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Peri Gomes Feio, o poeta que o povo esqueceu

Cristóvam Dutra Martins, advogado provisionado, ex-


prefeito de Vitória do Mearim, já falecido, era admirador
incondicional dos grandes poetas brasileiros. Destes, recitava
poemas inteiros sem esquecer uma palavra. Dos seus
prediletos, ele sempre recitava “Versos Íntimos”, de Augusto
dos Anjos, e sempre fazia confusão com a autoria do soneto
“Samaritana”, de Vespasiano Ramos, que ele atribuía a Peri
Gomes Feio, provavelmente porque Peri - o mais sofrido e
martirizado de todos os poetas brasileiros - andou sem
descanso por estas paragens do Mearim, carregando seu
sofrimento com resignação, lembrando, em sua dor, o sofrer
do andarilho dos versos de Vespasiano: “Venho, de longe,
trêmulo, bater,/à vossa humilde e plácida cabana/ pedindo
alívio para o meu viver”.
Nascido em Rosário - MA, em 04.08.1909, e falecido em São
Luís, em data indeterminada, Peri Gomes Feio era excelente
poeta e orador. Um artista na verdadeira acepção da palavra.
Mas Peri sofria do mal-de-lázaro, doença perigosa, que
não tinha cura e que causava verdadeiro pavor, pela facilidade
do seu contágio. No período em que Peri Gomes Feio esteve
em Vitória do Mearim (1955), os leprosos eram estigmatizados
ao extremo. E não exagero ao dizer que, um pouco antes,
quando morriam, não eram enterrados no mesmo cemitério
em que se enterravam as pessoas comuns da cidade. Seus
pertences eram queimados e o local onde eles moravam
(geralmente afastado e ermo) era expurgado com sal,
apagando-se para sempre a lembrança dos mesmos da
memória dos vivos. Peri era um homem deformado
fisicamente. A terrível doença destruíra-lhe todos os dedos das
mãos e dos pés. Seu corpo, ulcerado e malcheiroso, causava
repugnância às pessoas. Cristóvam Dutra Martins conheceu
Peri Gomes Feio nesse ano, durante os festejos da padroeira
de Vitória do Mearim. O poeta chegara naquela manhã de
setembro, proveniente de São Luís, quando os fiéis católicos
deixavam a igreja, após terem assistido a Santa Missa.
O poeta, montado no jumento que o conduzira pela
dificílima estrada maranhense, encontrava-se à frente da
igreja, provavelmente rogando à Virgem de Nazaré um pouco
de “alívio” para seu viver. Ao verem-no em condições
totalmente deploráveis, as roupas desgrenhadas, manchadas
com a secreção fétida que fluía das suas feridas, as pessoas
logo se afastaram aterrorizadas. O poeta notara a repulsa dos
vitorienses. E, pacientemente, desceu do seu jumento, subiu
na calçada da igreja com dificuldade, e, como um líder
iluminado pelo dom da palavra, proferiu um comovente
discurso, que falava da sua dor, da sua solidão e tristeza, da
sua infortunada e miserável vida. As pessoas, que deixavam o
local, se aproximaram para ouvi-lo, como se, de repente, a
lepra, que causava repulsa, não existisse mais no corpo
ulcerado do poeta. Muitos derramaram lágrimas de pesar ao
ouvirem-no falar, e até jogaram esmolas para o vate
miserável. Depois disto, ele montou novamente em seu
jumento, deixando os moradores de Vitória em verdadeiro
estado de comoção.
Cristóvam Dutra Martins intensificou sincera relação de
amizade com o poeta durante o ano de 1955, em São Luís,
indo, por diversas vezes, visitá-lo no Bonfim, local onde os
leprosos da capital maranhense viviam recolhidos. Em janeiro
de 1956, o jornal O Mearim em Folha, órgão oficial de
divulgação da União Vitoriense dos Estudantes, edição nº 01
(São Luís - MA.), publica uma nota, com os seguintes dizeres:
“Avisamos aos leitores de “O Mearim em Folha” e,
especialmente, àqueles que tomaram assinatura do livro
”FARRAPO’”, da autoria de LUSSERIP, poeta homiziado no
Bonfim, que por todo este mês de fevereiro este livro literário
sairá do prelo. Agradecemos a boa vontade daqueles que,
reconhecendo a necessidade de um doente, o qual não
obstante, possui uma alma limpa, sadia e iluminada, - alma de
poeta, adquiriram uma assinatura do seu livro (...)”.
Como vimos, parece que os editores do jornal queriam
esconder a identidade do poeta, usando a palavra LUSSERIP,
como se ele carregasse no próprio nome a doença que trazia
no corpo.
Cristóvam Dutra Martins, o prefeito que adorava poesia e
fazia confusão quando tinha que citar autores, dizia-me, ao
referir-se a Peri Gomes Feio, que ele havia cumprido sua
missão naquela manhã de setembro em que visitara Vitória do
Mearim, ao dizer, em seu discurso, que o preconceito era a
verdadeira e mais cruel de todas as lepras, pois destruía a
humanidade de forma implacável, tornando-a tão perversa e
deformada que dificilmente alguém conseguia ver-lhe a
própria alma.
Do poeta Peri Gomes Feio, o Maranhão pouco sabe. O
que ele publicou - na verdade, testamento contundente e sem
fingimento de dores e de saudades por ele realmente
vivenciadas - ficou esquecido até hoje. Seus versos não são
lembrados. E sua figura, deformada pela doença que o afligia,
parece que foi eliminada para sempre da memória das pessoas
que o conheceram. Que pena! (ARIMATEA COELHO)
Fonte:
 Vitrine do Mearim - Por Arimatea Coelho / Literatura
terça-feira, 13 de novembro de 2012

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