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ESTUDO DO COMPORTAMENTO MECÂNICO DE CAMADAS ESTRUTURAIS DE

PAVIMENTOS ESTABILIZADAS MEDIANTE A INCORPORAÇÃO DE


MATERIAL FRESADO, CIMENTO PORTLAND E CAL

Martinho Estevão Correa Neto


David Alex Aracibia Suárez
Daniel Anijar de Matos
Glauco Túlio Pessa Fabri
Universidade Federal de Mato Grosso do Sul
LATRAN

RESUMO
O presente artigo tem como objetivo analisar os efeitos da adição de cal, cimento e fresado em um solo para uso
em camada de base, sub-base e reforço de subleito, em proporções pré-determinadas por meio do delineamento
de um experimento com misturas, baseado na teoria estatística de experimentos com misturas (Cornell, 2002), de
natureza empírica. Tal método fornece estimativas seguras – neste caso para a resistência - mesmo para corpos
de prova não moldados, trazendo ganho em tempo e material. Foram realizados os ensaios de compactação
Proctor para obtenção das umidades ótimas do material. Testes de compressão simples e compressão diametral
foram realizados para avaliar se as resistências mínimas são conseguidas já em 7 dias para a liberação do tráfego.
Embora o material fresado sem a extração do betume seja de difícil manipulação por não seguir um padrão em
sua granulometria, foi realizado o peneiramento do fresado e da mistura de solo com fresado a fim de se ter uma
ideia da quantidade de material graúdo de cada peneira e estabilizá-lo futuramente caso necessário.

ABSTRACT
This article aims to analyze the effects of the addition of lime, cement and RAP (Reclaimed Asphalt Pavement)
in a soil for use in a base layer, sub base and subgrade strengthening in ratios pre-determined by an experiment
with mixtures proportions, based on an statistical theory of experiments with mixtures, of empirical nature
(Cornell, 2002). This method provides reliable estimates - in this case for resistance - even for unmolded
specimens, saving time and material. Proctor compaction tests were performed in order to obtain the optimum
moisture of the mixtures. Simple compression tests and diametral compression tests were carried out to assess
whether the minimum resistance could be achieved in seven days for traffic release. Although the RAP material
without bitumen extraction is difficult to handle because it doesn't follow a pattern in its particle size, the sieving
of the mixture of ground and milled material and the sieving of milled material was conducted in order to
determine the amount of granular material in each sieve and to stabilize it eventually if necessary.

1. INTRODUÇÃO
O principal meio de transporte do país para mercadorias e pessoas, é o rodoviário que conta
com 212.000 km de rodovias pavimentadas, segundo o Boletim Estatístico de junho de 2016
da CNT (Confederação Nacional de Transportes), e uma estrada de qualidade traz benefícios
não só de conforto, como de manutenção dos veículos. Porém, sabe-se dos altos custos de se
construir uma rodovia de qualidade. Para tanto, técnicas alternativas de construção que
reduzem os custos sem perder a qualidade estão cada vez mais sendo procuradas.

Segundo Macedo (2004), um projeto de pavimentação tem como princípio básico a


racionalização de custos e a utilização de materiais existentes na região, de forma a viabilizar
técnica e economicamente uma obra. Com a utilização de cal e cimento para estabilizar a
camada de base, há uma economia de materiais ao se alcançar resistências desejáveis para a
camada em estudo.

Ainda dentro do campo econômico, é possível incluir soluções sustentáveis, como utilização
de resíduos sólidos da construção civil, em que a resolução do CONAMA (Conselho Nacional
do Meio Ambiente) nº 307 de 2002 classifica, dentre tais resíduos, os pavimentos asfálticos,
ou material fresado. A granulometria de tal material pode ser uma alternativa à inviabilidade
econômica quando a escassez de material pétreo resulta em grandes distâncias de transporte,
além da redução dos impactos ambientais que esses resíduos causariam como bota-fora.

De posse do solo disponível para a obra, com a escolha da quantidade de cal e cimento por
métodos físico-químicos e da quantidade ideal de material fresado, é possível realizar ensaios
para se determinar qual mistura seria a mais indicada para as necessidades de um determinado
projeto, com base nos resultados de resistência à compressão simples não-confinada e de
tração por compressão diametral.

Porém, a observação apenas dos ensaios laboratoriais, limita os resultados e suas conclusões.
Segundo Faxina (2008), as duas ferramentas mais empregadas na modelagem de fenômenos
relativos ao comportamento de materiais de pavimentação são a regressão estatística e as
redes neurais artificiais. Uma forma de se analisar ensaios não realizados seria por meio da
regressão estatística, a fim de se ajustar modelos aos dados, pois descrevem matematicamente
um fenômeno e estimam novas medidas sem a necessidade de novos ensaios.

2. REVISÃO BIBLIOGRÁFICA

2.1. Pavimento
O pavimento é formado basicamente por quatro camadas: revestimento, base, sub-base e
reforço do subleito, além do subleito que faz o papel de fundação.

Segundo Senço (2007), pavimento é a estrutura construída sobre a terraplenagem e destinada


técnica e economicamente a resistir aos esforços verticais oriundos do tráfego e distribui-los,
melhorar as condições de rolamento quanto ao conforto e segurança e resistir aos esforços
horizontais (desgaste), tornando mais durável a superfície de rolamento.

2.2. Estabilização de solos


Como os pavimentos são formados por camadas, dentre as quais o subleito faz o papel de
fundação, o comportamento estrutural depende tanto da espessura quanto da interação entre as
camadas e, consequentemente, sua rigidez. Enquanto a camada de revestimento sofre esforços
de tração e compressão devidos à flexão, as demais camadas ficam submetidas principalmente
à compressão.

Além disso, a fadiga e a deformação permanente são os principais problemas enfrentados pelo
pavimento. Portanto, deve-se fazer um dimensionamento adequado e, para tanto, conhecer
bem as propriedades dos materiais que a compõem, sua resistência à ruptura, permeabilidade
e deformabilidade, frente à repetição de carga e ao efeito do clima (LIEDI et al., 2008).

Levando em conta esses fatores, um solo com grandes quantidades de finos pode reduzir a
permeabilidade e a rigidez das camadas estruturais, aumentando as deformações e a expansão
volumétrica em presença de água diminuindo a resistência mecânica do pavimento.

A cal aparece como alternativa de estabilização química já que diminui a plasticidade,


melhora a trabalhabilidade, a resistência e a fadiga dos solos argilosos. Já o cimento contribui
de maneira significativa com o aumento da resistência, diminuindo a plasticidade, a
permeabilidade e a expansão volumétrica de solos arenosos e argilosos.
2.3. Fresagem e reciclagem de pavimentos
Correlacionando a questão econômica com o tempo, de acordo com Bonfim (2007) com a
crise econômica e a do petróleo na década de 1970, os técnicos rodoviários internacionais,
junto com os organismos de fomento, tiveram a ideia de reprocessar o material de
pavimentação de pistas deterioradas através da reciclagem, a fim de restaurar as condições de
trafegabilidade de vias a níveis satisfatórios, tanto do ponto de vista técnico quanto financeiro.
Surge então a fresagem, técnica de corte de uma ou mais camadas do pavimento com
espessuras pré-determinadas por meio de processo mecânico a quente ou a frio. Normalmente
a melhor opção para pavimentos que receberam sucessivos recapeamentos sem a retirada do
revestimento anterior.

De acordo com o livro DNIT – Manual de Restauração de Pavimentos Asfálticos (2006, p.


175):
“A reutilização dos agregados do pavimento degradado para os serviços de reconstrução,
restauração e conservação propiciam uma diminuição da demanda de novos materiais e das
respectivas distâncias de transporte, prolongando o tempo de exploração das ocorrências
existentes. Isso é particularmente benéfico devido às restrições impostas pela legislação de
proteção ao meio ambiente e pela crescente valorização dos sítios de ocorrências de jazidas”.

2.4. Dosagem
Klinsky et al. (2014) relata que, segundo Little (1999), para considerar os benefícios da
contribuição estrutural das camadas de solo cal, o ponto de partida é garantir que o material
seja suficientemente modificado para alterar as propriedades de resistência, de rigidez, de
deformação permanente e de durabilidade.

O teor ideal de cimento pode ser obtido de forma experimental de acordo com a ABNT
(Associação Brasileira de Normas Técnicas) NBR 12253 (Solo-cimento – Dosagem para
emprego como camada de pavimento) tendo-se a classificação HRB (Highway Research
Board) do solo. O teor mínimo de cimento recomendado pela norma é de 5% em massa,
abrindo-se o precedente para uso até de 3,5%, em massa, para solos do tipo A1-a, A1-b ou A-
2-4, contanto que seja atingida a resistência de 2,1 MPa e que a mistura seja processada em
usina (MACEDO, 2004).

Já para a cal, há diversos ensaios de dosagem, segundo Lovato (2004), tais como Método do
Lime Fixation Point (Hilt e Davidson, 1960), Método de Thompson (1966) Método do pH
(Eades e Grim, 1966) e Método ICL, proposto por Rogers et al. (1997).

3. METODOLOGIA
Os materiais foram ensaiados de acordo com as ABNT (Associação Brasileira de Normas
Técnicas) para cada ensaio, juntamente com normas do DNIT (Departamento Nacional de
Infraestrutura de Transportes) e DNER (Departamento Nacional de Estradas de Rodagem) no
LATRAN (Laboratório de de Transportes) da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso
do Sul) no campus de Campo Grande - MS. Às misturas de 25% de fresado com 75% de solo,
50% de fresado com 50% de solo e 75% de fresado com 25% de solo foram incorporadas
porcentagens de cal e cimento em diversos teores.

3.1. Dosagem
De posse de diversas literaturas, foi concluído que porcentagens ideais de cal e cimento
variam de 0% a 6%, dependendo de alguns fatores. Segundo Enamorado (1990), os fatores
mais importantes que afetam a resistência no solo-cimento são o tipo de solo, teor de cimento,
densidade seca máxima e teor ótimo de umidade, tempo e temperatura de cura e demora na
compactação.

Com valores mínimos e máximos de solo, cimento e cal, foi utilizado o delineamento
experimental, que consiste na teoria de experimentos com misturas (Cornell, 2002) e estará
descrito no item 3.2.7.

3.2. Materiais

3.2.1. Solo
O solo utilizado para a mistura foi retirado da jazida da BR-163 próximo da cidade de São
Gabriel do Oeste nas coordenadas 19˚34'32.6"S 54˚25'59.8"W representada na Figura 1 da
vista aérea, próximo de onde foi coletado o material fresado e armazenado em barris
tampados para posterior uso. Como o índice de plasticidade resultou em 0,83%, trata-se de um
solo não plástico, conforme a Tabela 1. Sua granulométrica está na Figura 1:

Figura 1: Granulometria do solo

Tabela 1: Limites de Atterberg

3.2.2. Material fresado


O material asfáltico fresado (Figura 4) usado como agregado mineral foi retirado de um
depósito na BR-163, aproximadamente 8,5 km da cidade de São Gabriel do Oeste nas
coordenadas 19˚27'20.6"S 54˚30'57.3"W.

A faixa granulométrica utilizada de acordo com a norma DNIT 142/2010 é a C, conforme


Tabela 2.
Tabela 2: Quantidade de material passante na faixa “C”

3.2.3. Cal
A adição de cal hidratada altera as características de compactação dos solos, principalmente
pela mudança de distribuição granulométrica dos materiais (KLINSKY, 2014). Quanto ao tipo
de cal, Lovato (2004) observou que a cal cálcica tem melhores resistências à compressão que
a dolomítica e diz que o comportamento está de acordo com o observado por Ormsby e Kinter
(1973), que constataram que em solos ricos em caulinita a mistura com cal cálcica apresenta
maiores valores de resistência. A cal dolomítica, que é uma mistura de óxido de cálcio e óxido
de magnésio (CaO + MgO), é obtida a partir da calcinação do calcário dolomítico.

Para este estudo, foi utilizada a cal hidratada dolomítica Itaú CH- III, produzida pela empresa
Votorantim Cimentos, para se estudar o comportamento desse tipo de cal, à princípio, com
menores resistências e, futuramente, utilizar a cal cálcica com base nesses resultados.

3.2.4. Cimento
Segundo Macedo (2004), a diferença entre solo-cimento e solo melhorado com cimento está
relacionada ao percentual de cimento, em massa, existente na mistura, no qual o primeiro tem
porcentagens acima de 5%, e o segundo varia de 2% a 4% o teor. Foi escolhido o cimento Itaú
CP II-E-32 produzido pela empresa Votorantim Cimentos

3.2.5. Água
Foi utilizada água destilada do LATRAN (Laboratório de Transportes) para os experimentos.

3.2.6. Solo+fresado
As combinações de misturas podem ser observadas na Tabela 3, e foram combinadas
dosagens de 0%, 3% e 6% de cal e cimento em relação a massa total, nos três tipos de
proporção de solo mais fresado. Foram consideradas também três umidades ótimas, uma para
cada mistura 25F/75S, 50F/50S e 75F/25S de solo mais fresado. A granulometria da mistura
encontra-se na Figura 2.

Tabela 3: Combinações de dosagens para os corpos de prova


25% Fresado + 50% Fresado + 75% Fresado
75% Solo 50% Solo +25% Solo
N Ci Cal N Ci Cal N Ci Cal
(%) (%) (%) (%) (%) (%)
1 0 0 10 0 0 19 0 0
2 0 3 11 0 3 20 0 3
3 0 6 12 0 6 21 0 6
4 3 0 13 3 0 22 3 0
5 3 3 14 3 3 23 3 3
6 3 6 15 3 6 24 3 6
7 6 0 16 6 0 25 6 0
8 6 3 17 6 3 26 6 3
9 6 6 18 6 6 27 6 6

Figura 2: Granulometria das misturas

A granulometria que mais se encaixou na faixa ‘C’ do DNIT foi a mistura 75F/25S.

3.2.7. Método de dosagem


A metodologia utilizada para a dosagem foi baseada na teoria de experimentos com misturas
(Cornell, 2002). Ao se restringir as proporções de cal e cimento, obtém-se a região
experimental, chamada de Simplex e indicada na Figura 3, onde estão as misturas realizadas
em laboratório. Os gráficos são gerados com base nos modelos polinomiais ajustados pelos
dados obtidos experimentalmente. Os valores de máximo e mínimo para a cal e o cimento
foram restringidos como teores na faixa que vai de 0% a 6%, e o solo de 88% a 100%. O
modelo quadrático permitiria apenas ter ideia da interação dos componentes nos vértices e
arestas do triângulo de concentrações. De acordo com Barros Neto (2001), a presença
simultânea de três componentes é importante para descrever a resposta de determinadas
misturas ternárias, no caso os pontos no interior do triângulo, sendo necessário aplicar o
modelo cúbico. Contudo, ainda restaria a dúvida de se aplicar o modelo cúbico especial ou
cúbico completo.

Figura 3: Modelo cúbico completo para uma mistura de três componentes

Nota-se na Figura 3 que o modelo cúbico completo possui dez termos, significando que seria
necessário ao menos a realização de dez ensaios diferentes a fim de se determinar os valores
de todos os seus coeficientes. Introduzindo um único termo cúbico, toda região experimental
pode ser descrita de forma satisfatória. Este modelo, chamado de cúbico especial, possui um
termo a mais que o modelo quadrático (mais simples), sendo necessário, portanto, apenas um
ensaio adicional.

O modelo cúbico especial foi o utilizado, com 9 misturas, suficiente para esse modelo, com
prova e contraprova, totalizando 18.

Figura 4: Expressão do modelo cúbico especial para uma mistura de três componentes

Com isso, têm-se os gráficos de efeitos de componentes (Cox), o qual representa a


propriedade a ser analisada (no caso Rcs ou Rtcd) em sua ordenada e o desvio da mistura de
referência em proporção (seus componentes) em sua abscissa. Tal gráfico permite analisar
isoladamente o comportamento da cal e do cimento. O gráfico de superfície de resposta
mostra a interação entre os componentes por meio de curvas de nível que demostram se,
dentro do limite estudado, atendem às especificações predeterminadas.

Figura 5: Gráfico Simplex do experimento

Percebe-se, observando a Figura 5, que há um ponto central no Simplex. Tal ponto se deve ao
ajuste do modelo cúbico completo para o cúbico especial, e representa a mistura ternária em
partes iguais. Este planejamento experimental pode ser chamado também de centroide
simplex.

3.3. Moldagem dos corpos de prova


Com os resultados da umidade ótima e da massa específica seca máxima, foram moldados os
corpos de prova, conforme a NBR 12024 por meio do método “A”, compactados de modo
dinâmico em três camadas iguais na energia equivalente à intermediária aplicando-se 21
golpes por camada com um soquete de massa igual a 4,536 kg e altura de queda 45,72 cm,
utilizando-se o molde de 10,00 cm de diâmetro e 12,73 cm de altura (aproximadamente 1000
cm³ de volume). Posteriormente à moldagem, foram envoltos em papel filme e molhados
diariamente para manter a umidade constante, evitar a perda de umidade e melhorar a
hidratação do cimento.
3.4. Ensaios
3.4.1. Ensaio de Compactação
Algumas pesquisas apontam que, para uma mesma energia de compactação, misturas solo-cal,
apresentam menor peso específico aparente seco máximo que o solo natural. Segundo
Portelinha (2008), Lima et al. (1993) afirmaram que o peso específico aparente seco máximo
continua a cair à medida que aumenta o teor de cal, com reduções que podem atingir valores
de 5%. Porém, a umidade ótima tende a aumentar (2% a 3%) com o incremento do teor de cal.
O ensaio de compactação utilizou a energia intermediária, com 5 camadas de 26 golpes,
utilizando o cilindro e o soquete grandes, conforme a metodologia do DNER-ME 162/94 e
obteve os resultados para umidade ótima e massa específica seca máxima descritos no Figura
9. Foram moldados dois corpos de prova para cada mistura de solo e fresado: três sem cal e
cimento e outros três com 6% de cal e 6% de cimento, totalizando seis corpos de prova,
conforme a Tabela 4.

Tabela 4: Dosagens dos ensaios de compactação


N Proporções Mistura S+F (g) Cim (g) Cal (g)
1 25% F + 75% S 3000 0 0
2 50% F + 50%S 3000 0 0
3 75% F + 25%S 3000 0 0
4 25% F +75% + 6% Ci + 6% Ca 3000 180g 180g
5 50% F +50% S + 6% Cim + 6% Cal 3000 180g 180g
6 75% F +25% S + 6% Cim + 6% Cal 3000 180g 180g

3.4.2. Ensaio de resistência à compressão simples não-confinada (Rcs)


Este ensaio foi realizado de acordo com a metodologia descrita no Método de Ensaio DNER-
ME 201 (DNER, 1994a) para os tempos de cura de 7 dias e de 28 dias. Embora a norma
recomende executar o ensaio com imersão prévia em água por 24 horas, estudos anteriores
demonstram que os corpos de prova se desintegram horas antes (Lovato, 2004) sendo,
portanto, desprezada tal imersão nesse estudo.

3.4.3. Ensaio de Resistência à tração por compressão diametral (Rtcd)


A fim de determinar a resistência à tração indireta dos materiais envolvidos na pesquisa,
foram realizados os ensaios de resistência à tração por compressão diametral, de acordo com a
norma DNER-ME 138/94, para os tempos de cura de 7 dias e de 28 dias.

4. RESULTADOS

4.1. Análise dos resultados


Os resultados foram analisados com base na teoria de experimentos com misturas (Cornell,
2002). A Tabela 5 apresenta os modelos de regressão referentes à resistência à compressão
simples (Rcs) e Resistência à tração na compressão diametral (Rtcd).

Tabela 5: Modelos de regressão referentes às resistências


Resistência Modelo de Regressão R²(%)
Rcs 7 (25F+75S) = 0,2*X1+51,3*X2+14,5*X3-819,4*X2*X3 92,06
Rcs 28(25F+75S) = X1+71*X2+23*X3-1164*X1*X1*X2*X3 72,86
Rcs 7 (50F+50S) = 0,09*X1+79,18*X2-15,71*X3-78,05*X1*X2+33,3*X1*X3 93,95
Rcs 28(50F+50S) = 0,0612*X1+63,5679*X2+31,4507*X3 88,66
Rcs 7 (75F+25S) = 0,1*X1+135,3*X2+235,7*X3-246*X1*X3-693,7*X1*X1*X2*X3-136,8*X1*X2 97,79
Rcs 28(75F+25S) = 80*X2+11*X3-1604*X1*X1*X2*X3+974211*X2*X3 94,37
Rtcd 7 (25F+75S) = 0,112*X1+3,938*X2+0,045*X3 65,92
Rtcd28(25F+75S) = 0,1*X1+11,8*X2+3,5*X3-337,4*X1*X1*X2*X3+2901,9*X1*X2*X3*X3 88,12
Rtcd 7 (50F+50S) = 0,03*X1-5,94*X2+3,72*X3+3763,78*X1*X3+15,03*X1*X2 79,15
Rtcd28(50F+50S) = 0,1*X1+11,8*X2+3,5*X3-337,4*X1*X1*X2*X3+2901,9*X1*X2*X3*X3 88,12
Rtcd 7 (75F+25S) = 0,13*X1-32,81*X2+33,67*X3+55,73*X1*X2-43,04*X1*X3 90,82
Rtcd28(75F+25S) = 15*X2+6*X3+1866*X1*X2*X3+3276*X2*X3-2266*X1*X1*X2*X3 97,63

Embora tenha sido gerado os gráficos de todas as misturas, será discutido apenas as misturas
75F/25S, cujos resultados foram satisfatórios para o estudo em questão.

4.1.1. Gráficos Cox e Superfície de Resposta para Rcs 75F/25S


Na Figura 6 (a), para os 7 dias, o cimento apresenta um comportamento levemente parabólico,
aumentando a resistência da mistura, ao passo que a cal tem pouca participação na resistência.
Na figura 6 (b), nos 28 dias, o cimento promove um ganho menos acentuado da resistência
com teores de 0% a 3% do que nos 7 dias, e mantém a mesma linearidade dos 7 dias. Já a cal,
com comportamento parabólico, diminui a resistência da mistura até próximo da proporção de
4,5%, passando a aumentar a resistência.

Figura 6: Rcs 75F/25S 7 (a) e 28 (b) dias.

Para 7 dias de cura na Figura 7 (a), o gráfico de superfície de resposta indica que o cimento,
somente em seu teor máximo, traz resistência satisfatória, tendo a cal apenas contribuído
como um acréscimo nessa resistência. Já nos 28 dias o gráfico apresenta baixas resistências no
meio, conforme a Figura 7 (b), indicando que os componentes não trabalharam de forma tão
coesa quanto nas outras misturas. O cimento atinge boas resistências a partir de 3%, mas não
quando se adicionam teores iguais de cal e cimento.
Figura 7: Rcs 75F/25S 7 (a) e 28 (b) dias.

4.1.2. Gráficos Cox e Superfície de Resposta para Rtcd 75F/25S


De acordo com o gráfico de efeitos de componentes da Figura 8 (a), tanto a cal quanto o
cimento têm efeito parabólico sobre a resistência à tração aos 7 dias, porém a cal tem ponto de
mínimo e o cimento tem ponto de máximo. A cal diminui a resistência até a mistura de
referência e depois aumenta-a, enquanto o cimento traz aumento em quase toda a faixa de
proporção, algo como de 0% a 5%. A Figura 8 (b) indica que, nos 28 dias, o cimento
demonstra um comportamento parabólico, aumentando a resistência. Já a cal provoca uma
leve perda de resistência.

Figura 8: Rtcd 75F/25S 7 (a) e 28 (b) dias.

O gráfico de superfície de resposta aos 7 dias indicado na Figura 9 (a) mostra que a cal por si
só provoca irrisórias resistências, abaixo de 300 kPa, mas já demonstra aumento ao se
adicionar cimento à mistura, sendo que a partir de 3% de cimento com 6% de cal atinge a
resistência de 600 kPa. Na Figura 9 (b), nos 28 dias, o gráfico de superfície de resposta indica
que 600 kPa se dão para valores entre 4,5% e 6% de cimento, independentemente da
quantidade de cal adicionada.
Figura 9: Rtcd 75F/25S 7 (a) e 28 (b) dias.

5. CONCLUSÕES E SUGESTÕES PARA TRABALHOS FUTUROS


Com base nos resultados obtidos, pode-se concluir que o cimento tem papel fundamental no
aumento da resistência, ao passo que a cal, embora com menores resistências, também traz
aumento, pelo fato de ter reações cimentantes, principalmente para tempos de cura de 28
dias. As resistências iniciais de 7 dias para compressão simples com adição de 6% cimento
atendem às especificações em norma para as misturas 25F/75S e 75F/25S. Aos 28 dias, as 3
misturas alcançam a resistência de 2,1 MPa. Ainda que as fibras inferiores das camadas
sofram baixas solicitações de tensão, para a compressão diametral, o valor de 0,6 MPa foi
alcançado aos 7 dias para a mistura 75F/25S com teor entre 3% e 6% de cimento e também
com a mistura 91-3-6, sendo obtido aos 28 dias para todas as 3 misturas com alto teor de
cimento. De posse de tais resultados, conclui-se que a mistura 75F/25S com 6% de cimento
seria uma boa opção construtiva, tendo em vista sua alta resistência já aos 7 dias o que
facilitaria a liberação do tráfego dos veículos, além do fato do alto teor de material fresado
trazer vantagens financeiras e ambientais à construção, embora sejam necessários maiores
estudos quanto ao aparecimento de trincas por retração com tal proporção de cimento.

Sugere-se, portanto, dar mais ênfase aos estudos da cal, principalmente com a calcítica, que
apresenta melhores resultados de resistência com base em outros estudos como por exemplo
obter os efeitos na expansibilidade e trabalhabilidade a fim de se averiguar se traria vantagens
construtivas e substituir alguma proporção do cimento, inclusive para pavimentos de baixo
tráfego, principalmente pelo fato de altos teores de cimento ocasionarem trincas por retração.
Com as estimativas obtidas pelo delineamento experimental, pode-se utilizar qualquer
proporção dentro da região experimental estudada e aplicar de acordo com a necessidade de
projeto

AGRADECIMENTOS
Agradeço à minha família, aos alunos e técnicos do Laboratório de Transportes envolvidos nessa pesquisa, ao
Eduardo Rodolpho Alcantú, por ter caminhado lado a lado nesse projeto e ao professor e orientador David Alex
Arancíbia Suarez.

REFERÊNCIAS
ABNT (1986) NBR 7182 - Solo – Ensaio de Compactação. Associação Brasileira de Normas Técnicas, Rio de
Janeiro.
ABNT (1992) NBR 12024 - Solo cimento – Moldagem e Cura de Corpos-de-Prova Cilíndricos. Associação
Brasileira de Normas Técnicas, Rio de Janeiro.
ABNT (1992) NBR-12253. Solo cimento – Dosagem para Emprego como Camada de Pavimento. Associação
Brasileira de Normas Técnicas, Rio de Janeiro.
Bernucci, L. B.; Motta, L. M. G.; Ceratti, J.A.P.; Soares, J.B. (2008). “Pavimentação Asfáltica: Formação básica
para engenheiros”. 2008. PETROBRAS, Rio de Janeiro
Barros Neto, B. de (2001) Como Fazer Experimentos. Editora Unicamp. São Paulo.
Bonfim, V. (2007) Fresagem de Pavimentos Asfálticos. Editora Fazendo Arte. São Paulo.
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Martinho Estevão Correa Neto (martinhoneto@me.com)


David Alex Arancibia Suarez (alex.arancibia@ufms.br)
Daniel Anijar de Matos (daniel.matos@ufms.br)
Laboratório de Transportes, Faculdade de Engenharia, Universidade Federal de Mato Grosso do Sul

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