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Justiça Restaurativa

na Escola
Formando cidadãos por meio do diálogo
e da convivência participativa.

Comissão de Justiça e Práticas Restaurativas do Fórum Permanente


do Sistema de Atendimento Socioeducativo de Belo Horizonte
1
Coordenação:
Comissão de Justiça e Práticas
Restaurativas do Fórum Permanente
do Sistema de Atendimento
Socioeducativo de Belo Horizonte
Redação:
Fernando Gonzaga Jayme /
Mayara de Carvalho Araújo
Projeto Ciranda-UFMG
Projeto gráfico:
Jota Campelo Comunicação
Apoio:
ArcelorMittal Brasil
3
A Comissão de Justiça e Práticas as medidas socioeducativas privati-
Restaurativas do Fórum Permanente vas de liberdade, aplicadas pelo Juiz
do Sistema de Atendimento Socioedu- da Infância e da Juventude; a Justiça
cativo de Belo Horizonte conta, atual- Restaurativa nas unidades de acolhi-
mente, com cerca de 90 participantes, mento, onde se encontram crianças e
entre instituições distintas, públicas e adolescentes que, por estarem numa
privadas, e pessoas físicas. situação de risco, estão afastados de

Introdução A atuação da comissão é pautada


na estruturação da Justiça Restau-
suas famílias de origem; a Justiça
Restaurativa nas medidas socioedu-
cativas em meio aberto, que visa
rativa em seis ramos diferentes: a ao uso da Justiça Restaurativa

N
o dia 24.02.2014, sob o trabalho diferentes instituições governamentais Justiça Restaurativa no CIA - Centro na elaboração e na execução
aglutinador do Ministério Público e não governamentais envolvidas Integrado de Atendimento ao Adoles- do Plano Individual de Atendimento
do Estado de Minas Gerais, foi no trabalho com adolescentes autores cente Autor de Ato Infracional (onde das medidas de liberdade assistida
instalado o Fórum Permanente do Sis- de ato infracional, privados ou não aportam os adolescentes depois que e de prestação de serviços à comuni-
tema de Atendimento Socioeducativo de liberdade1. há a apreensão em flagrante de ato dade; a Justiça Restaurativa nas es-
do município de Belo Horizonte. Este infracional ou a instauração de colas, que visa à aplicação da Justiça
fórum, honrando a tradição dos fóruns Para que o trabalho do Fórum Per- investigação policial, por portaria); Restaurativa nas escolas públicas
romanos como locais onde aconteciam manente do Sistema de Atendimento a Justiça Restaurativa na Polícia Civil, municipais de Belo Horizonte e
os atos mais importantes da vida Socioeducativo do município de Belo projeto que está em fase de desen- nas escolas públicas estaduais
de um povo, é um espaço criado Horizonte seja mais eficaz, foram cria- volvimento e que permitirá a instau- com base territorial neste município.
para debater as questões do Sistema das comissões temáticas e uma dessas ração e a condução de processos res-
de Atendimento Socioeducativo de comissões é a Comissão de Justiça e taurativos antes mesmo de os casos Ao estruturar seu trabalho em seis
Belo Horizonte e para promover uma Práticas Restaurativas que, desde o iní- serem judicializados; a Justiça Res- ramos diferentes acima explicitados,
política de atendimento socioeduca- cio das suas atividades, é coordenada taurativa nas unidades de internação a Comissão de Justiça e Práticas Res-
tivo humana e transparente, reunindo pelo Ministério Público Mineiro. e semiliberdade, onde são cumpridas taurativas quis permitir que a Justiça

1
http://simasebh.org/sobre-o-forum/
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Restaurativa, como novo paradigma de excelência na escola, comunidade A Justiça Restaurativa nas escolas não necessário a restauração do poder
de tratamento do conflito penal ou à qual todas as crianças e adolescen- deve ser promovida de maneira impos- da escola em nossa sociedade.
infracional, possa, de maneira escalo- tes pertencem, ou deveriam idealmen- ta ou amadora, motivos pelos quais a
nada, permear os conflitos desde suas te pertencer, além da comunidade Comissão de Justiça e Práticas Restau- Unidos na crença do poder da atuação
primeiras manifestações e servir, familiar. rativas desenvolveu o Programa Nós - coletiva, os membros da Comissão de
assim, para prevenir a escalada destru- Núcleos para Orientação e Solução de Justiça e Práticas Restaurativas do
tiva dos naturais conflitos que surgem A Comissão de Justiça e Práticas Res- Conflitos Escolares, que visa à capaci- Fórum Permanente do Sistema de
nas interações humanas. taurativas acredita que é necessário tação de uma equipe em cada escola Atendimento Socioeducativo de Belo
restaurar o lugar da Escola na nossa voluntária, equipe essa que, uma vez Horizonte apresentam a você o Nós
A moderna teoria do conflito demons- sociedade, empoderando-a para tratar, treinada, estará apta a facilitar, e o convidam a fazer parte.
tra que quanto mais precoce for a de maneira mais adequada, os confli- de maneira técnica, processos Vem!
intervenção eficaz sobre um conflito, tos que nela surgem. restaurativos de tratamento
maior será seu efeito transformador, dos conflitos surgidos na escola.
razão pela qual a Comissão de Justi- Levar um conflito escolar à polícia,
ça e Práticas Restaurativas baseia-se e dela ao CIA, nem sempre resulta na O Programa Nós - Núcleos para Orien-
na crença de que o ramo Justiça Res- melhor solução para o conflito escolar, tação e Solução de Conflitos Escolares
taurativa nas escolas é, na verdade, o pois o Promotor de Justiça e o Juiz - Justiça Restaurativa nas Escolas de
ramo-mestre, o verdadeiro tronco da de Direito (pessoas que, de acordo Belo Horizonte é um programa de-
Justiça Restaurativa de Belo Horizonte. com a lei, podem conceder remissão senvolvido pela Comissão de Justiça
ao adolescente e/ou aplicar a ele algu- e Práticas Restaurativas, tendo sido
A Justiça Restaurativa, com suas finali- ma medida socioeducativa) são, ne- construído a múltiplas mãos e cora- Danielle de Guimarães Germano Arlé
dades de responsabilização ativa cessariamente, pessoas estranhas a tal ções, que acreditam no poder que Nós Promotora de Justiça-MPMG
do autor de algum ato danoso, conflito escolar, que podem não gerar temos para transformar conflitos em Coordenadora da Comissão de Justiça
de reparação dos danos causados opções tão criativas e eficazes quanto oportunidades de mudança e tecer e Práticas Restaurativas do Fórum Per-
à vítima e de restauração das relações aquelas encontradas pelos membros uma nova realidade social, nova reali- manente do Sistema de Atendimento
na comunidade afetada, tem seu lugar da própria comunidade escolar. dade esta que tem como pressuposto Socioeducativo de Belo Horizonte

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A justiça restaurativa se de-
senvolve a partir do senso de
responsabilidade individual e

O que é Justiça coletivo do autor do ato dano-


so e dos demais que contribu-
íram direta ou indiretamente

Restaurativa?
para sua ocorrência. Ela cuida
tanto das necessidades da ví-
tima quanto das necessidades
do ofensor e da comunidade
envolvida, possibilitando
A Justiça Restaurativa se enquanto a vida segue nada
a efetiva reparação dos
propõe a satisfazer as pessoas está completo ou terminado
danos causados.
afetadas por um ato danoso, e que não há uma versão
seus autores e as respectivas única das histórias. Também As crises e os problemas são
comunidades de apoio. Por considera que os indivíduos considerados oportunida-
meio do diálogo, busca trans- estão interconectados, de des, momentos-chave para a
formar situações conflitivas modo que o ato danoso atinge, transformação de situações
em relações de cooperação além das pessoas diretamente e relacionamento.
e construção. O propósito afetadas, a comunidade e
da justiça restaurativa é o próprio autor do ato. Por Os procedimentos ou práticas
a restauração das vítimas, isso, a justiça restaurativa va- restaurativas levam em consi-
ofensores e comunidade, loriza a autonomia dos indiví- deração as consequências da
e a reparação dos danos duos, a sabedoria coletiva violência e suas implicações
provocados pelo conflito. e a potência transformadora para o futuro, com o objetivo
da conexão de cada um con- de satisfazer as necessidades
Há, na justiça restaurativa, sigo (autoconscientização) e de todos os envolvidos (ofen-
o reconhecimento de que com os outros. sor, vítima e a comunidade).
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Para haver o procedimento em uma oportunidade de vários procedimentos restau- A justiça restaurativa
A justiça na escola
restaurativa na escola
restaurativo é necessário que recomeço e construção. rativos, todos eles realiza- possibilita a formação de sujeitos
haja reconhecimento do ato dos com igual credibilidade e possibilita a formação de sujeitos
praticado. O procedimento legitimidade.
autônomos, capazes
autônomos, de assumir
capazes de assumir
restaurativo não se destina Qual o objetivo da a responsabilidade
a responsabilidade poratos.
por seus seus atos.
a apurar quem é o autor do justiça restaurativa Normalmente, as práticas res-
ato e, assim, o reconhecimento na escola? taurativas são realizadas por
da prática do ato, por parte do A adoção de justiça restaura- meio de:
autor, é requisito para o início tiva na escola tem o objetivo • Círculos de paz
do procedimento restaurativo. de inserir, na nossa sociedade, • Círculos restaurativos
mais uma metodologia com- entre vítima, ofensor e
A justiça restaurativa convida prometida com a educação ci- comunidade
os envolvidos a contarem suas dadã. Ela desenvolve a alteri-
histórias e percepções sobre dade e possibilita a formação A justiça restaurativa também
o ocorrido, em um ambiente de sujeitos autônomos, capa- pode ser aplicada através do
seguro e de iguais oportunida- zes de assumir a responsabi- procedimento restaurativo de
des de fala e de escuta. Todos lidade por seus atos e aptos a mediação vítima-ofensor. En-
são considerados protagonistas restaurar os danos produzidos. tretanto, considera-se que os
e podem partilhar suas histó- procedimentos restaurativos
rias, observações, perspectivas, que incluem a comunidade
sentimentos, vulnerabilidades,
Como acontecem
podem cumprir, mais inte-
necessidades e interesses em as práticas de justiça gralmente, as finalidades da
relação ao acontecido. restaurativa? justiça restaurativa.
A justiça restaurativa funda-
Nos procedimentos restaura- menta-se em experiências hu- Quando falam e escutam as
tivos, é fundamental a cons- manas milenares vivenciadas várias percepções da história
trução de empatia que per- em vários países. Os procedi- e as necessidades envolvidas,
mita aos participantes se co- mentos restaurativos não se as pessoas compreendem
nectarem com sentimentos, caracterizam pela forma, mas onde estão, para onde preten-
necessidades e vulnerabilida- por seus valores e princípios. dem ir, o que sentem e dese-
des uns dos outros. A conexão jam e, assim, planejam e orde-
entre as pessoas é crucial para A justiça restaurativa respei- nam as ações futuras.
o reconhecimento de que ta as especificidades da so-
todos têm algo a contribuir ciedade na qual está inserida,
para transformar o conflito possibilitando a adoção de
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Quem conduz o
Na justiça restaurativa não há Também não é próprio da jus-
A voluntariedade sentenciamento, não há julga- tiça restaurativa que as pesso-
é a essência da mento, nem punição. Ela parte as falem do outro usando fra-
justiça restaurativa. procedimento de uma relação entre pessoas
iguais e se aplica por meio de
ses tipo “você é...”, que trazem
um juízo a respeito da outra
Ninguém participa
de um procedimento restaurativo? um processo não judicial, no
qual o ofensor se responsabiliza
pessoa e geram revide, com-
prometendo a lógica do diálo-
restaurativo senão ativamente pela prática do ato. go restaurativo.
por livre e espontâ- É recomendável que o caso por todo o percurso, do Eles não propõem suges-
nea vontade. o procedimento restaurativo início ao fim do procedimento. tões ou respostas para a Os facilitadores devem orien- Por esse motivo, é importante
seja conduzido por dois faci- A dissolução ou mudança da restauração da situação tar os envolvidos para que se que, ao falar, cada um fale
A adesão voluntária
litadores, que dele também dupla de facilitadores pode conflituosa. Os facilitado- expressem na primeira pessoa de si, ainda que entenda que
dos participantes é participam ativamente. Sua implicar no recomeço do res formulam questões para do singular, refletindo a expe- mais pessoas possam agir,
essencial e, por isso, responsabilidade é assegurar processo restaurativo. os participantes, para que riência individual, com partici- pensar ou sentir-se da
devem ser informa- um espaço de diálogo horizon- compreendam melhor a situ- pação ativa na resolução do mesma maneira.
dos que, a qualquer tal, isonômico, para que Eles são fundamentais para o ação, seu significado, a re- conflito. Dessa maneira, no
tempo, podem os participantes possam se procedimento, pois oferecem percussão em suas vidas e o círculo restaurativo, as pes- Além da fala, os procedimen-
desistir da opção sentir seguros e conectados. suporte e ajudam no desen- que podem fazer para soas falam “eu me sinto...” e tos restaurativos garantem o
volvimento do diálogo respei- melhorar a relação no “eu necessito de...”, de for- direito de escutar ativamen-
feita e retirar- se
Nesse ambiente, é possível que, toso, por meio de perguntas presente e no futuro. ma a expressar seus próprios te o que cada um dos envol-
do procedimento. ao se sentirem confortáveis, as sentimentos. vidos tem a dizer a respeito
adequadas.
pessoas expressem seus sen- As perguntas devem ser aber- das questões relacionadas ao
timentos com profundidade e tas para que os participantes Frases genéricas, como, por conflito. A escuta ativa traz o
O papel dos
se comprometam com a trans- possam falar livremente so- exemplo, as que se referem a aprofundamento da conexão
formação da relação conflituo-
facilitadores bre cada uma delas. Pergun- “pessoas” ou que falam da “so- com as próprias necessidades
sa. Os facilitadores, que devem Os facilitadores não se distan- tas fechadas, que aceitam ciedade”, distanciam as pesso- e sentimentos de quem ouve,
procurar atuar sempre em du- ciam dos demais participantes, respostas do tipo “sim” ou as dos próprios sentimentos e assim como as necessidades
pla, têm a função de apoiar e eles participam do círculo e “não”, travam o fluxo do diá- necessidades, não contribuindo e sentimentos dos demais afe-
ser referência para os envolvi- compartilham suas experiên- logo, comprometendo o pro- para que os participantes vejam tados pela situação.
dos. Para manter a conexão, a cias com os demais. cesso restaurativo e, por isso, como podem agir concretamen-
confiabilidade e a segurança do não devem ser feitas. te para melhorar as relações.
espaço de diálogo, conduzirão
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Confere-se a todos os A empatia é o elo que conecta Como acontece
participantes o direito No procedimento as pessoas, fortalecendo vín- um círculo de conflito?
restaurativo, o espaço culos de pertencimento e de
de falar e de escutar ativamente. alteridade, na medida em que Os procedimentos restaurati-
Esse diálogo acontece no de segurança se cons- vos para resolução e transfor-
possibilita a cada um compre-
círculo restaurativo. trói pelo sigilo: o que mação de conflitos nas esco-
ender e reconhecer o senti-
é dito no pré-círculo mento do outro. Além disso, las devem acontecer preferen-
ou no círculo restau- permite o aprofundamento cialmente por meio de círculos
rativo não deve ser das conexões, sendo este um de conflito.
falado em outros am- valor da justiça restaurativa,
que considera a humanização A justiça restaurativa consi-
bientes, a não ser que dera que o ato danoso afeta,
das relações o meio e o fim
todos os envolvidos além das pessoas diretamente
da sua existência.
concordem com envolvidas no conflito, a pró-
a publicidade de pria comunidade. Por isso, é
algum relato. Dessa Quem participa essencial o convite para
dos procedimentos que a vítima e os membros
maneira, cria-se um
restaurativos? da comunidade participem
ambiente em que os do procedimento.
participantes podem • As pessoas que causaram
expressar seus senti- o dano. Confere-se a todos os partici-
mentos mais profun- • As pessoas que sofreram pantes o direito de falar e de
dos, sem receio. os danos. escutar ativamente. Esse diá-
• Os familiares e/ou pessoas logo acontece no círculo res-
de afeto ou de referência taurativo. Nele, todas as pes-
de quem praticou e de quem soas são protagonistas e têm
sofreu os danos. Essas pesso- oportunidades iguais de parti-
as devem ser indicadas cipar e contribuir para a com-
pelos próprios envolvidos preensão e transformação
no conflito. do conflito.
O sigilo e a voluntariedade são
muito importantes para que as • Os facilitadores que ajudarão
Um círculo de conflito tem
pessoas se sintam seguras e li- na condução do diálogo res-
três diferentes momentos:
vres para se expressar e ouvir peitoso e na transformação
pré-círculo, círculo restaurati-
os outros com empatia. dos conflitos.
vo e pós-círculo.
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PRÉ-CÍRCULOS: são sessões • quais os sentimentos • elaborar um plano de ação
individuais entre os facilitado- envolvidos; que guiará todos os envol- Nos círculos restaurati- timula a empatia pela na possível a constru-
res e cada um dos participan- • quais as necessidades vidos para que o conflito se vos, a oportunidade de situação dos outros par- ção de entendimentos e
tes (ofensor, vítima, familiares, torne uma oportunidade
afetadas; falar e de escutar ticipantes, contribuindo de vínculos confiáveis.
comunidade). É necessário que de transformação.
todos compareçam a, pelo me- • o que pensa sobre o ocorrido; ativamente ajuda a para o fortalecimento Além disso, ajuda aos
nos, um pré-círculo individual e, • o que é preciso para reparar identificar as várias di- dos vínculos e do senso participantes enxerga-
se necessário, poderá ser reali- o dano ou melhorar mensões e repercussões de pertencimento. rem outras formas de
zada mais de uma sessão indi- essa realidade; do conflito na vida de Conhecer as várias per- trabalhar a responsa-
vidual com cada pessoa. cada um dos envolvi- cepções do problema e bilização de cada um,
• o que gostaria de pedir aos
Podem acontecer quantos pré-
outros participantes; dos. Essa compreensão as questões importan- com propostas criativas
-círculos forem necessários.
•como imagina que pode agir ampliada do caso es- tes para os outros tor- para o plano de ação.
Os pré-círculos são essenciais para melhorar a situação;
para identificar os danos, • o que pode fazer para que PÓS-CÍRCULO: é a sessão pos- dos em roda, sem mesas. sa acontecer, há a necessidade
necessidades e sentimentos. o ato danoso não se repita.
Também são fundamentais terior ao círculo restaurativo, A forma circular posiciona de cuidadosa preparação em
para que os próprios envolvi- com a finalidade de identificar todos em condição de igual- sessões individuais, denomina-
CÍRCULOS RESTAURATIVOS: se o procedimento restaurativo dade, possibilita que todos das pré-círculos.
dos compreendam melhor
são sessões coletivas que foi eficaz para trabalhar as ne- se vejam inteiramente, sendo
como se sentem, o que preci-
acontecem depois dos pré-cír- cessidades e sentimentos dos possível também perceber as Os encontros têm início com
sam e como podem agir para
culos. Neles, os participantes participantes e de suas inter- reações de cada um, pois os uma cerimônia de abertura, que
melhorar a situação.
têm a oportunidade de: relações. É no pós-círculo que gestos e o silêncio também marca e distingue o círculo em
• estabelecer os valores são formas de comunicação. relação ao ambiente externo. No
Nos pré-círculos, cada um se verifica se aquilo com que
dos participantes conta com que guiarão o encontro; seu encerramento, há uma ceri-
se comprometeu vem sendo
espaço seguro para falar • falar sobre suas expectativas realizado. O acompanhamento As pessoas se reúnem em mônia com o mesmo objetivo.
individualmente sobre: no processo restaurativo; é uma parte muito importante círculo porque ele simboliza
• sua percepção • compartilhar suas histórias; do procedimento, sendo res- união, movimento e plenitu- As cerimônias de abertura e
dos acontecimentos; ponsabilidade do facilitador. de e propicia igual dignidade, fechamento do círculo restau-
• ouvir as histórias dos outros equilibrando as relações de rativo podem variar conforme
• como se sentiu na época
participantes; poder abaladas pelo conflito. as necessidades e interesses
dos fatos; A organização dos
• definir o que precisam para dos participantes. Geralmente,
• como esses fatos afetaram círculos restaurativos
melhorar a situação e como O círculo restaurativo é o mo- acontecem com alguma dinâ-
sua vida;
cada um pode contribuir Os círculos restaurativos são mento culminante da justiça mica, poesia ou exercício de
para isso; organizados com todos senta- restaurativa. Para que ele pos- respiração e relaxamento.
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Após a cerimônia de abertura, Como todos têm um momen- história são fundamentais
o facilitador apresenta as to garantido para falar, não é para identificar como trans-

Transformação
orientações sobre o ritual e permitido interromper a fala formar e melhorar a situação.
cada um dos participantes tem Novos Empatia
do outro. Todos, indistintamen-
a oportunidade de dizer como te, terão oportunidade de fala, Ao receber o bastão de fala,
e x ão caminho
s
se sente no momento e com-
partilhar os valores que gosta-
basta aguardar a chegada
do bastão.
é possível escolher entre fa-
lar ou ficar em silêncio, pois C on
ria que guiassem o encontro. a garantia de fala sem inter-
O objeto de fala é importante rupção e o direito de silen-
a
Escut Diálogo
Compreensão
A partir desse momento, a para que todos possam se es- ciar fazem com que a igual-
fala e a escuta no círculo são cutar. Ouvir e compreender dade de oportunidades seja
orientadas pelo “bastão de as várias visões da mesma estabelecida.
fala”, que é um objeto escolhi- Restauração
do especialmente para o caso.
Ele deve ter significado e re-
presentatividade no conflito
e/ou para os participantes.
O bastão de fala pressupõe
que todos têm algo a oferecer
A justiça restaurativa
ao grupo.
nas escolas
Apenas quem está de posse
do objeto pode falar. Ordena- Depois da família, a escola é a membros da comunidade
da e sequencialmente, o bas- grande instituição comunitária escolar: profissionais,
tão de fala passa de pessoa da nossa sociedade. Por isso, estudantes e familiares.
a pessoa, dando voltas por é essencial adotar processos
todo o círculo. Portanto, todos restaurativos nas instituições Além disso, os procedimentos
os participantes terão, no mo- de ensino para o fortalecimen- restaurativos conduzidos
mento oportuno, a chance to do ambiente escolar dentro da escola, pela escola
de se expressar. enquanto comunidade e para a escola, promovem
cooperativa e igualitária. empoderamento, segurança,
Quando não estiver de pos- inclusão, pertencimento e aco-
se do bastão, a pessoa tem o A justiça restaurativa propor- lhimento, mediante o recon-
direito de escutar ativamente ciona a participação ativa na hecimento das diferenças
o que os outros têm a dizer. resolução de conflitos aos e necessidades individuais.
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O resultado da justiça restau- vulnerabilidades, sentimentos A justiça restaurativa pretende os sensos de pertencimento cias, para que as relações
A justiça restaurativa rativa aplicada nas escolas é a e necessidades. transformar as escolas em e sentido. É importante que a das crianças e adolescentes
promove a cultura formação de cidadãos emanci- ambientes de paz. Para isso, escola seja um ambiente de e as condições de trabalho
pados, autônomos, empodera- Numa comunidade, a felici- busca a responsabilização pe- empatia e conexão, onde dos educadores sejam
de paz e convida
dos e dotados de autoestima, dade de cada um é importante los atos lesivos; a assistência e estudantes e educadores sin- humanizadas.
à reflexão sobre condições necessárias para para a satisfação do todo. Há suporte às vítimas; a inclusão tam-se pertencentes e vejam
como ensinar com que possam construir seus uma antiga palavra africana dos ofensores na escola; o em- significado no que fazem. As escolas devem enxergar,
mais afeto e como projetos de vida como ponte da língua zulu que trata disso: poderamento dos envolvidos e valorizar, respeitar e apoiar
transformar a escola para a busca da felicidade. “Ubuntu” significa que “eu sou da escola; o respeito entre A solução para a questão da cada um de seus membros
em um lugar de se- porque vocês são”. Se o espa- vítima, ofensor e comunidade; violência juvenil passa pela para que se respeitem mu-
gurança emocional A justiça restaurativa entende ço das escolas não for uma co- e a humanização das relações. comunidade, pela aprendiza- tuamente, se sintam perten-
que o senso de pertencimento munidade de pertencimento e gem de formas de convivência centes. Assim, evitam-se prá-
para os estudantes respeitosa, responsável, parti- ticas violentas que adoecem
à comunidade escolar é priori- significativa para os professo- Por que usar
e profissionais. Por dade, pois só assim estão ga- res, por exemplo, também não cipativa e honesta. a comunidade. Atribuir signi-
procedimentos
isso, a adoção da rantidas a plena aprendizagem será para os estudantes. ficado à vivência escolar tem
justiça restaurativa
restaurativos Se não nos sentimos perten- um efeito transcendente, que
e a construção de um ambiente
nas escolas contribui adequado para o desenvolvi- Os processos restaurativos tam- nas escolas? centes onde estamos, tende- repercute em ideias e práticas
para a construção de mento das potencialidades bém se propõem a reconectar A escola é o ambiente onde mos a buscar outras comuni- além dos muros da escola.
dos profissionais e estudantes. a motivação e compreensão nossas crianças e adolescen- dades que nos acolham. Ainda
vínculos de pertenci-
dos educadores como relevan- tes costumam passar ao me- que essas comunidades alter- Um ambiente seguro e afetuo-
mento e significado, É importante adotar a justiça tes para a formação dos estu- nos um terço de seus dias. nativas não sejam ambientes so nas escolas é fundamental
fortalecendo a cone- restaurativa como finalidade, dantes e para a boa convivência em que as pessoas possam para criar um espaço de signi-
xão, o apoio, a consi- para que a escola trabalhe o na comunidade escolar. Fazer do ambiente escolar exercitar o “melhor eu”, a bus- ficado na vida da comunidade
deração, a empatia, senso de pertencimento de um espaço de apoio, acolhi- ca de pertencimento pode e construir relacionamentos
a inclusão, o respeito forma continuada, intensifi- Com o uso da justiça restau- mento e inclusão é essencial levar à procura desse amparo saudáveis.
cando as conexões e a em- rativa entre educadores, por para a segurança emocional e vínculo alternativo. Esse é
e o reconhecimento
patia. Isso repercute na paci- exemplo, espera-se que os dos estudantes e educadores. um dos grandes motivadores
no ambiente escolar. Construir uma comunidade a conduzir, por exemplo,
ficação do ambiente escolar, profissionais das escolas
assim como na satisfação dos possam oferecer apoio e cura restauradora nas escolas tem jovens e crianças para
educadores e dos estudantes. mútuos, com profunda cone- impacto direto na prevenção o tráfico de drogas.
xão e cooperação, garantindo da violência, na pacificação
A justiça restaurativa promove um ambiente de trabalho sau- social e na saúde do trabalho. Por essa razão, o ambiente es-
também a autoempatia, ou dável. Ela oferece apoio para colar deve ser constituído em
seja, o respeito e o acolhi- que a comunidade supere situ- Os fatores que nos conectam um espaço de acolhimento e
-mento das nossas próprias ações difíceis. enquanto seres humanos são de intercâmbio de boas vivên-
20 21
Os círculos restaurativos •e
 stabelecer um plano de
Em que casos
“Há escolas que são
O uso de procedi- gaiolas e há escolas podem ser úteis em conflitos ação nos conflitos escolares
mentos restaurativos que são asas. Escolas
envolvendo toda a comunida- para que os participantes se
nas escolas contribui
para a redução da
podemos usar círculos que são gaiolas existem
de escolar. Podem ajudar nas
relações envolvendo estudan-
responsabilizem pelos danos
causados e cooperem entre
para que os pássaros
violência e da crimi-
nalidade, assim como
restaurativos nas escolas? desaprendam a arte do
tes, educadores, profissionais
de ensino e familiares, em ca-
si para melhorar a situação;
•a
 profundar a conexão dos
voo. Pássaros engaio- da um desses grupos individu- professores para que se
para garantir os di- Todos os conflitos, mesmo os dessa nova cultura, baseada almente considerados, ou
mais complexos, comportam na responsabilidade lados são pássaros sob sintam significativos e per-
reitos das crianças e controle. Engaiolados, o nos conflitos entre eles. tencentes à formação dos
resolução e transformação e pacificação.
adolescentes e cons- pela justiça restaurativa. seu dono pode levá-los estudantes e à escola;
truir comunidades Quanto maior o dano e a dor
Também as situações não pro- Seria um contrassenso subme- para onde quiser. Pás- dos envolvidos, maior o poten- • r eincluir uma pessoa afasta-
de paz. Além disso, priamente conflitivas podem ter os estudantes a regras saros engaiolados sem- -cial restaurativo do caso e o da do grupo;
constrói um espaço ser trabalhadas em círculos às quais não participaram
pre têm um dono. Dei- impacto da transformação do •o
 ferecer um ambiente de tra-
democrático de for- restaurativos para garantir da criação e exigir deles cria- conflito por meio da justiça
acolhimento, pertencimento tividade, motivação e respon-
xaram de ser pássaros. balho saudável, que ofereça
mação de cidadãos. Porque a essência dos restaurativa. apoio mútuo e cooperação
e significado às relações. sabilidade no processo de
pássaros é o voo. entre os educadores;
aprendizagem. Ao envolver Não importa o tipo de conflito
O ideal é construir uma cul- os estudantes nas decisões, Escolas que são asas se as pessoas envolvidas têm • prevenir práticas violentas,
tura restaurativa nas escolas, eles se apropriam delas, não amam pássaros interesse em melhorar a situa- como o bullying e atos infra-
para que os educadores e os se sentem pertencentes, cionais, por exemplo;
engaiolados. O que elas ção de forma autônoma, tra-
estudantes passem a solucio- responsáveis e contemplados. tando os danos e restaurando • c riar e fortalecer vínculos
nar os conflitos autonoma-
amam são pássaros em
voo. Existem para dar as relações, a justiça restaura- na e com a escola;
mente, transformando-os Se não há compartilhamento tiva tem lugar.
e restaurando as relações de responsabilidade pelo aos pássaros coragem •a
 poiar e acolher alguém
que foram afetadas. bem­estar coletivo e pelo pró- para voar. Ensinar o voo, diante de uma dificuldade
Dentre outros casos, os pro- ou momento doloroso;
prio comportamento com os isso elas não podem cessos circulares podem ser
É fundamental promover estudantes, eles provavelmen- fazer, porque o voo já úteis para: •a
 judar na compreensão
a participação e envolvimento te não assumirão essa respon- das várias visões sobre um
nasce dentro dos pássa- • resolver a conflitos já existen-
dos estudantes nos procedi- sabilidade, nem verão signifi- tes, compreendendo os fatos, conflito ou situação difícil;
mentos restaurativos e nas de- cado nela. ros. O voo não pode ser
os danos, as necessidades e • c elebrar a alegria e o senso
cisões que afetam diretamen- ensinado. Só pode
as formas para repará-los ou de realização.
te a convivência e a dinâmica ser encorajado”. para evitar que aconteçam
da escola para a construção Rubem Alves, Gaiolas e Asas.
de novo;
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Como se comunicar de
forma não violenta? Passo a passo para
Para que os procedimentos
restaurativos possam acon- a comunicação
não violenta
tecer, é importante que haja
empatia, garantida por espa-
ços de fala e de escuta ativa.
No entanto, ao dialogar, ainda
que sem perceber, é possível Para que possamos nos comunicar de forma não
que a pessoa cometa algum violenta, é importante seguir os seguintes passos:
tipo de violência verbal ou
não verbal, prejudicando
a conexão empática. Observar a situação sem emitir julgamento, se limi-
1 tando a fazer uma descrição precisa do que ocorreu.
Mas, quando falamos que uma
comunicação é violenta, o que Perceber como se sente diante dessa situação que
2 descreveu.
queremos dizer?

A comunicação violenta é toda Identificar qual a necessidade humana básica que foi
3 afetada pela situação descrita.
aquela que reflete uma des-
conexão com nossas necessi-
dades e sentimentos. Ela nos Fazer um pedido específico e positivo (ação de fazer)
4 a outra pessoa. Esse pedido deve refletir uma das for-
afasta daquilo que realmente
queremos. Muitas vezes, faze- mas possíveis para garantir nossa necessidade.
mos isso sem perceber atra-
vés de palavras, gestos e tom Seguindo esses passos, poderíamos estruturar nossa
de voz. Quando agimos dessa fala da seguinte forma:
maneira, perdemos a oportu-
A comunicação não nidade de construir algo “No dia/situação/momento __________, quando você
violenta é uma das com o outro. agiu de forma ________, eu me senti _______ porque
maneiras de garantir minha necessidade de _______________ foi afetada.
a igualdade entre as Eu gostaria que você _________.”
pessoas e o diálogo
respeitoso.
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Para a comunicação não
violenta, é importante praticar Por partir da igualdade Dessa maneira,
também a escuta, fazendo entre os participantes, a a comunicação não
o mesmo exercício ao tentar justiça restaurativa não violenta é uma podero-
identificar na fala dos outros
admite o uso de poder sa ferramenta para
quais as observações,
sentimentos, necessidades de uma pessoa sobre as difundir e incorporar
e pedidos que têm sido outras. A comunicação a cultura de paz nas
dirigidos a nós. não violenta é uma das relações humanas.
maneiras de garantir a
Ainda que a fala do outro seja igualdade entre as pes-
violenta, podemos tentar
soas e o diálogo respei-
identificar cada um desses
elementos para alcançar co-
toso, com o comparti-
nexão e empatia. Dessa ma- lhamento de poderes
neira, falamos com o outro, e responsabilidades.
e não para ou pelo outro.

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jot a c a mp el o
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