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Revista

Aeronáutica
ISSN 0486-6274 Número 299
2018
Expediente
PRESIDENTE T-27 Tucano
Maj Brig Ar Marcus Vinicius Pinto
Costa
1º Vice-Presidente Jan. a Abr. 2018
Cel Av Paulo Roberto Miranda
Machado

Foto: Sgt Johnson Barros


2º Vice-Presidente
Brig Ar Paulo Roberto de Oliveira
Pereira

w w w.c a e r.o r g.b r


ISSN 0 4 8 6 - 6 2 74
r e v i s t a @ c a e r. o r g . b r

SUPERINTENDÊNCIAS Sede Central


Sede Central
Cel Av Pedro Bittencourt de Almeida
Sede Barra
Praça Marechal Âncora, 15
Rio de Janeiro - RJ - CEP 20021-200
• Tel.: (21) 2210-3212
Índice
Brig Ar Paulo Roberto de Oliveira Pereira 3ª a 6ª feira de 9h às 12h e 13h às 17h 4 TRADIÇÃO E ATUALIDADE 20 QUANDO A RELIGIÃO
SEDE CENTRAL INVADE O ESPAÇO PÚBLICO
Sede Barra Redação Marcio Tavares D’Amaral
Filósofo
CONSELHO DELIBERATIVO Rua Raquel de Queiroz, s/nº
Presidente - Ten Brig Ar Paulo Roberto Cardoso Vilarinho Rio de Janeiro - RJ - CEP 22793-710 6 NOTÍCIAS DO CAER 22 A NOÇÃO DOS VALORES EM
• Tel.: (21) 3325-2681 INAUGURAÇÃO DA BIBLIOTECA UMA SOCIEDADE DESORGANIZADA
CONSELHO FISCAL Redação
Presidente - Brig Int João Carlos Fernandes Cardoso Alfredo Luzardo
Cel Av
REVISTA DO CLUBE DE AERONÁUTICA
8 DANILO, MEU AMIGO,
Tel.: (21) 2220-3691 MEU IRMÃO 24 REMINISCÊNCIAS DE UM
DEPARTAMENTOS Maj Brig Ar Manoel Carlos Pereira OFICIAL AVIADOR
Maj Brig Ar Luiz Fernando Barbedo
Diretor e Editor
SEDE CENTRAL
Cel Av Araken Hipolito da Costa 9 AMIGO DE TURMA 27 POR QUE SE CASAR?
Cultural Araken Hipolito da Costa
Cel Av Araken Hipolito da Costa Yehoshua Goldman
Cel Av
Conselho Editorial Rabino
Diretor do Departamento Social e Hotel Maj Brig Ar Marcus Vinicius Pinto Costa
Cel Av Ajauri Barros de Melo
Cel Av Manuel Cambeses Júnior
10 76 ANOS DO MINISTÉRIO 28 UMA BATALHA NÃO PERDIDA
DA AERONÁUTICA EM VÃO
Diretor do Departamento Financeiro Jornalista João Victorino Ten Brig Ar Antonio Carlos Moretti Bermudez
Ten Brig Ar Cherubim Rosa Filho
Ten Cel Int Francisco Barbosa Cordeiro Neto Cel Av Araken Hipolito da Cos t a Palestra proferida no Seminário 76 anos
Secretaria Geral e Beneficente do Ministério da Aeronáutica e sua influência 30 UM INÍCIO POUCO PROMISSOR
no contexto nacional Ten Brig Ar Sergio Pedro Bambini
Cap Adm Ivan Alves Moreira Jornalista Responsável
João Victorino Ferreira
Jurídico
13 CAMINHOS DA OPERACIONALIDADE 32 A PIRATARIA AÉREA NO BRASIL
Dr. Francisco Rodrigues da Fonseca Produção Editorial e Design Gráfico Fernando Hippolyto da Costa
Rosana Guter Nogueira DA FORÇA AÉREA BRASILEIRA Cel Av
Brig Ar Teomar Fonseca Quírico (in memoriam)
Produção Gráfica
SEDE BARRA Palestra proferida no Seminário 76 anos
Desportivo
Luiz Ludgerio Pereira da Silva do Ministério da Aeronáutica e sua influência 38 ANATOMIA DE UM CRIME
Brig Ar Paulo Roberto de Oliveira Pereira Revisão no contexto nacional Raul Galbarro Vianna
Ten Cel QFO Dirce Silva Brízida Cel Av
Aerodesportivo
Cel Av Romeu Camargo Brasileiro
Administrativo 16 FORÇAS ARMADAS PREPARADAS 40 MAESTRO
Gabriela da Hora Rangel SÃO O ESTEIO DO ESTADO José Pereira Carneiro
Operações e Coordenador Técnico Ricardo Luiz Georgiadis Germano DEMOCRÁTICO DE DIREITO Cel Av
Ten Cel Av José Carlos da Conceição Manuel Cambeses Júnior
As opiniões emitidas em entrevistas e em matérias
Cel Av
44 UM ACIDENTE EM CACHIMBO
Assessores assinadas estarão sujeitas a cortes, no todo ou em parte, Ten Brig Ar Masao Kawanami
Social - Cel Av Verner Menna Barreto Stock a critério do Conselho Editorial. As matérias são de inteira 18 A URGÊNCIA DA NOTÍCIA
Administrativo e de Pessoal - Cel Av Luiz dos Reis Domingues
responsabilidade de seus autores, não representando,
necessariamente, a opinião da revista. As matérias não
SUPERA A VERDADE? 48 POR UMA TEOLOGIA DA ARTE
Infraestrutura - Ten Cel Av Alfredo José Crivelli Neto serão devolvidas, mesmo que não publicadas. Bruno Pedra Bento XVI
Ten Cel Av Papa Emérito
SEDE
CENTRAL
O TRADIÇÃO E ATUALIDADE
Ministério da Aeronáutica, criado em 20 de janeiro
de 1941, uniu as aviações Naval, Militar e Civil sob
uma só jurisdição.
Em 5 de agosto de 1946, após o término da Segunda
Guerra Mundial e cinco anos após a formação do Ministé- Antiga sede na Praça XV
rio da Aeronáutica, era fundado o Clube de Aeronáutica,
por iniciativa do então Ministro da Aeronáutica, Brigadeiro
Trompowsky, contando com a participação de trezentos e
quatorze oficiais da ativa, sob a chancela do Presidente da
República, General Eurico Gaspar Dutra.
O principal objetivo de sua criação é permitir o estrei-
tamento dos laços de solidariedade entre oficiais da Força
Aérea, bem como a manutenção das tradições, o que significa
vivenciar os valores morais e éticos, o amor à terra de nossos
pais, a identidade cultural e a consciência histórica de pátria.
O Clube de Aeronáutica construiu a sua história na
consolidação do elo entre o passado, o presente e o futuro Momento histórico em que o Maj Av Dionísio Cerqueira de Taunay lê a ata de posse perante a mesa diretora formada por (da esq. para
a dir.): Brig Ivo Borges; Ten Brig Armando Trompowsky, Ministro da Aeronáutica; General Salvador Cesar Obino, Chefe do Estado-Maior
que, se confundiram com a epopeia do próprio Ministério Conclamamos os oficiais da nossa querida Força Aérea Geral (EMFA); Presidente da República, General Eurico Gaspar Dutra; Senadores José Augusto Bezerra e Luiz Vianna Filho
da Aeronáutica. Brasileira a continuar a obra iniciada pelos antigos oficiais
É certo que nenhuma associação perdura sem o respaldo da ativa, a fim de que a palavra e o amor deles pelo Brasil
da visão dos que a conduzem, bem como sem a presença possam ecoar em nossos corações e continuar animando
dos oficiais da ativa do Comando da Aeronáutica. nossos caminhos.

Na plateia, aguardando o momento da posse, o Maj Brig Ar Fábio de Sá Earp (à esq.), tendo ao seu lado o Brig Ar Henrique Raymundo Dyott Presentes na solenidade de posse do primeiro Presidente eleito do Clube de Aeronáutica, o Ten Brig Ar Eduardo Gomes, tendo à sua direita
Fontenelle e o Ministro do STM, Ten Brig Ar Amilcar Sérgio Velloso Pederneiras. Na fila de trás, vê-se o Brig Ar Ajalmar Vieira Mascarenhas o Senador e ex-Ministro da Aeronáutica Salgado Filho, e à sua esquerda o Alte Camargo, Comandante do Corpo de Fuzileiros Navais
NOTÍCIAS do CAER

Banda de Música da Ala 12 (BASC),


regida pelo Ten Mus Daniel
durante o hasteamento da bandeira.
Presidente do CAER, Maj Brig Marcus
Vinicius Pinto Costa, acompanhado
do Embaixador Jerônimo Moscardo

INAUGURAÇÃO DA BIBLIOTECA
A Biblioteca do Clube de Aeronáutica,
inaugurada no dia 16 de março de
2018, está localizada na Sala da Presidên-
livros descrevendo sua vida, história e
invenções. Parte desse importante acervo
do historiador contém sete romances do
do Curso do Pensamento Brasileiro, e
ilustres convidados, como o Diretor do
INCAER, Ten Brig Rafael Rodrigues Filho,
cia da Sede Central. escritor, ilustrador e piloto francês Antoine e o Subdiretor da Divisão de Divulgação
Foram feitas generosas doações de de Saint-Exupéry. do INCAER, Brig Roberto Pitrez; também
livros, que geraram um acervo notável. Elas O local contém a coleção completa compareceram ao evento o Presidente
vieram principalmente de duas autoridades: de todas as edições da Revista Aeronáu- da ABRA-PAT, Maj Brig Wilmar Terroso,
o Embaixador Jerônimo Moscardo, Presi- tica, do seu primeiro número lançado em o Presidente da ABRA-PC, Brig Teomar
dente da Fundação Alexandre Gusmão, que 1958, à ultima publicação: a de nº 299. Fonseca Quírico, e o Conselheiro do
doou 155 livros e 23 DVDs. A Fundação, Fundamental para a Cultura Aeronáutica, INCAER, Brig Clovis de Athayde Bohrer, da
ligada ao Itamaraty, realiza atividades o periódico expõe o pensamento político Turma de 1945 da Escola de Aeronáutica,
culturais e pedagógicas, além de estudos aeronáutico, operacional e militar, o que além do Prof. Dr. Cel Luiz Fernando Povoas
e pesquisas no campo das Relações Inter- representa um importante veículo de disse- da Silva, responsável pelo Pensamento e
nacionais e da Política Externa brasileira, minação do conhecimento para militares e Ciências Aeroespaciais da UNIFA.
promovendo e divulgando reflexões sobre para todos aqueles que se interessam pela O Presidente do CAer, Maj Brig Mar- Prof. Dr. Carlos Frederico
o cenário internacional e o Brasil no mundo. História, Filosofia e Política da Arma Aérea. cus Vinicius Pinto Costa, juntamente com
Membros do CPB e convidados, na palestra
A outra coleção recebida foi a do A inauguração começou com o has- o Embaixador Jerônimo Moscardo, sen- O que é pensar?, tendo à frente, da esq. para a dir.:
historiador e militar da Força Aérea Brasi- teamento da bandeira e a participação tiram-se honrados em cor tar o laço Hasteamento das bandeiras (da esq. para a dir.): Diolásia Cheriegate,
Prof. Dr. Carlos Frederico, Maj Brig Ar Vinicius,
Brig Ar Bohrer, Embaixador Jerônimo Moscardo,
leira, Cel Av Fernando Hippolyto da Costa, da Banda de Música da Ala 12 (BASC). inaugural, declarando então inaugurada, Regina Helena de Farias Costa, esposa do Pres. do Clube, e Eva Maria Fonseca
Ten Brig Ar Seixas, Cel Av Póvoas,
falecido recentemente. Trata-se de livros Começaram tocando o Hino Nacional e, de- a Biblioteca do Clube de Aeronáutica. Maj Brig Ar Terroso, Brig Ar Pitrez
históricos e raros, oriundos de outros paí- pois, o Hino à Bandeira e o Hino do Aviador. Logo após os convidados visitarem
ses e relacionados ao Patrono da Aviação, Estavam presentes, além dos diretores as instalações da Biblioteca, na Sala de
Alberto Santos-Dumont. São mais de 83 do Clube de Aeronáutica, os participantes Convenções foi ministrada a palestra do Dr.
Carlos Frederico G. C. da Silveira, Diretor
do Departamento de Filosofia da PUC-Pe-
trópolis e Presidente do Centro Dom Vital,
intitulada O que é Pensar. Essa palestra
pode ser considerada a primeira tentativa
de instalar no Clube de Aeronáutica, um
campus avançado da UNIFA.
Para finalizar, a confraternização de
todos os presentes em almoço descon-
traído, com direito a bolo e comemoração
dos aniversariantes do mês.
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NOTÍCIAS
Maj Brig Ar Manoel Carlos Pereira
mcarlosp@gmail.com
do CAER
DANILO, MEU AMIGO, MEU IRMÃO
D anilo Paiva Alvares, Brigadeiro-do-Ar,
nasceu em 21 de dezembro de 1939,
Da parte dele, essa caminhada exigiu
muita dedicação, extremada competência
UMA
em Santana do Livramento, onde servia seu
pai, Oficial do Exército Brasileiro.
e infinita determinação e, por outro lado,
resultou em sucessos, reconhecimento e,
VIDA
Ingressou, como eu, em 1960, no
1° ano do Curso de Formação de Oficiais
Último voo em
esquadrilha do
como é natural, infinitas contrariedades.
Em fevereiro 1997, em um encontro BEM
VOADA
Aviadores, na então Escola de Aeronáutica, F-8, em 1967 que tivemos no Rio, quando ele exercia
no Campo dos Afonsos. Formamo-nos Ofi- a função de Chefe do Estado-Maior do
ciais Aviadores da Força Aérea Brasileira, Terceiro Comando Aéreo Regional, ele me

A
em 21 de dezembro de 1962. confidenciou que já havia sido informado vida do piloto de caça Reinal-
Nossa amizade teve início no começo da sua não inclusão na próxima promo- do Peixe Lima é tudo, menos
do ano seguinte, quando passamos a fazer ção. Sua tristeza se mostrava evidente e convencional. Sua trajetória de
parte de um grupo que seguiu para Fortale- justificada. Felizmente seu temperamento 30 anos nos mais variados es-
za,a fim de fazer o Curso de Piloto de Caça, alegre, descontraído e informal atenuou e quadrões de combate da Força
no 1/4° Grupo de Aviação, e se consolidou disfarçou essa circunstância e fez da sua Aérea Brasileira aonde voou
quando, ao término desse Curso, fazendo
parte de um grupo ainda menor, fomos
passagem para a reserva um terreno fértil
para outras realizações, cujas notícias me AMIGO DE TURMA avançados jatos supersônicos,
deixou para a posteridade uma
transferidos para o 1° Grupo de Aviação de alcançavam em Brasília, aonde resido, Cel Av Araken Hipolito da Costa miríade de experiências ocor-
Caça, na Base Aérea de Santa Cruz, onde nos seguintes termos: o Danilo é o novo
ridas a milhares de metros de
desfrutamos certamente dos melhores
anos de nossas vidas. Éramos jovens,
éramos Pilotos de Caça, e voávamos o que
Vice-Presidente do Clube de Aeronáutica;
o Danilo está fazendo curso de voo em T odos nós que vivenciamos o Ensino Ae-
ronáutico desde a Escola Preparatória
de Cadetes do Ar, a Escola Aeronáutica do
Wanderley. Entramos juntos em 1965 no
legendário Campo dos Afonsos e compu-
semos, com a Turma de 1962 da EPCAR,
altura nos céus do Brasil e do
Mundo. Entretanto, por mais que
ultraleve; o Danilo é o novo Presidente do
a carreira de piloto de caça fosse
a Força Aérea tinha de melhor, seus aviões Clube de Aeronáutica; o Danilo comprou Campo dos Afonsos ou, atualmente, a Aca- a unida Turma Agora Vai.
Gloster Meteor. demia da Força Aérea, em Pirassununga, Era um agregador de pessoas. Esse repleta de aventuras e desafios,
um ultraleve... Eu, de minha parte, pensava:
Para o Danilo, esse período começou É muita energia! Não vai descansar nunca! temos um sentimento único de entender o alto valor humano levou-o a criar o Encon- a irrequieta personalidade do
melhor ainda, já que em 21 de dezembro Foi com surpresa e um profundo sen- que é um amigo de Turma. tro InterTurmas, responsável por congregar, autor deste livro transformou a
de 1963 ele se casou com Diule Ganem, timento de perda que tomei conhecimento Independente da passagem do tem- mensalmente, no Clube de Aeronáutica, sua trajetória numa coletânea
o grande amor de sua vida. Dessa união, do seu falecimento, ocorrido de forma re- po, nós somos formados pelos mesmos diversas Turmas de oficiais da FAB. Inte- de momentos verdadeiramente
nasceram os filhos Flávia e Marcio, aos pentina. Meu amigo, meu irmão me deixava. valores morais, tais como: o amor a Deus, grou o CAER como Diretor Financeiro e foi ímpares, mesmo entre os seus
quais, alguns anos mais tarde, se somaria Concluindo, gostaria de justificar o o amor ao próximo, a verdade, a justiça, a membro do Conselho Deliberativo. pares.
a caçula Renata. e nos tornou mais amigos, a despeito de título que dei a este depoimento. Chamá-lo prudência, a coragem e os valores éticos Hoje, 20 de dezembro de 2017, você
Em 1967, voltei ao 1/4° Grupo de Avia- vez por outra a conversa evoluir para uma de Irmão foi o resultado de uma concessão – a amizade, a dignidade, a liberdade, o res- nos deixou a caminho da Casa do Pai, mas
ção para ser instrutor do mesmo Curso que discussão acalorada. que, um dia, ele me ofereceu, quando, em peito, a responsabilidade e o patriotismo. nosso pranto é de profundo pesar pela sua
fizera três anos antes. Em 1968, o Danilo Em março de 1993, a Força Aérea uma das minhas passagens pelo Rio, em Dentro desta maneira de ser, criamos ausência em nosso caminho.
seguiu o mesmo caminho, com a mesma nos concedeu a promoção ao posto de que nos encontramos para almoçar, ele, laços afetivos ao longo dos anos com nos- Celestino, quero externar a você e a
finalidade. Brigadeiro-do-Ar. em certo momento, me encarou e disse: sas atividades diárias, nas salas de aulas, todos os companheiros da Agora Vai, que
Em 1972, com 10 anos de formados, A experiência do Danilo na Logística – Manel, eu sempre quis ter um irmão, mas nos esportes, nos estudos, nos voos, nas você é meu exemplo de amigo de Turma.
tomamos rumos divergentes e definitivos tornara-se invejável, forjada que fora, nas tive só uma irmã. Fiquei sem ele até hoje, marchas, nos alojamentos, nas refeições, Aquele que conhecia o âmago do nosso ser
nas nossas carreiras. Eu, na direção do três ocasiões em que serviu na Diretoria de mas vou te contar o que decidi. Você será nas diversões. e estava sempre pronto a nos agregar pela
Emprego da Aviação, que, genericamente, Material Aeronáutico e Bélico; nos dois anos o irmão que eu queria ter! Assim, num contato direto, e marca- alegria da boa conversa e do sorriso largo.
se enquadra sob o termo Operações, e, ele, que integrou a Comissão de Recebimento Ironicamente, perguntei: – Mas você não dos pelo regime de internato, moldamos Esse seu amor você estendia a sua
voltado para a Logística. das Aeronaves Mirage, em Paris-França; acha que deveria ter me consultado antes? nosso caráter e aprendemos a conviver dedicada esposa Graça e filha.
Essa nova fase de nossas carreiras nas duas oportunidades em que serviu E a resposta veio imediata: – Não, porque com respeito e sincera amizade. Querido amigo Celestino, agradeço por
perdurou por mais de vinte anos e enri- no Parque de Material Aeronáutico de São essa tinha que ser uma decisão minha! Dito isto, gostaria de manifestar um ter sido seu amigo, e rogo a Deus para que
queceu as nossas frequentes trocas de Paulo; e, em uma, no Parque de Material do Esse era o meu amigo Danilo. E essa preito de gratidão por ter convivido com você seja recebido com muito carinho pela
ideias, aperfeiçoou nossas concepções Galeão, do qual foi Comandante. uma amizade que ultrapassou 50 anos! um verdadeiro amigo de Turma: Celestino Mãe Santíssima.
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76 ANOS DO MINISTÉRIO DA AERONÁUTICA
Palestra proferida no Seminário
76 anos do Ministério da Aeronáutica e sua influência no contexto nacional,
no Clube de Aeronáutica

Ten Brig Ar Cherubim Rosa Filho


rosafilho@stm.jus.br

S
ejam as minhas primeiras palavras
de agradecimento ao Presidente do
Clube de Aeronáutica, Brigadeiro
Vinicius e, em especial, ao Coronel Araken,
Chefe do Departamento Cultural, pelo
convite para participar deste Simpósio, e
agradecer, também, a presença do nosso
Comandante, que muito me honra.
Vou me reportar inicialmente ao Decre-
to de criação do Ministério da Aeronáutica,
em janeiro de 1941. São 29 artigos, sendo
importante assinalar que esse Decreto
definiu a Política Aeronáutica que nós
cumprimos integralmente:
– Comando único, político e estraté-
gico, sobrepondo-se a todas as atividades
aeronáuticas do país, civis e militares;
– Infraestrutura comum, civil e militar,
Salgado Filho, primeiro Ministro da Aeronáutica
com vistas à economia de meios;
– Bases para a Indústria Aeronáutica de 1954 a 1964; praticamente todos os los Lacerda, mas o atirador errou e o tiro morreu, Café Filho era Vice-Presidente e ele durou 19 dias. Foi um Dom Quixotismo, um contencioso que ocorreu em Tramandaí:
e institucionalização da pesquisa visando meses nós entrávamos de prontidão. Ficou acertou no calcanhar do Lacerda. O major exerceu a função por algum tempo. Poste- sonho impossível. um helicóptero nosso se encontrava na-
ao desenvolvimento. impossível separar a Política Aeronáutica foi para cima do atirador e levou dois tiros, riormente, ele se licenciou por questão de Em 1959, houve o primeiro seques- quele local quando pousou um helicóptero
Vou começar pela base da implantação da Política Nacional. Foi quando houve vindo a falecer. saúde. No dia 10 de novembro, o Lott foi tro de avião no Brasil. Também contra o da Marinha. Os dois oficiais pilotos das
da indústria nacional de aviação. Em 1950, um sério problema na madrugada de 5 de Esse evento teve grande repercussão demitido do cargo de Ministro da Guerra, Presidente Juscelino. Um coronel da FAB aeronaves discutiram, sendo que o nosso
foi criado o ITA, no período de 1951 a 1952, agosto de 1954: o assassinato o Maj Av em todo o Brasil. Numerosos oficiais pois havia rumores de que o Juscelino sequestrou um Constellation da Aviação atirou no rotor do helicóptero da Marinha,
o CTA. Nós preparamos uma massa crítica Vaz. Temos que entender o que aconteceu da Aeronáutica se envolveram na busca não deveria assumir a Presidência. No dia Civil, que pousou em Aragarças (GO). danificando-o. Isso apressou a decisão do
durante 19 anos, e essa massa crítica nessa época. do assassino. Os militares conseguiram 11, como medida de segurança, ele não O movimento durou 19 horas. Em con- Presidente Castelo Branco.
transformou uma cidade sanatório, São Havia dentro da Força Aérea, naquela prender quem atirou. Aconteceu então passou o Ministério ao seu substituto legal sequência disso o Presidente Juscelino Em 1957, o Ministro da Aeronáutica
José dos Campos, em um pólo industrial, época, um núcleo altamente politizado que o famoso Inquérito do Galeão. O IPM do e determinou o bloqueio do apartamento quis separar a Aeronáutica, da Marinha, (Mello), tendo de viajar para o exterior,
no Brasil. O efeito de irradiação do ITA compartilhava as ideias do partido União Galeão durou do dia 19 de agosto até ao de Café Filho com carros de combate, não e comprou o Navio-Aeródromo. Com isso solicitou que o Ministro da Guerra Lott
permitiu, em 1969, criar a EMBRAER, sob Democrática Nacional (UDN), que tinha final de setembro. O inquérito concluiu permitindo a volta do mesmo. criou um contencioso entre as duas Forças. respondesse, também, pela Aeronáutica,
orientação do Brigadeiro Paulo Vitor. entre seus líderes o Brigadeiro Eduardo que a Guarda Pessoal do Presidente havia O ambiente no Brasil naquela época No final de 1964, o Presidente Castelo em lugar de deixar o oficial mais antigo
O segundo item foi a infraestrutura Gomes e o Jornalista Carlos Lacerda. Qua- planejado o crime. era conturbado. O Carlos Lacerda dizia: Branco deu uma solução para o proble- da FAB. Grande parte dos oficiais da
aeronáutica comum, civil e militar, em to- tro oficiais da Diretoria de Rotas – DR (Ten No dia 24 de agosto de 1954, Getúlio – Juscelino não pode se candidatar. E se ma, que se efetivou em 1965: quando Aeronáutica, não concordando com essa
das as nossas bases aéreas, com exceção Cel Av Gustavo Borges, Majores Lameirão, Vargas, que praticamente estava deposto, se candidatar, não pode ser eleito, e se for embarcada, operaria sob o comando do decisão, escreveu uma carta que foi en-
dos Afonsos, de Santa Cruz e de Canoas, Fontenelle e Vaz) davam escolta ao Jorna- resolveu se suicidar. Tivemos uma convul- eleito, não toma posse. Ele alegava que comandante do Navio-Aeródromo. Quando viada aos brigadeiros, informando que não
na época aquelas eram bases compartilha- lista Carlos Lacerda, quando dos comícios são muito grande no país. o eleito teria de ter a maioria dos votos, em terra, ficaria sob o comando da FAB. concordavam com o Lott como ministro.
das, com grande economia de meios. Nós para sua residência. Na madrugada do dia A partir do Inquérito do Galeão, a situa- porém a Constituição de 1946, que estava Em consequência disso dois ministros Em consequência, os assinantes foram
somente atravessamos as Tordesilhas a 5 de agosto de 1954, após um comício, o ção política no Brasil se complicou, tendo em vigor, rezava que seria eleito o mais pediram demissão. Foi a primeira quebra todos presos.
partir de 1960, com as bases de Brasília, Major Vaz estava acompanhando Carlos assumido o Vice-Presidente Café Filho. No votado. Depois da posse de Juscelino, em do Comando Único: a Marinha ficou com a Na realidade, a definição de Poder
Manaus, Santa Maria e Anápolis. Lacerda quando, na Rua Toneleros houve dia 11 de novembro de 1955, o General Lott 1956, no início do governo, alguns oficiais asa rotativa, e nós ficamos com a asa fixa. Aéreo foi estabelecida na primeira Doutrina
Temos a considerar que houve um um ataque ao jornalista e o assassinato – Ministro da Guerra – impediu o retorno da FAB fizeram um movimento contra ele e Há muito que isso estava para ser decidido, Básica, em 1958. Hoje estamos na quinta
período altamente conturbado no Brasil, do Maj Vaz. A ideia era assassinar o Car- do Presidente Café Filho. Quando Getúlio foram para Jacareacanga. Esse movimento porém tendo em vista o agravamento do Doutrina Básica, mas foi a primeira que
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Major Rubens Vaz que existiam na FAB, os estudos para Palestra proferida no Seminário
reequipamento etc. Ficou somente nas 76 anos do Ministério da Aeronáutica e sua influência
no contexto nacional, no Clube de Aeronáutica
intenções, pois esse plano não tinha um

CAMINHOS DA OPERACIONALIDADE
embasamento econômico-financeiro.
Nesse mesmo ano foi criado o Quadro
Feminino, cuja repercussão foi muito boa.
Em 1973, criamos a INFRAERO. Tive-

DA FORÇA AÉREA BRASILEIRA


mos também um problema sério em 1980,
foi o problema AMX. A FAB tinha feito uma
proposta para comprar mais aviões de
Caça, mas o Ministro Délio disse que o
Brig Ar Teomar Fonseca Quírico
Presidente gostaria de tentar fabricar uma
teoquirico@gmail.com
aeronave militar aqui no Brasil. O EMAER

A
então, a fim de atender a solicitação do Carlos Lacerda
Associação Brasileira de Pilotos de ainda voávamos de bermudas e sandálias a treinar aproximações-radar com um
após atentado
Ministro, fez um levantamento de quais Caça foi solicitada a tecer alguns e nossas unidades ainda não estavam equipamento PAR adquirido com essas
definiu o Poder Aéreo como a capacidade países poderiam se associar ao Brasil, para Nesse mesmo ano o Ministro Sócrates comentários no Seminário 76 Anos estruturadas como os esquadrões como aeronaves. Operacionalmente tivemos de
de controlar o espaço aéreo com propósito a construção de uma aeronave militar em decidiu determinar o planejamento para do Ministério da Aeronáutica e sua In- hoje conhecemos. nos adaptar às características do motor a
definido, compreendendo toda a capacida- parceria. O único país que tinha um projeto implantação de um sistema de radares que fluência no Contexto Nacional, organizado Quando fomos à guerra, em 1944- jato, tanto em termos de consumo quanto
de aeronáutica da nação. em andamento era a Itália. Com o intuito cobrisse todo o território nacional, o que pelo Clube de Aeronáutica, a respeito dos 1945, passamos a operar o P-47, aeronave em tempo de reação, características essas
A segunda Doutrina definiu o Poder de concretizar a nossa participação no deu origem ao CINDACTA. Caminhos da Operacionalidade que a Força de caça das mais modernas à época. completamente diferentes das aeronaves a
Aéreo Espacial, por influência do CTA. Na projeto, investimos na EMBRAER aproxi- Em 1993, a Aviação Embarcada teve Aérea trilhou ao longo dos seus anos de Saímos do avião de tela para o avião de pistão até então voadas. Da mesma forma,
realidade, nós falávamos no controle do es- madamente 400 milhões de dólares, 105 problemas com o P16. Procuramos um existência. alumínio. Dali em diante, passamos a voar tivemos de lidar com as complexidades de
paço aéreo, mas não tínhamos condições milhões de dólares na CELMA, 15 milhões substituto para ele, mas não conseguimos Naturalmente que esses caminhos de macacão de voo, armados, com capa- uma arena de combate ainda maior, em
de fazê-lo. Era uma ideia, um objetivo que de dólares na AEROMOTE, tudo do Fundo encontrar. Como consequência, desem- não são inerentes e exclusivos à Aviação cete de voo, máscara de oxigênio... Nossa virtude das novas velocidades de operação.
foi realizado a partir de 1970. Foi idealizado Aeronáutico. Com isso quase acabamos barcamos definitivamente do Navio-Aeró- de Caça. Entretanto entende-se que a Unidade operacional passou a ser estrutu- Em termos de ataque ao solo, entretanto,
pelo Ministro Márcio e concretizado pelo com o Fundo. dromo. experiência vivida por essa aviação pode rada como um Esquadrão, organizada com nosso sistema de pontaria ainda nos permi-
Ministro Araripe. Isto ocorreu quando A transferência de tecnologia é mais Em 1998 houve polêmica quanto à ser considerada como válida para todas as seções de Operações, Pessoal, Material tia manter apenas o mesmo ECP dos P-47,
compramos então, em 1973, os vetores um problema da capacidade do receptor criação do Ministério da Defesa. O EMFA as demais da Força, haja vista que todas e Informações. Nossa arena de combate em torno dos 100m de raio.
interceptadores, os aviões de Caça Mirage do que do transmissor. Nós pensávamos apresentou um projeto sem ouvir as For- evoluíram juntas e de modo uniforme ao ampliou-se pela maior velocidade de Na década de 70 ingressamos na
e, em 1976, os F5, e criamos o primeiro que podíamos participar desse projeto com ças Armadas. Com o passar do tempo, a longo do tempo. deslocamento e ataque, e significativo in- era supersônica. Observando os painéis
módulo do DACTA I, que compreendia a 50%, conseguimos 30%. Esse projeto teve estrutura do Ministério da Defesa foi sendo É nosso entendimento que a cremento no número de aviões engajados, dos aviões dessa época e do passado, a
área do coração (Brasília, Minas Gerais, o mérito de ser a primeira aeronave de alterada. operacionalidade da FAB está diretamente necessitando uma estreita coordenação grande novidade que salta aos olhos é o
São Paulo e Rio de Janeiro). combate construída pela EMBRAER. Em Concluindo, a Aeronáutica cumpriu ligada aos diversos tipos de aviões que entre os pilotos. escopo do radar de bordo. Ingressamos
Em 1980, o EMAER elaborou o pri- 1992, tivemos que privatizá-la. Nós não integralmente a Política prevista no docu- tivemos ao longo dos anos, fruto da Passada a guerra, nos anos 50/60, em uma era onde a defesa aérea passou a
meiro Plano Estratégico do Ministério da tínhamos mais condições econômico-fi- mento inicial da sua criação, o Decreto de evolução tecnológica ocorrida nesse recebemos nosso primeiro avião a jato, o ser plenamente exercida, com missões de
Aeronáutica, reunindo todos os projetos nanceiras de mantê-la. 20 de janeiro de 1941 n tempo. A tecnologia sempre nos puxou. Gloster Meteor, um salto significativo em interceptação apoiadas no sistema DACTA,
A mesma tecnologia que, ao evoluir, cria termos operacionais. A FAB foi a primeira adquirido junto com o F-103 Mirage, além
novas ameaças, exige modernização e a voar jato no Brasil – o espaço aéreo su- de mísseis de combate eletromagnéticos
prontidão para estarmos, na medida do perior era totalmente livre para nós. Nessa e infravermelhos – um salto tecnológico e
possível, no estado da arte da aviação de fase, de modo incipiente, começamos operacional sem precedentes vivido pela
combate.
P-47
E observando os aviões que guarne-
ceram a Aviação de Caça nesses 76 anos,
certamente temos uma visão bastante
precisa dos caminhos operacionais pelos
quais a Força Aérea Brasileira passou.
O Ministério da Aeronáutica, quando
foi criado em 1941, ainda possuía a ae-
Criação do Ministério da Aeronáutica –
ronave WACO CSO equipando algumas
Campos dos Afonsos, 20 de janeiro de 1941 unidades de combate. Nessa ocasião,
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do combatente sentado na nacele, mas, começaram, sem uma declaração formal
também, de todos os demais militares e do estado de guerra; o inimigo não é perfei-
civis direta ou indiretamente ligados ao em- tamente identificado, teorias esdrúxulas de
prego. Evolução técnica, aprofundamento soberania compartilhada, novas missões
de conhecimentos, busca permanente de para as forças armadas etc., tudo isso leva
aperfeiçoamento etc., exigiu, também, toda o combatente a um desafio muito maior,
uma evolução da estrutura organizacional que é o de ENTENDER a guerra na qual
da Força Aérea para fazer frente às novas eventualmente ele poderá estar envolvido.
exigências operacionais. Bases foram Quem é o inimigo? Onde está o inimigo? Às
desdobradas para o interior da Amazônia, vezes, e a mídia hoje nos mostra, ele pode
Gripen NG adaptando o dispositivo herdado da Se- estar ao nosso lado, em nosso território. KC-390
gunda Guerra Mundial. Organizações foram Quando fomos à guerra em 1944,
Força. Navegação Doppler e, posteriormen- reduziu-se para apenas um metro de raio, otimizadas e, não por acaso, estamos não o fizemos porque os militares quise- Integrar o Território Nacional com vista à cursos, enfim, eventualmente deixarmos
te, Navegação Inercial, diodos ao invés de sinalizando que tecnologia e treinamento vivenciando atualmente uma das maiores ram, mas, sim, porque a nação brasileira Defesa da Pátria. O combatente do século de lado uma atitude passiva de esperar
válvulas, reabastecimento em voo, guerra podem vir a reduzir ainda mais esse índice reestruturações da História da FAB, ade- exigiu que o país nela se envolvesse para XXI não pode ter dúvidas na hora de apertar que civis se matriculem em nossos cursos
eletrônica etc. complementaram essa fase a poucos centímetros. Nas missões ar-ar quando-nos à chamada Força Aérea 100. a defesa dos valores maiores que deviam o gatilho, não pode titubear ao guarnecer e adotar uma postura mais pró-ativa de
na FAB. Tudo isso nos levou a desenvolver passamos a enxergar além do horizonte: Fazendo um balanço de tudo e com ser defendidos e protegidos. O inimigo seu avião de combate para cumprir uma ir até eles, matriculando nossos oficiais
uma nova doutrina de defesa aérea, apri- chegamos a um estágio em que não mais base na experiência vivida de alguns anos estava perfeitamente identificado, a mis- missão. em cursos de mestrado e doutorado nas
morando também as missões ar-ar, com é necessário o visual com o inimigo para de labuta em esquadrão operacional, eu são perfeitamente definida, o campo de Nesse sentido, o grande desafio que se diversas universidades do país.
novas táticas de combate aéreo. lançar nossos armamentos. Nossa guerra arriscaria dizer que, com maior ou menor batalha completamente delimitado, os coloca no momento é preparar nosso com- Hoje a CAPES (Coordenação de Aper-
Libertamo-nos de uma doutrina cen- já não está mais limitada ao período entre dificuldade, principalmente na área logísti- valores nacionais em risco bem evidentes: batente para ENTENDER a guerra na qual ele feiçoamento de Pessoal de Nível Superior),
trada no ataque a objetivos terrestres, trazi- o nascer e o pôr do sol. Respiramos e ca, e com maior ou menor gap tecnológico Democracia, Soberania, Integridade do Pa- estará inserido. Preparar, não o combatente uma fundação do MEC, já considera o tema
da pelos combatentes da Itália e passamos sentimos modernidade! em relação às forças aéreas dos países trimônio Nacional, Progresso, Paz Social, em seu aspecto técnico, relativo à operação Defesa Nacional como assunto de interes-
a incorporar também o espaço aéreo em E olhando para um futuro breve, seja mais desenvolvidos, nós sempre estivemos entre outros – não havia qualquer dúvida de um sistema de armas (isso acontecerá se para trabalhos de mestrado e doutorado.
nossa visão operacional. Em termos de num painel de Gripen NG ou de um KC-390, preparados para FAZER a guerra. Baseado em relação ao que fazer. naturalmente, a experiência diz!), mas o É a oportunidade que temos de fazer a so-
resultados, porém, continuávamos como já percebemos o enorme desafio que se nessa experiência diria, inclusive, que tam- E hoje? Será que um conflito atual combatente humano, que pensa, avalia e ciedade entender melhor como pensamos
na época dos P-47, com um ECP de 100m nos apresenta para empregarmos esses bém no futuro estaremos preparados para, guarda alguma semelhança com aquele age, interagindo com a realidade. e agimos e, ato recíproco, é a chance de
de raio nas missões de ataque ao solo. vetores em toda a capacidade que seus tecnicamente falando, FAZER a guerra, não enfrentado nos idos de 1944? Seguramente Os valores da nação brasileira de hoje percebê-los da mesma forma. Certamente
No Esquadrão comentávamos de modo sistemas permitem. Não à toa que um importando muito para onde a tecnologia não. Em um mundo onde uma informação, são os mesmos do passado? Comparti- iremos descobrir que não somos os deten-
irreverente que o F-5 era apenas um P-47 piloto sueco, quando menciona o Gripen, nos levará. Com maior ou menor dificul- qualquer que seja ela, verdadeira ou falsa, lhamos os mesmos sentimentos, comun- tores exclusivos do sentimento de amor à
supersônico! não se refere ao avião Gripen, mas, sim, dade ou mesmo algum gap tecnológico está ao alcance de todos na tela de um gamos todos, civis e militares, do mesmo Pátria, e eles perceberão que dentro dos
A década de 80/90 trouxe outra evo- ao sistema Gripen, um indicador de que nós saberemos como nos adaptar e nos celular, e onde conceitos os mais estranhos propósito? Provavelmente sim; mas como quartéis pratica-se algo mais além do sim-
lução tecnológica com a incorporação do a FAB terá de lidar com algo muito maior preparar para FAZER a guerra. possíveis se espalham instantaneamente, saber? Creio que o grande desafio que se ples cumprimento de ordens, do ordinário,
AM-X, sua aviônica integrada e tanto mais: e complexo do que apenas voar o avião. Entretanto é importante dizer: o dilema o grande desafio que se coloca ao com- coloca no momento a todos nós, militares, marche!. Assim fazendo, todos entenderão,
glass-cockpit, microchips, materiais com- Retrospectivamente, esses foram al- que se coloca ao combatente do século XXI batente do século XXI é ter a certeza, no é abrir os muros dos nossos quartéis para por fim, que comungamos dos mesmos
postos e sistemas de guerra eletrônica, guns dos aviões de caça que empregamos vai além de estar preparado para FAZER momento em que for acionado, do cum- melhor ouvir o que a sociedade tem a dizer. valores e de um mesmo destino para este
ativos e passivos. Operacionalmente pro- e que balizaram os caminhos operacionais a guerra. O mundo mudou radicalmente primento da missão constitucional para a Precisamos interagir com maior efetividade nosso grande Brasil.
gredimos em muito nas missões ar-solo, que trilhamos. Naturalmente que tudo isso nesses últimos anos. Embates são trava- qual ele sempre se preparou, qual seja a com os diversos segmentos da sociedade ENTENDER a guerra do futuro, este o
passando de um ECP de 100m para apenas exigiu uma evolução individual, não apenas dos sem que se perceba muito bem como de Manter a Soberania do Espaço Aéreo e brasileira: promover estudos, palestras, nosso grande desafio! n
10m de raio.
Um pouco mais à frente, na década
2000/2010, novamente o imperativo da
tecnologia nos levou à modernização dos
AM-X e F-5, com a incorporação de novos
sistemas e desenvolvimento de novas
doutrinas. Equipamentos como FLIR, NVG,
OBOGS, HOTAS, HMD, Data link e arma-
mentos guiados permitiram novas possibi-
lidades operacionais, como combates BVR,
missões de pacote etc. Nosso ECP ar-solo Gloster Meteor F-8 AMX Mirage F-103 F-5

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O
primeiro objetivo de nossa política ções e o culto aos heróis trazem reflexos Trata-se tão somente de ouvi-los e de reunir
de defesa, portanto, deve ser a de à formulação da doutrina, ao moral e à novos conceitos e ideias, que permitam
fazer valer os interesses vitais da estrutura militares. As tradições históricas oxigenar antigos preceitos e identificar
nação contra qualquer ameaça forânea. e militares constituem, ainda, fatores de referenciais para a defesa do país, os quais
Não se pode precisar a priori a fronteira influência sobre a expressão militar. Essas estejam mais em sintonia com os desafios
entre os interesses vitais e os interesses tradições – que cumpre cultuar e manter dos novos tempos e consentâneos com a
estratégicos. Os dois devem ser defendidos – não devem, por outro lado, apresentar realidade nacional. Tais contribuições, de-
Manuel Cambeses Júnior
com ênfase e determinação. Essencial- obstáculos intransponíveis à evolução, ao pois de avaliadas, por setores competentes
Cel Av
mente os interesses estratégicos residem desenvolvimento e à tecnologia militares. do Ministério da Defesa, poderão ou não ser
mcambesesjr@gmail.com
na manutenção da paz no subcontinente No equilíbrio entre essas ideias, às vezes incorporadas no planejamento estratégico.
Membro emérito do Instituto de Geografia e História Militar do Brasil,
membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil, sul-americano e nas regiões que o confor- opostas, está o acerto que revigora a ex- Indubitavelmente, para a consecução
pesquisador associado do Centro de Estudos mam e o rodeiam, bem como os espaços pressão militar. dessa tarefa, mister se faz uma conjunção
e Pesquisas de História Militar do Exército,
e conselheiro do Instituto Histórico-Cultural da Aeronáutica. essenciais para a atividade econômica e Assumem também papel de destaque de esforços. Nesse sentido, somam-se,
para o livre comércio (Setentrião Oriental, os aspectos qualitativos dos recursos num processo sinérgico, o imprescindível
Costão Andino, Cone Sul e Atlântico Sul). humanos; o apoio em maior ou menor apoio do presidente da República, a com-
Fora desse âmbito, o Brasil tem inte- grau da opinião pública nacional e mesmo preensão do Congresso Nacional, a efetiva
resses que correspondem às responsabili- internacional; a coesão interna; e a vontade colaboração do Ministério da Defesa e de
dades assumidas em fóruns internacionais nacional. E, nesse contexto, ressalta a fun- outras áreas do governo, a confiança e o
e organismos multilaterais e ao seu status damental importância do povo – expressão respaldo dos comandantes das Forças e a
na ordem mundial. Este é conformado por máxima das forças vivas da nação – como ativa participação de todas as forças vivas

FORÇAS ARMADAS PREPARADAS uma combinação de fatores históricos, po-


líticos, estratégicos, militares, econômicos,
científicos, tecnológicos e culturais.
verdadeiro esteio das Forças Armadas,
quando a elas se une, nelas se apoia e com
elas se confunde.
da nação.
Temos plena consciência de que não
se pode justificar a hipertrofia das Forças

SÃO O ESTEIO
Sem uma defesa adequada, a segu- Nesse sentido, é imperioso o esforço Armadas em prejuízo do processo de
rança nacional e a perenidade desses inte- para conservar integrados o homem militar desenvolvimento da nação, mas não se
resses estarão seriamente comprometidas e o homem civil, sem discriminações de pode admitir, por ilógico e temerário, que
e, consequentemente, não poderão ser qualquer natureza, sem privilégios, embora a expressão militar do poder nacional seja

DO ESTADO DEMOCRÁTICO DE DIREITO asseguradas. Urge que nossas Forças Ar-


madas sejam preparadas, suficientemente
poderosas e aptas ao emprego imediato,
capazes de desencorajar qualquer intenção
respeitadas suas diversas, mas naturais,
destinações. O papel que caberá às Forças
Armadas brasileiras, nas próximas déca-
das, é multifacetado e deve estar calcado
colocada em plano inferior – vivenciando
processo gradual de sucateamento e de des-
mantelamento devido à crônica insuficiência
de recursos financeiros –, na falsa con-
de agressão militar ao país, pela capacidade em amplo debate, cujo resultado deverá ser cepção de que a prioridade absoluta deve
de revide que representam. Essa estratégia tão satisfatório quanto maior for o desen- ser dada ao desenvolvimento. Não existem
é enfatizada para evitar a guerra e exige volvimento da sociedade. nações desarmadas, porque nenhuma delas
como corolário o fortalecimento da ex- O esboço de qualquer arranjo de defe- seria capaz de desfazer-se de sua expressão
O Brasil é um país guiado por um sentimento de paz. pressão militar do poder nacional, além de sa, em um Estado democrático, para que militar para merecer, por esse ato ingênuo,
Não abriga qualquer ambição territorial, impor um excelente grau de aprestamento possa contar com recursos, deve estar o respeito e a simpatia de todos os países.
não tem litígios em suas fronteiras nem tampouco inimigos das Forças Armadas, desde o tempo de paz, respaldado por uma base de legitimidade. Não há fórmula miraculosa capaz de manter
declarados. Toda ação por ele empreendida por meio da realização de treinamentos, Entendemos que, para a consecução a paz sem ameaças de conflitos internos ou
exercícios operacionais dentro de cada desses objetivos, devem ser consultadas de guerra entre os povos.
nas esferas diplomática e militar, busca, sistematicamente,
Força, não sendo excluída a necessidade personalidades representativas de dife- Torna-se imperativo e oportuno con-
a manutenção da paz.
de planejamento e do treinamento de ope- rentes espectros de opinião: ministros de ferir mais prestígio às Forças Armadas
Tem, porém, interesses a defender, responsabilidades rações conjuntas e combinadas no âmbito Estado, acadêmicos, analistas políticos, e racionalizar, modernizar e fortalecer o
a assumir e um papel a desempenhar, das Forças Armadas. economistas, diplomatas, militares, jorna- aparato defensivo brasileiro. Lembremo-
no tocante à segurança e defesa, em nível O estudo da História, particularmente listas, todos com reconhecida competência -nos das sábias palavras do insigne Barão
hemisférico e mundial, em face de sua estatura da militar de uma nação, conduz a conclu- na área de defesa e alguns críticos do atual do Rio Branco – o Chanceler da Paz – que,
político-estratégica no concerto das nações. sões e realça aspectos capazes de influir sistema de defesa nacional. habitualmente, enfatizava a imperiosa ne-
na expressão militar de seu poder nacional. Evidentemente que não se trata de cessidade de possuirmos um bom sistema
O estudo das campanhas militares, com deixar em mãos destes pensadores a for- de armas para respaldar as nossas propo-
seus erros e acertos, o respeito às tradi- mulação de políticas e estratégias militares. sições no concerto das nações n
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para um, pode não ser a mesma para cativar o bom relacionamento com todos

A URGÊNCIA DA NOTÍCIA SUPERA A


redor da verdade. Então, admite que a
transformação de uma opinião individual outra pessoa e, por isso, prefere substituir os públicos. O mediador também assevera
numa opinião social, na opinião, foi devido o termo verdade por justificável, uma vez que a lesão sobre a Imagem entra em vigor
à palavra pública na Antiguidade e na Idade que é perfeitamente compreensível que quando a notícia ruim aparece no jornal.

VERDADE?
Bruno Pedra
Média, enquanto depende da imprensa nos algo seja ou não justificável para alguém ou Elizabeth Brandão, habilitada nas áreas
Ten Cel Av
dias de hoje. Por fim, explica que o jornal para uma cultura. Enfim, Habermas destina de relações públicas e sociologia política,
pedra73@gmail.com
funciona como um aglutinador de opiniões o discurso verdadeiro a fundamentar as resume que a Imagem da organização é
dispersas, um único feixe de todas as von- pretensões de validade das opiniões e o consequência de um acúmulo de informa-
tades, que ao mesmo tempo molda outras associa ao entendimento mútuo – iguais ções, percepções e sensações diversas,
opiniões ao longo do caminho. Diz o autor oportunidades de argumentar durante a não somente causada por mensagens
que aí nasce o público, lado a lado com o busca cooperativa pela verdade, ainda que visuais. À Imagem é atribuído o valor de
seu publicista. se constate um dissenso ao final do debate. ativo patrimonial da instituição e a função
DISCURSO O filósofo alemão explica que o entendi- de representar a organização junto aos
Entre os anos de 1739 e 1740, David mento mútuo é um diálogo com a função de seus públicos e à opinião pública. Daí a
Hume recolocou o homem no centro da interação social, cuja finalidade é reproduzir importância da alta administração das
argumentação com o Tratado da Natureza a vida comum e, neste ponto, ilumina a organizações estar comprometida com a
Humana, quando expôs que a verdade é relação complementar da sua tese com a comunicação social.
inquestionável porque ela carrega em teoria psicológica de Kohlberg (1973 apud Unindo os principais pontos, a maiêutica
si própria evidência. O pensador separa HABERMAS 2013, p. 55): os indivíduos traçou o caminho até a Imagem (ver gráfico abaixo).
a verdade absoluta de outra relativa à preferem o estádio mais alto de reflexão Por mais insólito que possa parecer,
conduta moral, ao defender que ela é de moral que dominam; (...) ‘objetivamente’ a FAB não é a única responsável pela
fácil aceitação e seu vínculo com a moral melhor ou mais adequado de acordo com construção da própria Imagem, porque a
desperta paixões, enquanto a razão não determinados critérios morais. opinião pública possui autonomia nesse
exerce tal poder. Mais à frente, Karl Jaspers IMAGEM INSTITUCIONAL domínio, enquanto interfere na escolha

I
nteressante, como alguns estudos com o próprio fato – matéria-prima da no- resultado de um encontro de fluxos sociais: ensina que o adversário da verdade é o O escritor Mário Rosa, especialista em das pessoas. Paralelamente, cenários
sobre a verdade encontram paridade tícia que urge. De acordo com a jornalista as conversas do dia a dia. Tarde (2005) jus- desejo de poder, ou seja, que o anseio pela Imagem, orienta que num mundo cheio de dirigidos pela sustentabilidade apontam
nos atuais tempos de revelações e Sally Stewart, julgar a notícia está entre tifica com o argumento de que há uma pai- verdade conduz a revelar enquanto o desejo opções e escolhas muito frequentes e rápi- para a linguagem comum da coerência,
indignação. Como seria o Brasil, com os as primeiras habilidades que o jornalista xão elementar nos homens que os dirige de poder nos impele a ocultar. Assim, se das a serem feitas, tudo o que não desperta além da intensa cobrança social. Nesse
três poderes focados nos respectivos desenvolve, e eles são os intérpretes da no sentido do conhecimento mútuo entre o desejo de poder fosse abolido, deixaria confiança é descartado. O comunicador contexto, poderá não ser suficiente for-
fins aos quais se destinam? É certo que informação, que será noticiada rápido – não semelhantes, a fim de definirem a cons- de existir a tendência a esconder. Jaspers explica que a reputação é uma imagem necer informações coerentes e oportunas
a resposta pertence ao futuro, mas na importa como: essa é a regra. Nessa seara, ciência da espécie. Em outras palavras, considera que as pessoas não mais pre- fundada numa certeza positiva e que serve ou justificar aquelas que não possam ser
Força Aérea Brasileira (FAB) esse tempo o ato de mentir, distorcer e mascarar apa- a notícia oferta ao público a justificativa ferem o mistério e o silêncio à verdade como ponte entre a possibilidade e a es- repassadas, pois isto deverá acontecer em
já iniciou. A FAB vem realizando profunda rece no topo da lista dos erros fatais que ou a não justificativa sobre as coisas que e à transparência, porque a veracidade colha. Por isso, diz-se que Sem reputação, todos os lugares e para todos os públicos,
reestruturação organizacional voltada para podem ser cometidos por um porta-voz, acontecem e cada vez mais os bastidores confunde-se com a dignidade humana e a não há confiança. E sem confiança, não há ao mesmo tempo. Assim, imagina-se que
a simplificação dos processos e para a porque tão logo o repórter descubra o interessam. Por isso, o jornal interessa as sua falta faz envergonhar. Sua obra traduz escolha. (ROSA, 2006, p. 119). a instituição, no momento em que renova
maior efetividade dos seus recursos. Por disfarce, providenciará a justiça. A teórica pessoas e molda opiniões. Na lógica tar- a verdade como a condição que se atinge O jornalista Roberto Castro Neves os votos com a competência e cria novos
conseguinte, propomos a leitura da comu- da comunicação afirma que os jornalistas deana, a nova opinião é vocacionada para a exclusivamente em conjunto e atrela o esclarece que uma organização com boa caminhos, absorva novas propostas e
nicação social em novos cenários para o são os guardiões da verdade e que a propagação e para a publicidade – a opinião conceito àquilo que é de todos, ou seja, Imagem é aquela que mantém sua estrutura importe-se com as condições de pu-
emprego do poder aeroespacial: comece- profissão implica servir à sociedade e de um seria compartilhada por muitos, o ao que é público ou da coletividade. Outro de comunicação ancorada na credibilidade blicidade aqui revisadas. Afinal, aquilo
mos com o jornalismo e a opinião pública, expor as coisas erradas. Geralmente, as que reforçaria a opinião já existente, e a faz filósofo, Foucault (2014, p. 43), propõe de ofertar bons produtos e serviços; tem que fazemos e informamos com ética
para relembrarmos o poder da coletividade; principais notícias estão associadas às predominar na multidão. Outra importante que haja uma verdade ideal como lei do processos eficientes e bem-sucedidos; é se transforma na Imagem como somos
revisitemos a estrutura do discurso, para grandes montas de dinheiro, ao inusitado, colocação do cientista social é que ele discurso e uma racionalidade imanente bom lugar para trabalhar e agrega valor percebidos e isso permite a comunicação
debatermos alguns conceitos sobre a ver- às pessoas famosas, às inovações tecno- atribui à conversão a propriedade de criar como princípio de seu desenvolvimento. à sociedade. De acordo com Neves, a integrada e ubíqua n
dade e, finalmente, estruturemos a Imagem lógicas, à cura de doenças e aos desastres. reputações e de conduzir a sociedade pela O francês explica que houve um deslo- organização deve ir além dos próprios ne-
O estudo completo pode ser lido no artigo
institucional. Afinal, somos aquilo que OPINIÃO PÚBLICA via coletiva; tão utilmente quanto um maior camento do eixo da verdade no discurso, gócios, ser ética, respeitar leis, agir com do CCEM: Comunicação de assuntos públicos
fazemos, informamos e, também, como O termo nasce com David Hume, ao número de pessoas usufruírem dela. O antes ancorada no ato de anunciação do responsabilidade social, transparência e na Força Aérea Brasileira: do jornalista à imagem.

somos percebidos. associar a opinião comum com a capaci- pesquisador afirma que as opiniões expe- pronunciante – aquele que profetizava o
JORNALISMO dade da imaginação humana (HUME, 2012, rimentam múltiplas interações sociais até futuro e que desejava exercer o poder, para
A urgência da notícia supera a neces- p. 59). Já o processo do desenvolvimento que possam oferecer uma imagem clara do as novas formas de verdade, hoje anexas à
sidade da verdade, mas não a virtude de da opinião pública chega com a explicação mundo para os homens – ele subordina a vontade de saber. Richard Rorty, em Truth
ser aquilo que o repórter deseja e precisa do sociólogo e criminalista francês Gabriel verdade à opinião e percebe que o vínculo and Progress (RORTY, 1998), transforma
noticiar. Nesse ponto, a verdade se funde Tarde de que a invenção da opinião foi o social se dá em torno da última e não ao a abordagem ao explicar que a verdade Fonte: autor (2015)

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QUANDO A RELIGIÃO INVADE O ESPAÇO PÚBLICO

Fonte: O Globo
Marcio Tavares D’Amaral imensa de todas as coisas do mundo? E um só Deus. E Javé conduz seu povo, o que da fé, que não pergunta, fizeram, juntos, sociedade em espaço público, que a razão E a ciência reage de modo curioso: ataca
Filósofo foi mesmo. Reconhecemos nela o corpo escolheu, pelo turbilhão da História, direto uma terceira coisa: a cultura cristã. Deus, habita, e esfera privada, onde moram a Deus. De repente, alguns cientistas come-
inteiro da filosofia que veio depois. A razão à sua frente. O Deus desconhecido, o Sem o Recluso, entrou na História. E a razão religião e a fé. E Deus. Foi um acordo. çaram a percorrer o mundo numa vigorosa
De repente, alguns cientistas unificadora entrou em cena por meio desse Nome. Mas sempre lá. Não há pergunta pensou: eis finalmente o Ser. O Ser ele Houve lei para selá-lo. Um novo tempo se cruzada ateísta. E puseram assim Deus no
começaram a percorrer o mundo fragmento de fala que Aristóteles guardou aqui: há adesão. A fé é a liga do primeiro mesmo. Não a água, não o fogo. Deus, o abriu ali para não destruir a tensíssima liga centro da cena. Deus mesmo. Aquele que,
numa vigorosa cruzada ateísta para nós. É a água. A frase se diz em torno povo de Deus. As religiões monoteístas que é absolutamente. Tudo o mais decorre da manhã do encontro dos descendentes para eles, não há. Nem é tanto a religião.
do verbo ser. A pergunta deve ter sido essa: estão todas nela. Dele. Ele é o Criador. de Tales e os de Abraão. Mais ou menos É Deus. Essa luta é inteligente e torturada.

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o século VI a.C., Tales, na sua o que é? A filosofia está toda nela. Entre razão e fé não havia qualquer Por muitíssimo tempo, uns 13 séculos, funcionou. Porque os cientistas estão acostumados
cidade de Mileto, na Ásia Menor, No século XIX a.C. vivia Abraão na convergência. Gregos e judeus não tinham a unidade tensa de fé e razão teve por forma Hoje, vamos sendo arrastados por um à objetividade das coisas que são. Acuar
olhou a profusão de elementos à cidade de Ur na Caldeia. E um dia Deus o de início nada para se dizer. Mas um dia, a teologia. Esse foi um território de acordo. turbilhão que tenta romper esse equilíbrio. num canto do universo, e destruí-la, uma
sua frente e disse: – É a água!. Assim, visitou: – Sai da tua terra e vai para uma que no século I, Jesus já misteriosamente A paz possível nessa nova cultura. Depois A religião invadiu com violência o espaço coisa que não é, chame-se mesmo Deus,
sem mais: é a água. O que é a água? Se- te mostrarei, onde correm leite e mel, e tua nascido e extraordinariamente morto e acabou. O Renascimento dos séculos XIV, público, quer roubar a verdade à filosofia não está no DNA da ciência. E quase po-
gundo Aristóteles, no século IV a.C., esta descendência será mais numerosa do que ressuscitado, essas duas culturas tão XV e XVI focou no Homem e na Natureza. O e à ciência. E, de verdade em punho, mas demos ver, na contraluz de um mundo que
foi a resposta de Tales à pergunta sobre as estrelas do céu e as areias das praias do estranhas uma à essência da outra, toca- humanismo e o naturalismo renascentistas sem a razão mediadora, está avassalando vai ensombrecendo, a pororoca do remoto
qual dos quatro elementos teria a força mar. Abraão há de ter tremido. Abandonar ram-se, estranharam, desejaram, repeliram não dispensaram Deus. Mas começaram a o mundo. Do Ocidente ao Oriente. Desde século retornando no negativo. Para os filhos
de unificar toda a imensidão do mundo. tudo para seguir esse deus improvável, que – e juntaram. A razão grega e a fé judaica não ter olhos que enxergassem sua enorme negar a teoria da evolução porque contra- da razão e da fé que, mal ou bem, ainda
Tales, fincado na terra de Mileto, viu a água nem se apresentava como o rei dos deuses, vieram fazer casa no Ocidente latino. Deve distância. Um círculo cujo centro está em ria o idílio de Adão e Eva, até decapitar, e vamos sendo, é uma excitante batalha. Não
do mar fazer-se ar e subir na direção do mas como o único Deus? Mas foi. A terra ter sido um tremendo encontro das águas. toda parte e a circunferência em lugar mostrar nas redes, os agentes do grande é o juízo final. Pode ser um novo começo.
fogo do céu. E disse: – É a água!. Hegel, prometida era Canaã, a Palestina dos he- Tantas diferenças! Nós, ocidentais, somos nenhum, diziam. Era demais para a razão. satã. Quando a religião invade o espaço Vamos esperar com paciência. A essa altura,
no século XIX, viu aí a primeira forma da breus, descendentes de Abraão. Um Deus, filhos dessa pororoca. O rio sereno da ra- No século XVII, início da época moderna, público, e a ciência se vê ameaçada, um quando a História vai sendo adiada, paciência
pergunta filosófica: o que rege a dispersão um povo. O povo dá testemunho de que há zão, que sabe, e a torrente convulsionada fez-se um novo equilíbrio. Dividiu-se a novo mundo começa. E não é bonito. é o que não nos deve faltar n
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A NOÇÃO DOS VALORES EM UMA SOCIEDADE DESORGANIZADA
Alfredo Severo Luzardo
Cel Av
luzardo@matrix.com.br

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ramsci escreveu mais de mil páginas justa, estamos nos matando, cometendo um não os dos chefes de quadrilha, lobistas ou
filosofando sobre o neomarxismo e massacre social. Sofremos um processo de dos interesses partidários. Empreguismo
a importância da deformação das eliminação dos valores, tornando-nos uma de afilhados políticos, em todas as insti-
mentes de um povo para torná-lo vulnerável Nação fragilizada e sem vontade própria para tuições publicas, é o mesmo que abolir a
e, com isso, transformá-lo em uma nação conduzir nossos destinos. Uma Nação enfra- meritocracia e minar essas instituições,
comunista. Era uma coisa surrealista para quecida é uma presa fácil para a implantação enfraquecendo-as e tornando-as facilmente
a época. Sua intenção maior estava em de um regime totalitário. sabotadas e ineficientes.
se contrapor a Stalin e Mao, que, para Gostaria que refletíssemos sobre os Que seja feita uma Reforma Política
consolidar o comunismo na Rússia e na acontecimentos atuais. Qual o porquê da urgente e decente. Criem-se regras básicas
China, usaram a força bruta, aterrorizando existência desse nível de corrupção? Ora, para serem candidatos ao parlamento. Valo-
e matando mais de 100 milhões de pessoas. essa resposta é fácil: porque muitos dos rize a Ficha Limpa, o valor intelectual e cultu-
Ele queria uma transição menos traumática que possuem condições de liderança são ral. Acabem com a suplência dos Senadores.
e mais efetiva. desonestos, achacam ou são achacados Promovam leis abolindo as excrescências
Para implantar sua intenção em uma pelos gestores do poder público. Uma da legislação atual, como foro privilegiado e
nação era necessário remodelar sua cultura Justiça lenta e parcial é o principal fator imunidade parlamentar. Leis contundentes,
por meio da arte, da música, de seus hábitos, dessa anarquia desenfreada. Vinte anos em que o desvio de dinheiro público deveria
suas crenças, e incentivar a libertinagem para dar solução a um crime comprovado é ser considerado crime hediondo, pois roubar
através de livros e filmes pornográficos, sinônimo de impunidade. Se a transgressão recursos destinados à Saúde Pública é o
com distorções éticas e morais e, com isso, da lei for por um poderoso $$$, este pode- mesmo que assassinato. Desviar verbas
enfraquecendo-a, tirando-lhe a dignidade e rá nunca ser julgado. Morre antes... São da Educação é promover futuros bandidos,
a vontade própria. Como instrumento de infindáveis recursos em cima de recursos, aumentando a criminalidade. Manter a atual
trabalho usaria simplesmente os meios ego impera, são incentivados e valorizados transformadores das cabeças moldáveis generalizada. A desestruturação e desmora- prorrogando ou mantendo essa impunidade. Lei da Maioridade Penal em 18 anos é um
de comunicação de massa, que podem para garantir um conceito libertador, com dos jovens; jornalistas e artistas, divulga- lização dos poderes constituídos tem sido Até a Presidente do STF disse, em seu dis- enorme incentivo a menores serem envolvi-
controlar a cultura de um povo, moldando o propósito da difusão de uma democra- dores das novas ideias. Com uma grande uma tônica. É um prende e desprende que curso de posse, que havia processos com dos pelo crime, na certeza dessa impunidade
o pensamento das futuras gerações. Isso cia liberal exacerbada em que só existem penetração na população, e distorcendo ninguém entende mais. Ninguém sabe quem infindáveis recursos só naquele tribunal! legal. Hoje todos os maiores de 12 anos têm
demandaria tempo, mas a consolidação direitos, mas não se fala em deveres. È um realidades juntamente com os autodeno- manda. Um deplorável silêncio dos bons faz Processo com mais de trinta recursos no consciência do certo e do errado e devem
seria perene. Era preciso infiltrar comunistas processo que Incentiva uma luta de classes minados intelectuais elevados a pensadores crescer essa anarquia perniciosa, corrupta STF! O Judiciário mostra-se fragilizado em responder pelos seus atos.
marxistas leninistas nessas áreas sensíveis. sociais, colocando subliminarmente como introdutores das novas filosofias socialistas; e assassina. sua ética, imparcialidade e morosidade. O estímulo a essa desordem é promo-
Não para destruí-las, mas para transformá- pontos chaves as disputas patronais, o ra- e os pregadores religiosos, que se aprovei- O país está sendo conduzido para uma Permite que a corrupção se infiltre e dá aos vida não só pela imprensa infiltrada, como,
-las através de mudanças comportamentais. cismo, as opções sexuais, a desvalorização tam dos menos favorecidos para induzi-los trágica guerra civil, iniciada pela criminalida- criminosos a certeza da impunidade. Isso é também, pelo ensino de baixa qualidade,
Para colocar em prática seus pensamentos, familiar e religiosa. A família seria o núcleo à posse de direitos igualitários econômicos. de dominante. Os poderes constituídos per- determinante pelo fracasso das instituições. ignorando os valores básicos da educação,
seria necessário colocar na linha de frente mais abalado e alterado em seus valores. Todos são recrutados para essa missão dem sua força de comando e se imiscuem Isso desencadeou um processo criminoso, incutindo na nossa juventude que é válido
os grandes formadores de opinião. São eles Gramsci não queria uma revolução armada. por comunistas marxistas leninistas natos. num promíscuo troca-troca de favores para desordeiro e abrangente no âmbito de uma tirar proveito de tudo, independente das
os propagadores da fé cristã por intermédio Queria, e conseguiu em vários países como Priorizam somente os direitos sem cobrar encobrir seus atos de corrupção. Prevale- sociedade que se diz organizada. Quando suas consequências. Uma inversão de
das igrejas de militantes então chamadas no Brasil, uma mudança comportamental em os deveres de cidadão, induzindo-os a um cem os direitos humanos dos desumanos, um juiz corrupto é punido, é punido com uma valores estimulando que tudo é permitido.
progressistas, onde conseguem incutir em longo prazo, para que a sua revolução acon- caminho ilusório de liberdade, de igualdade dos intocáveis. Na atual conjuntura nem bela aposentadoria! Institucionalizou-se a Com isso os princípios éticos e morais se
seus fiéis uma nova ordem religiosa; as tecesse sem que fosse percebida pelo povo. e, sobretudo, de direitos. Pilatos saberia como lavar suas mãos. Muita corrupção. Não precisa se dizer mais nada. esvaem e a família, que é o núcleo básico
instituições de ensino, principalmente as Sua ideologia seria implantada por meio da Meditemos um pouco sobre os atuais sujeira e pouco sabão. Até o Judiciário está A exceção de um momento incomum: de uma sociedade organizada, se esfacela.
universidades, pelo incentivo da liberdade reestruturação da cultura original, em que acontecimentos no nosso país. Deixamos esquecido do seu papel de ser o pilar básico temos de aplaudir a Lava-Jato, e rezar para Vamos abrir nossos olhos, combater
total e da desobediência com um chama- os valores morais e éticos voltados para de lado a nossa dignidade ao aceitarmos de uma democracia! que Deus não permita que outros tipos de os malfeitos e começar a trabalhar voltados
mento democrático, onde o que vale é uma a manutenção da dignidade da sociedade a conivência, por indiferença com as dis- Esquecemos que corrupção com justiceiros se intrometam. para um bem estar social, sem interesses,
mudança anárquica de comportamento ético seriam alterados ou destruídos. Isso fragiliza torções sociais, morais e éticas que nos desvio de recursos dos órgãos públicos é Olhem para o nosso Legislativo. Pro- sem corrupção, com justiça e com alto nível
e moral; e a imprensa, onde os padrões o povo, tira a sua vontade, a sua dignidade, e atingem. Falta um rumo político; falta um o mesmo que assassinato cruel. Suas con- mulgam leis, supostamente sociais, pressio- de ética, moral e dignidade. Não vamos
sociais podem ser massificados através de o confunde, tornando-o uma presa fácil para Executivo ético e transparente; falta um sequências nefastas são inimagináveis para nados apenas por interesses sociais. Balela deixar que os pensamentos de Gramsci
uma propaganda dirigida, uma constante la- a implantação do marxismo-leninismo sem Legislativo voltado para soluções por meio uma sociedade. Perdemos o nível mínimo e hipocrisia. Acreditaria se os congressistas dominem a nossa Pátria. Está na hora de
vagem cerebral para deturpar valores sociais maiores problemas. de leis claras, simples e justas; e falta um educacional padrão. Com a Saúde Pública fossem eleitos pelos seus méritos e que um BASTA nessa anarquia.
já estabelecidos. Os chamados intelectuais, No Brasil, sua tropa de choque já está Judiciário imparcial, eficiente e eficaz. Ob- esfacelada e com uma Previdência Social fa- todos fossem fichas limpas, e que os in- Lembrem-se, o mau se expande quan-
boêmios, filósofos de botequim, em quem o formada. São professores, educadores servem que a atual ordem do dia é a anarquia lida, tudo por corrupção, e sem uma justiça teresses principais fossem os da Pátria e do os bons se omitem n
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Maj Brig Ar Luiz Fernando Barbedo
luiz.barbedo@gmail.com
REMINISCÊNCIAS DE UM OFICIAL AVIADOR
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emana Santa de 1966. Na quinta-fei- Meu avião havia realizado revisão geral Até Pirassununga, com carta WAC Resende, o relevo às margens da estrada o arrependimento não tardou. Na tentativa Tinha memorizado de outras viagens o
ra, voava de Piraí para Nova Iguaçu, recentemente, no Parque de Lagoa Santa, no colo e auxiliado por alguns auxílios à mudou, obrigando a execução de curvas à de driblar as nuvens, sempre visual, subi e procedimento para pouso na pista 14, hoje
a 11.500 pés, com destino ao Ae- e estava com os instrumentos em ótimas navegação, como Três Lagoas e Bauru, direita ou à esquerda, enquanto me aproxi- atingi 11.500 pés. Cheguei ao topo. Parecia pista 15, do Galeão. Não havia o novo Aero-
roporto Santos-Dumont. Até aí tudo havia condições, principalmente o horizonte foi um voo muito tranquilo, mantendo nível mava da Serra das Araras, que só conhecia um colchão branco. Não se via nada sobre porto Internacional nem a pista 10. O auxílio
corrido bem. As condições atmosféricas, artificial e o giro direcional, básicos para aproximado de 5.500 pés. Consultei a Sala em viagem de carro. Naquele tempo a ele, nem morros, nem nuvens, e já perto básico para pouso era o NDB de Oscar,
no entanto, haviam se degradado bastante. voos por instrumentos, mas não possuía de Tráfego da AFA e tomei conhecimento de estrada era de mão dupla, e passava pelo do pôr-do-sol, fiquei deslumbrado com a 400lhz. A órbita era executada pela direita
Voava sobre um colchão de nuvens bem transreceptor em VHF, o que impedia que, de Pirassununga para o Rio, era hábito Monumento Rodoviário, que permanece visão do céu. O sol já beirava o horizonte. nas proas 145 na perna de aproximação
definido, dito topo absoluto. Fiquei muito qualquer aprovação de plano de voo IFR planejar o voo fora da aerovia, numa rota di- no mesmo lugar. Já tinha ouvido sobre Sintonizei a frequência da Torre do e 325 na de afastamento. A aproximação
preocupado, e pensando em como descer (Instrument Flight Rules). A autonomia reta no nível 11.500 pés, com plano IFR. Era acidentes aéreos de voos visuais próximos Rio no comandinho e ouvi instruções aos final iniciava no bloqueio a 1.500 pés.
apoiado num plano de voo visual, voando de três horas e meia estava aumentada o nível mínimo considerando o afastamento ao Monumento. outros aviões, mostrando claramente que Caso o radar de aproximação estivesse
solo na nacele de um NA T-6, com muitas em mais uma hora e meia, devido ao belly vertical da Serra da Mantiqueira, cujo ponto O tempo fechou. A serra estava com o campo operava visual. Chamei a Torre na operando, os pousos eram efetuados sob
limitações, sem os meios de comunicação tank que a manutenção havia adaptado ao mais alto é de quase 2.800 metros. muita nebulosidade e optei por sintonizar o única frequência de transmissão do T-6, controle radar. Quando o radar não estava
adequados para voar instrumentos. O que ventre do meu avião. Sem os meios para apresentar plano NDB Piraí. A Carta de navegação indicava 5.680 em HF, mas não recebi resposta. operando, os aviões permaneciam em
me fez chegar àquela situação? Campo Grande amanheceu com visi- IFR, optei por voar até ao Vale do Rio uma reta de Piraí para o NDB de Nova Igua- Estava longe ainda e mudei a frequência espera sobre o auxilio básico descendo em
Servia em Campo Grande e, na se- bilidade prejudicada pela nevoa úmida e Paraíba do Sul e manter voo visual até çu. Eu me mantinha visual, é claro, em tor- para Torre Afonsos, velha conhecida, mas órbita, sendo autorizados a abandonar seus
mana anterior, consultei o Comandante o aeródromo operava em condições IFR. ao Rio de Janeiro. Estabeleci inicialmente no de 4.500 pés. Confiava nas informações nada de resposta. níveis quando o avião no nível mais abaixo
do Destacamento de Base Aérea sobre a Para voos visuais o campo abriu às 11:00 passar por Campinas, dali para São José de que o Santos-Dumont operava visual. O nível de estresse estava alto e fui tivesse acusado tê-lo abandonado. Era a
possibilidade de passar o fim de semana local, 12:00 do Rio de Janeiro. Não está- dos Campos e voar sobre a Via Dutra. Uma Após o bloqueio de Piraí e na proa de ficando cada vez mais preocupado. Como regra. Naquele ano só havia dois radares
prolongado com a família no Rio de Janeiro. vamos no horário de verão, e considerei vez que os aeroportos da área RJ estavam Nova Iguaçu, a nebulosidade ficou mais descer sem falar com ninguém. Meu em operação no Brasil, que eu conhecia, no
Sem questionamento, ele autorizou usar chegar ao Rio pouco antes do pôr-do-sol. operando em condições visuais, chegaria densa de tal forma que somente me per- destino era o Santos-Dumont e estava Rio e em Congonhas (São Paulo). Guaru-
o T-6 para realizar a viagem. De Campo Os QAM’s (Metar) da área Rio estavam ao Santos-Dumont aproximadamente 15 mitiu visualizar mais perto uma montanha determinado a chegar. E o tempo não pas- lhos ainda não existia. Nas Bases de Caça,
Grande para o Rio de Janeiro, o tempo de bons, e todos os aeródromos operavam em minutos antes do pôr-do-sol. exatamente na minha proa, semelhante a sava. Como o relógio custa a andar quando Santa Cruz e Gravataí, os Esquadrões de
voo era de aproximadamente cinco horas condições visuais. Programei viajar sozinho, Sendo minha primeira viagem ao Rio, uma grande nuvem cinzenta. Como cade- estamos com pressa! De repente bloqueei Controle e Alarme operavam radares para
e meia, mas tendo a considerar que Campo mas um companheiro do Destacamento solo, com plano VFR, sobrevoei Taubaté, te, usava a referência do Pico do Couto, Nova Iguaçu, e caí na real. Era segundo aproximação de precisão.
Grande estava localizado no fuso uma hora pediu-me para lhe dar uma carona para Aparecida, Guaratinguetá, no estado de onde anos mais tarde foram instaladas as tenente, voando um T6-D, sem os meios de Minha cabeça girava em torno de
mais cedo que o Rio. Pirassununga. Pelo menos alguém na nacele São Paulo. Ainda não existia em Apare- antenas do CINDACTA UM, quando treiná- comunicação adequados, sobre a terminal como descer caso não surgissem con-
Escolhi o T6-D 1425, equipado com traseira poderia me ajudar a pilotar de vez em cida a majestosa Basílica de hoje, já com vamos acrobacias no Fokker T-21. Naquele do Rio de Janeiro, a poucos minutos do dições visuais, enquanto voava de Nova
radiocompasso. Na Escola da Aeronáutica, quando, enquanto consultava a carta WAC. construção iniciada, mas romeiros já a momento, o que parecia ser uma nuvem, na pôr-do-sol, a 11.500 pés sobre um colchão Iguaçu para Oscar, atual VOR/DME de
os T6-D eram usados no Estágio Avançado. Com o Plano de voo preenchido para visitavam regularmente. Aliás, em 1966, as realidade era o Morro do Tinguá, que vim a de nuvens. Caxias. Calculei riscos, torcendo para
Os meios de comunicação se limitavam Pirassununga, decolamos logo que o cidades eram pequeninas, assim como as conhecer naquele dia. A nebulosidade só
ao comandinho e transmissor em HF na campo abriu visual. Eu já havia realizado do estado do Rio de Janeiro. A população me permitiu identificar a montanha quando
frequência 5680. A recepção era reali- algumas viagens para São Paulo e Rio de do Brasil era de 85 milhões. Como esque- me aproximei.
zada por meio das frequências dos NDB Janeiro voando com companheiros mais cer os 90 milhões em ação quando o Brasil Depois de tentar passar entre os
(Non-Directional Beacon) locais operadas antigos do Destacamento, que não eram foi tricampeão mundial de futebol em 1970. morros mais baixos da área, decidi subir e
pelas torres de Controle. O treinamento tão antigos, mas bem experientes, conside- Já no estado do Rio de Janeiro passei passar ao lado do Tinguá, livrando a mon-
dos cadetes no voo por instrumentos era rando que nossos C-47 e C-45 faziam pelo por Resende, Barra Mansa e Volta Redon- tanha pela direita. Com mistura rica, 2.000
executado no T6-G, com maior autonomia menos uma viagem ao Rio por semana. da. Após a grande reta da Via Dutra em RPM, motor para frente e nariz para cima,
e mais bem equipado.

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que o controlador do Radar Rio estivesse uma alternativa, mas estava impedido pelo da Diretoria de Rotas Aéreas (DR), nem
observando aquele plote se aproximando
sem comunicação em direção a Oscar. Fiz
minha avaliação quando bloqueei Oscar.
pôr-do-sol, mesmo porque naquele mo-
mento não havia alternativas. Decidi descer
mais um pouco. Quando passei pelos 1.500
pelo fato de ter pousado alguns minutos
após o pôr-do-sol.
Algum tempo depois a DR mudou as
Yehoshua Goldman
Rabino POR QUE SE CASAR?
O
Para não interferir caso existissem aviões pés, surgiu pouco abaixo a Avenida Brasil, regras do plano de voo visual, determinan- s jovens universitários de uma cida-
nas proximidades, optei por entrar sobre com a cidade iluminada e os carros com do que os aviões planejassem as chegadas de tradicional e conservadora resol-
o fixo em espiral. Voar 30 segundos após faróis acesos. Não pensei duas vezes. no máximo 45 minutos antes do pôr-do- veram chamar um rabino para lhes
o bloqueio e curvar à esquerda, lado con- Empurrei o manche até ao painel e saí a -sol. Será que fui a razão dessa mudança? falar sobre casamento. Como já tinham
trário à orbita, mantendo curva de meio 500 pés sobre a Avenida. Que alivio! Rolei o avião até a área de estaciona- ouvido outros líderes espirituais, ficaram
ponteiro no indicador de curvas, mais Dali até ao Santos-Dumont era como mento reservada do Comando da Terceira curiosos em saber qual é o ponto de vista
conhecido como pau e bola, e ponteiro do se tivesse saído do Campo dos Afonsos Zona Aérea, cortei o motor e saltei da na- da tradição judaica sobre o casamento.
NDB sempre a noventa graus à esquerda. para a cidade pela Avenida. Cheguei ao cele. Fechei a capota, peguei minha maleta O rabino veio e lhes disse: Vocês
Não parava de chamar a Torre do Rio e Canal do Mangue, Avenida Presidente no bagageiro e fui para o terminal pegar um querem que eu lhes fale sobre casamento?
Torre Afonsos, mudando as frequências do Vargas; passei ao lado da Central do Brasil, táxi para casa dos meus pais que moravam Para que se casar? Vocês não sabem que
comandinho. Minha recepção estava boa chequei o relógio e, finalmente, fui ouvido no Flamengo. Como não me esperavam, foi hoje em dia não precisa mais se casar?...
para o Rio. Não ouvia Afonsos. pela Torre do Rio. A mensagem veio como uma alegria passar aquele fim-de-semana Surpreso e, até certo ponto, indig-
Chequei o horizonte artificial. Estava um presente, diante de tanta ansiedade. com a família. Eu ainda era solteiro. Uma nado, um dos estudantes respondeu: – É
indicando a curva perfeitamente. Não podia – Força Aérea 1425, pista em uso 20 boa dose de uísque fez-me relaxar e baixar claro que tem que se casar, para ter uma
esperar mais. Completei o procedimento proa sul, vento calmo, acuse na perna o nível de adrenalina. companheira, alguém ao meu lado com-
para antes do pouso, reduzi o motor e contra o vento. A volta para Campo Grande no domin- partilhando esta jornada pela vida!
empurrei o manche, nariz para baixo. Iniciei A cidade já toda iluminada, passei ao go foi planejada e voada pelo litoral no eixo E o rabino lhe disse: – E para isso
minha descida totalmente em condições lado do Pão de Açúcar, acusei perna do da Verde Uno. Evitei a entrada na terminal precisa se casar? Tenha uma companheira
instrumentos. Os níveis iam passando rapi- vento e pousei em segurança. Não ousei de São Paulo, nas proximidades de Congo- e pronto!
damente, até porque estava mantendo meu ficar realizado, pois estava consciente dos nhas, e segui direto para Bauru, passando – Mas rabino – retrucou outra aluna
indicador de descida em quase 2.000 pés. riscos por que passei, levando em conta os no través de Campinas. De Bauru para – casamento é amor na sua vida!
A velocidade foi para 180 milhas. Quando dos demais aviões que por acaso estives- Campo Grande o voo foi muito tranquilo, E o rabino lhe disse: – Então ame, mas
atingi 5.000 pés, tive de reduzir a razão de sem na área. Fiz as melhores opções do apreciando o terreno já bem desenhado por que você precisa se casar?
descida, porque a temperatura da cabeça momento, descendo em espiral e contando pelas plantações das fazendas no estado – Mas rabino, casamento é estabili-
do cilindro havia caído para 100 graus, o com a eficiência dos controladores radar do de São Paulo. dade, segurança! A certeza de que alguém
mínimo para iniciar o táxi. Controle Rio. Nunca procurei saber se havia Lembrando a chegada ao Rio, em estará sempre ao seu lado, lhe dando apoio
A chuva era fina, mas a visibilidade voos sobre Oscar naquele momento. Como 1966, ainda sinto a ansiedade que me do- e sustento, ajudando com as contas do lar!
em nenhum momento deu-me a chance a descida foi quase tipo penetração, tendo minou naquele final de tarde, mas confesso E o rabino lhe disse: – Então vá para Basta ter filhos e ser um bom pai e uma ou um lar para os meus filhos. Eu me casei
de mergulhar num buraco entre as nu- em vista a velocidade e razão de descida, e que valeu a pena n um advogado e faça um contrato de res- boa mãe! porque o casamento é sagrado, é uma
vens. Sabia que podia descer até 1.500 sabendo que o radar Rio perdia visibilidade ponsabilidade mútua e você terá apoio, A classe não acreditava no que estava união divina! Não é uma mera formalidade
pés e continuei a descida já mantendo em baixas altitudes, tendo saído a 500 pés sustento e segurança – e até contas pagas! ouvindo (não esqueçam que se tratava de humana... Essa é a milenar tradição judaica
500 pés por minuto. Quando atingi 2.000 sobre a Avenida Brasil, talvez tenha sido – Mas rabino, você precisa de casa- uma cidade muito tradicional e conser- do conceito de casamento.
pés, ainda em condições instrumentos, registrado como Objeto Voador Não-Iden- mento para ter intimidade com seu cônju- vadora). Todos perguntaram ao rabino: Qualquer outra união que envolva amor,
pensei em subir tudo de novo e encontrar tificado. Nunca recebi um deveis informar ge, para compartilhar a mesma cama, não – Rabino, o senhor é casado? companheirismo, estabilidade econômica
só as contas... E ele lhes respondeu: – Sim. ou emocional e até intimidade entre duas
E o rabino lhe disse: – Você não sabe – O senhor tem filhos? pessoas pode ser linda e louvável, mas não
que hoje as pessoas podem ter intimidade Novamente ele disse sim. é um casamento. Pode ser um contrato,
e sexualidade mesmo sem casamento?... E aí lhe perguntaram: – Então por que uma amizade profunda e altruísta, coroada
– Mas rabino – disse outra estudante o senhor se casou? de sentimentos sinceros e humanos, mas
já bastante alterada – e os filhos? Um casal E o rabino lhes respondeu: – Eu me ca- só pode ser chamada de casamento se
precisa do casamento para que os seus sei porque o casamento é um mandamento for realizada da forma que o Criador do
filhos tenham um lar, um pai e uma mãe!!! divino. Foi o Criador que ordenou aos Universo estipulou: entre um homem e uma
E o rabino lhe disse: – Você não sabe ancestrais de toda a Humanidade, Adão e mulher. Sim, porque o casamento não é um
Fonte: O Globo

que hoje em dia muita gente não quer mais Eva, a se casar (como consta em Genesis conceito humano; é uma ideia divina!
ter filhos? E mesmo as que querem ter 1:24) – e não só para ter companheirismo, O conceito de casamento é sagrado.
filhos, por que precisam do casamento? amor, estabilidade, segurança, intimidade Não devemos profaná-lo n
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UMA BATALHA NÃO PERDIDA EM VÃO
Ten Brig Ar
Antonio Carlos Moretti Bermudez
Comandante-Geral do COMGEP
bermudez@fab.mil.br

A
pr eciando as ma tér ias da
Revista Aeronáutica n° 295,
jul. a dez. de 2016, encontrei
nas páginas 42 e 43 um artigo do
Ten Brig Ar Ref Sérgio Pedro Bambini,
intitulado A Batalha Que Eu Perdi.
Confesso que num primeiro mo-
mento fui tomado por um sentimento Assim, com vistas a padronizar
de frustração, não pela matéria pro- o seu uso para todos os militares,
priamente dita, mas pela não conti- homens e mulheres, da reserva re-
nuidade de tão importante projeto. munerada e reformados, foi assinada
Afinal, quem de nós – principalmente a Portaria nº 1.392/GC4, de 25 de
nossos oficiais e graduados da reser- setembro de 2017, tendo sido man-
va, que dedicaram toda uma vida à tidos todos os objetivos da Portaria
Força Aérea, não tem orgulho ao ser anterior.
bem recebido e acolhido em qualquer Em relação ao DIM anterior, o
uma de nossas Organizações, sejam da nova Portaria sofreu pequenas
de Saúde ou qualquer outra? alterações e uma redução de tama-
Ainda que desconhecesse a nho, mas identificando igualmente os
história do Distintivo dos Militares nossos companheiros da reserva por
Inativos da Força Aérea Brasileira quem os receber nas Organizações do
(DMI), escrita pelo Ten Brig Bambini, Comando da Aeronáutica.
como Comandante do COMGEP, eu E, para finalizar, gostaria de dizer
já havia determinado o seu uso para ao Ten Brig Bambini que o fragor
todos os militares que estavam na das batalhas que se sucederam,
situação de Prestador de Tarefa por com persistência e luta, foi possível
Tempo Certo (PTTC) em nossas Or- que alcançássemos a tão almejada
ganizações subordinadas. vitória.
A Portaria n° 471/GC6, que insti-
tuiu o uso do distintivo, foi assinada Obrigado, Ten Brig Bambini! n
pelo Comandante da Aeronáutica em
20 de abril de 2004.
À época, a fim de valorizar e
facilitar a visualização do DMI, foi es-
tabelecido o traje civil do militar para
o seu uso, bem como as obrigações e
as responsabilidades correspondentes
ao símbolo que passaria a ser osten-
tado. Nessa Portaria, entretanto, não
ficou estabelecido o seu uso para as
militares do sexo feminino.
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Ten Brig Ar Sergio Pedro Bambini
sergio.p.bambini@gmail.com UM INÍCIO POUCO PROMISSOR
mesmo sem saber bem para o quê eu xingou minha mãe. Eu dei um soco nele. lutei bravamente. Apanhei e perdi meu
havia passado. Meu pai, que se recusara Nesse ponto, me explicaram uma porção topete. Para isso, fui imobilizado. Pernas,
a assinar a autorização para eu fazer o de coisas. Não tinha sido por mal; xingar braços e peito presos. Lembro-me de
concurso, dizendo que um filho seu não a mãe, no Rio, não é ofensa; pode-se falar alguns nomes: Cadete Augusto, Cadete
seria sanguessuga da nação, começou a palavrão; e muitas novidades para mim. Daniel, Cadete Mussan. Terminada a
gostar da ideia de ter um filho militar. Falaram-me, então, sobre trote. Ninguém sessão, outro cadete, muito simpático,
Vieram os exames médicos, ditos havia me falado nada sobre isso. Não ofereceu-se para raspar o restante do
preliminares. Soube, que coisa, eu não constava do prospecto. meu cabelo com tesoura e barbeador. Ao
era daltônico. E, não mais do que de Convidaram-me, então, gentilmente, término, ofereceu passar aquavelva para
repente, estava num C-47, com um grupo para eu subir uma das escadas e ir até o evitar algum problema no couro cabeludo.
de recém-conhecidos e futuros amigos, alojamento deles. Terceiro Ano. Chegando Ingenuamente, aceitei. Foi a maior dor que
voando para o Rio de Janeiro. Voando, lá em cima, aprendi o que era trote. Uma senti e da qual lembro. O cadete simpático
enjoando e sendo gozado pelo novo colega aula extremamente eficiente. Flexões, quase morria de tanto rir. Virei alvo de
Alvarez. cangurus, pulinhos de galo, carobas, todos os veteranos. Todos queriam brin-
Pousamos na Base Aérea do Galeão. paraquedista, tontômetro. Tudo, muitas car comigo. Eu era facilmente localizável:
Um ônibus nos esperava e nos conduziu vezes. Muitos cadetes, revezando-se em paisano, cabeça raspada, mancha azul na
para o Campo dos Afonsos. Era domin- aprimorar minha técnica. Em algum mo- testa, nariz comprido.
go. Chegamos à Escola de Aeronáutica. mento da noite, fui liberado. Não sei, até Foi assim que cheguei a Barbacena.
Tudo muito bonito. Os prédios brancos hoje, quantas horas fiquei, lá, na varanda Marcado!
destacando-se no meio de muito verde. da sala de estudos do alojamento do Conheci o trem. Conheci a fome.

N
o ano de 1958, eu estava residindo Decisão imediata. O antigo e distante soube porque eu estava indo para a Base. Descemos do ônibus e fomos orientados Terceiro Ano. Não tinha um centavo no bolso e fui
em Porto Alegre. Morava na pensão sonho infantil de ser aviador voltou com Fiz exame para o Segundo Ano, pois a nos dirigirmos para o alojamento dos Foi a mais longa de todas as minhas dos Afonsos a Barbacena sem comer
da dona Luíza, trabalhava durante força total. Já no ano anterior, 1957, no estava terminando o Primeiro Científico Cadetes. noites. Ao ser liberado, alguém me con- absolutamente nada. Na EPCAR, minha
o dia – tinha minha Carteira de Trabalho dia 18 de outubro, dois aviões a jato e essa era a matéria exigida. Não tinha Aí começou o problema. Com fome, duziu até ao alojamento no andar térreo. fama já havia chegado. Só que, lá, o trote
de Menor – e estudava à noite no Primeiro sobrevoaram a cidade de Soledade, onde a menor ideia de como responder as mareado, com a mala na mão, vestindo Deitei como estava na primeira cama que era, ainda, mais violento. Como os aloja-
Ano do Curso Científico do Colégio Rui eu estudava, possivelmente, uma home- perguntas constantes dos cadernos das uma jaqueta clara, cabelo grande e usando encontrei. No dia seguinte, tinha a certeza mentos não estavam prontos, os alunos
Barbosa. Deixara meu pequeno, saudoso nagem ao Ten Dal Santos, filho da cidade, provas. Terminado o concurso, sem qual- óculos Ray Ban, encaminhei-me para o de que ia morrer. Não conseguia ficar de foram liberados até o dia 30 de março.
e querido Espumoso. soube muito depois. Jamais vira um avião quer esperança de ter passado, fui para local indicado. Já estava passando pelo pé. As pernas, meio adormecidas, tre- Quase todos foram embora. Eu e uns
Na pensão, havia um jovem com- a jato. Foi paixão instantânea. Espumoso passar as férias escolares. portão do Corpo de Cadetes, quando miam e doíam muito. Os braços também. poucos, ainda não matriculados, ficamos
panheiro, oriundo de Uruguaiana, que Inscrevi-me para o concurso de Poucos dias depois, recebi um tele- dois militares fardados me pararam. Vomitava o tempo todo. Tinha febre! na Escola. Nós e um grupo de veteranos,
se preparava para prestar concurso. Ao Admissão à EPCAr. Logo chegou o dia da grama de meus novos amigos, Dutra e Seus nomes, em suas tarjetas, diziam Por ordem do Cadete Bedê, alguns ansiosos por descontar o trote recebido
conhecê-lo melhor, disse-me que frequen- prova. Encantado, entrei na Base Aérea Disconzi, informando-me que o exame ser: Al. Lira e Al. Lima Filho. Um deles candidatos ficaram encarregados de me no ano anterior. Ah, sim, havia, também,
tava um cursinho para fazer o concurso de Porto Alegre, situada no município de havia sido anulado e, em quinze dias, colocou o dedo indicador próximo a meu levarem alguma coisa para comer quan- diversos alunos já desligados querendo
de admissão às Escolas Preparatórias do Canoas e conhecida como Base Aérea de haveria outro. Voltei para Porto Alegre e nariz e falou: – Você é cego, seu filho... do fossem ao rancho. Muito pouco eu descontar a mágoa e o recalque.
Exército e da Aeronáutica. Gravataí.Vi, pela primeira vez, aviões de dediquei-me a estudar a parte dos livros Não conseguiu terminar a frase, pois eu comia. Isso durou uns três dias. Nessas Eu, como gaúcho, conhecidamente
Foi a primeira vez que ouvi falar dessas perto. Eram os Gloster Meteor TF-7 e F-8 e escolares cuja matéria não tinha sido lhe aplicara um violento e direto soco em condições fiz o Exame Médico no ISCP. muito macho, fui o alvo preferencial, tam-
Escolas. Aos poucos, interessei-me. Ao ler os C-47. Fiquei hospedado no alojamento ministrada durante o ano letivo. E não era sua cara e, ele, cambaleando, caíra após Fui aprovado e fiquei aguardando para ir bém lá. Memorável! Jamais antes e jamais
os prospectos, achei muito interessante o dos soldados. Melhor que a pensão. pouca. Nesses dias, estudei muito. bater com as pernas no banco existente para Barbacena. depois fui acometido de desfalecimento.
que constava do folheto da Aeronáutica: Muita emoção! O novo certame constou de apenas embaixo da mensagem do Brig Fontenelle. Enquanto esperava, melhorei e o trote Somente na tarde da Sexta-feira Santa
podia fazer o concurso para o segundo Um dos fiscais da prova era um ofi- cinco questões e uma redação na prova Ao cair, bateu a cabeça na parede. voltou. Intensamente. Alguns cadetes que do ano de 1959. No primeiro dia de aula,
ano, regime de internato, Serviço Militar, cial muito alto. Sua tarjeta indicava Ten de português e cinco questões na prova de Imediatamente vi-me rodeado por um não moravam na Escola apareceram e assisti à expulsão dos alunos que foram
fardamento gratuito, pequeno salário men- Iguatemi. No ônibus, Air France, que tomei matemática. Desta vez, me saí um pouco grande número de pessoas, todas farda- souberam de um gaúcho valente entre os os causadores da anulação do concurso.
sal e a possibilidade de ser matriculado na para ir para a Base Aérea, conheci o Aluno melhor. Um telegrama da EPCAR infor- das. Alguém me perguntou o que aconte- candidatos. Dessa vez, além dos exercí- Muito triste e impressionante.
Escola de Aeronáutica e fazer o Curso de Barreto. O saudoso Ângelo Guido Barreto. mou-me ter passado no exame e deu-me cera. Apontando para o cadete caído, eu cios tradicionais, rasparam parte de meu Foi ou não foi um início muito pouco
Oficial Aviador. Foi muito simpático e atencioso quando diversas instruções. Alegria na família, disse: – Esse rapaz, que eu não conheço, cabelo. Não foi uma operação fácil, pois promissor? n
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A PIRATARIA AÉREA NO BRASIL
Fernando Hippolyto da Costa
Cel Av
Pesquisador de assuntos aeronáuticos
(in memoriam)

A
presente pesquisa foi elaborada agosto de 1961, com o desvio de uma
com base em 10 sequestros de aeronave da Pan American, do México
aeronaves comerciais brasileiras, para Havana (Cuba). No Brasil, o primeiro
realizados nos anos de 1969 e 1970, de uma série de sequestros aéreos com
envolvendo três empresas de transporte motivação política – tema deste trabalho
aéreo: Serviços Aéreos Cruzeiro do Sul, – foi registrado em 8 de outubro de 1969.
Viação Aérea Riograndense (VARIG) e Nos atos de Pirataria Aérea, não resta
Viação Aérea São Paulo (VASP), as quais dúvida de que as empresas de transporte
sofreram ações de sequestros com cinco, aéreo sofrem um apreciável ônus, em se
três e dois aviões respectivamente. tratando de pagamentos de taxas aeropor-
O total de sequestradores envolvidos tuárias, despesas extras com passageiros
chegou a 24, sendo a média de ocorrências e tripulantes e, ainda, indisponibilidade das
de uma para cada 30 dias. A aeronave aeronaves. Os sequestradores causam
Boeing 707, prefixo PP-VJX, foi desviada de elevados prejuízos à navegação aérea, e
rota em três ocasiões (nos dias 4 e 28 de como se homiziam em países que lhes dão
novembro de 1969 e 12 de março de 1970) asilo (notadamente Cuba, no escopo deste
e o Boeing 727, prefixo PP-SMC, da VASP, trabalho), escapam às sanções das Leis.
também o foi em dois voos realizados em O Marechal do Ar Hugo da Cunha
25 de abril de 1970 e 14 de maio de 1970. Machado, que foi Presidente da Sociedade
Apenas um sequestro por ação militar Brasileira de Direito Aeroespacial (SBDAE),
no Aeroporto do Galeão foi malogrado, sintetizou o problema da seguinte forma:
apesar de já ter voado duas etapas. Trata- A Pirataria Aérea é um crime essen-
-se do Caravelle da Cruzeiro do Sul, prefixo cialmente de aviação internacional, porque
PP-PDX, em 1º de julho de 1970. Este autor só é praticado por alguém que deseja pas-
teve acesso aos Inquéritos instaurados pelo sar de um Estado para outro; nunca para
Ministério da Aeronáutica para a obtenção mudar de um ponto para outro dentro do
de informações necessárias à elaboração mesmo Estado; sempre para fugir de uma
de monografia apresentada no IX Curso de jurisdição que lhe tolhe os passos.
Direito Aeronáutico e do Espaço (SBDAE). A Pirataria Aérea constitui, pois, a taxa normal, em qualquer lugar, era de traram na cabine de pilotagem e, de armas uma fase coletiva de pânico, o 1º Oficial A aeronave somente foi liberada após o
Certamente a Pirataria Aérea é um tema uma nuance de assalto à mão armada, 500 dólares, o governo de Cuba exigia, em punho, intimaram o Comandante a saltou do avião e conseguiu convencer pagamento das taxas exigidas pelo governo
a ser constantemente analisado e ampla- com ameaça de violência contra pessoas por cada pouso de aeronave, cerca de mudar a rota, com destino a Havana (Cuba). o responsável pela tropa que mantinha o cubano, o que foi providenciado pela inter-
mente discutido, por se tratar de assunto impossibilitadas de reagir, ou mesmo, de 10.000 dólares. Informaram, ainda, que quatro outros se- cerco da aeronave, a fim de que os milita- ferência da Embaixada da Suíça.
de reconhecida atualidade. Os Mestres do pedir auxílio. Centenas de aeronaves já A seguir, são expostos, de maneira questradores encontravam-se espalhados res se afastassem. Assim ocorrendo, foi O inquérito instaurado pelo Ministério
Direito divergem nas denominações: alguns foram desviadas para Cuba e outros pontos concisa, os 10 atos de Pirataria Aérea prati- na cabine dos passageiros para sufocarem providenciado então o reabastecimento, da Aeronáutica comprovou que os se-
costumam pregar que a Pirataria Aérea vem da Terra; sem sombra de dúvida esses cados contra aviões comerciais brasileiros, qualquer reação que pudesse ocorrer. Em prosseguindo o voo até San Juan (Porto questradores eram elementos subversivos
a ser o apoderamento ilícito de aeronaves, sequestros tornaram-se uma fonte ines- nos anos de 1969 e 1970. Georgetown, foi realizado um pouso para Rico), onde foi realizada nova aterragem filiados ao Movimento Revolucionário Oito
enquanto outros preferem dizer sequestro gotável de recursos financeiros em dólares. PRIMEIRO SEQUESTRO reabastecimento, ocorrendo então a fase para obtenção de combustível. de Outubro (MR-8), e que haviam planeja-
de aeronaves ou, ainda, simplesmente Segundo estatísticas divulgadas ao 8 de outubro de 1969 mais crítica desse ato de Pirataria Aérea, Logo após ter sido aberta a porta do do a ação para coincidir com a data de 8
desvio de rota. Evidentemente que as rou- final de 1969, o montante arrecadado O Caravelle, prefixo PP-PDX, perten- pois o avião foi cercado por tropas locais, Caravelle, no Aeroporto de Havana, um de outubro, ocasião em que os cubanos
pagens são diferentes, mas o objetivo desse pelo regime marxista de Cuba alcançava a cente aos Serviços Aéreos Cruzeiro do Sul, e a invasão do Caravelle era iminente. oficial cubano penetrou no avião brasi- comemoram a morte do líder marxista
delito é sempre o mesmo, ou seja, desvio expressiva soma de cinco milhões de dó- decolou de Belém com destino a Manaus, Vendo-se em real perigo, os sequestrado- leiro, recebendo os sequestradores e as Ernesto Che Guevara. Tratava-se, portanto,
de rota de uma aeronave por uma ação de lares, tendo o Brasil contribuído com uma cumprindo mais uma etapa de sua viagem res ameaçaram explodir o avião com uma respectivas armas. Foi quando tripulantes de um grupo da mais alta periculosidade
violência praticada contra a tripulação e os boa parcela, pois nove aviões comerciais rotineira. Algum tempo depois, estando banana de dinamite, que foi mostrada aos e passageiros notaram que havia quatro e, durante a viagem, os citados sequestra-
próprios passageiros. brasileiros foram desviados para Cuba e a referida aeronave voando no período tripulantes e passageiros. sequestradores, e não seis como haviam dores utilizaram-se do microfone de bordo
Há registros de que a Pirataria Aérea, somente foram liberados após o paga- noturno, dois indivíduos, julgando que se Tendo em vista o estado de ânimo dos dito, naturalmente com a intenção de para fazerem apologia da ideologia que
em nível internacional, iniciou-se em 9 de mento de exorbitantes quantias. Enquanto encontravam próximos do destino, pene- passageiros, que já se encontravam em confundirem ainda mais os passageiros. defendiam, atacando o governo do Brasil.
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O Encarregado do IPM instaurado, marxista. Dos sequestradores, todos bra- O Inquérito instaurado pelo Ministério questrador entregou as armas e foi retirado Pelas investigações procedidas, veri- Foi apurado, no decorrer das investi-
após um exaustivo trabalho, em coordena- sileiros, o mais velho tinha apenas 31 anos da Aeronáutica apurou que o sequestro do avião com suas bagagens. Os tripulantes ficou-se que James Allen da Luz era filiado gações, que a tripulação do Boeing PP-VJX
ção com os Órgãos de Segurança militares de idade. Ficou comprovado, ainda, que o foi conduzido pelo argentino Victor Mario foram desembarcados, interrogados, retra- à organização subversiva VAR-PALMARES, teve oportunidade de reprimir o sequestro,
e policiais, ouvidos um sem-número de grupo planejou esse ato de Pirataria Aérea Troiano, natural da cidade de Córdoba, tados e conduzidos a um hotel na cidade. O tendo participado de diversos assaltos a porém foi obstada pelo representante da
testemunhas (incluindo, obviamente, os tri- com bastante atenção aos detalhes como, solteiro, com 33 anos de idade. Ele valeu-se regresso da aeronave ao Brasil somente foi estabelecimentos bancários e quartéis. empresa em Santiago, que não transmitiu
pulantes e passageiros do Caravelle), che- por exemplo, a aquisição dos bilhetes de desse meio de Pirataria Aérea para escapar autorizado após os entendimentos havidos Os demais sequestradores também per- à Direção da companhia o plano exequível
gou à conclusão de que os responsáveis passagens com nomes e endereços falsos. da Justiça brasileira, pois era considerado entre o governo cubano e a Embaixada da tenciam a esse grupo. que lhe fora sugerido pelo próprio Co-
diretos e indiretos por esse ato de Pirataria Dos nove sequestradores, somente um estelionatário com antecedentes crimi- Suíça, além do pagamento da exorbitante SEXTO SEQUESTRO mandante do avião. Ficou caracterizado,
Aérea foram os seguintes: Cláudio Augusto cinco foram identificados; todos solteiros nais registrados. dívida imposta: 20 mil dólares. 12 de março de 1970 por tanto, que nenhuma medida para
Alencar Cunha (casado, estudante), Elmar e estudantes, à exceção de Ruy Carlos QUARTO SEQUESTRO Quando ocorreu o presente sequestro, O passageiro Adelzito Bezerra Cor- abortar a ação de Pirataria Aérea pôde ser
Soares de Oliveira (solteiro, estudante), Vieira Berbet, que era professor: Aylton 28 de novembro de 1969 já se achavam cadastradas cerca de 160 deiro embarcou em Santiago (Chile) com desencadeada, em face da atitude contrária
Waldemar Uchoa de Oliveira (casado, en- Adalberto Mortati, Lauriberto José Reyes, Nessa data, o passageiro de nome aeronaves desviadas de suas rotas nor- destino a Buenos Aires (Argentina), usando de um representante da empresa.
genheiro), Sydney Sergio Fernandes Solis Maria Augusta Thomaz e Marcílio César Jussier Cavalcante Albuquerque embar- mais, e que tiveram Havana como destino. falsamente o nome de Rômulo de Souza, O autor do sequestro foi identificado
(solteiro, estudante), João Pedro de Souza Ramos Krieger. cou em Paris (França), na aeronave tipo QUINTO SEQUESTRO conforme certidões de nascimento falsas, como sendo Adelzito Bezerra Cordeiro,
Neto (solteiro, estudante), Amaro Hertz TERCEIRO SEQUESTRO Boeing 707, prefixo PP-VJX, pertencente 1º de janeiro de 1970 apreendidas posteriormente. natural do estado da Bahia, elemento liga-
Bittencourt (solteiro, estudante), Carlos 12 de novembro de 1969 à VARIG, com bilhete adquirido e pago em No primeiro dia do ano de 1970, quatro Durante o voo do Boeing 707, prefixo do à subversão e que estava foragido da
Augusto de Carvalho (solteiro, taxista) e Não haviam decorrido oito dias do cheque, por ele mesmo, na agência local. indivíduos e duas mulheres, usando nomes PP-VJX, pertencente à VARIG, no trecho Justiça brasileira.
Sílvio Tendler (solteiro, estudante). sequestro anterior quando, em 12 de no- No decorrer do voo, após o jantar, estando fictícios, embarcaram em Montevidéu Santiago-Buenos Aires, tendo passado SÉTIMO SEQUESTRO
SEGUNDO SEQUESTRO vembro de 1969, o avião tipo YS-11, prefixo a aeronave voando ao sul de Lisboa (Portu- (Uruguai), no avião tipo Caravelle, prefixo na vertical de Mendoza, no momento em 25 de abril de 1970
4 de novembro de 1969 PP-CTL, da Cruzeiro do Sul, foi desviado gal), no momento em que a maior parte dos PP-PDZ, pertencente à Cruzeiro do Sul, que os Comissários de Bordo iniciavam a Nessa data, o passageiro de nome Joaquim
A aeronave tipo Boeing 707, prefixo de sua rota normal quando voava entre as passageiros já dormia, Jussier penetrou que se destinava a cumprir a etapa de voo distribuição de chá aos passageiros, o se- Baptista embarcou em São Paulo na aeronave
PP-VJX, per tencente à Viação Aérea cidades de Itacoatiara (AM) e Santarém na cabine dos pilotos e, empunhando uma Montevidéu-Rio de Janeiro. Praticada a questrador dirigiu-se ao lavatório localizado tipo Boeing 727, prefixo PP-SNC, da Viação
Riograndense (VARIG), quando voava no (PA), sendo obrigado a pousar em Havana. arma, exigiu que o Comandante do avião ação de sequestro, valendo-se de ameaça na parte traseira da aeronave. Ao retornar, Aérea São Paulo (VASP), com destino a Ma-
trecho Buenos Aires-Santiago, foi desviada Para cumprir o seu intento, o sequestrador mudasse a rota para Havana. mediante o emprego de armas, a aeronave ameaçou o Comissário Arlindo, de arma naus. Durante o voo, pouco antes de Manaus,
da sua rota por dois sequestradores, que, embarcou em Itacoatiara e, passado algum O sequestrador permitiu que fosse foi desviada para Havana. em punho, ordenando ao referido tripulante aproximadamente às 14h25, no momento
portando armas de fogo, penetraram na tempo após a decolagem, armado com um feito um pouso em San Juan (Porto Rico), O Encarregado do IPM, mandado que transmitisse ao Comandante do avião em que os passageiros se aprontavam para
cabine dos pilotos e ameaçaram os tripu- revólver e conduzindo ainda um artefato para reabastecimento, e também concor- instaurar pelo Ministério da Aeronáutica, que a aeronave estava sob sequestro, e o pouso da aeronave, Joaquim Baptista
lantes. Foi autorizado o pouso em Santiago explosivo de ação por choque, usou de dou que os dois navegadores de bordo concluiu que os autores desse ato de Pi- que retornasse a Santiago para reabaste- penetrou na cabine de comando e, armado
para o necessário reabastecimento, não violência contra o radioperador e a Comis- desembarcassem, a fim de acompanhar as rataria Aérea foram as seguintes pessoas: cimento, com o objetivo de fazer um voo com um revólver calibre 38 e dizendo ter
tendo sido permitido o desembarque de sária de Bordo, forçando o Comandante da manobras de reabastecimento, preencher James Allen da Luz (solteiro, estudante), sem escalas até Havana. explosivos na cintura, deu ordem para que
qualquer tripulante ou passageiro. aeronave a alterar a rota. o Plano de Voo e conseguir cartas de na- Cláudio Galeno Magalhães Linhares (ca- O pouso em Santiago foi normal, não o Comandante do avião seguisse para Cuba.
O avião prosseguiu normalmente até Esse imprevisto ocasionou uma etapa vegação aérea para o restante da viagem. sado, estudante), Athos Magno Costa e sendo permitida, entretanto, por parte Feito o pouso em Georgetown (Guia-
Havana, onde tripulantes e passageiros de três horas de voo em rota fora de ae- Em seguida à decolagem de Porto Silva (solteiro, estudante), Isolde Sommer do sequestrador, a abertura das portas na), para reabastecimento, conseguiu o
foram alojados, sob ostensiva vigilância, rovia, colocando a aeronave, tripulantes Rico, o avião prosseguiu em voo direto para (solteira, estudante) e Marília Guimarães do avião nem o recebimento de qualquer Comandante convencer o sequestrador de
em hotel, até que providências diplomá- e passageiros em sério risco, bastando Havana. Observou-se que o autor desse Freire (casada, professora, acompanhada alimentação, a fim de evitar qualquer con- que seria melhor que desembarcassem to-
ticas fossem tomadas por intermédio da ressaltar que, ao aterrar em Caiena (Guia- ato de Pirataria Aérea demonstrou relativo de seus dois filhos menores, Marcelo e tato externo. Após o reabastecimento, que dos os passageiros, sugestão aceita pelo
Embaixada da Suíça. na Francesa), o avião possuía somente conhecimento de assuntos ligados à avia- Eduardo). Não foi possível se proceder à durou cerca de duas horas, seguiram em autor desse ato de Pirataria Aérea. Dessa
O Inquérito aberto pelo Ministério da uma reserva de combustível para mais ção, acompanhando atentamente todos os identificação correta do sexto sequestra- voo sem escalas até Havana. cidade, com o avião já sem passageiros,
Aeronáutica apurou que os nove seques- 20 minutos de voo, impossibilitando, por- procedimentos que os pilotos executavam. dor, aparentando ter entre 22 e 23 anos, O Encarregado do IPM instaurado seguiram em viagem normal para Havana,
tradores eram ligados ao movimento sub- tanto, usar qualquer alternativa para caso Além disso, percebeu-se que possuía gran- alto, bem apresentado, usando óculos de pelo Ministério da Aeronáutica concluiu via Curaçao, para outro reabastecimento.
versivo conhecido como Ação Libertadora de emergência decorrente de condições de resistência física, pois viajou por mais lente e dizendo-se piloto. que o sequestrador demonstrou falta de Ao chegar a Havana, o sequestrador foi
Nacional (ALN), tendo tomado parte em meteorológicas adversas, ou por qualquer de 12 horas em situação de tensão, com A bordo da aeronave havia duas malas conhecimento de assuntos de aviação e retirado do avião e a partir daquele mo-
assaltos a estabelecimentos bancários e, forma de interdição do campo de pouso. uma pistola na mão esquerda, ameaçando diplomáticas contendo documentação se- pouca resistência física, pois, durante a mento não mais foi visto, tendo, antes, o
ainda, participado do grupo que sequestrou Assim, durante cerca de 20 horas, o o Comandante do avião, e com um punhal creta destinada ao Ministério das Relações viagem, que consumiu aproximadamente revólver apreendido por militares cubanos.
o Embaixador norte-americano no Brasil, sequestrador manteve tripulantes e pas- na mão direita, controlando o navegador, Exteriores, no Rio de Janeiro. Seu respon- oito horas, sentou-se por diversas vezes, Os tripulantes, após as medidas roti-
Charles Burke Elbrick. sageiros em estado de tensão e em perigo sem se alimentar nem fazer qualquer ne- sável tentou destruir o material, inutilizando manteve a arma no bolso do casaco quase neiras (fichas, retratos, declarações etc.),
No decorrer da viagem, o chefe do de vida, pois foi esse o espaço de tempo cessidade fisiológica, conforme declarou alguns documentos, porém os sequestra- que durante toda a viagem, alimentou-se, foram conduzidos ao hotel na cidade. Após
grupo leu, para os assustados passageiros, compreendido entre a sua primeira ação uma testemunha ouvida no IPM instaurado dores conseguiram também apreendê-los, tomou cerveja, fumou e fez necessidades as providências diplomáticas, com a inter-
um manifesto altamente subversivo, que de se apoderar do avião até o término da pelo Ministério da Aeronáutica. entregando-os às autoridades cubanas fisiológicas. Ele permaneceu todo o tempo ferência da Embaixada da Suíça, aeronave
tinha, como tônica, a propaganda do regime viagem, em Havana. Em seguida ao pouso em Havana, o se- após o pouso do avião em Havana. da viagem na parte traseira do avião. e tripulantes foram liberados.
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pelo pessoal do despacho para, no NONO SEQUESTRO de uma caixa de fósforos atrás do quadro A aeronave pousou em Caiena (Guia-
dia seguinte, ter seu acesso a bordo 1º de julho de 1970 da Santa Ceia, na gruta de Nossa Senhora na Francesa), onde foi reabastecida, e
facilitado. (sequestro frustrado) do Parque Monumento, no Horto Florestal, onde todos os passageiros, e respectivas
Realmente, tal aconteceu: passou Aproximadamente às 10h 25 dessa data, em Niterói; e uma cópia, numa caixa co- bagagens, foram desembarcados na
sem qualquer dificuldade pelo controle de nas proximidades da capital de São Paulo, letora dos Correios. A carta-manifesto foi cabeceira da pista. Prosseguindo o voo
embarque dos passageiros, sendo ajudado o avião do tipo Caravelle, prefixo PP-PDX, composta segundo o modelo do manifesto somente com a tripulação, foi realizado
pelo pessoal de serviço da VASP a em- pertencente à Cruzeiro do Sul, foi sequestrado publicado por ocasião do sequestro do outro pouso em Antígua, para novo rea-
barcar na frente dos demais passageiros. por três indivíduos e uma mulher que haviam Embaixador da Alemanha, e colocada num bastecimento. Nesse aeroporto, o avião
Ao entrar na aeronave, preferiu sentar-se embarcado no Aeroporto do Galeão. O grupo envelope deixado também na caixa dos foi cercado por uma tropa local o que
no primeiro banco à esquerda do corre- pretendia desviar a rota da aeronave para Correios, no Aeroporto do Galeão. deixou o sequestrador bastante nervoso
dor. A viagem até Brasília decorreu sem Cuba, transportando 40 presos que seriam Em julgamento realizado pelo Conselho e ameaçando tomar atitudes contra os
novidades; o desembarque e o embarque libertados em troca dos passageiros. Especial de Justiça, na 1ª Auditoria da Aero- tripulantes. Em San Juan (Porto Rico), o
de Michels também tiveram a ajuda do Por proposta do Comandante do avião, náutica, os sequestradores, além de terem sequestrador fez novas ameaças, quando
pessoal da VASP. e aceita pelos sequestradores, a aeronave os direitos políticos cassados pelo prazo percebeu que agentes do FBl estavam
Entretanto, quando o avião já se regressou ao Galeão para reabastecimento, de 10 anos, sofreram as seguintes penas: dispostos a invadir o avião.
encontrava voando próximo a Manaus, Mi- quando, então, numa medida coordenada Colombo Vieira de Souza Júnior (24 anos Os depoimentos tomados pelo Encar-
chels levantou-se, foi ao banheiro dianteiro, dos Órgãos de Segurança da FAB, a be- de prisão), Jessie Jane (18 anos de prisão) regado do IPM comprovaram ainda que,
retirou os curativos, gesso etc. e, armado quilha do trem de pouso do avião foi me- e Fernando Palha Freire (12 anos de prisão). durante o voo, o sequestrador proferiu
com dois revólveres calibre 38, penetrou tralhada, o que impossibilitou a aeronave Essa foi a qualificação resumida dos violento discurso contra o governo do
na cabine de comando e determinou o de taxiar. Em brilhante e ousada operação participantes do sequestro abortado: Brasil; apurou-se também que ele estava
desvio da rota para Havana. Observou-se, militar, o avião foi retomado, tendo sido Jessie Jane, solteira, 22 anos, sem pro- sendo procurado ativamente pela Polícia
ainda, que Clóvis conduzia dois pequenos presos os sequestradores e libertados fissão definida, natural de Minas Gerais; brasileira, pelo fato de haver desviado
frascos: um deles, ora na mão ora no todos os tripulantes e passageiros. Na Fernando Palha Freire, solteiro, 21 anos, vultosa importância da Universidade Fe-
bolso; e, o outro, preso em seu blusão por refrega, foi gravemente ferido um dos sem profissão definida, natural do estado deral de Belo Horizonte, para destiná-la à
alfinete. Os frascos, que ele declarou que sequestradores, que veio a falecer, alguns do Pará; Colombo Vieira de Souza Júnior, subversão no país. No desembarque em
continham nitroglicerina, só apareceram, dias depois, no Hospital de Aeronáutica solteiro, 22 anos, sem profissão definida, Havana, o sequestrador informou ao oficial
evidentemente, no momento do sequestro. do Galeão, para onde havia sido removido. natural do estado de Goiás; Eiraldo Palha cubano que havia subido ao avião, que o
As armas estavam acondicionadas dentro O IPM instaurado pelo Ministério da Freire, solteiro, 25 anos, estudante, natural frasco continha apenas loção para cabelo
dos falsos curativos e do gesso. Aeronáutica concluiu que os sequestra- do estado do Pará, que faleceu poucos dias e que não dispunha de outras armas!
O Encarregado do IPM instaurado OITAVO SEQUESTRO A aeronave mudou a sua rota para dores não foram considerados criminosos depois da retomada do avião, quando ainda Na semana seguinte, a imprensa cario-
pelo Ministério da Aeronáutica apurou 14 de maio de 1970 Georgetown, aonde, após ter sido re- primários, pois cometeram uma série de se encontrava em tratamento no Hospital ca publicou uma notícia referente à esposa
que o sequestrador era radiotelegrafista, O passageiro de nome Clovis Michels abastecida, foi permitido (pelo próprio crimes, partindo da filiação a uma orga- de Aeronáutica do Galeão. Era irmão do do sequestrador que, desconhecendo as
nascido em São Paulo e casado. Conso- embarcou em Por to Alegre no avião sequestrador) o desembarque de todos os nização subversiva (Aliança Libertadora sequestrador Fernando Palha Freire. ligações subversivas do marido, entrara
ante depoimento dos próprios familiares Boeing 727, prefixo·PP-SMC, pertencente passageiros e também dos Comissários de Nacional – ALN), identidades falsificadas, DÉCIMO SEQUESTRO na Justiça com uma ação de anulação de
do sequestrador, Joaquim Baptista era um à VASP, com escalas em São Paulo, Rio Bordo, permanecendo somente um deles roubos de residência e automóvel, assaltos 4 de julho de 1970 casamento. Carlos Alberto de Freitas era
doente mental e já havia tentado o suicídio de Janeiro (onde haveria pernoite), no dia no avião. Depois de outro pouso técnico em a estabelecimentos bancários, culminando Nessa data, às seis horas da manhã, natural do estado de Minas Gerais, casado,
por duas vezes, tornando-se incompatível seguinte, Brasília e, finalmente, Manaus. O Curaçao, a aeronave aterrou em Havana, com a tentativa de sequestro do Caravelle. o passageiro identificado posteriormente 28 anos e professor de filosofia.
em sua própria família. citado passageiro, ao embarcar em Porto quando, então, o sequestrador foi retirado Participaram, ainda, de treinamentos clan- como Carlos Alberto de Freitas, embarcou CONSIDERAÇÕES FINAIS
Não havia explosivos com o se- Alegre, estava com um braço engessado, do seu interior, tendo antes os revólveres destinos de tiro e de instrução relativa à em Belém, no avião tipo YS-11 (Samurai), A Pirataria Aérea passou a ser um
questrador, embora ele tivesse infor- tendo comentado ter sido vítima de um e os dois frascos sido apreendidos pelas fabricação de explosivos caseiros. prefixo PP-CTJ, pertencente à Cruzeiro delito internacional, sendo crime contra a
mado que os tinha aos tripulantes no acidente automobilístico e que seguia para autoridades militares cubanas. O grupo efetuou o sequestro com três de Sul, e que tinha a cidade de Macapá Humanidade, criando um clima de apreen-
ato da tomada da aeronave. O único Manaus, a fim de assumir a função de Uma novidade surgiu nesse seques- armas: uma pistola calibre 45 e um revólver (Amapá), como local do primeiro pouso. são e insegurança para os passageiros e
passageiro que seguiu com o avião médico para a qual fora nomeado. Naquele tro: o sequestrador, no dia seguinte à che- calibre 38, que foram conduzidos por Jessie Com aproximadamente 50 minutos tripulantes e, em consequência, compro-
até Havana foi identificado como Luiz momento, foi notado que ele trajava-se gada em Havana, foi visto na via pública Jane presos ao ventre e cobertos por uma de voo, já estando a aeronave no tráfego metendo a confiança no transporte aéreo.
Adamo Nucci, que se dizia hippie, mas com roupa branca característica de mé- pelos próprios tripulantes brasileiros. O camada de Vulcan-espuma para simular visual para o pouso em Macapá, o passa- A surpresa, o pavor e a covardia
que nenhuma participação teve no ato dico (jaleco). autor do sequestro, conforme apurado no gravidez; a terceira arma, que era uma geiro, penetrando na cabine de pilotagem, com que os sequestros de aeronaves são
de Pirataria Aérea. Era outro desequi- Durante toda a viagem, foi bem ob- IPM, foi o estudante brasileiro, solteiro, pistola tipo Beretta, calibre 6.35, foi trans- tendo numa das mãos um frasco que dizia praticados, classificam esse delito como
librado mental, e somente quis dar servado pelos passageiros e tripulantes, Clóvis Michels, procurado pela Justiça portada no sapato de Eiraldo Palha Freire. conter nitroglicerina e, na outra mão, uma permanente perigo às coletividades que
um passeio, conforme esclareceu ao notando-se mesmo que ao desembarcar Militar brasileira e com prisão preventiva A relação dos 40 presos políticos que garrucha, ordenou ao Comandante do avião estão habituadas a se utilizarem do trans-
Encarregado do IPM. no Galeão fez questão de se fazer notar já decretada. deveriam ser libertados foi colocada dentro que rumasse para Havana. porte aéreo comercial n
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ANATOMIA DE UM CRIME
Raul Galbarro Vianna
Cel Av
raulgvianna@gmail.com

31 de março de 1964 Por oportuno, faço aqui uma ligeira interceptado por ele, conduzindo em uma episódio, buscando interpretar em meus
Decolamos bem cedo de Campo Gran- pausa para registrar uma realidade que a das mãos uma pequenina chapa triangular pensamentos certas atitudes do ser huma-
de para São Paulo, na aeronave B-25 5117, mim causava – e sempre causou – muita metálica e dizendo: – Tenente, o avião foi no. Nunca poderia imaginar conduta tão
comandada pelo Cap Av Ernani, sendo eu estranheza e perplexidade: a posição geo- sabotado!. Fiquei surpreso e espantado e vil e ignóbil, partindo de uma pessoa que
o outro piloto. gráfica da pista de Fortuna situava-se no fomos ao encontro do Puget, que já havia desfrutara da atenção e do respeito de meus
Após três horas de voo pousamos terreno com uma cabeceira na Bolívia e ou- feito o Plano de Voo e vinha em nossa dire- tios e primo, em cuja casa ficou hospedado
em Congonhas (SP). Sendo uma missão tra no Brasil. Ao que se saiba, nunca houve ção. O sargento prosseguiu sua narrativa: em Corumbá, para que não ficasse confina-
de correio, após cumprirmos todas as qualquer ocorrência de atrito ou discórdia a ao acessar o tanque de óleo do motor direito do em quartel, justamente por apreciar seu
formalidades e adotarmos as providências respeito. Entre nós o que ocorria eram goza- para completar o reabastecimento, a tampa perfil respeitoso e comedido.
cabíveis junto ao posto CAN, caminhávamos ções, quando, de forma jocosa, afirmava-se do tanque saltou perto de seu rosto em Lembrava-me de algumas viagens ao
pelo saguão do aeroporto quando encontra- que uma pane ou eventual pernoite no lado razão da alta temperatura. Por essa razão Rio de Janeiro quando, por alguma razão
mos, casualmente, um coronel do Exército boliviano proporcionaria diárias em dólares. fora checar visualmente o alojamento do ou compromisso assumido, era necessária
(nosso conhecido, em razão de eventuais Entretanto por paradoxal que possa parecer, trem de pouso, em baixo do motor direito, e nossa presença bem cedo na segunda-feira,
passagens suas por Campo Grande). a torcida e o empenho era justamente para constatou a existência de uma pequena pla- e chegávamos no domingo pela manhã. Eu
Nesse encontro fortuito procurei man- que isso nunca acontecesse, uma vez que ca metálica ali colocada intencionalmente passava então mais tarde, de carro, com
ter-me discretamente afastado de ambos, provavelmente haveria sempre alguém para, para bloquear a válvula by pass, obstruindo, um amigo, para buscá-lo e irmos à praia
uma vez que a distância (antiguidade) que maldosamente, duvidar da veracidade dos com isso, a passagem do óleo para o motor. todos juntos, uma vez que ele não dispunha
me separava do Cap Ernani era de algumas fatos, por mais verdade que fosse. Daí De modo imediato reformulamos tudo de conhecidos ou amigos na área e, inclu-
várias páginas do tico-tico, enquanto em porque nunca houve qualquer episódio e, após uma pequena pausa nas ações e sive, dormia no avião. Acresce, ainda, que
relação ao coronel é dispensável qualquer relacionado ao assunto. uma rápida mesa redonda, o Puget – con- muitas vezes fora meu copiloto em diversas
comentário ante qualquer almanaque. Retomando o foco da narrativa, havia tendo seu sentimento de revolta e indigna- missões de T-7 ou C-45, prática que adotá-
Passado algum tempo, nos despedimos sempre o mesmo registro nos relatórios ção – decidiu prudentemente pelo retorno vamos rotineiramente na nossa Unidade, em
do coronel e efetuamos as ações necessá- de voos anteriores, em que constava a a Campo Grande. Certamente o autor da razão do reduzido número de pilotos para
rias junto aos órgãos operacionais, após o existência de uma indicação errada da tem- façanha estaria acompanhando o desen- dar conta do elevado número de missões a
que decolamos de volta a Campo Grande. peratura do óleo no termômetro do painel, rolar dos fatos, aguardando notícias, tais ser realizado, o que acarretava uma espan-
referente ao motor direito, sugerindo pane como a não chegada do avião a Corumbá tosa média mensal sistemática (sempre na
3 de abril de 1964 do instrumento, o que nos causou profunda ou a queda de um avião no Pantanal, uma faixa de 80 e 90 horas, por piloto). Todo esse
Ao fim da madrugada, decolamos de estranheza, uma vez que, nesse dia, não era vez que certamente sabia que o avião não quadro veio a sedimentar uma respeitosa
Campo Grande no C-45 1362 para realizar somente a temperatura do óleo que se nos dispunha de passo bandeira e, dessa forma, amizade, a qual se sustentava rigidamente
o CAN Oeste, que atendia às necessidades mostrava alta, posto que a pressão do óleo, não voava monomotor. no entorno, principalmente as pessoas que, hangar. Após vários vai-e-vem e incertezas, nos limites do regulamento militar.
de algumas pequenas unidades do Exército, por seu turno, se apresentava baixa, como Assim, mantivemos o Plano de Voo por qualquer razão, se aproximavam do uma única certeza: a placa desapareceu! O fato é que essas narrativas conver-
isoladas de tudo e de todos ao longo da o previsto para o desempenho do motor mentiroso para Cáceres. Decolamos e, ao avião. Oficialmente tínhamos regressado Voltamos à Sala do Comando. Am- gem sempre para um mesmo ponto... de
fronteira com a Bolívia. Nossa tripulação era naquelas condições. invés de aproarmos para Cáceres, regressa- para pesquisar o desempenho estranho biente tenso, carregado! Durante aquele interrogação: O que leva uma pessoa a sa-
comandada pelo 1º Ten Av Puget, sendo eu o Assim, com um olho no padre e outro mos a Campo Grande (felizmente a meteo- do motor, com indicações absolutamente pequeno espaço de tempo pouquíssimas botar um avião, que conduzia um sargento
outro piloto, e o 3° sargento Almir, o mecânico. na missa, decolamos naquela manhã rumo rologia ajudou e o tempo estava totalmente discrepantes. pessoas tiveram acesso ao avião, dentre mecânico, colega seu, chefe de família, pai
Essa Linha partia de Campo Grande, a Corumbá, aonde chegamos após 1h15 de aberto). No painel de instrumentos, tudo Em seguida fomos ao encontro do elas, é evidente, o próprio sabotador, e que de uma pequena criança? Passado algum
pousava primeiramente em Corumbá, se- voo. Já no solo, enquanto cuidávamos das dentro dos conformes. A etapa era minha e Cap Ernani, Comandante da Esquadrilha viríamos a descobrir logo depois tratar-se tempo, soube – sem qualquer comprova-
guindo, após, para Cáceres, uma pequena ações operacionais na Sala de Tráfego, a fim ficara combinado que seria feito um pouso de Adestramento. Nosso objetivo era ten- de um segundo sargento, pessoa totalmente ção – que durante a fase de interrogatório
cidade à margem esquerda do Rio Paraguai. de nos inteirarmos das condições meteo- bem curto em Campo Grande. Eu pararia o tar flagrar quem ia retirar a placa do lugar. insuspeita, não só por sua competência que resultou em sua cassação, em Santos,
A partir daí, partíamos para a essência do rológicas na área e na rota, principalmente avião bem antes de atingir o meio da pista Deixamos essa tarefa de vigilância, momen- profissional como, também, por desfrutar talvez num arrependimento serôdio, ele teria
CAN Oeste propriamente dito, qual seja: quanto às possibilidades de chegada de e o Sargento Almir desceria rapidamente taneamente, a cargo do Sargento Almir, e de respeitável conceito pessoal. Após ser declarado: – A única coisa que eu lamento
apoio aos pelotões de fronteira – quatro alguma frente fria procedente da Bolívia e recolocaria a placa no lugar encontrado, fomos ao gabinete do Comando relatar um descoberto e preso, adentra a Sala do um pouco é que o Ten Vianna estava a
pequenas unidades do Exército, subordi- – para cuja fronteira nós deveríamos pros- dando a ideia de que nada fora constatado resumo da ópera, sem de leve suspeitar que Comando o 1º Ten Av Medeiros (falecido bordo!.
nadas ao Batalhão de Fronteira sediado em seguir – o Sargento Almir acompanhava os pela tripulação. o Comandante pudesse de alguma forma há bastante tempo), empunhando a tal pla- E eu termino este relato – para conhe-
Cáceres. O mais afastado era Casalvasco; pormenores do reabastecimento. Assim foi feito. Chegamos ao pátio e estar envolvido na ocorrência – o que bem quinha, que havia sido jogada ali pela janela, cimento e meditação das atuais gerações
o mais próximo, Corixa. Os restantes, Porto Passados alguns minutos, quando já estacionamos o avião no prolongamento do mais tarde viria a se confirmar, com sua por alguém, em algum momento. – parafraseando um conhecido e renomado
Esperidião e Fortuna, completavam o obje- me dirigia ao avião, um pouco antes de lado direito externo do hangar, e passamos a prisão e destituição do Comando. Puget e eu Foi a última vez que vi o sargento, personagem humorístico televisivo: – Não
tivo de nossa missão. alcançar o pátio de estacionamento, fui observar atentamente tudo o que se passava saímos da Sala do Comando e voltamos ao mas jamais pude esquecer-me dele e do precisa explicar... eu só queria entender! n
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MAESTRO
José Pereira Carneiro
Cel Av
jospcar@hotmail.com

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aeronave C-118, Douglas DC-6 B tos do 3º Esquadrão de Transporte Aéreo superfície (aru), que teimava em colar nas Bem mais tarde, servindo na Amazônia res ainda incentivaram o deslocamento de que os gases liberados pelos bovinos nas
versão passageiro, foi empregada (ETA 3), dotado de 18 aeronaves C-47, copas das árvores. e voando outras aeronaves, conheci locali- famílias do sul do país para a região. Essa pastagens criadas na região aumentam a
pela Força Aérea Brasileira entre Douglas DC-3, e de outras de menor porte. A chegada nessas localidades distan- dades remotas e fronteiriças guarnecidas visão estratégica resultou no surgimento, camada de ozônio, como se os bovinos
1970 e 1975, e designada para o 2º/2º Ali tive a felicidade de conhecer o Brasil e a tes era ansiosamente esperada e o pouso por Pelotões Especiais de Fronteira, como em plena Floresta Amazônica, de cidades dos demais países não emitissem gases.
Grupo de Transporte situado na Base Região Amazônica. Na ocasião pude com- uma festa! Realizávamos um trabalho Palmeiras do Javari, Japurá, Estirão do como Lucas do Rio Verde e Sorriso, que Várias instituições procuram influen-
Aérea do Galeão. Seus primeiros pilotos provar a dedicação dos especialistas da- útil e prazeroso ao levarmos médicos, Equador, São Joaquim e outras. Ali tra- é considerada a capital brasileira do agro- ciar a opinião pública, passando a ideia
e mecânicos fizeram curso na VARIG. Em quela Unidade, disponibilizando diariamente enfermeiros e remédios às populações balhavam militares abnegados em sua negócio. Elas ostentam um índice de de- de que nossa Amazônia deve permanecer
resumo e como principais características, dezenas de suas aeronaves para o voo. desassistidas e carentes. Nas viagens missão patriótica e de sacrifício. Esses senvolvimento humano (IDH) semelhante intacta, atuando como pulmão do mundo.
a aeronave era dotada de quatro motores, Nas primeiras missões, tinha como encontrávamos índios que eram realmente locais dependiam e dependem da presença ao de países do Primeiro Mundo. Se assim fosse, seria justo que os demais
potência unitária de 2.400 HP, conduzia companheiros de cabine pessoas que nun- índios. atuante e continuada da FAB. O interesse de outros países e de países ressarcissem o Brasil para que
82 passageiros, cruzava a cerca de 450 ca vira antes. Oficiais antigos, alguns já com Voando no ETA 3 e em outras Uni- O conhecimento da Amazônia por nós organizações estrangeiras na Amazônia continuassem a respirar, pagando dezenas
quilômetros por hora e tinha autonomia a cabeça branca, eles muito me ensinaram. dades participei de missões do Projeto brasileiros poderá enterrar o mito de Ama- brasileira vem de longa data, mas tem de bilhões de dólares ou de euros ao ano,
de 7.600 quilômetros. O DC-6 B foi usado Como eram experientes! Conhecedores Rondon, transportando universitários de zônia intocável, defendido por interesses se acentuado nos últimos anos. Usam a o que não ocorre. Usam formadores de
por várias empresas, entre elas SAS e profundos da Amazônia. Ao voarmos por diversas áreas para o interior do Brasil e poderosos e contrários à unidade territorial proteção do meio ambiente e a preserva- opinião constituídos por parte de uma im-
VARIG. Na SAS, foi a primeira aeronave vários dias em aeronaves com precários da Amazônia. Aqueles jovens, de volta para e à exploração das riquezas nacionais em ção da Floresta Amazônica como pretexto prensa irresponsável e impatriótica, assim
transportando passageiros a cruzar o instrumentos de navegação, sem piloto suas cidades, propagavam a realidade das proveito do nosso povo. Eles, certamente, para intervir em nossos assuntos internos, como se valem de instituições religiosas
Atlântico Norte. Quando chegaram para a automático e sem radar, eles encontravam regiões visitadas. Por essa razão, julgo já conhecem a biodiversidade e a riqueza afrontando claramente nossa soberania. que, supostamente, protegem índios,
FAB estavam bastante usadas e degrada- pequenas aldeias e povoações remotas. imprescindível a continuidade do Projeto do subsolo, onde se encontram minerais Para conseguir seus objetivos de reservar alardeados por eles como os legítimos pro-
das, com mais de 40.000 horas de célula. Informavam que os mapas aeronáuticos Rondon na Região Amazônica, para o es- estratégicos e raros. as imensas riquezas do solo e do subsolo prietários da terra, afirmação que não en-
Depois da operação na FAB foram doadas eram imprecisos e continham falhas. Es- clarecimento da população brasileira sobre Conhecedor dessa vulnerabilidade, da vasta região e explorá-las em seu contra suporte na história desses povos em
ao Paraguai. tavam sempre certos ao afirmar que, após aquela extensa área e para o treinamento de visando estimular o povoamento e a ocupa- benefício, utilizam argumentos diversos, nenhuma parte do planeta. Levando esse
Em 1971, após mais de cinco anos cinco minutos de voo, encontraríamos uma tripulações. O Projeto Rondon leva o nome ção da Amazônia, o governo militar iniciou assim como evitar o aquecimento global, raciocínio ao extremo, o atual proprietário
como instrutor de voo em Pirassununga, pista de terra ou de grama e à direita de um e homenageia o venerável marechal de ori- a construção da rodovia Transamazônica, não alterar o clima do planeta, proteger de um apartamento em Ipanema no Rio
fui transferido para a Base Aérea do Galeão, rio. Muitas vezes, a visibilidade tornava-se gem indígena, que ligou nossas fronteiras providência abandonada pelos governos povos indígenas etc. Alguns argumentos de Janeiro, fruto do seu trabalho durante
passando a concorrer ao quadro de pilo- mais difícil pelo surgimento do nevoeiro de usando telégrafo. democratas que se sucederam. Os milita- chegam ao ridículo ao afirmar, por exemplo, anos, não seria o dono desse imóvel. Ele
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pertenceria ao povo Tupi-Guarani. Usam nais. Na ocasião, houve até manifestação pelo Instituto Chico Mendes. Todos esses T-6. Em sua operação tive apenas alguns missões, decolávamos de Manaus à meia fiação. O infrator ficou em Brasília com o
personalidades para emitir opinião sobre indignada da modelo Gisele Bündchen. governantes contrariaram frontalmente a incidentes. O avião era dócil de comando, noite e, em voo direto, ao nascer do sol, mico e tudo mais!;
assunto que desconhecem, repercutindo Nenhuma nação abre mão de suas Constituição, comprometendo nossa so- tornando o voo uma grande satisfação. chegávamos a Porto Alegre. – A pane em Brasília, exigia troca de
em uma população pouco esclarecida. riquezas. Na conquista do oeste, os berania e a unidade territorial. Cometeram Entretanto, devido à falta de suprimen- Quando a aeronave foi doada ao Pa- um dos motores. Após verificar o manual
Com a participação de índios, im- Estados Unidos definiram como uma de crime de lesa-pátria. to e ao desgaste natural pelo longo tempo raguai fomos designados para ministrar de voo, optou-se pela decolagem trimotora
pedem a construção de hidrelétricas ou suas Políticas de Estado a exploração do A Reserva Raposa Serra do Sol, com de uso, foi apelidado de maestro: em cada instrução aos pilotos. Em vinte e oito dias para o Galeão. A troca na sede seria mais
outras ações de governo necessárias ao seu território do Atlântico ao Pacífico. Na apenas 20 mil índios, tornou-se uma região parada um conserto! Tornou-se indesejado formamos sete comandantes. A missão fácil. O manual permitia o translado trimo-
desenvolvimento da região. Setores do ocasião, passaram por cima de nações de potencial conflito, agravado pela recente nos aeroportos por deixar resíduos de óleo foi simplificada, uma vez que os pilotos tor, mas os parâmetros eram considerados
próprio governo contribuem para alimen- indígenas em batalhas memoráveis. Es- invasão de venezuelanos. Nesse episódio, o onde estacionava. A infraestrutura aero- voaram Eletra. sobre aeronave nova, pouco tempo de voo
tar esse projeto alienígena. Todas essas ses povos foram confinados em reservas Barão do Rio Branco revirou-se e vomitou portuária o recebia com maus olhos por Na operação dessa aeronave ocorre- e em campo menos elevado do que Brasília.
instituições e pessoas atendem a interes- convenientes ao governo, tal como ocor- em seu túmulo, passando a sonhar com despejar nos terminais um grande número ram alguns fatos pitorescos: Solicitada, a operação foi autorizada pelo
ses poderosos, recebendo fortunas para reu com os Apache, Comanche, Navajo, a Bandeira Nacional sendo hasteada em de passageiros que usavam os serviços – A missão noturna consistia no Comando do Transporte Aéreo (COMTA).
exercer esse papel vergonhoso e nefasto Cherokee, entre outros. Assim, os Esta- um mastro de mogno de trinta metros de sem nada pagar. transporte de oficiais aviadores e de outros O translado, mais do que uma temeridade,
aos interesses nacionais. Normas absur- dos Unidos transformaram-se na maior altura, fincado no topo do Monte Roraima. Trabalhando inicialmente na manuten- Quadros, que estavam cursando e Escola foi uma irresponsabilidade. Uma simples
das do próprio governo determinam que nação da Terra. Essas nações indígenas Esses governantes deveriam saber que ção, conheci suas manhas e exigências. de Comando e Estado-Maior da Aeronáu- ocorrência em outro motor, em qualquer
brasileiros não podem entrar nas reservas se integraram à sociedade, passando a uma nação se concretiza pela existência Nas inspeções regulares, mecânicos ex- tica (ECEMAR), do Rio de Janeiro para fase do voo, resultaria em acidente grave.
indígenas. respeitar suas leis e lutaram ao lado dos de um território, de uma população e pelo perientes e dedicados pareciam formigas, São José dos Campos. Uma pane na cor- Irregularidade maior ainda, uma vez que
Madeiras nobres como o mogno são demais cidadãos para a defesa nacional, reconhecimento internacional. verificando os diversos sistemas. Nas rida de decolagem forçou sua abortagem. os pilotos eram os oficiais de operações
exportadas das terras indígenas. A situa- quando solicitadas. A revisão da demarcação das terras inspeções maiores, o cheque final era feito Trocamos de aeronave e no início do táxi e de segurança de voo do Esquadrão.
ção lembra a extração do ouro das Minas Os recursos naturais são finitos e a indígenas é urgente e imprescindível no deslocamento Galeão-Porto Alegre-Ga- o mecânico informou: – Capitão, somente Entretanto, após uma decolagem angus-
Gerais nos séculos XVII e XVIII, quando era população da Terra é e será cada vez mais para manter a unidade nacional, explorar leão, com arremetida na final do Salgado a metade dos passageiros está a bordo. tiante, a aeronave comportou-se muito
levado para a Inglaterra. carente de alimentos. A área da Amazônia nossas riquezas e evitar conflitos futuros. Filho. Se aprovada, a aeronave era colocada Concluí que a outra metade havia seguido bem. Oficiais do COMTA, alertados sobre
Organizações Não-Governamentais constitui-se na última grande reserva Essa é uma das maiores vulnerabilidades na linha de voo. O C-118 exigia cuidados para a rodoviária!; o risco da missão que haviam autorizado,
(ONGs), como WWF e Greenpeace têm agricultável do planeta. para nosso país sobre segurança, e que constantes sobre o funcionamento dos – Transportávamos universitários do a cada dez minutos queriam saber sobre o
atuação destacada na proteção da Amazô- O Brasil tem uma extensão territo- envolve a área militar. Não se vislumbra seus inúmeros cilindros, assim como era Projeto Rondon de Manaus para o Rio de andamento do voo, se estava tudo normal.
nia e prestam serviço a outros países. Em rial 8.511.965 quilômetros quadrados. nos atuais governantes de todos os níveis preocupante a operação em alguns locais. Janeiro, com pouso em Brasília. O Coman- Mais que normal, o avião tinha desempe-
17 de outubro de 2017, uma aeronave da As terras indígenas somam 1.173.873 condições morais e intelectuais para iniciar Por exemplo, ao aplicar o reverso em La dante da aeronave, que também era o Co- nho magnífico. Vazio, com a potência bem
Greenpeace se acidentou na região e uma quilômetros quadrados. Assim, as terras essa empreitada. Encolhidos debaixo da Paz, tendia a parar os motores pela rare- mandante do Esquadrão, informara antes ajustada e em nível mais elevado, ultra-
cidadã sueca faleceu. Estava realizando reservadas aos índios representam 13,8% cama, afagando privilégios, não enxer- fação do ar, o que dificultaria a frenagem da saída de Manaus que não permitiria que passou um AVRO da mesma Unidade, que
voos de observação, fato aceito passiva- de toda nossa área e 23% do território gam um palmo além do próprio umbigo. e o controle no solo. os estudantes levassem animais, tal como decolara pouco antes, e cujo Comandante
mente por nós. Quem deve realizar voos de amazônico, onde se estima que vivam Não são estadistas! É improvável que A for te demanda de passageiros era comum nessas viagens, mas proibido era também o novo Comandante do Esqua-
observação em território nacional é nosso menos de 500 mil índios. A extensa área lutem para que o Brasil alcance a estatura influenciava a tripulação para transportar pelo IBAMA. Após o pouso em Brasília, ao drão. Por um período, voamos essas duas
governo. Essas ONGs não interferem, por foi demarcada por forte pressão de outros estratégica exigida por sua importância um número maior do que a capacidade sair da cabine atrás do Comandante, um aeronaves. Tendo pousado bem antes do
exemplo, na exploração de minérios e des- países. Governantes fracos e medíocres se entre as nações desenvolvidas. A situação normal. Desse modo, era comum trazer mico passou rente ao seu rosto, voando de AVRO, o Comandante chamou-me depois
truição de florestas do Canadá e do Alasca, submeteram a essa pressão. é agravada pela desorganização atual do uma penca de crianças nos bancos, au- um bagageiro ao outro. Contendo o riso, em sua sala para dizer que respeito era
como se pode observar em Discovery A Reserva Raposa Serra do Sol – Estado brasileiro e pela existência de um mentando o número de pessoas a bordo. notei que o Comandante estava furioso. bom... e ele gostava!
Channel, na série Febre do Ouro. imensa área contínua e maior do que vários extrato social inculto e, lamentavelmente, Esse procedimento, embora respeitasse o O mico, assustado, fugiu para a cabine e O apelido de Maestro: em cada parada
Em 19 de setembro de 2017, houve países da Europa, situada nas fronteiras doentio. O caminho para a solução é longo, peso máximo, era condenável. sumiu embaixo do painel de instrumentos. um conserto, mais do que um desrespeito e
uma histeria nacional e internacional com a Venezuela e a Guiana, foi demarca- passando por mudanças nos currículos es- Achava gratificante transportar estu- Somente foi encontrado após três horas, uma confusão ortográfica, foi uma grande
quando o Presidente Temer extinguiu por da pelo ex-Presidente Fernando Henrique colares, buscando esclarecer a população dantes do Projeto Rondon. Em uma das obrigando sua busca no meio de toda a injustiça para com o C-118! n
Decreto a Reserva Nacional de Cobre e (1994) e homologada pelo ex-Presidente para que apoie vigorosamente a revisão,
Associados (RENCA). O Decreto visava Lula (2005). Em 2009, o Supremo Tribunal mostrando-se digna da herança territorial
regulamentar a exploração dos recursos Federal (STF) decidiu em favor dos índios recebida dos nossos antepassados e
minerais existentes na área. A reserva foi a desocupação da área pelos agricultores, merecedora do presente de uma natureza
criada no governo militar para explorar no conflito com os arrozeiros pela posse generosa.
futuramente esses minérios, considerados da terra. Os arrozeiros estavam assentados Em 1972, fui transferido para o 2º/2º
estratégicos para a segurança nacional. O na região desde a década de 1970. Nas Grupo de Transporte, passando a voar
fato evidencia o grau de desinformação últimas horas do seu governo (2016), a ex- o C-118. Esse foi o avião que mais voei
geral sobre o assunto e o interesse em -Presidente Dilma decretou que a Reserva enquanto permaneci na ativa, salvo as
impedir a exploração das riquezas nacio- Biológica de Manicoré seria administrada horas voadas na aeronave North-American

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UM ACIDENTE EM CACHIMBO Ten Brig Ar Masao Kawanami
maskaw@hotmail.com

Foto: Sgt Johnson Barros


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m 29 de setembro de 2006, tivemos apoio, houve necessidade de embandeirar o sível. O Comandante da Base Aérea de São 2º Ten Esp Av Eron Bezerra, o 2º Sargento daquele Subcentro de Coordenação de Busca ximadamente trinta quilômetros, conforme
um acidente de grandes proporções e motor esquerdo, se não me falha a memória, Paulo, onde estava sediado o 2º/10º GAV, QAV Shiro Suga, mecânico, e eu, encarre- e Salvamento. Logo ao tomar conhecimento determinado pelo subcentro, considerando
triste memória, como sói acontecer, e então os pilotos aproaram para aquele Cel Av Roberto Faria Lima, em coordenação gados de operar o H-13 no Destacamento da situação, fez uma reunião com todos os as informações reportadas pela aeronave
quando há o envolvimento de aeronaves aeródromo, em condição monomotor. com o Comando do Esquadrão, determinou de Aeronáutica do Cachimbo na busca da tripulantes, o pessoal do efetivo do Desta- acidentada: cinco minutos do Cachimbo,
de transporte de passageiros. Foi aquele Entraram em contato com o Centro Ma- que fosse preparado um helicóptero H-13 a aeronave acidentada, e possível resgate de camento, bem como com todo o pessoal voando monomotor.
ocorrido entre a aeronave da empresa de naus por radiotelegrafia e foram reportando ser transportado para Cachimbo, antevendo sobreviventes. da REAL presente: tripulantes, inclusive No segundo dia de busca, o Cap Montei-
transporte aéreo GOL, procedente de Manaus toda a progressão do voo: que Cachimbo a necessidade daquele tipo de aeronave com O C-82 decolou às 02h30 local, 05h30 Z. comissários, mecânicos e pessoal de apoio ro determinou que o helicóptero suspendesse
para Brasília, e a aeronave LEGACY, que havia estava na proa; que estava cruzando o Rio o objetivo de complementação da missão Chegamos a Campo Grande ao nascer do e todas as demais pessoas envolvidas. Ao os voos para poupar as horas de voo e o
decolado de São José dos Campos com Teles Pires; que estava perdendo altura com resgate. Não havia condição do H-19, sol. Acompanhando o Comandante do C-82, iniciar a reunião disse, textualmente: – Para combustível disponíveis de manutenção; e
destino a Manaus. A meio caminho entre Ma- porque o MD estava perdendo potência; que helicóptero maior e mais adequado, chegar fomos nos apresentar ao Comandante do aqueles que não me conhecem, eu sou o Cap resguardar a aeronave de eventuais panes
naus e Brasília, as aeronaves chocaram-se a temperatura do óleo estava no limite; que a Cachimbo voando nem transportado em então Destacamento, Ten Cel Av Ary Sayão Silvio Monteiro, Comandante da 1ª Seção e possíveis incidentes, porque ela iria ser
em voo; a aeronave da GOL cumprindo linha estavam avistando a Serra do Cachimbo; tempo útil. Ao mesmo tempo, foi acionado o Caldeira, que nos aguardava, mesmo àquela de Busca e Salvamento de Belém, e como provavelmente muito necessária após a
aérea, e o LEGACY sendo transladado para que estavam passando o Rio Cristalino; e 1º GTT, a fim de disponibilizar uma aeronave hora, avisado que estava pelo Cel Faria Lima. o mais antigo dos oficiais envolvidos, pas- localização da aeronave acidentada, como
os Estados Unidos. O LEGACY, com algumas que estavam a cinco minutos do Cachim- C-82 para embarcar um H-13 desmontado. Seguimos imediatamente para Cuiabá para sarei a ser o coordenador desta operação. realmente ocorreu.
avarias, conseguiu pousar no aeródromo de bo. Naquele momento, o radiotelegrafista Eu havia saído no fim do expediente na pernoite. Chegamos a Cachimbo logo ao E passou imediatamente a atuar como tal. Todas as aeronaves com destino a Ca-
Cachimbo, mas infelizmente a aeronave da informou que o avião estava muito baixo, condução da Base para o curso de inglês amanhecer. Naquela mesma noite, o H-13 já estava chimbo eram orientadas a prestarem atenção
GOL caiu sem deixar sobreviventes. na iminência de bater na copa das árvores, (YAZIGI), e regressaria mais tarde, em outra O Destacamento do Cachimbo estava montado para realizar o voo de experiência quanto à possibilidade de avistamento da
Este fato fez-me lembrar de outro e que iria então travar o manipulador do condução. movimentado, com aeronaves DC-3 e C-46 logo cedo no dia seguinte, e ser engajado aeronave acidentada.
acidente ocorrido há quase 60 anos, tam- transmissor. O Centro Manaus acompanhou Sem saber de nada, cheguei às 23h30 da REAL, C-45 e CA-10 da Base Aérea de na busca, conforme havia determinado o LOGÍSTICA
bém nas proximidades do Cachimbo, com todo esse desenlace até ao momento em no ônibus da Base, quando fui acionado Belém, engajadas na busca e no apoio à coordenador. O C-82 do GTT, que transportou o heli-
uma aeronave Curtiss Comander C-46 da que o transmissor silenciou precisamente pelo Oficial de Serviço SAR, a fim de que operação, além do SA-16 que havia decolado, A BUSCA cóptero, o C-46 e o DC-3 da REAL e, even-
empresa de transportes aéreos REAL, de às 20h10 Z, de acordo com aquele Centro. me apresentasse imediatamente para seguir na véspera, de Cumbica. As aeronaves da As buscas foram reiniciadas na manhã tualmente, até os CA-10 Catalina, de Belém,
matrícula PP-AKF. A aeronave transportava 11 passageiros, para Cachimbo num C-82, guarnecendo um REAL transportavam gasolina e óleo. do dia seguinte, tão logo as condições me- transportavam combustível e lubrificantes
O ACIDENTE dois pilotos, um radiotelegrafista e a comis- H-13, e que me dirigisse ao Hangar do ESM. Naquela tarde chegou outro SA-16, pro- teorológicas permitiram. Forte nevoeiro pela em tambores, de Cuiabá para Cachimbo.
Era início de dezembro de 1960. O voo sária de bordo, totalizando 15 pessoas na Por volta de meia noite dirigi-me para o cedente da 1ª Seção de Busca e Salvamento manhã, com o conhecido ARU. Mantimentos e víveres eram fornecidos pela
do AKF havia se iniciado na manhã daquele aeronave, fora a carga, por se tratar de avião hangar pronto para a missão. O C-82 estava sediada na BABE. Nesta aeronave veio tam- Vários voos foram realizados ao longo Base Aérea de São Paulo e transportados por
dia, decolando de São Paulo, do aeródromo misto, passageiro e carga. na porta do hangar, e o H-13 já desmontado bém o Cap Av Silvio Monteiro, Comandante da rota pelas aeronaves engajadas, principal- aeronaves da REAL.
de Congonhas, para Manaus, com escala ACIONAMENTO DO 2º/10º GAV sendo preparado para embarque, levando su- daquela seção, como passageiro, por estar mente depois do Rio Teles Pires, na marca- A pista do Cachimbo, embora fosse lar-
em Campo Grande e Cuiabá. De Cuiabá fez O expediente na BASP já havia sido primento, incluindo combustível gasolina de 80 indisponível para voo em virtude de estar ção magnética do NDB de Cachimbo. Busca ga e com cerca de 2.000 metros, tinha o piso
plano direto para Manaus, fora de aerovia, encerrado, quando o Esquadrão de Busca octanas, óleos lubrificantes e todo ferramental com o olho esquerdo inflamado; tinha um preliminar e padrão Pente naquele trecho, sobre um terreno pedregoso muito irregular.
sem sobrevoo de Cachimbo. Isto é que se e Salvamento foi acionado. A tripulação de necessários de 1º e 2º escalão, tarefas das tampão encobrindo a visão. A sua vinda, na- particularmente depois do Rio Cristalino. Apenas uma das cabeceiras era melhor para
constituiu no risco. Vigorou a Lei de Brooke. serviço Alerta SAR foi acionada e decolou na- quais participei como Chefe de Suprimento quela condição, foi muito providencial, pois O H-13, também foi engajado, fazendo a pousos e decolagens, com pedrisco e areia,
Quando estava voando no través de quele fim de tarde com destino a Cachimbo, e Manutenção de helicópteros do Esquadrão. como mais antigo... e claro... conhecedor busca padrão Leque, tendo Cachimbo como oferecendo menor risco a danos aos pneus
Cachimbo – ponto mais distante de qualquer para iniciar as buscas tão cedo quanto pos- Embarcaram, constituindo a equipe, o da atividade, passou a ser o coordenador centro, a 500 pés de altura e raio de apro- e trem de pouso.
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No pouso da primeira viagem com com- até à clareira para conversar com o Cmt mentos e a equipe terrestre. A decolagem da É importante registrar quão importante e
bustível do C-82, este teve um pneu danifica- Montagnini e orientar a continuidade da clareira com o último homem da equipe foi providencial foi a iniciativa do Cel Faria Lima
do e somente foi retirado da pista auxiliado operação. Falavam que havia índios bastante quase noturna. Havia necessidade de ganhar de mandar preparar o H-13 para ser trans-
por um velho caminhão, que foi colocado em agressivos, conhecidos como Cinta Larga. altura rapidamente para se ter como única portado de C-82 para Cachimbo, acionando
funcionamento. A água era fornecida pelo Habitavam a região e ainda não tinham sido referência visual as luzes do Destacamento. ao mesmo tempo o Comando Aerotático
rio que passa nas proximidades. A energia contatados pelos indianistas nem pelo então No fim da tarde daquele dia, enquanto Terrestre, a fim de autorizar a vinda de uma
elétrica vinha de uma pequena hidroelétrica, SPI que atuavam à época. Estes fatos justifi- transportavam o pessoal e os equipamentos, aeronave C-82, e conseguindo que a mesma
como falaremos mais adiante. caram o medo dos componentes da equipe. a Polícia Civil emitiu os atestados de óbito e estivesse em Cumbica, vinda da Base Aérea
OUTRAS PROVIDÊNCIAS Embora o Destacamento ficasse locali- uma aeronave da REAL transportou os cor- dos Afonsos em menos de seis horas após
Antevendo a necessidade de expedição no local. Mesmo voando na altura da copa camento. Em seguida, o H-13 levou para o zado no estado do Pará, o local do acidente, pos já acondicionados nas respectivas urnas ser solicitado, por volta das 18h.
terrestre, após a localização da aeronave das árvores em voo quase pairado, foi difícil local o material de sobrevivência: alimenta- ao sul do aeródromo, foi considerado estar para seus respectivos destinos. Os servido- É também impressionante o acompa-
acidentada, foram trazidos do Destacamento a identificação. Somente era possível ver algo ção, barracas de lona, ferramentas de sapa no estado do Mato Grosso. Com isto foi res do governo do Mato Grosso seguiram nhamento do voo em situação de emergência
Xingu – Posto Cap Vasconcelos, funcioná- parecido com um pedaço de asa, apesar do e material para iluminação. O material era possível envolver a Polícia Civil e Militar para Cuiabá. Os membros da equipe do Cel por quase duas horas, entre a aeronave e o
rios mais afeitos a andar em áreas de mata, C-46 ser uma aeronave de porte razoável, lançado no local por outro tripulante (mecâ- (Força Pública) do Mato Grosso, tornando Monteiro não tenho certeza se seguiram no Centro Manaus por meio do operador do con-
embora não fossem mateiros como seria mesmo para hoje, comparando com as ae- nico). O último pouso de regresso à Base foi mais rápida a vinda de soldados do Corpo mesmo dia ou no dia seguinte. Na manhã trole de tráfego aéreo e do radiotelegrafista
de se desejar. ronaves atuais de maior porte. O helicóptero no início da noite. de Bombeiros para auxiliar no translado dos seguinte, o H-13 foi desmontado e preparado da aeronave, bem como as circunstancias
LOCALIZAÇÃO retornou à Base para confirmar o avistamento. No dia seguinte, logo cedo, o H-13 le- corpos, dos legistas, e na elaboração dos para o transporte no C-82. que permitiram o avistamento do local do
No retorno à Base, depois de realizar um EXPEDIÇÃO TERRESTRE vou o Comandante Montagnini, Operações atestados de óbito. CONSIDERAÇÕES acidente: aeronave em curva para a direita, no
padrão de busca em uma das áreas, o SA-16 Imediatamente iniciou-se a organização da REAL, que havia chegado ao Cachimbo O H-13 levou dois a quatro soldados até Esta operação esta sendo relatada es- momento em que o mecânico estava abrindo
tripulado pelo Maj Av Migon, Comandante do de uma expedição terrestre, composta de para sobrevoar o local do acidente. Ao nos à clareira para seguirem ao local do acidente. sencialmente para ser registrada na memória a janela, e a aeronave passando em cima do
2º/10º GAv, e pelo Cap Av Arouca, próximo enfermeiros paraquedistas das tripulações aproximarmos da clareira vimos que o grupo Levaram sacos de despojos para transporte do 2º/10º GAv como mais uma missão rea- local da queda a baixa altura.
à entrada do tráfego, iniciando a preparação dos SA-16 e os mateiros, funcionários do todo que havia ido para o local do acidente dos corpos. Foi transportado, também, um lizada, revestida de algumas peculiaridades. A outra possibilidade de avistamento
do cheque para pouso, o piloto deu toque Posto Cap Vasconcelos do Xingu, que já estava de volta na clareira, em pé, enfileira- garrafão de cerca de 30 litros de formol. O acidente ocorreu numa região próxima de teria sido do helicóptero se continuasse o
de campainha para o mecânico dar partida haviam chegado. Formavam um grupo de dos em linha, demonstrando inquietude e Neste transporte, o H-13 ao ganhar altura, fez aldeias indígenas na maioria desconhecidas, padrão de busca em Leque, uma vez que o
no APU (gerador elétrico auxiliar movido por cerca de 10 pessoas. O Chefe da expedição expressão de medo, impressão confirmada a rolha de borracha do garrafão se soltar, e à época, afastadas de qualquer aglomerado comprimento de pernas do leque era de 30
motor a gasolina). ficou sendo o Comandante Varezi da REAL, após o pouso. o formol, muito volátil, encheu a cabine tipo humano, antes da expansão agrícola para quilômetos a partir do ponto de localização
O mecânico sempre abre a escotilha que fez questão de assumir esta função. O Cmt Montagnini foi conversar com bolha da aeronave com o vapor, que ficava o Centro-Oeste. As estradas Cuiabá-Porto da Torre do NDB Cachimbo.
(janela) junto ao compartimento do APU O helicóptero H-13 transportou todo o o Cmt Varezi, junto ao grupo, para saber o preso na parte superior da bolha (cabine de Velho, Cuiabá-Santarém não haviam sido Foi oportuna e muito importante para
por causa da fumaça. Neste exato momento, pessoal, fazendo cerca de três ou quatro que estava acontecendo. Neste ínterim um plástico em forma de cúpula). Com as portas iniciadas. O Destacamento do Cachimbo o desenvolvimento da missão a atuação do
viu pela escotilha algo semelhante a copas viagens até à clareira que ficava a cerca de 25 elemento destacou-se do grupo, entrou no instaladas, o piloto segurou com a cabeça era um ponto de apoio à Rota Rio/Manaus Cap Silvio Monteiro à frente de um grupo
de árvores chamuscadas por fogo; por feliz quilômetros do Destacamento. O pessoal ia helicóptero, trêmulo, transtornado, dizendo: – a porta entreaberta para poder respirar. As (Roriman) com NDB e uma pista de 2.000 muito heterogêneo sobre todos os aspec-
coincidência de a aeronave estar inclinada acomodado da seguinte maneira: dois dentro Me leva embora daqui. Aqui eu não fico mais. portas não poderiam ser alijadas em voo metros aberta sobre um platô pedregoso. tos. Orientou, distribuiu responsabilidades e
realizando uma curva e a janela estar para da cabine e um de cada lado sobre os esquis, O piloto mandou-o descer e ir para junto do devido ao risco de bater no rotor de cauda. Próximo à sua cabeceira ainda passa um tarefas, e principalmente, cobrou a execução
dentro da curva. O mecânico, que estava deitados em maca stock – armação metálica grupo energicamente. Os bombeiros, auxiliados pelos mem- riacho que fornece água potável levada até à com energia, mas mantendo o ambiente de
com fone de ouvido e lábio fone em hotmic mais ou menos anatômica, feita de tubos de O Cmt Montagnini andava de um lado bros da equipe, acondicionaram os corpos caixa d’água através de um carneiro hidráuli- camaradagem e respeito.
(ligados), informou de pronto ao piloto sobre alumínio e entelada. A temperatura elevada e para o outro na frente do grupo, olhando para nos sacos de despojos tratados com formol co, aproveitando a energia de uma pequena No final do relato, não podemos deixar
o que havia visto. O mecânico perdeu o avis- o tempo chuvoso prejudicavam o desempe- o chão, pensativo, e voltou ao helicóptero e os transportaram até à clareira. Foram fei- queda d’água que também acionava uma usi- de mencionar o esforço, a abnegação e o
tamento, mas os pilotos, seguindo informa- nho do helicóptero por perda de potência do dizendo ao piloto do H-13, de forma assus- tas várias viagens transportando os corpos na hidroelétrica, e que fornecia eletricidade espírito de corpo que o pessoal envolvido
ções do mecânico, conseguiram nova visada motor. As decolagens eram corridas sobre os tada: – Traga homens e armas. Tem muito dentro da cabine, e, externamente, amarra- para o Destacamento. Tudo construído pelo demonstrou: os componentes da REAL, os
e, aí, mantiveram a aeronave circulando esquis, em terreno pedregoso coberto com índio por aqui; é melhor levar o Varezi; eu dos nas macas stock para o Destacamento, então Cap Velozo, na montagem do apoio à tripulantes, o pessoal de apoio, incluindo
sobre o ponto, transmitindo imediatamente areia, para conseguir sair do solo. fico aqui com o pessoal e vou até ao avião. seguidos dos bombeiros, materiais, equipa- Rota Rio/Manaus (Roriman). comissários e comissárias, e, em particular,
à coordenação de busca. O helicóptero transportava o pessoal O Cmt Varezi ficou muito abalado com o a atuação do engenheiro Galindo; e o pessoal
O Cap Monteiro acionou o helicóptero e até à clareira e depois o grupo ia pela mata cenário do local, com a aeronave totalmente do Destacamento, desde a cozinheira sempre
este decolou aproando a marcação fornecida a pé; o H-13 voava da clareira em direção ao destroçada, com os corpos mutilados. Já educada e gentil até ao Chefe do Serviço de
pelo Albatroz em contato bilateral. O piloto local do acidente, que distava, em linha reta, haviam decorrido vários dias desde o aci- Proteção ao Voo. Não podemos esquecer
do helicóptero localizou o ponto e plotou o aproximadamente 450 metros (dezessete dente, com muito calor e chuva. Havia muitos a cooperação dada pelos funcionários do
local em relação a uma clareira de pedra com segundos à velocidade de 60 milhas terres- vestígios de saque, com malas abertas, Posto Cap Vasconcelos do Xingu; e foi ines-
vegetação rasteira, através de rumo e tempo tres/hora), para indicar a direção e orientar corpos desnudados, cintos retirados das timável a colaboração prestada pela Polícia
(em segundos) de voo. O SA-16 foi para o o grupo no deslocamento. calças dos tripulantes etc. Não conseguiu Militar do estado do Mato Grosso, incluindo
pouso. O piloto do helicóptero confirmou a O helicóptero manteve-se em voo até conter o pranto. os legistas. Sem o trabalho de todos não teria
plotagem (amarração) do ponto e procurou certificar-se de que a expedição atingiu o De volta ao Destacamento, o Cmt Varezi sido possível o cumprimento da missão. A
ver se realmente a aeronave se encontrava local do acidente para regressar ao Desta- relatou a situação ao Cap Monteiro, que foi todos, nossos sinceros agradecimentos n
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A arte é capaz de expressar e de tornar visível
a necessidade que o homem tem de ir além daquilo
que se vê, pois manifesta a sede e a busca do infinito.
Bento XVI

POR UMA TEOLOGIA


DA ARTE
Papa Emérito Bento XVI o Papa Montini havia celebrado para os qualquer coisa de imprevisível, que nem
Joseph Ratzinger artistas, em 7 de maio de 1964. enfraquece a rigidez e nem exalta, como
Lucio Coco Ao tecer o discurso sobre a arte, o acontece com as potencialidades na obra
Do livro “O Primado do Amor e da Verdade”
papa Bento nunca renuncia àquela que é de arte. De tal modo o belo se torna um
sua posição de fundo ao confrontar os te- complemento necessário, se não impres-
O patrimônio espiritual de Joseph Ratzinger
Bento XVI mas teológicos, ou seja, a relação entre fé e cindível, do verdadeiro. É a outra via que
(Organizadores Hohemberger e Rudy Albino de Assunção) razão. A complexidade da questão dialética se abre na procura da verdade. Não só
é sempre mantida bem presente pelo Papa aquelas da especulação filosófica e da

M
uitas vezes, durante o seu ponti- teólogo: A fé deve enfrentar continuamente pesquisa teológica – a assim chamada via
ficado, Bento XVI tocou no tema os desafios do pensamento desta época, a veritatis – mas aquela a via da beleza, a via
da arte. Às vezes trata-se apenas fim de que ela não se pareça com um tipo pulchritudinis, que é um dos possíveis iti-
de referências em discursos realizados em de lenda irracional que nós conservamos nerários, talvez o mais atraente e fascinante
diversas circunstâncias (viagens, pergun- viva, mas que seja verdadeiramente uma para compreender e alcançar a Deus4. Onde
tas e respostas com o clero das dioceses, resposta às grandes interrogações; a fim tem beleza, tem verdade. Esta é quase uma
audiências), outras vezes, ao invés, ele de que não seja apenas hábito, mas verda- prova a posteriori da existência de uma
situa este tema no centro das suas refle- de – como certa vez pôde dizer Tertuliano1. força criadora na origem de tudo: Onde
xões, particularmente nas ocasiões dos Fé e razão não estão em conflito, mas nascem realidades deste tipo – pergunta-se
encontros com os artistas, em novembro a primeira, se for vivida como serviço à o Papa sobre uma arte que para ele está no
de 2009 e nas mensagens dirigidas às ins- verdade, é capaz de alargar os horizontes coração, a música – existe a Verdade. Sem
tituições culturais da Santa Sé (Pontifício da segunda. Neste sentido, a razão, o uma intuição que descubra o verdadeiro
Conselho da Cultura, Academias Ponti- logos não é só um logos técnico, o logos centro criativo do mundo, tal beleza não
fícias). É o mesmo Papa Ratzinger, além de uma racionalidade ascética e genuina- pode nascer5. Mas igualmente, onde tem a
disto, que situa as coordenadas dos seus mente científica, mas um logos criador. E verdade, tem a beleza. Nessa, de fato, trans-
ensinamentos sobre a arte, colocando-o enquanto tem este caráter mais amplo ele parece o esplendor da luz divina, o reflexo,
em continuidade com o magistério de seus é um logos que é amor e deste modo se como definia Santo Agostinho, da Beleza Das implicações entre fé e razão e arte, ao formar as consciências e educar função ética e moral, na medida em que
predecessores. Neste sentido, a Carta aos exprime na beleza e no bem2. Se o conflito imutável. A via da beleza está na base de entre arte e verdade derivam outras impor- para a virtude. O valor moral da arte é im- esta serve à verdade, tornando-a manifesta
Artistas, de João Paulo II, em 4 de abril de entre fé e razão é, portanto, aquilo que torna uma experiência espiritual que concede tantes observações de Bento XVI. O belo, plícito no seu laço com o verdadeiro e com e perceptível através das diversas formas
1999, e o texto da Mensagem que Paulo acessível a via da verdade, arriscar-se-ia colher o Todo no fragmento, o Infinito no de fato, é a percepção do verdadeiro, mas o belo. E isto é um dado imprescindível, ao por meio das quais ela se realiza e se
VI enviou aos artistas no encerramento do a perder a estrada e acabaria no erro, no finito, Deus na História da Humanidade7. Na o verdadeiro é também o bem, pelo qual a menos em não querer reduzir tal relação a encarna (disciplinas pictóricas, plásticas,
Concílio Ecumênico Vaticano Il, em 8 de sentido etimológico de um errar que não medida em que se faz expressão dessa procura estética é sempre uma busca ética um fato puramente exterior, confinando-a a música, literatura) e, ao mesmo tempo, tem
dezembro de 1965, são documentos pon- conhece fim e destinação. Importante, referência à Transcendência, a arte é sempre e valorativa. A referência etimológica à uma forma de estetismo, isto é, uma busca uma validade teológica, enquanto o grau
tualmente citados por Bento XVI nas suas segundo Bento XVI, é assumir a relação o veículo e o instrumento de um percurso língua grega ajuda o pontífice a esclarecer de si mesmo, do belo, que, separado da de beleza e de verdade que através de tais
intervenções. Também o fato de a Capela entre arte e fé porque a verdade, finalidade, religioso de elevação a Deus, e esta se apre- melhor tal relação. Neste idioma, o adjetivo verdade e da bondade, transforma-se em expressões são alcançadas, remete a um
Sistina ter sido o cenário para acolher os meta da razão, exprime-se na beleza e se senta como uma verdadeira e própria forma kalón significa de fato, indistintamente um percurso que termina no efêmero, na além, a outra beleza, verdade e bondade
artistas, no encontro de 21 de novembro torna ela mesma na beleza3. mística que permite aproximar-se do misté- aquilo que é belo e aquilo que é bom. Tem- aparência banal e superficial, ou até numa que somente em Deus tem a sua perfeição
de 2009, encontra outra importante corres- A abertura ao belo corresponde, assim, rio de Deus8. O sublime da arte, afirmou com -se assim, uma relação intrínseca entre fuga para paraísos artificiais, mas ocultam e a sua fonte última?11.
pondência e ponto de contato na missa, a a um alargamento da faculdade racional. clareza, está no exprimir irresistivelmente beleza e bondade, entre estética e ética. É e escondem o vazio e a inconsistência Para Bento XVI, a arte se configura
saber, que naquela mesma sede (ou lugar) Esta insere naquilo que é somente lógico, esta presença da verdade de Deus9. a verdade mesma, que se revela na obra de interior10. Por isso, a arte tem uma explícita como um percurso de elevação moral e es-
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piritual para Deus, ou seja, parafraseando de admiração diante de todas as culturas e Tradução de Willian Fernandes de Jesus
aquele São Boaventura que ele estudou na todas as civilizações do mundo, seria uma e Rudy Albino de Assunção.
sua juventude, como um itinerarium mentis arte incompleta e impropriamente arte: a 1 Encontro com o clero de Bolzano-Bressanone,
in Deum. E todas as artes constituem uma arte que perde a raiz da transcendência – é em 6 de agosto de 2008.
2 Ibid.
prova deste salto para o Eterno e o Infinito. esta a síntese fulgurante de Bento XVI – não
3 Entrevista concedida aos jornalistas durante o voo
O que são, segundo o Papa Ratzinger, as se orienta mais para Deus, seria uma arte para a Espanha, Viagem Apostólica a Santiago de
Compostela e Barcelona, em 6 de novembro de 2010.
catedrais góticas, senão um testemunho de dividida em dois, perderia a raiz viva; e
4 Mensagem ao Presidente do Pontifício Conselho para
pedra do desejo das almas para Deus12? uma fé que tivesse a arte só no passado, a Cultura, por ocasião da 13ª Sessão Pública dedicada
ao tema Universalidade da Beleza: confronto entre
E as igrejas românicas elas mesmas não já não seria fiel no presente. Deste modo, estética e ética, em 24 de novembro de 2008.
contêm um convite mais íntimo a voltar-se arte e teologia, arte e procura de Deus, são 5 Encontro com o clero de Bolzano-Bressanone, em
para Deus nas formas do recolhimento e estas as instâncias que tornam possível a 6 de agosto de 2008.
6 Sermo CCXVLI, 2: PL 38, 1134.
da oração13? Quantas vezes, pergunta-se expressão artística digna de tal nome, que
7 Discurso por ocasião do encontro com os artistas
ainda o Papa Bento XVI, de maneira apaixo- lhe dão significado, na medida em que se na Capela Sistina, em 21 de novembro de 2009.
nada, os quadros, os afrescos, as pinturas colocam e nos colocam sobre os rastros 8 Audiência Geral, em 18 de novembro de 2009.
9 Audiência Geral, em 31 de agosto de 2011.
nos estimulam a voltar o pensamento a de um Sentido capaz de restituir plenitude
10 Mensagem ao Presidente do Pontifício Conselho
Deus e fazem crescer em nós o desejo de e valor às nossas existências. E mesmo para a Cultura, por ocasião da 13ª Sessão Pública
dedicada ao tema Universalidade da Beleza: confronto
atingir a fonte de toda a beleza?14 Como se disto, pôde dizer Bento XVI dirigindo-se entre estética e ética, em 24 de novembro de 2008.
disse, pela sua formação e pela sua pessoal diretamente aos artistas na Capela Sistina, 11 Ibid.
inclinação, Bento XVI atribui à música um devemos ser gratos às artes e a quem, 12 Audiência Geral, em 18 de novembro de 2009.
espaço particular neste itinerário in Deum. ocupado ativamente por elas, se faz au- 13 Audiência Geral, em 31 de agosto de 2011.
14 Ibid.
Esta talvez mais do que as outras tem o tenticamente intérprete daquela exigência
15 Discurso no final do Concerto oferecido pelo
poder de abrir as mentes e os corações à eterna da alma humana para o Outro, para Presidente da República Italiana no quinto aniversário
do Pontificado, em 29 de abril de 2010.
dimensão do espírito e conduz as pessoas o Além de si... o Mistério do qual somos
16 Discurso no final do Concerto oferecido pela Cáritas
a levantar o olhar para o Alto, a abrir-se parte e do qual podemos haurir a plenitude, de Regemsburg, em 11 de agosto de 2008.
ao Bem e ao Belo absolutos, que têm a a felicidade, a paixão do compromisso 17 Conforme Entrevista concedida aos jornalistas
durante o voo para a Espanha, na Viagem Apostólica
nascente última em Deus15. A música é cotidiano19 n a Santiago de Compostela e Barcelona, em 6 de
sempre subtendida como uma experiência novembro de 2010.
I8 Ibid.
e uma elevação espiritual que possam levar
19 Discurso por ocasião do encontro com os artistas
a pessoa a um contato mais direto com na Capela Sistina, em 21 de novembro de 2009.
Deus. Em tal sentido, a música mais do
que outras formas artísticas se aproxima
da oração: Não é por acaso – diz o pontí-
fice como prova dessa constatação – que
muitas vezes a música acompanha nossa
oração. Ela faz ecoar os nossos sentidos
e o nosso espírito quando, na oração,
encontramos Deus16.
A estética do Papa Ratzinger pode ser
estendida a todos os sujeitos que fazem
arte. Ele, por isso, não deixa de reivindicar
para a Igreja o papel central que teve na
História das Artes. A expressão artística é
um fato constitutivo da Igreja17. E se isto foi
verdadeiro para o passado, tanto mais este

SEDE BARRA
vínculo é necessário na contemporaneida-
Carta do Papa Emérito
de e na pós-modernidade. O diálogo entre
Bento XVI em resposta ao
arte e fé deve, por isto, continuar também recebimento da Revista
no presente: de fato, uma arte que desvane- Aeronáutica que publicou
cesse o contato com a fé, que renunciasse artigos de sua autoria LAZER E ESPORTE
àquelas raízes que a fizeram grande e digna

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