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Adriano Carneiro Giglio

José Augusto de Souza Nogueira

Fundação Biblioteca Nacional


ISBN 978-85-7638-731-2

CONTEXTOS BRASILEIROS CONTEXTOS BRASILEIROS

CONTEX TOS BR ASILEIROS

Fundação Biblioteca Nacional


ISBN 978-85-387-3178-8

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Adriano Carneiro Giglio
José Augusto de Souza Nogueira

Contextos Brasileiros

Edição revisada

IESDE Brasil S.A.


Curitiba
2012
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© 2008 – IESDE Brasil S.A. É proibida a reprodução, mesmo parcial, por qualquer processo, sem autorização por escrito dos autores e do detentor
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G39c

Giglio, Adriano Carneiro.


Contextos brasileiros / Adriano Carneiro Giglio, José Augusto de Souza Nogueira. - 1.
ed. rev. - Curitiba, PR : IESDE Brasil, 2012.
82 p. : 28 cm

Inclui bibliografia
ISBN 978-85-387-3178-8

1. Capitalismo - Brasil 2. Brasil - Política econômica. I. Título.

12-7333. CDD: 338.981


CDU: 338.1(81)

10.10.12 22.10.12 039800


__________________________________________________________________________________

Capa: IESDE Brasil S.A.


Imagem da capa: Shutterstock

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Sumário
A formação do Brasil: o atraso para a modernidade | 7
Transformações europeias | 7
Era Moderna | 8
Brasil: contradição histórica | 9
O passado em seu futuro | 10
Início para transformações | 12

A modernização do Brasil | 17
A lógica do capitalismo | 17
Estrutura social e ideologias políticas | 18
Economia e arte moderna | 19
A Revolução de 30 e a Era Vargas | 21
O modelo de desenvolvimento de JK | 22

O Brasil entre dois mundos | 27


A industrialização tardia | 27
Política econômica e expansão do capitalismo industrial | 28
Economia e política a partir da década de 1960 | 30
Novamente governo militar | 31
A década de 1980 e as transformações nacionais e internacionais | 36

Cidadania moderna e movimentos sociais | 43


A cidadania moderna | 43
A nova ordem mundial e seus desdobramentos nas sociedades em desenvolvimento | 47

O Brasil das urnas | 55


A modernização “Collorida” | 55
FHC: o sociólogo neoliberal | 58

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O Brasil e o contexto internacional | 65
Transformações do capitalismo | 65
Globalização | 67
Os principais blocos econômicos | 74

Referências | 79

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Apresentação
O objetivo deste livro é possibilitar o contato de estudantes e
leitores não apenas a um conjunto de informações e conteúdos, mas
também chegarem ao entendimento e interpretação da realidade
através da compreensão dos problemas vividos nas sociedades atuais,
em especial na brasileira. Partindo dos pressupostos de longa duração
no tempo histórico, em que se observa a permanência de ideias, con-
ceitos e práticas ao longo dos séculos, a estrutura de longa duração
escolhida foi o sistema capitalista.
O desenvolvimento do trabalho tem, na análise do modelo capitalista,
o fator que possibilita a construção de uma interpretação da formação do
mundo atual. Assim, os fatos e momentos históricos dos últimos trezentos
anos ocorridos no mundo, tais como as revoluções burguesas, as revoluções
industriais, as revoluções socialistas, as duas guerras mundiais, os regimes
fascistas, as ditaduras militares na América Latina, a Guerra Fria, a nova ordem
mundial, o neoliberalismo e a globalização cujos resultados de forma direta
ou indireta concorreram para a formação política, econômica e social do
mundo contemporâneo, estão diretamente ligados ao sistema capitalista,
não de forma imposta ou subordinada, mas sendo ao mesmo tempo sujeito
e objeto das transformações ocorridas na estrutura do modelo capitalista ao
longo dos séculos.
Enfim, neste trabalho há um cabedal de conteúdos capazes de instigar
o leitor a conhecer e entender a sociedade brasileira contemporânea.

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A formação do Brasil:
o atraso para a modernidade
Adriano Carneiro Giglio*
A formação do Brasil e de sua sociedade está intrinsecamente ligada à história das sociedades eu-
ropeias. Podemos afirmar que a sociedade brasileira surge como uma consequência, como um produto,
das transformações ocorridas no interior das sociedades europeias e que caracterizam o fim da Idade
Média e o início da Era Moderna. Foi justamente nesse período que, em meio às navegações ultramari-
nas, um novo continente seria incluído no mapa-múndi dos povos europeus. E nele seria dado início à
formação do Brasil.

Transformações europeias
O período histórico conhecido por Idade Média localiza-se entre a decadência e o fim do Império
Romano (sécs. III a V) e a crise do modo de produção feudal e início das relações capitalistas de produ-
ção (sécs. XIII a XV). A Europa, continente sobre o qual tais marcos históricos mais repercutem, apresen-
tará, nesse período medieval, sociedades organizadas a partir de um modo de produção denominado
feudal. O feudalismo europeu caracteriza-se:
::: politicamente, por pequenos reinos, constituídos de feudos, com poderes autônomos, autori-
tários e hereditários, vinculados fortemente às estruturas da Igreja Católica;
::: economicamente, por uma produção agrária predominantemente de subsistência, controlada
pelos senhores feudais, proprietários dos meios de produção (terra, ferramentas, insumos),
combinada a algum artesanato e pequeno comércio, sendo os habitantes do feudo a mão de
* Mestre em Sociologia pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (IUPERJ). Especialista em Sociologia Urbana pela Universi-
dade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ). Especialista em Gestão de Educação Profissionalizante pela Escola Brasileira de Administração Pública
de Empresas da Fundação Getulio Vargas do Rio de Janeiro (MBA EBAPE / FGV-RJ). Bacharel e Licenciado em Ciências Sociais pela Universidade
Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
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8 | A formação do Brasil: o atraso para a modernidade

obra, que se subordina com trabalho e impostos às relações servis de produção em troca de
moradia e segurança;
::: socialmente, por uma estrutura que permite pouca ou rara mobilidade social, cujos estamen-
tos1 podem ser divididos entre servos, camponeses livres, artesãos e pequenos comerciantes,
baixo clero, exército, nobres e alto clero.
Da crise da sociedade de modelo feudal de produção surgem as novas relações produtivas que
constituirão a sociedade capitalista. O feudalismo se desfez lentamente a partir do século XIII com a
combinação de diferentes fatores, entre eles estão:
::: a peste bubônica, que dizimou parte das populações dos feudos;
::: a revisão dos arranjos políticos e da interferência do poder da Igreja Católica;
::: o enfraquecimento econômico dos senhores feudais em meio às elevadas despesas com guer-
ras e consequente baixa produtividade; e, principalmente;
::: o enriquecimento dos comerciantes, que buscam mais liberdade para estabelecer mercados,
obter lucros, reduzir impostos e participar das esferas políticas do poder.
Também irão marcar a transição entre a Idade Média e a Era Moderna as intensas atuações de
artistas e intelectuais, que descortinam novas perspectivas estéticas, filosóficas e científicas provocan-
do a reflexão do homem sobre ele próprio, sua realidade, o mundo e sua natureza, Deus e a religião. O
conjunto das obras produzidas nessa transição contribuiu para que historicamente tal período fosse
denominado Renascimento, em contraposição às trevas em que se encontrava a sociedade humana
ao longo da Idade Média diante do papel obscurecedor da Igreja Católica sobre as áreas de estudo e
conhecimento.

Era Moderna
A Era Moderna está associada à organização da sociedade europeia em torno de uma nova ma-
neira de produzir, distribuir e consumir: o modo de produção capitalista. A sociedade moderna capita-
lista caracteriza-se:
::: politicamente, por Estados com poder central organizado a partir de uma cadeia de órgãos e
instituições – até o século XVIII predominantemente monárquicos, após, predominantemente
republicanos – demonstrando a ascensão da participação política de diferentes setores da
população e a redução da influência de religiões oficiais;
::: economicamente, por relações de produção capitalistas, que preveem a propriedade privada,
o lucro a partir da reprodução do capital, a liberdade e a remuneração em salário, a intensifica-
ção da manufatura, do mercado e, a partir do século XIX, da indústria;
::: socialmente, por uma estrutura que permite, em tese, maior mobilidade social, cujas classes
estão divididas entre capitalistas (proprietários dos meios de produção, burgueses) e trabalha-
dores assalariados (proprietários da própria força de trabalho, proletariados e camponeses);
1 São denominados estamentos os grupos sociais pertencentes à estratificação em camadas da sociedade feudal, visto que essa estratificação
caracteriza a pouca ou rara possibilidade de mobilidade social (ascendente ou descendente). Da mesma forma, na sociedade capitalista são
denominadas classes as camadas da estratificação social correspondente, pois esta se caracteriza pela maior possibilidade de mobilidade dos
seus integrantes. Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
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A formação do Brasil: o atraso para a modernidade | 9

::: a produção científica atuou decisivamente para as transformações tecnológicas que passa-
ram a incrementar constantemente as mercadorias, os mercados e as relações capitalistas
de produção.
A sociedade capitalista que então se forma transita entre o antigo e o moderno, o atraso e o progresso,
a superstição e a razão, o mito e a ciência, o rural e o urbano. O ambiente dessa sociedade é a cidade e a vida
urbana; o campo se subordina a ela como provedor, pois o comércio está nas feiras e nas lojas de suas ruas,
a administração e os órgãos de Estado também estão nos centros. O saneamento, os transportes e a comu-
nicação com o mundo estão na cidade. A civilidade, os modos e os hábitos da vida moderna têm no cenário
urbano a sua origem. É lá que a indústria terá sua reciprocidade, necessitando de infraestrutura e mão de
obra cada vez mais qualificada, estimulando e fornecendo novas possibilidades à vida citadina.

Brasil: contradição histórica


Nesse sentido, o Brasil será constituído em meio a um processo histórico no qual ficará evidente a
sua contradição: enquanto os europeus passam por transformações modernizantes em suas estruturas
sociais, a organização da sociedade brasileira se baseará em soluções econômicas e políticas atrasadas,
que o aproximam da Antiguidade e da Idade Média. Os agentes desse processo são os mesmos, pois
à medida que eles (europeus, seus reinos e alta burguesia) procuram, no processo de acumulação de
capital, ter acesso a novas mercadorias e mercados, com o intuito de promover o desenvolvimento do
capitalismo e da modernidade em seus países, fazem isso às custas da exploração de territórios do novo
mundo, o continente americano. Mais precisamente a partir de decisões e estratégias que retomam
relações de produção da Antiguidade, como a escravidão, e concentrando poder político e econômi-
co como na Idade Média, dificultando ou impedindo a participação política, a propriedade privada, o
trabalho livre e assalariado. A colonização desses novos territórios, nesse contexto, apresenta-se como
mais uma consequência do mercantilismo empreendido pelos europeus em diferentes direções e mer-
cados. No caso, os reinos ibéricos de Espanha e Portugal, mais afastados pelas vias terrestres dos merca-
dos do oriente, lançam ao mar suas ambições e, na condição de vanguarda política e científica da época,
assumem a liderança das aventuras da Expansão Marítima. Ao invés das feitorias implantadas na costa
africana, para o comércio de marfim e outras mercadorias, os portugueses elaboram uma colonização
de exploração, como forma de superar as dificuldades do deslocamento marítimo e a resistência dos
povos nativos. A América tropical era estimulante e interessante pela possibilidade de descoberta de
mercadorias preciosas, exclusivas e exóticas, a exemplo do que apresentavam as Índias Orientais. Mas,
ao mesmo tempo, pouco atrativa para um povoamento voluntário de imigrantes, seja pela condução da
Coroa portuguesa, seja pelo ambiente inóspito, seja pela redução populacional portuguesa em decor-
rência das guerras para expulsão da dominação moura em seu território em séculos anteriores.
Da extração do pau-brasil, cuja propriedade é sua química vegetal para tingimento, aos ciclos
de produção agrária e mineral (cana-de-açúcar, ouro, diamantes, algodão, tabaco, borracha), as marcas
dessa colonização na formação da sociedade brasileira somente começaram a ser redefinidas três sécu-
los após o ano de 1500, quando da vinda da família real para o Brasil em 1808. Até aquele momento, não
se registra um projeto para uma sociedade brasileira, mas sim as consequências do processo histórico
europeu e de seu capitalismo originário.

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10 | A formação do Brasil: o atraso para a modernidade

Há vários casos exemplares dessa determinação externa aos destinos da formação do Brasil e
de como isso o deixava vulnerável aos eventos e desejos internacionais. Como exemplo há a cana-
-de-açúcar, cuja especiaria fez do Brasil o seu maior produtor mundial e sobre a qual a economia es-
tava assentada até o surgimento da concorrência internacional das Antilhas, quando os engenhos
revolveram-se com a crise de mercado em fins do século XVII; ou a exploração de ouro e diamantes,
que provocou intenso deslocamento demográfico para a região das minas e se tornou a principal fonte
financeira após a crise da cana-de-açúcar, até os sinais de diminuição e esgotamento das suas jazidas.
Mas emblemático mesmo é o exemplo da produção de algodão, que possuía importância à economia
colonial do açúcar, e depois do ouro, servindo para a confecção de sacos e roupa de escravos, assim
como o tabaco e a aguardente que eram utilizados no escambo2 de escravos africanos. No entanto,
com o salto de desenvolvimento do capitalismo europeu, em virtude do advento da produção indus-
trializada na segunda metade do século XVIII, o algodão passou a ser mercadoria fundamental para
suprir a demanda multiplicada pelas novas tecnologias mecânicas (motores e energias) aplicadas aos
teares. A Inglaterra, berço dessa Revolução Industrial, terá na produção brasileira a matéria-prima que
seus teares transformarão não somente em tecidos e roupas que também serão vendidos para o Brasil,
mas, principalmente, em desenvolvimento do seu capitalismo e da modernidade de sua sociedade.
No rastro daquele mundo moderno, até o tabaco passa a ser matéria-prima com maior importância
econômica para a colônia, pois na Europa o hábito de fumar passa a constituir-se como elemento da
moda no cenário da vida urbana.

Wikipédia.

Tecelão, de Vincent van Gogh. Lavoura de algodão.

O passado em seu futuro


Embora um país novo, todo o seu passado já havia consolidado a violência física e moral do geno-
cídio dos povos nativos, estimados em quase três milhões de habitantes divididos em inúmeras nações
e línguas diferentes à época da chegada de Pedro Álvares Cabral, enquanto atualmente, neste início
de século XXI, contabilizam menos de quatrocentos mil remanescentes divididos em 215 nações e 170
línguas. Não menos violento foi o uso de mão de obra escrava, inicialmente nativa, mas principalmente
africana. O modelo de ocupação do solo em latifúndios combinado à produção monocultora, elegendo
um determinado produto para, em larga escala e com mão de obra escrava, reduzir custos para atender
2 Denomina-se escambo a troca direta de bens, como forma de se comercializar na ausência de moeda.
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A formação do Brasil: o atraso para a modernidade | 11

ao mercado externo europeu, determinou a desigualdade econômica e social presente até os dias de
hoje. A riqueza gerada se deslocava, majoritariamente, para a Coroa portuguesa, enquanto a parcela
que ficava no Brasil se concentrava, assim como a terra e os meios de produção, nas mãos da elite local.
Não se desenvolvia o mercado interno brasileiro, que permanecia incipiente, mas sim o europeu. Para
o desenvolvimento de um mercado interno, além de produção de produtos diversificados, agrícolas e
manufaturados, seria também necessária uma massa de trabalhadores assalariados para estimular o
consumo interno e a circulação de mercadorias e moeda. Portanto, o oposto do que o Brasil possuía. Do
contrário, essa sociedade estaria no mesmo curso histórico do capitalismo europeu.
Esse é o cenário desenvolvido pelo pacto colonial, de acordo com as imposições da metrópole
portuguesa à colônia brasileira. A atividade econômica deveria ser limitada à agricultura, sem a possi-
bilidade de desenvolvimento de atividades manufatureiras, menos ainda de maquinários elaborados
como teares para linhas e tecidos finos, por exemplo. Somente com a vinda da família real e a corte
para o Brasil, e novamente por motivos europeus – no caso as guerras napoleônicas – o pacto colonial
será quebrado. Dom João VI, ao abrigar-se em terras brasileiras, determina a abertura dos portos bra-
sileiros às nações amigas, especificamente à Inglaterra, ativa parceira comercial dos portugueses. A
manufatura começa a ser desenvolvida, inicia-se a articulação com outros centros comerciais e indus-
triais, diversas instituições e órgãos são criados como medida de aproximar o Brasil da modernização
já avançada na Europa.
Exemplos desse sopro de modernidade que atravessou o Atlântico com a família real são:
::: a fundação do Banco do Brasil (1808);
::: a criação da Imprensa Régia e a autorização para o funcionamento de tipografias e para a pu-
blicação de jornais (1808);
::: a abertura de escolas, como as de medicina da Bahia e do Rio de Janeiro;
::: instalação de fábrica de pólvora e de indústrias de ferro em Minas Gerais e em São Paulo;
::: a criação da Biblioteca Real (1810), do Jardim Botânico (1811) e do Museu Real (1818);
::: a vinda da Missão Artística Francesa (1816) e a fundação da Academia de Belas-Artes.

Chegada da família real portuguesa.

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12 | A formação do Brasil: o atraso para a modernidade

Início para transformações


Em que pese a Independência do Brasil, proclamada pelo descendente da Coroa portuguesa
após o retorno da família real a Portugal e a transformação da colônia em Império, em 1822, haverá em
meados daquele século meia centena de produtores de tecidos, além da fundação de bancos, segu-
radoras e companhias de transportes. No último quartel do mesmo século XIX, finalmente, registra-se
um conjunto de eventos que serão considerados fatores fundamentais da transformação da sociedade
brasileira: a abolição da escravidão e a introdução do trabalho livre assalariado, a Proclamação da Repú-
blica e a economia do café.
A esse respeito, Sérgio Buarque de Holanda (1991, p. 127), em seu livro Raízes do Brasil de 1936,
faz a seguinte reflexão:
Se em capítulo anterior se tentou fixar a data de 1888 como o momento talvez mais decisivo de todo o nosso desenvol-
vimento nacional, é que a partir dessa data tinham cessado de funcionar alguns dos freios tradicionais contra o advento
de um novo estado de coisas, que só então se faz inevitável. Apenas nesse sentido é que a Abolição representa, em
realidade, o marco mais visível entre duas épocas. [...]
E efetivamente daí por diante estava melhor preparado o terreno para um novo sistema, com seu centro de gravidade
não já nos domínios rurais, mas nos centros urbanos. [...] Ainda testemunhamos presentemente, e por certo continua-
remos a testemunhar durante largo tempo, as ressonâncias últimas do lento cataclismo, cujo sentido parece ser o do
aniquilamento das raízes ibéricas de nossa cultura para a inauguração de um estilo novo, que crismamos talvez iluso-
riamente de americano, porque seus traços se acentuam com maior rapidez em nosso hemisfério.

O americanismo, conceito citado por Sérgio Buarque de Holanda, revela já na primeira metade
do século XX o compartilhamento do centro gravitacional do capitalismo moderno entre a Europa e os
Estados Unidos que, desde o século XVIII, como ex-colônia da Inglaterra e com mais características do
modelo de povoamento do que de exploração, avançaram em adotar o desenvolvimento em curso nas
sociedades europeias, participando, por exemplo, quase ao mesmo tempo, da Revolução Industrial.
As transformações daí decorridas na vida da sociedade brasileira passavam pela mudança de
suas instituições econômicas, políticas e sociais, ficando evidente na mentalidade de suas elites e
no surgimento de novos personagens e grupos de poder. A economia do café está intrinsecamente
associada a isso, a ponto de estabelecer antagonismos com a economia da cana-de-açúcar, que havia
retomado certa importância econômica com as crises políticas e sociais nas Antilhas e em outros
concorrentes seus em fins do século XVIII. O senhor de engenho, e o ambiente do engenho de açúcar
estão identificados à aristocracia rural arcaica, escravista e monárquica, enquanto o fazendeiro do
café e sua lavoura representam o abolicionismo, o trabalho assalariado, a República e a vida urbana,
chegando a desdobrar-se, se não diretamente, por meio de seus descendentes e finanças, na nascente
burguesia industrial.
É deliberadamente que se frisa aqui o declínio dos centros de produção agrária como o fator decisivo da hipertrofia
urbana. As cidades, que outrora tinham sido como complementos do mundo rural, proclamaram finalmente sua vida
própria e sua primazia.
[...] o desaparecimento progressivo dessas formas tradicionais coincidiu, de modo geral, com a diminuição da impor-
tância da lavoura do açúcar, durante a primeira metade do século passado (XIX), e sua substituição pela do café.
[...] O resultado é que o domínio agrário deixa, aos poucos, de ser uma baronia, para se aproximar, em muitos dos seus
aspectos, de um centro de exploração industrial. [...] O fazendeiro que se forma ao seu contato (café), torna-se, no fun-
do, um tipo citadino, mais do que rural, e um indivíduo para quem a propriedade agrícola constitui, em primeiro plano,
meio de vida e só ocasionalmente local de residência ou recreio. (HOLANDA, p. 129-130)

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A formação do Brasil: o atraso para a modernidade | 13

O mercado interno passa a se desenvolver fortemente no rastro da abolição, da introdução do tra-


balho assalariado e da imigração estrangeira que vem suprir quantitativa e qualitativamente os setores
de serviços e de produção agrícola, principalmente na lavoura de café, bem como o industrial, ainda em
formação. Somente para fixarem-se em São Paulo, desembarcaram, na última década do século XIX, 609
mil imigrantes, dos 1,5 milhão que vieram para o Brasil. Nesse sentido é que Celso Furtado (2000, p. 155)
considera que o “fato de maior relevância ocorrido na economia brasileira no último quartel do século XIX
foi, sem lugar à dúvida, o aumento da importância relativa do setor assalariado”. A expansão do mercado
interno baseia-se no trabalho assalariado da economia cafeeira, cujo mecanismo de suas unidades se liga
intimamente às correntes do comércio exterior. Uma vez que não se trata mais de trabalho escravo, o valor
total da produção deverá remunerar os fatores utilizados na produção, conforme explica o mesmo autor
(2000, p. 156):
A fim de simplificar a análise, dividiremos essa renda em dois grupos gerais: renda dos assalariados e renda dos proprietários.
O comportamento desses dois grupos, no que respeita a utilização da renda, é sabidamente muito distinto. Os assalariados
transformam a totalidade, ou quase totalidade, de sua renda em gastos de consumo. A classe proprietária, cujo nível de con-
sumo é muito superior, retém parte de sua renda para aumentar seu capital, fonte dessa mesma renda.

Dessa forma, o século XX apresentará as transformações que não aconteceram nos últimos qua-
trocentos anos da formação do Brasil, cujo atraso proporcionou, no mesmo período, a modernização
das sociedades europeias.

Texto complementar
O Brasil nos quadros do antigo sistema colonial
(NOVAIS, 1984, p. 58-59)
A economia colonial, quando encarada no contexto da economia europeia de que faz parte, que
é o seu centro dinâmico, aparece como altamente especializada. E isto mais uma vez se enquadra nos
interesses do capitalismo comercial que geraram a colonização: concentrando os fatores na produ-
ção de alguns poucos produtos comerciáveis na Europa, as áreas coloniais se constituem ao mesmo
tempo em outros tantos centros consumidores dos produtos europeus. Assim se estabelecem os dois
lados da apropriação de lucros monopolistas […] Mas não só na alocação dos fatores produtivos, na
elaboração de alguns produtos ao mercado consumidor europeu se revela a dependência da eco-
nomia colonial face ao seu centro dinâmico. O sistema colonial determinará também o modo de sua
produção. A maneira de se produzirem os produtos coloniais fica, também, necessariamente, subor-
dinada ao sentido geral do sistema; isto é, a produção se devia organizar de modo a possibilitar aos
empresários metropolitanos ampla margem de lucratividade. Ora, isto impunha a implantação, nas
áreas coloniais, de regimes de trabalho necessariamente compulsórios, semisservis ou propriamente
escravistas. De fato, a possibilidade de utilização do trabalho livre, na realidade mais produtivo e, pois,
mais rentável em economia de mercado, ficava bloqueada na situação colonial pela abundância do

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14 | A formação do Brasil: o atraso para a modernidade

fator terra; seria impossível impedir que os trabalhadores assalariados optassem pela alternativa de se
apropriarem de uma gleba, desenvolvendo atividades de subsistência. Disto resultaria, obviamente,
não uma produção vinculada ao mercado do centro dinâmico metropolitano, mas simplesmente a
transferência de parte da população europeia para áreas ultramarinas, e a constituição de núcleos
autárquicos ou quase autárquicos de economia de subsistência, em absoluta contradição com as ne-
cessidades e estímulos da economia europeia em expansão. É em função dessas determinações que
renasce na época moderna, no mundo colonial, a escravidão e toda uma gama de formas servis e
semisservis de relações de trabalho, precisamente quando na Europa tende a se consolidar a evolução
no sentido contrário, isto é, da difusão cada vez maior do regime assalariado.

Atividades
1. Apresente, de maneira comparada, as características entre os dois modos de produção vividos
pelas sociedades europeias na transição da Idade Média para a Moderna.

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A formação do Brasil: o atraso para a modernidade | 15

2. Que conceito representa a ideia exposta no seguinte trecho, principalmente quanto ao rumo de
que fala o autor?

“O desaparecimento do velho engenho, engolido pela usina moderna, a queda de prestígio do


antigo sistema agrário e a ascensão de um novo tipo de senhores de empresas concebidas à
maneira de estabelecimentos industriais urbanos indicam bem claramente em que rumo se faz
essa evolução.” (HOLANDA, 1991, p. 131)

3. Entre algumas características associadas à economia do café no Brasil, na virada do século XIX
para o século XX, podemos considerar:
a) Trabalho assalariado.
b) Aristocracia arcaica.
c) Escravidão.
d) Monarquia.

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16 | A formação do Brasil: o atraso para a modernidade

Gabarito
1. Feudalismo: politicamente, por pequenos reinos, constituídos de feudos, com poderes autôno-
mos, autoritários e hereditários, vinculados fortemente às estruturas da Igreja Católica; econo-
micamente, por uma produção agrária predominantemente de subsistência, controlada pelos
senhores feudais, proprietários dos meios de produção (terra, ferramentas, insumos), combinada
a algum artesanato e pequeno comércio, sendo os habitantes do feudo a mão de obra, que se su-
bordina com trabalho e impostos às relações servis de produção em troca de moradia e seguran-
ça; socialmente, por uma estrutura que permite pouca ou rara mobilidade social, cujos estamen-
tos (grupos sociais) podem ser divididos entre: servos, camponeses livres, artesãos e pequenos
comerciantes, baixo clero, exército, nobres e alto clero.

Capitalismo: politicamente, por Estados com poder central organizado a partir de uma cadeia de
órgãos e instituições – até o século XVIII predominantemente monárquicos, após, predominante-
mente republicanos – demonstrando a ascensão da participação política de diferentes setores da
população e a redução da influência de religiões oficiais; economicamente, por relações de pro-
dução capitalistas, que preveem a propriedade privada, o lucro a partir da reprodução do capital,
a liberdade e a remuneração em salário, a intensificação da manufatura, do mercado e, a partir do
século XIX, da indústria; socialmente, por uma estrutura que permite, em tese, maior mobilidade
social, cujas classes estão divididas entre capitalistas (proprietários dos meios de produção, bur-
gueses) e trabalhadores assalariados (proprietários da própria força de trabalho, proletariados e
camponeses).

2. Americanismo.

3. A

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A modernização do Brasil
A lógica do capitalismo
Considerando o atraso ao qual ficou fadado o Brasil ao longo dos trezentos anos do período co-
lonial, somente ao fim do século XIX, somando alguns eventos desde a chegada da família real em
1808, houve transformações mais significativas para a organização econômica, política e social como:
abolição da escravidão, Proclamação da República e o desenvolvimento de um mercado interno à base
de trabalho livre assalariado, da produção do café, da imigração estrangeira e de algumas indústrias
têxteis e alimentícias. A modernização da sociedade brasileira ocorreu lenta, desigual e peculiarmente,
própria ao processo que arrebatara outras ex-colônias de capitalismo tardio, periférico e dependente
em relação ao centro do capitalismo industrial que havia se internacionalizado.
Da mesma forma que a lógica do desenvolvimento do capitalismo comercial europeu determi-
nou a subordinação do modelo de exploração colonial, com vistas à acumulação de capital, a lógica do
desenvolvimento do capitalismo industrial que a sucedeu também o fez. O mercantilismo praticado
entre o século XV e o XVII, com as Expansões Marítimas, a intervenção dos Estados e os pactos coloniais,
havia se tornado inadequado frente à possibilidade da reprodução do capital controlado no ambiente
fabril, a partir da transformação das matérias-primas potencializadas pelas novas tecnologias e da re-
definição das relações produtivas entre o capital e o trabalho. Mais do que isso, com a ampliação dos
mercados e o aumento da demanda por mais e novas mercadorias, a manutenção das práticas carac-
terizadas no mercantilismo seria um entrave ao desenvolvimento do capitalismo industrial conduzido
pela Inglaterra, segundo os teóricos do liberalismo econômico.
O liberalismo econômico pregava a não intervenção do Estado na economia e a livre concorrên-
cia. A ideologia liberal que já acompanhava o capitalismo desde o século XVI, ao surgir na Inglaterra
nas ideias de John Locke, havia se ampliado e aprofundado com outros pensadores do Reino Unido a
partir dos escritos de Adam Smith, David Ricardo, James Stuart Mill e John Stuart Mill, entre os séculos
XVIII e XIX. Desse prisma é que, com a Revolução Industrial iniciada na segunda metade do século XVIII,
a Inglaterra passa a atuar fortemente contra os pactos coloniais, a favor da independência das colônias
e da abolição da escravidão. Independentes e soberanos, os novos Estados, na condição de ex-colônias
atrasadas economicamente, passariam a negociar diretamente a importação de produtos manufatura-
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18 | A modernização do Brasil

dos e industrializados, bem como a exportação de suas matérias-primas a baixo custo. Acabar com a
escravidão seria, economicamente, ampliar o mercado consumidor ao incluir milhares de pessoas no
mundo do trabalho remunerado.
Nesse contexto é que se compreende até mesmo o período do século XIX, em que se iniciam mu-
danças na formação da sociedade brasileira, como produto da história e dos interesses das sociedades
capitalistas europeias. Por mais que sejam identificados movimentos políticos, grupos e personalidades
marcantes na sociedade brasileira, que atuaram como insurgentes contra a Coroa portuguesa, a monar-
quia, e a favor do abolicionismo, deve-se creditar às forças externas o papel determinante que tiveram,
por sinal, desde o período do descobrimento.

Estrutura social e ideologias políticas


O capitalismo industrial introduz, definitivamente, na sociedade moderna, uma estrutura de classes
polarizadas, de um lado, pela figura da alta burguesia, elite econômica e política, que havia deslocado a
nobreza à decadência, e onde pôde acabar com a monarquia; do outro, pelo operariado, formado pela
migração de camponeses para as cidades, local onde ajudaram a própria burguesia nas revoltas contra
Coroas absolutistas, e a favor de Estados politicamente republicanos e economicamente liberais. Porém,
ainda no século XIX e prosseguindo no seguinte, as condições de trabalho nas fábricas, exploração da
mão de obra operária, a despeito de idade ou sexo, concentração da riqueza produzida nas mãos da eli-
te burguesa e o contraste com a miséria do restante da população provocaram a organização da classe
trabalhadora em sindicatos e partidos que passaram a representar os seus interesses e a lutar por direitos
sociais e políticos.
No Brasil, também, a ressonância das transformações políticas e sociais provocadas no contexto
do capitalismo industrial se manifestará. No entanto, expressando práticas, soluções e concretizando
eventos particulares à estrutura que havia se formado na sociedade brasileira: aristocrática, rural, escra-
vista, monárquica, latifundiária, monocultora e agroexportadora.
Na virada do século XIX para o século XX, abolicionistas, republicanos, militares, oligarquias esta-
duais, industrialistas e até um tanto de trabalhadores das cidades deram, cada um pelos interesses que
os moviam, o tom das discussões e embates que deixavam para trás aqueles personagens do passado
que se tentavam superar: monarquistas, escravistas e ruralistas. Dada a abolição e iniciada a República,
a elite política no poder terá o rosto dos militares, a primeira de outras vezes ao longo da República. A
influência francesa é maior entre os militares positivistas, cujo ícone é Benjamin Constant e o símbolo,
a própria bandeira nacional, que leva a inscrição “Ordem e Progresso”. Mas logo em seguida, passado o
choque político, os civis assumirão a cena demonstrando os interesses das oligarquias estaduais, uma
vez que, segundo Boris Fausto (1983, p. 117-118):
A Proclamação da República correspondeu ao encontro de duas forças diversas – exército e fazendeiros de café – mo-
vidas por razões diferentes. O exército tinha motivos de ordem corporativa e ideológica para se opor à Monarquia. A
Guerra do Paraguai favoreceu a identificação dos militares como grupo, e eles começaram a criticar a posição secundá-
ria que o Império conferia à instituição. [...] Ao mesmo tempo, um grupo minoritário, mas extremamente ativo liderado
por Benjamin Constant, combinava tais críticas com uma perspectiva ideológica de maior alcance. Sob a influência do
positivismo defendiam a implantação de um regime republicano e modernizador.

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A modernização do Brasil | 19

[...] os fazendeiros paulistas, através do Partido Republicano Paulista, moviam-se por razões claramente econômicas. A
República, sob forma federativa, significava o fim da centralização imperial, a autonomia dos estados e a possibilidade
de impor ao país um sistema que favorecesse o núcleo agrário-exportador em expansão.

Do governo provisório, após a Proclamação, à República da Espada, quando os destaques foram


o enérgico “marechal de ferro” (presidente Floriano Peixoto), a missão de “salvação nacional” dos positi-
vistas e o progressivismo financeiro e industrializador de Rui Barbosa (ministro da Fazenda), ao gover-
no das oligarquias estaduais da República Velha, a sociedade brasileira forma-se modernamente presa
ao seu passado mais próximo. A burguesia cafeeira está à frente de acordos políticos que pretendem
perpetuar o poder das oligarquias locais, cujas raízes são rurais, mas atuando nas cidades, controlando
poderes descentralizados, mas, ao mesmo tempo, comprometidos às linhas de poder municipal, esta-
dual e federal. O coronelismo e o voto de cabresto garantiam a eleição dos candidatos das localidades,
que repassavam poder aos representantes estaduais e ambos dependiam de estar alinhados ao poder
central para receber benefícios políticos e econômicos para suas regiões. A figura do coronel civil havia
sido criada no período regencial do Império quando houve a criação da Guarda Nacional, dando esse
título a proprietários de terra nos quintões do território nacional para representar a força militar nos lu-
gares onde esta estivesse ausente. O povo local dependia desses proprietários e o processo de votação
aberta facilitava a criação dos chamados currais eleitorais. O intermédio do governo estadual no funcio-
namento dessa estrutura política fez com que este artifício político ficasse conhecido como política dos
governadores. E a predominância das oligarquias de São Paulo e Minas Gerais na alternância do poder
central ficou conhecida como a política do café com leite.

Economia e arte moderna


Economicamente, o centro gravitacional brasileiro ainda era a agroexportação. O principal produ-
to era o café e, por um período até 1918, em segundo lugar ficou a borracha. A vulnerabilidade e depen-
dência ao mercado externo e as determinações do capital internacional eram evidentes. Ao redor desta
economia agrária, desenvolvia-se a produção industrial de têxteis, alimentos e vestuário, que também
eram estimulados pelas crises eventuais da cafeicultura e por circunstâncias externas, como a Primeira
Guerra Mundial, quando ocorreu a escassez de determinados produtos até então importados. “De 1900
a 1929, a taxa de crescimento industrial foi de 5,6% ao ano. O número de fábricas havia passado de
pouco mais de duas mil na virada do século para dezoito mil e oitocentas em 1930, mobilizando cerca
de 450 000 operários” (CARONE, 1970, p. 70-92).
O eixo desse desenvolvimento industrial é formado pela capital, Rio de Janeiro, e por São Paulo,
da economia do café. Essa região do Sudeste já apresentava alguns fatores importantes para tal desen-
volvimento em comparação com outras partes do território, como portos, mão de obra, mercado, ener-
gia, transportes e infraestrutura urbana. No entanto, os limites da modernização viam que o capitalismo
industrial estava presente na ausência de indústrias de base que produzissem matérias-primas, insumos
e máquinas para atender aos demais setores industriais. Dependia-se da importação para contornar as
necessidades internas, pois não havia capacidade de produção de máquinas e insumos internamente.
A crise da República Velha ocorre no rastro da crise do café e da Bolsa de Nova York em 1929, mas
se relaciona antes ainda com o desgaste da política das oligarquias, as revoltas tenentistas e os movi-

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20 | A modernização do Brasil

mentos e as greves de trabalhadores urbanos, já associados às ideologias dos países capitalistas centrais
importadas pelos imigrantes europeus, como o anarquismo.
Diante do desencontro do governo, da opinião pública e de setores da sociedade civil, os militares
se lançam novamente como agentes possíveis da organização do Estado. Sem maiores consequências
imediatas, a não ser o apoio que alguns de seus personagens dariam à Revolução de 30, o tenentismo
foi, no conjunto de suas manifestações
um movimento político e ideologicamente difuso, de características predominantemente militares, onde as tendências
reformistas autoritárias aparecem em embrião [...]. Na base da pequena vinculação com os meios civis, está um dos tra-
ços essenciais da ideologia tenentista: os tenentes se identificam como responsáveis pela salvação nacional, guardiães
da pureza das instituições republicanas, em nome de um povo inerme. Trata-se de um movimento substitutivo e não
organizativo do povo. (FAUSTO, 1981, p. 112-114)

No entanto, em meio às controvérsias econômicas e políticas que ligavam o passado e o presente


na sociedade brasileira, talvez o traço mais moderno a ser registrado até ter início a década de 1930
tenha sido a Semana de Arte Moderna de 1922 no Teatro Municipal de São Paulo, cujas manifestações
artísticas em poesias, esculturas, pinturas e música escandalizaram o público paulistano ao romper com
os padrões estéticos então vigentes.
A respeito do movimento modernista, os críticos e os estudiosos entram em sintonia num ponto: a Semana de
Arte Moderna, realizada em 1922, em São Paulo, representou um marco, verdadeiro ponto de inflexão no modo
de ver o Brasil. Não só de ver como de escrever sobre o Brasil. Em geral, os artistas e intelectuais de 1922 queriam
arejar o quadro mental da nossa “intelligentsia”, queriam pôr fim ao ranço beletrista, à postura verborrágica e
à mania de falar difícil e não dizer nada. Enfim, queriam eliminar o mofo passadista da vida intelectual brasileira.
Do ponto de vista artístico, o objetivo fundamental da Semana foi acertar os ponteiros da nossa literatura com a mo-
dernidade contemporânea.
Para isso, era necessário entrar em contacto com as técnicas literárias e visões
de mundo do futurismo, do dadaísmo, do expressionismo e do surrealismo,
que formavam, na mesma época, a vanguarda europeia. Desse ângulo, o mo-
dernismo é expressão da modernização operada no Brasil a partir da década
de 1920, que começava a dar sinais de mudança (vide, no plano político, o
movimento rebelde dos tenentes) de uma economia agroexportadora para
uma economia industrial. [...]
O manifesto antropofágico tocou no cerne do capitalismo no terceiro mun-
do: a dependência. Ou pelo menos captou seus reflexos no plano da cultura.
Denunciou o bacharelismo das camadas cultas, que permanecem alheadas
da realidade do país, reproduzindo os simulacros dos países capitalistas he-
gemônicos. Ironizou a consciência enlatada de largos setores do pensamento
brasileiro, que se comprazem, quando muito, em assimilar ideias, jamais criá-
-las. Se Oswald de Andrade teve a lucidez de ridicularizar com o mimetismo
que tanto seduz o intelectual solene e bacharel, ele não caiu no equívoco de
fechar as portas do país do ponto de vista cultural. Ao contrário, sua formu-
lação em torno da “deglutição antropofágica” exige o remanejamento das
ideias mais avançadas do Ocidente em conformidade com a especificidade
de nosso contorno social e político. (FOLHA DE S.PAULO, 1978)

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A modernização do Brasil | 21

A Revolução de 30 e a Era Vargas


O desentendimento entre as elites oligárquicas de São Paulo e Minas rompe, em 1929, a política
do café com leite para a eleição de 1930. No mesmo ano, a Grande Depressão causada pela quebra
da Bolsa de Nova York faz o preço do café despencar. O presidente Washington Luís não socorre os
cafeicultores. Getúlio Vargas, governador do Rio Grande do Sul e candidato à presidência pela Aliança
Liberal, promete em seu programa de governo atender às reivindicações operárias, anistiar os tenentes
e moralizar a vida pública, adotando o voto secreto. Embora apoiado pela classe trabalhadora e setores
médios, perde para o governador de São Paulo, Júlio Prestes.
Estimulado por seus correligionários e apoiado pelos tenentes, Vargas lidera o levante armado
após o estopim criado pelo assassinato de seu candidato a vice-presidente, João Pessoa, governador da
Paraíba, culminando com a deposição de Washington Luís.
Getúlio Vargas, a partir de 1930, iniciou um período da formação do Brasil e de sua sociedade
cujas marcas são consideradas, no contexto de sua época, modernizantes e profundas. A Era Vargas,
como ficou conhecida, caracterizou-se por uma significativa e sistemática transformação da organi-
zação econômica e social brasileira. Com aspectos políticos controvertidos, que combinavam com o
passado dessa sociedade, mesclando autoritarismo, violência, concentração de poder, presença de mi-
litares, perseguição ideológica, personalismo, messianismo e patriarcado, a estratégia principal foi dotar
o Estado de um papel intervencionista, como promotor das mudanças necessárias à modernização e
do desenvolvimento industrial. Pelo conjunto de suas características, a Era Vargas deve ser classificada
como de modernização conservadora.
Da mesma forma que Getúlio Vargas, e no mesmo período da história contemporânea, outras
figuras políticas de estadistas nacionalistas, autoritários, populistas e com inspiração fascista também
representaram em seus países o papel de agentes canalizadores das forças externas e internas para o
avanço do desenvolvimento dos seus Estados e sociedades, como foram os casos de Juan Domingo
Perón na Argentina, General Franco na Espanha e Antonio de Oliveira Salazar, em Portugal.
Ao assumir o poder, Vargas suspendeu a Constituição em vigor, dissolveu o Congresso Nacional e
nomeou interventores para o governo dos estados. Além dessas medidas, criou dois novos ministérios:
o da Educação e Saúde e o do Trabalho, Indústria e Comércio. Definiu a política trabalhista incorporando
e transformando em lei antigas reivindicações operárias, como férias e descanso remunerado, proibi-
ção do trabalho noturno para mulheres e menores de dezoito anos, jornada de oito horas de trabalho,
aposentadoria e, mais tarde, salário mínimo. No entanto, pela Lei de Sindicalização, os sindicatos foram
subordinados ao Ministério do Trabalho, limitando a autonomia das associações sindicais. Mas, ao abra-
çar as causas trabalhistas e apresentar a legislação social como uma dádiva, um ato de generosidade,
pelo qual o governo outorgou os direitos trabalhistas ao povo brasileiro, Getúlio Vargas passou a ser
chamado de “pai dos pobres”.
De presidente do governo provisório, e mantido como eleito após a Constituição de 1934, o gol-
pista de Estado, para permanecer no cargo com a implantação do Estado Novo e a outorga de nova
Constituição em 1937, articulou o poder com diversos setores e reprimiu os inimigos. Apoiou-se nos
aparelhos de propaganda do Estado e aproveitou o momento econômico internacional da Segunda
Guerra Mundial.

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22 | A modernização do Brasil

O Estado interventor da economia impulsionará a industrialização, com forte nacionalismo e


protecionismo. Irá se preocupar em dotar a infraestrutura industrial com setores produtivos de base,
como a primeira usina siderúrgica brasileira em Volta Redonda (1941), a mineradora Vale do Rio Doce
(1942) e a Fábrica Nacional de Motores (1943).
Após o fim do Estado Novo, com a deposição de Vargas em 1945 e a retomada da ordem política
democrática, foi eleito Eurico Gaspar Dutra (1946-1950). Ao fim desse mandato, o sucessor eleito e con-
duzido de volta ao cargo nos “braços do povo” foi Getúlio Vargas. Mantendo a sua política nacionalista
e de desenvolvimento da indústria de base, criou o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico
(BNDE), em 1951, e, no campo da energia, promoveu a campanha “O petróleo é nosso”, criando em 1953
a Petrobras. Em 1954, em meio a uma crise política, Getúlio Vargas se suicida.
Entre os vários aspectos do legado de Getúlio Vargas, para aquilo que passou a ser considerado a
sua Era, estão a criação de uma identidade nacional, a figura de um Estado assistencialista e a introdução
mais contundente dos indivíduos da sociedade brasileira no contexto do capitalismo urbano-industrial,
no qual o valor do trabalho é um bem a ser estimado e protegido a ponto de investir de identidade
cidadã a pessoa quando, simplesmente, esta possui uma Carteira de Trabalho e Previdência Social que
passa a ser portada como principal documento aonde quer que vá.

O modelo de desenvolvimento de JK
Em seguida ao governo de transição que assumiu o poder após a morte de Vargas, Juscelino Ku-
bitschek é eleito em 1955. Toma posse em 1956 e governa até 1960 perseguindo um “Plano de Metas”
cujo slogan apontava a gestão desenvolvimentista que pretendia realizar: “Cinquenta anos em cinco”.
Uma forma otimista de reconhecer o atraso do Brasil.
O desenvolvimentismo de JK combina-se harmonicamente ao cenário externo da economia ca-
pitalista internacional, os chamados Anos Dourados da expansão do capital. A orientação da política
econômica de JK inaugura uma nova fase da industrialização brasileira, na qual associam-se o Estado, a
empresa nacional e o capital estrangeiro. Ao passo que o Estado investia em infraestrutura (construção
de estradas, hidrelétricas e siderúrgicas), também oferecia benefícios fiscais e tributários às empresas,
principalmente a multinacionais que quisessem instalar sua produção no Brasil.
Muitas indústrias multinacionais de bens de consumo duráveis vieram para o Brasil. Emblemá-
tica do período foi a indústria automobilística em São Paulo, um verdadeiro símbolo da modernida-
de. Outro símbolo, de diferente magnitude, foi a construção de Brasília, moderna na sua concepção
e formas.
O retorno da inflação e as críticas de submissão da política de JK ao poder do capitalismo norte-
-americano e do FMI mobilizaram os grupos oposicionistas. Mas é inegável que a política de JK deu
grande impulso ao desenvolvimento econômico do país, ao mesmo tempo em que seu governo foi
responsável pelo agravamento de antigos problemas, como as desigualdades sociais, as diferenças re-
gionais e a defasagem entre setores arcaicos e modernos da economia. Nesse período, a dívida externa
aumentou e o controle da economia pelo capital externo também.

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A modernização do Brasil | 23

Texto complementar
Brasil em perspectiva
(MOTA, 1984 p. 277-278)

Em todos esses anos tudo se fez sob a hegemonia do Estado que se reivindicava “nacional”.
Nessa afirmação ideológica havia um grão de verdade: o poder de Estado, sua consolidação no
Brasil não significa a hegemonia política direta de nenhuma classe em particular. É certo também
que, sob a égide do novo regime, se processou uma recomposição das classes ao nível do poder,
implicando uma colaboração entre elas. Graças à instabilidade política e econômica em que se
encontravam os grupos dominantes, antes do golpe, o Estado pôde se fortalecer, assumindo, não
obstante, o papel de instrumento de realização de interesses já diferenciados: das oligarquias ru-
rais, quer ligadas à exportação, quer ao mercado interno; da burguesia industrial, que se ia cons-
tituindo e se desenvolveu sob sua proteção. Quanto a esta última, o governo antecipa soluções
econômicas e políticas que objetivamente favoreciam as condições de acumulação capitalistas
do Brasil; desses efeitos, entretanto, permanecem inconscientes seus principais beneficiários, os
industriais em seu conjunto. Porque, tanto a consciência de seus interesses, quanto a sua prática
política – enquanto classe – eram ainda rudimentares. Suas relações com o Estado caracterizavam-
-se por compromissos e expectativas de vantagens individuais; estavam viciadas, também elas, por
um conteúdo paternalista.
Entretanto, se aquela colaboração entre os grupos dominantes foi possível, se, por sua vez,
foi possível ao Estado atender ao mesmo tempo às exigências principais de uns e de outros, isto
não se deve exclusivamente àquela configuração conjuntural, econômica e política. Sua eficácia,
sua razão de ser, é de ordem estrutural. Não havia (e continuou não havendo depois do Esta-
do Novo) antagonismo entre os interesses das oligarquias rurais e da burguesia industrial. Pelo
contrário, as relações entre elas se caracterizavam naquela época por uma solidariedade funda-
mental. A explicação não está na origem social de muitos empresários, ligados por laços de pa-
rentesco, aos grupos oligárquicos: isto seria pouco definir uma compatibilidade de interesses no
sistema capitalista. Na verdade o que os unificava era o fato de que os investimentos na indústria
dependiam da acumulação de capitais na agricultura, canalizados sob a forma de créditos e de
financiamentos, através do sistema bancário, que lhes servia de mediador. Essa “acumulação pri-
mitiva” tinha por pressuposto sociológico a exploração ou a expropriação das populações rurais.
Por isso, o trabalhador do campo, apesar de sua importância numérica e de sua ativa presença
econômica, será a grande figura ausente do Estado Novo, reprimida na consciência coletiva e
excluída da “questão social”. As oligarquias rurais tinham sido forçadas a abdicar de seu poder
político, mas permaneceram intactas as bases sociais e econômicas de sua dominação. Daí, uma
espécie de compromisso tácito entre elas, o governo e a burguesia industrial – satisfeita com a
expansão do mercado interno urbano.

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24 | A modernização do Brasil

Atividades
1. Apresente dois princípios teóricos do liberalismo econômico.

2. Explique a figura política do coronel e a atuação dele para a ocorrência do voto de cabresto no
panorama da República Velha.

3. O modelo de política econômica adotado por Vargas previa um Estado:


a) intervencionista, promotor direto do desenvolvimento industrial.
b) mínimo, atuando como órgão regulador da economia.
c) socialista, que não apoia propriedade privada.
d) financiador da iniciativa privada.

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A modernização do Brasil | 25

Gabarito
1. O liberalismo econômico pregava a não intervenção do Estado na economia e a livre concorrência.

2. O coronelismo e o voto de cabresto garantiam a eleição dos candidatos das localidades, que re-
passavam poder aos representantes estaduais e ambos dependiam de estar alinhados ao poder
central para receber benefícios políticos e econômicos para suas regiões. A figura do coronel civil
havia sido criada no período regencial do império quando da criação da Guarda Nacional, dando
esse título a proprietários de terra nos quintões do território nacional para representar a força
militar nos lugares onde esta estivesse ausente. O povo local dependia desses proprietários e o
processo de votação aberta facilitava a criação dos chamados currais eleitorais.

3. A

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26 | A modernização do Brasil

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O Brasil entre dois mundos
A industrialização tardia
A partir da década de 1960 é possível observar as marcas da modernização operada no Brasil. As
políticas econômicas dos governos de Getúlio Vargas (1930-1945 e 1951-1954) e Juscelino Kubitschek
(1956-1960), por suas características e resultados, podem ser consideradas como as mais significativas
e responsáveis, até aquele momento da República, para o desenvolvimento do país. Foram as políticas
econômicas mais sistematizadas e efetivas, no sentido de avançar o capitalismo industrial brasileiro, em
comparação aos outros governos. Além de terem declarado a explícita intenção de promover, com seus
planos, a infraestrutura para a cadeia produtiva, também elaboraram novos elementos para a estrutu-
ração do Estado em bases mais modernas, fazendo, cada um ao seu modo, o uso direto ou indireto do
aparelho estatal para alavancar a economia e preparar a sociedade. Repetindo a história, era novamente
o Estado criando a sociedade, como ocorreu na colonização, na Proclamação da Independência e na
criação da República, todas ações de cima para baixo.
A primeira das marcas de tal modernidade alcançada pela sociedade é a de se registrar, na-
quela década (1960), que, pela primeira vez, mais da metade da população brasileira estava vivendo
nas cidades. A economia do país, embora evidentemente sustentada pela agroexportação, passava
a mobilizar a maioria dos trabalhadores nos setores de serviços e de produção industrial das zonas
urbanas. O cenário citadino começa a predominar na vida dessa sociedade. Seus elementos e perso-
nagens, seus eventos e problemas passam a se destacar na leitura que a própria sociedade faz de si
em seu cotidiano. O imaginário da vida urbana, tanto perseguido e evidenciado em décadas anterio-
res no anseio de obter a face da modernidade, nos estilos, comportamentos, adventos tecnológicos e
itens de consumo, estava, naquele momento, mais genuíno em seus aspectos positivos e negativos.
Principalmente os negativos, visto que se tratava de um processo de desenvolvimento tardio do ca-
pitalismo industrial.

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28 | O Brasil entre dois mundos

Bille Epoque.
Proclamação da República, na praça da Aclamação – 1889.

O contraste entre o antigo e o novo, o arcaico e o moderno, até então mais visível no panorama
internacional do capitalismo, havia ganhado o interior da sociedade. O que não deixava de ser uma
reprodução de circunstâncias já vividas pelos países de capitalismo central, mas que, diferente destes,
traziam as consequências da relação de dependência inscrita na lógica da expansão do capitalismo
em direção às periferias. No entanto, cabe ressaltar aqui a percepção, que não se deve esquecer, so-
bre a formação da sociedade brasileira, uma vez que esta sempre esteve vinculada a fatores externos
que a submetem à história e à atuação das sociedades europeias e também, a partir do século XIX, da
norte-americana.

Política econômica e expansão do capitalismo industrial


No compasso do liberalismo econômico, ao longo do século XIX, o capitalismo central europeu
se desenvolvia industrialmente e financeiramente de forma acelerada. No seu rastro, as novas relações
de produção geravam profundas desigualdades econômicas e sociais. Enquanto trabalhadores assa-
lariados se associavam em movimentos e organizações para enfrentarem seus patrões, os governos
disputavam mercados e territórios externos para alimentar a lógica do capital. Os conflitos internos e
externos eram latentes. Ideologias contrárias se formavam, sendo o binômio socialismo-comunismo o
mais representativo das insatisfações com a realidade social produzida pelo capitalismo. Foi na mesma
Europa que os teóricos socialistas e comunistas surgiram, críticos do capitalismo, propondo a busca por
uma sociedade mais justa, igualitária e feliz. Mas foi a partir dos escritos teóricos de Karl Marx e Frederick
Engels que aquelas ideologias ganharam bases científicas para denunciar os mecanismos de explora-
ção presentes na relação capital-trabalho, identificando o antagonismo de interesses entre as classes
sociais: burguesia e assalariados.
Em fins do século XIX e início do XX, registrou-se o fenômeno do “imperialismo neocolonizador”,
momento específico do estágio de desenvolvimento capitalista e de sua expansão internacional. Se-
gundo Eric Hobsbawm (1997, p. 91):
A repartição do mundo entre um pequeno número de Estados foi a expressão mais espetacular que já observamos da
crescente divisão do planeta em fortes e fracos, “avançados” e “atrasados”. Foi também notavelmente nova. Entre 1876 e
1915, cerca de um quarto da superfície continental do globo foi distribuído ou redistribuído, como colônia, entre meia
dúzia de Estados. A Inglaterra aumentou seus territórios em cerca de dez quilômetros quadrados; a França, em cerca de

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O Brasil entre dois mundos | 29

nove; a Alemanha conquistou mais de dois milhões e meio; a Bélgica e a Itália, pouco menos que essa extensão cada
uma. Os EUA conquistaram cerca de 250 mil, principalmente da Espanha; o Japão, algo em torno da mesma quantida-
de, à custa da China, da Rússia e da Coreia. As antigas colônias africanas de Portugal foram ampliadas em cerca de 750
mil quilômetros quadrados; a Espanha, mesmo sendo uma perdedora líquida (para os EUA), ainda conseguiu tomar
alguns territórios pedregosos no Marrocos e no Saara ocidental.

No início do século XX, enquanto o capitalismo liberal estava em crise frente ao fenômeno do
“imperialismo” – que conjugou a formação de monopólios –, a presença do capital financeiro e a atu-
ação externa dos governos deparam-se com os conflitos da Primeira Guerra Mundial (1914-1918); o
socialismo iniciava sua ascensão política e concreta conquistando o poder de um Estado com a Re-
volução Russa (1917). No mesmo contexto, nascem as ideologias nazifascistas, cujos elementos eram
o nacionalismo e o totalitarismo. Diante da crise liberal, que perdia espaço no mundo para as novas
alternativas ideológicas, visto que sociedades inteiras estavam se organizando a partir delas (Alema-
nha nazista, Itália fascista e Rússia socialista), os países capitalistas começavam a redirecionar suas po-
líticas econômicas com vistas a promover maiores benefícios sociais, adotando um modelo de Estado
chamado de bem-estar social (welfare state). O modelo de bem-estar social preconizava a criação de
mecanismos de amortecimento do choque que o capitalismo provocava nas classes subalternas com
suas práticas liberais de livre concorrência e ausência de interferência do Estado. Dessa forma, as elites
econômicas e políticas desses países manteriam seu capitalismo, porém, em bases que atendessem
aos anseios das classes assalariadas. Além de direitos trabalhistas, que essas classes já vinham conquis-
tando lentamente, o Estado de bem-estar social criava instituições de previdência, saúde, educação
e controle das relações de mercado. Nesse instante, a ideologia que guiará esses Estados capitalistas
será a social-democracia e não mais o liberalismo.
Quando termina a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), que foi uma extensão da Primeira Guerra
e de seus motivos de controle territorial e de mercados – só que dessa vez visivelmente associados ao
conflito de ideologias –, os nazifascistas são derrotados e os capitalistas, representados pelos Estados Uni-
dos da América (EUA), e os socialistas, representados pela União Soviética (URSS), passam a medir forças e
desempenhos, creditando suas qualidades às ideologias e modos de produção adotados por cada um.
Os EUA, aproveitando os estragos da guerra em solo europeu e a preservação do seu parque
industrial já bem desenvolvido, ampliou suas ações políticas de boa vizinhança, que o país promovia
desde o final do século XIX com os países do continente americano, fortalecidas, então, pelo New Deal
(Novo Acordo), plano de ações adotado em 1933 para superação da crise provocada pela quebra da Bol-
sa de Nova York (1929). Os EUA assumiram, imediatamente, papel decisivo para o apoio e recuperação
dos países capitalistas europeus e, até mesmo, do derrotado Japão.
A URSS, por sua vez, passou a estimular ou servir de exemplo, para sociedades em vias de revolu-
ção, de poderio e desenvolvimento alcançado por uma economia planificada (e não de mercado), onde os
meios de produção são estatais (e não privados) e não há divisão de classes sociais (pelo menos em tese,
ao invés de burguesia e proletariado). Estendeu seus domínios sobre a Ásia e o Leste Europeu, em seguida
sobre a América Latina e a África, liderando o bloco dos países que adotaram o socialismo.
A geopolítica internacional após 1945 estava organizada em virtude de dois blocos: o dos países
capitalistas (divididos entre desenvolvidos e subdesenvolvidos, no que se convencionou chamar pri-
meiro e terceiro mundos) e países socialistas (identificados como segundo mundo).
Foi nesse novo contexto internacional que o Brasil movimentou-se obtendo os resultados ante-
riormente descritos até o início da década de 1960, e continuou sua trajetória sendo afetado, também

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30 | O Brasil entre dois mundos

diretamente, pelo cenário de acirramento da disputa entre os dois blocos geopolíticos, no período que
passava a ser denominado de “Guerra Fria”.

Wikipédia.

Economia e política a partir da década de 1960


A década de 1960 se inicia confirmando a dependência externa do Brasil ao capital estrangeiro,
acentuada pelas ações desenvolvimentistas do governo JK, e demonstrando a fragilidade da economia
interna diante do aumento da inflação.
Jânio Quadros, ex-vereador, prefeito e governador de São Paulo, é eleito presidente da República em
1961 com amplo favoritismo. O carismático candidato da União Democrática Nacional (UDN), em seu discur-
so, condenava a permanência das características do Estado da Era Vargas, a situação econômica agravada
pelo antecessor JK e as imoralidades na estrutura de governo. Os sete meses iniciais de seu governo mostra-
ram a forte presença de um conjunto de fatores, internos e externos, reflexos do passado desta sociedade e
do cenário internacional da Guerra Fria, que eram necessários administrar para governar o país. Período este,
suficiente para que Jânio Quadros renunciasse à Presidência após adotar medidas moralistas, o que o levou a
enfraquecer-se diante da população, condecorar Che Guevara, desagradar setores conservadores das Forças
Armadas e da elite econômica, definir ações econômicas e criar recessão, mas agradar ao FMI.
O vice-presidente João Goulart, cujo partido político, Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), estava
vinculado ao legado de Getúlio Vargas, associava-se a ideias distintas de Jânio. O trabalhismo, o populis-
mo e o nacionalismo estavam claros nas chamadas Reformas de Base, seu plano de governo. O ambien-
te político, que era tenso e se acumulava desde o governo JK, fez-se crescente após a superação, por
parte dos que apoiavam a posse de João Goulart, da resistência dos setores contrários, conservadores
e elite econômica, que buscavam meios de impedir essa posse aproveitando a viagem que ele fazia, na
ocasião da renúncia de Jânio, à China comunista.
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O Brasil entre dois mundos | 31

A despeito das manobras políticas, que fizeram o Brasil adotar o sistema parlamentarista por dois
anos (1961-1963) e retornar ao presidencialismo, João Goulart assumiu o governo recebendo o apoio
dos trabalhadores, dos estudantes e intelectuais, mas contrariando interesses e valores de militares,
proprietários rurais e burguesia. Isso porque vinha adotando medidas como: reforma agrária, ampliação
das vagas em universidades públicas, reforma eleitoral, monopolização do petróleo, nacionalização de
refinarias e controle da remessa de lucros das empresas multinacionais.
Tais medidas, no cenário da Guerra Fria, provocaram a leitura de que João Goulart representava
a ameaça socialista no Brasil e, por conseguinte, na América Latina. A reação interna capitaneada pelas
Forças Armadas, que desfecham um Golpe de Estado em 1.º de abril de 1964, tem o apoio dos EUA,
cuja postura será a mesma para qualquer país, principalmente das Américas, para prevenir o avanço do
bloco socialista no mundo.
A partir daí, inicia-se um período de governos militares ditatoriais, afastando, por 21 anos, a pos-
sibilidade de construção, em bases democráticas, da República brasileira, que, além de nova, havia ex-
perimentado até aquele momento poucos governos civis e, menos ainda, democráticos.
Para o sociólogo Octávio Ianni (1975, p. 206-207), esse é o limiar entre duas épocas da política
brasileira:
O populismo brasileiro surge sob o comando de Vargas e os políticos a ele associados. Desde 1930, pouco a pouco, vai
se estruturando esse novo movimento político. Ao lado das medidas concretas, desenvolveu-se a ideologia e a lingua-
gem do populismo. Ao mesmo tempo em que os governantes atendem a uma parte das reivindicações do proletariado
urbano, vão se elaborando as instituições e os símbolos populistas. Pouco a pouco, formaliza-se o mercado de força
de trabalho, no mundo urbano-industrial em expansão. Ao mesmo tempo as massas passam a desempenhar papéis
políticos reais, ainda que secundários. Assim, pode-se afirmar que a entrada das massas no quadro das estruturas de
poder é legitimada por intermédio dos movimentos populistas. Inicialmente, este populismo é exclusivamente getulis-
ta. Depois, adquire [sic] outras conotações e, também, denominações. Borguismo [sic], queremismo, juscelinismo, jan-
guismo e trabalhismo são algumas das modulações do populismo brasileiro. No conjunto, entretanto, trata-se de uma
política de massas específica de uma etapa das transformações econômico-sociais e políticas no Brasil. Trata-se de um
movimento político, antes do que um partido político. Corresponde a uma parte fundamental das manifestações po-
líticas que ocorrem numa fase determinada das transformações verificadas nos setores industrial e, em menor escala,
agrário. Além disto, está em relação dinâmica com a urbanização e os desenvolvimentos do setor terciário da economia
brasileira. Mais ainda, o populismo está relacionado tanto como consumo em massa como o aparecimento da cultura
de massa. Em poucas palavras, o populismo brasileiro é a forma política assumida pela sociedade de massas no país.

Novamente governo militar


De 1964 a 1985, a sociedade brasileira será governada por militares. Nada tão surpreendente se
considerados:
::: o passado de permanentes participações desse setor na vida nacional (Proclamação da Re-
pública, os dois primeiros governos republicanos, os movimentos tenentistas da década de
1920, a Revolução de 30, a Revolta Constitucionalista de 1932, o Golpe de 1937 criando a
ditadura do Estado Novo até 1945, e até mesmo o fim deste, que se deu pela deposição con-
duzida por generais dos quais um foi eleito presidente de 1946 a 1950); e
::: o constante uso reacionário das Forças Armadas pelos países do bloco capitalista, em plena
Guerra Fria, insufladas de perto pelos EUA para efetuar golpes de Estado, prevenindo ou debe-
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32 | O Brasil entre dois mundos

lando os temidos movimentos sociais e políticos cujas vinculações ideológicas poderiam, por
via das dúvidas, inclinar-se às revoluções socialistas (como foram os casos de Brasil, Uruguai,
Chile, Argentina, Nicarágua, entre outros).
A permanência do governo militar pela sucessão de cinco presidentes no decorrer de 21 anos foi
acompanhada pelas disputas e visões internas dos setores moderados e radicais das Forças Armadas.
Além da avaliação que estes faziam de seu papel à frente do governo, eram fatores incidentes nesse
cenário a ação dos interesses do capitalismo internacional e as movimentações políticas e sociais de
setores civis organizados que resistiam à ditadura, denunciando sua violência e exigindo o retorno à
democracia.
Ainda no primeiro governo, de Marechal Castello Branco (1964-1967), considerado do setor mo-
derado entre os militares, havia a expectativa de que ao seu término ocorresse o retorno ao Estado de
Direito e as eleições de um governo civil. Mas o fato é que isso não só não ocorreu como também a
sucessão de governo se deu na direção da linha mais dura e radical dos militares, cujo representante foi
o Marechal Costa e Silva (1967-1969), seguido pelo General Emílio Garrastazu Médici (1969-1974).

Política: autoritarismo e repressão


Até aquele momento, as marcas de um governo militar ditatorial estavam evidentes em suas
ações políticas. Foi criado o Sistema Nacional de Informações (SNI) para investigar e espionar a vida de
opositores declarados e suspeitos, controlando uma rede de órgãos militares e civis, como o Departa-
mento de Ordem Pública e Social (DOPS). Vários deputados tiveram seus mandatos cassados. A perse-
guição e punição aos integrantes do governo deposto e seus simpatizantes foi intensa; e a principal
ferramenta era a instauração de inquéritos policiais militares. Entidades estudantis e da sociedade civil
foram fechadas, as greves foram proibidas e sindicatos trabalhistas sofreram intervenção. O ambiente
punitivo servia também para desencorajar a resistência de alguns setores que levasse ao golpe.
A concentração do poder fortalecendo o Executivo se expressava no uso de atos institucionais,
atos complementares outorgados e leis excepcionais. Com a edição desses instrumentos, o governo
controlou o Poder Legislativo e limitou o Poder Judiciário. O Ato Institucional n.º 2 (AI-2) extinguiu todos
os partidos políticos e estabeleceu eleições indiretas para presidente. Em seguida, foi criado o sistema
bipartidário com a fundação do partido da situação governista, Aliança Renovadora Nacional (ARENA),
e o partido da oposição reunida, Movimento Democrático Brasileiro (MDB).
Externamente, a posição política dos militares rompeu as relações políticas com Cuba,
caracterizou-se pelo anticomunismo e alinhou-se às decisões norte-americanas, pelas quais rece-
bia apoio econômico.
O clima de repressão aumenta à medida que a insatisfação e mobilização de setores da sociedade
civil, como estudantes, intelectuais, políticos, artistas, trabalhadores, setores da Igreja Católica e entidades
classistas – Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e Associação Brasileira de Imprensa (ABI), por exemplo
–, se faz mais contundente. Em 1968 é editado o AI-5, conjunto de medidas consoantes à linha militar
mais autoritária representado pelo Marechal Costa e Silva. Com esse ato, o governo fechou o Congresso
Nacional e outorgou o direito de poder fazer o mesmo com as assembleias legislativas estaduais e com as
câmaras de vereadores municipais. O regime poderia cassar mandatos parlamentares e direitos políticos,
o presidente poderia demitir, aposentar ou transferir funcionários públicos civis ou militares.

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O Brasil entre dois mundos | 33

Foi o AI-5, também, que estabeleceu o cerceamento à liberdade de expressão por meio da cen-
sura sistemática nos meios de comunicação. O governo colocava agentes censores nas redações dos
jornais ou recebia, previamente, os originais de revistas, jornais, livros ou programas de televisão para
avaliar se o conteúdo apresentava informações subversivas à ordem militar. Dessa forma, originais ti-
nham trechos extraídos, suprimidos ou mesmo eram proibidos integralmente de ir a público.
Tal violência por parte do governo, que perseguia e vedava a liberdade, provocou reações diversas
entre seus opositores: muitos se calaram, outros se exilaram no exterior e tantos outros, adotando uma
postura proporcionalmente agressiva, começaram a viver na clandestinidade, organizando ações sistemá-
ticas de combate ao governo. Estes últimos, em sua maioria estudantes, trabalhadores e políticos, eram
militantes de partidos ou grupos políticos ideologicamente identificados com os princípios do socialismo
e suas diferentes correntes: Ação Libertadora Nacional (ALN); Ação Popular (AP); Movimento Revolucioná-
rio 8 de Outubro (MR8); Vanguarda Popular Revolucionária (VPR); o Partido Comunista do Brasil (PC do B).
Incentivados pela história de revoluções socialistas pelas armas, sendo a de Cuba a mais recente e próxima
geograficamente, esses militantes lançaram-se à luta armada como forma de derrubar o governo militar.
Dessa forma, executavam assaltos a bancos para financiar a “guerrilha urbana” e planejavam sequestros de
autoridades para forçar o governo a ceder posições, como foi o caso do embaixador americano feito refém
para a libertação de presos políticos. Nesse desigual embate de forças, em que os mais fracos acreditavam
no apoio da população (mas que não aconteceu), a violência do governo, que prendia sem mandato judi-
cial e praticava tortura nas cadeias, criou a figura dos desaparecidos políticos.
Evandro Teixeira.

Ditadura 1968. Diretas Já.

Economia: crescimento e modernização


com desigualdades e subdesenvolvimento
Economicamente, o Programa de Ação Econômica do Governo (PAEG), implementado pelo pri-
meiro governo militar (Castello Branco), não logrou o êxito esperado. Ao combater a inflação, agiu con-
tra as suas possíveis causas: o deficit do setor público, o excesso de crédito e a política trabalhista. Mas
em pouco tempo provocou forte recessão, aumento do desemprego e a falência ou redução de empre-
sas, enquanto outras foram adquiridas por grupos estrangeiros.

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34 | O Brasil entre dois mundos

Com a reforma tributária, organizando um sistema nacional de impostos diretos e indiretos, o


governo promoveu maior concentração de renda a partir de uma tributação injusta que incidia sem as
devidas diferenciações sobre os níveis de consumo e renda da população, conforme se verificava nas
alíquotas do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), no Imposto sobre a Circulação de Mercado-
rias (ICM) e no Imposto sobre a Renda (IR).
O crédito para a classe média afetou negativamente à população mais pobre, pois a maior
circulação de moeda provocou o aumento da inflação. Enquanto a abertura externa da economia
brasileira, por mais que estimulasse a exportação, acabou mesmo garantindo a remessa de lucros das
multinacionais para suas sedes e a facilitação de entrada do capital estrangeiro ou tomada de em-
préstimos a juros baixos nos próprios cofres brasileiros (como os do Banco do Brasil), para a instalação
de unidades produtivas.
Esse cenário nacional, entre ações políticas e econômicas, foi assim descrito, em 1967, pela revista
britânica The Economist, demonstrando a satisfação com o que acontecia no Brasil aos olhos do capita-
lismo internacional:
Com certa concentração de poderes em suas mãos, Castello Branco sustentou-se nos “atos institucionais” e, algumas
vezes governando por decretos, privou de seus direitos políticos mais de 3 000 dirigentes civis brasileiros pertencentes
a quase todos os setores de atividades do país, entre os quais inclui os ex-presidentes João Goulart, Juscelino Kubits-
chek e Jânio Quadros, acusados de subversão, ou simplesmente de se oporem aos propósitos da revolução de 1964. [...]
O marechal, que presidiu a redação da nova Constituição, reestruturou com grande vigor o sistema de arrecadação de
impostos – diminuindo o número dos que sonegavam impostos –, reduziu as atividades políticas a dois únicos partidos
e arquivou mais de 200 planos sobre reforma agrária [...] Com Castello Branco, a reconstrução da política econômica
adquiriu uma base mais firme e mais realista, embora menos eufórica, mas os círculos financeiros e econômicos inter-
nacionais recuperaram a confiança que haviam perdido no país [...]”. (CASTRO, 1968, p. 411-412)

As ações econômicas do segundo governo (Costa e Silva) tentam superar os problemas do


primeiro e, implantando novos contornos ao modelo econômico, consegue provocar a queda da
inflação. A economia cresce, principalmente, a partir da produção industrial e da construção civil.
Inicia-se, aí, em 1968, o período denominado “milagre econômico”, que perdura até o governo se-
guinte, do General Emílio Garrastazu Médici. Contribuiu para isso: a oferta de capital nos países
desenvolvidos, destinando-se ao investimento em mercados com potencial de crescimento; expan-
são do mercado consumidor interno, com linhas de crédito e maior oferta de produtos industriais;
aumento das exportações com novos produtos industriais. Em 1973 ocorre a crise internacional do
petróleo, com a consequente elevação dos preços do produto. O Brasil, na condição de país de eco-
nomia capitalista atrasada e dependente, sofre as consequências da crise que interrompe, assim, o
seu “milagre econômico”.
Atribui-se ao ministro Delfim Neto a afirmação de que “É preciso primeiro fazer crescer o bolo,
para depois dividi-lo”, numa alusão do economista à relação entre o crescimento da economia e o aces-
so do povo à riqueza. Porém, os péssimos índices sociais, como os de desnutrição, mortalidade infantil
e abastecimento de água, por exemplo, mostravam que a riqueza gerada naquele período, atingindo
taxas de 7% a 13% ao ano, estava concentrada nas mãos de poucos.
Ainda no milagre econômico, o governo do General Médici associava a sensação do cresci-
mento a um ufanismo nacionalista, com obras monumentais (Ponte Rio-Niterói, Rodovia Transama-
zônica e a hidrelétrica de Ilha Solteira) e propagandas governamentais, como a do slogan “Brasil:
ame-o ou deixe-o”. Até mesmo a conquista do tricampeonato mundial de futebol contribuiu para
esse quadro.

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O Brasil entre dois mundos | 35

Crise política e econômica


O fim do milagre econômico coincide com a sucessão presidencial que, em março de 1974, terá o
General Ernesto Geisel eleito indiretamente (1974-1979). Para manter índices de crescimento elevados,
o governo aumentou o endividamento externo e viu crescer a inflação. Os rastros da repressão e tortura
praticados pelos militares ainda estava presente. A resistência vinha se manifestando, na opinião públi-
ca, principalmente por intermédio dos artistas que, quando conseguiam driblar a censura, traziam ver-
sos e diálogos em letras de músicas e textos teatrais. Politicamente, a oposição, reunida no Movimento
Democrático Brasileiro (MDB), obteve expressivos resultados nas eleições parlamentares de novembro
de 1974 e nas eleições municipais de 1976.
O presidente Geisel, que havia anunciado a pretensão de avançar, aos poucos, na direção de um
regime democrático, no que seria uma abertura lenta, gradual e segura, lança, em 1977, o “Pacote de Abril”,
fechando o Congresso e editando novas regras do sistema político eleitoral. Nas eleições de 1978, a mano-
bra deu resultados, pois a oposição se vê sub-representada apesar da maioria dos votos. No entanto, Geisel,
no mesmo ano, revoga o AI-5, demonstrando o andamento do que havia anunciado para o seu governo.
Um novo sindicalismo forma-se no interior de São Paulo, foco do desenvolvimento industrial da
metalurgia e da produção de bens de consumo duráveis, como a indústria automobilística. Atualizando
a forma de agir da classe trabalhadora organizada sindicalmente, como reflexo da modernização indus-
trial que a região sofrera, as greves de 1978 e 1979 evidenciam a figura de novos líderes, um deles, o
presidente do sindicato dos metalúrgicos de São Bernardo e Diadema, Luiz Inácio da Silva, o Lula.
O último governo dos militares, o do General João Batista de Oliveira Figueiredo (1979-1985),
será marcado pela recessão econômica e pela ampla mobilização da sociedade civil pela retomada do
regime democrático.
Em meio às dificuldades econômicas herdadas do governo Geisel, combinadas com a nova crise
internacional do petróleo de 1979, o governo Figueiredo lançou mão de negociações com o Fundo
Monetário Internacional (FMI) que ampliaram o arrocho salarial e o desemprego. A economia de estag-
nada passa a ficar negativa. A inflação dá saltos a cada ano, de 77% em 1979 a 223,8% em 1984. A dívida
externa dobra de valor, somando 91 bilhões de dólares.
Mantendo o plano dos militares de promover um processo lento de redemocratização, Figueire-
do enviou ao Congresso Nacional um projeto de anistia política, que beneficiaria as vítimas ainda vivas
da perseguição política, até então tratadas como criminosas pelos órgãos de espionagem do governo.
Mas também beneficiaria os torturadores da ditadura, pois a anistia seria ampla, geral e irrestrita. Assim,
retornaram do exílio personalidades como: Herbert de Souza (Betinho), Leonel Brizola, Miguel Arraes e
Luís Carlos Prestes.
Nessa mesma linha, o governo encaminha ao Congresso Nacional um projeto de reforma partidá-
ria em que extingue o bipartidarismo e retoma o pluripartidarismo. A Arena transforma-se em Partido
Democrático Social (PDS), o Movimento Democrático Brasileiro (MDB) transforma-se em Partido do Mo-
vimento Democrático Brasileiro (PMDB), os trabalhadores do ABC e intelectuais paulistas fazem surgir o
Partido dos Trabalhadores (PT), os getulistas criam o Partido Democrático Trabalhista (PDT) e reeditam
o PTB. Os partidos comunistas e socialistas permanecem proibidos.
A campanha das eleições diretas para presidente é o apogeu dos anseios e movimentos políticos
e sociais pelo fim da ditadura militar e início do regime democrático. Em 1982 já havia ocorrido a elei-
ção direta para governadores, que não acontecia desde 1965. Faltava, então, a eleição de presidente,

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36 | O Brasil entre dois mundos

que deveria ocorrer em 1985. Pressionando o Congresso para que fosse aprovado o projeto de lei que
instituía a eleição direta, já para o ano seguinte, a população brasileira realizou, em 1984, vários atos
públicos cuja dimensão e caráter nacional fizeram destes a maior manifestação de cidadania de toda a
história brasileira até aquele momento.
Sem o êxito pretendido, a eleição confirma-se como indireta e o Colégio Eleitoral elege, em janei-
ro de 1985, da chapa da Aliança Democrática, Tancredo Neves e José Sarney, derrotando o candidato
do PDS e dos militares, Paulo Maluf. O regime militar está derrotado e, depois de 21 anos, o Brasil possui
um presidente civil.

Agência JB Almir Veiga.


Diretas Já.

A década de 1980 e as transformações nacionais e internacionais


Para o Brasil a década de 1980 será chamada, economicamente, como a década perdida, pois a su-
cessão de crises, recessões, dívidas externas, inflação e planos econômicos consumirão cada ano desse
período. Já no cenário político e social, essa década registra a virada do fim do regime militar ditatorial
para o civil democrático e a formulação de uma nova Carta Magna, a chamada Constituição Cidadã.
Embora eleito, Tancredo Neves não chega a tomar posse, vindo a falecer. Assume a Nova Repú-
blica, como será chamada, o seu vice, José Sarney (1985-1990). Ex-presidente da Arena este é visto com
antipatia e receio pelos setores progressistas, que tinham na figura de Tancredo a imagem da democra-
cia pretendida. De qualquer forma, convocam-se eleições para a Assembleia Constituinte de 1986, cujo
trabalho seria promulgado em 1988, dando ao país a sua sexta Constituição, a quinta da República, e
uma das Constituições mais democráticas do mundo.
Em meio à retomada de práticas democráticas e restabelecimento de instituições, o governo Sar-
ney ficará comprometido com uma série de planos econômicos para dominar a inflação e retomar o
crescimento. O primeiro deles foi o Plano Cruzado, com desvalorização e troca de nome da moeda, con-
gelamento de preços e controle dos salários. Após algum êxito, começa a ocorrer o desabastecimento
dos produtos. É lançado o Plano Cruzado II, o Plano Bresser e o Plano Verão, todos sem êxito. Sarney
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O Brasil entre dois mundos | 37

chega ao fim de seu mandato com uma inflação de 85% ao mês.


O povo brasileiro após quase 30 anos pode eleger diretamente o seu presidente. Em 1989, foi
eleito em segundo turno, derrotando o candidato do Partido dos Trabalhadores, Luíz Inácio Lula da
Silva, o ex-prefeito, deputado federal e governador de Alagoas Fernando Collor de Mello, candidato
das elites econômicas e grupos mais conservadores, pelo partido Partido da Reconstrução Nacional
(PRN).
Produto do marketing político, Fernando Collor surge como a figura de jovem enérgico, que irá
modernizar o país, combater a corrupção e proteger a população “descamisada”. Assume o poder em
1990 e representará o início da política econômica que estará sendo pautada nos círculos internacionais
do capitalismo mundial. Embora o plano econômico que seu governo irá implementar tenha efeitos
recessivos, a partir do confisco das cadernetas de poupança, seu discurso virá acompanhado dos ele-
mentos que constituíam as teorias neoliberais: controle de gastos do governo, privatização das empresas
estatais, redução e reforma do aparelho estatal, modernização da indústria e abertura do mercado à
competição internacional.

Collor eleito em 1989. Lula na greve do ABC de 1980.

A teoria neoliberal marcava as transfor-


mações ocorridas em escala mundial naquela GNU Free.

década de 1980. A crise dos países socialistas


estava simbolizada pela queda do muro de
Berlim (1989), quando movimentos internos
promovem a reunificação da Alemanha, sepa-
rada desde a Segunda Guerra Mundial entre
a parte ocidental capitalista e a parte oriental
socialista. Em verdade, a “cortina de ferro”, que
escondia o que acontecia no mundo dos paí-
ses do bloco socialista, não conseguia escon-
der mais as insuficiências, desabastecimentos,
Muro de Berlim, 1986.
privilégios de classes e autoritarismos que
existiam nas sociedades ditas igualitárias de economia planificada. As tensões internas aliadas às seduções
externas do capitalismo provocaram a irrupção de movimentos de abertura e transparência, seguidos de

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38 | O Brasil entre dois mundos

uma sucessão de reorganizações separatistas geográficas, socioculturais e políticas (a URSS, a Tchecoslová-


quia e a Iugoslávia, por exemplo).
Os ideólogos do neoliberalismo, do novo liberalismo que se reedita sobre a experiência do
passado e os atuais elementos da economia mundial, já estavam escrevendo suas ideias desde as
décadas de 1950 e 1960, mas é nos anos 1980 que o cenário mundial do fim da Guerra Fria permitirá
a implementação das suas bases. A Inglaterra de Margareth Tatcher e os EUA de Ronald Reagan serão,
não por acaso, um dos primeiros países a reformar as bases dos seus Estados de bem-estar social para
torná-los neoliberais.
Para isso, concorriam, na ocasião, as pressões das elites econômicas sobre os governos quanto
aos limites concorrenciais e ao peso tributário para manutenção do Estado assistencialista e interven-
cionista, bem como o enfraquecimento da ameaça socialista sobre os países capitalistas, principal-
mente os periféricos.
Esse cenário de tamanhas transformações políticas, econômicas e sociais, para alguns autores, é,
mesmo que no alvorecer da última década do século XX, o início do terceiro milênio.

Texto complementar
Desenvolvimento e crise no Brasil
(BRESSER PEREIRA, 1972, p. 225–227)
Estavam assim estabelecidas as bases do modelo de desenvolvimento tecnoburocrático capi-
talista para o Brasil. Este modelo baseia-se no grande governo tecnoburocrático e na grande em-
presa capitalista. O grande governo tecnoburocrático controla diretamente uma imensa parcela da
economia nacional, planeja o desenvolvimento, estabelece a política fiscal, monetária, financeira,
salarial, habitacional e intervém diretamente na economia capitalista através das grandes empre-
sas públicas. A grande empresa capitalista e a grande empresa pública incumbem-se da produção.
Adotam uma tecnologia moderna, recebem estímulos fiscais e creditícios do governo, captam a
grande parte da poupança nacional através da obtenção de grandes lucros e, secundariamente, do
recurso do mercado de capitais. [...]
Grande governo tecnoburocrático e grande empresa capitalista complementam-se. O grande
governo, além de controlar a economia em geral, produz energia elétrica, transportes, aço, petró-
leo, comunicações. A grande empresa capitalista, principalmente a internacional, controla, por sua
vez, a indústria de transformação, particularmente a indústria automobilística, a indústria de bens
de capital, a indústria de bens duráveis de consumo, a indústria eletrônica, a petroquímica. Em re-
lação a esta última, e também em relação à mineração e ao setor financeiro internacional, a aliança
entre o governo e o capitalismo internacional torna-se explícita, através de acordos firmados pela

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O Brasil entre dois mundos | 39

Petrobras, pela Vale do Rio Doce, e pelo Banco do Brasil. [...]


Esta aliança estabelece as bases de uma nova dependência – de uma dependência tecnoló-
gica e política. Não se trata mais da dependência colonialista, anti-industrializante que caracteriza
a aliança da oligarquia agrário-comercial com o capitalismo internacional no século XIX e primeira
metade do século XX. Depois que o capitalismo internacional estabeleceu no Brasil suas próprias
indústrias, principalmente nos anos cinquenta, sua oposição à industrialização brasileira natural-
mente desapareceu. Continuava a existir uma série de limitações ao nosso desenvolvimento in-
dustrial, especialmente quando houvesse conflito entre os interesses da matriz com os da filial ou

subsidiária no Brasil. Continuavam também a existir grupos, como é o caso do café solúvel, que, por
não terem tido oportunidade de se estabelecer no Brasil, opunham-se à nossa industrialização. “De um
modo geral, porém, o capitalismo internacional passou a interessar-se diretamente na industrialização
brasileira, na medida em que isto significava excelentes possibilidades de lucros e de acumulação de
capital”.

Atividades
1. Por que podemos considerar as políticas econômicas dos governos de Vargas e JK como as mais
significativas e responsáveis, até a década de 1960, em relação ao desenvolvimento do país?

2. Descreva a formação geopolítica do cenário internacional após a Segunda Guerra Mundial.

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40 | O Brasil entre dois mundos

3. Considerando a formação da sociedade brasileira e os fatores presentes no cenário internacio-


nal na década de 1960, não é de se surpreender o fato de ter ocorrido o golpe militar de 1964.
Por quê?

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O Brasil entre dois mundos | 41

Gabarito
1. Foram as políticas econômicas mais sistematizadas e efetivas, no sentido de avançar o capitalis-
mo industrial brasileiro, em comparação aos outros governos. Além de terem declarado a explí-
cita intenção de promover, com seus planos, a infraestrutura para a cadeia produtiva, também
elaboraram novos elementos para a estruturação do Estado em bases mais modernas, fazendo,
cada um ao seu modo, o uso direto ou indireto do aparelho estatal para alavancar a economia e
preparar a sociedade.

2. Ocorre a geopolítica bipolar entre dois blocos cujos modelos são distintos e representados pelos
EUA capitalista e pela URSS socialista.

Os EUA, aproveitando os estragos da guerra em solo europeu e a preservação do seu parque


industrial já bem desenvolvido, ampliou suas ações políticas de boa vizinhança, que o país
promovia desde o final do século XIX com os países do continente americano, fortalecidas,
então, pelo New Deal (Novo Acordo), plano de ações adotado em 1933 para superação da crise
provocada pela quebra da Bolsa de Nova York (1929). Os EUA assumiram, imediatamente, papel
decisivo para o apoio e recuperação dos países capitalistas europeus e, até mesmo, do derrota-
do Japão.

A URSS, por sua vez, passou a estimular ou servir de exemplo, para sociedades em vias de revolu-
ção, de poderio e desenvolvimento alcançado por uma economia planificada (e não de mercado),
onde os meios de produção são estatais (e não privados) e não há divisão de classes sociais (pelo
menos em tese, ao invés de burguesia e proletariado). Estendeu seus domínios sobre a Ásia e o
Leste Europeu, em seguida sobre América Latina e a África, liderando o bloco dos países que ado-
taram o socialismo.

3. Porque: a) o passado de permanentes participações desse setor na vida nacional (Proclamação


da República, os dois primeiros governos republicanos, os movimentos tenentistas da década de
1920, a Revolução de 30, a Revolta Constitucionalista de 1932, o Golpe de 1937 criando a ditadura
do Estado Novo até 1945, e até mesmo o fim deste, que se deu pela deposição conduzida por gene-
rais dos quais um foi eleito presidente de 1946 a 1950); e b) o constante uso reacionário das Forças
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42 | O Brasil entre dois mundos

Armadas pelos países do bloco capitalista, em plena Guerra Fria, insufladas de perto pelos EUA para
efetuar golpes de Estado, prevenindo ou debelando os temidos movimentos sociais e políticos cujas
vinculações ideológicas poderiam, por via das dúvidas, inclinar-se às revoluções socialistas (como
foram os casos de Brasil, Uruguai, Chile, Argentina, Nicarágua, entre outros).

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Cidadania moderna
e movimentos sociais
José Augusto de Souza Nogueira*

A cidadania moderna
Certamente, a palavra cidadania não é nova para você e é bem provável que saiba o que significa.
Afinal, quando você vota, ou é votado, paga seus impostos, reclama por melhores condições de saúde e
educação, você está exercendo a cidadania. Mas quando será que surgiu o conceito de cidadania?
A cidadania como conhecemos, seus conceitos e suas práticas, inicia sua gestação a partir de três
movimentos históricos:
::: a Revolução Inglesa, do século XVIII;
::: a guerra de Independência dos Estados Unidos da América do Norte, no século XVIII;
::: a Revolução Francesa, também no século XVIII.
Esses movimentos trouxeram, cada um à sua maneira, obedecendo a motivações peculiares, uma
nova concepção de mundo, mesclada a suas construções pessoais. Os ideais desses movimentos sacu-
diram o mundo e criaram um ambiente marcado por rupturas, transformações e permanências.
Ao analisarmos as motivações, veremos que em comum existia a preocupação com o indivíduo,
com a definição de direitos e deveres.
A Revolução Inglesa; inspirada principalmente pelo pensamento de John Locke, traz a ideia de
que o poder dos reis era concedido pelo povo, com a finalidade exclusiva de protegê-los e de cuidar de
seus interesses; se o rei não cumprisse com sua missão, caberia ao povo destituí-lo. O pensamento de
Locke legitimou a reação contra os abusos dos nobres, que tinham a seu favor o apoio da Igreja Católica,
* Graduado e Licenciado em História pela Universidade Veiga de Almeida (2005).
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44 | Cidadania moderna e movimentos sociais

baseada em uma interpretação bíblica que tornava o poder e as atitudes dos nobres inquestionáveis.
A vitória do pensamento liberal de Locke representou uma redefinição das ideias de poder e a quem
esse poder estaria submisso. A figura do rei continuava a existir na Inglaterra, porém agora este devia
obediência ao povo, materializado na figura do Parlamento.
As mudanças ocorridas na Inglaterra, a partir da revolução, foram fantásticas e representaram
avanço nas relações sociais; a instituição do habeas corpus, presente em grande parte das sociedades
atuais, é um grande marco desses avanços. Infelizmente, os problemas agrários e a intolerância religiosa
continuaram a existir e a provocar miséria e exclusão social.
A independência norte-americana, ideologicamente, é filha das ideias dos revolucionários in-
gleses e do pensamento iluminista, principalmente dos autores franceses. Nasce de uma insatisfação
contra uma série de medidas econômicas tomadas pelo governo inglês, que tinha como objetivo criar
mecanismos de exploração e controle da colônia e criar um monopólio comercial que impossibilitas-
se os colonos de realizarem livre-comércio, obrigando-os a comerciar única e exclusivamente com os
comerciantes ingleses, prática que seria prejudicial aos colonos, pois seriam obrigados a vender seus
produtos por preços baixos e a comprar as mercadorias inglesas a preços altíssimos.
Imaginem se essa situação poderia permanecer assim por muito tempo! É claro que começaram
a surgir reações contrárias a esse tipo de exploração. Os primeiros protestos são marcados por reivindi-
cações contra o aumento de impostos e o boicote dos produtos ingleses. O Parlamento é formado por
nobres e por grandes comerciantes, representando o interesse dos comerciantes que querem fazer da
colônia um mercado aberto a seus produtos e da nobreza uma classe desejosa de mais impostos para
os cofres da Coroa britânica. Com o acirramento dos problemas, os colonos que não tinham represen-
tantes no Parlamento inglês passam a exigir a presença de um representante das Treze Colônias da
América do Norte. As ideias de John Locke, de que o governo tem de defender a população e seus inte-
resses, serão divulgados grandemente entre a população da colônia; o slogan “Só pode existir taxação
com representação!” se tornará vulgar entre os colonos. As ideias que legitimaram a luta por direitos na
Inglaterra agora são reivindicadas por uma população colonial explorada e espoliada pelo julgo inglês.
Se um homem ou um grupo arrogarem para si a elaboração de leis sem que o povo os tenha eleito para tanto, serão
leis sem autoridade, a que o povo, em consequência, não está obrigado a obedecer. Em tais condições, o povo estará
novamente desvinculado da sujeição, podendo constituir novo legislativo ao modo que julgar melhor, tendo inclusive
toda liberdade de resistir à força aos que, sem autoridade, quiserem impor-lhe seja lá o que for. (LOCKE, 2002, p.145)

Os escritos do inglês Thomas Paine, que pregavam a independência e atribuíam os problemas da


colônia ao rei inglês, têm grande aceitação entre a população colonial, pois dava corpo a ideias, que até
aquele momento encontravam-se dispersas.
A Inglaterra é, apesar de tudo, a pátria-mãe, dizem alguns. Sendo assim, mais vergonhosa resulta sua conduta, porque
nem sequer os animais devoram suas crias nem os selvagens declaram guerra a suas famílias; de modo que este fato
volta-se ainda mais para a condenação da Inglaterra. [...] Europa é a nossa pátria-mãe, não a Inglaterra. Com efeito,
este novo continente foi asilo dos amantes perseguidos da liberdade civil e religiosa de qualquer parte da Europa [...]
a mesma tirania que obrigou os primeiros imigrantes a deixar o país, segue perseguindo seus descendentes. (PAINE
apud KARNAL, 2003, p. 84)

No dia 2 de julho de 1776, um congresso realizado na cidade da Filadélfia decide pela sepa-
ração e forma uma comissão para redigir a Declaração da Independência. Após dois dias, no dia 4
de julho, a declaração fica pronta. A partir da declaração, tem início uma guerra cruel e sanguinária
tocada pela Inglaterra contra suas ex-colônias. Com a vitória dos colonos, comandados pelo general

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Cidadania moderna e movimentos sociais | 45

George Washington, surgia na América uma forma política inédita até aquele momento no continente,
uma República presidencialista, com uma constituição que tinha como principal finalidade a proteção
da propriedade e do indivíduo.
Assim, pelo que você leu até aqui deve estar pensando que o povo norte-americano, com a cons-
tituição, teria seus direitos de cidadão reconhecidos, pena que a nova realidade norte-americana, por
mais avanços que tenha trazido em seu processo, não contemplou um grande número de habitantes
de seu território, a escravidão dos negros continuou a existir, as mulheres e os índios também foram
excluídos da participação nas decisões do novo país.
A Revolução Francesa teve influência direta da guerra de Independência norte-americana, uma
vez que os soldados franceses lutaram com os colonos contra a Inglaterra e ao voltarem para a França
levaram junto com suas histórias de combates, a visão materializada das ideias iluministas, postas em
prática no país que ajudaram a libertar.
A Revolução Francesa pode ser considerada o marco da vitória do capitalismo e do estabeleci-
mento da democracia. A vitória dos revolucionários franceses fez com que o mundo passasse a respirar
novos ares.
A França forneceu o vocabulário e os temas da política liberal e radical-democrática para a maior parte do mundo. A
França deu o primeiro grande exemplo, o conceito e o vocabulário do nacionalismo. A França forneceu os códigos le-
gais, o modelo de organização técnica e científica e o sistema métrico de medidas para a maioria dos países. A ideologia
do mundo moderno atingiu, pela influência francesa, as antigas civilizações que até então resistiam às ideias europeias.
(HOBSBAWM, 1996, p. 122)

A Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão de 1789 declarava que todos os homens nas-
cem livres e iguais em direitos e que a única fonte de poder é o próprio povo. A partir daí, entre a humani-
dade não pode mais haver nem escravos, nem servos, nem justiça especial para nobres, nem torturas;
ninguém poderá ser perseguido por suas opiniões ou credo religioso; todos os acusados terão direito
à ampla defesa; qualquer pessoa desde que capacitado poderá ocupar cargos públicos. A declaração
francesa se tornou a base para todos os ideais de cidadania em todo o mundo.
Agora, você já deve estar desconfiando de que também os ideais da Revolução Francesa não
conseguiram atingir a todos. E se você pensou assim, está totalmente correto.
A Revolução Francesa teve avanços e retrocessos ao longo de seu processo, porém, tanto a Revo-
lução Inglesa como a independência norte-americana são movimentos que trouxeram melhorias ime-
diatas para a população pobre de seu território. A escravidão foi abolida na França, mas permitida nas
colônias francesas.
O fato é que esses movimentos foram responsáveis pelo surgimento da ideia e dos conceitos que
se tornaram referências na construção e nas práticas de cidadania nas sociedades atuais.
Já vimos como a ideia de cidadania nasceu e quais movimentos foram responsáveis por fazer
com que o indivíduo fosse respeitado. E no Brasil? Como a cidadania é exercida ou reclamada pelo
povo brasileiro?
Nosso país é uma jovem democracia, fato que nos tem gerado grandes dificuldades. Sofremos
com as acusações de sermos um povo sem memória, um povo que não sabe votar, um povo que só se
mobiliza para festejos. A maioria da população não consegue perceber que nossos problemas provêm

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46 | Cidadania moderna e movimentos sociais

da falta de costume de exercer e exigir nossos direitos básicos. Nosso país nunca viveu um período mí-
nimo de 50 anos de democracia, ou melhor dizendo, não temos uma cultura democrática desenvolvida
em nossa sociedade. Uma boa cidadania está diretamente ligada a um eficiente sistema democrático.
O fato de estarmos engatinhando como democracia não nos liberta do dever e da responsabili-
dade de construirmos um país mais humano, sem preconceitos, sejam eles de quaisquer origens.
Se olharmos detalhadamente para a história do nosso país, descobriremos uma realidade de
brutalidade e desmandos; junte-se a isso uma tradição messiânica de grande parte da população que
ao invés de tentar resolver seus problemas vivem a esperar de alguém que os resolva ou que assuma
seus erros.
Observemos mais atentamente a questão da cidadania e de seus mecanismos de funcionamento,
ou seja, cidadania exige o conhecimento e o gozo de direitos e deveres, cidadania se aperfeiçoa na prá-
tica democrática e cotidiana; logo se percebe que o sistema de governo propício para que um cidadão
exerça uma cidadania plena é a democracia.
A problemática que se apresenta quando tentamos analisar o processo de cidadania no Brasil
encontra-se no fato de que é um processo ainda em curso. O complicador na compreensão do que é
cidadania reside no fato de sermos concomitantemente sujeito e objeto no processo que tem como
objetivo o aprimoramento dos aparelhos democráticos que visam abarcar um grupo cada vez maior de
brasileiros que ainda não são contemplados com os direitos e deveres de uma cidadania plena.
No conceito clássico, desenvolvido por T. A. Marshall, que, ao analisar a cidadania na sociedade
inglesa, conclui que a cidadania nasce da junção dos direitos civis, políticos e sociais, e que cidadão é
todo aquele que usufrui desses direitos. Segundo o autor, o processo de formação é lento e obedece a
uma sequência lógica, que tem início com os direitos civis, depois os políticos e por último os sociais.
Esse modelo ocorreria dessa forma em todas as sociedades.
Atentemos, portanto, para um processo que se inicia há mais ou menos 300 anos, que tem uma
dinâmica que obedece às particularidades de cada sociedade onde ocorre, o que impossibilita o de-
senvolvimento de um modelo único de cidadania para as diversas sociedades; da mesma forma não se
pode pleitear o esgotamento do debate sobre o assunto. A cada dia surge uma gama de novas deman-
das mundiais e fatores a serem incorporados, o que nos obriga a fazer uma releitura quase que cotidiana
do processo que convencionamos chamar de cidadania.

A redemocratização e a cidadania no Brasil


O ano de 1985 marca o fim do regime militar e representa a volta do país a um “Estado de Direito”.
Passados mais de 20 anos do Golpe de 1964, o país volta a viver um regime democrático. Um clima de
esperança e alegria vai tomar conta de corações e mentes dos brasileiros, a noite escura tinha termina-
do e o sol de um lindo dia se anunciava.
O esforço de reconstrução, melhor dito, de construção da democracia no Brasil ganhou ímpeto após o fim da ditadura
militar, em 1985. Uma das marcas desse esforço é a voga que assumiu a palavra cidadania. Políticos, jornalistas, intelec-
tuais, líderes sindicais, dirigentes de associações, simples cidadãos a adotaram. A cidadania, literalmente, caiu na boca
do povo. Mais ainda, ela substituiu o próprio povo na retórica política. Não se diz mais “o povo quer isto ou aquilo”, diz-
-se “a cidadania quer”, a cidadania virou gente. (CARVALHO, 2003, p. 7)

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Cidadania moderna e movimentos sociais | 47

Os militares deixaram como herança um país endividado tanto no âmbito externo quanto no in-
terno, uma inflação galopante e recessão, altas taxas de desemprego, mortalidade e desnutrição infantil,
uma economia incapaz de suprir as demandas da sociedade brasileira, aprofundamento das desigualdades
regionais e sociais, concentração da renda dos mais ricos, os movimentos estudantis e classistas – com raras
exceções – quase aniquilados, uma máquina administrativa despreparada para atender às reivindicações
da população e uma população desacostumada a cobrar seus direitos junto às autoridades competentes.
O governo civil que os sucedeu, na expectativa de dominar o processo inflacionário, tomou medi-
das duras que causaram mais desemprego e recessão; mais uma vez o povo pagou a conta das péssimas
administrações do país. O sonho da democracia logo daria lugar à desilusão e à desesperança, a demo-
cracia não trouxe a solução tão esperada para os problemas estruturais vividos pelo país. De positivo,
esse período representou o ressurgimento ou a revitalização de inúmeros segmentos de representação
social, que tinham sido sufocados ou funcionavam precariamente vigiados pelos serviços de vigilância
dos governos militares.
Conforme o tempo passa, a crise econômica ganha contornos mais alarmantes; a reação da po-
pulação vai se tornando paulatinamente mais organizada, seja através dos sindicatos, das centrais sindi-
cais, das associações de moradores, movimento dos sem-terra, sem-teto, movimentos de cunho racial,
de gênero, orientação sexual. Todos os grupos se fazem representar e exigem do governo e da socieda-
de brasileira o reconhecimento de sua existência e da legitimidade de suas reivindicações.
O sistema democrático instaurado no Brasil foi incapaz de inserir, na condição de cidadãos, sua
população pobre que continuou abandonada e sem condições de utilizar os serviços públicos.
A Constituição de 1988, batizada como Cidadã, traz inúmeros artigos que demonstram a preocu-
pação com os direitos civis e sociais (liberdade de expressão; privacidade garantida; inviolabilidade do
domicílio, da correspondência e das comunicações; a proibição de prisão sem decisão judicial e direito
de voto para analfabetos). Produto da ação e da luta dos diversos grupos sociais e de um período de
acirrada luta entre os vários grupos políticos do país.

A nova ordem mundial e seus desdobramentos nas


sociedades em desenvolvimento
A queda do Muro de Berlim, em 1989, e o fim da União Soviética, em 1991, marcam o fim do perí-
odo que ficou conhecido como Guerra Fria, um período marcado pela divisão do mundo em duas áreas
de influência das duas superpotências mundiais: os Estados Unidos da América e a União Soviética. A
Guerra Fria foi um momento histórico, que se inicia após a Segunda Guerra Mundial e vai até o começo
da década de 1990.
Notem por quanto tempo se estendeu a Guerra Fria! Mas, antes de continuarmos, é bom que você
saiba o porquê do nome Guerra Fria.
Essa disputa ideológica e indireta entre norte-americanos e soviéticos assim foi denominada
porque os dois lados nunca combateram fogo contra fogo e usaram sua influência para fomentar e

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48 | Cidadania moderna e movimentos sociais

financiar vários conflitos pelo mundo (Guerra das Coreias, Vietnã, Camboja, Etiópia, Afeganistão etc.).
Agora que já sabemos o que é Guerra Fria, é o momento de conhecermos a ideologia de cada um dos
países envolvidos.
Os norte-americanos comandavam o bloco capitalista, defendiam a ideologia da garantia das
liberdades individuais, da proteção da propriedade e de uma economia de mercado, sem interferência
do governo.
Os soviéticos comandavam o bloco socialista, levaram para o mundo uma ideologia de revolução
popular contra a exploração burguesa, de sociedades igualitárias, fim da propriedade privada e de uma
produção voltada para suprir as necessidades da população, sem buscar o lucro.
Com o fim da Guerra Fria, a divisão de poder, que até aquele momento era bipolar, passou a ser
unilateral, com a crise que se abateu sobre a União Soviética que levou o secretário-geral do Partido
Comunista Russo, Mikahil Gorbatchev, a dissolver a União Soviética, após uma tentativa de golpe dada
por comunistas da linha dura do PC russo. A reação ao golpe foi comandada pelo presidente da Rússia,
Boris Yeltsin, apoiado pela população de Moscou.
Os Estados Unidos, a partir daí, tornaram-se a única potência do mundo; um discurso proferido
por George Bush em 1991 anuncia ao mundo uma “nova ordem mundial”. Segundo o presidente
norte-americano, esta seria formada por um mundo sem barreiras, voltado para o bem comum da
humanidade. Com o fim da União Soviética, desaparece a ameaça das revoluções proletárias (revoluções
de trabalhadores) e os norte-americanos tratam de estabelecer uma nova dinâmica para o mundo; na
verdade o projeto já vinha sendo tocado pela primeira-ministra inglesa Margareth Thatcher e pelo
presidente norte-americano Ronald Reagan, de quem George Bush havia sido vice-presidente.
Coube a Margareth Thatcher, na Inglaterra (a partir de 1979), e Ronald Reagan, nos Estados Unidos (a partir de 1981),
a organização e exercício de políticas chamadas de desmonte do Estado de Bem-Estar Social. A argumentação de am-
bos os governantes baseava-se largamente nas ideias de economistas liberais (como Fridrich Rajek e Milton Fridman)
que postulavam uma imediata diminuição dos impostos. O grande volume de impostos existentes, necessários para
financiar o chamado Estado do Bem-Estar Social (saúde, educação, seguro-desemprego etc.) seriam a origem da de-
pressão econômica então vigente e, consequentemente, do desemprego. “Quanto menos impostos, mais empregos...”,
raciocinavam políticos e economistas liberais. Obviamente os anteparos sociais existentes, a segurança e a garantia do
trabalho, deveriam ser anulados, retirando dos empresários o ônus dos diversos impostos decorrentes das estruturas
de amparo do Estado Providência. Alguns organismos econômicos e financeiros mundiais, como o Banco Mundial e o
Fundo Monetário Internacional, FMI, passaram a adotar tal receituário como tendo valor igual para todos, fosse o Méxi-
co, a Rússia ou a Indonésia. (SILVA, 1990, p. 35)

A nova face da economia mundial atende pelo nome de neoliberalismo, que seria um retorno ao
liberalismo econômico. Seus três objetivos principais são:
::: desmonte do Estado de “Bem-Estar Social”, dos países ricos, criado com a finalidade de dar melhores
condições de vida aos operários do mundo capitalista; dessa forma acreditava poder anular uma
possível influência comunista e o perigo de uma revolução dentro dos países capitalistas; todos os
direitos conquistados pelos trabalhadores, a previdência social, os salários, os sistemas de saúde, os
sistemas de educação, são colocados como despesas que precisam ser cortadas para baixar o custo
da produção e aumentar o lucro dos burgueses e capitalizar a economia dos países;
::: redução da participação do Estado na vida econômica dos países, feita através de um progra-
ma de desestatização com a venda para a iniciativa privada e grupos transnacionais, inclusive
de empresas e recursos considerados estratégicos;

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Cidadania moderna e movimentos sociais | 49

::: abertura das economias em desenvolvimento para os produtos dos países desenvolvidos, e
fim das barreiras alfandegárias, o que possibilitaria a livre circulação das mercadorias pelos
diversos países.
Os países em desenvolvimento cumpriram as orientações dadas pelos norte-americanos e entra-
ram num processo de venda de todo seu patrimônio público, conquistado pela luta de várias gerações
de trabalhadores. O Brasil foi um desses países.
Ao final da liquidação de seus patrimônios, continuaram endividados e sem ter como investir em
seu crescimento e desenvolvimento. Os países em desenvolvimento não tiveram outra opção a não ser
a de contrair empréstimos com o FMI (Fundo Monetário Internacional) e o Banco Mundial, uma tentati-
va desesperada de reerguer suas economias. Orientados pela política norte-americana, os organismos
financeiros, além das exigências normais para concessão de empréstimos, passam a exigir o detalha-
mento do destino que será dado ao dinheiro. Estipulam também condições e metas de crescimento
econômico para obtenção e negociação dos empréstimos já em vigor.
Com a nova ordem mundial, o conceito de Estado-nação fundamentado na autodeterminação
dos povos e da autonomia dos países entra em colapso; na nova conjuntura não são os governos na-
cionais que decidem a forma de desenvolvimento de seus países. O destino de milhões de pessoas
que vivem nos países em desenvolvimento passa a ser decido por especuladores e financistas de Wall
Street, com o corte dos recursos destinados à educação, à saúde, ao sistema de previdência e à criação
de empregos, fazendo com que a recessão avance e mostre a verdadeira face do sistema neoliberal; o
aumento nas reservas dos países ricos; a derrocada das economias; o aumento da violência, das diferen-
ças sociais, da criminalidade, da destruição da família nos países pobres.
Os países perdem sua capacidade de investimento e não têm como resolver seus problemas so-
ciais que crescem dia após dia. O contingente de excluídos nos países em desenvolvimento não para
de crescer.
Infelizmente, o Brasil é o exemplo clássico dessa situação, mesmo quando busca corrigir suas
desigualdades, através da criação de leis baseadas no que se convencionou chamar “ações afirmati-
vas”, que visam corrigir o tratamento desigual que a sociedade impõe a alguns grupos (negros, mu-
lheres e deficiente físicos) e têm nas cotas o seu mecanismo de funcionamento. Além dessas ações,
o governo brasileiro criou os estatutos que contêm legislação específica, voltadas para a proteção
das crianças, dos jovens, dos idosos. Mesmo desenvolvendo políticas de “descriminação positiva”, o
governo não tem dado conta da demanda social. A cidadania e os acessos aos serviços básicos conti-
nuam sendo alvo de políticos assistencialistas ou artigo de difícil acesso para as camadas mais pobres
da população.
Os anos 1980 são fundamentais para a compreensão da construção da cidadania dos pobres no Brasil, em novos parâ-
metros. Embora com o estatuto de cidadãos de segunda categoria, os pobres saíram do submundo e vieram à luz como
cidadãos dotados de direitos – direitos estes que são inscritos na Constituição, mas, usualmente, negados ou ignorados na
prática. Assistiu-se ainda ao acirramento da crise econômica ao final da década, com as políticas neoliberais de privatiza-
ções e desativação da atuação do Estado em áreas sociais, e o desencanto que as massas em geral sentiram, com os novos
governos que elegeram tanto os de direita (Collor e seus escândalos financeiros) como os de esquerda [...]. A década de
1980, cognominada como a década perdida em termos econômicos, mas altamente positiva tanto política como cultural-
mente, findou-se com um quadro desanimador: a desmobilização e descrença das massas. [...]. (Gohn, 2001, p. 126–127)

Nesse contexto, não é difícil entender o processo brasileiro, em que uma economia é voltada para
cumprir metas estipuladas pelo mercado, enquanto a população brasileira se acotovela num sistema

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50 | Cidadania moderna e movimentos sociais

de “salve-se quem puder”, desenvolveu-se no país um sistema hierarquizado de cidadania, ou, como
preferem alguns, de cidadania possível, que seria a cidadania prevista para alguns setores da sociedade,
representados por pobres, negros, nordestinos, favelados e indigentes.

O ressurgimento dos movimentos sociais no Brasil


Entre o final da década de 1970 e início dos anos 1980, ainda no período do regime militar, devido
à crise econômica, tirava-se o emprego e se achatava o salário dos trabalhadores. A falta de um canal de
comunicação entre o governo e a população não possibilitava ao povo fazer suas reivindicações, uma
vez que qualquer reunião popular era vista pelo governo como ato de comunistas, portanto, terroristas
que buscavam única e exclusivamente a destruição do regime e da ordem vigente e as intervenções
dos governos militares e seus “pacotes econômicos”, que de prático só aumentavam as dificuldades da
população, começando a surgir no país sinais de reivindicações de redemocratização.
Não se pode afirmar que os militares extinguiram toda e qualquer atividade dos movimentos so-
ciais, mas no período da implantação do regime em 1964 até meados dos anos 1970, as manifestações
foram reprimidas de forma violentíssima. Os grupos que conseguiram manter suas atividades foram
alvos da vigilância dos órgãos de repressão do governo militar.
Em 1975, o Movimento Democrático Brasileiro (MDB), que representava a oposição política ao
regime militar, após a vitória nas eleições de 1974, formula planos e propostas de mudanças, visando
à redemocratização. Os anos 1970 também registram o surgimento no Brasil de vários movimentos
feministas; movimentos de funcionários públicos ligados à educação e à saúde; a criação da Comissão
Pastoral da Terra, ligada à Igreja Católica, que foi fundamental na orientação e formação de vários mo-
vimentos pela conquista da terra, principalmente no sul do Brasil. A retomada da luta dos sindicatos
por melhores salários, o ressurgimento do Movimento Estudantil e o Movimento pela Anistia foram os
principais movimentos de luta social desse período.
O ano de 1978 é marcado pelas grandes greves de diversas categorias socioeconômicas. O ponto
de partida da onda de greves foi o ABC paulista, um grande parque industrial de montadoras de auto-
móveis transnacionais. As greves sacudiram o país, os grevistas desafiavam o regime e se reuniam em
estádios de futebol e na porta das fábricas, onde impediam a entrada dos que queriam trabalhar. A
reação dos metalúrgicos foi tão festejada pela população, ávida de voltar a viver numa democracia, que
os líderes do movimento se tornaram figuras conhecidas em todo o país.
Os anos 1980 foram marcados pelo fim do bipartidarismo, que possibilitou o surgimento e lega-
lização dos diversos partidos políticos que existem até os dias atuais; os principais foram: Partido do
Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), que surgiu do MDB; Partido dos Trabalhadores (PT); Partido
Democrático Trabalhista (PDT); Partido Trabalhista Brasileiro (PTB); Partido Democrático Social (PDS) e
Partido da Frente Liberal (PFL). A criação das centrais sindicais, movimento dos trabalhadores sem-terra,
movimento Diretas Já. Os anos 1980 ficaram registrados em nossa história recente como os “anos da
negociação e dos direitos”, um período que tem início nas greves operárias contra o arrocho e a carestia
e chega ao ápice com a formulação de Constituição de 1988.
A década de 1980 foi extremamente rica do ponto de vista das experiências político-sociais. A luta pelas Diretas Já em
1984 e pela implantação de um calendário político que trouxesse de volta as eleições para a presidência do país, a luta
pela redução do mandato presidencial, o processo Constituinte, o surgimento das Centrais Sindicais (CONCLAT, CGT,
CUT, USIS, FORÇA SINDICAL), a criação de entidades organizativas amplas do movimento popular (ANAMPOS, CONAM,

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Cidadania moderna e movimentos sociais | 51

PRÓ-CENTRAL), o surgimento de inúmeros movimentos sociais em todo território nacional, abrangendo diversas e di-
ferentes temáticas e problemáticas, como das mulheres, negros, crianças, meio ambiente, saúde, transportes, moradia,
estudantes, idosos, aposentados, desempregados, ambulantes, escolas, creches etc. Todos, em seu conjunto, revela-
vam a face de sujeitos até então ocultos ou com vozes sufocadas nas ultimas décadas [...]. (GOHN, 2001, p. 126)

Os primeiros anos da década de 1990 são marcados por grande efervescência dos movimentos
sociais. O setor público de educação e saúde param em vários estados, suas reivindicações por melhores
salários e condições de trabalho e a intransigência dos governos prejudicam milhares de alunos que
perdem aulas e seu ano letivo.
Nesse período ocorre a criação do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), o surgimen-
to dos movimentos pela ética na política e dos caras pintadas, de suma importância no processo de
impeachment do presidente Collor; movimentos ecológicos; regulamentação das ONGs (Organizações
Não Governamentais); criação de delegacias especializadas para mulheres e crimes raciais; Movimento
Ação da Cidadania, contra a fome e pela vida, criado pelo sociólogo Herbert de Souza, o Betinho; movi-
mentos populares contra o sucateamento do Estado, provocado pela vendas das empresas estatais; e o
plebiscito sobre regime e forma de governo.
O fim da União Soviética levou à derrocada o modelo socialista, o que favoreceu a vitória e o forta-
lecimento do modelo econômico neoliberal. As reformas propostas dos economistas liberais criaram no
mundo uma situação de extrema insegurança para os trabalhadores, que viram suas conquistas serem
tiradas uma após outra, em nome da flexibilização, cujo objetivo era diminuir os custos da produção e,
dessa maneira, aumentar o lucro dos empresários. A recessão provocada pelo neoliberalismo teve im-
pacto direto nos movimentos sociais, que tiveram que redirecionar o foco de suas reivindicações; não
existe mais a preocupação de reposição de perdas salariais, a luta agora tem como objetivo a manuten-
ção dos postos de trabalho.

Texto complementar
Afinal, o que é ser cidadão?
(PINSKY, 2003, p. 9-10)
Ser cidadão é ter direito à vida, à liberdade, à propriedade, à igualdade perante a lei: é, em re-
sumo, ter direitos civis. É também participar no destino da sociedade, votar, ser votado, ter direitos
políticos. Os direitos civis e políticos não asseguram a democracia sem os direitos sociais, aqueles
que garantem a participação do indivíduo na riqueza coletiva: o direito à educação, ao trabalho, ao
salário justo, à saúde, a uma velhice tranquila. Exercer a cidadania plena é ter direitos civis, políticos
e sociais. [...]
Cidadania não é uma definição estanque, mas um conceito histórico, o que significa que seu
sentido varia no tempo e no espaço. É muito diferente ser cidadão na Alemanha, nos Estados Unidos
ou no Brasil (para não falar dos países em que a palavra é tabu), não apenas pelas regras que define
quem é ou não titular da cidadania (por direito territorial ou de sangue), mas também pelos direitos

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52 | Cidadania moderna e movimentos sociais

e deveres distintos que caracterizam o cidadão em cada um dos Estados-nacionais contemporâne-


os. Mesmo dentro de cada Estado-nacional o conceito e a prática da cidadania vêm se alterando ao
longo dos últimos duzentos ou trezentos anos. Isso ocorre tanto em relação a uma abertura maior
ou menor do estatuto de cidadão para sua população (por exemplo, pela maior ou menor incorpo-
ração dos imigrantes à cidadania), ao grau de participação política de diferentes grupos (o voto da
mulher, do analfabeto), quanto aos direitos sociais, à proteção social oferecida pelos Estados aos
que dela necessitam. [...]
A cidadania instaura-se a partir dos processos de lutas que culminaram na Independência dos
Estados Unidos da América do Norte e na Revolução Francesa. Esses dois eventos romperam o prin-
cípio de legitimidade que vigia até então, baseado nos deveres do súdito, e passaram a estruturá-lo
a partir dos direitos do cidadão. Desse momento em diante todos os tipos de luta foram travados
para que se ampliasse o conceito e a prática de cidadania e o mundo ocidental o estendesse a mu-
lheres, crianças, minorias nacionais, étnicas, sexuais, etárias. Nesse sentido pode-se afirmar que, na
sua acepção mais ampla, cidadania é a expressão concreta do exercício da democracia.
A cidadania propriamente dita é fruto das revoluções burguesas [...].
Sonhar com cidadania plena em uma sociedade pobre, em que o acesso aos bens e serviços
é restrito, seria utópico. Contudo os avanços da cidadania, se têm a ver com a riqueza do país e
a própria divisão de riquezas, dependem também da luta e das reivindicações, da ação concreta
dos indivíduos. [...].

Atividades
1. Quais são os marcos históricos de formação do processo de surgimento de cidadania?

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Cidadania moderna e movimentos sociais | 53

2. Que tipo de relação, segundo o autor, existe entre cidadania e democracia?

3. A partir de 1985, tem início um período que ficou conhecido, na História do Brasil, como “Nova
República”: chegava ao fim uma ditadura militar que durou mais de 20 anos, o Brasil voltava a ser
uma República democrática. É correto afirmar que a nova realidade do país trouxe junto com a
democracia a cidadania para todo o povo brasileiro?

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54 | Cidadania moderna e movimentos sociais

Gabarito
1. Independência dos Estados Unidos da América e Revolução Francesa.

2. Para o autor, a cidadania resulta de um processo histórico de lutas que ocorreu, a partir do século
XVIII, de variadas formas nas diversas sociedades ocidentais. Lutas que buscavam a proteção dos
indivíduos, da propriedade e da participação da população nas decisões do governo em todas
as esferas. Cidadania, essencialmente, mais que o usufruto de direitos civis, políticos e sociais,
é um processo que exige participação dos habitantes de determinada sociedade, e somente a
democracia permite uma ampla participação popular, e por isso é o ambiente favorável para a
construção e aprimoramento do conceito e das práticas de cidadania.

3. A democracia brasileira não conseguiu resolver até o momento os problemas de grande parte da
população do país. A cidadania no Brasil está atrelada à condição financeira. Um pequeno grupo
representado pela classe alta, de grande poder aquisitivo, usufrui uma cidadania plena; um grupo
intermediário tem acesso limitado à cidadania e uma enorme massa formada pela classe baixa da
população tem o mínimo de acesso.

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O Brasil das urnas
A modernização “Collorida”
Ao assumir a Presidência da República, o presidente Fernando Collor de Mello prometeu transfor-
mar o Brasil em um país moderno, um país de primeiro mundo. O problema é que o país que recebeu de
seu antecessor vivia uma hiperinflação e havia saído recentemente de uma moratória (deixou de pagar
seus compromissos internacionais). Para tentar sanar os problemas de finanças do país e frear o processo
inflacionário, tomou uma atitude arbitrária que nem os governos militares tiveram coragem de tomar:
confiscou e congelou o dinheiro das cadernetas de poupança e das contas-correntes da população.
O presidente Collor, auxiliado pela ministra da Economia Zélia Cardoso de Mello, põe em prática
a política neoliberal de “Estado mínimo”. Criou, então, o plano que ficou conhecido como Plano Collor e
iniciou um programa de privatização de empresas estatais; disponibilidade ou demissão de funcioná-
rios públicos; extinção de vários órgãos públicos (LBA, IAA, IBC etc.); eliminação das tarifas alfandegárias
sobre produtos exportados, abrindo dessa forma a economia brasileira para os produtos importados;
extinção do cruzado e volta ao cruzeiro como moeda nacional valorizada. Mas não pensem que a valo-
rização de nosso dinheiro modificou para melhor o quadro econômico do Brasil.
A valorização da moeda, acompanhada pela abertura da economia, trouxe graves consequências
para o país, pois as importações superaram as exportações; com isso houve queda do Produto Interno
Bruto (PIB), queda da produção industrial e desemprego. A dívida externa, a inabilidade da equipe eco-
nômica e a falta de apoio dos organismos financeiros internacionais derrubam o Plano Collor; com a
queda, os índices inflacionários voltam a crescer.
No início de 1991, o governo lança um novo plano econômico, o Plano Collor II. As medidas pro-
postas no plano de caráter neoliberal, postas em prática, conseguem conter o processo inflacionário.
A abertura da economia provocou, como pretendia Collor, uma modernização da indústria nacional: a
competição com os produtos importados fez com que a produção nacional desenvolvesse um processo
de racionalização da produção. Nas grandes empresas, especificamente bancos e montadoras, os fun-
cionários foram substituídos pelas máquinas que aumentam os lucros e baixam os custos do produto:
o lado perverso desse avanço tecnológico veio com o fechamento de postos de trabalho, e consequen-
temente, desemprego.
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56 | O Brasil das urnas

Contando com a simpatia dos meios de comunicação as medidas de Collor não encontram oposi-
ção, o “caçador de marajás” persegue sem tréguas o funcionalismo público, identificado como culpados
pela inoperância e ineficácia do governo.

Denúncias, escândalos e o fim do governo Collor


O tempo passa e a população começa a perceber que o salário mínimo vigente no país não lhes
permite sair do atraso em que vivem ou adquirir produtos importados, os poucos que há, a competên-
cia e a inteligência do jovem presidente começam a ser contestadas.
Em 10 de maio de 1992, a revista Veja publica uma denúncia feita por Pedro Collor, irmão do
presidente. Na denúncia, Pedro Collor fala sobre um grande esquema de corrupção montado pelo
ex-tesoureiro de campanha e amigo pessoal do presidente, Paulo César Farias. O “esquema PC”, como
ficou conhecido, que consistia em arrecadar dinheiro através de extorsões e cobrança de propinas
nas liberações de projetos e empréstimos feitos a empresas particulares. O dinheiro era desviado
para contas-correntes de fantasmas e depois repassado para o presidente e alguns assessores do
alto escalão do governo, para pagamento de despesas pessoais. Surgiu ainda uma denúncia contra
a primeira-dama Rosane Collor e seus familiares por mau uso e desvio de recursos públicos da LBA,
empresa presidida por ela.
O Partido dos Trabalhadores (PT) fez o pedido de abertura de uma Comissão Parlamentar de Inqué-
rito (CPI) para apurar as denúncias contra o presidente. O Congresso Nacional acatou o pedido, porém a
CPI ficou sob o controle do Partido da Frente Liberal (PFL), do Partido Democrático Social (PDS) e de seto-
res do Partido do Movimento Democrático do Brasil (PMDB) aliados do presidente. Tudo indicava que as
acusações seriam abafadas e a CPI daria em nada. Será que mais uma vez tudo acabaria em “pizza”?
Porém, no dia 28 de junho de 1992, a revista Isto é publicou uma entrevista feita com Francis-
co Eriberto Freire França, motorista particular de Collor. Na entrevista, Eriberto confirmava a relação
financeira que existia entre Collor e PC, fato negado pelo presidente. As investigações feitas pela CPI
concluíram que o “esquema PC” havia movimentado 260 milhões de dólares em dois anos de gover-
no e que, desse montante, 10 milhões tinham sido repassados ao presidente para o pagamento de
despesas pessoais.
Para se defender dos ataques, Collor convocou a população para ir para as ruas vestidas de verde-
amarelo, as cores de sua campanha. A oposição fez o mesmo apelo e pediu que a população fosse para
as ruas vestida de preto, em luto contra a corrupção do governo. O movimento ganhou as ruas das
principais cidades do país; a oposição ganhou força. No meio dos protestos surgiram dois movimento
importantes no processo de impeachment do presidente Collor: o Movimento Pela Ética na Política, que
reunia políticos da oposição, intelectuais, artistas e profissionais liberais; e o movimento dos “Caras Pin-
tadas”, formado por estudantes ligados a UNE. A pressão exercida por esses grupos em toda sociedade
e no Congresso Nacional acabou de vez com a possibilidade de o presidente reverter o péssimo quadro
no qual se encontrava.
Collor não percebera que o movimento que o levara à Presidência da República fora um movimento de protesto. Acos-
tumado aos grandes acordos entre as elites, aos conchavos de corredor, ao lema “é dando que se recebe”, imaginou
que o puro e simples controle da mídia – que fora sua aliada desde os tempos da campanha –, a imposição de um
pensamento único, onde o outro era a fonte de todo o mal, bastaria para mantê-lo no poder. Fossem as classes médias
exaustas pela inflação, fossem as camadas mais pobres e humildes da população, que ele demagogicamente chamava

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O Brasil das urnas | 57

de descamisados, todos aspiravam à mudança. O vínculo de transferência entre a população e seu presidente era a
consubstanciação imaginária da mudança, onde qualquer um poderia viver a aventura primeiro-mundista na figura do
jovem presidente montado em um jet ski. Ao equiparar-se aos velhos procedimentos políticos, e para dizer a verdade,
superá-los em ousadia e arrogância, Collor traía o pacto amoroso estabelecido com o povo – que ele tratara, durante a
campanha eleitoral, como minha gente. (SILVA, 2000, p. 86)

Os trabalhos da CPI comprovaram a falta de decoro do presidente: votou-se um afastamento


provisório e ficou decidido que haveria um julgamento no Senado Federal; por 76 votos a favor do impe-
achment e três contra, chegava ao fim de forma lamentável o governo do primeiro presidente civil, de-
pois de mais de 20 anos de regime militar, eleito pelo voto direto. Além da Presidência, Collor também
perdeu seus direitos políticos por oito anos. A jovem democracia brasileira passou por um árduo teste
e contrariando as expectativas saiu fortalecida. O processo de impeachment foi o maior movimento de
massas da história do Brasil, uma verdadeira aula de participação e imposição da vontade popular.

Itamar Franco: uma tentativa conciliação nacional


Ao assumir a Presidência da República, Itamar Franco tentou atrair todos os grupos políticos para
comporem seu governo. Apenas o PDS e um grupo do PFL ligado ao ex-governador Antonio Carlos
Magalhães, aliados do ex-presidente Collor, mantiveram-se na oposição.
Diferente de seus antecessores que iniciaram seus governos com planos para conter a inflação,
Itamar Franco iniciou sua gestão tentando compor um entendimento político nacional, uma aliança
que lhe desse força para governar e resgatar a confiança da população nos políticos, tão arranhada com
o processo de impeachment de Collor. No campo ideológico, o governo Itamar é contraditório: ora toma
decisões nacionalistas, ora adota medidas neoliberais, como a privatização da Companhia Siderúrgica
Nacional (CSN).
O governo de Itamar, na verdade, era um governo de transição, de curta duração, que buscava
reordenar a política nacional. Por isso, os problemas políticos continuavam a existir; a corrupção e
a malversação de recursos públicos vinham à tona com novos escândalos, como o caso dos “anões
do orçamento”, uma quadrilha formada por deputados federais que cobrava propinas para liberar
verbas públicas. Até os assessores de Itamar são alvos de denúncia, mas, diferente de Collor, ele os
afasta dos cargos para que sejam investigados, retornando ao posto quando fossem inocentados; de
jeito simples, o presidente, às vezes, causa problemas ao fazer suas críticas a aliados e oposicionistas,
porém entrou para a história do país com o maior índice de aceitação popular de um presidente ao
final do mandato.
Enquanto o presidente é amado pelo povo, a opinião pública sobre os políticos continua negati-
va, principalmente, quando o assunto é o Congresso Nacional.
E vocês devem estar se perguntando: como estava a inflação no período de Itamar Franco?
Infelizmente, no campo econômico, o país governado por Itamar não era muito diferente do país
de seus antecessores, uma vez que os níveis sociais eram alarmantes e os salários continuavam sofrendo
com o arrocho, perdendo sua capacidade de compra mês a mês.
Surge no cenário, com o objetivo de combater a inflação e fazer a economia do país voltar a cres-
cer, aquele que mais tarde ficaria conhecido em todo país: o ministro da Fazenda Fernando Henrique
Cardoso. Em dezembro de 1993, ele e sua equipe econômica lançam o Plano Real.
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58 | O Brasil das urnas

Ao contrário dos outros planos anteriores, esse não traz fórmulas mirabolantes; seu objetivo é
gerenciar de forma competente os recursos do governo e diminuir o deficit público. O projeto previa
ainda um aumento nos impostos federais e um corte no orçamento da União para o ano de 1994, prin-
cipalmente nas verbas destinadas à saúde e à educação. Além das medidas já citadas, a principal meta
do plano era uma ampla reforma do Estado brasileiro, administrativa, previdenciária e tributária.
As medidas econômicas do Plano Real interromperam o processo inflacionário e estabilizaram a
economia do país; a população respondeu com o crescimento da popularidade do presidente e do mi-
nistro da Fazenda. A vitória no controle da inflação credenciou Fernando Henrique Cardoso a disputar
a Presidência da República.

As eleições presidenciais de 1994


Fernando Henrique Cardoso, apoiado pelo governo Itamar e credenciado por seu trabalho a fren-
te do Ministério da Fazenda, acreditando nas ideias neoliberais para a solução dos problemas do Brasil,
busca uma aliança com o PFL, partido adversário de seu partido, o PSDB. Encontra resistência de seus
correligionários, pois os quadros do PFL são formados por ex-aliados do regime militar. O PFL, que se
encontrava isolado na política nacional, aceita a aliança e indica o senador Marco Maciel para ser o vice
da chapa. A oposição vai denunciar o uso da máquina no favorecimento do candidato tucano.
O resultado da eleição presidencial de 1994 dá a vitória em primeiro turno para Fernando Henri-
que Cardoso, que obtém 54% dos votos válidos; o segundo colocado foi o candidato do PT, Luiz Inácio
Lula da Silva, com 17%.
Além da vitória esmagadora de FHC, a eleição representou a derrota de políticos tradicionais, es-
pecificamente Leonel Brizola, que obteve apenas 2% dos votos válidos. Foi uma campanha que marcou
o fim dos debates ideológicos e a apresentação de planos de governo, e o marketing foi o elemento
principal da disputa.

FHC: o sociólogo neoliberal


Fernando Henrique Cardoso assumiu a Presidência em 1995, com a popularidade em alta e maio-
ria no Congresso Nacional e nos estados. Fato novo na história da República do Brasil. As únicas vozes
contrárias vinham das forças de esquerda que saíram derrotadas das eleições. Mesmo com maioria no
Congresso, o presidente, em busca de apoio negociava cargos e obras com seus aliados em troca dos
votos de que necessitava.
A política desenvolvida pelo governo FHC era neoliberal e retornou às privatizações iniciadas
por Collor, cujo principal objetivo era a implantação de um “Estado mínimo” no Brasil. FHC, contrarian-
do seu passado de esquerda, alegava que o mundo e as ideias haviam mudado e que era necessário
se aliar a antigos adversários para poder governar o país. O programa de privatização de FHC superou
em muito o de seus antecessores. A oposição reagia acusando o governo de vender o patrimônio
público a preços abaixo dos preços de mercado; o governo alegava que as estatais só davam prejuízo
e aumentavam a dívida pública e que vendê-las representava mais dinheiro para saúde, educação e
infraestrutura.

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O Brasil das urnas | 59

O presidente, apoiado por seus aliados, resolveu enviar uma emenda constitucional para o Con-
gresso que permitisse a reeleição presidencial. A maioria do Congresso votou a favor e a emenda da
reeleição foi promulgada. A oposição denunciou a compra de votos para a reeleição e pediu a abertura
de uma CPI, mas não conseguiu instalar esta e o caso caiu no esquecimento. Antes do término de seu
governo, conseguiu aprovar reformas na Previdência Social, que aumentaram o tempo de contribuição
para a aposentadoria: 35 anos para os homens e 30 para as mulheres. O sucesso do Plano Real e a emen-
da constitucional deram ao presidente a chance de mais um mandato.

A reeleição de FHC
No novo mandato, FHC continuou seu programa de privatizações e as estatais vendidas foram as
da área de comunicações. Houve denúncias de favorecimento de grupos, gravações de acordos, mas no
fim, as denúncias não tiveram efeito.
Em 1997, o modelo neoliberal sofreu um violento baque com a crise econômica na Ásia. A crise
nas economias dos chamados “Tigres Asiáticos” provocou reflexos nas economias do mundo todo. O
Brasil, que adotava uma política de valorização de sua moeda, que tinha paridade com o dólar, desva-
lorizou em 50% o real, o que possibilitou a diminuição de importações; dessa forma, evitava a saída de
recursos do país, e com o dólar valendo o dobro as exportações aumentaram, fazendo crescer os lucros
da balança comercial.
Depois de ter recuado em abril, o desemprego voltou a crescer em maio e atingiu 8,2% da população economicamente
ativa, a segunda maior taxa já apurada pelo IBGE. A taxa de desemprego aberto nacional divulgada ontem é pratica-
mente igual ao recorde da pesquisa, que foi de 8,28%, em maio de 1984. Em abril, a taxa foi de 7,94%. A situação é mais
critica em São Paulo, região que registrou o recorde de desemprego desde o inicio do levantamento. Nos primeiros
cinco meses do ano, o número de pessoas procurando emprego disparou, crescendo 40%. Em maio, houve um cres-
cimento de 0,8% da população economicamente ativa, ou seja, de pessoas que trabalham ou procuram trabalho. En-
quanto o número de pessoas ocupadas em relação ao mesmo período do ano passado cresceu apenas 0,5%, o número
de desocupados cresceu 4,5%. ( Silva. A persistência do desemprego. Jornal do Brasil, 02/07/1998)

Fernando Henrique Cardoso conseguiu domar o ritmo inflacionário, mas não conseguiu fazer
com que a economia crescesse a ponto de criar novos postos de trabalho que dessem conta da deman-
da de novos trabalhadores que ano após ano entraram no mercado de trabalho.
O processo de racionalização iniciado com Collor deu seus frutos mais amargos no período de
FHC, a modernização e mecanização dos meios de produção extinguiam, ao invés de criar, postos de
trabalho. O desemprego em seus governos nunca sofreu queda e o dinheiro da venda das empresas
estatais foi usado para amortizar os juros das dívidas internas e externas, que continuaram a crescer. A
saúde, a educação e a infraestrutura do país tinham suas verbas cortadas a cada novo orçamento.
A venda das estatais tirou do governo a condição de investir e fomentar o crescimento do país e a
maior prova da falta de investimentos de recursos foi no final do governo quando ocorreu uma crise de
abastecimento de energia, provocando falta e racionamento de energia elétrica. Foi o famoso “apagão”.
Um dos marcos do governo FHC foi a criação, em 2000, da Lei de Responsabilidade Fiscal, criada
com o objetivo de conter os gastos nas administrações públicas e punir os abusos com o dinheiro do
contribuinte. Outros avanços são contraditórios: o governo cortou verbas da educação e o analfabe-
tismo no país caiu; cortou verbas das universidades públicas, mas o Ensino Superior na rede particular
aumentou no país.

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60 | O Brasil das urnas

Os problemas sociais só aumentaram com as políticas dos dois governos de FHC. O governo fez uma
tímida reforma agrária, mas as tensões no campo entre fazendeiros e o Movimento dos Trabalhadores Rurais
Sem Terra (MST) cresciam a cada dia. Os cortes feitos na área de educação e saúde paralisaram hospitais fede-
rais e universidades, o funcionalismo mal remunerado lançou mão de longas greves e enfrentamento.
O segundo mandato de FHC terminou de forma melancólica, com altos níveis de rejeição. Des-
gastado não conseguiu fazer seu sucessor.

Eleições 2002: Lula versus Serra


As eleições de 2002 não trouxeram mudanças nos grupos políticos que disputavam o poder. Mais
uma vez o PT apresentava como candidato Luiz Inácio Lula da Silva, candidato pela quarta vez à Presidência
da República. O outro grupo político continuou representado pela aliança PSDB/PFL, o candidato era José
Serra, político conhecido nacionalmente e ex-ministro da Saúde no governo de FHC.
Lula apresentou uma plataforma moderada e escolheu como vice-presidente José Alencar, em-
presário mineiro, do Partido Libertador (PL). José Serra, devido à grande rejeição de FHC e sendo do
mesmo partido, procurava desvencilhar sua candidatura do governo de FHC. A eleição foi decidida no
2.º turno em que Lula recebeu 52 milhões de votos válidos. Pela primeira vez na história da República
brasileira, um homem de origem pobre, um ex-operário, alcançava o cargo mais alto do país.

Lula: um operário no poder


A situação do passado às mãos do presidente Lula nem de perto lembrava o que FHC encontrou
em seus dois mandatos. Lula foi eleito presidente, mas não obteve maioria no Congresso Nacional; o
país sofria com um enorme desemprego e uma economia entrando em recessão e existia o risco da
volta da inflação e uma dívida pública enorme. Os recursos do país haviam caído drasticamente, pois
os investidores internacionais amedrontados com a eleição de Lula pararam de aplicar seus recursos no
país, e os números das desigualdades no país eram insuportáveis, com milhares de famílias brasileiras
vivendo abaixo da linha de pobreza.
Lula escolheu Antonio Palocci para ser o ministro da Fazenda. Palocci colocou em prática um
austero plano que tinha dois objetivos: combater a inflação e mostrar aos investidores que o governo e
o país mereciam confiança e a ofereciam para os investimentos externos. O plano funcionou e teve um
rápido retorno, a inflação foi controlada, os investidores internacionais voltaram a aplicar seu dinheiro
no Brasil e a economia deu sinais de crescimento.
Os grupos mais à esquerda do PT, partido do presidente Lula, começaram a pressionar o ministro
Palocci, acusando-o de ser neoliberal. Parlamentares ligados a esses grupos votaram contra o governo
na reforma da previdência, alegando que a reforma tiraria direitos dos trabalhadores; o governo respon-
deu aos protestos alegando que a previdência é deficitária, pois o número de aposentados se aproxi-
mava dos números de ativos, e por isso as regras deveriam ser revistas. Os parlamentares insistiram em
votar contra e iniciaram campanha contra Palocci, Lula e outros líderes do partido acusados de estarem
a serviço dos grupos financeiros internacionais e do projeto neoliberal.
A resposta do PT veio com a expulsão dos parlamentares dissidentes e alguns membros fundadores
do partido. Os parlamentares expulsos fundaram o Partido Socialismo e Liberdade (PSOL). O que estava em

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O Brasil das urnas | 61

jogo na realidade era a proposta de um grupo que acreditava que, ao assumir a Presidência, Lula deveria
decretar uma moratória e suspender o pagamento de dívida externa; e a de outro grupo, que acreditava
que o país deveria cumprir com seus acordos e mostrar ao mundo que o Brasil era um país seguro para seus
investimentos.
As críticas feitas ao governo Lula eram direcionadas à política de juros aplicada pelo Banco Cen-
tral, comandado pelo tucano Henrique Meirelles, considerada alta e um obstáculo para o crescimento
da economia do país, e, segundo os críticos de esquerda, a taxa alta tinha o objetivo de atender aos
interesses dos grupos financeiros internacionais.
Contrariando os que o acusam de ser neoliberal, o ministro Palocci aumentou os impostos pagos
pela classe média e alta.
Na parte dos investimentos sociais, o governo Lula buscou ampliar a rede que atendia aos mais
carentes e criou ministérios e secretarias para reverter o quadro de pobreza e fome. Mas, como vocês
sabem, é difícil agradar gregos e troianos e os adversários acusaram o governo de aumentar as despesas
do país criando ministérios para contemplar seus aliados.
No último ano do mandato do presidente Lula, o governo foi sacudido por denúncias de corrup-
ção feitas pelo deputado federal, antigo aliado de Collor, Roberto Jefferson, presidente do PTB, partido
que faz parte da aliança de governo do PT. Jefferson acusou os dirigentes e parlamentares do PT de cria-
rem um sistema de propina que garantia o voto dos parlamentares para os projetos do governo federal,
o famigerado “mensalão” comandado pelo empresário mineiro Marcos Valério.
De início, Jefferson reconheceu que não tinha provas para suas acusações, mas para a oposição
foi o bastante para a abertura de uma CPI. A mídia tomou partido e bombardeou o presidente, surgia a
todo o momento denúncias ou ofensas contra o presidente que eram publicadas nos jornais e revistas
“imparciais” de todo o país.
Deputados renunciaram ou foram cassados, o próprio Jefferson foi cassado e teve seus direitos
políticos suspensos por oito anos, porém o objetivo da oposição de vincular a imagem do presidente
à corrupção não foi alcançado, pois o crescimento da economia e a melhoria mesmo que pequena na
qualidade de vida foram suficientes para manter a popularidade do presidente em alta. Quanto aos
acusados, o presidente do PT, José Genuíno, foi afastado da Presidência junto com seus companheiros
de direção. Nenhum acusado foi preso e o resultado da CPI caiu no esquecimento.

Texto complementar
O Brasil em sobressalto
(PIGALLO, 2002, p. 193-196)
Com a posse de Collor, PC continuou agindo com desembaraço. Intermediava negócios de
empresários com o governo, liberava verbas para projetos que lhe interessavam, pressionava mi-

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62 | O Brasil das urnas

nistros, dava ordens a presidentes de estatais – era a chamada “operação terceiro turno”. Por seus
serviços, sem os quais nenhum empresário se aproximava do governo, cobrava comissões de no
mínimo 30%. Seus métodos, que incluíam chantagens, ameaças e extorsões, eram conhecidos.
Certo da impunidade, não se importava com o que diziam. Ao contrário, contava histórias, gaban-
do-se de uma suposta ascendência sobre o presidente. A fama de PC não demorou a se alastrar.
O presidente foi alertado sobre o prejuízo que PC causava à imagem do governo. Preferiu, porém,
ignorar os avisos. [...] A maioria dos políticos não queria investigar nada. O governo, por motivos
óbvios. A oposição, por temer os efeitos de uma desestabilização política. Tucanos e peemedebis-
tas preferiram poupar Collor mantendo-o no cargo, mas enfraquecido pela crise que certamente
se arrastaria. Dessa maneira, o presidente dependeria da tutela política deles para chegar ao fim
do mandato. Na prática, acenava-se com o pacto da impunidade. Coube ao PT obter o número
necessário de votos para criar a CPI. [...] Os trabalhos se arrastavam por um mês quando, no final de
junho de 1992, surgiu a testemunha-chave. [...] Eriberto França, motorista que servia a secretária
particular do presidente, Ana Acioli, revelou que as contas da Casa da Dinda, residência de Collor,
e as despesas da primeira-dama, Rosane, eram pagas por PC Farias. Com depósitos na conta da
secretária feitos pela Brasil-jet, empresa de PC, o próprio Eriberto fazia pagamentos a funcionários
de Collor e enviava dinheiro a seus familiares. A entrevista encurralava o presidente. [...] Em 25 de
agosto, ficou pronto o relatório final da CPI, que considerava o presidente passível de indiciamento
em cinco crimes: prevaricação, defesa de interesses privados no governo, corrupção passiva, for-
mação de quadrilha e estelionato.

Atividades
1. Os fatos relatados pelo autor do Texto complementar fazem referência a que acontecimento his-
tórico?

2. O que o autor do Texto complementar pretende dizer ao afirmar que “Tucanos e peemedebis-
tas preferiram poupar Collor mantendo-o no cargo, mas enfraquecido pela crise que certamen-
te se arrastaria. Dessa maneira, o presidente dependeria da tutela política deles para chegar ao
fim do mandato” ?

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O Brasil das urnas | 63

3. Por que o motorista Eriberto França foi considerado como testemunha-chave do caso?

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64 | O Brasil das urnas

Gabarito
1. Ao processo de impeachment do presidente Fernando Collor de Mello.

2. Para o autor, os partidos PSDB e PMDB eram contrários ao processo de impeachment do presi-
dente Collor, queriam mantê-lo enfraquecido no poder para tirar vantagens políticas da situação
incômoda em que o presidente se encontrava.

3. Porque seu depoimento serviu para comprovar a relação financeira entre o presidente Collor e
seu ex-tesoureiro de campanha, Paulo César Farias.

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O Brasil e o contexto
internacional
Transformações do capitalismo
O capitalismo surgiu no século XVIII como contraponto às práticas mercantilistas dos Estados mo-
dernos. Fundamentou-se nas ideias liberais de Adam Smith, Robert Malthus e David Ricardo, que enten-
diam que o Estado não devia intervir nos assuntos econômicos; para eles, o Estado deveria agir apenas
criando condições para o desenvolvimento das atividades comerciais e protegendo o patrimônio dos
capitalistas. As práticas econômicas tinham suas leis e regulamentações próprias. As ideias desses auto-
res deram corpo ideológico ao que ficou conhecido como liberalismo clássico.
As fábricas que surgem a partir da Revolução Industrial inglesa do século XVIII regulamentaram as
relações com seus trabalhadores seguindo a lógica liberal: os trabalhadores não têm qualquer tipo de
direitos e os salários serão decididos por patrões e qualquer reação contrária de trabalhadores se trans-
formava em caso de polícia; por isso os trabalhadores muitas vezes perdiam o emprego e a vida. Essa
triste realidade de exploração estará presente em todas as fábricas de todo o mundo porque o exemplo
inglês de relação patrão e trabalhadores será copiado.
Como o capitalismo depende de estruturas e conjunturas que lhe sejam favoráveis, com o passar
do tempo foi sofrendo inúmeras transformações, cujo objetivo era aprimorar seus mecanismos de ex-
ploração e obtenção de riqueza.
A segunda Revolução Industrial, ocorrida no século XIX, trouxe profundas transformações no mo-
delo capitalista. Se, na primeira Revolução Industrial, as fábricas eram pequenas e a cada dia surgia um
novo empreendedor, portanto, uma nova fábrica era, essencialmente, produtora de tecidos e ferramen-
tas. Na segunda Revolução Industrial, o quadro se altera, surgem novas fontes de energia, como petró-
leo, energia elétrica etc. As fábricas agora passam a produzir máquinas pesadas e aumentam vertigino-
samente sua produção. Nesse novo contexto não há mais espaço para a pequena fábrica; na disputa por

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66 | O Brasil e o contexto internacional

mercados, elas vão falindo ou sendo incorporadas por fábricas maiores; a livre competição dará lugar à
competição entre grupos que buscam eliminar a concorrência e estabelecer verdadeiros monopólios.
O capitalismo abandona o liberalismo clássico, o que existe agora é um capitalismo monopo-
lista, cujas práticas de formação de trustes e cartéis vão contra as ideias dos países do capitalismo. As
empresas se tornaram gigantescas e terão que avançar sobre novos territórios buscando mão de obra,
matéria-prima e mercado para seus produtos.
O capitalismo monopolista foi responsável pelo neocolonialismo ou imperialismo, colonização
direta dos países da África e Ásia e indireta dos países da América Latina.
Em 1929, o capitalismo sofre um duro golpe; a crise norte-americana, que ocorreu naquele ano,
fruto da especulação financeira que gerou a quebra da Bolsa de Nova York, teve como consequência
o colapso da economia norte-americana afetando a economia de diversos países, que tinham relações
econômicas estreitas com os EUA. E como esse fato afetou o Brasil?
O Brasil tinha os EUA como maior importador do nosso café, quase 60% era vendido aos norte-
-americanos. Então, vocês já devem deduzir o que aconteceu com a economia do nosso país. O Brasil
entrou em uma grave crise econômica que se transformou em crise política, culminando na Revolução
de 30.
Um dos poucos países que saíram ilesos da crise mundial de 1929 foi um país socialista, a União
Soviética, onde a economia era planejada e controlada totalmente pelo governo. O exemplo soviético
de intervenção do Estado na economia pôs fim ao mito de um mercado autorregulador, justo e distri-
buidor de riquezas.
Em 1932, O presidente norte-americano Franklin Delano Roosevelt lançou um plano de recupera-
ção econômica chamado New Deal (Novo Acordo), idealizado pelo economista inglês John M. Keynes. O
plano consistia na intervenção do Estado na economia, regulando a produção e fiscalizando a bolsa de
valores; com objetivo de ampliar o mercado interno, adotou medidas de proteção social (salário míni-
mo, seguro-desemprego, previdência etc.). Os empresários e políticos conservadores acusaram Roose-
velt de ser aliado dos comunistas. As medidas controlaram a crise e o modelo keynesiano seria adotado
por todos os países capitalistas de acordo com a realidade de cada um.
O capitalismo agora é um modelo que busca o bem-estar social. Os trabalhadores não são mais
vistos como algo a ser explorado, são partes importantes de uma economia de consumo, pois melhores
salários significam maior poder de compra e as compras movimentam a economia e fortalecem o mer-
cado interno. Há cooperação entre empresários, trabalhadores e Estado, e este agindo como regulador
das relações capital-trabalho, junto à proteção que os governos dão às suas economias nacionais, é a
base do bem-estar social.
O modelo do Capitalismo de bem-estar social vai seguir sem muitas contestações até o início dos
anos 1970; a partir daí, as crises serão constantes. Com as eleições de Margareth Thatcher, na Inglaterra,
em 1979, e de Ronald Reagan, nos Estados Unidos, em 1980, o capitalismo assumiu um novo modelo,
o modelo neoliberal.
O neoliberalismo quer o fim do Estado-empresário ou Estado-interventor; para os neoliberais,
as economias não crescem porque os impostos sufocam os empresários e os impedem de investirem
seus recursos na economia, o que impede o crescimento econômico do país. Desse modo, os impostos
criam desemprego. Para a economia voltar a crescer é necessário o fim da intervenção dos governos
na economia e o desmonte do Estado de bem-estar social que consome muitos recursos do país. Na

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O Brasil e o contexto internacional | 67

verdade, o pensamento neoliberal, visto como moderno por alguns, não tem nada de novo, as conjun-
turas é que são totalmente diferentes; no período de liberalismo clássico, os trabalhadores não tinham
direitos, agora com o neoliberalismo, podem perder todos os direitos conquistados ao longo de quase
dois séculos de lutas.
O capitalismo e o produto da genialidade humana trouxeram riquezas para alguns, miséria para
milhões, sobreviveu e se reestruturou após diversas crises e foi responsável pelo surgimento do socia-
lismo, pois Marx desenvolveu suas ideias a partir da observação do modelo capitalista, buscou compre-
endê-lo e descobriu em suas contradições a maneira de superá-lo.

Globalização
“Processo de integração entre economias e sociedades dos vários países, especialmente no que
se refere à produção de mercadorias e serviços, aos mercados financeiros, e à difusão de informações”.
(Aurélio, 2001, p. 348).
O processo de globalização está presente nas sociedades humanas há pelo menos 500 anos; o
marco foi o período das grandes navegações, com os europeus comerciando na África, na Ásia e nas
Américas. Na verdade, é um processo que parece novo, mas é bem antigo, marcado por algum revés, e
que no limiar do século XX ressurge e se transforma em algo que aponta para um caminho sem volta.
Nossas sociedades, sempre ávidas por novidades, apresentam a globalização como um processo con-
temporâneo, jamais visto na história da humanidade. O que os homens do século XIV não tinham e hoje
temos é um sistema melhor e mais rápido de obtenção de informações; sair da Europa e atravessar um
oceano em uma caravela para quê? Para comerciar, para obter mercadorias, para difundir informações,
para conquistar novos mercados. Expandiram limites e difundiram informações.

A globalização no mundo contemporâneo


A ideia moderna de globalização das economias do mundo nasce no bojo da crise do início dos
anos 1970; o modelo econômico keynesiano dos países capitalistas dava mostras de seu esgotamento.
A participação do Estado na economia com empresas estatais explorando os recursos estratégicos, as
medidas de proteção dos mercados nacionais, políticas de subsídios e proteção alfandegária e proteção
do trabalho, regulamentação de direitos trabalhistas e sindicatos fortes criavam um ambiente de se-
gurança para produtores e trabalhadores nacionais. Os produtos e serviços protegidos pelos governos
consumiam recursos públicos e eram caros, porque não existia concorrência, algo indispensável em
uma economia capitalista.
A solução pensada foi criar um mercado global em que houvesse livre fluxo de capitais, serviços
e mercadoria. Um mundo sem barreiras, sem protecionismo, onde o mercado criasse sua própria re-
gulamentação sem a interferência dos governos. Os mecanismos seriam simples: livre concorrência e
racionalização da produção. Um retorno às ideias liberais mescladas à utilização de novas tecnologias
de produção.

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Os anos 1980 marcam o nascimento do neoliberalismo, mas é com o fim da União Soviética em
1991 que desenvolve sua supremacia. Até os anos 1990, o mundo vivia um clima de bipolaridade e de
fronteiras fechadas, guerras, golpes e disputas ideológicas geravam desconfiança de ambos os lados.
Nesse ambiente, era impensável um mercado mundial, sequer um mercado continental. A globalização
é uma ideia que ressurge com os pressupostos neoliberais, com a suposta vitória do capitalismo sobre
o socialismo. A ideia de globalização é impensável se não considerarmos o fator econômico. A ideia de
um grande mercado, de expansão da produção, de conquistas de novos mercados, de barateamento
do custo da produção, de obtenção de lucros cada vez maiores está presente no nascimento e desen-
volvimento do modelo capitalista.
A partir dos governos Thatcher e Reagan, o neoliberalismo dá seus primeiro passos, mas é com a
nova ordem mundial estabelecida em 1991 que ele inicia um movimento de expansão por todo o plane-
ta. Seu caminho foi bastante facilitado, pois naquele momento o mundo vivia uma crise de identidade
ideológica. O fim da União Soviética representou o surgimento de novos empobrecidos. As economias
dos antigos países socialistas tiveram que se adequar à nova realidade. Para reconstruir suas economias,
solicitaram empréstimos e orientação dos organismos financeiros mundiais, FMI e Banco Mundial.
A orientação dada aos países obedecia a diretrizes traçadas pelos países ricos e neoliberais, o
mesmo receituário: venda do patrimônio estatal, corte dos recursos das áreas sociais, arrocho de salário
e abertura da economia. Assim, junto com o empréstimo contraído, os países adotavam políticas neoli-
berais e iam pouco a pouco se “integrando” ao mercado mundial.
Os países da América Latina, com raras exceções, após um período de golpes e regimes militares nas
décadas de 1960 a 1970, chegam aos anos 1980 com ditaduras e economias falidas, dívidas enormes e de-
ficit em seus orçamentos, além de seus graves problemas sociais. As democracias latino-americanas ado-
taram o modelo neoliberal, pois sua história de dependência economia não as permitiu recusar o modelo
indicado pelos organismos financeiros internacionais. Em meados da década de 1990, todos já haviam
completado ou iniciado seus programas de privatização e cortes nos orçamentos da área social.
A exceção da integração mundial foi o continente africano, fonte de escravos e riquezas em épo-
cas remotas e produtor de riqueza para os impérios europeus dos séculos XIX e XX. Na nova configu-
ração mundial, a África ficou de fora, as poucas riquezas produzidas pelo continente que despertam o
interesse externo são os diamantes do sul do continente e o petróleo do litoral ocidental. O continente
ainda hoje convive em seu território com guerras, massacres de etnias e doenças, principalmente a Aids,
sendo que 40% do total da população mundial de portadores de HIV encontra-se na África.
No mundo globalizado, a possibilidade de lucros é que faz com que os homens se relacionem,
que busquem o bom convívio. O poder de consumir é primordial para um mundo globalizado; aos
africanos, que não são potenciais consumidores, o esquecimento, ou melhor, a exclusão da nova
ordem mundial.
O Oriente Médio, com seus campos petrolíferos e reservas de gás, junto com a Ásia, com metade
do total da população mundial, são fundamentais para o mundo globalizado. É impossível viver sem
petróleo e seus derivados, também é impossível desprezar uma população do tamanho da população
chinesa, de quase dois bilhões de habitantes, mesmo que o regime político chinês seja comunista e o
país seja acusado de desrespeitar os direitos humanos.

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O Brasil e o contexto internacional | 69

Globalização: solução ou problema?


O discurso neoliberal da globalização propõe a integração das economias do mundo. O proble-
ma é como integrar uma economia do tamanho da economia norte-americana com uma economia
em desenvolvimento, como as economias mexicana, brasileira e argentina? Como fazer os produtos
latino-americanos competirem em igualdade de condições com os produtos norte-americanos? Como
fazer os produtos dos países em desenvolvimento se tornarem competitivos em preços e qualidade no
mercado mundial?
Os neoliberais dizem que a solução está na racionalização da produção, no investimento em novos
métodos e tecnologias que possibilitem o aumento da produção e a diminuição do custo final dos produtos.
Para resolver seus problemas, os países em desenvolvimento devem criar as condições de competição para
seus produtos. Como criar tais condições? Simples; reformar, ou melhor, modernizar suas economias, dimi-
nuindo a carga tributária sobre a produção, cortando verbas para programas sociais, flexibilizando suas leis
de proteção aos trabalhadores e eliminando ou baixando a patamares aceitáveis no mercado mundial suas
taxas alfandegárias, o que permitiria a competição entre produtos nacionais e importados.
Nos países latino-americanos, principalmente Brasil, Argentina e Uruguai, cuja história sempre
foi marcada por decisões dos governos e das elites sem participação popular, sociedades onde um pe-
queno movimento reivindicatório sofria violenta repressão, a imposição das reformas neoliberais sofreu
uma resistência de grupos isolados de trabalhadores das indústrias, profissionais liberais e funcionários
públicos. Grande parte da população, por medo, desinteresse ou desinformação, não participou dos
debates sobre as reformas que estavam em marcha.
Um caso atípico ocorreu no México, mais precisamente na região de Chiapas, onde populações
de indígenas, inspirados pela luta de Emiliano Zapata, líder revolucionário mexicano da Revolução de
1910, formaram um exército para enfrentar o governo mexicano e suas políticas neoliberais. O movi-
mento zapatista e sua luta foram manchetes nos principais jornais e revistas de todo o mundo e a luta
dos zapatistas será exemplo e inspiração para outros povos oprimidos pela globalização neoliberal.
A globalização proposta pelos neoliberais encontrou forte resistência nos países europeus, prin-
cipalmente na França, na Alemanha, e na Inglaterra, onde existe uma forte tradição de participação
popular e enfrentamento. A qualidade de vida alcançada pelos operários desses países no pós-Segunda
Guerra Mundial enchia-os de orgulho e qualquer reforma que mexesse nas suas conquistas sociais era
motivo para violentos enfrentamentos e verdadeiras batalhas nas ruas. Como convencer um operário
francês que deveria aceitar cortes no orçamento de sua seguridade social? Como explicar a um alemão
que deveria pagar para continuar utilizando os serviços públicos de educação? Por que um britânico
deveria aceitar o desmonte do seu sistema de saúde? Como explicar aos trabalhadores da Europa Oci-
dental que deveriam aceitar o arrocho salarial e a mudança nas suas legislações trabalhistas ou con-
vencer aos agricultores que o corte nos subsídios agrícolas e fim da proteção dada pelos governos ao
mercado interno tornariam seus preços competitivos? Como convencê-los de que sua nação, seu país
por quem eles e seus antepassados lutaram para defender, não deve mais protegê-los, e de que eles
agora estão entregues às regras que regem o mercado mundial de livre-concorrência? A resposta dos
trabalhadores foi dada nas urnas, com derrota dos neoliberais e seus aliados.
A abertura das economias e a venda do patrimônio público criaram recessão e desigualdades
sociais nos países que adotaram o modelo, as economias foram destruídas e os Estados perderam sua

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70 | O Brasil e o contexto internacional

capacidade de investir e fomentar o crescimento de suas economias. A globalização econômica trou-


xe de volta um velho problema do mundo capitalista: a integração das economias criou um clima de
interdependência, um ambiente de instabilidade e especulação (parecido com o ambiente vivido às
vésperas da crise de 1929). Se a economia norte-americana, ou qualquer bolsa de valores dos grandes
centros comerciais, tem uma queda vertiginosa, as economias do mundo entram em crise.
Empresas estrangeiras passaram a vender seus produtos no país e a competição fez com que as indústrias nacionais
tivessem que confeccionar produtos com preços e qualidade mais competitivos. Diminuir a folha de pagamentos foi
uma das medidas adotadas pelas fábricas para alcançar esse objetivo. O desemprego brasileiro também segue uma
tendência internacional do mundo globalizado. O mundo passa por uma ampla reestruturação de sua força de traba-
lho. A modernização e a informatização das empresas faz com que muitos trabalhadores não sejam mais necessários.
A própria noção de emprego mudou. Cada vez mais pessoas são autônomas ou abrem microempresas, com o fim dos
postos de trabalho vitalícios. (Jornal do Brasil)

Quando se abre a economia nacional para a entrada de produtos importados, deve-se pensar nos
danos que essa prática causa na economia local; além do fechamento das empresas nacionais, provoca
a extinção de postos de trabalho; as compras dos produtos importados tiram divisas do país; o dinheiro
obtido com a venda do produto importado vai produzir riqueza e empregos em seu país de origem e
não na economia do país onde foi negociado.
A globalização neoliberal levou a economia dos países em desenvolvimento, ou, como preferem
alguns autores, países emergentes, a uma situação de colapso. O fim do Estado regulador e fomen-
tador da economia provocou um aumento nas desigualdades sociais, visto que os cortes propostos
pelos economistas neoliberais recaíam diretamente nos recursos das áreas sociais, saúde, educação,
previdência. Sociedades com graves problemas de distribuição de renda, com uma população marcada
por privações, de uma hora para outra perderam o auxílio, mesmo que de forma precária ou através de
paternalismos ou medidas populistas, que os governos lhes concediam.
O desemprego, o arrocho salarial e a falta de perspectivas de melhoras na condição de vida fi-
zeram com que um grande número de pessoas dos países pobres buscasse em atividades ilegais e até
criminosas um meio de sobrevivência. Não se deve pensar que antes da globalização essas sociedades
eram harmônicas e sem problemas de caráter social, o que deve ficar claro é que a globalização, com seu
projeto neoliberal, aumentou o processo de exclusão e levou milhões de pessoas à marginalização.

Globalização e imigração
Outra forma de sobrevivência encontrada pelas populações dos países em desenvolvimento foi a imi-
gração forçada para países de economias mais desenvolvidas que representam para os imigrantes a possi-
bilidade de condições dignas de sobrevivência, pois essas economias oferecem trabalho e salários melhores
do que os pagos nos países de origem dos imigrantes. Assim, vai surgir uma nova problemática: os países
desenvolvidos querem mercados e liberdade de negócios, não querem absorver trabalhadores estrangeiros
em grande escala. Com o processo de globalização vão criar leis para dificultar o acesso de estrangeiros ao
mercado de trabalho de seus países. A saída para os estrangeiros será na maioria dos casos a entrada de for-
ma ilegal nesses países. Tais estrangeiros serão absorvidos pelos setores desprezados; pelos setores nacionais
terão que se sujeitar à exploração máxima de sua força de trabalho, às humilhações, tendo ainda que convi-
ver com o medo de serem descobertos, presos e depois deportados para seus países de origem. O imigrante
na situação de trabalhador estrangeiro aceita qualquer tipo de trabalho e recebe remuneração abaixo do
que recebe um trabalhador nacional, porém maior do que receberia em sua pátria; em situação irregular, sua
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O Brasil e o contexto internacional | 71

contratação tira do empresário os custos dos impostos que incidem na contratação de um trabalhador. Os
imigrantes também não gozam da proteção de leis trabalhistas, que regulamentam melhores salários e con-
dição, e podem ser demitidos e denunciados a qualquer momento. A entrada de trabalhadores estrangeiros,
legais ou ilegais, junto com a extinção de postos de trabalho, provocada pela adoção do modelo neoliberal,
criará uma situação de instabilidade nas sociedades dos países ricos.
Se todas as pessoas da Terra possuíssem o mesmo número de geladeiras e automóveis que as da América do Norte e
da Europa Ocidental, o planeta ficaria inabitável. Hoje, a ecologia global do capital, o privilégio de uns poucos, requer
miséria de muitos, para ser sustentável. Menos de ¼ da população do mundo detém atualmente 85% da renda mun-
dial e a diferença entre zonas avançadas e atrasadas ampliou-se ainda mais nos últimos 50 anos. [...] Nos anos 1980,
mais de 800 milhões de pessoas – mais do que as populações da Comunidade Europeia, dos EUA e do Japão somadas
– tornaram-se ainda mais excruciantemente pobres e uma a cada três crianças passava fome. [...] O estreitamento dos
vínculos na ordem capitalista mundial está fadado, de qualquer modo, a forçar as tremendas pressões de pobreza e
exploração no sul a repercutir pela primeira vez no norte [...] [O que torna possível] uma nova agenda mundial para a
reconstrução social. (ANDERSON, 1992, p. 110-142)

A falta de perspectiva de um futuro melhor, o abandono dos governos, o corte nos recursos da
área social, o fim das ideologias que pregavam a igualdade e comunhão entre os povos do planeta, a
imposição do individualismo, da competição e do consumo como padrões a serem seguidos criarão
uma atmosfera de intolerância, provocando choques entre nacionais e estrangeiros.
A desestruturação das sociedades desenvolvidas promoverá o ressurgimento de movimentos
nazifascistas, a exemplo dos neonazistas em toda Europa. A globalização neoliberal traz de volta ideo-
logias que provocaram mortes e destruição no passado recente da humanidade; mais uma vez surgem
as vozes que apregoam a destruição do diferente: o imigrante é o inimigo, o imigrante é o culpado
pela crise, o imigrante é algo inferior e, portanto, passível de ser eliminado. A proposta de integração
dos países, obedecendo a uma lógica prioritariamente econômica, marcada pela busca de expansão e
conquista de novos mercados, sem considerar em sua pauta as diferenças culturais, a obrigação dos go-
vernos de desenvolver políticas voltadas para a proteção e para a melhoria na condição de vida das suas
populações, só pode levar a humanidade a um longo e terrível período de guerras e de sofrimento.

Globalização: unilateralismo norte-americano


No início dos anos 1990, os EUA se tornaram a única potência militar e econômica do mundo.
A hegemonia norte-americana tem como marca fundamental a tentativa de impor ao mundo seus
valores culturais, seja através de sua economia, de seus filmes, de suas músicas ou de suas armas.
Acredita-se que seu modelo de vida seja o melhor do mundo e para mantê-lo não se poupam esforços.
A globalização neoliberal encontrou nos EUA seu mais forte aliado e propagador de sua ideologia e de
seu modelo econômico.
O choque nas economias mundiais foi logo percebido por todos, mas junto ao modelo econômi-
co vinha a tentativa de estabelecimento de uma homogeneidade cultural, o estabelecimento de uma
única cultura no mundo globalizado: a cultura ocidental, ou melhor, a cultura dos países do G-7, grupo
que representa as sete maiores economias do mundo. Esse processo não foi tão facilmente percebido
como foi o processo econômico; exigiu uma reflexão mais apurada, observações criteriosas.
Nos países ocidentais, a dominação cultural é quase imperceptível, visto que temos culturas se-
melhantes; porém, nas culturas orientais, saltam aos olhos. A religião tem sido um ponto importante
na compreensão desse embate: as guerras contra o Afeganistão e o Iraque são guerras contra países
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72 | O Brasil e o contexto internacional

muçulmanos, segundo os norte-americanos e seus aliados, países onde não existe liberdade, nem cida-
dania, redutos de fundamentalistas islâmicos, terroristas que atacaram o sagrado solo norte-americano
(atentado ao World Trade Center, em 11 de setembro de 2001), argumento usado para o caso específico
do Afeganistão. O ataque ao Iraque foi legitimado pela suposta existência de arsenais químicos que até
o momento não foram encontrados.
A política de interferência armada dos EUA, no Afeganistão e no Iraque, vista de maneira simplória,
tem como objetivos a exploração dos recursos naturais, a geopolítica ou mostrar ao mundo que não se
deve desafiar a nação mais poderosa do mundo. Esses propósitos estão bem claros, porém, existe também
a imposição da cultura ocidental, passadas e repassadas através de ideias que propagam a democracia e a
cidadania como valores da humanidade. Essa afirmação é perversa, pois coloca os povos que não vivem em
regime democrático ou que não usufruem de cidadania como sub-humanos ou quase humanos.
Democracia e cidadania são conceitos e práticas que tomaram forma ao longo do processo his-
tórico de formação das sociedades ocidentais, portanto são conceitos e práticas tipicamente ociden-
tais. Não devemos considerar democracia e cidadania como avanços da humanidade; se são avanços,
são porque nós ocidentais assim os consideramos.
No século XIX, os pensadores europeus ocidentais através do uso da razão, logicamente da razão
ocidental, buscavam em seus estudos criar ou descobrir as verdades universais, que fossem válidas para
toda humanidade; assim construíram o esboço do que seria uma sociedade perfeita. Chegou-se à con-
clusão, não por acaso, de serem as sociedades europeias ocidentais o modelo de sociedade perfeita, as
outras sociedades deveriam tentar copiar a Europa. A partir daí criou-se uma hierarquia em que os mais
avançados eram os povos europeus, os outros povos seriam, considerando o nível de aproximação da
cultura europeia, mais ou menos atrasados. Um ótimo argumento para espoliar as sociedades africanas,
asiáticas e latino-americanas, inclusive sociedades da própria Europa.
Os fatos históricos não se repetem, o que de certa forma constantemente ocorre é a repetição dos
motivos. Naquele determinado período histórico, a Europa do século XIX, os europeus saídos das Guer-
ras Napoleônicas buscavam meios de reconstruir suas sociedades e, para isso, precisavam criar mecanis-
mos que legitimassem seus objetivos de dominação e exploração dos demais povos do planeta. Hoje,
os países ricos e seu modelo neoliberal de globalização também desejam dominar e explorar os outros
povos; o momento histórico e a conjuntura se configuram de forma diferente, porém os objetivos e os
métodos utilizados são semelhantes.
A globalização neoliberal em seu aspecto cultural desconsidera a formação histórica de cada
povo, sua cultura e sua interpretação de mundo, e dessa forma tem sido motivo de conflitos que surgem
dia a dia, conflitos que crescem e criam raízes profundas.

Globalização e meio ambiente


A globalização acelerou o processo de industrialização mundial, as fábricas agora estão em todos
os lugares, pulam de um lado para outro do globo terrestre em busca de condições favoráveis ao seu
funcionamento e obtenção do lucro máximo e investimento mínimo. As condições são países sem leis
de proteção ao trabalho, países produtores de matéria-prima, países com mão de obra farta e barata e
países de governos que isentam sua produção.
As indústrias sempre foram poluidoras do meio ambiente no mundo globalizado, a exemplo da
indústria petrolífera, que, devido à demanda cada vez maior de uma sociedade de consumo, cresceu de
forma desordenada e assustadora.
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O Brasil e o contexto internacional | 73

A busca desesperada do lucro tem poluído rios, mares e mudado a temperatura de nosso planeta;
os países do G-8 (EUA, Canadá, França, Inglaterra, Alemanha, Austrália, Itália e Rússia) e a China, com
grandes indústrias, são os maiores emissores de gases poluentes que destroem a camada de ozônio,
que funciona como um filtro dos raios violetas, e retêm calor, formando o efeito estufa que tem muda-
do drasticamente o clima do planeta, provocando o derretimento das calotas polares e resultando nas
inundações e maremotos e no risco do aumento do nível do mar que representaria o sumiço de impor-
tantes países e cidades do mundo. Com esses exemplos, você já deve estar pensando o quanto é impor-
tante um meio ambiente saudável, e assim também pensam os que assinaram o protocolo de Kioto.
Em 1991, em Kioto, no Japão, foi produzido um documento assinado por diversos países, inclusi-
ve o Brasil, cujo objetivo era o comprometimento com o controle de gases poluentes das indústrias. O
protocolo de Kioto, como ficou conhecido, não foi assinado pelos EUA; o presidente norte-americano
alegou que as deliberações contidas no documento levariam à falência as indústrias de seu país. Mas
não pensem que foram apenas os EUA que se negaram a assinar, pois a Rússia e a China fizeram o
mesmo. Assim, o interesse da sobrevivência do planeta e de seus habitantes foi colocado abaixo dos
interesses comerciais.
A irresponsabilidade e a ganância dos governos neoliberais têm provocado revoltas e mobiliza-
ções de movimentos sociais de trabalhadores, grupos de ecologistas, artistas, grupos de jovens, grupos
de ONGs, uma diversidade de outros grupos que contestam a ordem mundial neoliberal. Os governos
neoliberais têm enfrentado resistência até dentro de seus próprios territórios.
Dia após dia, a resistência aumenta e, apesar de ignorada pela mídia internacional, tem provoca-
do fissuras no sistema neoliberal. Cada reunião do G-7 tem sido alvo de manifestações e de enfrenta-
mento entre governos e grupos antineoliberais.
Propostas alternativas de políticas de gestão e exploração das riquezas do planeta têm sido apre-
sentadas pelos diversos grupos, a exemplo do Fórum Social Mundial ocorrido em Porto Alegre (RS), que
tem a nítida finalidade de mostrar que existem saídas para a crise mundial, fora do modelo neoliberal,
iniciativas voltadas para a preservação do planeta e de seus habitantes.

A globalização e a formação de blocos econômicos


O processo de criação de blocos econômicos voltados para interligar as economias de países de
um determinado continente, um processo que possibilitasse a garantia da livre circulação de produtos,
serviços e cidadãos no espaço de abrangência dos países membros, é anterior ao processo de globali-
zação neoliberal, entretanto foi a partir da configuração de uma economia mundial neoliberal que se
constituíram definitivamente.
A Europa do século XX, recém-saída de duas guerras mundiais ocorridas e decididas em batalhas
dentro de seu território, guerras que devastaram economias e milhões de vidas humanas, é uma Europa
com um longo histórico de rivalidades e conflitos entre suas diversas nações e povos, aliás, um processo
vivenciado em todos os continentes do planeta. As sociedades humanas sempre viveram em conflito;
por motivos diversos a guerra sempre esteve presente nas sociedades humanas e foi a responsável pelo
o surgimento dos blocos econômicos.
A criação do primeiro bloco econômico ocorreu em um período posterior a Segunda Guerra
Mundial, mais precisamente em 1957, quando Alemanha Ocidental, França, Itália, Bélgica, Holanda e

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74 | O Brasil e o contexto internacional

Luxemburgo criaram a Comunidade Econômica Europeia (CEE). Naquele momento, o mundo vivia uma
realidade de disputa entre duas superpotências: os EUA e a União Soviética, período que ficou conheci-
do como Guerra Fria. Em 1991, na conjuntura mundial, que desde 1989 com a queda do muro de Berlim
e a reunificação da Alemanha já dava mostras de que pouco a pouco ocorriam mudanças substanciais
na configuração da divisão do poder mundial, com o fim da Guerra Fria, marcado pelo fim da União So-
viética e a derrocada do socialismo no Leste europeu, as mudanças se concretizam. O estabelecimento
de uma “nova ordem mundial”, de uma nova era, traz no seu âmago o signo da mudança, das transfor-
mações em todos os campos das relações humanas; portanto 1991 é o ano 1 de um novo mundo, um
mundo onde existe somente uma superpotência mundial: os EUA.

Os principais blocos econômicos


União Europeia (UE) – foi criada em 1991 com a assinatura do Tratado de Maastricht; conta hoje
com 27 países membros. Não tem como finalidade apenas integrar economias e expandir mercados
consumidores, seu objetivo principal é a integração total dos países do continente europeu. Além das
medidas econômicas, criação de um Banco Central e adoção de uma moeda única, o Euro, que substituiu
as moedas nacionais – a Inglaterra, a Suécia e a Dinamarca não aderiram à nova moeda – foram tomadas
medidas políticas (criação de um Parlamento) e medidas jurídicas (criação de um tribunal), para facilitar
a integração dos cidadãos dos países membros. A proposta de criação de uma constituição tem sofrido
forte oposição e já foi derrotada em plebiscitos realizados na França e na Holanda. A relação de UE com
a Organização Mundial de Comércio (OMC), que regula o comércio entre os países no mundo, tem sido
marcada por queixas e denúncias da prática de subsídios a seus produtos, principalmente os produtos
agrícolas, além da taxação dos produtos importados, feitas pelos EUA, Brasil e diversos outros países de
fora do bloco; assim, garantiram mercado e preços competitivos para seus produtos. Uma prática que
fere os princípios da competitividade e da livre concorrência, tão valorizada pelo modelo neoliberal.
Cooperação Econômica da Ásia e do Pacífico (Apec) – formou-se em 1989; é um bloco econô-
mico transcontinental, com países da América do Norte, América do Sul, Oceania e Europa (Rússia). É o
maior bloco em volume de negócios; no ano de 2000, chegou a ser responsável por 46% do comércio
mundial. O objetivo dos EUA nesse bloco deve-se ao fato de os norte-americanos disputarem mercados
com China e Japão.
Livre Comércio da América do Norte (Nafta) – é um acordo estritamente comercial de elimi-
nação de barreiras alfandegárias entre seus países membros: EUA, Canadá e México. Foi criado com o
objetivo de disputar mercados com a UE, Japão e os chamados “Tigres Asiáticos” (Coreia do Sul, Taiwan,
Cingapura e Hong Kong).
Mercado Comum do Sul (Mercosul) – foi instituído em 1991, após a assinatura do Tratado de
Assunção, no Paraguai, assinado pelo Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai, porém seu funcionamento
deu-se a partir de 1995. O Mercosul foi criado com o objetivo de integrar e fortalecer as economias dos
países membros, além de ser um instrumento para negociação com os outros blocos econômicos do
mundo, principalmente Nafta e UE. O Mercosul sofre ferrenha oposição dos EUA, que, em 1994, pro-
puseram a criação da Área de Livre Comércio das Américas (Alca). Seu objetivo seria o fim das tarifas
aduaneiras entre todos os países das Américas, com exceção de Cuba, por ser uma ditadura. O projeto

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O Brasil e o contexto internacional | 75

da criação da Alca sofreu resistência de vários países, e, no caso brasileiro, foi motivo de uma campanha
popular contra a entrada do Brasil no bloco econômico. Os adversários alegam que a adesão à Alca
representa um risco à soberania dos países e que só os norte-americanos se beneficiariam com ela. A
eleição de Luiz Inácio Lula da Silva e a má vontade demonstrada pelo governo norte-americano em
rever alguns pontos conflitantes do acordo emperraram as negociações para implantação da Alca.

Texto complementar
O Brasil na crise contemporânea
(SILVA, 2000, p. 420-421)

Hoje somos cerca de 160 milhões de brasileiros, dos quais os órgãos oficiais encarregados de
nossas estatísticas – o IBGE à frente – consideram 73,1 milhões como sendo força de trabalho. Deno-
minamos esta força de trabalho de População Economicamente Ativa, ou a sigla PEA. Ou seja, a PEA
do Brasil é o conjunto de pessoas empregadas ou com disposição para empregar-se (procurando
emprego), o que somaria 73,1 milhões de pessoas. Neste conjunto teríamos trabalhadores de car-
teira assinada – o chamado mercado formal –, com base na CLT, outros sem registros, aposentados
com uma segunda ocupação, desempregados em busca de emprego e até crianças ilegalmente
englobadas no mundo do trabalho.
Comparando-se com os países de economias industriais avançadas, o mercado de trabalho
no Brasil apresenta certas estranhezas, peculiaridades próprias do nosso gigantismo e do grau de
desigualdade social existente. Um traço relevante do mercado de trabalho no país é sua capacidade
de absorção de mão de obra através de formas precárias de ocupação. Muitas vezes, trabalhadores
excluídos do mercado formal de trabalho (com carteira assinada, por exemplo) passam a engrossar
as fileiras da chamada informalidade.
[...]
Esta precariedade gera uma das condições básicas da desigualdade social: o trabalho informal,
em quase a maioria dos casos, não é capaz de gerar remunerações condizentes com padrões de
consumo acima de uma linha mínima de necessidades básicas.
Mas esta não é uma condição específica dos trabalhadores informais. No início da década de
1990 cerca de 20% da população ocupada não conseguia uma remuneração equivalente ao sa-
lário mínimo, o que é estabelecido em lei como patamar básico de remuneração no país. É claro,
também, que no campo a situação é mais grave que nas cidades, onde, por exemplo, se chegou a
41% da população ocupada recebendo menos de um salário mínimo, como no caso do estado do
Ceará. Nos períodos de calamidades, como no caso da atual seca que atinge o Nordeste, tais índices
apresentam-se de forma assustadora.

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76 | O Brasil e o contexto internacional

Além disso, uma segunda característica marca a informalidade do trabalho no Brasil: uma parcela
importante da população, sem registro, sem pagar impostos ou receber salários, escapa da contabili-
dade nacional. As pesquisas e as estatísticas geradas por órgãos públicos, tipo IBGE e IPEA, muito difi-
cilmente conseguem traçar o perfil deste setor informal. Dessa forma, todo este contingente também
não aparece nas estatísticas de desempregados – ao menos no chamado desemprego aberto, ou seja,
da grande massa de desocupados à procura de trabalho.
A proporção dos trabalhadores sem carteira assinada na população empregada atingiu, no
inicio da década, 35% de todos os trabalhadores, com menos incidência em grandes capitais e alta
incidência nas áreas periféricas – cerca de 70% dos trabalhadores, por exemplo, no Rio Grande do
Norte e Paraíba. Entretanto, na mesma época, 82% dos trabalhadores no setor industrial possuíam
carteira assinada enquanto hoje (1998) apenas 69% estão ao abrigo da CLT.

Atividades
1. O que é denominada População Economicamente Ativa e que tipo de grupos a formam?

2. Que diferença existe entre economia formal e economia informal?

3. No Texto complementar, nota-se que do início dos anos 1990 até o final da década, mais preci-
samente 1998, o número de empregados com carteira assinada teve uma queda e houve um
crescimento do mercado informal. Que motivos teriam provocado essas mudanças?

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O Brasil e o contexto internacional | 77

Gabarito
1. 73,1 milhões de trabalhadores do país, formada por trabalhadores formais e trabalhadores infor-
mais.

2. A economia formal é composta por trabalhadores em regime de carteira assinada, amparados


pelos direitos trabalhistas. A economia informal é formada por trabalhadores que estão fora do
mercado formal, não estão amparados pela legislação e geralmente recebem salários menores
que os trabalhadores formais.

3. A adoção do modelo neoliberal, a partir do governo Collor, no Brasil, que abriu a economia na-
cional para produtos estrangeiros visando à livre concorrência, provocou fechamento de fábricas,
junto à adoção de tecnologias e métodos de racionalização da produção, provocando um quadro
de desemprego e recessão no país. A falta de empregos fez com que os trabalhadores brasileiros,
por questão de sobrevivência, entrassem para o mercado informal.

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78 | O Brasil e o contexto internacional

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Anotações

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Adriano Carneiro Giglio
José Augusto de Souza Nogueira

Fundação Biblioteca Nacional


ISBN 978-85-7638-731-2

CONTEXTOS BRASILEIROS CONTEXTOS BRASILEIROS

CONTEX TOS BR ASILEIROS

Fundação Biblioteca Nacional


ISBN 978-85-387-3178-8

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