.5.1 Conceito e características
10.5.2 Espécies de Área de Preservação Permanente por força de lei
10.5.2.1 As faixas marginais de qualquer curso d’água natural perene e intermitente
10.5.2.2 Lagos e lagoas naturais
10.5.2.3 As áreas no entorno dos reservatórios d’água artificiais, decorrentes de
barramento ou represamento de cursos d’água naturais
10.5.2.4 As áreas no entorno das nascentes e dos olhos d’água perenes, qualquer
que seja sua situação topográfica
10.5.2.5 As encostas ou partes destas com declividade superior a 45º
10.5.2.6 As restingas como fixadoras de dunas ou estabilizadoras de mangues
10.5.2.7 Os manguezais
10.5.2.8 As bordas dos tabuleiros ou chapadas
10.5.2.9 No topo de morros, montes, montanhas e serras, com altura mínima de 100
metros e inclinação média maior que 25º
10.5.2.10 As áreas em altitude superior a 1.800 metros, qualquer que seja a
vegetação
10.5.2.11 Em veredas
10.5.2.12 Áreas de Preservação Permanente declaradas de interesse social
10.5.2.13 Supressão em Áreas de Preservação Permanente
10.5.2.14 Intervenção e supressão em nascentes, dunas e restingas
10.5.2.15 Possibilidade de ampliação das hipóteses de intervenção e supressão em
APP
10.5.2.16 Intervenção em manguezal e restingas com função ecológica comprometida
10.5.2.17 Autorização em caráter de urgência
10.5.2.18 Acesso de pessoas e animais em APP
10.6 Reserva Legal
10.6.1 Conceito
10.6.2 Percentuais da Reserva Legal
10.6.3 Não obrigatoriedade de Reserva Legal
10.6.4 Reserva Legal em imóveis com até quatro módulos fiscais em 22 de julho de 2008
10.6.5 Ampliação e redução de Reserva Legal em florestas na Amazônia legal
10.6.6 Ampliação e redução de Reserva Legal quando indicado no zoneamento Ecológico-
Econômico Estadual
10.6.7 Localização da Reserva Legal Florestal
10.6.8 Cômputo das áreas de preservação permanente no cálculo do percentual da Reserva
Legal
10.6.9 Averbação da Reserva Legal e Registro no CAR
10.6.10 Manejo florestal sustentável em Reserva Legal
10.6.11 Reserva Legal em regime de condomínio
10.6.12 Inserção de imóvel com Reserva Legal em área urbana
10.6.13 Recomposição da Reserva Legal desmatada após 22 de julho de 2008
10.6.14 Recomposição da Reserva Legal irregular até 22 de julho de 2008
10.7 Cadastro Ambiental Rural
10.8 Do regime de proteção das áreas verdes urbanas
10.9 Das áreas de uso restrito
10.10 Do uso ecologicamente sustentável dos apicuns e salgados
10.10.1 Do licenciamento ambiental em apicuns e salgados
10.10.2 Da regularização em apicuns e salgados
10.11 Da supressão de vegetação para uso alternativo do solo
10.12 Da exploração florestal
10.12.1 Isenção do PMFS
10.12.2 Suprimento de matéria-prima florestal
10.12.3 Plano de Suprimento Sustentável
10.13 Da proibição do uso do fogo e do controle dos incêndios
10.14 Do controle do desmatamento
10.15 Dos programas de regularização fundiária
10.15.1 Efeitos do termo de compromisso na esfera administrativa
10.15.2 Efeitos do termo de compromisso na esfera penal
10.16 Das áreas consolidadas em áreas de preservação permanente
10.16.1 Recomposição em áreas rurais consolidadas em áreas de preservação permanente ao
longo de cursos d’água naturais
10.16.2 Recomposição em áreas rurais consolidadas no entorno de nascentes e olhos d’água
perenes
10.16.3 Recomposição em áreas rurais consolidadas no entorno de lagos e lagoas naturais
10.16.4 Recomposição em áreas rurais consolidadas em veredas
10.16.5 Manutenção de residências e da infraestrutura
10.16.6 Métodos de recomposição
10.16.7 Medidas mitigadoras em riscos de processos erosivos ou inundações
10.16.8 Áreas de preservação permanente em Unidades de Conservação de Proteção Integral
10.16.9 Bacias hidrográficas críticas
10.16.10Imóveis rurais com até dez módulos fiscais
10.16.11 Recomposição em projetos de Reforma Agrária
10.17 Regularização fundiária em APP
10.18 Síntese
10.19 Questões para fixação
10.19.1 Questões objetivas
10.19.2 Questões dissertativas
10.19.3 Questões de exame oral
10.20 Gabaritos
10.20.1 Questões objetivas
10.20.2 Questões dissertativas
10.20.3 Questões de exame oral

Capítulo 11 – SISTEMA NACIONAL DE UNIDADES DE CONSERVAÇÃO


11.1 Introdução
11.2 Estrutura do SNUC
11.3 Objetivos e diretrizes do SNUC
11.4 Conceito legal de unidade de conservação
11.5 Unidades de proteção integral
11.5.1 Estação Ecológica
11.5.2 Reserva Biológica
11.5.3 Parque Nacional
11.5.4 Monumento Natural
11.5.5 Refúgio de Vida Silvestre
11.6 Unidades de uso sustentável (arts. 15 a 21 da Lei nº 9.985/2000)
11.6.1 Área de Proteção Ambiental
11.6.2 Área de Relevante Interesse Ecológico
11.6.3 Floresta Nacional
11.6.4 Reserva Extrativista
11.6.5 Reserva de Fauna
11.6.6 Reserva de Desenvolvimento Sustentável
11.6.7 Reserva Particular do Patrimônio Natural
11.7 Criação, ampliação, transformação e desafetação de uma unidade de conservação
11.7.1 Limitações administrativas provisórias
11.8 Gestão das unidades de conservação
11.8.1 Plano de Manejo
11.8.2 Plano de Manejo e organismos geneticamente modificados
11.8.3 Plantio de OGM em unidades de conservação sem Plano de Manejo
11.9 Conselhos das unidades de conservação
11.10 Mosaico de unidades de conservação
11.11 Gestão compartilhada das unidades de conservação
11.12 Pesquisas científicas
11.13 Exploração comercial
11.14 Doações para unidades de conservação
11.15 Destinação de recursos pela cobrança de taxas de visitação em unidade de proteção integral
11.16 Compensação ambiental
11.17 Populações tradicionais e unidades de conservação
11.17.1 Normas de uso e o contrato de concessão de direito real de uso
11.17.2 Populações tradicionais em unidades de conservação de posse e domínio públicos
11.18 Instalação de redes de abastecimento de água, esgoto, energia e infraestrutura urbana em geral
em unidades de conservação
11.19 Reserva da biosfera
11.20 Síntese
11.21 Questões para fixação
11.21.1 Questões objetivas
11.21.2 Questões dissertativas
11.21.3 Questões de exame oral
11.22 Gabaritos
11.22.1 Questões objetivas
11.22.2 Questões dissertativas
11.22.3 Questões de exame oral

Capítulo 12 – RESPONSABILIDADE CIVIL AMBIENTAL


12.1 Introdução
12.2 Conceito de dano ambiental
12.3 Classificação do dano ambiental
12.4 Reparação do dano ambiental
12.4.1 Cumulação dos pedidos
12.5 Prescrição da pretensão reparatória
12.6 Do poluidor
12.6.1 Da solidariedade
12.7 Da responsabilidade objetiva
12.8 Teorias do risco criado e do risco integral
12.9 Responsabilidade do estado por danos ambientais
12.10 Responsabilidade civil por agrotóxicos
12.11 Responsabilidade por danos nucleares
12.12 Responsabilidade por rejeitos radioativos
12.13 Responsabilidade por atividades com OGM e derivados
12.14 Reponsabilidade pós-consumo
12.15 Responsabilidade por mineração
12.16 Síntese
12.17 Questões para fixação
12.17.1 Questões objetivas
12.17.2 Questões dissertativas
12.17.3 Questões de exame oral
12.18 Gabaritos
12.18.1 Questões objetivas
12.18.2 Questões dissertativas
12.18.3 Questões de exame oral

Capítulo 13 – RESPONSABILIDADE ADMINISTRATIVA AMBIENTAL


13.1 Introdução
13.2 Infrações administrativas ambientais
13.3 Competência para a lavratura do auto de infração e a instauração de processo administrativo
13.4 Responsabilidade objetiva ou subjetiva?
13.5 Das sanções e dosimetria
13.6 Da advertência
13.7 Da multa simples e multa diária
13.8 Do pagamento da multa em outro ente federativo
13.9 Apreensão dos animais, produtos e subprodutos da fauna e flora, instrumentos, petrechos,
equipamentos ou veículos de qualquer natureza utilizados na infração
13.10 Destruição ou inutilização do produto
13.11 Suspensão de venda ou fabricação de produto
13.12 Suspensão parcial ou total de atividades
13.13 Embargo de obra ou atividade
13.14 Demolição de obra
13.15 Sanções restritivas de direitos
13.16 Da reincidência
13.17 Da prescrição
13.18 Do processo administrativo para a apuração de infrações ambientais
13.18.1 Da autuação
13.18.2 Da defesa
13.18.3 Da instrução e julgamento
13.18.4 Dos recursos
13.19 Conversão de multa simples
13.20 Síntese
13.21 Questões para fixação
13.21.1 Questões objetivas
13.21.2 Questões dissertativas
13.21.3 Questões de exame oral
13.22 Gabaritos
13.22.1 Questões objetivas
13.22.2 Questões dissertativas
13.22.3 Questões de exame oral

Capítulo 14 – DA RESPONSABILIDADE PENAL AMBIENTAL


14.1 Introdução
14.2 Responsabilidade penal das pessoas físicas
14.3 Responsabilidade penal da pessoa jurídica
14.4 Penas aplicáveis às pessoas jurídicas
14.4.1 Multa
14.4.2 Penas restritivas de direitos
14.4.3 Prestação de serviços à comunidade
14.5 Liquidação forçada da pessoa jurídica
14.6 Desconsideração da pessoa jurídica
14.7 Penas das pessoas físicas
14.7.1 Privativas de liberdade
14.7.2 Pena de multa
14.7.3 Restritivas de direitos
14.7.4 Sursis
14.8 Questões processuais
14.8.1 Perícia ambiental
14.8.2 Sentença penal condenatória ambiental
14.8.3 Confisco dos instrumentos do crime ambiental
14.8.4 Ação penal
14.8.5 Transação penal
14.8.6 Suspensão condicional do processo
14.8.7 Competência para julgamento
14.9 Normas penais em branco
14.10 Princípio da insignificância nos delitos ambientais
14.11 Os crimes ambientais em espécie
14.12 Síntese
14.13 Questões para fixação
14.13.1 Questões objetivas
14.13.2 Questões dissertativas
14.13.3 Questões de exame oral
14.14 Gabaritos
14.14.1 Questões objetivas
14.14.2 Questões dissertativas
14.14.3 Questões de exame oral

Capítulo 15 – PROTEÇÃO DO MEIO AMBIENTE CULTURAL


15.1 Previsão constitucional
15.2 Bens culturais e patrimônio cultural
15.2.1 Destinação de bens de valor cultural ao patrimônio dos museus federais
15.3 Instrumentos de proteção do meio ambiente cultural
15.4 Tombamento
15.4.1 Classificações do tombamento
15.4.2 Efeitos do tombamento
15.4.3 Indenização
15.4.4 Tombamento constitucional
15.5 Registro
15.6 Inventário
15.7 Vigilância
15.8 Desapropriação
15.9 Outras formas de preservação e acautelamento
15.10 Plano Nacional de Cultura
15.11 Síntese
15.12 Questões para fixação
15.12.1 Questões objetivas
15.12.2 Questões dissertativas
15.12.3 Questões de exame oral
15.13 Gabaritos
15.13.1 Questões objetivas
15.13.2 Questões dissertativas
15.13.3 Questões de exame oral

Capítulo 16 – GESTÃO DE FLORESTAS PÚBLICAS


16.1 Introdução
16.2 Princípios da gestão de florestas públicas
16.3 Conceitos aplicáveis
16.4 Estrutura administrativa na gestão de florestas públicas
16.5 Gestão direta das florestas públicas
16.6 Destinação às comunidades locais
16.7 Da concessão florestal
16.8 Dos procedimentos da concessão florestal
16.8.1 Plano Anual de Outorga Florestal
16.8.2 Processo de outorga
16.8.3 Objeto da concessão florestal
16.9 Licenciamento ambiental
16.10 Habilitação nas licitações na concessão florestal
16.11 Edital de licitação
16.12 Dos critérios de seleção
16.13 Contrato de concessão
16.13.1 Reserva absoluta
16.13.2 Concentração econômica
16.13.3 Prazos nas concessões florestais
16.14 Extinção da concessão florestal
16.14.1 Esgotamento do prazo contratual
16.14.2 Rescisão
16.14.3 Anulação
16.14.4 Falência ou extinção do concessionário e falecimento ou incapacidade do titular, no
caso de empresa individual
16.14.5 Desistência
16.14.6 Rescisão por iniciativa do concessionário
16.15 Das auditorias florestais
16.16 Órgãos responsáveis pela gestão e fiscalização
16.16.1 Poder concedente
16.16.2 Órgãos do sisnama responsáveis pelo controle e fiscalização ambiental
16.16.3 Órgão consultivo
16.16.4 Órgão gestor
16.17 Do serviço florestal brasileiro
16.18 Do fundo nacional de Desenvolvimento Florestal
16.19 Síntese
16.20 Questões para fixação
16.20.1 Questões objetivas
16.20.2 Questões dissertativas
16.20.3 Questões de exame oral
16.21 Gabaritos
16.21.1 Questões objetivas
16.21.2 Questões dissertativas
16.21.3 Questões de exame oral

Capítulo 17 – BIOMA MATA ATLÂNTICA


17.1 Introdução
17.2 A Lei do Bioma Mata Atlântica e o novo Código Florestal
17.3 Vegetações integrantes do Bioma Mata Atlântica
17.4 Objetivos e princípios
17.5 Regime jurídico do Bioma Mata Atlântica
17.6 Vedações ao corte e supressão no Bioma Mata Atlântica
17.7 Requisitos gerais para o corte e a supressão
17.8 Hipóteses de utilidade pública e interesse social
17.9 Da proteção da vegetação primária em área rural
17.10 Da proteção da vegetação secundária em estágio avançado de regeneração em área rural
17.11 Da proteção da vegetação secundária em estágio médio de regeneração em área rural
17.12 Da proteção da vegetação secundária em estágio inicial de regeneração em área rural
17.13 Da proteção da vegetação em áreas urbanas e regiões metropolitanas
17.14 Das atividades de mineração no bioma mata atlântica
17.15 Cômputo para fins de reserva legal
17.16 Síntese
17.17 Questões para fixação
17.17.1 Questões objetivas
17.17.2 Questões dissertativas
17.17.3 Questões de exame oral
17.18 Gabaritos
17.18.1 Questões objetivas
17.18.2 Questões dissertativas
17.18.3 Questões de exame oral

Capítulo 18 – RECURSOS HÍDRICOS


18.1 Introdução
18.2 Regime constitucional: competências e domínio
18.3 Fundamentos
18.4 Objetivos
18.5 Diretrizes gerais
18.6 Instrumentos da Política Nacional de Recursos Hídricos
18.6.1 Planos de Recursos Hídricos
18.6.2 O enquadramento dos corpos de água em classes
18.6.3 Outorga de direitos de uso dos recursos hídricos
18.6.4 A cobrança pelo uso de recursos hídricos
18.6.5 A compensação a municípios
18.6.6 O Sistema de Informações sobre Recursos Hídricos
18.7 Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos Hídricos
18.7.1 Conselho Nacional de Recursos Hídricos
18.7.2 Conselhos de Recursos Hídricos dos Estados
18.7.3 Comitês de Bacia Hidrográfica
18.7.4 Agências de Água
18.7.5 Agência Nacional de Águas (Lei nº 9.984/2000)
18.7.6 Das organizações da sociedade civil de recursos hídricos
18.8 Síntese
18.9 Questões para fixação
18.9.1 Questões objetivas
18.9.2 Questões dissertativas
18.9.3 Questões de exame oral
18.10 Gabaritos
18.10.1 Questões objetivas
18.10.2 Questões dissertativas
18.10.3 Questões de exame oral

Capítulo 19 – ORDEM URBANÍSTICA


19.1 Ordem urbanística na Constituição
19.2 Estatuto da Cidade
19.2.1 Objeto, objetivo e diretrizes
19.2.2 Competências da União
19.3 Instrumentos constitucionais
19.3.1 Do parcelamento, edificação ou utilização compulsórios
19.3.2 Do IPTU progressivo no tempo
19.3.3 Da desapropriação
19.4 Instrumentos de regularização fundiária: usucapião especial individual e coletiva
19.5 Instrumentos de intervenção urbanística
19.5.1 Direito de superfície
19.5.2 Direito de preempção
19.5.3 Outorga onerosa do direito de construir
19.5.4 Operações urbanas consorciadas
19.5.5 Transferência do direito de construir
19.5.6 Estudo de impacto de vizinhança
19.6 Propriedade urbana
19.7 Plano diretor
19.8 Gestão democrática da cidade
19.9 Estatuto da Cidade e improbidade administrativa
19.10 Estatuto da metrópole
19.10.1 Conceitos fundamentais
19.10.2 Da instituição de regiões metropolitanas de aglomerações urbanas
19.10.3 Da governança interfederativa
19.10.4 Dos instrumentos de desenvolvimento urbano integrado
19.10.5 Da atuação da União
19.10.6 Estatuto da Metrópole e improbidade administrativa
19.11 Síntese
19.12 Questões para fixação
19.12.1 Questões objetivas
19.12.2 Questões dissertativas
19.12.3 Questões de exame oral
19.13 Gabaritos
19.13.1 Questões objetivas
19.13.2 Questões dissertativas
19.13.3 Questões de exame oral
Capítulo 20 – POLÍTICA NACIONAL DE RESÍDUOS SÓLIDOS
20.1 Noções introdutórias
20.2 Objeto
20.3 Normas correlatas aos resíduos sólidos
20.4 Sujeitos da PNRS
20.5 Da inaplicabilidade aos rejeitos radioativos
20.6 Conceitos importantes
20.7 Princípios e objetivos da PNRS
20.8 Instrumentos da política nacional de resíduos sólidos
20.9 Diretrizes aplicáveis aos resíduos sólidos
20.9.1 Ordem de prioridade na gestão e gerenciamento de resíduos
20.9.2 Tecnologias de recuperação energética dos resíduos sólidos urbanos
20.9.3 Gestão integrada ao Distrito Federal e aos municípios e incumbências dos estados
20.9.4 Sistema nacional de informações sobre a gestão dos resíduos sólidos (Sinir)
20.10 Classificação dos resíduos sólidos
20.11 Planos de resíduos sólidos
20.11.1 Plano nacional de resíduos sólidos
20.11.2 Plano estadual de resíduos sólidos
20.11.2.1 Vigência e conteúdo mínimo do plano estadual de resíduos sólidos
20.11.3 Planos microrregionais e planos específicos às regiões metropolitanas
20.11.4 Dos planos municipais de gestão integrada de resíduos sólidos
20.11.5 Plano de gerenciamento de resíduos sólidos
20.11.5.1 Obrigatoriedade
20.11.5.2 Conteúdo mínimo do plano de gerenciamento de resíduos sólidos
20.11.5.3 Responsável técnico
20.11.5.4 Plano de gerenciamento de resíduos sólidos e licenciamento ambiental
20.12 Responsabilidades dos geradores e do poder público
20.12.1 Responsabilidade no plano de gerenciamento de resíduos sólidos
20.12.2 Responsabilidade do gerador de resíduos domiciliares
20.12.3 Responsabilidade do poder público
20.12.4 Responsabilidade civil, penal e administrativa
20.13 Responsabilidade compartilhada
20.13.1 Fabricação de embalagens
20.14 Logística reversa
20.14.1 Conceito
20.14.2 Obrigatoriedade
20.14.3 Ampliação da logística reversa
20.14.4 Devolução na logística reversa
20.15 Acordos setoriais na responsabilidade compartilhada e na logística reversa
20.16 Obrigações dos consumidores na coleta seletiva e na logística reversa
20.17 Responsabilidade compartilhada pelo ciclo de vida dos produtos do titular dos serviços
públicos de limpeza urbana e de manejo de resíduos sólidos
20.18 Resíduos perigosos
20.18.1 Licenciamento ambiental de resíduos perigosos
20.18.2 Descontaminação de áreas órfãs
20.19 Dos instrumentos econômicos
20.20 Das proibições
20.21 Leis e sistemas aplicáveis à PNRS
20.21.1 Lei nº 11.445/2007 – Saneamento básico
20.21.2 Lei nº 9.974/2000 – Agrotóxicos
20.21.3 Lei nº 9.966/2000 – Poluição causada por lançamento de óleo e outras substâncias
nocivas ou perigosas em águas sob jurisdição nacional
20.21.4 Sistema nacional do meio ambiente (Sisnama)
20.21.5 Sistema nacional de vigilância sanitária (SNVS)
20.21.6 Sistema unificado de atenção à sanidade agropecuária (Suasa)
20.21.7 Sistema nacional de metrologia, normalização e qualidade industrial (Sinmetro)
20.22 Síntese
20.23 Questões para fixação
20.23.1 Questões objetivas
20.23.2 Questões dissertativas
20.23.3 Questões de exame oral
20.24 Gabaritos
20.24.1 Questões objetivas
20.24.2 Questões dissertativas
20.24.3 Questões de exame oral

Capítulo 21 – POLÍTICA NACIONAL SOBRE A MUDANÇA DO CLIMA


21.1 Noções introdutórias
21.2 Conceitos importantes
21.3 Princípios aplicáveis à PNMC
21.4 Medidas de execução da PNMC
21.5 Objetivos da PNMC
21.6 Diretrizes da PNMC
21.7 Instrumentos da Política Nacional
21.8 Instrumentos institucionais
21.9 Compatibilização entre políticas públicas e programas governamentais e a PNMC
21.10 Compromisso nacional de redução de GEE
21.11 Síntese
21.12 Questões para fixação
21.12.1 Questões dissertativas
21.12.2 Questões de exame oral
21.13 Gabaritos
21.13.1 Questões dissertativas
21.13.2 Questões de exame oral

Capítulo 22 – LEI DE BIOSSEGURANÇA – LEI Nº 11.105/2005


22.1 Noções introdutórias
22.2 Objeto
22.3 Princípio da precaução
22.4 Conceitos importantes
22.5 Exercício de atividades de engenharia genética
22.6 Obrigações das pessoas jurídicas em caso de acidentes e riscos
22.7 Células-tronco
22.8 Atividades proibidas pela Lei nº 11.105/2005
22.9 Não aplicação da Lei nº 11.105/2005
22.10 Do Conselho Nacional de Biossegurança (CNBS)
22.11 Comissão Técnica Nacional de Biossegurança
22.11.1 Composição da CTNBio
22.11.2 Competências da CTNBio
22.11.3 Das decisões técnicas da CTNBio
22.12 Dos órgãos e entidades de registro e fiscalização
22.12.1 Dos registros, das autorizações e do licenciamento ambiental
22.13 Comissão Interna de Biossegurança (CIBio)
22.14 Do Sistema de Informações em Biossegurança (SIB)
22.15 Rotulagem
22.16 Responsabilidade civil
22.17 Responsabilidade administrativa
22.18 Síntese
22.19 Questões para fixação
22.19.1 Questões objetivas
22.19.2 Questões dissertativas
22.19.3 Questões de exame oral
22.20 Gabaritos
22.20.1 Questões objetivas
22.20.2 Questões dissertativas
22.20.3 Questões de exame oral

Capítulo 23 – BIODIVERSIDADE
23.1 Introdução
23.2 Objeto do marco regulatório
23.3 Conceitos importantes
23.4 Acesso ao patrimônio genético ou ao conhecimento tradicional associado
23.5 Conselho de gestão do patrimônio genético (CGen)
23.6 Do conhecimento tradicional associado
23.7 Do acesso, da remessa e da exploração econômica
23.7.1 Exploração econômica
23.8 Benefícios da exploração econômica
23.8.1 Benefícios da exploração econômica de produto acabado ou de material reprodutivo
oriundo de acesso ao patrimônio genético de espécies encontradas em condições in
situ ou ao conhecimento tradicional associado
23.8.2 Benefícios da exploração econômica de produto oriundo de acesso ao patrimônio
genético ou ao conhecimento tradicional associado para atividades agrícolas
23.9 FNRB e PNRB
23.10 Síntese
23.11 Questões para fixação
23.11.1 Questões objetivas
23.11.2 Questões de exame oral
23.12 Gabaritos
23.12.1 Questões objetivas
23.12.2 Questões de exame oral

Capítulo 24 – INDÍGENAS E MEIO AMBIENTE


24.1 Introdução
24.2 Proteção internacional
24.2.1 Convenção nº 169 da OIT
24.2.1.1 Aplicação aos povos tribais e indígenas
24.2.1.2 Uso da palavra “povo” na Convenção nº 169
24.2.1.3 Direitos humanos e liberdades fundamentais
24.2.1.4 Medidas especiais e aspectos a serem respeitados
24.2.1.5 Obrigações dos governos no cumprimento da Convenção nº 169
24.2.1.6 Desenvolvimento e meio ambiente
24.2.1.7 Terras indígenas
24.2.1.8 Translados de povos tribais
24.3 Proteção constitucional
24.3.1 Competências da União
24.3.2 Reconhecimento constitucional de seus direitos
24.3.3 Terras tradicionalmente ocupadas pelos índios
24.3.4 Demarcação de terras indígenas e meio ambiente
24.3.4.1 Demarcação da Raposa Serra do Sol
24.3.5 Remoção de comunidades indígenas
24.3.6 Exploração econômica em terras indígenas
24.3.7 Defesa de interesses e questões judiciais
24.4 Indígenas e unidades de conservação
24.5 Indígenas e o Código Florestal
24.6 Conhecimento tradicional associado
24.7 Síntese
24.8 Questões para fixação
24.8.1 Questões objetivas
24.8.2 Questões de exame oral
24.9 Gabaritos
24.9.1 Questões objetivas
24.9.2 Questões de exame oral

Capítulo 25 – AGROTÓXICOS
25.1 Introdução
25.2 Objeto
25.3 Conceitos
25.4 Necessidade de registro de agrotóxicos
25.5 Registro das pessoas físicas e jurídicas
25.6 Embalagens de agrotóxicos
25.7 Rotulagem para venda e propaganda comercial de agrotóxicos
25.8 Atribuições dos entes federativos
25.9 Responsabilidade no uso de agrotóxicos
25.10 Síntese
25.11 Questões para fixação
25.11.1 Questões objetivas
25.11.2 Questões de exame oral
25.12 Gabaritos
25.12.1 Questões objetivas
25.12.2 Questões de exame oral

Capítulo 26 – ZONEAMENTO AMBIENTAL


26.1 Instrumento da política nacional do meio ambiente
26.2 Objetivo geral
26.3 Princípios aplicáveis
26.4 Elaboração do zoneamento ecológico econômico
26.5 Conteúdo do ZEE
26.6 Do uso, armazenamento, custódia e publicidade dos dados e informações
26.7 Zoneamento Ecológico-Econômico e Código Florestal
26.8 Síntese
26.9 Questões para fixação
26.9.1 Questões objetivas
26.9.2 Questões de exame oral
26.10 Gabaritos
26.10.1 Questões objetivas
26.10.2 Questões de exame oral

BIBLIOGRAFIA
O que quereis que os homens vos façam, fazei-o
também a eles.
Lucas 6,31

Considera os outros como a ti próprio.


Dhammapada 10,1

1.1 CONCEITO JURÍDICO DE MEIO AMBIENTE

A Lei nº 6.938/1981 considera o meio ambiente como “o conjunto de condições, leis, influências e
interações de ordem física, química e biológica, que permite, abriga e rege a vida em todas as suas
formas” (art. 3º, I). O conceito jurídico de meio ambiente é totalizante, com abrangência dos elementos
bióticos (seres vivos) e abióticos (não vivos) que permitem a vida em todas as suas formas (não
exclusivamente a vida humana).
Para José Afonso da Silva, o meio ambiente é “a interação do conjunto de elementos naturais,
artificiais e culturais que propiciem o desenvolvimento equilibrado da vida em todas as suas formas. A
integração busca assumir uma concepção unitária do ambiente, compreensiva dos recursos naturais e
culturais”1.

1.2 CLASSIFICAÇÃO DE MEIO AMBIENTE

O meio ambiente é uno, indivisível e, como tal, não há que falar em fragmentação ou divisão.
Contudo, para fins didáticos, a classificação de meio ambiente proposta por José Afonso da Silva
tornou-se uma referência albergada tanto pela doutrina quanto pelos tribunais, como se verá. Contribui na
compreensão da abrangência do meio ambiente, que não se restringe ao natural, mas inclui os elementos
culturais, artificiais e do trabalho.
Nesse sentido, a classificação de meio ambiente, em sentido amplo e para fins didáticos, congrega
quatro componentes:
a) meio ambiente físico ou natural;
b) meio ambiente cultural;
c) meio ambiente artificial;
d) meio ambiente do trabalho.
Entende-se como meio ambiente físico ou natural aquele integrado pela flora, fauna, os recursos
hídricos, a atmosfera, os estuários, o mar territorial, o solo, o subsolo, os elementos da biosfera.
O meio ambiente cultural, por sua vez, constitui-se do patrimônio cultural, artístico, arqueológico,
paisagístico, etnográfico, manifestações culturais, folclóricas e populares brasileiras. O meio ambiente
cultural é composto tanto pelo patrimônio cultural material quanto pelo patrimônio cultural imaterial.
Considera-se patrimônio cultural material aqueles bens móveis e imóveis relevantes no processo
cultural, como imóveis tombados, obras de artes etc. Já o patrimônio cultural imaterial é constituído
pelos saberes, lugares, celebrações e formas de expressão. Como exemplos, as festas religiosas (Círio de
Nazaré em Belém-PA, Festa do Divino Espírito Santo em Paraty-RJ e em Pirenópolis-GO), as danças
(frevo, samba de roda do Recôncavo baiano, as manifestações do samba carioca), as manifestações
folclóricas (Bumba meu Boi), os saberes na elaboração de algumas comidas (queijo minas, acarajé etc.).
O meio ambiente artificial é aquele decorrente das intervenções antrópicas, ao contrário do meio
ambiente natural, que existe por si só. O artificial é o espaço urbano, as cidades com os seus espaços
abertos, com ruas, praças e parques; e os espaços fechados, com as edificações e os equipamentos
públicos urbanos, como de abastecimento de água, serviços de esgotos, energia elétrica, coletas de águas
pluviais, rede telefônica e gás canalizado. É necessário atenção com as edificações, uma vez que, se
forem destinadas às manifestações artístico-culturais ou forem objeto de tombamento, a melhor
classificação é como meio ambiente cultural. Isso demonstra a fragilidade dessa classificação que, como
se pontuou, é para fins didáticos.
O meio ambiente do trabalho, por fim, possui vinculação com a saúde e a segurança do trabalhador.
O art. 200 da CF cuida das competências do Sistema Único de Saúde, dentre as quais a de “colaborar na
proteção do meio ambiente, nele compreendido o do trabalho” (inciso VIII). Além disso, o inciso XXII
do art. 7.º da CF dispõe sobre a “redução dos riscos inerentes ao trabalho, por meio de normas de saúde,
higiene e segurança”. O meio ambiente do trabalho preocupa-se, assim, com o obreiro em seu local de
trabalho, por meio de prescrições de saúde, salubridade, condições atmosféricas, ergonomia etc.
Essa classificação teve albergue no Superior Tribunal de Justiça com o REsp 725.257/MG, em voto
unânime da lavra do Ministro Relator José Delgado, in verbis: “Com a Constituição Federal de 1988,
passou-se a entender também que o meio ambiente divide-se em físico ou natural, cultural, artificial e do
trabalho. Meio ambiente físico ou natural é constituído pela flora, fauna, solo, água, atmosfera etc.,
incluindo os ecossistemas (art. 225, § 1º, I, VII). Meio ambiente cultural constitui-se pelo patrimônio
cultural, artístico, arqueológico, paisagístico, manifestações culturais, populares, etc. (art. 215, § 1º e §
2º). Meio ambiente artificial é o conjunto de edificações particulares ou públicas, principalmente urbanas
(art. 182, art. 21, XX, e art. 5º, XXIII), e meio ambiente do trabalho é o conjunto de condições existentes
no local de trabalho relativos à qualidade de vida do trabalhador (art. 7º, XXXIII, e art. 200)”.
Não foi diferente com o Supremo Tribunal Federal na ADI nº 3.540, ao consignar que a defesa do
meio ambiente “traduz conceito amplo e abrangente das noções de meio ambiente natural, de meio
ambiente cultural, de meio ambiente artificial (espaço urbano) e de meio ambiente laboral”.

CLASSIFICAÇÃO DE MEIO AMBIENTE PARA FINS DIDÁTICOS

1.3 MEIO AMBIENTE COMO UM BEM DE USO COMUM DO POVO

A Constituição Federal, no caput do art. 225, dispõe que o meio ambiente é um bem de uso comum
do povo.
A compreensão de bem ambiental como de uso comum do povo não se circunscreve à leitura do
direito civil ou do direito administrativo.
Conforme Andrea Vulcanis2, o tratamento jurídico do direito civil dado aos bens de uso comum do
povo não se adapta às características do meio ambiente por duas razões: (a) a responsabilidade por
danos praticados ao meio ambiente não é exclusiva do Estado, mas atribui-se a qualquer pessoa que
praticar atos lesivos; (b) não se permite a desafetação do meio ambiente.
O Código Civil em seu art. 99 efetua a classificação dos bens públicos, entre os quais os bens de uso
comum do povo, tais como rios, mares, estradas, ruas e praças. Uma das características do bem de uso
comum do povo é a possibilidade de sua desafetação, com a conversão em bem dominical e, portanto,
passível de alienação. Essa concepção civilista não é compatível com o bem ambiental. Admitir o
conceito do Código Civil para bem de uso comum do povo implicaria a possibilidade de desafetação do
meio ambiente e a sua apropriação, o que definitivamente é afastado no direito ambiental, uma vez que
não há que falar em apropriação do meio ambiente.
Além disso, a titularidade do bem de uso comum do povo, na leitura civilista, é das pessoas jurídicas
de direito público, que são responsáveis pelos danos nele causados. Essa é uma leitura incongruente, uma
vez que o meio ambiente é de titularidade difusa. Ao contrário da leitura civilista, o exercício de
proteção ao meio ambiente pode ser efetuado em face do Poder Público ou de um particular, pessoa
física ou jurídica.
Com esses apontamentos, a compreensão que se propugna é que o meio ambiente, bem de uso comum
do povo, é um bem jurídico autônomo, difuso, indisponível e insuscetível de apropriação. No próximo
tópico adentrar-se-á nas concepções de macrobem e microbem ambiental.

1.3.1 Meio ambiente como macrobem e os microbens ambientais


Outra configuração pertinente, em especial para a reparação do dano ambiental, é o meio ambiente
como macrobem, que não se confunde com os microbens ambientais.
Como macrobem, o meio ambiente é incorpóreo e imaterial e, dessa forma, insusceptível de
apropriação. Nas palavras de Morato Leite3, “visualiza-se o meio ambiente como um macrobem, que
além de incorpóreo e imaterial se configura como bem de uso comum do povo. Isso significa que o
proprietário, seja ele público ou particular, não poderá dispor da qualidade do meio ambiente
ecologicamente equilibrado, devido à previsão constitucional, considerando-o macrobem de todos”.
Para Ricardo Lorenzetti4, “o meio ambiente é um macrobem, e como tal é um sistema, o que significa
que é mais que suas partes: é a interação de todas elas”. O jurista argentino confere como exemplo claro
de macrobem o conceito jurídico de meio ambiente do art. 3º, I, da Lei nº 6.938/1981 (Política Nacional
do Meio Ambiente).
O TRF da 5ª Região já consignou a leitura do meio ambiente como macrobem, in verbis: “deve-se
atentar para a lógica da reparação do dano ao meio ambiente, considerado como macrobem, incorpóreo e
imaterial, visto como um conjunto de fatores que interagem e condicionam a vida das pessoas, cuja
reparabilidade é indireta no dizer da doutrina especializada (AR 6.233/SE)”.
O macrobem ambiental não se confunde com os microbens, que constituem a parte corpórea do meio
ambiente, tais como as florestas, os rios, a fauna etc. Conforme Lorenzetti5, “os microbens são partes do
meio ambiente, que em si mesma tem a característica de subsistemas, que apresentam relações internas
entre suas partes e relações externas com o macrobem”. Na abordagem como “microbem” é possível
falar em regime jurídico de titularidade pública ou privada, isso porque um recurso ambiental como uma
floresta pode ser de titularidade pública ou privada e passível de exploração.
Assim, a tutela do meio ambiente ocorre tanto como macrobem (incorpóreo, indisponível) quanto
como microbem (os elementos corpóreos). Nesse sentido, as palavras de Cappelli, et al6: “a
consequência da autonomização jurídica do bem ambiental é a possibilidade de sua tutela como bem
independentemente dos diversos elementos corpóreos que o integram, versando a proteção jurídica sobre
a qualidade ambiental e sobre as características físicas, químicas e biológicas do ecossistema. Trata-se
de um ‘macrobem’ jurídico, incorpóreo, inapropriável, indisponível e indivisível, cuja qualidade deve
ser mantida como íntegra a fim de propiciar a fruição coletiva. Apropriáveis são os elementos corpóreos
e, mesmo assim, conforme limitações e critérios previstos em lei, e desde que essa utilização não
conduza à apropriação individual (exclusiva) do meio ambiente, como bem imaterial”.
O proprietário de um imóvel, por exemplo, poderá utilizar – na forma da lei – dos recursos ambientais
(parte corpórea), mas isso não pode representar dispor de suas qualidades como macrobem (incorpóreo).
Em outras palavras, nos termos da legislação de proteção florestal, é possível a exploração de recursos
ambientais, mas o permissivo não conduz à possibilidade de dispor das qualidades do meio ambiente
enquanto bem de uso comum do povo.
Conforme Vulcanis7, “se o microbem pode estar sob regime de apropriação individual, é necessário
que essa apropriação não se incompatibilize com o direito subjetivo fundamental que a coletividade tem
sobre esse microbem, da mesma forma que esse regime de apropriação não pode se incompatibilizar com
o fato de que o macrobem – meio ambiente ecologicamente equilibrado – é bem de uso comum do povo”.
Nas palavras de Souza Filho8, “todo bem socioambiental tem pelo menos duas expressões jurídicas e
comportam, assim, dupla titularidade. A primeira é do próprio bem, materialmente tomado, a segunda é
sua representatividade, evocação, necessidade ou utilidade ambiental e a relação com os demais,
compondo o que a lei brasileira chamou de meio ambiente ecologicamente equilibrado. Este direito é
disposto como se estivesse em camadas, na primeira camada um direito de titularidade individual, que é
o direito de propriedade (público e privado), na segunda camada o direito coletivo a sua preservação
para garantia socioambiental. Os dois não se excluem, ao contrário, se completam e se subordinam na
integralidade do bem, como se fossem seu corpo e sua alma”.
Em síntese, é possível tutelar o meio ambiente tanto como macrobem quanto pelo regime específico de
seus microbens, consistente na proteção às áreas de preservação permanente, reservas legais, fauna e
flora etc.

1.4 ANTROPOCENTRISMO E BIOCENTRISMO

Das concepções éticas das relações do homem com o meio ambiente duas merecem destaque: o
antropocentrismo e o biocentrismo.
O antropocentrismo, com origem nos filósofos gregos, coloca o homem no centro de todas as
relações ou, como diziam os gregos, “o homem como a medida de todas as coisas”. Concebe o homem
em uma verdadeira relação de superioridade com os demais seres. O que importa é o bem-estar dos seres
humanos e, para tanto, o homem se apropria dos bens ambientais para o seu interesse exclusivo, sem
preocupação com os demais seres vivos, que são instrumentais. A “ética antropocêntrica” não reconhece
valor intrínseco aos outros seres vivos ou à natureza.
Morato Leite9, por sua vez, afirma que o antropocentrismo pode ser desmembrado em: (a)
economicocentrismo; e (b) antropocentrismo alargado. Segundo ele, o economicocentrismo reduz o bem
ambiental a valores de ordem econômica, em uma leitura do proveito econômico pelo ser humano. Já o
antropocentrismo alargado centra-se na preservação ambiental como garantia elementar da dignidade do
próprio ser humano.
No biocentrismo, por outro lado, o homem não é superior aos outros seres vivos; mantém com eles
uma relação de interdependência, de simbiose. Todos os seres vivos são igualmente importantes. O
centro das relações não é, como no antropocentrismo, a humanidade, mas os seres vivos, humanos e não
humanos. Essa concepção reconhece o valor intrínseco dos seres vivos, independentemente da utilidade
ou interesse para a humanidade. O biocentrismo inspirou os defensores da luta pela defesa dos animais,
como seres sencientes (que sentem dor, angústia, depressão etc.).
É possível identificar em nosso ordenamento jurídico algumas normas com inspiração na “ética
biocêntrica”.
Com efeito, o inciso VII, § 1º, do art. 225 da Constituição Federal impõe ao Poder Público “proteger a
fauna e a flora, vedadas, na forma da lei, as práticas que coloquem em risco sua função ecológica,
provoquem a extinção de espécies ou submetam os animais a crueldade”. Pela leitura do dispositivo
constitucional, a proteção da fauna e da flora preocupa-se com três pontos: (a) colocar em risco a sua
função ecológica; (b) a extinção de espécies; e (c) submeter os animais à crueldade.
Função ecológica é o papel essencial que cada elemento desempenha no meio em que está inserido.
Coloca-se em risco a função ecológica de uma espécie por meio do desmatamento, da pesca predatória,
da caça profissional.
Exemplo que ocasiona a extinção de espécies é a inserção no hábitat de outras espécies alienígenas
ou exóticas.
Agora, submeter os animais à crueldade é o que se vê em práticas como as “rinhas ou brigas de galo”,
a “farra do boi” e a “vaquejada”.
O Supremo Tribunal Federal declarou a inconstitucionalidade das leis estaduais do Rio Grande do
Norte (ADI nº 3.776), Rio de Janeiro (ADI nº 1.856) e Santa Catarina (ADI nº 2.514) que instituíram as
“práticas esportivas” denominadas “brigas ou rinhas de galo”.
No mesmo sentido, a prática cultural da “farra do boi”, em que o Supremo Tribunal Federal decidiu
que “a obrigação de o Estado garantir a todos o pleno exercício de direitos culturais, incentivando a
valorização e a difusão das manifestações, não prescinde da observância da norma do inciso VII do art.
225 da CF, no que veda prática que acabe por submeter os animais à crueldade. Procedimento
discrepante da norma constitucional denominado ‘farra do boi’ (RE 153.531)”. Esse julgado é do ano de
1997 e suscitou interessantes debates no STF. De um lado, o então Ministro Maurício Correa que
defendeu a “farra do boi” como costume cultural, por ser uma legítima manifestação popular dos povos
formadores da comunidade catarinense. Do outro, o voto do relator Ministro Francisco Rezek, que com
grande sensibilidade pontuou: “por que, num país de dramas sociais tão pungentes, há pessoas
preocupando-se com a integridade física ou com a sensibilidade dos animais? Esse argumento é de uma
inconsistência que rivaliza com a sua impertinência. A ninguém é dado o direito de estatuir para outrem
qual será sua linha de ação, qual será, dentro da Constituição da República, o dispositivo que,
parecendo-lhe ultrajado, deva merecer seu interesse e sua busca de justiça. De resto, com a negligência
no que se refere à sensibilidade de animais anda-se meio caminho até a indiferença a quanto se faça a
seres humanos”.
De forma mais recente, no julgamento da ADI nº 4983, o Supremo Tribunal Federal declarou, por
maioria, em uma decisão com forte repercussão, a inconstitucionalidade da Lei nº 15.299/2013, do
Estado do Ceará, que regulamentava a vaquejada como prática desportiva e cultural. Conforme o voto do
Ministro Relator, Marco Aurélio de Melo, “a par de questões morais relacionadas ao entretenimento às
custas do sofrimento dos animais, bem mais sérias se comparadas às que envolvem experiências
científicas e médicas, a crueldade intrínseca à vaquejada não permite a prevalência do valor cultural
como resultado desejado pelo sistema de direitos fundamentais da Carta de 1988. O sentido da expressão
“crueldade” constante da parte final do inciso VII do § 1º do artigo 225 do Diploma Maior alcança, sem
sombra de dúvida, a tortura e os maus-tratos infringidos aos bovinos durante a prática impugnada,
revelando-se intolerável, a mais não poder, a conduta humana autorizada pela norma estadual atacada. No
âmbito de composição dos interesses fundamentais envolvidos neste processo, há de sobressair a
pretensão de proteção ao meio ambiente”.
A proibição das práticas “rinhas ou brigas de galo”, “farra do boi” e “vaquejada” são exemplos de
manifestação biocêntrica.
Igualmente de inspiração biocêntrica é o conceito jurídico de meio ambiente (art. 3º, I, Lei nº
6.938/1981), a saber: “conjunto de condições, leis, influências e interações de ordem física, química e
biológica, que permite, abriga e rege a vida em todas as suas formas”. O conceito contempla os
elementos bióticos e abióticos do meio ambiente, de modo a permitir, abrigar e reger a vida em todas
as suas formas, e não exclusivamente a vida humana.
Por fim, é biocêntrica a Política Nacional de Biodiversidade (Decreto nº 4.339/2002), que entre os
seus dispositivos consigna: “a Política Nacional da Biodiversidade reger-se-á pelos seguintes
princípios: I – a diversidade biológica tem valor intrínseco, merecendo respeito independentemente de
seu valor para o homem ou potencial para uso humano (…)”.
Essas passagens normativas são subsídios para que as concepções éticas, de natureza filosófica, se
transpassem para o universo jurídico.
1.4.1 Outras concepções
Diante da complexidade do tema e de inúmeras correntes filosóficas que defendem a ascensão de uma
ética ecológica – e não somente humana –, a literatura oferta outras concepções. Por vezes, apesar de
terminologias distintas, nota-se convergência de conteúdo entre as concepções éticas. Sem adentrar
nessas digressões, o que se pretende é delinear sucintamente as mais relevantes.
Com efeito, a ecologia profunda teve como precursores Bill Devall10 e os trabalhos do filósofo Arne
Naess partir de 1973. Arne Naess procurou diferenciar a ecologia profunda da ecologia rasa, como se vê
nas palavras de Frijot Capra11: “a ecologia rasa é antropocêntrica, ou centralizada no ser humano. Ele vê
os seres humanos como situados acima ou fora da natureza, como a fonte de todos os valores, e atribui
apenas um valor instrumental, ou de ‘uso’, à natureza. A ecologia profunda não separa seres humanos –
ou qualquer outra coisa – do meio ambiente natural. Ela vê o mundo não como uma coleção de objetos
isolados, mas como uma rede de fenômenos que estão fundamentalmente interconectados e
interdependentes. A ecologia profunda reconhece o valor intrínseco de todos os seres vivos e concebe os
seres humanos apenas como um fio particular na teia da vida”.
E conclui Capra12 que “o novo paradigma pode ser chamado de uma visão de mundo holística, que
concebe o mundo como um todo integrado, e não como uma coleção de partes dissociadas. Pode também
ser denominado visão ecológica, se o termo “ecológica” for empregado num sentido muito mais amplo e
mais profundo que o usual. A percepção ecológica profunda reconhece a interdependência fundamental
de todos os fenômenos, e o fato de que, enquanto indivíduos e sociedade, estamos todos encaixados nos
processos cíclicos da natureza (e, em última análise, somos dependentes desses processos)”.
Por fim, a leitura ecocêntrica, que “concede um valor próprio à natureza (natureza como fim em si
mesma) e busca ultrapassar as fronteiras da visão antropocêntrica, fazendo emergir uma nova ética, a
ética da natureza”13. O ecocentrismo (também chamado de fisiocentrismo) apresenta inúmeras variações
de correntes e é possível afirmar que em suas variações se aproxima da ecologia profunda.

1.4.2 Afinal, somos antropocêntricos ou biocêntricos?


Conforme os documentos internacionais e a Constituição Federal, a proteção é de natureza
antropocêntrica. Todavia, não se trata da concepção clássica de antropocentrismo, mas o que a doutrina
denomina “antropocentrismo alargado”, que conjuga a interação da espécie humana com os demais seres
vivos como garantia de sobrevivência e dignidade do próprio ser humano, assim como o reconhecimento
que a proteção da fauna e da flora é indeclinável para a equidade intergeracional, para salvaguarda das
futuras gerações.

1.5 EXPRESSÕES RECORRENTES NO DIREITO AMBIENTAL

Uma das maiores dificuldades no estudo do direito ambiental é a ocorrência reiterada de palavras,
expressões e terminologias que não são habituais no universo jurídico. Esse fato é resultado da profunda
simbiose do direito ambiental com outras áreas do conhecimento, que o caracteriza como
multidisciplinar.
Uma observação oportuna no estudo do direito ambiental é que a maioria dos diplomas legais confere,
em seus artigos iniciais, um glossário com o significado das principais expressões que se verificam no
curso da norma.
Como auxílio nesse processo, discorrer-se-á sobre as expressões mais utilizadas e seu significado
para o direito ambiental.

1.5.1 Preservação, conservação e proteção integral


É recorrente o uso das expressões “preservação”, “conservação” e “proteção integral”, muitas vezes
como sinônimas. O sentido de cada qual, contudo, apresenta singularidades. Para essa diferenciação,
utilizar-se-ão os conceitos da Lei nº 9.985/2000, que disciplina as unidades de conservação14.
Dessa forma, considera-se conservação da natureza “o manejo do uso humano da natureza,
compreendendo a preservação, a manutenção, a utilização sustentável, a restauração e a recuperação do
ambiente natural, para que possa produzir o maior benefício, em bases sustentáveis, às atuais gerações,
mantendo seu potencial de satisfazer as necessidades e aspirações das gerações futuras, e garantindo a
sobrevivência dos seres vivos em geral” (art. 2º, II).
Já preservação é o “conjunto de métodos, procedimentos e políticas que visem a proteção a longo
prazo das espécies, hábitats e ecossistemas, além da manutenção dos processos ecológicos, prevenindo
a simplificação dos sistemas naturais” (art. 2º, V).
Como se pode perceber, a conservação é mais ampla e abrange a própria preservação, que visa a
proteção a longo prazo das espécies, hábitats e ecossistemas etc.
Proteção integral, por sua vez, é a “manutenção dos ecossistemas livres de alterações causadas por
interferência humana, admitido apenas o uso indireto dos seus atributos naturais (art. 2º, VI)”.
A expressão proteção integral significa manter o meio ambiente intocado, sem intervenções humanas
diretas, com as atividades econômicas e sociais no espaço ambientalmente protegido.
Com a edição da Lei nº 9.985/2000, as unidades de conservação, contemplando essa caracterização,
foram divididas em dois grupos:

a) unidades de proteção integral; e


b) unidades de uso sustentável, com a conservação do ambiente.

É fundamental a existência de unidades de proteção integral, mas não se pode esquecer que entre os
objetivos da política ambiental têm-se o homem e a sua dignidade, o que implica o desafio permanente da
conservação ambiental.

1.5.2 Biota, biótico, abiótico e biocenose


Biota, biótico, abiótico e biocenose são expressões correspondentes.
Biota é o conjunto de seres vivos que residem em um espaço físico (biótopo).
De igual forma, biocenose é o conjunto de espécies que vivem em um determinado espaço e tempo.
Os elementos bióticos possuem vida e, em outro sentido, os abióticos são os elementos não vivos, tais
como luz, solo, temperatura, vento, pressão etc.

1.5.3 Intervenções antrópicas


O termo “antrópico” possui como significado uma intervenção humana sobre o meio ambiente. Aliás,
o direito ambiental, em síntese, é o direito que regulamenta as intervenções antrópicas no ambiente.
Empreendimentos econômicos, impactos ambientais de atividades ou obras, poluição etc., são temáticas
objeto do estudo do direito ambiental, uma vez que implicam ações antrópicas.
1.5.4 Degradação ambiental
Conforme o art. 3º, inciso II, da Lei nº 6.938/1981, considera-se “degradação da qualidade ambiental,
a alteração adversa das características do meio ambiente”.
A degradação da qualidade ambiental normalmente ocorre a partir da intervenção de uma atividade
antrópica, sobretudo uma ação que resulte em poluição. Contudo, é possível a ocorrência de degradação
ambiental sem intervenções humanas, como a evolução de um ecossistema, um abalo sísmico ou, ainda, a
erupção de um vulcão.
Nota-se, assim, que a degradação da qualidade ambiental é causada por uma ação antrópica ou por um
evento natural. O que interessa ao direito ambiental, contudo, é a degradação da qualidade ambiental
provocada por ação humana.

1.5.5 Poluição
O conceito de poluição possui amparo legal no inciso III, do art. 3º, da Lei nº 6.938/1981, que
considera “poluição, a degradação da qualidade ambiental resultante de atividades que direta ou
indiretamente:

a) prejudiquem a saúde, a segurança e o bem-estar da população;


b) criem condições adversas às atividades sociais e econômicas;
c) afetem desfavoravelmente a biota;
d) afetem as condições estéticas ou sanitárias do meio ambiente;
e) lancem matérias ou energia em desacordo com os padrões ambientais estabelecidos”.

A poluição é sempre decorrência da degradação da qualidade ambiental resultante de uma atividade


promovida pelo homem. Constitui uma espécie de degradação ambiental, mas decorrente de atividades
antrópicas. A poluição é sempre negativa e no ordenamento jurídico brasileiro é um ilícito penal e
administrativo.

1.5.6 Biodiversidade
Segundo a Convenção Internacional sobre Biodiversidade (art. 2º), “diversidade biológica significa a
variabilidade de organismos vivos de todas as origens, compreendendo, dentre outros, os ecossistemas
terrestres, marinhos e outros ecossistemas aquáticos e os complexos ecológicos de que fazem parte;
compreendendo ainda a diversidade dentro de espécies, entre espécies e de ecossistemas”.

1.5.7 Recursos ambientais


Compõem os recursos ambientais, segundo o inciso V, do art. 3º, da Lei nº 6.938/1981, “a atmosfera,
as águas interiores, superficiais e subterrâneas, os estuários, o mar territorial, o solo, o subsolo, os
elementos da biosfera, a fauna e a flora”.

1.6 JUSTIÇA AMBIENTAL

A compreensão da acepção “justiça ambiental” vincula-se às lutas do Movimento de Justiça


Ambiental, que surgiu nos Estados Unidos na década de oitenta do século passado, com questionamentos
e reivindicações sobre os riscos ambientais sofridos pela comunidade negra – lixo tóxico, contaminação
química etc. Movimentos com agendas semelhantes se espalharam pelo planeta com a inserção das
questões ambientais no tabuleiro das pautas reivindicatórias tradicionais (direitos civis, racismo,
combate às desigualdades socioeconômicas etc.).
Em aspectos fundamentais, procura descortinar a retórica de que os impactos dos problemas
ambientais atingem a todos, indistintamente, de “forma democrática”. Isto é, que todos os seres humanos,
sem distinções de raça, localização, renda etc., são afetados pelas consequências ambientais do modelo
econômico em curso.
Ao contrário, a alocação e distribuição das externalidades negativas oriundas do modelo econômico
atingem diretamente os grupos vulneráveis e minorias das sociedades, com a majoração das tradicionais
desigualdades, agora, igualmente, de índole ambiental.
Com as desigualdades ambientais, tem-se o que se denominou como “injustiça ambiental” que,
conforme o Manifesto do Colóquio Internacional sobre Justiça Ambiental, Trabalho e Cidadania, que
criou a Rede Brasileira de Justiça Ambiental, “é o mecanismo pelo qual sociedades desiguais, do ponto
de vista econômico e social, destinam a maior carga dos danos ambientais do desenvolvimento às
populações de baixa renda, aos grupos raciais discriminados, aos povos étnicos tradicionais, aos bairros
operários, às populações marginalizadas e vulneráveis”15-16.
Além disso, os movimentos de justiça ambiental procuram descortinar o senso comum sobre o uso dos
recursos naturais no planeta e denunciar a apropriação por poucos.
Nesse sentido, Ricardo Abramovay17 oferece um dado significativo em um planeta com mais de sete
bilhões de pessoas: metade das emissões globais de gases de efeito estufa provém dos 500 milhões de
habitantes mais ricos do planeta. O que se vê é um uso seletivo (e, por que não, exclusivo) dos recursos
naturais por poucos e, por outro lado, as desigualdades na distribuição de seus efeitos.
Nesse quadro, o Manifesto do Colóquio Internacional sobre Justiça Ambiental, Trabalho e Cidadania
relacionou o conjunto de princípios e práticas que caracterizam a “justiça ambiental”, que: (a)
asseguram que nenhum grupo social, seja ele étnico, racial ou de classe, suporte uma parcela
desproporcional das consequências ambientais negativas de operações econômicas, de decisões de
políticas e de programas federais, estaduais, locais, assim como da ausência ou omissão de tais políticas;
(b) asseguram acesso justo e equitativo, direto e indireto, aos recursos ambientais do país; (c) asseguram
amplo acesso às informações relevantes sobre o uso dos recursos ambientais e a destinação de rejeitos e
localização de fontes de riscos ambientais, bem como processos democráticos e participativos na
definição de políticas, planos, programas e projetos que lhes dizem respeito; (d) favorecem a
constituição de sujeitos coletivos de direitos, movimentos sociais e organizações populares para serem
protagonistas na construção de modelos alternativos de desenvolvimento, que assegurem a
democratização do acesso aos recursos ambientais e a sustentabilidade do seu uso.
A título exemplificativo, as pautas dos movimentos de justiça ambiental vinculam-se, no Brasil, aos
movimentos dos atingidos por barragens; de proteção e reconhecimento de populações indígenas e
quilombolas; das vítimas dos impactos de atividades minerárias e de outras atividades, como o césio
137; entre outros. O que os une é a luta pelo reconhecimento e respeito de seus direitos humanos
socioambientais, sem discriminações, com a observância das características da universalidade,
interdependência e indivisibilidade.

1.7 SÍNTESE

• Meio ambiente é “o conjunto de condições, leis, influências e interações de ordem física, química e
biológica, que permite, abriga e rege a vida em todas as suas formas” (art. 3º, I, da Lei nº 6.938/1981).
• Meio ambiente físico ou natural é aquele integrado pela flora, fauna, os recursos hídricos, a
atmosfera, os estuários, o mar territorial, o solo, o subsolo, os elementos da biosfera.
• Meio ambiente cultural é o constituído pelo patrimônio cultural, artístico, arqueológico,
paisagístico, etnográfico, manifestações culturais, folclóricas e populares brasileiras. O patrimônio
cultural brasileiro pode ser material e imaterial.
• Meio ambiente artificial é o espaço urbano, as cidades com os seus espaços abertos, como ruas,
praças e parques; e os espaços fechados, como as edificações.
• O meio ambiente do trabalho possui vinculação com a saúde e a segurança do trabalhador. O art.
200 da CF cuida das competências do Sistema Único de Saúde (SUS), dentre as quais a de “colaborar na
proteção do meio ambiente, nele compreendido o do trabalho”.
• Antropocentrismo: para essa concepção o que importa é o bem-estar dos seres humanos e, para
tanto, o homem se apropria dos bens ambientais para o seu interesse exclusivo, sem preocupação com os
demais seres vivos, que são instrumentais. Contudo, a doutrina defende hoje o antropocentrismo
alargado, em uma visão que conjuga a interação da espécie humana com os demais seres vivos como
garantia de sobrevivência e dignidade do próprio ser humano, assim como o reconhecimento que a
proteção da fauna e da flora é indeclinável para a equidade intergeracional”.
• Biocentrismo: o homem não é superior aos outros seres vivos; mantém com eles uma relação de
interdependência, de simbiose. Todos os seres vivos são igualmente importantes. O centro das relações
não é, como no antropocentrismo, a humanidade, mas os seres vivos, humanos e não humanos.
• Intervenções antrópicas: qualquer intervenção humana no meio ambiente.
• Degradação da qualidade ambiental: é causada pela ação antrópica ou por um evento natural. O
que interessa ao direito ambiental, contudo, é a degradação da qualidade ambiental causada por ação
humana.
• Poluição é a degradação da qualidade ambiental resultante de atividades que direta ou
indiretamente: (a) prejudiquem a saúde, a segurança e o bem-estar da população; (b) criem condições
adversas às atividades sociais e econômicas; (c) afetem desfavoravelmente a biota; (d) afetem as
condições estéticas ou sanitárias do meio ambiente; (e) lancem matérias ou energia em desacordo com os
padrões ambientais estabelecidos.

1.8 QUESTÕES PARA FIXAÇÃO

1.8.1 Questões objetivas

1. (IBEG – 2016 – Advogado – Prefeitura de Mendes/RJ) Acerca dos princípios do


Direito Ambiental, indique a alternativa correta:
(A) O Meio Ambiente, bem de uso comum do povo, consistente no equilíbrio ecológico e
na higidez do meio e dos recursos naturais, é bem comum, geral, difuso, indissociável
da qualidade dos seus constitutivos, e, por conseguinte, divisível, disponível e
impenhorável.
(B) Pelo princípio da precaução, procura-se evitar que o dano ambiental ocorra, através
de mecanismos extrajudiciais e judiciais. É, portanto, a atuação antecipada para
evitar danos, que, em regra, são irreversíveis.
(C) O princípio da prevenção vai ser aplicado toda vez que houver incerteza científica se
determinado ato possa prejudicar os bens ambientais ou o ser humano.
(D) De acordo com a doutrina majoritária, o conceito de meio ambiente tende a ser
globalizante, abrangendo não apenas o meio ambiente natural, mas também o
cultural, o artificial e o meio ambiente do trabalho.
(E) O conceito normativo de meio ambiente abrange o conjunto de condições, leis,
influências e interações de ordem física, química e biológica, que permite, abriga e
rege a vida em todas suas formas, não incluindo o patrimônio edificado.

2. (FCC – 2015 – Juiz Substituto – TJ/SC) O Meio Ambiente, bem de uso comum do
povo, consistente no equilíbrio ecológico e na higidez do meio e dos recursos
naturais, é bem
(A) individual homogêneo, indivisível, indisponível e impenhorável.
(B) tangível, disponível e impenhorável.
(C) coletivo, divisível e indisponível.
(D) comum, geral, difuso, indivisível, indisponível e impenhorável.
(E) difuso, divisível, indisponível e impenhorável.
3. (FCC – 2015 – Defensor Público – DPE/SP) “[…] Esse conjunto de entidades
envolvido no debate ambiental brasileiro esteve sempre atravessado por uma
questão central: a de como engajar-se em campanhas que evocam a ‘proteção ao
meio ambiente’ sem desconsiderar as evidentes prioridades da luta contra a
pobreza e a desigualdade social ou mostrando-se capaz de responder aos
propósitos desenvolvimentistas correntes que almejam a rentabilização de capitais
em nome da geração de emprego e renda. Em outros termos, como conquistar
legitimidade para as questões ambientais, quando, com frequência, a preocupação
com o ambiente é apresentada como um obstáculo ao enfrentamento do
desemprego e à superação da pobreza? Como dar um tratamento lógico e
socialmente aceitável às implicações ambientais das lutas contra a desigualdade
social e pelo desenvolvimento econômico?” (ACSELRAD, Henri. Ambientalização
das lutas sociais − o caso do movimento por justiça ambiental. ,
São Paulo, v. 24, n. 68, p. 103-119, 2010. Disponível em:
<http://dx.doi.org/10.1590/S0103-40142010000100010>. Acesso em: 10 de agosto de
2015).
O trecho acima reproduzido alude a uma das questões centrais em matéria de
justiça ambiental: o conflito entre o desenvolvimento econômico e a preservação
ambiental. O tema justiça ambiental
I. incorpora a lógica do princípio administrativo da distribuição equitativa dos ônus e
encargos, considerando que os riscos ambientais e a poluição atingiriam a todos
indistintamente e na mesma proporção.
II. tem sua origem associada, segundo parte da doutrina, às lutas raciais desenvolvidas
pelos negros nos Estados Unidos, na década de 1980.
III. defende a ponderação quantitativa entre os específicos direitos das comunidades
afetadas pelos empreendimentos e o direito coletivo ao desenvolvimento econômico.
IV. sustenta a necessidade de consideração da dimensão histórica e social na análise da
questão ambiental.
V. tem dentre seus princípios o fomento à gestão democrática e o acesso à informação.
VI. prioriza, como estratégia de efetivação de justiça ambiental, a realização de estudos
técnicos divergentes como suporte às comunidades afetadas por empreendimentos
que gerem riscos, em contraposição aos Estudos de Impacto Ambiental elaborados
pelos empreendedores-poluidores.
Está correto o que se afirma APENAS em:
(A) II, V e VI.
(B) II, IV e V.
(C) III, IV e V.
(D) I, IV e VI.
(E) I, III e V.

4. (CESPE – Juiz – TRF 1ª Região – 2011) Em defesa do meio ambiente, o STF assim
se pronunciou: “O direito à integridade do meio ambiente – típico direito de terceira
geração – constitui prerrogativa jurídica de titularidade coletiva, refletindo, dentro
do processo de afirmação dos direitos humanos, a expressão significativa de um
poder atribuído, não ao indivíduo identificado em sua singularidade, mas num
sentido verdadeiramente mais abrangente, à própria coletividade social”. Tendo o
texto acima como referência, assinale a opção correta com base nas disposições
legais de defesa do meio ambiente.
(A) Em atendimento ao princípio do poluidor pagador, previsto no direito positivo
brasileiro, a Política Nacional do Meio Ambiente determina a proteção de áreas
ameaçadas de degradação.
(B) A defesa do direito ao meio ambiente equilibrado nasceu a partir da Declaração de
Estocolmo, em 1972, cujas premissas são marcadamente biocêntricas.
(C) O objeto de proteção do direito ambiental concentra-se nos fatores bióticos e
abióticos, que devem ser tratados isoladamente.
(D) Em razão do tratamento dispensado ao meio ambiente pelo texto constitucional,
depreende-se que é exigido dos cidadãos, predominantemente, um em
relação ao meio ambiente.
(E) O direito fundamental ao meio ambiente ecologicamente equilibrado afasta eventual
tentativa de desafetação ou desdestinação indireta.

5. (CESPE – TJCE – Juiz – 2012) Considerando os diversos aspectos que envolvem o


conceito de meio ambiente, particularmente o cultural e o do trabalho, assinale a
opção correta.
(A) Considera-se meio ambiente cultural o ambiente integrado pelos equipamentos
urbanos e edifícios comunitários, como as bibliotecas, pinacotecas, museus e
instalações científicas ou similares.
(B) O meio ambiente é um bem público classificado pela CF como de uso comum do
povo, razão pela qual não se admite que o seu uso seja oneroso ou imponha a
necessidade de qualquer contraprestação de ordem pecuniária.
(C) Ao estabelecer a tutela do meio ambiente, a CF dispõe que a proteção do meio
ambiente, nele compreendido o meio ambiente do trabalho, constitui um dos objetivos
do Sistema Único de Saúde.
(D) A todos os entes federativos compete a proteção de documentos, obras e outros
bens de valor histórico, artístico, cultural e paisagístico, mas a competência para
legislar sobre esses temas pertence, privativamente, à União.
(E) A definição legal de recursos ambientais compreende a fauna e a flora, as águas
superficiais e subterrâneas, o solo e o subsolo, mas não o mar territorial e os demais
elementos da biosfera.

6. (CESPE – TJ/ES – Juiz – 2011) Com relação ao conceito de meio ambiente e dano
ambiental, assinale a opção correta.
(A) Conforme o Protocolo de Cartagena, dano ambiental é o prejuízo causado ao
ambiente, que é definido, segundo o referido acordo, como conjunto dinâmico e
interativo que compreende a cultura, a natureza e as construções humanas.
(B) Dano ambiental é todo impacto causado ao ambiente, que é caracterizado como o
conjunto de elementos bióticos e abióticos que interagem e mutuamente influenciam a
dinâmica dos sistemas autopoiéticos.
(C) Meio ambiente é definido como o conjunto de interações, condições, leis e influências
físicas e bioquímicas que origina e mantém a vida em todas as suas formas, e dano
ambiental, como o prejuízo transgeracional, de acordo com a PNMA.
(D) A definição legal de meio ambiente encontra-se no próprio texto constitucional, que
se refere ao ambiente cultural, natural, artificial e do trabalho; o conceito legal de
dano ambiental, fundado na teoria do risco, materializa-se no conceito de ecocídio:
sendo o direito ao ambiente ecologicamente equilibrado direito fundamental do ser
humano, as condutas lesivas ao ambiente devem ser consideradas crimes contra a
humanidade.
(E) Meio ambiente é definido como o conjunto de condições, leis, influências e interações
de ordem física, química e biológica que permite, abriga e rege a vida em todas as
suas formas; a definição de dano ambiental infere-se a partir dos conceitos legais de
poluição e degradação.

7. (FGV – 2009) A Constituição Federal/88 assevera que “todos têm direito ao meio
ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à
sadia qualidade de vida”. A esse respeito, é correto inferir que a concepção
constitucional sobre meio ambiente é:
(A) holística.
(B) panteísta.
(C) pragmática.
(D) antropocêntrica.
(E) criacionista.

8. (MPE-MS – 2011 – MPE-MS – Promotor de Justiça) Para os fins da Lei 6.938 de 31


de agosto de 1981 – Lei da Política Nacional do Meio Ambiente, é incorreto afirmar
que:
(A) a degradação da qualidade ambiental é toda alteração adversa das características
do meio ambiente;
(B) o meio ambiente é o conjunto de condições, leis, influências e interações de ordem
física, química e biológica, que permite, abriga e rege a vida em todas as suas
formas;
(C) a poluição é a degradação da qualidade ambiental resultante de atividades que direta
ou indiretamente, por exemplo, afetem desfavoravelmente a biota;
(D) a poluição é a degradação da qualidade ambiental resultante de atividades que direta
ou indiretamente, por exemplo, prejudiquem a saúde, a segurança e o bem-estar da
população;
(E) o poluidor é somente a pessoa física responsável, direta ou indiretamente, por
atividade causadora de degradação ambiental.

1.8.2 Questões dissertativas


1. (INÉDITA) Disserte sobre o conceito de meio ambiente.
2. (INÉDITA) Disserte sobre o meio ambiente como um bem de uso comum do povo.
3. (INÉDITA) Considerando as concepções éticas sobre a proteção ao meio ambiente,
explique o antropocentrismo e o biocentrismo.

1.8.3 Questões de exame oral


1. Qual o conceito jurídico de meio ambiente?
2. Qual a classificação de meio ambiente?
3. O que são elementos bióticos e abióticos?
4. O que é o macrobem ambiental?
5. O que significa o meio ambiente como bem de uso comum do povo?
6. Quais as concepções éticas sobre a proteção ao meio ambiente?
7. Dê exemplos de passagens biocêntricas no ordenamento jurídico brasileiro.
8. O que é ecologia profunda?
9. Qual a concepção ética que norteia o art. 225 da Constituição?
10. Como conceituar preservação e conservação?
1.9 GABARITOS

1.9.1 Questões objetivas

1.9.2 Questões dissertativas

1.9.3 Questões de exame oral


1 SILVA, 2008, p. 20.
2 VULCANIS, 2008, p. 29 e ss.
3 LEITE, 2003, p. 83.
4 LORENZETTI, 2010, p. 26.
5 LORENZETTI, 2010, p. 26.
6 CAPPELLI, MARCHESAN E STEIGLEDER, 2007, p. 16.
7 VULCANIS, 2008, p. 37.
8 SOUZA FILHO, 2002, p. 41.
9 LEITE, 2007, p. 137.
10 FERRY, 2009, p. 123.
11 CAPRA, 1996, p. 25.
12 CAPRA, 1996, p. 25.
13 KASSMAYER, 2009, p. 140.
14 SAMPAIO, 2012.
15 Disponível em: <http://www.mma.gov.br/destaques/item/8077-manifesto-de-lan%C3%A7amento-da-rede-brasileira-de-
justi%C3%A7a-ambiental/>.
16 ACSELRAD et al., 2008, p. 41.
17 ABRAMOVAY, 2012, p. 64.
Nunca uma geração teve tanta responsabilidade
em relação a si mesma e ao futuro como a geração
atual.
José Saramago

O arcabouço da proteção ambiental tem os seus aspectos mais importantes no tabuleiro das
instituições internacionais, em especial na arquitetura das Nações Unidas. Nesse sentido, o estudo do
Direito Ambiental Internacional, em seus aspectos fundamentais, impõe a análise das conferências sobre
o meio ambiente no âmbito da Organização das Nações Unidas (ONU) e documentos decorrentes.
Da primeira conferência em 1972 até os dias atuais, a ONU promoveu quatro conferências mundiais,
decisivas para que temáticas como meio ambiente ecologicamente equilibrado, desenvolvimento
sustentável, mudanças climáticas, entre outros, assumissem centralidade na agenda global.
As quatro as conferências da ONU, a saber:

Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano (1972);


Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (1992);
Cúpula Mundial sobre Desenvolvimento Sustentável – Rio+10 (2002);
Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável – Rio+20 (2012).

A partir de indicação do Conselho Econômico e Social, a Assembleia-geral das Nações Unidas, por
meio da Resolução 2.398 (XXIII), em 1968, decidiu pela realização de uma conferência mundial para
discutir as questões ambientais.
Dessa forma, ocorreu, de 5 a 16 de junho de 1972, na cidade de Estocolmo, Suécia, com a
participação de 113 Estados, a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano, que
é considerada um marco do direito ambiental no domínio internacional.
No curso de seus trabalhos, os países participantes dividiram-se em duas correntes de interpretação
sobre as questões ambientais:

a) de um lado, os preservacionistas, corrente radical, liderados pelos países desenvolvidos, que


defenderam a mitigação nas intervenções antrópicas sobre o meio ambiente; e
b) de outro, os desenvolvimentistas, composta pelos países em desenvolvimento, entre os quais o
Brasil, que defendiam, em síntese, que os países em desenvolvimento aceitavam a poluição e que
a preocupação deveria ser com o crescimento econômico.

Ao seu término, foi editada a Declaração de Estocolmo sobre Meio Ambiente Humano, com 26
princípios.
O Princípio 1 da Declaração reconhece o meio ambiente com qualidade como direito fundamental,
como se vê: “O homem tem o direito fundamental à liberdade, à igualdade e ao desfrute de condições de
vida adequadas, em um meio ambiente de qualidade tal que lhe permita levar uma vida digna, gozar de
bem-estar e é portador solene de obrigação de proteger e melhorar o meio ambiente, para as gerações
presentes e futuras”.
Além da Declaração de Estocolmo sobre Meio Ambiente Humano, outro instrumento previsto foi um
Plano de Ações para o Meio Ambiente, com um conjunto de 109 recomendações.
No quadro institucional, como decorrência da Convenção de Estocolmo, estabeleceu-se em dezembro
de 1972 o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), com sede em Nairóbi,
Quênia, como programa do Sistema das Nações Unidas responsável por promover a proteção ao meio
ambiente e o uso eficiente de recursos naturais no contexto do desenvolvimento sustentável.
Atualmente, o PNUMA, como agência do Sistema das Nações Unidas, é a principal autoridade global
em meio ambiente.

Mais de uma década após a realização da Conferência de Estocolmo sobre o Meio Ambiente Humano,
a ONU criou, em 1983, a Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, que após um
longo processo de audiências e discussões com líderes políticos e organizações em todo o planeta
apresentou, em 1987, como conclusão de suas atividades, o Relatório Nosso Futuro Comum, também
conhecido como “Relatório Brundtland” – em homenagem à senhora Gro Harlen Brundtland, ex-
primeira ministra da Noruega, que presidiu os trabalhos dessa Comissão Mundial.
O Relatório Brundtland definiu os contornos do conceito clássico de desenvolvimento sustentável,
como aquele “que atende às necessidades das gerações atuais sem comprometer a capacidade de as
futuras gerações terem suas próprias necessidades atendidas”.
A partir das conclusões do Relatório Nosso Futuro Comum, a ONU decidiu em 1990 a necessidade da
realização de uma nova conferência sobre meio ambiente, que ocorreria no Brasil em 1992.

A Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (Rio/92), realizada
em 1992, na cidade do Rio de Janeiro, também conhecida como a Cúpula da Terra, representou o ápice
da preocupação ambiental mundial. Essa importância se reflete na participação de 179 países, 116 chefes
de Estado e de governo e mais de 10.000 participantes.
Como resultado, a Rio/92 produziu cinco documentos internacionais, a saber:

Declaração do Rio sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento;


Agenda 21;
Convenção-Quadro sobre Mudanças do Clima;
Convenção sobre Diversidade Biológica ou da Biodiversidade.
Declaração de Princípios sobre Florestas.

Dos documentos da Rio/92, somente a Convenção-Quadro sobre Mudanças do Clima e a Convenção


sobre Diversidade Biológica possuem força jurídica vinculante, obrigatória, como hard law. Os demais
são declarações, destituídas de caráter vinculante, chamadas no direito internacional de soft law.
É um documento que contém 27 princípios, fundamentais para a compreensão do direito ambiental não
somente na esfera internacional, mas como importante fonte para o desenvolvimento principiológico na
legislação ambiental de cada país. Embora se enquadre como uma recomendação, a Declaração do Rio
traz preceitos fundamentais para o desenvolvimento de uma agenda internacional de proteção ao meio
ambiente, com uma série de compromissos e obrigações para os Estados. Dessa forma, o estudo do
direito ambiental no Brasil passa, necessariamente, pela compreensão dos princípios da Declaração do
Rio – alguns deles elencados no capítulo 5.

A Agenda 21 pode ser definida como “um instrumento de planejamento para a construção de
sociedades sustentáveis, em diferentes bases geográficas, que concilia métodos de proteção ambiental,
justiça social e eficiência econômica” (Ministério do Meio Ambiente). Trata-se de um documento
programático, com 40 capítulos, em que se estabelecem diretrizes para a implementação do
desenvolvimento sustentável do espaço global ao local.
Nos termos do próprio documento: “a Agenda 21 está voltada para os problemas prementes de hoje e
tem o objetivo, ainda, de preparar o mundo para os desafios do próximo século. Reflete um consenso
mundial e um compromisso político no nível mais alto no que diz respeito a desenvolvimento e
cooperação ambiental. O êxito de sua execução é responsabilidade, antes de mais nada, dos Governos.
Para concretizá-la, são cruciais as estratégias, os planos, as políticas e os processos nacionais. A
cooperação internacional deverá apoiar e complementar tais esforços nacionais. Nesse contexto, o
sistema das Nações Unidas tem um papel fundamental a desempenhar. Outras organizações
internacionais, regionais e sub-regionais também são convidadas a contribuir para tal esforço. A mais
ampla participação pública e o envolvimento ativo das organizações não governamentais e de outros
grupos também devem ser estimulados”.
Não obstante constituir-se em documento da Rio/92, a implementação da Agenda 21 é um objetivo que
permeou as conferências posteriores, em especial a Rio+10 e a Rio+20.
Para acompanhar o progresso na implementação da Agenda 21, a Assembleia-geral das Nações
Unidas criou em dezembro de 1992 a Comissão das Nações Unidas sobre Desenvolvimento
Sustentável, que é uma comissão funcional vinculada ao Conselho Econômico e Social da ONU.

Adotada em Nova York em 09 de maio de 1992 e aberta para assinatura em junho de 1992, durante a
Rio/92, com entrada em vigor em 21 de março de 1994, a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre
Mudança do Clima (UNFCCC), possui como objetivo a estabilização das concentrações de gases de
efeito estufa na atmosfera num nível que impeça uma interferência antrópica perigosa no sistema
climático.
Segundo a Convenção-Quadro, mudança do clima “significa uma mudança de clima que possa ser
direta ou indiretamente atribuída à atividade humana que altere a composição da atmosfera mundial e que
se some àquela provocada pela variabilidade climática natural observada ao longo de períodos
comparáveis”.
O que se pretende evitar são os chamados efeitos negativos da mudança do clima, que significa as
mudanças no meio ambiente físico ou biota resultantes da mudança do clima que tenham efeitos deletérios
significativos sobre a composição, resiliência ou produtividade de ecossistemas naturais e
administrados, sobre o funcionamento de sistemas socioeconômicos ou sobre a saúde e o bem-estar
humanos.
Em suma, o que se pretende é estabilizar a emissão de gases de efeito estufa no sistema climático,
decorrentes de atividades antrópicas, para que não se potencializem os efeitos do aquecimento global.
Com a adoção da Convenção-Quadro e como forma de manter a discussão sobre o clima, as partes
(países) se reúnem periodicamente para discutir as questões climáticas. Essas reuniões são chamadas de
COP (conferência das partes), que é órgão supremo da Convenção-Quadro e que ocorreu pela primeira
vez no ano de 1995 em Berlim, Alemanha. Em novembro de 2016 foi realizada a COP 22, na cidade de
Marrakesh, Marrocos.
Uma das principais deliberações ocorreu durante a COP 3, em 1997, com a aprovação do Protocolo
de Kyoto, como componente da Convenção-Quadro a estabelecer metas de redução de emissões para os
países desenvolvidos. Entrou em vigor em 16 de fevereiro de 2005, com a ratificação por, no mínimo,
55% do total de países-membros da Convenção-Quadro sobre Mudanças do Clima e que fossem
responsáveis por, pelo menos, 55% do total das emissões do ano de 19901.
Em sua primeira fase, o objetivo do Protocolo de Kyoto era que os países do Anexo I – relação dos
40 países e a Comunidade Europeia, listados na Convenção-Quadro – assumissem compromissos de
reduzir suas emissões de gases de efeito estufa (GEE) em pelos menos 5% em relação aos níveis de
emissões do ano de 1990, durante o período de compromisso entre os anos de 2008 a 2012. O papel
central para a sua efetivação competiu aos países desenvolvidos em sua primeira fase.
Com a proximidade do encerramento de sua primeira fase em 3 de dezembro de 2012, o Protocolo de
Kyoto foi prorrogado pela COP 18, que ocorreu em Doha, Catar, em dezembro de 2012. Estabeleceu-se,
assim, após profundas divergências entre os Estados, um segundo período para o Protocolo de Kyoto,
compreendido entre os anos de 2013 a 2020. Contudo, muitos países se retiraram de suas obrigações,
como Japão, Rússia e Canadá – afetados pela crise econômica mundial e, por decorrência, refratários
aos compromissos de redução de emissões antrópicas e seus desdobramentos nas respectivas economias.

Com a proximidade do exaurimento e em substituição ao Protocolo de Kyoto, durante a 21ª


Conferência das Partes (COP 21), realizada no mês de dezembro de 2015 em Paris, França, celebrou-se
um novo acordo para enfrentar as ameaças das mudanças climáticas, denominado Acordo de Paris,
contando com a assinatura de representantes de 196 países da Convenção-Quadro das Nações Unidas
sobre Mudança do Clima (UNFCCC).
O Acordo de Paris tem como objetivo reforçar a resposta mundial às ameaças que representam as
mudanças climáticas no contexto do desenvolvimento sustentável e os esforços para erradicar a pobreza,
e suas metas centrais são (artigo 2.1):

(a) Manter o aumento da temperatura média global bem abaixo dos 2 °C acima dos níveis pré-
industriais e buscar esforços para limitar o aumento da temperatura a 1,5 °C acima dos níveis pré-
industriais, reconhecendo que isso reduziria significativamente os riscos e impactos das mudanças
climáticas;
(b) Aumentar a capacidade de adaptar-se aos impactos adversos das mudanças climáticas e fomentar
a resiliência ao clima e o desenvolvimento de baixas emissões de gases de efeito estufa, de uma
forma que não ameace a produção de alimentos;
(c) Promover fluxos financeiros consistentes com um caminho de baixas emissões de gases de efeito
estufa e de desenvolvimento resiliente ao clima.

O Acordo de Paris “será implementado para refletir a igualdade e o princípio das responsabilidades
comuns, porém diferenciadas, e respectivas capacidades, à luz das diferentes circunstâncias nacionais”
(art. 2.1).
Consoante o artigo 21.1, “o presente Acordo entra em vigor no trigésimo dia após a data em que pelo
menos 55 Partes da Convenção, respondendo no total por pelo menos estimados 55% das emissões totais
de gases de efeito estufa globais, tiverem depositado seus instrumentos de ratificação, aceitação,
aprovação ou adesão”. Isto é, com a ratificação, aceitação, aprovação ou adesão de 55 países,
representando 55% das emissões totais de gases de efeito estufa globais, o acordo entrará em vigor
oficialmente.
Em 22 de abril de 2016 o Acordo de Paris foi aberto para o período oficial de assinaturas na Sede
das Nações Unidas em Nova York, com extensão até 21 de abril de 2017.
Contudo, de forma surpreendente – especialmente em cotejo com o mesmo interregno para o Protocolo
de Kyoto, que demorou mais de sete anos para entrar em vigor –, menos de um ano antes de sua
celebração na COP 21, a assinatura de quase 100 países e, em especial, com a decisão dos Estados
Unidos e da China – dois dos maiores emissores de gases de efeito estufa – de ratificarem o acordo em
setembro de 2016, o Acordo de Paris entrou em vigor oficialmente no dia 4 de novembro de 2016.
O Brasil, por sua vez, aprovou o texto do Acordo de Paris sob a Convenção-Quadro das Nações
Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC), em agosto de 2016, por meio do Decreto Legislativo nº
140/2016, com ratificação pelo Presidente da República em 12 de setembro de 2016.
Entre as obrigações do Estado brasileiro, “a meta é reduzir as emissões de gases do efeito estufa em
37% até 2025 (em relação aos níveis de 2005), podendo chegar a 43% até 2030, e de baixar em 80% o
desmatamento legal e em 100% o ilegal até 2030. Outra meta para 2030 é restaurar 12 milhões de
hectares de florestas, uma área equivalente ao território da Inglaterra”.
Após a entrada em vigor, realizou-se em Marrakesh, Marrocos, no mês de novembro de 2016, a 22ª
Conferência das Partes (COP 22), em que as discussões centraram-se no estabelecimento de plano para
implementar e monitorar o Acordo de Paris até dezembro de 2018. Além disso, o documento final da
COP 22, Declaração de Marrakesh, prevê a instituição do “Green Climate Fund” até 2020, com a
estimativa de disponibilizar até US$ 100 bilhões, tendo em conta as necessidades específicas dos países
em desenvolvimento, dos países menos desenvolvidos e dos países particularmente vulneráveis aos
impactos adversos das mudanças climáticas.

ACORDO DE PARIS, aprovado na COP 21


Manter o aumento da temperatura média global bem abaixo dos 2 °C acima dos
Objetivo de níveis pré-industriais e buscar esforços para limitar o aumento da temperatura a
mitigação 1,5 °C acima dos níveis pré-industriais, reconhecendo que isso reduziria
significativamente os riscos e impactos das mudanças climáticas.
Aumentar a capacidade de adaptar-se aos impactos adversos das mudanças
Objetivo de climáticas e fomentar a resiliência ao clima e o desenvolvimento de baixas
adaptação emissões de gases de efeito estufa, de uma forma que não ameace a produção
de alimentos.
Objetivo de Promover fluxos financeiros consistentes com um caminho de baixas emissões
financiamento de gases de efeito estufa e de desenvolvimento resiliente ao clima.

Constitui-se no mais importante instrumento internacional de proteção da biodiversidade. Por meio do


Decreto Legislativo nº 02 e do Decreto Presidencial nº 2.519, ambos de 1998, o Brasil se tornou o
primeiro país a assinar o instrumento de ratificação da Convenção sobre Biodiversidade (CDB).
Os objetivos da Convenção sobre Diversidade Biológica são:

a) a conservação da diversidade biológica;


b) a utilização sustentável de seus componentes; e
c) a repartição justa e equitativa dos benefícios derivados da utilização dos recursos genéticos,
mediante, inclusive, o acesso adequado aos recursos genéticos e a transferência adequada de
tecnologias pertinentes, levando em conta todos os direitos sobre tais recursos e tecnologias, e
mediante financiamento adequado.

A “Declaração de Princípios para um Consenso Global sobre a Gestão, Conservação e o


Desenvolvimento Sustentável de Todos os Tipos de Florestas”, ou simplesmente Declaração de
Princípios sobre Florestas.
Trata-se de um documento genérico que estabelece princípios para a proteção das florestas. É uma
declaração de princípios sem força jurídica vinculativa, e exprime fundamentalmente que os países, em
especial os desenvolvidos, deveriam empreender esforços para recuperar a Terra por meio de
reflorestamento e conservação florestal.

Em 2002, dez anos após a realização da Conferência do Rio de Janeiro, realizou-se, em Johanesburgo,
na África do Sul, a Cúpula Mundial sobre Desenvolvimento Sustentável, também conhecida como
Rio+10. O nome Rio+10 demonstra a importância da Rio/92 como a principal conferência ambiental
realizada.
Em seus debates, emergiu a necessidade de adoção de medidas concretas para executar os objetivos
da Agenda 21 até então não suficientemente implementados, além do enfoque na importância da
concretização de políticas públicas necessárias a um crescimento com sustentabilidade.
Dois foram os documentos oficiais da Cúpula Mundial:

a) a Declaração Política; e
b) o Plano de Implementação.

A Declaração Política, denominada “O Compromisso de Johanesburgo sobre Desenvolvimento


Sustentável”, reafirma os princípios das duas conferências anteriores e faz uma análise da pobreza e da
má distribuição de renda no mundo. Trata-se, como se vê em sua denominação, de documento político e
que não estabelece metas.
O Plano de Implementação, com seus 150 parágrafos, é documento das metas e, em aspectos
fundamentais, é composto de três objetivos:

a) a erradicação da pobreza;
b) a alteração nos padrões insustentáveis de produção e consumo; e
c) a proteção dos recursos naturais para o desenvolvimento econômico e social.

A partir deles, o Plano de Implementação relaciona medidas de desenvolvimento sustentável para


cada região do planeta e reforça a importância do fortalecimento dos quadros institucionais de proteção
ambiental no âmbito internacional, em especial o papel da Comissão das Nações Unidas sobre
Desenvolvimento Sustentável.
Segundo o Plano de Implementação, “a erradicação da pobreza representa o maior desafio do mundo
atual e é um requisito indispensável para se alcançar o desenvolvimento sustentável, particularmente para
os países em desenvolvimento. Mesmo sabendo que cada país é o principal responsável pelo próprio
desenvolvimento sustentável e pela erradicação da própria pobreza, e que não se deve deixar de enfatizar
o papel das políticas nacionais e das estratégias de desenvolvimento, faz-se necessário adotar medidas
concretas, em todos os níveis, para que os países em desenvolvimento possam alcançar as metas
estabelecidas para o desenvolvimento sustentável, que estejam relacionadas com os objetivos e metas
acordados internacionalmente em relação à pobreza, incluindo os que constam da Agenda 21, dos
resultados correspondentes a outras conferências da ONU e da Declaração do Milênio das Nações
Unidas” (parágrafo 06).
No que se refere à alteração dos padrões insustentáveis de consumo e produção, dispõe o Plano
que “para conquistar o desenvolvimento sustentável em nível mundial é indispensável introduzir
mudanças fundamentais nos padrões de consumo e de produção das sociedades. Todos os países devem
se esforçar para promover padrões sustentáveis de consumo e produção, começando pelos países
desenvolvidos e com todos os países se beneficiando deste processo, levando em consideração os
princípios da Conferência do Rio, incluindo, entre outros, o princípio de responsabilidades comuns, mas
diferenciadas, como estabelecido no princípio 7 da Declaração do Rio sobre o Meio Ambiente e
Desenvolvimento. Os Estados, as organizações internacionais competentes, o setor privado e todos os
grupos relevantes devem desempenhar um papel fundamental na mudança dos padrões insustentáveis de
consumo e produção” (parágrafo 13).
No que tange à proteção e gestão da base de recursos naturais para o desenvolvimento econômico
e social, “as atividades humanas produzem efeitos cada vez maiores sobre a integridade dos
ecossistemas, que proporcionam recursos e serviços fundamentais para o bem-estar e as atividades
econômicas do homem. Administrar a base de recursos naturais de maneira integrada e sustentável é vital
para o desenvolvimento sustentável. Neste sentido, para reverter a tendência atual de perda de recursos
naturais, é necessário implementar estratégias que devem incluir metas adotadas em nível nacional e,
quando apropriado, em nível regional para proteger os ecossistemas e alcançar a gestão integrada dos
recursos vivos, da terra e da água fortalecendo simultaneamente a capacidade local, nacional e regional”
(parágrafo 23).

A Resolução nº 64/236, de 2009, da Assembleia-geral das Nações Unidas, determinou a realização de


uma nova conferência mundial sobre as questões ambientais, que veio a ocorrer entre os dias 13 e
22.06.2012, na cidade do Rio de Janeiro, com a denominação Conferência das Nações Unidas sobre
Desenvolvimento Sustentável (Rio+20).
A Rio+20 teve dois temas principais:

a) a economia verde no contexto do desenvolvimento sustentável e da erradicação da pobreza; e


b) a estrutura institucional para o desenvolvimento sustentável.

A Rio+20 não teve a mesma representatividade com a presença de Chefes de Estado e de Governo
como nas Conferências anteriores. Os países desenvolvidos, diante da crise econômica global, optaram
por não se comprometerem com medidas vinculantes ou mesmo metas específicas para as diversas
temáticas com pertinência ambiental.
O documento final da Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável é
denominado “O Futuro que Queremos”, que contém 283 tópicos que, em linhas gerais, relaciona a
renovação dos compromissos políticos das Conferências anteriores (Estocolmo/1972, Rio/1992 e
Joanesburgo/2002) e consigna proposições genéricas sobre a economia verde; o quadro institucional
para o desenvolvimento sustentável e os meios de implementação.

PROTEÇÃO INTERNACIONAL DO MEIO AMBIENTE – ONU


Conferência Ano/Local Documento decorrente
Conferência das Nações Unidas sobre o 1972/Estocolmo, Declaração de Estocolmo sobre
Meio Ambiente Humano Suécia o Meio Ambiente Humano.
Declaração do Rio sobre Meio
Ambiente e Desenvolvimento;
Agenda 21;
Convenção-quadro sobre
Conferência do Rio de Janeiro sobre 1992/Rio de Mudanças do Clima;
Meio Ambiente e Desenvolvimento Janeiro, Brasil Convenção sobre Diversidade
Biológica ou da Biodiversidade;
Declaração de Princípios sobre
Florestas.
Cúpula Mundial sobre Desenvolvimento 2002/Joanesburgo, Declaração Política;
Sustentável (Rio+10) África do Sul Plano de Implementação.
Conferência das Nações Unidas sobre 2012/Rio de
O Futuro que Queremos.
Desenvolvimento Sustentável (Rio+20) Janeiro, Brasil

A Organização dos Estados Americanos (OEA) foi criada em 1948, em Bogotá, Colômbia, com o
objetivo de alcançar nos Estados-membros, “uma ordem de paz e de justiça, para promover sua
solidariedade, intensificar sua colaboração e defender sua soberania, sua integridade territorial e sua
independência”. Além desses objetivos, a OEA instituiu o Sistema Interamericano de Direitos Humanos,
com um arcabouço jurídico a partir da Convenção Americana sobre Direitos Humanos (1969), também
conhecida como Pacto de São José da Costa Rica, e de documentos decorrentes, assim como a criação de
órgãos de fiscalização e controle: a Comissão Interamericana de Direitos Humanos e a Corte
Interamericana de Direitos Humanos.
O Brasil promulgou o Pacto de São José da Costa Rica por meio do Decreto nº 678/1992 e
reconheceu a competência da Corte Interamericana de Direitos Humanos pelo Decreto nº 4.463/2002.
Embora o Pacto de São José da Costa Rica não faça remissões específicas aos direitos econômicos,
sociais a e culturais – seu objeto são os direitos civis e políticos –, coube ao seu primeiro Protocolo
Adicional dispor sobre esses direitos e, em especial, sobre a preservação do meio ambiente, como se
verá no tópico seguinte.

O Protocolo Adicional à Convenção Americana sobre Direitos Humanos (Pacto de São José da Costa
Rita), conhecido como Protocolo de San Salvador, aprovado em 1988, dispõe sobre os direitos
econômicos, sociais e culturais no Sistema Interamericano de Direitos Humanos. O Brasil promulgou o
Protocolo pelo Decreto nº 3.321/1999.
Entre os seus dispositivos, destaca-se o art. 11, ao contemplar o direito a um meio ambiente sadio.
Nesse sentido, “1. Toda pessoa tem direito a viver em meio ambiente sadio e a contar com os serviços
públicos básicos. 2. Os Estados-Partes promoverão a proteção, preservação e melhoramento do meio
ambiente”.
Essa é o único documento com força jurídica vinculante que faz menção à proteção ao meio ambiente
no Sistema Interamericano de Direitos Humanos.

A Carta Democrática Interamericana foi aprovada pelos Estados-Membros da OEA durante uma
Sessão Extraordinária da Assembleia-geral realizada em 11.09.2001, em Lima, Peru, e reveste-se de
documento sem força jurídica vinculante.
A Carta Democrática Interamericana é um documento que reafirma que nos povos das Américas o
sistema e as instituições democráticas são condição para o pleno e integral desenvolvimento dos direitos
humanos e às liberdades fundamentais. Em seu art. 1º consigna que “os povos da América têm direito à
democracia e seus governos têm a obrigação de promovê-la e defendê-la. A democracia é essencial para
o desenvolvimento social, político e econômico dos povos das Américas”. Defende, entre outros, como
valores essenciais: (a) a democracia representativa; (b) eleições periódicas, livres e justas; (c) a
transparência, a probidade e o respeito aos direitos sociais; (d) o regime pluralista de partidos e de
organizações políticas etc.
Além desses valores essenciais, o direito ao meio ambiente é relacionado no art. 15 da Carta: “o
exercício da democracia facilita a preservação e o manejo adequado do meio ambiente. É essencial que
os Estados do Hemisfério implementem políticas e estratégias de proteção do meio ambiente, respeitando
os diversos tratados e convenções, para alcançar um desenvolvimento sustentável em benefício das
futuras gerações”.

A Comissão Interamericana de Direitos Humanos é um dos principais órgãos do Sistema


Interamericano de Direitos Humanos e tem como função principal promover a observância e a defesa dos
direitos humanos. Além disso, no exercício de suas prerrogativas, a Comissão Interamericana de Direitos
Humanos pode editar as chamadas medidas cautelares.
Nesse sentido, conforme o art. 25 do seu Regulamento, “a Comissão poderá, por iniciativa própria ou
a pedido de parte, solicitar que um Estado adote medidas cautelares. Essas medidas, tenham elas ou não
conexão com uma petição ou caso, deverão estar relacionadas a situações de gravidade e urgência que
apresentem risco de dano irreparável às pessoas ou ao objeto de uma petição ou caso pendente nos
órgãos do Sistema Interamericano”. Para adotar uma medida cautelar, a Comissão considerará os
seguintes aspectos:

a) a gravidade da situação, que significa o sério impacto que uma ação ou omissão pode ter sobre um
direito protegido ou sobre o efeito eventual de uma decisão pendente em um caso ou petição nos
órgãos do Sistema Interamericano;
b) a “urgência da situação”, que é determinada pelas informações que indicam que o risco ou a
ameaça são iminentes e podem materializar-se, requerendo dessa maneira ação preventiva ou
tutelar; e
c) o dano irreparável, que significa os efeitos sobre direitos que, por sua natureza, não são
suscetíveis de reparação, restauração ou indenização adequada.

Com base nesses requisitos a Comissão Interamericana de Direitos Humanos editou a MC nº


382/2010 e no dia 1º de abril de 2011 outorgou medidas cautelares em favor das comunidades indígenas
do Rio Xingu, no Pará. Segundo as informações da própria Comissão2, “a solicitação de medida cautelar
alega que a vida e integridade pessoal dos beneficiários estariam em risco pelo impacto da construção da
usina hidroelétrica Belo Monte. A CIDH solicitou ao Governo brasileiro que suspenda imediatamente o
processo de licenciamento do projeto da UHE de Belo Monte e impeça a realização de qualquer obra
material de execução até que sejam observadas as seguintes condições mínimas: (1) realizar processos
de consulta, em cumprimento das obrigações internacionais do Brasil, no sentido de que a consulta seja
prévia, livre, informativa, de boa-fé, culturalmente adequada, e com o objetivo de chegar a um acordo,
em relação a cada uma das comunidades indígenas afetadas, beneficiárias das presentes medidas
cautelares; (2) garantir previamente a realização dos citados processos de consulta, para que a consulta
seja informativa, que as comunidades indígenas beneficiárias tenham acesso a um Estudo de Impacto
Social e Ambiental do projeto, em um formato acessível, incluindo a tradução aos idiomas indígenas
respectivos; (3) adotar medidas para proteger a vida e a integridade pessoal dos membros dos povos
indígenas em isolamento voluntário da bacia do Xingu, e para prevenir a disseminação de doenças e
epidemias entre as comunidades indígenas beneficiárias das medidas cautelares como consequência da
construção da hidroelétrica Belo Monte, tanto daquelas doenças derivadas do aumento populacional
massivo na zona como da exacerbação dos vetores de transmissão aquática de doenças como a malária”.
Após pressão do governo brasileiro, a Comissão reviu o objeto da medida, solicitando ao Estado
brasileiro que: “1) Adote medidas para proteger a vida, a saúde e integridade pessoal dos membros das
comunidades indígenas em situação de isolamento voluntário da bacia do Xingu, e da integridade cultural
de mencionadas comunidades, que incluam ações efetivas de implementação e execução das medidas
jurídico-formais já existentes, assim como o desenho e implementação de medidas específicas de
mitigação dos efeitos que terá a construção da represa Belo Monte sobre o território e a vida destas
comunidades em isolamento; 2) Adote medidas para proteger a saúde dos membros das comunidades
indígenas da bacia do Xingu afetadas pelo projeto Belo Monte, que incluam (a) a finalização e
implementação aceleradas do Programa Integrado de Saúde Indígena para a região da UHE Belo Monte,
e b) o desenho e implementação efetivos dos planos e programas especificamente requeridos pela
FUNAI no Parecer Técnico 21/09, recém-enunciados; e 3) Garantisse a rápida finalização dos processos
de regularização das terras ancestrais dos povos indígenas na bacia do Xingu que estão pendentes, e
adote medidas efetivas para a proteção de mencionados territórios ancestrais ante apropriação ilegítima
e ocupação por não indígenas, e frente a exploração ou o deterioramento de seus recursos naturais.
Adicionalmente, a CIDH decidiu que o debate entre as partes no que se refere à consulta prévia e ao
consentimento informado em relação ao projeto Belo Monte se transformou em uma discussão sobre o
mérito do assunto que transcende o âmbito do procedimento de medidas cautelares”.
Em análise à MC 382/2010, é possível argumentar que o objeto não foi a tutela imediata ao meio
ambiente e aos recursos naturais. Ainda que a proteção direta não seja o meio ambiente natural, a
construção da Usina de Belo Monte, com os significativos impactos ambientais de sua implementação e
futura operação, tem o condão de afetar de forma substancial a vida, a saúde e integridade pessoal e
cultural dos membros das comunidades indígenas da bacia do Rio Xingu, o que, em última análise, é
igualmente objeto do direito ambiental. São justamente a degradação e a descaracterização do meio
ambiente que ocasionarão danos às comunidades, tanto material quanto na esfera moral.

Pelo Tratado de Assunção, assinado pela Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai, em 26.03.1991, foi
criado o Mercado Comum do Sul (Mercosul)3. Em dezembro de 1994, foi aprovado o Protocolo de Ouro
Preto, que estabelece a estrutura institucional do Mercosul e o dota de personalidade jurídica
internacional4.
O objetivo primordial do Tratado de Assunção é a integração dos Estados-Partes por meio da livre
circulação de bens, serviços e fatores produtivos, da adoção de uma política comercial comum, da
coordenação de políticas macroeconômicas e setoriais, e da harmonização de legislações nas áreas
pertinentes.
Na esfera ambiental, o principal documento do sistema é o “Acordo-Quadro sobre Meio Ambiente
do Mercosul”, aprovado pela Decisão MERCOSUL/CMC/DEC nº 02/2001. O Brasil o promulgou por
meio do Decreto nº 5.208/2004.
Em seu artigo introdutório, o Acordo-Quadro dispõe que “Os Estados-Partes reafirmam seu
compromisso com os princípios enunciados na Declaração do Rio de Janeiro sobre Meio Ambiente e
Desenvolvimento, de 1992”.
O objetivo do Acordo-Quadro é “o desenvolvimento sustentável e a proteção do meio ambiente
mediante a articulação entre as dimensões econômicas, sociais e ambientais, contribuindo para uma
melhor qualidade do meio ambiente e de vida das populações”.
Em suas ações para alcançar o objetivo desse Acordo e implementar suas disposições, os Estados-
Partes deverão orientar-se, inter alia (entre outras), pelo seguinte:

a) promoção da proteção do meio ambiente e aproveitamento mais eficaz dos recursos disponíveis
mediante a coordenação de políticas setoriais, com base nos princípios de gradualidade,
flexibilidade e equilíbrio;
b) incorporação da componente ambiental nas políticas setoriais e inclusão das considerações
ambientais na tomada de decisões que se adotem no âmbito do Mercosul para fortalecimento da
integração;
c) promoção do desenvolvimento sustentável por meio do apoio recíproco entre os setores
ambientais e econômicos, evitando a adoção de medidas que restrinjam ou distorçam de maneira
arbitrária ou injustificável a livre circulação de bens e serviços no âmbito do Mercosul;
d) tratamento prioritário e integral às causas e fontes dos problemas ambientais;
e) promoção da efetiva participação da sociedade civil no tratamento das questões ambientais; e
f) fomento à internalização dos custos ambientais por meio do uso de instrumentos econômicos e
regulatórios de gestão.

Outro destaque no Acordo-Quadro é a cooperação em matéria ambiental “os Estados-Partes


cooperarão no cumprimento dos Acordos Internacionais que contemplem matéria ambiental dos quais
sejam parte. Essa cooperação poderá incluir, quando se julgar conveniente, a adoção de políticas comuns
para a proteção do meio ambiente, a conservação dos recursos naturais, a promoção do desenvolvimento
sustentável, a apresentação de comunicações conjuntas sobre temas de interesse comum e o intercâmbio
de informações sobre posições nacionais em foros ambientais internacionais”.
Como desdobramento necessário do tratado ambiental geral (Acordo-Quadro), foi aprovado o
Protocolo Adicional ao Acordo-Quadro sobre Meio Ambiente do Mercosul em Matéria de
Cooperação e Assistência frente a Emergências Ambientais, adotado pela Decisão nº 14/2004 do
Conselho do Mercado Comum, em 07.07.2004. O Brasil efetuou a promulgação por meio do Decreto nº
7.940/2013.
O seu objeto é que “os Estados-Partes, por meio de seus Pontos Focais, prestarão cooperação
recíproca e assistência quando ocorrer uma emergência que tenha consequências efetivas ou potenciais
no meio ambiente ou na população de seu próprio território ou de outro Estado-Parte, de acordo com as
disposições gerais e particulares do presente Protocolo” (art. 2º).
Entende-se por pontos focais o(s) organismo(s) competente(s) que cada Estado-Parte identifique
como tal, para intervir em caso de emergências ambientais (art. 1º, b).
Emergência ambiental, por sua vez, é a situação resultante de um fenômeno de origem natural ou
antrópica susceptível de provocar graves danos ao meio ambiente ou aos ecossistemas e que, por suas
características, requeira assistência imediata (art. 1º, a).
O Protocolo Adicional disciplina a comunicação de emergências ambientais entre os Estados-partes.
Dessa forma, se ocorrer uma emergência ambiental no território de um Estado-parte e que possa ter
consequências efetivas ou potenciais em outro Estado-parte, imediatamente após ter tomado
conhecimento do evento deverá ser efetuada a comunicação.
O Protocolo Adicional determina que os chamados Pontos Focais deverão efetuar ou receber as
notificações e comunicações em caso de emergências ambientais. Cada país do Mercosul deverá indicar
o seu Ponto Focal, que é o órgão responsável pelas emergências ambientais e que fará as comunicações
em eventual ocorrência.

• A Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano, realizada em 1972 na cidade
de Estocolmo, Suécia, é o marco do direito ambiental internacional. Consignou, em sua declaração final,
o direito ao meio ambiente com qualidade como um direito fundamental.
• O Relatório “Nosso Futuro Comum”, também conhecido como Relatório Brundtland, foi publicado
em 1987 e definiu os contornos do conceito clássico de desenvolvimento sustentável como aquele “que
atende às necessidades das gerações atuais sem comprometer a capacidade de as futuras gerações terem
suas próprias necessidades atendidas”.
• A Conferência do Rio de Janeiro sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (Rio/92), realizada
em 1992, na cidade do Rio de Janeiro, também conhecida como “Cúpula da Terra”, teve como resultado
a edição de cinco documentos:

a) Declaração do Rio sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento;


b) Agenda 21;
c) Convenção-Quadro sobre Mudanças do Clima;
d) Convenção sobre Diversidade Biológica ou da Biodiversidade;
e) Declaração de Princípios sobre Florestas.

• A Declaração do Rio é composta de 27 princípios que desempenham um papel fundamental para a


compreensão do direito ambiental.
• A Agenda 21 é um plano de ação com uma série de instrumentos e iniciativas para a proteção do
meio ambiente no âmbito internacional, nacional, regional e local.
• A Convenção-Quadro sobre Mudanças do Clima possui como finalidade a estabilização das
concentrações dos gases de efeito estufa, em níveis que evitem a perigosa interferência antrópica no
sistema climático.
• O Acordo de Paris foi estabelecido durante a 21ª Conferência das Partes (COP 21), realizada no
mês de dezembro de 2015, em Paris, França, e pretende reforçar a resposta mundial às ameaças que
representam as mudanças climáticas no contexto do desenvolvimento sustentável e os esforços para
erradicar a pobreza. Tem como objetivos centrais: (a) manter o aumento da temperatura média global
bem abaixo dos 2 °C acima dos níveis pré-industriais e buscar esforços para limitar o aumento da
temperatura a 1,5 °C acima dos níveis pré-industriais, reconhecendo que isso reduziria significativamente
os riscos e impactos das mudanças climáticas; (b) aumentar a capacidade de adaptar-se aos impactos
adversos das mudanças climáticas e fomentar a resiliência ao clima e o desenvolvimento de baixas
emissões de gases de efeito estufa, de uma forma que não ameace a produção de alimentos e (c)
promover fluxos financeiros consistentes com um caminho de baixas emissões de gases de efeito estufa e
de desenvolvimento resiliente ao clima.
• A Convenção sobre Biodiversidade objetiva a conservação da diversidade biológica e o uso
sustentável dos recursos biológicos.
• A Cúpula Mundial sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio+10) foi realizada em 2002 em
Johanesburgo, África do Sul, e discutiu o resultado das conferências anteriores e estabeleceu os
compromissos de alteração nos padrões insustentáveis de produção e consumo e de proteção dos
recursos naturais no Planeta. Seus principais documentos foram: (a) Declaração Política; (b) Plano de
Implementação.
• A Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio+20) foi realizada em
junho de 2012 na cidade do Rio de Janeiro e o documento final é denominado “O Futuro que Queremos”.
• No Sistema Interamericano de Direitos Humanos (OEA), a preservação do meio ambiente é previsto
no Protocolo de San Salvador, que versa sobre os direitos econômicos, sociais e culturais. Além disso,
a proteção ao meio ambiente é um dos princípios da Carta Democrática Interamericana que, todavia, é
um documento sem força jurídica vinculante.
• A proteção ao meio ambiente no Mercosul ocorre por meio de dois documentos: (a) Acordo-Quadro
sobre Meio Ambiente do Mercosul e (b) Protocolo Adicional ao Acordo-Quadro sobre Meio Ambiente
do Mercosul em Matéria de Cooperação e Assistência frente a Emergências Ambientais.
QUESTÃO GABARITO
1 C
2 D
3 C
4 B
5 D
6 B

QUESTÃO PROPOSTA DE SOLUÇÃO


É necessário discorrer sobre a evolução do direito ambiental internacional a partir
da Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano (1972). Em
seguida, consignar as demais convenções, a saber: (a) Conferência das Nações
1 Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (1992); (b) Cúpula Mundial sobre
Desenvolvimento Sustentável – Rio+10 (2002); (c) Conferência das Nações Unidas
sobre Desenvolvimento Sustentável – Rio+20 (2012). O conteúdo para a resposta
dessa questão encontra-se no tópico 2.1.
O objetivo principal da Convenção-Quadro sobre Mudanças do Clima é reduzir os
chamados efeitos negativos da mudança do clima, que significa as mudanças no
meio ambiente físico ou biota resultantes da mudança do clima que tenham efeitos
deletérios significativos sobre a composição, resiliência ou produtividade de
ecossistemas naturais e administrados, sobre o funcionamento de sistemas
socioeconômicos ou sobre a saúde e o bem-estar humanos. O que se pretende é
estabilizar a emissão de gases de efeito estufa no sistema climático, decorrentes
de atividades antrópicas, para que não se potencializem os efeitos do
2
aquecimento global (tópico 2.4.3). Já o Acordo de Paris substitui o Protocolo de
Kyoto e tem como objetivo reforçar a resposta mundial às ameaças que
representam as mudanças climáticas no contexto do desenvolvimento sustentável
e os esforços para erradicar a pobreza. Além disso, tem como meta central
manter o aumento da temperatura média global bem abaixo dos 2 °C acima dos
níveis pré-industriais e buscar esforços para limitar o aumento da temperatura a
1,5 °C acima dos níveis pré-industriais, reconhecendo que isso reduziria
significativamente os riscos e impactos das mudanças climáticas.
Necessário discorrer sobre a configuração do Sistema Interamericano de Direitos
Humanos para, em seguida, dissertar sobre os instrumentos que consignam a
proteção ao meio ambiente, em especial o Protocolo de San Salvador (art. 11).
3
Como complemento, relacionar igualmente a Carta Democrática Americana e a
possibilidade de medidas cautelares no âmbito da Comissão Interamericana de
Direitos Humanos, como no caso da usina de Belo Monte (tópico 2.8).
QUESTÃO CONTEÚDO PARA A RESPOSTA
1 Tópico 2.2
2 Tópico 2.1 e seguintes
3 Tópico 2.3
4 Tópico 2.4
5 Tópico 2.4.2
6 Tópico 2.4.4
7 Tópico 2.4.3
8 Tópico 2.5
9 Tópico 2.7.1
10 Tópico 2.7.3
11 Tópico 2.7.2
12 Tópico 2.8

1 Disponível em: <www.mma.gov.br/clima>.


2 COMISSÃO. Disponível em: <http://www.cidh.oas.org/medidas/2011>.
3 Em 2012 ocorreu o ingresso definitivo da Venezuela e a assinatura do Protocolo de Adesão da Bolívia ao MERCOSUL que,
uma vez incorporado ao ordenamento jurídico dos Estados-Partes, fará do país andino o sexto membro pleno do bloco.
4 Disponível em: <www.mercosul.jus.br>.
Se você tem metas para 1 ano, plante arroz. Se
você tem metas para 10 anos, plante uma árvore.
Se você tem metas para 100 anos, então eduque
uma criança. Se você tem metas para 1000 anos,
então preserve o meio ambiente.
Confúcio

3.1 INTRODUÇÃO

A Constituição de 1988 é a primeira a destinar um capítulo próprio ao meio ambiente (Título VIII,
Capítulo VI). Contemplou um conjunto de comandos, obrigações e instrumentos para a efetivação do
meio ambiente ecologicamente equilibrado, como dever do Poder Público e da coletividade.

3.2 O ART. 225 DA CONSTITUIÇÃO


Doutrinariamente, segundo José Afonso da Silva1, o art. 225 da Constituição divide-se em três
conjuntos de normas:

Uma norma-matriz, consistente de seu caput;


Instrumentos de garantia de efetividade do caput, que é o seu § 1º;
Determinações particulares, nos demais parágrafos.

A norma-matriz é o direito fundamental ao meio ambiente ecologicamente equilibrado. A


interpretação e a efetivação das determinantes ambientais em todo o sistema jurídico brasileiro norteiam-
se pela garantia do meio ambiente ecologicamente equilibrado.
Para a efetividade do meio ambiente ecologicamente equilibrado, o § 1º do art. 225 da CF
estabelece incumbências, deveres estabelecidos para o Poder Público.
As determinações particulares, previstas nos §§ 2º ao 6º do art. 225 da CF, são temáticas que o
constituinte entendeu conferirem proteção constitucional imediata, como a definição das macrorregiões
consideradas patrimônio nacional, a responsabilidade em matéria ambiental, entre outras.

3.2.1 Do do art. 225 da Constituição


O art. 225 estabelece, em seu caput, que “todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente
equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder
Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações”.
Necessária uma análise dos desdobramentos do caput.
O pronome indefinido todos significa que o meio ambiente ecologicamente equilibrado é um direito
de todos. Há de se perquirir sobre a extensão do pronome “todos”. Em uma leitura tradicional, “todos”
compreende os brasileiros natos, naturalizados e estrangeiros residentes no País. Em uma compreensão
mais abrangente, é possível integrar as futuras gerações, que igualmente são albergadas no cerne
protetivo da norma-matriz.
A locução todos têm direito, por sua vez, criou um direito público subjetivo, oponível contra todos
(erga omnes), e não somente em face do Estado. O exercício desse direito pode ser exercido ante aqueles
que poluem e degradam o meio ambiente, sejam pessoas físicas ou pessoas jurídicas, privadas ou
públicas2.
Por meio ambiente ecologicamente equilibrado compreende-se um meio ambiente não poluído, com
higidez e salubridade. Para Paulo Affonso Leme Machado3, “o equilíbrio ecológico não significa uma
permanente inalterabilidade das condições naturais. Contudo, a harmonia ou a proporção e a sanidade
entre os vários elementos que compõem a ecologia – populações, comunidades, ecossistemas e a biosfera
– hão de ser buscadas intensamente pelo Poder Público, pela coletividade e por todas as pessoas”.
No que se refere à expressão bem de uso comum, o meio ambiente é um bem jurídico autônomo, de
titularidade difusa, indisponível e insuscetível de apropriação (como se relacionou no capítulo 1).
Embora se interprete o meio ambiente como um patrimônio público, conforme dispõe o art. 2º, I, da Lei
nº 6.938/1981, a expressão bem de uso comum do povo não converge para a leitura tradicional de
dominialidade prevista no Código Civil brasileiro. O Estado, em verdade, é um gestor do meio ambiente,
e não o seu proprietário – como na visão civilista.
Já a sadia qualidade de vida só pode ser alcançada com o meio ambiente ecologicamente equilibrado,
saudável, não poluído. É de se notar que o constituinte associou o meio ambiente ecologicamente
equilibrado ao direito à vida, em especial à sadia qualidade de vida, em direcionamento voltado para o
princípio estruturante do texto constitucional: a dignidade da pessoa humana. Essa compreensão
demonstra a essencialidade do meio ambiente ecologicamente equilibrado, direito de terceira dimensão,
que se reveste em um dos mais significativos direitos fundamentais. Em outras palavras, a efetivação dos
direitos civis e políticos (direitos de primeira dimensão) e dos direitos econômicos, sociais e culturais
(direitos de segunda dimensão) só é possível com um meio ambiente ecologicamente equilibrado. Afinal,
como é possível garantir o direito à vida, à saúde ou ao trabalho em um ambiente poluído? O meio
ambiente ecologicamente equilibrado reveste-se como indeclinável para a efetivação das demais
dimensões de direitos humanos.
Por Poder Público compreendem-se as três funções do art. 2º da Constituição Federal: legislativa,
executiva e judiciária. Cabe a cada uma delas, em suas prerrogativas e atribuições institucionais, o dever
inescusável de garantir e efetivar o direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado. Compete ao
Poder Público assegurar a incolumidade do meio ambiente e, caso se verifique degradação ou poluição,
o dever de promover a reparação e a recuperação.
Por fim, o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações é uma das
concepções mais inovadoras e significativas em um texto constitucional em nível mundial: a
responsabilidade entre as gerações. Criou-se um sujeito de direito que ainda não nasceu: as gerações
vindouras. Deveras, a proteção ambiental converge finalisticamente para uma responsabilidade ética
intergeracional, entre as presentes e as futuras gerações, o que implica, em termos imediatos, o diálogo
com o futuro, com os nossos filhos e netos.

3.2.2 Instrumentos de garantia de efetividade


Para a efetivação do direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, a Constituição de 1988
previu no § 1º do art. 225 uma série de instrumentos e obrigações, que são imposições ao Poder Público,
como delinear-se-á.

Em primeiro plano, o inciso I do § 1º do art. 225 traz a obrigação de “preservar e restaurar os


processos ecológicos essenciais e prover o manejo ecológico das espécies e ecossistemas”.
Há dois aspectos no dispositivo:

a) preservar e restaurar os processos ecológicos essenciais;


b) prover o manejo ecológico das espécies e ecossistemas.

Como forma de auxiliar na extensão dessas incumbências, utilizar-se-ão dos conceitos legais e
doutrinários4-5.
Em primeiro lugar, os verbos “preservar” e “restaurar”.
Entende-se por preservação o “conjunto de métodos, procedimentos e políticas que visem a proteção
a longo prazo das espécies, hábitats e ecossistemas, além da manutenção dos processos ecológicos,
prevenindo a simplificação dos sistemas naturais” (art. 2º, V, da Lei nº 9.985/2000). Já restauração é a
“restituição de um ecossistema ou de uma população silvestre degradada o mais próximo possível da sua
condição original” (art. 2º, XIV, da Lei nº 9.985/2000). O que se pretende, assim, é manter a longo prazo
os processos ecológicos essenciais (preservar) e, caso degradados, restituí-los o mais próximo ao seu
estado natural (restaurar).
Mas o que são processos ecológicos essenciais?
Segundo Édis Milaré6, processos ecológicos essenciais “são aqueles que garantem o funcionamento
dos ecossistemas e contribuem para a salubridade e higidez do meio ambiente”.
José Afonso da Silva7, por seu turno, entende processos ecológicos essenciais como aqueles
“governados, sustentados ou intensamente afetados pelos ecossistemas, sendo indispensáveis à produção
de alimentos, à saúde e a outros aspectos da sobrevivência humana e do desenvolvimento sustentado”.
Já o manejo ecológico pode ser para as espécies e para os ecossistemas. Aliás, a Lei nº 9.985/2000
define manejo como “todo e qualquer procedimento que vise assegurar a conservação da diversidade
biológica e dos ecossistemas” (art. 2º, VIII). Dessa forma, manejo ecológico deve ser entendido como o
caráter técnico-científico que se deve conferir no trato dos recursos naturais e, nesse caso, às espécies e
ecossistemas8.
Para Heline Ferreira9, “no que se refere ao manejo ecológico das espécies e ecossistemas, a
Constituição outorgou ao Poder Público a gestão planejada da biodiversidade”.
Prover o manejo ecológico das espécies, segundo Paulo de Bessa Antunes10, “é cuidar do equilíbrio
das relações entre a comunidade biótica e seu hábitat”, ao passo que o manejo ecológico dos
ecossistemas “é realizar a gestão adequada dos ecossistemas, mantendo-os integralmente protegidos”.
Para José Afonso da Silva, manejo ecológico dos ecossistemas “é cuidar do equilíbrio das relações
entre a comunidade biótica e o seu hábitat (mar, floresta, rios, pântanos etc.)”.
No inciso II do § 1º do art. 225 tem-se o imperativo de “preservar a diversidade e a integridade do
patrimônio genético do País” e, de igual forma, “fiscalizar as entidades dedicadas à pesquisa e
manipulação de material genético”.
Em sua primeira parte, o conteúdo dessa obrigação traz uma das mais significativas discussões na
seara ambiental, já que a proteção da biodiversidade é uma temática de centralidade na agenda mundial.
Para se compreender a importância da biodiversidade, basta perquirir: ao se realizar o desmatamento de
uma área equivalente a um campo de futebol, qual foi a perda de biodiversidade com essa intervenção?
Não haveria naquele local um micro-organismo importante para o tratamento ou cura de uma
enfermidade?
Em termos diretos, compreende-se por biodiversidade a variedade de seres que compõem a vida na
Terra.
Segundo a Lei nº 9.985/2000, diversidade biológica é “a variabilidade de organismos vivos de todas
as origens, compreendendo, dentre outros, os ecossistemas terrestres, marinhos e outros ecossistemas
aquáticos e os complexos ecológicos de que fazem parte; compreendendo ainda a diversidade dentro de
espécies, entre espécies e de ecossistemas” (art. 2º, III).
Em termos técnicos, a biodiversidade pode se dividida em:

a) diversidade de ecossistemas, que engloba a variedade de ecossistemas;


b) diversidade das espécies, como das plantas, animais e micro-organismos;
c) diversidade genética corresponde à diversidade de genes no âmbito de cada espécie11.

Com essa divisão de biodiversidade, considera-se patrimônio genético a “informação de origem


genética de espécies vegetais, animais, microbianas ou espécies de outra natureza, incluindo substâncias
oriundas do metabolismo destes seres vivos” (art. 2º, I, Lei nº 13.123/2015).
Relaciona-se, ademais, que o inciso em comento foi regulamentado pela Lei nº 13.123/2015, que
conferiu o marco regulatório do uso da biodiversidade no Brasil.
A segunda parte do inciso dispõe sobre a fiscalização das entidades dedicadas à pesquisa e
manipulação de material genético, o que denota a preocupação com a engenharia genética e as pesquisas
e atividades com organismos geneticamente modificados (OGMs) e seus derivados. Para tanto, essa
fiscalização foi objeto de regulamentação por meio da Lei nº 11.105/2005, denominada Lei de
Biossegurança, que estabelece normas de segurança e mecanismos de fiscalização sobre o cultivo, a
produção, a manipulação, a pesquisa, a comercialização, o consumo, a liberação no meio ambiente e o
descarte de OGMs e seus derivados, tendo como norteador o princípio da precaução para a proteção do
meio ambiente e da saúde humana.

Dispõe o inciso III do § 1º do art. 225 que incumbe ao Poder Público “definir, em todas as unidades
da Federação, espaços territoriais e seus componentes a serem especialmente protegidos, sendo a
alteração e a supressão permitidas somente por meio de lei, vedada qualquer utilização que comprometa
a integridade dos atributos que justifiquem sua proteção”.
Esse dispositivo, uma das mais importantes incumbências do Poder Público, foi regulamentado pela
Lei nº 9.985/2000, que criou o Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza (SNUC). Não
obstante, a partir das discussões da ADI nº 3.540, julgada pelo STF em 2005, consolidou-se o
entendimento de que os espaços especialmente protegidos incluem, além das unidades de conservação, as
áreas de preservação permanente. A maioria da doutrina sustenta hoje que os espaços especialmente
protegidos (ou como defendemos: espaços ambientalmente protegidos) incluem as unidades de
conservação, áreas de preservação permanente, reserva legal, servidão ambiental, tombamento
ambiental, entre outros espaços.
A instituição dos espaços ambientalmente protegidos ocorre mediante ato do Poder Público, como a
edição de uma lei ou, como é comum em unidades de conservação, por meio de decreto do Chefe do
Poder Executivo. Entretanto, a desafetação ou a redução dos limites de uma unidade de conservação
somente poderá ocorrer por meio de lei em sentido formal, ou seja, aprovada pelo Poder Legislativo do
ente que a institui. Ainda que a criação da unidade de conservação ocorra por intermédio de decreto,
eventual desafetação ou redução somente poderá ocorrer por lei específica. Essa sistemática é uma
exceção no ordenamento jurídico pátrio, que prevê a revogação de uma norma por outra do mesmo nível
hierárquico. Essa singularidade tem sua razão, ao obstar que na sucessão de administradores públicos,
cada qual com sua leitura político-ideológica e arbítrio, se utilize de um simples decreto para reduzir os
espaços de proteção ambiental em benefício, em regra, de atividades econômicas. Qualquer redução ou
desafetação, se exigida, deverá ocorrer após se submeter ao processo legislativo e às suas formalidades,
nunca por meio de outro decreto.
Aliás, a necessidade de lei específica para a supressão e intervenção em espaços especialmente
protegidos, no caso de área de preservação permanente, foi igualmente objeto de apreciação pelo
Supremo Tribunal Federal na ADI nº 3.540. A análise foi sobre a necessidade de lei em sentido formal
para a supressão e intervenção em uma área de preservação permanente (APP). Decidiu a Corte Magna
que somente a alteração e supressão do regime jurídico vinculam-se à reserva de lei em sentido formal,
ao passo que a execução de obras ou de serviços depende exclusivamente de procedimento
administrativo próprio, desde que não comprometam a integridade dos atributos que a justificaram. Em
termos objetivos, é possível a supressão de árvores ou mesmo o licenciamento de atividades e obras em
um espaço ambientalmente protegido sem a necessidade de lei em sentido formal; necessário, para tanto,
o procedimento administrativo próprio. A exigência de lei é somente para a desafetação ou para a
redução de um espaço especialmente protegido.
De acordo com o inciso IV do § 1º do art. 225, incumbe ao Poder Público “exigir, na forma da lei,
para instalação de obra ou atividade potencialmente causadora de significativa degradação do meio
ambiente, estudo prévio de impacto ambiental, a que se dará publicidade”.
Com esse dispositivo, o Estudo Prévio de Impacto Ambiental (EIA), previsto originalmente em
Resolução do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), ganhou status constitucional, revestindo-
se em um dos mais importantes estudos ambientais. O pressuposto para a realização do EIA são os
empreendimentos e as atividades potencialmente causadores de significativa degradação do meio
ambiente. Assim, não são todos os empreendimentos, atividades e obras que se sujeitam ao EIA, mas
aqueles potencialmente causadores de significativa degradação do meio ambiente.
O órgão ambiental responsável pelo licenciamento ambiental, ao se deparar com um projeto para a
realização de obra ou atividade efetiva ou potencialmente causadora de significativa degradação
ambiental, determinará ao empreendedor a realização do EIA. Deveras, a Constituição usa o verbo
“exigir”, o que implica reconhecer que não é possível a dispensa do EIA a critério do órgão ambiental. O
que se tem é o EIA inexigível, quando se tratar de empreendimento ou atividade que não provoque
significativa degradação ambiental. Em síntese, tratando-se de obras e empreendimentos que causem
significativa degradação, exige-se, obrigatoriamente, o EIA; ao reverso, se não causar significativa
degradação, o EIA é inexigível, submetendo o empreendedor a outros estudos ambientais simplificados.
É importante frisar que o EIA é sempre prévio à localização, instalação e operação do
empreendimento.
Por fim, o EIA é um procedimento público, ao qual deve-se conferir publicidade. Todos os atos
procedimentais são publicados na imprensa oficial e em um jornal de grande circulação na área de
influência do projeto submetido ao EIA, além da internet nos dias atuais.
No Capítulo 8 analisar-se-á com mais profundidade esse instrumento de proteção ao meio ambiente.
Constitui obrigação do Poder Público “controlar a produção, a comercialização e o emprego de
técnicas, métodos e substâncias que comportem risco para a vida, a qualidade de vida e o meio
ambiente” (art. 225, § 1º, V).
Essa norma aborda o controle dos riscos ambientais, que ocorre por meio do exercício do poder de
polícia que, no direito ambiental, observa a mesma sistemática do art. 78 do Código Tributário Nacional.
Paulo Affonso Leme Machado12 define o poder de polícia ambiental como “a atividade da
Administração Pública que limita ou disciplina direito, interesse ou liberdade, regula a prática de ato ou
a abstenção de fato em razão de interesse público concernente à saúde da população, à conservação dos
ecossistemas, à disciplina da produção e do mercado, ao exercício de atividades econômicas ou de
outras atividades dependentes de concessão, autorização/permissão ou licença do Poder Público de cujas
atividades possam decorrer poluição ou agressão à natureza”.
Assim, o Poder Público deve controlar a produção, comercialização e destinação de agrotóxicos,
resíduos e rejeitos, gases e efluentes oriundos das atividades econômicas, públicas ou privadas.
Como decorrência dessa norma, enquadram-se o controle da produção de energia nuclear (art. 21,
XXIII, a, da CF), o emprego de técnicas e métodos de biotecnologia e biossegurança (Lei nº
11.105/2005), o controle de comercialização de substâncias como a pesquisa, fiscalização e destinação
final dos agrotóxicos (Lei nº 7.802/1989).

É obrigação do Poder Público “promover a educação ambiental em todos os níveis de ensino e a


conscientização pública para a preservação do meio ambiente” (art. 225, § 1º, VI).
Trata-se de instrumento fundamental para que se alcance a compreensão da importância de um meio
ambiente ecologicamente equilibrado.
A Lei nº 9.795/1999 disciplinou o tema e definiu que se entendem por educação ambiental “os
processos por meio dos quais o indivíduo e a coletividade constroem valores sociais, conhecimentos,
habilidades, atitudes e competências voltadas para a conservação do meio ambiente, bem de uso comum
do povo, essencial à sadia qualidade de vida e sua sustentabilidade”.
Ainda segundo esse diploma legal, a educação ambiental é um componente essencial e permanente da
educação nacional, presente em todos os níveis, formais e não formais. Por essa relevância, garantiu a
educação ambiental como um direito de todos, com incumbências ao Poder Público, às entidades
educacionais, aos meios de comunicação e à sociedade em geral.
Com a educação ambiental, estimula-se a conscientização pública para a preservação do meio
ambiente.

Impõe-se ao Poder Público “proteger a fauna e a flora, vedadas, na forma da lei, as práticas que
coloquem em risco sua função ecológica, provoquem a extinção de espécies ou submetam os animais a
crueldade” (art. 225, § 1º, VII).
Não obstante a concepção antropocêntrica que permeia o art. 225 da CF, não se questiona que o inciso
em comento é de inspiração biocêntrica, com a proteção da fauna e da flora contra as intervenções
humanas que coloquem em risco sua existência ou provoquem crueldade.
Constituem práticas vedadas que colocam em risco a função ecológica ou provoquem a extinção de
espécies da fauna: (a) a caça profissional, (b) a pesca clandestina com explosivos e (c) a introdução de
espécies exóticas ou alienígenas. Das três práticas, a mais significativa atualmente é a introdução de
espécies exóticas e alienígenas, que se afigura como a segunda causa de perda de biodiversidade,
superada somente pelo desmatamento13.
No tocante à crueldade com os animais, trata-se de abordagem recorrente no Supremo Tribunal
Federal.
De forma reiterada o STF tem declarado a inconstitucionalidade de leis estaduais que franquearam a
realização das “brigas e rinhas de galo”, em especial dos Estados de Santa Catarina, Rio Grande do
Norte e Rio de Janeiro. Colaciona-se o julgado mais recente, na ADI nº 3.776, que teve como relator o
Ministro Cézar Peluso, com a seguinte ementa: “Lei nº 7.380/98, do Estado do Rio Grande do Norte –
Atividades esportivas com aves das raças combatentes – ‘Rinhas’ ou ‘brigas de galo’ – Regulamentação
– Inadmissibilidade – Meio ambiente – Animais – Submissão a tratamento cruel – Ofensa ao art. 225, §
1º, VII, da CF – Ação julgada procedente – Precedentes. É inconstitucional a lei estadual que autorize e
regulamente, sob título de práticas ou atividades esportivas com aves de raças ditas combatentes, as
chamadas ‘rinhas’ ou ‘brigas de galo’”.
Outra prática vedada pelo STF é a “farra do boi”, prática cultural no Estado de Santa Catarina. O RE
153.531, cujo relator foi o Ministro Marco Aurélio, apresenta a seguinte ementa: “A obrigação de o
Estado garantir a todos o pleno exercício de direitos culturais, incentivando a valorização e a difusão das
manifestações, não prescinde da observância da norma do inciso VII do art. 225 da CF, no que veda
prática que acabe por submeter os animais à crueldade. Procedimento discrepante da norma
constitucional denominado ‘farra do boi’”.
Por fim, no julgamento da ADI nº 4.983, o STF declarou, por maioria de votos, a
inconstitucionalidade de lei cearense que regulamentava a vaquejada como prática desportiva e cultural
(como se viu no Capítulo 1).
3.2.3 Normas específicas

Conforme o § 2º do art. 225, “aquele que explorar recursos minerais fica obrigado a recuperar o meio
ambiente degradado, de acordo com solução técnica exigida pelo órgão público competente, na forma da
lei”.
Ao se exigir a reparação do meio ambiente degradado, a Constituição Federal reconhece, de plano,
que atividades de exploração de recursos minerais constituem uma das mais significativas intervenções
no meio ambiente. Para evitar o passivo ambiental, instituiu a obrigação de recuperar o ambiente
degradado pelas atividades de mineração, de acordo com a solução técnica exigida pelo órgão público
competente.

Conforme o § 3º do art. 225, “as condutas e atividades consideradas lesivas ao meio ambiente
sujeitarão os infratores, pessoas físicas ou jurídicas, a sanções penais e administrativas,
independentemente da obrigação de reparar os danos causados”.
Essa norma trouxe a tríplice responsabilidade em matéria ambiental: civil, penal e administrativa.
Essas responsabilidades possuem regimes jurídicos próprios.
Em aspectos fundamentais, a proteção ambiental é essencialmente preventiva, já que os danos
ambientais são, em regra, praticamente irreversíveis. Enumeram-se como medidas de índole preventiva o
licenciamento ambiental, as fiscalizações, o poder de polícia ambiental, as auditorias ambientais etc.
Ainda que se observem as medidas preventivas, com a ocorrência do dano ambiental o responsável,
pessoa física e jurídica, de direito público ou privado, é obrigado à reparação correspondente. O
ordenamento jurídico brasileiro adota, desde a Lei nº 6.938/1981, a teoria da responsabilidade civil
objetiva, em que é necessária somente a comprovação do nexo de causalidade entre a conduta e o dano,
sem perquirir sobre a culpabilidade.
No que se refere à responsabilidade penal, a Lei nº 9.605/1998 regulamentou o dispositivo com a
tipificação dos crimes ambientais, a ação e o processo penal, e inovou com a possibilidade de
responsabilização penal da pessoa jurídica.
Por fim, a responsabilidade administrativa encontra-se prevista entre os arts. 70 a 76 da Lei nº
9.605/1998, que disciplina as infrações administrativas ambientais e o processo administrativo
ambiental, e em seu regulamento, o Decreto nº 6.514/2008.
A essência da responsabilidade administrativa é, ao lado da responsabilidade penal, de natureza
repressiva, ao passo que a responsabilidade civil é de natureza reparatória.
O estudo da responsabilidade ambiental civil, administrativa e penal ocorrerá em capítulos próprios.
Conforme o § 4º do art. 225, “a Floresta Amazônica brasileira, a Mata Atlântica, a Serra do Mar, o
Pantanal Mato-Grossense e a Zona Costeira são patrimônio nacional, e sua utilização far-se-á, na forma
da lei, dentro de condições que assegurem a preservação do meio ambiente, inclusive quanto ao uso dos
recursos naturais”.
O dispositivo em comento relaciona as macrorregiões brasileiras consideradas patrimônio nacional.
Esqueceu, contudo, de inserir regiões igualmente importantes, como os campos sulinos (pampas), a
caatinga e o cerrado.
O enquadramento legal como patrimônio nacional não significa que essas macrorregiões tenham se
convertido em bens da União ou em bens públicos. O uso da terminologia patrimônio nacional é uma
qualificadora da importância dessas áreas na proteção ambiental, com a imposição de um regime
especial de proteção, que será disciplinado por meio de legislação própria, como ocorre com a Mata
Atlântica, pela Lei nº 11.428/2006 (que será analisada no Capítulo 17). As propriedades privadas
inseridas nas macrorregiões constitucionais não perdem suas características enquanto tais, mas passaram
a se sujeitar a um regime especial de proteção.
O Supremo Tribunal Federal, no RE nº 134.297/95, relatado pelo Ministro Celso de Mello, assim
dispôs: “o preceito consubstanciado no art. 225, § 4º, da Carta da República, além de não converter em
bens públicos os imóveis particulares abrangidos pelas florestas e pelas matas nele referidas (Mata
Atlântica, Serra do Mar, Floresta Amazônica brasileira), também não impede a utilização, pelos próprios
particulares, dos recursos naturais existentes naquelas áreas que estejam sujeitas ao domínio privado,
desde que observadas as prescrições legais e respeitadas as condições necessárias à preservação
ambiental”. No mesmo sentido o RE nº 300.244/2001, rel. Min. Moreira Alves: “não é a Mata Atlântica,
que integra o patrimônio nacional a que alude o art. 225, § 4º, da CF, bem da União”.
Portanto, não há que falar na conversão das propriedades privadas em bens da União nem na
desapropriação indireta dessas áreas em decorrência do regime especial de proteção conferido
constitucionalmente.
O § 5º do art. 225 dispõe que “são indisponíveis as terras devolutas ou arrecadadas pelos Estados,
por ações discriminatórias, necessárias à proteção dos ecossistemas naturais”.
Conforme Édis Milaré14, “as terras devolutas que concorrem para a proteção de determinado
ecossistema são indisponíveis, por força do mandamento constitucional, mesmo que ainda não
incorporadas ao patrimônio público da União em virtude de ação discriminatória”. Prossegue: “É certo
que, após a arrecadação e incorporação a patrimônio público da União através de ação discriminatória,
tais bens não perdem a indisponibilidade”.

Segundo o § 6º do art. 225, “as usinas que operem com reator nuclear deverão ter sua localização
definida em lei federal, sem o que não poderão ser instaladas”.
A norma estabelece que a localização de usina nuclear exige a aprovação de lei federal. À primeira
vista, é de se supor a necessidade exclusiva da aprovação desse diploma legal para a instalação da usina
nuclear. Contudo, a aprovação concerne à localização da usina que opere com reator nuclear, não
prescindindo da submissão ao licenciamento ambiental e, no caso, por se tratar de hipótese que se
enquadra como potencialmente causadora de significativa degradação ambiental, a realização do Estudo
Prévio de Impacto Ambiental (EIA).
Reitera-se, contudo, que o dispositivo trata da localização das usinas que operem com reator nuclear,
com definição em lei federal.
3.3 QUESTÕES PARA FIXAÇÃO

3.3.1 Questões objetivas

1. (FGV – 2016 – Advogado – CODEBA) A CRFB/88 destacou o direito ao meio


ambiente ecologicamente equilibrado como essencial à sadia qualidade de vida.
Sobre a disciplina constitucional do meio ambiente, assinale a afirmativa correta.
(A) Os espaços territorialmente protegidos criados pela Constituição são bens de uso
comum do povo, de modo que restou excluída a possibilidade de propriedade privada
nos mesmos.
(B) É vedada a manipulação de material genético em território nacional, tendo em conta
o princípio da precaução ambiental.
(C) A instalação de empreendimento potencialmente causador de significativa
degradação do meio ambiente exige estudo prévio de impacto ambiental.
(D) Os Estados não detêm competência constitucional para legislar sobre meio
ambiente, atuando de forma supletiva à legislação federal.
(E) Em homenagem ao princípio da norma mais favorável ao meio ambiente, lei estadual
pode vedar a instalação de usina que opere com reator nuclear em seu território.

2. (VUNESP – 2016 – Juiz Substituto – TJ/RJ) No que diz respeito ao direito ambiental
e à aplicação das normas constitucionais ambientais, assinale a opção correta.
(A) Cabe ao Ibama coordenar a implementação do Plano Nacional de Gerenciamento
Costeiro, observando a compatibilização dos Planos Estaduais e Municipais com o
PNGC e as demais normas federais, sem prejuízo da competência dos outros
órgãos.
(B) A Lei de Política Nacional instituiu o Sistema Nacional do Meio Ambiente – Sisnama,
formado por um conjunto de órgãos, dentre eles, o Órgão Central Superior, que seria
a Secretaria Especial do Meio Ambiente.
(C) O reconhecimento material do direito fundamental ao ambiente justifica-se na medida
em que tal direito é extensão do direito à vida, sob os aspectos da saúde e da
existência digna com qualidade de vida, ostentando o de cláusula pétrea,
consoante entendimento do STF.
(D) O Conama é um dos mais atuantes e expressivos órgãos do Sistema Nacional do
Meio Ambiente, na qualidade de órgão colegiado, composto por representantes
federais e estaduais.
(E) A licença de operação (LO) autoriza a operação da atividade ou empreendimento,
após a verificação do efetivo cumprimento do que consta das licenças Prévia e de
Instalação. A decisão será motivada sem prazo mínimo e máximo de vigência.

3. (FCC – 2015 – Juiz Substituto/TJ-PI) Diante de uma crise energética gerada pela
seca prolongada, as usinas que operam com reator nuclear
(A) devem ser utilizadas, por imposição legal, após o terceiro ano consecutivo de queda
dos níveis dos reservatórios das usinas hidrelétricas.
(B) constituem uma alternativa possível, devendo sua localização ser definida em lei
federal.
(C) não se apresentam, por ora, como alternativa viável em razão de expressa proibição
legal.
(D) não se apresentam como alternativa viável em razão de expressa proibição
constitucional.
(E) constituem uma alternativa possível, devendo sua localização ser definida no estudo
de impacto ambiental e respectivo relatório (EIA-RIMA), independentemente de lei
federal.

4. (CS-UFG – 2015 – Procurador do Município – Goiânia-GO) A Constituição de 1988


possui, ao longo de seu texto, várias disposições relacionadas ao meio ambiente,
além de capítulo próprio. De acordo com a Constituição, no que se refere ao meio
ambiente,
(A) a proteção ao meio ambiente e o combate à poluição em qualquer de suas formas é
competência concorrente da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos
Municípios.
(B) a legislação sobre florestas, caça, pesca, fauna, conservação da natureza, defesa
do solo e dos recursos naturais, proteção do meio ambiente e controle da poluição,
proteção ao patrimônio histórico, cultural, artístico, turístico e paisagístico, compete
à União, aos Estados e ao Distrito Federal de forma comum.
(C) a legislação sobre responsabilidade por dano ao meio ambiente é privativa da União,
cabendo aos Estados, Distrito Federal e Municípios legislar de forma suplementar.
(D) a promoção da educação ambiental em todos os níveis de ensino e a
conscientização pública para a preservação do meio ambiente são incumbência do
Poder Público para assegurar a efetividade do direito ao meio ambiente
ecologicamente equilibrado.

5. (CESPE – 2013 – TRF 2ª REGIÃO – Juiz Federal) Assinale a opção correta a respeito
do direito ambiental sob o foco constitucional.
(A) O MP tem o monopólio da ação penal por crimes ambientais e da ação civil pública
ambiental.
(B) A CF confere ao poder público e à coletividade o dever de preservar o meio
ambiente, incumbindo-lhes várias atribuições específicas, inclusive a fiscalização de
entidades que manipulem material genético.
(C) A partir do texto constitucional pode-se concluir que a produção de energia nuclear, a
comercialização de medicamentos e o emprego de agrotóxicos devem,
obrigatoriamente, ser controlados pelo poder público.
(D) Proprietário de pequeno imóvel rural, mesmo que nele não resida, pode beneficiar-se
de usucapião especial urbana.
(E) O princípio da responsabilidade ambiental entre gerações é meramente prospectivo
e, por isso, não está positivado na CF.

6. (CESPE – 2013 – TRF 5ª REGIÃO – Juiz Federal) O direito ao meio ambiente é um


direito de interesse
(A) individual homogêneo de grande relevância social.
(B) coletivo.
(C) difuso.
(D) meramente individual.
(E) exclusivo do poder público.

7. (25º Concurso – MPF – Procurador da República – 2011) Analise os itens abaixo e


responda em seguida:
I – Somente a União tem competência para instituir unidades de conservação da categoria
parque.
II – É comum a todas as pessoas políticas, com exceção dos municípios, a competência
para proteger bens de valor histórico, artístico e cultural, haja vista a abrangência da
expressão “patrimônio cultural brasileiro”
III – Os aquíferos subterrâneos formados por ação da natureza constituem bens de
domínio público federal, cujo aproveitamento econômico depende da outorga de
declaração de reserva de disponibilidade hídrica, a cargo da Agência Nacional de Águas.
IV – Consoante jurisprudência do STF, os estados federados, no exercício de sua
competência concorrente para legislar sobre fauna, podem regular práticas esportivas
envolvendo aves de raças combatentes, desde que o poder público vistorie e autorize os
locais destinados às atividades e que o médico veterinário ateste as condições de saúde
dos animais que participarão dos eventos, sendo vedado, porém, submetê-los a disputas
que culminem com sua morte.
Pode-se afirmar que:
(A) Somente o item III está correto.
(B) Somente o item IV está incorreto.
(C) Somente os itens I e III estão corretos.
(D) Todos os itens estão incorretos.

8. (CESPE – Juiz – TJBA – 2012) No que se refere à previsão constitucional da


proteção ao meio ambiente, assinale a opção correta.
(A) A fim de minimizar os impactos provocados ao meio ambiente pela mineração, a CF
impõe àqueles que exploram recursos minerais a elaboração e observância de plano
de controle ambiental.
(B) Compete a todos os entes da Federação, concorrentemente, a execução das
normas destinadas à tutela do patrimônio ambiental, ou seja, é concorrente a
competência material.
(C) As terras devolutas necessárias à proteção de ecossistemas naturais deixam de ser
indisponíveis após sua arrecadação e incorporação, mediante ação discriminatória,
ao patrimônio público.
(D) Como a CF determina que a fiscalização da pesquisa e da manipulação de material
genético deve ser realizada sob a perspectiva ambiental, aplica-se o princípio da
precaução a esse tema.
(E) A constitucionalização da proteção ambiental, de forma específica e global, ocorreu
sob a égide da Constituição de 1967, tendo a CF ampliado o tratamento dado ao
tema.

9. (CESPE – 2012 – MPE-RR – Promotor de Justiça) Considerando o direito ambiental


constitucional, assinale a opção correta.
(A) Ao estabelecer que todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado,
a CF atribui ao direito ambiental o de direito humano fundamental, sendo,
portanto, equivalentes às emendas constitucionais os tratados e convenções
internacionais, em matéria ambiental, aprovados em cada Casa do Congresso
Nacional, em dois turnos, por três quintos dos votos dos respectivos membros.
(B) A função social da propriedade rural é alcançada quando ela atende,
alternativamente, ao requisito de aproveitamento racional, ou à utilização adequada
dos recursos naturais disponíveis, com preservação do meio ambiente, ou à
exploração que favoreça o bem-estar dos proprietários e dos trabalhadores.
(C) A defesa do meio ambiente é dever do poder público e da coletividade, aos quais
compete promover, respectivamente, a educação ambiental em todos os níveis de
ensino e a conscientização pública para a preservação do meio ambiente.
(D) A competência legislativa para tratamento dos temas ambientais é privativa da União,
como, por exemplo, a criação de normas de direito processual civil coletivo, a
desapropriação de imóveis para criação de espaços protegidos, os usos múltiplos de
água e a geração de energia e extração mineral.
(E) Constituem patrimônio nacional os sítios de valor ecológico, tais como a floresta
amazônica, a mata atlântica, a Serra do Mar, o pantanal mato-grossense e a zona
costeira.

10. (TJDF – JUIZ SUBSTITUTO – 2011) Considerando as normas constitucionais,


assinale a alternativa correta:
(A) Aquele que explorar recursos minerais fica obrigado a recuperar o meio ambiente
degradado, de acordo com a solução técnica por ele apresentada.
(B) As terras devolutas ou arrecadadas pelos Estados, por ações discriminatórias,
necessárias à proteção dos ecossistemas naturais, são consideradas disponíveis.
(C) As usinas que operem com reator nuclear deverão ter sua localização definida em
leis federal e estadual, sem o que não poderão ser instaladas.
(D) As condutas e atividades consideradas lesivas ao meio ambiente sujeitarão os
infratores, pessoas físicas ou jurídicas, a sanções penais e administrativas,
independentemente da obrigação de reparar os danos causados.

11. (UFPR – 2013 – TJPR – Juiz) De acordo com o art. 225, § 4º da Constituição Federal
são patrimônio nacional:
(A) As Dunas Litorâneas, os Manguezais, a Serra do Mar e a Mata Atlântica.
(B) A Floresta Amazônica brasileira, a Mata Atlântica, a Serra do Mar, o Pantanal Mato-
Grossense e a Zona Costeira.
(C) A Floresta Amazônica brasileira, o Pantanal Mato-Grossense, a Caatinga e as
Reservas Indígenas.
(D) A Mata Atlântica, o Pantanal Mato-Grossense, os Manguezais, os Lençóis
Maranhenses e as Bacias Hidrográficas.

12. (COPEVE – 2010 – Prefeitura de Penedo/AL – Procurador Municipal) Boa parte dos
dispositivos do art. 225 da Constituição brasileira de 1988 foram inspirados por
uma Declaração aprovada na Conferência Internacional da ONU sobre
(A) o Meio Ambiente (Estocolmo).
(B) Meio Ambiente e Desenvolvimento (Rio de Janeiro).
(C) a Proteção das Espécies da Flora e da Fauna (Basileia).
(D) os Recursos Naturais Não Renováveis (Joanesburgo).
(E) o Desenvolvimento Sustentável Mundial (Berlim).

13. (MPE-RS – 2011 – Assessor – Direito) Considerando-se que o artigo 225 da


Constituição Federal dispõe que “todos têm direito ao meio ambiente
ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia
qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de
defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações”, é correto afirmar
que o bem ambiental, quanto à sua natureza, é um
(A) bem privado.
(B) bem público.
(C) bem difuso.
(D) bem comum.
(E) bem próprio.
14. (COPS-UEL – 2011 – PGE-PR – Procurador do Estado) Sobre o direito fundamental
ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, estabelecido no do artigo 225
da Constituição Federal de 1988, é correto afirmar:
(A) trata-se de um direito de natureza difusa que se consolida a partir da soma de
direitos individuais.
(B) trata-se de um direito difuso, sendo este compreendido como transindividual, de
natureza indivisível, de que sejam titulares pessoas indeterminadas ligadas entre si
por uma relação jurídica de base.
(C) trata-se de um direito difuso, sendo este compreendido como transindividual, de
natureza indivisível, de que sejam titulares pessoas indeterminadas e ligadas por
circunstâncias de fato.
(D) trata-se de um direito de natureza coletiva que se consolida a partir da soma de
direitos individuais.
(E) trata-se de um direito coletivo, sendo este compreendido como transindividual, de
natureza indivisível, de que seja titular um grupo, categoria ou classe de pessoas
ligadas entre si por circunstâncias de fato.

3.3.2 Questões dissertativas


1. Advocacia de Estatais. Concurso: ADASA. Ano: 2009. Banca: FUNIVERSA. A
exploração dos recursos naturais da Terra permite à humanidade atingir patamares de
conforto cada vez maiores. Diante da abundância de riquezas proporcionada pela
natureza, sempre se aproveitou como se o dote fosse inesgotável. Essa visão foi
reformulada. Hoje se sabe que a maioria dos recursos naturais dos quais o homem
depende para manter seu padrão de vida pode desaparecer em um prazo relativamente
curto – e que é urgente evitar o desperdício. In: Veja, ed. 2.085, ano 41, n. 44,
05.11.2008 (com adaptações). A tutela ambiental não pode ser estudada de maneira
restrita, como se o bem jurídico “ambiente” fosse um bem único e sem particularidades.
Pensando na complexidade do Direito Ambiental, o constituinte de 1988, pela primeira vez,
resolveu abranger a proteção ao tema do meio ambiente. Em seu art. 225, a Constituição
Federal estabelece que “Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado,
bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder
Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras
gerações”. Considerando que cabe ao Estado por meio de organismos próprios e com
apoio de iniciativas populares, proteger e zelar por um meio ambiente sadio e
ecologicamente equilibrado, redija um texto dissertativo que discorra, necessariamente,
acerca dos seguintes aspectos: a) titularidade e natureza jurídica do direito ambiental; b)
Instrumentos judiciais de que a sociedade civil dispõe para atuar na defesa do meio
ambiente.

2. Magistratura Estadual. Concurso: TJSP. Ano: 2007. Banca: TJSP. Quais os


mecanismos de participação popular na defesa do meio ambiente previstos no
ordenamento jurídico nacional?

3. (INÉDITA) Disserte sobre as obrigações do Estado para a efetivação do meio ambiente


ecologicamente equilibrado.

4. Advocacia-Geral da União. Concurso: Advogado da União. Ano: 2012. Banca:


CESPE. Disserte sobre as disposições constitucionais a respeito do meio ambiente,
abordando, necessariamente, os seguintes aspectos: 1) titularidade do direito ao meio
ambiente equilibrado; qualificação jurídica do meio ambiente ecologicamente equilibrado;
os obrigados pela sua defesa e preservação, os seus beneficiários (CF, art. 225, );
2) competência para legislar sobre meio ambiente e competência para protegê-lo (CF,
arts. 23 e 24); 3) harmonização entre direito ao desenvolvimento e direito ao meio
ambiente (CF, art. 3º, II, c/c art. 170, VI, e art. 225) com base na aplicação do princípio
do desenvolvimento; 4) tipos de responsabilidade pelo dano ambiental e seus sujeitos
passivos, com menção ao regime da responsabilidade civil (conforme legislação
infraconstitucional); 5) responsabilidade imposta constitucionalmente aos mineradores pela
degradação que sua atividade econômica causar, em face do princípio do poluidor
pagador.

3.3.3 Questões de exame oral


1. Segundo José Afonso da Silva, como é dividido o art. 225 da Constituição de 1988? Qual
é a norma-matriz?
2. Qual a extensão do pronome “todos” no do art. 225 da Constituição?
3. O que é o meio ambiente ecologicamente equilibrado?
4. Discorra sobre a solidariedade intergeracional.
5. Quais os deveres do Poder Público na proteção ambiental?
6. O que são processos ecológicos essenciais?
7. O que é o manejo ecológico das espécies e ecossistemas?
8. O que é diversidade biológica?
9. Quais são os espaços territoriais especialmente protegidos?
10. Qual é a forma de desafetação de uma unidade de conservação?
11. Qual o pressuposto para a realização do Estudo Prévio de Impacto Ambiental?
12. A Constituição Federal dispõe sobre a educação ambiental? Se sim, de que forma?
13. Qual a leitura do STF na tutela da fauna e as práticas culturais?
14. Quais são as macrorregiões consideradas patrimônio nacional?
15. O que significa a expressão “patrimônio nacional”. Existe alguma relação de
dominialidade?
16. Como a Constituição Federal dispõe sobre a responsabilidade em matéria ambiental?
17. Qual a obrigação de quem utiliza recursos minerais?

3.4 GABARITOS

3.4.1 Questões objetivas

3.4.2 Questões dissertativas


3.4.3 Questões de exame oral

1 SILVA, 2007, p. 52.


2 MACHADO, 2007, p. 122.
3 MACHADO, 2007, p. 121.
4 OLIVEIRA, 2009, p. 28.
5 FURLAN; FRACALOSSI, 2010, p. 161.
6 MILARÉ, 2007, p. 191.
7 SILVA, 2007, p. 90.
8 MILARÉ, 2007, p. 191.
9 FERREIRA, p. 232.
10 SILVA, 2007, p. 71.
11 BURSZTYN, 2013, p. 375.
12 MACHADO, 2007, p. 329.
13 MILARÉ, 2007.
14 MILARÉ, 2007, p. 176.
Mil máquinas jamais poderão fazer uma flor.
Autor desconhecido

Em aspectos fundamentais, a divisão de competências constitucionais é um tema de complexidade e


invariavelmente com divergências nos tribunais.
As competências constitucionais em matéria ambiental estão disciplinadas entre os arts. 21 a 25 e no
art. 30 da Constituição Federal.
No sistema de repartição de competências constitucionais, duas são as divisões fundamentais:

Competência administrativa
Competência legislativa
Entende-se por competência administrativa ou material aquela que determina o campo de atuação
político-administrativa de cada ente federativo. Em outras palavras, no direito ambiental a competência
administrativa é representada, por exemplo, pelo poder de polícia ambiental, pelo licenciamento
ambiental etc.
A competência legislativa, formal ou legiferante, exercida pelo Poder Legislativo, é a capacidade
de editar leis.
No direito ambiental as discussões mais significativas versam sobre a competência material comum
da União, Estados, Distrito Federal e Municípios (art. 23) e a competência legislativa concorrente da
União, Estados e Distrito Federal (art. 24).
A análise ficará restrita a essas duas discussões e somente serão enumeradas as demais competências
de cada ente federativo.

Estabelece o art. 24 da CF que compete à União, aos Estados e ao Distrito Federal legislar
concorrentemente sobre florestas, caça, pesca, fauna, conservação da natureza, defesa do solo e dos
recursos naturais, proteção do meio ambiente e controle da poluição (inciso VI); proteção ao patrimônio
histórico, cultural, artístico, turístico e paisagístico (inciso VII); responsabilidade por dano ao meio
ambiente, ao consumidor, a bens e direitos de valor artístico, estético, histórico, turístico e paisagístico
(inciso VIII).

O art. 24 da CF não relaciona os municípios. Todavia, eles possuem


competência legislativa em matéria ambiental pelo art. 30, II, da CF.
Cuidado com a redação da assertiva em provas.

No exercício da competência legislativa concorrente, compete à União editar as normas gerais (art.
24, § 1º) e aos Estados, as normas suplementares (art. 24, § 2º).
Segundo Heline Sivini Ferreira1, “as normas gerais devem estabelecer princípios fundamentais,
dotados de generalidade e abstração, que não imiscuam no campo de atuação dos Estados e do Distrito
Federal. Não podem especificar situações que, por sua natureza, acabem por invadir a esfera legislativa
dos demais entes federativos. Isso porque as normas gerais estão contidas pela finalidade de
coordenação e uniformização. Transpostos esses limites, devem ser consideradas inconstitucionais”.
Por sua vez, as normas suplementares, segundo Uadi Lammego Bullos2, “são editadas pelos Estados e
o Distrito Federal e possuem a função de particularizar as normas gerais, amoldando-as à realidade
regional, mas sem subverter a ordem taxativa no referido art. 24 do texto de 1988”.
Paulo Affonso Leme Machado3, por seu turno, aduz que “suplementa-se uma norma jurídica não
somente para preencher vazios, mas também para aperfeiçoá-la ou completá-la”.
Inexistindo lei federal sobre normas gerais, podem os Estados e o Distrito Federal exercer a
competência legislativa plena para atenderem a suas peculiaridades (art. 24, § 3º). Contudo, com a
superveniência de lei federal sobre normas gerais, suspende-se a eficácia da lei estadual, no que lhe for
contrário (art. 24, § 4º). Pontua-se que o legislador menciona “suspensão” e não “revogação”. Fala-se em
suspensão porque a norma federal pode ser revogada e, por consequência, a norma estadual, no todo ou
em parte, retoma a sua eficácia.
O art. 24 da CF não relaciona os Municípios. A competência legislativa desses entes, contudo, está
prevista no inciso II do art. 30 da CF, que dispõe que os Municípios podem suplementar a legislação
federal e a estadual, no que couber.

COMPETÊNCIA LEGISLATIVA CONCORRENTE: Art. 24 da CF


Dispositivo Previsão Detalhamento
• Inciso VI: Florestas, caça, pesca, fauna, conservação da
natureza, defesa do solo e dos recursos naturais, proteção do
Competências à União, meio ambiente e controle da poluição;
• Inciso VII: Proteção ao patrimônio histórico, cultural, artístico,
Caput Estados e Distrito Federal turístico e paisagístico;
legislar concorrentemente • Inciso VIII: Responsabilidade por dano ao meio ambiente, ao
consumidor, a bens e direitos de valor artístico, estético,
histórico, turístico e paisagístico.

§ 1º Competência da União Editar as normas gerais


§ 2º Competência dos Estados Editar as normas suplementares
Os Estados podem exercer a competência
§ 3º Ausência de norma geral legislativa plena para atender às suas
peculiaridades
Superveniência da lei federal Suspende a eficácia da lei estadual, no que lhe
§ 4º
com a normal geral for contrário

É competência administrativa comum da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios,
conforme o art. 23, proteger os documentos, as obras e outros bens de valor histórico, artístico e cultural,
os monumentos, as paisagens naturais notáveis e os sítios arqueológicos (inciso III); impedir a evasão, a
destruição e a descaracterização de obras de arte e de outros bens de valor histórico, artístico e cultural
(inciso IV); proteger o meio ambiente e combater a poluição em qualquer de suas formas (inciso VI);
preservar as florestas, a fauna e a flora (inciso VII); registrar, acompanhar e fiscalizar as concessões de
direitos de pesquisa e exploração de recursos hídricos e minerais em seus territórios (inciso XI).
O parágrafo único do art. 23 da Constituição dispõe que “leis complementares fixarão normas para a
cooperação entre a União e os Estados, o Distrito Federal e os Municípios, tendo em vista o equilíbrio
do desenvolvimento e do bem-estar em âmbito nacional”. A Lei Complementar nº 140/2011 é a primeira
dessas leis e será estudada no próximo tópico.
Não é possível que um ente federativo renuncie as suas competências por meio de lei estadual, como
se vê na ADI nº 2.544:

Federação: competência comum: proteção do patrimônio comum, incluído o dos sítios de valor
arqueológico (CF, arts. 23, III, e 216, V): encargo que não comporta demissão unilateral. Lei estadual
11.380, de 1999, do Estado do Rio Grande do Sul, confere aos municípios em que se localizam a
proteção, a guarda e a responsabilidade pelos sítios arqueológicos e seus acervos, no Estado, o que
vale por excluir, a propósito de tais bens do patrimônio cultural brasileiro (CF, art. 216, V), o dever
de proteção e guarda e a consequente responsabilidade não apenas do Estado, mas também da própria
União, incluídas na competência comum dos entes da Federação, que substantiva incumbência de
natureza qualificadamente irrenunciável. A inclusão de determinada função administrativa no âmbito
da competência comum não impõe que cada tarefa compreendida no seu domínio, por menos
expressiva que seja, haja de ser objeto de ações simultâneas das três entidades federativas: donde, a
previsão, no parágrafo único do art. 23, CF, de lei complementar que fixe normas de cooperação (v.
sobre monumentos arqueológicos e pré-históricos a Lei 3.924/1961), cuja edição, porém, é da
competência da União e, de qualquer modo, não abrange o poder de demitirem-se a União ou os
Estados dos encargos constitucionais de proteção dos bens de valor arqueológico para descarregá-los
ilimitadamente sobre os Municípios (ADI nº 2.544, Rel. Min. Sepúlveda Pertence, j. 28.06.2006,
Plenário, DJ 17.11.2006).

Outra vedação encontra-se na ADI nº 3.525, concernente ao patrimônio cultural, a saber:

Ação direta de inconstitucionalidade. Art. 251 da Constituição do Estado de Mato Grosso e Lei
estadual 7.782/2002, “que declara integrantes do patrimônio científico-cultural do Estado os sítios
paleontológicos e arqueológicos localizados em Municípios do Estado de Mato Grosso”. Violação
aos arts. 23, III, e 216, V, da Constituição. Precedente: ADI 2.544, Rel. Min. Sepúlveda Pertence.
Ação julgada procedente (ADI nº 3.525, Rel. Min. Gilmar Mendes, j. 30.08.2007, Plenário, DJ
26.10.2007).

O detalhamento das ações administrativas é matéria disciplinada pela Lei Complementar nº 140/2011.
A edição da Lei Complementar nº 140/2011 colocou termo há mais de vinte anos no processo de
regulamentação do art. 23 da Constituição de 1988, que versa sobre a competência administrativa comum
entre a União, Estados, Distrito Federal e Municípios.
Nesse sentido, dispõe o parágrafo único do art. 23 da Constituição Federal, in verbis:

Art. 23.
(…)
Parágrafo único. Leis complementares fixarão normas para a cooperação entre a União e os Estados, o
Distrito Federal e os Municípios, tendo em vista o equilíbrio do desenvolvimento e do bem-estar em
âmbito nacional.

Com essa previsão, a Lei Complementar nº 140/2011 regulamentou o art. 23, incisos III, VI, VII e
parágrafo único da CF, a saber:

Art. 23. É competência comum da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios:
(…)
III – proteger os documentos, as obras e outros bens de valor histórico, artístico e cultural, os
monumentos, as paisagens naturais notáveis e os sítios arqueológicos;
(…)
VI – proteger o meio ambiente e combater a poluição em qualquer de suas formas;
VII – preservar as florestas, a fauna e a flora;
(…)

O objeto da Lei Complementar nº 140/2011 é a “cooperação entre a União, os Estados, o Distrito


Federal e os Municípios nas ações administrativas decorrentes do exercício da competência comum
relativas à proteção das paisagens naturais notáveis, à proteção do meio ambiente, ao combate à poluição
em qualquer de suas formas e à preservação das florestas, da fauna e da flora” (art. 1º).

Constituem objetivos fundamentais da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, no
exercício da competência comum a que se refere esta Lei Complementar:

I) proteger, defender e conservar o meio ambiente ecologicamente equilibrado, promovendo gestão


descentralizada, democrática e eficiente;
II) garantir o equilíbrio do desenvolvimento socioeconômico com a proteção do meio ambiente,
observando a dignidade da pessoa humana, a erradicação da pobreza e a redução das desigualdades
sociais e regionais;
III) harmonizar as políticas e ações administrativas para evitar a sobreposição de atuação entre os
entes federativos, de forma a evitar conflitos de atribuições e garantir uma atuação administrativa
eficiente;
IV) garantir a uniformidade da política ambiental para todo o País, respeitadas as peculiaridades
regionais e locais.

Esses objetivos demandam rápida análise.


Com efeito, o objetivo fundamental, indiscutivelmente, é a proteção, defesa e conservação do meio
ambiente, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida – tudo conforme o art. 225
da CF, corolário da proteção constitucional ambiental. Trata-se, em verdade, de dever inescusável do
Poder Público, de todos os entes federativos, que devem garantir a proteção do meio ambiente para as
presentes e futuras gerações, além de exigir para instalação de obra ou atividade potencialmente
causadora de significativa degradação do meio ambiente estudo prévio de impacto ambiental; controlar a
produção, a comercialização e o emprego de técnicas, métodos e substâncias que comportem risco para a
vida, a qualidade de vida e o meio ambiente. A proteção do meio ambiente, como dever comum dos entes
federativos, não pode estar dissociada de uma gestão descentralizada, democrática e eficiente.
A garantia do equilíbrio do desenvolvimento socioeconômico com a proteção do meio ambiente,
observando a dignidade da pessoa humana, a erradicação da pobreza e a redução das desigualdades
sociais e regionais, converge, em primeiro plano, para o desenvolvimento sustentável, por meio dos
ditames de uma ordem econômica (art. 170) aprumada na proteção ambiental (art. 225) para, em última
análise, garantir o princípio estruturante do sistema jurídico brasileiro: a dignidade da pessoa humana.
Ao se relacionar como objetivo a harmonização das políticas e ações administrativas para evitar a
sobreposição de atuação entre os entes federativos, de forma a impedir que haja conflitos de
atribuições e garantir uma atuação administrativa eficiente, o que se pretende é obstar que a atuação dos
órgãos ambientais implique atritos no exercício da competência licenciatória e fiscalizatória.
Por fim, necessário garantir, respeitadas as peculiaridades regionais e locais, a uniformidade da
política ambiental no Brasil. Não há dúvidas de que, pela extensão territorial do País, urge o
estabelecimento de um padrão mínimo de normatização na execução da política ambiental. Todavia, não
se olvida a observância de peculiaridades e de singularidades regionais e locais, uma vez que, a título
exemplificativo, uma situação que demanda e imponha normas e medidas aplicáveis nas regiões Sul e
Sudeste do País nem sempre implicam execução similar na região amazônica, em reconhecimento de que
a diversidade é característica do nosso país, não somente nos aspectos ambientais, como também nos
campos social e econômico.

Para o cumprimento dos objetivos da LC nº 140/2011, enumeram-se os instrumentos de cooperação


institucional entre os entes federativos, a saber:

I) consórcios públicos, nos termos da legislação em vigor;


II) convênios, acordos de cooperação técnica e outros instrumentos similares com órgãos e entidades
do Poder Público, respeitado o art. 241 da Constituição Federal;
III) Comissão Tripartite Nacional, Comissões Tripartites Estaduais e Comissão Bipartite do Distrito
Federal;
IV) fundos públicos e privados e outros instrumentos econômicos;
V) delegação de atribuições de um ente federativo a outro, respeitados os requisitos previstos nesta
Lei Complementar;
VI) delegação da execução de ações administrativas de um ente federativo a outro, respeitados os
requisitos previstos nesta Lei Complementar.

Os consórcios públicos estão disciplinados no art. 241 da Constituição Federal, que prevê que “a
União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios disciplinarão por meio de lei os consórcios
públicos e os convênios de cooperação entre os entes federados, autorizando a gestão associada de
serviços públicos, bem como a transferência total ou parcial de encargos, serviços, pessoal e bens
essenciais à continuidade dos serviços transferidos”. Os consórcios públicos, regulamentados pela Lei nº
11.107/2005, podem apresentar constituição jurídica como associação pública ou como pessoa jurídica
de direito privado. Como o exercício do poder de polícia é indelegável, para a consecução da
cooperação em material ambiental, em nossa leitura, é obrigatório que os consórcios ambientais para o
licenciamento ambiental sejam constituídos sob a forma jurídica de associações públicas. Na leitura de
José dos Santos Carvalho Filho4, “formado o consórcio público com a fisiologia jurídica de associação
pública – sempre para a consecução de objetivos de interesse comum dos entes pactuantes e para a
implementação do sistema de gestão associada, esta com base no art. 241, da CF – terá ela personalidade
de direito público e natureza jurídica de autarquia”.
Já os convênios e outros acordos de cooperação técnica e instrumentos similares com órgãos e
entidades do Poder Público não constituem maior novidade. Para José dos Santos Carvalho Filho5,
“consideram-se convênios administrativos os ajustes firmados por essas pessoas administrativas entre si,
ou entre essas e entidades particulares, com vistas a ser alcançado determinado objetivo de interesse
público”. Os convênios entre os entes federativos em matéria ambiental poderão ocorrer, por exemplo,
para a delegação da execução de ações administrativas a ele atribuídas. Essa é a possibilidade que a
própria Lei Complementar nº 140/2011 menciona: “o ente federativo poderá delegar, mediante convênio,
a execução de ações administrativas a ele atribuídas nesta Lei Complementar, desde que o ente
destinatário da delegação disponha de órgão ambiental capacitado a executar as ações administrativas a
serem delegadas e de conselho de meio ambiente”.
Aliás, os convênios, acordos de cooperação técnica e outros instrumentos similares com órgãos e
entidades do Poder Público podem ser firmados com prazo indeterminado (art. 4º, § 1º).
A LC nº 140/2011 dispôs sobre a Comissão Tripartite Nacional, as Comissões Tripartite Estaduais
e a Comissão Bipartite do Distrito Federal. São denominadas tripartites porque a composição desses
órgãos deve contemplar, de forma paritária, representantes dos poderes executivos dos três níveis da
federação e, no caso do Distrito Federal, representantes da União e do próprio DF, em estrutura
bipartite, uma vez que esse ente conjuga as ações administrativas dos Estados-membros e dos
municípios.
Nesse sentido, “a Comissão Tripartite Nacional será formada, paritariamente, por representantes dos
Poderes Executivos da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, com o objetivo de
fomentar a gestão ambiental compartilhada e descentralizada entre os entes federativos” (art. 4º, § 2º).
As Comissões Tripartites Estaduais, por sua vez, “serão formadas, paritariamente, por
representantes dos Poderes Executivos da União, dos Estados e dos Municípios, com o objetivo de
fomentar a gestão ambiental compartilhada e descentralizada entre os entes federativos” (art. 4º, § 3º).
A Comissão Bipartite do Distrito Federal, por fim, “será formada, paritariamente, por representantes
dos Poderes Executivos da União e do Distrito Federal, com o objetivo de fomentar a gestão ambiental
compartilhada e descentralizada entre esses entes federativos” (art. 4º, § 4º).
A organização e o funcionamento dessas comissões serão definidos em seus regimentos internos (art.
4º, § 5º).
O objetivo dessas comissões é fomentar a gestão ambiental compartilhada e descentralizada entre os
entes federativos. Todavia, ainda estão pendentes a instalação e o funcionamento dessas comissões na
sistemática da LC nº 140/2011, que, entre outras atribuições, devem desempenhar o papel de estabelecer,
por exemplo, novas tipologias no licenciamento ambiental, que estarão sujeitas à confirmação em ato do
Poder Executivo6.
Os fundos públicos e privados e outros instrumentos econômicos são os mecanismos de
financiamento para o desempenho das atribuições da gestão ambiental. Com os fundos será possível
apoiar e viabilizar projetos que se articulem com os objetivos da Lei Complementar. Além disso, um
tema cada vez mais presente no direito ambiental é a necessidade de viabilizar instrumentos econômicos
na proteção, como o pagamento pelos serviços ambientais.

COMISSÕES TRIPARTITES
Será formada, paritariamente, por representantes dos Poderes Executivos da
Comissão
União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, com o objetivo de
Tripartite
fomentar a gestão ambiental compartilhada e descentralizada entre os entes
Nacional
federativos.
Comissões Serão formadas, paritariamente, por representantes dos Poderes Executivos da
Tripartites União, dos Estados e dos Municípios, com o objetivo de fomentar a gestão
Estaduais ambiental compartilhada e descentralizada entre os entes federativos.
Comissão
Será formada, paritariamente, por representantes dos Poderes Executivos da
Bipartite do
União e do Distrito Federal, com o objetivo de fomentar a gestão ambiental
Distrito
compartilhada e descentralizada entre esses entes federativos.
Federal

O ente federativo poderá delegar, mediante convênio, a execução de ações administrativas a ele
atribuídas na LC nº 140/2011, “desde que o ente destinatário da delegação disponha de órgão ambiental
capacitado a executar as ações administrativas a serem delegadas e de conselho de meio ambiente” (art.
5º, caput). “Considera-se órgão ambiental capacitado, para os efeitos de delegação, aquele que possui
técnicos próprios ou em consórcio, devidamente habilitados e em número compatível com a demanda das
ações administrativas a serem delegadas” (art. 5º, parágrafo único).
Necessário diferenciar “delegação de atribuição” de “delegação da execução”. Ao se delegar uma
atribuição, transfere-se uma das ações administrativas do ente federativo; ao passo que delegar a
execução é somente transferir as operações materiais. Essas delegações poderão ocorrer, a título
meramente exemplificativo, com a criação de consórcios públicos, para a delegação de atribuição, ou
por meio de convênios administrativos, para a delegação da execução.

Um dos principais pontos da LC nº 140/2011 é o fato de enumerar as ações administrativas de cada


ente federativo.

No que se refere à União, são ações administrativas (art. 7º da LC nº 140/2011):

I) formular, executar e fazer cumprir, em âmbito nacional, a Política Nacional do Meio Ambiente;
II) exercer a gestão dos recursos ambientais no âmbito de suas atribuições;
III) promover ações relacionadas à Política Nacional do Meio Ambiente nos âmbitos nacional e
internacional;
IV) promover a integração de programas e ações de órgãos e entidades da administração pública da
União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, relacionados à proteção e à gestão
ambiental;
V) articular a cooperação técnica, científica e financeira, em apoio à Política Nacional do Meio
Ambiente;
VI) promover o desenvolvimento de estudos e pesquisas direcionados à proteção e à gestão
ambiental, divulgando os resultados obtidos;
VII) promover a articulação da Política Nacional do Meio Ambiente com as de Recursos Hídricos,
Desenvolvimento Regional, Ordenamento Territorial e outras;
VIII) organizar e manter, com a colaboração dos órgãos e entidades da administração pública dos
Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, o Sistema Nacional de Informação sobre Meio
Ambiente (Sinima);
IX) elaborar o zoneamento ambiental de âmbito nacional e regional;
X) definir espaços territoriais e seus componentes a serem especialmente protegidos;
XI) promover e orientar a educação ambiental em todos os níveis de ensino e a conscientização
pública para a proteção do meio ambiente;
XII) controlar a produção, a comercialização e o emprego de técnicas, métodos e substâncias que
comportem risco para a vida, a qualidade de vida e o meio ambiente, na forma da lei;
XIII) exercer o controle e fiscalizar as atividades e empreendimentos cuja atribuição para licenciar ou
autorizar, ambientalmente, for cometida à União;
XIV) promover o licenciamento ambiental de empreendimentos e atividades:
a) localizados ou desenvolvidos conjuntamente no Brasil e em país limítrofe;
b) localizados ou desenvolvidos no mar territorial, na plataforma continental ou na zona econômica exclusiva;
c) localizados ou desenvolvidos em terras indígenas;
d) localizados ou desenvolvidos em unidades de conservação instituídas pela União, exceto em Áreas de Proteção Ambiental (APAs);
e) localizados ou desenvolvidos em 2 (dois) ou mais Estados;
f) de caráter militar, excetuando-se do licenciamento ambiental, nos termos de ato do Poder Executivo, aqueles previstos no preparo e
emprego das Forças Armadas, conforme disposto na Lei Complementar nº 97, de 9 de junho de 1999;
g) destinados a pesquisar, lavrar, produzir, beneficiar, transportar, armazenar e dispor material radioativo, em qualquer estágio, ou que
utilizem energia nuclear em qualquer de suas formas e aplicações, mediante parecer da Comissão Nacional de Energia Nuclear
(Cnen); ou
h) que atendam tipologia estabelecida por ato do Poder Executivo, a partir de proposição da Comissão Tripartite Nacional, assegurada
a participação de um membro do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), e considerados os critérios de porte, potencial
poluidor e natureza da atividade ou empreendimento;
XV) aprovar o manejo e a supressão de vegetação, de florestas e formações sucessoras em:
a) florestas públicas federais, terras devolutas federais ou unidades de conservação instituídas pela União, exceto em APAs; e
b) atividades ou empreendimentos licenciados ou autorizados, ambientalmente, pela União;
XVI) elaborar a relação de espécies da fauna e da flora ameaçadas de extinção e de espécies sobre-
explotadas no território nacional, mediante laudos e estudos técnico-científicos, fomentando as
atividades que conservem essas espécies in situ;
XVII) controlar a introdução no País de espécies exóticas potencialmente invasoras que possam
ameaçar os ecossistemas, hábitats e espécies nativas;
XVIII) aprovar a liberação de exemplares de espécie exótica da fauna e da flora em ecossistemas
naturais frágeis ou protegidos;
XIX) controlar a exportação de componentes da biodiversidade brasileira na forma de espécimes
silvestres da flora, micro-organismos e da fauna, partes ou produtos deles derivados;
XX) controlar a apanha de espécimes da fauna silvestre, ovos e larvas;
XXI) proteger a fauna migratória e as espécies inseridas na relação prevista no inciso XVI;
XXII) exercer o controle ambiental da pesca em âmbito nacional ou regional;
XXIII) gerir o patrimônio genético e o acesso ao conhecimento tradicional associado, respeitadas as
atribuições setoriais;
XXIV) exercer o controle ambiental sobre o transporte marítimo de produtos perigosos; e
XXV) exercer o controle ambiental sobre o transporte interestadual, fluvial ou terrestre, de produtos
perigosos.

Quanto aos Estados-membros, são ações administrativas (art. 8º da LC nº 140/2011):

I) executar e fazer cumprir, em âmbito estadual, a Política Nacional do Meio Ambiente e demais
políticas nacionais relacionadas à proteção ambiental;
II) exercer a gestão dos recursos ambientais no âmbito de suas atribuições;
III) formular, executar e fazer cumprir, em âmbito estadual, a Política Estadual de Meio Ambiente;
IV) promover, no âmbito estadual, a integração de programas e ações de órgãos e entidades da
administração pública da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, relacionados à
proteção e à gestão ambiental;
V) articular a cooperação técnica, científica e financeira, em apoio às Políticas Nacional e Estadual
de Meio Ambiente;
VI) promover o desenvolvimento de estudos e pesquisas direcionados à proteção e à gestão
ambiental, divulgando os resultados obtidos;
VII) organizar e manter, com a colaboração dos órgãos municipais competentes, o Sistema Estadual de
Informações sobre Meio Ambiente;
VIII) prestar informações à União para a formação e atualização do Sinima;
IX) elaborar o zoneamento ambiental de âmbito estadual, em conformidade com os zoneamentos de
âmbito nacional e regional;
X) definir espaços territoriais e seus componentes a serem especialmente protegidos;
XI) promover e orientar a educação ambiental em todos os níveis de ensino e a conscientização
pública para a proteção do meio ambiente;
XII) controlar a produção, a comercialização e o emprego de técnicas, métodos e substâncias que
comportem risco para a vida, a qualidade de vida e o meio ambiente, na forma da lei;
XIII) exercer o controle e fiscalizar as atividades e empreendimentos cuja atribuição para licenciar ou
autorizar, ambientalmente, for cometida aos Estados;
XIV) promover o licenciamento ambiental de atividades ou empreendimentos utilizadores de recursos
ambientais, efetiva ou potencialmente poluidores ou capazes, sob qualquer forma, de causar
degradação ambiental, ressalvado o disposto nos arts. 7º e 9º;
XV) promover o licenciamento ambiental de atividades ou empreendimentos localizados ou
desenvolvidos em unidades de conservação instituídas pelo Estado, exceto em Áreas de Proteção
Ambiental (APAs);
XVI) aprovar o manejo e a supressão de vegetação, de florestas e formações sucessoras em:
a) florestas públicas estaduais ou unidades de conservação do Estado, exceto em Áreas de Proteção Ambiental (APAs);
b) imóveis rurais, observadas as atribuições previstas no inciso XV do art. 7º;
c) atividades ou empreendimentos licenciados ou autorizados, ambientalmente, pelo Estado;
XVII) elaborar a relação de espécies da fauna e da flora ameaçadas de extinção no respectivo
território, mediante laudos e estudos técnico-científicos, fomentando as atividades que conservem
essas espécies in situ;
XVIII) controlar a apanha de espécimes da fauna silvestre, ovos e larvas destinadas à implantação de
criadouros e à pesquisa científica, ressalvado o disposto no inciso XX do art. 7º;
XIX) aprovar o funcionamento de criadouros da fauna silvestre;
XX) exercer o controle ambiental da pesca em âmbito estadual; e
XXI) exercer o controle ambiental do transporte fluvial e terrestre de produtos perigosos, ressalvado
o disposto no inciso XXV do art. 7º.

Por seu turno, aos Municípios competem as seguintes ações administrativas (art. 9º da LC nº
140/2011):

I) executar e fazer cumprir, em âmbito municipal, as Políticas Nacional e Estadual de Meio Ambiente
e demais políticas nacionais e estaduais relacionadas à proteção do meio ambiente;
II) exercer a gestão dos recursos ambientais no âmbito de suas atribuições;
III) formular, executar e fazer cumprir a Política Municipal de Meio Ambiente;
IV) promover, no Município, a integração de programas e ações de órgãos e entidades da
administração pública federal, estadual e municipal, relacionados à proteção e à gestão ambiental;
V) articular a cooperação técnica, científica e financeira, em apoio às Políticas Nacional, Estadual e
Municipal de Meio Ambiente;
VI) promover o desenvolvimento de estudos e pesquisas direcionados à proteção e à gestão
ambiental, divulgando os resultados obtidos;
VII) organizar e manter o Sistema Municipal de Informações sobre Meio Ambiente;
VIII) prestar informações aos Estados e à União para a formação e atualização dos Sistemas Estadual
e Nacional de Informações sobre Meio Ambiente;
IX) elaborar o Plano Diretor, observando os zoneamentos ambientais;
X) definir espaços territoriais e seus componentes a serem especialmente protegidos;
XI) promover e orientar a educação ambiental em todos os níveis de ensino e a conscientização
pública para a proteção do meio ambiente;
XII) controlar a produção, a comercialização e o emprego de técnicas, métodos e substâncias que
comportem risco para a vida, a qualidade de vida e o meio ambiente, na forma da lei;
XIII) exercer o controle e fiscalizar as atividades e empreendimentos cuja atribuição para licenciar ou
autorizar, ambientalmente, for cometida ao Município;
XIV) observadas as atribuições dos demais entes federativos previstas nesta Lei Complementar,
promover o licenciamento ambiental das atividades ou empreendimentos:
a) que causem ou possam causar impacto ambiental de âmbito local, conforme tipologia definida pelos respectivos Conselhos Estaduais
de Meio Ambiente, considerados os critérios de porte, potencial poluidor e natureza da atividade; ou
b) localizados em unidades de conservação instituídas pelo Município, exceto em Áreas de Proteção Ambiental (APAs);
XV) observadas as atribuições dos demais entes federativos previstas nesta Lei Complementar,
aprovar:
a) a supressão e o manejo de vegetação, de florestas e formações sucessoras em florestas públicas municipais e unidades de
conservação instituídas pelo Município, exceto em Áreas de Proteção Ambiental (APAs); e
b) a supressão e o manejo de vegetação, de florestas e formações sucessoras em empreendimentos licenciados ou autorizados,
ambientalmente, pelo Município.
Por fim, as ações administrativas do Distrito Federal conjugam as ações dos Estados e dos
municípios (art. 10).

São competências administrativas da União, conforme o art. 21 da Constituição Federal: “planejar e


promover a defesa permanente contra as calamidades públicas, especialmente as secas e as inundações”
(inciso XVIII); “instituir sistema nacional de gerenciamento de recursos hídricos e definir critérios de
outorga de direitos de seu uso” (inciso XIX); “instituir diretrizes para o desenvolvimento urbano,
inclusive habitação, saneamento básico e transportes urbanos” (inciso XX); “explorar os serviços e
instalações nucleares de qualquer natureza e exercer monopólio estatal sobre a pesquisa, a lavra, o
enriquecimento e reprocessamento, a industrialização e o comércio de minérios nucleares e seus
derivados, atendidos os seguintes princípios e condições: (…) d) a responsabilidade civil por danos
nucleares independe da existência de culpa” (inciso XXIII).

A competência legislativa da União compreende, segundo o art. 22 da Constituição Federal, legislar


sobre: “águas, energia, informática, telecomunicações e radiodifusão” (inciso IV); “jazidas, minas, outros
recursos minerais e metalurgia (inciso XII); atividades nucleares de qualquer natureza” (inciso XXVI).

Conforme Heline Sivini Ferreira7, “a Constituição não dispõe de forma específica sobre a
competência dos Estados. Todavia, dispondo explicitamente sobre a competência da União e dos
Municípios, deixa aos Estados a matéria remanescente. Assim, toda matéria que não for de competência
federal ou municipal será, de forma residual, competência estadual”.
Nesse sentido, a Constituição de 1988 dispõe, em seu art. 25: “Os Estados organizam-se e regem-se
pelas Constituições e leis que adotarem, observados os princípios desta Constituição. (…) 3º Os Estados
poderão, mediante lei complementar, instituir regiões metropolitanas, aglomerações urbanas e
microrregiões, constituídas por agrupamentos de municípios limítrofes, para integrar a organização, o
planejamento e a execução de funções públicas de interesse comum”. Esse dispositivo foi regulamentado
recentemente pela Lei nº 13.089/2016, que instituiu o Estatuto da Metrópole.
No que se refere à competência administrativa, cumpre aos Municípios, conforme o art. 30 da
Constituição Federal, “promover, no que couber, adequado ordenamento territorial, mediante
planejamento e controle do uso, do parcelamento e da ocupação do solo urbano” (inciso VIII); “promover
a proteção do patrimônio histórico-cultural local, observada a legislação e a ação fiscalizadora federal e
estadual” (inciso IX).

A competência legislativa dos Municípios restringe-se, segundo o art. 30 da CF, a “legislar sobre
assuntos de interesse local” (inciso I) e “suplementar a legislação federal e a estadual no que couber”
(inciso II).
O Supremo Tribunal Federal, no julgamento do RE 586224 (DJe 08.05.2015), que declarou a
inconstitucionalidade da lei do Município de Paulínia-SP que proibia a queima da palha da cana-de-
açúcar em seu território, estabeleceu os limites para o Município legislar, como se vê: “o Município é
competente para legislar sobre meio ambiente com União e Estado, no limite de seu interesse local e
desde que tal regramento seja harmônico com a disciplina estabelecida pelos demais entes federados
(art. 24, VI c/c 30, I e II da CRFB)”. Isto é, com a existência de diplomas legais no âmbito federal e
estadual, o Município deve se limitar à competência residual e de forma harmônica. No caso em análise,
sobre a queima da palha da cana-de-açúcar, a legislação federal (art. 40, do Código Florestal; e Decreto
nº 2.661/1998) e a estadual (Lei nº 11.241/2002) já disciplinavam a matéria, não restando competência
residual para o Município de Paulínia.

Uma das principais discussões sobre competências constitucionais em matéria ambiental está em
análise no Supremo Tribunal Federal: as ações diretas de inconstitucionalidade em face de leis estaduais
que proíbem em seus limites a utilização do amianto crisotila, também chamado de asbesto branco.
Para tanto, analisar-se-ão, em largas pinceladas, a evolução das discussões jurisprudenciais no STF e
os principais argumentos nos julgados que serão relacionados.
A polêmica envolvendo o amianto iniciou-se com a edição da Lei nº 9.055/1995, que permitiu o uso
do asbesto branco no Brasil.
Conforme o art. 2º da Lei nº 9.055/1995: “o asbesto/amianto da variedade crisotila (asbesto branco),
do grupo dos minerais das serpentinas, e as demais fibras, naturais e artificiais de qualquer origem,
utilizadas para o mesmo fim, serão extraídas, industrializadas, utilizadas e comercializadas em
consonância com as disposições desta Lei”.
Em um recorte histórico, o primeiro Estado a editar lei proibindo o amianto foi o Mato Grosso do Sul,
em 2001, que sofreu a propositura, em seguida, da ADI nº 2.396, que teve como requerente o Estado de
Goiás – que é o único ente estadual produtor de amianto no País.
Decidiu o STF na ADI nº 2.396, com grifos nossos:

Ação direta de inconstitucionalidade. Lei nº 2.210/01, do Estado de Mato Grosso do Sul. Ofensa aos
artigos 22, I e XII; 25, § 1º; 170, caput, II e IV; 1º; 18 e 5º caput, II e LIV. Inexistência. Afronta à
competência legislativa concorrente da União para editar normas gerais referentes à produção e
consumo, à proteção do meio ambiente e controle da poluição e à proteção e defesa da saúde. Artigo
24, V, VI e XII, e §§ 1º e 2º, da Constituição Federal. Não cabe a esta Corte dar a última palavra a
respeito das propriedades técnico-científicas do elemento em questão e dos riscos de sua
utilização para a saúde da população. Os estudos nesta seara prosseguem e suas conclusões deverão
nortear as ações das autoridades sanitárias. Competência do Supremo Tribunal Federal circunscrita à
verificação da ocorrência de contraste inadmissível entre a lei em exame e o parâmetro
constitucional. Sendo possível a este Supremo Tribunal, pelos fatos narrados na inicial, verificar a
ocorrência de agressão a outros dispositivos constitucionais que não os indicados na inicial, verifica-
se que ao determinar a proibição de fabricação, ingresso, comercialização e estocagem de amianto ou
de produtos à base de amianto, destinados à construção civil, o Estado do Mato Grosso do Sul
excedeu a margem de competência concorrente que lhe é assegurada para legislar sobre
produção e consumo (art. 24, V); proteção do meio ambiente e controle da poluição (art. 24, VI);
e proteção e defesa da saúde (art. 24, XII). A Lei nº 9.055/1995 dispôs extensamente sobre todos os
aspectos que dizem respeito à produção e aproveitamento industrial, transporte e comercialização do
amianto crisotila. A legislação impugnada foge, e muito, do que corresponde à legislação
suplementar, da qual se espera que preencha vazios ou lacunas deixados pela legislação federal,
não que venha a dispor em diametral objeção a esta. Compreensão que o Supremo Tribunal tem
manifestado quando se defronta com hipóteses de competência legislativa concorrente.
Precedentes: ADI 903/MG-MC e ADI 1.980/PR-MC, ambas de relatoria do eminente Ministro Celso
de Mello. Ação direta de inconstitucionalidade cujo pedido se julga parcialmente procedente para
declarar a inconstitucionalidade do artigo 1º e de seus §§ 1º, 2º e 3º, do art. 2º, do art. 3º e §§ 1º e 2º
e do parágrafo único do art. 5º, todos da Lei nº 2.210/2001, do Estado do Mato Grosso do Sul. (ADI
nº 2.396, Rel. Min. Ellen Gracie, Tribunal Pleno, j. 08.05.2003, DJ 01.08.2003 p. 00100, Ement. v.
02117-34, p. 07204).

Outro Estado que editou lei de proibição ao asbesto branco em 2001 foi São Paulo, objeto de
questionamentos na ADI nº 2.656, igualmente proposta pelo Estado de Goiás. A decisão foi no mesmo
sentido, com grifos nossos:

Ação direta de inconstitucionalidade. Lei paulista. Proibição de importação, extração,


beneficiamento, comercialização, fabricação e instalação de produtos contendo qualquer tipo de
amianto. Governador do Estado de Goiás. Legitimidade ativa. Invasão de competência da União. 1.
Lei editada pelo Governo do Estado de São Paulo. Ação direta de inconstitucionalidade proposta
pelo Governador do Estado de Goiás. Amianto crisotila. Restrições à sua comercialização imposta
pela legislação paulista, com evidentes reflexos na economia de Goiás, Estado onde está localizada a
maior reserva natural do minério. Legitimidade ativa do Governador de Goiás para iniciar o processo
de controle concentrado de constitucionalidade e pertinência temática. 2. Comercialização e extração
de amianto. Vedação prevista na legislação do Estado de São Paulo. Comércio exterior, minas e
recursos minerais. Legislação. Matéria de competência da União (CF, artigo 22, VIII e XIII).
Invasão de competência legislativa pelo Estado-membro. Inconstitucionalidade. 3. Produção e
consumo de produtos que utilizam amianto crisotila. Competência concorrente dos entes federados.
Existência de norma federal em vigor a regulamentar o tema (Lei 9.055/1995). Consequência.
Vício formal da lei paulista, por ser apenas de natureza supletiva (CF, artigo 24, §§ 1º e 4º) a
competência estadual para editar normas gerais sobre a matéria. 4. Proteção e defesa da saúde
pública e meio ambiente. Questão de interesse nacional. Legitimidade da regulamentação geral fixada
no âmbito federal. Ausência de justificativa para tratamento particular e diferenciado pelo Estado de
São Paulo. 5. Rotulagem com informações preventivas a respeito dos produtos que contenham
amianto. Competência da União para legislar sobre comércio interestadual (CF, artigo 22, VIII).
Extrapolação da competência concorrente prevista no inciso V do artigo 24 da Carta da República,
por haver norma federal regulando a questão (ADI nº 2.656, Rel. Min. Maurício Corrêa, Tribunal
Pleno, j. 08.05/.2003, DJ 01.08.2003, p. 00117, Ement. v. 02117-35, p. 07412).

Em aspectos fundamentais, na ADI nº 2.396 a decisão foi no sentido de que a legislação estadual
impugnada foge ao que corresponde à legislação suplementar, da qual se espera que preencha vazios ou
lacunas deixadas pela legislação federal. No mesmo sentido, a ADI nº 2.656, em que a decisão foi por
vício formal, ao adentrar a lei estadual no campo das normas gerais, que compete à União.
Não obstante a declaração de inconstitucionalidade de diploma estadual em 2003, o Estado de São
Paulo voltou a editar uma nova lei estadual, com a proibição do asbesto branco, por meio da Lei nº
12.684/2007.
Em seguida, como esperado, a Confederação Nacional dos Trabalhadores na Indústria ajuizou a ADI
nº 3.937, com pedido de liminar.
Ao contrário do entendimento nos julgados anteriores, verificaram-se em cognição sumária intensos
debates sobre a compreensão do condomínio legislativo do art. 24 da Constituição de 1988.
O relator Ministro Marco Aurélio de Mello manifestou-se “na linha do entendimento firmado no
julgamento da ADI 2656/SP (DJU 1º.08.2003), no sentido de que a competência para tratar da matéria
seria da União (CF: ‘Art. 22. Compete privativamente à União legislar sobre: (…) VIII – comércio
exterior e interestadual’), e de que teria havido extrapolação da competência concorrente prevista no
inciso V do art. 24 da CF (‘Art. 24. Compete à União, aos Estados e ao Distrito Federal legislar
concorrentemente sobre: (…) V – produção e consumo;’), por existir norma federal regulando o tema
(Lei 9.055/1995)”.
Por outro lado, coube ao Ministro Eros Grau abrir divergência, no que foi acompanhado no debate por
outros membros da Corte. Para tanto, importante colacionar algumas manifestações dos Ministros do
STF. Dessa forma, o conteúdo do Informativo nº 509 do STF relaciona o posicionamento do Ministro
Joaquim Barbosa:

O Min. Joaquim Barbosa salientou, inicialmente, os graves danos à saúde provocados pelo amianto,
citando doenças relacionadas ao seu uso, e o que disposto na Resolução Conama 348/2004, no
sentido de reconhecer, de acordo com critérios adotados pela Organização Mundial da Saúde, a
inexistência de limites seguros para a exposição humana ao referido mineral. Considerou que, à
primeira vista, a lei impugnada não seria inconstitucional por duas razões. Afirmou, no ponto, que
haveria uma norma a respaldar a postura legislativa adotada pelo Estado-membro, qual seja, a
Convenção 162 da OIT, promulgada por meio do Decreto 126/91. Essa Convenção seria um
compromisso assumido pelo Brasil de desenvolver e implementar medidas para proteger o
trabalhador exposto ao amianto, uma norma protetiva de direitos fundamentais, em especial o direito à
saúde e o direito ao meio ambiente equilibrado. Tendo em conta a coincidência principiológica entre
o texto constitucional e a Convenção, afirmou que esta deveria ser um critério para se avaliar as
normas estaduais, e conferiu às normas da Convenção, no mínimo, o status supralegal e
infraconstitucional. Ressaltou que, se a União, no plano internacional, assumiu o compromisso de
adotar medidas no sentido de substituir a utilização do amianto crisotila, conforme os artigos 3º e 10
da Convenção 162, esse compromisso deveria ser utilizado também no plano interno em face das
unidades federativas (ADI nº 3.937 QO-MC/SP, Rel. Min. Marco Aurélio, j. 04.06.2008).

O Ministro Aires Brito, por sua vez, proferiu a sua manifestação nos seguintes termos:

Acontece que esse caso me parece peculiar, e muito peculiar – se o superlativo for admitido eu diria
peculiaríssimo –, porque a lei federal faz remissão à Convenção da OIT 162, art. 3º, que, por versar
tema que no Brasil é tido como de direito fundamental (saúde), tem o status de norma supralegal.
Estaria, portanto, acima da própria lei federal que dispõe sobre a comercialização, produção,
transporte, etc., do amianto. (…) De maneira que, retomando o discurso do Ministro Joaquim
Barbosa, a norma estadual, no caso, cumpre muito mais a Constituição Federal nesse plano da
proteção à saúde ou de evitar riscos à saúde humana, à saúde da população em geral, dos
trabalhadores em particular e do meio ambiente. A legislação estadual está muito mais próxima dos
desígnios constitucionais, e, portanto, realiza melhor esse sumo princípio da eficacidade máxima da
Constituição em matéria de direitos fundamentais, e muito mais próxima da OIT, também, do que a
legislação federal. Então, parece-me um caso muito interessante de contraposição de norma
suplementar com a norma geral, levando-nos a reconhecer a superioridade da norma suplementar
sobre a norma geral. E, como estamos em sede de cautelar, há dois princípios que desaconselham o
referendum à cautelar: o princípio da precaução, que busca evitar riscos ou danos à saúde e ao meio
ambiente para gerações presentes; e o princípio da prevenção, que tem a mesma finalidade para
gerações futuras. Nesse caso, portanto, o periculum in mora é invertido e a plausibilidade do direito
também contraindica o referendum a cautelar. Senhor Presidente, portanto, pedindo todas as vênias,
acompanho a dissidência e também não referendo a cautelar (ADI nº 3.937-MC, Rel. Min. Marco
Aurélio, voto do Min. Ayres Britto, j. 04.06.2008, Plenário, DJE 10.10.2008).

Conforme o Informativo nº 509 do STF, assim decidiu o Plenário:

Por votação majoritária, o Tribunal, em questão de ordem, negou referendo à decisão concessiva de
liminar, proferida pelo Min. Marco Aurélio, e, julgando prejudicado agravo regimental, indeferiu a
liminar pleiteada em ação direta de inconstitucionalidade, ajuizada pela Confederação Nacional
dos Trabalhadores na Indústria – CNTI, em face da Lei 12.684/2007, do Estado de São Paulo, que
“proíbe o uso, no Estado de São Paulo, de produtos, materiais ou artefatos que contenham quaisquer
tipos de amianto ou asbesto ou outros minerais que, acidentalmente, tenham fibras de amianto na sua
composição” – v. Informativo 477. Prevaleceram os votos dos Ministros Joaquim Barbosa e Eros
Grau (ADI nº 3.937 QO-MC/SP, Rel. Min. Marco Aurélio, j. 04.06.2008).

Os argumentos da maioria (vencidos os Ministros Marco Aurélio, Ellen Gracie e Menezes Direito)
são:

a) os riscos do amianto para a saúde humana;


b) a Convenção nº 162 da OIT – que prescreve as medidas que deverão ser adotadas para prevenir e
controlar os riscos para a saúde em razão da exposição profissional ao asbesto e para proteger os
trabalhadores contra tais riscos –, que possui status supralegal e, portanto, acima da legislação
federal;
c) a legislação estadual está muito mais próxima dos desígnios constitucionais e, portanto, realiza
melhor o sumo princípio da eficacidade máxima da Constituição em matéria de direitos
fundamentais;
d) os princípios da precaução e da prevenção.

Com o mesmo cerne, tramita no STF a ADI nº 3.357, que tem por objeto a declaração de
inconstitucionalidade de lei do Estado do Rio Grande do Sul, e a ADI nº 3.356, acerca da
constitucionalidade de lei do Estado de Pernambuco, ambas com a proibição da produção, do comércio e
do uso de produtos com amianto nos seus respectivos territórios.
Além das ações diretas em comento, um novo componente foi adicionado às discussões sobre o
amianto: o ajuizamento da Arguição de Descumprimento Fundamental (ADPF) nº 234, de 2011. Ao
contrário da ADI nº 3.937, em que as discussões se conduziram em torno de aspectos formais e de
direitos fundamentais (saúde e meio ambiente), o objeto da ADPF nº 234 foi a proibição de transporte
interestadual e internacional do amianto na Lei nº 12.684/2007, do Estado de São Paulo. Isso em
decorrência da ação de auditores-fiscais do trabalho nas rodovias a obstar o regular funcionamento de
transportadoras de amianto, impedindo o transporte de amianto do Estado de Goiás (produtor) para
outros Estados da Federação e para os portos brasileiros (Santos). Além disso, o ajuizamento de ações
na Justiça do Trabalho com esse cerne.
O Plenário do STF decidiu pela concessão da liminar para determinar a suspensão da eficácia das
interdições ao transporte praticado em face das empresas transportadoras de amianto. Conforme o
Informativo nº 642 do STF:

O Plenário, por maioria, deferiu, parcialmente, pedido de medida liminar formulado, em arguição de
descumprimento de preceito fundamental, pela Associação Nacional do Transporte de Cargas, para
determinar a suspensão da eficácia das interdições ao transporte praticado pelas empresas associadas
à arguente, quando fundamentadas em descumprimento da norma contida no art. 1º da Lei
12.684/2007, do Estado de São Paulo (“Art. 1º Fica proibido, a partir de 1º de janeiro de 2008, o
uso, no Estado de São Paulo, de produtos, materiais ou artefatos que contenham quaisquer tipos de
amianto ou asbesto”), reconhecendo-lhes o direito de efetuar o transporte interestadual e internacional
de cargas, inclusive as de amianto da variedade crisotila, observadas as disposições legais e
regulamentares editadas pela União. A autora requeria a concessão de medida cautelar para suspender
os processos em andamento no Tribunal Superior do Trabalho e nas demais instâncias ordinárias da
Justiça do Trabalho daquele ente federativo, assim como a eficácia das interdições ao transporte de
amianto efetuado pelas empresas que lhe são associadas nas rodovias estaduais. Prevaleceu o voto do
Min. Marco Aurélio, relator. Preliminarmente, assentou a legitimidade da arguente para dar início ao
processo, revelada a condição de associação nacional representativa de certa categoria. Sob o ângulo
do cabimento da ação, verificou que a Corte tem entendido que a subsidiariedade da arguição há de
ser compreendida de modo a não inviabilizar o acesso à jurisdição constitucional, principalmente
quando em jogo valores maiores e a possibilidade de proliferação de demandas. Assim, embora
possível impugnar, judicialmente, os atos administrativos formalizados e as decisões judiciais,
mediante os respectivos recursos, haveria o interesse público de ser dirimida a controvérsia em
caráter definitivo. Reputou que os preceitos evocados comporiam conteúdo essencial do texto
constitucional vigente, protegido do poder constituinte derivado reformador (ADPF nº 234 MC/DF,
Rel. Min. Marco Aurélio, j. 28.09.2011).

Por fim, no mês de outubro de 2012, o STF iniciou as sessões para discutir o mérito da ADI nº 3.937
(SP) e da ADI nº 3.357 (RS). Os dois primeiros ministros a proferirem os seus votos foram Marco
Aurélio de Melo, pela inconstitucionalidade das leis estaduais, e o Ministro Ayres Brito, pela
constitucionalidade das leis estaduais.
Conforme o Informativo nº 686 do STF, é possível extrair os principais argumentos de cada Ministro.
Nesse sentido, a síntese dos argumentos do voto do Ministro Ayres Brito:

1. Votou pela improcedência da inconstitucionalidade em ambos os pedidos;


2. Relativamente às competências legislativas concorrentes (CF, art. 24), discorreu que se trataria de
condomínio legislativo federado. Caberia à União editar normas gerais, nos termos do § 1º deste
mesmo artigo. O § 2º, por sua vez, designaria aos Estados-membros e ao Distrito Federal
“competência suplementar”. A União deveria conter-se na produção de normas gerais e os outros
entes, diante de sua eventual edição, produziriam normas suplementares, acréscimos necessários de
tutela aos bens jurídicos objeto das normas gerais em causa, somente válidos no âmbito territorial
daquele ente periférico. A plenitude normativa seria obtida pela elaboração conjugada de normas
gerais e suplementares. No particular, articulou que a Constituição tutelaria e promoveria consumidor,
saúde e meio ambiente (art. 24, VI, VII e XII), bens jurídicos qualificados como fundamentais (CF,
artigos 5º, XXXII; 6º, caput; e 225). Ademais, o meio ambiente ecologicamente equilibrado integraria
o desenvolvimento nacional (CF, art. 3º, II). Acrescentou que o adjetivo “suplementar”, nos incisos
VI, VIII e XII do art. 24 da CF, traduziria funcionalidade favorecedora dos bens jurídicos
conformados na mesma medida da funcionalidade alusiva às normas gerais. Diferenciar-se-iam
apenas quanto ao âmbito geográfico de incidência.
3. Lembrou que a Convenção 162 da Organização Internacional do Trabalho – OIT – que trataria de
medidas para prevenir riscos à saúde decorrentes da exposição ao amianto –, ao dispor sobre
proteção da saúde dos trabalhadores, teria status de norma supralegal. Deduziu que tratados
internacionais não seriam lei ou emenda constitucional, mas apenas teriam força de lei ou emenda,
conforme o caso. Ademais, os que versariam sobre direitos humanos teriam primazia na ordem
jurídica interna, mesmo os não aprovados em cada Casa do Congresso Nacional, em dois turnos, por
3/5 dos votos dos respectivos membros. Neste caso, a supralegalidade decorreria da prevalência
conferida aos direitos humanos no art. 4º, II, da CF.
4. Qualificou o amianto como nocivo à saúde e capaz de colocar o meio ambiente em situação de
fragilidade. Esse seria o entendimento da legislação e de diversas entidades ligadas à saúde. Elucidou
que a referida Convenção da OIT, ao tolerar leis permissivas do uso desse produto no mercado,
fizera-o com a ressalva do desenvolvimento técnico e do avanço científico. Além disso, o diploma
proibiria totalmente o amianto, quando a medida se tornasse tecnicamente viável e necessária à
proteção dos trabalhadores. Nesse diapasão, a lei nacional deveria ser revisitada para se ajustar aos
progressos técnicos e científicos.
5. Aduziu que a legislação estadual em julgamento, ao proibir produtos à base de amianto, cumpriria
com maior efetividade a Constituição no plano da proteção da saúde, bem assim aproximar-se-ia mais
da Convenção da OIT. De igual modo, sintonizar-se-ia com o art. 7º, XXII, da CF. Ressaiu, ainda, não
contrariado o princípio da livre-iniciativa, visto que a ordem econômica também seria fundada na
valorização do trabalho e teria por fim assegurar a todos existência digna. Nesse aspecto, deveriam
ser protegidos também a defesa do consumidor e o meio ambiente (CF, art. 170, III e VI), parelhados
com a proteção do trabalhador, a saúde pública e a defesa dos direitos humanos.

No que se refere à síntese do voto do Ministro Marco Aurélio,

1. Julgou os pleitos procedentes.


2. Em seguida, cuidou da assertiva de inconstitucionalidade formal do art. 2º da Lei nº 9.055/1995
[“Art. 2º O asbesto/amianto da variedade crisotila (asbesto branco), do grupo dos minerais das
serpentinas, e as demais fibras, naturais e artificiais de qualquer origem, utilizadas para o mesmo fim,
serão extraídas, industrializadas, utilizadas e comercializadas em consonância com as disposições
desta Lei. Parágrafo único. Para os efeitos desta Lei, consideram-se fibras naturais e artificiais as
comprovadamente nocivas à saúde humana”], o qual supostamente extrapolaria o campo das normas
gerais, ao ingressar em particularidades que deveriam ser disciplinadas pelos Estados-membros.
Asseverou que o constituinte pretendera conferir à União atribuição geral para regulamentar o
comércio de materiais perigosos (CF, art. 24, V). Indicou que ela gozaria de preferência para cuidar
de tais matérias, tendo em conta o art. 22, XII, XXI e XXVI, da CF. Versou que a disciplina do uso e
comércio do amianto não seria tema afeto ao interesse particular dos Estados-membros. Assim,
autorizar a mercancia alusiva a determinado produto em certo território seria questão a ser submetida
ao princípio federativo somente de modo tangencial. Ademais, sua proibição poderia fomentar nova
guerra federativa, mediante embate por incremento arrecadatório, com prejuízo ao interesse público.
Pronunciou, ainda, que a tese de prevalência da norma mais benéfica não poderia ser acolhida, por
subverter o condomínio legislativo e implicar insegurança jurídica. Teceu considerações sobre a
Convenção 162 da OIT e deduziu não haver, no diploma, exigência ao banimento do uso da fibra de
amianto.
3. Não vislumbrou incompatibilidade entre os dispositivos da Convenção sobre asbestos e a Lei nº
9.055/1995, de forma que a tese sobre o caráter supralegal da Convenção sequer precisaria ser
analisada.
4. Explicitou que a patogenia associada ao amianto dependeria de diversos fatores e que, se esses
elementos fossem passíveis de controle, confirmar-se-ia a tese de viabilidade do uso controlado do
material, embora não pressuposta a existência de “risco zero”. A ação governamental, em qualquer
caso, geraria ganhadores e perdedores, e escolhas regulatórias normalmente envolveriam alternativas
com riscos. Nesse sentido, não existiriam estudos conclusivos quanto à toxicologia do álcool
polivinílico e do polipropileno, potenciais substitutos. Trocar-se-ia um risco à saúde fartamente
conhecido por outro, ainda ignorado pela literatura médica. Destacou que o risco potencial das
doenças, consideradas as normas voltadas a trabalhadores, seria bastante reduzido, bem como que as
patologias hoje manifestadas decorreriam de exposições ocorridas há muitos anos, quando os padrões
de segurança para a exploração do amianto eram praticamente nulos. Dessumiu que a questão da
saúde ocupacional do trabalhador em contato com as fibras de amianto deveria se resolver mediante:
a) imposição de limites rígidos à exposição à poeira resultante do produto; b) fiscalização
empreendida pelo Poder Público; e c) compensação por eventuais danos à saúde, com antecipação de
aposentadoria e recebimento de adicionais previstos em lei. Essa sistemática otimizaria o conflito
entre o direito à saúde do trabalhador e o desenvolvimento de atividades econômicas a ele nocivas.
5. Interpretou o art. 225, § 1º, V, da CF, a determinar o controle, e não o banimento, das atividades a
pôr em risco a vida e o meio ambiente. Obtemperou a importância do direito ao meio ambiente, de
valor inestimável. Apontou a inexistência de estudos suficientes acerca do impacto da crisotila sobre
fauna e flora. Não se poderia, assim, invocar o princípio da precaução em virtude de prejuízos ainda
indeterminados para o meio ambiente no futuro. A regulação estatal deveria gerenciar riscos, sem
permitir regresso a um estado anterior de tecnologia e civilização.
6. Ponderou acerca dos impactos econômicos e sociais da proibição do amianto e os classificou como
relevantes. Arrematou que a vedação de certos produtos pela via judicial implicaria dizer que a
sociedade, por seus representantes, seria incapaz de analisar os riscos e benefícios de determinada
atividade. Considerou que, em questões a envolver política pública de alta complexidade e com
elevada repercussão social, a Corte deveria adotar postura de deferência à solução jurídica
encontrada pelos respectivos formuladores. Não haveria excepcionalidade a justificar a atuação do
STF, que teria conhecimento limitado acerca dos efeitos e das políticas públicas a envolver o uso
controlado do amianto, bem como das consequências práticas de eventual decisão pelo banimento, a
exigir o predicado da autocontenção. Aquilatou que nem mesmo os órgãos da União seriam uníssonos
quanto à continuidade da exploração de amianto no Brasil. Concluiu pela constitucionalidade do art.
2º da Lei nº 9.055/1995, bem como pela inconstitucionalidade da legislação estadual, esta por
inadequação ao art. 24, V, VI, XII, e § 3º, da CF. Por fim, deliberou-se suspender o julgamento.

Em 23 de novembro de 2016 o STF retomou o julgamento da ADI nº 3.937 em conjunto com a ADI nº
3.356 (Pernambuco) e a ADI nº 3.357 (Rio Grande do Sul), todas com objeto em leis estaduais que
proíbem a produção, o comércio e o uso de produtos com amianto nos respectivos territórios. De igual
forma, o início da apreciação da ADPF nº 109, ajuizada pela Confederação Nacional dos Trabalhadores
na Indústria (CNTI) em face da Prefeitura e Câmara Municipal de São Paulo, com pedido de medida
cautelar, para contestar a Lei nº 13.113/2001, editada pelo Município de São Paulo e ato regulamentar,
Decreto municipal nº 41.788/2002, que versam sobre a proibição do uso de amianto como matéria prima
na construção civil.
O Ministro Luiz Edson Fachin votou pela improcedência da declaração de inconstitucionalidade das
respectivas Ações Diretas de Inconstitucionalidade, argumentando, em síntese, que a restrição ao amianto
é legitima, consoante o amparo constitucional à saúde e ao meio ambiente. Quanto à ADPF nº 109, em
que é o relator, o Ministro Fachin entendeu que a proibição está em consonância com a Constituição e “a
norma apenas suplementa a legislação federal e estadual com base em interesse local na manutenção da
saúde e da proteção ao meio ambiente e na política de desenvolvimento econômico do município”.
Em seguida, deu-se a suspensão dos veredictos respectivos, com o pedido de vista do Ministro Dias
Toffoli.
A expectativa é que em 2017 a Corte retome o julgamento dessas ações diretas de
inconstitucionalidade e estabeleça os contornos dos conflitos de conteúdo entre a lei federal e a lei
estadual. Caso prevaleça a leitura da cognição sumária na ADI nº 3.937, como defendeu o então Ministro
Carlos Ayres Brito igualmente em seu voto e, mais recentemente, o Ministro Luiz Edson Fachin, o STF
terá estabelecido novos contornos, com a prevalência da norma mais favorável ao meio ambiente. A
predominar o entendimento do Ministro Marco Aurélio, o STF manterá o entendimento dos julgados
anteriores. Por fim, o julgamento dessas ADIs terá reflexos na ADPF nº 234 e na ADI nº 4.066, que
questiona a constitucionalidade da Lei nº 9.055/2005.

SITUAÇÃO DAS AÇÕES QUE VERSAM SOBRE O AMIANTO EM DEZEMBRO DE 20168


Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 109
Relator: Ministro Edson Fachin
Confederação Nacional dos Trabalhadores na Indústria (CNTI) x Prefeitura e Câmara
Municipal de São Paulo
ADPF, com pedido de medida cautelar, para contestar a Lei 13.113/2001, editada pelo
Município de São Paulo, e do decorrente ato regulamentar, Decreto municipal 41.788/2002,
que versam sobre a proibição do uso de amianto como matéria prima na construção civil.
A parte requerente sustenta que a norma local contém vício formal insanável por invasão de
competência legislativa reservada à União. Alega que o poder central editou a Lei nº
9.055/1995 e que “referida norma legal, de âmbito federal, disciplina, em todo o país, ‘a
extração, industrialização, utilização, comercialização e transporte de asbesto/amianto e dos
produtos que o contenham, bem como das fibras naturais e artificiais, de qualquer origem,
utilizadas para o mesmo fim’ e, expressamente autoriza, em seu artigo 2º, a extração,
industrialização, uso e consumo do amianto da espécie crisotila”.
O ministro relator indeferiu o pedido de medida liminar.
Em discussão: saber se as normas impugnadas usurpam competência da União para
estabelecer normas gerais sobre produção e consumo, proteção à saúde e do meio ambiente.
PGR: pela improcedência do pedido.
Votos: Após o voto do ministro Edson Fachin (relator), julgando improcedente a ação, o
ministro Dias Toffoli pediu vista.
Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) 3356
Relator: ministro Eros Grau (aposentado)
Confederação Nacional dos Trabalhadores na Indústria (CNTI) x Governador e Assembleia
Legislativa de Pernambuco
A ação contesta Lei estadual 12.589/2004, que dispõe sobre a proibição da fabricação, do
comércio e do uso de materiais, elementos construtivos e equipamentos constituídos por
amianto ou asbesto, no âmbito daquele Estado-Membro.
Alega que a norma versa sobre normas gerais de produção, comércio e consumo, de
competência legislativa da União. Sustenta, ainda, violação ao princípio da livre iniciativa,
assegurado no artigo 170, parágrafo único, da Constituição Federal.
Em discussão: saber se lei estadual que proíbe a fabricação, comércio e uso de materiais
de amianto ou asbesto invade competência da União para legislar sobre normas gerais sobre
comércio, consumo e meio ambiente; e se ofende o princípio da livre iniciativa.
PGR: pela procedência do pedido.
Votos: o relator julgou procedente a ação. O ministro Joaquim Barbosa pediu vista. Sucessor
de Joaquim Barbosa, que se aposentou, o ministro Edson Fachin devolveu os autos para a
continuação do julgamento.
Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) 3357
Relator: Ministro Ayres Britto (aposentado)
Confederação Nacional dos Trabalhadores na Indústria x Governador e Assembleia Legislativa
do Grande do Sul
A ação contesta a Lei estadual nº 11.643/2001 que dispõe sobre a proibição de produção e
comercialização de produtos à base de amianto, no âmbito do Rio Grande do Sul. Alega, em
síntese, que a norma impugnada, ao versar sobre normas gerais de produção, comércio e
consumo de produtos à base de amianto, teria disposto sobre matéria já disciplinada pela
União pela edição da Lei nº 9.055/95, que “disciplina a extração, industrialização, utilização,
comercialização e transporte do asbesto/amianto e dos produtos que o contenham, bem como
das fibras naturais e artificiais, de qualquer origem, utilizadas para o mesmo fim”.
Em discussão: saber se a norma impugnada invade competência legislativa da União e se
ofende o princípio da livre iniciativa.
PGR: pela procedência do pedido.
Votos: Após o voto do ministro Ayres Britto (relator), julgando improcedente a ação, e o do
ministro Marco Aurélio, julgando-a procedente, o julgamento foi suspenso. Em 23 de
novembro de 2016 o julgamento foi retomado, com o voto do Ministro Edson Fachin, pela
improcedência da ação. O ministro Dias Toffoli, em seguida, pediu vista.
Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) 3937
Relator: ministro Marco Aurélio
Confederação Nacional dos Trabalhadores na Indústria x Governador e Assembleia Legislativa
de São Paulo
ADI contra a Lei estadual 12.684/2007 que “proíbe o uso, no Estado de São Paulo, de
produtos, materiais ou artefatos que contenham quaisquer tipos de amianto ou asbesto ou
outros minerais que, acidentalmente, tenham fibras de amianto na sua composição”. Alega a
requerente afronta aos princípios da “reserva legal proporcional” e “da livre iniciativa”,
usurpação de competência da União de legislar de forma privativa, entre outros argumentos.
Na sessão de 4 de junho de 2008, o Plenário do STF, por maioria, negou referendo à liminar
concedida. O STF realizou audiência pública sobre o tema nos dias 24 e 31 de agosto de
2012.
Em discussão: saber se a norma impugnada invade competência legislativa da União e se
ofende o princípio da livre iniciativa.
PGR: pela improcedência do pedido.
Votos: após o voto do ministro Marco Aurélio (relator), julgando procedente a ação direta, e
do ministro Ayres Britto, julgando-a improcedente, o julgamento foi suspenso. Em 23 de
novembro de 2016 o julgamento foi retomado, com o voto do Ministro Edson Fachin, pela
improcedência da ação. O ministro Dias Toffoli, em seguida, pediu vista.

• As competências constitucionais em matéria ambiental estão disciplinadas entre os arts. 21 a 25 e no


art. 30 da Constituição Federal.
• No sistema de repartição de competências constitucionais, duas são as divisões fundamentais: (a)
competência administrativa e (b) competência legislativa.
• A competência administrativa do art. 23 da CF, a saber: é competência comum da União, dos
Estados, do Distrito Federal e dos Municípios: (…) (III) proteger os documentos, as obras e outros bens
de valor histórico, artístico e cultural, os monumentos, as paisagens naturais notáveis e os sítios
arqueológicos; (IV) impedir a evasão, a destruição e a descaracterização de obras de arte e de outros
bens de valor histórico, artístico ou cultural; (VI) proteger o meio ambiente e combater a poluição em
qualquer de suas formas; (VII) preservar as florestas, a fauna e a flora; (XI) registrar, acompanhar e
fiscalizar as concessões de direitos de pesquisa e exploração de recursos hídricos e minerais em seus
territórios.
• O parágrafo único do art. 23 da CF dispõe que “leis complementares fixarão normas para a
cooperação entre a União e os Estados, o Distrito Federal e os Municípios, tendo em vista o equilíbrio
do desenvolvimento e do bem-estar em âmbito nacional”. A primeira das leis complementares foi editada
com a LC nº 140/2011, que regulamentou o parágrafo único e os incisos III, VI e VII do art. 23 da CF.
• A competência legislativa do art. 24 da CF é concorrente entre União, Estados e Distrito Federal.
Destaca-se que os municípios não estão incluídos no art. 24 da CF, segundo o qual “compete à União, aos
Estados e ao Distrito Federal legislar concorrentemente sobre: (…) VI) florestas, caça, pesca, fauna,
conservação da natureza, defesa do solo e dos recursos naturais, proteção do meio ambiente e controle da
poluição; VII) proteção ao patrimônio histórico, cultural, artístico, turístico e paisagístico; VIII)
responsabilidade por dano ao meio ambiente, ao consumidor, a bens e direitos de valor artístico,
estético, histórico, turístico e paisagístico”.
• No âmbito da legislação concorrente, a competência da União limitar-se-á a estabelecer normas
gerais e não exclui a competência suplementar dos Estados (art. 24, § 1º, CF).
• Inexistindo lei federal sobre normas gerais, os Estados exercerão a competência legislativa plena
para atender a suas peculiaridades. A superveniência de lei federal sobre normas gerais suspende a
eficácia da lei estadual, no que lhe for contrário (art. 24, §§ 2º e 3º, CF).
• É necessário relacionar que os municípios possuem competência legislativa em matéria ambiental
pelo art. 30, II, da CF, uma vez que podem suplementar a legislação federal e a estadual no que couber.

Competências em matéria ambiental


Espécie de
Entes Detalhamento
competência
a) legislar sobre águas, energia, informática, telecomunicações e
Competência radiodifusão (inciso IV);
legislativa b) legislar sobre jazidas, minas, outros recursos minerais e
exclusiva (art. metalurgia (inciso XII);
22) c) legislar sobre atividades nucleares de qualquer natureza (inciso
XXVI).
a) planejar e promover a defesa permanente contra as calamidades
públicas, especialmente as secas e as inundações (inciso XVIII);
União b) instituir sistema nacional de gerenciamento de recursos hídricos e
definir critérios de outorga de direitos de seu uso (inciso XIX);
Competência c) instituir diretrizes para o desenvolvimento urbano, inclusive
administrativa habitação, saneamento básico e transportes urbanos (inciso XX);
privativa (art. d) explorar os serviços e instalações nucleares de qualquer natureza
21) e exercer monopólio estatal sobre a pesquisa, a lavra, o
enriquecimento e reprocessamento, a industrialização e o comércio
de minérios nucleares e seus derivados, atendidos os seguintes
princípios e condições: a responsabilidade civil por danos nucleares
independe da existência de culpa (inciso XXIII, d).
Os Estados poderão, mediante lei complementar, instituir regiões
Competência metropolitanas, aglomerações urbanas e microrregiões, constituídas
legislativa por agrupamentos de municípios limítrofes, para integrar a
Estados e (art. 25, § 3º) organização, o planejamento e a execução de funções públicas de
Distrito
interesse comum.
Federal
Competência
São reservadas aos Estados as competências que não lhes sejam
administrativa
vedadas por esta Constituição.
(art. 25, § 1º)
Competências a) legislar sobre assuntos de interesse local (inciso I);
legislativas b) suplementar a legislação federal e a estadual no que couber
(art. 30) (inciso II).

a) promover, no que couber, adequado ordenamento territorial,


Municípios mediante planejamento e controle do uso, do parcelamento e da
Competência ocupação do solo urbano (inciso VIII);
administrativa
b) promover a proteção do patrimônio histórico-cultural local,
(art. 30)
observadas a legislação e a ação fiscalizadora federal e estadual
(inciso IX).

a) proteger os documentos, as obras e outros bens de valor


histórico, artístico e cultural, os monumentos, as paisagens naturais
notáveis e os sítios arqueológicos (inciso III);
b) impedir a evasão, a destruição e a descaracterização de obras
União,
Competência de arte e de outros bens de valor histórico, artístico e cultural (inciso
Estados,
administrativa IV);
Distrito
comum (art. c) proteger o meio ambiente e combater a poluição em qualquer de
Federal e
23) suas formas (inciso VI);
Municípios
d) preservar as florestas, a fauna e a flora (inciso VII);
e) registrar, acompanhar e fiscalizar as concessões de direitos de
pesquisa e exploração de recursos hídricos e minerais em seus
territórios (inciso XI).
a) legislar concorrentemente sobre florestas, caça, pesca, fauna,
conservação da natureza, defesa do solo e dos recursos naturais,
Competência proteção do meio ambiente e controle da poluição (inciso VI);
União,
legislativa b) legislar concorrentemente sobre proteção ao patrimônio histórico,
Estados e
concorrente cultural, artístico, turístico e paisagístico (inciso VII);
DF
(art. 24) c) legislar concorrentemente sobre responsabilidade por dano ao
meio ambiente, ao consumidor, a bens e direitos de valor artístico,
estético, histórico, turístico e paisagístico (inciso VIII).
QUESTÃO GABARITO
1 D
2 D
3 C
4 D
5 E
6 A
7 C
8 ERRADO
9 ERRADO
10 ERRADO
11 C
12 C
13 E
14 B
15 C
16 C

QUESTÃO PROPOSTA DE SOLUÇÃO


Essa é uma questão de Direito Constitucional, cuja resposta demanda a análise
dos julgados do STF. Na atual interpretação do STF, a lei estadual deve ser
declarada inconstitucional. Com efeito, a competência legislativa do art. 24 da
CF/1988 é concorrente entre a União, Estados, e Distrito Federal. Nesse âmbito,
compete à União editar as normas gerais e aos Estados, suplementá-las. No caso
proposto, nota-se a existência de norma federal em vigor a regulamentar a
1 temática, a saber: Lei nº 11.105/2005 (Lei de Biossegurança). Na questão, o
Estado excedeu a margem de competência concorrente que lhe é assegurada
para legislar supletivamente, uma vez que a legitimidade da regulamentação geral
foi fixada no âmbito federal. Não há justificativa para tratamento particular e
diferenciado pelo Estado-membro. Não obstante essa proposta de solução, é
necessário acompanhar os desdobramentos do julgamento da ADI nº 3.378 pelo
STF, que pode inserir uma nova interpretação à questão.
Em matéria ambiental, é possível falar em cooperação entre os entes federativos.
Cooperar significa agir em conjunto e, para o direito ambiental, a cooperação
ocorre tanto na esfera internacional quanto nacional. Com efeito, as distribuições
das competências constitucionais (arts. 21, 22, 23, 24, 25 e 30 da CF) no modelo
do federalismo cooperativo permitem que todos os entes atuem na proteção
ambiental, visando ao meio ambiente ecologicamente equilibrado. A cooperação
está evidenciada na competência administrativa do art. 23/CF, com a obrigação
2 comum de proteger o meio ambiente, combater a poluição, preservar as florestas,
a fauna e a flora etc. Além disso, a LC nº 140/2011 tem como objeto a
“cooperação entre a União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios nas
ações administrativas decorrentes do exercício da competência comum relativas à
proteção das paisagens naturais notáveis, à proteção do meio ambiente, ao
combate à poluição em qualquer de suas formas e à preservação das florestas,
da fauna e da flora”. Para tanto, confere uma série de instrumentos para realizar
esse objetivo. Para aprofundamento, vide o término do tópico 9.4.
QUESTÃO CONTEÚDO PARA A RESPOSTA
1 Tópico 4.1
2 Tópico 4.3
3 Tópico 4.3
4 Tópico 4.2
5 Tópico 4.2
6 Tópico 4.2
7 Tópico 4.2
8 Tópicos 4.5.4 e 4.5.5
9 Tópico 4.4
10 Tópico 4.4

1 FERREIRA, 2007, p. 214.


2 BULLOS, 2007, p. 774.
3 MACHADO, 2007, p. 227.
4 CARVALHO FILHO, 2012, p. 488.
5 CARVALHO FILHO, 2012, p. 221.
6 A Comissão Tripartite Nacional, as Comissões Tripartite Estaduais e a Comissão Bipartite do Distrito Federal foram previstas
originalmente como mecanismo de fortalecimento do Sistema Nacional do Meio Ambiente (Sinama). A Portaria nº 473/2003,
do Ministério do Meio Ambiente, instituiu as Comissões Técnicas Tripartites Estaduais nos Estados e Comissão Bipartite no
Distrito Federal, com o objetivo de constituir um espaço institucional de diálogo entre os entes federados com vistas a uma
gestão compartilhada e descentralizada entre União, Estados e Municípios, bem como o fortalecimento e a estruturação do
Sistema Nacional de Meio Ambiente (Sisnama).
7 FERREIRA, 2007, p. 210.
8 Disponível em: <http://www.stf.jus.br/portal/cms/verNoticiaDetalhe.asp?idConteudo=330066&caixaBusca=N>.
Preocupar-se com a ecologia e com os direitos dos
animais consiste em fazer o bem. São
comportamentos que desenvolvem o altruísmo, a
generosidade, a abertura do coração e as ações
não violentas.
Dalai Lama

5.1 NOÇÕES GERAIS

Graças à sua autonomia e singularidades, o Direito Ambiental possui princípios próprios, que
norteiam tanto os intérpretes quanto os executores das normas ambientais. Nas palavras de Geraldo
Ataliba1, os princípios são as linhas mestras, as diretrizes magnas, que apontam os rumos a serem
seguidos por toda a sociedade e perseguidos pelos poderes constituídos. Para Celso Antônio Bandeira de
Mello2, os princípios são os mandamentos nucleares de determinado sistema, os alicerces; conhecê-los é
condição essencial para a logicidade e racionalidade do sistema normativo.
Com efeito, ainda não há uma sistematização principiológica uniforme no direito ambiental. De acordo
com o marco teórico, há algumas variações na extensão dos princípios, sejam eles explícitos ou
implícitos na legislação nacional, sejam oriundos de tratados e declarações internacionais. É possível
afirmar que há, por vezes, uma inflação de princípios, que em seu conjunto representam uma panaceia que
mais obscurece do que contribui para a consolidação do direito ambiental. Por essa razão – e
considerando os objetivos da obra –, optou-se por conjugar a leitura doutrinária com os princípios
suscitados nas principais provas e certames.

5.2 PRINCÍPIO DO MEIO AMBIENTE ECOLOGICAMENTE EQUILIBRADO


COMO DIREITO FUNDAMENTAL

Trata-se de princípio previsto no caput do art. 225 da Constituição Federal, ao dispor que “todos têm
direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia
qualidade de vida”.
Constitui-se no princípio matriz do direito ambiental, que se irradia no âmbito constitucional e
infraconstitucional como norteador de todo o arcabouço ambiental. Para Édis Milaré, é o “princípio
transcendental de todo o ordenamento jurídico ambiental, ostentando o status de verdadeira cláusula
pétrea”3.
O Supremo Tribunal Federal, na ADI nº 3.540, dispôs: “todos têm direito ao meio ambiente
ecologicamente equilibrado. Trata-se de um típico direito de terceira geração (ou de novíssima
dimensão), que assiste a todo o gênero humano. Incumbe, ao Estado e à própria coletividade, a especial
obrigação de defender e preservar, em benefício das presentes e futuras gerações, esse direito de
titularidade coletiva e de caráter transindividual”.
A Declaração do Rio (1992) contemplou-o no Princípio 1: “os seres humanos estão no centro das
preocupações com o desenvolvimento sustentável. Têm direito a uma vida saudável e produtiva, em
harmonia com a natureza” (grifos nossos).
Após essas considerações iniciais, é oportuno definir o que é um meio ambiente ecologicamente
equilibrado. Com efeito, entende-se como o meio ambiente sem poluição, com salubridade e higidez.
Com o meio ambiente ecologicamente equilibrado pretende-se garantir, em aspectos fundamentais, o
direito à vida, sobretudo à sadia qualidade de vida, aquela que proporciona a materialização do
princípio estruturante do sistema jurídico brasileiro: a dignidade da pessoa humana.
O direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, que é um dos principais direitos
fundamentais, assente que só é possível efetivar os direitos de primeira dimensão (direitos civis e
políticos) e de segunda dimensão (direitos econômicos, sociais e culturais) com o meio ambiente
ecologicamente equilibrado (de terceira dimensão).
5.3 PRINCÍPIO DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL

O desenvolvimento sustentável, no conceito clássico do Relatório Nosso Futuro Comum (Relatório


Brundtland), é “aquele que atende às necessidades do presente sem comprometer a possibilidade de as
gerações futuras atenderem às suas próprias necessidades”.
Ele é previsto em diversos princípios da Declaração do Rio (1992), que proclama que os seres
humanos constituem o centro das preocupações com o desenvolvimento sustentável (Princípio 1) e que,
para alcançá-lo, a proteção ambiental deve ser considerada parte integrante do desenvolvimento e não
pode ser dissociada dele (Princípio 4). Reconhece que o desenvolvimento deve considerar o uso
equitativo dos recursos naturais, em atenção às necessidades tanto da presente quanto das futuras
gerações (Princípio 3). Ademais, “todos os Estados e todos os indivíduos, como requisito indispensável
para o desenvolvimento sustentável, irão cooperar na tarefa essencial de erradicar a pobreza, a fim de
reduzir as disparidades de padrões de vida e melhor atender às necessidades da maioria da população do
mundo” (Princípio 5) e, de igual forma, “para alcançar o desenvolvimento sustentável e uma qualidade
de vida mais elevada para todos, os Estados devem reduzir e eliminar os padrões insustentáveis de
produção e consumo, e promover políticas demográficas adequadas” (Princípio 8).
A compreensão de desenvolvimento sustentável no contexto internacional é mais ampla e integra o
conceito de solidariedade intergeracional, que será estudado como princípio singular.
Para o Supremo Tribunal Federal, “o princípio do desenvolvimento sustentável, além de impregnado
de caráter eminentemente constitucional, encontra suporte legitimador em compromissos internacionais
assumidos pelo Estado brasileiro e representa fator de obtenção do justo equilíbrio entre as exigências
da economia e as da ecologia, subordinada, no entanto, a invocação desse postulado, quando ocorrente
situação de conflito entre valores constitucionais relevantes, a uma condição inafastável, cuja
observância não comprometa nem esvazie o conteúdo essencial de um dos mais significativos direitos
fundamentais: o direito à preservação do meio ambiente, que traduz bem de uso comum da generalidade
das pessoas, a ser resguardado em favor das presentes e futuras gerações (ADI nº 3.540)”.
A Constituição de 1988, em seu art. 170, disciplina que a ordem econômica é fundada na valorização
do trabalho e na livre-iniciativa e visa assegurar uma existência digna para todos conforme os ditames da
justiça social, com a observância, entre outros, dos princípios da função social da propriedade (inciso
III) e da defesa do meio ambiente (inciso VI). Por função social (art. 170, III) entende-se que o exercício
do direito de propriedade deve observar e respeitar as normas ambientais. Além disso, a defesa do meio
ambiente (art. 170, VI) nas atividades econômicas ocorre mediante tratamento diferenciado conforme o
impacto ambiental dos produtos e serviços e de seus processos de elaboração e prestação.
Na interpretação do princípio do desenvolvimento sustentável é necessário conjugar o art. 170 com o
art. 225, ambos da CF. Não obstante, há uma constante tensão entre as atividades econômicas e as normas
protetivas do meio ambiente. Na impossibilidade de compatibilizá-los, há de se indagar sobre a
prevalência das atividades econômicas ou do meio ambiente. A resposta é que pela sistemática
constitucional as atividades econômicas não podem ser exercidas em desarmonia com os princípios
destinados a tornar efetiva a proteção ao meio ambiente. Esse é o entendimento do Supremo Tribunal
Federal (ADI nº 3.540), a saber: “a atividade econômica não pode ser exercida em desarmonia com os
princípios destinados a tornar efetiva a proteção ao meio ambiente. A incolumidade do meio ambiente
não pode ser comprometida por interesses empresariais nem ficar dependente de motivações de índole
meramente econômica, ainda mais se se tiver presente que a atividade econômica, considerada a
disciplina constitucional que a rege, está subordinada, dentre outros princípios gerais, àquele que
privilegia a ‘defesa do meio ambiente, inclusive mediante tratamento diferenciado conforme o impacto
ambiental dos produtos e serviços e de seus processos de elaboração e prestação’ (art. 170, VI, CF)”.

5.4 PRINCÍPIO DA SOLIDARIEDADE INTERGERACIONAL

Esse princípio decorre do conceito de desenvolvimento sustentável consignado no Relatório “Nosso


Futuro Comum” (Relatório Brundtland).
Com efeito, o caput do art. 225 da Constituição Federal relaciona o dever de defender e preservar o
meio ambiente “para as presentes e futuras gerações”. Esse é um dos mais significativos conteúdos do
texto constitucional, pois estabelece uma responsabilidade ética intergeracional.
Compete à presente geração utilizar os recursos naturais disponíveis sem comprometer a capacidade
de suporte e sobrevivência das gerações futuras. Em outras palavras, devemos legar aos nossos
descendentes um planeta com recursos naturais suficientes para a manutenção e desenvolvimento da sua
qualidade de vida. Para tanto, é fundamental repensar os insustentáveis padrões de consumo e produção
dos dias atuais. O acesso dessa geração aos recursos naturais não pode representar um risco às gerações
que estão por vir.
Desde a Declaração de Estocolmo (1972) já se previa a responsabilidade com as futuras gerações,
conforme consignado em seu Princípio 1: “o homem tem o direito fundamental à liberdade, à igualdade e
ao desfrute de condições de vida adequadas em um meio ambiente de qualidade tal que lhe permita levar
uma vida digna e gozar de bem-estar, tendo a solene obrigação de proteger e melhorar o meio
ambiente para as gerações presentes e futuras”. Ou ainda em seu Princípio 2: “Os recursos naturais
da terra incluídos o ar, a água, a terra, a flora e a fauna e especialmente amostras representativas dos
ecossistemas naturais devem ser preservados em benefício das gerações presentes e futuras,
mediante uma cuidadosa planificação ou ordenamento”.
Não foi diferente com a Declaração do Rio (1992), que reconhece a relevância da solidariedade
intergeracional: “o direito ao desenvolvimento deve ser exercido de tal forma que responda
equitativamente às necessidades de desenvolvimento e ambientais das gerações presentes e futuras”
(Princípio 3).
A importância da solidariedade intergeracional se reflete em temáticas como as mudanças climáticas,
a imprescritibilidade da reparação do dano ambiental, entre outras. É um princípio recorrente nos
julgados dos tribunais superiores.

5.5 PRINCÍPIO DA FUNÇÃO SOCIOAMBIENTAL DA PROPRIEDADE

O regime jurídico da propriedade foi tornado público com a Constituição de 1988. Isto é, os
princípios de direito público norteiam a concepção e o conteúdo do direito de propriedade no
ordenamento jurídico brasileiro. Garante-se o direito de propriedade (art. 5º, XXII, da CF), mas este
somente será legitimado ao atender a sua função social (art. 5º, XXIII, da CF).
É necessário consignar que a função social não limita o direito de propriedade. Ao reverso, a função
social é elemento essencial interno da propriedade, um conteúdo do direito de propriedade. Só se deve
falar em propriedade no ordenamento jurídico como função social.
A expressão “função socioambiental” nada mais é que a função social da propriedade com ênfase em
seu aspecto ambiental.
A função socioambiental da propriedade urbana, no bojo constitucional, assenta-se no § 2º do art.
182 da CF, enquanto a função socioambiental da propriedade rural é estabelecida no art. 186 da CF.
A propriedade urbana cumpre sua função social quando atende às exigências fundamentais de
ordenação da cidade expressas no plano diretor (art. 182, § 2º, da CF). O plano diretor é o instrumento
básico da política de desenvolvimento e de expansão urbana. Na leitura constitucional, a obrigatoriedade
é somente para as cidades com mais de 20 mil habitantes (art. 182, § 1º, CF). Não obstante, a Lei nº
10.257/2001, que disciplina o Estatuto da Cidade, dispõe de um rol mais amplo de cidades que devem
discutir e aprovar o seu plano diretor. Nesse sentido, o plano diretor é obrigatório para cidades (art.
41):

a) com mais de vinte mil habitantes;


b) integrantes de regiões metropolitanas e aglomerações urbanas;
c) onde o Poder Público municipal pretenda utilizar os instrumentos previstos no § 4º do art. 182 da
Constituição Federal;
d) integrantes de áreas de especial interesse turístico;
e) inseridas na área de influência de empreendimentos ou atividades com significativo impacto
ambiental de âmbito regional ou nacional;
f) incluídas no cadastro nacional de Municípios com áreas suscetíveis à ocorrência de deslizamentos
de grande impacto, inundações bruscas ou processos geológicos ou hidrológicos correlatos.

Por sua vez, o cumprimento da função socioambiental da propriedade rural impõe a observância do
art. 186 da CF:

A função social é cumprida quando a propriedade rural atende, simultaneamente, segundo critérios e
graus de exigência estabelecidos em lei, aos seguintes requisitos:
I – aproveitamento racional e adequado;
II – utilização adequada dos recursos naturais disponíveis e preservação do meio ambiente;
III – observância das disposições que regulam as relações de trabalho;
IV – exploração que favoreça o bem-estar dos proprietários e dos trabalhadores.

A leitura do art. 186 da Constituição destaca três aspectos para o cumprimento da função social da
propriedade rural:

a) o aspecto econômico, com o aproveitamento racional e adequado (inciso I);


b) o aspecto ambiental, pela utilização adequada dos recursos naturais disponíveis e a preservação
do meio ambiente (inciso II);
c) o aspecto social, com observância das disposições que regulam as relações de trabalho e a
exploração que favoreça o bem-estar dos proprietários e dos trabalhadores (incisos III e IV).

Não se trata de cumprir um ou outro desses aspectos. Ao reverso, a função social da propriedade rural
é satisfeita com a observância conjunta e indissociável desses três componentes. A propósito, o eventual
descumprimento da função social da propriedade rural enseja que a União proceda à desapropriação por
interesse social, para fins de reforma agrária, nos moldes do art. 184 da CF.
São exemplos da preservação do meio ambiente e da utilização adequada dos recursos naturais a
manutenção na propriedade rural da vegetação de possível área de preservação permanente, da
instituição e manutenção da reserva legal, da não contaminação dos lençóis freáticos, entre outros.
Já na seara infraconstitucional, o Código Civil, em seu art. 1.228, § 1º, dispõe sobre a função social:
“o direito de propriedade deve ser exercido em consonância com as suas finalidades econômicas e
sociais e de modo que sejam preservados, de conformidade com o estabelecido em lei especial, a flora, a
fauna, as belezas naturais, o equilíbrio ecológico e o patrimônio histórico e artístico, bem como evitada a
poluição do ar e das águas”.
Após as configurações legais da função socioambiental, cabe agora perquirir sobre o alcance da
palavra função. Segundo Silvia Cappelli et al., a expressão “função” contempla uma postura proativa,
que implica a obrigação de o proprietário adotar condutas positivas (como a obrigação de instituir a
reserva legal ou recompor áreas degradadas ou desmatadas) e negativas (como não poluir, não desmatar,
não degradar)4. Toda propriedade, rural ou urbana, contém obrigações positivas (fazer) e negativas (não
fazer).
Por se tratar de uma “função”, o Poder Público está legitimado a efetuar intervenções e medidas
protetivas ao meio ambiente. É poder-dever a salvaguarda de um meio ambiente ecologicamente
equilibrado.

FUNÇÃO SOCIOAMBIENTAL DA PROPRIEDADE


Urbana Rural
Art. 182, § 2º, da
Art. 186, II, da CF
CF
Utilização adequada dos recursos naturais disponíveis e preservação do
Plano Diretor
meio ambiente

5.6 PRINCÍPIO DA PREVENÇÃO

Segundo Paulo Affonso Leme Machado5, o vocábulo prevenção, do verbo prevenir, significa agir
antecipadamente. Essa é, em essência, a conduta inescusável em qualquer política, programa ou atuação
que albergue as questões ambientais.
Não é possível conceber o direito ambiental sob uma ótica meramente reparadora, pois esta o tornaria
inócuo, já que os danos ambientais, em regra, são praticamente irreversíveis, como se vê no
desmatamento de uma floresta centenária ou na extinção de uma espécie da fauna ou da flora. Sem uma
atuação antecipatória não há como evitar a ocorrência de danos ambientais. Por essa razão, o direito
ambiental é eminentemente preventivo.
Segundo Michel Prieur, “a prevenção consiste em impedir a superveniência de danos ao meio
ambiente por meio de medidas apropriadas, ditas preventivas, antes da elaboração de um plano ou da
realização de uma obra ou atividade”6.
O princípio da prevenção é aplicável ao risco conhecido.
Entende-se por risco conhecido aquele identificado por meio de pesquisas, dados e informações
ambientais ou ainda porque os impactos são conhecidos em decorrência dos resultados de intervenções
anteriores, por exemplo, a degradação ambiental causada pela mineração, em que as consequências para
o meio ambiente são de conhecimento geral. É a partir do risco ou perigo conhecido que se procura
adotar medidas antecipatórias de mitigação dos possíveis impactos ambientais.
São exemplos de aplicação do princípio da prevenção:

Estudo Prévio de Impacto Ambiental (EIA);


Licenciamento Ambiental;
Poder de Polícia Ambiental;
Auditorias Ambientais.

Nesse sentido, um relevante instrumento de efetivação do princípio da prevenção é o Estudo Prévio de


Impacto Ambiental (EIA), previsto no inciso IV do § 1º do art. 225 da Constituição Federal. O EIA
consiste em estudo que identifique previamente os possíveis impactos ambientais de uma atividade
efetiva ou potencialmente causadora de significativa degradação do meio ambiente e sugere as medidas
de mitigação e/ou compensatórias (como será abordado no capítulo 8).
O licenciamento ambiental de atividades efetiva ou potencialmente poluidoras, por sua vez, é
igualmente decorrência do princípio da prevenção (a ser analisado no capítulo 9).
De igual forma, o exercício do poder de polícia ambiental para a fiscalização e controle de técnicas,
métodos e substâncias que comportem risco para a vida, a qualidade de vida e o meio ambiente.
Por fim, a realização de auditorias ambientais, que podem ser públicas ou privadas. Trata-se de um
procedimento de avaliação ambiental em um empreendimento ou atividade, da conformidade com a
legislação ambiental; ou ainda, no contexto privado da responsabilidade socioambiental, de forma mais
ampla, da compatibilidade com normas empresariais de certificação, como o sistema ISO, que
estabelecem modelos de gestão de qualidade, como o ISO 14001 (sistema de gestão ambiental) ou ISO
26000 (de responsabilidade social). No capítulo 16 serão estudadas as auditorias florestais nos contratos
de concessão da Lei nº 11.284/2006, que versa sobre a gestão das florestas públicas e a concessão
florestal.

5.7 PRINCÍPIO DA PRECAUÇÃO

Alguns doutrinadores não distinguem o princípio da prevenção e o princípio da precaução. Em que


pese o entendimento, esses princípios possuem particularidades, o que nos impõe um estudo mais
detalhado.
O princípio da precaução encontra-se previsto no Princípio 15 da Declaração do Rio (1992), que
assim postula: “Quando houver ameaça de danos graves ou irreversíveis, a ausência de certeza científica
absoluta não será utilizada como razão para o adiamento de medidas economicamente viáveis para
prevenir a degradação ambiental”.
Esse é um princípio atrelado à incerteza científica.
No princípio da precaução o que se configura é a ausência de informações ou pesquisas científicas
conclusivas sobre a potencialidade e os efeitos de determinada intervenção sobre o meio ambiente e a
saúde humana. Ele atua como um mecanismo de gerenciamento de riscos ambientais, notadamente para as
atividades e empreendimentos marcados pela ausência de estudos e pesquisas objetivas sobre as
consequências para o meio ambiente e a saúde humana.
Como exemplos de aplicabilidade do princípio da precaução, podemos enumerar a necessidade de
sua observância no plantio de organismos geneticamente modificados (OGMs) ou ainda na gestão dos
riscos decorrentes das intervenções antrópicas que contribuem para a majoração da intensidade dos
efeitos do aquecimento global. Não há, como se sabe, estudos conclusivos sobre as consequências de
OGMs para a saúde humana e o meio ambiente e, como tal, faz-se necessária a observância do princípio
da precaução. Aliás, a Lei nº 11.105/2005, conhecida como Lei de Biossegurança, norteia-se pelo
princípio da precaução, como se vê em seu art. 1º, in verbis: “Esta Lei estabelece normas de segurança e
mecanismos de fiscalização sobre a construção, o cultivo, a produção, a manipulação, o transporte, a
transferência, a importação, a exportação, o armazenamento, a pesquisa, a comercialização, o consumo, a
liberação no meio ambiente e o descarte de organismos geneticamente modificados – OGM e seus
derivados, tendo como diretrizes o estímulo ao avanço científico na área de biossegurança e
biotecnologia, a proteção à vida e à saúde humana, animal e vegetal, e a observância do princípio da
precaução para a proteção do meio ambiente”.
A ausência de estudos e certezas científicas conclusivas não é um permissivo para que se realizem
intervenções no meio ambiente. Em termos objetivos, não se admite o plantio de uma espécie de OGM ou
o desenvolvimento de pesquisas genéticas sob a alegação de que não há provas ou estudos objetivos
sobre eventuais danos ao meio ambiente ou riscos à saúde humana. É justamente a ausência ou a
incompletude de provas e elementos sobre a potencialidade dos impactos que justifica a adoção do
princípio da precaução, que visa à espera da informação, ou seja, até que estudos e pesquisas sejam
realizados para autorizar eventual intervenção ou procedimento. Enfim, in dubio pro ambiente. Na
dúvida, não faça intervenções.
Nesse sentido, cabe ao julgador o exercício da prognose negativa. Significa que, se não há pesquisas,
dados e informações objetivas sobre a potencialidade de uma intervenção sobre o meio ambiente e os
riscos à saúde humana, assim como estão ausentes os elementos para estabelecer prognósticos seguros a
longo prazo, são necessários cautela, prudência e, como tal, efetuar um juízo de prognose negativa. Em
outras palavras, é preciso um juízo prudencial em face dos riscos de irreversibilidade. Como afirma o
filósofo Hans Jonas, “devemos aprender a pensar e agir com visão de longo prazo e evitar o
irreversível”7.
Não obstante a Lei de Biossegurança, que é de 2005, a primeira remissão ao princípio da precaução
ocorreu com a Lei nº 9.605/1998, que em seu art. 54, § 3º, faz alusão ao crime de poluição, a saber: “Art.
54. Causar poluição de qualquer natureza em níveis tais que resultem ou possam resultar em danos à
saúde humana, ou que provoquem a mortandade de animais ou a destruição significativa da flora: (…) §
3º Incorre nas mesmas penas previstas no parágrafo anterior quem deixar de adotar, quando assim o
exigir a autoridade competente, medidas de precaução em caso de risco de dano ambiental grave ou
irreversível”.
Além disso, vislumbra-se a precaução como princípio aplicável na proteção do Bioma Mata
Atlântica, previsto na Lei nº 11.428/2006: “Art. 6º (…) Parágrafo único. Na proteção e na utilização do
Bioma Mata Atlântica, serão observados os princípios da função socioambiental da propriedade, da
equidade intergeracional, da prevenção, da precaução, do usuário-pagador, da transparência das
informações e atos, da gestão democrática, da celeridade procedimental, da gratuidade dos serviços
administrativos prestados ao pequeno produtor rural e às populações tradicionais e do respeito ao direito
de propriedade”.
Em síntese, o princípio da precaução é a prudência ou cautela na intervenção, no plantio ou na
liberação de espécies e/ou substâncias de que ainda não se conheçam as consequências para o meio
ambiente e a saúde humana.

5.7.1 Prevenção x precaução


É oportuna a diferenciação entre o princípio da prevenção e o princípio da precaução. O princípio da
prevenção se configura a partir do risco ou perigo concreto, conhecido, enquanto o princípio da
precaução aplica-se ao risco ou perigo abstrato, incerto, que ainda não se conhecem os efeitos e
consequências.

5.7.2 Inversão do ônus da prova


A inversão do ônus da prova está prevista na Lei nº 8.078/1990, que disciplina o Código de Defesa do
Consumidor: “art. 6º São direitos básicos do consumidor: VIII – a facilitação da defesa de seus direitos,
inclusive com a inversão do ônus da prova, a seu favor, no processo civil, quando, a critério do juiz, for
verossímil a alegação ou quando for ele hipossuficiente, segundo as regras ordinárias de experiências”.
Em matéria ambiental, a inversão do ônus da prova está vinculada ao princípio da precaução.
Significa, em síntese, que cabe ao empreendedor demonstrar a segurança de sua atividade ou
empreendimento potencialmente perigoso para a saúde humana e o meio ambiente. É o que já decidiu o
Superior Tribunal de Justiça (STJ), a saber: “(…) 3. Justifica-se a inversão do ônus da prova,
transferindo para o empreendedor da atividade potencialmente perigosa o ônus de demonstrar a
segurança do empreendimento, a partir da interpretação do art. 6º, VIII, da Lei 8.078/1990 c/c o art. 21
da Lei 7.347/1985, conjugado ao Princípio Ambiental da Precaução” (REsp nº 972.902/RS). Em julgado
mais recente, decidiu o STJ: “Em ação ambiental, impõe-se a inversão do ônus da prova, cabendo ao
empreendedor, no caso concreto o próprio Estado, responder pelo potencial perigo que causa ao meio
ambiente, em respeito ao princípio da precaução. Precedentes” (REsp nº 1.237.893/SP, DJe 01.10.2013).
No mesmo sentido, temos o seguinte julgado do STJ: “(…) no Direito Ambiental brasileiro, a
inversão do ônus da prova é de ordem substantiva e ope legis, direta ou indireta (esta última se
manifesta, p. ex., na derivação inevitável do princípio da precaução), como também de cunho
estritamente processual, e ope judicis (assim no caso de hipossuficiência da vítima, verossimilhança da
alegação ou outras hipóteses inseridas nos poderes genéricos do juiz, emanação natural do seu ofício de
condutor e administrador do processo)” (REsp nº 883.656/RS, DJe 28.02.2012).

5.8 PRINCÍPIO DO POLUIDOR-PAGADOR

É um princípio de natureza econômica, cautelar e preventiva, que compreende a internalização dos


custos ambientais, que devem ser suportados pelo empreendedor, afastando-os da coletividade.
Segundo Cristiane Derani, o princípio do poluidor-pagador “visa à internalização dos custos relativos
externos da deterioração ambiental (…). Pela aplicação desse princípio, impõe-se ao “sujeito
econômico” (produtor, consumidor, transportador), que nesta relação pode causar um problema
ambiental, arcar com os custos da diminuição ou afastamento do dano”8.
Conforme o Princípio 16 da Declaração do Rio (1992), “as autoridades nacionais devem procurar
promover a internalização dos custos ambientais e o uso de instrumentos econômicos, tendo em vista a
abordagem segundo a qual o poluidor deve, em princípio, arcar com o custo da poluição, com a devida
atenção ao interesse público e sem provocar distorções no comércio e nos investimentos internacionais”.
Na legislação infraconstitucional, o princípio está expresso no inciso VII do art. 4º da Lei nº
6.938/1981, ao se afigurar na Política Nacional do Meio Ambiente como objetivo que vise “à imposição,
ao poluidor e ao predador, da obrigação de recuperar e/ou indenizar os danos causados (…)”.
O princípio do poluidor-pagador possui, segundo Celso Pacheco Fiorillo9, duas feições:

a) o caráter preventivo, ao buscar evitar a ocorrência de danos ambientais;


b) a natureza repressiva, já que, com a ocorrência do dano, faz-se necessária a reparação.

No aspecto preventivo, o princípio do poluidor-pagador obriga à internalização das externalidades


ambientais negativas. Entende-se por “internalização” o processo produtivo e por “externalidades
ambientais negativas” tudo aquilo que se encontra fora do processo de produção (função de custo e de
demanda), por exemplo, a poluição (os gases emitidos na atmosfera, os efluentes líquidos e gasosos, os
rejeitos etc.).
A fim de evitar que as externalidades ambientais negativas sejam suportadas pela comunidade
(como no caso de um rio que abastece os moradores de uma cidade e é poluído por determinada
empresa), impõe-se ao empreendedor a adoção de medidas preventivas, tais como a instalação de filtros
de limpeza de gases, estações de tratamentos de efluentes, destinação dos resíduos, disposição dos
rejeitos etc.
Ainda assim, mesmo que as medidas preventivas sejam adotadas, com a eventual verificação da
ocorrência de ônus ambientais, o empreendedor não se elide da obrigação de reparação, decorrência da
responsabilidade consignada no § 3º do art. 225 da CF e no § 1º do art. 14 da Lei nº 6.938/1981, que
dispõem sobre a responsabilidade civil objetiva. Em outras palavras, esse é o aspecto repressivo do
princípio do poluidor-pagador, denominado por alguns doutrinadores como princípio da
responsabilidade, já que a ocorrência do dano ambiental necessariamente implica a reparação, pois a
responsabilidade civil ambiental é objetiva (art. 14, § 1º, Lei nº 6.938/1981).
Sobre o princípio do poluidor-pagador o STJ assim se manifestou (grifos nossos): “(…) não mais se
admite, nem se justifica, que para produzir ferro e aço a indústria brasileira condene as gerações futuras a
uma herança de externalidades ambientais negativas, rastros ecologicamente perversos de uma
atividade empresarial que, por infeliz escolha própria, mancha sua reputação e memória, ao exportar
qualidade, apropriar-se dos benefícios econômicos e, em contrapartida, literalmente queimar, nos seus
fornos, nossas florestas e bosques, que, nas fagulhas expelidas pelas chaminés, se vão irreversivelmente”
(REsp nº 1.137.314, DJe 04.05.2011).

O empreendedor é responsável pelos custos de prevenção e reparação


dos impactos ambientais de sua atividade econômica. Mas isso não
significa que “pago, logo posso poluir”!

5.9 PRINCÍPIO DO USUÁRIO-PAGADOR

Trata-se de princípio complementar ao poluidor-pagador, a ponto de alguns doutrinadores o estudarem


como um princípio único. Inobstante, a opção é pela abordagem particular de cada um deles.
Está previsto no inciso VII do art. 4º da Lei nº 6.938/1981 como um dos objetivos da Política
Nacional do Meio Ambiente, com a imposição “(…) ao usuário, da contribuição pela utilização de
recursos ambientais com fins econômicos”.
O princípio do usuário pagador é decorrente da necessidade de valoração econômica dos recursos
naturais, de quantificá-los economicamente, evitando o que se denomina “custo zero”, que é a ausência de
cobrança pela sua utilização. O “custo zero” conduz à hiperexploração de um bem ambiental que, por
consequência, leva à sua escassez. Como exemplo, ao não se valorar o custo pela utilização da água, sua
exploração e utilização serão inevitavelmente feitas de forma excessiva, com a diminuição da
disponibilidade desse bem fundamental para a vida10.
Aliás, a água é um bem dotado de valor econômico. Com efeito, a Lei nº 9.433/1997, que instituiu a
Política Nacional de Recursos Hídricos, dispõe sobre a cobrança do uso de recursos hídricos, ao “(…)
reconhecer a água como bem econômico e dar ao usuário uma indicação de seu real valor” (art. 19, I). A
importância da racionalização da água é reconhecida nos novos diplomas legais, como se vê na Lei nº
12.862/2013, que alterou a Lei nº 11.445/2007 (Política Nacional de Saneamento Básico), ao estabelecer
que os serviços públicos de saneamento básico serão prestados com base em alguns princípios
fundamentais, dentre eles “(…) a adoção de medidas de fomento à moderação do consumo de água” (art.
2º, XIII). No mesmo sentido, a Lei nº 13.233/2015, ao dispor que “as embalagens e rótulos dos
equipamentos e produtos de limpeza cujo uso implicar consumo de água conterão mensagem de
advertência sobre o risco de escassez e de incentivo ao consumo moderado de água (art. 1º, caput)”, que
deverá ser inserida em destaque e de forma legível nas embalagens e rótulos, utilizando-se a expressão
“Água: pode faltar. Não desperdice” (art. 1º, § 1º). Por fim, a Lei nº 13.312/2016, que acrescentou o § 3º
ao art. 29 da Lei nº 11.445/2007, a saber: “as novas edificações condominiais adotarão padrões de
sustentabilidade ambiental que incluam, entre outros procedimentos, a medição individualizada do
consumo hídrico por unidade imobiliária”. Pontua-se que a lei que tornou obrigatória a medição
individualizada do consumo hídrico nas novas edificações condominiais entrará em vigor após
decorridos cinco anos da sua publicação oficial.
É importante observar que qualquer cobrança sobre a utilização de bens ambientais deve ser prevista
em lei, o que demonstra a sua relação com o princípio da legalidade.
A importância do princípio do usuário-pagador foi realçada pelo Supremo Tribunal Federal na ADI nº
3.378, que discutiu a constitucionalidade da compensação ambiental nas unidades de conservação, a
saber: “(…) o art. 36 da Lei nº 9.985/2000 densifica o princípio usuário-pagador, este a significar um
mecanismo de assunção partilhada da responsabilidade social pelos custos ambientais derivados da
atividade econômica”.

5.10 PRINCÍPIO DO PROTETOR-RECEBEDOR

O protetor-recebedor foi positivado com a Lei nº 12.305/2010, que o cristalizou como um dos
princípios da Política Nacional de Resíduos Sólidos.
Enquanto o princípio do usuário-pagador estabelece o pagamento pelo uso dos recursos naturais com
fins econômicos, o princípio do protetor-recebedor concede aos agentes que optam por medidas de
proteção ao meio ambiente benefícios econômicos, fiscais ou tributários.
Graças à adoção de práticas de preservação ambiental, esses agentes, sejam pessoas físicas ou
jurídicas, renunciam ao uso dos recursos naturais em benefício de toda a coletividade. Por essa razão,
estabeleceu-se a compensação econômica.
Nas palavras de Maurício Andrés Ribeiro: “Trata-se de um fundamento da ação ambiental que pode
ser considerado o avesso do conhecido princípio usuário-pagador, que postula que aquele que usa um
determinado recurso da natureza pague por tal utilização. Para que serve sua aplicação? Serve para
implementar a justiça econômica, valorizando os serviços ambientais prestados generosamente por uma
população ou sociedade, e remunerando economicamente essa prestação de serviços porque, se tem valor
econômico, é justo que se receba por ela. A prática desse princípio estimula a preservação e incentiva
economicamente quem protege uma área, ao deixar de utilizar os recursos de que poderia dispor”11.
Podemos enumerar alguns exemplos de aplicação do princípio do protetor-recebedor:

a) servidão ambiental (art. 9º-A da Lei nº 6.938/1981), em que o proprietário ou possuidor de


imóvel, pessoa natural ou jurídica, pode limitar o uso de toda a sua propriedade ou de parte dela
para preservar, conservar ou recuperar os recursos ambientais existentes, beneficiando-se, desta
maneira, com a isenção do Imposto Territorial Rural (ITR) sobre a área de servidão. Além disso,
poderá emitir para cada hectare protegido uma Cota de Reserva Florestal (art. 44, I, da Lei nº
12.651/2012) e comercializá-la em bolsas de mercadorias de âmbito nacional ou em sistemas de
registro e de liquidação financeira de ativos autorizados pelo Banco Central do Brasil (art. 47 da
Lei nº 12.651/2012);
b) o Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS ecológico ou verde) adotado em
alguns Estados, como São Paulo, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, entre outros;
c) a isenção do ITR sobre as Reservas Particulares do Patrimônio Natural, Reservas Legais e Áreas
de Preservação Permanente (art.10, § 1º, II, a, Lei nº 9.393/1996);
d) Bolsa Verde no Estado de Minas Gerais (Lei Estadual nº 17.727/2008), que “(…) tem por
objetivo apoiar a conservação da cobertura vegetal nativa em Minas Gerais, mediante pagamento
por serviços ambientais aos proprietários e posseiros que já preservam ou que se comprometem a
recuperar a vegetação de origem nativa em suas propriedades ou posses. A prioridade é para
agricultores familiares e pequenos produtores rurais”12.

Como se viu nos exemplos, o princípio do protetor-recebedor atua por meio de instrumentos e
medidas de incentivo econômico para a proteção aos recursos naturais como alternativa às exigências
legais, visto que estas nem sempre são cumpridas pelos atores sociais e econômicos. Essas medidas de
justiça econômica fornecem aos pequenos produtores rurais e populações tradicionais maior efetividade
na proteção ambiental mediante incentivos fiscais, tributários e econômicos do que a aplicação de
sanções legais, como a imposição de multas ou o enquadramento nas tipificações penais. Nesse caso,
nada mais justo, uma vez que aquele que protege ou renuncia à exploração de recursos naturais em prol
da coletividade deve ser contemplado com os incentivos decorrentes do princípio do protetor-recebedor.

PRINCÍPIO DO POLUIDOR- PRINCÍPIO DO USUÁRIO PRINCÍPIO DO PROTETOR-


PAGADOR PAGADOR RECEBEDOR
O empreendedor é
Concede benefícios
responsável pelos custos de
econômicos, fiscais e
prevenção e reparação dos
O usuário deve pagar pelo uso tributários aos agentes
impactos ambientais
dos recursos naturais com fins (pessoas físicas ou jurídicas)
provenientes de sua atividade
econômicos. que adotam medidas de
econômica. Deve internalizar
proteção aos recursos
as externalidades ambientais
naturais.
negativas.

5.11 PRINCÍPIO DA INFORMAÇÃO AMBIENTAL

O direito de acesso à informação é uma das principais prerrogativas para a efetivação do Estado
Democrático de Direito. No direito ambiental, a informação é essencial para a proteção do meio
ambiente e por zelar pela saúde da coletividade.
O Princípio 10 da Declaração do Rio (1992) aduz que, “(…) no nível nacional, cada indivíduo terá
acesso adequado às informações relativas ao meio ambiente de que disponham as autoridades públicas,
inclusive informações acerca de materiais e atividades perigosas em suas comunidades, bem como a
oportunidade de participar dos processos decisórios. Os Estados irão facilitar e estimular a
conscientização e a participação popular, colocando as informações à disposição de todos (…)”.
A Política Nacional do Meio Ambiente (Lei nº 6.938/1981), no inciso V do art. 4º, igualmente
relaciona a informação ambiental como um de seus objetivos, que visa “(…) à divulgação de dados e
informações ambientais e à formação de uma consciência pública sobre a necessidade de preservação da
qualidade ambiental e do equilíbrio ecológico”.
Além disso, o governo federal criou o Sistema Nacional de Informações Ambientais (Sinima),
visando articular as informações dos órgãos integrantes do Sistema Nacional de Meio Ambiente
(Sisnama).
A fim de garantir a efetivação desse princípio editou-se a Lei nº 10.650/2003, que dispõe sobre o
acesso público aos dados e informações ambientais existentes nos órgãos e entidades integrantes do
Sistema Nacional do Meio Ambiente (Sisnama). Para tanto, qualquer indivíduo, independentemente da
comprovação de interesse específico, terá acesso às informações ambientais, mediante requerimento
escrito, sobre os seguintes aspectos: a) qualidade do meio ambiente; b) políticas, planos e programas
potencialmente causadores de impacto ambiental; c) resultados de monitoramento e auditoria nos
sistemas de controle de poluição e de atividades potencialmente poluidoras, assim como planos e ações
de recuperação de áreas degradadas; d) acidentes, situações de risco ou de emergência ambientais; e)
emissões de efluentes líquidos e gasosos, e produção de resíduos sólidos; f) substâncias tóxicas e
perigosas; g) diversidade biológica; h) organismos geneticamente modificados (art. 2º). Devemos
ressaltar que o indivíduo que acessar esses dados assume a obrigação de não utilizá-los para fins
comerciais, sob as penas da lei civil, penal, de direito autoral e de propriedade industrial, assim como é
obrigado a citar as fontes, na eventualidade de divulgar os dados obtidos (art. 2º, § 1º).
Outra manifestação do princípio da informação ambiental é o direito dos consumidores serem
informados sobre produtos e alimentos que contenham organismos geneticamente modificados
(OGM). Dispõe o art. 40 da Lei nº 11.105/2005 que “(…) os alimentos e ingredientes alimentares
destinados ao consumo humano ou animal que contenham ou sejam produzidos a partir de OGM ou
derivados deverão conter informação nesse sentido em seus rótulos, conforme regulamento”.

5.12 PRINCÍPIO DA PARTICIPAÇÃO COMUNITÁRIA

Com o acesso às informações ambientais, faz-se necessário franquear instrumentos de participação


comunitária no processo de formulação das políticas públicas ambientais. Em vez da submissão às
decisões prontas, é preciso que o cidadão participe do debate, da formulação, da execução e da
fiscalização das políticas públicas ambientais, em contribuição à democracia participativa.
Dispõe a Declaração do Rio (1992) em seu Princípio 10: “(…) Os Estados irão facilitar e estimular a
conscientização e a participação popular, colocando as informações à disposição de todos. Será
proporcionado o acesso efetivo a mecanismos judiciais e administrativos, inclusive no que se refere à
compensação e reparação de danos”.
A participação na tomada de decisões ambientais não pode ser interpretada somente como uma
faculdade, mas um dever jurídico, como expressa o caput do art. 225 da Constituição, ao impor ao Poder
Público e à coletividade a obrigação de proteger o meio ambiente para as presentes e futuras gerações. É
com a participação comunitária que esse dever jurídico de proteção ao meio ambiente se concretiza.
Em termos gerais, a participação comunitária se desdobra em três aspectos:

a) esfera administrativa;
b) esfera legislativa;
c) esfera judicial.

Na esfera administrativa, o princípio se manifesta por meio de audiências e consultas públicas; com
a participação em órgãos colegiados (conselhos de meio ambiente); e no exercício do direito de petição
aos órgãos públicos ambientais.
Na esfera legislativa, aplicam-se os instrumentos clássicos elencados no art. 14 da Constituição
Federal, a saber: plebiscito, referendo e iniciativa popular de projeto de lei.
A participação na esfera judicial, observada a legitimidade para a propositura, ocorre por meio das
ações constitucionais, tais como mandado de segurança individual ou coletivo, a ação popular, o
mandado de injunção.

INSTRUMENTOS DE PARTICIPAÇÃO COMUNITÁRIA


ADMINISTRATIVO LEGISLATIVO JUDICIAL
Audiências Públicas
Plebiscito Ação Popular
Consultas Públicas
Referendo Mandado de
Participação em Conselhos de Meio
Iniciativa Popular de Projeto Segurança
Ambiente
de lei Mandado de Injunção
Direito de Petição

5.13 PRINCÍPIO DA EDUCAÇÃO AMBIENTAL

A Declaração de Estocolmo sobre o Meio Ambiente Humano (1972) já destacava a importância da


Educação Ambiental em seu Princípio 19: “é indispensável um esforço para a educação em questões
ambientais, dirigida tanto às gerações jovens como aos adultos e que preste a devida atenção ao setor da
população menos privilegiado, para fundamentar as bases de uma opinião pública bem informada, e de
uma conduta dos indivíduos, das empresas e das coletividades inspirada no sentido de sua
responsabilidade sobre a proteção e melhoramento do meio ambiente em toda sua dimensão humana. É
igualmente essencial que os meios de comunicação de massas evitem contribuir para a deterioração do
meio ambiente humano e, ao contrário, difundam informação de caráter educativo sobre a necessidade de
protegê-lo e melhorá-lo, a fim de que o homem possa desenvolver-se em todos os aspectos”.
Não foi diferente no âmbito constitucional, ao dispor, conforme o inciso VI, § 1º, do art. 225 da
Constituição, que compete ao Poder Público “(…) promover a educação ambiental em todos os níveis de
ensino e a conscientização pública para a preservação do meio ambiente”.
Entende-se como educação ambiental “(…) os processos por meio dos quais o indivíduo e a
coletividade constroem valores sociais, conhecimentos, habilidades, atitudes e competências voltadas
para a conservação do meio ambiente, bem de uso comum do povo, essencial à sadia qualidade de vida e
sua sustentabilidade” (art. 1º, Lei nº 9.795/1999). Além disso, a educação ambiental é um componente
essencial e permanente da educação nacional, devendo estar presente, de forma articulada, em todos os
níveis e modalidades do processo educativo, em caráter formal e não formal.
Graças à educação ambiental será possível a conscientização pública sobre a importância da
preservação do meio ambiente e o surgimento de uma geração de cidadãos com consciência crítica, que
exerce os princípios da informação e da participação comunitária, cientes da importância de padrões
sustentáveis de consumo e produção.

1. A Educação Ambiental será desenvolvida como uma prática educativa


integrada, contínua e permanente em todos os níveis e modalidades do
ensino formal.
2. A Educação Ambiental não deve ser implantada como disciplina
específica no currículo de ensino.
3. Quando se fizer necessário, é facultada a criação de disciplina
específica nos cursos de pós-graduação, extensão e nas áreas voltadas
ao aspecto metodológico da educação ambiental.
4. Nos cursos de formação e especialização técnico-profissional, em todos
os níveis, deve ser incorporado conteúdo que trate da ética ambiental das
atividades profissionais a serem desenvolvidas.

5.14 PRINCÍPIO DA COOPERAÇÃO

Alguns doutrinadores referenciam esse princípio como “cooperação entre os povos”. A opção é por
uma leitura mais ampla.
Cooperar significa agir em conjunto e, para o direito ambiental, a cooperação ocorre tanto na esfera
internacional quanto nacional.
A importância da cooperação internacional é objeto de vários princípios da Declaração do Rio
(1992), que assim prescreve: “(…) todos os Estados e todos os indivíduos, como requisito indispensável
para o desenvolvimento sustentável, irão cooperar na tarefa essencial de erradicar a pobreza, a fim de
reduzir as disparidades de padrões de vida e melhor atender às necessidades da maioria da população do
mundo” (Princípio 5). Além disso, “(…) os Estados irão cooperar, em espírito de parceria global, para a
conservação, proteção e restauração da saúde e da integridade do ecossistema terrestre” (Princípio 7), e
cooperar “(…) na promoção de um sistema econômico internacional aberto e favorável, propício ao
crescimento econômico e ao desenvolvimento sustentável em todos os países, de forma a possibilitar o
tratamento mais adequado dos problemas da degradação ambiental” (Princípio 12); e, mais, “(…) os
Estados irão desenvolver legislação nacional relativa à responsabilidade e à indenização das vítimas de
poluição e de outros danos ambientais. Os Estados irão também cooperar, de maneira expedita e mais
determinada, no desenvolvimento do direito internacional no que se refere à responsabilidade e à
indenização por efeitos adversos dos danos ambientais causados, em áreas fora de sua jurisdição, por
atividades dentro de sua jurisdição ou sob seu controle” (Princípio 13). Conclui nos seguintes termos:
“Os Estados e os povos irão cooperar de boa-fé e imbuídos de um espírito de parceria para a realização
dos princípios consubstanciados nesta Declaração, e para o desenvolvimento progressivo do direito
internacional no campo do desenvolvimento sustentável” (Princípio 27).
A cooperação internacional para a preservação do meio ambiente é um dos capítulos da Lei nº
9.605/1998, com prescrições em seus arts. 77 e 78.
No plano interno, as distribuições das competências constitucionais (arts. 21, 22, 23, 24, 25 e 30 da
CF) no modelo do federalismo cooperativo permite que todos os entes atuem na proteção ambiental,
visando ao meio ambiente ecologicamente equilibrado.
Além disso, o caput do art. 225 coloca como dever do Poder Público e da coletividade a proteção ao
meio ambiente, como obrigação comum e obrigatória.

5.15 PRINCÍPIO DA NATUREZA PÚBLICA DA PROTEÇÃO AMBIENTAL

O meio ambiente é, segundo o art. 225 da Constituição de 1988, bem de uso comum do povo,
indisponível e insuscetível de apropriação. O meio ambiente é considerado como valor a ser
necessariamente assegurado e protegido para uso de todos, já que é um bem de fruição humana coletiva13.
Nesse sentido, “(…) a natureza pública que qualifica o interesse na tutela do ambiente, bem de uso
comum do povo, torna-o indisponível. Não é dado, assim, ao Poder Público – menos ainda aos
particulares – transigir em matéria ambiental, apelando para uma disponibilidade impossível”14.

5.16 PRINCÍPIO DA PROIBIÇÃO DE RETROCESSO ECOLÓGICO

Também denominado de princípio “da vedação de retrocesso ambiental” ou “princípio da proibição


de retrogradação socioambiental”. Reveste-se de princípio implícito.
Em matéria ambiental, assim como em matéria de direitos sociais, não há que se retroceder a níveis de
proteção inferiores.
Conforme Alexandra Aragão15, “(…) no âmbito interno, o princípio da proibição do retrocesso
ecológico, espécie de cláusula rebus sic stantibus, significa que, a menos que as circunstâncias de facto
se alterem significativamente, não é de admitir o recuo para níveis de protecção inferiores aos
anteriormente consagrados. Nesta vertente, o princípio põe limites à adopção de legislação de revisão ou
revogatória”. A autora lusitana afirma que a suspensão da legislação deve ocorrer somente em situações
excepcionais como calamidade pública, estado de sítio ou estado de emergência grave. Contudo, por se
tratar de medidas transitórias, assim que cessar o motivo da excepcionalidade, é necessário restabelecer
a legislação suspensa e, como tal, a proteção correspondente.
Este princípio almeja uma proteção contra os retrocessos e flexibilizações in pejus na legislação, o
que é uma verdadeira “blindagem protetiva”16. Até mesmo porque opta-se não raramente por interesses
políticos e econômicos em detrimento à proteção e garantia do meio ambiente ecologicamente
equilibrado.
Conforme Sarlet e Fensterseifer17, “(…) no caso especialmente da legislação ambiental que busca dar
operatividade ao dever constitucional de proteção do ambiente, há que assegurar a sua blindagem contra
retrocessos que a tornem menos rigorosa ou flexível, admitindo práticas poluidoras hoje proibidas, assim
como buscar sempre um nível mais rigoroso de proteção, considerando especialmente o déficit legado
pelo nosso passado e um “ajuste de contas” com o futuro, no sentido de manter um equilíbrio ambiental
também para as futuras gerações”.
O STJ possui julgado reconhecendo o princípio da proibição de retrocesso, a saber (grifos nossos):

“O exercício do ius variandi, para flexibilizar restrições urbanístico-ambientais contratuais, haverá


de respeitar o ato jurídico perfeito e o licenciamento do empreendimento, pressuposto geral que, no
Direito Urbanístico, como no Direito Ambiental, é decorrência da crescente escassez de espaços
verdes e dilapidação da qualidade de vida nas cidades. Por isso mesmo, submete-se ao princípio da
não regressão (ou, por outra terminologia, princípio da proibição de retrocesso), garantia de que
os avanços urbanístico-ambientais conquistados no passado não serão diluídos, destruídos ou negados
pela geração atual ou pelas seguintes” (REsp nº 302.906, DJe 01.12.2010).

Além do STJ, encontra-se na pauta do Supremo Tribunal Federal o julgamento da ADI nº 4.252, em
face do Código Ambiental de Santa Catarina e quatro ADIs contra dispositivos do novo Código
Florestal, três de autoria do Procuradoria-Geral da República (ADIs nºs 4.901, 4.902 e 4.903) e uma do
Partido Socialismo e Liberdade (ADI nº 4.937). O fundamento dessas ADIs é o princípio da proibição de
retrocesso ecológico e os julgamentos respectivos serão fundamentais para a leitura desse princípio no
nosso ordenamento jurídico.

5.17 PRINCÍPIO DO PROGRESSO ECOLÓGICO


Enquanto o princípio da proibição de retrocesso ecológico pretende a proteção contra as
retrogradações, como forma de impedir níveis de proteção inferiores, o princípio do progresso ecológico
impõe ao Estado a obrigatoriedade de rever e aprimorar a legislação e os mecanismos de proteção ao
meio ambiente.
Conforme Alexandra Aragão18, o princípio identifica-se com a ideia de não estagnação, com o dever
de o Estado aprimorar a legislação existente. Afinal, a proteção ao meio ambiente ecologicamente
equilibrado não é somente para o presente, mas igualmente para as gerações futuras, e, portanto, faz-se
inescusável a adoção de medidas legislativas e administrativas para a melhoria da qualidade ambiental.
Para tanto, é forçoso o uso das melhores técnicas disponíveis, decorrente dos avanços tecnológicos no
controle de atividades poluidoras.
Entende-se por melhor técnica disponível “(…) o estágio mais eficaz e avançado alcançado para o
desenvolvimento das atividades e seus métodos de operação, que indica a prática adequada de uma
técnica particular a servir de base para estabelecer os valores-limite de emissão criados para prevenir e,
nos casos em que isso não for praticável, reduzir de forma geral as emissões e o impacto no meio
ambiente como um todo”19.
A observância da progressão em matéria ambiental é decorrência igualmente dos tratados e
convenções de direitos humanos. Com efeito, esse princípio encontra paralelo na cláusula de
progressiva realização dos direitos econômicos, sociais e culturais, prevista no Pacto Internacional de
Direitos Econômicos, Sociais e Culturais (art. 2º, § 1º), do Sistema Global de Direitos Humanos (ONU)
e no Protocolo de San Salvador (art. 1º), do Sistema Interamericano de Direitos Humanos (OEA).
A progressividade pretende atingir condições ambientais idênticas ou melhores do que aquelas
recebidas das gerações passadas.

5.18 SÍNTESE
• Princípio do meio ambiente ecologicamente equilibrado como direito fundamental: conforme o
caput do art. 225 da Constituição Federal, o meio ambiente ecologicamente equilibrado é um direito
fundamental.
• Princípio do desenvolvimento sustentável: por meio do desenvolvimento sustentável
compatibiliza-se o desenvolvimento das atividades econômicas com a proteção ao meio ambiente.
• Princípio da solidariedade intergeracional: é aquele que atende às necessidades do presente sem
comprometer a possibilidade de as gerações futuras atenderem às suas próprias necessidades. É um
princípio de ética entre as gerações.
• Princípio da função socioambiental da propriedade: o uso da propriedade, urbana ou rural,
somente se legitima com o cumprimento da função socioambiental. Os critérios para o cumprimento da
função social da propriedade urbana encontram-se no plano diretor municipal (art. 182, § 2º) enquanto o
da função social da propriedade rural está no art. 186 da Constituição Federal.
• Princípio da prevenção: é aplicável ao risco conhecido, interpretado como aquele identificado
pelas pesquisas e informações ambientais ou conhecido porque já ocorreu anteriormente, como em uma
atividade de mineração, em que as degradações ambientais são de conhecimento geral. A essência do
direito ambiental é eminentemente preventiva e as medidas de antecipação ocorrem por meio do
EIA/RIMA, do licenciamento ambiental e do exercício do poder de polícia.
• Princípio da precaução: aplica-se ao risco ou perigo in abstracto, ou seja, desconhecido,
decorrente da ausência de informações objetivas ou pesquisas científicas conclusivas sobre a
potencialidade e os efeitos de uma intervenção para o meio ambiente e a saúde humana. Tem-se aqui a
incerteza científica, a incerteza sobre os efeitos do dano potencial. Na dúvida, não faça interferências no
meio ambiente (in dubio pro ambiente).
• Princípio do poluidor-pagador: de natureza econômica, compreende a internalização dos custos
ambientais, que devem ser suportados pelo empresário/empreendedor, que os afasta da coletividade.
Impõe-se ao empreendedor adotar todas as medidas para evitar as externalidades ambientais negativas
(gases, efluentes, resíduos sólidos). Ainda que adote todas as medidas de prevenção e o dano ocorra, o
empreendedor será obrigado a repará-lo, já que a responsabilidade civil ambiental é objetiva.
• Princípio do usuário-pagador: o princípio reconhece a necessidade de valoração econômica dos
recursos naturais, com a cobrança pela sua utilização. Somente com a cobrança é que se consegue
conferir o real valor dos bens ambientais e evitar a hiperexploração, que leva à escassez do bem. Um
exemplo é o uso da água, que possui valor econômico e sua cobrança visa evitar o seu uso exagerado,
uma vez que é bem finito, limitado.
• Princípio do protetor-recebedor: concede benefícios econômicos, fiscais e tributários aos agentes
que adotam medidas de proteção aos recursos naturais. Exemplos: ICMS Ecológico, isenção de ITR em
APP, reserva Legal, RPPN etc.
• Princípio da informação ambiental: é direito da população receber e ter acesso às informações
sobre todos os procedimentos, públicos ou privados, que intervenham no meio ambiente. Assim, a
população tem o direito de ser informada sobre a qualidade dos bens ambientais, sobre a realização de
obras e atividades efetiva e potencialmente poluidoras que afetem a saúde humana e o meio ambiente.
• Princípio da participação comunitária: é por meio desse princípio que a população: (a) participa
das políticas públicas ambientais na esfera administrativa (audiências, consultas públicas e recursos
administrativos); (b) propõe ações judiciais no Poder Judiciário; ou (c) vota, por meio dos mecanismos
legislativos (plebiscito, referendo e iniciativa popular de lei). A participação na tomada de decisões
ambientais não é somente uma faculdade, mas um dever jurídico, como expressa o caput do art. 225 da
Constituição, ao impor ao Poder Público e à coletividade o dever de proteger o meio ambiente para as
presentes e futuras gerações.
• Princípio da cooperação: cooperar significa agir em conjunto, e, para o direito ambiental, a
cooperação ocorre na esfera internacional e nacional. Na esfera internacional a proteção ao meio
ambiente é uma obrigação conjunta dos Estados, que atuam para a redução da pobreza e para o
desenvolvimento sustentável. No âmbito interno, o Brasil adotou o federalismo cooperativo, de partilha
de responsabilidades entre os entes federativos (União, Estados, Distrito Federal e Municípios) na
proteção ao meio ambiente. Além disso, o caput do art. 225 coloca a proteção ao meio ambiente como
dever do Estado e da coletividade, assim como também obrigação comum entre entes políticos e a
sociedade civil.
• Princípio da natureza pública da proteção ambiental: a natureza pública que qualifica o interesse
na tutela do ambiente como bem de uso comum do povo torna-o indisponível.
• Princípio da vedação ao retrocesso: não é admissível o recuo para níveis de proteção inferiores
em matéria de proteção ambiental. O que se pretende é a proteção contra os retrocessos e flexibilizações
na legislação ambiental.
• Princípio do progresso ecológico: o princípio do progresso ecológico impõe ao Estado a
obrigatoriedade de rever e aprimorar a legislação e os mecanismos de proteção ao meio ambiente.

5.19 QUESTÕES PARA FIXAÇÃO

5.19.1 Questões objetivas

1. (FAURGS – 2016 – Juiz de Direito Substituto – TJ/RS) Acerca dos princípios de


Direito Ambiental, assinale a alternativa INCORRETA.
(A) A incorporação do princípio da subsidiariedade, no ordenamento jurídico nacional,
como princípio do Direito Ambiental, reforça o princípio do federalismo cooperativo
ecológico. Nesses termos, o princípio da subsidiariedade traça diretrizes quanto à
descentralização política do Estado em matéria ambiental.
(B) No princípio 10 da Declaração do Rio (1992), da mesma forma que na Convenção de
Aarhus (1998), identificam-se os três pilares que alicerçam o princípio da
participação pública em matéria ambiental, ou seja, o acesso à informação, a
participação pública na tomada de decisões e o acesso à justiça.
(C) O princípio da solidariedade intergeracional está interligado ao princípio da
sustentabilidade, considerando que a preocupação dos defensores do princípio da
solidariedade intergeracional ( ) é assegurar o aproveitamento
racional dos recursos ambientais, de forma que as gerações futuras também possam
deles tirar proveito.
(D) Entre o princípio da precaução e da prevenção, na realidade, existe diferença de
grau e não tanto de espécie. O princípio da precaução passa a noção de maior
certeza sobre os efeitos de determinada técnica e leva em consideração o potencial
lesivo, determinando-se que sejam evitados os danos já conhecidos. Já com o
princípio da prevenção, planeja-se regular o uso de técnicas sobre as quais não há
uma certeza quanto aos efeitos, procurando-se evitar os resultados danosos, com a
lógica ou ambiente.
(E) O dever de incorporar critérios eficientes e eficazes de sustentabilidade às licitações
e contratações públicas descende de imperativo constitucional (v.g. artigo 225 e
artigo 170, inclusive como princípio geral da atividade econômica), no sentido de que
as políticas públicas devem estar endereçadas para o princípio do desenvolvimento
sustentável. Conjuntamente, no Brasil, há previsão infraconstitucional ( . trazida
pela Lei nº 12.349/2010); ademais, na Declaração do Rio de 1992 (princípio 8) foi
semeada a noção de consumo sustentável, complementada na Conferência de
Johanesburgo e implementada internacionalmente mediante o Processo de
Marrakech.

2. (TRF 3ª Região – 2016 – Juiz Federal Substituto) Dadas as assertivas abaixo,


assinale a alternativa correta.
I – O princípio da prevenção está intimamente relacionado ao brocardo jurídico
e, segundo jurisprudência das Cortes Superiores, impõe o
reconhecimento da inversão do ônus da prova.
II – A respeito das sanções penais e administrativas derivadas de condutas e atividades
lesivas ao meio ambiente, é possível afirmar que configuram circunstâncias atenuantes o
baixo grau de instrução ou escolaridade do agente, o arrependimento do infrator,
manifestado pela espontânea reparação do dano, ou limitação significativa da degradação
ambiental causada, a comunicação prévia pelo agente do perigo iminente de degradação
ambiental, a ausência de intuito de obtenção de vantagem pecuniária e a colaboração com
os agentes encarregados da vigilância e do controle ambiental.
III – Tratando-se de direito difuso, a reparação civil de danos ambientais assume grande
amplitude, com profundas implicações na espécie de responsabilidade do degradador, que
é objetiva e fundada no simples risco ou no simples fato da atividade danosa,
independentemente da culpa do agente causador do dano.
Estão corretas as assertivas:
(A) I e II.
(B) I, II e III.
(C) II e III.
(D) III.

3. (PUC-PR – 2015 – Procurador Municipal – Prefeitura de Maringá) Ao incumbir o


Poder Público de exigir, na forma da lei, o estudo prévio de impacto ambiental para
a instalação de obra ou atividade potencialmente causadora de significativa
degradação do meio ambiente, a Constituição Federal de 1988 aplicou quais
princípios do Direito Ambiental?
(A) Poluidor-pagador e educação ambiental.
(B) Prevenção e precaução.
(C) Taxatividade e vedação do retrocesso.
(D) Usuário-pagador e autonomia da vontade.
(E) Cooperação e protetor-recebedor.

4. (CESPE – 2015 – Juiz Substituto – TJ-PB) A componente ambiental da definição de


função social da propriedade é um dos elementos fundamentais da sua
configuração. No entanto, atualmente, a expressão mais adequada seria função
socioambiental da propriedade. A esse respeito, tendo como base as normas
jurídicas aplicáveis e a jurisprudência dos tribunais superiores, assinale a opção
correta.
(A) Para que novo adquirente de propriedade seja responsabilizado por danos causados
nessa propriedade pelo antigo proprietário, é necessário que se demonstre o nexo
de causalidade entre o causador do dano e o dano em si.
(B) A área de propriedade com reserva legal, conservada e inscrita no cadastro
ambiental rural, que exceder o mínimo legal exigido deverá constituir servidão
ambiental, implementada por meio de cota de reserva ambiental.
(C) Conforme disposto no Código Florestal, os proprietários de imóveis rurais e urbanos
em que seja instituída uma reserva legal devem conservar o meio ambiente na área
determinada pela lei.
(D) O STF, ao interpretar a função social da propriedade, garante a preponderância dos
critérios sociais e ambientais sobre o critério econômico no que concerne à
desapropriação de imóveis rurais para fins de reforma agrária.
(E) A função socioambiental da propriedade está prevista no Código Civil como um limite
às faculdades do proprietário.

5. (CESPE/TRF 5ª Região – 2015 – Juiz Federal Substituto) No que se refere à tutela


do meio ambiente segundo a CF, assinale a opção correta.
(A) A União pode desapropriar, por interesse social, para reforma agrária, imóvel rural de
proprietário que não respeite as regras referentes a APP e reserva legal.
(B) A indenização por desapropriação de imóvel rural abrangerá, por interesse social,
para reforma agrária, benfeitorias necessárias, sendo paga previamente, em títulos
da dívida agrária.
(C) Compete aos municípios, por meio do PDOT, instituir diretrizes para o
desenvolvimento urbano, inclusive habitação, saneamento básico e transportes
urbanos.
(D) O princípio da participação democrática no direito ambiental é instrumentalizado pela
ação popular, mas não pela ACP, devido às diferenças na legitimação ativa.
(E) Compete ao Conselho da República propor as condições para uso de áreas de
preservação e exploração de recursos naturais, desde que sejam indispensáveis à
segurança nacional.

6. (FAPEC – 2015 Promotor de Justiça Substituto – MPE/MS) Em atenção à proteção


do meio ambiente, assinale a alternativa incorreta:
(A) O princípio da solidariedade intergeracional busca assegurar que não só as
presentes, mas também as futuras gerações possam usufruir dos recursos naturais
de forma sustentável.
(B) O princípio da consideração da variável ambiental no processo decisório de políticas
de desenvolvimento, com assento no art. 225, § 1º, IV, da Constituição Federal,
impõe seja levada em conta a variável ambiental em qualquer ação ou decisão,
pública ou privada, que possa causar impacto negativo sobre o meio.
(C) A defesa do meio ambiente, inadmitindo o tratamento diferenciado conforme o
impacto ambiental dos produtos e serviços e de seus processos de elaboração e
prestação, caracteriza-se como princípio constitucional a ser observado pela ordem
econômica nos termos do art. 170, VI, da Constituição Federal.
(D) O princípio da participação comunitária na defesa do meio ambiente pressupõe o
direito de informação.
(E) O princípio do usuário-pagador caracteriza-se pela imposição ao usuário do conjunto
dos custos destinados a tornar possível a utilização do recurso ambiental e os custos
advindos de sua utilização com fins econômicos, evitando-se que sejam suportados
pelo Poder Público e tampouco por terceiros.

7. (CESPE – 2009 – TRF 1ª REGIÃO – Juiz) O princípio da natureza pública da


proteção ambiental
(A) aponta para a incompatibilidade irredutível entre o interesse público e a iniciativa
privada, condicionando esta à discricionariedade daquele e distribuindo às camadas
mais pobres da população, de forma equitativa, o acesso aos recursos naturais.
(B) fundamenta-se, no que se refere à defesa da desapropriação das terras e dos meios
produtivos, na proteção ao patrimônio histórico, ao ambiente cultural e ao ambiente
do trabalho.
(C) resume os esforços da esfera política na manutenção do equilíbrio dinâmico dos
sistemas socioambientais passíveis de serem utilizados no processo de justa
repartição da renda e de reforma agrária.
(D) decorre da previsão legal que considera o meio ambiente como valor a ser
necessariamente assegurado e protegido para uso de todos.
(E) foi descaracterizado pelo neoliberalismo, em razão de ter sido enunciado pelo
governo soviético em decorrência do acidente de Tchernobil, quando, pelo descaso
do Soviete Supremo, não havia leis de proteção ambiental que salvaguardassem a
segurança das populações humanas no entorno das usinas nucleares.

8. (CESPE – 2009 – TRF 1ª REGIÃO – Juiz) Assinale a opção correta quanto ao


princípio da precaução.
(A) Esse princípio foi criado na Conferência de Estocolmo, em resposta aos danos
causados pelo vazamento de mercúrio na baía de Minamata e, por isso, os primeiros
escritos doutrinários da época referiam-se a ele como o princípio de Minamata.
(B) Tal princípio teve origem no princípio da incerteza, da física quântica, e foi o tema
central da Carta da Terra, redigida na abertura da Eco-92, na qual o jurista alemão
Reinhardt Sttifelmann defendeu que, na atual sociedade de risco, só se podem tomar
medidas ambientalmente impactantes com respaldo da ciência.
(C) Fundado no princípio da prevenção, o princípio da precaução aponta a inexistência
de certezas científicas como pressuposto para a adoção de política liberal pautada
pelo caráter não intervencionista do poder público nas atividades econômicas.
(D) Esse princípio fundamenta-se no direito penal secundário e diferencia-se do princípio
da prevenção geral e da prevenção específica, pois espelha os aspectos garantistas
dos direitos de terceira geração.
(E) Tal princípio constitui a garantia contra os riscos potenciais que não podem ser ainda
identificados, devido à ausência da certeza científica formal, e baseia-se na ideia de
que o risco de dano sério ou irreversível requer a implementação de medidas que
possam prever esse dano.

9. (CESPE – 2010 – AGU – Procurador) O princípio da precaução refere-se à ação


preventiva e deve embasar medidas judiciais e administrativas tendentes a evitar o
surgimento de atos atentatórios ao meio ambiente.
( ) Certo ( ) Errado

10. (CESPE – 2010 – AGU – Procurador) A proteção ao meio ambiente é um princípio da


ordem econômica, o que limita as atividades da iniciativa privada.
( ) Certo ( ) Errado

11. (CESPE – 2010 – AGU – Procurador) O meio ambiente é um direito difuso, direito
humano fundamental de terceira geração, mas não é classificado como patrimônio
público.
( ) Certo ( ) Errado

12. (26º Concurso – MPF – Procurador da República – 2012) Analise os itens abaixo e
responda em seguida:
I – A previsão do direito ao meio ambiente sadio e ecologicamente equilibrado, na
Constituição brasileira de 1988, identifica-se com a concepção de uma “Constituição
dirigente”, segundo a qual o Estado deve desempenhar um papel primordial na promoção
e na realização de direitos e benefícios titularizados pela coletividade.
II – A concepção econômica de externalidades negativas encontra-se na estrutura dos
princípios do poluidor pagador e do usuário pagador, traduzindo a necessidade de
internalização dos prejuízos sociais no custo da produção, de forma a atrair para o
empreendedor o dever de adotar medidas de prevenção e controle de possível
deterioração de recursos ambientais decorrente de sua atividade produtiva.
III – O princípio do poluidor tem índole exclusivamente reparatória ou ressarcitória,
traduzindo a ideia de que o empreendedor que polui deve arcar com os ônus daí
decorrentes mediante a adoção de medidas de correção ou reparação do ambiente
degradado.
IV – O princípio do poluidor pagador não tem força normativa, representando apenas uma
expectativa de entronização no sistema jurídico, despida de carga de coercibilidade.
(A) Os itens II e IV são falsos.
(B) Todos os itens são verdadeiros.
(C) Somente o item III é falso.
(D) Os itens I e II são verdadeiros.

13. (CESPE – 2011 – TJPB – Juiz) Com relação aos princípios de direito ambiental,
assinale a opção correta.
(A) A necessidade da educação ambiental é princípio consagrado pelas Nações Unidas e
pelo ordenamento jurídico brasileiro, e, nesse sentido, a CF determina ao poder
público a incumbência de promover a educação ambiental em todos os níveis de
ensino.
(B) Na órbita repressiva do princípio do poluidor-pagador, incide a responsabilidade
subjetiva caso a sanção resultante da poluição tenha caráter civil, penal ou
administrativo.
(C) Em face do princípio da precaução, o licenciamento, por órgão ambiental, para a
construção, instalação e funcionamento de estabelecimentos utilizadores de recursos
ambientais é exação discricionária do poder público, cabendo a este, a seu critério,
enumerar as atividades potencialmente poluidoras e capazes de causar degradação
ao ambiente.
(D) Considerado o princípio do poluidor-pagador, o conceito do termo poluidor restringe-
se ao autor direto do dano ambiental, e não àqueles que, de forma indireta, tenham
contribuído para a prática do dano.
(E) O princípio da prevenção é englobado pelo princípio da precaução, na medida em
que ambos se aplicam a impactos ambientais já conhecidos e informam tanto o
licenciamento ambiental como os próprios estudos de impacto ambiental.

14. (CESPE – TJPI – Juiz Substituto – 2012) Considerando os princípios de direito


ambiental, assinale a opção correta.
(A) Como forma de buscar a responsabilização pessoal do agente da degradação
ambiental, considera-se poluidor, consoante o princípio do poluidor-pagador, apenas
o autor direto e imediatamente identificável do dano ambiental.
(B) Em consonância com o princípio da participação e informação, a CF determina
expressamente que o poder público promova a educação ambiental em todos os
níveis de ensino.
(C) O princípio da precaução aplica-se a impactos ambientais já conhecidos, em face da
constatação de evidências de perigo de dano ambiental efetivo que deva ser
antecipadamente eliminado.
(D) Em decorrência do princípio do poluidor-pagador, segundo a lei que dispõe acerca da
PNMA, aquele que agrida o ambiente deve ser responsabilizado pelo prejuízo
causado a este e a terceiros, na medida de sua culpa e participação no dano.
(E) Sendo o ambiente classificado como bem de uso comum do povo, não se admite que
sua utilização tenha caráter oneroso ou que haja necessidade de contraprestação
pelo usuário.

15. (CESPE – 2013 – TJMA – Juiz) Considerando os princípios fundamentais que regem
o direito ambiental, assinale a opção correta.
(A) O princípio do poluidor-pagador determina a incidência do regime jurídico da
responsabilidade civil objetiva por danos ambientais.
(B) Uma aplicação estrita do princípio da prevenção inverte o ônus da prova e impõe ao
poluidor provar, com anterioridade, que sua ação não causará degradação ambiental.
(C) Segundo o princípio do desenvolvimento sustentável, é proibida a instalação de
indústria que, conforme o EIA/RIMA, cause poluição.
(D) A ação popular, ao contrário da ação civil pública, é instrumento de efetivação do
princípio da participação democrática no direito ambiental.

16. (CESPE – 2010 – MPE-RO – Promotor de Justiça) Considerando que as políticas


públicas são implementadas com o propósito de evitar danos ambientais e
objetivam alcançar a aplicação de princípios ambientais, assinale a opção correta.
(A) Embora o princípio da prevenção ainda não esteja incorporado à ordem jurídica
nacional, sua observância permite ao poder público antecipar-se à ocorrência de
danos ambientais.
(B) O princípio da precaução pode ser invocado para inverter o ônus da prova em
procedimento ambiental.
(C) O pagamento pecuniário e a indenização legitimam empreendimentos que venham
provocar lesão ao meio ambiente.
(D) No processo industrial de fabricação de produtos, os resíduos descartados no
ambiente devem ser tratados, sendo esta uma forma de aplicação do princípio do
usuário-pagador.
(E) O envolvimento das comunidades na implementação de planos de manejo nas
unidades de conservação é exemplo de aplicação do princípio da informação.

17. (CESPE – 2009 – PGE-AL – Procurador de Estado) Assinale a opção correta com
relação aos princípios gerais do direito ambiental.
(A) O princípio da participação popular na proteção do meio ambiente é assegurado por
meio das audiências públicas em procedimentos de licenciamento e de estudo de
impacto de vizinhança.
(B) O princípio da prevenção aplica-se a eventos incertos e prováveis causadores de
dano ambiental.
(C) Não há possibilidade de correlação de mais de um princípio na análise de um caso
concreto de dano ambiental.
(D) Se, na análise de determinado problema, houver a colisão de dois princípios
ambientais, um deverá prevalecer e o outro será obrigatoriamente derrogado.
(E) O princípio do poluidor-pagador aplica-se ao usuário que capta água para irrigação
de produtos orgânicos sem agrotóxico.

18. (CESPE – 2009 – PGE-PE – Procurador de Estado) O direito ambiental constrói-se


sobre princípios que informam a aplicação da legislação ambiental. Muitos deles
estão colocados no texto da legislação, outros são frutos de tratados e convenções
internacionais.
Considere que uma empresa de telefonia celular deseje implantar uma antena única em
uma área de relevante interesse ecológico de um município, concentrando nela toda a
transmissão da energia eletromagnética não ionizante e a certeza científica de que as
ondas dos celulares e estações radiobase causam aquecimento no corpo dos seres que
se encontram próximos a eles na razão do inverso do quadrado da distância.
A respeito da situação hipotética acima e da incerteza de que há outros efeitos possíveis
ainda não comprovados, assinale a opção correta.
(A) Pelo princípio da prevenção, não há necessidade de EIA/RIMA.
(B) Pelo princípio da precaução, não há necessidade de EIA/RIMA.
(C) Pelo princípio da proteção ambiental como um direito fundamental, não há
necessidade de EIA se no local não há ocupação humana.
(D) Pelo princípio da função social da propriedade, só há necessidade de EIA se a área
for pública.
(E) Pelo princípio da informação, cidadãos interessados podem obter informação a
respeito da intensidade do campo eletromagnético gerado no local.

19. (FCC – 2013 – TJPE – Juiz) A obrigação de simples informação, por um Estado a
outro, da ocorrência de dano ambiental que possa ter efeitos transfronteiriços
adversos é
(A) tão somente observável no âmbito de organizações internacionais e de integração
regional, prevista em instrumentos não vinculantes, também chamados de .
(B) insuscetível de gerar responsabilidade internacional do Estado, salvo se houver
previsão de igual teor no direito interno.
(C) decorrente de convenções internacionais específicas e dependente de sua aceitação
e ratificação pelos Estados-partes, sem o que não produzirá efeitos.
(D) inexistente no âmbito do direito internacional, pois é violadora da soberania interna
dos Estados, que não podem ser vinculados a qualquer interferência externa.
(E) princípio do Direito Internacional do Meio Ambiente, que determina, ainda, o
estabelecimento de tratativas entre os Estados envolvidos, tão logo quanto possível
e de boa-fé.

20. (FCC – 2010 – PGM-TERESINA-PI – Procurador Municipal) O desmatamento


indiscriminado do cerrado piauiense sob o argumento de que as empresas criam
empregos não é aceitável, pois pode haver atividade economicamente sustentável
desde que as empresas estejam dispostas a diminuírem seus lucros, utilizando-se
de matrizes energéticas que não signifiquem a política de terra arrasada. (AG
2007.01.00.059260-7/PI)
Ao analisar os princípios do direito e, em particular do direito ambiental, é INCORRETO
afirmar que
(A) o princípio do desenvolvimento sustentável é fundado em três pilares: econômico,
ambiental e social.
(B) os Estados têm a responsabilidade de assegurar que atividades sob sua jurisdição
ou seu controle não causem danos ao meio ambiente de outros Estados ou de áreas
além dos limites da jurisdição nacional.
(C) de acordo com o princípio da precaução quando houver ameaça de danos sérios ou
irreversíveis, a ausência de absoluta certeza científica não deve ser utilizada como
razão para postergar medidas eficazes e economicamente viáveis para prevenir a
degradação ambiental.
(D) a noção de gestão sustentável dos recursos naturais no espaço e no tempo impõe
um duplo imperativo ético de solidariedade – equidade intrageracional e
intergeracional.
(E) de acordo com o princípio poluidor-pagador o poluidor deve pagar pela poluição
causada que acarrete danos à saúde humana e os demais custos ambientais da
produção devem ser arcados por toda a sociedade para a própria existência das
atividades econômicas.

21. (VUNESP – TJSP – MAGISTRATURA – 2011) Leia atentamente as assertivas que


seguem e, depois, proceda à sua vinculação com os princípios enunciados, na
correta ordem sequencial.
I. Manter as bases vitais da produção e reprodução do homem e de suas atividades, e
igualmente garantir uma relação satisfatória entre os homens e destes com o seu
ambiente, para que as futuras gerações também tenham oportunidade de desfrutar os
mesmos recursos que temos hoje à nossa disposição.
II. Assegurar a solidariedade da presente geração em relação às futuras, para que
também estas possam usufruir, de forma sustentável, dos recursos naturais.
III. Impedir a ocorrência de danos ao meio ambiente, por meio da imposição de medidas
acautelatórias, antes da implantação do empreendimento e atividades consideradas
efetiva ou potencialmente poluidoras.
IV. Instituir procedimentos capazes de embasar uma decisão racional na fase de
incertezas e controvérsias, de forma a diminuir os custos da experimentação.
V. Internalizar os custos resultantes dos danos ambientais, ou seja, levá-los em conta na
elaboração dos custos de produção e, consequentemente, assumi-los.
VI. Evitar que o “custo zero” dos serviços e recursos naturais acabe por conduzir o
sistema de mercado à hiperexploração do meio ambiente.
Assinale a alternativa correta.
(A) Desenvolvimento sustentável, solidariedade intergeracional, prevenção, precaução,
poluidor pagador, usuário pagador.
(B) Desenvolvimento sustentável, solidariedade intergeracional, precaução, prevenção,
poluidor pagador, usuário pagador.
(C) Solidariedade intergeracional, desenvolvimento sustentável, precaução, prevenção,
usuário pagador, poluidor pagador.
(D) Solidariedade intergeracional, desenvolvimento sustentável, prevenção, precaução,
poluidor pagador, usuário pagador.
(E) Desenvolvimento sustentável, solidariedade intergeracional, prevenção, precaução,
usuário pagador, poluidor pagador.

22. (VUNESP – TJRJ – Juiz Substituto – 2011) Leia as afirmações e relacione cada uma
delas com os princípios ambientais, na sequência correta.
1. Tomar decisões no sentido de impedir a superveniência de danos ao meio ambiente,
por meio de medidas apropriadas, antes da elaboração de um plano ou da realização de
uma atividade potencialmente degradadora.
2. Tomar decisões para limitar o desenvolvimento de atividades e, assim, impedir a
superveniência de danos ao meio ambiente em cenários de incerteza e controvérsias
quanto às referidas atividades.
3. É dever da Administração Pública garantir o acesso dos cidadãos a registros
administrativos e a informações sobre atos de governo relativos ao meio ambiente,
inclusive sobre materiais e atividades perigosas.
4. Exigir do empreendedor medidas capazes de reduzir os impactos ambientais, fazendo-o
internalizar os custos ambientais de sua atividade.
5. Exigir a retribuição à sociedade pela utilização econômica dos recursos naturais,
incentivando, ao mesmo tempo, a racionalização do seu uso.
6. Permitir o desenvolvimento de atividades econômicas e buscar a redução das
desigualdades sociais, mantendo, porém, uma base ecológica disponível para as futuras
gerações.
Assinale a alternativa correta.
(A) Prevenção, precaução, informação, poluidor-pagador, usuário-pagador e
desenvolvimento sustentável.
(B) Precaução, prevenção, informação, poluidor-pagador, usuário-pagador e
desenvolvimento sustentável.
(C) Prevenção, precaução, participação, usuário-pagador, equivalência dos custos
ambientais e solidariedade intergeracional.
(D) Precaução, prevenção, participação, equivalência dos custos ambientais, usuário-
pagador e solidariedade intergeracional.

23. (TJSC – 2013 – Juiz) Sobre os princípios de direito ambiental é correto afirmar:
(A) A prevenção e a preservação ambientais devem ser fomentadas pela iniciativa
privada como responsável primário, cabendo ao Poder Público o papel exclusivo e
secundário de fiscalizador.
(B) O princípio da precaução encontra positivação infraconstitucional na Lei nº
11.105/2005, a qual estabelece normas de proteção ambiental.
(C) O princípio da participação estabelece a obrigação exclusiva do Poder Público
quanto aos deveres de proteção e preservação do meio ambiente.
(D) A Constituição Federal de 1988, em seu artigo 225, § 3º, estabeleceu ao poluidor do
meio ambiente a sanção penal (responsabilidade criminal) e a sanção civil
(responsabilidade civil – reparação dos danos), excepcionando a sanção
administrativa para evitar o .
(E) A prevenção e a preservação ambientais devem ser fomentadas pelo Poder Público
com exclusividade, cabendo à iniciativa privada a função secundária de contribuir com
recursos financeiros para a implementação de projetos voltados ao meio ambiente.

24. (VUNESP – 2013 – TJRJ – Juiz) O princípio da precaução, no tocante às questões


de Direito Ambiental, pressupõe e gera como possibilidade, respectivamente:
(A) ausência de certeza científica e inversão do ônus da prova.
(B) certeza científica e condenação por dano hipotético.
(C) risco provado e condenação ao pagamento de indenização fixada por arbitramento.
(D) risco eventual e condenação ao pagamento de indenização obrigatória.

25. (FESMIP-BA – 2010 – MPE-BA – Promotor de Justiça – Prova amarela) Identifique


com V ou F, conforme o caso, as afirmativas verdadeiras e falsas.
I – O princípio da proibição do retrocesso ecológico limita a discricionariedade do
legislador a só legislar progressivamente, com o fito de não diminuir ou mitigar o direito
fundamental ao Meio Ambiente.
II – O princípio da participação social retroalimenta a cidadania ambiental e materializa-se,
por exemplo, em audiências públicas e composição de conselhos, tendo nessas
oportunidades poder deliberativo.
III – A tutela precaucional é marcada pela moderação, sendo passível de revisão, quando
os conhecimentos científicos evoluírem, e sujeita ao critério da proporcionalidade,
devendo primar pela menor intervenção necessária.
IV – O princípio do poluidor-pagador visa à internalização das externalidades ambientais
negativas e positivas e absorve em sua moldura o princípio do usuário-pagador. Sua
relevância consiste em impedir a socialização dos custos ambientais.
V – O princípio do mínimo existencial ecológico postula que, por trás da garantia
constitucional do mínimo existencial, subjaz a ideia de que a dignidade humana está
intrinsecamente relacionada à qualidade ambiental. Ao conferir dimensão ecológica ao
núcleo normativo, assenta premissa de que não existe patamar mínimo de bem-estar sem
respeito ao direito fundamental do meio ambiente sadio.
A alternativa que contém a sequência correta, de cima para baixo, é a:
(A) F F V V F.
(B) V F V F V.
(C) F V F F V.
(D) V V F V F.
(E) V V V V V.

5.19.2 Questões dissertativas


1. Magistratura Estadual. Concurso: TJAM. Ano: 2013. Banca: FGV. O art. 225, ,
da Constituição Federal estabelece que “Todos têm direito ao meio ambiente
ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de
vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo
para as presentes e futuras gerações”. Identifique três princípios do Direito Ambiental que
podem ser extraídos do referido dispositivo constitucional, conceituando-os.

2. Ministério Público Estadual. Concurso: MPE-MG. Ano: 2011. Banca: MPE-MG. Quais
as diferenças que doutrinariamente são apontadas entre os princípios de direito ambiental
da prevenção e da precaução e, em relação a esse último, esclareça quais as
concepções sobre o conteúdo, extensão e acepção.

3. Magistratura Federal. Concurso: TRF 1ª Região. Ano: 2012. Banca: CESPE. Com
base no direito ambiental, discorra sobre os princípios do poluidor-pagador, da precaução
e da prevenção, bem como sobre as condições específicas da responsabilização penal da
pessoa jurídica.

4. Procuradoria Estadual. Concurso: PGE-MS. Ano: 2005. Banca: PGE-MS. Em que


consiste o princípio da precaução em matéria ambiental? Ele se insere dentre os
princípios com sede constitucional no direito brasileiro? Diferencie-o do princípio da
prevenção.

5. Defensoria Pública Estadual. Concurso: DPE-AC. Ano: 2012. Banca: CESPE.


Estabelece a Constituição Federal no do art. 225: “Todos têm direito ao meio
ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia
qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e
preservá-lo para as presentes e futuras gerações”. No inciso I do art. 3º da Lei nº
6.938/1981, que dispõe sobre a Política Nacional do Meio Ambiente, meio ambiente é
definido como o conjunto de condições, leis, influências e interações de ordem física,
química e biológica, que permite, abriga e rege a vida em todas as suas formas. Com
base nos dispositivos acima transcritos, disserte sobre os princípios da precaução e do
poluidor-pagador, estabelecendo a diferença entre eles.
Procuradoria Estadual. Concurso: PGE-RO. Ano: 2011. Banca: FCC. O que é o
6. princípio da proibição ou vedação ao retrocesso? Ele é um princípio implícito ou explícito
na CF? Ele se aplica no âmbito do direito ambiental? Diga se o artigo transcrito abaixo,
constante no Projeto do novo Código Florestal, implica desrespeito ou não ao citado
princípio.

5.19.3 Questões de exame oral


1. O direito ao meio ambiente é um direito fundamental?

2. O que é desenvolvimento sustentável no ordenamento jurídico brasileiro?

3. Como compatibilizar as atividades econômicas com a proteção ao meio ambiente?

4. O que é a solidariedade intergeracional? Dê exemplos de medidas que corroboram o


princípio.

5. O que é a função socioambiental da propriedade?

6. Qual a previsão constitucional para o cumprimento da função social da propriedade rural?

7. Dê exemplos do cumprimento da função social da propriedade rural na área ambiental.

8. Qual a previsão constitucional para o cumprimento da função social da propriedade


urbana?

9. O que significa prevenção no direito ambiental?

10. Dê exemplos de instrumentos para a efetivação do princípio da prevenção.

11. Aborde o princípio da precaução.

12. O que justifica a aplicação do princípio da precaução?

13. Qual a diferença entre o princípio da prevenção e o da precaução?

14. O que é prognose negativa?

15. Discorra sobre a inversão do ônus da prova. Ela está ligada a qual princípio ambiental?

16. Discorra sobre o princípio do poluidor-pagador.

17. O que são externalidades negativas?

18. Qual a diferença entre os princípios do poluidor-pagador e do usuário-pagador?


19. Confira exemplos de aplicação do princípio da informação.

20. Quais são as formas de participação comunitária?

21. Discorra sobre a educação ambiental.

22. O que é a natureza pública da proteção ambiental?

23. O que é a proibição de retrocesso ecológico?

5.20 GABARITOS

5.20.1 Questões objetivas

QUESTÃO GABARITO
1 D
2 D
3 B
4 E
5 A
6 C
7 D
8 E
9 CERTO
10 CERTO
11 ERRADO
12 D
13 A
14 B
15 A
16 B
17 A
18 E
19 E
20 E
21 A
22 A
23 B
24 A
25 B

5.20.2 Questões dissertativas

QUESTÃO PROPOSTA DE SOLUÇÃO


Trata-se de questão que transcreve o do art. 225 da Constituição Federal. É
possível enumerar os seguintes princípios: (a) meio ambiente ecologicamente
1 equilibrado como um direito fundamental (tópico 5.2); (b) solidariedade
intergeracional (tópico 5.4); (c) da participação comunitária (tópico 5.12); (d)
natureza pública da proteção ambiental (tópico 5.15).
Não há que se confundir o princípio da prevenção e o princípio da precaução. Com
efeito, o princípio da prevenção se configura a partir do risco ou perigo concreto,
conhecido; enquanto o princípio da precaução aplica-se ao risco ou perigo
abstrato, incerto, que ainda não se conhecem os efeitos e consequências.
Enquanto o princípio da prevenção é o princípio da certeza científica, o princípio
da precaução é o princípio da incerteza científica. De fato, no princípio da
2
precaução o que se configura é a ausência de informações ou pesquisas
científicas conclusivas sobre a potencialidade e os efeitos de determinada
intervenção no meio ambiente e na saúde humana. Atua como um mecanismo de
gerenciamento de riscos ambientais, notadamente para as atividades e
empreendimentos marcados pela ausência de estudos e pesquisas objetivas sobre
as consequências para o meio ambiente e a saúde humana.
Para a dissertação abordar-se-ão os três princípios requeridos. Com efeito, o
princípio do poluidor-pagador é um princípio de natureza econômica, cautelar e
preventiva, que compreende a internalização dos custos ambientais, que devem
ser suportados pelo empreendedor, afastando-os da coletividade.
Já o princípio da prevenção é o caracterizador do direito ambiental, que é
eminentemente preventivo. A prevenção é a essência, a conduta necessária em
qualquer política, programa ou atuação que envolva as questões ambientais. Não
é possível conceber o direito ambiental por uma ótica reparadora, que o tornaria
um direito inócuo. Até mesmo porque os danos ambientais, em regra, são
3 praticamente irreversíveis, como se vê no desmatamento de uma floresta
centenária ou na extinção de uma espécie da fauna ou da flora. Sem uma atuação
antecipatória não há como evitar a ocorrência de danos ambientais. Enquanto o
princípio da prevenção é o princípio da certeza científica, o princípio da precaução
é o princípio da incerteza científica. Com efeito, no princípio da precaução o que
se configura é a ausência de informações ou pesquisas científicas conclusivas
sobre a potencialidade e os efeitos de determinada intervenção no meio ambiente
e na saúde humana. Ele atua como um mecanismo de gerenciamento de riscos
ambientais, notadamente para as atividades e empreendimentos marcados pela
ausência de estudos e pesquisas objetivas sobre as consequências para o meio
ambiente e a saúde humana.
Como o leitor pode perceber, são reiteradas as indagações sobre o princípio da
4 precaução e a diferenciação do princípio da prevenção. Como a resposta foi
delineada nas questões anteriores, não serão necessários os desdobramentos.
Como os conceitos dos princípios do poluidor-pagador e da precaução já foram
delineados, analisar-se-á somente a diferença entre eles. Com efeito, enquanto o
princípio da precaução aplica-se às atividades que envolvam a incerteza científica,
o poluidor-pagador é um princípio de natureza econômica, cautelar e preventiva,
que impõe ao empreendedor a internalização das externalidades negativas. Em
5
outras palavras, é aplicável a todas as atividades econômicas. O princípio da
precaução possui âmbito mais restrito às atividades em que se configura a
ausência de informações ou pesquisas científicas conclusivas sobre a
potencialidade e os efeitos de determinada intervenção no meio ambiente e na
saúde humana.
Também denominado de princípio “da vedação de retrocesso ambiental” ou
“princípio da proibição de retrogradação socioambiental”. Trata-se de princípio
implícito. Em matéria ambiental, assim como em matéria de direitos sociais, não
6
há que se retroceder a níveis de proteção inferiores. Este princípio tem como
objetivo a proteção contra os retrocessos e flexibilizações na legislação,
uma verdadeira “blindagem protetiva”.

5.20.3 Questões de exame oral

QUESTÃO CONTEÚDO PARA A RESPOSTA


1 Tópico 5.2
2 Tópico 5.3
3 Tópico 5.3
4 Tópico 5.4
5 Tópico 5.5
6 Tópico 5.5
7 Tópico 5.5
8 Tópico 5.5
9 Tópico 5.6
10 Tópico 5.6
11 Tópico 5.7
12 Tópico 5.7
13 Tópico 5.7.1
14 Tópico 5.7
15 Tópico 5.7.2
16 Tópico 5.8
17 Tópico 5.8
18 Tópico 5.9 e 5.10
19 Tópico 5.11
20 Tópico 5.12
21 Tópico 5.13
22 Tópico 5.15
23 Tópico 5.16

1 ATALIBA, 2011, p. 34-35.


2 BANDEIRA DE MELLO, 2011, p. 54.
3 MILARÉ, 2011, p. 1066.
4 CAPPELLI et al., 2007, p. 28-29.
5 MACHADO, 2007, p. 84.
6 GRANZIERA, 2008, p. 55.
7 BURSZTYN, 2013, p. 192.
8 DERANI, 2008, p. 142.
9 FIORILO, 2010, p. 88.
10 MILARÉ, 2011, p. 1076.
11 RIBEIRO. Disponível em: <www.portaldomeioambiente.org.br>.
12 Disponível em: <www.ief.mg.gov.br>.
13 SILVA, 2009, p. 22.
14 MILARÉ, 2011, p. 1068.
15 ARAGÃO, 2007, p. 36-37.
16 SARLET; FENSTERSEIFER, 2011, p. 203.
17 SARLET; FENSTERSEIFER, 2011, p. 202.
18 ARAGÃO, 2007, p. 39.
19 BURSZTYN, 2013, p. 217.
Ensina a teus filhos o que temos ensinado aos
nossos: que a terra é nossa mãe. Tudo quanto fere
a terra, fere os filhos da terra.
Cacique Seattle

A Política Nacional do Meio Ambiente (PNMA), instituída pela Lei nº 6.938/1981, é um dos
principais diplomas para a compreensão da sistemática ambiental. Trata-se do diploma
infraconstitucional estruturante, que precedeu em sete anos a promulgação da Constituição Federal de
1988. Sua edição decorre da emergência ambiental que se verificou a partir da década de 70 do século
passado.
Conforme o art. 2º da Lei nº 6.938/1981, são princípios da Política Nacional do Meio Ambiente:

a) ação governamental na manutenção do equilíbrio ecológico, considerando o meio ambiente como


um patrimônio público a ser necessariamente assegurado e protegido, tendo em vista o uso
coletivo;
b) racionalização do uso do solo, do subsolo, da água e do ar;
c) planejamento e fiscalização do uso dos recursos ambientais;
d) proteção dos ecossistemas, com a preservação de áreas representativas;
e) controle e zoneamento das atividades potencial ou efetivamente poluidoras;
f) incentivos ao estudo e à pesquisa de tecnologias orientadas para o uso racional e a proteção dos
recursos ambientais;
g) acompanhamento do estado da qualidade ambiental;
h) recuperação de áreas degradadas;
i) proteção de áreas ameaçadas de degradação;
j) educação ambiental a todos os níveis do ensino, inclusive a educação da comunidade, objetivando
capacitá-la para participação ativa na defesa do meio ambiente.

A Política Nacional do Meio Ambiente tem por objetivo geral a preservação, melhoria e recuperação
da qualidade ambiental propícia à vida, visando assegurar, no País, condições ao desenvolvimento
socioeconômico, aos interesses da segurança nacional e à proteção da dignidade da vida humana (art. 2º,
caput).
A leitura do dispositivo da Política Nacional do Meio Ambiente implica reconhecer o momento
histórico de sua edição, ao término do regime militar, razão pela qual a acepção “interesses da segurança
nacional” se inseriu.

Conforme o art. 4º, a Política Nacional do Meio Ambiente visará:

I – à compatibilização do desenvolvimento econômico-social com a preservação da qualidade do


meio ambiente e do equilíbrio ecológico.

Nesse objetivo, expresso desde 1981, vislumbra-se uma concepção que se aproxima do princípio do
desenvolvimento sustentável.
II – à definição de áreas prioritárias de ação governamental relativa à qualidade e ao equilíbrio
ecológico, atendendo aos interesses da União, dos Estados, do Distrito Federal, dos Territórios e dos
Municípios.

Aqui compete ao Poder Público definir áreas de proteção ambiental, tais como unidades de
conservação, áreas de preservação permanente, tombamentos ambientais etc. A discricionariedade desse
objetivo encontra-se atualmente mitigada, uma vez que os incisos I, II e III do § 1º do art. 225 da CF
impõem ao Poder Público a criação e a proteção desses espaços ambientalmente protegidos.

III – ao estabelecimento de critérios e padrões da qualidade ambiental e de normas relativas ao uso e


manejo de recursos ambientais.

Esse objetivo é atendido por meio das resoluções do Conama que disciplinam o lançamento de gases,
efluentes e resíduos sólidos. Preocupa-se, assim, com a qualidade do solo, dos recursos hídricos, do ar
etc.

IV – ao desenvolvimento de pesquisas e de tecnologias nacionais orientadas para o uso racional de


recursos ambientais.

A efetividade desse objetivo se dá por meio de instituições de ensino e de pesquisa que atuem no
desenvolvimento de tecnologias e métodos para o uso racional dos recursos ambientais.

V – à difusão de tecnologias de manejo do meio ambiente, à divulgação de dados e informações


ambientais e à formação de uma consciência pública sobre a necessidade de preservação da
qualidade ambiental e do equilíbrio ecológico.

Nesse objetivo conjugam-se o princípio da informação ambiental e o princípio da educação


ambiental. Com o desenvolvimento de pesquisas e tecnologias – previstas no item anterior –, compete ao
Poder Público divulgá-las, assim como os dados e informações ambientais de que disponha. Além disso,
bem antes da promulgação da Constituição Federal já se preocupava com a formação de uma consciência
pública sobre a importância da proteção ambiental – que igualmente o ordenamento constitucional
reiterou no inciso VI do § 1º do art. 225.

VI – à preservação e restauração dos recursos ambientais com vistas à sua utilização racional e
disponibilidade permanente, concorrendo para a manutenção do equilíbrio ecológico propício à vida.

Os recursos ambientais disponíveis devem ser utilizados de forma racional. Quanto aos que se
encontram degradados, por sua vez, é necessária a sua recuperação. Essas medidas garantem a
disponibilidade permanente dos recursos ambientais para as gerações presentes e futuras, contribuindo,
em última análise, para o equilíbrio ecológico propício à vida.
VII – à imposição, ao poluidor e ao predador, da obrigação de recuperar e/ou indenizar os danos
causados e, ao usuário, da contribuição pela utilização de recursos ambientais com fins econômicos.

À guisa de conclusão, esse objetivo teve o mérito de dispor, na legislação infraconstitucional, o


princípio do poluidor-pagador e o princípio do usuário-pagador (abordados no capítulo anterior).

É por meio dos instrumentos que se confere efetividade à Política Nacional do Meio Ambiente.
Instrumentos da Política Nacional do Meio Ambiente, no magistério de Paulo de Bessa Antunes1, “são
os mecanismos legais e institucionais postos à disposição da Administração Pública para a
implementação dos objetivos do PNMA”.
O eixo de efetivação Política Nacional do Meio Ambiente gravita em seus 13 instrumentos, embora
alguns deles não tenham sido regulamentados ou se veem esparsos na legislação ambiental brasileira.
Esses, em número significativo, são instrumentos de “comando e controle”, por meio de imposições
normativas em geral (leis, decretos, resoluções, portarias, normas técnicas etc.) e o eventual
descumprimento implica sanções às pessoas físicas e jurídicas. Estão previstos ainda os mecanismos
econômicos, como a servidão ambiental, concessão florestal e o seguro ambiental, que enfatizam a
importância no investimento em atividades ambientais como forma de se obterem ganhos econômicos.
Como exemplo, a servidão ambiental, que limita o uso da propriedade para preservar, conservar ou
recuperar os recursos ambientais existentes e, em contrapartida, o proprietário poderá transformar cada
hectare protegido na emissão de uma cota de reserva ambiental e comercializá-la em bolsas de
mercadorias de âmbito nacional ou em sistemas de registro e de liquidação financeira de ativos
autorizados pelo Banco Central do Brasil. Além disso, ao instituir a servidão ambiental, não estará
sujeito ao Imposto Territorial Rural (ITR) sobre a área respectiva.

Por padrões de qualidade ambiental entende-se o mecanismo utilizado pelo Poder Público no controle
da poluição, ao estabelecer os limites máximos para emissão de poluentes e no mesmo sentido programas
que garantam a qualidade do ar, das águas e de ruídos. Trata-se de exigência para que o exercício de
atividades e empreendimentos econômicos não comprometa a incolumidade do meio ambiente e a saúde
dos cidadãos.
Como exemplos de padrões de qualidade ambiental enumeram-se as seguintes iniciativas do Conama:

a) Programa Nacional de Controle de Qualidade do Ar (Pronar), pela Resolução nº 5/1990;


b) Programa de Controle da Poluição do Ar por Veículos Automotores (Proconve), Resolução nº
18/1986;
c) Qualidade das águas, Resolução nº 357/2005;
d) Padrões de Qualidade de Ruídos, Resolução nº 1/1990.

Zoneamento é uma expressão que significa, em termos objetivos, o uso e a ocupação territorial,
incluindo a utilização dos recursos ambientais. Daí a menção a zoneamento urbano, zoneamento agrícola,
zoneamento industrial etc.
Como instrumento da PNMA, o zoneamento ambiental foi regulamentado pelo Decreto nº 4.297/2002,
que dispõe sobre o zoneamento ecológico-econômico como mecanismo de organização do território a ser
obrigatoriamente seguido na implantação de planos, obras e atividades públicas e privadas. O
zoneamento ecológico-econômico estabelece medidas e padrões de proteção ambiental destinados a
assegurar a qualidade ambiental dos recursos hídricos e do solo e a conservação da biodiversidade, com
a garantia do desenvolvimento sustentável e a melhoria das condições de vida da população (art. 2º).
Procura, assim, uma gestão integrada das políticas territoriais, ambientais e de desenvolvimento em um
espaço determinado, que pode ser um Município, um Estado-membro, uma região ou todo o Brasil –
como pretende a PNMA.
O zoneamento ecológico-econômico nasceu como um programa de governo, inicialmente para a gestão
territorial da Região Amazônica, e atualmente integra o Plano Plurianual (PPA) do Governo Federal,
coordenado pelo Ministério do Meio Ambiente, com objetivo de estendê-lo a todo o País.
A existência do zoneamento ecológico-econômico como instrumento da PNMA traduz a necessidade,
cada vez mais recorrente, de que a gestão territorial no Brasil incorpore as exigências ambientais e
econômicas, em consonância com o princípio do desenvolvimento sustentável.

A Avaliação de Impactos Ambientais (AIA) é um instrumento de gestão ambiental com inspiração no


direito norte-americano, aplicável em uma atividade ou empreendimentos que, efetiva ou potencialmente,
possam causar poluição ou degradação ambiental.
Não há que confundir a Avaliação de Impactos Ambientais (AIA) com o Estudo Prévio de Impacto
Ambiental (EIA). O AIA é o gênero dos estudos ambientais e inclui o próprio EIA como uma de suas
espécies de avaliação de impactos ambientais. Além do EIA, outro exemplo de espécie de avaliação
ambiental é o Relatório Ambiental Preliminar (RAP), previsto na Lei nº 11.284/2006 (Lei de Gestão de
Florestas Públicas), que é um estudo simplificado – como será objeto de estudo em capítulo próprio.
Nota-se que o AIA no Brasil está ligado diretamente ao licenciamento ambiental.
Outro instrumento importante é a Avaliação Ambiental Estratégica (AAE), que é um mecanismo mais
amplo, de identificação e análise dos impactos ambientais das políticas, planos e programas
governamentais. Constitui instrumento de planejamento e norteador das decisões do gestor público.
Contudo, o Brasil ainda não dispõe de uma legislação específica para regulamentá-lo. Enquanto o AIA
efetua a avaliação de um projeto de empreendimento ou atividade (por meio, por exemplo, de um Eia-
Rima), o AAE efetua a análise prévia dos impactos no meio ambiente e na sustentabilidade do uso dos
recursos naturais de planos ou programas governamentais (como exemplos, avaliações de programas nas
áreas de energia, petróleo etc.).

O licenciamento ambiental para atividades e empreendimentos potencialmente causadores de poluição


ou degradação ambiental é instrumento de centralidade na Política Nacional do Meio Ambiente. Pela sua
importância para a efetivação do princípio da prevenção e controle do poluidor pelo Poder Público, será
objeto de análise em capítulo singular.

Por esse instrumento, o Poder Público poderá conceder incentivos fiscais e econômicos para que a
iniciativa privada efetue a instalação de equipamentos mais eficientes, com a adoção de tecnologias
limpas, de forma a minimizar os riscos na atividade e a ocorrência de degradações ambientais.
Aplica-se esse instrumento em mecanismos empresariais como o ISO 14001, tecnologias limpas,
produção mais limpa etc.

O principal instrumento legal de proteção dos espaços territoriais especialmente protegidos é a Lei nº
9.985/2000, que criou o Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza (SNUC). Por esse
Sistema Nacional, instituíram-se dois grupos de unidades de conservação: o de proteção integral, com a
finalidade de preservação ambiental; e o de uso sustentável, que visa à conservação ambiental em
simbiose com as atividades econômicas e sociais. As unidades de conservação serão abordadas no
Capítulo 11.

O Sistema Nacional de Informações sobre o Meio Ambiente (Sinima), com previsão nos incisos II e
III do art. 11 do Decreto nº 99.274/1990, é responsável por organizar, sistematizar e divulgar as
informações ambientais dos órgãos e entes integrantes do Sisnama, nos três níveis de governo.
Conforme o Ministério do Meio Ambiente, o Sinima está estruturado em três eixos:

a) Ferramentas de Acesso à Informação – orientadas para o desenvolvimento de soluções


tecnológicas de baixo custo baseadas em programas computacionais livres;
b) Integração e Compartilhamento das Bases de Informação Ambiental – visa integrar e compartilhar
as bases de informações do Sisnama;
c) Sistematização do Processo de Produção, Coleta e Análise de Estatísticas para a Elaboração de
Indicadores Ambientais e de Desenvolvimento Sustentável – o principal objetivo é a organização
de um sistema nacional de estatísticas e de indicadores ambientais, desenvolvido em parceria com
instituições responsáveis pela elaboração de estatísticas e indicadores ambientais. É, portanto,
eixo fundamental de fortalecimento da estrutura informacional do Sisnama.

Esse instrumento da Política Nacional do Meio Ambiente é decorrência do princípio da informação


ambiental.
O Código Florestal (Lei nº 12.651/2012) criou o Cadastro Ambiental Rural, que é um registro
público eletrônico de âmbito nacional e obrigatório para todos os imóveis rurais, com a finalidade de
integrar as informações ambientais das propriedades e posses rurais, compondo base de dados para
controle, monitoramento, planejamento ambiental e econômico e combate ao desmatamento. Esse
cadastro foi instituído no âmbito do Sistema Nacional de Informação sobre Meio Ambiente (Sinima).

O cadastro técnico federal de atividades e instrumentos de defesa ambiental é a identificação


obrigatória de pessoas físicas e jurídicas que se dediquem à consultoria técnica sobre problemas
ecológicos e ambientais e à indústria e comércio de equipamentos, aparelhos e instrumentos destinados
ao controle de atividades efetivas ou potencialmente poluidoras (art. 17, I, Lei nº 6.938/1981).
A inscrição dos profissionais legalmente habilitados que participam da elaboração de estudos
ambientais é obrigatória. Em outras palavras, a elaboração de estudos ambientais deve ser realizada por
profissionais legalmente habilitados e inscritos no Cadastro Técnico Federal de Atividades e
Instrumentos de Defesa Ambiental.
Nas palavras de Édis Milaré2, o cadastro é um censo ambiental, destinado a conhecer os profissionais
e suas técnicas e tecnologias ambientais, subsidiando o Sinima. Sua renovação ocorre a cada dois anos,
sob pena de multa.
Por penalidades disciplinares entende-se os efeitos decorrentes do exercício do poder de polícia
ambiental conferido aos entes e órgãos integrantes do Sisnama para a aplicação de sanções àqueles que
cometem infrações administrativas ambientais. A responsabilidade administrativa ambiental encontra
previsão entre o art. 70 e o art. 76 da Lei nº 9.605/1998, regulamentados pelo Decreto nº 6.514/2008
(infrações e sanções administrativas ao meio ambiente e processo administrativo federal para apuração
destas infrações), e, no âmbito do poder sancionador do Ibama, pela Instrução Normativa nº 10/2012.

O objetivo desse relatório é a avaliação dos recursos ambientais disponíveis no País. Não obstante a
previsão entre os instrumentos da PNMA, o Poder Público até hoje não produziu um Relatório de
Qualidade do Meio Ambiente no País. O mais próximo do relatório exigido pela PNMA foi a publicação,
pelo Ibama, do GEO-Brasil 2002, que analisou em profundidade a situação ambiental brasileira. Os
GEOs são uma contribuição do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente e constituem “uma
abordagem abrangente e integrada de análise, das condições ambientais relacionadas a determinado
espaço geográfico ou tema, que permite operar nas mais variadas escalas, da municipal à global”. Nessa
perspectiva, a Agência Nacional de Águas (ANA) editou, em 2007, o GEO-Brasil Recursos Hídricos,
como componente de avaliações ambientais temáticas que procuram diagnosticar e planejar as políticas
públicas ambientais.

Em primeiro plano, o instrumento converge para o direito de acesso às informações, como se vê no


inciso XXXIII do art. 5º da CF. Além disso, a Lei nº 10.650/2003 dispôs sobre o acesso público aos
dados e informações ambientais existentes nos órgãos e entidades integrantes do Sisnama, como se
analisou em outro momento.
A obrigação do Poder Público de produzir informações ambientais quando inexistentes reflete um
imperativo no cumprimento de um direito público subjetivo. É direito do cidadão ser informado, por
exemplo, sobre a qualidade ambiental e sobre obras e atividades que possam causar poluição ou
degradação ambiental e que, portanto, afetam o meio ambiente e a saúde humana. É possível, destarte,
acionar o Poder Público para que produza a informação ausente ou inexistente.

O cadastro técnico federal de atividades potencialmente poluidoras ou utilizadoras de recursos


ambientais encontra-se previsto no inciso II do art. 17 da Lei nº 6.938/1988, e objetiva o registro
obrigatório de pessoas físicas ou jurídicas que se dedicam a atividades potencialmente poluidoras e/ou à
extração, produção, transporte e comercialização de produtos potencialmente perigosos ao meio
ambiente, assim como de produtos e subprodutos da fauna e da flora.
Vinculada ao Cadastro Técnico Federal de Atividades Potencialmente Poluidoras ou Utilizadoras de
Recursos Ambientais encontra-se a Taxa de Fiscalização e Controle Ambiental (TCFA), instituída pela
Lei nº 10.165/2000, cujo fato gerador é o exercício regular do poder de polícia, conferido ao Ibama para
controle e fiscalização das atividades potencialmente poluidoras e as que se utilizem de recursos naturais
(art. 17-B, Lei nº 6.938/1981). A taxa é paga trimestralmente (art. 17-G, Lei nº 6.938/1981) de acordo
com o potencial de poluição, o grau de utilização de recursos naturais e o porte da empresa,
estabelecidos nos anexos VIII e IX da Lei Federal nº 10.165/2000, que alterou a Lei nº 6.938/1981.
Sobre a TCFA, assim decidiu o STF: “É pacífico na jurisprudência do Supremo Tribunal Federal o
entendimento de que é constitucional a Taxa de Controle e Fiscalização Ambiental instituída pela Lei
10.165/00 (RE 416.601/DF, Rel. Min. Carlos Velloso, Pleno, unânime, DJ de 30.9.2005). 2. Agravo
regimental a que se nega provimento. (RE 603513 AgR-EDv-AgR, Relator(a): Min. Teori Zavascki,
Tribunal Pleno, julgado em 10/04/2014, DJe 30-04-2014)”.

A Lei nº 11.284/2006 introduziu na Política Nacional do Meio Ambiente o art. 9º-A, que previa o
instituto da servidão ambiental. O instituto da servidão ambiental sofreu alterações e inclusão de
dispositivos com a edição da Lei 12.651/2012, que instituiu o Código Florestal vigente. O instituto é
disciplinado agora pelo art. 9º-A, art. 9º-B e art. 9º-C.
Como o próprio nome indica, trata-se de uma espécie de servidão, que se vincula aos objetivos de
proteção ambiental.
Nesse sentido, o proprietário ou possuidor de imóvel, pessoa natural ou jurídica, pode, por
instrumento público ou particular ou por termo administrativo firmado perante órgão integrante do
Sisnama, limitar o uso de toda a sua propriedade ou de parte dela para preservar, conservar ou
recuperar os recursos ambientais existentes, instituindo servidão ambiental (art. 9º-A, caput).
A servidão ambiental não se confunde com as áreas de preservação permanente e a reserva legal
florestal. Como se trata de áreas já protegidas, a servidão ambiental não pode ser instituída sobre elas
(art. 9º-A, § 1º).
Fonte: <http://www.ciflorestas.com.br/conteudo.php?id=9505>. (imagem adaptada)

A restrição ao uso ou à exploração da vegetação da área sob servidão ambiental deve ser, no mínimo,
a mesma estabelecida para a reserva legal florestal (art. 9º-A, § 2º). Em outras palavras, se o imóvel
está localizado nas regiões Sul e Sudeste do Brasil, em que a área da reserva legal é de 20% do imóvel
(conforme o art. 12, Lei nº 12.651/2012), a servidão ambiental deve contemplar, no mínimo, outros 20%
da propriedade, não podendo incidir sobre a própria reserva legal ou uma área de preservação
permanente. Nada obsta que os percentuais sejam maiores ou ainda que congregue toda a propriedade
(com as ressalvas relacionadas).
A servidão ambiental poderá ser onerosa ou gratuita, temporária ou perpétua (art. 9º-B). Na
instituição de servidão ambiental temporária, o prazo mínimo é de 15 (quinze) anos (art. 9º-B, § 1º).
O instrumento ou termo de instituição da servidão ambiental deve incluir, no mínimo, os seguintes
itens:

I – memorial descritivo da área da servidão ambiental, contendo pelo menos um ponto de amarração
georreferenciado;
II – objeto da servidão ambiental;
III – direitos e deveres do proprietário ou possuidor instituidor;
IV – prazo durante o qual a área permanecerá como servidão ambiental.

Devem ser objeto de averbação na matrícula do imóvel no registro de imóveis competente:

I – o instrumento ou termo de instituição da servidão ambiental;


II – o contrato de alienação, cessão ou transferência da servidão ambiental.

Permite-se que a área utilizada para a servidão ambiental seja objeto de compensação de reserva
legal, o que obriga à averbação nos imóveis envolvidos (art. 9º-A, § 5º).
Com a sua instituição, de forma permanente ou temporária, o proprietário não poderá alterar a
destinação da área nos casos de transmissão do imóvel a qualquer título, de desmembramento ou de
retificação dos limites da propriedade (art. 9º-A, § 6º).
A servidão ambiental perpétua equivale, para fins creditícios, tributários e de acesso aos recursos
de fundos públicos, à Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN), definida no art. 21 da Lei no
9.985, de 18.07.2000.
O detentor da servidão ambiental poderá aliená-la, cedê-la ou transferi-la, total ou parcialmente,
por prazo determinado ou em caráter definitivo, em favor de outro proprietário ou de entidade pública
ou privada que tenha a conservação ambiental como fim social.
O contrato de alienação, cessão ou transferência da servidão ambiental deve ser averbado na
matrícula do imóvel. Deve conter, no mínimo, os seguintes itens:

I – a delimitação da área submetida a preservação, conservação ou recuperação ambiental;


II – o objeto da servidão ambiental;
III – os direitos e deveres do proprietário instituidor e dos futuros adquirentes ou sucessores;
IV – os direitos e deveres do detentor da servidão ambiental;
V – os benefícios de ordem econômica do instituidor e do detentor da servidão ambiental;
VI – a previsão legal para garantir o seu cumprimento, inclusive medidas judiciais necessárias, em
caso de ser descumprido.

São deveres do proprietário do imóvel serviente, entre outras obrigações estipuladas no contrato:

I – manter a área sob servidão ambiental;


II – prestar contas ao detentor da servidão ambiental sobre as condições dos recursos naturais ou
artificiais;
III – permitir a inspeção e a fiscalização da área pelo detentor da servidão ambiental;
IV – defender a posse da área serviente, por todos os meios em direito admitidos.

São deveres do detentor da servidão ambiental, entre outras obrigações estipuladas no contrato:

I – documentar as características ambientais da propriedade;


II – monitorar periodicamente a propriedade para verificar se a servidão ambiental está sendo
mantida;
III – prestar informações necessárias a quaisquer interessados na aquisição ou aos sucessores da
propriedade;
IV – manter relatórios e arquivos atualizados com as atividades da área objeto da servidão;
V – defender judicialmente a servidão ambiental.

Por fim, as áreas que tenham sido instituídas na forma de servidão florestal, nos termos do art. 44-A
da Lei no 4.771, de 15.09.1965 (que foi revogada), passam a ser consideradas como de servidão
ambiental (art. 9º-A, § 7º, da Lei nº 6.938/1981).

Conceitua-se concessão florestal, conforme o inciso VII do art. 3º da Lei nº 11.284/2009, como a
“delegação onerosa, feita pelo poder concedente, do direito de praticar manejo florestal sustentável para
exploração de produtos e serviços numa unidade de manejo, mediante licitação, à pessoa jurídica, em
consórcio ou não, que atenda às exigências do respectivo edital de licitação e demonstre capacidade para
seu desempenho, por sua conta e risco e por prazo determinado”.
O instituto da concessão florestal é uma novidade no direito brasileiro e representa a possibilidade da
exploração sustentável de produtos e serviços florestais.
Por produtos florestais entende-se a exploração de insumos madeireiros e não madeireiros, tais como
frutos, sementes etc. Os serviços florestais, por seu turno, identificam-se como o turismo ecológico, a
recreação em contato com a natureza e a educação ambiental.
A concessão florestal foi regulamentada pela Lei nº 11.284/2006, que criou a gestão de florestas
públicas para a produção sustentável, instituiu o Sistema Florestal Brasileiro na estrutura do Ministério
do Meio Ambiente e criou o Fundo Nacional de Desenvolvimento Florestal.
Trata-se do reconhecimento da importância da gestão e produção sustentável das florestas nacionais,
estaduais e municipais, definindo, em seus aspectos fundamentais, três espécies de gestão florestal:
a) a criação de florestas nacionais, estaduais e municipais, conforme a previsão do art. 17 da Lei nº
9.985/2000;
b) a destinação de florestas públicas às comunidades locais, com a criação de reservas extrativistas,
reservas de desenvolvimento sustentável e a concessão de uso, por meio de projetos de
assentamento florestal, de desenvolvimento sustentável, agroextrativistas e similares, nos termos
do art. 189 da CF e do Programa Nacional de Reforma Agrária; e
c) a concessão florestal.

Dentre essas formas, o instituto da concessão florestal afigura como a grande novidade e objetivo
fundamental da Lei nº 11.284/2006.

O seguro ambiental é um instrumento ainda pendente de regulamentação no País.

Conforme o art. 10 da Lei nº 6.938/1981, “a construção, instalação, ampliação e funcionamento de


estabelecimentos e atividades utilizadores de recursos ambientais, efetiva ou potencialmente poluidores
ou capazes, sob qualquer forma, de causar degradação ambiental dependerão de prévio licenciamento
ambiental”. A publicidade é elemento indeclinável no procedimento de licenciamento ambiental, como se
veem “os pedidos de licenciamento, sua renovação e a respectiva concessão serão publicados no jornal
oficial, bem como em periódico regional ou local de grande circulação, ou em meio eletrônico de
comunicação mantido pelo órgão ambiental competente” (art. 10, § 1º). Pela sua importância para a
efetivação da PNMA e de toda a política ambiental brasileira, o licenciamento ambiental será objeto de
análise singular no Capítulo 9.

As entidades e órgãos de financiamento e incentivos governamentais condicionarão a aprovação de


projetos habilitados a esses benefícios ao licenciamento, na forma desta Lei, e ao cumprimento das
normas, dos critérios e dos padrões expedidos pelo Conselho Nacional do Meio Ambiente (art. 12).
Dessa forma, bancos estatais de fomento deverão condicionar incentivos e financiamentos
governamentais ao licenciamento ambiental e ao cumprimento das normas expedidas pelo Conselho
Nacional do Meio Ambiente. Como exemplo, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e
Social (BNDES), empresa pública federal, responsável pelo financiamento de investimentos em todos os
segmentos da economia.
Ao se condicionarem os projetos ao licenciamento ambiental e ao cumprimento das normas expedidas
pelo Conama, o que se pretende evitar é a alocação de recursos públicos em obras e atividades
poluidoras e degradadoras com prejuízo, em última análise, do meio ambiente e da saúde humana.

Um dos grandes e inovadores avanços da PNMA foi instituir a responsabilidade civil ambiental
objetiva, como se vê no § 1º do art. 14: “(…) é o poluidor obrigado, independentemente da existência de
culpa, a indenizar ou reparar os danos causados ao meio ambiente e a terceiros, afetados por sua
atividade (…)”. Em seu caráter inovador, objetivou a responsabilidade civil sete anos antes da
promulgação da Constituição Federal de 1988. Em outras palavras, desde 1981, para se configurar a
responsabilidade civil ambiental, é necessária a comprovação do nexo causal entre a conduta e o evento
danoso, sem perquirir a culpabilidade do responsável.

Outra novidade da PNMA foi conferir ao Ministério Público Federal e Estadual a “legitimidade para
propor ação de responsabilidade civil e criminal, por danos causados ao meio ambiente” (art. 14, § 1º,
segunda parte). Hoje temos a Lei nº 7.347/1985 (Lei da Ação Civil Pública) e a Lei nº 9.605/1998 (Lei
de Crimes Ambientais).

Não obstante integrar a Lei nº 6.938/1981, o Sistema Nacional do Meio Ambiente (Sisnama) merecerá
análise singular no próximo capítulo.

• Política Nacional do Meio Ambiente: tem por objetivo geral a preservação, melhoria e recuperação
da qualidade ambiental propícia à vida, visando assegurar, no País, condições ao desenvolvimento
socioeconômico, aos interesses da segurança nacional e à proteção da dignidade da vida humana.
• Instrumentos da Política Nacional do Meio Ambiente: são os mecanismos legais e institucionais
postos à disposição da Administração Pública para a implementação dos objetivos do PNMA.
• Padrões de qualidade ambiental: entendem-se como a necessidade do Poder Público de estabelecer
os limites máximos de lançamentos de matérias ou energias, de efluentes ou resíduos no meio ambiente.
• Zoneamento ambiental: por meio do zoneamento regulamentam-se o uso e a ocupação territorial,
incluindo a utilização dos recursos ambientais. Como instrumento da PNMA, o zoneamento ambiental foi
regulamentado pelo Decreto nº 4.297/2002, que estabelece o zoneamento ecológico-econômico como
mecanismo de organização do território, a ser obrigatoriamente seguido na implantação de planos, obras
e atividades públicas e privadas.
• Avaliação de Impactos Ambientais (AIA): instrumento de gestão ambiental aplicável às atividades
e empreendimentos efetiva ou potencialmente poluidores ou que causem degradação ambiental. A AIA é
o conjunto de estudos ambientais e não se confunde com o EIA/Rima, que o integra e é uma espécie de
estudo ambiental.
• Licenciamento ambiental: procedimento administrativo em que o órgão ambiental competente
licencia as atividades efetiva ou potencialmente poluidoras e todas aquelas que, sob qualquer forma,
possam causar degradação ambiental.
• Sistema Nacional de Informações sobre o Meio Ambiente (Sinima): é o sistema responsável por
organizar, sistematizar e divulgar as informações ambientais dos órgãos e entes integrantes do Sisnama,
nos três níveis de governo.
• Cadastro Técnico Federal de Atividades e Instrumentos de Defesa Ambiental: é o cadastro que
contém a identificação obrigatória de pessoas físicas e jurídicas que se dedicam à consultoria técnica
sobre problemas ecológicos e ambientais e à indústria e comércio de equipamentos, aparelhos e
instrumentos destinados ao controle de atividades efetiva ou potencialmente poluidoras. É obrigatório,
sob pena de multa.
• Cadastro Técnico Federal de Atividades Potencialmente Poluidoras ou Utilizadoras de
Recursos Ambientais: tem como objetivo o registro obrigatório de pessoas físicas ou jurídicas que se
dedicam a atividades potencialmente poluidoras e/ou à extração, produção, transporte e comercialização
de produtos potencialmente perigosos ao meio ambiente, assim como de produtos e subprodutos da fauna
e da flora.
• Taxa de Fiscalização e Controle Ambiental (TCFA): possui como fato gerador o exercício regular
do poder de polícia, conferido ao Ibama para controle e fiscalização das atividades potencialmente
poluidoras e as que se utilizem de recursos naturais.
• Servidão ambiental: o proprietário ou possuidor de imóvel, pessoa natural ou jurídica, pode, por
instrumento público ou particular ou por termo administrativo firmado perante órgão integrante do
Sisnama, limitar o uso de toda a sua propriedade ou de parte dela para preservar, conservar ou recuperar
os recursos ambientais existentes, instituindo servidão ambiental. Não é possível instituir a servidão
ambiental sobre área de preservação ambiental e reserva legal florestal. O percentual da servidão
ambiental sobre a propriedade deve ser, no mínimo, o mesmo da reserva legal.
• Concessão florestal: delegação onerosa, feita pelo poder concedente, do direito de praticar manejo
florestal sustentável para exploração de produtos e serviços numa unidade de manejo, mediante licitação,
à pessoa jurídica, em consórcio ou não, que atenda às exigências do respectivo edital de licitação e
demonstre capacidade para seu desempenho, por sua conta e risco e por prazo determinado.
1 ANTUNES, 2005, p. 131.
2 MILARÉ, 2007, p. 448.
Não importa o quão devagar você vá, desde que
você não pare.
Confúcio

7.1 ESTRUTURA DO SISNAMA

O Sistema Nacional do Meio Ambiente (Sisnama) é o conjunto de entes e órgãos da União, Estados,
Distrito Federal, Municípios e suas respectivas administrações indiretas, responsáveis pela proteção,
controle, monitoramento e melhoria da qualidade e da política ambiental no País. O Sisnama é uma
criação da Política Nacional do Meio Ambiente (art. 6º da Lei nº 6.938/1981), regulamentado pelo
Decreto nº 99.274/1990.
Estrutura-se em seis níveis fundamentais:

a) órgão superior: o Conselho de Governo;


b) órgão consultivo e deliberativo: o Conselho Nacional do Meio Ambiente – Conama;
c) órgão central: o Ministério do Meio Ambiente;
d) órgão executor: o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis
(Ibama) e o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade;
e) órgãos seccionais: os órgãos ou entidades estaduais responsáveis pela execução de programas,
projetos e pelo controle e fiscalização de atividades capazes de provocar a degradação ambiental;
f) órgãos locais: os órgãos ou entidades municipais, responsáveis pelo controle e fiscalização
dessas atividades, nas suas respectivas jurisdições.

7.2 O CONSELHO DE GOVERNO

O Conselho de Governo é o órgão superior de assessoramento imediato da Presidência da


República, que tem por finalidade pronunciar-se sobre questões relevantes apresentadas ao Governo
Federal, incluídos a estabilidade das instituições e os problemas emergentes, de grave complexidade e
implicações sociais.
É previsto no inciso I do art. 7º da Lei nº 10.683/2003 (com redação dada pela Lei nº 12.314/2010),
in verbis: “Ao Conselho de Governo compete assessorar o Presidente da República na formulação de
diretrizes da ação governamental, dividindo-se em dois níveis de atuação: I – Conselho de Governo,
presidido pelo Presidente da República ou, por sua determinação, pelo Ministro de Estado Chefe da
Casa Civil, que será integrado pelos Ministros de Estado e pelo titular do Gabinete Pessoal do
Presidente da República; (…)”.
Ocupa, dessa forma, a posição de órgão superior do Sisnama, com a função de assessorar o
Presidente da República na formulação da política nacional e nas diretrizes governamentais para o meio
ambiente e os recursos ambientais. Contudo, sua atuação na esfera ambiental é praticamente inexistente.
7.3 O CONSELHO NACIONAL DO MEIO AMBIENTE

7.3.1 Competências
O Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) tem como finalidade assessorar, estudar e
propor, ao Conselho de Governo, diretrizes de políticas governamentais para o meio ambiente e os
recursos naturais e deliberar, no âmbito de sua competência, sobre normas e padrões compatíveis com o
meio ambiente ecologicamente equilibrado e essencial à sadia qualidade de vida.
Com efeito, na prática o Conama desempenha as atribuições do Conselho de Governo, com atuação
destacada na regulamentação da política nacional de meio ambiente. Ademais, possui poder regulamentar
em matérias ambientais em nível federal, o que o faz ganhar importância e relevância singular para um
órgão que se encontra somente no terceiro nível da Administração Direta.
As competências do Conama estão relacionadas no art. 8º da Lei nº 6.938/1981, a saber:

a) estabelecer, mediante proposta do Ibama, normas e critérios para o licenciamento de atividades


efetiva ou potencialmente poluidoras, a ser concedido pelos Estados e supervisionado pelo Ibama;
b) determinar, quando julgar necessário, a realização de estudos das alternativas e das possíveis
consequências ambientais de projetos públicos ou privados, requisitando aos órgãos federais,
estaduais e municipais, bem assim a entidades privadas, as informações indispensáveis para
apreciação dos estudos de impacto ambiental, e respectivos relatórios, no caso de obras ou
atividades de significativa degradação ambiental, especialmente nas áreas consideradas
patrimônio nacional;
c) determinar, mediante representação do Ibama, a perda ou restrição de benefícios fiscais
concedidos pelo Poder Público, em caráter geral ou condicional, e a perda ou suspensão de
participação em linhas de financiamento em estabelecimentos oficiais de crédito;
d) estabelecer, privativamente, normas e padrões nacionais de controle da poluição por veículos
automotores, aeronaves e embarcações, mediante audiência dos Ministérios competentes;
e) estabelecer normas, critérios e padrões relativos ao controle e à manutenção da qualidade do meio
ambiente com vistas ao uso racional dos recursos ambientais, principalmente os hídricos.

O art. 7º do Decreto nº 99.274/1990 – que regulamentou a Lei nº 6.938/1981 – traz um rol de


competências mais amplas ao Conama, em que se destacam:

a) estabelecer, mediante proposta do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais
Renováveis (Ibama), normas e critérios para o licenciamento de atividades efetiva ou
potencialmente poluidoras, a ser concedido pela União, pelos Estados, pelo Distrito Federal e
Municípios e supervisionado pelo referido Instituto;
b) determinar, quando julgar necessário, a realização de estudos das alternativas e das possíveis
consequências ambientais de projetos públicos ou privados, requisitando aos órgãos federais,
estaduais e municipais, bem como a entidades privadas, informações, notadamente as
indispensáveis à apreciação de Estudos Prévios de Impacto Ambiental e respectivos relatórios, no
caso de obras ou atividades de significativa degradação ambiental, em especial nas áreas
consideradas patrimônio nacional;
c) decidir, por meio da Câmara Especial Recursal, como última instância administrativa, os recursos
contra as multas e outras penalidades impostas pelo Ibama;
d) determinar, mediante representação do Ibama, a perda ou restrição de benefícios fiscais
concedidos pelo Poder Público, em caráter geral ou condicional, e a perda ou suspensão de
participação em linhas de financiamento em estabelecimentos oficiais de crédito;
e) estabelecer, privativamente, normas e padrões nacionais de controle da poluição causada por
veículos automotores, aeronaves e embarcações, mediante audiência dos Ministérios competentes;
f) estabelecer normas, critérios e padrões relativos ao controle e à manutenção da qualidade do meio
ambiente com vistas ao uso racional dos recursos ambientais, principalmente os hídricos;
g) estabelecer os critérios técnicos para declaração de áreas críticas, saturadas ou em vias de
saturação;
h) acompanhar a implementação do Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza
(SNUC), conforme disposto no inciso I do art. 6º da Lei nº 9.985/2000;
i) propor sistemática de monitoramento, avaliação e cumprimento das normas ambientais;
j) incentivar a criação, a estruturação e o fortalecimento institucional dos Conselhos Estaduais e
Municipais de Meio Ambiente, de gestão de recursos ambientais e dos Comitês de Bacia
Hidrográfica;
k) avaliar regularmente a implementação e a execução da política e normas ambientais do País:
l) recomendar ao órgão ambiental competente a elaboração do Relatório de Qualidade Ambiental,
previsto no inciso X do art. 9º da Lei nº 6.938/1981.

7.3.2 Atos do Conama


O Conama, no exercício de suas atribuições, como informa seu sítio na internet1, edita os seguintes
atos:

a) resoluções: ato administrativo que possui como objeto a deliberação vinculada a diretrizes e
normas técnicas, critérios e padrões relativos à proteção ambiental e ao uso sustentável dos
recursos ambientais. Esse é o ato por excelência do Conama, que disciplina os temas ambientais
por meio de suas resoluções;
b) moções: são editadas para manifestações, de qualquer natureza, que versam sobre a temática
ambiental;
c) recomendações: pertinentes para manifestações acerca da implementação de políticas, programas
públicos e normas com repercussão na área ambiental, inclusive sobre os termos de parceria de
que trata a Lei nº 9.790/1999, em especial a possibilidade de gestão das unidades de conservação
da natureza pelas organizações da sociedade civil de interesse público (art. 30 da Lei nº
9.985/2000);
d) proposições: o conteúdo versa sobre matéria ambiental com encaminhamento ao Conselho de
Governo ou às Comissões do Senado Federal e da Câmara dos Deputados;
e) decisões: quando se tratar de multas e outras penalidades impostas pelo Ibama.

7.3.3 Estrutura do Conama


Em sua estrutura, o Conama possui seis divisões:

a) Plenário;
b) Câmara Especial Recursal
c) Comitê de Integração de Políticas Ambientais (Cipam);
d) Câmaras Técnicas;
e) Grupos de Trabalho;
f) Grupos Assessores.

O Plenário do Conama, na qualidade de órgão colegiado, representa cinco setores:

a) entes/órgãos federais;
b) órgãos estaduais;
c) órgãos municipais;
d) setor empresarial; e
e) sociedade civil.

O Plenário é composto por 108 membros (art. 5º do Decreto nº 99.274/1990), assim distribuídos:

a) o Ministro de Estado do Meio Ambiente, que é o presidente do Conama;


b) o Secretário Executivo do Ministério do Meio Ambiente, que é o Secretário Executivo do
Conama;
c) um representante do Ibama e um do Instituto Chico Mendes;
d) um representante da Agência Nacional de Águas (ANA);
e) um representante de cada um dos Ministérios, das Secretarias da Presidência da República e dos
Comandos Militares do Ministério da Defesa, indicados pelos respectivos titulares;
f) um representante de cada um dos Governos Estaduais e do Distrito Federal, indicados pelos
respectivos governadores;
g) oito representantes dos Governos Municipais que possuam órgão ambiental estruturado e Conselho
de Meio Ambiente com caráter deliberativo, sendo:
• um representante de cada região geográfica do País;
• um representante da Associação Nacional de Municípios e Meio Ambiente (Anamma);
• dois representantes de entidades municipalistas de âmbito nacional;

h) vinte e um representantes de entidades de trabalhadores e da sociedade civil, sendo:


• dois representantes de entidades ambientalistas de cada uma das Regiões Geográficas do País;
• um representante de entidade ambientalista de âmbito nacional;
• três representantes de associações legalmente constituídas para a defesa dos recursos naturais e do combate à poluição, de livre
escolha do Presidente da República (uma vaga não possui indicação);
• um representante de entidades profissionais, de âmbito nacional, com atuação na área ambiental e de saneamento, indicado pela
Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental (Abes);
• um representante de trabalhadores indicado pelas centrais sindicais e confederações de trabalhadores da área urbana (Central
Única dos Trabalhadores – CUT, Força Sindical, Confederação Geral dos Trabalhadores – CGT, Confederação Nacional dos
Trabalhadores na Indústria – CNTI e Confederação Nacional dos Trabalhadores no Comércio – CNTC), escolhido em processo
coordenado pela CNTI e CNTC;
• um representante de trabalhadores da área rural, indicado pela Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura
(Contag);
• um representante de populações tradicionais, escolhido em processo coordenado pelo Centro Nacional de Desenvolvimento
Sustentável das Populações Tradicionais (CNPT/Ibama);
• um representante da comunidade indígena indicado pelo Conselho de Articulação dos Povos e Organizações Indígenas do Brasil
(Capoib);
• um representante da comunidade científica, indicado pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC);
• um representante do Conselho Nacional de Comandantes Gerais das Polícias Militares e Corpos de Bombeiros Militares
(CNCG);
• um representante da Fundação Brasileira para a Conservação da Natureza (FBCN);

i) oito representantes de entidades empresariais; e


j) um membro honorário indicado pelo Plenário;
k) integram também o Plenário do Conama, na condição de Conselheiros Convidados, sem direito a
voto:
• um representante do Ministério Público Federal;
• um representante dos Ministérios Públicos Estaduais, indicado pelo Conselho Nacional dos Procuradores-Gerais de Justiça; e
• um representante da Comissão de Defesa do Consumidor, Meio Ambiente e Minorias da Câmara dos Deputados.

O Plenário do Conama reunir-se-á, em caráter ordinário, a cada três meses, no Distrito Federal, e,
extraordinariamente, sempre que convocado pelo seu Presidente, por iniciativa própria ou a requerimento
de pelo menos dois terços de seus membros (art. 6º, caput). O exercício das atribuições de conselheiro
do Conama é considerado serviço de natureza relevante e não é remunerado, cabendo às instituições
representadas o custeio de todas as despesas com os seus representantes (art. 6º, § 4º).

COMPOSIÇÃO DO CONAMA
A Câmara Especial Recursal, criada pelo Decreto nº 6.792/2009, é a instância administrativa do
Conama responsável pelo julgamento, em caráter final, das multas e outras penalidades administrativas
impostas pelo Ibama. As decisões da Câmara terão caráter terminativo. A Câmara Especial Recursal será
composta por um representante, titular e suplente, de cada órgão e entidade a seguir indicados: (a)
Ministério do Meio Ambiente, que a presidirá; (b) Ministério da Justiça; (c) Instituto Chico Mendes de
Conservação a Biodiversidade; (d) Ibama; (e) entidade ambientalista; (f) entidades empresariais; e (g)
entidades de trabalhadores. As indicações dos representantes que irão compor a Câmara Especial
Recursal obedecerão aos mesmos procedimentos de que trata o art. 5º do Decreto nº 99.274/1990. É
pertinente relacionar que os representantes da Câmara Especial Recursal serão escolhidos entre
profissionais com formação jurídica e experiência na área ambiental, para período de dois anos,
renovável por igual prazo, e a participação será considerada serviço de natureza relevante, não
remunerada. A Câmara Especial Recursal reunir-se-á, por convocação do seu Presidente, em Brasília e
em sessão pública, com a presença de pelo menos a metade mais um dos seus membros e deliberará por
maioria simples dos membros presentes, cabendo ao Presidente, além do voto pessoal, o de qualidade.

Constitui-se na Secretaria Executiva do Conama e tem como atribuições:

a) proceder à avaliação sistemática e ao planejamento a curto, médio e longo prazos das atividades
do Conama;
b) promover a integração dos temas discutidos no âmbito do Conama, a partir das contribuições
oriundas das Câmaras Técnicas e dos Grupos Assessores;
c) relatar ao Plenário assuntos de sua competência;
d) apreciar, em primeira instância, propostas de alterações do Regimento Interno;
e) sistematizar as propostas para a Agenda Nacional de Meio Ambiente, oriundas das Câmaras
Técnicas, para encaminhamento ao Plenário;
g) difundir informações e atuar na busca de consenso no âmbito do Conselho, e promover a
realização de reuniões conjuntas entre as Câmaras Técnicas.

As câmaras técnicas são instâncias encarregadas de desenvolver, examinar e relatar ao Plenário as


temáticas que lhes são afetas. O regimento interno do Conama prevê a existência de 11 Câmaras
Técnicas2, compostas por 10 conselheiros, que elegem um presidente, um vice-presidente e um relator.
São câmaras técnicas do Conama:

(I) Biodiversidade, Fauna e Recursos Pesqueiros;


(II) Florestas e Atividades Agrossilvopastoris;
(III) Unidades de Conservação e demais Áreas Protegidas;
(IV) Gestão Territorial e Biomas;
(V) Controle e Qualidade Ambiental;
(VI) Saúde, Saneamento Ambiental e Gestão de Resíduos;
(VII) Atividades Minerárias, Energéticas e de Infraestrutura;
(VIII) Economia e Meio Ambiente;
(IX) Educação Ambiental;
(X) Assuntos Internacionais; e
(XI) Assuntos Jurídicos.

Os grupos de trabalho são criados por meio de proposta das câmaras técnicas, mediante entendimento
com a Secretaria Executiva, para analisar, estudar e apresentar matérias de sua competência.

O Conama será assistido por grupos assessores, a serem instituídos pelo Plenário do Conama. Os
grupos assessores deverão preparar, no âmbito de sua competência, pareceres, relatórios e estudos,
sempre que solicitados pelo Plenário, pelo Presidente, pelo Secretário Executivo, pelas câmaras técnicas
ou pelo Cipam (art. 41 do Regimento Interno do Conama).

7.4 O MINISTÉRIO DO MEIO AMBIENTE

Após a Conferência Mundial de Meio Ambiente de Estocolmo, em 1972, o Brasil criou em 1973 a
Secretaria Especial de Meio Ambiente que, no decorrer dos anos, sofreu alterações de nomenclatura até
a criação do Ministério do Meio Ambiente, como integrante da Administração Direta, em 1992,
decorrência da realização da Conferência da Rio/92. Como se nota, o avanço da estrutura institucional de
proteção do meio ambiente no País foi consequência direta das conferências mundiais sobre o meio
ambiente.
O Ministério do Meio Ambiente é o órgão central do Sisnama, com a finalidade de planejar,
coordenar, supervisionar e controlar, como órgão federal, a política nacional e as diretrizes
governamentais fixadas para o meio ambiente.
Uma observação importante: apesar da referência ao Ministério do Meio Ambiente como órgão
central do Sisnama, o inciso III do art. 6º da Lei nº 6.938/1981 consigna como órgão central a Secretaria
do Meio Ambiente da Presidência da República. Todavia, essa Secretaria foi transformada no Ministério
do Meio Ambiente pela Lei nº 8.490/1992 (art. 21), que com as modificações e mudanças de
nomenclatura etc. é hoje o Ministério do Meio Ambiente, nos termos da Lei nº 10.683/2003.

O art. 6º, III, da Lei nº 6.938/1981 consigna como órgão central do


Sisnama a Secretaria do Meio Ambiente da Presidência da República.
Contudo, as funções de órgão central são exercidas pelo Ministério do
Meio Ambiente, porque a Secretaria do Meio Ambiente da Presidência da
República foi transformada em Ministério do Meio Ambiente pela Lei nº
8.490/1992, que com as modificações e mudanças de nomenclatura é hoje
o Ministério do Meio Ambiente, nos termos da Lei nº 10.683/2003. Atenção
máxima porque em alguns certames o examinador optou pela literalidade,
ou seja, Secretaria do Meio Ambiente da Presidência da República

São competências do Ministério do Meio Ambiente (art. 27, XVI, Lei nº 10.683/2003):

a) política nacional do meio ambiente e dos recursos hídricos;


b) política de preservação, conservação e utilização sustentável de ecossistemas, e biodiversidade e
florestas;
c) proposição de estratégias, mecanismos e instrumentos econômicos e sociais para a melhoria da
qualidade ambiental e do uso sustentável dos recursos naturais;
d) políticas para integração do meio ambiente e produção;
e) políticas e programas ambientais para a Amazônia Legal;
f) zoneamento ecológico-econômico.

A estrutura organizacional do Ministério do Meio Ambiente é prevista no Decreto nº 6.101/2007,


com os seguintes órgãos colegiados:

a) Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama);


b) Conselho Nacional da Amazônia Legal (Conamaz): possui como competência assessorar o
Presidente da República na formulação e no acompanhamento da implantação da política nacional
integrada para a Amazônia Legal, coordenando e articulando as ações da política nacional
integrada para essa região, em conjunto com os governos estaduais e municipais, considerando as
dimensões sociais e econômicas, em garantia ao desenvolvimento sustentável, à proteção e
preservação do meio ambiente e à melhoria da qualidade de vida das populações;
c) Conselho Nacional de Recursos Hídricos: responsável por promover a articulação do
planejamento de recursos hídricos com os planejamentos nacional, regional, estaduais e dos
setores usuários, propondo alterações na legislação de recursos hídricos e diretrizes
complementares para a implementação da Política Nacional de Recursos Hídricos e dos
instrumentos do Sistema Nacional de Gerenciamento dos Recursos Hídricos;
d) Conselho Deliberativo do Fundo Nacional do Meio Ambiente: compete julgar os projetos que
visem ao uso racional e sustentável dos recursos naturais, inclusive a manutenção, melhoria e
recuperação da qualidade ambiental, no sentido de elevar a qualidade de vida da população
brasileira;
e) Conselho de Gestão do Patrimônio Genético: é o responsável por coordenar a implementação de
políticas para a gestão do patrimônio genético, estabelecendo normas técnicas e deliberando a
respeito das temáticas sobre o acesso ao patrimônio genético, a proteção e o acesso ao
conhecimento tradicional associado, a repartição de benefícios e o acesso à tecnologia e a
transferência de tecnologia para sua conservação e utilização;
f) Comissão de Gestão de Florestas Públicas: criada pela Lei nº 11.284/2006, tem como finalidade
(I) assessorar, avaliar e propor diretrizes para gestão de florestas públicas da União; (II)
manifestar-se sobre o Plano Anual de Outorga Florestal (PAOF) da União; e (III) exercer as
atribuições de órgão consultivo do Serviço Florestal Brasileiro (SFB);
g) Comissão Nacional de Florestas: com a finalidade de propor e avaliar medidas para o
cumprimento dos princípios e diretrizes da política pública do setor florestal em observância aos
ditames da Política Nacional do Meio Ambiente e do Programa Nacional de Florestas.

A par dos colegiados, integram a Administração Pública Indireta Federal, como entes vinculados ao
Ministério do Meio Ambiente:

a) Agência Nacional de Águas (ANA): autarquia de natureza especial, com autonomia financeira e
administrativa, estabelecida em forma colegiada, com finalidade de implementar, em sua esfera de
atribuições, a Política Nacional de Recursos Hídricos, instituída pela Lei nº 9.433/1997;
b) Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama);
c) Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (Instituto Chico Mendes);
d) Instituto de Pesquisas Jardim Botânico do Rio de Janeiro (JBRJ): autarquia federal com regime
jurídico de direito público, com autonomia financeira e administrativa; tem a finalidade de
promover, realizar e divulgar o ensino e as pesquisas técnico-científicas sobre os recursos
florísticos do Brasil, visando ao conhecimento e à conservação da biodiversidade, bem como
manter as coleções científicas sob sua responsabilidade, em consonância com as diretrizes das
políticas fixadas pelo Ministério do Meio Ambiente.

7.5 O INSTITUTO BRASILEIRO DE MEIO AMBIENTE E DOS RECURSOS


NATURAIS RENOVÁVEIS (IBAMA)

O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) é um dos
entes executores do Sisnama – ao lado do Instituto Chico Mendes –, responsável pelas políticas e
diretrizes governamentais fixadas para o meio ambiente. A criação do Ibama em 1989, pela Lei nº 7.735,
representou a integração das políticas ambientais no Brasil, que estavam fragmentadas em diversos
ministérios e órgãos governamentais.
Constitui-se em uma autarquia federal de regime especial e tem como principais atribuições exercer o
poder de polícia ambiental; executar ações das políticas nacionais de meio ambiente, referentes às
atribuições federais, relativas ao licenciamento ambiental, ao controle da qualidade ambiental, à
autorização de uso dos recursos naturais e à fiscalização, monitoramento e controle ambiental; e executar
as ações supletivas de competência da União.
Entre suas atribuições, enquadram-se:

a) propor e editar normas e padrões de qualidade ambiental;


b) o zoneamento e a avaliação de impactos ambientais;
c) o licenciamento ambiental, nas atribuições federais;
d) a implementação do Cadastro Técnico Federal;
e) a fiscalização ambiental e a aplicação de penalidades administrativas;
f) a geração e a disseminação de informações relativas ao meio ambiente;
g) o monitoramento ambiental, principalmente no que diz respeito à prevenção e controle de
desmatamentos, queimadas e incêndios florestais;
h) o apoio às emergências ambientais;
i) a execução de programas de educação ambiental;
j) a elaboração do sistema de informação; e
k) o estabelecimento de critérios para a gestão do uso dos recursos faunísticos, pesqueiros e
florestais.
7.6 INSTITUTO CHICO MENDES

O Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade – Instituto Chico Mendes é uma


autarquia federal de natureza especial, com autonomia financeira e administrativa, criada pela Lei nº
11.516/2007, órgão executor do Sisnama (inserido pela Lei nº 12.856/2013), que possui como
competência administrar as unidades de conservação federais previstas e criadas a partir da Lei nº
9.985/2000.
A criação do Instituto Chico Mendes representou a redefinição de competências antes atribuídas ao
Ibama.
O Instituto Chico Mendes possui as seguintes finalidades:

a) executar ações da política nacional de unidades de conservação da natureza, referentes às


atribuições federais relativas à proposição, implantação, gestão, proteção, fiscalização e
monitoramento das unidades de conservação instituídas pela União;
b) executar as políticas relativas ao uso sustentável dos recursos naturais renováveis e ao apoio ao
extrativismo e às populações tradicionais nas unidades de conservação de uso sustentável
instituídas pela União;
c) fomentar e executar programas de pesquisa, proteção, preservação e conservação da
biodiversidade e de educação ambiental;
d) exercer o poder de polícia ambiental para a proteção das unidades de conservação instituídas pela
União; e
e) promover e executar, em articulação com os demais órgãos e entidades envolvidos, programas
recreacionais, de uso público e de ecoturismo nas unidades de conservação, onde estas atividades
sejam permitidas.

Em setembro de 2013 o Instituto Chico Mendes foi inserido como órgão


executor do Sisnama, ao lado do Ibama. Além disso, a Lei nº 12.892/2013,
declarou o ambientalista Chico Mendes patrono do meio ambiente
brasileiro

No dia 07.03.2012, no julgamento da ADI nº 4.029, o STF declarou


parcialmente a inconstitucionalidade da Lei nº 11.516/2007, que criou o
Instituto Chico Mendes. Contudo, no dia seguinte, 08.03.2012, após uma
questão de ordem, ocorreu a declaração de improcedência da ação, como
se vê: “Ação direta julgada improcedente, declarando-se incidentalmente a
inconstitucionalidade dos artigos 5º, , e 6º, e parágrafos 1º e
2º, da Resolução nº 1 de 2002 do Congresso Nacional, postergados os
efeitos da decisão, nos termos do art. 27 da Lei 9.868/1999, para
preservar a validade e a eficácia de todas as Medidas Provisórias
convertidas em Lei até a presente data, bem como daquelas atualmente
em trâmite no Legislativo (ADI 4.029)”. Assim, manteve-se o Instituto Chico
Mendes.
Para maior compreensão, transcreve-se a notícia do sítio do STF:
“A ADI 4.029 questionava o rito pelo qual foi aprovada a MP que se
transformou na Lei 11.516/2007, que criou o Instituto Chico Mendes de
Conservação da Biodiversidade (ICMBio), e pedia a declaração da sua
inconstitucionalidade. O acolhimento da questão de ordem resultou na
declaração de improcedência da ação.
Ontem, a ADI havia sido julgada parcialmente procedente. O STF havia
declarado a inconstitucionalidade da lei, mas dado prazo de dois anos para
que o Congresso Nacional editasse nova norma para garantir a
continuidade da autarquia. Com a decisão de hoje, a lei foi validada, pois o
Congresso Nacional deverá seguir o trâmite previsto na Constituição
Federal apenas daqui para frente.
Em sua decisão de hoje, a Corte levou em consideração a impossibilidade
de retroação em relação às MPs convertidas em lei sob o rito previsto na
Resolução 1/2002, que interferem nos mais diversos setores da vida do
país. Além disso, a retroação levaria o Congresso Nacional a iniciar nova
tramitação de todas essas medidas provisórias.
A questão de ordem foi levada ao Plenário pelo Ministro Luiz Fux, relator
da ADI 4029. A AGU havia pedido prazo de 24 meses para o Congresso
Nacional adaptar-se à regra constitucional, mas o ministro propôs que as
MPs já convertidas em lei e as ainda em tramitação não fossem
alcançadas pela decisão.
O presidente do STF, Ministro Cezar Peluso e o Ministro Gilmar Mendes
advertiram que era necessário modificar a proclamação da decisão de
ontem e a proposta foi acolhida pelo Plenário. Por fim, quanto ao resultado
final, ficaram vencidos os Ministros Marco Aurélio e Cezar Peluso, que
mantiveram o entendimento anterior, ou seja, pela procedência da ADI
4.029, embora por motivos diferentes”. Disponível em:
<http://www.stf.jus.br/portal/cms/verNoticiaDetalhe.asp?
idConteudo=202191>.

7.7 ÓRGÃOS AMBIENTAIS ESTADUAIS

Os órgãos ambientais instituídos pelos Estados-membros integram o Sisnama. Ao contrário do que se


supõe, aos órgãos estaduais compete um papel decisivo e amplo na efetivação da Política Nacional de
Meio Ambiente.
Entre as suas prerrogativas, destacam-se, entre outras:

a) o licenciamento ambiental de atividades e empreendimentos causadores de poluição e degradação


ambientais;
b) o exercício do poder de polícia ambiental;
c) a proteção florestal, com responsabilidade pela autorização para a intervenção ou supressão de
vegetação, a instituição da reserva legal florestal etc.;
d) a outorga de uso dos recursos hídricos.

Alguns Estados optaram por dividir as atribuições ambientais em mais de um órgão ou ente ambiental.
Assim, são possíveis órgãos ou entidades específicas para as florestas, recursos hídricos, licenciamento
etc.
Por aí se vê a importância dos órgãos ambientais como integrantes do Sisnama.

7.8 ÓRGÃOS AMBIENTAIS MUNICIPAIS

A proteção ao meio ambiente é obrigação comum a todos os entes federativos e, no caso dos
Municípios, a Constituição de 1988 conferiu a eles um conjunto de competências administrativas e
legislativas (arts. 23 e 30 da CF). Em regra, o órgão ambiental municipal exerce o poder de polícia
ambiental. Contudo, somente é possível realizar o licenciamento ambiental de atividades efetiva ou
potencialmente poluidoras se, além de órgão ambiental capacitado, o Município possuir conselho de
meio ambiente.

7.9 COMISSÃO TÉCNICA NACIONAL DE BIOSSEGURANÇA

A Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio), criada pela Lei nº 11.105/2005, não
integra o Sisnama, vinculando-se à estrutura do Ministério de Ciência e Tecnologia. A CTNBio possui
como finalidade prestar apoio técnico consultivo e assessoramento ao Governo Federal na formulação,
atualização e implementação da Política Nacional de Biossegurança relativa ao OGM, bem como no
estabelecimento de normas técnicas de segurança e pareceres técnicos referentes à proteção da saúde
humana, dos organismos vivos e do meio ambiente, para atividades que envolvam a construção,
experimentação, cultivo, manipulação, transporte, comercialização, consumo, armazenamento, liberação
e descarte de OGM e derivados.

7.10 SERVIÇO FLORESTAL BRASILEIRO


O Serviço Florestal Brasileiro integra a estrutura do Ministério do Meio Ambiente, possui autonomia
financeira e administrativa e é o órgão responsável pela gestão de florestas públicas no âmbito federal e
gestor do Fundo Nacional de Desenvolvimento Florestal. Assim, igualmente não integra o Sisnama.
O Serviço Florestal Brasileiro assume um papel importante na proteção ambiental como órgão gestor
do processo de concessão de florestas públicas para a exploração de produtos e serviços florestais.

7.11 SÍNTESE

• Sistema Nacional do Meio Ambiente (Sisnama): é o conjunto de entes e órgãos da União, Estados,
Distrito Federal, Municípios e suas respectivas administrações indiretas, responsáveis pela proteção,
controle, monitoramento e melhoria da qualidade e da política ambiental no País.
• Conselho de Governo: órgão superior do Sisnama, com a função de assessorar o Presidente da
República na formulação da política nacional e nas diretrizes governamentais para o meio ambiente e os
recursos ambientais.
• Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama): órgão consultivo e deliberativo, tem como
finalidade assessorar, estudar e propor, ao Conselho de Governo, diretrizes de políticas governamentais
para o meio ambiente e os recursos naturais e deliberar, no seu âmbito de sua competência, sobre normas
e padrões compatíveis com o meio ambiente ecologicamente equilibrado e essencial à sadia qualidade de
vida.
• Ministério do Meio Ambiente: órgão central do Sisnama, com a finalidade de planejar, coordenar,
supervisionar e controlar, como órgão federal, a política nacional e as diretrizes governamentais fixadas
para o meio ambiente.
• Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama): é ente
executor do Sisnama, responsável pelas políticas e diretrizes governamentais fixadas para o meio
ambiente.
• Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade: autarquia que possui como finalidade
as atribuições federais relativas à proposição, implantação, gestão, proteção, fiscalização e
monitoramento das unidades de conservação instituídas pela União (Lei nº 9.985/2000). É ente executor
do Sisnama.
• Órgãos ambientais estaduais: constituem os órgãos seccionais do Sisnama.
• Órgãos ambientais municipais: são os órgãos locais do Sisnama.
• Comissão Técnica Nacional de Biossegurança: não integra o Sisnama. É órgão do Ministério de
Ciência e Tecnologia e tem como finalidade prestar apoio técnico consultivo e assessoramento ao
Governo Federal na formulação, atualização e implementação da Política Nacional de Biossegurança
relativa aos organismos geneticamente modificados.
• Serviço Florestal Brasileiro: integra a estrutura do Ministério do Meio Ambiente, possui autonomia
financeira e administrativa e é o órgão responsável pela gestão de florestas públicas no âmbito federal e
gestor do Fundo Nacional de Desenvolvimento Florestal. Assim, não integra o Sisnama.

Composto por conselheiros que representam cinco setores: (a)


governo federal; (b) governos estaduais; (c) governos municipais;
(d) setor empresarial; (e) sociedade civil.
O Plenário reúne-se, em caráter ordinário, a cada três meses, no
Distrito Federal, e, extraordinariamente, sempre que convocado
Plenário pelo seu Presidente, por iniciativa própria ou a requerimento de pelo
menos dois terços de seus membros.
ESTRUTURA O exercício das atribuições de conselheiro do Conama é
DO considerado serviço de natureza relevante e não é remunerado,
CONAMA cabendo às instituições representadas o custeio de todas as
despesas com os seus representantes.
Cipam É a Secretaria Executiva do Conama.
As Câmaras Técnicas são instâncias encarregadas de desenvolver,
Câmaras examinar e relatar ao Plenário as temáticas que lhe são afetas. O
Técnicas Conama possui 11 Câmaras Técnicas, compostas por 10
conselheiros.
Os Grupos de Trabalho são criados mediante proposta das
Grupos de Câmaras Técnicas, mediante entendimento com a Secretaria-
Trabalho Executiva, para analisar, estudar e apresentar matérias de sua
competência.
O Conama será assistido por Grupos Assessores, instituídos pelo
Plenário do Conama. Os Grupos Assessores deverão preparar, no
ESTRUTURA Grupos
âmbito de sua competência, pareceres, relatórios e estudos,
DO Assessores
sempre que solicitados pelo Plenário, pelo Presidente, pelo
CONAMA
Secretário Executivo, pelas Câmaras Técnicas ou pelo Cipam.
A Câmara Especial Recursal, criada pelo Decreto nº 6.792/2009, é
Câmara a instância administrativa do Conama responsável pelo julgamento,
Especial em caráter final, das multas e outras penalidades administrativas
Recursal impostas pelo Ibama. As decisões da Câmara terão caráter
terminativo.

7.12 QUESTÕES PARA FIXAÇÃO

7.12.1 Questões objetivas


1. (FCC – 2016 – ELETROBRAS-ELETROSUL) No Sistema Nacional do Meio Ambiente
− Sisnama, as Resoluções do Conselho Nacional do Meio Ambiente − Conama
(A) possuem força normativa.
(B) vinculam a Administração pública, mas não o particular.
(C) vinculam o particular, mas não a Administração pública.
(D) vinculam o particular e a Administração pública se forem ratificadas por decreto.
(E) vinculam o particular e a Administração pública se forem ratificadas por lei.

2. (FUNRIO – 2016 – Procurador Municipal – Prefeitura de Itupeva/SP) De acordo com


a Lei nº 6.938-81 o Sistema Nacional do Meio Ambiente – Sisnama é organizado com
vários órgãos distribuídos pelos entes da federação sendo que os entes municipais
participam dos órgãos:
(A) centrais.
(B) consultivos.
(C) locais.
(D) executivos.

3. (FCC – 2016 – Procurador do Município – Prefeitura de São Luiz/MA) A respeito do


Sistema Nacional de Meio Ambiente − Sisnama, é INCORRETO afirmar que
(A) a Agência Nacional de Águas − ANA faz parte do Sisnama.
(B) os Municípios fazem parte do Sisnama e podem exercer atividade fiscalizatória de
empreendimento licenciado pela União, nos casos de iminência de degradação da
qualidade ambiental.
(C) o Conselho Nacional do Meio Ambiente − Conama é um órgão colegiado consultivo e
deliberativo do Sisnama.
(D) o Ibama e o Instituto Chico Mendes são órgãos executores do Sisnama, sendo que o
primeiro tem a atribuição de exercer o licenciamento e a fiscalização, e o segundo
tem a atribuição de gerenciar o Sistema Nacional de Unidades de Conservação −
SNUC.
(E) as Secretariais Estaduais de Meio Ambiente são órgãos seccionais do Sisnama.

4. (CESPE – 2012 – MPE-TO – Promotor de Justiça) A respeito do Sisnama, assinale a


opção correta.
(A) Somente o governo federal possui direito a voto na plenária do Conama.
(B) Não compõem o Sisnama as secretarias de meio ambiente dos Municípios.
(C) O Conama, órgão colegiado do Sisnama, possui funções consultivas e deliberativas.
(D) O Ibama não é mais o órgão executor do Sisnama desde a criação do ICMBio.
(E) A presidência do Conama é exercida pelo ministro chefe da Casa Civil.

5. (FCC – TJPE – JUIZ SUBSTITUTO – 2011) O Conselho Nacional do Meio Ambiente –


Conama é órgão encarregado de
(A) reunir em um sistema único os órgãos da administração ambiental federal, estadual e
municipal, promovendo reuniões trimestrais entre eles para tornar efetiva a proteção
do meio ambiente.
(B) gerir o Fundo Nacional do Meio Ambiente e a distribuição de recursos para projetos
ambientais.
(C) estudar e propor diretrizes de políticas governamentais para o meio ambiente e
executar a política nacional do meio ambiente, podendo agir administrativa ou
judicialmente.
(D) estudar e propor diretrizes de políticas governamentais para o meio ambiente e
deliberar, no âmbito de suas competências, sobre normas e padrões compatíveis
com a proteção do meio ambiente.
(E) expedir Resoluções para a manutenção da qualidade do meio ambiente no âmbito
federal.

6. FCC – 2012 – PGE-SP – Procurador) De acordo com o artigo 6º da Lei Federal nº


6.938/1981, que dispõe sobre a Política Nacional do Meio Ambiente, dentre os
órgãos e entidades da União, Estados, Distrito Federal e Municípios que constituem
o Sistema Nacional de Meio Ambiente – Sisnama –, temos, respectivamente, como
órgãos Superior, Consultivo e Deliberativo, Executor e Seccionais, os seguintes:
(A) Conselho Nacional do Meio Ambiente – Conama; Conselho de Governo; Instituto
Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis – Ibama; e os
órgãos ou entidades estaduais responsáveis pela execução de programas, projetos e
pelo controle e fiscalização de atividades capazes de provocar a degradação
ambiental.
(B) Conselho de Governo; Conselho Nacional do Meio Ambiente – Conama; Instituto
Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis – Ibama; e os
órgãos ou entidades municipais, responsáveis pelo controle e fiscalização dessas
atividades, nas suas respectivas jurisdições.
(C) Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis – Ibama;
Conselho de Governo; Conselho Nacional do Meio Ambiente – Conama; e os órgãos
ou entidades estaduais responsáveis pela execução de programas, projetos e pelo
controle e fiscalização de atividades capazes de provocar a degradação ambiental.
(D) Conselho de Governo; Conselho Nacional do Meio Ambiente – Conama; Instituto
Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis – Ibama; e os
órgãos ou entidades estaduais responsáveis pela execução de programas, projetos e
pelo controle e fiscalização de atividades capazes de provocar a degradação
ambiental.
(E) Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis – Ibama;
Conselho de Governo; Conselho Nacional do Meio Ambiente – Conama; e os órgãos
ou entidades municipais, responsáveis pelo controle e fiscalização dessas atividades,
nas suas respectivas jurisdições.

7. (FCC – 2010 – AL-SP – Agente Técnico Legislativo Especializado – Direito) Com


relação ao Sistema Nacional do Meio Ambiente, a Secretaria do Meio Ambiente da
Presidência da República é classificada como órgão
(A) executor.
(B) central.
(C) consultivo.
(D) deliberativo.
(E) seccional.

8. FCC – 2012 – PGE-SP – Procurador) De acordo com o artigo 6º da Lei Federal nº


6.938/1981, que dispõe sobre a Política Nacional do Meio Ambiente, dentre os
órgãos e entidades da União, Estados, Distrito Federal e Municípios que constituem
o Sistema Nacional de Meio Ambiente – Sisnama –, temos, respectivamente, como
órgãos Superior, Consultivo e Deliberativo; Executor e Seccionais, os seguintes:
(A) Conselho Nacional do Meio Ambiente – Conama; Conselho de Governo; Instituto
Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis – Ibama; e os
órgãos ou entidades estaduais responsáveis pela execução de programas, projetos e
pelo controle e fiscalização de atividades capazes de provocar a degradação
ambiental.
(B) Conselho de Governo; Conselho Nacional do Meio Ambiente – Conama; Instituto
Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis – Ibama; e os
órgãos ou entidades municipais, responsáveis pelo controle e fiscalização dessas
atividades, nas suas respectivas jurisdições.
(C) Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis – Ibama;
Conselho de Governo; Conselho Nacional do Meio Ambiente – Conama; e os órgãos
ou entidades estaduais responsáveis pela execução de programas, projetos e pelo
controle e fiscalização de atividades capazes de provocar a degradação ambiental.
(D) Conselho de Governo; Conselho Nacional do Meio Ambiente – Conama; Instituto
Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis – Ibama; e os
órgãos ou entidades estaduais responsáveis pela execução de programas, projetos e
pelo controle e fiscalização de atividades capazes de provocar a degradação
ambiental.
(E) Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis – Ibama;
Conselho de Governo; Conselho Nacional do Meio Ambiente – Conama; e os órgãos
ou entidades municipais, responsáveis pelo controle e fiscalização dessas atividades,
nas suas respectivas jurisdições.

9. (FCC – 2012 – MPE-AP – Analista Ministerial – Direito) De acordo com a Lei nº


6.938/1981, o Sistema Nacional do Meio Ambiente – Sisnama possui o Conselho
Nacional do Meio Ambiente – Conama em sua estrutura como órgão
(A) superior, com a finalidade de planejar, coordenar, supervisionar e controlar, como
órgão federal, a política nacional e as diretrizes governamentais fixadas para o meio
ambiente.
(B) consultivo e deliberativo, com a finalidade de assessorar, estudar e propor ao
Conselho de Governo, diretrizes de políticas governamentais para o meio ambiente e
os recursos naturais e deliberar, no âmbito de sua competência, sobre normas e
padrões compatíveis com o meio ambiente ecologicamente equilibrado e essencial à
sadia qualidade de vida.
(C) central, com a função de assessorar o Presidente da República na formulação da
política nacional e nas diretrizes governamentais para o meio ambiente e os recursos
ambientais.
(D) executor, com a finalidade de executar e fazer executar, como órgão federal, a
política e diretrizes governamentais fixadas para o meio ambiente.
(E) seccional, com a responsabilidade de divulgar anualmente o Relatório de Qualidade
do Meio Ambiente, bem como de administrar o Cadastro Técnico Federal de
Atividades e Instrumentos de Defesa Ambiental, além do Cadastro Técnico Federal
de Atividades Potencialmente Poluidoras ou Utilizadoras de Recursos Ambientais.

10. (CESPE – TJPI – JUIZ SUBSTITUTO – 2012) Com relação à PNMA e à estrutura e
funcionamento do Sisnama, conforme a Lei nº 6.938/1981, assinale a opção correta.
(A) A fiscalização e o controle da aplicação de critérios, normas e padrões de qualidade
ambiental devem ser exercidos prioritariamente pelo Ibama e, em caráter supletivo,
pelos órgãos estaduais e municipais competentes.
(B) Na estrutura do Sisnama, o Conama é o órgão superior, e sua função é assistir o
Presidente da República na formulação de diretrizes da PNMA.
(C) Não se exige das pessoas físicas que se dediquem à consultoria técnica de
problemas ambientais o registro no Ibama, mas as pessoas físicas e jurídicas que se
dediquem a atividades poluidoras ou à extração, produção, transporte e
comercialização de produtos perigosos, assim como de produtos e subprodutos da
fauna e flora, devem, obrigatoriamente, registrar-se em cadastro técnico federal
administrado pelo Ibama.
(D) Compete ao Conama, entre outras atribuições, determinar, mediante representação
do Ibama, a perda ou a restrição de benefícios fiscais concedidos pelo poder público
e a perda ou a suspensão de participação em linhas de financiamento em
estabelecimentos oficiais de crédito.
(E) A construção, instalação, ampliação e o funcionamento de estabelecimentos e de
atividades que utilizem recursos ambientais considerados efetiva e potencialmente
poluidores dependem de prévio licenciamento do Ibama, se o impacto ambiental for
de âmbito nacional, e do órgão estadual do ambiente, caso o impacto seja de âmbito
regional.

11. (VUNESP – 2010 – MPE-SP – Analista de Promotoria I) Sobre a estrutura do Sistema


Nacional do Meio Ambiente (Sisnama), é correto afirmar que caberá
(A) ao órgão central, formado pela Secretaria do Meio Ambiente da Presidência da
República, planejar, coordenar, supervisionar e controlar a política nacional e
diretrizes governamentais fixadas para o meio ambiente.
(B) ao órgão superior, formado pelo Conama (Conselho Nacional do Meio Ambiente),
propor e estudar diretrizes e políticas governamentais para o meio ambiente.
(C) ao órgão executor, formado pelo Conselho do Governo, a função de assessorar o
Presidente da República na formulação da política nacional para o meio ambiente e
recursos ambientais.
(D) aos órgãos seccionais, compostos basicamente pelo Instituto Brasileiro do Meio
Ambiente e dos Recursos Naturais, executar e fazer executar como órgão federal, as
políticas e diretrizes fixadas para o meio ambiente.
(E) ao órgão executor, composto pelos órgãos municipais, controlar e verificar a correta
execução das políticas ambientais.

12. (VUNESP – 2013 – CETESB – Advogado) O Sistema Nacional do Meio Ambiente –


Sisnama, previsto na Lei nº 6.938/81, é estruturado, dentre outros, pelo(s)
seguinte(s) órgão(s):
(A) órgão central: o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais
Renováveis – Ibama, com a finalidade de coordenar, executar e fazer executar, como
órgão federal, a política nacional e as diretrizes governamentais fixadas para o meio
ambiente.
(B) órgãos subseccionais: os órgãos ou entidades integrantes da administração federal
direta e indireta, bem como as Fundações instituídas pelo Poder Público, cujas
atividades estejam associadas às de proteção da qualidade ambiental.
(C) órgão superior: o Conselho Superior do Meio Ambiente – CSMA, com a função de
assessorar o Presidente da República e Governadores Estaduais na formulação de
diretrizes da Política Nacional do Meio Ambiente.
(D) órgãos seccionais: os órgãos ou entidades estaduais responsáveis pela execução de
programas, projetos e pelo controle e fiscalização de atividades capazes de provocar
a degradação ambiental.
(E) órgão consultivo e deliberativo: o Conselho Nacional do Meio Ambiente – Conama,
com o fim de assistir e propor ao Conselho Superior do Meio Ambiente – CSMA,
diretrizes e políticas governamentais para o meio ambiente e os recursos naturais e
deliberar sobre normas e padrões compatíveis à sadia qualidade de vida.

7.12.2 Questões dissertativas


1. Disserte sobre o papel e a composição do Sisnama na proteção da qualidade ambiental
no Brasil.

7.12.3 Questões de exame oral


1. O que é o Sisnama?

2. Qual o papel do Conama na proteção ambiental?

3. Quais são as competências do Conama pela Lei nº 6.938/1981?

4. O que é a Câmara Recursal Especial?

5. Quais são as atribuições do Ibama?

6. Quais são as atribuições do Instituto Chico Mendes?

7. Qual o papel dos órgãos ambientais estaduais na proteção ambiental?

8. Qual o papel dos órgãos ambientais municipais na proteção ambiental?

7.13 GABARITOS

7.13.1 Questões objetivas

QUESTÃO GABARITO
1 A
2 C
3 A
4 C
5 D
6 D
7 B
8 D
9 B
10 D
11 A
12 D

7.13.2 Questões dissertativas

QUESTÃO PROPOSTA DE SOLUÇÃO


O Sistema Nacional do Meio Ambiente (Sisnama) é o conjunto de entes e órgãos
da União, Estados, Distrito Federal, Municípios e suas respectivas administrações
indiretas, responsáveis pela proteção, controle, monitoramento e melhoria da
qualidade e da política ambiental no País. O Sisnama é uma criação da Política
Nacional do Meio Ambiente (Lei nº 6.938/1981), regulamentado pelo Decreto nº
99.274/1990. Estrutura-se em seis níveis fundamentais:
a) : o Conselho de Governo;
b) : o Conselho Nacional do Meio Ambiente –
Conama;
1
c) : o Ministério do Meio Ambiente:
d) : o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos
Naturais Renováveis (Ibama) e o Instituto Chico Mendes de Conservação da
Biodiversidade;
e) : os órgãos ou entidades estaduais responsáveis pela
execução de programas, projetos e pelo controle e fiscalização de atividades
capazes de provocar a degradação ambiental;
f) : os órgãos ou entidades municipais, responsáveis pelo controle e
fiscalização dessas atividades, nas suas respectivas jurisdições.
7.13.3 Questões de exame oral

QUESTÃO CONTEÚDO PARA A RESPOSTA


1 Tópico 7.1
2 Tópico 7.3
3 Tópico 7.3
4 Tópico 7.3.3.2
5 Tópico 7.5
6 Tópico 7.6
7 Tópico 7.7
8 Tópico 7.8

1 Disponível em: <www.mma.gov.br/conama>.


2 Disponível em: <http://www.mma.gov.br/port/conama/>.
Se não houver frutos, valeu a beleza das flores; se
não houver flores, valeu a sombra das folhas; se
não houver folhas, valeu a intenção da semente.
Henfil

A Política Nacional do Meio Ambiente (Lei nº 6.938/1981) previu, como um dos seus instrumentos, a
Avaliação de Impactos Ambientais (AIA), que contempla um conjunto de estudos para a avaliação dos
possíveis impactos que serão causados ao meio ambiente por um empreendimento ou atividade. Dentre
os estudos ambientais, o mais referenciado mecanismo de avaliação ambiental no sistema jurídico
brasileiro é o Estudo Prévio de Impacto Ambiental (EIA), com reconhecimento expresso na
Constituição Federal de 1988, que, no inciso IV do § 1º do art. 225, incumbiu ao Poder Público de
“exigir, na forma da lei, para instalação de obra ou atividade potencialmente causadora de significativa
degradação do meio ambiente, estudo prévio de impacto ambiental, a que se dará publicidade”.
Nota-se a relevância que a Constituição Federal conferiu ao estudo, como norteador da avaliação de
impactos ambientais de empreendimentos, atividades e obras potencialmente causadores de significativa
degradação ambiental.
A regulamentação do Estudo Prévio de Impacto Ambiental encontra-sena Resolução nº 01/1986, do
Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), que disciplina o procedimento como norma de caráter
geral. Essa espécie normativa foi plenamente recepcionada pela Constituição Federal, por sua
compatibilidade com o ordenamento vigente.
A Resolução nº 09/1987, do Conama, que regulamenta as audiências públicas, é aplicável ao Estudo
Prévio de Impacto Ambiental.

O Estudo Prévio de Impacto Ambiental constitui procedimento administrativo de análise


antecipatória dos possíveis impactos ambientais de uma obra, atividade ou empreendimento
potencialmente causadores de significativa degradação do meio ambiente, elaborado por equipe técnica
multidisciplinar, em que se relacionam as medidas de mitigação e compensatórias à possível intervenção
ao meio ambiente. Relaciona os pontos positivos e negativos de um empreendimento ou atividade, que
subsidiam a decisão do órgão ambiental responsável pelo licenciamento do projeto proposto.

Não se confundem o Estudo Prévio de Impacto Ambiental (EIA) e o Relatório de Impacto Ambiental
(Rima).
Com efeito, o EIA é o documento técnico amplo e complexo, com a revisão da literatura, estudos de
campo, coleta de dados e materiais etc. Nem sempre o EIA é compreensível em sua integralidade pelo
cidadão, haja vista a multiplicidade de saberes que conjuga.
O Rima, por sua vez, é um relatório que, em última análise, é um “espelho” do EIA, apresentando as
suas conclusões à comunidade de forma objetiva, acessível e didática, de forma a propiciar ao cidadão a
compreensão das vantagens e desvantagens do projeto, com as consequências ambientais de sua
implementação.
Segundo a Resolução Conama nº 01/1986, “o Rima deve ser apresentado de forma objetiva e
adequada a sua compreensão. As informações devem ser traduzidas em linguagem acessível, ilustradas
por mapas, cartas, quadros, gráficos e demais técnicas de comunicação visual, de modo que se possam
entender as vantagens e desvantagens do projeto, bem como todas as consequências ambientais de sua
implementação (art. 9º, parágrafo único)”.
Em síntese, o EIA é um documento técnico, completo, ao passo que o Rima é um documento gerencial,
que deve ser compreensível para a população.
Em alguns textos legais a sigla do Estudo Prévio de Impacto Ambiental é EPIA e em outros, EIA.
EIA é a terminologia utilizada pela Resolução Conama nº 01/1986 ou ainda pela Lei nº 9.985/2000,
enquanto EPIA é derivada da acepção constitucional.
A utilização de uma ou outra sigla em nada altera a essência do estudo, que é sempre prévio.

A função primordial do EIA é a prevenção e o monitoramento dos impactos ambientais. Trata-se de


um instrumento de materialização do princípio da prevenção e, em alguns casos, do princípio da
precaução, pois a incerteza científica, característica deste último princípio, não é aplicável a todas as
atividades e empreendimentos.

A natureza jurídica do EIA, instrumento de índole constitucional, é de ato do Poder Executivo


decorrente do poder de polícia. Sua exigibilidade compete aos órgãos da Administração Pública. Dessa
forma, não se admitem interferências do Poder Legislativo que mitiguem essa competência deliberatória
da Administração Pública, em respeito ao art. 2º da Constituição de 1988. Nesse sentido, o aresto do
STF:

Lei nº 1.315/2004, do Estado de Rondônia, que exige autorização prévia da Assembleia Legislativa
para o licenciamento de atividades utilizadoras de recursos ambientais consideradas efetivas e
potencialmente poluidoras, bem como capazes, sob qualquer forma, de causar degradação ambiental.
Condicionar a aprovação de licenciamento ambiental à prévia autorização da Assembleia Legislativa
implica indevida interferência do Poder Legislativo na atuação do Poder Executivo, não autorizada
pelo art. 2º da Constituição (ADI 1.505).

O Poder Legislativo pode estabelecer procedimentos e normatizações por meio da edição de leis, mas
isso sem adentrar no campo de deliberação ou decisão, uma vez que a concessão de autorizações ou
licenças é uma atividade inerente da Administração Pública, exteriorização do poder de polícia.
O pressuposto para a confecção do EIA/Rima é a significativa degradação do meio ambiente. Assim,
somente empreendimentos, atividades e obras efetiva ou potencialmente causadores de significativa
degradação ambiental se submetem ao estudo, que é realizado previamente. Do contrário, o estudo é
inexigível.

O EIA deverá ser confeccionado pelo empreendedor antes da concessão da licença prévia, inclusive
como condição desta. Como se verá em tópico ulterior, o órgão ambiental competente para o
licenciamento elabora um termo de referência com as diretrizes que devem ser observadas pelo
empreendedor na realização do estudo. Com a aprovação do EIA, o empreendedor obtém a licença
prévia e, em seguida, efetua os procedimentos para as demais licenças ambientais (como se verá no
próximo capítulo).
Caso uma atividade ou empreendimento se enquadre como de significativa degradação do meio
ambiente e esteja em funcionamento sem o EIA, esse não será o estudo pertinente, vez que a sua
confecção é prévia. Conforme Oliveira & Silva, “se, por algum motivo, uma atividade sujeita ao EIA
acabar se desenvolvendo sem a apresentação do referido estudo, evidentemente não será o caso de
realização de um EIA, mas, sim, de outras espécies de estudos de avaliação destinados a acompanhar ou
controlar os possíveis impactos ambientais”1.

A definição de impacto ambiental é apresentada no art. 1º da Resolução nº 01/1986, ao conceituá-lo


como “qualquer alteração das propriedades físicas, químicas e biológicas do meio ambiente, causada por
qualquer forma de matéria ou energia resultante das atividades humanas que, direta ou indiretamente,
afetam: I – a saúde, a segurança e o bem-estar da população; II – as atividades sociais e econômicas; III –
a biota; IV – as condições estéticas e sanitárias do meio ambiente; V – a qualidade dos recursos
ambientais”.
Nota-se que o impacto ambiental pertinente é somente o causado por atividades humanas que direta e
indiretamente afetem o rol consignado.
Para auxiliar na compreensão das atividades, condições e valores atingidos pelos impactos ambientais
de origem antrópica, enumeram-se exemplos para cada qual.
Impacto ambiental que afeta a saúde humana é, por exemplo, uma fábrica com o lançamento de gases
em níveis prejudiciais à qualidade do ar e, por consequência, ocasionem doenças respiratórias nos
moradores do entorno. Por sua vez, impacto ambiental que afeta a segurança são os desabamentos ou
erosões causados por um empreendimento ou uma atividade, mas igualmente questões de segurança
pública, uma vez que há relação direta entre os índices de desmatamento e criminalidade. Afeta o bem-
estar da população, por sua vez, uma atividade que produza odores que causem desconfortos na
comunidade vizinha. Outro exemplo é a poluição sonora.
As atividades econômicas e sociais podem ser afetadas com a implementação de um novo
empreendimento, como uma mineradora que provoque a descaracterização da vocação turística de uma
cidade. Nesse exemplo, ressentem os proprietários e trabalhadores da seara turística (hotéis, pousadas,
restaurantes e correlatas), bem como as relações sociais estabelecidas na comunidade.
Compreende-se por biota o conjunto de seres vivos de uma determinada área. Em outras palavras, a
fauna e a flora de um local ou região. Atividades econômicas são passíveis de afetar a biota, colocando
em risco ou mesmo provocando a extinção de uma espécie.
Prejudica as condições estéticas e sanitárias uma atividade que lance efluentes que comprometam a
qualidade de um rio ou de uma praia, tornando-os impróprios para o banho. Ou ainda a poluição visual
que descaracteriza a beleza de um momento natural ou histórico.
Por fim, afetar os recursos ambientais implica atingir a atmosfera, as águas interiores, superficiais e
subterrâneas, os estuários, o mar territorial, o solo, o subsolo, os elementos da biosfera.

O art. 2º da Resolução Conama nº 01/1986 estabelece um rol exemplificativo de atividades que se


presumem causadoras de significativa degradação, a saber:

a) estradas de rodagem com duas ou mais faixas de rolamento;


b) ferrovias;
c) portos e terminais de minério, petróleo e produtos químicos;
d) aeroportos, conforme definidos pelo inciso I, art. 48, do Decreto-lei nº 32, de 18.09.1966;
e) oleodutos, gasodutos, minerodutos, troncos coletores e emissários de esgotos sanitários;
f) linhas de transmissão de energia elétrica, acima de 230 kV;
g) obras hidráulicas para exploração de recursos hídricos, tais como: barragem para fins
hidrelétricos, acima de 10 MW, de saneamento ou de irrigação, abertura de canais para navegação,
drenagem e irrigação, retificação de cursos d’água, abertura de barras e embocaduras,
transposição de bacias, diques;
h) extração de combustível fóssil (petróleo, xisto, carvão);
i) extração de minério, inclusive os da classe II, definidos no Código de Mineração;
j) aterros sanitários, processamento e destino final de resíduos tóxicos ou perigosos;
k) usinas de geração de eletricidade, qualquer que seja a fonte de energia primária, acima de 10 MW;
l) complexo e unidades industriais e agroindustriais (petroquímicos, siderúrgicos, cloroquímicos,
destilarias de álcool, hulha, extração e cultivo de recursos hidróbios);
m) distritos industriais e zonas estritamente industriais (ZEI);
n) exploração econômica de madeira ou de lenha, em áreas acima de 100 hectares ou menores,
quando atingir áreas significativas em termos percentuais ou de importância do ponto de vista
ambiental;
o) projetos urbanísticos, acima de 100 ha ou em áreas consideradas de relevante interesse ambiental
a critério da SEMA e dos órgãos estaduais ou municipais;
p) qualquer atividade que utilizar carvão vegetal, derivados ou produtos similares, em quantidade
superior a dez toneladas por dia;
q) projetos agropecuários que contemplem áreas acima de 1.000 ha, ou menores, neste caso quando
se tratar de áreas significativas em termos percentuais ou de importância do ponto de vista
ambiental, inclusive nas áreas de proteção ambiental;
r) empreendimentos potencialmente lesivos ao patrimônio espeleológico nacional.

Esse é um rol meramente exemplificativo, até mesmo porque na redação do art. 2º da Resolução nº
01/1986 é utilizada a expressão “tais como” para enumerar as atividades. A Resolução Conama é do ano
de 1986 e com as dinâmicas do incremento tecnológico e científico, a cada dia surgem novas atividades,
produtos e empreendimentos empresariais e econômicos que causam significativa degradação ambiental
e que evidentemente não se encontram relacionados no rol citado. Exemplos são os incineradores de lixo
residencial e industrial e os assentamentos para reforma agrária que, apesar de não constarem no rol da
Resolução nº 01/1986, são potencialmente causadores de significativa degradação do meio ambiente.

Compete ao órgão ambiental definir os procedimentos e estudos técnicos necessários para a


realização do EIA. Essas exigências, assim como os prazos de conclusão, são definidas no termo de
referência, que é o documento emitido pelo órgão ambiental com as orientações para a elaboração do
estudo. Os requisitos mínimos encontram-se na Resolução Conama nº 01/1986, mas o órgão ambiental
pode estabelecer diretrizes adicionais pelas peculiaridades do projeto ou pelas características
ambientais da área.
O conteúdo do EIA deve contemplar, no mínimo, os seguintes aspectos: (a) Diretrizes Gerais, que são
requisitos de conteúdo (art. 5º da Resolução nº 01/1986); (b) Estudos e Atividades Técnicas (art. 6º).
Esses aspectos são essenciais e obrigatórios para a realização do EIA.
Em aspectos fundamentais, quatro são as diretrizes gerais mínimas estabelecidas no art. 5º da
Resolução Conama nº 01/1986, a saber:

(a) contemplar todas as alternativas tecnológicas e de localização do projeto, confrontando-as com


a hipótese de não execução do projeto;
(b) identificar e avaliar os impactos ambientais gerados nas fases de implantação e operação da
atividade;
(c) definir os limites da área geográfica a ser direta ou indiretamente afetada pelos impactos,
denominada área de influência do projeto, considerando, em todos os casos, a bacia
hidrográfica na qual se localiza;
(d) considerar os planos e programas governamentais, propostos e em implantação na área de
influência do projeto, e sua compatibilidade.

A diretriz inicial obriga a análise, pela equipe multidisciplinar, das alternativas tecnológicas
disponíveis para o empreendimento. Se a pretensão do empreendimento é a geração de energia elétrica,
cabe ao estudo prever as alternativas, tais como energia termoelétrica, eólica etc.
No que se refere à localização do projeto, que invariavelmente já foi definida pelo empreendedor,
impõe-se a avaliação de outros locais possíveis para receber a obra ou atividade. Nesse ponto, indaga-
se, por exemplo, a proximidade do projeto com uma área de preservação permanente ou uma unidade de
conservação. É possível compatibilizar o empreendimento com esses espaços ambientalmente
protegidos? Por derradeiro, articula-se a hipótese de não execução do projeto, também chamada de
“opção zero”2 ou “hipótese zero”. Essa possibilidade poderá ser adotada quando o projeto implicar
impactos ambientais desproporcionais aos benefícios econômicos e sociais.
A diretriz seguinte versa sobre a identificação e avaliação dos impactos ambientais. Basicamente a
efetivação de um projeto nos órgãos ambientais compreende a observância de três fases: (a) de
localização, em que se verifica a compatibilidade do local do projeto com as exigências ambientais e,
quando cabível, urbanísticas; (b) de implantação, em que se inicia a intervenção na natureza e/ou a
materialização do projeto; e (c) de operação, em que o empreendimento efetivamente inicia suas
atividades ou produção. Pois bem, urge que o estudo relacione quais serão os impactos ambientais nas
fases de implantação e de operação. Identificar os impactos na fase de implantação não implica maiores
dificuldades à equipe multidisciplinar, uma vez que são conhecidos e avaliados de imediato, com a
construção da obra. A dificuldade consiste na fase de operação, cujos efeitos se projetam no decorrer do
tempo. Quais os efeitos de um empreendimento ou atividade daqui a 3 (três), 5 (cinco), 10 (dez) anos?
Trata-se de análise realizada nessa etapa e normalmente por fórmulas matemáticas.
A definição da área de influência do projeto não é tarefa fácil, em especial ao se considerar a
influência indireta, dado que hoje em dia o desmatamento ou a poluição em nível local contribuem para a
potencialização dos efeitos sinérgicos em escala nacional e até mesmo mundial. Como exemplo, as
questões climáticas, em que os efeitos sinérgicos das atividades antrópicas no Brasil ou no Tibete
contribuem igualmente para a majoração dos efeitos do aquecimento global. A Resolução Conama nº
01/1986, contudo, impôs um referencial importante para a definição da área de influência do projeto, que
é a bacia hidrográfica. Assim, define-se a área de influência do projeto pela bacia hidrográfica, com
os possíveis impactos ambientais que incidem sobre os seus limites.
A última diretriz é a compatibilidade do projeto com os planos e programas governamentais, como
o zoneamento ecológico-econômico, o plano diretor, entre outros instrumentos. Consideram-se não só os
programas em andamento, mas também as diretrizes que o Poder Público consignou nos diplomas
normativos de planejamento urbano ou mesmo orçamentário, tais como o plano plurianual, a lei de
diretrizes orçamentárias etc.

Na elaboração do EIA desenvolvem-se ainda atividades técnicas, da mesma maneira consideradas


mínimas, passíveis de novas exigências na edição do termo de referência.
A Resolução nº 01/1986 menciona em seu art. 6º os estudos técnicos mínimos:

a) Diagnóstico ambiental da área de influência do projeto completa descrição e análise dos recursos
ambientais e suas interações, tal como existem, de modo a caracterizar a situação ambiental da
área, antes da implantação do projeto, considerando: o meio físico, o meio biológico, os
ecossistemas e o meio socioeconômico.
b) Análise dos impactos ambientais do projeto e de suas alternativas, por meio de identificação,
previsão da magnitude e interpretação da importância dos prováveis impactos relevantes,
discriminando: os impactos positivos e negativos (benéficos e adversos), diretos e indiretos,
imediatos e a médio e longo prazos, temporários e permanentes; seu grau de reversibilidade; suas
propriedades cumulativas e sinérgicas; a distribuição dos ônus e benefícios sociais.
c) Definição das medidas mitigadoras dos impactos negativos, entre elas os equipamentos de
controle e sistemas de tratamento de despejos, avaliando a eficiência de cada uma delas.
d) Elaboração do programa de acompanhamento e monitoramento (os impactos negativos e
positivos), indicando os fatores e parâmetros a serem considerados.

O diagnóstico ambiental da área de influência do projeto é o levantamento do meio físico,


biológico e socioeconômico. Por meio físico interpretam-se o subsolo, as águas, o ar e o clima,
destacando os recursos minerais, a topografia, os tipos e aptidões do solo, os corpos d’água, o regime
hidrológico, as correntes marinhas, as correntes atmosféricas. No campo biológico e dos ecossistemas
naturais consideram-se a fauna e a flora, destacando as espécies indicadoras da qualidade ambiental, de
valor científico e econômico, raras e ameaçadas de extinção, e as áreas de preservação permanente. Por
fim, no meio socioeconômico enquadram-se o uso e ocupação do solo, os usos da água e os aspectos
socioeconômicos, com destaque aos sítios e monumentos arqueológicos, históricos e culturais da
comunidade, as relações de dependência entre a sociedade local, os recursos ambientais e a potencial
utilização futura desses recursos.
Na análise dos impactos ambientais levam-se em conta não só os impactos negativos, como os
positivos do empreendimento. Dessa maneira, indaga-se: Quais serão os efeitos a curto, médio e longo
prazo? Quais os efeitos imediatos e mediatos? E os benefícios sociais, como a geração de emprego e
renda? Por outro lado, quais serão os ônus sociais? Essas indagações são respondidas nesse requisito.
Com a definição dos impactos ambientais negativos, necessária a adoção das medidas mitigadoras, o
que significa reduzir, minimizar os impactos desfavoráveis. Essas medidas são, por exemplo, a instalação
de filtros de limpeza de gases industriais, de estações de tratamentos de efluentes industriais etc.
Ao término, cabe ao empreendedor elaborar um programa de acompanhamento e monitoramento dos
impactos ambientais, positivos e negativos, com os parâmetros para essa análise permanente. Exemplo
desse monitoramento é o que ocorre em usinas nucleares, como em Angra dos Reis/RJ.

O Relatório de Impacto Ambiental (Rima) reflete as conclusões do Estudo Prévio de Impacto


Ambiental (EIA) e deve ser apresentado de forma objetiva e adequada para a compreensão dos cidadãos.
Constitui-se num espelho do EIA e, dada a sua importância, é uma manifestação do princípio da
informação ambiental.
O seu conteúdo é delineado no art. 9º da Resolução nº 01/1986, a saber:

a) os objetivos e justificativas do projeto, sua relação e compatibilidade com as políticas setoriais,


planos e programas governamentais;
b) a descrição do projeto e suas alternativas tecnológicas e locacionais, especificando para cada um
deles, nas fases de construção e operação, a área de influência, as matérias-primas, e mão de obra,
as fontes de energia, os processos e técnicas operacionais, os prováveis efluentes, emissões,
resíduos e perdas de energia, os empregos diretos e indiretos a serem gerados;
c) a síntese dos resultados dos estudos de diagnóstico ambiental da área de influência do projeto;
d) a descrição dos prováveis impactos ambientais da implantação e operação da atividade,
considerando o projeto, suas alternativas, os horizontes de tempo de incidência dos impactos e
indicando os métodos, técnicas e critérios adotados para sua identificação, quantificação e
interpretação;
e) a caracterização da qualidade ambiental futura da área de influência, comparando as diferentes
situações da adoção do projeto e suas alternativas, bem como com a hipótese de sua não
realização;
f) a descrição do efeito esperado das medidas mitigadoras previstas em relação aos impactos
negativos, mencionando aqueles que não puderam ser evitados, e o grau de alteração esperado;
g) o programa de acompanhamento e monitoramento dos impactos;
h) recomendação quanto à alternativa mais favorável (conclusões e comentários de ordem geral).
O EIA/Rima é elaborado por uma equipe multidisciplinar composta por profissionais legalmente
habilitados (engenheiro, biólogo, geólogo, sociólogo, advogado etc.), aptos a identificar e analisar os
possíveis impactos ambientais positivos e negativos não só no meio ambiente natural, como a influência
nas comunidades presentes na área de influência do projeto, em especial nos seus aspectos social,
econômico e cultural.
Para participar de estudos ambientais, dentre os quais a elaboração do EIA, os profissionais que
integram a equipe multidisciplinar devem possuir inscrição no Cadastro Técnico Federal de Atividades
de Defesa e Proteção Ambiental e serem legalmente habilitados (Crea, OAB etc.), conforme o art. 11 da
Resolução Conama nº 237/1997.

O empreendedor e a equipe multidisciplinar assumem total responsabilidade pelo EIA/Rima.


Consoante o parágrafo único do art. 11 da Resolução Conama nº 237/1997, o empreendedor e os
profissionais que subscrevem os estudos ambientais são responsáveis pelas informações apresentadas,
sujeitando-se às sanções administrativas, civis e penais.
A veracidade das informações e análises que integram o EIA elaborado pela equipe técnica
multidisciplinar tem implicações diretas nos âmbitos penal e administrativo.
A Lei nº 9.605/1998, em seu art. 69-A, traz a tipificação penal, aduzindo que “elaborar ou apresentar,
no licenciamento, concessão florestal ou qualquer outro procedimento administrativo, estudo, laudo ou
relatório ambiental total ou parcialmente falso ou enganoso, inclusive por omissão”, implica uma pena de
reclusão, de 03 (três) a 06 (seis) anos, e multa. Se o crime for culposo, a pena é de detenção, de 1 (um) a
03 (três) anos. E, por fim, a pena é aumentada de 1/3 (um terço) a 2/3 (dois terços), se há dano
significativo ao meio ambiente, em decorrência do uso da informação falsa, incompleta ou enganosa.
Essa última passagem é particularmente importante para o EIA, ao abordar o dano significativo ao meio
ambiente.
O art. 82 do Decreto nº 6.514/2008 dispõe sobre a responsabilidade administrativa da equipe
multidisciplinar, com a aplicação de multa de R$ 1.500,00 a R$ 1.000.000,00 a quem “elaborar ou
apresentar informação, estudo, laudo ou relatório ambiental total ou parcialmente falso, enganoso ou
omisso, seja nos sistemas oficiais de controle, seja no licenciamento, na concessão florestal ou em
qualquer outro procedimento administrativo ambiental”.
Por aí se vê que, não obstante o vínculo com o empreendedor, a responsabilidade da equipe
multidisciplinar é relevante nas esferas penal e administrativa.
Os custos do EIA/Rima, em sua integralidade, são de responsabilidade do empreendedor, incluindo as
despesas com a equipe multidisciplinar. Cabe ao empreendedor disponibilizar ainda, no mínimo, 05
(cinco) cópias do Rima (art. 8º).

Após a elaboração do EIA e do Rima, o empreendedor encaminhará as 05 (cinco) cópias exigidas,


que ficarão à disposição na sedes e bibliotecas do órgão ambiental, para que se inicie a fase de
comentários (art. 11 da Resolução nº 01/1986 do Conama). Essa fase ocorre com a publicação de edital
na imprensa oficial e em jornal de grande circulação, de acordo com a área de influência do projeto.
Nessa etapa, franqueia-se o acesso ao Rima para que órgãos públicos comentem, por escrito, as
conclusões do estudo. Não há qualquer previsão na Resolução nº 01/1986 sobre o prazo de comentários,
que ficará, portanto, a critério do órgão ambiental, mas que não poderá ser exíguo, sob pena de
comprometer essa fase do procedimento.

O EIA/Rima deve ser público, observado, no entanto, o sigilo industrial, quando solicitada e
demonstrada pelo empreendedor a necessidade de adoção dessa medida (art. 11 da Resolução Conama nº
01/1986 e art. 2º, § 2º, da Lei nº 10.650/2003).

A audiência pública, disciplinada pela Resolução Conama nº 09/1987, é momento dos mais
significativos do procedimento administrativo. Por seu intermédio a população da área de influência do
projeto é convocada para a discussão do empreendimento, numa via de mão dupla, em que recebe as
informações do projeto e apresenta suas intervenções e questionamentos.
Segundo o art. 2º da Resolução Conama nº 09/1987, são legitimados para requerer a realização de
audiência pública:

a) o órgão ambiental competente;


b) o Ministério Público;
c) entidade da sociedade civil;
d) 50 (cinquenta) ou mais cidadãos.
O órgão responsável pelo licenciamento fixará em edital e anunciará na imprensa local a abertura do
prazo mínimo de 45 (quarenta e cinco) dias para os legitimados solicitarem, se desejarem, a realização
de audiência pública (art. 2º, § 1º, da Resolução Conama nº 09/1987). Com a solicitação, o órgão
ambiental comunica a data e o local da audiência pública, mediante correspondência registrada ao
requerente (art. 2º, § 3º, da Resolução Conama nº 09/1987).
A audiência pública, uma vez requerida pelos legitimados, torna-se requisito formal essencial para a
validade da licença. No caso de solicitação da audiência pública e o órgão ambiental não realizá-la,
macula-se a licença concedida, que não terá validade (art. 2º, § 2º, da Resolução Conama nº 09/1987),
sendo passível, destarte, questionamento judicial.

Não se pode esquecer a importância da publicidade, até porque a Constituição Federal a determinou
expressamente para o EIA/Rima. No caso da audiência pública, ela ocorre com a publicação na imprensa
local e em jornal de grande circulação. É necessário considerar que a opção pela imprensa local deve
ser interpretada pelo alcance do meio de comunicação, isto é, pela possibilidade da população afetada
tomar ciência da realização da audiência pública. Dessa forma, se a área de influência do projeto atingir
mais de um município, é exigido que a publicidade do local e da data da audiência pública cheguem ao
conhecimento dos interessados, o que poderá demandar a publicação em mais de um órgão de imprensa
ou naquele com efetiva abrangência na área de influência do projeto.

O local designado para a realização da audiência pública deve ser de fácil acesso à população (art.
2º, § 4º, da Resolução Conama nº 09/1987). É possível a ocorrência de mais de uma audiência, a
depender da área de influência do projeto e de sua complexidade (art. 2º, § 5º, da Resolução Conama nº
09/1987). Nada obsta esse entendimento, que converge com os objetivos da audiência pública, que é
franquear o pleno exercício da participação comunitária. Exemplo os debates e discussões sobre a
transposição do Rio São Francisco – que nasce em Minas Gerais e percorre os Estados do Nordeste –
com a promoção de várias audiências públicas.
Com a abertura da audiência pública, a condução e a presidência dos trabalhos competem ao servidor
responsável do órgão ambiental, que fará a exposição do Rima e, por outro lado, possibilitará as críticas
e sugestões dos participantes (art. 3º da Resolução Conama nº 09/1987). Ao término, lavrar-se-á ata
sucinta, anexando todos os documentos assinados e relacionados na audiência pública (art. 4º da
Resolução Conama nº 09/1987). Esses documentos são fundamentais para o órgão ambiental que, embora
não se encontre vinculado à audiência pública, deve considerá-los na manifestação favorável ou
desfavorável ao EIA.
Com a conclusão dos aspectos técnicos e procedimentais, o EIA/Rima será objeto de análise do órgão
ambiental para a sua aprovação ou não.
Com a aprovação do EIA/Rima, o empreendedor obtém a licença prévia e dará continuidade ao
licenciamento ambiental para a consecução das licenças de instalação e de operação.
Questão fundamental é perquirir se as conclusões do EIA/Rima vinculam ou não o órgão ambiental.
Consigna-se, em primeiro plano, que os órgãos ambientais detêm discricionariedade técnica na
análise dos estudos ambientais, o que implica discordâncias ou alternativas às conclusões da equipe
multidisciplinar. Essa discricionariedade técnica, contudo, não pode conduzir o órgão ambiental a
decidir em dissonância com os princípios e objetivos da Política Nacional Meio Ambiente e, em
especial, as disposições constitucionais.
Dessa forma, o órgão ambiental não se vincula às conclusões do EIA/Rima. Ainda que o estudo seja
desfavorável, é possível aprová-lo e, por consequência, conceder a licença prévia. É evidente que, para
tal, é compulsória ampla e exaustiva motivação, passível de controle judicial suscitado por qualquer ente
ou cidadão.

A Resolução Conama nº 01/1986 regulamenta o EIA/Rima e relaciona, em caráter exemplificativo, as


atividades e empreendimentos que se presumem causadores de significativa degradação do meio
ambiente (art. 2º). Outros diplomas legais ofertam novas hipóteses potencialmente causadoras de
significativa degradação do meio ambiente e, como tal, sujeitas à confecção do EIA/Rima.

A Lei nº 12.651/2012, que instituiu o novo Código Florestal, dispõe sobre a obrigatoriedade do
EIA/Rima em atividades na zona costeira, em especial apicuns e salgados.
Nesse sentido:

Art. 11-A. (…) § 3º São sujeitos à apresentação de Estudo Prévio de Impacto Ambiental – Epia e
Relatório de Impacto Ambiental – Rima os novos empreendimentos:
I – com área superior a 50 (cinquenta) hectares, vedada a fragmentação do projeto para ocultar ou
camuflar seu porte;
II – com área de até 50 (cinquenta) hectares, se potencialmente causadores de significativa
degradação do meio ambiente; ou
III – localizados em região com adensamento de empreendimentos de carcinicultura ou salinas cujo
impacto afete áreas comuns.
A Lei nº 11.284/2006, que disciplina a gestão de florestas públicas para a produção sustentável,
dispõe sobre o licenciamento ambiental na concessão florestal e determina que nos casos potencialmente
causadores de significativa degradação do meio ambiente, assim considerados, entre outros aspectos, em
função da escala e da intensidade do manejo florestal e da peculiaridade dos recursos ambientais, será
exigido estudo prévio de impacto ambiental (EIA) para a concessão da licença prévia (art. 18, § 1º).

A Lei nº 11.428/2006, que disciplina a utilização e proteção da vegetação nativa do Bioma Mata
Atlântica, dispõe que, na hipótese de obra ou atividade potencialmente causadora de significativa
degradação do meio ambiente, o órgão competente exigirá a elaboração de Estudo Prévio de Impacto
Ambiental, ao qual se dará publicidade, assegurada a participação pública (art. 15, caput).
Tratando-se de corte e supressão de vegetação nativa, quando vinculados à execução de obras,
atividades ou projetos nos casos de utilidade pública, será necessária a realização de Estudo Prévio de
Impacto Ambiental/Relatório de Impacto Ambiental – EIA/Rima (art. 20, parágrafo único, c/c o art. 22).

• Estudo Prévio de Impacto Ambiental (EIA): constitui procedimento administrativo de análise


prévia dos possíveis impactos ambientais de uma obra, atividade ou empreendimento efetiva ou
potencialmente causador de significativa degradação do meio ambiente, elaborado por equipe técnica
multidisciplinar.
• O pressuposto para a realização do EIA é a significativa degradação ao meio ambiente, que é aquela
expressiva, substancial. Por essa razão, não são todos os empreendimentos e atividades que se submetem
ao EIA/Rima, mas somente aqueles potencialmente causadores de significativa degradação ambiental.
• Considera-se impacto ambiental “qualquer alteração das propriedades físicas, químicas e
biológicas do meio ambiente, causada por qualquer forma de matéria ou energia resultante das atividades
humanas que, direta ou indiretamente, afetam: I – a saúde, a segurança e o bem-estar da população; II – as
atividades sociais e econômicas; III – a biota; IV – as condições estéticas e sanitárias do meio ambiente;
V – a qualidade dos recursos ambientais”.
• O EIA/Rima é elaborado por uma equipe multidisciplinar composta por profissionais legalmente
habilitados (engenheiro, biólogo, geólogo, sociólogo, advogado), que são responsáveis civil, penal e
administrativamente pelo seu conteúdo e pelas informações prestadas no estudo.
• Todas as despesas de elaboração do EIA/Rima são de responsabilidade do empreendedor, que deve
entregar ao órgão ambiental cinco cópias do Rima, no mínimo.
• A audiência pública tem por finalidade expor aos interessados o conteúdo do produto em análise e
do seu referido Rima, dirimindo dúvidas e recolhendo dos presentes as críticas e sugestões a respeito.
Deve ser realizada em local de fácil acesso aos interessados. É possível a ocorrência de mais de uma
audiência, a depender da área de influência do projeto e de sua complexidade.
• Podem requerer a realização de audiência pública: (a) o órgão ambiental competente; (b) o
Ministério Público; (c) a entidade da sociedade civil; (d) 50 ou mais cidadãos.
• A audiência pública é requisito formal essencial: requerida pelos legitimados e não realizada pelo
órgão ambiental, a licença concedida não terá validade.
• A audiência pública será presidida pelo órgão ambiental licenciador, que ao final lavrará ata sucinta,
e anexará todos os documentos escritos e assinados endereçados ao presidente dos trabalhos.
1 OLIVEIRA; SILVA, 2012, p. 63.
2 MACHADO, 2007, p. 232.
O que eu faço é uma gota no meio de um oceano.
Mas, sem ela, o oceano será menor.
Madre Teresa de Calcutá

9.1 BASE LEGAL DO LICENCIAMENTO AMBIENTAL

O licenciamento ambiental de atividades e empreendimentos que são ou podem ser efetiva ou


potencialmente causadores de poluição ou degradação ambiental é um dos principais instrumentos da
Política Nacional do Meio Ambiente, responsável pela compatibilização do desenvolvimento das
atividades econômicas com a proteção ao meio ambiente. Por meio do licenciamento ambiental é
possível a efetivação do princípio ambiental da prevenção nas atividades econômicas poluidoras e, em
última análise, a proteção ao meio ambiente.
As disposições sobre o licenciamento ambiental estão previstas nos seguintes mecanismos legais: Lei
Complementar nº 140/2011; art. 10 da Lei nº 6.938/1981; Decreto nº 99.274/1990; Resolução Conama nº
237/1997; e Resolução Conama nº 01/1986, sem prejuízo da possibilidade de os Estados editarem
normas complementares no licenciamento de sua competência.
Uma observação importante é que a LC nº 140/2011 – que regulamentou o parágrafo único e os incisos
III, VI e VII do art. 23 da Constituição de 1988 – disciplinou regras específicas para o licenciamento
ambiental, em especial para o exercício da competência licenciatória dos entes federativos. Na verdade,
algumas das normas desta LC, com algumas variações, já estavam dispostas na Resolução Conama nº
237/1997. Aliás, nossa compreensão é que, mesmo com a edição da LC nº 140/2011, permanecem em
vigor alguns pontos da Resolução Conama nº 237/1997, o que, por evidente, impõe sua interpretação à
luz da referida Lei Complementar.
As alterações mais significativas da LC nº 140/2011 estão nas disposições concernentes às
competências da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, assim como as competências
licenciatórias em Áreas de Proteção Ambiental (APAs); na supressão de vegetação de florestas e
formações sucessoras; e na responsabilidade administrativa dos entes federativos pela lavratura de auto
de infração e instauração do processo administrativo ambiental.
Devemos ressaltar que o cerne deste capítulo é o licenciamento ambiental ordinário, uma vez que o
ordenamento contempla outras modalidades, especiais, que foram editadas pelo Conama, e que não
indicam prejuízo a outras normas estaduais e municipais tais como as elaboradas para a aquicultura
(Resolução nº 413/2009); assentamentos de reforma agrária (Resolução nº 387/2006), entre outras.

9.2 FUNDAMENTO DO LICENCIAMENTO AMBIENTAL

O princípio da prevenção é o principal fundamento do licenciamento ambiental.


Em largas pinceladas, prevenção vem do verbo prevenir, que significa agir antecipadamente1.
Deveras, a adoção de medidas de cunho preventivo é a essência do direito ambiental. Não há como
pensar as questões ambientais dissociadas da prevenção e da mitigação dos impactos ambientais, sejam
eles de qualquer ordem ou magnitude, visto que as ações reparatórias são, por si só, insuficientes, uma
vez que os danos ambientais são, em regra, irreversíveis. Nas palavras de Álvaro Valery Mirra, “(…)
esse princípio decorre da constatação de que as agressões ao meio ambiente são, em regra, de difícil ou
impossível reparação. Ou seja: uma vez consumada uma degradação ao meio ambiente, a sua reparação é
sempre incerta e, quando possível, excessivamente custosa”2. Nesse sentido, a título exemplificativo, a
supressão de uma floresta centenária ou a saturação de um rio são atos que resultam em reparação
improvável.
O licenciamento ambiental, nas palavras de Érica Bechara, “(…) trata-se de típico instrumento de
prevenção aos danos ambientais, visto que é nesse procedimento que o órgão ambiental licenciador
verifica a natureza, dimensão e impactos (positivos e negativos) de um empreendimento potencialmente
poluidor, antes mesmo que ele seja instalado e, a partir de tais constatações, condiciona o exercício da
atividade ao atendimento de inúmeros requisitos (chamados de condicionantes), atos a eliminarem ou
reduzirem tanto quanto possível os impactos ambientais negativos”3.
9.3 NATUREZA JURÍDICA

O licenciamento ambiental – um dos instrumentos da Política Nacional do Meio Ambiente – consiste


em procedimento administrativo decorrente do poder de polícia ambiental, com a finalidade de avaliar
os possíveis impactos e riscos de uma atividade ou empreendimento potencialmente causador de
degradação ambiental ou poluição.

9.4 COMPETÊNCIA PARA O EXERCÍCIO DO LICENCIAMENTO


AMBIENTAL

Além de ter seu principal fundamento no princípio da prevenção, o licenciamento ambiental insere-se
no campo das competências constitucionais, em especial a competência administrativa comum do art. 23
da Constituição de 1988. Isto significa que todos os entes federativos podem efetuar o licenciamento
ambiental, desde que observados os requisitos legais (como se verá no tópico 9.13).
Com efeito, o art. 23 da Constituição Federal prevê a competência administrativa comum entre a
União, os Estados, o Distrito Federal e os municípios para proteger o meio ambiente e combater a
poluição em qualquer de suas formas (inciso VI), preservar a fauna, a flora e as florestas (inciso VII),
entre outros aspectos.
Até a edição da Lei Complementar nº 140/2011 eram recorrentes na doutrina as menções a respeito
das dificuldades de atuação dos entes federativos na competência administrativa comum. Se por um lado
a regra constitucional do art. 23 representa uma garantia para a sociedade, Édis Milaré nos alerta que
“(…) por outro lado, pode ser fonte de inúmeros conflitos decorrentes da sobreposição de atuações,
exigências, licenças etc.”4. E exemplifica que certos empreendimentos ou atividades de real projeção no
cenário econômico e político são motivos de disputas, ao passo que de menor porte nenhum órgão se
habilita5. Para Paulo de Bessa Antunes, o licenciamento ambiental sempre foi motivo de graves conflitos
entre diferentes órgãos administrativos. Em suas palavras, “(…) as dificuldades do tema são de tal ordem
que, não raramente, empresas solicitam o licenciamento ambiental em mais de um órgão, outras vezes,
órgãos de licenciamento ambiental se insurgem contra outros órgãos reivindicando a competência para
este ou aquele licenciamento”6. E conclui que toda essa situação é nociva para a proteção ambiental.
Esse cenário é dissonante à atuação conjunta e integrada que caracteriza a competência administrativa
comum. Ao eleger a atribuição comum aos entes federativos, a Constituição de 1988 instituiu um
federalismo cooperativo, de solidariedade mútua e complementar, sem vinculações ou centralizações a
critérios de entes políticos em detrimento da proteção ambiental. Nas palavras de Leonardo Greco, “(…)
no federalismo de integração ou de cooperação, a distribuição de competências entre a União e os
Estados não é mais um instrumento de disputas entre o autoritarismo centralizador e as autonomias locais,
mas um compromisso de solidariedade e de união de esforços para realizar de modo mais adequado
possível o bem-estar da coletividade”7.
Em matéria ambiental, esse federalismo cooperativo vai se materializar, dentre outros aspectos e
instrumentos, por meio do exercício do poder de polícia dos entes responsáveis pela qualidade ambiental
no País, de forma a garantir a cooperação e a solidariedade na proteção do meio ambiente.

CARACTERÍSTICAS DO LICENCIAMENTO AMBIENTAL


NATUREZA Instrumento da Política Nacional do Meio Ambiente, consistente em
JURÍDICA Procedimento Administrativo decorrente do Poder de Polícia
FUNDAMENTO Princípio da Prevenção
COMPETÊNCIA Todos os Entes Federativos (art. 23/CF)

9.5 CONCEITO DE LICENCIAMENTO AMBIENTAL

Conforme a LC nº 140/2011, licenciamento ambiental é “(…) o procedimento administrativo


destinado a licenciar atividades ou empreendimentos utilizadores de recursos ambientais, efetiva ou
potencialmente poluidores ou capazes, sob qualquer forma, de causar degradação ambiental” (art. 2º, I).
O art. 10 da Lei nº 6.938/1981 possui a seguinte redação: “A construção, instalação, ampliação e
funcionamento de estabelecimentos e atividades utilizadores de recursos ambientais, efetiva ou
potencialmente poluidores ou capazes, sob qualquer forma, de causar degradação ambiental dependerão
de prévio licenciamento ambiental”.
No mesmo sentido, a Resolução Conama nº 237/1997 define o licenciamento ambiental como o “(…)
procedimento administrativo pelo qual o órgão ambiental competente licencia a localização, instalação,
ampliação e a operação de empreendimentos e atividades utilizadoras de recursos ambientais,
consideradas efetiva ou potencialmente poluidoras ou daquelas que, sob qualquer forma, possam causar
degradação ambiental” (art. 1º, I).
Desta maneira, o empreendedor que pretenda localizar, construir, instalar, ampliar ou modificar
atividades ou empreendimentos utilizadores de recursos ambientais e considerados efetiva ou
potencialmente poluidores, assim como os capazes, sob qualquer forma, de causar degradação ambiental,
dependem de prévio licenciamento do órgão ambiental competente.

9.6 OBRIGATORIEDADE DO LICENCIAMENTO AMBIENTAL

O licenciamento ambiental é um procedimento administrativo obrigatório para as atividades


potencialmente poluidoras ou que possam causar degradação ambiental.
Entretanto, não é para toda e qualquer atividade econômica.
O rol de atividades e empreendimentos que devem se sujeitar ao licenciamento ambiental ordinário
encontra-se no anexo I da Resolução Conama nº 237/1997. A listagem em questão não é definitiva, uma
vez que a dinâmica econômica sempre impõe novos contornos e potencialidades em matéria de impactos
ambientais.
Caso a atividade, obra ou empreendimento for potencialmente causador de significativa degradação
ao meio ambiente, é inescusável o cumprimento da principal exigência preliminar: a confecção do Estudo
Prévio de Impacto Ambiental, conhecido pela sigla EIA/Rima. É um estudo a ser feito sob total
responsabilidade do empreendedor, que deverá contratar equipe técnica multidisciplinar para a sua
obrigatória elaboração, nos termos da Resolução Conama nº 01/1986. Trata-se de estudo exigível
somente – e tão somente – para as atividades e empreendimentos efetiva ou potencialmente causadores de
significativa degradação do meio ambiente, que se impõe por disposição constitucional (art. 225, § 1º, IV,
da CF).
Enquanto procedimento administrativo, o licenciamento ambiental passa por etapas, representadas
pela obtenção de cada uma das licenças ambientais, a saber: (a) licença prévia, com a aprovação do
projeto e de sua localização; (b) licença de instalação, com a materialização do projeto; e (c) licença de
operação, com o efetivo funcionamento da atividade.
Verifica-se, portanto, que para o empreendedor o objetivo final do licenciamento ambiental é a
obtenção da licença de operação. Por intermédio dela, consoante o prazo de validade, terá o
funcionamento e desempenho de sua atividade econômica.
Para o órgão ambiental a finalidade é outra: prevenir e mitigar os impactos ambientais como
salvaguarda do direito fundamental ao meio ambiente ecologicamente equilibrado.
É por essa dupla leitura que o licenciamento se configura como procedimento essencialmente
preventivo de compatibilização das atividades econômicas com a proteção ao meio ambiente.

9.7 LICENÇA AMBIENTAL

Define-se licença ambiental, conforme a Resolução Conama nº 237/1997, como o “(…) ato
administrativo pelo qual o órgão ambiental competente estabelece as condições, restrições e medidas de
controle ambiental que deverão ser obedecidas pelo empreendedor, pessoa física ou jurídica, para
localizar, instalar, ampliar e operar empreendimentos ou atividades utilizadoras dos recursos ambientais
consideradas efetiva ou potencialmente poluidoras ou daquelas que, sob qualquer forma, possam causar
degradação ambiental” (art. 1º, II).

9.8 TIPOS DE LICENÇAS AMBIENTAIS

Como procedimento, o licenciamento ambiental é a sucessão de atos que visam à obtenção sequencial
de três licenças: (a) licença prévia; (b) licença de instalação; (c) licença de operação.

9.8.1 Licença prévia


A licença prévia é a primeira das licenças ambientais. Ela é concedida na fase preliminar de
planejamento, e tem o condão de aprovar a localização e a concepção do projeto.
Durante essa fase a localização do projeto é aprovada, após a verificação da compatibilidade do
empreendimento ou atividade com o zoneamento, o plano diretor e os planos e programas
governamentais. Esse é um aspecto particularmente importante, dado que o empreendedor deve inserir no
procedimento de licenciamento a certidão da Prefeitura Municipal sobre a regularidade com a legislação
aplicável ao uso e ocupação do solo (art. 10, § 1º, da Resolução nº 237/1997).
Além disso, esta fase atesta a viabilidade ambiental do projeto, estabelecendo ainda os requisitos
básicos e os condicionantes que o empreendedor deverá observar nas licenças posteriores (art. 8º, I, da
Resolução Conama nº 237/1997). A licença prévia não autoriza o empreendedor a edificar ou intervir no
meio ambiente; isso só será possível com a obtenção e nos termos da próxima licença, a de instalação.
O prazo de validade da licença prévia é o estabelecido no projeto, não podendo ser superior a 5
(cinco) anos (art. 18, I, da Resolução Conama nº 237/1997).
Para as atividades causadoras de significativa degradação ambiental são exigidas a realização e a
aprovação do Estudo Prévio de Impacto Ambiental (EIA/Rima) para a concessão da licença prévia.
Em síntese, são características da Licença Prévia:

a) aprova a localização e a concepção do projeto;


b) atesta a sua viabilidade ambiental e estabelece os requisitos e condicionantes que o empreendedor
deve observar para as próximas fases do licenciamento;
c) prazo máximo não é superior a 5 (cinco) anos.

9.8.2 Licença de instalação


Após a obtenção da licença prévia, a próxima etapa do empreendedor é requerer a licença de
instalação. Essa licença autoriza a instalação do empreendimento ou atividade de acordo com as
especificações constantes dos planos, programas e projetos aprovados, incluindo as medidas de controle
ambiental e demais condicionantes, das quais constituem motivo determinante (art. 8º, II, da Resolução
Conama nº 237/1997).
É nessa fase que se permitem construir, edificar, cortar árvores (desde que detenha autorização para
tal), usar água (com a outorga de uso dos recursos hídricos) e todas as obras pertinentes para o
empreendimento.
O prazo da licença de instalação é o definido no cronograma do projeto, não podendo ser superior a
6 (seis) anos (art. 18, II, da Resolução Conama nº 237/1997).
Características da licença de instalação:

a) autoriza a instalação do empreendimento;


b) define as medidas de controle ambiental e os condicionantes para a próxima fase;
c) prazo máximo não superior a 6 (seis) anos.
9.8.3 Licença de operação
A licença de operação permite o funcionamento da atividade ou empreendimento após a verificação
do efetivo cumprimento das medidas e condicionantes que constam das licenças anteriores (art. 8º, III, da
Resolução Conama nº 237/1997). Além disso, ela determinará as medidas de controle ambiental e
condicionantes de observância após o efetivo funcionamento do empreendimento.
O prazo de uma licença de operação é de no mínimo 04 (quatro) anos e de no máximo 10 (dez) anos
(art. 18, III, da Resolução Conama nº 237/1997).
Características da licença de operação:

a) verifica o cumprimento dos condicionantes das licenças anteriores;


b) autoriza a operação da atividade ou empreendimento;
c) estabelece os condicionantes ambientais para o funcionamento;
d) prazo mínimo: 4 (quatro) anos; prazo máximo: 10 (dez) anos.

DIFERENÇAS ENTRE OS TIPOS DE LICENÇA


(Conforme a Res. Conama nº 237/1997)
LICENÇA DE
LICENÇA PRÉVIA LICENÇA DE OPERAÇÃO
INSTALAÇÃO
Aprova a localização Autoriza a operação da
Autoriza a instalação
EFEITOS e a concepção do atividade ou
do empreendimento.
projeto. empreendimento.
Estabelece os
Define as medidas de Verifica o cumprimento das
requisitos e
controle ambiental e condicionantes das licenças
CONDICIONANTES condicionantes para
os condicionantes anteriores e os estabelece
as próximas fases do
para a próxima fase. para a fase de operação.
licenciamento.
PRAZOS Não superior a 05 Não superior a 06 Mínimo: 04 (quatro) anos.
(Res. nº 237/1997) (cinco) anos. (seis) anos. Máximo: 10 (dez) anos.

Os prazos das licenças ambientais relacionadas seguem a dinâmica da


Resolução Conama nº 237/1997. Contudo, o licenciamento ambiental
estadual e o municipal apresentam prazos distintos, de acordo com a
natureza da atividade econômica. Caso o edital suscite o licenciamento
estadual, por exemplo, recomenda-se acompanhar a legislação correlata.
Outro aspecto importante é que, conforme a legislação do ente federativo,
é possível a simplificação das licenças ambientais.
9.9 RENOVAÇÃO DA LICENÇA

Cabe ao empreendedor solicitar a renovação de licenças ambientais, que devem ser requeridas com
antecedência mínima de 120 dias da expiração de seu prazo de validade, que foi fixado na respectiva
licença, ficando este automaticamente prorrogado até a manifestação definitiva do órgão ambiental
competente (art. 14, § 4º, da LC nº 140/2011).

A renovação das licenças ambientais deve ser requerida com


antecedência mínima de 120 dias da expiração de seu prazo de validade,
que foi fixado na respectiva licença.

9.10 PROCEDIMENTOS PARA REQUERER AS LICENÇAS AMBIENTAIS


Como procedimento, o licenciamento ambiental impõe um iter de observância obrigatória pelo
requerente. O roteiro está disposto no art. 10 da Resolução nº 237/1997, a saber:

a) Definição pelo órgão ambiental competente, com a participação do empreendedor, dos


documentos, projetos e estudos ambientais necessários ao início do processo de licenciamento
correspondente à licença a ser requerida;
b) Requerimento da licença ambiental pelo empreendedor, acompanhado dos documentos, projetos e
estudos ambientais pertinentes, dando-se a devida publicidade;
c) Análise pelo órgão ambiental competente, integrante do Sisnama, dos documentos, projetos e
estudos ambientais apresentados e a realização de vistorias técnicas, quando necessárias;
d) Solicitação de esclarecimentos e complementações pelo órgão ambiental competente, integrante
do Sisnama, uma única vez, em decorrência da análise dos documentos, projetos e estudos
ambientais apresentados; quando couber, pode haver a reiteração da mesma solicitação caso os
esclarecimentos e complementações não tenham sido satisfatórios;
e) Audiência pública, quando couber, de acordo com a regulamentação pertinente;
f) Solicitação de esclarecimentos e complementações pelo órgão ambiental competente, decorrentes
de audiências públicas; quando couber, pode haver a reiteração da solicitação quando os
esclarecimentos e complementações não tenham sido satisfatórios;
g) Emissão de parecer técnico conclusivo e, quando couber, parecer jurídico;
h) Deferimento ou indeferimento do pedido de licença, dando-se a devida publicidade.

9.11 PRAZOS DE ANÁLISE PELOS ÓRGÃOS AMBIENTAIS

A LC nº 140/2011 pontua que “(…) os órgãos licenciadores devem observar os prazos estabelecidos
para tramitação dos processos de licenciamento” (art. 14, caput).
A Resolução Conama nº 237/1997 disciplina esses aspectos. Com efeito, o prazo de análise da
licença pelo órgão ambiental responsável, com o deferimento ou indeferimento, é de no máximo 6 (seis)
meses, a contar do seu protocolo. Na hipótese de realização de EIA/Rima ou de audiência pública, o
prazo é de 1 (um) ano (art. 14, caput, da Resolução nº 237/1997).
Caso se verifique o decurso dos prazos de licenciamento sem a emissão da licença ambiental, tal fato
não implica a emissão tácita nem autoriza a prática de ato que dela dependa ou decorra, mas instaura a
competência supletiva (art. 14, § 3º, da LC nº 140/2011) – como se verá no tópico 9.14.

9.12 PRAZO PARA ESCLARECIMENTOS E COMPLEMENTAÇÕES

Caso o órgão ambiental solicite esclarecimentos e complementações ao empreendedor, o prazo de


análise será suspenso (art. 14, § 1º, da Resolução Conama nº 237/1997). Aliás, esse é um aspecto que a
LC nº 140/2011 aduz: “As exigências de complementação oriundas da análise do empreendimento ou
atividade devem ser comunicadas pela autoridade licenciadora de uma única vez ao empreendedor,
ressalvadas aquelas decorrentes de fatos novos” (art. 14, § 1º). E continua: “(…) as exigências de
complementação de informações, documentos ou estudos feitas pela autoridade licenciadora suspendem o
prazo de aprovação, que continua a fluir após o seu atendimento integral pelo empreendedor” (art. 14, §
2º, LC nº 140/2011).
Os esclarecimentos e complementações deverão ser atendidos no prazo máximo de 04 (quatro) meses,
a contar da notificação (art. 15, caput, da Resolução Conama nº 237/1997). Esse prazo pode ser
prorrogado, desde que justificado e com a concordância entre o empreendedor e o órgão ambiental (art.
15, parágrafo único, da Resolução Conama nº 237/1997).
Agora, a não observância pelo empreendedor do prazo para esclarecimentos e complementações
importará no arquivamento do procedimento. Contudo, nada obsta que o empreendedor reapresente o
projeto (art. 17 da Resolução nº 237/1997), devendo arcar novamente com os custos e observar os
procedimentos elencados no art. 10 da Resolução nº 237/1997 (como se relacionou no item 9.10).

9.13 REQUISITOS PARA O ENTE FEDERATIVO EFETUAR O


LICENCIAMENTO AMBIENTAL

Como se viu, todos os entes federativos podem promover o licenciamento ambiental, decorrência da
competência administrativa comum do art. 23 da Constituição de 1988. Todavia, faz-se necessária a
observância de dois requisitos: existência de órgão ambiental capacitado e de conselho de meio
ambiente.
A constituição e estruturação de um órgão ambiental capacitado representa, por evidente, requisito
basilar para que um ente federativo efetue o licenciamento. A LC nº 140/2011 confere um indicativo para
a definição de órgão ambiental capacitado no parágrafo único do art. 5º, dispositivo que aborda a
delegação de ações administrativas entre entes federativos. Dessa forma, considera-se órgão ambiental
capacitado – para as ações de delegação de ações administrativas – aquele que possui técnicos próprios
ou em consórcio, devidamente habilitados e em número compatível com a demanda das ações
administrativas a serem delegadas.
Deflui-se que órgão ambiental capacitado é aquele que possui corpo técnico habilitado e em número
suficiente para atender as demandas do licenciamento ambiental em sua área de atuação. À primeira
vista, essa concepção parece evidente, ao exigir um corpo técnico habilitado que atenda a demanda
correspondente, em especial ao se visualizar a estrutura de órgãos ambientais como o Ibama (órgão
ambiental federal) ou dos órgãos ambientais no âmbito estadual. Todavia, ao se transpor essa exigência
ao nível local, é forçoso reconhecer que não são numerosos os municípios que se enquadram nessa
configuração, não raro com órgãos ambientais sem estrutura adequada e essencialmente providos por
agentes em cargos comissionados, o que dificulta que o ente federativo demonstre ser fiador de uma
política ambiental de médio e longo prazo.
Quanto ao segundo requisito, o estabelecimento de conselhos de meio ambiente, trata-se de
mecanismo de efetivação do princípio da participação comunitária. Deveras, como o licenciamento
ambiental de atividades e empreendimentos poluidores e degradadores interessa e afeta diretamente a
comunidade da área a ser submetida ao procedimento, nada mais razoável que ela participe das decisões
ambientais. O que se propugna é que, em vez de decisões formuladas em gabinetes fechados, haja
participação popular na discussão, formulação, execução, acompanhamento e fiscalização das políticas
públicas ambientais. E isso não pode ser diferente no licenciamento ambiental, o que transforma os
conselhos de meio ambiente em um locus fundamental. Ao contrário da Resolução Conama nº 237/1997,
que dispunha sobre a obrigatoriedade de implementação dos conselhos de meio ambiente com caráter
deliberativo e participação social, a LC nº 140/2011 foi genérica, consignando somente a
obrigatoriedade de conselhos de meio ambiente. Nesse ponto, nota-se um retrocesso, porque a LC
permite a formação de conselhos de meio ambiente meramente consultivos, opinativos, sem qualquer
possibilidade de questionar eventuais políticas dos governantes de plantão. Ora, o cerne da previsão dos
conselhos de meio ambiente é justamente a participação da sociedade civil, o que demanda reconhecer
que eles somente cumprem a sua função legal – e finalística – enquanto constituídos como órgãos
deliberativos, que transcendem funções meramente opinativas.
Aliás, como exemplo de conselho de meio ambiente que adequadamente desempenha o papel que se
espera desses colegiados é o Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), que é instância
deliberativa composta por representantes do governo federal, governos estaduais, governos municipais,
das entidades da sociedade civil e do setor empresarial, que reflete uma devida abrangência na
representatividade. Além dos debates que propõe em nível nacional, não é demais destacar a função
deliberativa do Conama, com a expedição contínua de resoluções, que deliberam sobre normas e padrões
compatíveis com um meio ambiente ecologicamente equilibrado e essencial à sadia qualidade de vida.
É importante frisar que os empreendimentos e atividades são licenciados ou autorizados,
ambientalmente, por um único ente federativo, em conformidade com as atribuições estabelecidas na
LC nº 140/2011. Conforme Eduardo Bim8, a regra do licenciamento por um único ente federativo
prestigia o princípio da segurança jurídica, o da eficiência e o da economicidade.
Entretanto, os demais entes federativos interessados podem manifestar-se ao órgão responsável pela
licença ou autorização, de maneira não vinculante, respeitados os prazos e procedimentos do
licenciamento ambiental (art. 13, § 1º, da LC nº 140/2011).
Caso o licenciamento do empreendimento ou atividade implique supressão de vegetação, sua
autorização caberá ao ente federativo licenciador (art. 13, § 2º, da LC nº 140/2011).

Os empreendimentos e atividades são licenciados ou autorizados,


ambientalmente, por UM ÚNICO ENTE FEDERATIVO. Os demais entes
federativos interessados podem manifestar-se ao órgão responsável pela
licença ou autorização, DE MANEIRA NÃO VINCULANTE, respeitados os
prazos e procedimentos do licenciamento ambiental.

9.14 ATUAÇÃO SUPLETIVA E SUBSIDIÁRIA

Entende-se por atuação supletiva, conforme a LC nº 140/2001, a “(…) ação do ente da Federação
que se substitui ao ente federativo originariamente detentor das atribuições, nas hipóteses definidas nesta
Lei Complementar”.
O art. 15 da LC nº 140/2011 elenca as hipóteses de atuação em caráter supletivo nas ações
administrativas de licenciamento e de autorização ambiental, a saber:

I) inexistindo órgão ambiental capacitado ou conselho de meio ambiente no Estado ou no Distrito


Federal, a União deve desempenhar as ações administrativas estaduais ou distritais até a sua criação;
II) inexistindo órgão ambiental capacitado ou conselho de meio ambiente no Município, o Estado deve
desempenhar as ações administrativas municipais até a sua criação; e
III) inexistindo órgão ambiental capacitado ou conselho de meio ambiente no Estado e no Município, a
União deve desempenhar as ações administrativas até a sua criação em um daqueles entes federativos.

A não observância de somente um dos requisitos – existência de órgão ambiental capacitado ou o


estabelecimento de conselho de meio ambiente – é suficiente para que se deflagre a ação administrativa
supletiva.
Outra hipótese que implica a atuação supletiva de outro órgão ambiental é a inobservância dos
prazos para a emissão da licença ambiental pelo órgão licenciador competente, in verbis: “(…) o
decurso dos prazos de licenciamento, sem a emissão da licença ambiental, não implica emissão tácita
nem autoriza a prática de ato que dela dependa ou decorra, mas instaura a competência supletiva referida
no art. 15” (art. 14, § 3º, da LC nº 140/2011).
Atuação subsidiária, por sua vez, segundo a LC nº 140/2011, é a “(…) ação do ente da Federação que
visa a auxiliar no desempenho das atribuições decorrentes das competências comuns, quando solicitado
pelo ente federativo originariamente detentor das atribuições definidas nesta Lei Complementar”.
A atuação subsidiária proporciona, em termos diretos, o auxílio de um ente federativo a outro, nas
hipóteses de alguma deficiência ou fragilidade de natureza econômica, administrativa, técnica ou
científica. Dessa forma, a ação administrativa subsidiária dos entes federativos dar-se-á por meio de
apoio técnico, científico, administrativo ou financeiro, sem prejuízo de outras formas de cooperação (art.
16 da LC nº 140/2011).
A ação subsidiária deve ser solicitada pelo ente originariamente detentor da atribuição do
licenciamento ou autorização, nos termos da LC nº 140/2011. Como exemplo, o órgão ambiental estadual
com dificuldades técnicas no licenciamento ambiental de uma determinada atividade poderá solicitar
auxílio ao órgão ambiental federal para superá-las. Eis uma possibilidade de atuação subsidiária.

ATUAÇÃO SUPLETIVA ATUAÇÃO SUBSIDIÁRIA


Ação do ente da Federação que substitui o
Ação do ente da Federação que visa a auxiliar
ente federativo originariamente detentor das
no desempenho das atribuições decorrentes das
atribuições, desde que não possua órgão
competências comuns, quando solicitado pelo
ambiental capacitado ou conselho de meio
ente federativo originariamente detentor das
ambiente.
atribuições.
União substituiu o Estado;
Estado substitui o Município; O auxílio é por meio de apoio técnico, científico,
Se nem Município e Estado cumprirem os administrativo ou financeiro.
requisitos, a União efetua o licenciamento.

9.15 DISTRIBUIÇÃO DE COMPETÊNCIAS NO LICENCIAMENTO


AMBIENTAL

A distribuição das competências no licenciamento ambiental não é novidade. Era delineado pela
Resolução Conama nº 237/1997. A Lei Complementar nº 140/2011, por sua vez, traz um extenso rol de
competências dos entes federativos em matéria ambiental.

9.15.1 Licenciamento da União


No âmbito federal, o licenciamento ambiental compete ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos
Recursos Naturais Renováveis (Ibama).
Segundo o inciso XIV do art. 7º da LC nº 140/2011, compete à União promover o licenciamento
ambiental de empreendimentos e atividades:

a) localizados ou desenvolvidos conjuntamente no Brasil e em país limítrofe;


b) localizados ou desenvolvidos no mar territorial, na plataforma continental ou na zona econômica
exclusiva;
c) localizados ou desenvolvidos em terras indígenas;
d) localizados ou desenvolvidos em unidades de conservação instituídas pela União, exceto em
Áreas de Proteção Ambiental (APAs);
e) localizados ou desenvolvidos em 2 (dois) ou mais Estados;
f) de caráter militar, excetuando-se do licenciamento ambiental, nos termos de ato do Poder
Executivo, aqueles previstos no preparo e emprego das Forças Armadas, conforme disposto na Lei
Complementar nº 97, de 9 de junho de 1999;
g) destinados a pesquisar, lavrar, produzir, beneficiar, transportar, armazenar e dispor material
radioativo, em qualquer estágio, ou que utilizem energia nuclear em qualquer de suas formas e
aplicações, mediante parecer da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN); ou
h) que atendam tipologia estabelecida por ato do Poder Executivo, a partir de proposição da
Comissão Tripartite Nacional, assegurada a participação de um membro do Conselho Nacional do
Meio Ambiente (Conama), e considerados os critérios de porte, potencial poluidor e natureza da
atividade ou empreendimento.

Por último, “o licenciamento dos empreendimentos cuja localização compreenda concomitantemente


áreas das faixas terrestre e marítima da zona costeira será de atribuição da União exclusivamente nos
casos previstos em tipologia estabelecida por ato do Poder Executivo, a partir de proposição da
Comissão Tripartite Nacional, assegurada a participação de um membro do Conselho Nacional do Meio
Ambiente (Conama) e considerados os critérios de porte, potencial poluidor e natureza da atividade ou
empreendimento” (art. 7º, parágrafo único, da LC nº 140/2011).

9.15.2 Licenciamento dos Estados-membros


Compete aos Estados-membros promover o licenciamento ambiental de atividades ou
empreendimentos utilizadores de recursos ambientais, efetiva ou potencialmente poluidores ou capazes,
sob qualquer forma, de causar degradação ambiental, ressalvadas as competências da União e dos
municípios (art. 8º, XIV, da LC nº 140/2011). Ademais, compete promover o licenciamento ambiental de
atividades ou empreendimentos localizados ou desenvolvidos em unidades de conservação instituídas
pelo Estado, exceto em Áreas de Proteção Ambiental (APAs).
Em uma primeira leitura, poder-se-ia dizer que, no caso do licenciamento ambiental, as competências
dos Estados são residuais. Em outras palavras, se não for de competência da União ou dos municípios,
será de competência do Estado-membro. Como exemplo, cabe ao Estado-membro o licenciamento de
empreendimentos e atividades localizados ou desenvolvidos em mais de um município nessa unidade
federativa. Isso porque, se o licenciamento ultrapassar os limites do Estado-membro, essa competência
será da União; se for circunscrito aos limites territoriais de um município, com impacto local, a ele
caberá esse mister. Contudo, em uma leitura mais detida, os Estados-membros, a bem da verdade,
desempenham uma plêiade de atividades que estão longe de se caracterizarem como residuais. Paulo de
Bessa Antunes9 afirma que o caráter suplementar é da União e o princípio geral é de que o licenciamento
é estadual. Em síntese, aos Estados compete um papel decisivo e amplo na efetivação desse instrumento
da Política Nacional de Meio Ambiente.

9.15.3 Licenciamento municipal


Observadas as atribuições dos demais entes federativos previstas na LC nº 140/2011, compete aos
municípios promoverem o licenciamento ambiental das atividades ou empreendimentos:

a) que causem ou possam causar impacto ambiental de âmbito local, conforme tipologia definida
pelos respectivos Conselhos Estaduais de Meio Ambiente, considerados os critérios de porte,
potencial poluidor e natureza da atividade; ou
b) localizados em unidades de conservação instituídas pelo Município, exceto em Áreas de Proteção
Ambiental (APAs).

9.15.4 Licenciamento do Distrito Federal


No que tange ao licenciamento ambiental do Distrito Federal, como de resto o conjunto de suas ações
administrativas, são aplicáveis as disposições concernentes aos Estados e aos municípios. Trata-se,
como se vê, de conjugação de atribuições, ao contrário do que dispõe o art. 5º da Resolução nº 237/1997
do Conama, que vinculava o Distrito Federal somente às regras dos Estados.

9.15.5 Licenciamento em Áreas de Proteção Ambiental (APAs)


A LC nº 140/2011 disciplinou regras próprias para o licenciamento ambiental em Áreas de Proteção
Ambiental (APAs). Ao contrário das demais espécies de unidades de conservação, nas APAs o critério
do ente político instituidor não determina o licenciamento ambiental.
Nesse sentido, o art. 12 da LC nº 140/2011 determina que, “(…) para fins de licenciamento ambiental
de atividades ou empreendimentos utilizadores de recursos ambientais, efetiva ou potencialmente
poluidores ou capazes, sob qualquer forma, de causar degradação ambiental, e para autorização de
supressão e manejo de vegetação, o critério do ente federativo instituidor da unidade de conservação não
será aplicado às Áreas de Proteção Ambiental (APAs)”.
A definição do ente federativo responsável pelo licenciamento e autorização no caso das APAs
seguirá os critérios previstos nas alíneas “a”, “b”, “e”, “f” e “h” do inciso XIV do art. 7º, no inciso XIV
do art. 8º e na alínea “a” do inciso XIV do art. 9º da LC nº 140/2011.
Em outras palavras, atividades e empreendimentos em APAs serão licenciados pela União nos
seguintes casos:

a) localizados ou desenvolvidos conjuntamente no Brasil e em país limítrofe;


b) localizados ou desenvolvidos no mar territorial, na plataforma continental ou em zona econômica
exclusiva;
c) localizados ou desenvolvidos em dois ou mais Estados;
d) de caráter militar, excetuando-se do licenciamento ambiental, nos termos de ato do Poder
Executivo, aqueles previstos no preparo e emprego das Forças Armadas, conforme disposto na Lei
Complementar nº 97, de 09.06.1999;
e) que atendam tipologia estabelecida por ato do Poder Executivo, a partir de proposição da
Comissão Tripartite Nacional, assegurada a participação de um membro do Conselho Nacional do
Meio Ambiente (Conama), e considerados os critérios de porte, potencial poluidor e natureza da
atividade ou empreendimento.

Serão licenciadas pelos municípios as APAs que se enquadrarem no conceito de impacto ambiental de
âmbito local, conforme a redação da alínea “a” do inciso XIV do art. 9º da LC nº 140/2011, que dispõe
que os municípios devem promover o licenciamento ambiental de atividades e empreendimentos “que
causem ou possam causar impacto ambiental de âmbito local, conforme tipologia definida pelos
respectivos Conselhos Estaduais de Meio Ambiente, considerados os critérios de porte, potencial
poluidor e natureza da atividade”.
Quantos aos Estados, compete a promoção do licenciamento ambiental de atividades ou
empreendimentos utilizadores de recursos ambientais, efetiva ou potencialmente poluidores ou capazes,
sob qualquer forma, de causar degradação ambiental, ressalvadas as disposições concernentes à União e
aos municípios. Ou seja, o Estado promoverá o licenciamento ambiental de atividades que não estejam
sujeitas às hipóteses elencadas pela LC nº 140/2011 à União e aos municípios – inclusive no que se
refere às APAs.

9.15.6 Supressão de vegetação no licenciamento ambiental


A supressão de vegetação decorrente de licenciamentos ambientais é autorizada pelo ente federativo
licenciador (art. 13, § 2º, LC 140/2011).

9.15.7 Taxas de licenciamento ambiental


Os valores alusivos às taxas de licenciamento ambiental e outros serviços afins devem guardar
relação de proporcionalidade com o custo e a complexidade do serviço prestado pelo ente federativo
(art. 13, § 3º, LC nº 140/2011).

9.16 REVISIBILIDADE DAS LICENÇAS AMBIENTAIS

A licença ambiental está sujeita à retirada temporária ou definitiva.


A retirada temporária ocorre com a suspensão do empreendimento ou da atividade, em que o grau de
irregularidade é sanável e, por consequência, a correspondente retomada é possível.
Ocorre a retirada definitiva quando o grau de irregularidade não pode ser sanado, o que se dá a
partir de três fundamentos: (a) anulação; (b) cassação; e (c) revogação. Essas hipóteses estão delineadas
no art. 19 da Resolução nº 237/1997, in verbis: “O órgão ambiental competente, mediante decisão
motivada, poderá modificar os condicionantes e as medidas de controle e adequação, suspender ou
cancelar uma licença expedida, quando ocorrer: I – violação ou inadequação de quaisquer
condicionantes ou normas legais; II – omissão ou falsa descrição de informações relevantes que
subsidiaram a expedição da licença; III – superveniência de graves riscos ambientais e de saúde”.
Da análise desse dispositivo podemos concluir que a retirada definitiva da licença ambiental impõe,
obrigatoriamente, que a decisão seja motivada, uma vez que seus efeitos geram severas consequências
ao exercício da atividade econômica do empreendedor. A decisão motivada, em nossa compreensão,
deve ser precedida de processo administrativo, como forma de proteção dos direitos dos administrados e
ao melhor cumprimento dos fins públicos.
Com esses apontamentos, analisar-se-á cada um dos incisos do artigo que se referenciou.

9.16.1 Anulação
Um ato administrativo é objeto de anulação quando eivado de ilegalidade. Trata-se de um poder-dever
da Administração, conforme a Súmula nº 473 do STF. A licença ambiental é passível de anulação quando
a omissão ou falsa descrição estavam presentes no momento da concessão da licença. A anulação da
licença ambiental ocorre, por exemplo, com a falsa descrição ou omissão das condições da biota (fauna e
flora) no estudo ambiental que subsidiou o deferimento da licença. O empreendedor, ao não relacionar
eventuais espécies da flora e da fauna ameaçadas, elidiu a análise adequada pelo órgão ambiental, com
intuito de facilitar a concessão da licença. Contudo, se no curso da licença constata-se esse fato, impõe-
se a sua anulação.

9.16.2 Revogação
Ocorre a revogação da licença ambiental na hipótese de haver relevante interesse público,
devidamente evidenciado. Ainda que o empreendimento observe todos os condicionantes e medidas
ambientais estabelecidos pelo órgão competente, é possível a revogação de sua licença pela
superveniência de graves riscos ambientais e de saúde. Como exemplo, uma fábrica que se submeteu ao
licenciamento ambiental e cumpre todos os condicionantes pode, por meio da ocorrência de um evento
natural, inserir-se em uma área de risco, com a possibilidade de desmoronamento ou ainda provocar a
contaminação de um curso de água com a sua permanência. Em situações como essa, de caráter
superveniente, com riscos à saúde e ao meio ambiente, será necessária a revogação da licença ambiental.

9.16.3 Cassação
A cassação, à guisa de conclusão, ocorre quando o empreendedor descumpre os condicionantes
estabelecidos pelo órgão ambiental no ato da concessão da licença ambiental. Podemos exemplificar com
o caso de um empreendedor que passa a emitir gases na atmosfera acima dos limites previstos na licença
de operação ou ainda efetue o lançamento de efluentes líquidos e gasosos que destoam dos limites
estabelecidos na licença.

9.17 FISCALIZAÇÃO DOS EMPREENDIMENTOS E ATIVIDADES


LICENCIADAS OU AUTORIZADAS

O art. 17 da LC nº 140/2011 trouxe novidades para o exercício do poder de polícia ambiental em


obras e atividades licenciadas ou autorizadas. A principal delas é que o órgão competente para o
licenciamento ou autorização será o responsável pela fiscalização, com a lavratura do auto de infração e
a instauração do processo administrativo ambiental.
É o que dispõe o art. 17, caput, da LC nº 140/2011, in verbis: “compete ao órgão responsável pelo
licenciamento ou autorização, conforme o caso, de um empreendimento ou atividade, lavrar auto de
infração ambiental e instaurar processo administrativo para a apuração de infrações à legislação
ambiental cometidas pelo empreendimento ou atividade licenciada ou autorizada”.
Como se vê, a LC nº 140/2011 estabeleceu, como regra, que a fiscalização – e a eventual lavratura de
auto de infração ambiental e instauração do processo administrativo – é de competência do órgão
ambiental licenciador.
Em outras palavras, quem licencia, fiscaliza!
Não obstante a regra geral de fiscalização vinculada ao ente licenciador, o legislador dispôs que, “nos
casos de iminência ou ocorrência de degradação da qualidade ambiental, o ente federativo que tiver
conhecimento do fato deverá determinar medidas para evitá-la, fazer cessá-la ou mitigá-la, comunicando
imediatamente ao órgão competente para as providências cabíveis” (art. 17, § 2º, LC nº 140/2011).
Em situações de iminência ou ocorrência de degradação ambiental, nada obsta a ação fiscalizatória do
órgão ambiental do ente federativo que primeiro tiver conhecimento do fato. A assunção de medidas
imediatas para se impedirem eventuais degradações e danos ao meio ambiente não pode prescindir da
cooperação de todos os órgãos responsáveis pela qualidade ambiental no País, pois o federalismo
cooperativo do art. 23 da Constituição Federal é o norteador da fiscalização ambiental.
A propósito, o STF, em julgado recente, pontuou (grifos nossos):

1. Tratando-se de proteção ao meio ambiente, não há que falar em competência exclusiva de um ente
da federação para promover medidas protetivas. Impõe-se amplo aparato de fiscalização a ser
exercido pelos quatro entes federados, independentemente do local onde a ameaça ou o dano estejam
ocorrendo. 2. O Poder de Polícia Ambiental pode – e deve – ser exercido por todos os entes da
Federação, pois se trata de competência comum, prevista constitucionalmente. Portanto, a
competência material para o trato das questões ambientais é comum a todos os entes. Diante de uma
infração ambiental, os agentes de fiscalização ambiental federal, estadual ou municipal terão o
dever de agir imediatamente, obstando a perpetuação da infração (AgRg no REsp 1417023/PR,
DJe 25/08/2015).

Isto é, não há que confundir competência licenciatória com competência fiscalizatória. Contudo, em se
tratando de – frisa-se – licenciamento e autorização ambiental, a LC nº 140/2011 estabelece uma
racionalidade na condução dos procedimentos decorrentes do exercício da competência comum de
fiscalização, sem, com isso, obstá-la.
Dentro dessa lógica, o órgão ambiental que possuir conhecimento da degradação ao meio ambiente
deverá tomar as medidas para evitá-la, fazer cessá-la ou mitigá-la por meio, por exemplo, do embargo da
obra ou atividade, evitando-se, assim, maiores impactos ambientais e eventuais desdobramentos. Com a
adoção de providências acautelatórias ou de mitigação e após a imediata comunicação ao órgão
competente, encerra-se a participação do órgão ambiental que primeiro tomou conhecimento da
degradação, iminente ou em curso.
Nesses termos, é necessário indagar qual é o órgão competente que deverá doravante adotar as
providências cabíveis. Sem dúvida, o órgão competente é aquele que detém a competência para o
licenciamento ou autorização em matéria ambiental. Reitera-se: para os fins da LC nº 140/2011, órgão
ambiental competente é aquele que concedeu a licença ambiental ou a autorização para o
empreendimento, sem prejuízo da atuação fiscalizatória de órgãos ambientais de outros entes federativos.
A razão para que o órgão competente se vincule ao licenciador é de ordem prática: durante o
procedimento de licenciamento e obtenção das licenças ambientais respectivas – licença prévia, licença
de instalação e licença de operação –, o órgão licenciador estabelece condicionantes entre as licenças
ambientais, que são de cumprimento obrigatório, independentemente da etapa em que foram
determinadas. É, no mínimo, despiciendo que outro órgão ambiental, no exercício da fiscalização,
estabeleça outras exigências e condicionantes que não aquelas fixadas pelo órgão licenciador. Isso
levaria a um clima de disputa entre os órgãos ambientais, além de insegurança ao empreendedor.
Corrobora-se essa argumentação com o que dispõe o art. 13 da LC nº 140/2011, a saber: “os
empreendimentos e atividades são licenciados ou autorizados, ambientalmente, por um único ente
federativo”. Apesar de a Resolução Conama nº 237/1997 dispor no mesmo sentido, a LC nº 140/2011
reiterou esse aspecto, até mesmo para evitar sobreposição e querelas entre órgãos ambientais, que
poderiam ter o condão de resultar em discussões administrativas e judiciais morosas, com sérios
prejuízos tanto ao desenvolvimento de atividades econômicas quanto à proteção ao meio ambiente.
Agora, o licenciamento ambiental em um único nível não impede que os outros entes federativos se
manifestem em sua tramitação, como se vê na redação do § 1º do art. 13 da LC nº 140/2011: “os demais
entes federativos interessados podem manifestar-se ao órgão responsável pela licença ou autorização, de
maneira não vinculante, respeitados os prazos e procedimentos do licenciamento ambiental”. Essa
manifestação, como se vê, não é vinculante nem poderia sê-lo, sob pena de incorrer em questionamentos
infindáveis na esfera administrativa. Até mesmo porque os órgãos ambientais devem observar os prazos
estabelecidos para tramitação dos processos de licenciamento, prazos esses que estão vinculados aos
estudos e análises ambientais, e não a divergências de atribuições entre entes federativos.
Na mesma linha de raciocínio, o § 3º do art. 17 da LC nº 140/2011 dispõe que a regra geral – quem
licencia fiscaliza – “(…) não impede o exercício pelos entes federativos da atribuição comum de
fiscalização da conformidade de empreendimentos e atividades efetiva ou potencialmente poluidores ou
utilizadores de recursos naturais com a legislação ambiental em vigor, prevalecendo o auto de infração
ambiental lavrado por órgão que detenha a atribuição de licenciamento”. A redação desse dispositivo se
coaduna com o corolário da competência administrativa comum do art. 23 da Constituição Federal.
Deveras, não há como admitir que lei complementar imponha restrição em sentido contrário ao
dispositivo constitucional.
A parte final do § 3º do art. 17 da LC nº 140/2011, por sua vez, se contrapõe ao estabelecido no art.
76 da Lei nº 9.605/1998, que apresenta a seguinte redação: “o pagamento de multa imposta pelos
Estados, Municípios, Distrito Federal ou Territórios substitui a multa federal na mesma hipótese de
incidência”.
De um lado, a LC nº 140/2011 determina que, no caso de dupla atuação de órgãos ambientais em ação
fiscalizatória em obras ou atividades licenciadas ou autorizadas, prevalece o auto de infração ambiental
lavrado por órgão que detenha a atribuição do licenciamento ou autorização ambiental.
Em outro sentido, o art. 76 da Lei nº 9.605/1998 consigna que o pagamento de multa imposta pelos
Estados, Municípios, Distrito Federal ou Territórios substitui a multa federal na mesma hipótese de
incidência. Isso significa afirmar que o pagamento de multa por infração ambiental lavrado pelos demais
entes federativos substitui a multa aplicada pelo órgão federal – o Instituto Brasileiro de Meio Ambiente
e Recursos Naturais Renováveis (Ibama) –, desde que seja oriunda do mesmo fato, infrator e prescrição
legal. Na sistemática ora relacionada, o objeto é exclusivamente a substituição no pagamento da sanção
administrativa, a multa, de um órgão por outro.
No que se refere ao licenciamento e autorização ambiental, diante das disposições da LC nº 140/2011,
parece-nos que o art. 76 da Lei nº 9.605/1998 não é mais aplicável. Isto é, não há que se falar na
sistemática de substituição de multas entre entes federativos distintos no licenciamento e autorização
ambiental.
É necessário perquirir, contudo, a respeito dos demais efeitos da LC nº 140/2011 sobre o art. 76 da
Lei nº 9.605/1998.
Duas são as hipóteses: i) não aplicabilidade do art. 76 da Lei nº 9.605/1998 somente ao licenciamento
e autorização ambiental; ii) o art. 76 da Lei nº 9.605/1998 tornou-se inaplicável, vez que incompatível
com a LC nº 140/2011.
A primeira hipótese – da não aplicabilidade do art. 76 da Lei nº 9.605/1998 somente ao licenciamento
e autorização ambiental – assenta-se no fato de que há outras atividades passíveis de ação dos órgãos
ambientais não adstritas ao licenciamento ou autorização e, por consequência, não há que se falar em
inaplicabilidade ou revogação tácita do artigo. Nesses casos a atuação é de qualquer dos entes
federativos, em observância à competência comum, sem prejuízo à sistemática da substituição de multas.
Ademais, a Lei nº 9.605/1998 é norma especial e, como tal, é possível adotar o critério da
especificidade no eventual conflito entre as normas. Pontua-se ainda que não há qualquer manifestação
judicial sobre a revogação do artigo em análise. Outro argumento que pode ser suscitado é que se faz
oportuno ter cautela ao perquirir sobre eventual antinomia entre a lei anterior (Lei nº 9.605/1998), e a lei
posterior (LC nº 140/2011); isso porque o art. 17 da LC nº 140/2011 é objeto da Ação Direta de
Inconstitucionalidade (ADI) nº 4.757 e há que se aguardar a decisão do Supremo Tribunal Federal. Em
caso de uma eventual declaração de inconstitucionalidade, essa é uma discussão que perderá a
relevância.
Quanto à segunda hipótese, a linha argumentativa é o reconhecimento de que o art. 76 da Lei nº
9.605/1998 é incompatível com a abrangência e o conteúdo das disposições da LC nº 140/2011. Em
primeiro lugar, porque a norma da Lei nº 9.605/1998 dispõe somente sobre a substituição no pagamento
da multa federal pela mesma hipótese de incidência entre os demais órgãos, ao passo que o art. 17 da LC
nº 140/2011 disciplina a fiscalização de obras e atividades licenciadas ou autorizadas, dispondo sobre a
lavratura do auto de infração e o processo administrativo ambiental que, por consequência, conduzem à
aplicação da sanção correspondente à ação ou omissão que configurem infração administrativa
ambiental. Nota-se o caráter abrangente da LC nº 140/2011, que não se limita à destinação da multa, que
é somente uma entre as dez sanções em espécie (art. 72, da Lei nº 9.605/1998). A LC nº 140/2011
estabelece uma sistemática nas medidas e na condução do procedimento administrativo decorrente da
atividade fiscalizatória em eventual atuação de mais de um órgão ambiental; portanto, não é somente uma
preocupação de índole financeira com a destinação da multa. Isto é, a efetividade da proteção ambiental
não se circunscreve a uma definição pelo pagamento de multa, como se vê no art. 76 da Lei nº
9.605/1998. Além disso, um dos objetivos da LC nº 140/2011 é a harmonização das políticas e ações
administrativas para evitar a sobreposição entre os entes federativos, de forma a evitar conflitos de
atribuições e garantir um desempenho administrativo eficiente. A eficiência aqui não significa atuação
dúplice ou tríplice entre órgãos ambientais de diferentes esferas, mas a cooperação e razoabilidade na
condução do processo administrativo.
Não é demais recordar que a LC nº 140/2011 configura-se como norma posterior, de caráter
regulamentar, com conteúdo divergente à norma em análise e, nesse caso, o critério da especificidade –
como se relacionou na primeira hipótese –, parece não ser aplicável, uma vez que o art. 76 da Lei nº
9.605/1998 conduz a uma casuística discordante de um procedimento administrativo eficiente. Em
síntese, a adoção dos critérios da LC nº 140/2011 não obsta a atividade fiscalizatória, mas estabelece
uma racionalidade na condução do processo administrativo ambiental na hipótese de dupla atuação, de
tal modo que seja conduzido pelo órgão ambiental competente do ente federativo com as atribuições
disciplinadas em seus art. 7º a 10, evitando discussões, sobreposições e conflitos de atribuições.
A par dessas discussões, e como se relacionou alhures, o ajuizamento da Ação Direta de
Inconstitucionalidade (ADI) nº 4.757, pela Associação Nacional dos Servidores da Carreira de
Especialista em Meio Ambiente (Asibama), demandará do Supremo Tribunal Federal (STF) a análise
sobre a constitucionalidade do art. 17 da LC nº 140/2011. Em sua argumentação inicial, a Asibama
consignou que o “(…) meio ambiente ficou menos protegido com o estabelecimento de competências
ambientais privativas para Estados, DF e Municípios, uma vez que a maioria deles não está preparada
para tais ações, e a União estaria impedida de agir, pois teria perdido essas atribuições com a
promulgação da lei”. Sustenta, ademais, “(…) que a atuação do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio
Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) permitia à União atuar em qualquer hipótese quando a
legislação ambiental não era cumprida e que, agora, a limitação das competências ambientais dos entes
federativos dificulta a atuação da União em um cenário em que os demais órgãos ambientais carecem de
infraestrutura adequada”10. Em síntese, são esses os argumentos da ADI nº 4.757, ainda sem julgamento
pelo STF.
Com a devida vênia, a definição de atribuições para cada ente federativo na competência
administrativa comum é prevista na própria Constituição em seu art. 23, parágrafo único. A LC nº
140/2011 nada mais fez do que observar esse mister, ao determinar o campo de abrangência de cada ente
federativo, justamente para evitar a sobreposição entre eles na ação administrativa.
Além disso, o argumento de que a maioria dos entes federativos não está preparada para as ações
delimitadas na LC nº 140/2011 e que a União estaria impedida de agir não procede. Em primeiro lugar,
essa argumentação converge para uma atuação centralizadora da União, em contraposição à necessária
cooperação em matéria ambiental, no federalismo cooperativo do art. 23 da CF. Quanto ao despreparo
dos entes federativos, é perfeitamente possível suprir a ausência ou a falta de infraestrutura dos seus
órgãos ambientais com a determinação do licenciamento supletivo, que implica a substituição do ente
federativo originariamente detentor das atribuições justamente por não preencher os requisitos do
licenciamento, em especial o órgão ambiental capacitado. Se o ente federativo não preenche os requisitos
ou não está preparado, a LC nº 140/2011 determina a ação supletiva. Se a não observância é do Estado-
membro ou do Distrito Federal, a ação supletiva é justamente da União (art. 15, I, LC nº 140/2011). É
importante consignar ainda que a definição da atuação do ente licenciador na fiscalização de obras e
atividades licenciadas não impede a eventual ação fiscalizatória de outros entes federativos – ao teor do
próprio dispositivo em questionamento, a saber: o art. 17, § 2º, da LC nº 140/2011.
Por fim, não é demais pontuar que a definição das competências de cada ente federativo não é
novidade no sistema jurídico brasileiro, porque a Resolução Conama nº 237/1997 já as relacionava em
seus arts. 4º, 5º e 6º. O que fez a LC nº 140/2011 foi alçá-los ao nível de lei complementar, e não mais
como uma simples resolução de um órgão do Poder Executivo, não obstante a relevância e a importância
histórica que o Conama representa no direito ambiental pátrio.

9.18 CRIMES E INFRAÇÕES ADMINISTRATIVAS NO LICENCIAMENTO


AMBIENTAL

Segundo a Lei nº 9.605/1998, considera-se crime ambiental “(…) construir, reformar, ampliar,
instalar ou fazer funcionar, em qualquer parte do território nacional, estabelecimentos, obras ou serviços
potencialmente poluidores, sem licença ou autorização dos órgãos ambientais competentes, ou
contrariando as normas legais e regulamentares pertinentes”. Será aplicada a pena de detenção, de um a
seis meses, ou multa, ou ambas as penas cumulativamente (art. 60).
Já na esfera administrativa, constitui infração administrativa ambiental, segundo o Decreto nº
6.514/2008, “(…) construir, reformar, ampliar, instalar ou fazer funcionar estabelecimentos, atividades,
obras ou serviços utilizadores de recursos ambientais, considerados efetiva ou potencialmente
poluidores, sem licença ou autorização dos órgãos ambientais competentes, em desacordo com a licença
obtida ou contrariando as normas legais e regulamentos pertinentes”. A multa será de R$ 500,00 a R$
10.000.000,00 (art. 66). No mesmo sentido, incorrerá nas mesmas multas quem: (a) constrói, reforma,
amplia, instala ou faz funcionar estabelecimento, obra ou serviço sujeito a licenciamento ambiental
localizado em unidade de conservação ou em sua zona de amortecimento, ou em áreas de proteção de
mananciais legalmente estabelecidas, sem anuência do respectivo órgão gestor; e (b) deixa de atender a
condicionantes estabelecidas na licença ambiental.
No tocante à equipe multidisciplinar responsável pela realização do licenciamento ambiental,
aplicam-se as mesmas disposições sobre a responsabilidade administrativa e penal consignadas no
capítulo 8.

9.19 SÍNTESE

O licenciamento ambiental de atividades efetiva ou potencialmente poluidoras é um dos principais


instrumentos da Política Nacional do Meio Ambiente, de índole preventiva, visando compatibilizar o
desenvolvimento econômico com a proteção ao meio ambiente.
Licenciamento ambiental pode ser definido como “o procedimento administrativo destinado a
licenciar atividades ou empreendimentos utilizadores de recursos ambientais, efetiva ou potencialmente
poluidores ou capazes, sob qualquer forma, de causar degradação ambiental”.
O licenciamento ambiental visa à obtenção sequencial de três licenças: (a) licença prévia; (b) licença
de instalação; (c) licença de operação.
Licença prévia: aprova a localização e a concepção do empreendimento e atesta a sua viabilidade
ambiental. Estabelece os condicionantes ambientais a serem observados pelo empreendedor para a
licença seguinte. Prazo máximo de validade não superior a 5 (cinco) anos.
Licença de instalação: aprova a instalação do projeto e autoriza construir, edificar, cortar árvores
(desde que se tenha autorização para tal) e todas as obras necessárias para o empreendimento. Estabelece
os condicionantes ambientais para a licença seguinte. O prazo da licença de instalação é o definido no
cronograma do projeto, não podendo ser superior a 6 (seis) anos.
Licença de operação: autoriza a operação da atividade ou empreendimento, após a verificação do
efetivo cumprimento das medidas e condicionantes que constam das licenças anteriores. Além disso, ela
determinará as medidas de controle ambiental e condicionantes de observância necessários após o
efetivo funcionamento do empreendimento. O prazo de uma licença de operação é de, no mínimo, 04
(quatro) anos e, no máximo, 10 (dez) anos.
O prazo de análise da licença pelo órgão ambiental responsável, com o deferimento ou
indeferimento, é de no máximo 6 (seis) meses, a contar do seu protocolo. Na hipótese de realização de
EIA/Rima ou de audiência pública, o prazo é de um ano.
A renovação de licenças ambientais deve ser requerida com antecedência mínima de 120 dias da
expiração de seu prazo de validade, fixado na respectiva licença, ficando esta automaticamente
prorrogada até a manifestação definitiva do órgão ambiental competente.
Os empreendimentos e atividades são licenciados ou autorizados, ambientalmente, por um único ente
federativo, em conformidade com as atribuições estabelecidas na Lei Complementar nº 140/2011. Os
demais entes federativos interessados podem manifestar-se ao órgão responsável pela licença ou
autorização, de maneira não vinculante, respeitados os prazos e procedimentos do licenciamento
ambiental.
A supressão de vegetação decorrente de licenciamentos ambientais é autorizada pelo ente federativo
licenciador.
Atuação supletiva: ação do ente federativo que se substitui ao ente federativo originariamente
detentor das atribuições, nas hipóteses definidas da Lei Complementar nº 140/2001. Os entes federativos
devem atuar em caráter supletivo nas ações administrativas de licenciamento e na autorização ambiental,
nas seguintes hipóteses: (I) inexistindo órgão ambiental capacitado ou conselho de meio ambiente no
Estado ou no Distrito Federal, a União deve desempenhar as ações administrativas estaduais ou distritais
até a sua criação; (II) inexistindo órgão ambiental capacitado ou conselho de meio ambiente no
Município, o Estado deve desempenhar as ações administrativas municipais até a sua criação; e, (III)
inexistindo órgão ambiental capacitado ou conselho de meio ambiente no Estado e no Município, a União
deve desempenhar as ações administrativas até a sua criação em um daqueles entes federativos.
Atuação subsidiária: a ação administrativa subsidiária dos entes federativos dar-se-á por meio de
apoio técnico, científico, administrativo ou financeiro, sem prejuízo de outras formas de cooperação. A
ação subsidiária deve ser solicitada pelo ente originariamente detentor da atribuição nos termos desta Lei
Complementar.

COMPETÊNCIAS PARA O LICENCIAMENTO AMBIENTALCONFORME A LC nº 140/2011


a) localizados ou desenvolvidos conjuntamente no Brasil e em país limítrofe;
b) localizados ou desenvolvidos no mar territorial, na plataforma continental
ou na zona econômica exclusiva;
c) localizados ou desenvolvidos em terras indígenas;
d) localizados ou desenvolvidos em unidades de conservação instituídas
pela União, exceto em Áreas de Proteção Ambiental (APAs);
e) localizados ou desenvolvidos em dois ou mais Estados;
f) de caráter militar, excetuando-se do licenciamento ambiental, nos termos
de ato do Poder Executivo, aqueles previstos no preparo e emprego das
Forças Armadas, conforme disposto na Lei Complementar nº 97, de
09.06.1999;
Licenciamento de
g) destinados a pesquisar, lavrar, produzir, beneficiar, transportar,
atividades e
armazenar e dispor material radioativo, em qualquer estágio, ou que utilizem
empreendimentos
energia nuclear em qualquer de suas formas e aplicações, mediante
de competência
parecer da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN); ou
da União
h) que atendam tipologia estabelecida por ato do Poder Executivo, a partir
de proposição da Comissão Tripartite Nacional, assegurada a participação
de um membro do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), e
considerados os critérios de porte, potencial poluidor e natureza da
atividade ou empreendimento.
O licenciamento dos empreendimentos cuja localização compreenda
concomitantemente áreas das faixas terrestre e marítima da zona costeira
será de atribuição da União exclusivamente nos casos previstos em
tipologia estabelecida por ato do Poder Executivo, a partir de proposição da
Comissão Tripartite Nacional, assegurada a participação de um membro do
Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) e considerados os critérios
de porte, potencial poluidor e natureza da atividade ou empreendimento.
a) promover o licenciamento ambiental de atividades ou empreendimentos
Licenciamento de utilizadores de recursos ambientais, efetiva ou potencialmente poluidores ou
atividades e capazes, sob qualquer forma, de causar degradação ambiental, ressalvado
empreendimentos o disposto para a União e os municípios;
de competência b) promover o licenciamento ambiental de atividades ou empreendimentos
dos Estados localizados ou desenvolvidos em unidades de conservação instituídas pelo
Estado, exceto em Áreas de Proteção Ambiental (APAs).
a) que causem ou possam causar impacto ambiental de âmbito local,
Licenciamento de
conforme tipologia definida pelos respectivos Conselhos Estaduais de Meio
atividades e
Ambiente, considerados os critérios de porte, potencial poluidor e natureza
empreendimentos
da atividade; ou
de competência
b) localizados em unidades de conservação instituídas pelo Município,
dos Municípios
exceto em Áreas de Proteção Ambiental (APAs).
Licenciamento de
atividades e No que tange ao licenciamento ambiental do Distrito Federal, como de resto
empreendimentos o conjunto de ações administrativas, são aplicáveis as disposições
do Distrito concernentes aos Estados e aos municípios.
Federal
a) localizados ou desenvolvidos conjuntamente no Brasil e em
país limítrofe;
b) localizados ou desenvolvidos no mar territorial, na plataforma
continental ou na zona econômica exclusiva;
Licenciamento c) localizados ou desenvolvidos em dois ou mais Estados;
ambiental de d) de caráter militar, excetuando-se do licenciamento ambiental,
atividades e nos termos de ato do Poder Executivo, aqueles previstos no
empreendimentos União preparo e emprego das Forças Armadas, conforme disposto na
em áreas de Lei Complementar nº 97, de 09.06.1999;
proteção
e) que atendam tipologia estabelecida por ato do Poder
ambiental (APAs)
Executivo, a partir de proposição da Comissão Tripartite
Nacional, assegurada a participação de um membro do Conselho
Nacional do Meio Ambiente (Conama), e considerados os
critérios de porte, potencial poluidor e natureza da atividade ou
empreendimento.
Quantos aos Estados, compete a promoção do licenciamento
ambiental de atividades ou empreendimentos utilizadores de
recursos ambientais, efetiva ou potencialmente poluidores ou
capazes, sob qualquer forma, de causar degradação ambiental,
Estados ressalvadas as disposições concernentes à União e aos
municípios. Ou seja, o Estado promoverá o licenciamento
ambiental de atividades que não estejam sujeitas às hipóteses
elencadas pela LC nº 140/2011 à União e aos municípios –
inclusive no que se refere às APAs.
Serão licenciadas pelos municípios as APAs que se
enquadrarem no conceito de impacto ambiental de âmbito local,
conforme a redação da alínea “a” do inciso XIV do art. 9º da LC
nº 140/2011, que dispõe que os municípios devem promover o
Municípios licenciamento ambiental de atividades e empreendimentos “(…)
que causem ou possam causar impacto ambiental de âmbito
local, conforme tipologia definida pelos respectivos Conselhos
Estaduais de Meio Ambiente, considerados os critérios de porte,
potencial poluidor e natureza da atividade”.

9.20 QUESTÕES PARA FIXAÇÃO


9.20.1 Questões objetivas

1. (UEPA – 2016 – PGE-PA – Procurador do Estado) Sobre competência para


licenciamento ambiental, é correto afirmar que compete à União promover o
licenciamento de empreendimentos e atividades:
(A) localizados ou desenvolvidos em terras indígenas e no seu entorno em um raio de 20
km.
(B) localizados ou desenvolvidos em qualquer dos tipos de unidades de conservação
instituídas pela União.
(C) localizados ou desenvolvidos em 2 (dois) ou mais Estados, desde que haja
concordância desses.
(D) de caráter militar, excetuando-se do licenciamento ambiental, nos termos de ato do
Poder Executivo, aqueles previstos no preparo e emprego das Forças Armadas,
conforme disposto em ato normativo específico.
(E) que atendam tipologia estabelecida por ato do Conselho Nacional do Meio Ambiente
(Conama), e considerados os critérios de porte, potencial poluidor e natureza da
atividade ou empreendimento.

2. (FCC – 2015 – TJ-RR – Juiz Substituto) A licença prévia


(A) autoriza a instalação do empreendimento ou atividade de acordo com as
especificações constantes dos planos, programas e projetos aprovados, incluindo as
medidas de controle ambiental e demais condicionantes, da qual constituem motivo
determinante.
(B) autoriza a operação da atividade ou empreendimento com as medidas de controle
ambiental e condicionantes determinadas para a operação.
(C) autoriza a instalação do empreendimento ou atividade e a respectiva operação.
(D) é concedida na fase de planejamento do empreendimento ou atividade, restringindo-
se a aprovar a respectiva localização.
(E) é concedida na fase preliminar do planejamento do empreendimento ou atividade
aprovando sua localização e concepção, atestando a viabilidade ambiental e
estabelecendo os requisitos básicos e condicionantes a serem atendidos nas
próximas fases de sua implementação.

3. (FCC – 2015 – TJ-PE – Juiz Substituto) O Ministério Público ajuizou uma ação civil
pública visando à anulação de um contrato de financiamento celebrado por uma
entidade governamental com uma indústria que será construída sem o devido
licenciamento ambiental. A ação deverá ser julgada
(A) procedente.
(B) parcialmente procedente apenas para obrigar a indústria a adotar medidas
compensatórias.
(C) extinta, sem resolução de mérito, pela ilegitimidade de parte no polo ativo.
(D) improcedente.
(E) parcialmente procedente apenas para aplicar uma multa pela ausência do
licenciamento.

4. (CS-UFG – AL-GO – Procurador/2015) No que se refere às competências


administrativas comuns em matéria ambiental, segundo a Constituição e normas
infraconstitucionais,
(A) os empreendimentos e atividades são licenciados ou autorizados, ambientalmente,
por um único ente federativo, sendo possível aos demais entes que se manifestem no
procedimento, de maneira não vinculante.
(B) o desempenho das ações administrativas, nos municípios em que inexista órgão
ambiental capacitado ou conselho de meio ambiente, caberá à União, até que
sobrevenha a respectiva criação.
(C) o atendimento integral, pelo empreendedor, das informações, documentos e estudos
solicitados pela autoridade licenciadora, torna possível o funcionamento provisório do
empreendimento ou da atividade, até que emitida licença ambiental.
(D) a lavratura de auto de infração e a instauração de processo administrativo destinado
a apurar infrações à legislação ambiental competem ao órgão ambiental do município
em que instalado o empreendimento ou a atividade.

5. (CESPE – 2011 – TRF 3ª REGIÃO – Juiz Federal) Acerca do licenciamento ambiental,


assinale a opção correta.
(A) Compete ao Conama determinar, quando julgar necessário, a realização de estudos
das alternativas e das possíveis consequências ambientais de projetos privados que
possam causar significativa degradação ambiental, e ao Ibama cabe apreciar os
estudos de impacto ambiental de projetos desenvolvidos pelo poder público.
(B) Compete ao órgão ambiental municipal, ouvidos os órgãos competentes da União,
dos Estados e do DF, quando couber, o licenciamento ambiental de
empreendimentos e atividades de impacto ambiental local, bem como o que lhe for
delegado pelo Estado-membro por instrumento legal ou convênio.
(C) Pertence ao Ibama, em caráter exclusivo e indelegável, a competência para o
licenciamento ambiental de empreendimentos e atividades com significativo impacto
ambiental de âmbito regional.
(D) O licenciamento ambiental dos empreendimentos e atividades localizados ou
desenvolvidos nas florestas e demais formas de vegetação natural de preservação
permanente e de todas as que assim forem consideradas por normas federais é da
competência do órgão ambiental federal.
(E) São idênticos os prazos de validade da licença prévia, da licença de instalação e da
licença de operação, etapas inextinguíveis do licenciamento ambiental.

6. (CESPE – 2013 – TRF 5ª REGIÃO – Juiz Federal) A competência para legislar sobre a
proteção ao meio ambiente é comum à União, aos Estados, ao DF e aos Municípios,
havendo ações administrativas que competem a cada um desses entes de maneira
exclusiva. De acordo com a Lei Complementar nº 140/2011, compete exclusivamente
à União
(A) promover o licenciamento ambiental de empreendimentos e atividades localizados ou
desenvolvidos em áreas de proteção ambiental.
(B) aprovar o manejo e a supressão de vegetação, florestas e formações sucessoras em
atividades ou empreendimentos licenciados ou autorizados ambientalmente pelo
Estado.
(C) aprovar o funcionamento de criadouros da fauna silvestre.
(D) promover e orientar a educação ambiental em todos os níveis de ensino e a
conscientização pública para a proteção do meio ambiente.
(E) promover o licenciamento ambiental de empreendimentos e atividades localizados ou
desenvolvidos em terras indígenas.

7. (CESPE – 2013 – TRF 5ª REGIÃO – Juiz Federal) Sabendo que, segundo a Lei
Complementar nº 140/2011, o licenciamento ambiental é o procedimento
administrativo destinado a licenciar atividades ou empreendimentos utilizadores de
recursos ambientais, efetiva ou potencialmente poluidores ou capazes, de qualquer
forma, de causar degradação ambiental, assinale a opção correta.
(A) O licenciamento ambiental deve ser requerido ao órgão estadual competente e, em
caráter supletivo, ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais
Renováveis.
(B) Depois de concedida a licença, esta só pode ser revista pelo poder público se
identificada irregularidade no procedimento que a antecedeu.
(C) O decurso dos prazos de licenciamento, sem a emissão da licença ambiental, implica
autorização para a obra ou atividade, vigendo até que o órgão licenciador emita
decisão definitiva sobre o caso.
(D) O licenciamento ambiental é um instrumento autônomo em relação ao estudo prévio
de impacto ambiental.
(E) As regras relativas à licença estabelecida no âmbito do direito administrativo aplicam-
se ao licenciamento ambiental.
8. (27º Concurso – MPF – Procurador da República – 2013) Assinale a alternativa
correta:
(A) Tendo em vista a repartição de competências prevista na Lei Complementar nº 140,
de 2011, somente a União pode instituir unidades de conservação na região da
Amazônia Legal.
(B) A delegação de competência da União para o Estado-membro no tocante ao
licenciamento ambiental retira do ente delegante a atribuição de fiscalizar e punir
atividades nocivas ao meio ambiente, relativas ao objeto do licenciamento.
(C) Por força do princípio federativo e da autonomia político-administrativa dos entes
federados, são indelegáveis as competências relativas ao licenciamento ambiental.
(D) De acordo com o ordenamento jurídico em vigor, o licenciamento ambiental dá-se em
um só nível de competência, sob a responsabilidade de um único ente político, sem
prejuízo de que outros entes federativos eventualmente interessados se manifestem,
sem força vinculante.

9. (CESPE – 2011 – TJES – Juiz) A Resolução nº 237/1997 do Conselho Nacional do


Meio Ambiente estabeleceu roteiro mínimo a ser observado nos processos de
licenciamento ambiental, composto de oito etapas, entre as quais se inclui a
(A) apresentação da proposta de plano de monitoramento ambiental da emissão de
efluentes.
(B) apresentação da proposta de plano de manejo da área vizinha ao empreendimento.
(C) emissão de parecer técnico conclusivo e, conforme o caso, de parecer jurídico.
(D) assinatura de termo de ajuste de conduta proposto em audiência pública.
(E) redação do termo de referência circunstanciado, acompanhado de laudo pericial, se
for o caso.

10. (PGE-RO – 2011 – Procurador) Em relação ao tema do licenciamento ambiental, é


correto afirmar que
(A) uma licença de operação concedida pela administração pública não pode ser
cancelada, pois já produziu seus efeitos.
(B) a elaboração do termo de referência para preparação do pedido de licença pelo
empreendedor é de responsabilidade do órgão licenciador.
(C) a realização de audiência pública é condição necessária para expedição de qualquer
licença.
(D) um empreendimento pode ser licenciado em mais de um nível de competência, a
depender da extensão do dano.
(E) somente o ente federado licenciador pode fiscalizar e aplicar sanções administrativas
em relação ao empreendimento licenciado.
11. (FCC – 2011 – TJPE – Juiz) Os municípios brasileiros, face ao ordenamento
constitucional e legal, no que se refere ao licenciamento ambiental,
(A) podem emitir licença ambiental exclusivamente nos casos que envolvam o patrimônio
histórico local.
(B) podem emitir licença ambiental, desde que o empreendimento seja de interesse
apenas local e não afete o meio ambiente em nível regional ou nacional.
(C) não podem emitir licença ambiental em hipótese nenhuma.
(D) não podem emitir licença ambiental em hipótese nenhuma exceto se receberem, para
tanto, delegação expressa do Ibama.
(E) podem emitir licença ambiental, desde que o empreendimento se situe e abranja área
de região metropolitana reconhecida por lei.

12. (TJPR – 2010 – Juiz) O processo de Licenciamento Ambiental de uma pequena


fábrica é iniciado junto ao Órgão Ambiental Estadual. Questionamentos quanto ao
Licenciamento são levantados. Após analisar quais das assertivas a seguir são
verdadeiras e quais são falsas, de acordo com as regras inerentes aos
instrumentos de Licenciamento Ambiental e EIA/Rima, marque a alternativa
CORRETA:
( ) A primeira Licença a ser requerida é a de Instalação.
( ) Para o Licenciamento Ambiental, será exigido Estudo Prévio de Impacto Ambiental e
respectivo Relatório de Impacto ao Meio Ambiente – EIA/Rima, caso o
empreendimento se enquadre nas hipóteses assim previstas em Resoluções Conama
ou ainda caso o empreendimento possa apresentar significativo impacto ambiental.
( ) O EIA/Rima é exigido pelo Órgão Ambiental competente para o licenciamento
somente após o deferimento da Licença de Instalação.
( ) Informações falsas ou enganosas incluídas pela equipe multidisciplinar no EIA/Rima
caracterizam crime previsto expressamente na Lei 9.605/1998.
(A) V, F, F, V.
(B) F, V, V, F.
(C) V, V, V, F.
(D) F, V, F, V.

13. (VUNESP – 2013 – TJRJ – Juiz) A natureza jurídica do licenciamento ambiental é


(A) de competência concorrente do Poder Executivo e do Poder Legislativo.
(B) de poder de polícia, exclusivamente vinculado ao Poder Executivo.
(C) dependente da definição estabelecida pelas Constituições Estaduais.
(D) de poder de polícia, passível de apreciação complementar do Poder Legislativo.
14. (MPE-GO – 2012 – Promotor de Justiça) Sendo o licenciamento ambiental
instrumento preventivo de proteção do meio ambiente, é incorreto afirmar:
(A) Extraem-se da Lei Complementar nº 140/2011 dois princípios básicos: 1) o
licenciamento ambiental é uno, sendo absolutamente vedada a duplicidade de
licenciamento do mesmo empreendimento ou atividade; e 2) somente quem licenciou
o empreendimento ou atividade possui competência para lavrar auto de infração em
caso de infração administrativa ambiental.
(B) Na definição da competência da União para o licenciamento ambiental, o legislador
utilizou três critérios: o da titularidade do bem; o da abrangência do impacto
ambiental; e o critério da natureza da matéria a ser licenciada. Logo, é competência
da União o licenciamento ambiental de empreendimento localizado ou desenvolvido:
a) no mar territorial; b) em dois ou mais Estados; c) que disponha sobre material
radioativo ou utilize energia nuclear.
(C) Quanto à competência dos Estados, o legislador utilizou um critério de exclusão para
defini-lo como competente para licenciar os empreendimentos que não são de
competência da União e dos Municípios, associado ao critério de titularidade do bem
quando se tratar de empreendimento localizado ou desenvolvido em unidades de
conservação instituída pelo Estado, exceto em relação à Área de Proteção Ambiental
que observa critérios próprios.
(D) Compete à União a aprovação do funcionamento de criadouros da fauna silvestre,
haja vista a definição da fauna silvestre como bem exclusivo da União.

15. (MPE-SC – 2013 – Promotor de Justiça – Tarde) Segundo a Lei Complementar


140/2011, o decurso dos prazos de licenciamento, sem a emissão da licença
ambiental implica emissão tácita e autoriza a prática de ato que dela dependa ou
decorra.
( ) Certo ( ) Errado

16. (MPE-SC – 2013 – Promotor de Justiça – Tarde) De acordo com a Lei Complementar
140/2011, a renovação de licenças ambientais deve ser requerida com antecedência
mínima de 120 (cento e vinte) dias da expiração de seu prazo de validade, fixado na
respectiva licença.
( ) Certo ( ) Errado

17. (MPE-SC – 2013 – Promotor de Justiça – Tarde) Nos termos da Lei Complementar
140/2011, compete ao órgão responsável pelo licenciamento ou autorização,
conforme o caso, de um empreendimento ou atividade, lavrar auto de infração
ambiental e instaurar processo administrativo para a apuração de infrações à
legislação ambiental cometidas pelo empreendimento ou atividade licenciada ou
autorizada.
( ) Certo ( ) Errado

18. (VUNESP – 2013 – CETESB – Advogado) Licenciamento ambiental é o procedimento


administrativo pelo qual o órgão ambiental competente licencia a localização,
instalação, ampliação e a operação de empreendimentos e atividades utilizadoras
de recursos ambientais, consideradas efetiva ou potencialmente poluidoras ou
daquelas que, sob qualquer forma, possam causar degradação ambiental,
considerando as disposições legais e regulamentares e as normas técnicas
aplicadas ao caso. Tendo em vista tal conceito, o pagamento de valor, efetuado no
momento do licenciamento ambiental, tem a natureza jurídica de
(A) taxa.
(B) preço público.
(C) imposto.
(D) contribuição.
(E) tarifa.

9.20.2 Questões dissertativas


1. Ministério Público Estadual. Concurso: MPE-GO. Ano: 2010. Banca: MPE-GO.
Discorra sobre o licenciamento ambiental, abordando sua natureza jurídica,
características, competência e normatização.

2. Ministério Público Estadual. Concurso: MPE-GO. Ano: 2010. Banca: MPE-GO.


Discorra sobre o direito adquirido à licença ambiental, abordando a possibilidade ou não
de aplicação de novas regras a empreendimentos efetiva e potencialmente poluidores já
consolidados.

3. Procuradoria Estadual. Concurso: PGE-MG. Ano: 2012. Banca: AGE-MG. Acerca do


Licenciamento Ambiental, responda de forma fundamentada: a) Qual a natureza jurídica
da “Licença Ambiental”? b) O Licenciamento Ambiental de um “aterro sanitário” pode ser
concedido independentemente da realização de Estudo de Impacto Ambiental e respectivo
Relatório de Impacto ao Meio Ambiente (EIA/Rima)? c) Qual a competência para o
licenciamento de um empreendimento localizado em Área de Proteção Ambiental,
instituída pela União Federal, abrangendo o território dos Municípios de Belo Horizonte e
Nova Lima? d) Considerando que a instalação de determinado empreendimento minerário
dependa da supressão de vegetação secundária em estágio avançado e médio de
regeneração de Mata Atlântica, informe quais são os requisitos para a prática de tal
atividade?

4. Analista do Ibama. Ano: 2012. Banca: CESPE. Elabore um texto dissertativo acerca do
licenciamento ambiental, abordando, necessariamente, os seguintes aspectos: 1)
espécies e conteúdo das licenças ambientais necessárias à implementação de uma
atividade ou empreendimento; 2) competência da União para a outorga de licenças
ambientais; 3) hipóteses em que os entes federativos devem atuar em caráter supletivo
nas ações administrativas de licenciamento e na autorização ambiental.

5. Analista do Ibama. Concurso: Ibama – Ano: 2012 – Banca: CESPE. Ofício nº


000/2012/DNIT. Exmo. Presidente do Ibama, Em referência ao procedimento de
licenciamento ambiental da rodovia denominada BR-666, com 200 km de extensão e
traçado que se desenvolverá por dois Estados-membros e em trecho de cinco quilômetros
no interior da Floresta Nacional Tupã, localizada na Amazônia Legal, houve Termo de
Referência (TR) expedido para realização de estudos e foi feita há alguns meses a
entrega do Estudo de Impacto Ambiental e respectivo Relatório – EIA/Rima.
Recentemente, este DNIT recebeu comunicação da Associação de Defesa dos Índios
Tupãberabas, que pede a interrupção do projeto, diante da informação de que a BR-666
tem traçado previsto para passar no interior do terreno ocupado pelos povos
Tupãberabas. A referida comunicação apresenta relatório circunstanciado de identificação
e delimitação da área, devidamente aprovado por portaria da FUNAI publicada há vinte
dias no Diário Oficial da União. Segundo a avaliação de nosso Departamento Ambiental, a
interferência do projeto na terra indígena Tupãberaba é muito pequena, meramente física,
e coincide exatamente com o mesmo trecho de cinco quilômetros do traçado da rodovia
que cruza o interior da Floresta Nacional Tupã, administrada pelo Instituto Chico Mendes
de Conservação da Biodiversidade – ICMBio. Inclusive, na mesma área de influência de
impactos que engloba esse pequeno trecho da rodovia, identificou-se sobreposição de
apenas dez por cento da área da terra indígena na Floresta Nacional Tupã. Assim,
segundo nossa avaliação, esse pequeno trecho de cinco quilômetros do traçado da
rodovia que cruza a Floresta Nacional Tupã e a terra indígena Tupãberaba (área da
referida sobreposição) estão a sete quilômetros de distância das moradias dos povos
Tupãberabas, isto é, distante dos locais habitados. Como o EIA/Rima foi aceito de acordo
com o TR e já houve autorização do ICMBio, que não se opõe ao empreendimento, este
DNIT entende que, nesse caso, são desnecessárias quaisquer complementações para fins
de análise e emissão da licença prévia. Além disso, tratando-se a BR-666 de um
empreendimento de utilidade pública, no que se refere às questões de proteção florestal
que, como de praxe, constarão das futuras condições específicas das licenças prévias e
de instalação, manifestamos entendimento de que o cumprimento ordenado das medidas
de controle e de mitigação de impactos negativos, indicadas no EIA/Rima, dispensa o
procedimento específico de supressão da vegetação, bem como entendemos pela
desnecessidade de delimitação e averbação de reserva legal. Dessa forma, contando
com a vossa atenção no sentido da maior celeridade possível no prosseguimento do
procedimento de licenciamento ambiental, solicitamos ao Ibama resposta das informações
acima apresentadas. Considerando a situação hipotética apresentada, redija texto em
resposta à demanda do DNIT, abordando, necessariamente, os seguintes aspectos: 1)
exigibilidade ou não de estudos complementares e de manifestação de outros órgãos e
entidades federais; 2) necessidade ou não de procedimento específico para supressão da
vegetação nativa em áreas de preservação permanente; 3) exigibilidade ou não de
delimitação e averbação de reserva legal relativa às áreas que serão utilizadas para
construção da rodovia.

6. Magistratura Federal. Concurso: TRF 2ª Região. Ano: 2011. Banca: CESPE. Quais
espécies de licenças ambientais você conhece?

7. Procuradoria Estadual. Concurso: PGE-PA. Ano: 2012. Banca: PGE-PA.


Regulamentando o procedimento de licenciamento ambiental de empreendimentos e
atividades potencialmente degradadores do meio ambiente, deliberou o Conselho Estadual
de Meio Ambiente que: 1.1) se a atividade/empreendimento sob licenciamento estiver
situado a uma distância igual ou inferior a 3 km da área indígena, o órgão indigenista será
ouvido antes da elaboração do termo de referência, para sugerir o conteúdo do
componente indígena, e, apresentado o estudo prévio de impacto ambiental, terá 15
(quinze) dias para se posicionar; 1.2) se a atividade/empreendimento sob licenciamento
estiver situado a uma distância superior a 3 km e inferior a 10 km da área indígena, o
órgão indigenista será comunicado do resultado do estudo prévio de impacto ambiental,
assegurado o prazo de 15 (quinze) dias para se posicionar; 1.3) se a
atividade/empreendimento sob licenciamento estiver situado a uma distância superior a 10
km da área indígena, não será necessária a participação do órgão indigenista, cuja
manifestação, se houver, será considerada na fase de audiências públicas. Analise a
situação e, de acordo com as regras específicas, identifique se a hipótese de
regulamentação proposta estaria correta, justificando. A análise deve abordar, no mínimo,
entre outros aspectos pertinentes: a) qual o grau de vinculação do órgão licenciador à
manifestação técnica do órgão indigenista; b) a adequação (ou não) do critério de
distância como parâmetro para a delimitação de impactos socioambientais.

8. Analista do Ibama. Concurso: Ibama. Ano: 2012. Banca: CESPE. Suponha que
determinado empresário pretenda instalar uma agroindústria próximo à tríplice fronteira
entre os municípios de Juazeiro da Bahia, de Petrolina, em Pernambuco, e outro município
também localizado em Pernambuco. Em conformidade com as normas sobre
licenciamento ambiental aplicáveis à matéria, elabore um texto que responda,
necessariamente, aos seguintes aspectos: 1) Quais critérios devem ser observados para
que o referido empreendimento seja submetido ao licenciamento ambiental? 2) Em caso
de atender aos critérios, qual esfera de governo será responsável pelo licenciamento, no
que se refere ao critério geográfico de atribuições de competência?

9. (INÉDITA) Quais as são as competências administrativas estaduais para o licenciamento


ambiental de obras e atividades efetiva ou potencialmente poluidoras? É possível que o
Estado-membro delegue ações administrativas a ele atribuídas aos municípios de São
Paulo?

10. (INÉDITA) Quais são os requisitos para um ente federativo efetuar o licenciamento
ambiental de uma obra ou atividade causadora de poluição ou degradação ambiental? E,
na eventualidade de não preencher os requisitos, como será efetuado o licenciamento
ambiental?

11. (INÉDITA) Disserte sobre a possibilidade de revisão das licenças ambientais.

12. (INÉDITA) Discorra sobre a responsabilidade da equipe multidisciplinar no licenciamento


ambiental.

9.20.3 Questões de exame oral


1. Qual é o fundamento do licenciamento ambiental?

2. Qual a natureza jurídica do licenciamento ambiental?

3. Para quais atividades o licenciamento ambiental é obrigatório?

4. Quem possui competência para o licenciamento ambiental e quais os requisitos devem ser
observados?

5. Conceitue a licença ambiental.

6. Quais são as três licenças ambientais e seus efeitos?

7. Fale sobre a atuação supletiva e subsidiária no licenciamento ambiental.

8. Quais são as hipóteses que ensejam a atuação supletiva?

9. Discorra sobre a revisibilidade das licenças ambientais.

10. Fale sobre a fiscalização de obras e atividades licenciadas e autorizadas.

9.21 GABARITOS
9.21.1 Questões objetivas

QUESTÃO GABARITO
1 D
2 E
3 A
4 A
5 B
6 E
7 D
8 D
9 C
10 B
11 B
12 D
13 B
14 D
15 ERRADO
16 CERTO
17 ERRADO
18 A

9.21.2 Questões dissertativas

QUESTÃO PROPOSTA DE SOLUÇÃO


As disposições sobre o licenciamento ambiental estão previstas na Lei
Complementar nº 140/2011, no art. 10 da Lei nº 6.938/1981, no Decreto nº
99.274/1990, na Resolução Conama nº 237/1997 e na Resolução Conama nº
01/1986, sem prejuízo da possibilidade de os Estados editarem normas
complementares no licenciamento de sua competência.
Conforme a LC nº 140/2011, licenciamento ambiental é “o procedimento
administrativo destinado a licenciar atividades ou empreendimentos utilizadores de
recursos ambientais, efetiva ou potencialmente poluidores ou capazes, sob
qualquer forma, de causar degradação ambiental”.
1
O licenciamento ambiental é um dos instrumentos da Política Nacional do Meio
Ambiente e consiste em procedimento administrativo decorrente do poder de
polícia ambiental, com finalidade de avaliar os possíveis impactos e riscos de uma
atividade ou empreendimento potencialmente causador de degradação ambiental
ou poluição.
O licenciamento ambiental se insere no campo das competências constitucionais,
em especial a competência administrativa comum do art. 23 da Constituição de
1988. Significa que todos os entes federativos podem efetuar o licenciamento
ambiental, desde que observados os requisitos legais, conforme a LC nº
140/2011.
Gabarito oficial:
a) Legislação impõe a renovação do licenciamento para empreendimentos efetiva
ou potencialmente poluidores.
2
b) Respeitadas as garantias constitucionais, é possível exigir a correção do
licenciamento ambiental, sob pena de se consentir com a poluição e a degradação
ambiental em detrimento do direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado.
Observação preliminar: infelizmente esse é o tipo de questão em que a resposta
só é conhecida com a divulgação do espelho (o que não foi possível localizar),
uma vez que adentrou em temas polêmicos, divergentes na doutrina, e a leitura do
examinador é decisiva em questões como essa.
Respostas:
a) Trata-se de tema controverso e que ainda não há uma solução na doutrina e
nos tribunais. Há pelo menos três correntes: (a) a licença ambiental é uma
autorização; (b) a licença ambiental é uma licença administrativa; (c) a licença
ambiental possui contornos próprios, informada pelos princípios do Direito
Ambiental. Para o Tribunal de Contas da União, a licença ambiental é uma
autorização. Uma resposta sugerida nesse caso é consignar a licença ambiental
como uma autorização , porque, embora goze de caráter de
estabilidade (prazo de vigência), poderá ser objeto de revisibilidade pelo órgão
ambiental (anulação, cassação e revogação, conforme o art. 19 da Resolução n
Conama 237/1997). Por evidente, essa revisibilidade deverá ser precedida de
decisão motivada, e não por simples discricionariedade.
b) Segundo o art. 2º, X, da Resolução Conama n 01/1986, é necessário o EIA
3 para aterros sanitários.
c) Não obstante a instituição da Área de Proteção Ambiental pela União, o
licenciamento ambiental deverá ser realizado pelo órgão ambiental estadual,
conforme a LC nº 140/2011 (art. 12, parágrafo único).
d) Os requisitos estão no art. 32 da Lei nº 11.428/2006, que dispõe que a
supressão de
para fins de atividades minerárias somente será admitida mediante o
(1) licenciamento ambiental, condicionado à apresentação de Estudo Prévio de
Impacto Ambiental/Relatório de Impacto Ambiental (EPIA/Rima), pelo
empreendedor, e desde que demonstrada a inexistência de alternativa técnica e
locacional ao empreendimento proposto; e (2) adoção de medida compensatória
que inclua a recuperação de área equivalente à área do empreendimento, com as
mesmas características ecológicas, na mesma bacia hidrográfica e sempre que
possível na mesma microbacia hidrográfica, independentemente do disposto no
art. 36 da Lei nº 9.985/2000 (SNUC). Em outras palavras, além da medida
compensatória obrigatória, o empreendedor poderá ser obrigado a efetuar a
compensação ambiental da Lei nº 9.985/2000 (SNUC).
1) O licenciamento ambiental é a sucessão de atos que visam à obtenção
sequencial de três licenças: (a) licença prévia; (b) licença de instalação; (c) licença
de operação. A licença prévia é a primeira das licenças ambientais. Concedida na
fase preliminar de planejamento, tem o condão de aprovar a localização e a
concepção do projeto. Após a obtenção da licença prévia, a próxima etapa do
empreendedor é requerer a licença de instalação. Essa licença autoriza a
instalação do empreendimento ou atividade de acordo com as especificações
constantes dos planos, programas e projetos aprovados, incluindo as medidas de
controle ambiental e demais condicionantes, da qual constituem motivo
determinante. A licença de operação permite a operação da atividade ou
empreendimento, após a verificação do efetivo cumprimento das medidas e
condicionantes que constam das licenças anteriores.
2) A União possui competência conforme o art. 7º, XIV, da LC nº 140/2011.
3) Para que um ente federativo efetue o licenciamento ambiental é necessária a
observância de dois requisitos: existência de órgão ambiental capacitado e de
4
conselho de meio ambiente. A não observância de somente um dos requisitos –
existência de órgão ambiental capacitado ou o estabelecimento de conselho de
meio ambiente – é suficiente para que se deflagre a ação administrativa supletiva.
Entende-se por atuação supletiva, conforme a LC nº 140/2001, a “ação do ente da
Federação que se substitui ao ente federativo originariamente detentor das
atribuições, nas hipóteses definidas nesta Lei Complementar”. São hipóteses de
atuação supletiva: (a) inexistindo órgão ambiental capacitado ou conselho de meio
ambiente no Estado ou no Distrito Federal, a União deve desempenhar as ações
administrativas estaduais ou distritais até a sua criação; (b) inexistindo órgão
ambiental capacitado ou conselho de meio ambiente no Município, o Estado deve
desempenhar as ações administrativas municipais até a sua criação; e (c)
inexistindo órgão ambiental capacitado ou conselho de meio ambiente no Estado e
no Município, a União deve desempenhar as ações administrativas até a sua
criação em um daqueles entes federativos.

1) Em primeiro plano, é necessário relacionar que “os empreendimentos e


atividades são licenciados ou autorizados, ambientalmente, por um único ente
federativo, em conformidade com as atribuições estabelecidas nos termos desta
Lei Complementar”. Não obstante, os demais entes federativos interessados
podem manifestar-se ao órgão responsável pela licença ou autorização, de
maneira não vinculante, respeitados os prazos e procedimentos do licenciamento
ambiental (art. 14, § 1o, LC nº 140/2011).
5
2) Não será necessário, porque a supressão de vegetação decorrente de
licenciamentos ambientais é autorizada pelo ente federativo licenciador (art. 13, §
2º, LC nº 140/2011).
3) Não é necessária a instituição de reserva legal em rodovias, como se vê no art.
12, § 8º, da Lei nº 12.651/2012, : “não será exigido Reserva Legal relativa
às áreas adquiridas ou desapropriadas com o objetivo de implantação e ampliação
de capacidade de rodovias e ferrovias”.
O licenciamento ambiental é a sucessão de atos que visam à obtenção sequencial
6 de três licenças: (a) licença prévia; (b) licença de instalação; (c) licença de
operação (vide resposta da questão 4).
Gabarito oficial:
a) Distribuição de competência fixada na Lei Complementar nº 140.
b) Papel da União e dos Estados-membros na proteção dos direitos indígenas e
sua incidência nos licenciamentos ambientais, distinguindoas hipóteses em que
este papel possa interferir na definição do órgão licenciador, bem como os limites
para fixação de prazos e limitações ao órgão indigenista.
7
c) Papel do órgão licenciador na análise da manifestação do órgão indigenista,
identificando se a manifestação é vinculante e em que termos e aferindo se há
peculiaridades na questão indígena.
d) Possibilidade de estabelecimento de critérios objetivos, desde que não
exaustivos, para delimitação territorial de impactos ambientais, permitindo
flexibilidade nas hipóteses em que haja justificativa.
A agroindústria estará sujeita ao licenciamento ambiental se for potencialmente
8 causadora de degradação ambiental ou poluição. Com essa configuração, será
necessário o licenciamento ambiental, que deverá ser feito pelo órgão ambiental
federal, uma vez que ultrapassa os limites de dois Estados (Bahia e Pernambuco),
conforme o art. 7º, XIV, “e”, da LC nº 140/2011.
Compete aos Estados-membros promover o licenciamento ambiental de atividades
ou empreendimentos utilizadores de recursos ambientais, efetiva ou
potencialmente poluidores ou capazes, sob qualquer forma, de causar degradação
ambiental, ressalvadas as competências da União e dos municípios (art. 8º, XIV,
da LC nº 140/2011). Ademais, compete promover o licenciamento ambiental de
atividades ou empreendimentos localizados ou desenvolvidos em unidades de
9 conservação instituídas pelo Estado, exceto em Áreas de Proteção Ambiental
(APAs). Por fim, é possível que o Estado-membro delegue ações administrativas a
ele atribuídas aos municípios, conforme prevê o art. 5º da LC nº 140/2011,
: “o ente federativo poderá delegar, mediante convênio, a execução de
ações administrativas a ele atribuídas nesta Lei Complementar, desde que o ente
destinatário da delegação disponha de órgão ambiental capacitado a executar as
ações administrativas a serem delegadas e de conselho de meio ambiente”.
Para que um ente federativo efetue o licenciamento ambiental é necessária a
observância de dois requisitos: existência de órgão ambiental capacitado e de
conselho de meio ambiente. A não observância de somente um dos requisitos –
existência de órgão ambiental capacitado ou o estabelecimento de conselho de
10
meio ambiente – é suficiente para que se deflagre a ação administrativa supletiva.
Entende-se por atuação supletiva, conforme a LC nº 140/2001, a “ação do ente da
Federação que se substitui ao ente federativo originariamente detentor das
atribuições, nas hipóteses definidas nesta Lei Complementar”.
A licença ambiental está sujeita à retirada temporária ou definitiva. A retirada
temporária ocorre com a suspensão do empreendimento ou da atividade, em que
o grau de irregularidade é sanável e, por consequência, possibilita a retomada
11 correspondente. Ocorre a retirada definitiva quando o grau de irregularidade não
pode ser sanado, o que se dá a partir de três fundamentos: (a) anulação; (b)
cassação; e (c) revogação. Essas hipóteses estão delineadas no art. 19 da
Resolução nº 237/1997.
O empreendedor e a equipe multidisciplinar assumem total responsabilidade no
licenciamento ambiental. A equipe multidisciplinar é responsável penal e
administrativamente pela veracidade dos estudos e informações que integram os
estudos ambientais. A Lei nº 9.605/1998, em seu art. 69-A, traz a tipificação
penal, aduzindo que “elaborar ou apresentar, no licenciamento, concessão florestal
ou qualquer outro procedimento administrativo, estudo, laudo ou relatório
ambiental total ou parcialmente falso ou enganoso, inclusive por omissão”, implica
uma pena de reclusão, de 3 (três) a 6 (seis) anos, e multa. Se o crime for culposo,
a pena é de detenção, de 1 (um) a 3 (três) anos. E, por fim, a pena é aumentada
de 1/3 (um terço) a 2/3 (dois terços), se há dano significativo ao meio ambiente,
12 em decorrência do uso da informação falsa, incompleta ou enganosa. Essa última
passagem é particularmente importante para o EIA, ao abordar o dano
significativo ao meio ambiente, que é o pressuposto para a sua realização. No
âmbito administrativo, o art. 82 do Decreto nº 6.514/2008 dispõe sobre a
responsabilidade administrativa da equipe multidisciplinar, com a aplicação de
multa de R$ 1.500,00 a R$ 1.000.000,00 a quem “elaborar ou apresentar
informação, estudo, laudo ou relatório ambiental total ou parcialmente falso,
enganoso ou omisso, seja nos sistemas oficiais de controle, seja no licenciamento,
na concessão florestal ou em qualquer outro procedimento administrativo
ambiental”. Tudo isso sem prejuízo da obrigação de reparar os danos causados
ao meio ambiente.

9.21.3 Questões de exame oral

QUESTÃO CONTEÚDO PARA A RESPOSTA


1 Tópico 9.2
2 Tópico 9.3
3 Tópico 9.6
4 Tópico 9.4
5 Tópico 9.5
6 Tópico 9.8
7 Tópico 9.14
8 Tópico 9.14
9 Tópico 9.16
10 Tópico 9.17

1 MACHADO, 2007, p. 84.


2 MIRRA, 2011, p. 340.
3 BECHARA, 2009, p. 82.
4 MILARÉ, 2011, p. 521.
5 MILARÉ, 2011, p. 528.
6 ANTUNES, 2012, p. 193.
7 GRECO, 2011, p. 1265.
8 BIM, 2015, p. 88.
9 ANTUNES, 2012, p. 206.
10 Disponível em: <http://www.stf.jus.br/portal/cms/verNoticiaDetalhe.asp?idConteudo=209095>.
O que estamos fazendo para as florestas do mundo
é apenas um reflexo do que estamos fazendo a nós
mesmos e uns aos outros.
Gandhi

A Lei nº 12.651, de 25 de maio de 2012, instituiu um novo Código Florestal, revogando a Lei nº
4.771/1965.
Esse é um dos diplomas legais mais polêmicos dos últimos anos, ao provocar uma intensa
mobilização da sociedade brasileira. De um lado, as organizações e entidades ambientalistas, contrários
a um novo Código, alegando, em síntese, que a flexibilização na proteção das áreas florestais implicaria
sérios risco à proteção ambiental. De outro, o setor do agronegócio, defendendo uma nova configuração
que não implicasse óbices à sua atividade econômica.
Além das Áreas de Preservação Permanente e de Reserva Legal, previstas no antigo Código Florestal
(Lei nº 4.771/1965), a Lei nº 12.651/2012 trouxe a disciplina de outros dois espaços ambientais: (a)
áreas de uso restrito; e (b) apicuns e salgados ecologicamente protegidos. Conferiram-se regimes
especiais a essas áreas como forma de contemplar as singularidades do território brasileiro.

O Código Florestal estabelece normas gerais sobre a proteção da vegetação, notadamente as Áreas
de Preservação Permanente e as áreas de Reserva Legal; a exploração florestal; o suprimento de matéria-
prima florestal; o controle da origem dos produtos florestais e o controle e prevenção dos incêndios
florestais; e prevê instrumentos econômicos e financeiros para o alcance de seus objetivos.
Reconhece, ademais, que as florestas existentes no território nacional e as demais formas de
vegetação nativa, reconhecidas de utilidade às terras que revestem, são bens de interesse comum a
todos os habitantes do País, exercendo-se os direitos de propriedade com as limitações da legislação
em geral e especialmente do Código Florestal.

O reconhecimento das florestas e demais formas de vegetação nativa como bens de interesse comum a
todos os habitantes do nosso país implica que na utilização e exploração da vegetação, as ações ou
omissões contrárias às disposições ao Código Florestal são consideradas uso irregular da
propriedade, o que enseja a adoção do procedimento sumário previsto no inciso II do art. 275 da Lei nº
5.869/1973 (Código de Processo Civil), sem prejuízo da responsabilidade civil, nos termos do § 1º do
art. 14 da Lei no 6.938, de 31.08.1981, e das sanções administrativas, civis e penais.
É necessário consignar que, com a revogação da Lei nº 5.869/1973, a remissão ao procedimento
sumário implica na observância do procedimento comum do novo Código de Processo Civil, com as
modificações previstas na própria lei especial, se houver (art. 1.049, parágrafo único, da Lei nº
13.105/2015).
Autilização irregular das áreas protegidas pelo Código Florestal (Área de Preservação Permanente,
Reserva Legal, Área de Uso Restrito) enseja a responsabilidade do proprietário, possuidor ou detentor
a qualquer título, seja pessoa física ou pessoa jurídica, de direito público ou privado.
No que se refere à responsabilidade civil, o Código Florestal adota a responsabilidade objetiva nos
termos do art. 14, § 1º, da Lei nº 6.938/1981.

As obrigações previstas na Lei nº 12.651/2012 têm natureza real e são transmitidas ao sucessor, de
qualquer natureza, no caso de transferência de domínio ou posse do imóvel rural.
Significa que, ao se adquirir um imóvel rural, a recomposição do passivo ambiental é do novo
proprietário (sem prejuízo de ação regressiva contra o antigo proprietário).

As obrigações previstas no Código Florestal têm natureza real e são


transmitidas ao sucessor, de qualquer natureza, no caso de transferência
de domínio ou posse do imóvel rural.

O objetivo básico do Código Florestal é o desenvolvimento sustentável. Para tanto, enumera os


princípios que devem ser observados:

a) afirmação do compromisso soberano do Brasil com a preservação das suas florestas e demais
formas de vegetação nativa, bem como da biodiversidade, do solo, dos recursos hídricos e da
integridade do sistema climático, para o bem-estar das gerações presentes e futuras;
b) reafirmação da importância da função estratégica da atividade agropecuária e do papel das
florestas e demais formas de vegetação nativa na sustentabilidade, no crescimento econômico, na
melhoria da qualidade de vida da população brasileira e na presença do País nos mercados
nacional e internacional de alimentos e bioenergia;
c) ação governamental de proteção e uso sustentável de florestas, consagrando o compromisso do
País com a compatibilização e harmonização entre o uso produtivo da terra e a preservação da
água, do solo e da vegetação;
d) responsabilidade comum da União, Estados, Distrito Federal e Municípios, em colaboração com a
sociedade civil, na criação de políticas para a preservação e restauração da vegetação nativa e de
suas funções ecológicas e sociais nas áreas urbanas e rurais;
e) fomento à pesquisa científica e tecnológica na busca da inovação para o uso sustentável do solo e
da água, a recuperação e a preservação das florestas e demais formas de vegetação nativa;
f) criação e mobilização de incentivos econômicos para fomentar a preservação e a recuperação da
vegetação nativa e para promover o desenvolvimento de atividades produtivas sustentáveis.

Antes do estudo dos institutos do Código Florestal, a compreensão de alguns conceitos fundamentais,
referenciados em vários artigos e nem todos afetos à disciplina jurídica.
Nesse sentido, delinear-se-ão os conceitos de (a) Amazônia Legal; (b) área rural consolidada; (c)
pousio; (d) pequena propriedade ou posse rural familiar; (e) uso alternativo do solo; (f) manejo
sustentável; (g) Cadastro Ambiental Rural.
A Amazônia Legal é compreendida pelos Estados do Acre, Pará, Amazonas, Roraima, Rondônia,
Amapá e Mato Grosso e as regiões situadas ao norte do paralelo 13º S, dos Estados de Tocantins e
Goiás, e ao oeste do meridiano de 44º W, do Estado do Maranhão (art. 3º, I). A abrangência da Amazônia
Legal é importante para a definição dos percentuais da Reserva Legal, como será estudado no tópico
10.6. Isso porque na Amazônia Legal os percentuais da Reserva Legal são distintos das demais regiões
do País.

MAPA DA AMAZÔNIA LEGAL

Fonte: <http://www.cpt.com.br/codigo-florestal/novo-codigo-florestal-brasileiro-estados-pertencentes-
a-amazonia-legal>.(imagem adaptada)

Área rural consolidada, por sua vez, é a área de imóvel rural com ocupação antrópica
preexistente a 22 de julho de 2008, com edificações, benfeitorias ou atividades agrossilvipastoris,
admitida, neste último caso, a adoção do regime de pousio. Entende-se como pousio a “prática de
interrupção temporária de atividades ou usos agrícolas, pecuários ou silviculturais, por no máximo 5
(cinco) anos, para possibilitar a recuperação da capacidade de uso ou da estrutura física do solo”. O
conceito de área rural consolidada é fundamental na Lei nº 12.651/2012, pois o Código Florestal
concede uma série de prerrogativas e privilégios para a regularização das intervenções irregulares
preexistentes a 22 de julho de 2008. Para as supressões e intervenções posteriores a essa efeméride, as
regras não comportam exceções ou flexibilizações. A data de 22 de julho de 2008 é verdadeiro “divisor
de águas”, como será estudado.
Entende por pequena propriedade ou posse rural familiar aquela explorada mediante o trabalho
pessoal do agricultor familiar e empreendedor familiar rural, incluindo os assentamentos e projetos de
reforma agrária, e que atenda ao disposto no art. 3º da Lei no 11.326, de 24.07.2006, que assim dispõe:

Para os efeitos desta Lei, considera-se agricultor familiar e empreendedor familiar rural aquele que
pratica atividades no meio rural, atendendo, simultaneamente, aos seguintes requisitos:
I – não detenha, a qualquer título, área maior do que 4 (quatro) módulos fiscais;
II – utilize predominantemente mão de obra da própria família nas atividades econômicas do seu
estabelecimento ou empreendimento;
III – tenha percentual mínimo da renda familiar originada de atividades econômicas do seu
estabelecimento ou empreendimento, na forma definida pelo Poder Executivo;
IV – dirija seu estabelecimento ou empreendimento com sua família.

Estende-se o tratamento dispensado aos imóveis considerados pequena propriedade ou posse rural
igualmente àqueles com até 4 (quatro) módulos fiscais que desenvolvam atividades agrossilvipastoris,
bem como às terras indígenas demarcadas e às demais áreas tituladas de povos e comunidades
tradicionais que façam uso coletivo do seu território (art. 3º, parágrafo único).
Uso alternativo do solo significa a substituição de vegetação nativa e formações sucessoras por
outras coberturas do solo, como atividades agropecuárias, industriais, de geração e transmissão de
energia, de mineração e de transporte, assentamentos urbanos ou outras formas de ocupação humana (art.
3º, VI).
Manejo sustentável é a administração da vegetação natural para a obtenção de benefícios
econômicos, sociais e ambientais, respeitando-se os mecanismos de sustentação do ecossistema objeto
do manejo e considerando-se, cumulativa ou alternativamente, a utilização de múltiplas espécies
madeireiras ou não, de múltiplos produtos e subprodutos da flora, bem como a utilização de outros bens e
serviços (art. 3º, VII).
Por fim, o Cadastro Ambiental Rural (CAR), que é uma novidade no sistema jurídico brasileiro, com
efeito, está no âmbito do Sistema Nacional de Informação sobre Meio Ambiente (Sinima) e é um registro
público eletrônico de esfera nacional, obrigatório para todos os imóveis rurais, com a finalidade de
integrar as informações ambientais das propriedades e posses rurais, compondo base de dados para
controle, monitoramento, planejamento ambiental e econômico e combate ao desmatamento. É por meio
do CAR que todas as informações dos imóveis rurais do Brasil serão registradas, inclusive a localização
da Reserva Legal de uma propriedade ou posse rural.
Segundo o Código Florestal, considera-se Área de Preservação Permanente (APP) a “área
protegida, coberta ou não por vegetação nativa, com a função ambiental de preservar os recursos
hídricos, a paisagem, a estabilidade geológica e a biodiversidade, facilitar o fluxo gênico de fauna e
flora, proteger o solo e assegurar o bem-estar das populações humanas” (art. 3º, II).

As Áreas de Preservação Permanente têm incidência sobre imóveis em área rural ou urbana.
A vegetação situada em Área de Preservação Permanente deverá ser mantida pelo proprietário da
área, possuidor ou ocupante a qualquer título, pessoa física ou jurídica, de direito público ou privado
(art. 7º, caput, Lei nº 12.651/2012).
Nota-se que a incidência de Áreas de Preservação Permanente em propriedades públicas ou privadas,
assim como a obrigação de manter a vegetação, são tanto do proprietário como do possuidor ou mesmo
do ocupante a qualquer título.
Caso tenha ocorrido supressão de vegetação situada em Área de Preservação Permanente, o
proprietário da área, possuidor ou ocupante a qualquer título, é obrigado a promover a recomposição
da vegetação, ressalvados os usos autorizados no Código Florestal, como será abordado. Aliás, essa
obrigação possui natureza real e é transmitida ao sucessor no caso de transferência de domínio ou posse
do imóvel rural (art. 7º, §§ 1º e 2º, Lei nº 12.651/2012).
Existem duas modalidades de Áreas de Preservação Permanente:

a) APP por força de lei, do art. 4º do Código Florestal; e


b) APP declarada de interesse social por ato de Poder Público, também conhecida como
administrativa, do art. 6º do Código Florestal.

As APP por força de lei são aquelas que pela sua simples localização são consideradas Áreas de
Preservação Permanente, como as faixas marginais de rios e córregos, o entorno dos lagos e lagoas etc.
O simples fato de existir uma nascente em uma propriedade já caracteriza o seu entorno como Área de
Preservação Permanente, observando as metragens do Código Florestal.
As Áreas de Preservação Permanente declaradas de interesse social por ato do Chefe do Poder
Executivo, em áreas cobertas com florestas ou outras formas de vegetação, são também chamadas de
APP administrativas. Isso porque o enquadramento em uma das finalidades do art. 6º do Código Florestal
permite ao Chefe do Poder Executivo (Presidente da República, Governador de Estado ou Prefeito
Municipal) a instituição de uma APP.

MODALIDADES DE APP
APP POR ATO DO CHEFE DO PODER EXECUTIVO
APP POR FORÇA DE LEI (art. 4º)
(art. 6º)
A simples localização a define como É necessário declaração de interesse social e ato do
APP Chefe do Poder Executivo para a sua criação

Segundo o art. 4º do Código Florestal, são 11 (onze) as espécies de APP por força de lei, a saber:

As faixas marginais de qualquer curso d’água natural perene e intermitente, excluídos os


efêmeros;
As áreas no entorno dos lagos e lagoas naturais;
As áreas no entorno dos reservatórios d’água artificiais, decorrentes de barramento ou
represamento de cursos d’água naturais;
As áreas no entorno das nascentes e dos olhos d’água perenes, qualquer que seja sua situação
topográfica;
As encostas ou partes destas com declividade superior a 45º;
As restingas, como fixadoras de dunas ou estabilizadoras de mangues;
Os manguezais, em toda a sua extensão;
As bordas dos tabuleiros ou chapadas;
No topo de morros, montes, montanhas e serras, com altura mínima de 100 metros e inclinação
média maior que 25º;
As áreas em altitude superior a 1.800 metros, qualquer que seja a vegetação;
Em veredas.

Além de enumerar as Áreas de Preservação Permanente por força de lei, as disposições do art. 4º do
Código Florestal consignam as respectivas metragens e extensões para cada espécie. É necessário
relacionar, todavia, que algumas espécies de APP do art. 4º não se aplicam às atividades
agrossilvipastoris, de ecoturismo e de turismo rural em áreas rurais consolidadas até 22 de julho de
2008, que possuem uma dinâmica própria, como se verá neste capítulo no tópico 10.13.

APP POR FORÇA DE LEI – art. 4º do Código Florestal


As faixas marginais de qualquer curso d’água natural perene e intermitente, excluídos
os efêmeros;
As áreas no entorno dos lagos e lagoas naturais;
As áreas no entorno dos reservatórios d’água artificiais, decorrentes de barramento ou
represamento de cursos d’água naturais;
As áreas no entorno das nascentes e dos olhos d’água perenes, qualquer que seja sua
situação topográfica;
As encostas ou partes destas com declividade superior a 45º;
As restingas, como fixadoras de dunas ou estabilizadoras de mangues;
Os manguezais, em toda a sua extensão;
As bordas dos tabuleiros ou chapadas;
No topo de morros, montes, montanhas e serras, com altura mínima de 100 metros e
inclinação média maior que 25º;
As áreas em altitude superior a 1.800 metros, qualquer que seja a vegetação;
Em veredas.

Constituem uma das principais espécies de Áreas de Preservação Permanente, senão a mais
recorrente.
São faixas marginais de qualquer curso d’água natural perene e intermitente, excluídos os
efémeros, desde a borda da calha do leito regular, em largura mínima de:

a) 30 metros, para os cursos d’água de menos de 10 metros de largura;


b) 50 metros, para os cursos d’água que tenham de 10 a 50 metros de largura;
c) 100 metros, para os cursos d’água que tenham de 50 a 200 metros de largura;
d) 200 metros, para os cursos d’água que tenham de 200 a 600 metros de largura;
e) 500 metros, para os cursos d’água que tenham largura superior a 600 metros;

LARGURA DO CURSO D’ÁGUA FAIXA MARGINAL DE PROTEÇÃO APP


Menos de 10 metros 30 metros
10 a 50 metros 50 metros
50 a 200 metros 100 metros
200 a 600 metros 200 metros
Mais de 600 metros 500 metros
As áreas no entorno dos lagos e lagoas naturais, em faixa com largura mínima de:

a) 100 metros, em zonas rurais, exceto para o corpo d’água com até 20 hectares de superfície, cuja
faixa marginal será de 50 metros;
b) 30 metros, em zonas urbanas.

LAGOS E LAGOAS NATURAIS FAIXA de APP


Zonas urbanas 30 metros
Zona rural para corpo d’água com até 20 ha de superfície 50 metros
Zona rural com mais de 20 ha de superfície 100 metros

Nas acumulações naturais de água com superfície inferior a um hectare, fica dispensada a reserva
da faixa de proteção prevista para os lagos e lagoas naturais, conforme quadro supra, vedada nova
supressão de áreas de vegetação nativa, salvo autorização do órgão ambiental competente do Sistema
Nacional do Meio Ambiente – Sisnama (art. 4º, § 4º, Lei nº 12.651/2012).

Lagos e Lagoas Naturais


Fonte: <http://www.atlasdasaguas.ufv.br/exemplos_aplicativos/roteiro_dimensionamento_barragens.html
(imagem adaptada)

São consideradas APP as áreas no entorno dos reservatórios d’água artificiais, decorrentes de
barramento ou represamento de cursos d’água naturais, na faixa definida na licença ambiental do
empreendimento.
Caso se trate de implantação de reservatório d’água artificial destinado a geração de energia ou
abastecimento público, é obrigatória a aquisição, desapropriação ou instituição de servidão
administrativa pelo empreendedor das Áreas de Preservação Permanente criadas em seu entorno,
conforme estabelecido no licenciamento ambiental, observando-se a faixa mínima de 30 metros e máxima
de 100 metros em área rural, e a faixa mínima de 15 metros e máxima de 30 metros em área urbana (art.
5º, caput, Lei nº 12.651/2012).
Além disso, na implantação dos reservatórios d’água artificiais em questão, o empreendedor, no
âmbito do licenciamento ambiental, elaborará Plano Ambiental de Conservação e Uso do Entorno do
Reservatório, em conformidade com termo de referência expedido pelo órgão competente do Sistema
Nacional do Meio Ambiente (Sisnama), não podendo o uso exceder a 10% do total da Área de
Preservação Permanente.
Nas acumulações artificiais de água com superfície inferior a um hectare, fica dispensada a reserva
da faixa de proteção prevista para os lagos e lagoas naturais, conforme quadro supra, vedada nova
supressão de áreas de vegetação nativa, salvo autorização do órgão ambiental competente do Sistema
Nacional do Meio Ambiente – Sisnama (art. 4º, § 4º, Lei nº 12.651/2012).
Não será exigida Área de Preservação Permanente no entorno de reservatórios artificiais de água que
não decorram de barramento ou represamento de cursos d’água naturais (art. 4º, § 1º, Lei nº
12.651/2012).

As áreas no entorno das nascentes e dos olhos d’água perenes são consideradas Áreas de
Preservação Permanente em um raio mínimo de 50 metros.
Consideram-se nascentes o “afloramento natural do lençol freático que apresenta perenidade e dá
início a um curso d’água” (art. 3º, XVII).
Já o olho d'água é o “afloramento natural do lençol freático, mesmo que intermitente” (art. 3º, XVIII).

Fonte: <http://www.meioambientesorocaba.com.br/Pagina.aspx?pg=17>. (imagem adaptada)

As encostas ou partes destas com declividade superior a 45º, equivalente a 100% na linha de maior
declive, são igualmente Áreas de Preservação Permanente.
É necessário cuidado para não confundir as encostas ou partes destas com declividade superior a 45º,
que são Áreas de Preservação Permanente, com as áreas de inclinação entre 25º e 45º, que são áreas
de uso restrito.
Em uma Área de Preservação Permanente, como nas encostas, não se permitem a intervenção e a
supressão da vegetação, salvo as exceções do Código Florestal. Já em áreas de inclinação entre 25º e
45º serão admitidos o manejo florestal sustentável e o exercício de atividades agrossilvipastoris, bem
como a manutenção da infraestrutura física associada ao desenvolvimento das atividades, observadas
boas práticas agronômicas, sendo vedada a conversão de novas áreas, excetuadas as hipóteses de
utilidade pública e interesse social (art. 11).
O quadro ilustra a diferença entre essas duas áreas.

Considera-se restinga o “depósito arenoso paralelo à linha da costa, de forma geralmente alongada,
produzido por processos de sedimentação, onde se encontram diferentes comunidades que recebem
influência marinha, com cobertura vegetal em mosaico, encontrada em praias, cordões arenosos, dunas e
depressões, apresentando, de acordo com o estágio sucessional, estrato herbáceo, arbustivo e arbóreo,
este último mais interiorizado” (art. 3º, XVI).
Os manguezais, em toda a sua extensão, são considerados Área de Preservação Permanente.
Considera-se manguezal o “ecossistema litorâneo que ocorre em terrenos baixos, sujeitos à ação das
marés, formado por vasas lodosas recentes ou arenosas, às quais se associa, predominantemente, a
vegetação natural conhecida como mangue, com influência fluviomarinha, típica de solos limosos de
regiões estuarinas e com dispersão descontínua ao longo da costa brasileira, entre os Estados do Amapá
e de Santa Catarina” (art. 3º, XIII).
A intervenção ou a supressão de vegetação nativa em manguezal poderá ser autorizada,
excepcionalmente, em locais onde a função ecológica do manguezal esteja comprometida, para execução
de obras habitacionais e de urbanização, inseridas em projetos de regularização fundiária de interesse
social, em áreas urbanas consolidadas ocupadas por população de baixa renda.

O Código Florestal não conferiu o conceito legal de borda de tabuleiro ou chapada. Assim, utilizar-
se-á o conceito da Resolução Conama nº 302/2002, a saber: “tabuleiro ou chapada: paisagem de
topografia plana, com declividade média inferior a dez por cento, aproximadamente seis graus e
superfície superior a dez hectares, terminada de forma abrupta em escarpa, caracterizando-se a chapada
por grandes superfícies a mais de seiscentos metros de altitude”.

No topo de morros, montes, montanhas e serras, com altura mínima de 100 metros e inclinação
média maior que 25º, as áreas delimitadas a partir da curva de nível correspondente a 2/3 da altura
mínima da elevação sempre em relação à base, sendo esta definida pelo plano horizontal determinado
por planície ou espelho d’água adjacente ou, nos relevos ondulados, pela cota do ponto de sela mais
próximo da elevação.

Consideram-se APP as áreas em altitude superior a 1.800 metros, qualquer que seja a vegetação.

Em veredas, a faixa marginal, em projeção horizontal, com largura mínima de 50 metros, a partir do
espaço permanentemente brejoso e encharcado, é considerada Área de Preservação Permanente.
Considera-se vereda a “fitofisionomia de savana, encontrada em solos hidromórficos, usualmente
com a palmeira arbórea Mauritia flexuosa – buriti emergente, sem formar dossel, em meio a
agrupamentos de espécies arbustivo-herbáceas” (art. 3º, XII).
As veredas são uma importante cobertura no bioma cerrado brasileiro.

Por meio de ato do Chefe do Poder Executivo (Presidente da República, Governador de Estado ou
Prefeito Municipal) é possível declarar uma área coberta com florestas ou outras formas de vegetação
como de interesse social e configurá-la como Área de Preservação Permanente. Para tanto, é
necessário que se enquadre em uma das seguintes hipóteses:

a) conter a erosão do solo e mitigar riscos de enchentes e deslizamentos de terra e de rocha;


b) proteger as restingas ou veredas;
c) proteger várzeas;
d) abrigar exemplares da fauna ou da flora ameaçados de extinção;
e) proteger sítios de excepcional beleza ou de valor científico, cultural ou histórico;
f) formar faixas de proteção ao longo de rodovias e ferrovias;
g) assegurar condições de bem-estar público;
h) auxiliar a defesa do território nacional, a critério das autoridades militares;
i) proteger áreas úmidas, especialmente as de importância internacional.

Como o próprio nome do instituto indica, as Áreas de Preservação Permanente são, em regra,
insusceptíveis de supressão. O Código Florestal, contudo, trouxe exceções.
A intervenção ou a supressão de vegetação nativa em Área de Preservação Permanente somente
ocorrerá nas hipóteses de utilidade pública, de interesse social ou de baixo impacto ambiental,
previstas no Código Florestal (art. 8º).

São hipóteses de utilidade pública que autorizam a intervenção e a supressão em APP (art. 3º, VIII):

a) as atividades de segurança nacional e proteção sanitária;


b) as obras de infraestrutura destinadas às concessões e aos serviços públicos de transporte, sistema
viário, inclusive aquele necessário aos parcelamentos de solo urbano aprovados pelos
Municípios, saneamento, gestão de resíduos, energia, telecomunicações, radiodifusão, instalações
necessárias à realização de competições esportivas estaduais, nacionais ou internacionais, bem
como mineração, exceto, neste último caso, a extração de areia, argila, saibro e cascalho;
c) atividades e obras de defesa civil;
d) atividades que comprovadamente proporcionem melhorias na proteção das funções ambientais
referidas no inciso II deste artigo;
e) outras atividades similares devidamente caracterizadas e motivadas em procedimento
administrativo próprio, quando inexistir alternativa técnica e locacional ao empreendimento
proposto, definidas em ato do Chefe do Poder Executivo federal.

As hipóteses de interesse social, por sua vez (art. 3º, IX):

a) as atividades imprescindíveis à proteção da integridade da vegetação nativa, tais como prevenção,


combate e controle do fogo, controle da erosão, erradicação de invasoras e proteção de plantios
com espécies nativas;
b) a exploração agroflorestal sustentável praticada na pequena propriedade ou posse rural familiar
ou por povos e comunidades tradicionais, desde que não descaracterize a cobertura vegetal
existente e não prejudique a função ambiental da área;
c) a implantação de infraestrutura pública destinada a esportes, lazer e atividades educacionais e
culturais ao ar livre em áreas urbanas e rurais consolidadas, observadas as condições
estabelecidas nesta Lei;
d) a regularização fundiária de assentamentos humanos ocupados predominantemente por população
de baixa renda em áreas urbanas consolidadas, observadas as condições estabelecidas na Lei no
11.977, de 07.07.2009;
e) implantação de instalações necessárias à captação e condução de água e de efluentes tratados para
projetos cujos recursos hídricos são partes integrantes e essenciais da atividade;
f) as atividades de pesquisa e extração de areia, argila, saibro e cascalho, outorgadas pela
autoridade competente;
g) outras atividades similares devidamente caracterizadas e motivadas em procedimento
administrativo próprio, quando inexistir alternativa técnica e locacional à atividade proposta,
definidas em ato do Chefe do Poder Executivo federal.

Por fim, são hipóteses de atividades eventuais ou de baixo impacto ambiental (art. 3º, X):

a) abertura de pequenas vias de acesso interno e suas pontes e pontilhões, quando necessárias à
travessia de um curso d’água, ao acesso de pessoas e animais para a obtenção de água ou à
retirada de produtos oriundos das atividades de manejo agroflorestal sustentável;
b) implantação de instalações necessárias à captação e condução de água e efluentes tratados, desde
que comprovada a outorga do direito de uso da água, quando couber;
c) implantação de trilhas para o desenvolvimento do ecoturismo;
d) construção de rampa de lançamento de barcos e pequeno ancoradouro;
e) construção de moradia de agricultores familiares, remanescentes de comunidades quilombolas e
outras populações extrativistas e tradicionais em áreas rurais, onde o abastecimento de água se dê
pelo esforço próprio dos moradores;
f) construção e manutenção de cercas na propriedade;
g) pesquisa científica relativa a recursos ambientais, respeitados outros requisitos previstos na
legislação aplicável;
h) coleta de produtos não madeireiros para fins de subsistência e produção de mudas, como
sementes, castanhas e frutos, respeitada a legislação específica de acesso a recursos genéticos;
i) plantio de espécies nativas produtoras de frutos, sementes, castanhas e outros produtos vegetais,
desde que não implique supressão da vegetação existente nem prejudique a função ambiental da
área;
j) exploração agroflorestal e manejo florestal sustentável, comunitário e familiar, incluindo a
extração de produtos florestais não madeireiros, desde que não descaracterizem a cobertura
vegetal nativa existente nem prejudiquem a função ambiental da área;
k) outras ações ou atividades similares, reconhecidas como eventuais e de baixo impacto ambiental
em ato do Conselho Nacional do Meio Ambiente – Conama ou dos Conselhos Estaduais de Meio
Ambiente.

HIPÓTESES DE UTILIDADE PÚBLICA HIPÓTESES DE INTERESSE SOCIAL


a) As atividades imprescindíveis à proteção
da integridade da vegetação nativa, tais
como prevenção, combate e controle do
fogo, controle da erosão, erradicação de
invasoras e proteção de plantios com
espécies nativas;
b) A exploração agroflorestal sustentável
a) As atividades de segurança nacional e
praticada na pequena propriedade ou
proteção sanitária;
posse rural familiar ou por povos e
b) As obras de infraestrutura destinadas às
comunidades tradicionais, desde que não
concessões e aos serviços públicos de
descaracterize a cobertura vegetal
transporte, sistema viário, inclusive aquele
existente e não prejudique a função
necessário aos parcelamentos de solo
ambiental da área;
urbano aprovados pelos Municípios,
c) A implantação de infraestrutura pública
saneamento, gestão de resíduos, energia,
destinada a esportes, lazer e atividades
telecomunicações, radiodifusão,
educacionais e culturais ao ar livre em
instalações necessárias à realização de
áreas urbanas e rurais consolidadas,
competições esportivas estaduais,
observadas as condições estabelecidas
nacionais ou internacionais, bem como
nesta Lei;
mineração, exceto, neste último caso, a
d) A regularização fundiária de assentamentos
extração de areia, argila, saibro e
cascalho; humanos ocupados predominantemente por
c) Atividades e obras de defesa civil; população de baixa renda em áreas
d) Atividades que comprovadamente urbanas consolidadas, observadas as
proporcionem melhorias na proteção das condições estabelecidas na Lei no 11.977,
funções ambientais referidas no inciso II de 07.07.2009;
deste artigo; e) Implantação de instalações necessárias à
e) Outras atividades similares devidamente captação e condução de água e de
caracterizadas e motivadas em efluentes tratados para projetos cujos
procedimento administrativo próprio, recursos hídricos são partes integrantes e
quando inexistir alternativa técnica e essenciais da atividade;
locacional ao empreendimento proposto, f) As atividades de pesquisa e extração de
definidas em ato do Chefe do Poder areia, argila, saibro e cascalho, outorgadas
Executivo federal. pela autoridade competente;
g) Outras atividades similares devidamente
caracterizadas e motivadas em
procedimento administrativo próprio,
quando inexistir alternativa técnica e
locacional à atividade proposta, definidas
em ato do Chefe do Poder Executivo
federal.

É importante consignar que a supressão de vegetação nativa protetora de nascentes, dunas e


restingas somente poderá ser autorizada em caso de utilidade pública. Significa que nelas não se
admite, por exemplo, a supressão nas hipóteses de interesse social (art. 8º, § 1º).

A intervenção e a supressão de vegetação nativa protetora de nascentes,


dunas e restingas somente poderão ser autorizadas em caso de
UTILIDADE PÚBLICA.

Além das hipóteses de intervenção e supressão em APP, ora relacionadas, o Código Florestal
franqueia que outras atividades se enquadrem nas hipóteses similares de utilidade pública ou de
interesse social.
Para tanto, devem ser devidamente caracterizadas e motivadas em procedimento administrativo
próprio, quando inexistir alternativa técnica e locacional ao empreendimento proposto, e definidas em
ato do Chefe do Poder Executivo federal (Presidente da República).
Constata-se, assim, desde que definida em ato do Chefe do Poder Executivo federal, que outras
atividades similares podem se enquadrar como hipóteses de utilidade pública ou de interesse social.
No tocante às hipóteses de atividades eventuais ou de baixo impacto ambiental, são possíveis outras
ações ou atividades similares, desde que reconhecidas como eventuais e de baixo impacto ambiental em
ato do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) ou ainda dos Conselhos Estaduais de Meio
Ambiente.
Interessante notar que o alcance das resoluções do Conama para a definição das hipóteses de
supressão e intervenção foram sensivelmente reduzidas do antigo para o atual Código Florestal, agora
cabíveis somente na ampliação das hipóteses de atividades eventuais ou baixo impacto ambiental. A
novidade é a inserção dos Conselhos Estaduais de Meio Ambiente na definição de atos e atividades de
baixo impacto ambiental.

A intervenção ou a supressão de vegetação nativa em Área de Preservação Permanente de manguezal


e restingas poderá ser autorizada, excepcionalmente, em locais onde a função ecológica do manguezal
esteja comprometida, para execução de obras habitacionais e de urbanização, inseridas em projetos de
regularização fundiária de interesse social, em áreas urbanas consolidadas ocupadas por população de
baixa renda (art. 8º, § 2º). Essa possibilidade será objeto de análise no tópico 10.17 deste capítulo, sobre
a regularização fundiária em Área de Preservação Permanente.

É dispensada a autorização do órgão ambiental competente para a execução, em caráter de urgência,


de atividades de segurança nacional e obras de interesse da defesa civil destinadas à prevenção e
mitigação de acidentes em áreas urbanas (art. 8º, § 3º).

É permitido o acesso de pessoas e animais às Áreas de Preservação Permanente para obtenção de


água e para realização de atividades de baixo impacto ambiental (art. 9º).
Considera-se Reserva Legal a área localizada no interior de uma propriedade ou posse rural,
delimitada nos termos da Lei nº 12.651/2012, com a função de assegurar o uso econômico de modo
sustentável dos recursos naturais do imóvel rural, auxiliar a conservação e a reabilitação dos processos
ecológicos e promover a conservação da biodiversidade, bem como o abrigo e a proteção de fauna
silvestre e da flora nativa (art. 3º, III).
Os institutos da Reserva Legal e da Área de Preservação Permanente não se confundem. A
primeira é aplicável às propriedades e posses rurais no País, ao passo que a incidência de uma APP
ocorre em áreas urbanas ou em áreas rurais que se enquadrem nas espécies elencadas pelo art. 4º ou
aquelas instituídas em conformidade com o art. 6º, ambos do Código Florestal.
A Reserva Legal deve ser conservada com cobertura de vegetação nativa pelo proprietário do
imóvel rural, possuidor ou ocupante a qualquer título, pessoa física ou jurídica, de direito público ou
privado (art. 17, caput).

Os percentuais da Reserva Legal são definidos de acordo com a região do Brasil. Dessa forma, todo
imóvel rural deve manter área com cobertura de vegetação nativa, a título de Reserva Legal, sem prejuízo
da aplicação das normas sobre as Áreas de Preservação Permanente, observados os seguintes
percentuais mínimos em relação à área do imóvel, a saber:

I – localizado na Amazônia Legal:


a) 80% no imóvel situado em área de florestas;
b) 35% no imóvel situado em área de cerrado;
c) 20% no imóvel situado em área de campos gerais;
II – localizado nas demais regiões do País: 20%.

PERCENTUAIS DA RESERVA LEGAL EM IMÓVEL RURAL LOCALIZADO


AMAZÔNIA LEGAL DEMAIS REGIÕES DO PAÍS
• 80% no imóvel situado em área de florestas;
• 35% no imóvel situado em área de cerrado; • 20% no imóvel.
• 20% no imóvel situado em área de campos gerais;

Apesar da obrigatoriedade da Reserva Legal em todos os imóveis rurais no País, o Código Florestal
enumera três exceções, a saber:
1. Os empreendimentos de abastecimento público de água e tratamento de esgoto não estão sujeitos à
constituição de Reserva Legal (art. 12, § 6º).
2. Não será exigida Reserva Legal relativa às áreas adquiridas ou desapropriadas por detentor de
concessão, permissão ou autorização para exploração de potencial de energia hidráulica, nas quais
funcionem empreendimentos de geração de energia elétrica, subestações ou sejam instaladas linhas de
transmissão e de distribuição de energia elétrica (art. 12, § 7º).
3. Não será exigida Reserva Legal relativa às áreas adquiridas ou desapropriadas com o objetivo de
implantação e ampliação de capacidade de rodovias e ferrovias (art. 12, § 8º).

Nos imóveis rurais que detinham, em 22 de julho de 2008, área de até quatro módulos fiscais e que
possuam remanescente de vegetação nativa em percentuais inferiores ao quadro anterior, a Reserva Legal
será constituída com a área ocupada com a vegetação nativa existente em 22 de julho de 2008, vedadas
novas conversões para uso alternativo do solo (art. 67).
Esse é um dos pontos polêmicos do Código Florestal, ao flexibilizar a Reserva Legal para as
propriedades com até quatro módulos fiscais.
É forçoso desdobrar os contornos desse permissivo.
Em primeiro lugar, módulo fiscal é medido em hectares e é definido para cada município brasileiro,
de acordo com a Instrução Especial nº 20, de 1980, do Instituto Nacional de Colonização e Reforma
Agrária (Incra). Conforme Arnaldo Rizzardo1, módulo fiscal “representa área mínima necessária a uma
propriedade rural, de modo a tornar viável a exploração econômica de um imóvel, variando de 2 a 110
hectares”.
Propriedades com até quatro módulos fiscais, segundo o Código Florestal, são consideradas “pequena
propriedade”, o que justificaria, para os defensores da medida, o permissivo legal. Assim, uma pequena
propriedade pode variar de 8 ha (4 módulos x 2 ha) até 440 ha (4 módulos x 110 ha), de acordo com o
município brasileiro.
A data de 22 de julho de 2008 é um referencial no Código Florestal, um verdadeiro “divisor de
águas”. Significa que, as intervenções e supressões irregulares ocorridas até essa data gozam de uma
série de prerrogativas e privilégios para a regularização ambiental. Assim, tratando-se de propriedade
com até quatro módulos fiscais em 22 de julho de 2008, o proprietário ou possuidor constituirá a sua
Reserva Legal com o remanescente de vegetação nativa existente em 22 de julho de 2008, com a vedação
de novas conversões para uso alternativo do solo.
Imagine uma propriedade rural no Sul do Brasil com até quatro módulos fiscais e que no dia 22 de
julho de 2008 detenha somente 5% de área remanescente de vegetação nativa. Em regra, o percentual da
Reserva Legal para essa região é de 20% da propriedade, conforme o art. 12 do Código Florestal.
Contudo, com o permissivo para os imóveis com até quatro módulos fiscais, esse proprietário não será
obrigado a recompor a sua Reserva Legal na integralidade do percentual (20%), mas manter a vegetação
remanescente em 22 de julho de 2008, ou seja, os 5% de vegetação que existiam nessa data.
Esse é um artigo que demanda atenção. É objeto da ADI nº 4.902 e,
ademais, teve a sua inconstitucionalidade declarada incidentalmente pelo
Tribunal de Justiça do Estado de Minas Gerais2.

É possível ampliar ou reduzir a Reserva Legal em florestas na Amazônia Legal.


O Poder Público poderá reduzir a Reserva Legal para até 50%, para fins de recomposição, quando o
Município tiver mais de 50% da área ocupada por unidades de conservação da natureza de domínio
público e por terras indígenas homologadas (art. 12, § 4º).
Em outro sentido, o Poder Público estadual, ouvido o Conselho Estadual de Meio Ambiente, poderá
reduzir a Reserva Legal para até 50%, quando o Estado tiver Zoneamento Ecológico-Econômico
aprovado e mais de 65% do seu território ocupado por unidades de conservação da natureza de domínio
público, devidamente regularizadas, e por terras indígenas homologadas (art. 12, § 5º).

Quando indicado pelo Zoneamento Ecológico-Econômico (ZEE) estadual, realizado segundo


metodologia unificada, o Poder Público Federal poderá:

a) reduzir, exclusivamente para fins de regularização, mediante recomposição, regeneração ou


compensação da Reserva Legal de imóveis com área rural consolidada, situados em área de
floresta localizada na Amazônia Legal, para até 50% da propriedade, excluídas as áreas
prioritárias para conservação da biodiversidade e dos recursos hídricos e os corredores
ecológicos (art. 13, I);
b) ampliar as áreas de Reserva Legal em até 50% dos percentuais previstos nesta Lei, para
cumprimento de metas nacionais de proteção à biodiversidade ou de redução de emissão de gases
de efeito estufa (art. 13, II).

Os Estados que não possuem seus Zoneamentos Ecológico-Econômicos (ZEEs) segundo a


metodologia unificada, estabelecida em norma federal, terão o prazo de 5 (cinco) anos, a partir da data
da publicação da Lei nº 12.651/2012, para a sua elaboração e aprovação (art. 13, § 2º).

Em primeiro plano, a definição da localização da Reserva Legal é de responsabilidade do órgão


estadual integrante do Sisnama ou instituição por ele habilitada, que deverá aprová-la após a inclusão
do imóvel no Cadastro Ambiental Rural (CAR).
Nesse sentido, a localização da área de Reserva Legal no imóvel rural deverá levar em consideração
os seguintes estudos e critérios:

a) o plano de bacia hidrográfica;


b) o Zoneamento Ecológico-Econômico;
c) a formação de corredores ecológicos com outra Reserva Legal, com Área de Preservação
Permanente, com Unidade de Conservação ou com outra área legalmente protegida;
d) as áreas de maior importância para a conservação da biodiversidade; e
e) as áreas de maior fragilidade ambiental.

Será admitido o cômputo das Áreas de Preservação Permanente no cálculo do percentual da Reserva
Legal do imóvel, desde que:

a) o benefício previsto neste artigo não implique a conversão de novas áreas para o uso alternativo
do solo;
b) a área a ser computada esteja conservada ou em processo de recuperação, conforme comprovação
do proprietário ao órgão estadual integrante do Sisnama; e
c) o proprietário ou possuidor tenha requerido inclusão do imóvel no Cadastro Ambiental Rural
(CAR), nos termos desta Lei.

O regime de proteção da Área de Preservação Permanente não se altera em caso de cômputo (art.
15, § 1º). Significa que continua com as vedações para a supressão e intervenção em APP.
É dispensada a aplicação da vedação da conversão de novas áreas para uso alternativo do solo,
quando as Áreas de Preservação Permanente conservadas ou em processo de recuperação, somadas às
demais florestas e outras formas de vegetação nativa existentes em imóvel, ultrapassarem 80% do imóvel
rural localizado em áreas de floresta na Amazônia Legal (art. 15, § 4º).
O registro da Reserva Legal no Cadastro Ambiental Rural (CAR) desobriga a sua averbação à
margem da matrícula no Cartório de Registro de Imóveis, como ocorria na sistemática do antigo Código.
Contudo, no período entre a data da publicação do Código Florestal e o registro no CAR, o proprietário
ou possuidor rural que desejar fazer a averbação terá direito à gratuidade desse ato (art. 18, § 4º).

O conceito de Reserva Legal contempla entre suas funções a de assegurar o uso econômico de modo
sustentável dos recursos naturais do imóvel rural. Dessa forma, nada obsta o uso econômico da
Reserva Legal, que pode ser sem propósito comercial ou com propósito comercial.
É o que dispõe o art. 20 do Código Florestal: “no manejo sustentável da vegetação florestal da
Reserva Legal, serão adotadas práticas de exploração seletiva nas modalidades de manejo sustentável
sem propósito comercial para consumo na propriedade e manejo sustentável para exploração florestal
com propósito comercial”.
O manejo florestal sustentável da vegetação da Reserva Legal com propósito comercial depende de
autorização do órgão competente e deverá atender as seguintes diretrizes e orientações:

a) não descaracterizar a cobertura vegetal e não prejudicar a conservação da vegetação nativa da


área;
b) assegurar a manutenção da diversidade das espécies;
c) conduzir o manejo de espécies exóticas com a adoção de medidas que favoreçam a regeneração de
espécies nativas.

Por sua vez, o manejo sustentável para exploração florestal eventual sem propósito comercial, para
consumo no próprio imóvel, independe de autorização dos órgãos competentes, devendo apenas ser
declarados previamente ao órgão ambiental a motivação da exploração e o volume explorado, limitada a
exploração anual a 20 metros cúbicos (art. 23).
Por fim, é livre a coleta de produtos florestais não madeireiros, tais como frutos, cipós, folhas e
sementes, devendo-se observar:

a) os períodos de coleta e volumes fixados em regulamentos específicos, quando houver;


b) a época de maturação dos frutos e sementes;
c) técnicas que não coloquem em risco a sobrevivência de indivíduos e da espécie coletada no caso
de coleta de flores, folhas, cascas, óleos, resinas, cipós, bulbos, bambus e raízes (art. 21).

Poderá ser instituída Reserva Legal em regime de condomínio ou coletiva entre propriedades rurais,
respeitado o percentual previsto no art. 12 do Código Florestal em relação a cada imóvel (art. 16).

Fonte: <http://www.tortugaonline.com.br/cartilha-area-de-reserva-legal-rl>. (imagem adaptada)

A inserção do imóvel rural em perímetro urbano definido mediante lei municipal não desobriga o
proprietário ou posseiro da manutenção da área de Reserva Legal, que só será extinta concomitantemente
ao registro do parcelamento do solo para fins urbanos aprovado segundo a legislação específica e
consoante as diretrizes do plano diretor de que trata o § 1º do art. 182 da Constituição Federal (art. 19).
Em exemplo, um município resolve por meio de lei municipal ampliar o perímetro urbano, observando
as prescrições do art. 32, § 1º, do Código Tributário Nacional – que disciplina os requisitos mínimos
para a zona urbana e a cobrança de IPTU. Assim, com a lei municipal, o imóvel rural transforma-se em
zona urbana. Todavia, a edição da lei municipal não é suficiente para descaracterizar a Reserva Legal
dos imóveis respectivos, permanecendo a obrigatoriedade do proprietário ou possuidor de mantê-la.
Somente com o registro do parcelamento do solo, nos moldes da Lei nº 6.766/1979 (Lei de Parcelamento
do Solo), é que será extinta a Reserva Legal dos imóveis inseridos em perímetro urbano.

Em primeiro lugar, é necessário distinguir a data para determinar o procedimento de recomposição de


Reserva Legal desmatada irregularmente, a saber: após 22 de julho de 2008 ou até 22 de julho de 2008.
Para as intervenções irregulares após 22 de julho de 2008, as regras são mais rígidas e não
comportam flexibilizações, ao passo que aquelas ocorridas até 22 de julho de 2008 são mais flexíveis,
como se verá no próximo tópico.
Nesse sentido, é obrigatória a suspensão imediata das atividades em área de Reserva Legal
desmatada irregularmente após 22 de julho de 2008 (art. 17, § 3º). No caso de recomposição de
Reserva Legal desmatada irregularmente após 22 de julho de 2008, sem prejuízo das sanções
administrativas, cíveis e penais cabíveis, deverá ser iniciado o processo de recomposição da Reserva
Legal em até 02 (dois) anos contados a partir da data da publicação do Código Florestal, devendo tal
processo ser concluído nos prazos estabelecidos pelo Programa de Regularização Ambiental (PRA), que
será objeto de análise no tópico 10.15 (art. 18, § 4º).

O proprietário ou possuidor de imóvel rural que detinha, em 22 de julho de 2008, área de Reserva
Legal em extensão inferior ao estabelecido no art. 12 do Código Florestal, poderá regularizar sua
situação, independentemente da adesão ao Programa de Regularização Ambiental (PRA), adotando as
seguintes alternativas, isolada ou conjuntamente (art. 66, caput):

a) recompor a Reserva Legal;


b) permitir a regeneração natural da vegetação na área de Reserva Legal;
c) compensar a Reserva Legal.

A recomposição da Reserva Legal deverá atender os critérios estipulados pelo órgão competente do
Sisnama e ser concluída em até 20 (vinte) anos, abrangendo, a cada 02 (dois) anos, no mínimo 1/10 da
área total necessária à sua complementação (art. 66, § 2º).
Essa recomposição poderá ser realizada mediante o plantio intercalado de espécies nativas com
exóticas ou frutíferas, em sistema agroflorestal, observados os seguintes parâmetros: (a) o plantio de
espécies exóticas deverá ser combinado com as espécies nativas de ocorrência regional; (b) a área
recomposta com espécies exóticas não poderá exceder a 50% da área total a ser recuperada (art. 66, §
3º).
O proprietário ou possuidor que optar pela recomposição terá direito à exploração econômica, nos
termos do Código Florestal (art. 66, § 4º).
A regeneração natural implica cercar a área da Reserva Legal e deixar que a natureza conduza
naturalmente. Por evidente, a regeneração só é aplicável quando tecnicamente viável.
Por fim, ao proprietário ou possuidor que não possua Reserva Legal é possível adotar as hipóteses
legais de compensação, que sempre serão precedidas pela inscrição da propriedade no Cadastro
Ambiental Rural (CAR).
Dessa forma, a compensação poderá ser feita mediante as seguintes hipóteses (art. 66, § 7º):

a) aquisição de Cota de Reserva Ambiental (CRA);


b) arrendamento de área sob regime de servidão ambiental ou Reserva Legal;
c) doação ao poder público de área localizada no interior de Unidade de Conservação de domínio
público pendente de regularização fundiária;
d) cadastramento de outra área equivalente e excedente à Reserva Legal, em imóvel de mesma
titularidade ou adquirida em imóvel de terceiro, com vegetação nativa estabelecida, em
regeneração ou recomposição, desde que localizada no mesmo bioma.

Para a compensação nos moldes ora relacionados, indispensável a observância dos critérios.
Nesse sentido, as áreas a serem utilizadas para essa compensação deverão (art. 66, § 6º):

a) ser equivalentes em extensão à área da Reserva Legal a ser compensada;


b) estar localizadas no mesmo bioma da área de Reserva Legal a ser compensada;
c) se fora do Estado, estar localizadas em áreas identificadas como prioritárias pela União ou pelos
Estados.

O primeiro requisito é o mais elementar, uma vez que, se a Reserva Legal da propriedade deveria ser
de 20 hectares, a compensação em outra propriedade deverá ser no mínimo com os mesmos 20 hectares,
nunca em tamanho inferior. Além disso, as duas propriedades (a compensada e aquela que receberá a
compensação) devem estar localizadas no mesmo bioma. Em exemplo, tanto a propriedade “A”, que será
a compensada, como a propriedade “B”, que receberá a compensação, devem estar localizadas no
mesmo bioma como a Mata Atlântica ou o Cerrado, a depender da localização dos imóveis. Agora, caso
as propriedades estejam em Estados diferentes, somente será possível se a propriedade a receber a
compensação esteja em áreas identificadas como prioritárias pela União ou pelos Estados, o que
buscará favorecer, entre outros, a recuperação de bacias hidrográficas excessivamente desmatadas, a
criação de corredores ecológicos, a conservação de grandes áreas protegidas e a conservação ou
recuperação de ecossistemas ou espécies ameaçados (art. 66, § 7º).

É criado o Cadastro Ambiental Rural (CAR), no âmbito do Sistema Nacional de Informação sobre
Meio Ambiente (Sinima), registro público eletrônico de âmbito nacional, obrigatório para todos os
imóveis rurais, com a finalidade de integrar as informações ambientais das propriedades e posses rurais,
compondo base de dados para controle, monitoramento, planejamento ambiental e econômico e combate
ao desmatamento (art. 29, caput).
A inscrição do imóvel rural no CAR deverá ser feita, preferencialmente, no órgão ambiental municipal
ou estadual, que, nos termos do regulamento, exigirá do proprietário ou possuidor rural:

a) identificação do proprietário ou possuidor rural;


b) comprovação da propriedade ou posse;
c) identificação do imóvel por meio de planta e memorial descritivo, contendo a indicação das
coordenadas geográficas com pelo menos um ponto de amarração do perímetro do imóvel,
informando a localização dos remanescentes de vegetação nativa, das Áreas de Preservação
Permanente, das Áreas de Uso Restrito, das áreas consolidadas e, caso existente, também da
localização da Reserva Legal.

O cadastramento não será considerado título para fins de reconhecimento do direito de propriedade ou
posse, tampouco elimina a necessidade de cumprimento do disposto no art. 2º da Lei no 10.267, de
28.08.2001 (que alterou o Sistema Nacional de Cadastro Rural).
A inscrição no CAR será obrigatória para todas as propriedades e posses rurais, devendo ser
requerida até 31 de dezembro de 2017, prorrogável por mais 1 (um) ano por ato do Chefe do Poder
Executivo (art. 29, § 3º).
Nos casos em que a Reserva Legal já tenha sido averbada na matrícula do imóvel e em que essa
averbação identifique o perímetro e a localização da reserva, o proprietário não será obrigado a fornecer
ao órgão ambiental as informações relativas à Reserva Legal concernentes à identificação do imóvel por
meio de planta e memorial descritivo, contendo a indicação das coordenadas geográficas com pelo
menos um ponto de amarração do perímetro do imóvel (art. 30). Portanto, para que o proprietário se
desobrigue, deverá apresentar ao órgão ambiental competente a certidão de registro de imóveis onde
conste a averbação da Reserva Legal ou termo de compromisso já firmado nos casos de posse.
A regulamentação do CAR ocorreu pelo Decreto nº 7.830/2012, que dispõe sobre o Sistema de
Cadastro Ambiental Rural (SICAR), o Cadastro Ambiental Rural (CAR) e estabelece normas de caráter
geral aos Programas de Regularização Ambiental (PRA), que será estudado no tópico 10.13. Além disso,
o Decreto nº 8.235/2014 estabeleceu normas gerais complementares aos Programas de Regularização
Fundiária Ambiental dos Estados e do Distrito Federal, de que trata o Decreto nº 7.830/2012 e institui o
Programa Mais Ambiente Brasil.

Consideram-se área verde urbana os “espaços, públicos ou privados, com predomínio de vegetação,
preferencialmente nativa, natural ou recuperada, previstos no Plano Diretor, nas Leis de Zoneamento
Urbano e Uso do Solo do Município, indisponíveis para construção de moradias, destinados aos
propósitos de recreação, lazer, melhoria da qualidade ambiental urbana, proteção dos recursos hídricos,
manutenção ou melhoria paisagística, proteção de bens e manifestações culturais” (art. 3º, XX).
O poder público municipal contará, para o estabelecimento de áreas verdes urbanas, com os seguintes
instrumentos:

a) o exercício do direito de preempção para aquisição de remanescentes florestais relevantes,


conforme dispõe a Lei nº 10.257, de 10.07.2001 (Estatuto da Cidade);
b) a transformação das Reservas Legais em áreas verdes nas expansões urbanas;
c) o estabelecimento de exigência de áreas verdes nos loteamentos, empreendimentos comerciais e
na implantação de infraestrutura; e
d) aplicação em áreas verdes de recursos oriundos da compensação ambiental.

INSTRUMENTOS PARA O ESTABELECIMENTO DE ÁREAS VERDES URBANAS PELO


PODER PÚBLICO MUNICIPAL
O exercício do direito de preempção para aquisição de remanescentes florestais relevantes,
conforme dispõe o Estatuto da Cidade;
A transformação das Reservas Legais em áreas verdes nas expansões urbanas;
O estabelecimento de exigência de áreas verdes nos loteamentos, empreendimentos
comerciais e na implantação de infraestrutura; e
Aplicação em áreas verdes de recursos oriundos da compensação ambiental.

Além das Áreas de Preservação Permanente e das Reservas Legais, o Código Florestal inseriu um
novo espaço: as áreas de uso restrito, onde a exploração deverá observar regras específicas.
São áreas de uso restrito:

a) os pantanais e planícies pantaneiras; e


b) as áreas de inclinação entre 25º e 45º.

Com efeito, nos pantanais e planícies pantaneiras, é permitida a exploração ecologicamente


sustentável, devendo-se considerar as recomendações técnicas dos órgãos oficiais de pesquisa, ficando
novas supressões de vegetação nativa para uso alternativo do solo condicionadas à autorização do órgão
estadual do meio ambiente, com base nas recomendações mencionadas (art. 10).
Por sua vez, em áreas de inclinação entre 25º e 45º, serão permitidos o manejo florestal sustentável
e o exercício de atividades agrossilvipastoris, bem como a manutenção da infraestrutura física associada
ao desenvolvimento das atividades, observadas boas práticas agronômicas, sendo vedada a conversão de
novas áreas, excetuadas as hipóteses de utilidade pública e interesse social (art. 11).
É importante não confundir as áreas de inclinação entre 25º e 45, áreas de uso restrito, com as de
inclinação superior a 45º, consideradas Áreas de Preservação Permanente e, como tais, sujeitas a regime
diferenciado.
Nas áreas de inclinação entre 25º e 45º será permitido o manejo florestal sustentável, que é a
“administração da vegetação natural para a obtenção de benefícios econômicos, sociais e ambientais,
respeitando-se os mecanismos de sustentação do ecossistema objeto do manejo e considerando-se,
cumulativa ou alternativamente, a utilização de múltiplas espécies madeireiras ou não, de múltiplos
produtos e subprodutos da flora, bem como a utilização de outros bens e serviços” (art. 3º, VII).
Além do manejo florestal sustentável, são permitidas as atividades agrossilvipastoris, bem como a
manutenção da infraestrutura física associada ao desenvolvimento das atividades, observadas boas
práticas agronômicas. Atividade agrossilvipastoril é um sistema florestal que integra floresta com
agricultura e pecuária de forma simultânea ou sequencial, sendo possível a manutenção da infraestrutura
física dessas atividades, observadas boas práticas agronômicas.
Nas áreas de inclinação entre 25º e 45º é vedada a conversão de novas áreas, com exceção das
hipóteses de utilidade pública e interesse social (vide tópico 10.3.4.1).

ÁREAS DE USO RESTRITO


Os pantanais e planícies pantaneiras As áreas de inclinação entre 25º e 45º
Serão permitidos o manejo florestal
É permitida a exploração ecologicamente
sustentável e o exercício de atividades
sustentável, devendo-se considerar as
agrossilvipastoris, bem como a manutenção da
recomendações técnicas dos órgãos oficiais
infraestrutura física associada ao
de pesquisa, ficando novas supressões de
desenvolvimento das atividades, observadas
vegetação nativa para uso alternativo do solo
boas práticas agronômicas, sendo vedada a
condicionadas à autorização do órgão estadual
conversão de novas áreas, excetuadas as
do meio ambiente, com base nessas
hipóteses de utilidade pública e interesse
recomendações.
social

Antes de adentrar no uso ecologicamente sustentável em apicuns e salgados, preliminarmente os


conceitos respectivos.
Consideram-se apicum as “áreas de solos hipersalinos situadas nas regiões entremarés superiores,
inundadas apenas pelas marés de sizígias, que apresentam salinidade superior a 150 (cento e cinquenta)
partes por 1.000 (mil), desprovidas de vegetação vascular” (art. 3º, XV).
Salgado ou marismas tropicais hipersalinos, por sua vez, são “áreas situadas em regiões com
frequências de inundações intermediárias entre marés de sizígias e de quadratura, com solos cuja
salinidade varia entre 100 (cem) e 150 (cento e cinquenta) partes por 1.000 (mil), onde pode ocorrer a
presença de vegetação herbácea específica” (art. 3º, XIV).
O Código Florestal disciplina as atividades de carcinicultura (criação de camarões em viveiro) e de
salinas.
Dessa forma, os apicuns e salgados podem ser utilizados em atividades de carcinicultura e salinas
(art. 11-A, § 1º), desde que observados os seguintes requisitos:

a) área total ocupada em cada Estado não superior a 10% dessa modalidade de fitofisionomia no
bioma amazônico e a 35% no restante do País, excluídas as ocupações consolidadas que atendam
ao disposto no § 6º deste artigo;
b) salvaguarda da absoluta integridade dos manguezais arbustivos e dos processos ecológicos
essenciais a eles associados, bem como da sua produtividade biológica e condição de berçário de
recursos pesqueiros;
c) licenciamento da atividade e das instalações pelo órgão ambiental estadual, cientificado o Instituto
Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e, no caso de uso de
terrenos de marinha ou outros bens da União, realizada regularização prévia da titulação perante a
União;
d) recolhimento, tratamento e disposição adequados dos efluentes e resíduos;
e) garantia da manutenção da qualidade da água e do solo, respeitadas as Áreas de Preservação
Permanente;
f) respeito às atividades tradicionais de sobrevivência das comunidades locais.

A exploração de apicuns e salgados em atividades de carcinicultura e salinas demanda o


“licenciamento da atividade e das instalações pelo órgão ambiental estadual, cientificado o Instituto
Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis – Ibama e, no caso de uso de terrenos
de marinha ou outros bens da União, realizada regularização prévia da titulação perante a União” (art.
11-A, § 1º, III).
Nota-se, assim, que o licenciamento será realizado pelo órgão ambiental estadual, devendo o Ibama
ser cientificado.
A licença ambiental será de 05 (cinco) anos, renovável apenas se o empreendedor cumprir as
exigências da legislação ambiental e do próprio licenciamento, mediante comprovação anual, inclusive
por mídia fotográfica (art. 11-A, § 2º).
O Estudo Prévio de Impacto Ambiental e o Relatório de Impacto Ambiental (EIA/Rima) serão
obrigatórios para a atividade potencialmente causadora de significativa degradação do meio ambiente. O
art. 11-A, § 3º, dispõe que são sujeitos à apresentação de Estudo Prévio de Impacto Ambiental (Epia) e
Relatório de Impacto Ambiental (Rima) os novos empreendimentos:

a) com área superior a 50 hectares, vedada a fragmentação do projeto para ocultar ou camuflar seu
porte;
b) com área de até 50 hectares, se potencialmente causadores de significativa degradação do meio
ambiente;
c) localizados em região com adensamento de empreendimentos de carcinicultura ou salinas cujo
impacto afete áreas comuns.

O órgão ambiental competente poderá alterar as condicionantes e as medidas de controle e adequação


de licença ambiental nessas áreas. É o que dispõe o art. 11-A, § 4º, ao prever que o órgão licenciador
competente, mediante decisão motivada, poderá, sem prejuízo das sanções administrativas, cíveis e
penais cabíveis, bem como do dever de recuperar os danos ambientais causados, alterar as
condicionantes e as medidas de controle e adequação, quando ocorrer:

a) descumprimento ou cumprimento inadequado das condicionantes ou medidas de controle previstas


no licenciamento, ou desobediência às normas aplicáveis;
b) fornecimento de informação falsa, dúbia ou enganosa, inclusive por omissão, em qualquer fase do
licenciamento ou período de validade da licença; ou
c) superveniência de informações sobre riscos ao meio ambiente ou à saúde pública.

É assegurada a regularização das atividades e empreendimentos de carcinicultura e salinas cujas


ocupação e implantação tenham ocorrido antes de 22 de julho de 2008, desde que o empreendedor,
pessoa física ou jurídica, comprove sua localização em apicum ou salgado e se obrigue, por termo de
compromisso, a proteger a integridade dos manguezais arbustivos adjacentes (art. 11-A, § 6º).
Nota-se que a data referencial de 22 de julho de 2008 norteia, assim como nas Áreas de Preservação
Permanente e Reservas Legais, a regularização das atividades e empreendimentos de carcinicultura e
salinas. As implantadas após essa data não são passíveis de regularização. Isso fica evidenciado com o
art. 11-A, § 7º, a saber: “é vedada a manutenção, licenciamento ou regularização, em qualquer hipótese
ou forma, de ocupação ou exploração irregular em apicum ou salgado, ressalvadas as exceções previstas
neste artigo”.

Uso alternativo do solo é a substituição de vegetação nativa e formações sucessoras por outras
coberturas do solo, como atividades agropecuárias, industriais, de geração e transmissão de energia, de
mineração e de transporte, assentamentos urbanos ou outras formas de ocupação humana (art. 3º, VI).
Para que possa ocorrer a supressão de vegetação nativa para uso alternativo do solo, tanto de
domínio público como de domínio privado, será necessário o cadastramento do imóvel no Cadastro
Ambiental Rural (CAR), e de prévia autorização do órgão estadual competente do Sisnama (art. 26).
No caso de reposição florestal, deverão ser priorizados projetos que contemplem a utilização de
espécies nativas do mesmo bioma onde ocorreu a supressão.
O requerimento de autorização de supressão de vegetação nativa para uso alternativo do solo deve
conter, no mínimo, as seguintes informações:

a) a localização do imóvel, das Áreas de Preservação Permanente, da Reserva Legal e das áreas de
uso restrito, por coordenada geográfica, com pelo menos um ponto de amarração do perímetro do
imóvel;
b) a reposição ou compensação florestal, nos termos do § 4º do art. 33;
c) a utilização efetiva e sustentável das áreas já convertidas;
d) o uso alternativo da área a ser desmatada.

Nas áreas passíveis de uso alternativo do solo, a supressão de vegetação que abrigue espécie da flora
ou da fauna ameaçada de extinção, segundo lista oficial publicada pelos órgãos federal ou estadual ou
municipal do Sisnama, ou espécies migratórias, dependerá da adoção de medidas compensatórias e
mitigadoras que assegurem a conservação da espécie (art. 27).
Por fim, não é permitida a conversão de vegetação nativa para uso alternativo do solo no imóvel rural
que possuir área abandonada (art. 28).
A exploração de florestas nativas e formações sucessoras, de domínio público ou privado,
ressalvados o manejo florestal sustentável em Reserva Legal (arts. 21, 23 e 24), dependerá de
licenciamento pelo órgão competente do Sisnama, mediante aprovação prévia de Plano de Manejo
Florestal Sustentável (PMFS) que contemple técnicas de condução, exploração, reposição florestal e
manejo compatíveis com os variados ecossistemas que a cobertura arbórea forme (art. 31).
O Código Florestal não define o conceito de PMFS, restringindo-se ao manejo sustentável, in
verbis: “administração da vegetação natural para a obtenção de benefícios econômicos, sociais e
ambientais, respeitando-se os mecanismos de sustentação do ecossistema objeto do manejo e
considerando-se, cumulativa ou alternativamente, a utilização de múltiplas espécies madeireiras ou não,
de múltiplos produtos e subprodutos da flora, bem como a utilização de outros bens e serviços”. A Lei de
Gestão de Florestas Públicas (Lei nº 11.284/2006) define manejo florestal sustentável praticamente nos
mesmos termos, o que implica reconhecer que as expressões “manejo florestal” e “manejo florestal
sustentável” são equivalentes. Aliás, o Decreto nº 5.975/2005 dispõe que “entende-se por PMFS o
documento técnico básico que contém as diretrizes e procedimentos para a administração da floresta,
visando a obtenção de benefícios econômicos, sociais e ambientais, observada a definição de manejo
florestal sustentável, prevista no art. 3º, inciso VI, da Lei nº 11.284, de 2 de março de 2006”.
Na elaboração do PMFS, será necessário atender aos seguintes fundamentos técnicos e científicos:

a) caracterização dos meios físico e biológico;


b) determinação do estoque existente;
c) intensidade de exploração compatível com a capacidade de suporte ambiental da floresta;
d) ciclo de corte compatível com o tempo de restabelecimento do volume de produto extraído da
floresta;
e) promoção da regeneração natural da floresta;
f) adoção de sistema silvicultural adequado;
g) adoção de sistema de exploração adequado;
h) monitoramento do desenvolvimento da floresta remanescente;
i) adoção de medidas mitigadoras dos impactos ambientais e sociais.

A aprovação do PMFS pelo órgão competente do Sisnama confere ao seu detentor a licença
ambiental para a prática do manejo florestal sustentável, não se aplicando outras etapas de
licenciamento ambiental.
Não obstante, o detentor do PMFS encaminhará relatório anual ao órgão ambiental competente com
as informações sobre toda a área de manejo florestal sustentável e a descrição das atividades realizadas.
Isso não obsta que o PMFS seja submetido a vistorias técnicas para fiscalizar as operações e
atividades desenvolvidas na área de manejo (art. 31, § 4º).
Em ato do Chefe do Poder Executivo serão estabelecidas as disposições diferenciadas sobre os PMFS
em escala empresarial, de pequena escala e comunitário (art. 31, § 5º).
No caso de manejo florestal na pequena propriedade ou posse rural familiar, os órgãos do Sisnama
deverão determinar procedimentos simplificados de elaboração, análise e aprovação dos referidos
PMFS (art. 31, § 6º).
Compete ao órgão federal de meio ambiente a aprovação de PMFS incidentes em florestas públicas
de domínio da União.

São isentas da elaboração do Plano de Manejo Florestal as seguintes atividades:

a) a supressão de florestas e formações sucessoras para uso alternativo do solo;


b) o manejo e a exploração de florestas plantadas localizadas fora das Áreas de Preservação
Permanente e de Reserva Legal;
c) a exploração florestal não comercial realizada nas propriedades rurais a que se refere o inciso V
do art. 3º (pequena propriedade ou posse rural familiar) ou por populações tradicionais.

As pessoas físicas ou jurídicas que utilizam matéria-prima florestal em suas atividades devem suprir-
se de recursos oriundos de:

a) florestas plantadas;
b) PMFS de floresta nativa aprovados pelo órgão competente do Sisnama;
c) supressão de vegetação nativa autorizada pelo órgão competente do Sisnama;
d) outras formas de biomassa florestal definidas pelo órgão competente do Sisnama.

Caso a matéria-prima florestal seja oriunda de supressão de vegetação nativa ou que detenha
autorização para supressão de vegetação nativa, a pessoa física ou jurídica é obrigada à reposição
florestal.
Segundo o Ibama3, entende-se reposição florestal “como o conjunto de ações desenvolvidas que
visam estabelecer a continuidade do abastecimento de matéria-prima florestal aos diversos segmentos
consumidores, através da obrigatoriedade da recomposição do volume explorado, mediante o plantio
com espécies florestais adequadas”.
A reposição florestal será efetivada no Estado de origem da matéria-prima utilizada, mediante o
plantio de espécies preferencialmente nativas, conforme determinações do órgão competente do Sisnama.
É isento da obrigatoriedade da reposição florestal aquele que utilize:

I – costaneiras, aparas, cavacos ou outros resíduos provenientes da atividade industrial;


II – matéria-prima florestal:
a) oriunda de PMFS;
b) oriunda de floresta plantada;
c) não madeireira.

A isenção da obrigatoriedade da reposição florestal não desobriga o interessado da comprovação


perante a autoridade competente da origem do recurso florestal utilizado.

As empresas industriais que utilizam grande quantidade de matéria-prima florestal são obrigadas a
elaborar e implementar Plano de Suprimento Sustentável (PSS), a ser submetido à aprovação do órgão
competente do Sisnama (art. 34).
O PSS assegurará produção equivalente ao consumo de matéria-prima florestal pela atividade
industrial (art. 34, § 1º).
O PSS incluirá, no mínimo (art. 34, § 2º):

a) programação de suprimento de matéria-prima florestal;


b) indicação das áreas de origem da matéria-prima florestal georreferenciadas;
c) cópia do contrato entre os particulares envolvidos, quando o PSS incluir suprimento de matéria-
prima florestal oriunda de terras pertencentes a terceiros.

Admite-se o suprimento mediante matéria-prima em oferta no mercado (art. 34, § 3º):

a) na fase inicial de instalação da atividade industrial, nas condições e durante o período, não
superior a 10 (dez) anos, previstos no PSS, ressalvados os contratos de suprimento mencionados
no inciso III do § 2º (cópia do contrato entre os particulares envolvidos, quando o PSS incluir
suprimento de matéria-prima florestal oriunda de terras pertencentes a terceiros);
b) no caso de aquisição de produtos provenientes do plantio de florestas exóticas, licenciadas por
órgão competente do Sisnama, o suprimento será comprovado posteriormente mediante relatório
anual em que constem a localização da floresta e as quantidades produzidas.

O PSS de empresas siderúrgicas, metalúrgicas ou outras que consumam grandes quantidades de


carvão vegetal ou lenha estabelecerá a utilização exclusiva de matéria-prima oriunda de florestas
plantadas ou de PMFS e será parte integrante do processo de licenciamento ambiental do
empreendimento (art. 34, § 4º).
Serão estabelecidos, em ato do Chefe do Poder Executivo, os parâmetros de utilização de matéria-
prima florestal para fins de enquadramento das empresas industriais que utilizam grande quantidade de
matéria-prima florestal (art. 34, § 5º).
Em regra, o Código Florestal proíbe o uso de fogo na vegetação.
Contudo, abre as seguintes exceções (art. 38, caput):

a) em locais ou regiões cujas peculiaridades justifiquem o emprego do fogo em práticas agropastoris


ou florestais, mediante prévia aprovação do órgão estadual ambiental competente do Sisnama,
para cada imóvel rural ou de forma regionalizada, que estabelecerá os critérios de monitoramento
e controle;
b) emprego da queima controlada em Unidades de Conservação, em conformidade com o respectivo
plano de manejo e mediante prévia aprovação do órgão gestor da Unidade de Conservação,
visando ao manejo conservacionista da vegetação nativa, cujas características ecológicas estejam
associadas evolutivamente à ocorrência do fogo;
c) atividades de pesquisa científica vinculada a projeto de pesquisa devidamente aprovado pelos
órgãos competentes e realizada por instituição de pesquisa reconhecida, mediante prévia
aprovação do órgão ambiental competente do Sisnama.

Em locais ou regiões cujas peculiaridades justifiquem o emprego do fogo em práticas agropastoris ou


florestais, o órgão estadual ambiental competente do Sisnama exigirá que os estudos demandados para o
licenciamento da atividade rural contenham planejamento específico sobre o emprego do fogo e o
controle dos incêndios (art. 38, § 1º).
A proibição constante de uso de fogo na vegetação não se aplica “às práticas de prevenção e
combate aos incêndios e as de agricultura de subsistência exercidas pelas populações tradicionais e
indígenas” (art. 38, § 2º).
Na apuração da responsabilidade pelo uso irregular do fogo em terras públicas ou particulares, a
autoridade competente para fiscalização e autuação deverá comprovar o nexo de causalidade entre a
ação do proprietário ou qualquer preposto e o dano efetivamente causado (art. 38, § 3º). Além disso, “é
necessário o estabelecimento de nexo causal na verificação das responsabilidades por infração pelo uso
irregular do fogo em terras públicas ou particulares” (art. 38, § 4º).
Os órgãos ambientais do Sisnama, bem como todo e qualquer órgão público ou privado responsável
pela gestão de áreas com vegetação nativa ou plantios florestais, deverão elaborar, atualizar e implantar
planos de contingência para o combate aos incêndios florestais (art. 39).
O Governo Federal deverá estabelecer uma Política Nacional de Manejo e Controle de Queimadas,
Prevenção e Combate aos Incêndios Florestais, que promova a articulação institucional com vistas na
substituição do uso do fogo no meio rural, no controle de queimadas, na prevenção e no combate aos
incêndios florestais e no manejo do fogo em áreas naturais protegidas (art. 40).
Essa Política Nacional deverá prever instrumentos para a análise dos impactos das queimadas sobre
mudanças climáticas e mudanças no uso da terra, conservação dos ecossistemas, saúde pública e fauna,
para subsidiar planos estratégicos de prevenção de incêndios florestais (art. 40, § 1º). Deverá observar,
ainda, os cenários de mudanças climáticas e potenciais aumentos de risco de ocorrência de incêndios
florestais (art. 40, § 2º).

O órgão ambiental competente, ao tomar conhecimento do desmatamento em desacordo com o


disposto no Código Florestal, deverá embargar a obra ou atividade que deu causa ao uso alternativo do
solo, como medida administrativa voltada a impedir a continuidade do dano ambiental, propiciar a
regeneração do meio ambiente e dar viabilidade à recuperação da área degradada (art. 51, caput).
O embargo restringe-se aos locais onde efetivamente ocorreu o desmatamento ilegal, não alcançando
as atividades de subsistência ou as demais atividades realizadas no imóvel não relacionadas com a
infração (art. 51, § 1º).
O órgão ambiental responsável deverá disponibilizar publicamente as informações sobre o imóvel
embargado, inclusive por meio da rede mundial de computadores, resguardados os dados protegidos por
legislação específica, caracterizando o exato local da área embargada e informando em que estágio se
encontra o respectivo procedimento administrativo (art. 51, § 2º).
A pedido do interessado, o órgão ambiental responsável emitirá certidão em que constem a atividade,
a obra e a parte da área do imóvel que são objetos do embargo, conforme o caso (art. 51, § 3º).

Um dos pontos mais sensíveis do Código Florestal é a possibilidade de regularização fundiária para
as intervenções e desmatamentos irregulares nas áreas que disciplina.
Nesse sentido, a União, os Estados e o Distrito Federal deverão, no prazo de 1 (um) ano, contado a
partir da data da publicação da Lei nº 12.651/2012, prorrogável por uma única vez, por igual período,
por ato do Chefe do Poder Executivo, implantar Programas de Regularização Ambiental (PRA) de
posses e propriedades rurais, com o objetivo de adequá-las (art. 59, caput).
Na regulamentação do PRA, a União estabelecerá, em até 180 dias a partir da data da publicação do
Código Florestal, sem prejuízo do prazo definido no caput do art. 59, normas de caráter geral,
incumbindo-se aos Estados e ao Distrito Federal o detalhamento por meio da edição de normas de
caráter específico, em razão de suas peculiaridades territoriais, climáticas, históricas, culturais,
econômicas e sociais, conforme preceitua o art. 24 da Constituição Federal (que disciplina a
competência legislativa concorrente).
A inscrição do imóvel rural no Cadastro Ambiental Rural (CAR) é condição obrigatória para a
adesão ao PRA, devendo esta adesão ser requerida pelo interessado até 31 de dezembro de 2017,
prorrogável por mais 1 (um) ano por ato do Chefe do Poder Executivo (art. 59, § 2º).

Com base no requerimento de adesão ao PRA, o órgão competente integrante do Sisnama convocará
o proprietário ou possuidor para assinar o termo de compromisso, que constituirá título executivo
extrajudicial.
No período entre a publicação do Código Florestal e a implantação do PRA em cada Estado e no
Distrito Federal, bem como após a adesão do interessado ao PRA e enquanto estiver sendo cumprido o
termo de compromisso, o proprietário ou possuidor não poderá ser autuado por infrações cometidas
antes de 22 de julho de 2008, relativas à supressão irregular de vegetação em Áreas de Preservação
Permanente, de Reserva Legal e de uso restrito (art. 59, § 4º).
A partir da assinatura do termo de compromisso, serão suspensas as sanções decorrentes das
infrações cometidas antes de 22 de julho de 2008, relativas à supressão irregular de vegetação em Áreas
de Preservação Permanente, de Reserva Legal e de uso restrito e, cumpridas as obrigações
estabelecidas no PRA ou no termo de compromisso para a regularização ambiental das exigências
da Lei nº 12.651/2012, nos prazos e condições neles estabelecidos, as multas referidas serão
consideradas como convertidas em serviços de preservação, melhoria e recuperação da qualidade do
meio ambiente, regularizando o uso de áreas rurais consolidadas conforme definido no PRA (art. 59, §
5º).
Como se vê, aquele que aderir aos Programas de Regularização Ambiental (PRA) não poderá ser
autuado por infrações cometidas antes de 22 de julho de 2008 relativas à supressão irregular de
vegetação em Áreas de Preservação Permanente, de Reserva Legal e área de uso restrito. Além disso,
eventuais multas serão suspensas e, concluídas as determinações do termo de compromisso, serão
consideradas como convertidas em serviços de preservação, melhoria e recuperação da qualidade do
meio ambiente. Significa que, com a adesão aos PRA, todos aqueles, pessoas físicas ou jurídicas, que
praticaram infrações administrativas ambientais em APP, Reserva Legal ou áreas de uso restrito, não
poderão ser autuados por infrações anteriores a 22 de julho de 2008; se já o foram, ficarão suspensas e,
com o cumprimento do termo de compromisso, as multas serão convertidas.
A assinatura de termo de compromisso para regularização de imóvel ou posse rural perante o órgão
ambiental competente suspenderá a punibilidade dos crimes previstos nos arts. 38, 39 e 48 da Lei no
9.605/1998, enquanto o termo estiver sendo cumprido (art. 60).
Para melhor compreensão, transcrevem-se os artigos em comento:

Art. 38. Destruir ou danificar floresta considerada de preservação permanente, mesmo que em
formação, ou utilizá-la com infringência das normas de proteção: Pena – detenção, de um a três anos,
ou multa, ou ambas as penas cumulativamente.

Parágrafo único. Se o crime for culposo, a pena será reduzida à metade.


Art. 39. Cortar árvores em floresta considerada de preservação permanente, sem permissão da
autoridade competente:
Pena – detenção, de um a três anos, ou multa, ou ambas as penas cumulativamente.
Art. 48. Impedir ou dificultar a regeneração natural de florestas e demais formas de vegetação:
Pena – detenção, de seis meses a um ano, e multa.

A prescrição ficará interrompida durante o período de suspensão da pretensão punitiva.


Extingue-se a punibilidade com a efetiva regularização prevista na Lei nº 12.651/2012.
Nas Áreas de Preservação Permanente, é autorizada, exclusivamente, a continuidade das atividades
agrossilvipastoris, de ecoturismo e de turismo rural em áreas rurais consolidadas até 22 de julho de
2008 (art. 61-A).
A regularização das áreas consolidadas demanda a observância dos seguintes aspectos:

a) é possível somente em área rural consolidada até 22 de julho de 2008;


b) é autorizada exclusivamente a continuidade de atividades agrossilvipastoris, de ecoturismo e de
turismo rural;
c) será considerada a área detida pelo imóvel rural em 22 de julho de 2008;
d) é possível a recomposição das seguintes espécies de Área de Preservação Permanente: ao longo
dos cursos d’água; entorno de nascentes e olhos d’água perenes; entorno de lagos e lagoas
naturais; em veredas.

A existência dessas situações deverá ser informada no Cadastro Ambiental Rural (CAR) para fins de
monitoramento, sendo exigida, nesses casos, a adoção de técnicas de conservação do solo e da água que
visem à mitigação dos eventuais impactos. Agora, antes mesmo da disponibilização do CAR, no caso das
intervenções já existentes, é o proprietário ou possuidor rural responsável pela conservação do solo e da
água, por meio de adoção de boas práticas agronômicas.
A partir da data da publicação do Código Florestal (25 de maio de 2012) e até o término do prazo de
adesão ao Programa de Regularização Ambiental (que está disposto no § 2º do art. 59 da Lei nº
12.651/2012, isto é, devendo essa adesão ser requerida até 31 de dezembro de 2017, prorrogável por
mais 1 (um) ano por ato do Chefe do Poder Executivo), é autorizada a continuidade das atividades
desenvolvidas nas áreas, as quais deverão ser informadas no CAR para fins de monitoramento, sendo
exigida a adoção de medidas de conservação do solo e da água.
A realização das atividades agrossilvipastoris, de ecoturismo e de turismo rural em áreas rurais
consolidadas até 22 de julho de 2008 observará critérios técnicos de conservação do solo e da água
indicados no PRA previsto no Código Florestal, sendo vedada a conversão de novas áreas para uso
alternativo do solo nesses locais.
Com essas observações, necessária a análise da recomposição nas espécies de Áreas de Preservação
Permanente passíveis.
REQUISITOS PARA A REGULARIZAÇÃO EM APP CONSOLIDADA
É possível somente em área rural consolidada até 22 de julho de 2008;
É autorizada exclusivamente a continuidade de atividades agrossilvipastoris, de ecoturismo e
de turismo rural;
Será considerada a área detida pelo imóvel rural em 22 de julho de 2008;
É possível a recomposição das seguintes espécies de Área de Preservação Permanente:

ao longo dos cursos d’água;


entorno de nascentes e olhos d’água perenes;
entorno de lagos e lagoas naturais;
em veredas.

Para a recomposição em APP consolidada ao longo de cursos d’água naturais, a definição das
metragens é estabelecida de acordo com o tamanho da propriedade, definida em módulo fiscal, a saber:

a) para os imóveis rurais com área de até um módulo fiscal que possuam áreas consolidadas em
Áreas de Preservação Permanente ao longo de cursos d’água naturais, será obrigatória a
recomposição das respectivas faixas marginais em cinco metros, contados da borda da calha do
leito regular, independentemente da largura do curso d’água;
b) para os imóveis rurais com área superior a um módulo fiscal e de até dois módulos fiscais que
possuam áreas consolidadas em Áreas de Preservação Permanente ao longo de cursos d’água
naturais, será obrigatória a recomposição das respectivas faixas marginais em oito metros,
contados da borda da calha do leito regular, independentemente da largura do curso d’água;
c) para os imóveis rurais com área superior a dois módulos fiscais e de até quatro módulos fiscais
que possuam áreas consolidadas em Áreas de Preservação Permanente ao longo de cursos d’água
naturais, será obrigatória a recomposição das respectivas faixas marginais em 15 metros,
contados da borda da calha do leito regular, independentemente da largura do curso d’água;
d) para os imóveis rurais com área superior a quatro módulos fiscais que possuam áreas
consolidadas em Áreas de Preservação Permanente ao longo de cursos d’água naturais, será
obrigatória a recomposição das respectivas faixas marginais;
e) nos demais casos, conforme determinação do Programa de Regularização Ambiental (PRA),
observado o mínimo de 20 e o máximo de 100 metros, contados da borda da calha do leito regular.
Nos casos de áreas rurais consolidadas em Áreas de Preservação Permanente no entorno de
nascentes e olhos d’água perenes, será admitida a manutenção de atividades agrossilvipastoris, de
ecoturismo ou de turismo rural, sendo obrigatória a recomposição do raio mínimo de 15 metros.

Para os imóveis rurais que possuam áreas consolidadas em Áreas de Preservação Permanente no
entorno de lagos e lagoas naturais, será admitida a manutenção de atividades agrossilvipastoris, de
ecoturismo ou de turismo rural, sendo obrigatória a recomposição de faixa marginal com largura mínima
de:

a) 5 metros, para imóveis rurais com área de até um módulo fiscal;


b) 8 metros, para imóveis rurais com área superior a um módulo fiscal e de até dois módulos fiscais;
c) 15 metros, para imóveis rurais com área superior a dois módulos fiscais e de até quatro módulos
fiscais; e
d) 30 metros, para imóveis rurais com área superior a quatro módulos fiscais.
Nos casos de áreas rurais consolidadas em veredas, será obrigatória a recomposição das faixas
marginais, em projeção horizontal, delimitadas a partir do espaço brejoso e encharcado, de largura
mínima de:

a) 30 metros, para imóveis rurais com área de até quatro módulos fiscais; e
b) 50 metros, para imóveis rurais com área superior a quatro módulos fiscais.

Será admitida a manutenção de residências e da infraestrutura associada às atividades


agrossilvipastoris, de ecoturismo e de turismo rural, inclusive o acesso a essas atividades,
independentemente das determinações contidas nos tópicos anteriores (art. 61-A, caput e §§ 1º ao 7º),
desde que não estejam em área que ofereça risco à vida ou à integridade física das pessoas (art. 61, §
12).

A recomposição das áreas consolidadas em Áreas de Preservação Permanente poderá ser feita,
isolada ou conjuntamente, pelos seguintes métodos:
a) condução de regeneração natural de espécies nativas;
b) plantio de espécies nativas;
c) plantio de espécies nativas conjugado com a condução da regeneração natural de espécies nativas;
d) plantio intercalado de espécies lenhosas, perenes ou de ciclo longo, exóticas com nativas de
ocorrência regional, em até 50% da área total a ser recomposta, no caso dos imóveis a que se
refere o inciso V do caput do art. 3º do Código Florestal – a pequena propriedade ou posse rural
familiar.

Em todos os casos relacionados de recomposição em áreas rurais consolidadas, o Poder Público,


verificada a existência de risco de agravamento de processos erosivos ou de inundações, determinará
a adoção de medidas mitigadoras que garantam a estabilidade das margens e a qualidade da água, após
deliberação do Conselho Estadual de Meio Ambiente ou de órgão colegiado estadual equivalente (art.
61-B, § 14).

As Áreas de Preservação Permanente localizadas em imóveis inseridos nos limites de Unidades de


Conservação de Proteção Integral, criadas por ato do Poder Público até a data de publicação do Código
Florestal, não são passíveis de ter quaisquer atividades consideradas como consolidadas como se viu
nos tópicos anteriores, ressalvado o que dispuser o Plano de Manejo elaborado e aprovado de acordo
com as orientações emitidas pelo órgão competente do Sisnama, nos termos do que dispuser o
regulamento do Chefe do Poder Executivo, devendo o proprietário, possuidor rural ou ocupante a
qualquer título, adotar todas as medidas indicadas (art. 61-A, § 16).
As Unidades de Conservação de Proteção Integral são aquelas cujo objetivo básico é a preservação
da natureza e, portanto, mais restritivas. Das cinco espécies de Unidades de Proteção Integral, três são de
posse e domínio público: estação ecológica, reserva biológica e parque nacional. Significa que áreas
privadas deverão ser desapropriadas. Caso não tenha ocorrido ainda a desapropriação dos imóveis
privados, esse não é o permissivo para que aqueles que ainda se encontrem em seus limites mantenham
suas atividades. Já nas outras duas espécies, monumento natural e refúgio de vida silvestre, é possível a
manutenção de imóveis privados, desde que compatíveis os objetivos da área e as atividades privadas e
que haja a aquiescência do proprietário às condições propostas pelo órgão responsável pela
administração da unidade. Essa é a única hipótese, desde que o plano de manejo da unidade disponha, de
eventual recomposição em Área de Preservação Permanente nessas áreas.
Em bacias hidrográficas consideradas críticas, conforme previsto em legislação específica, o Chefe
do Poder Executivo poderá, em ato próprio, estabelecer metas e diretrizes de recuperação ou
conservação da vegetação nativa superiores às definidas nos tópicos anteriores (recomposição em cursos
d’água naturais, entornos de nascentes e olhos d’água, entornos de lagoas e lagoas naturais e veredas)
como projeto prioritário, ouvidos o Comitê de Bacia Hidrográfica e o Conselho Estadual de Meio
Ambiente (art. 61, § 17).
É possível, dessa forma, na recomposição das APP em áreas rurais consolidadas, a ampliação das
metragens, desde que em bacias hidrográficas críticas, a partir de ato do Chefe do Poder Executivo.

Aos proprietários e possuidores dos imóveis rurais que, em 22 de julho de 2008, detinham até dez
módulos fiscais e desenvolviam atividades agrossilvipastoris nas áreas consolidadas em Áreas de
Preservação Permanente é garantido que a exigência de recomposição, nos termos da Lei nº 12.651/2012,
somadas todas as Áreas de Preservação Permanente do imóvel, não ultrapassará:

a) 10% da área total do imóvel, para imóveis rurais com área de até dois módulos fiscais;
b) 20% da área total do imóvel, para imóveis rurais com área superior a dois e de até quatro
módulos fiscais (art. 61-B).

Esse dispositivo do Código Florestal estabelece limites máximos para o tamanho das Áreas de
Preservação Permanente, de acordo com o tamanho da propriedade.

Para os assentamentos do Programa de Reforma Agrária, a recomposição de áreas consolidadas em


Áreas de Preservação Permanente ao longo ou no entorno de cursos d’água, lagos e lagoas naturais
observará as exigências estabelecidas nos tópicos anteriores (que versam sobre o art. 61-A),
considerados os limites de cada área demarcada individualmente, objeto de contrato de concessão de
uso, até a titulação por parte do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária – Incra (art. 61-C).

O Código Florestal dispõe sobre a regularização fundiária em Áreas de Preservação Permanente


em três momentos:

a) a regularização fundiária de interesse social para a população de baixa renda (art. 64, Lei nº
12.651/2012);
b) regularização fundiária de interesse específico dos assentamentos inseridos em área urbana
consolidada e que ocupam Áreas de Preservação Permanente não identificadas como áreas de
risco (art. 65, Lei nº 12.651/2012);
c) regularização fundiária de interesse social em mangues e restingas, de caráter excepcional, em
locais onde a função ecológica do manguezal esteja comprometida, para execução de obras
habitacionais e de urbanização, em áreas urbanas consolidadas ocupadas por população de baixa
renda (art. 8º, § 2º, Lei nº 12.651/2012).

Segundo o art. 64 do Código Florestal, “na regularização fundiária de interesse social dos
assentamentos inseridos em área urbana de ocupação consolidada e que ocupam Áreas de Preservação
Permanente, a regularização ambiental será admitida por meio da aprovação do projeto de regularização
fundiária, na forma da Lei específica de Regularização Fundiária Urbana”.
Nota-se, em primeiro plano, que o próprio Código Florestal estabelece que a sistemática e a execução
da regularização são as previstas na Lei nº 11.977/2009 (Minha Casa Minha Vida), pois a regularização
fundiária de interesse social não contempla somente medidas ambientais. Significa que, ainda que ocorra
em Área de Preservação Permanente, a regularização fundiária de interesse social estabelece um
conjunto de medidas jurídicas, urbanísticas, sociais e ambientais que, em última análise, além da
titulação e segurança jurídicas, visa assegurar o direito social à moradia, o pleno desenvolvimento das
funções sociais da propriedade urbana e o direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado.
Com essas considerações, necessário relacionar os requisitos para a regularização em comento. Nesse
sentido, apesar de o Código Florestal não fazer menção a datas ou recortes temporais para a
regularização fundiária de interesse social, a Lei nº 11.977/2009 (Minha Casa Minha Vida), o faz, a
saber: “o Município poderá, por decisão motivada, admitir a regularização fundiária de interesse social
em Áreas de Preservação Permanente, ocupadas até 31 de dezembro de 2007 e inseridas em área urbana
consolidada, desde que estudo técnico comprove que esta intervenção implica a melhoria das condições
ambientais em relação à situação de ocupação irregular anterior”.
Em outras palavras, a regularização fundiária de interesse social somente poderá ocorrer em
áreas ocupadas até 31 de dezembro de 2007 e inseridas em área urbana consolidada, e ainda assim
se o estudo técnico comprovar que a intervenção implica a melhoria das condições ambientais em
relação à situação de ocupação irregular anterior.
Não há, dessa forma, um permissivo irrestrito de regularizações em Áreas de Preservação
Permanente. A data é um limitador temporal claro: não haverá regularização fundiária em ocupações
futuras em Áreas de Preservação Permanente.
Para que possa ocorrer a regularização fundiária, é necessário um estudo técnico que contemple os
seguintes aspectos: (I) caracterização da situação ambiental da área a ser regularizada; (II) especificação
dos sistemas de saneamento básico; (III) proposição de intervenções para a prevenção e o controle de
riscos geotécnicos e de inundações; (IV) recuperação de áreas degradadas e daquelas não passíveis de
regularização; (V) comprovação da melhoria das condições de sustentabilidade urbano-ambiental,
considerados o uso adequado dos recursos hídricos, a não ocupação das áreas de risco e a proteção das
unidades de conservação, quando for o caso; (VI) comprovação da melhoria da habitabilidade dos
moradores propiciada pela regularização proposta; e (VII) garantia de acesso público às praias e aos
corpos d’água (art. 64, § 2º, Lei nº 12.651/2012).
Esse estudo técnico deverá demonstrar a melhoria das condições ambientais em relação à situação
anterior com a adoção dos elementos nele preconizados e deverá estar inserido no projeto de
regularização fundiária, disciplinado pelo art. 51 da Lei nº 11.977/2009 (Minha Casa Minha Vida). Em
outras palavras, a regularização fundiária não é uma legalização da ocupação, conferindo somente a
concessão de titulação, mas sim uma regularização que promova melhorias ambientais e urbanísticas.
Pensar em sentido reverso implica manter as populações de baixa renda em áreas frágeis ambientalmente
e, não raro, de riscos. Portanto, para evitar situações dessa natureza, a regularização fundiária de
interesse social pressupõe a majoração da qualidade ambiental da área urbana consolidada.
O art. 65 do Código Florestal, por sua vez, dispõe que, “na regularização fundiária de interesse
específico dos assentamentos inseridos em área urbana consolidada e que ocupem Áreas de Preservação
Permanente não identificadas como áreas de risco, a regularização ambiental será admitida por meio da
aprovação do projeto de regularização fundiária, na forma da lei específica de regularização fundiária
urbana”. Nota-se que essa espécie de regularização é para áreas outras que não se enquadrem como de
interesse social, tais como os condomínios e outros que não observam as prescrições legais.
No processo de regularização de interesse específico, para fins de prévia autorização pelo órgão
ambiental competente, deverá ser instruído com os seguintes elementos (art. 65, § 1º): (I) a
caracterização físico-ambiental, social, cultural e econômica da área; (II) a identificação dos recursos
ambientais, dos passivos e fragilidades ambientais e das restrições e potencialidades da área; (III) a
especificação e a avaliação dos sistemas de infraestrutura urbana e de saneamento básico implantados,
outros serviços e equipamentos públicos; (IV) a identificação das unidades de conservação e das áreas
de proteção de mananciais na área de influência direta da ocupação, sejam elas águas superficiais ou
subterrâneas; (V) a especificação da ocupação consolidada existente na área; (VI) a identificação das
áreas consideradas de risco de inundações e de movimentos de massa rochosa, tais como deslizamento,
queda e rolamento de blocos, corrida de lama e outras definidas como de risco geotécnico; (VII) a
indicação das faixas ou áreas em que devem ser resguardadas as características típicas da Área de
Preservação Permanente com a devida proposta de recuperação de áreas degradadas e daquelas não
passíveis de regularização; (VIII) a avaliação dos riscos ambientais; (IX) a comprovação da melhoria
das condições de sustentabilidade urbano-ambiental e de habitabilidade dos moradores a partir da
regularização; e (X) a demonstração de garantia de acesso livre e gratuito pela população às praias e aos
corpos d’água, quando couber.
Caso a regularização ambiental de interesse específico ocorra ao longo dos rios ou de qualquer
curso d’água, será mantida faixa não edificável com largura mínima de 15 metros de cada lado (art. 65, §
2º). Por sua vez, se a regularização ocorrer em áreas urbanas tombadas como patrimônio histórico e
cultural, a faixa não edificável com largura mínima de 15 metros de cada lado poderá ser redefinida de
maneira a atender aos parâmetros do ato do tombamento. É interessante pontuar que nas regularizações
fundiárias de interesse específico o projeto de regularização fundiária (art. 51, Lei nº 11.977/2009)
deverá observar as restrições à ocupação de Áreas de Preservação Permanente e demais disposições
previstas na legislação ambiental (art. 61, § 1º, Lei nº 11.977/2009). Por fim, na regularização fundiária
de interesse específico, a autoridade licenciadora poderá exigir contrapartida e compensações
urbanísticas e ambientais, na forma da legislação vigente.
Por fim, a previsão do art. 8º, § 2º, do Código Florestal, que autoriza, em caráter excepcional, a
intervenção ou a supressão de vegetação nativa em Área de Preservação Permanente em restingas, como
fixadoras de dunas ou estabilizadoras de mangues ou ainda em mangues, em toda a sua extensão,
onde a função ecológica do manguezal esteja comprometida, para execução de obras habitacionais e de
urbanização, inseridas em projetos de regularização fundiária de interesse social, em áreas urbanas
consolidadas ocupadas por população de baixa renda.
Considera-se restinga o “depósito arenoso paralelo à linha da costa, de forma geralmente alongada,
produzido por processos de sedimentação, onde se encontram diferentes comunidades que recebem
influência marinha, com cobertura vegetal em mosaico, encontrada em praias, cordões arenosos, dunas e
depressões, apresentando, de acordo com o estágio sucessional, estrato herbáceo, arbustivo e arbóreo,
este último mais interiorizado” (art. 3º, XVI, Lei nº 12.651/2012). Por sua vez, manguezal é o
“ecossistema litorâneo que ocorre em terrenos baixos, sujeitos à ação das marés, formado por vasas
lodosas recentes ou arenosas, às quais se associa, predominantemente, a vegetação natural conhecida
como mangue, com influência fluviomarinha, típica de solos limosos de regiões estuarinas e com
dispersão descontínua ao longo da costa brasileira, entre os Estados do Amapá e de Santa Catarina” (art.
3º, XIII, Lei nº 12.651/2012).
Não é demais destacar que o Superior Tribunal de Justiça (STJ) tem julgados4 sobre a sua importância
e a consequência de intervenções em manguezais. Aliás, ao contrário da leitura que permeou o
pensamento por décadas, o manguezal não pode ser considerado um ecossistema menor. Ao reverso,
como se vê no Recurso Especial nº 650.728/SC, da lavra do Ministro Antônio Herman Benjamin, da
Segunda Turma, publicado no DJe em 02.12.2009, o STJ teceu extensos comentários sobre o manguezal.
Contudo, em que pesem os julgados do STJ, o legislador ordinário optou, ao editar a Lei nº 12.651/2012,
pela possibilidade, ainda que em caráter excepcional, de intervenção.
REGULARIZAÇÃO FUNDIÁRIA EM APP
Regularização Fundiária de Regularização Fundiária de Regularização Fundiária de
Interesse Social Interesse Social Interesse Específico
Em restingas e manguezais,
Assentamentos inseridos em
com a função ecológica Área Urbana de ocupação
área urbana consolidada e que
comprometida, para execução consolidada e que ocupam
ocupam APP não identificadas
de obras habitacionais e de APP.
como áreas de risco.
urbanização.

As prescrições dos arts. 64 e 65 do Código Florestal devem ser


interpretadas em conjunto com a Lei nº 11.977/2009 e, mais recentemente,
com as disposições da Medida Provisória nº 759, de 22 de dezembro de
2016, que dispôs sobre a regularização fundiária rural e urbana.
Entre outros aspectos, a MP nº 759/2016 instituiu normas gerais e
procedimentos aplicáveis, no território nacional, à Regularização Fundiária
Urbana (Reurb), a qual abrange medidas jurídicas, urbanísticas, ambientais
e sociais que visam a regularização de núcleos urbanos informais.
Para tanto, considera-se núcleos urbanos informais “os clandestinos,
irregulares ou aqueles nos quais, atendendo à legislação vigente à época
da implantação ou regularização, não foi possível realizar a titulação de
seus ocupantes, sob a forma de parcelamentos do solo, de conjuntos
habitacionais ou condomínios, horizontais, verticais ou mistos”.
A Reurb compreende duas modalidades:
(a) Reurb de interesse social (Reurb-S): aplicável a núcleos urbanos
informais ocupados predominantemente por população de baixa renda,
observado o disposto em ato do Poder Executivo federal; e
(b) Reurb de interesse específico (Reurb-E) aplicável a núcleos urbanos
informais ocupados por população não qualificada na hipótese de que trata
a modalidade anterior.
Por fim, o art. 9º, § 3º, da MP nº 759 dispõe que “constatada a existência
de área de preservação permanente, total ou parcialmente, em núcleo
urbano informal, a Reurb observará, também, o disposto nos arts. 64 e 65
da Lei nº 12.651, de 25 de maio de 2012, hipótese para a qual se torna
obrigatória a elaboração de estudos técnicos que justifiquem as melhorias
ambientais em relação à situação anterior, inclusive por meio de
compensações ambientais, quando for o caso”.
• O Código Florestal estabelece normas gerais sobre a proteção da vegetação, Áreas de Preservação
Permanente e as áreas de Reserva Legal.
• As florestas existentes no território nacional e as demais formas de vegetação nativa,
reconhecidas de utilidade às terras que revestem, são bens de interesse comum a todos os habitantes
do País, exercendo-se os direitos de propriedade com as limitações da legislação em geral e
especialmente do Código Florestal.
• As obrigações previstas na Lei nº 12.651/2012 têm natureza real e são transmitidas ao sucessor, de
qualquer natureza, no caso de transferência de domínio ou posse do imóvel rural.
• Área de Preservação Permanente (APP) a “área protegida, coberta ou não por vegetação nativa,
com a função ambiental de preservar os recursos hídricos, a paisagem, a estabilidade geológica e a
biodiversidade, facilitar o fluxo gênico de fauna e flora, proteger o solo e assegurar o bem-estar das
populações humanas”.
• Existem duas modalidades de Áreas de Preservação Permanente:

a) APP por força de lei, do art. 4º do Código Florestal; e


b) APP declarada de interesse social por ato de Poder Público, também conhecida como
administrativa, do art. 6º do Código Florestal.

• A intervenção ou a supressão de vegetação nativa em Área de Preservação Permanente somente


ocorrerá nas hipóteses de utilidade pública, de interesse social ou de baixo impacto ambiental,
previstas no Código Florestal.
• A supressão de vegetação nativa protetora de nascentes, dunas e restingas somente poderá ser
autorizada em caso de utilidade pública.
• É permitido o acesso de pessoas e animais às Áreas de Preservação Permanente para obtenção de
água e para realização de atividades de baixo impacto ambiental.
• Reserva Legal é a área localizada no interior de uma propriedade ou posse rural, delimitada nos
termos da Lei nº 12.651/2012, com a função de assegurar o uso econômico de modo sustentável dos
recursos naturais do imóvel rural, auxiliar a conservação e a reabilitação dos processos ecológicos e
promover a conservação da biodiversidade, bem como o abrigo e a proteção de fauna silvestre e da flora
nativa.
• A Reserva Legal deve ser conservada com cobertura de vegetação nativa pelo proprietário do
imóvel rural, possuidor ou ocupante a qualquer título, pessoa física ou jurídica, de direito público ou
privado.
• Todo imóvel rural deve manter área com cobertura de vegetação nativa, a título de Reserva Legal,
sem prejuízo da aplicação das normas sobre as Áreas de Preservação Permanente, observados os
seguintes percentuais mínimos em relação à área do imóvel: (I) localizado na Amazônia Legal: (a) 80%,
no imóvel situado em área de florestas; (b) 35%, no imóvel situado em área de cerrado; (c) 20%, no
imóvel situado em área de campos gerais; (II) localizado nas demais regiões do País: 20%.
• Não será obrigatória a Reserva Legal nos seguintes casos: (a) os empreendimentos de
abastecimento público de água e tratamento de esgoto não estão sujeitos à constituição de Reserva Legal;
(b) não será exigida Reserva Legal relativa às áreas adquiridas ou desapropriadas por detentor de
concessão, permissão ou autorização para exploração de potencial de energia hidráulica, nas quais
funcionem empreendimentos de geração de energia elétrica, subestações ou sejam instaladas linhas de
transmissão e de distribuição de energia elétrica; (c) não será exigida Reserva Legal relativa às áreas
adquiridas ou desapropriadas com o objetivo de implantação e ampliação de capacidade de rodovias e
ferrovias.
• A localização da área de Reserva Legal no imóvel rural deverá levar em consideração os seguintes
estudos e critérios: (a) o plano de bacia hidrográfica; (b) o Zoneamento Ecológico-Econômico; (c) a
formação de corredores ecológicos com outra Reserva Legal, com Área de Preservação Permanente, com
Unidade de Conservação ou com outra área legalmente protegida; (d) as áreas de maior importância para
a conservação da biodiversidade; e (e) as áreas de maior fragilidade ambiental.
• O órgão estadual integrante do Sisnama ou instituição por ele habilitada deverá aprovar a
localização da Reserva Legal após a inclusão do imóvel no Cadastro Ambiental Rural.
• Será admitido o cômputo das Áreas de Preservação Permanente no cálculo do percentual da
Reserva Legal do imóvel, desde que: (a) o benefício previsto não implique a conversão de novas áreas
para o uso alternativo do solo; (b) a área a ser computada esteja conservada ou em processo de
recuperação, conforme comprovação do proprietário ao órgão estadual integrante do Sisnama; e (c) o
proprietário ou possuidor tenha requerido inclusão do imóvel no Cadastro Ambiental Rural (CAR).
• Nos imóveis rurais que detinham, em 22 de julho de 2008, área de até quatro módulos fiscais e que
possuam remanescente de vegetação nativa em percentuais inferiores ao previsto no art. 12, a Reserva
Legal será constituída com a área ocupada com a vegetação nativa existente em 22 de julho de 2008,
vedadas novas conversões para uso alternativo do solo.
• O Código Florestal criou o Cadastro Ambiental Rural (CAR), no âmbito do Sistema Nacional de
Informação sobre Meio Ambiente (Sinima), registro público eletrônico de âmbito nacional, obrigatório
para todos os imóveis rurais, com a finalidade de integrar as informações ambientais das propriedades e
posses rurais, compondo base de dados para controle, monitoramento, planejamento ambiental e
econômico e combate ao desmatamento.
QUESTÃO GABARITO
1 E
2 D
3 B
4 B
5 A
6 C
7 B
8 D
9 A
10 ERRADO
11 CERTO
12 C
13 E
14 C
15 C
16 CERTO

QUESTÃO PROPOSTA DE SOLUÇÃO


Na sistemática do novo Código Florestal (Lei nº 12.651/2012), é
possível o cômputo das áreas de preservação permanente no
cálculo do percentual da instituição da Reserva Legal, in verbis:
“art. 15. Será admitido o cômputo das Áreas de Preservação
Permanente no cálculo do percentual da Reserva Legal do imóvel,
desde que: I – o benefício previsto neste artigo não implique a
conversão de novas áreas para o uso alternativo do solo; II – a
1
área a ser computada esteja conservada ou em processo de
recuperação, conforme comprovação do proprietário ao órgão
estadual integrante do Sisnama; e III – o proprietário ou possuidor
tenha requerido inclusão do imóvel no Cadastro Ambiental Rural –
CAR, nos termos desta Lei. § 1º O regime de proteção da Área de
Preservação Permanente não se altera na hipótese prevista neste
artigo”.
Trata-se de questão que deve contemplar o princípio da proibição
(vedação) ao retrocesso ecológico. Com o princípio, o que se
pretende é a proteção contra os retrocessos e flexibilizações in
pejus na legislação, uma verdadeira “blindagem protetiva”. Até
mesmo porque, não raro, opta-se por interesses políticos e
econômicos em detrimento à proteção e garantia do meio ambiente
ecologicamente equilibrado. Conforme Sarlet e Fensterseifer
(2010), “no caso especialmente da legislação ambiental que busca
2
dar operatividade ao dever constitucional de proteção do ambiente,
há que assegurar a sua blindagem contra retrocessos que a
tornem menos rigorosa ou flexível, admitindo práticas poluidoras
hoje proibidas, assim como buscar sempre um nível mais rigoroso
de proteção, considerando especialmente o déficit legado pelo
nosso passado e um ‘ajuste de contas’ com o futuro, no sentido de
manter um equilíbrio ambiental também para as futuras gerações”.
Em aspectos fundamentais, o novo Código Florestal (Lei nº
12.651/2012) flexibiliza a proteção de espaços ambientais, em
especial as áreas de preservação permanente e a reserva legal.
Isso se vê nos mecanismos de recomposição em imóveis em área
rural consolidada, considerada como a “área de imóvel rural com
ocupação antrópica preexistente a 22 de julho de 2008, com
edificações, benfeitorias ou atividades agrossilvipastoris, admitida,
neste último caso, a adoção do regime de pousio”. Significa que
imóveis com intervenções irregulares até essa data vão se
beneficiar de procedimentos de recomposição menos rigorosos. No
que se refere ao uso da Reserva Legal, “é obrigatória a suspensão
imediata das atividades em área de Reserva Legal desmatada
irregularmente após 22 de julho de 2008” (art. 17, § 3º) e “o
processo de recomposição da Reserva Legal em até 2 (dois) anos
contados a partir da data da publicação desta Lei, devendo tal
processo ser concluído nos prazos estabelecidos pelo Programa
de Regularização Ambiental – PRA, de que trata o art. 59” (art. 17,
§ 3º). Contudo, o proprietário ou possuidor de imóvel rural que
3
detinha, em 22.07.2008, área de Reserva Legal em extensão
inferior ao estabelecido na Lei nº 12.651/2012, poderá regularizar
sua situação, independentemente da adesão ao PRA, adotando as
seguintes alternativas, isolada ou conjuntamente: I) recompor a
Reserva Legal; II) permitir a regeneração natural da vegetação na
área de Reserva Legal; III) compensar a Reserva Legal (art. 66).
Quanto a área de preservação permanente, é necessária a
suspensão imediata das atividades irregulares. Contudo, o art. 61-
A e parágrafos trazem regras de flexibilização, a saber: “nas Áreas
de Preservação Permanente, é autorizada, exclusivamente, a
continuidade das atividades agrossilvipastoris, de ecoturismo e de
turismo rural em áreas rurais consolidadas até 22 de julho de
2008”. Nota-se que a intervenção em APP para essas atividades o
Código Florestal trouxe permissivos. Por fim, para a regularização
das intervenções irregulares, é necessário a priori que o imóvel
esteja inscrito no Cadastro Ambiental Rural (art. 29). Com a sua
inscrição, o proprietário ou posseiro pode aderir aos Programas de
Regularização Ambiental (art. 59).
Em primeiro plano, necessário distinguir os dois espaços
ambientalmente protegidos. Com efeito, a reserva particular do
patrimônio natural (RPPN) é uma unidade de conservação, prevista
no art. 21 da Lei nº 9.985/2000; já a reserva legal é um espaço
disciplinado pelo Código Florestal (art. 12, Lei nº 12.651/2012). O
regime jurídico, portanto, é distinto entre elas, não obstante
possuírem o nome “reserva”. O objetivo da RPPN é conservar a
diversidade biológica. Já a reserva legal é área localizada no
interior de uma propriedade ou posse rural, delimitada nos termos
do Código Florestal, com a função de assegurar o uso econômico
de modo sustentável dos recursos naturais do imóvel rural, auxiliar
a conservação e a reabilitação dos processos ecológicos e
promover a conservação da biodiversidade, bem como o abrigo e a
proteção de fauna silvestre e da flora nativa. Quanto ao uso
4 econômico, verifica-se a impossibilidade na RPPN (art. 21, Lei nº
9.985/2000), ao passo que na reserva legal é possível o uso
econômico de modo sustentável dos recursos naturais do imóvel
rural (art. 3º, III, Lei nº 12.651/2012). A RPPN é criada por ato do
Poder Público; já a reserva legal é obrigatória nos imóveis rurais no
Brasil, delimitados pelo órgão ambiental estadual ou entidade por
ele habilitada, observadas as disposições do Código Florestal. A
RPPN goza de perpetuidade. No que tange à reserva legal, em
caso de fracionamento do imóvel rural, a qualquer título, inclusive
para assentamentos pelo Programa de Reforma Agrária, será
considerada, para fins dos percentuais da reserva legal, a área do
imóvel antes do fracionamento. Por fim, na RPPN serão possíveis
somente a pesquisa científica e a visitação com objetivos
turísticos, recreativos e educacionais. Na reserva legal, será
possível o uso econômico de modo sustentável dos recursos
naturais do imóvel rural.
É possível instituir uma Área de Preservação Permanente. Para
tanto, é necessário que sejam declaradas de interesse social por
ato do Chefe do Poder Executivo as áreas cobertas com florestas
ou outras formas de vegetação destinadas a uma ou mais das
seguintes finalidades: I – conter a erosão do solo e mitigar riscos
de enchentes e deslizamentos de terra e de rocha; II – proteger as
restingas ou veredas; III – proteger várzeas; IV – abrigar
exemplares da fauna ou da flora ameaçados de extinção; V –
5 proteger sítios de excepcional beleza ou de valor científico, cultural
ou histórico; VI – formar faixas de proteção ao longo de rodovias e
ferrovias; VII – assegurar condições de bem-estar público; VIII –
auxiliar a defesa do território nacional, a critério das autoridades
militares; IX – proteger áreas úmidas, especialmente as de
importância internacional. Desse modo, o Chefe do Poder
Executivo (presidente, governador ou prefeito) pode declarar uma
área de interesse social e transformá-la em APP.

É possível a intervenção ou a supressão de vegetação nativa em


Área de Preservação Permanente, que ocorrerá somente nas
hipóteses de utilidade pública, de interesse social ou de baixo
impacto ambiental previstas na Lei nº 12.651/2012. Por sua vez, a
6 supressão de vegetação nativa protetora de nascentes, dunas e
restingas somente poderá ser autorizada em caso de utilidade
pública. As hipóteses de utilidade pública, interesse social e baixo
impacto ambiental estão disciplinadas no art. 3º, VIII, IX e X, Lei nº
12.651/2012.
Considera-se reserva legal a área localizada no interior de uma
propriedade ou posse rural, delimitada nos termos da Lei nº
12.651/2012, com a função de assegurar o uso econômico de
modo sustentável dos recursos naturais do imóvel rural, auxiliar a
conservação e a reabilitação dos processos ecológicos e promover
a conservação da biodiversidade, bem como o abrigo e a proteção
de fauna silvestre e da flora nativa. É possível a exploração
econômica em reserva legal, por meio do manejo sustentável,
como se vê no art. 20 do Código Florestal: “no manejo sustentável
da vegetação florestal da Reserva Legal, serão adotadas práticas
de exploração seletiva nas modalidades de manejo sustentável
sem propósito comercial para consumo na propriedade e manejo
sustentável para exploração florestal com propósito comercial”.
No que se refere à regularização em área de Reserva Legal, “é
7 obrigatória a suspensão imediata das atividades em área de
Reserva Legal desmatada irregularmente após 22 de julho de
2008” (art. 17, § 3º), e “o processo de recomposição da Reserva
Legal em até 2 (dois) anos contados a partir da data da publicação
desta Lei, devendo tal processo ser concluído nos prazos
estabelecidos pelo Programa de Regularização Ambiental – PRA,
de que trata o art. 59” (art. 17, § 3º). Contudo, o proprietário ou
possuidor de imóvel rural que detinha, em 22 de julho de 2008,
área de Reserva Legal em extensão inferior ao estabelecido na Lei
no 12.651/2012, poderá regularizar sua situação,
independentemente da adesão ao PRA, adotando as seguintes
alternativas, isolada ou conjuntamente: I) recompor a Reserva
Legal; II) permitir a regeneração natural da vegetação na área de
Reserva Legal; III) compensar a Reserva Legal (art. 66).

A resposta é afirmativa. Além de julgados do STJ consignando a


obrigação propter rem, o novo Código Florestal traz dispositivo
nesse sentido, a saber: “as obrigações previstas nesta Lei têm
8
natureza real e são transmitidas ao sucessor, de qualquer
natureza, no caso de transferência de domínio ou posse do imóvel
rural” (art. 2º, § 2º, Lei nº 12.651/2012).

QUESTÃO CONTEÚDO PARA A RESPOSTA


1 Tópico 10.2
2 Tópico 10.2.1
3 Tópico 10.5
4 Tópico 10.5
5 Tópico 10.4.4.13
6 Tópico 10.4.4.13
7 Tópico 10.5.4.7
8 Tópico 10.6
9 Tópico 10.6.2
10 Tópico 10.6.10
11 Tópico 10.6.3
12 Tópico 10.6.4
13 Tópico 10.6.7
14 Tópico 10.6.8
15 Tópico 10.6.9
16 Tópico 10.7
17 Tópico 10.6.12
18 Tópico 10.6.13
19 Tópico 10.6.14
20 Tópico 10.8
21 Tópico 10.9
22 Tópico 10.15
23 Tópico 10.15
24 Tópico 10.15
25 Tópico 10.17

1 RIZZARDO, 2013, p. 69.


2 Disponível em: <http://bd.tjmg.jus.br/jspui/bitstream/tjmg/7000/1/BJE%20122.2015.pdf>.
3 Disponível em: <ibama.gov.br>.
4 Alguns dos julgados do STJ sobre danos ambientais em manguezais: REsp nº 1022448; REsp nº 769753; REsp nº 997538;
REsp nº 852210; REsp nº 650728, entre outros.
Se soubesse que o mundo se acaba amanhã, eu
ainda hoje plantaria uma árvore.
Martin Luther King

11.1 INTRODUÇÃO

A Lei nº 9.985/2000 instituiu o Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC) e


regulamentou os incisos I, II, III e VII do § 1º do art. 225 da Constituição Federal.
O art. 225, § 1º, III, da CF dispõe que compete ao Poder Público “definir, em todas as unidades da
Federação, espaços territoriais e seus componentes a serem especialmente protegidos, sendo a alteração
e a supressão permitidas somente através de lei, vedada qualquer utilização que comprometa a
integridade dos atributos que justifiquem sua proteção”.
Entre os espaços territoriais ambientalmente protegidos destacam-se sem dúvida as unidades de
conservação, delimitações de áreas que devem ser especialmente protegidas, com um regime jurídico
específico de proteção e administração, de acordo com as características de cada unidade.
Pela leitura constitucional, a criação de unidades de conservação constitui obrigação do Poder
Público, de forma a garantir a salvaguarda da norma-matriz do art. 225 da Constituição Federal: o meio
ambiente ecologicamente equilibrado. É que esses espaços, por excelência, contribuem para a
manutenção da diversidade biológica e dos recursos genéticos no território brasileiro e nas suas águas
jurisdicionais; a proteção das espécies ameaçadas de extinção; a preservação e a restauração da
diversidade de ecossistemas naturais; pesquisas científicas; proteção às populações tradicionais, entre
outros importantes objetivos.
A Lei nº 9.985/2000 (Lei do SNUC) sistematizou o conjunto de unidades de conservação que se
encontravam em legislações esparsas, criando novas espécies e definindo-as em um sistema que se
compõe de dois grupos fundamentais (proteção integral e uso sustentável), com unidades reunidas de
acordo com os seus objetivos de preservação ou conservação ambiental.

11.2 ESTRUTURA DO SNUC

Denomina-se Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC) porque a gestão de unidades


de conservação incluiu todos os entes federativos, cada qual com a criação e gestão de unidades em seu
respectivo âmbito.
Nos termos da Lei nº 9.985/2000, “o Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza –
SNUC é constituído pelo conjunto das unidades de conservação federais, estaduais e municipais” (art.
3º).
De acordo com o art. 6º da Lei nº 9.985/2000, a estrutura do SNUC apresenta a seguinte configuração:

a) Órgão consultivo e deliberativo: Conselho Nacional de Meio Ambiente;


b) Órgão central: Ministério do Meio Ambiente;
c) Órgãos executores: Instituto Chico Mendes e Ibama, em caráter supletivo, os órgãos estaduais e
municipais, com a função de implementar o SNUC, subsidiar as propostas de criação e administrar
as unidades de conservação federais, estaduais e municipais, nas respectivas esferas de atuação.

Como órgão consultivo e deliberativo, competem ao Conselho Nacional do Meio Ambiente as


atribuições de acompanhamento da implementação do SNUC.
O Ministério do Meio Ambiente, por seu turno, como órgão central, coordena o SNUC.
Entre os órgãos executores, atenção para a pessoa jurídica instituída exclusivamente para as
unidades de conservação da União: o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade,
autarquia federal dotada de personalidade jurídica de direito público, autonomia administrativa e
financeira, vinculada ao Ministério do Meio Ambiente, criada pela Lei nº 11.516/2007 e que possui
como finalidades: (a) executar ações da política nacional de unidades de conservação da natureza,
referentes às atribuições federais relativas à proposição, implantação, gestão, proteção, fiscalização e
monitoramento das unidades de conservação instituídas pela União; (b) executar as políticas relativas ao
uso sustentável dos recursos naturais renováveis e ao apoio ao extrativismo e às populações tradicionais
nas unidades de conservação de uso sustentável instituídas pela União; (c) fomentar e executar programas
de pesquisa, proteção, preservação e conservação da biodiversidade e de educação ambiental; (d)
exercer o poder de polícia ambiental para a proteção das unidades de conservação instituídas pela
União; e (e) promover e executar, em articulação com os demais órgãos e entidades envolvidos,
programas recreacionais, de uso público e de ecoturismo nas unidades de conservação, onde estas
atividades sejam permitidas.
O Instituto Chico Mendes, ademais, é hoje um dos órgãos executores da Política Nacional do Meio
Ambiente, conforme o art. 6º, IV, da Lei nº 6.938/1981.
Não obstante a criação de um ente específico para as unidades de conservação da União (Instituto
Chico Mendes), o Ibama igualmente assume atribuições de órgão executor, em decorrência da sua
estrutura operacional como órgão fiscalizador e o seu papel de executor da Política Nacional do Meio
Ambiente.
Por fim, os órgãos estaduais e municipais responsáveis pela implementação das unidades de
conservação em suas áreas de atuação são considerados órgãos executores.

11.3 OBJETIVOS E DIRETRIZES DO SNUC

O SNUC tem os seguintes objetivos:

contribuir para a manutenção da diversidade biológica e dos recursos genéticos no território


nacional e nas águas jurisdicionais;
proteger as espécies ameaçadas de extinção no âmbito regional e nacional;
contribuir para a preservação e a restauração da diversidade de ecossistemas naturais;
promover o desenvolvimento sustentável a partir dos recursos naturais;
promover a utilização dos princípios e práticas de conservação da natureza no processo de
desenvolvimento;
proteger paisagens naturais e pouco alteradas de notável beleza cênica;
proteger as características relevantes de natureza geológica, geomorfológica, espeleológica,
arqueológica, paleontológica e cultural;
proteger e recuperar recursos hídricos e edáficos;
recuperar ou restaurar ecossistemas degradados;
proporcionar meios e incentivos para atividades de pesquisa científica, estudos e
monitoramento ambiental;
valorizar econômica e socialmente a diversidade biológica;
favorecer condições e promover a educação e interpretação ambiental, a recreação em contato
com a natureza e o turismo ecológico;
proteger os recursos naturais necessários à subsistência de populações tradicionais, respeitando
e valorizando seu conhecimento e sua cultura e promovendo-as social e economicamente.

Por seu turno, o SNUC será regido por diretrizes que:

assegurem que no conjunto das unidades de conservação estejam representadas amostras


significativas e ecologicamente viáveis das diferentes populações, hábitats e ecossistemas do
território nacional e das águas jurisdicionais, salvaguardando o patrimônio biológico existente;
assegurem os mecanismos e procedimentos necessários ao envolvimento da sociedade no
estabelecimento e na revisão da política nacional de unidades de conservação;
assegurem a participação efetiva das populações locais na criação, implantação e gestão das
unidades de conservação;
busquem o apoio e a cooperação de organizações não governamentais, de organizações
privadas e pessoas físicas para o desenvolvimento de estudos, pesquisas científicas, práticas de
educação ambiental, atividades de lazer e de turismo ecológico, monitoramento, manutenção e
outras atividades de gestão das unidades de conservação;
incentivem as populações locais e as organizações privadas a estabelecerem e administrarem
unidades de conservação dentro do sistema nacional;
assegurem, nos casos possíveis, a sustentabilidade econômica das unidades de conservação;
permitam o uso das unidades de conservação para a conservação in situ de populações das
variantes genéticas selvagens dos animais e plantas domesticados e recursos genéticos silvestres;
assegurem que o processo de criação e a gestão das unidades de conservação sejam feitos de
forma integrada com as políticas de administração das terras e águas circundantes, considerando
as condições e necessidades sociais e econômicas locais;
considerem as condições e necessidades das populações locais no desenvolvimento e
adaptação de métodos e técnicas de uso sustentável dos recursos naturais;
garantam às populações tradicionais cuja subsistência dependa da utilização de recursos
naturais existentes no interior das unidades de conservação meios de subsistência alternativos ou a
justa indenização pelos recursos perdidos;
garantam uma alocação adequada dos recursos financeiros necessários para que, uma vez
criadas, as unidades de conservação possam ser geridas de forma eficaz e atender aos seus
objetivos;
busquem conferir às unidades de conservação, nos casos possíveis e respeitadas as
conveniências da administração, autonomia administrativa e financeira; e
busquem proteger grandes áreas por meio de um conjunto integrado de unidades de conservação
de diferentes categorias, próximas ou contíguas, e suas respectivas zonas de amortecimento e
corredores ecológicos, integrando as diferentes atividades de preservação da natureza, uso
sustentável dos recursos naturais e restauração e recuperação dos ecossistemas.

11.4 CONCEITO LEGAL DE UNIDADE DE CONSERVAÇÃO

A Lei do SNUC define unidade de conservação como “o espaço territorial e seus recursos
ambientais, incluindo as águas jurisdicionais, com características naturais relevantes, legalmente
instituído pelo Poder Público, com objetivos de conservação e limites definidos, sob regime especial de
administração, ao qual se aplicam garantias adequadas de proteção” (art. 2º, I).
Cada unidade de conservação é um espaço definido pelas suas características ambientais, em especial
seus recursos naturais, em que o manejo deve ocorrer em bases sustentáveis para atender às presentes e
futuras gerações.
O regime especial de administração, por sua vez, pressupõe a administração integrada e participativa
do Poder Público e da sociedade civil em cada unidade, possibilitando que as normas e regras de seu
manejo se definam em bases dialógicas e democráticas.
As unidades de conservação dividem-se em dois grupos:

a) unidades de proteção integral; e


b) unidades de uso sustentável.

11.5 UNIDADES DE PROTEÇÃO INTEGRAL

Unidades de Proteção Integral são aquelas que têm como objetivo básico a preservação da
natureza e somente de forma indireta se admite a utilização de seus recursos naturais, salvo as exceções
da Lei do SNUC (art. 7º, § 1º, da Lei nº 9.985/2000).
Por preservação da natureza entende-se, em regra, que não se admite a intervenção humana, salvo os
casos especificados na legislação, tais como a pesquisa científica e a manutenção dos processos
ecológicos, de forma a evitar a simplificação dos sistemas naturais. Por uso indireto, entende-se “aquele
que não envolve consumo, coleta, dano ou destruição dos recursos naturais” (art. 2º, IX, Lei nº
9.985/2000).
De acordo com o art. 8º, são espécies de unidades de proteção integral:

a) Estação Ecológica;
b) Reserva Biológica;
c) Parque Nacional;
d) Monumento Natural;
e) Refúgio de Vida Silvestre.

A área de uma unidade de conservação do Grupo de Proteção Integral é considerada zona rural, para
os efeitos legais (art. 49). A zona de amortecimento das unidades de conservação de proteção integral,
uma vez definida formalmente, não pode ser transformada em zona urbana (art. 49, parágrafo único).

11.5.1 Estação Ecológica


Seus objetivos são a preservação da natureza e a realização de pesquisas científicas, autorizadas
pelo órgão responsável pela administração da unidade. Como a posse e o domínio na estação ecológica
são públicos, o que determina a desapropriação de propriedades privadas em seus limites (art. 9º, § 1º).
É proibida a visitação pública, exceto a de objetivo educacional, de acordo com o que dispuser o Plano
de Manejo da unidade ou regulamento específico (art. 9º, § 2º).
Admitem-se na Estação Ecológica intervenções nos ecossistemas nas seguintes hipóteses (art. 9º, §
4º):

a) para a adoção de medidas que visem à restauração de ecossistemas modificados;


b) para o manejo de espécies com o fim de preservar a diversidade biológica;
c) para a coleta de componentes dos ecossistemas com finalidades científicas;
d) para a realização de pesquisas científicas cujo impacto sobre o ambiente seja maior do que aquele
causado pela simples observação ou pela coleta controlada de componentes dos ecossistemas, em
uma área correspondente, no máximo, a 3% da extensão total da unidade e até o limite de 1.500 ha.
11.5.2 Reserva Biológica
A Reserva Biológica, conforme o caput do art. 10, tem como “objetivo a preservação integral da
biota e demais atributos naturais existentes em seus limites, sem interferência humana direta ou
modificações ambientais, excetuando-se as medidas de recuperação de seus ecossistemas alterados e as
ações de manejo necessárias para recuperar e preservar o equilíbrio natural, a diversidade biológica e os
processos ecológicos naturais”. É de posse e domínio públicos, impondo-se a desapropriação das
propriedades privadas em seus limites (art. 10, § 1º). Assim como na Estação Ecológica, a visitação
pública é vedada, exceto com caráter educacional, de acordo com regulamento específico (art. 10, § 2º).
A diferença entre a Estação Ecológica e a Reserva Biológica é que nesta a proteção é integral,
enquanto naquela é possível a realização de pesquisas científicas em até 3% de sua área, desde que não
ultrapasse o limite de 1.500 ha.

11.5.3 Parque Nacional


Em recorte histórico, a primeira unidade de conservação foi o Parque de Yellowstone, nos Estados
Unidos, criado em 1872. No Brasil, o Parque Nacional de Itatiaia, instituído em 1934, foi a nossa
primeira unidade de conservação. Já o Horto Florestal de Campos do Jordão/SP, de 1941, é o primeiro
Parque Estadual do País.
Segundo o caput do art. 11, seu objetivo básico é a preservação de ecossistemas naturais de grande
relevância ecológica e beleza cênica. É possível realizar, em um Parque Nacional, pesquisas científicas e
atividades de educação e interpretação ambiental, de recreação em contato com a natureza e de turismo
ecológico.
A posse e domínio são públicos (art. 11, § 1º).
Estimula-se a visitação pública, que é estabelecida pela administração da unidade, regulamento ou em
Plano de Manejo (art. 11, § 2º). A pesquisa científica depende de autorização da administração do parque
nacional (art. 11, § 3º).

11.5.4 Monumento Natural


Ao se instituir um Monumento Natural objetiva-se preservar os sítios naturais raros, singulares ou
de grande beleza cênica (art. 12, caput). Ao contrário das unidades anteriores, o Monumento Natural
pode ser composto por terras particulares, desde que a utilização dos recursos naturais pelos
proprietários seja compatível com os objetivos da unidade (art. 12, § 1º). Do contrário, impõe-se a
desapropriação, que ocorre igualmente quando o proprietário não aquiesce às condições impostas pelo
órgão de administração da unidade de conservação (art. 12, § 2º). A visitação pública em Monumento
Natural atém-se à observância das normas do ente responsável pela administração (art. 12, § 3º).

11.5.5 Refúgio de Vida Silvestre


A criação do Refúgio de Vida Silvestre procura proteger ambientes naturais nos quais se asseguram
condições para a existência ou reprodução de espécies ou comunidades da flora local e da fauna
residente ou migratória (art. 13, caput). No que se refere à posse, domínio e visitação, essa unidade
segue as mesmas disposições do Monumento Natural. A pesquisa científica depende de autorização
prévia do órgão responsável pela administração da unidade e está sujeita às condições e restrições por
ele estabelecidas (art. 13, § 4º).

11.6 UNIDADES DE USO SUSTENTÁVEL (ARTS. 15 A 21 DA LEI Nº


9.985/2000)

As Unidades de Uso Sustentável têm como objetivo básico compatibilizar a conservação da


natureza com o uso sustentável de parcela dos seus recursos naturais (art. 7º, § 2º). Nesse conjunto de
unidades verifica-se a existência de populações residentes, que conjugam a sustentabilidade no uso de
parcela dos recursos ambientais com a proteção à biodiversidade e à natureza.
Estabelece o art. 14 da Lei do SNUC as espécies de unidades de uso sustentável:

a) Área de Proteção Ambiental;


b) Área de Relevante Interesse Ecológico;
c) Floresta Nacional;
d) Reserva Extrativista;
e) Reserva de Fauna;
f) Reserva de Desenvolvimento Sustentável;
g) Reserva Particular do Patrimônio Natural.

11.6.1 Área de Proteção Ambiental


A Área de Proteção Ambiental (APA), conforme a conceituação legal do art. 15, constitui-se em uma
“área em geral extensa, com um certo grau de ocupação humana, dotada de atributos abióticos, bióticos,
estéticos ou culturais especialmente importantes para a qualidade de vida e o bem-estar das populações
humanas”. Os objetivos básicos dessa espécie de unidade de uso sustentável centram-se na proteção à
diversidade biológica, disciplinando o processo de ocupação e assegurando a sustentabilidade do uso
dos recursos naturais (art. 15, caput).
São integradas por terras públicas ou privadas (art. 15, § 1º), sendo que o órgão gestor da unidade
pode estabelecer normas e restrições para a sua utilização, respeitados os limites constitucionais da
propriedade privada (art. 15, § 2º). O regramento da visitação e a realização de pesquisas científicas em
áreas públicas são disciplinados pelo órgão gestor e em áreas privadas pelos respectivos proprietários,
observadas as exigências legais (art. 15, §§ 2º e 3º).
A Área de Proteção Ambiental possui um conselho formado por representantes de órgãos públicos,
entidades da sociedade civil e população residente, com a presidência do órgão responsável pela sua
administração (art. 15, § 5º).

11.6.2 Área de Relevante Interesse Ecológico


Dispõe o caput do art. 16 que a Área de Relevante Interesse Ecológico “é uma área em geral de
pequena extensão, com pouca ou nenhuma ocupação humana, com características naturais extraordinárias
ou que abriga exemplares raros da biota regional”. Tem como objetivo manter a integridade dos
ecossistemas naturais de importância regional ou local e a sua utilização em conformidade com os
objetivos de sua criação. Admite áreas públicas e propriedades privadas (art. 16, § 1º). Nas áreas
privadas é possível estabelecer regras de utilização conforme os objetivos da unidade (art. 16, § 2º).

11.6.3 Floresta Nacional


A Floresta Nacional é uma área com cobertura florestal de espécies predominantemente nativas e o
seu objetivo básico é o uso múltiplo sustentável dos recursos florestais e a pesquisa científica, por meio
de métodos sustentáveis de exploração de florestas nativas (art. 17). Exemplifica-se o uso múltiplo dos
recursos florestais com a exploração sustentável de madeira, de seus derivados e, em outro aspecto, o
turismo ecológico na área de uma floresta nacional.
A posse e o domínio são públicos, com a desapropriação de áreas privadas (art. 17, § 1º). Contudo,
nas florestas admite-se a permanência de populações tradicionais que a habitavam no momento de
sua criação, conforme o regulamento e o Plano de Manejo da unidade (art. 17, § 2º). Incentiva-se a
pesquisa científica, conforme dispuser o órgão gestor (art. 17, § 4º), que disciplinará igualmente a forma
da visitação pública (art. 17, § 3º).
A Floresta Nacional dispõe de um conselho consultivo, presidido pelo órgão responsável por sua
administração e constituído por representantes de órgãos públicos, de organizações da sociedade civil e
das populações tradicionais residentes, quando habitarem a área (art. 17, § 5º).

11.6.4 Reserva Extrativista


De acordo com o art. 18, a Reserva Extrativista é uma área utilizada por populações extrativistas
tradicionais, cuja subsistência se baseia no extrativismo e, de forma complementar, na agricultura de
subsistência e na criação de animais de pequeno porte. Entre os seus objetivos básicos verifica-se a
proteção aos meios de vida e à cultura das populações tradicionais, assim como assegurar o uso
sustentável dos recursos naturais da reserva.
Apesar do domínio público de suas terras, as populações residentes na Reserva Extrativista detêm
a posse e o uso (art. 18, § 1º), por meio de contrato de direito real de uso, em que se comprometem à
conservação, proteção, recuperação, defesa e manutenção da reserva extrativista (art. 23). A visitação
pública é permitida, desde que compatível com os interesses locais e o Plano de Manejo da unidade (art.
18, § 3º), ao passo que a pesquisa científica é permitida e incentivada, sujeitando-se à prévia autorização
e às normas do órgão responsável pela unidade (art. 18, § 4º).
Proíbem-se a caça amadora ou profissional e a exploração de recursos minerais (art. 18, § 6º). No
tocante à exploração comercial de recursos madeireiros, só se a admite em bases sustentáveis e em
situações especiais e complementares às demais atividades desenvolvidas na unidade de conservação
(art. 18, § 7º).
Por fim, o Plano de Manejo da unidade será aprovado pelo seu conselho deliberativo.

11.6.5 Reserva de Fauna


Reserva de Fauna é uma área natural, que abriga populações animais de espécies nativas, terrestres
ou aquáticas, residentes ou migratórias, que são passíveis de estudos técnico-científicos sobre o manejo
econômico sustentável de recursos faunísticos. É uma unidade de posse e domínio públicos (art. 19, § 1º)
e em sua extensão é vedada a caça amadorística ou profissional (art. 19, § 3º).
A visitação pública pode ser admitida, desde que compatível com o Plano de Manejo e as normas do
órgão gestor da Reserva de Fauna (art. 19, § 2º).

11.6.6 Reserva de Desenvolvimento Sustentável


Conforme definição do art. 20, “é uma área natural que abriga populações tradicionais, cuja existência
baseia-se em sistemas sustentáveis de exploração dos recursos naturais, desenvolvidos ao longo de
gerações e adaptados às condições ecológicas locais e que desempenham um papel fundamental na
proteção da natureza e na manutenção da diversidade biológica”. A expressão “ao longo de gerações”
deve ser interpretada como o cidadão residente na área da unidade pelo menos a partir de seu ascendente
direto, ou seja, a partir de seus pais, o que exclui aqueles que se transferiram a curto prazo para a área da
reserva.
O objetivo da Reserva de Desenvolvimento Sustentável é preservar a natureza e garantir a
reprodução e a melhoria da qualidade de vida das populações e da exploração dos recursos naturais,
com a valorização e aperfeiçoamento das técnicas de manejo desenvolvidas por essas populações (art.
20, § 1º).
A reserva é de domínio público, sendo que as áreas particulares incluídas em seus limites devem ser,
quando necessário, desapropriadas (art. 20, § 2º). Garantem-se às populações residentes a posse e o uso
da reserva mediante contrato de direito real de uso (art. 23).
De acordo com o § 5º do art. 20, para as atividades permitidas na Reserva de Desenvolvimento
Sustentável enumeram-se as seguintes condições:

a) é permitida e incentivada a visitação pública, desde que compatível com os interesses locais e de
acordo com o disposto no Plano de Manejo da área;
b) é permitida e incentivada a pesquisa científica voltada à conservação da natureza, à melhor
relação das populações residentes com seu meio e à educação ambiental, sujeitando-se à prévia
autorização do órgão responsável pela administração da unidade, às condições e restrições por
este estabelecidas e às normas previstas em regulamento;
c) deve ser sempre considerado o equilíbrio dinâmico entre o tamanho da população e a
conservação;
d) é admitida a exploração de componentes dos ecossistemas naturais em regime de manejo
sustentável e a substituição da cobertura vegetal por espécies cultiváveis, desde que sujeitas ao
zoneamento, às limitações legais e ao Plano de Manejo da área.

Cada unidade possuirá seu conselho deliberativo, composto pelo órgão responsável pela sua
administração, representantes de órgãos públicos, de entidades da sociedade civil e da população
residente. Cabe ao conselho deliberativo aprovar o Plano de Manejo da Reserva de Desenvolvimento
Sustentável, que definirá as zonas de proteção integral, de uso sustentável e de amortecimento e
corredores ecológicos (art. 20, § 6º).

11.6.7 Reserva Particular do Patrimônio Natural


A Reserva Particular do Patrimônio Natural é uma área privada destinada à conservação da
diversidade biológica, devidamente aprovada pelo órgão ambiental competente, que verificará o
interesse público na constituição da Reserva Particular do Patrimônio Natural. Impõe-se ao proprietário
da Reserva Particular o dever de gravar a propriedade com perpetuidade (art. 20, caput), e nela são
admissíveis somente a pesquisa científica e a visitação com objetivos turísticos, recreativos e
educacionais (art. 21, § 2º).

11.7 CRIAÇÃO, AMPLIAÇÃO, TRANSFORMAÇÃO E DESAFETAÇÃO DE


UMA UNIDADE DE CONSERVAÇÃO

Para a criação de uma unidade de conservação é obrigatório, a princípio, que se efetuem estudos
técnicos e consulta pública sobre a localização, dimensão e limites da área (art. 22, § 2º).
Contudo, na instituição de Estação Ecológica ou de Reserva Biológica não é necessária a consulta
pública (art. 22, § 3º), somente os estudos técnicos.
Após esses procedimentos, para a configuração de seu aspecto formal, a unidade de conservação será
criada por ato do Poder Público (art. 22, caput), que pode ser uma lei ou, como é o habitual, por um
decreto do Chefe do Poder Executivo.
A denominação (nome) de cada unidade de conservação deverá basear-se, preferencialmente, na sua
característica natural mais significativa, ou na sua denominação mais antiga, dando-se prioridade, neste
último caso, às designações indígenas ancestrais (art. 3º, Decreto nº 4.340/2002).
Após a criação, uma unidade de conservação está passível de modificações, a saber:

a) redução ou desafetação;
b) transformação em outra espécie;
c) ampliação.

A redução ou desafetação de uma unidade de conservação somente poderá ocorrer por meio de lei
específica (art. 22, § 7º), orientação que advém da própria Constituição Federal (art. 225, § 1º, III).
Trata-se, na verdade, de situação singular no direito brasileiro, uma vez que, em regra, a norma é
revogada pela mesma espécie normativa. No caso das unidades de conservação, ao reverso, se instituída
por um decreto, somente através de uma lei específica pode ser reduzida ou desafetada.
A ampliação dos limites da unidade de conservação pode ocorrer pelo instrumento do mesmo nível
hierárquico, desde que observadas a necessidade dos estudos técnicos e a consulta pública (art. 22, § 6º).
Dessa forma, a unidade de conservação criada por decreto, pela edição de mesma espécie normativa
(novo decreto), poderá ampliar os seus limites. Essa regra (estudos técnicos + consulta pública) é
igualmente aplicável na ampliação da Estação Ecológica e da Reserva Biológica (que são criadas sem a
exigência de consulta pública). Nesse propósito decidiu o STF, a saber:

Meio ambiente. Unidade de conservação. Estação ecológica. Ampliação dos limites originais na
medida do acréscimo, mediante decreto do Presidente da República. Inadmissibilidade. Falta de
estudos técnicos e de consulta pública. Requisitos prévios não satisfeitos. Nulidade do ato
pronunciada. Ofensa a direito líquido e certo. Concessão do mandado de segurança. Inteligência do
art. 22, §§ 2º e 6º, da Lei nº 9.985/2000. Votos vencidos. A ampliação dos limites de estação
ecológica, sem alteração dos limites originais, exceto pelo acréscimo proposto, não pode ser feita
sem observância dos requisitos prévios de estudos técnicos e consulta pública (STF, MS 24.665/DF,
j. 1º.12.2004).
As unidades de conservação de uso sustentável podem ser transformadas total ou parcialmente em
unidades de conservação de proteção integral, por meio de espécie normativa do mesmo nível
hierárquico de criação e desde que se realizem os estudos técnicos e a consulta pública (art. 22, § 5º) –
regra igualmente aplicável se a transformação resultar em uma Estação Ecológica ou em uma Reserva
Biológica (art. 22, § 5º). Como exemplo, uma Reserva de Fauna, unidade de uso sustentável, pode ser
transformada total ou parcialmente em uma Estação Ecológica, unidade de proteção integral, por meio de
instrumento normativo do mesmo nível hierárquico que criou a unidade (se criada por decreto, a
transformação ocorrerá por meio da edição de outro decreto), desde que obedecidos os procedimentos
de consulta pública e estudos técnicos.

11.7.1 Limitações administrativas provisórias


O Poder Público poderá, ressalvadas as atividades agropecuárias e outras atividades econômicas em
andamento e obras públicas licenciadas, na forma da lei, decretar limitações administrativas
provisórias ao exercício de atividades e empreendimentos efetiva ou potencialmente causadores de
degradação ambiental, para a realização de estudos com vistas na criação de Unidade de Conservação,
quando, a critério do órgão ambiental competente, houver risco de dano gr