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P o r t u g u ê s • E s p a n h o l • F r a n c ê s • I n g l ê s

A cosmologia única de
Gênesis 1
De onde vêm os
seres humanos?
Cuidar do meio
ambiente: um assunto
divino e nosso também
Liderar: agir de maneira
responsável e ética.

1
Vo l u m e 2 8
CO NTE Ú DO
REPRESENTANTES REGIONAIS

ARTIGOS SEÇÕES
DIVISÃO AFRICANA CENTRO - ORIENTAL
P.O. Private Bag 00503 Mbagathi, Nairobi, QUÊNIA
Andrew Mutero muteroa@ecd.adventist.org
Magulilo Mwakalonge

06 A cosmologia única de
mwakalongem@ecd.adventist.org
03 EDITORIAL
DIVISÃO EURO -ASIÁTICA
Krasnoyarskaya Street 3, 107589 Moscou, RÚSSIA
Gênesis 1 Você terá amigos no Céu?
Vladimir Tkachuk vtkachuk@ead-sda.ru A narrativa da criação no Gênesis por Lisa M. Beardsley-Hardy
Kasap Gennady gkasap@ead-sda.ru apresenta não somente o registro
DIVISÃO INTER AMERICANA verídico das origens, mas, ao 24 PERFIL
P.O. Box 830518, Miami, FL 33283-0518, E.U.A.
descrevê-lo, traz inúmeras Paul Chibuike Anonaba
Gamaliel Florez gflorez@interamerica.org Entrevistado por Ugochukwu
Al Powell powellal@interamerica.org salvaguardas contra a mitologia. O
Elems
DIVISÃO INTEREUROPEIA relato utiliza determinados termos
Schosshaldenstrasse 17, 3006 Bern, SUÍÇA e motivos, empregando-os com 27 PONTO DE VISTA
Marius Munteanu
marius.munteanu@eud.adventist.org significado e ênfase expressivos As distrações podem levar
Stephan Sigg stephan.sigg@eud.adventist.org com relação à cosmovisão bíblica, à destruição: Lições de
DIVISÃO NORTE-AMERICANA à compreensão da realidade e à Maria e Marta
12501 Old Columbia Pike, Silver Spring, MD por Junjun Manalo Amparo
20904-6600, E.U.A.
cosmologia da revelação divina.
por Gerhard F. Hasel e
Larry Blackmer larry.blackmer@nadadventist.org
Tracy Wood tracywood@nadadventist.org Michael G. Hasel
29 LOGOS
Paul Anderson paulanderson@nadadventist.org Sinta o poder
por Homer W. Trecartin

12 Liderar: Agir de maneira


DIVISÃO NORTE-ASIÁTICA DO PACÍFICO
P.O. Box 43, Koyang Ilsan 411-600, COREIA
Richard Saubin richard.saubin@nsdadventist.org responsável e ética 31 EM AÇ ÃO
Nak Hyujg Kim youth@nsdadventist.org Reflexionando ))))) ando
Lições da vida de Saul [Reflexões]: Uma rádio
DIVISÃO SUL-AMERICANA A vida de Saul foi registrada nas adventista transmitindo em
Caixa Postal 02600, Brasília, 70279-970 DF, BRASIL
Edgard Luz edgard.luz@adventistas.org.br Escrituras, não para decidirmos um campus universitário
Carlos Campitelli seu destino eterno, mas para não adventista
carlos.campitelli@adventistas.org.br por Natalia Garzón
aprendermos a enfrentar os
DIVISÃO DO PACÍFICO SUL desafios. A vida de Saul, como
Locked Bag 2014, Wahroonga, N.S.W. 2076,
líder, ilustra alguns dos erros
33 PER SPEC TIVA
AUSTRÁLIA Sendo gratos, mesmo
Carol Tasker caroltasker@adventist.org.au éticos mais comuns de liderança. quando as coisas dão
Nick Kross nkross@adventist.org.au
por Lowell C. Cooper errado
DIVISÃO SUL-AFRICANA E DO por Sandra Janet Birungi

16
OCEANO ÍNDICO
P. O. Box 4583 Rietvalleirand 0174, ÁFRICA DO SUL De onde vêm os seres
Mozecie Kadyakaita kadyakapitamsj@gmail.com humanos? 34 LIV ROS
Busi Khumalo khumalob@sid.adventist.org He Spoke and It Was:
A compreensão criacionista da Divine Creation in the Old
DIVISÃO SUL-ASIÁTICA
P. O. Box 2, HCF Hosur, 635 110 Tamil Nadu, ÍNDIA Bíblia, segundo a qual os seres Testament
R. N. Prabhu Das prabhudasrna@sudadventist.org humanos são o produto de um ato Revisado por Phodidas
Mohan Bhatti mmbhatti@rediffmail.com
divino de criação especial, conflita Ndamyumugabe
DIVISÃO SUL-ASIÁTICA DO PACÍFICO com a hipótese evolucionista de
P.O. Box 040, 4118 Silang, Cavite, FILIPINAS
Lawrence Domingo ldomingo@ssd.org uma descendência modificada a
Jobbie Yabut jyabut@ssd.org partir de ancestrais primatas. Este
DIVISÃO TR ANSEUROPEIA capítulo revê e discute a evidência
119 St. Peter’s St., St. Albans, Herts, AL13EY,
INGLATERRA
fóssil relativa às origens humanas.
Daniel Duda dduda@ted-adventist.org por Ronny Nalin
Janos Kovacs-Biro jkovacs-biro@ted-adventist.org

20
DIVISÃO AFRICANA CENTRO - OCIDENTAL Cuidar do meio ambiente:
22 Boîte Postale 1764, Abidjan 22,
COSTA DO MARFIM
Um assunto divino e nosso
Juvenal Balisasa balisasa@icloud.com
N. John Enang njenang2000@yajoo.co.uk
também
Deus vislumbra um futuro ecológico.
No entanto, é um futuro que
depende da nossa gestão ambiental.
por John Wesley Taylor V

2 DIÁLOGO UNIVERSITÁRIO 28.1 ANO 2016


E D ITO R I A L
Esta revista internacional de fé, pensamento e
ação é publicada três vezes ao ano, em cinco

VOCÊ TERÁ
edições paralelas (português, espanhol, francês,
inglês e italiano), sob o patrocínio da Comissão de
Apoio a Universitários e Professionais Adventistas
(Caupa), organismo da Associação Geral dos
Adventistas do Sétimo Dia.

AMIGOS NO CÉU? Volume 28, Número 1


Copyright © 2016 pela CAUPA.
Todos os direitos reservados.
Diálogo Universitário afirma as crenças
fundamentais da Igreja Adventista do
Sétimo Dia e apoia a sua missão. Entretanto,

A
os pontos de vista publicados na revista
pergunta é feita tendo em vista a parábola do administrador representam o pensamento independente
dos autores.
desonesto (Lucas 16:1-10) que foi nomeado como mordomo por
Editorial
um homem muito rico para cuidar de sua grande propriedade. Editora-Chefe Lisa M. Beardsley-Hardy
Quando o homem rico suspeitou que seu administrador não Editores Associados John M. Fowler, Hudson
E. Kibuuka
era totalmente honesto, o mordomo passou a tomar medi- Coordenadoras da Área Editorial: Valérie
das de autoproteção e começou a abater o endividamento de outros para Moorooven e Susan Araya
comprar sua segurança e benevolência no futuro. O dinheiro que ele estava Revisoras: Karina C. Deana (português)
Beverly Rumble (English)
descontando não era dele, mas correu o risco confiando que a estima que Editor da Resenha de Livros: Aleksandar Santrac
ele estava conquistando dos credores de seu senhor iria garantir sua proteção Diagramadora Claudia Suzana R. Lima
mais tarde. Para benefício pessoal, ele, secreta e sistematicamente, transferia Correspondência Editorial
Diálogo
o dinheiro equivalente para a sua própria conta, que mantinha oculta. 12501 Old Columbia Pike
O administrador desonesto, dessa forma, ganhou “novos” amigos. Silver Spring, MD 20904-6600 E.U.A
Entretanto, por quanto tempo você acha que esses “amigos” o acolheram Telefone +1 301-680-5073/5065
Fax 301-622-9627
em casa depois que ele perdeu o cargo de administrador? Mesmo que E-mail mooroovenv@gc.adventist.org
fosse por anos, os benefícios de tais amizades não são transferidos para a (Inglês e Francês)
arayas@gc.adventist.org
eternidade. Eles são apenas para esta vida. (Espanhol e Português)
O capítulo anterior de Lucas relata que o filho pródigo também tinha Comissão CAUPA
Presidente Thomas L. Lemon
amigos. Eram amigos enquanto ele tinha o que eles desejavam. Assim que Vice-presidentes Abner de los Santos,
o dinheiro acabou, os “amigos” desapareceram. Eles não eram amigos de Geoffrey G. Mbwana, Ella S. Simmons
Secretário Mario E. Ceballos
verdade, tanto quanto ele tinha sido para com eles. No final, ele foi deixa- Secretários Associados Lisa M. Beardsley-
do com fome e sozinho, a não ser pela companhia dos suínos. Os amigos Hardy, Gilbert R. Cangy
Secretario Assistente Jiwan S. Moon
de filhos pródigos e de administradores desonestos não duram muito. Assistente Legal Thomas E. Wetmore
Vogais Ganoune A. Diop, Falvo Fowler,
Nesse contexto, Jesus faz uma declaração contundente: “Eu digo: Usem a Hudson E. Kibuuka, Linda Mei Lin Koh, Peter
riqueza deste mundo ímpio para ganhar amigos, de forma que, quando ela N. Landless, Faith-Ann A. McGarrell, Anthony
Kent, Anthony Bowman, Tracy Wood, Lydia
acabar, estes os recebam nas moradas eternas” (Lucas 16: 9). O que Ele quer Muwanga, Valérie Moorooven, Justin Kim,
Susan Araya, Clinton L. Wahlen, Gabriel Begle
dizer com isso? Por certo, Ele não está dizendo que as moradas no Céu podem
Correspondência sobre circulação: Deve
ser adquiridas por meio de astutas relações terrenas: a salvação não está à venda ser dirigida ao Representante Regional da
e nem é para os que se acham espertos. O Céu é um dom gratuito, mas Jesus Caupa na região em que reside o leitor. Os
nomes e endereços desses representantes
escolheu confiar Seus bens a você e a mim. A riqueza a nós confiada deve ser encontram-se na página 2.
utilizada de forma responsável; qualquer uso desonesto pode levar-nos a fazer Website: http://dialogue.adventist.org
apenas amigos temporários, mas você não será permanentemente bem-vindo Impressão e Acabamento: Casa Publicadora
na casa de nenhum deles, nem em seu coração. Jesus insiste que administremos Brasileira 9519/34896
as coisas deste mundo com os olhos na eternidade. Citações Bíblicas: Salvo outra indicação, todas as
passagens das Escrituras foram extraídas da Bíblia
A parábola nos lembra que devemos usar nossos bens com cautela, tanto Sagrada na Nova Versão Internacional (NVI), Copyright
© 2002, pela Sociedade Bíblia Internacional. Usada
o dinheiro, como a posição ou poder, porque nada na Terra vai durar para com permissão. Todos os direitos reservados.
sempre. As coisas que possuímos, como contas bancárias, bens, educação, Outras indicações: As passagens das Escrituras creditadas
à ARA, foram extraídas da versão Almeida Revista e
tecnologia ou liderança, não nos pertencem mais que os bens do patrão Atualizada, Segunda Edição, Sociedade Bíblica do Brasil.
Usada com permissão. Todos os direitos reservados.
pertenciam ao administrador. Somos mordomos de tudo o que Deus nos As passagens das Escrituras creditadas à ACF foram
dá e, como tal, devemos agir com inteligência, prudência, discernimento extraídas da versão Almeida Revista e Corrigida Fiel, na
grafia simplificada, 1962. Imprensa Bíblica Brasileira,
espiritual e, é claro, com bom senso. A plena consciência do carácter tem- Rio de Janeiro, RJ. Usada com Permissão. Todos os
direitos reservados.
porário das coisas materiais deve gerar uma sensação de finitude, humil- As passagens das Escrituras creditadas à NTLH foram
dade e modéstia com relação ao que temos e fazemos. Como sabemos que extraídas da Bíblia Sagrada na Nova Tradução na
Linguagem de Hoje. Sociedade Bíblica do Brasil. Usada
o nosso dinheiro, em algum momento, poderá acabar, devemos desviar a com permissão. Todos os direitos reservados.

28.1 ANO 2016 DIÁLOGO UNIVERSITÁRIO 3


nossa atenção para longe do dinheiro, ou de qual- As quatro parábolas registradas em Lucas 15 e 16
quer outra coisa que temos aqui, para um tipo de levantam uma questão fundamental com relação a
,
riqueza que é duradoura e eterna. amarmos este mundo mais do que a Deus. Será que
Para aqueles que têm a eternidade como alvo, tudo o que o nosso amor por Ele nos leva a seguir o exemplo do
possuem e fazem é pensando na inimaginável recepção de homem que perdeu uma ovelha, da mulher que per-
boas-vindas de Jesus: “Muito bem, servo bom e fiel! Você deu uma moeda e do pai que pensava ter perdido seu
foi fiel no pouco, Eu o porei sobre o muito; venha e parti- filho? Se assim for, usemos o nosso tempo e influên-
cipe da alegria do seu Senhor!” (Mateus 25:21). cia para ajudar a encontrar as pessoas perdidas.
Grande é a alegria do nosso Mestre quando toma- Vamos distribuir as dádivas de nosso Mestre com
mos parte no resgate de outros. Não há maior satis- toda a generosidade, compartilhando-as liberalmente
fação do que ser instrumentos na salvação de outra com os outros. Dessa forma, teremos muitos amigos no
pessoa. Este mundo não vai durar muito tempo Céu e seremos contados também entre os fiéis, no final.
mais, mas as pessoas que levarmos conosco para o
reino de Deus vão viver para sempre e ser uma fonte
de alegria sem fim para nós e para os outros. Essas
pessoas são a nossa única riqueza verdadeira.
Não devemos ficar desanimados se nossos esforços
não produzem resultados rápidos. Ninguém poderia ter
trabalhado com mais sabedoria do que Jesus e, mesmo
assim, alguns o seguiram por razões relativamente
superficiais. Haverá sempre aqueles que vivem apenas
para esta vida sem terem como referência a eternidade.
Assim, após ter dito isso, devo lembrar quantas
oportunidades para influenciar as pessoas tem cada
estudante cristão que cursa uma faculdade ou univer-
sidade. Isso não deve ser subestimado. Um estudante
pode influenciar os colegas e professores de forma tão
especial, como ninguém mais poderia fazê-lo; talvez
silenciosamente, ou de alguma outra maneira que não
sabemos. O Espírito Santo vai dirigir. O fato é que Lisa M. Beardsley-Hardy
cada pessoa tem uma esfera única de influência. Editora-Chefe

ASSINE DIÁLOGO
Você quer ser um pensador e não mera- ESCREVA-NOS!
mente um refletor do pensamento de
outras pessoas? A Diálogo continua-
rá a desafiá-lo a pensar criticamente, Seus comentários, reações
e perguntas são bem-vindos.
como um cristão. Fique em contato
Escreva para:
com o melhor da ação e do pensamento
adventista ao redor do mundo. Se você
deseja solicitar a assinatura da Diálogo, Susan Araya (espanhol ou português)
seja em espanhol, francês, inglês ou arayas@gc.adventist.org
português, escreva para Linda Torske:
Valérie Moorooven (francês ou inglês)
torskel@gc.adventist.org
mooroovenv@gc.adventist.org
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4 DIÁLOGO UNIVERSITÁRIO 28.1 ANO 2016


Mudanças na Diálogo
A partir desta edição, a Diálogo passou pelas
seguintes mudanças em sua equipe editorial.
Lisa M. Beardsley-Hardy
Editora-Chefe da Revista Diálogo

JOHN WESLEY TAYLOR V, PhD, EdD, diretor associado do Departamento de Educação da


Associação Geral e editor da Diálogo desde 2010, pediu demissão do cargo de editor para
dar mais atenção às suas responsabilidades como presidente do conselho de The Journal of
Adventist Education e à responsabilidade recentemente assumida de converter essa revista e
também a Diálogo em versões digitais, fazendo com que a riqueza dessas publicações esteja
prontamente disponível, sem custo, para todo o mundo. Somos gratos por suas contribui-
ções valiosas e clara visão na edição da revista e ficamos aguardando que envie de vez em
quando seus artigos estimulantes e enriquecedores para serem publicados na Diálogo.

HUDSON KIBUUKA, DEd, diretor associado do Departamento de Educação da Associação


Geral desde 2010, é o novo editor da Diálogo, na companhia de John M. Fowler. Juntos,
irão trabalhar com Lisa M. Beardsley-Hardy, diretora do Departamento de Educação da
Associação Geral e editora-chefe da Diálogo. Formado pela Universidade de Makerere, em
Uganda, e pela Universidade da África do Sul, o Dr. Kibuuka lecionou na Universidade de
Makerere e entende as alegrias e desafios da vida em um grande campus universitário públi-
co. Há muitos anos vem trabalhando ativamente na formação de estudantes que atuam no
ministério de campus público (agora denominado Ministério para Universitários e Jovens
Profissionais Adventistas). Seu e-mail: kibuukaH@gc.adventist.org

VALÉRIE MOOROOVEN, a nova editora-chefe da Diálogo, vem da França. Ela vai ajudar
no gerenciamento da edição e produção da revista. A formação acadêmica de Valérie inclui
Diplôme d’Etudes Universitaires Générales en Sciences de la Nature et de la Vie, um diploma uni-
versitário pelos dois anos em Ciências Naturais (1993); Diplôme d’Etat d’Assistante Sociale, um
diploma do Estado pelos três anos em Assistência Social (1998); e um Certificado de Inglês
Avançado pela Universidade de Cambridge (2012). Antes de se unir à equipe da Diálogo, Valérie
trabalhou como assistente social em Reunion Island; foi tradutora de inglês-francês e assisten-
te administrativa na Associação-União do Oceano Índico, em Madagáscar. Durante os últimos
oito anos, foi professora do ensino fundamental numa escola francesa em Pretória, África do
Sul. Seu e-mail: mooroovenv@gc.adventist.org.

SUSAN AR AYA, doutoranda em agronomia pela Universidade Estadual de Brasília, Brasil,


une-se à Diálogo como editora em gestão conjunta para cuidar da coordenação editorial
e publicação da revista nas versões em espanhol e português. De seu bacharelado a seus
estudos de doutorado, sempre manteve uma clara visão da sondagem e estudo de um dos
grandes presentes de Deus para a humanidade: o mundo das plantas. Graduou-se como
bacharel em Engenharia e Ciências Agronômicas. Seu mestrado foi na produção de plantas,
e sua especialidade no doutorado é em agronomia e produção sustentável. Ela vem do Chile,
mas já trabalhou em vários países da América do Sul como professora, pesquisadora, geren-
te de uma estação de agronomia experimental no Chile, educadora ambiental e professora
de genética e reprodução de plantas. Nos últimos seis anos, administrou e trabalhou como
editora de textos para o Departamento de Tradução da Divisão Sul-Americana, no Brasil. Seu
e-mail: arayas@gc.adventist.org.

28.1 ANO 2016 DIÁLOGO UNIVERSITÁRIO 5


A RTI GO

A COSMOLOGIA ÚNICA
DE GÊNESIS 1
A narrativa da criação no Gênesis apresenta não somente o registro verídico
das origens, mas, ao descrevê-lo, traz inúmeras salvaguardas contra a
mitologia. O relato utiliza determinados termos e motivos, empregando-os
com significado e ênfase expressivos com relação à cosmovisão bíblica, à
compreensão da realidade e à cosmologia da revelação divina.

GERHARD F. HASEL e MICHAEL G. HASEL

O
s capítulos iniciais da existência do mundo e da vida são todas, a concepção do mundo de todo
Bíblia (Gênesis 1-11) expressas no tempo e no espaço. o ritmo cíclico da mitologia pagã e da
contêm o relato de como Hoje, muitos acreditam que é des- especulação da metafísica antiga. Este
tudo começou, com o necessário se envolver em um diálogo mundo, sua vida e história não depen-
foco nos começos natu- sobre a discussão bíblica da criação dem do ritmo cíclico da natureza, pois
rais e históricos, e na história subse- e da busca científica para entender o foi trazido à existência como um ato
quente do mundo e da humanidade.1 mundo e a humanidade. Entretanto, da criação por um Deus transcendente.
Embora isso seja importante em si mesmo, esse diálogo e interação não são somen- A segunda afirmação é a de que
passa a ter maior significado quando se te desejáveis, eles são também essen- Deus é o Criador. Como Deus, Ele
reconhece que o relato da criação em ciais. As ciências podem lidar apenas é completamente separado e inde-
Gênesis é sem rival. Em lugar algum, no com as esferas parciais do conheci- pendente da natureza. Na verdade,
antigo Oriente Próximo ou no Egito, há mento, mas não das totalidades. Deus continua a agir na natureza,
algo semelhante registrado. As palavras Essa totalidade é revelada já no pri- mas Ele e a natureza são separados
específicas para Criador, criação e criatura meiro versículo da Bíblia: “No prin- e não podem, jamais, ser igualados
– relacionadas a Deus, mundo e humani- cípio Deus criou os céus e a Terra” a alguma forma de emanacionismo
dade, em Gênesis 1 e 2 – definem todo o (Gênesis 1:1).2 Essa simples frase faz ou panteísmo. Isso está em contraste
tom da maravilhosa e singular mensagem quatro afirmações básicas, completa- com os conceitos egípcios nos quais
salvífica apresentada na Bíblia. mente novas e profundas, na busca Atum, o deus criador, é ele mesmo o
do homem por uma compreensão da principal monte do qual surgiu toda
A COSMOLOGIA DA origem do mundo e de si mesmo.3 a vida na cosmologia de Heliópolis,
TOTALIDADE DO GÊNESIS A primeira afirmação declara que ou onde, em outra tradição, Ptah está
O relato da criação em Gênesis Deus fez o céu e a Terra “no princí- associado à “terra que se eleva” na
traz a primeira concepção do mundo pio”. Houve então um tempo em que teologia de Mênfis. Nas cosmologias
e da humanidade como totalidades, este Globo e os céus atmosféricos não egípcias, “tudo está contido dentro
desde o seu início. Ninguém expe- existiam. Nas mitologias antigas do da mônada inerte, até mesmo o deus
rimenta e “conhece” a humanida- Oriente Próximo, a Terra não teve criador”.4 No Egito, não há separação
de em sua totalidade. Na criação começo, e no pensamento filosófico entre Deus e a natureza.
bíblica, porém, essas realidades são grego, o mundo existiu desde a eterni- A terceira afirmação declara que
expressas em sua totalidade como dade. Entretanto, pelo uso da expres- Deus atuou no fiat da criação. O
sendo originárias do Criador. As são “no princípio”, a cosmologia do verbo específico para “criar”, bara’, tem
totalidades do mundo criado por Gênesis estabelece um início absoluto somente Deus como seu sujeito em
Deus e o que nele há retratam para a criação. A expressão prenhe, “no toda a Bíblia. Isto é, na língua hebraica,
como a origem e a continuidade da princípio”, desassocia, de uma vez por ninguém pode bara’, a não ser Deus.

6 DIÁLOGO UNIVERSITÁRIO 28.1 ANO 2016


Somente Deus é o Criador, e ninguém dela está o céu e embaixo está o mundo Embora hoje estejamos livres da cos-
mais pode compartilhar dessa atividade subterrâneo”,5 composto pelo inferno, mologia ptolomaica, um grande núme-
especial. O verbo bara’ nunca é emprega- o lugar de tormento. Outros eruditos ro de estudiosos da Bíblia ainda anali-
do com a matéria ou “coisas”, a partir das modernos acreditam que a cosmologia sam a cosmologia bíblica sob as lentes
quais Deus cria; ele contém – juntamente do Antigo Testamento retrata literal- do que eles acreditam ser as cosmolo-
com a ênfase da frase “no princípio” – a mente essa imagem de um universo gias pagãs do antigo Oriente Próximo
ideia da criação a partir do nada (creatio de três andares, com depósitos físicos e do Egito. Em última análise, essas
ex nihilo). Como a Terra está descrita em de água, câmaras de neve acumuladas ideias estão baseadas numa interpre-
seu estado bruto de desolação e com- pelo vento e janelas, tendo uma cober- tação equivocada de certas passagens
pletamente vazia, no verso 2, a palavra tura em forma de abóboda como um bíblicas. É importante reconhecer que
criou, no primeiro verso de Gênesis, céu sobre uma terra plana, no centro é relativamente recente a alegação de
significa o chamado da matéria original da qual está um umbigo, com águas que a cosmologia bíblica é mitológica.
à existência na fundação do mundo. debaixo da terra e rios que saem do No entanto, a Bíblia, quando apropria-
A quarta afirmação tem a ver com mundo subterrâneo. Essa cosmologia da e honestamente interpretada em
o objeto da criação, a matéria que é mitológica agora está desatualizada, seus próprios termos, é, de fato, acei-
trazida à existência por criação divina, escreveu Bultmann. As pessoas hoje tável à mente moderna e não apresenta
ou seja, “os céus e a Terra”. Essas pala- não podem acreditar nessa cosmolo- essa forma de cosmologia que é tão
vras, “os céus e a Terra”, em hebraico, gia mitológica, enquanto, ao mesmo amplamente a ela atribuída.
são os sinônimos para o termo cos- tempo, voam em aviões a jato, nave-
mos por nós usado. Um estudo mais gam na internet e usam smartphones. O CONCEITO BÍBLICO DE
aprofundado das 41 formas de uso No pensamento moderno, isso deixa COSMOLOGIA
da frase “o céu e a Terra” revela que margem para apenas duas alternativas: A noção generalizada de que a cos-
elas não significam que Deus criou (1) aceitar a concepção mitológica do mologia bíblica reflete a imagem pagã
todo o Universo, já com os milhares mundo, ao preço do sacrifício intelec- de um universo de três andares tem
de galáxias, na ocasião em que Ele tual, ou (2) abandonar a cosmologia lançado a sua sombra de forma bastan-
criou o mundo. O foco permanece no bíblica e adotar, seja lá qual for, a últi- te abrangente. Fica, porém, a dúvida se
planeta Terra e em seus arredores mais ma teoria científica. realmente as cosmologias mitológicas
ou menos próximos. As ideias ele- Ambas as alternativas, porém, são antigas tinham claramente definida a
vadas expressas nesse primeiro verso falsas. Depois de cuidadosa investi- noção de um universo de três andares.
da Bíblia definem o rumo de toda a gação, acaso encontraremos na Bíblia A visão dos antigos egípcios na teolo-
cosmologia de Gênesis. alguma evidência desse universo de gia menfita era de que o lugar perma-
três andares? A Bíblia apoia a ideia nente dos mortos ficava no oeste. Na
AS INTERPRETAÇÕES ATUAIS de um universo geocêntrico? Ao con- AmDuat [Reino dos Mortos] do Novo
DA COSMOLOGIA BÍBLICA trário, a Bíblia está centralizada no Reino, o falecido era engolido com o Sol,
É amplamente aceita a crença de que inter-relacionamento entre Deus e a pela deusa do céu, Nut, no ocidente, via-
a cosmologia bíblica é um mito que humanidade. No Antigo Testamento, java durante as 12 horas da noite e surgia
descreve um universo de três andares Deus é o centro de tudo, mas não no com o Sol no paraíso, passando por
com um céu acima, uma terra plana no centro físico. A Bíblia não dá nenhu- uma regeneração e recriação, diariamen-
meio e o mundo dos mortos embaixo. ma informação sobre um centro físi- te. Na mitologia cananeia, a divindade
Se essa interpretação for associada com a co. De acordo com os seus escritos, o suprema, El, tinha seu trono próximo às
suposição de que a Bíblia apoia a ideia de Sistema Solar poderia ser geocêntrico, “fontes dos Dois Rios, no meio do leito
um universo geocêntrico, ou “centrado heliocêntrico ou de outra forma. dos Dois Abismos”,6 significando que os
na Terra”, então ela parece estar mesmo De onde vem a interpretação de que deuses nem sempre habitam nos céus ou
irremediavelmente ultrapassada. Por a Bíblia apresenta uma imagem geo- no andar superior de um suposto univer-
isso, muitos estudiosos modernos estão cêntrica? Essa ideia surgiu nos tem- so de três andares. O deus cananeu Baal,
convencidos de que a cosmologia bíblica pos pós-Novo Testamento, quando que infelizmente também foi algumas
é histórica e culturalmente condiciona- os principais teólogos adotaram a cos- vezes adorado pelos israelitas, tinha seu
da, refletindo uma cosmologia primitiva mologia greco-ptolomaica do segundo lugar de habitação no alto do monte
e desatualizada do mundo antigo. Eles século d.C. e interpretaram a Bíblia Zafon, norte da Síria, na desembocadura
alegam que a cosmologia bíblica deveria com base nesse conceito antibíblico. do Rio Orontes.
ser abandonada e substituída por uma O famoso julgamento de Galileu, no Tais exemplos deixam claro que
que seja atual e científica. século 17, poderia ter sido evitado se não havia nenhuma antiga imagem
Rudolf Bultmann, um estudioso do os teólogos da igreja tivessem reconhe- mítica uniforme de um universo de
Novo Testamento, escreveu há algumas cido que a interpretação que faziam três andares. O conceito é totalmente
décadas que, no Novo Testamento, “o de determinados textos da Bíblia era ausente na cosmologia bíblica.
mundo é como um prédio de três baseada na cosmologia do matemático A palavra original para “abismo”,
andares. No meio, está a Terra, acima e geólogo pagão Ptolomeu. em Gênesis 1:2, aparece de forma

28.1 ANO 2016 DIÁLOGO UNIVERSITÁRIO 7


destacada no argumento daqueles eru- havia um mito da criação em Ugarit, interpretadas para se referir a “colu-
ditos que apoiam a visão de que a onde esses textos foram encontrados, nas” literais. Mesmo hoje, falamos
cosmologia do Gênesis é de três anda- e outros questionam se Baal sempre por metáforas das “colunas da igre-
res. Há um céu acima, terra embaixo atuou como um deus criador. ja”, referindo-nos aos leais apoiadores
(verso 1) e o que está mais embaixo O que se pode dizer das “fon- da comunidade de fiéis. Assim, as
é “o abismo”, interpretado como o tes do grande abismo”, mencionadas colunas da Terra são metáforas para
“oceano primitivo”. Alega-se que o por duas vezes em Gênesis, no relato descrever a maneira como Deus pode
termo original para “abismo”, tĕhôm, sobre o dilúvio (Gênesis 7:11; 8:2)?12 O sustentar ou mover as estruturas inter-
é derivado diretamente da palavra “grande abismo” refere-se, sem dúvi- nas que a mantêm, todas juntas e no
Tiamat, um monstro feminino da da, às águas subterrâneas. Entretanto, lugar, porque Ele é o Criador.
mitologia babilônica e deusa do oce- nesses textos, não há nenhuma alusão Mudando do que está “embaixo” da
ano primitivo do mundo, no épico a que essas águas subterrâneas tenham Terra para o que está “em cima”, o ato
nacional Enuma Elish. Dizem que conexão com a mitologia de um mar da criação, fiat, no segundo dia, chama
Tĕhôm contém um “eco do anti- do submundo, no qual a Terra flutua. à existência o “firmamento” (Gênesis
go mito cosmogônico”7, no qual o Durante o dilúvio, as fontes de águas 1:7). O firmamento está frequentemente
deus criador Marduk se envolve numa subterrâneas que alimentavam as fon- associado à “firmeza” e “solidez”, ideias
batalha com Tiamat e a mata. A inter- tes e os rios se abriram com tal poder e derivadas da Vulgata firmamentum e
pretação de que o termo bíblico abis- força que, juntas com o derramamento da Septuaginta steréōma, mas não do
mo é linguisticamente dependente de da chuva torrencial acumulada no céu termo original em hebraico. Seguindo
Tiamat é reconhecido como incorreto atmosférico, deram origem ao dilúvio a Vulgata, muitos têm sugerido que
hoje, com base em uma compreensão universal. As passagens que falam dos essa é “uma abóboda de corpo sólido”.14
avançada das línguas semíticas com- recursos subterrâneos, como as águas Entretanto, essa é uma interpretação
paradas. Na verdade, “é fonologica- debaixo/embaixo da Terra (Êxodo bastante recente, sugerida inicialmen-
mente impossível concluir que [a pala- 20:4; Deuteronômio 4:18; 5:8; Salmo te no século 18 pelo filósofo francês
vra original traduzida como ‘abismo’] 136:6), com base em uma investigação Voltaire. O termo hebraico rāqîa‘, tradi-
era derivada de Tiamat.”8 Os 35 usos mais acurada, são insuficientes para cionalmente traduzido por “firmamen-
dessa palavra e suas formas derivativas manter a suposta visão do mundo de to”, é melhor representado pela palavra
no Antigo Testamento revelam que três camadas. E o que dizer do sub- “expansão”. Alguns têm tentado justifi-
ela é geralmente “um termo poético mundo? O Šĕʾôl, invariavelmente, é car, com base em textos não relacionados
para falar de uma grande quantida- considerado o lugar para onde vão os à Bíblia, que a palavra original designava
de de água”9, que é totalmente “não mortos.13 É uma expressão figurada algo sólido, talvez como uma chapa de
mítica”.10 Sugerir que Gênesis 1:2 con- para sepultura e tumba, e pode ser metal. No entanto, essas tentativas para
tém o remanescente de um conflito equiparada ao termo hebraico utili- explicar a palavra hebraica não conse-
relacionado ao mito da batalha pagã zado normalmente para “tumba”. Na guiram convencer. Tais interpretações
é interpretar a mitologia antiga no Bíblia, Šĕʾôl nunca se refere a um estão baseadas em conjecturas filosófi-
Gênesis – algo que, na verdade, o submundo sombrio de trevas ou de cas não fundamentadas e em conceitos
texto combate. A descrição do passi- águas como a habitação dos mortos, mitológicos extrabíblicos, e não no que
vo, inerte e desorganizado estado do tal como é concebido na mitologia os textos bíblicos realmente pedem.
“abismo” em Gênesis 1:2 revela que pagã entre os gregos e babilônios. Em passagens como a de Gênesis
esse termo não é mítico em seu con- Como uma designação para sepultura, 1:7, Salmo 19:1 e Daniel 12:3, firma-
teúdo e antimítico em seu propósito. o Šĕʾôl, está claro, é subterrâneo por- mento tem o significado de expansão
Mais recentemente, foi sugerido que está no solo. Os três usos da frase: ou da vastidão arredondada dos céus,
um contexto cananeu para esse mito “as águas debaixo/embaixo da terra” que, para um observador no solo, ela
da batalha do caos incorporado em (Êxodo 20:4; Deuteronômio 4:18; se parece com uma enorme abóboda
Gênesis, marcando uma mudança de 5:8), obviamente se referem às águas invertida. Em Ezequiel (versos 1:22,
origem da Babilônia para o oeste. Mas abaixo da linha do nível do mar, por- 23, 25, 26; 10:1) tem o sentido de
há pouquíssima evidência para isso. que, em um dos textos (Deuteronômio uma plataforma estendida ou uma
O termo traduzido como “mares” 4:18), elas são realmente o lugar onde superfície plana. Nenhum texto das
não aparece até Gênesis 1:10, quan- vivem os peixes. Escrituras ensina que o firmamento,
do seria de esperar em alguns versos Algumas passagens de fundo poé- ou melhor, a “expansão” do céu seja
iniciais do relato. Qualquer conexão tico descrevem os fundamentos da firme e sólida, e que mantém alguma
com a divindade cananeia Yam, por- Terra como se estivessem assentados coisa acima dela.15
tanto, não está presente, tornando sobre “colunas” (Jó 9:6; Salmo 75:3; 1 A chuva não vem através das “jane-
“difícil assumir que existiu antes um Samuel 2:8). Essas palavras, no entan- las do céu”, colocadas em um firma-
mito do dragão cananeu no contexto to, são usadas somente em poesia e mento sólido. Dos cinco textos da
de Gênesis 1:2”.11 Na verdade, vários são compreendidas da melhor forma Bíblia que se referem às “janelas do
estudiosos rejeitam o fato de que como metáforas. Elas não podem ser céu”, somente a história do dilúvio

8 DIÁLOGO UNIVERSITÁRIO 28.1 ANO 2016


(Gênesis 7:11; 8:2) as relaciona com mitos pagãos, isso não implica, neces- Criação pela palavra falada –
a água, e aqui as águas não vêm do sariamente, que todo escritor antigo No relato da criação bíblica, a mais
firmamento, mas do “céu”. Os outros tenha usado as mesmas ideias, quer impressionante característica é a cria-
três textos indicam claramente que a sejam inspiradas ou não. ção feita por Deus pela palavra falada.
expressão “janelas do céu” deve ser No primeiro dia, “disse Deus: ‘Haja
compreendida em um sentido não OUTROS ASPECTOS DO luz; e houve luz’” (Gênesis 1:3). Isso
literal; é uma linguagem figurada, CONTRASTE não tem paralelo algum na mitolo-
da mesma maneira em que podemos A realidade é que a narrativa do gia mesopotâmica e na egípcia. No
falar hoje das “janelas da mente” ou Gênesis contrasta fortemente com os Enuma Elish [poema babilônico da
da “abóboda celeste”, sem que isso antigos registros que temos do Oriente criação do mundo], Marduk “não cria
implique que a mente tenha janelas Próximo e do Egito para que haja uma o cosmo, mas o faz dividindo Tiamat
com esquadrias e vidraças e que o céu polêmica ou discussão intencionais de maneira horrível”.18 No épico Atra-
seja uma abóboda literal feita de tijo- com relação a esses mitos. Hasis, a humanidade é criada a partir
los maciços ou de concreto. Monstros marinhos ou criaturas da carne e do sangue de um deus que
Em 2 Reis 7:2, a cevada vem das marinhas? No quinto dia da criação foi brutalmente morto e misturado
“janelas do céu”. Em Isaías 24:18, (Gênesis 1:20-23), Deus criou “as com o barro, mas “nenhum indício de
parece ser o terror e a angústia que grandes baleias” (ACF) ou “os gran- uma divindade morta ou de qualquer
usam essa entrada, enquanto em des animais marinhos”, “os grandes outra matéria de alguém que estivesse
Malaquias 3:10, as bênçãos vêm atra- animais aquáticos”, ou “os grandes vivo é encontrado em Gênesis.”19
vés “das janelas do céu”. Essa lingua- monstros do mar”, conforme tra- Vários estudiosos afirmaram que a
gem figurada não se coaduna com a duções mais recentes (ARA, NVI, criação feita pela “palavra que sai da
reconstrução da cosmologia bíblica. NTLH), vindas do termo hebraico. boca” encontra melhor paralelo nas
Isso é realçado pelo fato de que a Nos textos ugaríticos, aparece um cosmologias egípcias. Há inúmeras
Bíblia torna perfeitamente claro que a termo relacionado, como se fosse a tradições diferentes, no entanto, que
chuva vem das nuvens (Juízes 22:13, personificação de um monstro, um se desenvolveram ao longo do tempo
14). No Salmo 78:23, essa associação dragão, que foi vencido pela deusa com variações significativas. Na cos-
das nuvens com “as portas do céu” é Anate, a deusa criadora. É justificada mologia de Heliópolis ou a teogonia,
explicada em linguagem poética, na essa ligação do termo bíblico com a Atum gera a Enéade (um conjunto de
qual a primeira e a segunda linhas mitologia nesse contexto? Em Gênesis nove deuses) vindos dele mesmo pelo
repetem o mesmo conceito: “Não 1:21, a palavra aparece claramente em ato da masturbação ou expelindo-os
obstante, ordenou às alturas e abriu um “contexto não mitológico”.17 Com pela boca, “e nascem um irmão e
as portas dos céus.” No antigo testa- base em outras passagens relacionadas uma irmã, Shu e Tefnut”.20 Em outra
mento, sempre que chove em grande à criação na Bíblia, ela parece ser tradição, os Textos de Sarcófagos des-
quantidade, isso é expresso de forma um termo genérico para as grandes crevem Atum como o Sol, com o
figurada por meio da expressão: as criaturas aquáticas, em contraste com nome de Atum-Rá. Algumas vezes,
janelas ou portas do céu estão abertas. as pequenas criaturas “que povoam esses dois nomes são separados, como
O reconhecimento do uso não lite- as águas”, criadas a seguir (Gênesis em “Rá em sua ascensão e Atum des-
ral e metafórico das palavras – a 1:21, 22; Salmo 104:25, 26). A criação cendo no horizonte”.21 Nesse sentido,
linguagem pictórica – é importante dessas grandes criaturas aquáticas por Atum, frequentemente igualado ao
na Bíblia. Se a Bíblia for lida e inter- Deus, conforme é expressa pelo verbo deus-sol Rá, é autogerado e o origi-
pretada de acordo com seus próprios criar, que sempre enfatiza a criação nador dos deuses e de todas as coisas.
termos, geralmente não será difícil sem esforço, demonstra ser um argu- Na teologia menfítica do Egito,
reconhecer essa linguagem. Nós nos mento incontestável contra a ideia da Ptah é comparado e contrastado com
referimos ao “pôr do Sol no horizon- criação mitológica, por meio de uma Atum. Enquanto Atum criava, por
te”, quando na verdade sabemos que a batalha ou combate. meio “dessa semente e dessas mãos,
Terra é que está girando em seu eixo A ausência de combate, força ou (para) a Enéade de Atum evolu(ia)
ao redor do Sol. luta – A oposição ao mito pagão é através de sua semente e de seus
Com base nessas evidências, a con- visível também na criação fiat da dedos, mas a Enéade é os dentes e
cepção amplamente divulgada de que elevação do “firmamento” (Gênesis os lábios nessa boca que pronunciou
a cosmologia bíblica descreve um uni- 1:6, 7) ou “expansão” (ACF), sem a identidade de todas as coisas, da
verso de três andares não pode ser nenhuma luta, de qualquer tipo. As qual Shu e Tefnut saíram e deram à
mantida. A assim chamada visão pri- mitologias do antigo Oriente Próximo luz a Enéade.”22 Aqui o autor atinge
mitiva ou primária acaba sendo “uma e do Egito associam esse ato de sepa- o seu objetivo de combinar as duas
interpretação atribuída e não uma ração a um combate ou a uma luta. narrativas dizendo que “a origem da
ideia derivada dos próprios textos”.16 As cosmologias antigas não foram Enéade, através dos dentes e dos lábios
Mesmo quando certas narrativas da absorvidas ou refletidas em Gênesis, (de Ptah) é a mesma que teve origem
Bíblia datam da mesma época desses mas superadas. por meio do sêmen e das mãos de

28.1 ANO 2016 DIÁLOGO UNIVERSITÁRIO 9


Atum”.23 A boca é, portanto, igua- para “criar” é empregado três vezes na mitologia egípcia antiga. Em um
lada ao órgão masculino “do qual nesses versos para enfatizar a criação Texto de Sarcófago (7.465, período de
Shu e Tefnut saíram e deram à luz a fiat da raça humana, idealizada por 1.130), estava escrito: “Eu criei deuses
Enéade”.24 É através da sua autogera- Deus (Gênesis 1:28); Ele é “o sobe- com o meu suor e a humanidade com
ção que Atum/Ptah criou os deuses. rano do mundo”27, inclusive do reino as lágrimas do meu olho.” Isso indica
É aqui que esses dentes e lábios devem animal e do reino vegetal. Todas as que os homens são “criados como
ser comparados à fala sem esforço plantas que dão sementes e árvores qualquer outra coisa e são chamados
encontrada na criação do Gênesis que frutíferas são para nosso alimento de o rebanho de deus’ (Instrução ao
ignora o paralelismo feito com Atum (Gênesis 1:29). Essa imagem sublime rei Merikare) ou ‘rebanho de Rá’, mas
e a conotação sexual. da preocupação e cuidado divinos são os deuses que ocupam a posição
Em contraste, não há nenhuma para com as necessidades físicas da central nas cosmologias”.30 Na teologia
alusão à autogeração ou procriação no humanidade está em tão nítido con- menfita, a criação dos humanos nem
relato de Gênesis. A expressão várias traste com o propósito da criação na mesmo é mencionada.
vezes repetida: “E disse Deus… e mitologia do antigo Oriente Próximo A semana de sete dias e a ordem
houve” (Gênesis 1:3, 6, 9, 11) fala da que somos levados a concluir que o da criação – A sequência completa da
onipotente e imutável palavra divina escritor da Bíblia descreveu o propó- criação em Gênesis 1 manifesta uma
da criação dita sem esforço. A auto- sito da criação da humanidade com ordem divina para que aquilo que
existente palavra de Deus revela o a deliberada intenção de combater as estava sem forma e vazio fosse formado
enorme e intransponível abismo que ideias mitológicas pagãs e, ao mesmo e preenchido para se tornar um ecossis-
há entre a descrição bíblica da criação tempo, enfatizar a orientação da cria- tema perfeito que suportasse a vida. A
e a mitologia pagã. A cosmologia do ção centralizada no ser humano. sequência divina de seis dias literais de
Gênesis enfatiza a diferença funda- Todos os mitos do antigo Oriente 24 horas, dias consecutivos que culmi-
mental que há entre o Ser divino, a Próximo descrevem a necessidade da nam com o descanso no sábado, é algo
criação e o ser criado, a fim de excluir criação da humanidade como uma totalmente ausente nos registros do
qualquer ideia de emanacionismo, ideia posterior, resultante de uma ten- antigo Oriente Próximo e dos egípcios.
panteísmo e dualismo. tativa de aliviar os deuses do árduo O poema épico Enuma Elish indica
Argumentos descritivos – A cos- trabalho de conseguir alimento e algumas analogias na ordem da cria-
mologia do Gênesis revela em várias e bebida. Essa noção mítica é contrá- ção: firmamento, terra seca, luminares
importantes instâncias uma acentuada ria à ideia bíblica de que o homem e, por último, a humanidade. Mas há
polêmica ou argumento com relação à é que deve governar o mundo como também algumas diferenças distintas:
matéria criada. Isso é evidenciado na vice-regente de Deus. É óbvio que (1) não há nenhuma afirmação clara
descrição do “abismo” (Gênesis 1:2), na essa ênfase antimítica não pode ser o de que a luz tenha sido criada antes
criação das grandes criaturas aquáticas resultado da adoção de noções míticas dos luminares; (2) nenhuma referência
(v. 21), na criativa separação do céu e pagãs; ao contrário, está enraizada na explícita à criação do Sol. É difícil
da terra (v. 6-8), no propósito da cria- antropologia bíblica e na compreensão inferir algo assim, a partir da persona-
ção dos seres humanos como o clímax bíblica da realidade. lidade de Marduk [Merodaque] como
dos seres criados na terra (v. 26-28) e na Nas cosmologias egípcias, “até uma divindade solar e com base no
criação pela palavra divina (v. 3). A essa agora, não se tem conhecimento de que é dito a respeito da criação da Lua
impressiva lista poderia ser acrescenta- nenhum relato detalhado da criação”.28 no Tablete V; (3) não há nenhuma
da a descrição da criação do Sol e da O foco principal das cosmologias egíp- descrição da criação da vegetação; (4)
Lua, e o papel que eles exercem, cujos cias é a criação do panteão egípcio por fim, Enuma Elish não traz nada
nomes semíticos específicos foram cer- de deuses, por isso, elas são melhor a respeito da criação de qualquer vida
tamente evitados porque se referem descritas como teogonias, embora os animal no mar, no céu ou na terra. A
ao deus-sol e à deusa-lua. O uso dos próprios deuses representem os ele- comparação entre Gênesis e esse relato
termos “luminar maior” e “luminar mentos da natureza. Uns poucos tex- indica que há o dobro dos processos
menor” “exala um forte sentimento tos indicam que a humanidade veio da criação descritos em Gênesis 1.
antimítico”,25 ou até mesmo polêmico, das lágrimas de Rá. “Eles [Shu e Há somente uma analogia geral com
minando as religiões pagãs e a mitolo- Tefnut] trouxeram a mim [Rá] o meu relação à ordem da criação em ambos
gia em seus pontos fundamentais. A olho com eles; depois que juntei meus os registros; “não há nenhum paralelo
intenção do autor de Gênesis era que membros, chorei sobre eles. É assim mais estreito na sequência dos ele-
o leitor soubesse que o Sol e a Lua não que os homens surgiram: das lágrimas mentos comuns em ambas as cosmo-
eram deuses, mas uma criação de Deus que rolaram do meu olho.”29 A maior logias”.31 Com relação ao tempo em
para funções específicas. ênfase não está na criação da humani- que durou a criação, a única possível
A criação da humanidade – A dade, que é simplesmente mencionada evidência é apresentada no relato de
magnificente narrativa da criação em de passagem, mas na restauração do Atra-Hasis da criação da humanidade.
Gênesis 1:26-28 fala do ser humano olho de Rá, que possuía tais impor- Aqui, 14 peças de barro foram mistura-
como a coroa da criação.26 O termo tantes poderes mágicos e protetores das com o sangue de um deus imolado

10 DIÁLOGO UNIVERSITÁRIO 28.1 ANO 2016


e colocado no ventre da deusa. Depois relação à cosmovisão bíblica, à com-
Este artigo foi ligeiramente resumido,
de dez meses de gestação, a deusa dá à preensão da realidade e à cosmologia aparecendo originalmente como um capí-
luz a uma prole de sete machos e sete da revelação divina. tulo do livro He Spoke and It Was (Nampa,
fêmeas. O nascimento da humanidade A exaltada e sublime concepção da Idaho: Pacific Press, 2015 – Editado por
após uma gestação de dez meses não é narrativa da criação em Gênesis apre- Gerald A. Klingbeil).
encontrada no Gênesis; a humanidade senta, como parte central, um Deus
é criada no sexto dia. A ligação do transcendente que, como supremo e
sábado com um contexto do Oriente único Criador fala e traz o mundo à Gerhard F. Hasel
Próximo também é banal. existência. O centro de toda a criação é a PhD pela Universidade de
Nas cosmologias egípcias não há humanidade, representada pelo homem Vanderbilt, antes de sua morte
nenhuma finalidade para a criação. Em e pela mulher. A cosmologia do Gênesis, prematura em um acidente
vez disso, há “um dia como o padrão que, da maneira mais abrangente, des- automobilístico, em 1994, era
da geração que se repete, que se renova venda os fundamentos sobre os quais professor de Estudos Bíblicos
a cada manhã com o nascer do Sol, a realidade e a cosmovisão do mundo do Antigo Testamento e ex-
simbolizando o nascimento diário de bíblico se assentam, desconhece a exis- reitor do Seminário Teológico
Adventista na Universidade
Amon-Rá, o deus-sol criador, como uma tência de qualquer visão de um universo
Andrews, Michigan, EUA.
personificação de Atum.”32 O ciclo da de três andares ou de três camadas. Essa
morte e do renascimento era tão central cosmologia nos apresenta a resposta da Michael G. Hasel
para o pensamento egípcio, que a própria Inspiração para a questão intelectual PhD pela Universidade do
morte era vista como parte da ordem sobre o “quem” da criação, para o qual Arizona, é filho de Gerhard e
normal da criação. Em um papiro fune- aponta o livro da natureza: Deus, o é atualmente o professor de
rário da Vigésima Primeira Dinastia, Criador. Também nos dá as respostas Estudos sobre o Oriente Próximo
uma serpente com asas nas pernas está para as questões relacionadas a “como” o e Arqueologia na Southern
em pé sobre suas quatro pernas, tendo mundo foi feito e “o que” foi feito. Pela Adventist University, Collegedale,
Tennessee, nos EUA.
a inscrição: “Morte ao grande deus que ação envolvida nos verbos que aparecem
fez deuses e homens”.33 Essa é a “personi- em Gênesis 1 e 2, como “fazer” (1:4,
ficação da morte como um deus criador 7, 16, 25, 31), “aparecer” (1:9), “criar”
e uma impressiva ideia visual de que a (1:21, 27; 2:4), “colocar” (1:17) “formar” 1. Esse estudo foi publicado inicialmente por
Gehard F. Hasel, “Genesis Is Unique”, Signs

N O TA S E R E F E R Ê N C I A S
morte é uma característica necessária do (2:7, 8, 19), “dizer” (1:3, 6, 9, 14, 20, 24, of the Times (junho de 1975, p. 22-26 e
mundo da criação, isto é, da existência de 26), essa é uma indicação de “como” a julho de 1975, p. 23, 25). Os artigos foram
revisados e ampliados por Michael G. Hasel
modo geral”.34 Uma imagem semelhante atividade criativa divina é revelada. A para incluir fontes atuais e novas informa-
ções sobre os paralelos do antigo Oriente
pode ser vista na câmara mortuária de terceira questão intelectual pergunta “o Próximo e do Egito.
Tutmés III, em que, na 11ª hora de que” o Criador transcendente trouxe 2. Salvo outra indicação, todos os textos
AmDuat, Atum aparece segurando as à existência. O próprio escritor bíblico bíblicos neste artigo foram extraídos
da Bíblia na Versão Almeida Revista e
asas de uma serpente alada, rodeada de resume esse ato nas seguintes palavras: Atualizada (ARA).
ambos os lados pelos olhos de Udjet – os “Assim, pois, foram acabados os céus e a 3. Gerhard F. Hasel, “Recent Translations
of Genesis 1:1: A Critical Look”, The
olhos de Rá e de Horus. O conceito de Terra e todo o seu exército” (Gênesis 2:1). Bible Translator, Nº 22 (1971): p.154-
um sábado e da sequência de sete dias A narrativa bíblica da criação, basea- 158; Hasel, “The Meaning of Genesis
1:1”, Ministry 49, Nº 1 (janeiro de 1976:
está totalmente ausente. da na cosmologia de Gênesis, vai muito p. 21-24.
A cosmologia do Gênesis representa além dessas questões intelectuais, ao 4. Richard J. Clifford, Creation Accounts
uma “ruptura total”35 com as mitolo- abordar ainda questões existenciais de in the Ancient Near East and in the Bible
(Washington, D.C.: The Catholic Biblical
gias pagãs do Oriente Próximo e do extrema importância, porque é tam- Association, 1994), p.114.
Egito, fazendo minar as cosmologias bém o registro do início dos processos 5. Rudolf Bultmann, “New Testament
and Mythology”, in H. W. Bartsch, ed.,
míticas prevalecentes e os fundamen- naturais e históricos. A criação bíblica Kerygma and Myth (London: Harper &
tos básicos das religiões pagãs. A nar- responde o que o Criador divino é Row, 1953), Cap. 1, p. 2).
rativa da criação não somente apresen- capaz de fazer. Como o Criador, que 6. Albrecht Goetze, “El, Ashartu and the
Storm-God”, Ancient Near-Eastern Texts
ta o registro verídico das origens, mas, não é outro senão o próprio Cristo, (1969): p. 519.
ao descrevê-lo, o escritor apresentou o Agente da criação enviado pelo Pai 7. S. H. Hooke, “Genesis”, in H. H. Rowley e
inúmeras salvaguardas contra a mito- (João 1:1-4; Hebreus 1:1-3), que fez o Matthew Black, eds., Peak’s Commentary
on the Bible (London; Thomas Nelson,
logia. Ele usou determinados termos Cosmos e tudo o que nele há, por ser o 1962), p. 79.
e motivos, em parte relacionados aos Criador de todas as forças da natureza 8. David Toshio Tsumra, “The Earth and
the Waters in Genesis 1 and 2: A linguis-
conceitos pagãos incompatíveis – cos- e o Mantenedor da criação, Ele pode tic Investigation”, Journal for the Study of
mológica, ideológica e teologicamente usar essas forças para realizar a Sua the Old Testament, Sup 83 (1989): p. 31.
– e em parte revelando um incontestá- vontade em todos os acontecimentos 9. Mary K. Wakeman, God’s Battle With
the Monster: A Study in Biblical Imagery
vel contraste com os mitos do Oriente no decurso do tempo, por meio de (Leiden: Brill, 1973), p. 86.
Próximo, e os empregou com um atos poderosos e poderosos feitos na
Continua na página 19
significado e ênfase expressivos em natureza e na História.

28.1 ANO 2016 DIÁLOGO UNIVERSITÁRIO 11


A RTI GO

LIDERAR: AGIR DE MANEIRA


RESPONSÁVEL E ÉTICA
Lições da vida de Saul
A vida de Saul foi registrada nas Escrituras, não para decidirmos seu destino
eterno, mas para aprendermos a enfrentar os desafios. A vida de Saul, como
líder, ilustra alguns dos erros éticos mais comuns de liderança.

LOWELL C. COOPER

A
gir de maneira responsá- inimigo quando estiver cometendo mas eles não tinham nem a coragem
vel e ética! Muitos outros um erro”1, mas aprender para que moral, nem as inclinações espiritu-
termos poderiam ser possamos ser poupados das tragédias ais de seu pai. Eram desonestos e
usados aqui; todo um que resultam dos erros de liderança. egoístas. Por isso, os anciãos do povo
conjunto de palavras Os filhos de Israel passaram por um se reuniram e pediram a Samuel
poderia ampliar o conceito de res- momento de mudança estrutural; uma que lhes nomeasse um rei. Outras
ponsabilidade: confiabilidade, valores transição da teocracia para a monar- nações ao redor pareciam estar pros-
fundamentais, integridade, moral, etc. quia. O livro de 1 Samuel é rico em perando sob esse tipo de estrutura
Essas palavras levantam questões com detalhes a respeito dos eventos cen- organizacional, e os anciãos de Israel
as quais lutamos nos momentos tran- trais da saga de uma nação. O elenco olharam para o sistema da monar-
quilos e particulares de nossa vida, de personagens inclui Samuel, Saul, quia como um alívio bem-vindo
aqueles momentos em que pergunta- Davi, Jônatas e outros que aparecem à sua situação naquele momento.
mos: “Que tipo de pessoa eu quero em breves episódios ao longo do cami- Eles identificaram corretamente o
ser?” E talvez a questão mais impor- nho. Entretanto, o nosso foco princi- problema: seus novos líderes eram
tante para nós seja: “Que tipo de pal será sobre Saul, o primeiro rei de corruptos! Infelizmente, concluíram
pessoa eu sou chamado a ser?” Israel. Neste estudo, vamos descobrir também que o sistema era corrupto
Este tema, que aborda a forma de os seis erros de liderança mais comuns e, portanto, havia a necessidade
agir de maneira responsável e ética, que podemos encontrar. de mudança. A frustração com a
será desenvolvido aqui ao estudarmos liderança levou à impaciência com a
os erros de liderança de um famoso ERRO DE LIDERANÇA Nº 1: estrutura e o sistema.
personagem da Bíblia. Nosso obje- FALHAR AO IDENTIFICAR Anotem isto como o erro número
tivo não é expô-lo ou criticá-lo, mas E RESOLVER A RAIZ DO um em toda essa cadeia de even-
aprender – aprender não por uma PROBLEMA tos: Eles não conseguiram identificar e
questão de tirar proveito de uma situ- A história começa em 1 Samuel, resolver a raiz do problema. Pensaram
ação, como pode ter sido a estratégia capítulo 8. O profeta Samuel estava que a falha estava no sistema. Mas os
por trás do conselho de Napoleão bastante idoso. Nomeou seus pró- sistemas e estruturas são apenas ins-
Bonaparte: “Nunca interrompa seu prios filhos como juízes de Israel, trumentos. Eles não têm vida inde-

12 DIÁLOGO UNIVERSITÁRIO 28.1 ANO 2016


pendente. Culpar o sistema quando ERRO DE LIDERANÇA Nº 2: Observe o que eles viram: sua situa-
as coisas dão errado é como culpar o AGIR FORA DA ALÇADA ção. Seu problema foi tudo o que eles
martelo pela falta de pregos. Nenhum Saul foi realmente escolhido por viram. Tinham perdido a capacidade
sistema de governo pode compen- Deus. Ouvir e atender ao chamado de ver seu Deus! Essa foi a primeira
sar uma liderança corrupta. E vários de Deus não é garantia de sucesso. É indicação de que as coisas não iam
sistemas de governo, até mesmo dita- verdade que a quem Deus chama, Ele bem. A ansiedade do momento pre-
duras, podem funcionar bem, pelo capacita, mas, quando O atendemos, sente desvia a nossa atenção de Deus e
menos por um tempo, sob uma boa nem sempre reivindicamos a bênção que de nossa confiança nos outros. Como
liderança moral. No entanto, é fácil Ele tão ansiosamente quer conceder. Saul, acabamos tomando em nossas pró-
culpar o sistema pelas fraquezas dos Saul tornou-se rei. Suas boas qualidades prias mãos as coisas que pertencem
elementos humanos que há nele. eram visíveis. Era um jovem de 30 anos de aos outros: “Saul ficou em Gilgal, e os
Os anciãos da nação queriam ser idade, “de boa aparência, sem igual entre soldados que estavam com ele tremiam
como as outras nações ao redor. Do os israelitas; os mais altos batiam nos seus de medo. Ele esperou sete dias, o prazo
ponto de vista de um observador dis- ombros”. (1 Samuel 9:2). Samuel o ungiu estabelecido por Samuel; mas este não
tante, as coisas pareciam estar indo bem e enviou de volta, dizendo que ele iria se chegou a Gilgal, e os soldados de Saul
nas monarquias. Sem dúvida, foi um encontrar com alguns profetas. O Espírito começaram a se dispersar. E ele ordenou:
caso de síndrome da grama-verde, em do Senhor viria sobre ele, ele iria se juntar ‘Tragam-me o holocausto e os sacrifícios
que a grama do vizinho sempre pare- aos profetas e se tornaria uma pessoa dife- de comunhão.’ Saul então ofereceu o
ce melhor! Mas as pessoas já tinham rente. Tudo aconteceu exatamente como holocausto” (1 Samuel 13:7-9).
em mente o que queriam. Samuel Samuel tinha dito. E o povo o aclamou Agir fora da alçada continua sendo
tentou argumentar, mas sem sucesso. dizendo: “Viva o rei! Viva o rei!” um erro comum de liderança hoje. A
Desesperado, ele conversou com Deus Uma história e tanto. Ela começou Igreja Adventista do Sétimo Dia adota
sobre isso, e Ele lhe disse que atendes- bem, mas terminou em fracasso. Teria um padrão de liderança de equipe:
se às exigências do povo. O Senhor Saul recebido um trabalho muito além um acordo de três oficiais (geralmen-
assegurou a Samuel que Ele, Deus, de sua capacidade? Poderia ele ter se te presidente, secretário e tesoureiro,
era o único que estava sendo rejeitado, tornado um daqueles indivíduos que mas também podem ser usados outros
e não Samuel. Não é um tanto assus- se alegram ao recordar suas realizações termos e títulos). O resultado é que
tador ver como o povo de Deus pode no passado? Infelizmente, porém, em uma pessoa não tem autoridade total
facilmente rejeitá-Lo? pouco tempo Saul começou a achar que e final. Ao contrário, a autoridade e a
Os israelitas queriam ser como as a realeza era um direito seu, e não um responsabilidade devem ser compar-
outras nações ao redor. Quão pouco privilégio! Quão facilmente o sucesso tilhadas. Um líder que não entende
percebiam que a sua contribuição para pode se tornar um fracasso! o papel e a descrição do trabalho de
a História não vinha por causa de seus Sob a pressão da crise, Saul descumpriu cada funcionário está destinado a
reis, mas por causa de seus profetas, um acordo (1 Samuel 13:2-9). Causar enfrentar conflitos, como também a
que as outras nações não possuíam. uma primeira impressão memorável é cometer erros. Simples assim.
Note três pontos de extrema impor- sempre bom. Um show de músculos
tância que devemos aprender: contra o inimigo certamente ajudaria a ERRO DE LIDERANÇA Nº 3:
1. Devemos ser cuidadosos para unir todos ao novo rei e legitimaria o ARRUMAR DESCULPAS E
não rejeitar um profeta a fim de ser- novo sistema. Os postos avançados dos CULPAR OS OUTROS
mos como os demais ao nosso redor. filisteus em Gibeá e Geba pareciam ser Justamente quando os homens de
2. Devemos ser cuidadosos ao esco- bons lugares para começar. Saul estavam fazendo toda a limpeza,
lher nossos modelos, pois, ao procu- Samuel havia combinado um encon- Samuel chegou e perguntou o que
rarmos imitá-los, podemos desviar os tro com Saul em Gilgal, dentro de sete tinha acontecido. A resposta de Saul
nossos olhos de Deus. dias. Ali deveria ser realizado um contém todas as desculpas clássicas
3. A fibra moral e espiritual daque- culto e uma despedida que marcaria o que conhecemos. Observe: “Quando
les que são colocados na liderança é início da nova administração. Mas os vi que os soldados estavam se disper-
de vital importância. Um exército filisteus estavam sempre prontos para sando e que não tinhas chegado no
de ovelhas liderado por um leão vai o conflito e nada sabiam sobre o acor- prazo estabelecido, e que os filisteus
derrotar um exército de leões lidera- do de sete dias com Samuel. Estavam estavam reunidos em Micmás, pensei:
do por uma ovelha. Deus pode usar prontos para a batalha, e a força de ‘Agora os filisteus me atacarão em
nossas habilidades e conhecimentos seus exércitos era de impressionar. Gilgal, e eu não busquei o Senhor.’
em Sua Obra, mas essas não são a pri- “Quando os soldados de Israel Por isso senti-me obrigado a oferecer
meira coisa que Ele precisa de você. viram que a situação era difícil e que o o holocausto” (1 Samuel 13:11, 12).
“Insista com determinação na dire- seu exército estava sendo muito pres- Os psicólogos chamam isso de “atri-
ção correta, e então as circuns- sionado, esconderam-se em cavernas e buição de erro”. Essa expressão é a que
tâncias serão vossas auxiliares, não buracos, entre as rochas e em poços e descreve o que acontece com a maioria
empecilhos.”2 cisternas” (1 Samuel 13:6). das pessoas: recebemos o crédito pelo

28.1 ANO 2016 DIÁLOGO UNIVERSITÁRIO 13


nosso sucesso e culpamos os outros por somos derrotados. Podemos dizer: “Não Um dos sinais de maturidade é a
nossas falhas. Observe as cinco des- seja feita a minha vontade, mas a Tua.” capacidade de reconhecer as virtu-
culpas utilizadas por ele. Vemos que, No entanto, quando parece que a von- des e realizações do outro, mesmo
desde os tempos de Saul, a humani- tade de Deus não está sendo feita, senti- sendo um rival em potencial.
dade não inventou nenhum novo tipo mos que Deus perdeu a batalha porque A palavra mais fácil de dizer na nossa
de desculpas. Devemos muito a ele por nós perdemos a batalha. língua é “Eu”. E a palavra mais difícil
sua engenhosidade em criar desculpas Temos uma forte tendência de con- de dizer é “Você”. Talvez seja impossí-
para fugir da responsabilidade. cluir que o bom andamento ou a adversi- vel para qualquer um aprender a dizer
1. O que eu fiz foi culpa sua. “Você dade na Obra de Deus estão diretamente “Você” até que aprenda a dizer “Deus”.
não veio na hora marcada.” Em outras ligados à nossa boa sorte ou azar. O que Observe a espiral da escada do ciúme:
palavras: “Você é que me fez fazer isso.” é uma falácia! A Obra de Deus não está Saul estava com ciúmes de Davi.
Essa é a mentalidade de vítima. “Eu bati em nossas mãos e nunca depende do que A inveja se transformou em ódio.
em você porque você me deixou com acontece conosco. Deixe-me dizer isso O ódio impediu o pensamento racional.
raiva.” “Eu tive que roubar da empresa mais claramente: a igreja poderia sucum- A inimizade gerou a busca pela
porque eles não estão me pagando o bir completamente, e a Obra do Senhor exterminação.
suficiente.” “Eu sou viciado em trabalho ainda continuaria avançando. Participar O restante do reinado de Saul foi
porque tive pais viciados.” na Sua Obra não é nem nosso direito, quase que totalmente dirigido pelo dese-
2. Eu não tive outra escolha. “Os nem Sua necessidade. É nosso privilégio! jo de encontrar e destruir Davi. A inse-
homens estavam se espalhando… os gurança de Saul se tornou a sua obsessão.
filisteus já se tinham ajuntado,” “As ERRO DE LIDERANÇA Nº 4: Davi foi até Samuel, à procura de pro-
circunstâncias me fizeram fazer isso.” SENTIR INSEGURANÇA DIANTE teção. Saul ficou sabendo onde Davi esta-
“Ele era um marido tão asqueroso que DO SUCESSO DO OUTRO va e enviou emissários para capturá-lo.
eu tive que deixá-lo.” “Se eu for total- Em 1 Samuel 17, lemos o relato Os emissários foram influenciados pelo
mente honesto com os meus clientes, do famoso encontro com Golias, que êxtase dos profetas – pela primeira,
não alcançarei a minha cota de vendas.” aterrorizou Saul e seu exército, até segunda e terceira vezes. Finalmente,
3. Eu fiz isso por uma boa causa. Davi, um jovem pastor, intervir e o próprio Saul foi e também acabou se
Em outras palavras, os fins justificam os matar o gigante usando uma funda unindo aos profetas. Saul, mais uma
meios. Eu estava sentado aqui e percebi e uma pedra. Esse impressionante e vez, teve uma experiência espiritual; ele
que “os filisteus iam me atacar.” No inesperado rumo dos acontecimentos esteve na reunião do acampamento, mas
capítulo 15, Saul está se desculpando inspirou alegria e cânticos: “Quando o seu arrependimento foi superficial.
novamente, dessa vez para não destruir os soldados voltavam para casa, depois Saul tinha sérios problemas, e o que ele
tudo o que pertencia aos amalequitas. que Davi matou o filisteu, as mulhe- precisava era mais do que um estímulo
Em vez disso, ele poupou a vida do rei res saíram de todas as cidades de Israel emocional. Precisava de um novo ponto
amalequita e o melhor do gado. ao encontro do rei Saul com cânticos e de vista intelectual, de ter mais respeito
4. Eu não sou o único responsável. danças, com tamborins, com músicas para com outras pessoas, do conheci-
Quando Samuel o pressionou, Saul alegres e instrumentos de três cordas. mento da misericórdia de Deus, de um
disse [culpando os outros novamente]: As mulheres dançavam e cantavam: novo propósito. Um banho quente não
“Os soldados… pouparam o melhor “Saul matou milhares; vai curar um câncer nem um momento
das ovelhas e dos bois para sacrifica- “Davi dezenas de milhares.” de emoção fará mudanças profundas na
rem ao Senhor, o teu Deus” (1 Samuel “Saul ficou muito irritado com esse vida de uma pessoa.
15:15). Em outras palavras, “Eu não refrão e, aborrecido, disse: ‘Atribuíram
sou o único responsável por isso”. a Davi dezenas de milhares, mas a mim ERRO DE LIDERANÇA Nº 5:
5. Eu fiz mais do que você disse; apenas milhares. O que lhe falta senão o SENTIR PENA DE SI MESMO
não é bom o suficiente? não é bom reino?’ Daí em diante Saul olhava com Saul, na busca por Davi, chamou
o suficiente? “Cumpri a missão que o inveja para Davi (1 Samuel 18:7-9). os homens de Benjamim, procurando
Senhor me designou. Exterminei os A atenção foi desviada de Saul se justificar para eles. Tinha chegado
amalequitas” (1 Samuel 15:20). Esse para a afeição popular por Davi, após a um ponto em que sentia pena de
tipo de desculpa dá outro tipo de cono- a derrota de Golias. Saul tornou-se si mesmo e torcia os fatos, a fim de
tação às ações, como que para criar uma invejoso. Ficou emocionalmente inse- racionalizar o seu próprio fracasso.
percepção diferente. guro. Ele parecia ter se tornado um Depois de acusá-los de conspiração
O ponto fundamental em todas essas homem que não pensava em ninguém contra ele, queixou-se: “Ninguém me
desculpas é que a decisão de desobedecer mais além de si mesmo; e quando informa quando meu filho faz acordo
a Deus é uma escolha pessoal. É difícil uma pessoa chega a esse estágio, não com o filho de Jessé. Nenhum de
para nós resolvermos a contradição entre tem muito em que pensar. Saul era vocês se preocupa comigo nem me
o nosso desejo de ser instrumentos de imaturo demais para encarar o suces- avisa que meu filho incitou meu servo
Deus e a falsa noção de que Ele depende so de Davi com qualquer outro senti- a ficar à minha espreita, como ele está
de nós. Ele não será derrotado só porque mento exceto o medo. fazendo hoje” (1 Samuel 22:8).

14 DIÁLOGO UNIVERSITÁRIO 28.1 ANO 2016


Saul tinha perdido a capacidade de cado em parceria com Ele e abençoado CONCLUSÃO
distinguir entre a lealdade e a oposi- por Sua graça transformadora. A partir Devemos ser cautelosos para que o
ção. Não podia suportar que alguém daí, passamos a ver a adversidade sob julgamento que fazemos de Saul não
discordasse de seus pontos de vista. uma nova luz: “Pois, quando sou fraco é seja tão severo. De maneira mara-
Mesmo pessoas de confiança foram que sou forte” (2 Coríntios 12:10). vilhosa, Deus é misericordioso até
consideradas suspeitas, simplesmente mesmo com o mais fraco dos Seus
por ouvir rumores infundados. Saul ERRO DE LIDERANÇA Nº 6: servos. A vida de Saul foi registrada nas
ordenou que os sacerdotes fossem ACREDITAR QUE O LÍDER ESTÁ Escrituras, não para nós decidirmos
mortos, mas seus próprios guardas se ISENTO DAS REGRAS QUE SE seu destino eterno, mas para aprender-
recusaram a fazê-lo (1 Samuel 22:17). APLICAM AOS OUTROS mos a enfrentar os desafios. A vida de
Ele então pediu a Doegue que os Depois da morte de Samuel, Saul Saul, como um líder, ilustra alguns dos
matasse. Depois da chacina de 85 tinha banido as bruxas e os feiticeiros. erros éticos de liderança mais comuns
sacerdotes seguiu-se a destruição da A seguir, ele mesmo procurou uma. que podemos encontrar:
cidade de Nobe, seus habitantes e até Saul tinha se colocado numa posição 1. Falhar ao identificar e resolver a
os animais (v. 18, 19). em que se achava isolado e incapaz de raiz do problema.
Um espírito de vingança tomou confiar em quem quer que fosse, mas 2. Agir fora da alçada.
conta de Saul. Mas ele não foi o precisava desesperadamente de um 3. Arrumar desculpas e culpar os
único líder que destruiu seus colegas conselheiro. Por isso, saiu disfarçado e outros.
simplesmente com base em suspeitas e foi à procura da feiticeira de En-Dor
rumores infundados. (ver 1 Samuel 28:3-25). 4. Ficar inseguro diante do sucesso
A tarefa mais difícil do mundo é É típico da natureza humana, espe- do outro.
ser honesto consigo mesmo. E é ainda cialmente para um líder, acreditar 5. Sentir pena de si mesmo.
mais difícil na vida de um líder. As que ele tem o direito de quebrar uma 6. Acreditar que o líder está isento das
exigências da liderança podem facil- regra a que todos estão vinculados. A regras que se aplicam aos outros.
mente fazê-lo passar por cima do que maioria de nós pode ver o valor e a
está acontecendo em sua vida pessoal. Pelo menos uma das grandes lições
legitimidade das regras morais, polí-
A constante atenção e respeito dos que podem ser observadas nesta trá-
ticas e organizacionais, mas achamos
outros torna difícil uma introspec- gica biografia de Saul é que “exercer
que podemos exercer um poder dis-
ção. Estar constantemente à vista do a liderança significa assumir a res-
criminatório sem qualquer dano para
público nos leva a esconder as nossas ponsabilidade, e não arrumar des-
nós mesmos ou danos à nossa organi-
culpas.” “Se tiverdes cometido erros,
fraquezas para proteger a nossa fragi- zação. Tanto as leis morais, como as certamente alcançareis a vitória, ao
lidade… e parece até que não temos leis físicas se aplicam a todos. Se um reconhecerdes estes erros e os consi-
nada que nos abale. Se ouvimos elo- santo e um pecador pularem de um derardes farol de advertência. Assim
gios e cumprimentos por longo tempo penhasco, ambos cairão na mesma transformareis a derrota em vitória.”3
e nos fixamos nas palavras agradáveis velocidade. As políticas organizacio-
que os outros nos dizem, podemos nais e no ambiente do trabalho são
sucumbir à ilusão de grandeza. designadas a proteger a organização
Lowell C. Cooper
Atendamos a este importante con- de uma liderança arbitrária e de seus
MDiv pela Universidade Andrews
selho: As pressões da liderança podem efeitos tóxicos sobre o estado de espí- e MPH pela Universidade de
nos exaurir física e emocionalmente. rito dos funcionários. Loma Linda, jubilou-se em 2015,
Quando começamos a sentir pena de Saul cometeu suicídio (1 Samuel quando ocupava o cargo de vice-
nós mesmos porque achamos que a vida 31:1-13). Isso era inevitável, pois, se presidente da Associação Geral
é injusta, porque as pessoas não gostam não fosse naquela hora, seria em outro dos Adventistas do Sétimo Dia, em
de nós ou porque os outros são tão momento. A partir do momento em Silver Spring, Maryland, EUA. Seu
ingratos diante de tudo o que fizemos, é que a vida começou a lhe apresentar e-mail: CooperL@gc.adventist.org.
melhor ficarmos atentos. Esse é um sinal dificuldades, ele pensava nelas não
quase certo de que perdemos a capacida- como desafios a serem enfrentados
de de ser honestos conosco mesmos. e superados, mas como problemas a 1. http: //www.brainyquote.com/quo-
tes/authors/n/napoleon_bonapar-
N O TA S E R E F E R Ê N C I A S

Esse é o ponto em que a vida devo- serem evitados. Iniciou sua carreira te_2.html.
cional e a pessoal se tornam ainda mais em meio a uma grande expectativa, 2. Ellen G. White, Parábolas de Jesus
importantes para manter a estabilida- porém, com o passar do tempo, tor- (Tatuí, SP, Casa Publicadora Brasileira,
1996), p. 331.
de diante das circunstâncias que nos nou-se mais e mais egocêntrico. Cada
3. White, Parábolas de Jesus, p. 332.
estressam. Não podemos nos esconder experiência foi medida em termos de
de Deus. Estar diante dEle nos obriga seus próprios interesses. Ao enfrentar
a admitir algumas realidades sobre nós a morte, ele só conseguia pensar no
mesmos. Eu sou um pecador. Mas, ao quanto seus inimigos iriam zombar e
mesmo tempo, sou amado por Ele, colo- se divertir com a sua desgraça.

28.1 ANO 2016 DIÁLOGO UNIVERSITÁRIO 15


A RTI GO

DE ONDE VÊM OS
SERES HUMANOS?
A compreensão criacionista da Bíblia, segundo a qual os seres humanos
são o produto de um ato divino de criação especial, conflita com a hipótese
evolucionista de uma descendência modificada a partir de ancestrais primatas.
Este capítulo revê e discute a evidência fóssil relativa às origens humanas.

RONNY NALIN

C
omo decidimos o que é OS HUMANOS Australopithecus, o Ardipithecus ramidus
um ser humano? EVOLUÍRAM A PARTIR DOS é notavelmente diferente.3 Por outro
Uma abordagem sim- AUSTRALOPITECINOS? lado, as camadas acima dos limites estra-
ples é definir a humanida- Na hipótese evolucionista, o tigráficos do Australopithecus apresen-
de tomando como base as Australopithecus é considerado a forma tam restos atribuídos ao gênero Homo
características anatômicas. Entretanto, da qual surgiu o gênero Homo. Seus como também a fósseis de hominídeos,
todas as espécies viventes mostram uma restos são encontrados em sedimentos similares ao Australopithecus, porém com
variabilidade em seus traços morfológi- do Plioceno, abaixo daqueles conten- características mais robustas no esque-
cos. Quando comparadas com outras do fósseis do Homo. A anatomia do leto (gênero Paranthropus). Se as duas
espécies primatas existentes, as medidas Australopithecus revela traços que hoje formas são derivadas do Australopithecus,
do esqueleto humano moderno pare- são encontrados somente nos humanos. a descontinuidade entre o Homo e o
cem ser bastante homogêneas.1 Certos Entretanto, muitas características dife- Australopithecus fica ainda mais aparente
fósseis estão fora deste limitado espectro renciam claramente o Australopithecus do quando comparada à semelhança entre
moderno de variabilidade, e não há Homo. Essas características incluem, entre o Australopithecus e o Paranthropus.
um consenso claro sobre o critério de outras: (1) uma massa corporal menor; (2) Concluímos que a evidência fóssil
diagnóstico que deveria determinar se um tamanho pequeno do cérebro (cerca utilizada como argumento em favor de
de 400 a 550 cm3 comparado com apro- uma relação evolutiva entre o gênero
eles deveriam ou não ser considerados
ximadamente 1.400 cm3 dos humanos Homo e outras formas extintas de homi-
humanos. Uma abordagem prática é
modernos); (3) um comprimento maior nídeos está longe de ser convincente e
colocar um fóssil em particular dentro continua sem solução, especialmente à
do antebraço, comparado com o braço;
da categoria homo quando a massa e luz de um registro fóssil ainda incomple-
(4) o formato cônico do peito; e (5) dedos
a proporção corporais, as dimensões to do hominídeo do Plioceno.
relativamente longos e curvos.2
dos dentes e as adaptações do esque- Descobertas feitas em décadas recen-
leto mostram maior semelhança com tes têm feito aumentar os limites da O HOMO HABILIS ESTABELECE
os humanos modernos do que com variabilidade observada nos fósseis aus- UMA LIGAÇÃO ENTRE OS
os fósseis australopitecinos (um grupo tralopitecinos. Como resultado, uma AUSTRALOPITECINOS E OS
cujos restos foram descobertos na África variedade de nomes de espécies tem sido HUMANOS?
no princípio do século passado). Outros aplicada a esses restos. Complicações Catalogado na década de 1960, o
traços muitas vezes considerados rele- adicionais emergem da descoberta Homo habilis é uma espécie baseada
vantes na definição de humanidade são do Ardipithecus ramidus em camadas principalmente em restos fósseis desco-
as dimensões do cérebro, a habilidade abaixo daquelas que contêm restos de bertos na África oriental. Esses fósseis
de fabricar ferramentas e indicações de Australopithecus. Apesar da proximida- mostram tantas variações morfológicas
comportamento social e simbólico de espacial e temporal em relação ao que muitos pesquisadores atualmente

16 DIÁLOGO UNIVERSITÁRIO 28.1 ANO 2016


acreditam que essas espécies possuem a origem do Homo erectus na África, Os neandertais têm proporções corpo-
duas formas distintas: uma maior e outra com uma subsequente dispersão pela rais semelhantes às dos HAMs que habi-
menor. As estimativas de capacidade cra- Ásia. Esses pesquisadores apoiam a tam em ambientes extremamente frios,
nial variam entre 500 e 750 cm3 – ligei- opinião oposta: origem na Ásia suce- como os esquimós. Entretanto, a ideia de
ramente maior que a média de 400 a 550 dida por dispersão na África.7 que a anatomia esquelética do neandertal
cm3 dos australopitecinos. Estudos feitos Além disso, os antropólogos não seja o resultado de uma adaptação ao
com os ossos do pé sugerem que o Homo entram em acordo sobre o destino do clima foi recentemente desafiada. Na
habilis foi um bípede terrestre, mas as Homo erectus. Alguns argumentam realidade, a região do Mediterrâneo, com
proporções do osso de seu braço eram que os traços de asiáticos modernos seu clima temperado, parece ter sido seu
semelhantes às de um macaco. Alguns preservam traços típicos do Homo local de residência favorito.15
autores concluíram que o Homo habilis é erectus, sugerindo uma continuidade Os neandertais desaparecem do regis-
uma forma derivada do Australopithecus, regional entre o HAM e as formas de tro fóssil no Pleistoceno superior. Alguns
em vez de uma parte do gênero Homo.4 Homo erectus.8 Outros propõem que o pensam que sua extinção se deve à sua
Homo erectus asiático foi uma ramifi- substituição pelos novos HAMs migran-
OS HUMANOS DE “ASPECTO cação lateral periférica de longa vida tes. Outros propõem que os neandertais
NÃO MODERNO” que eventualmente desapareceu.9 se mesclaram pelo menos em parte
Alguns fósseis têm semelhanças Homo heidelbergensis. Os fósseis com o grupo de HAMs em expansão.
suficientes com o que é considerado o do Homo erectus desaparecem desde Análises de DNA mitocondrial extraído
“humano anatomicamente moderno” a África até a Europa lá para o fim de ossos de neandertais revelam sequên-
(HAM) para ser classificados como do Pleistoceno inferior. Aqui, são cias que diferem do DNA mitocondrial
parte do gênero Homo. Porém, eles sucedidos por fósseis de meados do tanto de fósseis modernos como de fós-
exibem traços distintivos o suficiente Pleistoceno, que mostram um subs- seis de HAMs.16 No entanto, essas dife-
para ser descritos como pertencentes tancial aumento na capacidade crania- renças não podem descartar o fato de
a espécies diferentes. A seção seguinte na. Estes espécimes foram agrupados que os neandertais contribuíram para o
discute os principais tipos de fósseis na espécie Homo heidelbergensis, vista fundo genético humano. Em realidade,
humanos de “aspecto não moderno”. como uma forma afro-europeia deri- um estudo recente do genoma neander-
Homo erectus. Esta espécie está vada do Homo erectus e ancestral tanto taloide parece indicar que o DNA das
baseada em descobertas realizadas na dos neandertais como do HAM.10 populações humanas de nossos dias tem
Indonésia, China, África e Eurásia Restos de fósseis encontrados em segmentos derivados dos neandertais.17
ocidental. As características distinti- meados do Pleistoceno superior da
vas do Homo erectus incluem (1) uma China são muito semelhantes aos espé- O REGISTRO FÓSSIL DE
abóbada cranial alongada e baixa; (2) cimes clássicos afro-europeus de Homo HUMANOS ANATOMICAMENTE
arcos supraciliares robustos; (3) ângulo heidelbergensis. Alguns autores suge- MODERNOS (HAMS)
afilado entre a base e a parte posterior rem que o material chinês indica uma Os HAMs se distinguem com base
do crânio; e (4) um tamanho médio migração posterior do H. heidelbergen- em alguns traços que incluem, entre
absoluto do cérebro (aproximadamente sis para a Ásia. No entanto, partidários outros: (1) um cérebro com formato
1.000 cm3) menor que o do HAM. da continuidade regional (onde fósseis globular, em vez de alongado; (2) uma
Restos pós-cranianos5 e rastros com da mesma região e aparentemente ori- face que não se projeta para a frente;
pegadas bem conservadas indicam ginários de espécies diferentes mostram (3) pequeno desenvolvimento dos arcos
proporções do corpo e movimento semelhanças) preferem interpretar os supraciliares; (4) um queixo bem defini-
(locomoção) essencialmente moder- fósseis chineses como evidência de uma do; e (5) dentes de menores dimensões.18
nos. A altura e a massa corporal esti- gradação contínua local a partir do Os mais antigos fósseis que mostram
madas para alguns espécimes do Homo Homo erectus até o HAM.11 essa combinação de traços vêm da
erectus são comparáveis às do HAM Neanderthals (Homo neander- África oriental. Entretanto, é impor-
médio, mas outros espécimes mostram thalensis). Fósseis de neandertais são tante notar que outros espécimes con-
um tamanho muito pequeno.6 encontrados somente na Europa e na temporâneos da mesma localidade
Entre os enigmas em torno da ori- Ásia oriental.12 Esses fósseis mostram não têm a aparência tão moderna.19
gem do Homo erectus estão seu apare- certa semelhança com o HAM, mas Somente em um nível estratigráfico
cimento súbito, sua descontinuidade têm uma estrutura esquelética mais mais alto (normalmente datado em
morfológica e sua ocorrência em con- robusta e características cranianas alta- torno de 45 mil anos) é que o HAM
junto com supostas formas ancestrais. mente distintivas.13 Restos com o con- se torna o tipo dominante de fóssil
Outro quebra-cabeça é que, desde o junto completo de traços neandertaloi- humano. Neste ponto, eles começam
princípio, o Homo erectus apresenta des começam a aparecer no Pleistoceno a ser encontrados na Europa, Austrália
uma abrangente distribuição geográfi- superior, mas as características tipica- e Ásia. A expansão súbita parece estar
ca: desde a África até o sudeste da Ásia. mente neandertaloides já são presentes relacionada à dispersão a partir da
Isso tem levado alguns a questionar o nos fósseis de hominídeos europeus de Ásia ocidental. Logo após a expansão,
cenário normalmente aceito que coloca meados do Pleistoceno.14 os primeiros e surpreendentes exem-

28.1 ANO 2016 DIÁLOGO UNIVERSITÁRIO 17


plos de artes figurativas (pinturas em das”. A distribuição dessas características morfológicas. De fato, modificações
cavernas e estatuetas esculpidas) são nem sempre segue o padrão esperado. microevolucionárias pós-diluvianas são
registrados na Europa. Há combinações do tipo mosaico, nas rotineiramente invocadas para outras
O padrão de aparecimento de traços quais os fósseis antigos exibem traços espécies (como gatos ou canídeos) e não
morfológicos modernos tem levado “modernos” ou populações modernas devem ser categoricamente excluídas
à hipótese do “êxodo da África”, que apresentam traços “arcaicos”.21 para os humanos. A fixidez de nossa
sugere que o HAM evoluiu primeiro Apesar das dificuldades para inter- espécie não parece ser apoiada pela evi-
na África oriental e, mais tarde, espa- pretar a variabilidade nas características dência das Escrituras. De fato, a maioria
lhou-se pelo mundo. O mosaico de morfológicas, não se pode negar que a dos criacionistas propõe que ocorreram
características morfológicas que apa- modernidade anatômica aparece apenas mudanças fisiológicas em nossa espé-
rece na maioria dos HAMs primitivos no ponto mais alto do registro fóssil. cie como consequência do pecado ou
poderia ser explicado pela existência Pontos fortes e fracos do modelo de mudanças nas condições ecológicas
de mesclas com populações humanas evolucionista. Seções prévias deste ocorridas depois do dilúvio.
preexistentes (como as neandertais da capítulo ilustram como o pensamen- Diferentes grupos humanos como
Europa) em vez de total substituição. to predominante acerca da evolução o Homo erectus e o Homo neandertha-
Um modelo alternativo, a teoria da humana está longe de ser resolvido. A lensis podem, portanto, representar
evolução multirregional, não respalda maneira de avaliar o peso das evidên- dispersões pós-diluvianas de popula-
a ideia de que o HAM teve origem na cias atuais é, obviamente, um tema ções que, em alguns casos, fixaram
África. Em vez disso, ela sugere que subjetivo, mas a opinião pessoal deste certos traços anatômicos por causa de
a emergência de uma modernidade autor é que o caso da evolução huma- seu relativo isolamento geográfico. O
anatômica foi um processo gradu- na baseado no estudo dos fósseis não aparecimento tardio do HAM pode
al, envolvendo mais de uma popula- é convincente. As transições-chave, estar relacionado a uma dispersão
ção de cada vez. Esses grupos teriam como é o caso de australopitecinos mais recente de um grupo huma-
vivido em regiões diferentes. Mesmo para Homo, carecem de detalhado no em que traços anatomicamente
assim, poderiam ter intercambiado suporte para ser demonstradas de modernos eram predominantes.24 É
genes, contribuindo para uma modifi- forma inequívoca. Por outro lado, a interessante notar que as Escrituras
cação geral e gradual de nossa espécie. principal força do modelo evolucio- admitem migrações sucessivas (por
nista está na distribuição ordenada exemplo, a dispersão pós-diluviana e
DISCUSSÃO dos fósseis, com os australopiteci- a dispersão pós-Torre de Babel) e que
O significado da variabilidade nos nos localizados abaixo do Homo, e o relato bíblico e parte do registro
caracteres morfológicos. As espécies o HAM só aparecendo no topo do fóssil são convergentes em indicar a
limite estratigráfico do Homo.22 Ásia oriental como o centro de onde
hominídeas são definidas com base na
se originaram essas dispersões.
suposição de que a variabilidade morfo- Como entender a evidência fóssil a
lógica reflete diferenças genéticas sufi- partir de uma perspectiva criacionis-
Este artigo foi publicado originalmente como
cientemente significativas para que essas ta. As diferenças anatômicas observadas parte de uma compilação: Understanding Creation:
espécies não cruzem entre si. Em outras entre os australopitecinos e o Homo Answers to Questions on Faith and Science, L. James
palavras, as espécies eram tão diferentes são interpretadas pela maioria dos cria- Gibson e Humberto M. Rasi, eds. (Nampa, Idaho:
cionistas como uma representação de Pacific Press, 2011) Adaptado com permissão.
umas das outras que não se mesclavam
nem geravam descendentes entre elas. dois grupos separados, não relaciona-
Ronny Nalin
Entretanto, alguns traços podem variar dos entre si. A variabilidade observa-
Obteve PhD em Ciências da Terra na
por outras razões além da genética. Por da entre diferentes espécies de Homo, Universidade de Pádua, Itália. Desde
exemplo, isso pode ocorrer em virtude todavia, é frequentemente interpretada 2007, ele tem trabalhado no Geosciente
do comportamento ou do clima. Na como uma expressão da alta diversi- Research Institute como cientista
realidade, algumas diferenças esqueléti- dade original e da microevolução do pesquisador e como professor adjunto
cas que sugerem uma descontinuidade grupo humano.23 De acordo com essa de geologia na Universidade de Loma
biológica podem, em vez disso, estar abordagem, o Homo erectus, o Homo Linda. Suas áreas de interesse estão
relacionadas ao tamanho ou ao estágio heidelbergensis, o Homo neanderthalensis concentradas em sedimentologia de
de desenvolvimento. Também podem e outras formas do tipo mosaico seriam carbonatos não tropicais, especialmente
simplesmente refletir uma quantidade verdadeiros representantes da espécie da região do Mediterrâneo, e em
maior de variabilidade do que aquela humana que, a certa altura, desenvol- estratigrafia sequencial de depósitos
observada nos humanos modernos.20 veram grupos de traços morfológicos sedimentários marinhos pouco
Outra complicação com as recons- distintos em decorrência de alterações profundos. Ele tem publicado vários
truções evolucionistas vem da prática de genéticas e de fatores ecológicos. Essa trabalhos sobre esses temas em
designar uma ordem de aparecimento interpretação implica que o aspecto periódicos internacionais. Sua jornada
para as características morfológicas, defi- moderno dos humanos foi fixado ape- espiritual pessoal o tem levado a
considerar a fé e a ciência como fontes de
nindo algumas delas como “ancestrais” nas recentemente como consequência
conhecimento e compreensão da vida.
ou “primitivas” e outras como “deriva- de uma maior extensão de expressões

18 DIÁLOGO UNIVERSITÁRIO 28.1 ANO 2016


1. M. M. Lahr, The Evolution of Modern
Human Cranial Diversity: A Study
21. Trinkaus (2006), p. 597-620. A Cosmologia Única de Gênesis 1
N O TA S E R E F E R Ê N C I A S

22. A distribuição ordenada de restos bioló-


in Cranial Variation (Cambridge: gicos é uma das principais característi-
Continuação da página 11
Cambridge University Press, 1996). cas do registro fóssil.
2. B. Asfaw et al., “Australopithecus Garhi: 10. Kurt Galling, “Der Charakter der
23. M. L. Lubenow, Bones of Contention Chaosschilderung in Genesis 1, 2”, Zeitschrift

N O TA S E R E F E R Ê N C I A S
A New Species of Early Hominid From (Grand Rapids, MI: Baker, 2004).
Ethiopia”, Science 284 (1999), p. 629- fur Theologie und Kirche 47 (1950): p. 151.
635; B. Wood e M. Collar, “The Human 24. S. Hartwig-Scherer, “Apes or 11. Tsumura, “The Earth and the Waters
Genus”, Science 284 (1999), p. 65-71. Ancestors?”, em Mere Creation, ed. in Genesis 1 and 2: A Linguistic
W. A. Dembski (Downers Grove, IL: Investigation”, p. 32, 33.
3. T. White et al., “Ardipithecus Ramidus and InterVarsity, 1998), p. 212-235.
the Paleobiology of Early Hominids”, 12. See Gerhard F. Hasel, “The Fountains of
Science 326 (2009), p. 75-86. the Great Deep”, Origins 1 (1974): p. 67-72.
4. Wood e Collard. 13. O termo šĕʾôl é traduzido como “grave”
5. O termo pós-craniana refere-se aos (tumba), 31 vezes; como “hell” (inferno)
elementos esqueléticos sem incluir o 31 vezes; e “pit” (cova), 6 vezes, na KJV.
crânio. O termo “hell” (inferno) é inapropriado
porque não tem nada a ver com tortura,
6. D. Lordkipanidze et al., “Postcranial tormento ou consciência.
Evidence From Early Homo From
Dmanisi, Georgia”, Nature 449 14. Claus Westrmann, Genesis (Neukirchen-Vluyn,
(2007), p. 305-310; A. C. Walker e R. Alemanha: Neukirchener, 1974), p. 160.
E. F. Leakey, The Nariokotome Home 15. Randall W. Younker and Richard
Erectus Skeleton (Cambridge: Harvard M. Davidson, “The Myth of the Solid
University Press, 1993). Heavenly Dome: Another Look at the
7. R. Dennel e W. Roebroeks, “An Asian Hebrew Term rāqîaʿ”, Andrews University
Perspective on Early Human Dispersal Seminary Studies 49 (2011): p. 127.
From Africa”, Nature 438 (2005), p. 16. Walter C. Kaiser Jr., “The Literary Form
1099-1104. of Genesis 1:1-11”, em J. B. Payne, ed.,
New Perspectives on the Old Testament
8. D. A. Elter, “The Fossil Evidence for (Waco, Texas: Word, 1970), p. 57.
Human Evolution in Asia”, Annual
Review of Anthropology 25 (1996), p. 17. Theodor H. Gaster, “Dragon”, The
275-301. Interpreter’s Dictionary of the Bible, vol.
1 (1962), p. 868.
9. C. B. Stringer, “Modern Human Origins:
Progress and Prospects”, Philosophical 18. Gordon H. Johnston, “Genesis 1 and
Transactions of the Royal Society of Ancient Egyptian Creation Mythes”,
London B 357 (2002), p. 563-579. Bibliotheca Sacra 165 (2008): p. 187.
19. Alan R. Millard, “A New Babylonian
10. Stringer.
‘Genesis’ Story”, Tyndale Bulletin 18
11. Elter; Stringer (2002). (1967): p. 3-18.
12. Os neandertais devem ter se estendido 20. “From Pyramid Texts Spell 527”, trans.
até o sul da Sibéria. James P. Allen, The Context of Scripture
1, Nº 3, p. 7.
13. Ver E. Trinkaus, “Modern Human
Versus Neandertal Evolutionary 21. James P. Allen, Genesis in Egypt: The
Distinctiveness”, Current Anthropology Philosophy of Ancient Egyptian Creation
47, nº 4 (2006), 597-620; ver também Accounts (New Haven, Connecticut: Yale
referência 18. University Press, 1988), p. 10.
14. Por exemplo, o “crânio de Swanscombe”. 22. “From the ‘Memphite Theology’”, trad.
Ver C. B. Stringer e J. J. Hublin, “New James P. Allen, The Context of Scripture 1,
Age Estimates for the Swanscombe 15: p. 21-23.
Hominid, and Their Significance for 23. Ragnhild Bjerre Finnestad, “Ptah, Creator
Human Evolution”, Journal of Human of the Gods: Reconsideration of the
Evolution 37 (1999), 873-877. Ver tam- Ptah Section of the Denkmal”, Numen:
bém os restos de esqueletos descober- International Review for the History of
tos em Sima de los Huesos, Espanha. Religions 23 (1976): p. 89.
J. J. Arsuaga et al., “The Sima de los 24. James P. Allen, “From the ‘Memphite
Hueses Crania (Sierra de Atapuerca, Theology’”, The Context of Scripture, 1,
Spain). A Comparative Study”, Journal of 15-16: p. 22.
Human Evolution 33 (1997), p. 219-281.
25. Nahum M. Sarna, Understanding Genesis
15. P. Shipman, “Separating ‘Us’ from (New York: Schocken, 1970), p. 9.
‘Them’: Neanderthal and Modern 26. Ibid., p. 13.
Human Behavior”, Proceedings of the
National Academy of Sciences (USA) 105, 27. Otto Loretz, Schöpfung und Mythos,
nº 38 (2008), p. 14241, 14242. Stuttgarter Bibelstudien 32, (Stuttgart:
Katholisches Bibelwerk, 1968), p. 92-98.
16. J. P. Noona et al., “Sequencing and
Analysis of Neanderthal Genomic 28. Jaroslav Černyý, Ancient Egyptian Religion
DNA”, Science 314 (2006), p. 1113-1118. (Westport, Conn.: Greenwood, 1979), p. 48.
17. R. E. Green et al., “A Draft Sequence of 29. Papyrus Bremner-Rhind (BM 10188).
the Neandertal Genome”, Science 328 30. Richard J. Clifford, Creation Accounts in
(2010), p. 710-722. the Ancient Near East and in the Bible
(Washington, D.C.: The Catholic Biblical
18. Trinkaus, “Early Modern Humans”, Association, 1994), p. 116.
Annual Review of Anthropology 24
(2005), p. 207-230. 31. Charles Francis Whitley, “The Pattern
of Creation in Genesis”, Journal of Near
19. M. H. Day, “Omo Human Skeletal Eastern Studies 17 (1958: p. 34, 35.
Remains”, Nature 222 (1969), p. 1135-
1138. 32. Gordon H. Johnston, p. 192.
20. A. Rosas, “A Gradient of Size and Shape 33. Papyrus of Henuttwy (British Museum
for the Atapuerca Sample and Middle 10188).
Pleistocene Hominid Variability”, 34. Erik Hornung, Conceptions of God in
Journal of Human Evolution 33 (1997), Ancient Egypt (Ithaca, N.Y.: Cornell
p. 319-331; T. White, “Early Hominids University Press, 1982), p. 81.
– Diversity or Distortion?”, Science 299 35. Gerhard von Rad, Genesis. A Commentary
(2003), p. 1994-1997. (Philadelphia: Westminster, 1962), p. 53.

28.1 ANO 2016 DIÁLOGO UNIVERSITÁRIO 19


A RTI GO

CUIDAR DO MEIO
AMBIENTE: UM ASSUNTO
DIVINO E NOSSO TAMBÉM
Deus vislumbra um futuro ecológico. No entanto, é um futuro que depende
da nossa gestão ambiental.

JOHN WESLEY TAYLOR V

C
omo cristãos, por que nós ficado muito bom!”7 Deus cria os seres […] de cada um dos seres vivos […],
também devemos cuidar humanos à Sua imagem para refletir o de cada espécie de ave, de cada espécie
do meio ambiente? Afinal, Seu caráter e prioridades, e os coloca de animal grande e de cada espécie de
Deus não nos fez donos como administradores da Sua criação: animal pequeno que se move rente ao
da Terra para usá-la em “Então disse Deus: ‘Façamos o homem chão virá um casal a você para que
nosso benefício?1 Os seres humanos à Nossa imagem, conforme a Nossa sejam conservados vivos.”13 Mesmo
não valem mais que rios, árvores semelhança. Domine ele sobre os peixes depois que passou o dilúvio, “Deus
ou animais?2 Não foram os israelitas do mar, sobre as aves do céu, sobre lembrou-Se de Noé e de todos os ani-
punidos por adorar a Terra e tudo o os grandes animais de toda a terra e mais selvagens e rebanhos domésticos
que nela existe?3 Não acreditamos nós sobre todos os pequenos animais que que estavam com ele na arca, e enviou
na Segunda Vinda, quando a Terra se movem rente ao chão.’”8 um vento sobre a Terra, e as águas
será consumida pelo fogo e, então, o Essa posição de administradores, começaram a baixar.”14 Além disso, ao
próprio Deus irá criar “um novo céu e no entanto, está ligada a uma relação acabar o dilúvio, Deus incluiu espe-
uma nova terra”?4 Não é a nossa mis- compartilhada. É algo significativo, cialmente os animais ao fazer a alian-
são salvar pessoas, e não o planeta?5 por exemplo, que Deus tenha criado ça: “Vou estabelecer a Minha aliança
os animais e os seres humanos a par- com vocês e com os seus futuros
A RESPONSABILIDADE CRISTÃ tir do “pó da terra” e concede a cada descendentes, e com todo ser vivo que
PELO MEIO AMBIENTE um a bênção correspondente: “Sejam está com vocês: as aves, os rebanhos
Embora essas preocupações tenham férteis e multipliquem-se.”9 domésticos e os animais selvagens.”15
um grau de validade, talvez devês- Em essência, “do Senhor é a Terra e A Escritura Sagrada também deixa
semos começar com uma pergunta tudo o que nela existe.”10 E nós deve- claro que Deus não apenas protege,
diferente: Como cristãos, por que não mos ser administradores responsáveis mas supre as necessidades de todas as
deveríamos nós nos preocupar com do ecossistema em que vivemos.11 Suas criaturas, e não somente para os
o meio ambiente? Afinal, cuidar do 2. Deus continua ligado à Sua seres humanos. “Tu, Senhor, preservas
meio ambiente é bíblico. Há quatro criação e a protege. O relacionamen- tanto os homens quanto os animais.”16
pilares que apoiam essa premissa. to e cuidado de Deus por Sua cria- “Todos eles dirigem seu olhar a Ti,
1. Deus é o Criador, e nós somos ção estão documentados em toda a esperando que lhes dês o alimento no
feitos à Sua imagem. Tudo começa Escritura.12 Tomemos, por exemplo, o tempo certo. […] abres a Tua mão,
com o Deus Criador, que traz à dilúvio, conforme está registrado em e saciam-se de coisas boas.”17 Jesus
existência um mundo físico que Ele Gênesis, nos capítulos 6 a 9. Diante de mesmo diz: “Observem as aves do
tem prazer em contemplar.6 Gênesis uma catástrofe global iminente, Deus céu: não semeiam nem colhem, nem
registra estas palavras: “E Deus viu procura preservar as várias espécies. armazenam em celeiros; contudo, o
tudo o que havia feito, e tudo havia Ele instrui Noé: “Faça entrar na arca Pai celestial as alimenta.”18

20 DIÁLOGO UNIVERSITÁRIO 28.1 ANO 2016


Em suma, a Bíblia torna evidente que do.”27 Em tudo, há provas convincentes ponto de sobrarem pouquíssimos.”32
o cuidado ambiental é assunto de Deus. de que Deus espera que os seres huma- Finalmente, em termos apocalípti-
E se Deus protege, preserva e supre as nos cuidem do meio ambiente. cos, os 24 anciãos sentados ao redor
necessidades de todas as criaturas, deve- 4. Deus Se entristece quando Sua do trono de Deus clamam: “As nações
mos nós ser menos cuidadosos? criação é profanada e explorada. se iraram; e chegou a Tua ira. Chegou
3. Deus instrui os seres huma- Deus revela a Sua preocupação por o tempo de julgares […] e de destruir
nos a cuidar da criação. Na criação, meio do profeta Jeremias: “Eu trou- os que destroem a Terra.”33
Adão e Eva são comissionados a servir xe vocês a uma terra fértil, para que
e preservar o planeta e tudo o que comessem dos seus frutos e dos seus O PROBLEMA DA
nele existe: “O Senhor Deus colocou bons produtos. Entretanto, vocês con- CONTRADIÇÃO
o homem no jardim do Éden para taminaram a Minha terra; […]. Até Está claro: Deus é um ambientalista
cuidar dele e cultivá-lo.”19 Essa é uma quando a terra ficará de luto e a relva convicto, e estamos aqui para cuidar da
incumbência que nunca foi revogada. de todo o campo estará seca? Perecem Sua criação. O problema é a contradição.
A instrução de Deus aos israelitas inclui os animais e as aves por causa da mal- Quando era adolescente, eu mora-
a bondade para com os animais: “Se você dade dos que habitam nesta terra. […] va próximo a uma floresta tropical.
vir o jumento ou o boi de um israelita Fizeram dela uma terra devastada; e Nossa família costumava caminhar
caído no caminho, não o ignore.”20 Os devastada ela pranteia diante de Mim. pela floresta com bastante frequência,
animais também devem receber o bene- A terra toda foi devastada, mas não há e eu me maravilhava com as árvores
fício de seu trabalho: “Não amordacem o quem se importe com isso.”28 altaneiras, envolvidas pelas epífitas, as
boi”, Deus ordena, “enquanto está debu- O profeta Ezequiel também expressa aves que revoavam em suas copas e as
lhando o cereal”.21 Da mesma forma, a angústia de Deus nestas palavras: “Ai borboletas translúcidas que flutuavam
Salomão nos lembra de que “o justo cuida dos pastores de Israel que só cuidam nos fachos intermitentes da luz do Sol
bem dos seus rebanhos.”22 de si mesmos! […] Não bastam que entremeando a rica folhagem. À noite,
Um exemplo clássico da relação de comam em boa pastagem? Deverão podia ouvir o motor dos caminhões
Deus com os animais pode ser visto vocês também pisotear o restante da de madeira que carregavam os enor-
no tratamento de Balaão para com sua pastagem? Não basta que bebam água mes troncos até o porto, árvores que
jumenta. Quando, frustrado e furioso, límpida? Deverão vocês também enla- cresceram e ali permaneceram durante
bate nela repetidamente, as primeiras mear o restante com os pés?”29 séculos. E eu sentia uma certa tristeza
palavras do anjo a Balaão referem-se aos Deus aponta as consequências quando por isso. Lembro-me também, do meu
maus tratos ao animal: “Por que você o mundo que Ele criou é violado e con- sentimento de orgulho, naquela época,
bateu três vezes em sua jumenta?”23 taminado: “Ai de vocês que adquirem quando terminei de fazer uma escri-
A instrução de Deus também inclui casas e mais casas […] até não haver mais vaninha em meu quarto, que ia de uma
um tempo de descanso para a terra e lugar para ninguém e vocês se tornarem parede à outra, feita de um único bloco
para os animais. Isso deve ocorrer a cada os senhores absolutos da terra! O Senhor de mogno. Uma contradição.
sete dias, no sábado: “O sétimo dia é o dos Exércitos me disse: ‘Sem dúvida mui- Não faz muito tempo, vi um carro últi-
sábado dedicado ao Senhor, o teu Deus. tas casas ficarão abandonadas, as casas mo tipo, de emissão zero, com um adesi-
Nesse dia não farás trabalho algum, belas e grandes ficarão sem moradores.’” vo “Go Green!” [Seja Ecológico], exibido
nem tu, nem teus filhos ou filhas, nem No versículo seguinte, ele adverte: “Uma no para-choque, no estacionamento de
teus servos ou servas, nem teus ani- vinha de dez alqueires só produzirá um uma churrascaria. Outra contradição.
mais.”24 Foi instituído também um ano pote de vinho, um barril de semente Visitei recentemente uma escola
sabático no qual a população agrária só dará uma arroba de trigo.”30 Deus onde os professores falaram sobre o
devia permitir que a terra repousasse. declara ainda que as fontes secam, os aquecimento global e a camada de ozô-
Consequentemente, esse era um período rios tornam-se desertos e as terras férteis nio. Os alunos fizeram cartazes sobre
que ocorria de sete em sete anos, quando tornam-se em solo estéril “por causa da “Salve as Baleias” e criaram murais
os animais domésticos deviam descansar maldade dos seus moradores.”31 alusivos à proteção do nosso planeta.
e a terra ser regenerada.25 Em termos que parecem semelhan- Era uma escola que usava pratos e
Mesmo em tempos de guerra, o meio tes aos relatórios atuais, Deus descreve utensílios descartáveis, não biodegra-
ambiente deve ser protegido: “Quando os resultados da exploração ambiental: dáveis, as luzes ficavam acesas e as
sitiarem uma cidade por um longo “A Terra seca-se e murcha, o mundo torneiras pingando, e onde todo o lixo
período, lutando contra ela para con- definha e murcha, definham os nobres era jogado em um único recipiente. No
quistá-la, não destruam as árvores dessa da Terra. A Terra está contaminada entanto, outra contradição.
cidade.”26 Séculos depois, Jesus instruiu pelos seus habitantes, porque desobe-
Seus discípulos a praticarem a conser- deceram às leis, violaram os decretos TRANSFORMANDO A
vação do meio ambiente. Após alimen- e quebraram a aliança eterna. Por isso CONVICÇÃO EM AÇÃO
tar milhares de forma miraculosa, Jesus a maldição consome a Terra, e seu Se Deus é um ambientalista, quais
orientou: “Ajuntem os pedaços que povo é culpado. Por isso os habitantes são as implicações? O que devemos
sobraram. Que nada seja desperdiça- da Terra são consumidos pelo fogo ao fazer como cristãos?

28.1 ANO 2016 DIÁLOGO UNIVERSITÁRIO 21


1. Informe-se. Identifique as causas lâmpadas que economizam energia. A VISÃO DE DEUS PARA UM
do caso em questão e procure definir as Leve sua própria sacola ao supermer- FUTURO SUSTENTÁVEL
possíveis soluções, especialmente com cado. Caminhe, ande de bicicleta e Deus vislumbra um futuro ecológico.
base em uma perspectiva cristã. A use o transporte público sempre que No entanto, é um futuro que depende
Bíblia, por exemplo, identifica a causa puder. Faça suas compras próximo de da nossa gestão ambiental. “Se o Meu
implícita na crise ambiental: “Cuidado! onde mora. Colete a água da chuva. povo, que se chama pelo Meu nome,
Fiquem de sobreaviso contra todo tipo Aproveite o vento ou a energia solar.41 […] se afastar dos seus maus caminhos,
de ganância; a vida de um homem Na verdade, uma das contribui- […] perdoarei o seu pecado e curarei
não consiste na quantidade dos seus ções mais importantes que você pode a sua terra.”45 Como consequência, “o
bens.”34 “Vocês viveram luxuosamente fazer para o ecossistema é se tornar deserto e a terra ressequida se regozija-
na Terra, desfrutando prazeres, e farta- vegetariano. Isto não tem a ver apenas rão; o ermo exultará e florescerá como a
ram-se de comida em dia de abate.”35 O com a crueldade para com os animais. tulipa; irromperá em flores. […]. A areia
profeta Oséias aponta para o resultado Um estudo recente da Universidade abrasadora se tornará em lago; a terra
dessa vida egoísta: “Por isso, a Terra Loma Linda, publicado no American seca, fontes borbulhantes. Nos antros
pranteia, e todos os seus habitantes Journal of Clinical Nutrition, constatou onde outrora havia chacais, crescerão a
desfalecem; os animais do campo, as que uma dieta à base de plantas resulta erva, o junco e o papiro.”46
aves do céu e os peixes do mar estão em quase um terço menos de emissões Nesse ecossistema florescente,
morrendo. Mas que ninguém discuta, de gases de efeito estufa do que uma Deus, mais uma vez, estabelece um
que ninguém faça acusação, pois sou dieta com produtos de origem animal.42 pacto de gestão ambiental. “Naquele
Eu quem acusa os sacerdotes.”36 Além disso, de acordo com a Water dia, em favor deles farei um acordo
Em essência, a crise ecológica – em Education Foundation, são necessá- com os animais do campo, com as
que o ar e a água estão poluídos, florestas rios cerca de 10 mil litros de água aves do céu e com os animais que
e vidas selvagens saqueadas, e recursos para produzir cerca de meio quilo de rastejam pelo chão. Arco, espada e
naturais explorados – está enraizada em carne bovina.43 Em contraste, apenas guerra, Eu os abolirei da Terra, para
nossa ganância egoísta e em nossa recusa 100 litros de água são necessários para que todos possam viver em paz.”47
para praticar uma gestão responsável. produzir meio quilo de trigo.44 “Ninguém fará nenhum mal, nem
As Escrituras também apontam para 3. Eduque os outros no conhe- destruirá coisa alguma em todo o
a solução: “Ame o seu próximo como cimento ambiental. Transmita essas Meu santo monte, pois a Terra se
a si mesmo.”37 Nós amamos nossos prioridades e preocupações ambientais encherá do conhecimento do Senhor,
vizinhos globais ao permitirmos que àqueles que vivem ao seu redor de forma como as águas cobrem o mar.”48
tenham um lugar decente para viver. atraente, talvez através da arte, da dra- O que então é necessário? “O que se
O objetivo é elevar a nossa própria matização ou da tecnologia, utilizando requer desses encarregados é que sejam
consciência espiritual e aprofundar o modelos e metáforas. Se você pode fazer fiéis.”49 Medimos a nossa gestão pelos
nosso compromisso de servir de guar- isso, realize algumas pesquisas ambien- ecossistemas saudáveis, desenvolvimen-
das e guardiões do nosso planeta.38 Isso tais, fornecendo uma base empírica para to sustentável e consumo responsável.
ocorre quando reconhecemos que Deus alcançar decisões estratégicas. “Encarregados” fiéis. Isso é o que
é o Designer, o Criador e Mantenedor Em essência, devemos nos tornar você e eu devemos ser.
do mundo natural; quando aplicamos agentes de mudança para determos Então, vislumbre o futuro e aja agora!
os princípios bíblicos da moral cristã, a exploração egoísta dos recursos da
da integridade e do comportamento Terra e a degradação irresponsável
ético em todos os aspectos da vida, do meio ambiente, que resultam em John Wesley Taylor V
incluindo o meio ambiente; e quando sofrimento generalizado, desordem PhD pela Universidade Andrews
e EdD pela Universidade da
desenvolvemos atitudes de gestão cor- ambiental e ameaça à mudança cli-
Virgínia, é diretor associado do
reta e de serviço em relação à vida, à mática. Para controlarmos o con-
Departamento de Educação da
saúde e ao meio ambiente da Terra.39 sumo desenfreado e o consumismo Associação Geral dos Adventistas
2. Seja um exemplo em gestão ambi- irresponsável. Para interrompermos do Sétimo Dia. Ele recicla, fecha
ental. Reduza. Reuse. Recicle. Restaure. o esgotamento de recursos não reno- a torneira, apaga as luzes, é
Feche a torneira enquanto escova váveis e a poluição que ameaçam vegetariano e plantou duas
os dentes, ao fazer a barba, ou está se os ecossistemas da Terra. Para criar- árvores neste ano. Ele espera um
ensaboando ao tomar banho. Não des- mos e implementarmos uma agen- dia comprar um veículo híbrido,
perdice a comida.40 Plante uma árvore, da ambiental. O nosso objetivo deve já que seu carro de 20 anos é
talvez várias. Transforme em adubo ser o desenvolvimento sustentável dos reciclado. Seu e-mail:
seu lixo orgânico e depois plante um recursos: responder às necessidades taylorjw@gc.adventist.org
jardim. Ajude a limpar uma rua, um humanas enquanto cumprimos com
parque ou um córrego. Participe de o nosso mandado de cuidar do meio
(ou inicie!) um programa de reciclagem ambiente. Temos de gerir os recursos
de vidro, papel e plástico. Mude para da Terra, fielmente.

22 DIÁLOGO UNIVERSITÁRIO 28.1 ANO 2016


1. Gênesis 1:28. 36. Oséias 4:3, 4. Varied Dietary Patterns in Real-life
NOTA S E RE FE RÊ NCIA S

2. Mateus 6:26; 12:11, 12. 37. Marcos 12:31. Settings Through North America.” The
American Journal of Clinical Nutrition 100
3. Isaías 44; Romanos 1:25. 38. A igreja Adventista do Sétimo Dia emi- (2014):476S-482S.
4. 2 Pedro 3:10-12; Apocalipse 21:1. Ver tiu declarações oficiais sobre a res-
ponsabilidade cristã de cuidar do meio 43. Marcia Kreith, “Water Inputs in
também Isaías 65:17. California Food Production.” Water
ambiente. Estas incluem o seguinte: Como
5. Mateus 28:18-20. Education Foundation, Sacramento,
Adventistas, “nós pedimos respeito pela
Calif.: http://www.watereducation.org/
6. Gênesis 1; Êxodo 20:11; Neemias criação, a contenção do uso dos recursos
find/results/kreith. Essa é a mesma
9:6; Salmo 95:5; Jeremias 32:17; João do mundo, a reavaliação das necessi-
quantidade de água que você usaria
1:3; Efésios 3:9; Colossenses 1:15-17; dades de cada um e a reafirmação da
se tomasse um banho de sete minutos
Hebreus 1:2; Apocalipse 4:11; 14:7; dignidade da vida criada.” Essa declara-
todos os dias por seis meses.
11:17, 18. ção foi aprovada e votada pela Comissão
Administrativa da Associação Geral dos 44. Valores semelhantes de água são
7. Gênesis 1:31. Ver também Salmo Adventistas do Sétimo Dia e foi lançado necessários para produzir uma libra
104:31. pelo Gabinete do Presidente na sessão da de alface, tomate ou batatas. Maçãs
8. Gênesis 1:26-28. Ver também Salmo Conferência Geral em Utrecht, Holanda, requerem 50 galões de água por libra.
8:6, 86-88. realizada nos dias 29 de junho a 08 de Nos EUA, a irrigação de feno e alfafa
julho de1995. A declaração completa usada primariamente como ração para
9. Gênesis 1:22, 28. Ver também Gênesis a indústria de carne, necessita mais
pode ser encontrada online no endere-
2:7, 19; Eclesiastes 3:19, 20. Cada vez água do que a produção de todos os
ço: https://www.adventist.org/en/infor-
que levamos uma espécie à extinção, mation/official-statements/article/go/0/ produtos hortícolas e de pomares de
estamos afirmando que o que Deus environment. Uma outra declaração apro- frutas combinados.
criou e que o que Ele ordenou nós vada e votada pelo Comitê Administrativo
podemos destruir. 45. 2 Crônicas 7:14.
da Associação Geral dos Adventistas dos
10. Salmo 24:1. Também “Quantas são as Sétimo Dia foi lançada pelo Gabinete do 46. Isaías 35:1, 2, 7.
Tuas obras, Senhor! Fizeste todas elas Presidente na sessão do Concílio Anual 47. Oséias 2:18.
com sabedoria! A terra está cheia de realizado em San José, Costa Rica, de 01 48. Isaías 11:9. Embora a referência direta
seres que criaste” (Salmo 104:24). Ver a 10 de Outubro de 1996, onde se lê, seja para vários animais, a passagem
Êxodo 9:29; Deuteronômio 10:14; 1 em parte: “Os Adventistas do Sétimo Dia abrange, por extensão, toda a criação
Crônicas 29:11; Jó 41:11; Salmo 50:10, defendem um estilo de vida saudável, em de Deus, incluindo os seres humanos.
11; 89:11; 95:3–5; 1 Coríntios 10:26. que as pessoas não entrem na rotina do
consumismo desenfreado, da desregra- 49. 1 Cor. 4:2.
11. Levítico 25:23, 24; Salmo 8:6-8; Lucas
16:2-13. da aquisição de bens e da produção de
resíduos. Apelamos ao respeito pela natu-
12. Jó 12:10; Salmo 65:9-13; 104:10-14; reza, à restrição no uso dos recursos ter- Baldwin, John T. “Guardas dos Jardins:
Os Cristãos e o Meio Ambiente”, Diálogo

PA R A U M E S T U D O M A IS A PRO FU N DA D O
145:9–17; Isaías 43:20, 21; Mateus 6:26 restres, à reavaliação das nossas próprias
e 10:29; Lucas 12:6; Hebreus 1:3. Universitário 14:1 (2002): 8-11: http://dia-
necessidades e à reafirmação do respeito
logue.adventist.org/en/articles/14-1/bald-
13. Gênesis 6:19-21; 7:2, 3. pela vida criada.” https://www.adventist.
win/keepers-of-the-garden-christians-and-
org/en/information/official-statements/
14. Gênesis 8:1. the-environment.
statements/article/go/-/stewardship-of-
15. Gênesis 9:9, 10. Ver também Gênesis -the-environment/. Chapman, Marcus. “For Want of a T-Bone
9:12-17. Uma aliança que inclui “os ani- Steak the Biosphere Was Lost.”, Adventist
39. Adaptado da Adventist EDGE: Science Review: http://www.adventistreview.org/
mais do campo, as aves do céu e as cria- Standards ― Ecology: www.adventiste-
turas que se movem rente ao chão” há church-news/for-want-of-a-t-bone-steak-the-
dge.org/site/1/AE_images/performstan- biosphere-was-lost.
também uma referência em Oséias 2:18. d/10NAD005%20Science_Ecology_2.pdf.
16. Salmo 36:6. Davidson, Joann. “Who Cares? Environmental
40. O desperdício de alimentos contribui Ethics and the Christian”, Adventist Review
17. Salmo 104:27, 28. Ver também Salmo para 18% do total das emissões de 186:18 (2009): http://archives.adventistreview.
145:16 e 147:9. metano vindo dos aterros nos EUA, que org/article/2681/archives/issue-2009-1518/
contribui para as alterações climáticas who-cares.
18. Mateus 6:26. (Mathy Stanislaus, “Working With Local
19. Gênesis 2:15. As palavras hebraicas Governments and Communities to Fight Dunbar, S. G., L. James Gibson, e Humberto M.
a-bad’ e sha-mar’ nesta passagem tam- Food Waste”, 10 de Dezembro de 2015: Rasi, Entrusted: Christians and Environmental
bém podem ser traduzidas como servir https://blog.epa.gov/blog/2015/12/ Care (Montemorelos, México: Adventus
e preservar. working-with-local-governments-and- International University Publishing, 2013).
-communities-to-fight-food-waste/). Lockton, Harwood A. “Os Adventistas e o
20. Deuteronômio 22:4. Veja também verso 1.
41. Aqui estão algumas outras maneiras de Ambiente”, Diálogo Universitário 4:2 (1992):
21. Deuteronômio 25:4. 5-7, 34: http://dialogue.adventist.org/
cuidar do meio ambiente, tornando-se
22. Provérbios 12:10. mais eficientes para a energia: (a) Lave issues/04-2-en.pdf.
23. Números 22:32. suas roupas em água fria. Só nos EUA, Mhlanga, Paul. “Stewardship of the
isto pouparia energia equivalente a Environment: An Adventist Imperative”,
24. Êxodo 20:10. Ver também Êxodo 23:12; 100.000 barris de óleo por dia; (b) Baixe Institute for Christian Teaching (1995): http://
Deuteronômio 5:12-15.. seu termostato no inverno e suba-o no ict.aiias.edu/vol_26A/26Acc_251-270.pdf.
25. Êxodo 23:10, 11; Levítico 25:2-7. verão. Melhor ainda, use um termostato
Patrick, Arthur N. “Por que os cristãos devem
programável; (c) Evite dirigir de forma praticar a gestão ambiental se o mundo será
26. Deuteronômio 20:19. agressiva. Melhore a sua eficiência de destruído?”, Diálogo Universitário 26:1 (2014):
27. João 6:12. combustível pisando leve o pedal do ace- 12-15: http://dialogue.adventist.org/en/
28. Jeremias 2:7; 12:4, 11. lerador e dos freios; (d) Use água filtrada, articles/26-1/patrick/why-should-christians-
em vez de comprar água engarrafada. practice-environmental-stewardship-if-the-
29. Ezequiel 34:2, 18. Para cada um milhão de garrafas que são world-will-be-destroyed.
30. Isaías 5:8-10. fabricadas e colocadas no mercado, 18.2
toneladas de emissões de dióxido de Shipton, Warren A. “Ecosystem Community
31. Salmo 107:33, 34. carbono são liberadas no ar; (e) Desligue Health Initiatives and Care of Creation”,
32. Isaías 24:4–6. as luzes e desligue eletrônicos e eletro- Journal of the Adventist Theological Society
domésticos quando você puder. Lembre- 25:1 (2014):43–74: http://www.atsjats.org/
33. Apocalipse 11:18. Embora a referência publication/view/546.
se, a energia mais verde é a energia que
principal seja para aqueles que des-
você nunca usa (adaptado de D. Eller, Zuill, Henry A. “Expanding the Garden: A
troem os seres humanos, a preocu-
“Searching for Clean, Next-gen Energy,” Christian’s View of Nature”, Institute for
pação de Deus, como vimos, engloba USA Today (11 de Janeiro de 2016): 6a.
toda a criação. Esse conceito é ecoado Christian Teaching (June 1994): http://ict.
Com base em dados da Universidade aiias.edu/vol_14/014cc_409-427. pdf.
em Habacuque 2:17: “Você destruiu as Cornell, do Escritório de Sustentabilidade
árvores dos montes Líbanos e agora Zuill, Henry A. “Os cristãos deveriam se
da Universidade de Iowa, da Agência
será destruído; você matou os animais e preocupar com o meio ambiente?”, Diálogo
de Proteção Ambiental dos EUA e do
agora vai ficar com medo deles” (NTLH). Universitário 19:1 (2007): 14, 15, 24, 25: http://
Departamento de Agricultura dos EUA.
dialogue.adventist.org/en/articles/19-1/zuill/
34. Lucas 12:15. 42. S. Soret et al., “Climate Change the-environment-should-christians-care.
35. Tiago 5:5, nota de rodapé. Mitigation and Health Effects of

28.1 ANO 2016 DIÁLOGO UNIVERSITÁRIO 23


PERFIL

PAUL CHIBUIKE
ANONABA
Diálogo com um advogado
sênior adventista da Nigéria
ENTREVISTADO POR UGOCHUKWU ELEMS

P
aul Chibuike Anonaba nasceu em uma famí- senão mais tarde, quando fez seus estudos de dou-
lia de agricultores na Nigéria e cresceu torado na Universidade Babcock. No entanto, logo
mantendo uma estreita afinidade com as após seu batismo, ele se envolveu totalmente nas
maravilhas do solo e das sementes – como a atividades da igreja adventista local, tornando-se uma
vida começa e cresce, e como tudo na natu- testemunha ativa na comunidade. No colégio onde
reza está integrado para sustentar e apoiar a vida. As estudava, era conhecido por compartilhar a mensa-
gem, o significado do sábado e a segunda vinda de
lições que aprendeu na infância o levaram a abraçar
Jesus, sendo um instrumento para alcançar muitos
dois ideais que se tornaram partes inseparáveis de de seus amigos.
sua vida: o amor a Deus como Criador e o compro- Quando Paul entrou para a universidade, encon-
misso de viver de maneira responsável. Esses valores trou uma atmosfera acadêmica e social desafiadora.
determinaram o rumo para que levasse a sério o Entretanto, transformou cada desafio em uma opor-
papel que exercia dentro de sua família (seus pais e tunidade para testemunhar, passando a participar ati-
oito irmãos) e, mais tarde, também em relação à sua vamente como membro da Associação de Estudantes
fé e comunidade profissional. Adventistas da Nigéria, no campus da Universidade
A jornada de fé de Paul começou com o apoio de Estadual de Imo. Como resultado, ele e seus colegas
sua mãe, que o levava à igreja adventista do sétimo estudantes adventistas pediram permissão para rea-
dia que frequentava. Foi lá que ele aprendeu, desde lizar os cultos, guardar o sábado e compartilhar o ali-
a infância, o significado da graça de Deus, o poder mento espiritual no campus. Após terminar o curso de
salvador de Jesus, a natureza essencial do sábado e Direito na Universidade Estadual de Imo, iniciou sua
a esperança da breve volta de Cristo. O pai de Paul carreira como advogado. Paul também tem PhD em
era membro da Igreja Anglicana. Foi seu avô o res- Direito e em Diplomacia pela Universidade Babcock,
ponsável por trazer os primeiros missionários cris- em Ikenne, na Nigéria.
tãos para a sua aldeia, em 1917. “A diferença de fé dos Hoje Paul é um dos eminentes juristas em sua terra
meus pais”, diz Paul, “nunca foi percebida em casa. Na natal. O governo outorgou-lhe o mérito de Advogado
verdade, meu pai nunca se comprometeu com o ad- Sênior da Nigéria – uma rara homenagem de reco-
ventismo, e minha mãe é que, fielmente, levava meus nhecimento pelos serviços prestados, semelhante ao
irmãos e eu para a Escola Sabatina, cada semana. Conselho da rainha, concedido pelo Reino Unido.
Aqueles primeiros ensinos na fé e na vida adventis- Paul é casado com Amarachi, que é formada em
ta estabeleceram uma base sólida para a minha vida Administração Pública e Direito, e gerencia seus
adulta e profissional.” escritórios de advocacia. O casal tem três filhos em
No início da adolescência, Paul foi batizado na idade escolar. A família é profundamente comprome-
Igreja Adventista, mas, para sua tristeza, não teve a tida com a igreja: Paul é ancião da igreja que frequen-
oportunidade de estudar em uma escola adventista, ta e Amarachi é diaconisa.

24 DIÁLOGO UNIVERSITÁRIO 28.1 ANO 2016


 Vamos começar com a profissão  Se tivesse que começar tudo de novo, da vida, como é a família, educação,
que o senhor escolheu. Tendo em vista a ainda assim, o senhor escolheria ser advogado? saúde, lazer, profissão, vocação cristã,
atitude negativa para com o estudo e a Sim, com certeza. Acredito na ora- etc. A fé não é apenas uma das áreas
prática da advocacia, tanto no país como ção e creio também que, em resposta das quais nós cuidamos no dia de
na igreja, o que realmente o motivou a às minhas orações, Deus me guiou na sábado. É um chamado que exige
fazer o curso de Direito? escolha que fiz ao me preparar para essa tudo de nós, o tempo todo. É e deve
Você foi ao ponto. Ainda hoje carreira. Como a profissão de advogado ser a força que nos orienta em todas
persiste a desconfiança tradicional é o meu ministério, ela é um chama- as atividades da vida, todo o tempo.
com relação à advocacia e à profis- do para mim. Eu não estudei Direito, Assim, a minha profissão como advo-
são jurídica na sociedade nigeriana. porque através dessa formação as pes- gado perde a sua vitalidade se não for
Os aspectos negativos dessa suspeita soas ganham dinheiro. Eu sempre olhei contínua e constantemente orientada
podem ser encontrados tanto dentro para a prática da advocacia como um e regida pelo meu compromisso de fé.
da comunidade da igreja, como em instrumento para estabelecer a regra da Permita-me contar-lhe um fato que
outros aspectos da vida em geral. Suas lei e ficar do lado da justiça. A Bíblia ocorreu com um amigo profissio-
raízes remontam aos tempos antigos, fala muito sobre justiça e direito, e uma nal. Tony é advogado na Inglaterra.
quando as práticas cultuais secretas das minhas passagens favoritas, que me Sempre que está na Nigéria, visita
estavam ligadas à tribo Ogboni, e tais guiou na profissão jurídica, é Isaías 1:17: o meu escritório para discutirmos
práticas não somente influenciaram a “Aprendam a fazer o bem; busquem a assuntos de interesse profissional
sociologia e a vida tribal, mas também justiça, acabem com a opressão. Lutem mútuo. Um dia, ele me ligou da
afetaram a religião e a forma tribal de pelos direitos do órfão, defendam a Inglaterra e fez uma pergunta que eu
resolver as questões legais. A formação causa da viúva.” Um advogado cristão, não esperava: “Onde fica a sua igreja?”
de várias fraternidades e sua influên- que toma uma passagem como essa e faz Fiquei surpreso porque nunca tinha
cia sobre a emergente influência cristã dela o seu lema na vida, vai olhar para a falado de maneira intencional com
deu origem a um intercâmbio de estí- sua profissão como sendo o sal da terra ele sobre assuntos religiosos. Então
mulo e impacto. As tradicionais práti- – para apoiar a justiça, para estabelecer a ele continuou: “Eu quero ir à sua
cas e crenças Ogboni foram passando justiça nas relações, para ser um refletor igreja.” Em duas semanas, ele estaria
para a fé e a vida cristã, resultando em da verdade e de todos os valores que em Lagos e queria ir comigo à minha
um conflito entre a herança tribal e o derivam desses conceitos. Todos os dias, igreja. Entrentanto, eu não ia estar
surgimento da fé moderna. Esse con- os meus escritórios iniciam os trabalhos na cidade. “Não importa”, disse ele,
flito tinha sua própria dinâmica de focalizando Deus como o verdadeiro “quando você voltar, eu ainda estarei
suspeita: a tradicional maneira tribal juiz; como equipe, nós começamos o em Lagos, e assim você poderá me
de resolução dos problemas legais foi nosso dia com um culto e com oração. levar à sua igreja.” Dei a ele o ende-
ameaçada pela introdução do estudo Todos nós somos ministros no templo reço da igreja local e então tive uma
de Direito em um ambiente univer- da justiça e queremos que a prática da agradável surpresa naquele sábado.
sitário. Às vezes, os sistemas tradicio- nossa profissão esteja enraizada e guiada Ele chegou à igreja antes de mim,
nais das aldeias viam a compreensão pelo princípio da integridade e do temor participou do culto conosco e disse
e a prática da advocacia como uma a Deus. Em meus escritórios no país, que, finalmente, tinha encontrado
ameaça à tradição cristã, e era essa todas as segundas-feiras pela manhã, sua casa de adoração, um costume
ameaça que estava por trás de toda conectamos as nossas filiais para a rea- que ele manteve quando retornou à
desconfiança e questionamento dos lização de um culto e uma oração. Essa Inglaterra. Eu nunca preguei para
cristãos ao adotarem o Direito como prática promove a união de todos os ele, não o convidei para ir à igreja,
curso de estudos e profissão. funcionários, tanto do escritório central mas, a partir do que ele viu em nosso
No entanto, agradecemos a Deus, como das filiais, em um período de escritório, acreditou que o Deus que
pois Ele permitiu que alguns de nós oração e de renovação do nosso com- adorávamos era digno de sua devoção.
fôssemos a prova do que é o verda- promisso, como também para pedir a
deiro cristianismo e chegássemos ao Deus força e sabedoria para lidar com as  Voltando aos tempos em que fazia
posto mais alto na carreira jurídica. tarefas que temos pela frente na semana. os seus estudos de graduação e à sua atu-
Nós acreditamos e sabemos que Deus ação no Ministério para Universitários
tem o Seu próprio povo em todas as  Em nossas faculdades e universida- e Profissionais Jovens Adventistas,
gerações, em todas as profissões, e eu des, falamos muito a respeito da necessi- como o seu envolvimento na Associação
estou feliz por ser um daqueles que dade de integrar a fé e o aprendizado. Nigeriana de Estudantes Adventistas
enaltece o nome de Cristo perante o Parece que o senhor está realizando uma (NAAS) impactou a sua vida?
mundo e na profissão jurídica. forma de integração da fé e da profissão. Eu não estaria na igreja hoje se não
Assim, estas são as minhas pala- Pelo menos estamos tentando. O fosse pelo meu envolvimento no minis-
vras de estímulo aos jovens da igreja: seu comentário me faz lembrar de tério da NAAS. Quando cheguei à
Confiem em Deus. Ele é capaz. Ele algo que li há muito tempo. O cris- Universidade Estadual de Imo (IMSU),
nunca vai decepcioná-los. tianismo não é uma das muitas áreas em Owerri, no Estado de Imo, na

28.1 ANO 2016 DIÁLOGO UNIVERSITÁRIO 25


Nigéria, eu era muito jovem e me hos- passado, mesmo tendo faltado a tantas dedicação. Os títulos que tanto o país
pedei em um albergue que ficava a certa aulas por causa da minha crença na como a comunidade nos outorgam
distância do campus principal. Era um guarda do sábado? Só conseguia pen- devem ser utilizados como veículos
lugar solitário, e os residentes do alber- sar em uma única resposta: eu usei as para o avanço da nação, para a paz e a
gue mantinham-se juntos por seguran- ferramentas que Deus me deu. Não há justiça no seio da comunidade.
ça. Os estudantes eram frequentemente nenhuma adversidade que não possa
atacados por estranhos, especialmente ser vencida por uma fé sólida em Deus  Com base em sua experiência, que
quando andavam sozinhos ou na estrada e uma vida de oração. conselho o senhor deseja dar aos jovens
deserta e sem qualquer iluminação, após Eu me lembro de outro caso que adventistas para ajudá-los ao longo de sua
o pôr do sol. O que eu não sabia era que envolveu Ngozi Ahinacho, minha caminhada de fé, com relação à educação
havia um culto que era realizado sob a colega na faculdade de Direito. Um de e à escolha da carreira? O que a nossa
pretenção de proteger os alunos. Nessa seus professores agendou um exame juventude deve fazer para superar algu-
época, entrei em contato com um grupo no sábado. O professor era conhecido mas lutas que enfrentam em sua vida?
de estudantes adventistas da universi- por ser muito exigente e rígido sobre Meu primeiro conselho vai para os
dade. Os estudantes veteranos, mais suas convicções e se recusou a fazer pais, em casa. Quando os pais dão
experientes, me avisaram para não me qualquer acerto. Ngozi e os mem- prioridade para a formação baseada
unir ao grupo, sob qualquer alegação, bros da NAAS recorreram à oração na fé e no crescimento espiritual dos
incluindo a segurança. Também fiquei naquela sexta-feira à noite. Na manhã filhos, eles podem ter a certeza de que
sabendo da existência da NAAS e come- de sábado, por alguma razão desco- seus filhos serão responsáveis e madu-
cei a participar do projeto. Esse foi real- nhecida, as autoridades universitárias ros na idade adulta. A religião começa
mente o ponto da virada, um momento remarcaram o exame para outro dia. em casa, e a liderança dos pais deve re-
decisivo em minha vida. Deus me livrou Ngozi não teve que comprometer a fletir os valores bíblicos, pois eles são
de fazer parte de um grupo ritualista, sua fé, pois Deus nunca falha com a base de uma vida exemplar. Em se-
que teria arruinado completamente a aqueles que nEle confiam. gundo lugar, para os alunos, eu digo:
minha vida. A partir daí, não olhei mais “Lembra-te do teu Criador nos dias da
para trás. Eu me reunia com os outros  O governo lhe conferiu o título de tua mocidade” (Eclesiastes 12:1). O
alunos adventistas e dedicávamos tempo Advogado Sênior da Nigéria. Desde que conselho que Salomão deu, há muito
para o estudo da Palavra de Deus, como foi outorgado pela primeira vez, em 1975, tempo, é válido ainda hoje. Ou você
também para meditar e orar. E os hábi- cerca de 500 pessoas já foram condecoradas, está do lado de Deus ou não está. Não
tos cultivados naquele tempo, na NAAS, e o senhor foi o primeiro adventista a obter existe meio-termo. A maioria das coisas
solidificaram a minha vida espiritual. esse mérito. Como se sente por ter recebido encantadoras da vida – especialmente
tão grande honraria? nos campi universitários – tendem à
destruição dos valores essenciais para
 Enquanto fazia a faculdade, o Eu não acho que essa condecoração
nós. Como cristão, seja meticuloso em
senhor teve que lidar com o desafio das tenha sido uma conquista profissional
seu trabalho e confie em Deus. Não vá
aulas e exames aos sábados? minha, mas sim uma bênção especial
demasiado rápido, passando à frente
Sim, muitas vezes. Mas nós temos que Deus me concedeu por estar a
de Deus. A Bíblia diz que há tempo
ferramentas poderosas: a fé em Deus e serviço do povo deste grande país.
para tudo. Aprenda a esperar pelo tem-
a oração para nos ajudar em tais situ- Acredito sinceramente que esta rara po no calendário de Deus. Escolha se-
ações. Por exemplo, tivemos o caso de homenagem me permitirá prestar um guir a Sua direção e você não irá falhar.
um clérigo que lecionou em um curso serviço da mais alta qualidade nos Certamente, no momento oportuno,
obrigatório de lógica. Suas aulas sem- casos em que tal serviço for mais Deus o exaltará.
pre incluíam uma programação aos necessário. Um exemplo ocorrido há
sábados, e ele não fazia nenhuma con- bem pouco tempo será o suficiente.
cessão para os guardadores do sábado. Por mais de quatro anos, a Igreja Ugochukwu Elems
Minha única opção era ignorar as Adventista esteve em litígio pelo DMin pela Universidade Andrews,
palestras e depois estudar sozinho, direito de posse de 50 acres de terra Berrien Springs, Michigan, EUA,
arduamente. O exame, felizmente, não na via expressa Lagos-Ibadan. Em é diretor do Departamento de
foi no sábado. Cento e vinte alunos virtude dos privilégios que tenho por Jovens e Diretor do Ministério
estiveram presentes para fazer aquele ser um Advogado Sênior da Nigéria, para Universitários e Profissionais
exame. O curso foi difícil, e as ques- pude intervir em favor da igreja, e Jovens Adventistas na Divisão
tões eram implacáveis. Depois de ler Deus nos deu a vitória. A gleba agora Centro-Oeste Africana da Igreja
Adventista do Sétimo Dia, com
as perguntas, cerca de 100 alunos está reservada para ser o local de
sede em Abidjan,
saíram da sala, preferindo fazer a prova acampamento da igreja.
Costa do Marfim.
em outro momento, de tão difícil que Outros casos de reivindicações
estava. Apenas 20 alunos fizeram o legais mostram que quando os nos-
exame. Eu era um desses, e fui aprova- sos talentos são dedicados à causa da
do. Como posso explicar o fato de ter justiça, Deus sempre recompensa essa

26 DIÁLOGO UNIVERSITÁRIO 28.1 ANO 2016


P O NTO D E V I S TA

AS DISTRAÇÕES PODEM
LEVAR À DESTRUIÇÃO:
Lições de Maria
e Marta
Entre a ansiedade de Marta por atender seus convidados e a escolha de
Maria de assentar-se aos pés do Mestre, Jesus mostrou a prioridade que
deve reger nossas escolhas na vida.

JUNJUN MANALO AMPARO

A
s distrações que ocorrem das preocupações maiores por se pre- coisas para oferecer uma refeição per-
ao longo do crescimento ocuparem com as menores. A história feita. Ela precisava cortar as frutas,
espiritual são comuns. de Maria e Marta é uma vívida ilus- montar a salada e dar os últimos reto-
Elas vêm de diversas for- tração de como podemos deixar de ques naquela refeição especial. Vários
mas – material, emocio- focar as questões importantes da vida detalhes tinham que ser acertados. Os
nal, relacional, espiritual – e devem diante de preocupações menores. hóspedes não podiam esperar. Marta
ser uma fonte de preocupação para estava sozinha em sua missão de hos-
todos os cristãos, pois todas elas afe- JESUS NA CASA DE MARTA pitalidade, e sua irmã, Maria, nem
tam a nossa jornada espiritual, de Cansados e famintos após uma se aproximou da cozinha. Quando
uma forma ou de outra. Muitas vezes, longa viagem, ao voltarem de Jericó, Marta encontrou Maria, ela estava
somos absorvidos por coisas de menor Jesus e Seus discípulos chegaram à “sentada aos pés do Senhor, ouvindo
importância. Por exemplo, podemos pequena aldeia de Betânia e entraram a Sua palavra” (Lucas 10:39). Estava
ficar menos concentrados no objetivo na casa de Maria e Marta (Lucas com sua atenção voltada unicamente
principal de cultivar a fé quando esta- 10:38-41). As duas irmãs estavam em ouvir Seus ensinamentos. Marta
mos preocupados com questões que muito felizes pela oportunidade de ficou profundamente perturbada e
envolvem o emprego, contas a pagar, receber esses convidados especiais. aborrecida. Como Maria podia ficar
relacionamentos, questões familiares, Marta apressou-se para atender às assim, quando havia tanta coisa a
etc. Além dessas, há ainda as dis- necessidades dos visitantes cansados e fazer para atender aos convidados?
trações da vida moderna: televisão, logo estava muito ocupada na cozinha. Cansada e decepcionada, Marta não
telefones celulares e a mídia social A hospitalidade era algo que ela tinha foi falar com Maria, mas se aproxi-
que estão competindo constantemen- herdado dos costumes de Abraão e mou de Jesus com uma pergunta que
te com o nosso tempo e desviando a das históricas tradições vindas de seus demonstrou toda a sua ansiedade:
nossa atenção das preocupações maio- antepassados, e era definida como “Senhor, não Te importas que minha
res para as menores. amor. A mesa foi posta, e os pratos irmã tenha me deixado sozinha com
A Bíblia está repleta de narrativas e cálices no lugar. Estava quase tudo o serviço? Dize-lhe que me ajude!”
em que as pessoas estavam distraídas pronto, mas ainda faltavam algumas (Lucas 10:40).

28.1 ANO 2016 DIÁLOGO UNIVERSITÁRIO 27


Marta pediu algo justo, mas a res- é de admirar que o culto e a vida e secundário afastou o que é principal
posta de Jesus certamente a surpre- devocional estejam em risco. Quantas e fundamental.
endeu. O Senhor elogiou mais Maria vezes nos encontramos com a mente Ellen White vai bem ao ponto: “A
que Marta. “Respondeu o Senhor: desligada e interrompida durante a ‘uma só coisa’ que Marta necessitava,
‘Marta, Marta, você está preocupada oração! Quantas vezes nosso corpo era espírito calmo, devoto, mais pro-
e inquieta com muitas coisas; todavia está na igreja, mas os pensamentos fundo anseio de conhecimento da vida
apenas uma é necessária. Maria esco- estão em uma liquidação de sapatos futura, imortal, e as graças necessárias
lheu a boa parte, e esta não lhe será no shopping ou numa bolsa de grife
’ ao progresso espiritual. Precisava de
tirada’” (Lucas 10:41, 42). em promoção! Quantas vezes e-mails, menos ansiedade em torno das coisas
mensagens de texto e flashes de notí- que passam, e mais pelas que perma-
ENTRE MARTA E MARIA cias interrompem a leitura diária da necem para sempre. Jesus quer ensinar
Entre a ansiedade de Marta por Palavra de Deus! Você já foi tentado Seus filhos a se apoderarem de toda
atender os convidados e a escolha a abrir o seu celular ou smartphone, oportunidade de adquirir o conhe-
de Maria de assentar-se aos pés do enquanto a mensagem de Deus está cimento que os tornará sábios para
Mestre, Jesus mostrou a prioridade sendo pregada no culto, no sábado? A a salvação. A causa de Cristo requer
que deve reger nossas escolhas na vida. questão é simples e, no entanto, das obreiros cuidadosos e enérgicos. Existe
Marta concentrou-se nas tarefas mais perigosas: enquanto o risco de vasto campo para as Martas, com seu
menos importantes. Às vezes, as dis- interrupção está ao alcance de seus zelo no culto ativo. Sentem-se elas
trações – isto é, a atenção desviada dedos, o risco de destruição está che- primeiro, porém, com Maria aos pés
para as questões de menor importância gando ao seu coração. de Jesus. Sejam a diligência, prontidão
– podem se transformar em destrui- e energia santificadas pela graça de
ções. Por exemplo, uma mensagem de FAZENDO A MELHOR Cristo; então a vida será uma invencí-
texto ao telefone pode distrair alguém ESCOLHA vel força para o bem.”1
enquanto dirige e, por fim, levar a um O ponto-chave é este: É possível
trágico acidente automobilístico. Na servir a Jesus e ainda assim agir de
escola, os alunos distraídos com apa- maneira errada? Marta pensou que Junjun Manalo Amparo
relhos ou dispositivos móveis durante estava fazendo a coisa certa. Ela estava é profissional leigo
as aulas acham-se em um ambiente de ocupada cozinhando, pondo a mesa adventista e trabalha
aprendizagem desorientado e ineficaz. para uma refeição importante e envol- como conselheiro em uma
A mídia digital, em geral, representa vida em atender a uma necessidade escola internacional na
um desafio para a reflexão e o foco específica do Mestre. Ela pensou que Tailândia. Fundou o Richly
em Deus, e, muitas vezes, a oração e estava servindo ao Senhor. Mas essa Blessed Today, um blog
a meditação se tornam superficiais e ideia era totalmente diferente da pers- sobre o ministério que
apressadas. O tempo gasto na mídia pectiva de Jesus. Ela deve ter ficado ele realiza na área de
social pode reduzir o tempo dispo- surpresa e talvez até mesmo decep- instrução financeira.
nível para a adoração, para a oração, cionada quando Jesus a repreendeu
estudo da Bíblia e outras atividades dizendo que ela estava “preocupada
REFE RÊNCIA S

1. Ellen G. White, O Desejado de Todas


que fortalecem o lado espiritual. e inquieta com muitas coisas” (Lucas as Nações (Tatuí-SP, Casa Publicadora
Numa época em que a sociedade 10:41). Marta estava preocupada Brasileira, 1990), p. 525.
está preocupada com o consumismo demais com tantas coisas que perdeu
e as pressões do materialismo, não o mais importante. O que é periférico

28 DIÁLOGO UNIVERSITÁRIO 28.1 ANO 2016


LOGO S

SINTA O PODER
Você está esperando pelo surgimento de algum poder futuro, ou está
permitindo que o Espírito Santo atue em sua vida para que Ele o use hoje?

HOMER W. TRECARTIN

N
hem. Nhem, nhem, nhem, comermos, bebermos ou engolirmos Então, Seu propósito é fazer com que
nhem. Nhem, nhem, isso ou aquilo. Ah, sim, entendemos os trabalhadores despertem, isto é, a Sua
nhem, nhem. Você conhe- bem o que é energia. igreja que ainda está adormecida, a fim
ce essa situação. Com um Nos dias de Jesus, as pessoas não de dar-nos poder para terminar a Obra?
nó no estômago, saí do tinham carros, adaptadores de energia Agora, isso parece ser muito bom! Seria
carro e abri o capô. Imagino que alguns ou bebidas energéticas. No entanto, a como ligar os cabos de partida auxiliar
de vocês realmente sabem o que estão maioria de nós hoje não sabe muito do Céu pouco antes do fim da história
procurando, mas, como eu, muitos ficam sobre plantio e colheita, ou o que são as deste mundo para sacudir o povo e lhe
apenas olhando porque... bem, porque chuvas temporã e serôdia, das quais Jesus dar uma última porção do Seu poder!
não sabemos mais o que fazer! falou para ilustrar os últimos dias, mas, Talvez a chuva serôdia venha para nos
Podemos enviar uma mensagem a quando alguém fala do poder do Espírito energizar, para nos tirar de nossos con-
um amigo, ligar para o atendimento de Santo ou do poder da chuva serôdia, fortáveis assentos e fazer-nos ir ao mundo
emergência na estrada ou ficar apenas acenamos com a cabeça afirmando que com a derradeira mensagem! Talvez.
olhando ansiosamente para cada veículo gostaríamos de poder ligar os nossos Antes, porém, de nos contentarmos em
que passa. Se tivermos cabos de partida cabos de partida auxiliar. Sem dúvida, assentar em nossa cadeira de balanço
auxiliar, podemos até colocar uma extre- achamos que entendemos o que é poder! para esperar pela chuva serôdia, gostaria
midade na bateria do carro e com a outra Gostamos de falar da promessa de de me aprofundar um pouco mais nessa
acenar para quem passa. Joel 2:28, 29: “E depois disso, derra- imensa explosão de energia que por um
Ah, que alívio quando alguém, bon- marei do Meu Espírito sobre todos os curto espaço de tempo será derramada, e
dosamente, para e se aproxima, levanta povos. Os seus filhos e as suas filhas que pela qual, às vezes, parecemos ansiar.
o capô, conecta os cabos, depois pede profetizarão, os velhos terão sonhos, Deus não poderia derramar o Seu
para entrarmos no carro e tentarmos e os jovens terão visões. Até sobre os Espírito sobre uma igreja adorme-
dar a partida mais uma vez. A mão vossos servos e as servas derramarei o cida? Ele não poderia, de repente,
treme nervosamente enquanto viramos Meu Espírito naqueles dias.” falar através dos santos que estão
a chave na ignição. Vrrrrrooooommmm! Agora é poder! cochilando, de maneira poderosa,
Ah, a energia! para que chamem o mundo ao arre-
Podemos não ter um osso mecâ- PODER PARA QUÊ? pendimento? Claro que poderia! Ele
nico no corpo, mas sabemos bem o Por que queremos ter esse poder a nem sequer precisa dos santos para
que é a falta de energia. Compramos qualquer custo? Por que estamos orando dar uma mensagem, pois demonstrou
aparelhos que se conectam em nossos para que o Espírito Santo seja derrama- esse Seu poder falando certa vez atra-
telefones ou computadores para for- do no poder da chuva serôdia? O que vés de um jumento e disse ainda que
necer maior carga de energia. Alguns achamos que Ele vai realizar quando até mesmo as pedras clamariam se as
aparelhos de aquecimento e ar condi- vier? Tem Ele o propósito de preparar pessoas não pregassem.
cionado possuem certo tipo de confi- o mundo para o amadurecimento da No entanto, é disso que o planeta
guração que permite a saída de uma seara? De certa forma, sim, mas não precisa? Que o mundo seja salvo por
onda rápida de calor ou frio. Além é isso o que Ele irá fazer em primeiro animais falantes, pedras que clamam
disso, a publicidade nos bombardeia lugar. Jesus declarou que a seara já esta- ou santos sonolentos? Permita-me
todos os dias, prometendo uma repo- va madura, mas que devíamos orar por lembrar que o jumento falante não
sição de energia instantânea, se apenas mais trabalhadores. converteu Balaão e a promessa das

28.1 ANO 2016 DIÁLOGO UNIVERSITÁRIO 29


pedras clamando não mudaria o cora- sobre ele, o contraste foi tão grande Você está esperando pelo surgimento
ção dos líderes judeus. naquele momento que somente acabou de algum poder futuro, ou está permi-
Muitos de nós estamos acenando com fazendo as pessoas rirem. tindo que o Espírito Santo atue em sua
a cabeça, concordando, mas continua- O poder que Saul experimentou não vida para que Ele o use hoje?
mos cochilando neste tempo memorável durou muito tempo, não transformou
em que vivemos. Esperamos que em nem ele ou qualquer outra pessoa, nem SENHOR, A CHUVA CHEGOU!
algum momento o Espírito Santo seja um pouquinho sequer. O poderoso der- Minha esposa, Bárbara, e eu estáva-
derramado e que, de repente, desperte- ramamento final do Espírito Santo não mos a caminho do aeroporto de Délhi,
mos de nossa letargia, a fim de terminar vai mudar a direção para onde estamos na Índia. O recepcionista da noite viaja-
a Obra. Temo, porém, que muitos de indo. Ele simplesmente dará poder e va conosco no mesmo táxi do hotel. Seus
nós despertaremos para descobrir que nos impulsionará mais e mais rápido no olhos estavam pesados por ter ficado
dormimos direto durante a chuva serô- caminho que já estamos seguindo. acordado a noite toda, e sua cabeça esta-
dia. Poderemos descobrir ainda, quando Voltando à ilustração dos cabos de va pendendo de tanto sono. Ele estava
já for tarde, que o derramamento do partida auxiliar, se os pneus do meu indo para casa descansar.
Espírito Santo estava acontecendo em carro estiverem vazios, os faróis quebra- De repente, algumas gotas grandes de
torno de nós, e nem sequer percebemos. dos ou o radiador furado, o suprimento chuva respingaram sobre o para-brisa. Na
Vejamos o relato de 1 Samuel 19:19- temporário de energia que entra através mesma hora, seus olhos se reanimaram.
24. Saul recebeu a notícia de que Davi desses cabos não vai me ajudar a chegar Cheio de entusiasmo, ele olhou para trás
se encontrava com o profeta Samuel, aonde estou indo. Quando coloco o cabo e disse: “Olhe, senhor, a chuva chegou!”
em Ramá. De imediato, enviou um vermelho no positivo e preto no negativo Ele então se virou para trás para olhar.
contingente de soldados após outro e ligo a ignição, meu carro não será trans- Logo desapareceram as linhas cansadas
para capturá-lo, mas, como cada grupo formado no mesmo instante. A fonte de ao redor de seus olhos. Suas costas se
que se aproximava era dominado pelo energia não vai nem mesmo me colocar endireitaram; seus lábios se curvaram
Espírito Santo e os soldados começa- em uma nova direção no estacionamento. em um leve sorriso. Não era um agua-
vam a profetizar, completamente frus- Ondas temporárias de poder, mesmo ceiro, apenas gotas esparsas em uma
trado, Saul foi pessoalmente em busca aquelas que vêm do Céu, não nos for- estrada poeirenta, mas, para o jovem
de Davi. Ele também ficou cheio do çam a mudar de direção. Elas só nos funcionário do hotel, essas gotas traziam
Espírito, dominado, prostrado e nu impulsionam na direção em que já esta- esperança e boas promessas. A chuva
diante de Samuel, e profetizou durante mos indo e só são eficazes se o restan- estava chegando, finalmente!
todo aquele dia e aquela noite. te do sistema está funcionando bem. Eu também posso ver que a chuva está
Todos eles profetizaram, mas note, É por isso que necessitamos desespe- começando a cair. Jesus está prestes a
eles não mudaram. O rei Saul não radamente de reavivamento e reforma. voltar. Sementes estão sendo plantadas.
mudou; nem ninguém que o ouviu. Necessitamos da suave operação do As pessoas estão orando juntas, rogan-
Eles simplesmente riram, se divertiram Espírito Santo em nossa vida agora, não do a Deus para preparar o solo de sua
e zombaram dele: “Está Saul também apenas de uma fonte de poder momen- mente; estão pedindo ao Senhor da seara
entre os profetas? tânea em algum tempo futuro. que envie mais trabalhadores e orando
pelo derramamento da chuva serôdia.
POR QUE A DIFERENÇA? E O SOLO ESTÁ PRONTO? Isso não vai ser uma explosão de ener-
Pense nisto: Quando Saul estava cheio Em Joel 2:23, 24, o texto fala sobre a gia momentânea apenas. Quando esse
do Espírito Santo, ele só fez as pessoas primeira e última chuvas, e promete que Poder vier, não será somente por um dia,
rirem. Quando Pedro estava cheio do as eiras estarão cheias, mas, deixe-me e essa chuva não vai nos envergonhar.
Espírito, as pessoas se arrependeram, e dizer-lhe, não estarão cheias se nada for Ela vai terminar a obra que permitimos
três mil foram convertidas em um só dia. plantado antes que as chuvas venham. Ele que o Espírito de Deus inicie em nosso
Por quê? O que fez a diferença? Não eram diz que os tonéis estarão transbordando coração e em nossa vida hoje.
dois espíritos diferentes. A Bíblia diz que com suco e óleo, mas isso só acontecerá Olhe, senhor! Olhe, senhora! A
Saul estava cheio do Espírito de Deus. Ele se as vinhas e olivais forem plantados e Chuva chegou!
poderia também ter bebido muito vinho. cuidados. A chuva serôdia não altera o
Nada de bom veio dele. Tudo o que acon- resultado; ela só multiplica o que já está
teceu foi que ele fez papel de tolo. sendo preparado. Permita-me reiterar: A Homer W. Trecartin
Como podemos ver, o poder do chuva serôdia não muda a colheita; ela só MA pela Universidade
Espírito Santo só tem eficácia se a aumenta o que já foi plantado no solo. Andrews, é o Diretor dos
nossa vida é coerente com a mensagem. Quando eu plantar e adubar, tudo Centros de Missão Global
A vida de Saul não estava de acordo estará pronto. As chuvas, então, farão da Associação Geral dos
com a mensagem que ele transmitiu crescer. O que surge é o que já estava Adventistas do Sétimo Dia.
quando estava sob o poder do Espírito lá. O mesmo é verdadeiro quando a
Santo. Saul ficou cheio do Espírito, chuva serôdia amadurecer a colheita.
mas não deixou o Espírito moldá-lo, Ela fará amadurecer tanto as boas
mudá-lo e transformá-lo desde o início. plantas como as ervas daninhas. Ela
Quando o poder do Espírito desceu não muda o que está no campo.

30 DIÁLOGO UNIVERSITÁRIO 28.1 ANO 2016


E M AÇ ÃO

REFLEXIONANDO ))))) ANDO


[REFLEXÕES]: UMA RÁDIO ADVENTISTA
TRANSMITINDO EM UM CAMPUS
UNIVERSITÁRIO NÃO ADVENTISTA
NATALIA GARZÓN

marcante conquista foi longo e árduo. são e trabalho, nós nos apresentamos
Tudo começou em 2012. Deus prepa- às autoridades da universidade com
rou todas as coisas de antemão, tocan- um esboço do projeto que abordaria
do o coração de Angie e o meu para questões relacionadas aos jovens e,
sentirmos a necessidade de iniciar um de maneira particular àqueles que
ministério de pequenos grupos no pertenciam à escola.
campus. Assim, fundamos o grupo Então chegou o momento de Deus
“Juventude na UT”, da Universidade agir. Depois de três meses, quan-
de Tolima, que, sob o lema Levando do estávamos começando a perder
Estudantes a Jesus, começou a se reunir as esperanças, Ele interveio. Fomos
semanalmente para dedicar tempo à autorizados a ocupar um espaço de
oração, comunhão, estudo da Bíblia, 30 minutos na estação de rádio UT
realizar trabalhos evangelísticos e de (http://turadiout.com/emisora/).
serviço à comunidade. Isso aconteceu no início de 2014.
Ao nos reunirmos a cada sema- Como primeiro passo, prontamen-
na, alguns estudantes demonstraram te nos dispusemos a participar de
interesse em conhecer Jesus. Esse um curso de programação de rádio.
OPERADOR DE CONTROLE interesse nos levou a iniciar a série Aprendemos a fazer os scripts, tive-
MESTRE: 1, 2, 3… Estamos no ar… de estudos bíblicos “Fé em Jesus”. mos algumas noções básicas sobre o
REFLETINDO ))))) INDO: Bom Decidimos nos reunir para fazer os uso do software, modulação da voz e
dia, queridos amigos! É um prazer sau- estudos no campus mesmo, embora outros temas relevantes para a trans-
dar cada um de vocês, ao iniciarmos a houvesse uma igreja adventista nas missão. Logo estávamos produzindo
transmissão do novo programa Diálogo proximidades. Um evento realizado programas relacionados ao uso de
Universitário, direto da cidade de no campus pode atrair mais estudan- drogas, estresse, problemas com o
Ibague, na Colômbia… Um programa tes que no ambiente da igreja. estilo de vida e outros de interesse
que, em verdade, reflete o maravilhoso Os estudos bíblicos renderam social e espiritual.
amor de Deus para com as pessoas… várias decisões que mais tarde leva- Passo a passo, construímos o pro-
Portanto, são todos bem-vindos! ram ao batismo. Um dos jovens grama de rádio a partir do nada.
Assim teve início a primeira trans- recém-batizados, Darío Alejandro, Às primeiras apresentações, demos o
missão da estação de rádio funda- teve uma ideia visionária: iniciar a nome de “Uma Dose de Felicidade”
da pelos estudantes adventistas da transmissão de uma rádio Adventista (com palavras de esperança e enco-
Universidade de Tolima na Colômbia. com base na estação de rádio do cam- rajamento), e “Vitaminas de Deus”
No entanto, o caminho para essa pus. Depois de muita oração, discus- (com temas relacionados aos remédios

28.1 ANO 2016 DIÁLOGO UNIVERSITÁRIO 31


naturais). Juntamente com o segmen- campus, apresentamos também a pre- as provações ao longo do caminho.
to principal, compartilhamos histó- ciosa mensagem da salvação em Jesus Queremos agradecer a Ele e Lhe ren-
rias, demos conselhos e falamos de e compartilhamos nossas crenças fun- der honra e glória por Sua bondade,
Jesus, que está sempre disposto e damentais. A mensagem da salvação misericórdia e grande amor.
pronto para nos ajudar a enfrentar e a tem levado esperança e consciência Você também pode sonhar grandes
superar nossos problemas. espiritual a muitos de nossos ouvintes coisas para Ele, e seus sonhos poderão
Toda segunda-feira à noite, gra- no campus e na comunidade. se tornar realidade. Com a ajuda de
vamos o programa que vai ao ar Com o crescimento do interesse dos Deus, você poderá cumprir a missão
na segunda-feira seguinte, às 10h30. ouvintes, continuamos avançando e que Ele lhe confiou (Mateus 28:19,
Desde a primeira transmissão, o pro- introduzimos a Voz da Profecia em 20). O que você está esperando?
grama foi um sucesso. A resposta dos espanhol, como parte da nossa grade
alunos, funcionários, professores e de programação. Além disso, apre-
membros da comunidade foi bastante sentamos um programa especial – O Natalia Garzón é estudante do
positiva. Trabalhamos duro, inves- Privilégio de Viver – que proporciona- quarto ano de Ciências Naturais
tigando e pesquisando as estratégias va uma base bíblica para ajudar nos na Universidade de Tolima, na
que levariam mais pessoas a sinto- principais problemas que os jovens Colômbia. Atualmente, é
nizar a rádio. Os anúncios feitos por enfrentam na vida. Esse programa coordenadora do Ministério Para
meio de panfletos, pela mídia social e se tornou tão popular que igrejas de Universitários e Profissionais
nas igrejas adventistas da cidade nos outras cidades passaram a convidar o Jovens Adventistas na
ajudaram muito a aumentar o núme- nosso grupo para visitá-las e apresen- Associação Sul-Colombiana
ro de ouvintes. tar os programas lá também. Como
Vez por outra, encontramos alguns resultado, vários pequenos grupos sur-
desafios, como a falta de recursos ou giram nos campi mais próximos.
contratempos na estação de rádio, O que começou como um sonho
mas, com a ajuda de Deus, as soluções impossível tornou-se realidade e levou
vão sendo encontradas. A congregação à pregação da mensagem da breve
local, a comissão da igreja, como tam- volta do nosso Salvador, por meio
bém a liderança da Associação e da de um ministério para universitá-
União estiveram sempre prontas a nos rios coordenado de maneira eficiente.
ajudar em tudo o que podem. Graças Deus tem nos abençoado e providen-
a Deus, o programa tem um grande ciado miraculosamente os recursos,
público tanto na cidade de Ibague, dando-nos saúde, força, ideias e os
como em locais próximos à região de talentos necessários, a fim de tra-
Tolima, em algumas outras cidades da balharmos para Ele. O Senhor nos
Colômbia e até mesmo fora do país. permitiu passar por muitas experiên-
Além das questões de estilo de vida cias diferentes e difíceis, mas esteve
que são comuns à convivência em um sempre lá para nos ajudar a superar

32 DIÁLOGO UNIVERSITÁRIO 28.1 ANO 2016


P E R S PEC TI VA

SENDO GRATOS,
MESMO QUANDO AS
COISAS DÃO ERRADO
SANDRA JANET BIRUNGI

O
s problemas da vida, um sempre alguma coisa com a qual nunca desafio e tornar-se em bem, contri-
dia ou outro, sempre vão estamos realmente contentes. buindo assim para o fortalecimento
nos engolir. É pratica- A questão é: se queremos certas coisas, da experiência pessoal. Nosso foco
mente impossível viver e temos a tendência de as querermos quase principal, ao lidarmos com situações
ser feliz 24 horas por dia, que imediatamente. Se você está com difíceis, deve ser sempre em como
sete dias por semana. Se você está feliz muita vontade de comer a sua sobremesa enfrentá-las, e não em ficarmos presos
agora, isso não é garantia de que esta- favorita, vai tentar obtê-la imediatamen- às preocupações e ansiedades.
rá feliz o dia todo. Nosso humor não te. Conseguir o que queremos, às vezes, Imagine, por exemplo, que você foi
permanece o mesmo ao longo do dia. pode se tornar um desafio. E fica pior vítima de um assalto ou acidente de
Algum tempo atrás, uma pesquisa ainda, se o que buscamos não é uma carro. Em tais situações, tentará desco-
defendeu a teoria dos conjuntos de necessidade, mas uma vontade, porque brir por que isso aconteceu com você.
felicidade, sugerindo que a felicidade o que nós queremos, na maioria dos Minha amiga Jovia muitas vezes se per-
das pessoas é constante, embora seja casos, está fora do nosso alcance. Tais guntava por que tantas coisas ruins
muitas vezes perturbada pelas cir- tentativas para conseguir o que não é aconteciam com ela. Para ajudá-la a
cunstâncias da vida. Essa teoria foi atingível de imediato podem vir a ser refletir sob um novo ponto de vista,
contestada por Richard E. Lucas, da bastante perigosas. lancei esta pergunta: “Se esse inciden-
Universidade do Estado do Michigan As teorias da motivação sugerem te não tivesse acontecido com você,
e do Instituto Alemão de Pesquisa que nossos desejos e necessidades, mas com alguma outra pessoa, será
Econômica. O estudo feito por ele muitas vezes, definem o nosso caráter que essa pessoa mereceria que tives-
levou em consideração que os níveis ou o nosso comportamento. É por se acontecido com ela?” Sob essa
de felicidade mudam, e a adaptação é isso que, quando não conseguimos o perspectiva, Jovia entendeu melhor o
inevitável devido à influêcia exercida que queremos ou precisamos, temos a problema. Procurar resolver a questão
pelos acontecimentos da vida.* tendência de nos entristecermos pro- de merecimento nem sempre produz
Isso significa que não temos a garan- fundamente. Assim, aqueles que têm uma solução satisfatória.
tia de felicidade todo o tempo porque baixa autoestima vão se afundando Às vezes, ao procurarmos entender
o nosso humor muda constantemente, mais e mais no mundo dos sentimen- por que certas coisas acontecem conos-
e tudo o que acontece em nossa vida tos de indignidade, enquanto os que co, colocamos a responsabilidade em
sempre muda o nosso nível de felicidade. possuem uma boa autoestima procu- Deus. “É a vontade de Deus” torna-se
Além disso, temos desejos e necessida- ram descobrir exatamente o que deu uma plataforma segura. Mas aqueles
des mudando a todo momento, senão errado e tentam controlar os danos. que não crêem em Deus podem culpar
aumentando cada vez mais, à medida As pessoas reagem de forma dife- algum outro fator – uma pessoa imagi-
que o tempo passa. De certo modo, rente quando enfrentam situações nária ou força que está determinada a
uma hora queremos algo e, no momen- complexas. Tais situações não são interferir em sua vida. Assim, explica-
to seguinte, queremos algo mais. Há necessariamente ruins; podem ser um ções e conspirações consomem o nosso

28.1 ANO 2016 DIÁLOGO UNIVERSITÁRIO 33


tempo na tentativa de descobrir: “Por tomar medidas imediatas para blo- alto como águias, correm e não ficam
que eu?” A melhor maneira seria aceitar quear o acesso à minha conta? exaustos, andam e não se cansam”
o que surge em nosso caminho, bom ou Não adiantava me deter no jogo (Isaías 40:31).
mau, alegre ou triste, e seguir em frente. da culpa. Voltei ao banco. A agência Três meses depois, o banco cobriu
garantiu o reembolso total da perda, a perda e creditou o dinheiro na
UM TESTEMUNHO mas levaria três meses. minha conta. Depois disso, agradeci
Um dia, durante o meu último mês Enquanto isso, o que iria fazer? e louvei a Deus por cuidar de mim.
de estágio, perdi meu cartão de débito Aquele era o meu último mês na A partir de então, aprendi uma nova
e a minha senha ao mesmo tempo. firma que me contratou; estava sem definição sobre o que é confiar em
Bastante nervosa, entrei em contato trabalho e não tinha nenhuma oferta Deus e continuar sendo grata a Ele em
com o banco e pedi que o cartão fosse de emprego. Como iria me manter todo o tempo – nos bons e nos maus
bloqueado. Entretanto, a pessoa que com a pequena quantia deixada no momentos. A questão não é por que
achou o meu cartão foi mais rápida. banco? Eu me senti traída pela vida. certas coisas acontecem conosco, mas
Entre a minha notificação de perda e Estava decepcionada com Deus: Por como vamos reagir em tais situações. A
o bloqueio de acesso feito pelo banco, que Ele não fez algo naquela situação? resposta encontra-se na confiança em
ela sacou uma grande quantia da – eu me perguntava. Normalmente, Deus e em uma vida de gratidão a Ele.
minha conta. Fiquei muito angustia- sou uma pessoa agradecida, mesmo
da. O prejuízo era grande demais para quando estou angustiada; mas, * As referências bíblicas citadas neste
suportar. Por que teve que acontecer naquele dia, estava muito desiludida, artigo foram extraídas da Nova Versão
isso comigo? A quem devia culpar? A completamente perdida, não tendo a Internacional. Usado com permissão. Todos
mim mesma por ter sido descuidada quem recorrer. As lágrimas corriam os direitos universais reservados.
ao lidar com algo tão valioso como e banhavam meu rosto. De alguma
aquele cartão? À situação da ordem forma, porém, eu consegui sobrevi-
pública da cidade? À ganância e à ver, viver e esperar. Lembrei-me da Sandra Janet Birungi
natureza pecaminosa dos seres huma- promessa: “Aqueles que esperam no leciona na Universidade Cristã
Senhor renovam as suas forças. Voam de Uganda, Mukono, Uganda
nos? À negligência do banco em não

LI V RO S
“No princípio Deus criou os céus e O livro observa que a declaração
a Terra” (Gênesis 1:1). Assim inicia a bíblica: “No princípio Deus criou os
Bíblia – e com ela vem a pergunta: Até céus e a Terra”, em Gênesis 1:1, é
que ponto a teologia bíblica da criação fundamental para a compreensão do
é confiável? A questão é investigada relato bíblico da criação. O capítulo
por estudiosos renomados, cientistas de abertura (escrito por Gerhard Hasel
e educadores adventistas, e o resulta- e Michael Hasel) analisa os elementos
do dessa pesquisa é apresentado em exclusivos da cosmologia bíblica e, logo
dois volumes: o primeiro analisa os após, apresenta uma revisão crítica
registros do Antigo Testamento, e o do relato de Gênesis 1:6-8, feita por
segundo, em fase de preparação, tem Randall Younker e Richard Davidson.
por objetivo examinar os dados do Davidson é também o autor do
Novo Testamento. capítulo 3. Em Gênesis 1:1, ele encon-
Esses estudos foram lidos sob severa tra o “quando”, “quem”, “como” e
crítica e revisados por “uma comissão “o que” da origem da vida na Terra.
HE SPOKE AND IT WAS: permanente de estudiosos da Bíblia e Davidson fornece evidências internas
DIVINE CREATION IN THE cientistas adventistas que estão envolvi- e externas que apoiam a visão tradi-
dos em cuidadoso diálogo e profunda cional de Gênesis 1:1-3 para a ex nihilo
OLD TESTAMENT interação. A obra do Conselho de Fé e [criação a partir do nada], a atividade
Gerald A. Klingbell, ed. (Nampa, Ciência da igreja salienta o empenho criativa de Deus. Ele defende uma
Idaho: Pacific Press, 2015, 186 com que os administradores, estudiosos criação literal de 24 horas, sete dias,
páginas; brochura). da Bíblia e cientistas da Igreja Adventista uma semana consecutiva de criação, e
do Sétimo Dia se dispõem a ouvir um ao oferece fundamentos teológicos sobre
Revisado por Phodidas outro, envolvendo a ciência e a erudição por que o relato de Gênesis não pode
Ndamyumugabe contemporâneas de forma construtiva ser tomado como simbolismo, poesia,
nessa importante questão” (p. 9). metáfora ou parábola. Davidson

34 DIÁLOGO UNIVERSITÁRIO 28.1 ANO 2016


também argumenta que, no “quando” envolvem todo o quadro da criação” Terra. Deus é o Criador, e Ele inaugu-
da criação, podemos ver a ideia de (p. 86). Davidson enfatiza que “o rará a Nova Criação.
um de dois estágios que inicia com Salmo 104 traz uma resposta para a Este leitor achou o livro fundamental
uma visão inicial da Terra ainda sem antiga pergunta que há muito tempo e envolvente. Cada uma de suas par-
forma, o que apoia a teoria do “inter- vem sendo feita sobre a fonte da luz tes confirma a fé que mantemos, de
valo passivo”, ou seja, um Universo que havia no primeiro dia da Criação, forma sistemática, destacando o relato da
antigo, que inclui a Terra, mas com onde diz que a luz que rodeava a Criação à medida que ele vai surgindo
vida jovem na Terra. Pessoa de Deus forneceu luz para a em todo o Antigo Testamento. Estou
Em sua discussão sobre “quem”, Terra” (p. 88), tornando assim claro esperando ansiosamente pelo outro livro
Davidson aponta para dois nomes que a criação não é centralizada no ser que abordará um estudo mais amplo para
diferentes que Deus usou em Gênesis humano ou no Sol, mas centralizada a compreensão do Novo Testamento e de
1 e 2. O primeiro é elohim, que em Deus. Além disso, ele argumenta Deus como o meu Criador.
enfatiza o caráter de Deus como que no Salmo 104:31-35 há “concep-
transcendente, universal, cósmico, ções significativas sobre o sábado” e
autoexistente e infinito. O segundo é sobre a escatologia (p. 95, 96) – pontos
YHWH, mostrando que Deus é um esses que os adventistas não podem
Deus imanente, pessoal. O eterno e deixar que passem despercebidos.
imanente Deus é Aquele que é apre- O capítulo 6, escrito por Alexej
sentado como o Criador. Muran, aborda o tema da criação
O “como” da criação é apresentado no restante dos Salmos, firmando a
como a atividade criativa original de nossa fé em Deus como o Criador e
Deus. A ênfase da ordem divina (“Deus Mantenedor de nossa vida.
disse: ‘Haja...’.”) só pode ser entendida em A seguir, Ángel Manuel Rodríguez
termos de poder absoluto e centralidade analisa a influência do texto de Gênesis
da Palavra de Deus no processo criativo. 1-3 sobre a ciência do pensamento.
Similaridades interessantes entram em
Importante: o autor enfatiza que nessa
evidência para argumentar que os textos
natureza absoluta da Palavra de Deus está
do livro de Provérbios estavam a par
a base da teologia do sábado conforme é
da narrativa da criação no Gênesis. No
compreendida pelos adventistas.
capítulo 8, Martin Klingbeil discute uma
Ao dissertar sobre o “o que” da cria- FROM THE EDITORS:
forma tripla que aparece na literatura
ção em Gênesis 1 e 2, Davidson não profética – a criação, a de-criação e a
deixa de ressaltar que a criação bíblica recriação. Essa linguagem da criação é Este livro também está
está relacionada com o Universo intei- “empregada como uma referência literária disponível em edição
ro, incluindo os detalhes dos habitats acadêmica (tamanho maior),
e teológica constante que se conecta a um com o título:
globais do nosso planeta. O livro não passado histórico, motiva a interpretação
vê contradição na ordem da criação do presente e se move na direção de uma
nos dois relatos (Gênesis 1 e 2) e THE GENESIS CREATION
perspectiva para o futuro” (p. 159).
argumenta que qualquer ambiguida- Os dois últimos capítulos do livro nos
ACCOUNT AND ITS
de aparente depende de traduzirmos levam de volta ao princípio do relato
REVERBERATIONS IN THE
Gênesis 2:19 como “formado” ou bíblico. Rodríguez (capítulo 9) compara OLD TESTAMENT
“tinha sido formado”. o relato do Gênesis e os antigos estudos
Enquanto Gênesis nos proporciona Puplicado pela Andrews
do Oriente Próximo sobre as origens e University Press, Berrien Springs,
uma compreensão fundamental da mostra que enquanto esse último con- Michigan, USA, 385 páginas.
criação bíblica, Paul Gregor usa o tém pensamentos evolucionários latentes
quarto capítulo do livro para refletir sobre as origens, o primeiro está alicer-
sobre os ecos de Gênesis 1 e 2 no res- çado em Deus e não dá espaço para
tante do Pentateuco e nos fornece um Phodidas Ndamyumugabe,
qualquer aspecto evolucionista.
PhD pelo Instituto Adventista
rico tesouro da teologia da criação e Jacques Doukhan conclui o livro Internacional de Estudos
de seu papel em nossa vida. apresentando o argumento final de Avançados (AIIAS), em Silang,
O capítulo 5 proporciona uma refle- Deus como o Criador. Ele afirma que Cavite, Filipinas, é professor na
xão inspiradora sobre a teologia da o próprio Deus declarou que a criação Universidade Adventista da África
criação, ao mesmo tempo em que era boa, e que, embora o pecado e a Central, em Kigali, Rwanda.
Davidson utiliza a erudição e a devo- morte tenham desfigurado a criação, E-mail: ndaphodidas@yahoo.com
ção para fazer uma análise magistral esse dano causado é apenas tempo-
da linguagem da criação relatada no rário. O plano final de Deus para a
Salmo 104: “notável para o movi- Terra é libertá-la do caos do pecado e
mento e a vivacidade das imagens que transformá-la no novo Céu e na nova

28.1 ANO 2016 DIÁLOGO UNIVERSITÁRIO 35


Global Public Campus Ministry
Weekend is an annual event, scheduled
for the third weekend of October. This
year, October 14 –16 marks the begin-
ning of a process: launching the Year of
PCM/Campus Mission & Service (Year
of Student Evangelism).
The aim of the Global PCM Weekend
is to connect with and involve Seventh-
day Adventist students, academics, and
professionals in mission and service on
campus, in church, and in their commu-
nity (the three C’s of PCM). The theme
this year is organized around three E’s:
Empathize, Engage, and Empower. We
recommend the following schedule to
align with the theme.
Empathize (Friday/Sabbath—“Reach
in With God”): Empathize with the needs
of students and professors on college/uni-
versity campuses.
Engage (Sabbath—“Reach Up to
God”): Engage with God and others
by actively involving students with local
church members during Sabbath worship
and fellowship, welcoming and engaging
new students into church life. In particu-
lar, connect with those students who are
away from their homes and transitioning
to a new church home.
Empower (Sunday—“Reach Out With
God”): Challenge and empower students,
academics, and professionals to proactively
meet the needs of their community.

SUGGESTED FRIDAY
ACTIVITIES TO FOSTER
EMPATHY WITH OTHERS
Organize a Meet and Greet or Let’s Be
Friends social event where students can
meet each other, fellowship, and be orient-
ed to the rest of the weekend’s activities.
Thank-You Campaign: Find creative
ways to show appreciation to professors
and office staff on campus without inter-
rupting classes or disrupting work.
Organize service activities for fellow stu-
dents by providing what others truly need.
Set up a PCM booth where students
can find useful information about cam-
pus resources (academic and social), as
well as information on the local PCM/
AMiCUS chapter.
Water for the Soul: Provide free
bottles of water and an encouraging
quote for the soul. Hand out or share
healthy-living tips if requested or wel-
comed. Never force students to receive
or listen.
Music for the Soul: Arrange a live con-
cert or play soothing and uplifting music
on campus.

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