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UNIVERSIDADE PAULISTA
INSTITUTO DE CIÊNCIAS DA SAÚDE
CURSO DE FARMÁCIA

MARCOS ANTONIO ROCHA

USO MEDICINAL DA CANNABIS SATIVA

SÃO PAULO
2018
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RESUMO
O uso da Cannabis sativa e os efeitos do seu princípio ativo são indicados em vários
tratamentos clínicos, como no tratamento pós-quimioterápico, em tratamentos da
AIDS, como regulador do apetite e na forma de colírios para o tratamento do
glaucoma. Os casos mais interessantes ressaltam a eficácia contra os sintomas de
reumatismo, hidrofobia, cólera, tétano e convulsões. Resultados marcantes foram
obtidos, sobretudo no controle dos espasmos musculares e convulsões. Baseados
nessas premissas e fundamentadas em referência científica, o presente trabalho
mostra como uma droga de uso tão comum poderia ser bem mais administrada
gerando, no lugar de desconforto social, uma melhoria na qualidade de vida das
pessoas.

Palavras-chave: Cannabis, Medicinal, Tratamento.

ABSTRACT
The use of Cannabis and the effects of its active ingredient are indicated in several
clinical treatments, such as in the post-chemotherapy treatment, in AIDS treatments,
as an appetite regulator and in the form of eye drops for the treatment of glaucoma.
The most interesting cases highlight the effectiveness against the symptoms of
rheumatism, hydrophobia, cholera, tetanus and seizures. Significant results were
obtained, especially in the control of muscle spasms and seizures. Based on these
premises and based on scientific reference, the present work shows how a drug of
such common use could be much more administered, generating, instead of social
discomfort, an improvement in the quality of life of the people.

Key words: Cannabis, Medicinal, Treatment.


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INTRODUÇÃO
A Cannabis é um arbusto originário da Ásia, pertencem à família cannabaceae, cujos
espécies mais conhecidas são a Cannabis sativa e a Cannabis indica. A mais comum
no Brasil é a Cannabis sativa, suas folhas são cortadas em segmentos lineares e
possui flores unissexuais e inconspícuos com pelos granulosos que, nas fêmeas,
produzem uma resina1.
A Cannabis vem sendo usada, há milênios pela humanidade, para vários fins, tais
como, alimentação, rituais religiosos e práticas medicinais. O primeiro uso documento
da Cannabis como medicamento apareceu por volta de 2300 a.C., quando o
imperador Chinês Chan Nong prescreveu a Chu-ma (Cannabis fêmea) para o
tratamento da constipação, gota, beribéri, malária, reumatismos e problemas
menstruais2.
Em 1753, o botânico sueco Carolus Linnaeus cunhou o termo Cannabis sativa para
a maconha. Em 1964, o cientista Raphael Mechoulan, da universidade de Tel Aviv,
em Israel, extraiu da erva natural uma substância chamada ∆9-tetraidrocanabinol
(∆9-THC), e estudou seus efeitos no corpo humano3.
A moderna literatura cientifica já registrou a importância da Cannabis, fumada ou
transformada em comprimido contendo ∆9-THC. A Cannabis reduz a náusea e os
vômitos em pacientes submetidos a quimioterapia. Ela estimula o apetite, sendo
recomendada para portadores de HIV, e diminui a pressão intraocular, presente no
glaucoma. Também temos indícios de benefícios no tratamento da esclerose múltipla.
De todos os componentes da Cannabis, o ∆9-THC é o mais importante em efeitos
terapêuticos, embora o Canabidiol também tenha se mostrado eficaz no tratamento
de convulsões. Em forma de comprimido a Cannabis se transforma num medicamento
chamado Marinol, usado contra náusea. O Marinol tem o mesmo efeito que um cigarro
de Cannabis, com a diferença de que, absorvido através de fumaça o THC chega mais
rápido a corrente sanguínea4.
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REVISÃO DA LITERATURA
Receptores Canabinóides
O homem e outros mamíferos possui um sistema canabinóide em seu cérebro, com
receptores de pelo menos dois tipos (CB1 e CB2), a Anandamida e enzimas para
sintetiza-la e metabolizá-la7. Os tecidos de mamíferos contêm pelo menos dois tipos
de receptores canabinóides, CB1 e CB2, ambos com proteínas G acopladas, e muitos
dos efeitos do ∆9-THC dependem de sua capacidade de ativar esses receptores. Os
receptores CB1, são localizados predominantemente no sistema nervoso central
(SNC), e o CB2, localizado predominantemente no sistema nervoso periférico (SNP).
A maior parte do CB1 e CB2, são encontrados nas células dos gânglios basais 5.
A anandamida, o primeiro canabinóide endógeno descoberto, tem a afinidade
moderada pelo receptor CB1, quando comparada ao ∆9-THC, e é metabolizado pelas
amidases. Podemos encontrá-las regiões do cérebro humano, principalmente onde os
receptores CB1, são abundantes, como hipocampo e cerebelo, o que fornece indícios
de um papel fisiológico dos canabinóides endógenos nas funções cerebrais.

Compostos canabinóides
Os ácidos canabinóides presentes na Cannabis todos sem atividades psicotrópica,
originam por meio de descarboxilação, os compostos canabinoides. Os primeiros
casos comprovados de isolamento, em forma pura, de um princípio ativo da Cannabis,
o ∆9-THC, foi reportado, em 1964, por Gaoni e Mechoulam. Os ácidos canabinólicos
presentes na Cannabis, originam, por meio de concentração por toda a planta, e que
têm suas atividades fisiológicas diminuídas, conforme o seu peso molecular. Cerca de
61 tipos de compostos canabinoides são encontrados, entre eles, canabigerol,
canbicromeno, canabidiol, ∆8-THC, canabiciclo, canabielsoin, canabinol etc. O
precursor do ∆9-THC, chamado canabidiol, não possui efeito psicoativo, porem
apresenta sinais de um possível uso terapêutico quando testado no tratamento da
artrite. Enquanto o canabidiólico possui ação sedativa no SNC, o canabigerol possui
atividade antibiótica contra bactéria Gram-positivos e a fredelina é relacionada com
uma atividade cardíaca parecida àquela apresentada por compostos digitálicos 1.
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Uso terapêutico
Pesquisas médicas, registros de casos, corroboram as aplicações terapêuticas dos
principais canabinóides: O ∆9-Tetraidrocanabinol (∆9-THC), o Canabinol (CBN) e o
Canabidiol (CBD) é volumosa2.
Glaucoma: Uma doença incurável dos olhos em que a elevação descontrolada da
pressão intraocular causa dano irreparável à retina e ao nervo óptico, resultando em
cegueira. É controlável por medicação, todos acompanhados por perigosos efeitos
colaterais, à exceção da maconha. Em 1971 .R.S. Hepler e I.M. Frank observaram
que fumar Cannabis reduzia a pressão intraocular em 25% após 30 minutos. Além
disso havia a redução de 50% no fluxo lacrimal e na pressão ocular rítmica, sem
nenhum desenvolvimento de tolerância. O efeito ocorre com o ∆9-THC e extratos de
maconha administrado oralmente, por via endovenosa ou por aplicação tópica 2.
Antieméticos: Na década de 1970, pacientes submetidos a quimioterapia em função
da doença de Hodgkin e outros cânceres descobriram que, se fumassem maconha
antes da sessão de quimioterapia, tinham menos náuseas e vômitos. Pacientes de
quimioterapia que usam Cannabis como medicamento em geral preferem fumar
Cannabis a ingerir ∆9-THC sintético (Marinol), porque geralmente vomitam antes que
a pílula possa fazer efeito. Fumar permite ao paciente regular a dose tragada por
tragada, e o remédio faz efeito em poucos minutos. Além disso, o ∆9-THC sintético
perde a eficácia após poucas sessões de tratamentos, além de ser caro 2.
Inibidor de tumores: O ∆9-THC e o CBN inibem o tumor pulmonar. O ∆9-THC e o
CBN inibiram o crescimento inicial do tumor de 25% a 82% e aumentaram a
expectativa de vida de camundongos cancerosos na mesma extensão. A propriedade
antitumoral do ∆9-THC e do CBN é muito seletiva e reduz as células tumorosas sem
danificar as normais2.
Dificuldades respiratórias: Por três mil anos a Cannabis proporcionou alívio para
os asmáticos, tendo sido muito usado para esse fim, principalmente no século XIX. A
inalação da fumaça da Cannabis produz uma dilatação dos brônquios que dura até
uma hora. O efeito bronco dilatador do ∆9-THC ingerido oralmente se prolonga por até
seis horas, mas não é tão intenso quanto o do cigarro de Cannabis. Aerossóis de ∆9-
THC não tem a mesma eficiência do cigarro de Cannabis porque o ∆9-THC na forma
de aerossol tem efeito irritante sobre vias respiratória2.
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Anticonvulsivantes: O poder que tem a Cannabis de controlar espasmos e


convulsões é conhecido pela medicina popular há milênios. Estudos clínicos
demonstrou que o canabidiol (CBD) pode ajudar muitos pacientes a permanecer
quase livres de convulsões sem nenhuma toxicidade, deterioração comportamental
ou tolerância2.
Antibióticos: Ácidos canabinóides inibem e matam efetivamente bactérias gram-
positivas como estafilococos e estreptococos. Um extrato alcoólico de Cannabis foi
recomentado para aplicação tópica e para uso no tratamento de organismos
resistentes à penicilina. A herpes labial, a otite média e queimaduras de segundo grau
foram tratas com sucesso com o uso de extrato de Cannabis. Os preparados de
Cannabis podem ser aplicados à pele ou a membranas mucosas na forma de
balsamo, cataplasma ou spray2.
Herpes: Um estudo mostrou que o ∆9-THC adere ao vírus do herpes e assim inativa.
A aplicação tópica de um extrato de Cannabis em álcool isopropílico foi usado para
proporcionar o alivio sintomático das chagas da Herpes. Ele evita bolhas e promove o
desaparecimento das feridas alívio sintomático na gonorreia e na sífilis 2.
Analgésicos: Um extrato alcoólico de Cannabis ampliará os efeitos de outros
analgésicos. Numa dose baixa, o THC aumenta cinco vezes o efeito da morfina.
Dobrando-se essa dose, o efeito da morfina fica dez vezes maior. A Cannabis não tem
nenhum efeito sobre a medula, o centro cerebral que controla a respiração2.
Enxaqueca: No século XIX, Cannabis era usada regularmente para proporcionar
alívio nas enxaquecas. Em 1890, o Dr. J. Reynolds observou no Lancet que ``Muitas
vítimas dessa doença mantiveram seu sofrimento afastado por anos tomando
cânhamo no momento da ameaça ou do início do ataque 2´´.
Anti-inflamatório: A Cannabis obteve reconhecimento dos médicos após alguns
pacientes relatarem que fumar Cannabis ameniza males como prurido e dermatite
atópica, uma reação alérgica que se distingue por intensa coceira e placas de pele
inflamada. Tratamentos convencionais com esteroides e anti-histamínicos têm apenas
um efeito limitado no controle do problema que, quando complicado por infecção, pode
representar risco de vida e provocar desfiguração. Pesquisas mostraram que além do
∆9-THC ter efeitos anti-histamínicos um extrato alcoólico de Cannabis aumenta o
poder da aspirina de reduzir a febre. Foi constado que o CBD promove uma inibição
de mais de 90% do eridema com uma dose de apenas cem microgramas2.
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Tratamento do alcoolismo: No século XIX, médicos americanos recomendavam a


Cannabis como tratamento para o Delirium tremens. Em 1953, os Drs. L. Thompsom
e R. Proctor testaram o canabinóide sintético Pyrahexyl no tratamento da abstinência
do álcool e obtiveram resultados positivos em 70 casos na Costa Rica e na Jamaica,
onde o uso da Ganja como embriagante é disseminado, a taxa de alcoolismo é muito
mais baixa que nos demais lugares2.
Tratamento de opiáceos: Em alguns casos, a Cannabis pode servir para aliviar os
sintomas da abstinência dos opiáceos. em 1885, o Dr. E. Birch relatou tratamento
sucedido de um dependente de hidrato de cloral com a substituição por Cannabis
seguida por uma progressiva abstinência de cannabis2.
Insônia: em 1890 o médico britânico J. Reynolds recomendou Cannabis para
pacientes que sofriam de insônia senil. O CBD induz sono nos insones com menos
sonhos e nenhum efeito colateral2.

Efeitos físicos
O fumo intenso da Cannabis causa uma constrição branda das vias respiratórias. o
fumo esporádico de Cannabis tem pouco efeito sobre a respiração, exceto pela
broncodilatação. O THC não é um depressor respiratório. O fumo crônico pode
produzir inflamação, sinusite, faringite, bronquite e tosse de esputo. A redução do
consumo proporciona alívio, mas antibióticos não tem efeitos 6. A Cannabis reduz o
fluxo salivar na glândula submaxilar, resultando em boca seca. Há poucos indicio de
efeito carcinogênico direto da fumaça ou do alcatrão da Cannabis. Verificou-se que a
fumaça da Cannabis contém muitos dos mesmos compostos carcinogênicos do
tabaco, mas até hoje nenhum caso de câncer foi atribuído ao fumo de Cannabis. O
efeito da Cannabis para ser o de acelerar, mais que iniciar mutações malignas6.
O efeito mais evidente e imediato do fumo ou da ingestão e imediato do fumo ou da
ingestão da Cannabis é o rápido aumento do ritmo cardíaco, que diminui no intervalo
de uma hora e não constitui: nenhuma ameaça para um indivíduo saudável. A pressão
sanguínea pode se elevar ligeiramente e pode ocorrer hipotensão postural 6.
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Efeitos mentais
A Cannabis produz um amplo espectro de efeitos perceptivos. Entre eles estão
mudanças de humos, facilitação do comportamento interpessoal e redução do
comportamento agressivo. Entre as percepções visuais características estão padrões,
imagens mentais vívidas e visão periférica aguçada. Alucinações, auras e mudança
dimensionais ocorrem com menor frequência. O sentido do paladar, olfato, toque e
audição ganham novas qualidades e maior intensidade. a embriagues através da
Cannabis cria muitas vezes um intenso desejo de doces. O sentido do tempo é
invariavelmente distorcido pela Cannabis, os eventos parecem durarem mais do que
realmente duram. Outro efeito comum é um forte sentimento de estar ``aqui-e-agora´´.
O fenômeno Deja Vu ocorre frequentemente. As emoções são sentidas com maior
intensidade. os usuários frequentemente relatam que a Cannabis os faz sentir mais
infantis e abertos a experiências2.

Reações adversas
Ocasionalmente um terço dos usuários de Cannabis experimentam reações
paranoides ou de pânico, alucinações, confusão e outras reações adversas, em geral
somente em ambientes desfavoráveis e com altas doses. O problema ocorre com mais
frequência quando a Cannabis é ingerida, aparentemente porque a dose não é tão
facilmente controlada como no caso do fumo. Todo e qualquer medicamento que
mexa com o funcionamento do corpo e do sistema neurológico pode trazer efeitos
colaterais indesejados, mesmo que sejam altamente benéficos à saúde. No caso da
Cannabis medicinal, o seu consumo regular pode causar sintomas duradouros de três
a seis horas, como tonturas, sono, estado de letargia, insônia, delírios, irritabilidade,
perda de memória a curto prazo e euforia exagerada. Em pessoas com problemas
psiquiátricos, esses efeitos podem ser mais graves, causando ataques de pânico,
transtorno de personalidade, depressão e crises de ansiedade. Por isso, nestes casos,
é recomendada a prescrição médica para o uso terapêutico da Cannabis. Os sintomas
da síndrome de abstinência incluem agitação, insônia, irritabilidade, náusea e cãibras.
Alguns autores sugerem que a Cannabis é uma porta de entrada para outras drogas
ilícitas. Mas ainda não existem estudos científicos que comprovem essa hipótese2.
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DISCUSSÃO
Depois do isolamento do ∆9-THC, O princípio ativo responsável por boa parte de
seus efeitos psíquicos, em 1964, a atenção de especialistas se voltou, novamente, à
reavaliação da Cannabis e suas substâncias medicinais. O ∆9-THC é conhecido como
medicamento em vários países indicados para alguns benefícios terapêuticos como:
na diminuição de náuseas e vômitos causados ela quimioterapia para o tratamento de
câncer, em algumas condições clínicas dolorosas, nos sintomas de esclerose múltipla
e como estimulante do apetite.

CONCLUSÃO
Resumindo, os dados indicam um efeito terapêutico modesto, particularmente, no
controle da dor, alívio de náuseas e vômitos, e estimulação do apetite. Seus efeitos
foram melhores estabelecidos para o ∆9-THC. Mas a Cannabis possui vários outros
componentes que não tem seus efeitos estudados, e que podem trazer muitos
riscos. Os dados atuais não afastam e nem dão suporte para a hipótese de que o uso
medicinal da Cannabis poderia aumentar o uso ilícito dessa droga. Ao final concluímos
que o futuro do uso terapêutico da Cannabis está associado com o desenvolvimento
de substâncias puras, e não com o fumo da mesma.
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REFERENCIAS BIBLIOGRAFICAS

1. CANNABIS SATIVA L.: OS PRÓS E CONTRAS DO USO TERAPÊUTICO DE


UMA DROGA DE ABUSO. São Caetano do Sul: Revista Brasileira de Ciências
da Saúde, v. 3, n. 13, jul. 2007.

2. ROBINSO, Rowan. O grande livro da Cannabis. Rio de Janeiro: Jorge Zahar


Editor, 1999. 148 p.

3. O USO DA CANNABIS SATIVA PARA FINS MEDICINAIS. Alfenas: Revista


Saúde em Foco, v. 9, 1 set. 2017.

4. GABEIRA, Fernando. A maconha. São Paulo: Publifolha, 2000. 37 p.

5. CARLINI, E. A.; RODRIGUES, Eliana; GALDURÓZ, José Carlos F.. Cannabis


Sativa L. E substâncias canabinóides em medicina. São Paulo: Cromosete,
2004. 240 p.

6. BARRETO, Luiz André A. S.. A maconha (Cannabis sativa) e seu valor


terapêutico. 2002. 37 f. TCC (Graduação) - Curso de Ciências Biológicas,
Ciências da Saúde, Centro Universitário de Brasília, Brasília, 2012.

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