Você está na página 1de 15

ANO IV—#39 Vitória/ES Março de 2018

1
Editorial
Passados alguns dias da publicação da são espíritas que andam de mãos dadas
Nota que contrariou a fala de Divaldo com o fundamentalismo religioso e políti-
Franco sobre ideologia de gênero e políti- co, com o moralismo de fachada, que
ca, precisamos voltar ao assunto (e não à aplaude discursos de ódio, que resiste em
pessoa). pensar na transformação e adora o pobre
na pobreza, e que flertam com a ditadura e
De início, falemos o óbvio. Em qualquer
a violência seletiva, sendo incapazes de
comunidade científica ou filosófica, nada
fazer uma leitura coerente sobre a nossa
Editor mais comum do que apontar as discordân-
situação humana.
cias com uma fala/teoria. O que, aliás, é o
Raphael Faé Baptista
que move as ideias. Um autor propõe uma Diante disso, retomamos o nosso propósito
Editoração:
teoria ou uma forma de pensar. Surgem de fazer um diálogo espiritismo e socieda-
Felipe Sellin questionamentos sobre suas proposições e, de, levando importantes e urgentes refle-
Colaboram nessa Edição: então, ele reafirma ou revê sua posição, xões sobre o mundo em que vivemos, evi-
necessitando de argumentação científica e tando clichês e formas fáceis de pensar.
Alysson Leandro Mascaro
profundidade filosófica, sempre buscando Pois um mundo de provas e expiações é
Célia Arribas
coerência e integridade sobre o que se dis- deveras complexo, e ficar só na superfície
Felipe Sellin cute. E há também a regra de reconhecer a nos faz alvos fáceis de manipulações.

Raphael Faé Baptista ignorância sobre determinados assuntos.


Com isso, a MATÉRIA DE CAPA é de auto-
Simples assim.
Vanessa Lima ria do Dr. Alysson Leandro Mascaro,
Mas não foi o que ocorreu quando lança- professor da USP e filósofo do Direito, que,
mos a Nota, e isso demonstra muitas coi- num texto inédito, faz importantes cone-
sas sobre o movimento espírita brasileiro: xões entre religião, direito e política na
suas cisões, a dificuldade em pensar e agir atualidade. Uma análise profunda e neces-
cientifica e filosoficamente, a aversão ao sária, uma luz para aqueles incomodados
debate e à crítica, a ingenuidade de achar com tamanho reacionarismo.
que é possível fazer uma leitura neutra do
No PONTO DE VISTA, reproduzimos a
espiritismo, as tentativas de se desqualifi-
análise cirúrgica da Dra. Célia Arribas,
car a discussão com questões marginais e
autora do livro “Afinal, espiritismo é reli-
ataques pessoais, e ódio, muito ódio veicu-
gião?”, sobre a fala de Divaldo Franco,
lado na tentativa de defender Divaldo
originalmente publicado na revista Escuta.
Franco de um suposto ataque.
Neste edição, apresentamos duas colunas
Apresentou ainda uma enorme quantidade
OPINIÃO. Na primeira, Vanessa Lima
de pessoas que deixaram o movimento
nos chama atenção sobre o Dia Internacio-
espírita ou buscaram outras formas de
nal da Mulher e a resistência diante de
Edição n°38—Fevereiro de 2018 vivenciá-lo frente a tantos discursos vazios
uma sociedade patriarcal. Em seguida, o
6.534 seguidores na página e a tantas formas de intolerância política,
historiador Felipe Gonçalves, mostra
de ignorância científica, de falsa humilda-
10.735 pessoas alcançadas como a “polêmica” em torno das alterações
de, de culto à personalidade e de fanatis-
135 curtidas em publicação na 5ª edição de “A Gênese” ainda é um
mo.
assunto em aberto, e que as discussões
74 compartilhamentos
O termo “progressista” foi igualmente atuais carecem de método histórico de
questionado, como se o espiritismo não análise.
fosse uma doutrina intrinsecamente pro-
Interaja conosco, sua opinião Tenham uma excelente leitura!
é muito importante para nós: gressista. Problemático, na verdade, é pa-
rear o espiritismo ao conservadorismo ou Os editores,
criticaespirita@gmail.com
ao reacionarismo, pois o que não faltam Raphael Faé e Felipe Sellin
2
MATÉRIA DE CAPA

RELIGIÃO, DIREITO E POLÍTICA


NA ATUALIDADE
O recrudescimento do reacionarismo reli- movimentos de libertação no que tange ao gião passará a ser imanente: a atualização
gioso em nossos dias é tanto um grito campo específico das religiões. Tanto no da promessa, o amanhã hoje. No solo do
desesperado quanto um projeto político Iluminismo quanto no marxismo – bases reino no mundo, político e social, se cons-
específico. O grito vem dos abandonados intelectuais do liberalismo e do socialismo truirá a ecumene. Tratando de Schelling,
do capitalismo e das periferias do mundo, –, tratava-se de forjar um mundo novo. O Ari Marcelo Solon diz sobre “um novo
aos quais não são ofertadas sistematica- movimento das luzes o fazia segundo a conceito de justiça no presente: o Reino
mente as possibilidades de portar as ar- aposta em transformações suficientes nas de Deus imerso na história viva, impreg-
mas da razão contestadora e da esperança próprias individualidades. Com indiví- nado de temporalidade. É um conceito
de ações transformadoras. O projeto polí- duos novos e racionais, todas as religiões messiânico, revolucionário e explosivo
tico é o acoplamento da regressão intelec- seriam superadas em favor de uma reli- que começa em 1789: liberação e reden-
tual à regressão das condições do capita- gião natural. Já o marxismo levantava a ção na história e por meio da política”(1).
lismo. De um arco que vai da resistência à necessidade de um combate estrutural às Se, na alvorada da contemporaneidade, o
Revolução Francesa ao neoliberalismo, dimensões da exploração social, nas quais liberalismo e o marxismo se incumbem de
passando pelo fascismo, pelo nazismo e as religiões cumpriam papel nodal. O pul- tratar da religião de fora para dentro, será
pelo macarthismo, nos séculos XIX, XX e so que sustentava o conservadorismo da apenas no século XX que as religiões farão
XXI o capitalismo opera uma luta por religião vinha tanto do religioso quanto da algo parecido de dentro para fora, apre-
padrões máximos de exploração e conser- sociedade. Se a aposta do Iluminismo é no sentando, enfim, uma face progressista
vação das redes de opressão, chamando a homem novo, a do marxismo é na socie- como mote próprio. Num mundo que
religião em seu apoio. O pensamento críti- dade nova. De qualquer modo, o impesso- poderia, de fato, superá-las, as religiões se
co, o Iluminismo, os socialismos, a liber- al do liberalismo e o maternal do socialis- põem a construir a sua própria movimen-
tação sexual, o bem-estar social e os direi- mo se punham a vencer o patriarcalismo tação atualizadora, ainda que de modo
tos sociais, as revoluções comunistas e de das instituições religiosas. O Iluminismo parcial, pois inovando e conservando.
libertação colonial, todos os movimentos radical e o marxismo, aos seus modos, Para suas vertentes progressistas, se há
libertários da Idade Contemporânea en- mais do que buscar a conciliação entre as algo de universal no fenômeno religioso,
contraram numa específica junção de religiões dadas, pressupunham sim a sua este será o amor. No solo já tão arraigado
capital e religião seus contendores e antí- superação. do legalismo religioso, é preciso fazer res-
podas. Na Idade Contemporânea, no chão das saltar o elemento amoroso da fraternida-
Os últimos séculos conheceram grandes revoluções, o que resta de melhor da reli- de plena, de que os séculos vêm se esque-
3
cendo em favor do poder e das institui- sociais do capitalismo. O Estado continua “ideologia de gênero” revela a ignorância
ções. As variadas teologias da libertação laico, formalmente apartado das religiões e a má-fé perfazendo um substrato religi-
correspondem a esse processo de fazer especificamente dadas, na medida em que oso, cultural e político de ampliação do
ressaltar, do que aí já está das religiões, o necessita albergar em seu solo o indivíduo regressismo. Trata-se de uma regulação
que pode ser. A religião progressista con- atomizado da reprodução do capital, não por menos da quantidade de direitos sub-
temporânea se faz como atualização das importa que religião tenha ou não. Para jetivos da forma jurídica e estatal capita-
possibilidades do ser religioso. O ecume- tanto, ele garante o contrato e o capital de lista, similar à regulação por menos que
nismo daí resultante é a somatória das sujeitos sob quaisquer crenças. Se está se faz às quantidades de direitos subjeti-
possíveis partes comuns de todo fenôme- jungida sempre a esse conjunto de formas vos sociais, como os do direito do traba-
no religioso. Diferentemente até da reli- que estruturam a sociabilidade capitalista, lho e da seguridade social. A forma jurídi-
gião natural dos iluministas – que, se a alteração que a regressão religiosa pro- ca garante o capital. A sua regressão
possuir algo em comum com as religiões cede no campo político-jurídico é de con- quantitativa em face de determinados
estabelecidas, isto será apenas um acaso, teúdo. Neste sentido, o mesmo Estado grupos sociais garante a exacerbação da
daí mais radical em seus termos – as teo- universalista ora dá ou nega direitos aos exploração neoliberal.
logias da libertação insistem numa aber- divorciados, aos homossexuais, às mulhe- Na atualidade, é o desamor a outros que
tura a partir de um motor interno. Deste res, às mulheres que praticaram aborto, constitui o cerne das posições religiosas
mote íntimo se forjaram muitos cristãos aos estrangeiros, aos diferentes dos costu- reacionárias. Como é bem verdade que
progressistas na segunda metade do sécu- mes ou aos das religiões reprimidas, den- não se esgotam nesses reacionarismos
lo XX. tre tantas outras categorias de vítimas do todas as possibilidades de vida religiosa,
Na atualidade, no entanto, a ofensiva do preconceito de nosso tempo. A cam- então mais uma vez nosso tempo necessi-
capital contra o socialismo e contra a panha infame e fascista da ta resgatar energias revolucionárias a
libertação dos costumes e do pensamen- bandeira de combate a partir de um solo que tem sido constante-
to encontrou nas instituições religiosas uma fantasiosa mente salgado para
reacionárias um apoio simbiótico, que se que nele
acresce, numa mesma sintonia, do posici-
onamento dos grandes aparelhos forma-
dores da ideologia – a educação formal,
os meios de comunicação de massa. Em-
presa, igreja, televisão, jornal, internet,
rede social, escola e universidade vão
se decantando no sentido da sacraliza-
ção do capital e da crença. A um
mundo de exploração, onde o máxi-
mo de informação se dá junto com o
mínimo de filtros e sistemas inte-
lectivos, os aparelhos ideológicos
fornecem aos desesperados a reli-
gião, constituindo subjetividades
religiosas como engendramento
automático e padronizado de indi-
víduos.
Para a política e o direito, o resulta-
do das últimas décadas é somente
regressivo. Nos anos pós-fordistas e
neoliberais do final do século XX e
do início do século XXI, a política é
colocada até mesmo como solo da
disputa religiosa direta. Isto não che-
ga a ponto da religião mudar a forma
política estatal ou a forma jurídica,
que são derivadas diretas das formas 4
não brotasse esperança nem razão nem encaminhamento conduzido pelo seu as- que não é igual e, daí, a exigência pelo
libertação. Tirado da órbita do reaciona- pecto liberal e conservador, passa a ser máximo legalismo normativo religioso (a
rismo e do estranhamento em que majori- entendido como tolerância, ou, no máxi- compaixão seria aqui um dever de lançar-
tariamente se encontra hoje, o melhor do mo, compaixão. No que tange à tolerân- se à paixão apenas pela possibilidade ge-
impulso religioso deve ser reafirmado no cia, o direito e o Estado são chamados a nérica de existência do outro que é abso-
campo do amor, e não no ódio ou no re- instituir o espaço garantido do direito lutamente estranho).
forço da diferença. Somente assim, con- subjetivo do outro. Este é o caso do mun- No entanto, tomando-se pelo seu sentido
forme já Ernst Bloch apontava, as energi- do do capitalismo que se presume civiliza- progressista, o amor religioso contempo-
as fraternas dos religiosos poderão se do e estabilizado sob as melhores condi- râneo há de se dissolver e se resolver no
encontrar com as energias utópicas socia- ções jurídicas liberais. No que tange à todo do mundo, tomado como processo.
listas, em busca da sociedade amorosa de compaixão, acrescentar-se-ia, à tolerância Neste sentido, o amor é a fecundação do
um novo tempo. ao distinto, o amor, como forma de ressal- novo. Trata-se da dialética superadora,
No que tange às religiões, o sentido da tar ou uma recôndita esfera comum – na apoiando-se mais na mirada da síntese
escatologia do amor nas sociedades con- ideia de que há algo comum entre católi- que numa pretensa conciliação dos ter-
temporâneas pode ser compreendido de cos e protestantes, ou entre cristãos e ju- mos antitéticos. O amor é o novo porque
duas maneiras: ou a partir da persistência deus etc. Daí, o problema das religiões é o ainda não reina a igualdade entre todos, e
das suas identidades no seio de um mero de ressaltar a base unitária oculta entre portanto não se estabeleceu a plena ir-
totalizante quantitativo ou no sentido da todas elas (a compaixão é a paixão co- mandade. No campo teológico, até mesmo
construção de uma totalidade qualitativa- mum por algo). Mas, como as religiões os pedidos por tolerância e compaixão
mente distinta. No primeiro caso, tratar- não enxergam em todas as outras suas ainda se revelam como a persistência da
se-á de um arranjo “civilizado” dentro da símiles (muitos cristãos não valoram as falta da profunda fraternidade, na medida
mesma lógica liberal e capitalista contem- religiões de matriz africana pelo mesmo em que tais virtudes só se estabelecem
porânea. No segundo caso, tratar-se-á da parâmetro de compaixão, pois não as re- porque persistem na identificação das
ação revolucionária e socialista da cons- conhecem como nada semelhantes), tal diferenças. O amor como constituição do
trução da nova sociedade. padrão liberal ou conservador pode con- novo não é a tolerância com o outro, é a
O amor religioso contemporâneo, num servar, no máximo, um bem-querer pelo comunhão com o outro, que até então era
5
estranho, agora tornado próximo e
igual. O amor pleno não é a concilia-
ção dos velhos termos nem apenas
sua tolerância; é, sim, a revolução.
Para tanto, mesmo as melhores pré-
dicas progressistas do Iluminismo
encontram no marxismo um horizon-
te ainda maior, demonstrando a ne-
cessidade de transformação do nosso
tempo. A constituição das subjetivi-
dades que superem a identidade con-
flituosa das religiões não se dá apenas
pelo abrir-se individual em busca do
amor comum. Trata-se também e
fundamentalmente de uma constru-
ção social. Há o cultivo das religiões,
no plural, porque a multiplicidade
sustenta a oposição geral de tudo e
todos. O aparato da sociedade cindida
em classes necessita da noção do ou-
tro como forma de dar sentido à divi-
são no seio do todo. Para o capitalismo, o própria, ao mesmo tempo faz com que social. Há uma constante siderúrgica soci-
outro religioso é valioso mais pela noção todas as religiões passem a ser respeitadas al em marcha no capitalismo. Somente a
de outro do que de religião. A identifica- como cultura, albergadas num grande mudança estrutural da sociedade é capaz
ção do outro é a do concorrente. O sujeito repositório universal das experiências de criar a nova fundição, permitindo aos
de direito, que circula mercadorias e é históricas a serem respeitadas. indivíduos inclusive, também, a sua forja
também a principal mercadoria do capita- Se o Iluminismo apostou que os indiví- individual possível sob novas condições
lismo, entende-se como igual ao outro duos eram capazes dessa libertação que que não a da disputa identitária e oposito-
juridicamente para as trocas, e com isso ao final faria a união em uma plena igual- ra sob forma de mercadoria.
ele se limita, no máximo, à tolerância jurí- dade, isto se deve ao fato de considerarem A crítica, resgatando os melhores desejos
dica ao distinto. A igualdade formal é apa- a subjetividade a usina cuja produção do do novo, sem estar atrelada aos compro-
rato para a desigualdade real, como a tole- novo poderia ser por todos replicada. Da missos ou aos confortos da reconciliação
rância com o distinto é valiosa pela pró- soma das fundições individuais se fariam do velho, é o melhor sentido do amor ple-
pria manifestação da distinção. Se há, os novos homens. Ocorre que o Iluminis- no que nem as religiões podem oferecer.
legitimamente, diferentes religiões, há mo não deu conta da contradição das pró- Se já há uma teologia da libertação das
diferentes classes. O desejo capitalista e prias estruturas sociais, que impedem o religiões, que hoje é combatida e vilipen-
conservador pode ser trocar de posição na homem objetivamente de se superar. A diada pelos reacionários, ela deve ser afir-
hierarquia das classes ou trocar de reli- constituição da subjetividade capitalista é mada e, mais que tudo, plenificada: não é
gião, mas não de acabar com elas. Por a todo tempo trabalhada e reposta no apenas o que nos une em razão e afeto,
isso, mais além, o desejo do amor univer- sentido de desejar a separação, o consumo mas o que ainda não nos une que nos de-
sal só é pleno sob forma de um processo da mercadoria exclusiva e a condição de ve orientar o sentido da ação. O eventual
de nova forja. Não meramente da junção privilégio, distinção e oposição. O capita- gozo religioso subjetivo pelo sentimento
– tolerância –, mas sim da fundição do lismo cria desejo e seu mecanismo é ex- de fraternidade profunda dos homens se
velho é que resultará o novo. cludente, e isso advém de uma imensa soma à revolução, pois são as estruturas
Alguns acusam uma nova sociedade amo- teia das relações sociais, nas quais os indi- sociais que nos constituem que ainda não
rosa universal, socialista e estruturalmen- víduos são formados e por onde circulam. nos deixam gozar fraternalmente.
te fraterna, de correr risco de perder a Por isso, mais do que uma soma de pe-
identidade das religiões específicas. O quenas forjas individuais voluntárias e
Alysson Leandro Mascaro, professor
amor universal, se é verdade que conduz a livres, é preciso entender que a forja do
da Faculdade de Direito da Universidade
identidade religiosa a algo externo a si capitalismo advém de uma totalidade
de São Paulo.
6
PONTO DE VISTA

ESPIRITISMO, GÊNERO E POLÍTICA:


UMA EQUAÇÃO TENSA*
Em recente fala no 34º Congresso Estadu- clamam e pelejam por sua unificação teó- espiritismo.
al Espírita de Goiás de 2018, o médium e rica, prática e institucional – sem grandes Se olharmos do ponto de vista espírita, de
orador Divaldo Pereira Franco, figura sucessos, vale dizer. Os espíritas, como acordo com o método proposto por seu
bastante conhecida no meio espírita, mas quaisquer agentes sociais, existem num fundador, Allan Kardec – que parte de
também fora dele, por sua obra mediúnica meio social, são produtos de processos de uma premissa fundamental segundo a
e assistencial, atraiu a atenção com uma socialização e reproduzem esses proces- qual “fé inabalável só é a que pode encarar
fala de pouco mais de sete minutos. Ao ser sos; seus conhecimentos foram adquiridos a razão, face a face, em todas as épocas da
interpelado por um jovem sobre a famige- socialmente, precisam de amparo social e humanidade” –, os critérios para manifes-
rada “ideologia de gênero”, asseverou – são consequentemente vulneráveis às tar posições e ideias, de influência marca-
em tom de autoridade espírita – tratar-se pressões sociais. A doutrina espírita é damente iluminista e com certo ranço
de um “momento de alucinação psicológi- aquilo que os homens e mulheres fazem positivista, têm que necessariamente dia-
ca da sociedade”. E foi além. Divaldo refe- dela, portanto. Delimitar as posições e as logar com a ciência de seu tempo, usar
riu-se ao suposto “presidente” da divergências tem sido importante nesse argumentos racionais e adotar posturas
“República de Curitiba”, o juiz federal de sentido, tanto mais porque, diferentemen- que estejam de acordo com os princípios
primeiro grau Sérgio Moro, como o basti- te do catolicismo, por exemplo, no espiri- basilares da ética espírita, que são princi-
ão da moralidade e da justiça. Palmas e tismo não há uma cúpula responsável e palmente os da liberdade de consciência,
brados foram ouvidos nesse momento, e legítima para ditar o que é ou não espiri- amor ao próximo e fraternidade. Na práti-
isso nos diz muito sobre o reconhecimen- tismo. Aliás, médiuns, trabalhadores, in- ca, no entanto, o critério de verdade, para
to que o médium baiano tem ante a comu- telectuais e oradores não detêm autorida- os espíritas contemporâneos, vem se an-
nidade espírita. de inquestionável para falar em nome do corando cada vez menos nos dispositivos
O movimento espírita está longe da una- espiritismo, nem mesmo instituições fede- do método (ainda que o recurso aos co-
nimidade já desde suas origens, quando rativas, o que cria uma série de grupos e nhecimentos científicos seja praxe nesse
se definiu ao mesmo tempo como ciência, de posições, todas elas perfeitamente ad- meio, embora não sem antes contar com
filosofia e religião, causando desde então jetivadas de espíritas, e que não raras ve- críticas quanto ao tipo de uso e de apro-
vários celeumas. Não por acaso, desde que zes conflitam entre si. De sorte que decla- priação que parte dos espíritas faz da ci-
o espiritismo aportou em solo brasileiro, rações como as que foram feitas por Di- ência), e cada vez mais em torno de líde-
em meados do século XIX, os espíritas valdo representam e não representam o res carismáticos e lideranças institucio-
7
nais. É nesse sentido que a fala de Divaldo direitos sexuais e reprodutivos, pelos di- ter deixado claro que se tratava de opini-
encontra eco, expressando o argumento reitos das mulheres e de grupos vulnerá- ões pessoais, o que ele não fez –, mas daí
de autoridade do “grande médium e ora- veis e minoritários – étnicos, culturais, falar em nome do espiritismo foi a gota
dor”, ao mesmo tempo em que conforma comportamentais e religiosos – estão aí que fez transbordar o pote, revelando
a tacanhez conservadora de parte conside- para dar o tom desse tipo de conservado- mais uma vez as divergências e contradi-
rável dos espíritas. rismo. É na gramática tacanha do reacio- ções do movimento espírita.
Ao utilizar, em sua fala, o termo narismo brasileiro contemporâneo que o Se algo positivo pode ser extraído das
“ideologia de gênero” como um substrato termo “ideologia de gênero” vem se popu- declarações de Divaldo foi o fato de con-
do “marxismo cultural” e algo que expres- larizando, comprometendo princípios de vocar, de forma relativamente nova e inu-
sa “uma alucinação psicológica” engen- civilidade, de tolerância e de respeito à sitada no meio espírita, os fiéis da fé kar-
drada pelo MEC e pelos últimos anos de pluralidade e à diversidade. decista ao exercício cívico, tão oportuno
governo encabeçados pelo PT, Divaldo O espiritismo, que poderia ser, pelos seus quanto necessário nesse momento teme-
Pereira Franco expressa uma posição po- princípios, protagonista na promoção da roso que estamos vivendo no Brasil. Ma-
lítica compartilhada por parcela significa- igualdade, da fraternidade e da justiça nifestaram-se prontamente em blogs,
tiva do movimento espírita, que assume social, se limitou, por conta de uma visão sites e redes sociais os espíritas progres-
uma postura claramente partidária, con- paralisante, confortável e conformista de sistas, mostrando a outra face da moeda.
trária ao PT, que infelizmente não enten- mundo, que está na origem social dos E aqui, também eu, não vou me eximir de
de absolutamente nada do que seja o mar- espíritas – provenientes em sua grande posicionar-me deste lado da contenda,
xismo, muito menos da atuação do MEC, maioria da classe média branca, escolari- tanto por dever cívico quanto por dever de
tampouco é capaz de fazer uma análise zada e heterossexual –, a uma explicação fé.
razoável de conjuntura política e de colo- reencarnacionista da meritocracia, das Alguns dos meus amigos, colegas de tra-
car o governo petista, para o bem e para o desigualdades sociais (se há miseráveis e balho e alunos sabem que sou espírita, e
mal, no seu devido lugar histórico. O que vulneráveis no mundo, eles e elas nada até poderia concordar com Divaldo quan-
ele faz é reforçar uma visão conservadora mais fazem do que “pagar” por seus erros do ao falar de um “momento de alucina-
e reacionária que vem constrangendo de vidas passadas) e da salvação pela cari- ção psicológica da sociedade” estivesse se
sobremodo intelectuais, professores e dade material pontual, de cunho assisten- referindo ao movimento conservador que
educadores com ações de amordaçamento cialista, em plena conformidade, portan- vem assolando o nosso país. A falta de
intelectual e crítico. Os atos e interferên- to, com o pensamento conservador e rea- habilidade ou vontade em reconhecer e
cias negativas de bancadas fundamenta- cionário. respeitar diferenças em crenças e opiniões
listas e de movimentos como “Escola sem Liberdade certamente Divaldo tem para vai de encontro aos princípios cristãos e
Partido” em temas ligados às lutas pelos expressar suas convicções – e ele poderia democráticos, afronta que mais parece

8
alucinação mesmo. peitáveis quanto aos fatos que interferem cando a salvação pessoal de seus adeptos
O apego à confortável situação social e na vida humana, sobretudo na vida públi- e adeptas.
econômica da classe média branca espíri- ca. Mesmo que a grande maioria dos espí- E por falar em Ciências Sociais, é sempre
ta apaga, com frequência, da consciência ritas de hoje não discuta mais a questão bom lembrar que a categoria analítica
o senso da responsabilidade social e espi- da criação de um partido político – e isso “gênero” – hoje corrente em páginas de
ritual. Nem mesmo a crença na reencar- já foi uma realidade nos idos de 1930 –, jornais e textos que orientam as políticas
nação consegue arrancar o homem e a posicionar-se diante do e agir neste mun- públicas – nasceu, em meados da década
mulher atual da embriaguez do presente, do, carregado de desigualdades, injustiças de 1960, de um diálogo entre o movimen-
calcado em uma situação socioeconômica e intolerância, não deixa de ser um dever to feminista e suas teóricas, e as pesquisa-
cômoda de boa parte dos espíritas. Busca- da fé espírita. doras em História, Sociologia, Antropolo-
se através da caridade material, aplicando Mas assim como a política, a economia, a gia, Ciência Política, Demografia, entre
grandes doações a creches, hospitais e imprensa, as instituições, a educação, a outras áreas do conhecimento. As cultu-
orfanatos, a salvação para uma situação cultura ficam ao deus-dará. Falta uma ras criam padrões associados aos corpos,
melhor depois da morte. A maioria dos tomada de consciência, particularmente que se distinguem por seu aparato genital
espíritas está sempre disposta a investir no meio espírita, da responsabilidade de e pela capacidade de gerar outros seres.
em obras assistenciais, mas revela o mai- todos e todas na construção e na elabora- Importava insistir na qualidade funda-
or desinteresse pelas obras sociais, políti- ção do que os próprios espíritas acredi- mentalmente social dessas distinções e,
cas e culturais. Garantem os juros da cari- tam: um mundo estruturalmente novo de nesse sentido, a categoria “gênero” indica-
dade no após-morte, mas contraem pesa- regeneração. Isso é trabalho de homens e va uma rejeição ao determinismo biológi-
das dívidas no tocante à divulgação, sus- mulheres aqui neste mundo, de todos e co implícito no uso dos termos como
tentação e defesa de princípios funda- todas nós, agentes históricos e sociais. “sexo” ou “diferença sexual”, justamente
mentais da renovação social. Poucos no meio espírita, mas também como forma de diferenciar o sexo biológi-
Muitos espíritas têm aversão ao debate fora dele, compreendem que sem uma co daquilo que seriam os papéis sociais de
político, como se não se tratasse do desti- reestruturação cultural elevada, sem estu- homens e mulheres, do que constitui a
no de suas próprias vidas. Dizem que Kar- dos aprofundados, sobretudo no tocante feminilidade e a masculinidade, e como
dec, lá no século XIX, teria instruído os às variáveis estruturantes da nossa socie- construímos e vivenciamos o desejo e a
espíritas para que não se envolvessem em dade – entre elas a questão de gênero, de orientação sexual em distintas épocas e
disputas político-partidárias em nome do sexualidade, racial e de classe, e nesse localidades. Vale salientar que sexualida-
espiritismo. Na verdade, Kardec não rejei- sentido os conhecimentos produzidos nas de não diz respeito necessariamente a
tou de todo a ideia, uma vez que entendia Ciências Sociais poderiam auxiliar sobre- uma orientação sexual fixa e que, dessa
que a concepção de partido nem sempre modo –, o espiritismo não vai passar de forma, práticas eróticas/sexuais podem
está relacionada com luta e divisão, po- uma seita religiosa de fundo egoísta, bus- envolver diferentes parceiros conforme a
dendo ser enten- orientação do
dida desejo, para
como além das
força classifica-
de uma ções rígi-
opinião das.
que mere- Com o apro-
ce ser examinada. fundamento dos estudos
De todo modo, o de gênero, foi ficando
que parecia es- cada vez mais evidente
tar claro a Kar- que a posição ocupada
dec é que o na sociedade pelos ho-
espiritismo mens e pelas mulheres
tem totais não são apenas dife-
condições e rentes, mas tam-
capacidade de bém desiguais; e
emitir pontos que essa
de vista res-

9
desigualdade social entre homens e mu- Brasil é um dos países que mais mata já que somos todas e todos artesãs/ãos,
lheres resulta, principalmente, da organi- LGBTs. A média de mortes ligadas à ho- artistas, operárias/os, construtoras/es do
zação da sociedade e não de diferenças mofobia passou de um assassinato por dia mundo, desse mesmo em que, segundo a
biológicas ou psicológicas significativas em 2017, de acordo com o levantamento doutrina espírita, iremos reencarnar no-
entre os mesmos. Isso significa dizer que realizado pela ONG Grupo Gay da Bahia vamente – o ontem, o hoje e o amanhã se
os estudos em função do gênero supõem, (GGB), e estima-se que esse número seja entrelaçam. Mas é claro que homens e
mas também demonstram, que as mulhe- maior, dado os inúmeros casos não repor- mulheres espíritas, seres sociais, criados
res têm menos recursos materi- tados. Ignorar essa realidade e suas con- socialmente e necessitados de amparo
ais, status social, poder e oportunidades dições ao dizer que se trata de “ideologia social, são igualmente orientados por va-
de auto-realização, acumulam dupla ou de gênero”, substrato do “marxismo cul- lores e critérios outros que vão além da
tripla jornada de trabalho, carregam todos tural”, não me parece uma posição em ética espírita. Expressão dos conflitos
os ônus da criação das crianças, e são conformidade com os princípios espíritas próprios da modernidade, cindida em
muito mais vulneráveis aos variados tipos cristãos, os mesmos que afirmam que “as suas mais variadas esferas de valor que
de violência – física, psicológica, patrimo- almas ou Espíritos não têm sexo. (…) As estão permanentemente em forte tensão.
nial, sexual, simbólica – do que os ho- afeições que as une nada têm de carnal, e, E o reacionarismo, dito cristão, está aí a
mens com quem partilham a mesma posi- por isto mesmo, são mais duráveis, por- nos acenar com suas contradições.
ção social. Não se pode tratar com levian- que são fundadas sobre uma simpatia Pieguice religiosa espírita, caridade inte-
dade o fato de uma mulher ser assassina- real, e não são subordinadas às vicissitu- resseira, falações emotivas e palestras
da a cada duas horas no Brasil. E nessa des da matéria”. Em outras palavras, sem fim sobre a fraternidade impossível
estrutura desigual, não menos vulneráveis “estar” homem ou mulher na presente no meio de lobos vestidos de ovelhas só
e desprivilegiados, do ponto de vista dos encarnação não implica necessariamente contribuem para o status quo, como diria
direitos, mas também do acesso aos bens orientar seu desejo para o sexo oposto, o velho Marx. E olha que falar em Marx
econômicos, sociais e culturais, são os tampouco deveria implicar em posições no meio espírita atual é como se invocás-
gays, lésbicas, bissexuais, travestis e tran- desigualmente ocupadas. semos as forças mais tenebrosas do um-
sexuais. As formas de relações afetivas Felizmente, a finalidade do espiritismo, bral e das trevas. Como se dias e noites de
que vão além da concepção de família para uma outra parcela de seguidores de pesquisa, de perquirição mental, de análi-
tradicional, nuclear, burguesa e heteros- Allan Kardec, não é a salvação individual, se rigorosa, de cortes impiedosos, com as
sexual, correm riscos e violências as mais mas a transformação total do mundo, mãos de cirurgião, no corpo doente de
diversas. Não é nenhuma novidade que o num vasto processo de redenção coletiva, uma sociedade ímpia fossem atos dignos
10
de seres trevosos e não uma tentativa damentos não dissociariam o pensamento par”, como disse Divaldo, ou ainda
sensata e justa para com o próximo – da ação. O próximo, ou seja, qualquer ser “aberração” – mesmo adjetivo para defi-
muitos diriam uma tentativa cristã, mes- humano, teria o igual valor, e em conso- nir o aborto –, ou “cartilhas depravadas”
mo à revelia de Marx e de boa parte dos nância com esta forma de encarar o mun- que estariam sendo formuladas pelos pró-
marxistas –, de perscrutar as profundezas do decorreriam as nossas ações neste prios governo nas escolas, carecem de um
das injustas estruturas sociais que nos mundo – para além de qualquer expecta- senso crítico e de conhecimentos mais
constituem enquanto indivíduos e que tiva de existência do lado de lá. Parece – aprofundados. Já que um dos critérios de
nos levam às mais variadas formas de ou querem fazer parecer – impossível de verdade entre os espíritas é levar em con-
opressão, alienação e exploração. Nas assim o conseguirmos. sideração os conhecimentos científicos de
páginas de sua vasta obra leem-se fre- Então, estamos nós aqui, estarrecidos cada época, por que abrir mão dos estu-
quentes clamores contra as iniquidades com nossa situação política, social e eco- dos avançados das Ciências Sociais no
do Templo do capital, armado para asso- nômica, ouvindo, vendo e lendo impropé- tocante à questão de gênero? Ou dos estu-
lar os mais fracos, os despossuídos, os rios dos mais variados, principalmente de dos que trabalham com outras variáveis
vulneráveis e todos aqueles que não com- seres que se arrogam cristãos; estamos igualmente importantes como raça e clas-
pactuam com seus valores, desiguais já aqui defendendo princípios de equidade, se? Se as diferenças entre mulheres e ho-
desde sua raiz. Um profeta extemporâneo, tolerância, respeito à diversidade e à plu- mens – só para ficar nesse binarismo –
porém pouquíssimo lido e compreendido ralidade que essa imperfeita forma de são socialmente instituídas e não prede-
entre os espíritas, quando não severamen- conceber a democracia nos possibilita terminadas, uma parte significativa dos
te hostilizado. minimamente. Quem assim pensa vem estudos no domínio das relações sociais
No limite, se fosse para sermos verdadei- encontrando fortes resistências, sobretu- de gênero supõe que a diferenciação de
ramente radicais, como Cristo e Marx, do por parte de partidários de discursos comportamentos e de traços de personali-
defenderíamos a igualdade não pelo viés autoritários, frontalmente contrários aos dade consoante o gênero resulta de expec-
da defesa da democracia, essa que está ensinamentos cristãos e democráticos. tativas socialmente incutidas nos indiví-
calcada nos princípios liberais burgueses Parece-me incoerente, para não dizer duos desde a infância, pelas quais as cri-
que há muito já nos mostraram que en- injusto, tanto do ponto de vista espírita anças são socializadas no sentido de de-
quanto a igualdade econômica e social quanto do ponto de vista democrático e sempenharem diferentes papéis,
não existir, também a igualdade política da civilidade, tratar as questões de gênero “femininos” ou “masculinos”. As noções
será uma farsa e, portanto, fadada ao fra- e sexualidade com tamanha leviandade. aprendidas na infância do que é conside-
casso. Defenderíamos, se fôsse- “Imoralidade ím- rado pertinente ao feminino e ao masculi-
mos à raiz da questão, no acirram-se e consolidam-se na ado-
uma forma outra de lescência. Isso porque a socia-
governo e de dis- bilidade infantil permite
tribuição do ainda certa convi-
poder, que vência de meninos
também e meninas em
seria de diferentes
outra na- atividades
tureza, coletivas. Já
cujos na adoles-
fun- cência, o
fato de
haver o
aprendi-
zado da
aproximação ao
sexo
opos-
to,

11
mediado por diferentes formas de relacio- agir nesse mundo. Enfatizar esses ele- plexos e profundos, pelos quais nossas
namento afetivo-sexual, torna os domí- mentos, entretanto, não pressupõe que os vidas individuais refletem os contextos de
nios femininos e masculinos ainda mais homens sejam tão vítimas da desigualda- nossa experiência social é fundamental
nítidos, com limites bem definidos entre de de gênero quanto as mulheres. Contu- para o modo de se pensar sociologicamen-
si. Basicamente, trata-se de investigar do, indica que a construção de uma maior te o mundo.
como é que, ao nível das interações entre igualdade de gênero depende não apenas Sim, os espiritismos são muitos e não
os indivíduos, são construídas e recriadas de uma tomada de consciência em relação deixam de reproduzir em seu seio as mes-
de um modo permanente as dicotomias à opressão feminina, mas também de uma mas contradições e as mesmas disputas
entre a mulher e o homem, modelo que reflexão sobre o lugar e o papel dos ho- políticas da sociedade. O momento é de
vem nos mostrando seus inúmeros fracas- mens nesse processo. reflexão, sem dúvida, mas sobretudo de
sos e que, por isso mesmo, deveria ser A Sociologia, só para ficar em apenas uma luta contra as diferentes iniquidades que
trabalhado desde os primeiros anos de das Ciência Sociais, e não por acaso a que nos assolam. Acreditando-se ou não na
socialização do ser. me sinto mais confortável reencarnação, é o hoje que nos importa
Ser homem, ser mulher, ser negro, negra, em aci- mudar, porque é o hoje que nos está mos-
indígena, ser rico, pobre, escolarizado, trando quão machista, racista, homofó-
heterossexual, lésbica, bissexual, bica e classista, portanto, desigual e
do campo ou da cidade etc. injusta, é a nossa sociedade –
são todas formas de classi- realidade incompatível
ficação que interagem para uma vida
simultaneamente no verdadeira-
mundo social, mente demo-
fazendo com crática e cris-
que certos tã.
entrecru-
zamentos Célia
sejam Arribas,
objeto professo-
de um trata- ra da
mento me- Universi-
nos iguali- dade Fe-
tário, mais deral de
desigual do Juiz de
que outros. E Fora
apesar de os (UFJF),
homens bran- doutora em Soci-
cos, da classe ologia pela
média e heterosse- USP, e colabo-
xuais serem em sua radora da Revis-
grande maioria os grandes ta Escuta. A autora autori-
beneficiários ou privilegiados zou a reprodução.
por desigualdades de gênero,
não se pode ignorar que eles também car- onar, mostra a necessidade de assumir * Texto originalmente publicado pela Re-
regam um pesado fardo ligado aos atribu- uma visão mais ampla sobre por que so- vista Escuta, de 01.03.2018, e reproduzi-
tos da masculinidade dominante: autos- mos o que somos e por que agimos como do com ciência da autora. Link: https://
suficiência, invencibilidade, agressivida- agimos. Ensina-nos que aquilo que enca- revistaescu-
de, virilidade, violência, brutalidade, não ramos como natural, inevitável, bom ou ta.wordpress.com/2018/03/01/
manifestação dos sentimentos, proibição verdadeiro, pode não ser bem assim e que espiritismo-genero-e-politica-uma-
do choro e de demonstrações de fraquezas os “dados” de nossa vida são fortemente equacao-tensa/
de todas as ordens – certamente formas influenciados por forças históricas e soci-
nada cristãs de ser, de estar, de sentir e de ais. Entender os modos sutis, porém com-

12
OPINIÃO

Dia Internacional da Mulher


Ser mulher não é nem de longe motivo de toda nossa vida fomos educadas a sermos mulheres. Perdermos o medo de levantar
comemoração. Os números vergonhosos mais gentis, mais doces, mais pacientes, a voz e exigir, lutar, discordar, berrar, nos
de feminicídio, abuso, violência, alfabeti- mais didáticas, mais sensíveis. Fomos impor e todas as coisas que nunca fomos
zação e disparidade salarial que nosso podadas de todas as formas pra falarmos ensinadas e estimuladas a fazer.
país sustenta só nos mostra que ser mu- um pouco mais baixo, sentarmos do jeito Precisamos saber, mulheres, que somos
lher não é glória, é resistência. certo, não fazer isso ou aquilo, não “se muitas, muitas mesmo. Precisamos des-
É resistência quando rompemos o silêncio achar demais”, não chamar muita aten- cobrir que não estamos sozinhas e que a
e denunciamos uma agressão. É resistên- ção. A ficarmos quietas, a justificarmos cada vez que nos unimos a outra mulher,
cia quando criamos os nossos filhos ape- comportamentos masculinos que nos fa- ganhamos força e nosso grito se eleva. Os
sar do abandono dos pais, estando eles zem mal de alguma forma, a aceitarmos direitos que queremos, do nosso corpo ao
dentro de casa ou não. É resistência quan- menos do que queremos, a nos contentar nosso direito de ir e vir em paz, não serão
do assumimos posições de destaque e com o que nos dão, a mendigar afeto e conquistados por homens. A igualdade
somos constantemente questionadas de validação de terceiros. não será conquistada por homens. O fim
nossa competência. É resistência quando Chega, né? da violência contra a mulher não será
criamos força e amor-próprio suficientes Está na hora de abraçarmos nossos cor- conquistado por homens. Seguiremos
para abandonarmos companheiros abusi- pos com orgulho e amor. Na hora de reco- morrendo e sendo oprimidas enquanto
vos. É resistência quando nos recusamos nhecermos e respeitarmos as mulheres aguardarmos que homens conquistem por
a seguir imposições e padrões de gênero. incríveis que nos tornamos ao longo da nós o que queremos. O herói da nossa
É resistência quando o ato de andar na nossa vida, moldadas por tantas experiên- história só virá de um lugar, que é de den-
rua sozinha se torna uma ameaça cons- cias. Fazermos revolução ao não abaixar- tro de nós mesmas. Você não está sozinha
tante da nossa integridade física. É resis- mos a nossa cabeça pra quem quer que na sua dor, nem na sua força e nem na sua
tência quando amamos outra mulher. seja. Encontrarmos paz ao olharmos pra fúria.
Nessa data, sempre me pego refletindo outras mulheres como irmãs de luta e Putas, santas, bruxas, culpadas, paridei-
sobre esses tantos números que mostram fonte de apoio, jamais como competição ras, curandeiras.
como estamos sendo sequencialmente ou concorrência. Reconhecermos o quão A revolução será feminista.
mortas, agredidas e silenciadas, mas acho fortes somos, mas aceitarmos que não
que passamos do momento de reconhecer precisamos nos sujeitar a tudo. Criarmos Vanessa Lima é oceanógrafa, vegana e
e precisamos tomar parte ativa. Durante laços profundos e verdadeiros com outras feminista.
13
OPINIÃO

ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE


A 5ª EDIÇÃO DE A GÊNESE
A polêmica envolvendo a 5ª edição da Brito Imbassahy levantou uma polêmica tratava do desaparecimento do corpo físi-
obra A Gênese não é nova. Publicada em dentro do movimento espírita. Ele havia co de Jesus, o que contraria as teses de
1872, após o desencarne de Kardec, a legi- consultado a terceira edição da obra no Jean-Baptiste Roustaing.
timidade da obra suscita polêmicas desde original francês e constatou que haviam Por volta de 2009, tomei contato com
o século XIX. O primeiro a sugerir que a significativas diferenças entre ela e a tra- digitalizações de edições originais das
obra havia sido adulterada foi o espírita dução da FEB para o idioma português. A obras de Allan Kardec, que começavam a
Henri Sausse. Na primeira quinzena de conclusão a que ele chegou, na época, era ser disponibilizadas em bibliotecas virtu-
dezembro de 1884, ele publicou na revista de que Guillon Ribeiro, tradutor da obra ais. No mesmo período, também tomei
Le Spiritisme um artigo intitulado “Uma pela FEB, havia adulterado a obra de Al- contato com edições das revistas Revue
Infâmia”, onde apontava as diferenças lan Kardec. Spirite e Le Spiritisme publicadas nos
entre a 5ª edição da obra e as demais edi- O caso ganhou repercussão nos informati- anos 80 do século XIX. As duas revistas
ções publicadas por Kardec em vida, suge- vos espíritas virtuais (principalmente no publicaram debates e acusações envolven-
rindo que a 5ª edição póstuma teria sido extinto site espírito.org) e nas redes soci- do Henri Sausse, Desliens e Leymarie,
adulterada pelos membros da “Sociedade ais (sobretudo nos grupos de debates do onde se colocava em dúvida a autoria kar-
para a continuação das obras espíritas de Orkut). Na época, a maior polêmica se deciana da 5ª edição de A Gênese.
Allan Kardec”. deu por conta da supressão de um item Com a posse desse material e motivado
Mais de um século depois, no início dos que aparece nas 4 primeiras edições e não pelo interesse em desvendar o assunto,
anos 2000, o escritor espírita Carlos de consta na 5ª edição. O suprimido item 67 reuni-me com o pesquisador espírita João

14
Donha, do Paraná, e iniciamos uma minu- conspirações. Além do mais, apresentam historiografia contemporânea tem uma
ciosa pesquisa. Nossa primeira ação foi um assunto antigo como se tivessem des- relação crítica e problematizadora com as
comparar as 4 primeiras edições da obra, coberto a pólvora. Tal postura não contri- fontes históricas. E a consulta das fontes
publicadas por Kardec em 1868, e consta- bui para a construção do conhecimento, até aqui apresentadas não nos permite
tamos que elas eram idênticas. Depois, tampouco para a realização de um debate concluir se as alterações foram feitas por
passamos para a análise e cotejamento da sério, como o assunto exige. Bittard, Desliens, Leymarie, o próprio
5ª edição, publicada em 1872, e apresen- O conhecimento científico é construído Allan Kardec ou outra pessoa. Até o pre-
tada pelos editores como revue, corri- através de metodologias adequadas e cri- sente momento, não é possível afirmar se
gée et augmentée (revista, corrigida e térios bem definidos. Ora, a data da publi- as alterações foram também adulterações.
aumentada). cação da 5ª edição em 1872 não invalida a Diante de tantas lacunas, a questão sobre
Ao analisar a obra, constatamos o que os possibilidade de que as alterações possam a legitimidade da 5ª edição de A Gênese
editores anunciaram: a 5ª edição aparecia ter sido feitas pelo próprio Allan Kardec. permanece em aberto até que surjam no-
com muitas diferenças em relação às edi- Além do mais, é preciso observar o turbu- vas fontes e evidências. Até lá, vale recor-
ções anteriores. Isso isentava Guillon Ri- lento contexto político e histórico em Pa- dar de uma máxima de Allan Kardec: “Na
beiro das acusações precipitadas de Carlos ris nos anos que se seguiram à morte de ausência dos fatos, a dúvida é a opinião do
Imbassahy. Mas, e quanto às alterações? Kardec em 1869: Guerra Franco- homem sensato.”
Quem as teria feito? Mergulhamos de Prussiana (1870-1871); deposição de Na- A quem interessar, os resultados da nossa
cabeça no assunto, consultamos diversas poleão III, fim do Segundo Império e ins- pesquisa foram publicados pelo João Do-
fontes do período, mas, na ausência de tauração da Terceira República Francesa nha no ano de 2012 em seu blog: http://
provas materiais que nos permitissem (1870); Comuna de Paris e a “semana donhaespirita.blogspot.com.br/2012/05/
chegar à autoria das alterações, não pude- sangrenta” (1871). Diante desse cenário, a linha-do-tempo-esclarece-edicoes-
mos chegar a uma conclusão. publicação de livros e o registro na Biblio- da.html.
Hoje, no ano em que comemoraremos os teca Nacional da França eram muito difí-
150 anos da publicação de “A Gênese”, ceis. Felipe Gonçalves, professor e historia-
assisto estarrecido à espetacularização Do mesmo modo, os embates e debates dor.
que alguns espíritas estão fazendo em entre os espíritas do período também na-
torno do assunto. Criou-se um verdadeiro da provam. Tais documentos não podem
cenário de caça às bruxas, com acusações ser aceitos de maneira acrítica, como se
precipitadas, convicções apaixonadas e representassem a verdade dos fatos. A

15