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Universidade Federal do Rio Grande do Norte – UFRN

Centro de Ciências Sociais Aplicadas – CCSA


Departamento de Direito Processual e Propedêuticas – DEPRO
Direito Processual Coletivo
Professor Ms. Francisco Barros Dias
Discente: Francisco Vitoriano da Silva Júnior

Direito Processual Coletivo


02/04/2018

1) Discorra sobre a definição doutrinária e legal dos direitos coletivos. Disserte sobre todas as
características de cada espécie de direitos coletivos. Conceitue brevemente o que entende por
direitos coletivos. Faça uma análise da legitimidade no processo coletivo, ilustrando a
evolução doutrinária, legal e constitucional.

Os direitos coletivos lato sensu, transindividuais, metaindividuais ou supraindividuais


são os direitos coletivos entendidos como gênero, dos quais são espécies, conforme os arrola
o Código de Defesa de Consumidor - CDC (Lei n. 8.078/90, art. 81, I-III), os direitos difusos,
os direitos coletivos stricto sensu (essencialmente coletivos) e os direitos individuais
homogêneos (acidentalmente coletivos)1.
Direitos difusos são aqueles que pertencem a um grupo, classe ou categoria
indeterminável de pessoas, que são reunidas entre si pela mesma situação de fato. Eles têm
natureza indivisível, isto é, são compartilhados em igual medida por todos os integrantes do
grupo. Assim, são exemplos em que se encontra essa espécie de direito o caso dos moradores
de uma região atingida pela contaminação ambiental causada por uma indústria e o dos
destinatários de uma publicidade enganosa divulgada pela mídia televisiva.
No entanto, os direitos difusos distinguem-se dos direitos coletivos stricto sensu, que
compreendem um grupo determinável de pessoas, reunidas pela mesma relação jurídica
básica (como os celebrantes que assinam um contrato de adesão), e também se distinguem dos
interesses individuais homogêneos, que são aqueles compartilhados por um grupo
determinável de pessoas, e que podem ser quantificados e divididos entre os integrantes do

1
Conforme DIDIER JÚNIOR, Fredie; ZANETI JÚNIOR, Hermes. Curso de Direito Processual Civil:
Processo Coletivo. 12. ed. v. 4. Salvador: JusPodivm, 2018. p. 75.
grupo (como os consumidores que adquirem uma mercadoria produzida em série com
idêntico defeito).
Teori Albino Zavascki2 sustenta que os direitos ou interesses coletivos lato sensu, já
que a doutrina reconhece que, no sistema normativo do processo coletivo, nomeadamente no
CDC, os dois termos são tomados como sinônimos, e direitos ou interesses individuais
homogêneos constituem categorias de direitos ontologicamente diferenciadas. E, a partir
dessa afirmação, traça as definições seguintes sobre as espécies de direitos coletivos lato
sensu.
Assim, os direitos difusos, sob o aspecto subjetivo, são transindividuais, com
indeterminação absoluta dos titulares. Isso porque não têm titular individual, e a ligação entre
os diversos titulares decorre de mera circunstância fática (p. ex., morar na mesma região). No
que diz respeito ao aspecto objetivo, são indivisíveis, pois não podem ser satisfeitos nem
lesados senão em forma que afete a todos os possíveis titulares (e.g., o direito ao meio
ambiente sadio, art. 225, CRFB). E, em razão da sua natureza, (i) são insuscetíveis de
apropriação individual; (ii) são insuscetíveis de transmissão, seja por ato inter vivos, seja
mortis causa; (iii) são insuscetíveis de renúncia ou de transação; (iv) sua defesa em juízo se
dá sempre em forma de substituição processual (o sujeito ativo da relação processual não é o
sujeito ativo da relação de direito material), razão pela qual o objeto do litígio é indisponível
para o autor da demanda, que não poderá celebrar acordos, nem renunciar, nem confessar (art.
392, do Código de Processo Civil - CPC) nem assumir ônus probatório não fixado em lei (art.
373, § 3.º, I, CPC) e (v) a mutação dos titulares ativos difusos da relação de direito material se
dá com absoluta informalidade jurídica, ou seja, é suficiente a alteração nas circunstâncias de
fato.
Já os direitos coletivos stricto sensu, sob o aspecto subjetivo, são transindividuais,
com determinação relativa dos titulares. Isso porque não têm titular individual, e a ligação
entre os diversos titulares decorre de uma relação jurídica-base, como o Estatuto da Ordem
dos Advogados do Brasil - OAB. No que diz respeito ao aspecto objetivo, também são
indivisíveis, pois não podem ser satisfeitos nem lesados senão em forma que afete a todos os
possíveis titulares (v.g., o direito de classe dos advogados de ter representante na composição
dos Tribunais, art. 94, CRFB). E, por causa da sua natureza, (i) são insuscetíveis de
apropriação individual; (ii) são insuscetíveis de transmissão, seja por ato inter vivos, seja

2
ZAVASCKI, Teori Albino. Processo coletivo: tutela de direitos coletivos e tutela coletiva de direitos. 7. ed. São
Paulo: Revista dos Tribunais, 2017. p. 41-42.
mortis causa; (iii) são insuscetíveis de renúncia ou de transação; (iv) sua defesa em juízo se
dá sempre em forma de substituição processual (o sujeito ativo da relação processual não é o
sujeito ativo da relação de direito material), razão pela qual o objeto do litígio é indisponível
para o autor da demanda, que não poderá celebrar acordos, nem renunciar, nem confessar (art.
392, do Código de Processo Civil - CPC) nem assumir ônus probatório não fixado em lei (art.
373, § 3.º, I, CPC) e (v) a mutação dos titulares ativos coletivos da relação jurídica de direito
material se dá com relativa informalidade jurídica, isto é, basta a adesão do sujeito à relação
jurídica-base ou a sua exclusão dela.
Por seu turno, os direitos individuais homogêneos, sob o aspecto subjetivo,
individuais, já que há a perfeita identificação do sujeito, assim como a da relação dele com o
objeto do seu direito. Em efeito, a ligação que existe com outros sujeitos decorre da
circunstância de serem titulares (individuais) de direitos com “origem comum”. No que tange
ao aspecto objetivo, são divisíveis, porquanto podem ser satisfeitos ou lesados em forma
diferenciada e individualizada, satisfazendo ou lesando um ou alguns sem afetar os demais ,
haja em vista o direito dos adquirentes a abatimento proporcional do preço pago na aquisição
de mercadoria viciada (art. 18, § 1.º, III, CDC). E, em face da sua natureza, (i) individuais e
divisíveis, pois fazem parte do patrimônio individual do seu titular; (ii) são transmissíveis por
ato inter vivos (cessão) ou mortis causa, salvo exceções (em caso de se tratar de direitos
extrapatrimoniais); (iii) são suscetíveis de renúncia e transação, salvo exceções (v.g., direitos
personalíssimos); (iv) são defendidos em juízo, em regra, pelo próprio titular. A defesa por
terceiro o será em forma de representação com aquiescência daquele. Nessa hipótese, o
regime de substituição processual dependerá de expressa autorização da lei (art. 18, CPC); (v)
a mutação de polo ativo na relação de direito material, quando admitida, acontece por meio de
ato ou fato jurídico típico e específico (contrato, sucessão mortis causa, usucapião, etc.).
A primeira ação coletiva reconhecida no Brasil, muito por influência do direito
português, foi a ação popular. A doutrina3 entende que a ação popular vigorou no período
imperial e início da República, durante a vigência das Ordenações do Reino, considerando-se
a possibilidade de defesa de bens de uso comum pelo cidadão. Para alguns, estaria inclusive
consagrada no artigo 157 da Carta do Império de 1824. Com o advento do Código Civil de
1916, mais precisamente em razão do seu artigo 76, a doutrina majoritária passou a entender
que o sistema jurídico brasileiro não mais admitia a ação popular, ainda que vozes isoladas
continuassem a defender a sobrevivência dessa ação coletiva.
3
A esse respeito, conferir NEVES, Daniel Amorim Assumpção. Manual de processo coletivo. 2.ed. Rio de
Janeiro: Forense; São Paulo: Método, 2014.
No que diz respeito à legitimidade ativa no processo coletivo no direito
estritamente brasileiro, pode-se apontar como marco a ação popular da
Constituição de 1934, que no seu artigo 113, §38, permitia a qualquer
cidadão pleitear a declaração de nulidade ou anulação dos atos lesivos do
patrimônio da União, dos Estados ou dos Municípios. Atualmente, a ação
popular é tratada na Lei n. 4.717/65 e na Constituição da República
Federativa do Brasil - CRFB.
A Lei n. 1.134/50 atribuiu legitimidade extraordinária a determinados
entes de classe para a defesa judicial de interesses dos seus integrantes.
No alvorecer dos anos 1980, quando a doutrina nacional reverberava
os avanços científicos internacionais relacionados aos direitos difusos e coletivos, a Lei da
Política Nacional do Meio Ambiente (Lei n. 6.938/81) deu legitimidade ao Ministério Público
para ajuizar ação de responsabilidade civil por danos causados ao meio ambiente, isto é, a
defender, num único processo, direito que atine a toda a coletividade. Foi quando surgiu a
ação civil pública.
A CRFB de 1988 refletiu os progressos legais e doutrinários na defesa de direitos de
matiz coletiva. Sintomática foi a reformulação do princípio do acesso à Justiça: constituições
anteriores declaravam que a lei não poderia excluir da apreciação do Poder Judiciário
qualquer lesão a direito individual. O artigo 5.º, XXXV, da atual Carta Magna, por seu turno,
estabelece que a lei não poderá excluir da apreciação do Poder Judiciário lesão ou ameaça a
direito, sem dar-lhe qualificativo. Ademais, atente-se para que essa garantia se encontra
inserida no artigo 5.º, dentro do capítulo dos Direitos e Deveres individuais e coletivos.
Assim, é inequívoco que a garantia do acesso à tutela jurisdicional também se presta aos
direitos coletivos.
No seu artigo 5.º, LXXIII, a Lex Legum ampliou o objeto de tutela da ação popular,
tomando-a instrumento hábil para a defesa não apenas do patrimônio público definido na Lei
4.717/65, mas também da moralidade administrativa e do meio ambiente.
No inciso LXX do mesmo dispositivo, criou o instrumento do mandado de segurança
coletivo, que pode ser impetrado por partido político com representação no Congresso
Nacional ou por organização sindical, entidade de classe ou associação legalmente constituída
e em funcionamento há pelo menos um ano, em defesa dos interesses de seus membros ou
associados.
Já no inciso XXI do mesmo artigo, estatuiu o direito de representação associativa, por
força do qual as associações, quando expressamente autorizadas, podem representar seus
filiados judicial e extrajudicialmente.
Em idêntico sentido, no seu artigo 8.º, III, legitimou os sindicatos, espécies de
associações que são, para a defesa de direitos e interesses coletivos ou individuais da
categoria, inclusive em questões judiciais ou administrativas.
Por fim, no seu artigo 129, III, a Lei Constitucional atribuiu ao Parquet a função
institucional de promover o inquérito civil e a ação civil pública, para a proteção do
patrimônio público e social, do meio ambiente e de outros interesses difusos e coletivos,
ressalvando, no parágrafo primeiro desse dispositivo, que a legitimidade do Ministério
Público para essas ações não impediria a de terceiros.
Nos anos seguintes, outros diplomas legais trataram da tutela
coletiva de direitos: Lei n. 7.853/89, que versou sobre os interesses das
pessoas portadoras de deficiência; Lei n. 7.913/89, que cuidou dos danos
causados aos investidores no mercado de valores mobiliários; Estatuto da
Criança e do Adolescente (Lei n. 8.069/90), voltado para a defesa dos
interesses da criança e do adolescente; Lei Antitruste (Lei n. 8.884/94 e,
atualmente, Lei n. 12.529/11), permitindo ajuizamento de ação civil
pública de responsabilidade por danos decorrentes de infrações da ordem
econômica e da economia popular; o Estatuto das Cidades (Lei n.
10.257/01), que trata dos interesses relacionados ao urbanismo; e o
Estatuto do Idoso (Lei n. 10.741/03), que versa sobre a proteção dos interesses dos
idosos.
Por tudo, resta evidente que as ações coletivas não podem ser propostas por qualquer
pessoa, porém tão somente por aqueles entes legitimados pelo legislador.
No nosso ordenamento jurídico, a escolha do representante adequado para agir em
juízo é feita pelo Poder Legislativo. Por essa razão, diz-se que o nosso sistema é ope legis.
Em oposição ao mencionado sistema, é possível que a legitimidade ad causam seja ampla,
quando caberá ao juiz decidir, em demanda concreta, ajuizada por qualquer pessoa, se
aquele que se apresentou em juízo é um adequado representante da coletividade (sistema
ope judicis). É o que ocorre com as class actions, class suits ou representative actions, cuja
origem remonta ao direito inglês, e cujo desenvolvimento e configuração atual, como
forma de tutela dos interesses transindividuais, provêm dos Estados Unidos da América.
Utilizadas nos países da common law, trata-se de remédio para solucionar conflitos
de interesses relativos à coletividade em que um ou mais membros de um grupo ou classe
de pessoas, representados por advogado, aforam uma demanda em nome de todo o grupo.
O autor ou autores da ação agirão como “representantes” no interesse de todos4.
Existe uma diferença profunda entre o sistema das class actions e o nosso. Naquele,
qualquer um dos integrantes do grupo pode figurar como representante dos demais. Já no
Brasil, além de a escolha recair sobre o legislador, o autor das ações coletivas não é titular
do direito material, de tal forma que se afirma, no caso, a legitimidade extraordinária. Tal
ocorre quando o autor pleiteia, em juízo, em nome próprio, direito alheio.
Assim sendo, no processo coletivo é comum a substituição processual, isto é, o
titular do direito de ação não é titular do direito material (legitimidade extraordinária) e
atua em juízo no lugar do titular (substituição processual).
Impende, portanto, proceder à distinção entre a representação e a substituição
processual.
Nesse diapasão, é bastante significativa a situação das entidades associativas.
Conforme o artigo 5.°, XXI, da CRFB, “as entidades associativas, quando
expressamente autorizadas, têm legitimidade para representar seus filiados judicial ou
extrajudicialmente”.
Trata-se de situação em que a entidade associativa atua como representante judicial de
seus filiados. Nessa hipótese, exige-se a prova da expressa autorização.
No processo coletivo, porém, as entidades associativas (art. 5.°, V, da Lei n. 7.347/85 e
art. 82, IV, da Lei n. 8.078/90) são substitutas processuais de determinadas categorias. Id est,
atuam como parte no processo, defendendo, em nome próprio, direito alheio. Não há, assim,
necessidade de autorização expressa para agir em juízo. Isso porque a entidade associativa é
parte e, nessa condição, age em juízo.
Além disso, no caso de substituição processual, a decisão judicial obtida pelo ente
legitimado vai favorecer todos os membros de uma classe ou categoria, ainda que não sejam
vinculados, ou seja, filiados à entidade. Nesse sentido, veio à luz a análise da 2.ª Turma do
Superior Tribunal de Justiça - STJ, em razão do AgRg no AREsp 33861/RS, sobre a
legitimidade dos sindicatos5.

4
Segundo LARSON, Aaron. What is a class action lawsuit, 14 jan. 2018. ExpertLaw. Disponível em:
<https://www.expertlaw.com/library/civil-litigation/what-class-action-lawsuit>. Acesso em: 28 mar. 2018.
5
“De acordo com a orientação do STF e do STJ, os sindicatos possuem ampla legitimidade para defender em
juízo os direitos da categoria, não apenas na fase de conhecimento, mas também em liquidação e em execução de
Desse modo, a sentença obtida pela entidade associativa, em processo coletivo, não
beneficia somente aquele que seja filiado, mas, indistintamente, todos os substituídos, isto é,
todos os membros da categoria. E, em consonância com essa intelecção, se pronunciou a 2.ª
Turma do STJ, frente ao AgRg no AREsp 446652/RJ6.
Nesse ínterim, se a entidade associativa atua como representante processual, a decisão
obtida na demanda só beneficia quem é parte, ou seja, quem está representado em juízo pela
entidade associativa.
Se atuar em regime de substituição processual, a decisão produzirá efeito para além de
seus filiados.
A Defensoria Pública também pode atuar como autora de ações coletivas, em regime
de substituição processual, ou, então, como representante judicial de entidades associativas
hipossuficientes economicamente.
Outra questão doutrinária que surge diz mister à natureza da legitimidade do autor da
ação coletiva, que atua como substituto processual. Isto é, se existe, in casu, legitimidade
extraordinária ou uma legitimidade diferenciada, aplicável ao processo coletivo, que alguns
chamam legitimação autônoma para a condução do processo.
Acontece que resta patente certa diferença entre o processo coletivo e o individual.
No processo individual, a sentença proferida em face do substituto, que é parte na
ação, produz efeitos em relação aos substituídos, ou seja, aos titulares do direito material que
não estão em juízo. E a vinculação dos substituídos aos efeitos da sentença se dá tanto no caso
de procedência, quanto no caso de improcedência da demanda (pro et contra).
Já no processo coletivo, a decisão de procedência favorece os substituídos, enquanto a
de improcedência não traz prejuízo para as pretensões individuais.

sentença. A hipótese é de substituição, e não de representação processual, razão pela qual é desnecessária a
autorização dos substituídos”.
6
“Nos termos da Súmula 629/STF, associação ou sindicato, na qualidade de substituto processual, atuam na
esfera judicial na defesa dos interesses coletivos de toda a categoria que representam, dispensando-se a relação
nominal dos afiliados e suas respectivas autorizações.
Tem legitimidade o associado para ajuizar execução individual de título judicial proveniente de ação coletiva
proposta por associação ou sindicato, independentemente da comprovação de sua filiação ou de sua autorização
expressa para representação no processo de conhecimento. Nesse sentido, os seguintes julgados: REsp
1379403/RJ, Rei. Ministra Eliana Calmon, Segunda Turma, DJe 26/09/2013; AgRg no AREsp 238.656/DF, Rel.
Ministro Humberto Martins, Segunda Turma, DJe 15/04/2013; AgRg no AREsp 201.794/DF, Rel. Ministro
Sérgio Kukina, Primeira Turma, DJe 11/04/2013; AgRg no REsp 1185824/GO, Rel. Min. Castro Meira, Segunda
Turma, DJe 16/2/2012; AgRg no REsp 1153359/GO, Rel. Min. Jorge Mussi, Quinta Turma, DJe 12/4/2010”.
Daí o motivo de parte da doutrina defender a necessidade de uma terminologia própria
para o processo coletivo.
Majoritariamente, no entanto, opina-se no sentido de que não se justifica uma
terminologia específica para o processo coletivo, pois o titular do direito de ação não é titular
do direito material. Isto é, ele é um legitimado extraordinário.
A legitimidade para o ajuizamento de ação civil pública é concorrente (há mais de um
legitimado, dessa forma, não é exclusiva) e disjuntiva, porquanto cada um dos colegitimados
pode, sozinho, ajuizar a ação.
Portanto, cada um dos vários colegitimados tem autonomia para agir em juízo de
forma independente. Um não depende do outro para ajuizar a ação coletiva (disjuntiva).
Quando a legitimidade é concorrente, o fato de lei posterior incluir mais um
legitimado no rol não exclui, de nenhuma maneira, a legitimidade de qualquer outro ente
anteriormente legitimado.
A jurisprudência também identifica situações em que a legitimidade, embora
concorrente e disjuntiva, pode ser considerada subsidiária.
De fato, há decisões no sentido de que a legitimidade para promover a liquidação e a
execução da sentença coletiva é prioritária das vítimas ou sucessores, sendo muito
esclarecedora a decisão, proferida pela 4.ª Turma do STJ, em face do REsp 869583/DF7.
7
“1. A legitimidade para intentar ação coletiva versando a defesa de direitos individuais homogêneos é
concorrente e disjuntiva, podendo os legitimados indicados no art. 82 do CDC agir em Juízo independentemente
uns dos outros, sem prevalência alguma entre si, haja vista que o objeto da tutela refere-se à coletividade, ou
seja, os direitos são tratados de forma indivisível.
2. Todavia, para o cumprimento de sentença, o escopo é o ressarcimento do dano individualmente
experimentado, de modo que a indivisibilidade do objeto cede lugar à sua individualização.
3. Não obstante ser ampla a legitimação para impulsionar a liquidação e a execução da sentença coletiva,
admitindo-se que a promovam o próprio titular do direito material, seus sucessores, ou um dos legitimados do
art. 82 do CDC, o art. 97 impõe uma gradação de preferência que permite a legitimidade coletiva
subsidiariamente, uma vez que, nessa fase, o ponto central é o dano pessoal sofrido por cada uma das vítimas.
4. Assim, no ressarcimento individual (arts. 97 e 98 do CDC), a liquidação e a execução serão obrigatoriamente
personalizadas e divisíveis, devendo prioritariamente ser promovidas pelas vítimas ou seus sucessores de forma
singular, uma vez que o próprio lesado tem melhores condições de demonstrar a existência do seu dano pessoal,
o nexo etiológico com o dano globalmente reconhecido, bem como o montante equivalente à sua parcela.
5. O art. 98 do CDC preconiza que a execução ‘coletiva’ terá lugar quando já houver sido fixado o valor da
indenização devida em sentença de liquidação, a qual deve ser - em sede de direitos individuais homogêneos -
promovida pelos próprios titulares ou sucessores.
6. A legitimidade do Ministério Público para instaurar a execução exsurgirá - se for o caso - após o escoamento
do prazo de um ano do trânsito em julgado se não houver a habilitação de interessados em número compatível
No processo coletivo. constatam-se situações de restrição da legitimidade ativa. Tal
ocorre, verbi gratia, na ação de improbidade administrativa, que só pode ser proposta pelo
Ministério Público ou pela pessoa jurídica de direito público interessada (de acordo com o art.
17 da Lei n. 8.429/92). Em efeito, em ação de improbidade administrativa, a 2.ª Turma do
STJ, ao arrostar o REsp 1216439/CE, verificou situação de legitimidade ativa concorrente,
alternativa ou disjuntiva8.
Outra discussão cabível, no processo coletivo, acerca da legitimidade ativa, é sobre
saber se os colegitimados podem atuar em ambas as fases do processo sincrético (cognitiva e
executiva), ou se existiria uma legitimidade por fase da ação (legitimidade parcial).
De início, é válido lembrar que existe entendimento no sentido de que o juízo da
primeira fase (cognitiva), ou seja, que decide a ação civil pública, não fica prevento para
eventual execução individual.
Por essa causa, deveria ser dividido o juízo de admissibilidade, no que diz respeito à
verificação das condições da ação, para a fase executiva.
Nessa conjuntura, há quem assevere que o Ministério Público, exempli gratia, quando
atua como legitimado extraordinário para a tutela de direitos individuais homogêneos, teria

com a gravidade do dano, nos termos do art. 100 do CDC. É que a hipótese versada nesse dispositivo encerra
situação em que, por alguma razão, os consumidores lesados desinteressam-se quanto ao cumprimento individual
da sentença, retornando a legitimação dos entes públicos indicados no art. 82 do CDC para requerer ao Juízo a
apuração dos danos globalmente causados e a reversão dos valores apurados para o Fundo de Defesa dos
Direitos Difusos (art. 13 da LACP), com vistas a que a sentença não se torne inócua, liberando o fornecedor que
atuou ilicitamente de arcar com a reparação dos danos causados.
7. No caso sob análise, não se tem notícia acerca da publicação de editais cientificando os interessados acerca da
sentença exequenda, o que constitui óbice à sua habilitação na liquidação, sendo certo que o prazo decadencial
nem sequer iniciou o seu curso, não obstante já se tenham escoado quase treze anos do trânsito em julgado.
8. No momento em que se encontra o feito, o Ministério Público, a exemplo dos demais entes públicos indicados
no art. 82 do CDC, carece de legitimidade para a liquidação da sentença genérica, haja vista a própria
conformação constitucional desse órgão e o escopo precípuo dessa forma de execução, qual seja, a satisfação de
interesses individuais personalizados que, apesar de se encontrarem circunstancialmente agrupados, não perdem
sua natureza disponível”. (Grifo nosso)
8
“Cuida-se, na origem, de ação de improbidade proposta pelo Ministério Público Federal em razão de
irregularidades na aplicação da verba federal (do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação - FNDE)
transferida a município […].
Existe, no presente caso, uma espécie de legitimidade ativa concorrente, alternativa ou disjuntiva entre a União e
o Município, entre o Ministério Público Federal e o Ministério Público Estadual, não sendo cabível extinguir o
processo advindo de ação de improbidade ou ação civil pública proposta por qualquer destes entes, já que todos
têm interesse na apuração das irregularidades”.
legitimidade para promover a ação de conhecimento, mas não para promover a liquidação e a
execução individual.

REFERÊNCIAS

DIDIER JÚNIOR, Fredie; ZANETI JÚNIOR, Hermes. Curso de Direito Processual Civil:
Processo Coletivo. 12. ed. v. 4. Salvador: JusPodivm, 2018.

LARSON, Aaron. What is a class action lawsuit, 14 jan. 2018. ExpertLaw. Disponível em:
<https://www.expertlaw.com/library/civil-litigation/what-class-action-lawsuit>. Acesso em:
28 mar. 2018.

NEVES, Daniel Amorim Assumpção. Manual de processo coletivo. 2. ed. São Paulo:
Elsevier; Método, 2014.

ZAVASCKI, Teori Albino. Processo coletivo: tutela de direitos coletivos e tutela coletiva de
direitos. 7. ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2017.