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O CORPO-TRANS: Corpo, sujeito e mídia.


Aline de Castro

1. Corpo - dispositivo, discurso e resistência.


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"Basta eu acordar, que não posso escapar deste lugar que [Proust1] docemente,
ansiosamente, ocupa uma vez mais em cada despertar. Não que me prenda ao lugar – porque
depois de tudo eu posso não apenas mexer, andar por aí, mas posso movimentá-lo, removê-lo,
mudá-lo de lugar –, mas somente por isso: não posso me deslocar sem ele”2 (FOUCAULT,
2010). O corpo carrega um paradoxo: suas materialidades e suas subjetividades, o humano e o
não-humano, a fluidez de sua construção histórica e social. O corpo como imagem, o
Imaginário. O corpo Simbólico de onde derivam seus significantes (fala-linguagem-corpo3) e
o corpo Real, não apenas biológico, porém psíquico. O corpo-devir4 e suas possibilidades no
estar no mundo.
A palavra “corpo”, do latim córpus5 designa tudo o que tem extensão e forma; a estrutura
física do homem ou ainda “cadáver humano”. Desta forma, encontramos na etimologia da
própria palavra uma dicotomia entre o corpo-pensante e o corpo-alma. Esse contexto é
revelador de uma história do corpo que já nasce dividida em matéria e mente, tangível e
psíquico. Alguns pensadores tentaram superar essa dicotomia cartesiana e realizaram estudos
interdisciplinares sob o olhar da complexidade. As teorias antropológicas, filosóficas,
psicanalíticas, sociológicas e até mesmo etnológicas contribuíram para pensar em um corpo-
físico inseparável de sua vivência e de sua história, principalmente à partir da filosofia de
Edmund Husserl (1859-1938) e de Maurice Merleau-Ponty (1908-1961) e seus estudos em
fenomenologia.
O marco da passagem do século XIX para o XX passa pela contribuição vigorosa de
Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844-1900) e Antonin Artaud (1896-1948) e suas reflexões
acerca do corpo, propondo o “avesso da representação” (GREINER, 2005). Posteriormente,
Derrida atribuí novos sentidos ao pensamento de Nietzsche e Artaud, trazendo a proposta de
um novo corpo. “Começava uma mudança radical cujo foco cognitivo estaria sempre na
fissura, nas fendas, nos entremeios e não nas partes organizadas de um todo

1 1 A recuperação do corpo no processo do acordar é um tema recorrente na obra de Marcel Proust


2Fragmento extraído do livro El cuerpo utópico. Las heterotopías e traduzido pelo CEPAT - Centro de Pesquisa e Apoio
aos Trabalhadores
3 Referência ao texto “Função e Campo da Fala” escrito por Lacan em 1953
4 Referência ao livro Mil Platôs. Deleuze, Gilles.; Guattari, Félix. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1996.
5 Dicionário de Português Online Michaelis
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monolítico” (GREINER, 2005: 24). Neste sentido, Marcel Mauss (1872-1950) contribuiu com
diferentes reflexões acerca do corpo, em sua obra “Técnicas do Corpo” (1950). “O corpo é o
primeiro e o mais natural instrumento do homem. Ou mais exatamente, sem falar em
instrumento, o primeiro e mais natural objeto técnico e ao mesmo tempo meio técnico do
homem é seu corpo” (MAUSS, 1974: 217). Seriam essas técnicas corporais adaptações do
corpo que produzem algo à partir do próprio corpo? Deste modo, podemos pensar neste corpo
inscrito na contemporaneidade à partir de seu uso. No deslocamento da técnica do corpo para
a tecnologia, na produção de sentido do corpo à partir da tecnologia, sobretudo na forma
como a mídia produz significados para os corpos dos sujeitos, o corpo-espetáculo. Mas
estaríamos falando de tecnologias corporais resultado da criação humana com o objetivo de
criar extensões de si mesmo, como defendia McLuhan (1964) ou haveria uma produção de
sentido no “discurso acerca do corpo” e a relação com seu contexto, inclusive nas práticas
não-discursivas, naquilo que Foucault (1975) chamou de biopolítica6 e de biopoder7. Podemos
assim, pensar no corpo enquanto dispositivo8, inserido em estratégias disciplinares e de
controle e a relação desse corpo com as estruturas de poder e os discursos do corpo. E a
subjetivação que é operada através deste dispositivo.
Desta forma, devemos pensar esse corpo inscrito em um contexto histórico, social e
cultural que convoca reflexões acerca dos discursos do corpo, confrontos e resistências, fluxos
e regulações, para que possamos problematizar o corpo-trans e sua subjetivação no contexto
midiático e principalmente, quais discursos o empreendem nas condições de produção da
mídia.
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2. Corpo - mídia, saber-poder e subjetivação
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A mídia atua na esfera dos micropoderes quase de forma invisível, exercendo uma forma
de controle social. Esse poder simbólico exercido pela mídia se constrói na produção,
transmissão e recepção do significado das formas simbólicas.
Neste contexto, a mídia atua como difusora destes bens simbólicos ampliando o raio da
difusão das informações no processo de recepção. Essa mediação se inscreve em um contexto
discursivo, na qual, muitas vezes, o próprio sujeito é apresentado como objeto de um saber
possível9, de forma que a representação é um processo cultural, multiplicador de identidades e
sistemas simbólicos.

6 Este termo “[...] designa a maneira pela qual o poder tende a se transformar, entre o fim do século XVII e o começo do
século XIX, a fim de governar não somente os indivíduos por meio de um certo número de procedimentos disciplinares,
mas o conjunto dos viventes constituídos em população: a biopolítica – por meio dos biopoderes locais – se ocupará,
portanto, da gestão da saúde, da higiene, da alimentação, da sexualidade, da natalidade etc., na medida em que elas se
tornaram preocupações políticas.” (REVEL, 2005, p.26)
7 O poder inscrito na biopolítica
8 Conceito apresentado por Michel Foucault a partir do livro “História da Sexualidade”.
9 Referência ao processo de subjetivação e objetivação discutida por Foucault.
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A questão da identidade de gênero, com o recorte das transexualidades abre um campo de
inúmeros discursos em disputa, marginalizado pelas estruturas de poder e pelas práticas
institucionais através dos “discursos de verdade”, produzindo um efeito coercitivo nestas
mesmas práticas discursivas.
É a partir da “História da Sexualidade” (1988) que Foucault identifica os dispositivos que
permitem a compreensão da sexualidade como "tecnologias positivas e produtivas, e não
como resultado negativo de tabus, repressões, proibições legais”. (PRECIADO, 2014: 89).
Estas tecnologias da sexualidade são, de acordo com Foucault: “a histerização do corpo da
mulher, a pedagogização do sexo da criança, a socialização das condutas procriadoras e a
psiquiatrização do prazer perverso”. (PRECIADO, 2014: 89). O autor pretendia “buscar as
instâncias de produção discursiva (que, evidentemente, também organizam silêncios), de
produção de poder (que, algumas vezes têm a função de interditar), das produções de saber (as
quais, frequentemente, fazem circular erros ou desconhecimentos
sistemáticos);” (FOUCAULT, 1988: 19). O projeto de Foucault evidenciou que o "poder é
vinculado à história e a modos de historicização” (BUTLER, 2002: 55) e possui estruturas de
poder difusas e produtivas. Desta forma, “a produção do discurso é ao mesmo tempo
controlada, selecionada, organizada e redistribuída por certo número de procedimentos que
têm por função conjurar seus poderes e perigos, dominar seu acontecimento aleatório,
esquivar sua pesada e temível materialidade”. (FOUCAULT, 2014: 8) e ainda “o discurso não
é simplesmente aquilo que traduz as lutas ou os sistemas de dominação, mas aquilo porque,
pelo que se luta, o poder do qual nos queremos apoderar”. (FOUCAULT, 2014: 8).
Neste contexto, os meios de comunicação têm um papel significativo na produção e
distribuição de material simbólico para os indivíduos. Portanto, o discurso acerca do corpo
"da mulher” ou “do homem”, será o único possível nesta matriz heteronormativa de onde
partem os fluxos midiáticos na produção de sentidos.
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3. Corpo - análise do discurso e construções identitárias
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A discussão sobre o corpo-trans e o gênero que ele performa10 e por conseguinte,
representa, advém de um complexo de formações discursivas hegemônicas de identidade
social. O corpo-trans, portanto, é a lembrança de que não existe a forma certa de ser homem
ou mulher.
O discurso sobre o corpo-trans e a transexualidade se inscreve nos sentidos que se tece
sobre esses sujeitos, de tal forma que são atravessados pela experiência social e subjetiva
como identidades abjetas que constituem vidas precárias (inspirada na expressão de Hannah
Arendt).
O sujeito transexual, representado sobretudo por seu corpo trans, inserido em seu
processo de subjetivação, aos agenciamentos coletivos, as (des) reterritorialização, aos

10Referência ao conceito de “performatividade" de Butler, na qual o sujeito é um construto performativo inserido em


um contexto de diferentes modos de construir a própria identidade.
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assujeitamentos próprios da construção das identidades sociais, faz um percurso à margem,
assumindo uma posição de resistência, irrompendo com norma, fazendo circular fluxos de
sentido que reorganizam os saberes e sua objetivação. Constrói, desta forma, seu modo de
subjetivação à partir de relações intersubjetivas que se convergem na reinvenção criativa de
sua própria subjetividade. O discurso midiático interpelado pela ideologia hegemônica nos
convida à refletir sobre este lugar de onde se fala, regulador de sentidos. Portanto, nesta
disputa de poder amparada pelos discursos de verdade, a tensão se dá nas práticas sociais de
resistência que reclamam novas formas de organização das formações discursivas.
Para além do que é enunciado nos objetos midiáticos, podemos nos aprofundar nos
silenciamentos para refletirmos o debate da violência, do preconceito, dos enfrentamentos
diários que fazem parte do contexto de vida das transexuais. Se a prática discursiva, produtora
de significantes, não pertence à todos os corpos, então este contrato social11 não é justo e os
corpos não são equivalentes. E este corpo-trans tem a expectativa de vida em torno de 30
anos12. Até o final da leitura deste artigo, 72 transexuais tiveram suas vidas ceifadas pela
transfobia.

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11 Conceito discutido em Bordieu.


12Estimativas da Articulação Nacional das Travestis, Transexuais e Transgêneros (Antra) apontam que a expectativa de
vida das travestis fica em torno de 30 anos, devido às condições a que são submetidas.
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