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O que é neurociência?

Literalmente, neurociência é a ciência que estuda o sistema nervoso que, por sua vez, é
constituído pelo cérebro e sistema nervoso central e periférico. Existem diversas maneiras de
estudar este sistema de nosso corpo que é um dos mais complexos, desde o nível microscópico
até a relação corpo e ambiente, nos comportamentos observáveis como andar e falar, ou nos
comportamentos encobertos, como pensar, imaginar, sonhar.
De forma que temos que dizer que existem neurociências, no plural, dependendo do modo como o
estudo será realizado, ou seja, a neurociência pode e deve ser dividida em áreas afins,
complementares ao estudo, que vão da bioquímica até a psicologia.
Em síntese, neurociências é o estudo científico do sistema nervoso de uma forma ampla e, assim,
compreende cinco disciplinas:
1) Neurociência molecular: trata a função das moléculas;
2) Neurociência celular: estuda a constituição e função das células no sistema nervoso;
3) Neurociência sistêmica: descreve e analisa as regiões do sistema nervoso e está ligado à
neuroanatomia. Em outras palavras, divide o sistema nervoso em partes e nomeia estas partes e
busca compreender as suas funções;
4) Neurociência comportamental: ligada diretamente à psicologia, especialmente a psicologia
comportamental. Relaciona o estudo do organismo com o meio, centrando o seu estudo sobre os
comportamentos internos, como pensamentos, emoções e os comportamentos visíveis como a
fala, gestos e outras ações, em geral.
5) Neurociência cognitiva: centra o seu estudo sobre os comportamentos ainda mais complexos
como memória, aprendizagem, enfim, a capacidade cognitiva de uma determinada pessoa em um
determinado momento.
Como podemos ver, especialmente, pelas disciplinas 4 e 5, os limites são tênues, ou seja,
possuem linhas de contato e, em muitas pesquisas, são utilizados conhecimentos de mais de uma
disciplina, de acordo com as hipóteses, teses e metodologias. Para entendermos melhor o que é
neurociência, podemos imaginar uma câmera que, com seu zoom, vai cada vez mais se
aproximando, partindo do corpo como um todo e sua interação com o seu redor, entrando na pele
e visualizando as partes do sistema nervoso, chegando ao nível celular deste sistema, como os
neurônios, e indo ainda mais perto, e como mais zoom, até as moléculas que compõe os diversos
tipos de células nervosas.
Assim, na medida em que precisamos utilizar os conhecimentos de cada uma destas disciplinas,
falamos sempre em multidisciplinaridade, quando vamos estudar neurociências. São muitas
disciplinas, portanto, multi-disciplinar.

Grandes questões das neurociências


Sabemos que o desenvolvimento das neurociências é muito recente. Em outra Lição, falaremos a
respeito da história. Mas a fim de já nos introduzirmos na área, podemos descrever duas grandes
questões presentes desde o começo e que, até certo ponto, ainda estão presentes nos dias
atuais.
A primeira questão que trouxe enormes debates entre os especialistas foi entre a parte e o todo.
Em termos técnicos, dizemos globalistas e localizacionistas. Embora os dois termos parecem
complicados, é simples de entender.

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Imagine o cérebro com toda a sua complexidade. Vamos dizer que queremos estudar a fala.
Aonde acontece a fala no cérebro? Está localizada em uma região específica ou a fala acontece
com a utilização do cérebro como um todo?
Alguns pesquisadores argumentavam que a fala deveria acontecer em apenas um lugar
(localizacionistas – defendiam o local da função), enquanto outros pesquisadores mantinham a
ideia de que a fala acontecia em diversas regiões do cérebro e, sendo um comportamento
altamente complexo, deveria fazer uso do cérebro como um todo, globalmente (globalistas).
Evidentemente, eu escolhi o exemplo da fala. Mas a discussão envolvia e envolve todas as outras
funções.
A segunda questão consistia na dúvida a respeito de o cérebro e o sistema nervoso como um todo
serem apenas uma função do espírito (espiritualistas) ou não. Tudo o que os antigos atribuíam ao
espírito, como a linguagem, os sonhos, as emoções, eram apenas uma atribuição da matéria
(materialistas). Esta segunda questão também é fácil de entender, se pensarmos na ideia,
presente em todas as religiões, de que temos dois ou mais “corpos”.
Por exemplo, muitos religiosos cristãos falam de corpo, alma e espírito (ou de corpo e alma).
Embora a alma e o espírito sejam invisíveis, devemos atribuir uma substância ou tipo de matéria
especial, diferente da matéria visível, mas ainda assim uma matéria, um corpo ou uma forma.
Com isso, quando os religiosos descrevem o ser humano com 3 corpos (ou 2 na visão dualista e
não tripartite), estão falando de substâncias diferentes do corpo.
No Oriente, diversas religiões ainda pensam em mais corpos, como é o caso da Teosofia, que
embora Ocidental, possui influências do hinduísmo e budismo. A Teosofia, descreve, portanto 7
corpos: 1) Sthula sharira – O corpo físico, 2) Prâna – O corpo vital; 3) Linga sharira – O duplo
etérico, 4) o corpo astral; Kâma rupa – O corpo de desejos ou corpo emocional, 5) Manas – Nossa
Alma Humana, ou Mente Divina; 6) Budhi – Nossa Alma Divina; 7) Atman – O raio do Absoluto,
nossa Essência Divina.
Independente do número de “corpos”, o que quero dizer é que na espiritualidade sempre se
acredita que o corpo físico, observável e visível, é apenas um veículo, junto de outras realidades,
mais sutis ou elevadas. Em resumo, este é o argumento dos espiritualistas: o corpo recebe as
mensagens da alma e do espírito e assim, é controlado por eles.
Já o argumento materialista, que, por sinal, domina as pesquisas acadêmicas no mundo atual,
argumenta que tudo o que existe é o corpo. O corpo que podemos ver a olho nu e o corpo que
podemos ver no microscópio e que podemos analisar em testes de laboratório, nos níveis celular
e molecular. Com isto, não é o espírito que envia uma mensagem para o corpo agir ou falar, mas
é o próprio corpo, através dos neurônios, neurotransmissores, impulsos elétricos, hormônios, etc,
que ativa todos os nossos comportamentos.
Deste modo, estas duas grandes questões ainda estão presentes:
Globalistas X Localizacionistas
Espiritualistas X Materialistas
Embora a discussão ainda permaneça, atualmente, os materialistas e os localizacionistas estão –
digamos assim – ganhando a disputa, por apresentarem os argumentos mais convincentes dentro
do modo de ciência tal qual conhecemos.

Quando estudamos história, na escola ou na faculdade, sabemos que sempre que vamos estudar
um assunto, temos que voltar um pouco antes no tempo (talvez alguns séculos), para
conseguirmos compreender as condições e causas de acontecimentos que afetaram diretamente
o assunto que estamos estudando. Assim, se vamos estudar as neurociências e seu rápido
desenvolvimento no século XX, teremos que voltar no tempo e estudar pesquisas e estudos que
foram as suas condições de possibilidade.

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A história perdida
O Egito, mais do que a Grécia, é o berço da civilização ocidental. Há milhares de anos, os
egípcios já faziam cirurgias no cérebro. Porém, o que exatamente era feito, como e com qual
finalidade ficou perdido no tempo. Sabemos que tais cirurgias eram feitas porque encontramos
perfurações no crânio em esqueletos da época. Papiros do século 15 a. C também descrevem
procedimentos intracranianos. O que se sabe, nos dias atuais, é de que eles conseguiram
relacionar as funções motoras com o cérebro.
Infelizmente, a história real do que aconteceu e do grau de conhecimento dos médicos egípcios
encontra-se praticamente perdida.
Com isso, temos que avançar no tempo e começar a história da neurociência alguns séculos
depois, na Grécia. Hipócrates, o pai da medicina ocidental, definia o cérebro como a sede da
mente. Escreveu ele: “Deveria ser sabido que ele é a fonte do nosso prazer, alegria, riso e
diversão, assim como nosso pesar, dor, ansiedade e lágrimas, e nenhum outro que não o cérebro.
É especificamente o órgão que nos habilita a pensar, ver e ouvir, a distingüir o feio do belo, o mau
do bom, o prazer do desprazer. É o cérebro também que é a sede da loucura e do delírio, dos
medos e sustos que nos tomam, muitas vezes à noite, mas ás vezes também de dia; é onde jaz a
causa da insônia e do sonambulismo, dos pensamentos que não ocorrerão, deveres esquecidos e
excentricidades”.
Lendo esta citação – com os conhecimentos que temos hoje – é incrível observar a acuidade do
pensamento hipocrático. O grande problema de pesquisa para as neurociências sempre foi como
estudar o cérebro e todo o sistema nervoso em um organismo vivo. Ao dissecar um cadáver, é
possível ver o cérebro, as meninges, a medula e os nervos irradiando da medula para os
membros. Mas como relacionar estas estruturas com o funcionamento, com a fisiologia quando o
corpo está vivo?
Em vista disso, entre as concepções de Hipócrates e o século XX, encontramos mais conjecturas
(próximas da filosofia e da teologia) do que conhecimentos reais, empíricos, laboratoriais para o
conhecimento do sistema nervoso.
Entretanto, antes de chegarmos ao século passado, devemos mencionar descobertas importantes
e hipóteses que, embora tenham se mostrado equivocadas, ajudaram os pesquisadores a evoluir
o conhecimento.

O século XIX e a frenologia


Talvez vocês já tenham visto filmes que mostram a grande popularidade da frenologia de Gall no
século XIX. A ideia deste médico alemão era de que, a partir das saliências da caixa craniana, era
possível estabelecer tipos de personalidade, ou melhor, tipos de mente. O nome frenologia vem
do grego: φρήν, phrēn, “mente”; e λόγος, logos, “lógica ou estudo”.
O problema mencionado acima (de observar o funcionamento do cérebro vivo) deveria ser
solucionado com a possibilidade de medição do crânio. Podemos entender esta concepção
pensando o seguinte. O cérebro, dentro do crânio, possui diversas regiões. Cada região é
responsável por uma função da mente. Sendo assim, se um sujeito desenvolve mais uma destas
funções, aquela parte do cérebro cresce, pressionando a parte do crânio que está próxima,
criando saliências e protuberâncias que podem ser medidas.
O argumento de Gall, na opinião dos neurocientistas atuais, estava correto apenas ao considerar
que o cérebro possui regiões ou locais que são responsáveis por funções determinadas. Porém,

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os 35 locais descritos por Gall não são corretos. Na verdade, são locais imaginários para funções
imaginárias, ou seja, inventadas por ele. E, portanto, a medição do crânio para a avaliação da
personalidade ou para a avaliação do desenvolvimento de certas funções é sem sentido.

Florens e o campo agregado


Ainda no século XIX, Jean Pierre Florens, médico francês, defendeu uma tese contrária à de Gall.
Estudando pombos e coelhos com traumas cerebrais, ele notou experimentalmente que as
funções destes animais não eram prejudicadas com as lesões. Tais pesquisas, levaram-no a
argumentar que o cérebro não funcionava através de regiões especializadas (argumento dos
localizacionistas), mas funcionava como um campo agregado.

A teoria do campo agregado, portanto, baseou-se no estudo experimental da fisiologia animal, e,


nesse sentido, foi um avanço. Ao continuar o seu estudo, Florens passou a remover o cerebelo
dos coelhos e pombos e concluiu que as funções musculares eram prejudicadas apenas
momentaneamente. As funções cognitivas eram afetadas apenas com a remoção dos hemisférios
cerebrais, também, temporariamente. A conclusão final era de que o cérebro funcionava com um
todo, ou seja, o córtex, o cerebelo e tronco encefálico funcionavam como um campo agregado.
Em outras palavras, as lesões eram recuperadas com o tempo pela ativação de outras áreas
próximas.
Deste modo, ele iniciou o movimento contrário aos dos localizacionistas, estabelecendo o
argumento dos globalistas.
Florens definiu o campo agregado do seguinte modo: todas as sensações, percepções e vontades
ocupam o mesmo espaço no cérebro.

Jackson e a Organização Topográfica do Cérebro


J. H. Jackson, ao invés de estudar animais, começou a estudar o cérebro humano, em pacientes
epiléticos.

Observando em detalhes as convulsões dos epiléticos, Jackson notou que todos eles
apresentavam movimentos motores parecidos. Partindo desta informação, ele concluiu que os
epiléticos deveriam ter um problema cerebral em uma parte específica do cérebro. O modelo
explicativo é o do mapa mental, cada região cerebral controlando uma parte motora, em outras
palavras, esta é a concepção topográfica do cérebro. Lembrando que topos, em grego, significa
lugar. Deste modo, Jackson – com outros dados – voltou a defender a posição localizacionista,
dando um grande passo além das ideias imaginárias de Gall.

Paul Broca e Carl Wernick – A linguagem e o cérebro


Durante a faculdade de psicologia, estudei as descobertas de Broca, que foi uma das mais
importantes na história da neurociência. Aqui, claro, estamos trazendo uma visão panorâmica
desta história. Em outras lições, retomaremos pontos específicos e nos aprofundaremos.
Os dois pesquisadores, Broca e Wernick, conseguiram realizar a primeira importante pesquisa
sobre a localização específica no cérebro de uma função. Eles conseguiram este feito ao estudar
danos em partes do cérebro e seu efeito nas funções psíquicas. Tudo começou em 1861, quando

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Broca avaliou um homem que podia entender a linguagem mas não era capaz de falar. A única
palavra que ele conseguia falar era “tan”. Depois, descobriram que este homem tinha uma lesão
no lobo frontal esquerdo, que foi chamado – a partir de então – de área de Broca.
Wernicke, neurologista alemão, estudou um paciente que conseguia falar, mas muitas vezes
emitia frases sem sentido. Este paciente tinha sofrido um derrame e, embora falasse, não
conseguia entender a linguagem falada ou escrita. A lesão do derrame havia sido na parte
posterior do lobo temporal esquerdo, local que ficou conhecido como área de Wernicke.
Tanto as descobertas de Broca e Wernicke sustentaram – com provas – o ponto de vista dos
localizacionistas, quer dizer, lesões em áreas específicas do cérebro provocavam mudanças
comportamentais específicas, ou seja, eles descobriram duas regiões exatas no cérebro para a
expressão da fala e da compreensão da fala.
Posteriormente, no século XX, com o desenvolvimento da neuroimagiologia, conjunto de técnicas
para diagnóstico médico como tomografia, cintilografia e a ressonância magnética o conhecimento
do sistema nervoso cresceu muito e milhares de outras pesquisas foram feitas. Falaremos mais
destas pesquisas nos próximos textos.
Antes de concluirmos, gostaria de mencionar também as pesquisas do médico alemão Alois
Alzheimer, que contribuíram igualmente para a expansão do nosso conhecimento sobre o cérebro.

Em nossa próxima Lição do Curso de Neurociência Online e Grátis será sobre o Sistema Nervoso
Central e Periférico, já com as grandes descobertas do século XX e, principalmente, a década de
1990, a década do cérebro.