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Haroldo de Campos

Da transcriação
poética e semiótica
da operação tradutora

FALE/UFMG

Belo Horizonte

2011
Sumário

Diretor da Faculdade de Letras


Luiz Francisco Dias

Vice-Diretora
Sandra Maria Gualberto Braga Bianchet

Comissão editorial
5 Por uma poética da tradução
Eliana Lourenço de Lima Reis
Elisa Amorim Vieira 9 Da transcriação:
Fábio Bonfim Duarte poética e semiótica da operação tradutora
Lucia Castello Branco
Maria Cândida Trindade Costa de Seabra 31 Da tradução como criação e como crítica
Maria Inês de Almeida 47 Tradução e reconfiguração do imaginário:
Sônia Queiroz
o tradutor como transfingidor
Capa e projeto gráfico
63 Para além do princípio da saudade:
Glória Campos
Mangá – Ilustração e Design Gráfico a teoria benjaminiana da tradução

Pesquisa e organização dos textos 75 Paul Valéry e a poética da tradução:


Sônia Queiroz as formulações radicais do célebre
Preparação de originais e diagramação poeta francês a respeito do ato de traduzir
Tatiana Chanoca 91 O que é mais importante: a escrita ou o escrito?
Tiago Garcias
107 A língua pura
Primeira revisão de provas
Bruna Fortes na teoria da tradução de Walter Benjamin
Paulo Henrique Alves 123 Tradição, tradução, transculturação:
Segunda revisão de provas o ponto de vista do ex-cêntrico
Marcos Fabio de Faria
133 Haroldo de Campos, José Paulo Paes
Priscila Justina
e Paulo Vizioli falam sobre tradução
Endereço para correspondência
FALE/UFMG – Laboratório de Edição 151 Referências
Av. Antônio Carlos, 6627 – sala 4081
31270-901 – Belo Horizonte/MG
Telefax: (31) 3409-6072
e-mail: revisores.fale@gmail.com
Por uma poética da tradução

Em 1987, cerca de 25 anos após a publicação do seu primeiro texto sobre


a tradução poética em que aparece o termo transcriação, Haroldo de
Campos – poeta, ensaísta e tradutor – anuncia em observação pós-escrita
ao ensaio que dá título a esta coletânea, o lançamento de um livro “a
ser publicado pela Brasiliense de São Paulo no primeiro semestre do ano
próximo”. O livro, que teria o mesmo título daquele ensaio apresentado
inicialmente como conferência no II Congresso Brasileiro de Semiótica,
realizado na PUC-SP no ano anterior, não saiu em 1988, e mais de vinte
anos depois continuamos a esperar por ele...
Em 2009, segundo ano da ênfase em Edição no Bacharelado
em Letras da UFMG, a turma de alunos da disciplina Preparação de
Originais assumiu a tarefa de reunir os principais ensaios sobre o tema da
transcriação, que até o momento só eram encontrados em publicações
esparsas – em livros e periódicos editados em diferentes locais e datas,
o que exigiu dos estudantes um exercício rigoroso de atualização e nor-
malização de texto.
O ensaio “Da tradução como criação e como crítica” foi pela primeira
vez apresentado ao público em 1962, no III Congresso Brasileiro de Crítica
e História Literária, realizado na Universidade Federal da Paraíba. Um ano
depois, o texto foi publicado no Rio de Janeiro, na revista Tempo Brasileiro.
Este parece ser o primeiro texto escrito pelo ensaísta em que aparece o
neologismo transcriação. O ensaio foi posteriormente recolhido pela Editora
Cultrix na coletânea de textos de Haroldo de Campos Metalinguagem, que
chegou à terceira edição em 1976. Em 1992, saiu, pela Editora Perspectiva, Desde que dá início, nos anos 1960, à publicação de suas reflexões
nova edição, ampliada e reintitulada Metalinguagem & outras metas. nascidas da intensa prática de tradução de poesia iniciada nos anos 1950,
Em 1991 Haroldo de Campos publica o ensaio “Tradução e até a morte do autor, em 2003, foram pelo menos quatro décadas de
reconfiguração do imaginário: o tradutor como transfingidor”, na coletâ- vivência e militância por uma poética e semiótica da tradução – transcriação.
nea de diversos autores Tradução: teoria e prática, organizada por Malcolm
Sônia Queiroz
e Carmen Rosa Caldas Coulthard, e que saiu pela Editora da Universidade
Federal de Santa Catarina. Em 1989 este mesmo texto havia sido publicado
na revista 34 Letras, com o título “Da tradução à transficcionalidade”,
e um pouco antes, em 1987, com o título “Reflexões sobre a poética da
tradução”, no volume 1 dos Anais dos 1º e 2º Simpósios de Literatura
Comparada, organizados por Eneida Maria de Souza e Júlio Pinto e
publicados em Belo Horizonte, pela UFMG. Optamos, nesta edição, pelo
título mais recente.
Pela Folha de S. Paulo Haroldo teve publicados, nos números 412
e 419 do caderno Folhetim, de 1984 e 1985, respectivamente, os ensaios
“Para além do princípio da saudade: a teoria benjaminiana da tradução”
e “Paul Valéry e a poética da tradução: as formulações radicais do célebre
poeta francês a respeito do ato de traduzir”.
Ainda às voltas com as teorias benjaminianas o autor publicou,
pela Revista USP, o ensaio “O que é mais importante: a escrita ou o
escrito (teoria da linguagem em W. Benjamin)”, lançado no número 15 da
revista, no ano de 1992. “A língua pura na teoria da tradução de Walter
Benjamin” foi publicado em 1997 no número 33 da mesma revista e expõe
a teoria da tradução poética desenvolvida pelo ensaísta alemão no conhe-
cido texto “A tarefa do tradutor”, que constitui uma das principais fontes
do conceito de transcriação.
Este volume traz também o texto “Tradição, tradução, transcultu-
ração: o ponto de vista ex-cêntrico”, apresentado por Haroldo de Campos
em simpósio realizado pela Universidade de Yale como homenagem aos
setenta anos do autor. O texto é de 1999 e foi traduzido do inglês pela
estudante Aline Sobreira.
Encerramos com um diálogo aberto – publicado em 1988, em
Campinas, no número 11 dos Trabalhos de Linguística Aplicada – no qual
“Haroldo de Campos, José Paulo Paes e Paulo Vizioli falam sobre tradução”.

6 Da transcriação: poética e semiótica da operação tradutora Por uma poética da tradução 7


Da transcriação:
poética e semiótica da operação tradutora

Marcação do percurso
Há mais de vinte anos me ocupo, em sede teórica, dos problemas da
tradução poética. Esta reflexão teórica nasceu de uma prática intensiva
da tradução de poesia, levada a efeito – individualmente ou em equipe
– por Augusto de Campos, Décio Pignatari e por mim (desde a década
de 1950, quando constituímos o grupo Noigandres), como um corolário
programático de nossa atividade de poetas. Inspirou-a outra prática:
aquela poundiana, do make it new “via” tradução, descrita por Luciano
Anceschi como o exercício de uma verdadeira “maiêutica” poética. Na
década de 1960, passamos, Augusto e eu, a nos dedicar a um novo domínio
exploratório: a tradução de poesia russa, com a colaboração ou a revisão
de Boris Schnaiderman, numa harmoniosa integração de pontos de vista
quanto à natureza da operação tradutora em poesia.
O trabalho de mais fôlego que publiquei sobre o assunto, “Da tra-
dução como criação e como crítica”, foi apresentado ao III Congresso
Brasileiro de Crítica e História Literária, na Paraíba, em 1962, e a seguir
estampado no número especial 4-5 da revista Tempo Brasileiro, de 1963.
Por outro lado, meu livro de ensaios A arte no horizonte do provável, de
1969, contém uma seção denominada “A poética da tradução”, na qual se
recolhem estudos teórico-práticos sobre a operação tradutora aplicada a
Hölderlin, a Píndaro e à poesia chinesa, publicados originalmente entre
1967 e 1969. No mesmo livro, encontram-se traduções de poesia japonesa
(do haicai de Bashô e Buson aos poetas de vanguarda do grupo Vou),
italiana (Leopardi, Ungaretti) e alemã (de Arno Holz aos expressionistas e Assim, num texto incluído em apêndice à tradução em equipe (por
vanguardistas). Assim, também, em A operação do texto, de 1976, incluí Augusto de Campos, Décio Pignatari e por mim) de Cantares,2 a equação
vários trabalhos que apresentam esse denominador comum, entre eles o paronomática tradução/tradição é por mim proposta e tentativamente
dedicado ao exame comparativo das traduções de “O Corvo” de Poe e o resolvida em termos de traduzir = trovar. Ficava subentendida uma
votado a refazer, etapa a etapa, através da análise arrazoada da tradução operação de “morfologia cultural”, ou, como eu preferia escrever àquela
do poema de Maiakóvski “Sierguêiu Iessiêninu” (“A Sierguêi Iessiênin”), altura,3 “culturmorfologia”, para preservar no barbarismo lexical o conceito
a gênese e a evolução desse mesmo poema, explicitadas laboratorial- de Kulturmorphologie, aliado ao de “paideuma”, que Ezra Pound extraíra
mente pelo próprio poeta em “Kak dielat stikhi?” (“Como fazer versos?”). da antropologia de Leo Frobenius (migração de “complexos de elementos
Ultimamente, tenho me dedicado ao estudo do hebraico, no intuito de significativos” ou “formas” culturais) e que reinterpretara livremente
transcriar a poesia bíblica.1 como: “A ordenação do conhecimento para que o próximo homem (ou
Nessas sucessivas abordagens do problema, o próprio conceito de geração) possa o mais rapidamente possível encontrar-lhe a parte viva
tradução poética foi sendo submetido a uma progressiva reelaboração e perder o mínimo de tempo com itens obsoletos.” Uma operação à qual
neológica. Desde a ideia inicial de recriação, até a cunhagem de termos Pound conferira o atributo de uma das “funções da crítica”.
como transcriação, reimaginação (caso da poesia chinesa) transtextualiza- Utilizei, então, a ideia de “corte paidêumico” para sintetizar este
ção, ou – já com timbre metaforicamente provocativo – transparadisação procedimento poundiano de levantar uma “tradição viva” por meio de
(transluminação) e transluciferação, para dar conta, respectivamente, das “separações drásticas” de um elenco de autores válido para um dado
operações praticadas com “Seis cantos do Paradiso de Dante” e com as duas (e novo) momento histórico. (No caso de Pound, a rejeição de Milton e
cenas finais do “Segundo Fausto” (Deus e o Diabo no Fausto de Goethe). de seu estilo de torneio latinizante e pompa retórica, reminiscente do
Essa cadeia de neologismos exprimia, desde logo, uma insatisfação com “verbalismo” virgiliano; a correlata exclusão de Gôngora e do barroco, em
a ideia “naturalizada” de tradução, ligada aos pressupostos ideológicos de favor de uma diferente tradição – remontável a Catulo e Propércio – que
restituição da verdade (fidelidade) e literalidade (subserviência da tradu- conduzisse, via François Villon, a Gautier e Browning e aos simbolistas de
ção a um presumido “significado transcendental” do original), – ideia que linha “coloquial-irônica”, Laforgue e Corbière, com a “rasura”, pelo menos
subjaz a definições usuais, mais “neutras” (tradução “literal”), ou mais aparente, de Mallarmé). Dei, à ocasião, um exemplo pertinente à prática
pejorativas (tradução “servil”), da operação tradutora. da tradução: “Pound transpôs Propércio em vers de societé, à maneira
de Laforgue. Entre o poeta latino e o francês, a linguagem assumida
Tradução/tradição por Pound lança uma ponte de culturmorfologia aplicada à poesia.”4 E
Um outro aspecto, desde o início tematizado nesse percurso de teorização acrescentei a esta observação uma outra, de Hugh Kenner: Ezra Pound
ditado por uma prática translatícia de contornos definidos, foi a noção de “levou às elegias de Propércio uma sensibilidade alerta ao cinismo ele-
que a operação tradutora está ligada necessariamente à construção de
2
POUND. Cantares, p. 151.
uma tradição, o que implicava projetar o problema no campo mais lato 3
Numa versão especial que fiz dos primeiros tópicos deste ensaio benjaminiano, para servir de base
da historiografia literária. a uma aula sobre tradução, por mim ministrada em outubro de 1984 no curso da Profª Dra. Jeanne
Marie Gagnebin (“O texto da história: um estudo da filosofia de Walter Benjamin”, Pós-Graduação
em Filosofia, PUC-SP), propus uma interpretação “estranhante”, num sentido deliberadamente
etimologizante, heideggeriano-derridiano, do título “Die Aufgabe des Übersetzers”. Jogando com as
1
CAMPOS. Bere’shit: a gesta da origem. O original hebraico e a respectiva “transposição criativa” em várias acepções mutuamente “suplementáveis” do substantivo (die) Aufgabe e do verbo aufgeben,
português fizeram parte da mostra “Arte e Tradução”, organizada por Julio Plaza especialmente para o traduzi: “Ao que se dá e o que dá o tradutor”; ou mais concisamente: “O que é dado ao tradutor dar”.
II Congresso Brasileiro de Semiótica, realizado em São Paulo, em 1985. 4
POUND. Cantares, p. 8.

10 Da transcriação: poética e semiótica da operação tradutora Da transcriação: poética e semiótica da operação tradutora 11
gante, informada pelo modo laforgueano de lidar com o sentimento pre- Em Traduzir & trovar, coletânea de ensaios e traduções meus e de
tensioso e o pretenso bombástico”.5 Uma pequena amostra poderá aqui Augusto de Campos (os provençais, Guido Cavalcanti, Dante, metafísicos
ser útil. Burlando-se, ao mesmo tempo, da escuta convencional dos ingleses e marinistas italianos), a equação terminológica é retomada, já
professores de latim e da licorosa recepção vitoriana das elaboradas no título. Numa breve nota introdutória, lê-se: “Traduzir & trovar são dois
elegias de Propércio, Pound fez uma espécie de “reinvenção” dos versos do aspectos da mesma realidade. Trovar quer dizer achar, quer dizer inventar.
poeta latino, com o intuito de acentuar-lhes o gume irônico e resgatá-los Traduzir é reinventar”.6 E linhas adiante:
da capa mortuária das leituras passivas. Assim, no verso:
Este volume expõe-se como um canteiro de trabalho. Poesia que,
através da tradução, pode ser vista in fieri: o caráter concluso da
utque decem possint corrumpere mala puelas
obra feita fica provisoriamente suspenso e o “fazer” reabre o seu
e como dez maçãs possam perverter as jovens
processo, refaz-se na dimensão da nova língua do tradutor. Uma
didática direta. A jornada e o jornal de um laboratório de textos.7
Pound, não resistindo à oportunidade do trocadilho, traduziu maçãs
(malum, i) pelo homófono que significa ‘má ação’, ‘vício’ (também neutro
com o plural em -a), e escreveu: Corte paidêumico e corte sincrônico
Já em A arte no horizonte do provável, a noção de “corte paidêumico” é
And how ten sins can corrupt young maidens
E como dez pecados podem corromper donzelas articulada com a de “corte sincrônico” e repensada em termos daquela
História estrutural da literatura proposta por Roman Jakobson em
Ou, como eu gostaria de retraduzir, aproveitando a “deixa” e extremando “Linguistics and Poetics”:
o exemplo: A descrição sincrônica considera não apenas a produção literária de
E como dez más ações – maçãs, má sina! – um período dado, mas também aquela parte da tradição literária
podem perverter meninas, que, para o período em questão, permaneceu viva ou foi revivida.
Assim, por exemplo, Shakespeare, por um lado, e Donne, Marvell,
já que o trocadilho semântico de Pound parece ter sido guiado (e isto Hugh Keats e Emily Dickinson, por outro, constituem presenças vivas no
Kenner, de quem extraí o exemplo, deixa de apontar) pelo jogo fônico atual mundo poético da língua inglesa, ao passo que as obras de
James Thomson8 e Longfellow não pertencem, no momento, ao
entre DEcEM poSSINt e TEN SINS... (Para entender o mood ou “tom” que número dos valores artísticos viáveis. A escolha de clássicos e sua
Pound estava buscando reativar em Propércio, é só pensar no Laforgue de reinterpretação à luz de uma nova tendência é um dos problemas
coisas assim: essenciais dos estudos literários sincrônicos.9

Je ne peux plus m’occuper que des Jeunes Filles,


Avec ou sans parfum de famille... No prefácio desse meu livro de 1969, a tradução é vista
Não me toco senão por Menininhas como forma de crítica que manifesta, na prática textual, a visada na
Tenham ou não cheirinho de família...
“poética sincrônica”. Esta, por seu turno, é caracterizada nos ensaios a ela
No meu “exemplo extremado” fiz, obviamente, um repique troca- dedicados como “uma poética situada na acepção sartreana do termo
dilhesco com o mala de Propércio e o sins de Pound (“má sina”), além [...], só pode assumi-la um homem datado e inscrito num dado tempo
de brincar com as maçãs do original convertidas edenicamente nas “más 6
CAMPOS. Traduzir & trovar, p. 3.
ações” da voluntária mistranslation poundiana... 7
CAMPOS. Traduzir & trovar, p. 4.
8
Jakobson está se referindo ao pré-romântico inglês, elegíaco-paisagista, autor de uma peça de efeito,
célebre ao tempo, o poema “Rule, Britannia!”.
5
POUND. Cantares, p. 8. 9
JAKOBSON. Lingüística e comunicação, p. 121.

12 Da transcriação: poética e semiótica da operação tradutora Da transcriação: poética e semiótica da operação tradutora 13
longo tempo desdenhada, e pois esquecida, bem como, notada-
histórico, o presente”. Daí deduzo o seu “estatuto relativo” (relativizando mente, à reinterpretação filológica e à renascença de Gôngora...11
no mesmo passo a noção poundiana de corte paidêumico, sem prejuízo
da importância que lhe atribuo): “Ao contrário do que se poderia imagi- A constituição da tradição é vista por Jauss, correlatamente, como um
nar, é o valor relativo, funcional, e não o eterno, canonizado, que preside processo de tradução, operando sobre o passado a partir de uma ótica
a uma história literária estrutural, montada sobre cortes sincrônicos.” do presente. A mais incisiva declaração sobre este ponto encontra-se em
(Veja-se, para dar apenas este exemplo, como Harold Bloom, o crítico “Geschichte der Kunst und Historie” (“História da arte e história”):
de Yale, reentroniza Milton no ápice da tradição poética e “degrada” Eliot
Se se deve entender por tradição o processo histórico da práxis
e Pound a favor de Yeats e Wallace Stevens, assim como, nas gerações artística, então cabe compreendê-la como um movimento do pensar
mais recentes, privilegia as alternativas de John Ashbery e de Archie que se constitui na consciência receptora, apropria-se do passado,
o traz até ela e ilumina o que ela assim traduziu ou “tra-ditou” em
Randolph Ammons, em desfavor do que rotula “paródias voluntárias”,
presente, à nova luz de um significado atual.
fornecidas por Robert Lowell, e “paródias involuntárias”, de que seria pródigo
Allen Ginsberg...). (A retificação de pormenor contida nas reflexões complementares ao
ensaio sobre a Ifigênia de Racine e a de Goethe, de 1973, reconhecendo
Tradição/tradução/recepção o caráter seletivo e parcial de toda reprodução do passado artístico na
Enquanto eu publicava os trabalhos que compõem a seção “Por uma recepção atual, não modifica, antes acentua, o aspecto necessariamente
poética sincrônica” de A arte no horizonte do provável,10 Hans Robert translatício do processo, que é o que aqui me importa enfatizar). Observo,
Jauss proferia sua preleção inaugural na Universidade de Constança, em contraponto, que foi com uma afirmação relativizadora e parcial, de
Alemanha (13/4/1967), “O que significa e para que fim se estuda a his- verdadeira “poética de leitura”, que concluí o segundo dos três trabalhos
tória da literatura?”, que ficaria famosa sob o título com o qual foi publi- encadeados em “Por uma poética sincrônica”:
cada: “Literaturgeschichte als Provokation der Literaturwissenschaft” (‘A
A leitura estrutural que García Lorca e Damaso Alonso realizaram
história da literatura como provocação à teoria literária’). Nesse ensaio na poesia de Gôngora é, para nós, seus contemporâneos, a poesia
metodológico, que pôs em pauta de discussão, por assim dizer, a cha- de Gôngora. E o será até que um novo lance da evolução literária,
novas necessidades concretas de criação, ponham essa leitura em
mada “teoria da recepção estética”, Jauss, procurando dar uma dimen-
desfunção.12
são histórica e hermenêutica a certas categorias da poética imanente
(como, por exemplo, a de “novidade”), opera com os conceitos de “hori- Mas remontemos ao ensaio de 1962, “Da tradução como criação
zonte de expectativa” e de “fusão de horizontes” para explicar como “a e como crítica”, para confrontar as hipóteses e conclusões que então
resistência oposta à expectativa de seu primeiro público pela obra nova formulei, com as reflexões que pude fazer no arco dos vinte anos que o
pode ser tão grande, que um longo processo de recepção poderá ser sucederam.
necessário antes que seja assimilado ao que a princípio era inesperado,
inassimilável”. E exemplifica: Impossibilidade/isomorfismo
Foi necessário aguardar o lirismo hermético de Mallarmé e de seus A primeira preocupação do meu ensaio foi o enfrentamento da ques-
discípulos para que se tornasse possível um retorno à poesia barroca, tão aporética (do “caminho sem saída”) suscitada pela concepção
tradicional da “impossibilidade da tradução de poesia”. Estabeleci, como

11
JAUSS. A história da literatura como provocação à teoria literária.
10
Estampados no Correio da Manhã do Rio de Janeiro, entre fevereiro e abril de 1967. 12
CAMPOS. O samurai e o kakemono, p. 219.

14 Da transcriação: poética e semiótica da operação tradutora Da transcriação: poética e semiótica da operação tradutora 15
limite negativo da reflexão, a postulada impossibilidade da tradução da Iconicidade e tradução
“sentença absoluta” (Albrecht Fabri) ou da “informação estética” (Max Finalmente, o medium por excelência da operação transcriadora pas-
Bense), uma vez que, para o primeiro, a possibilidade da tradução decor- sava a ser a própria iconicidade do signo estético. Signo estético que eu
reria sempre da “deficiência da sentença” (a tradução operaria sobre o entendia então como “signo icônico” (na acepção do discípulo de Peirce,
que não é linguagem num texto, ou seja, sobre o resíduo não linguístico Charles Morris): “aquele que é de certa maneira similar àquilo que ele
do processo de significação; em outros termos, o significado referen- denota”. Traduzir a iconicidade do signo implicava recriar-lhe a “fisicali-
cial); para o segundo, essa impossibilidade decorreria da “fragilidade” dade”, a “materialidade mesma” (ou, como diríamos hoje, as proprieda-
da “informação estética”, que seria “inseparável de sua realização sin- des do significante, abrangendo este, no meu entender, tanto as formas
gular”. Procedendo por reversão dialética desse momento de negativi- fono-prosódicas, e grafemáticas da expressão, como as formas gramati-
dade radical, passei a afirmar, em contrapartida, a possibilidade, em prin- cais e retóricas do conteúdo). Estas formas, por definição, seriam sempre
cípio, da recriação (re-criação) de textos poéticos. Para fazer face ao formas significantes, uma vez que o parâmetro semântico (o significado,
argumento da “outridade” da informação estética quando “reproposta” o conteúdo), embora deslocado da função dominante que lhe conferia a
numa nova língua, 13
introduzi o conceito de isomorfismo: original e chamada tradução literal, termo a termo, não era vanificado (esvaziado),
tradução, autônomos enquanto informação estética, estarão ligados mas, ao contrário, constituía-se por assim dizer num horizonte móvel, num
entre si por uma relação de isomorfia; “serão diferentes enquanto virtual “ponto de fuga”: “a baliza demarcatória do lugar da empresa recria-
linguagem, mas, como os corpos isomorfos, cristalizar-se-ão dentro de dora” (como eu então escrevi). Pensava, à ocasião, na frase de Blanchot:
um mesmo sistema”. Insinuava-se, aqui, a noção de mimesis não como “L’esprit, dit Mallarmé après Hegel, est dispersion volatile.” E a imaginava
cópia ou reprodução do mesmo, mas como produção simultânea da dife- aplicável à dimensão semântica da linguagem: também ela poderia ser
rença. Levando às últimas consequências a reversão assim praticada, definida como “dispersão volátil” (lembro-me de ter referido este ponto,
inverti outra objeção tradicional à tradução de poesia: quanto mais difí- certa vez, a Nicolas Ruwet, para expressar-lhe minhas dúvidas quanto ao
cil ou mais elaborado o texto poético, mais se acentuaria aquele traço êxito de uma “semântica estrutural”, ou seja, das tentativas de integrar a
principal da impossibilidade da tradução. No caso da recriação, dar-se-ia “componente semântica” no modelo de uma gramática gerativa). De tudo
exatamente o contrário: “quanto mais inçado de dificuldades esse texto, isto, a minha conclusão, que assinalava o procedimento nietzscheano de
mais recriável, mais sedutor enquanto possibilidade aberta de recriação”. 14
“pôr o aprendizado ao revés” (umzulernen): “Está-se, pois, no avesso da
(Exemplifico: do ponto de vista da transcriação, traduzir Guimarães Rosa chamada tradução literal.”
seria sempre mais possível, enquanto “abertura”, do que traduzir José Dois ensaios de importância fundamental, que eu não conhecia à
Mauro de Vasconcelos; traduzir Joyce mais viável, enquanto “plenitude”, época em que redigi “Da tradução como criação e como crítica”, permi-
do que fazê-lo com Agatha Christie). A disjunção poesia/prosa deixava de tiram-me posteriormente, retomar as elaborações teóricas acima resu-
ser relevante frente a essa noção de “tradução criativa”, onde a condição midas, às quais eu chegara, vale a pena insistir, a partir de uma prática
de possibilidade se constituía, exatamente, com apoio no critério da difi- intensa e diversificada, individual ou grupal, da tradução de poesia.
culdade. Eu não conhecia, àquela altura, o lema de Lezama Lima: “Sólo Trata-se de “On Linguistics Aspects of Translation” (“Aspectos
lo difícil es estimulante”, mas ele corresponderia ponto por ponto à minha linguísticos da tradução”), de Roman Jakobson,15 e “Die Aufgabe des
concepção do traduzir como re-criação. Übersetzers” (“A tarefa-renúncia do tradutor”), de Walter Benjamin.16

13
“Em outra língua, será uma outra informação estética, ainda que seja igual semanticamente” (Max Bense). 15
JAKOBSON. Lingüística e comunicação, p. 63-72.
14
CAMPOS. Da tradução como criação e como crítica. 16
Publicado inicialmente em 1923, como introdução à tradução dos Tableaux parisiens de Baudelaire.

16 Da transcriação: poética e semiótica da operação tradutora Da transcriação: poética e semiótica da operação tradutora 17
Física e metafísica da tradução traduzido naqueles que lhe são alternativos; assim: “rosa: flor da roseira;
Sobre o ensaio de Walter Benjamin eu me detive em “A palavra vermelha gênero tipo da família das rosáceas”).
de Hölderlin”, para considerá-lo, “mais do que uma física, uma verda- Depois de assinalar que a “equivalência na diferença é o problema
deira metafísica do traduzir”.17 Correlatamente, ao de Roman Jakobson cardinal da linguagem e a preocupação central da linguística”, Jakobson,
caberia definir – e eu o venho fazendo pelo menos desde 197518 – como deslocando-se para o ponto de vista do “receptor” ou “intérprete” das
uma física da operação tradutora, estrategicamente delineada a partir dos mensagens linguísticas (o pólo do “interpretante” no triângulo semió-
pressupostos da poética estrutural jakobsoniana, ou seja, tendo como tico de Peirce), coloca as “atividades translatícias” (translating activities)
embasamento a distinção entre “funções da linguagem”, que o grande em posição focal no que concerne à “ciência linguística”. Ao dogma da
linguista russo desenvolveu progressivamente desde a década de 1920. intraduzibilidade, Jakobson responde com a inevitabilidade implícita do
Recorde-se sua diferenciação entre “linguagem poética” e “linguagem exercício da “operação metalinguística” na própria “faculdade de falar
emotiva” no livro de 1923 sobre o verso tcheco, ponto de partida para uma dada linguagem” e, reportando-se ao físico Niels Bohr, afirma: “Toda
a formulação mais cabal da questão, no ensaio “Linguistics and Poetics” experiência cognitiva pode ser traduzida (is conveyable) e classificada em
(“Linguística e poética”), 19
um dos mais famosos do autor e centro das qualquer língua existente”. Evidentemente, esta possibilidade principal da
discussões em torno da poética imanente. tradução está ligada ao exercício da “função referencial” ou “cognitiva” da
A leitura dos dois estudos fundamentais que acabo de mencio- linguagem. É o limite que Jakobson impõe à sua anterior asserção:
nar, um procedente da área de filosofia da linguagem, outro do campo Em sua função cognitiva, a linguagem depende muito pouco de sua
da ciência linguística aplicada à poética, teve para mim o sabor de um configuração gramatical (grammatical pattern), porque a definição
de nossa experiência está numa relação complementar com as
verdadeiro hasard objectif, de uma surpreendente confirmação (por operações metalingüísticas; o nível cognitivo da linguagem não
antecipação) daquilo que minha prática de tradutor de poesia (uma prá- somente admite, mas exige a recodificação interpretativa (recoding
tica radical, compartilhada por Augusto de Campos e Décio Pignatari) me interpretation), isto é, a tradução.20

levara a excogitar no plano reflexivo da teoria. donde a conclusão (válida para este primeiro plano de observação):
“Qualquer hipótese de dados cognitivos inefáveis ou intraduzíveis seria
Jakobson: a física da tradução uma contradição em termos”.
O núcleo de ensaio de Jakobson está em considerar o significado Mudando de plano de reflexão, Jakobson passa então a considerar
(meaning) como um “fato semiótico” (semiotic fact) e, na esteira de o caso da poesia (hipótese privilegiada, embora não exclusiva, do exer-
Peirce, em definir o significado de um signo linguístico como sua “tradu- cício da função poética da linguagem, conforme estabelecera em seu
ção” (translation) em outro ou outros signos alternativos. (Geralmente, célebre ensaio sobre esta questão).
na medida em que se parta da noção translatícia básica de glosa ou
Nos gracejos (jest), nos sonhos, na magia, enfim, naquilo que se
verbete de dicionário, ocorrerá uma expansão elucidativa do signo poderia chamar a mitologia verbal de todos os dias, e sobretudo
na poesia, as categorias gramaticais carreiam um teor semântico
17
CAMPOS. A arte no horizonte do provável, p. 95. elevado. Nessas condições, a questão da tradução torna-se muito
18
Ano em que ministrei, no 1° semestre, o meu primeiro curso, em nível de pós graduação (até onde
mais complexa e controvertida.21
sei, o primeiro sobre este assunto e nesse nível em universidade brasileira) de “Estética da tradução”
(então como disciplina optativa do antigo Programa de Pós-Graduação em Teoria Literária, hoje
Comunicação e Semiótica). O programa, na Parte I (Propostas Teóricas), dividia-se em três seções:
1. A lógica da tradução (tradução referencial e tradução poética); 2. A física da tradução (a tradução
como produção de informação estética); 3. A metafísica da tradução (Walter Benjamin). 20
JAKOBSON. Lingüística e comunicação, p. 70.
19
JAKOBSON. Lingüística e comunicação, p. 118. 21
JAKOBSON. Lingüística e comunicação, p. 70.

18 Da transcriação: poética e semiótica da operação tradutora Da transcriação: poética e semiótica da operação tradutora 19
Não a forma vazia, mas exatamente a semantização das componentes de recurso constitutivo da sequência”),24 que é, assim, transferido para
formais da linguagem, é o traço distintivo da operação tradutora, no caso o campo operacional do dispositivo translatício, sempre que se trate de
da poesia e nos que a ele se assemelham. Darei um exemplo. Freud, em poesia, ou, por extensão, de “informação estética”.
seu estudo sobre o chiste e suas relações com o inconsciente, salienta um Eu reencontrava, portanto, numa outra articulação dialética,
Witz (‘chiste’) paradigmal de Schleiermacher, o filósofo, teólogo e herme- aquele mesmo problema que me servira de ponto de partida no ensaio
neuta alemão ligado aos românticos do Athenaeum: de 1962: o dogma da intraduzibilidade da poesia. E via, reciprocamente,
Eifersucht ist eine Leidenschaft, die mit Eifer sucht, was Leiden engendrar-se um corolário semelhante ao que eu havia extraído. A
schafft. asserção da possibilidade mesma dessa (paradoxal) operação tradutora,
O ciúme é uma paixão que, com avidez, procura o que causa a desde que entendida como “transposição criativa”: ou seja, nos meus
dor.22
termos, como “re-criação”, como “trans-criação”.
A transcriação do mesmo trecho poderia ser:
Benjamin: a metafísica da tradução
O ciúme causa uma dor, que assume, com gume, o seu
causador. Salientarei, aqui, apenas os pontos mais relevantes de “Die Aufgabe
des Übersetzers” (“A tarefa do tradutor”) em relação ao meu ensaio de
Daí porque Jakobson recorre mais uma vez, taticamente, ao 1962, “Da tradução como criação e como crítica”. Estes pontos, de certa
dogma da intraduzibilidade (que ele havia previamente desconstituído maneira, já foram postos por mim em relevo no estudo “A palavra ver-
no plano cognitivo), para reafirmá-lo agora, declarando-o pertinente em melha de Hölderlin”, onde trato exatamente das transcriações sofoclia-
relação à poesia: nas do poeta suábio. Benjamin as considera “arquétipos de sua forma”
Em poesia, as equações verbais tornam-se princípio constitutivo do (Urbilder ihrer Form) e afirma que estariam para outras traduções dos
texto. As categorias sintáticas e morfológicas, as raízes, os afixos, os mesmos textos, ainda as mais perfeitas dentre essas, como o “arqué-
fonemas e seus componentes (traços distintivos) – em suma, todos
tipo para o protótipo” (als das Urbild zum Vorbild), como – também se
os constituintes do código verbal – são confrontados, justapostos,
colocados em relação de contigüidade de acordo com o princípio poderia dizer – “a arquifigura para a protofigura”, supondo a distinção
de similaridade e contraste, e transmitem assim uma significação entre um arquétipo ideal, irrepetível, e um paradigma ou tipo modelar
própria. [...] O trocadilho, ou, para empregar um termo mais
dele decorrente, já que Urbild também pode significar ‘original’ e Vorbild
erudito, e talvez mais preciso, a paronomásia, reina sobre a arte
poética; quer esta dominação seja absoluta ou limitada, a poesia, ‘modelo’, ‘exemplo’; na última linha do ensaio benjaminiano a palavra
por definição, é intraduzível (poetry by definition is untranslatable). Urbild recorre e é definida, em chave “platonizante”, como o “ideal de
Só é possível a transposição criativa (creative transposition)...23
toda tradução” (Ideal aller Übersetzung).
É o conhecido teorema jakobsoniano da função poética vista como “proje- O lugar exponencial conferido por Walter Benjamin às traduções
ção do paradigma no sintagma” (“a equivalência é promovida à condição de Hölderlin (desacreditadas pelo Oitocentos alemão, por vozes tão emi-
nentes como as de Goethe, Schiller e Voss, este último o prestigiado
tradutor de Homero) deriva da concepção benjaminiana da “tradução
Aqui cabe uma remissão ao ensaio de Flora Süssekind, “Friedrich Schlegel – o chiste e suas relações
22
como forma” (Übersetzung ist eine Form; die Übersetzung eine eigene
com o Romantismo”, no qual comparece a citação de Schleiermacher, seguida de observação onde é
ressaltado o “jogo irônico com a harmonímia”. Não obstante, a ensaísta traduziu o Witz do romântico Form ist). Entenda-se: como uma forma literária dotada de conteúdo
Iean por “O ciúme é uma paixão que, com avidez, procura o que causa a dor”, não se preocupando,
evidentemente, com a sua reconfiguração poética.
JAKOBSON.
23
Lingüística e comunicação, p. 72. 24
JAKOBSON. Lingüística e comunicação, p. 130.

20 Da transcriação: poética e semiótica da operação tradutora Da transcriação: poética e semiótica da operação tradutora 21
tipológico específico; uma “forma artística” (Kunstform), como a lírica à má tradução: “uma transmissão inexata de um conteúdo inessencial”
é uma forma e, para o primeiro Lukács, que influenciou Benjamin, o (eine ungenaue Übermittlung eines unwesentlichen Inhalts).
“ensaio” – este “poema intelectual” (Schlegel) – também o é. Só que A inversão do propósito tradicionalmente atribuído à tradução
a “lei” (Gesetz) dessa “forma” singular – a lei que lhe dá significação (enquanto tradução “cognitiva” ou “referencial” de um pressuposto
(Bedeutung) enquanto “forma” – encontra-se no respectivo “original” significado denotativo) produz outra inversão: a da ideia ingênua da
(em outra “forma”, portanto). A “essência” (Wesen) da “forma” tradução “tradução servil”, já que a prática da má tradução (de poesia) persis-
inere ao original sob a espécie da “translatibilidade” (Übersetzbarkeit) tirá enquanto permanecer o credo de que o escopo do traduzir seja
deste; esta translatibilidade essencial é “necessária” (apodítica, no “servir ao leitor” (dem Leser zu deinen). A “suspensão” da consideração
sentido kantiano), pois através dela – e somente assim – se manifesta do conteúdo parece-me, no caso, uma típica operação de Aufhebung (no
uma determinada dimensão de significância inerente a certas obras de sentido hegeliano, de negação dialética, que não implica nulificação ou
arte verbal (Dichtwerke). Para captá-la, será preciso optar por uma abolição), já que, mais adiante, extremando a sua desconstituição do
operação tradutora regida por uma noção de “fidelidade” (Treue) muito dogma da servilidade da tradução, Benjamin atribui ao original a tarefa
mais voltada – até ao estranhamento – para a “redoação da forma” de preconfigurar, de ordenar o conteúdo para efeito da tradução, permi-
(Treue in der Wiedergabe der Form), do que submetida ao critério tradi- tindo, assim, que esta, desonerada de um encargo que a desviaria de seu
cional de fidelidade à “restituição do sentido” (Sinnwiedergabe). A insis- verdadeiro fim (“a expressão da mais íntima relação recíproca entre as
tência, aparentemente tautológica, nesse aspecto “formal” da tradução línguas”), possa, afinal, perseguir essa meta, que só se deixa vislumbrar
se explica (a meu ver, como no caso de Jakobson) por uma estratégia através do que eu chamo transcriação, vale dizer, de uma redoação das
de “inversão”. formas significantes em convergência e tendendo à mútua complemen-
tação. De certo modo, o original é que, nessa “transvaloração” benjami-
Obra de arte e comunicação niana, passa a “servir” à tradução:
De fato, Benjamin começa por questionar o caráter “comunicativo” da
[...] a tradução deve, na mais larga medida, libertar-se do
“obra de arte” (Kunstwerk) ou da “forma artística” (Kunstform). Excluindo, sentido (von Sinn), de propósito (Absicht) de comunicar algo (etwas
a priori, a utilidade do relacionamento a um “público específico” (auf ein mitzuteilen); nisto o original é para ela essencial (wesentlich) ape-
nas na medida em que já tiver exonerado (enthoben) o tradutor e
bestimmtes Publikum) para o conhecimento de uma ou de outra, Benjamin
sua obra do afã (Mühe) e da ordenação (Ordnung) do comunicável
põe entre parênteses o problema da “recepção” (Aufnehmung) e, assim, (des Mitzuteilenden, daquilo que haveria para comunicar).25
suspende, correlatamente, a questão da comunicação. Afirma quanto à
obra de arte verbal (Dichtung): “sua essência não é a comunicação, não é Esta já incipiente “dialética da negatividade”, esta maneira de ver o
a asserção” (Ihr Wesentliches ist nicht Mitteilung, nicht Aussage). A par- problema “ao revés” ou “pelo negativo” (negativ gewendet), permite a
tir desta colocação principal, passa a definir como “características da má Benjamin restituir à tradução de poesia a sua verdadeira (“essencial”)
tradução” (de poesia): a) a inessencialidade (que decorre da preocupação tarefa, dirigindo-a ao escopo para o qual está teleologicamente (zweck-
com o conteúdo); b) a inexatidão (que decorre da inapreensão do que é mäßig) vocacionada: atestar (bewähren) a afinidade (Verwandtschaft)
essencial, daquilo que está além do conteúdo comunicável, ou seja, das entre as línguas. É um parentesco que não se põe no plano histórico ou
Unfassbare, Geheimnisvolle, Dichterische – o inaferrável, o misterioso, o etimológico, mas que, antes, diz respeito a um telos comum a todas as
“poético”). Donde a sua conclusão, em modo quase aforismático, quanto 25
BENJAMIN. Die Aufgabe des Übersetzers. [Todas as citações em português de publicações estrangeiras
são traduções de Haroldo de Campos, salvo quando especificado o contrário. N. do E.].

22 Da transcriação: poética e semiótica da operação tradutora Da transcriação: poética e semiótica da operação tradutora 23
línguas, à intencionalidade (intentio) oculta em cada uma delas e que as uma redenta linguagem universal, quando a tradução se ultimaria como
faz tender para a “língua pura” (die reine Sprache). inscrição interlinear, absolutizada na revelação da língua sagrada.

A língua pura A “metafísica do inefável”


“Libertar na sua própria aquela língua pura, que está desterrada na O aspecto “esotérico”, “platonizante”, “idealista” deste Benjamin pré-
língua estranha; liberar, através da “transpoetização” (Umdichtung), marxista, fascinado pela cabala e pela hermenêutica bíblica, tem levado
aquela língua que está cativa (gefangene) na obra, eis a tarefa do certos comentadores, como Jean-René Ladmiral, a indigitar a “metafísica
tradutor.”26 Correlatamente, a tarefa da fidelidade (die Aufgabe der treue) do inefável” que haveria em sua teoria da tradução, um pouco à maneira
consiste em emancipar o tradutor da preocupação com a transmissão do como Meschonnic acusou Jakobson de se render a uma “noção meta-
mero conteúdo referencial; a reivindicação de liberdade da tradução trans- física, não historicizada, de intraduzível”.28 Note-se que, em relação a
põe-se para um plano mais alto, o do resgate (Erlösung). Para cumprir Benjamin, Meschonnic limita-se a constatar o caráter ainda idealista de
sua missão, o tradutor tem, portanto, de operar um virtual “desoculta- sua metalinguagem, mas subscreve, por outro lado, a proposição benja-
mento” (uma “remissão”, no sentido salvífico da palavra, cara à termino- miniana da tarefa do tradutor como o “fazer ressoar” (ertönen) o modo de
logia benjaminiana deste ensaio):27 tem de pôr a manifesto o “modo de intencionar próprio de sua língua qual um harmônico, um complemento ao
re-presentação”, de “encenação” (Darstellungmodus), o “modo de inten- modo de intencionar da língua do original; acolhe a ideia benjaminiana da
cionar” (Art der intentio), o “modo de significar” (Art des Meinens) do tradução como estranhamento da língua do tradutor e alargamento das
original. Este modo de significar não se confunde com o que é “signi- fronteiras desta ao influxo do original; substitui, apenas, a língua pura
ficado” (das Germeinte), como o conteúdo denotativo comum a Brot e de Benjamin pela noção de écriture, como “lugar de interações históricas
pain, ou bread e pão, por exemplo (a “substância do conteúdo”, como entre línguas, culturas, poéticas”; em outro passo, Benjamin e a imagem
se poderia dizer com Hjelmslev). Diz respeito, antes, ao que já desig- da tradução interlinear, virtualmente embutida na absolutização do texto
nei por forma significante (um conceito para o entendimento do qual sacro, são invocados por Meschonnic em abono da concepção da tradu-
concorreriam ambos os aspectos formais discernidos por Hjelmslev: tanto ção como “prática de uma teoria do significante”, como “produção de um
a “forma da expressão” como a “forma do conteúdo”). Sendo a intentio ou texto” e não “paráfrase, significado prévio”.
modo de significar diferente nas várias línguas, a língua pura, na concep- Mas não é propriamente das contradições de Meschonnic (que ele
ção benjaminiana, resultaria da harmonia, num ponto messiânico (o fim sabe tornar fecundas em mais de um momento de suas proposições sobre
messiânico da história, a culminação do “sacro evoluir” das línguas) de o traduzir) que me pretendo ocupar, e sim de como desinvestir a pioneira
todas essas intencionalidades das línguas isoladas, de sua integração, de teoria benjaminiana de sua aura sacralizante, para reconhecer-lhe a ope-
sua convergente complementaridade (numa outra terminologia, podería- racionalidade enquanto prática teórica, já que Benjamin, ele próprio, é um
mos dizer que a língua pura seria o “significado de conotação” visado pelo pensador-escritor-tradutor (“o maior estilista da língua alemã moderna”,
“modo de intencionar” de todas as línguas isoladas). Este seria o momento segundo um depoimento de Max Bense)29 e que sua teoria aponta neces-
paradisíaco da “verdade” das línguas, de sua transparência na plenitude de sariamente para um exercício radical da tradução como forma de “trans-
poetização” (Umdichtung).
26
BENJAMIN. Die Aufgabe des Übersetzers.
27
Ver, a propósito, meu artigo “Para além do princípio da saudade”, bem como o estudo de Jeanne Marie
Gagnebin “Origem da alegoria, alegoria da origem”; da mesma autora, Zur Geschichtsphilosophie 28
Ver Jean-René Ladmiral, “Entre les lignes, entre les langues”, in Revue d’Esthétique, nouvelle série, n.
Walter Benjamins e “L’Allégorie, face souffrante du monde”; também Winfreid Menninghaus, Walter 1 (número especial dedicado a Walter Benjamin); Henri Meschonnic. Pour la poétique – II.
Benjamins Theorie der Sprachmagie. 29
Ver Max Bense, “A fantasia racional” (entrevista concedida a Haroldo de Campos), Pequena estética.

24 Da transcriação: poética e semiótica da operação tradutora Da transcriação: poética e semiótica da operação tradutora 25
O “lugar semiótico” da operação tradutora este intracódigo fosse intencional ou tendencialmente comum ao original
Tenho para mim que o jogo conceitual benjaminiano é um jogo irônico e ao texto resultante da tradução; texto que o tradutor constrói parale-
(não por acaso o tema romântico da ironia reponta no seu ensaio, jus- lamente (paramorficamente) ao original, depois de desconstruí-lo num
tamente quando ele assinala que a tradução transplanta o original para primeiro momento metalinguístico. A tradução opera, assim, graças a uma
“um domínio mais definitivo da linguagem”). Sob a roupagem rabínica de deslocação reconfiguradora, a projetada reconvergência das divergências
sua metafísica do traduzir pode-se depreender nitidamente uma física, (nos limites do campo do possível, porque sua operação é “provisória”,
uma pragmática da tradução. Esta física pode, hoje, ser reencontrada vale dizer, “histórica”, num sentido laico que substitua o “fim messiânico”
in nuce nos concisos teoremas jakobsonianos sobre a tradução (antes dos tempos pela noção de câmbio e fusão de horizontes). Uma prática,
examinados), aos quais, por seu turno, os relampagueantes filosofemas ao mesmo tempo desfiguradora e transfiguradora.
benjaminianos darão uma perspectiva de vertigem.
Basta considerarmos a língua pura como o lugar semiótico da Contra a teoria da cópia
operação tradutora e a “remissão” (Erlösung) desocultadora da Art der Walter Benjamin rejeita a teoria da “cópia” (Abbildung, ‘afiguração’, ‘figu-
intentio ou des Meinens (modo de “tender para” ou de “intencionar”) ração a partir de’, ‘retrato’, ‘imitação’), que implicaria a preocupação de
como o exercício metalinguístico que, aplicado ao texto original, nele “assemelhar-se” ou “assimilar-se” (Sich ähnlich zu machen) ao sentido
desvela o modus operandi da função poética jakobsoniana (aquela que (Sinn) do original. Propõe, ao invés, uma Anbildung (uma ‘figuração junto’,
promove a palpabilidade, a materialidade dos signos) qual se fora um ‘paralela’, uma ‘parafiguração’) do “modo de significar” (Art des Meinens)
“intracódigo” exportável de língua a língua, “ex-traditável” de uma a desse original. Isto tem a ver com a “afinidade” (Verwandtschaft), com
outra: uma coreografia de correspondências e divergências, regida não o que se poderia denominar contiguidade semiótica: aquela tensão de
tanto pela complementaridade harmônico-paradisíaca, mas pela “lógica intencionalidade para o telos da língua pura, como, na metáfora benja-
do suplemento” (aquela que envolve a différance no sentido de Derrida). miniana, os fragmentos dispersos de um mesmo vaso se compõem, se
Benjamin fala na complementaridade das intencionalidades como um justapõem no seu todo maior, adequando-se uns aos outros nos mínimos
ergänzen (um complementar que pode ser também um suplementar). E detalhes, sem que para isto devam ser exatamente similares. A mera
entende, ainda, a tradução como “um modo até certo ponto provisório similaridade (superficial, relativa ao significado comunicável, inessencial)
de pôr em discussão (auseinandersetzen) a estranheza (Fremdheit) das é tão vaga como seria inobjetiva para uma teoria do conhecimento a
línguas”. A hipóstase messiânica da língua pura, como sítio de conver- noção estreita de “cópia do real”. O tradutor traduz não o poema (seu
gência de todas essas diferenças complementares na presença totaliza- conteúdo aparente), mas o modus operandi da função poética no poema,
dora da língua da verdade (que as absorveria e resolveria em sua pleni- liberando na tradução o que nesse poema há de mais íntimo, sua intentio
tude “sacra”), pode aqui ser substituída pela hipótese heurística de uma “intra-e-intersemiótica”: aquilo que no poema é “linguagem”, não mera-
“forma semiótica universal”, concretizável diferencialmente nas diversas mente “língua”, para servir-me aqui de uma distinção operacional cara a
línguas e em cada poema, cujo desvelamento (num sentido operacional, Décio Pignatari.
não teológico) seria a primeira instância da “transposição criativa” de A exatidão (Genauigkeit) no traduzir se regula não por essa busca
Jakobson (do que Benjamin denomina Umdichtung; do que eu entendo imprecisa de similaridade no plano do significado, mas pelo resgate da afi-
por transcriação). O tradutor, por assim dizer, “desbabeliza” o stratum nidade. O termo Verwandtschaft, de prestígio goetheano, significa ‘paren-
semiótico das línguas interiorizado nos poemas, procedendo como se tesco’, mas também ‘afinidade’ no sentido químico (Wahlverwandtschaften,
(ficção heurística, verificável casuisticamente na prática experimental) ‘afinidades eletivas’, seriam aquelas afinidades químicas que destroem um

26 Da transcriação: poética e semiótica da operação tradutora Da transcriação: poética e semiótica da operação tradutora 27
composto em proveito de novas combinações). Em Verwandtschaft ecoam bewegen zu lassen) pelo original, em lugar de preservá-la do choque;
verwandeln, Verwandlung (‘transformar’, ‘transmudar’, ‘transformação’, deve helenizar o alemão ao invés de germanizar o grego, por exemplo;30
‘metamorfose’). Por isto Benjamin pode afirmar, a despeito do apa- 2) já que a “lei” da tradução como forma encontra-se nessa outra forma
rente paradoxo, que a tradução, “segundo sua essência”, não se propõe literária que é o original, uma tradução que corresponda “à essência de
à mera “assemelhação” (Ähnlichkeit) com relação ao original, uma vez sua forma específica” (dem Wesen dieser Form) será aferida pela con-
que o próprio original, considerado do ponto de vista de seu “perviver” dição de traduzibilidade do original (uma propriedade ontológica deste,
(Fortleben), é mutável, envolve as ideias de “transformação” (Wandlung) segundo Benjamin). A noção de traduzibilidade, na teoria benjaminiana,
e “renovação” (Erneuerung). Assim também “não constitui o maior refoge à ideia convencional, para incluir-se naquela mesma série de con-
elogio de uma tradução, sobretudo na época de sua produção, dizer que ceitos disruptores que afrontam a teoria tradicional: trata-se de uma tra-
ela se deixa ler como um original de sua própria língua”, uma vez que, duzibilidade a ser mensurada segundo o “modo de formar” do original,
para Benjamin, a operação tradutora deve ser “estranhante”, ao invés de segundo a densidade deste e não segundo o seu significado no plano da
acomodatícia, naturalizadora, neutra. Tradução quer dizer transmutação. comunicação. Assim, “quanto menores sejam o valor (Wert) e a digni-
Os conceitos de “fidelidade” (Treue) e “liberdade” (Freiheit) são, dade (Würde) da língua do original, quanto mais elevado seja o seu teor
como já vimos, deslocados de sua acepção na teoria tradicional. Ao invés de comunicação (Mitteilung), tanto menos ele tem a oferecer à tradu-
da “fidelidade” entendida como literalidade servil em função da resti- ção”; no limite, o “excesso de peso” (Übergewicht) do sentido, ao invés
tuição do sentido, agora a fidelidade estará antes numa “redoação da de “servir de alavanca” para uma operação tradutora “plena de forma”
forma” (Treue in der Wiedergabe der Form) que torna mais dificultosa, (einer formvellen Übersetzung), acaba por frustrá-la; por outro lado,
precisamente, esta reprodução chã de um sentido superficial. Tarefa da “quanto mais altamente elaborada (geartet) tenha sido uma obra, mais
fidelidade será exatamente a liberdade, entendida porém como “emanci- ela permanecerá traduzível, ainda que no mais fugidio contacto com o
pação” de um “sentido comunicacional”. Liberdade que é uma “libertação” seu sentido”.
(Befreiung) e uma “redenção” (Erlösung). A função semiótica da tradução Nesta altura da exposição: a) reencontro-me com Jakobson e
(nesta minha releitura operacional da teoria benjaminiana) será, portanto, com Walter Benjamin na concepção da tradução de poesia como trans-
uma função de resgate do “modo de re-presentação” (Darstellungmodus) criação, creative transposition, Umdichtung (“transpoetização”); b) na
do original, que é também, para usar de uma expressão de Umberto caracterização da tradução poética por seu modus operandi, não como
Eco, um “modo de formar”. Isto é obtido, sobretudo, – afirma provo- mera tradução do significado superficial, mas como uma prática “para-
cativamente Benjamin – pela “literalidade na transposição da sintaxe” mórfica” voltada para o redesenho da “função poética” (Jakobson), do
(Wörtlichkeit in der Übertragung der Syntax), que – e o caso das “mons- Darstellungmodus, “modo de re-presentar” (ou de “encenar”) a intentio
truosas” traduções sofoclianas de Hölderlin é um exemplo – arruína toda do original; esta operação, em Benjamin, corresponde a uma “parafigu-
“restituição do sentido” (Sinnwiedergabe), ameaçando com a precipita- ração” (Anbildung), capaz de captar as “afinidades eletivas” entre origi-
ção no ininteligível (ins Unverständliche), com o emuramento do tradutor nal e texto traduzido através de uma hiperfidelidade estranhante, melhor
no silêncio, o grande perigo que ronda a transpoetização na concepção definível como “fidelidade à redoação da forma” (Treue in der Wiedergabe
benjaminiana. der Form); c) finalmente, na teoria benjaminiana vejo ratificada por ante-
Dois preceitos podem ser assim extraídos para a prática do tradu- cipação minha concepção da “matriz aberta” do original, como uma nova
zir: 1) o tradutor (segundo a lição de Rudolph Pannwitz) deve “estranhar”
sua língua, alargá-la, “deixá-la ser violentamente sacudida” (gewaltig 30
Ver PANNWITZ. Die Krisis der europaeischen Kultur. Ver ainda CAMPOS. A palavra vermelha de Hölderlin.

28 Da transcriação: poética e semiótica da operação tradutora Da transcriação: poética e semiótica da operação tradutora 29
maneira, deliberadamente paradoxal, de encarar a gradação de transla- Da tradução como criação e como crítica
tibilidade dos textos poéticos (“quanto mais inçado de dificuldades esse
texto, mais recriável, mais sedutor enquanto possibilidade aberta de
recriação”, – escrevi em meu ensaio de 1962).

O ensaísta Albrecht Fabri, que foi por algum tempo professor da Escola
Superior da Forma, Ulm, Alemanha, escreveu para a revista Augenblick,
umas notas sobre o problema da linguagem artística que denominou
“Preliminares a uma teoria da literatura”. Nesse trabalho, o autor desen-
volve a tese de que “a essência da arte é a tautologia”, pois as obras artís-
ticas “não significam, mas são”. Na arte, acrescenta, “é impossível dis-
tinguir entre representação e representado”. Detendo-se especificamente
sobre a linguagem literária, sustenta que o próprio desta é a “sentença
absoluta”, aquela “que não tem outro conteúdo senão sua estrutura”,
a “que não é outra coisa senão o seu próprio instrumento”. Essa “sen-
tença absoluta” ou “perfeita”, por isso mesmo, continua Fabri, não pode
ser traduzida, pois “a tradução supõe a possibilidade de se separar sen-
tido e palavra”. O lugar da tradução seria, assim, “a discrepância entre o
dito e o dito”. A tradução apontaria, para Fabri, o caráter menos perfeito
ou menos absoluto (menos estético, poder-se-ia dizer) da sentença, e é
nesse sentido que ele afirma que “toda tradução é crítica”, pois “nasce
da deficiência da sentença”, de sua insuficiência para valer por si mesma.
“Não se traduz o que é linguagem num texto, mas o que é não linguagem.”
“Tanto a possibilidade como a necessidade da tradução residem no fato de
que entre signo e significado impera a alienação.”
No mesmo número de Augenblick, enfrentando o problema e
transpondo-o em termos de sua nova estética, de base semiótica e teó-
rico-informativa, o filósofo e crítico Max Bense estabelece uma distinção
entre “informação documentária”, “informação semântica” e “informa- parativamente à estética, onde ela é mínima: “a diferença entre informa-
ção estética”. Informação, já o definira alhures, é todo processo de sig- ção estética máxima possível e informação estética de fato realizada é na
nos que exibe um grau de ordem. A informação documentária reproduz obra de arte sempre mínima”. A informação estética é, assim, inseparável
algo observável, é uma sentença empírica, uma sentença-registro. Por de sua realização, “sua essência, sua função estão vinculadas a seu ins-
exemplo (transporemos a exemplificação de Bense para uma situação de trumento, a sua realização singular”. De tudo isto, conclui:
nosso idioma): “A aranha tece a teia”. A informação semântica já trans- O total de informação de uma informação estética é em cada
cende a documentária, por isso que vai além do horizonte do observado, caso igual ao total de sua realização [donde], pelo menos em
princípio, sua intraduzibilidade [...] Em outra língua, será uma
acrescentando algo que em si mesmo não é observável, um elemento outra informação estética, ainda que seja igual semanticamente.
novo, como, por exemplo, o conceito de falso ou verdadeiro: “A aranha Disto decorre, ademais, que a informação estética não pode ser
tece a teia é uma proposição verdadeira”, eis uma informação semântica. semanticamente interpretada.2

A informação estética, por sua vez, transcende a semântica, no que con- Aqui Bense nos faz pensar em Sartre, na distinção entre poesia
cerne à “imprevisibilidade, à surpresa, à improbabilidade da ordenação (mot-chose) e prosa (mot-signe) em Situations II, quando, a propósito
de signos”. Assim, quando João Cabral de Melo Neto escreve: dos versos de Rimbaud:
O saisons! O châteaux!
A aranha passa a vida
Quelle âme est sans défaut,
Tecendo cortinados
Com o fio que fia Sartre escreve (para demonstrar a diferença quanto ao uso da palavra na
De seu cuspe privado1
poesia e na prosa respectivamente):
estamos diante de uma informação estética. Esta distinção é básica, Personne n’est interrogé; personne n’interroge: le poète est
permite a Bense desenvolver, a partir dela, o conceito de fragilidade da absent. Et l’interrogation ne comporte pas de réponse ou plutôt
elle est sa propre réponse. Est-ce donc une fausse interrogation?
informação estética, no qual residiria muito do fascínio da obra de arte.
Mais il serait absurde de croire que Rimbaud a “voulu dire”:
Enquanto a informação documentária e também a semântica admitem tout le monde a ses défauts. Comme disait Breton de Saint-Pol-
diversas codificações, podem ser transmitidas de várias maneiras (por Roux: “S’il avait voulu le dire, il l’aurait dit”. Et il n’a pas non
plus voulu dire autre chose. Il a fait une interrogation absolue; il
exemplo: “A aranha faz a teia”, “A teia é elaborada pela aranha”, “A teia
a conféré au beau mot d’âme une existence interrogative. Voilà
é uma secreção da aranha” etc.), a informação estética não pode ser l’interrogation devenue chose, comme l’angoisse du Tintoret
codificada senão pela forma em que foi transmitida pelo artista (Bense était devenue ciel jaune. Ce n’est plus une signification, c’est une
substance […]3
fala aqui da impossibilidade de uma “codificação estética”; seria talvez
mais exato dizer que a informação estética é igual à sua codificação ori- Realmente, o problema da intraduzibilidade da “sentença absoluta”
ginal). A fragilidade da informação estética é, portanto, máxima (de fato, de Fabri ou da informação estética de Bense se põe mais agudamente
qualquer alteração na sequência de signos verbais do texto transcrito de quando estamos diante de poesia, embora a dicotomia sartriana se mos-
João Cabral perturbaria sua realização estética, por pequena que fosse, tre artificial e insubsistente (pelo menos como critério absoluto), quando
de uma simples partícula). Na informação documentária e na semântica, se consideram obras de arte em prosa que conferem primacial importân-
prossegue Bense, a “redundância” (isto é, os elementos previsíveis, subs- cia ao tratamento da palavra como objeto, ficando, nesse sentido, ao lado
tituíveis, que podem ser reconstituídos por outra forma) é elevada, com- da poesia. Assim, por exemplo, o Joyce de Ulysses e Finnegans Wake, ou,

2
BENSE. Das Existenzproblem der Kunst.
1
De “Formas do nu”, em Terceira feira. 3
SARTRE. Situations II.

32 Da transcriação: poética e semiótica da operação tradutora Da tradução como criação e como crítica 33
entre nós, as Memórias sentimentais de João Miramar e o Serafim Ponte Em nosso tempo, o exemplo máximo de tradutor-recriador é,
Grande, de Oswald de Andrade; o Macunaíma, de Mário de Andrade; o sem dúvida, Ezra Pound. O caminho poético de Pound, a culminar na
Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa. Tais obras, tanto como a obra inconclusa Cantares, ainda em progresso, foi sempre pontilhado de
poesia (e mais do que muita poesia), postulariam a impossibilidade da aventuras de tradução, através das quais o poeta criticava o seu próprio
tradução, donde parecer-nos mais exato, para este e outros efeitos, instrumento linguístico, submetendo-o às mais variadas dicções, e esto-
substituir os conceitos de prosa e poesia pelo de texto. cava material para seus poemas em preparo. Pound desenvolveu, assim,
Admitida a tese da impossibilidade em princípio da tradução de toda uma teoria da tradução e toda uma reivindicação pela categoria
textos criativos, parece-nos que esta engendra o corolário da possibili- estética da tradução como criação. Em seu Literary Essays, escreve ele:
dade, também em princípio, da recriação desses textos. Teremos, como Uma grande época literária é talvez sempre uma grande época de
quer Bense, em outra língua, uma outra informação estética, autônoma, traduções, ou a segue [...] É bastante curioso que as Histórias da
Literatura Espanhola e Italiana sempre tomem em consideração os
mas ambas estarão ligadas entre si por uma relação de isomorfia: serão tradutores. As Histórias da Literatura Inglesa sempre deixam de
diferentes enquanto linguagem, mas, como os corpos isomorfos, cristali- lado a tradução – suponho que seja um complexo de inferioridade
zar-se-ão dentro de um mesmo sistema. – no entanto alguns dos melhores livros em inglês são traduções.5

Já Paulo Rónai, em sua preciosa Escola de tradutores, tratando do Depois do “Seafarer” e alguns outros fragmentos da primitiva lite-
problema, salientou que a demonstração da impossibilidade teórica da ratura anglo-saxônica, continua Pound,
tradução literária implica a assertiva de que tradução é arte. São suas a literatura inglesa viveu de tradução, foi alimentada pela tradução;
palavras: toda exuberância nova, todo novo impulso foram estimulados
pela tradução, toda assim chamada grande época é uma época
O objetivo de toda arte não é algo impossível? O poeta exprime (ou de tradutores, começando por Geoffrey Chaucer, Le Grand Trans-
quer exprimir) o inexprimível, o pintor reproduz o irreproduzível, o lateur, tradutor do Romance da Rosa, parafraseador de Virgílio e
estatuário fixa o infixável. Não é surpreendente, pois, que o tradu- Ovídio, condensador de velhas histórias que foi encontrar em latim,
tor se empenhe em traduzir o intraduzível.4 francês e italiano.6

Então, para nós, tradução de textos criativos será sempre recria- No mesmo livro, apontando as funções da crítica, arrola desde logo,
ção, ou criação paralela, autônoma porém recíproca. Quanto mais inçado como modalidade desta, a tradução. “Criticism by translation”. O que é
de dificuldades esse texto, mais recriável, mais sedutor enquanto pos- perfeitamente compreensível, quando se considera que, para Pound, as
sibilidade aberta de recriação. Numa tradução dessa natureza, não se duas funções da crítica são: 1) tentar teoricamente antecipar a criação;
traduz apenas o significado, traduz-se o próprio signo, ou seja, sua fisi- 2) a escolha; “ordenação geral e expurgo do que já foi feito; eliminação
calidade, sua materialidade mesma (propriedades sonoras, de imagética de repetições...”; [...] “a ordenação do conhecimento de modo que o
visual, enfim tudo aquilo que forma, segundo Charles Morris, a iconici- próximo homem (ou geração) possa o mais rapidamente encontrar-lhe
dade do signo estético, entendido por “signo icônico” aquele “que é de a parte viva e perca o menos tempo possível com questões obsoletas”.
certa maneira similar àquilo que ele denota”). O significado, o parâmetro É assim que Pound, animado desses propósitos, se lança à tarefa
semântico, será apenas e tão-somente a baliza demarcatória do lugar da de traduzir poemas chineses, peças nô japonesas (valendo-se dos manus-
empresa recriadora. Está-se pois no avesso da chamada tradução literal. critos do orientalista Ernest Fenollosa);7 trovadores provençais; Guido

5
POUND. Literary Essays, p. 34.
6
POUND. Literary Essays, p. 34-35.
4
RÓNAI. Escola de tradutores, p. 17. 7
Ver FENOLLOSA; POUND. The Noh Theatre of Japan.

34 Da transcriação: poética e semiótica da operação tradutora Da tradução como criação e como crítica 35
Cavalcanti, o pai da poesia toscana; simbolistas franceses (Laforgue e que o original autoriza em sua linha de invenção. Repara Hugh Kenner, na
ainda recentemente Rimbaud); reescreve Propércio em vers de société, introdução às Translations de Ezra Pound:
aproveitando suas experiências do manejo da logopeia (a dança do inte-
Ele não traduz palavras [...] ele precisa mesmo desviar-se das pala-
lecto entre as palavras) laforgueana e verte as Trachiniae de Sófocles vras, se elas obscurecem ou escorregam, ou se o seu próprio idioma
para um coloquial americano dinamizado a golpes de slang. Seu trabalho lhe falta [...] Se é certo que não traduz as palavras, permanece
como tradutor fiel à sequência poética de imagens do original, aos
é ao mesmo tempo crítico e pedagógico, pois, enquanto diversifica as
seus ritmos ou ao efeito produzido por seus ritmos, e ao seu tom.10
possibilidades de seu idioma poético, põe à disposição dos novos poetas
e amadores de poesia todo um repertório (muitas vezes insuspeitado Nisto, acrescenta Kenner, “ele presta homenagem ao conheci-
ou obscurecido pela rotinização do gosto acadêmico e do ensino da lite- mento que o seu predecessor tem de seu ofício”. E conclui:
ratura) de produtos poéticos básicos, reconsiderados e vivificados. Seu O trabalho que precede a tradução é, por consequência, em
lema é make it new: dar nova vida ao passado literário válido via tradu- primeiro lugar, crítico, no sentido poundiano da palavra crítica,
ção. Para entendê-lo melhor, basta recordarmos estas considerações de uma penetração intensa da mente do autor; em seguida, técnico,
no sentido poundiano da palavra técnica, uma projeção exata do
T. S. Eliot a respeito de uma tradução de Eurípedes de lavra do eminente conteúdo psíquico de alguém e, pois, das coisas em que a mente
helenista Prof. Murray: desse alguém se nutriu [...] Suas melhores traduções estão entre
a pedagogia de um lado e a expressão pessoal de outro, e par-
Necessitamos de uma digestão capaz de assimilar Homero e ticipam de ambas.11
Flaubert. Necessitamos de um cuidadoso estudo dos humanistas
e tradutores da Renascença, tal como Mr. Pound o iniciou. Neces- Quando Kenner fala em traduzir o “tom”, o tonus do original, a
sitamos de um olho capaz de ver o passado em seu lugar com suas
definidas diferenças em relação ao presente e, no entanto, tão cheio
propósito da empreitada de Ezra Pound, está usando as mesmas palavras
de vida que deverá parecer tão presente para nós como o próprio que empregou o poeta Boris Pasternak, outro grande tradutor e teórico
presente. Eis o olho criativo; e é porque o Prof. Murray não tem da tradução, a respeito do problema.
instinto criativo que ele deixa Eurípedes completamente morto.8
Entre nós [afirma Pasternak] Rilke é realmente desconhecido. As
É verdade que, muitas vezes, Pound “trai” a letra do original (para poucas tentativas que se fizeram para vertê-lo não foram felizes.
prestarmos tributo ao brocardo traduttori traditori); mas, ainda quando Não são os tradutores os culpados. Eles estão habituados a traduzir
o significado e não o tom do que é dito. Ora, aqui tudo é uma
o faz, e ainda quando o faz não por opção voluntária mas por equívoco
questão de tom.12
flagrante,9 consegue quase sempre – por uma espécie de milagrosa intui-
ção ou talvez de solidariedade maior com a dicção, com a Gestalt final da Não é à toa que Pasternak, dentro desta visada, que transcende
obra à qual adequou tecnicamente seu instrumento – ser fiel ao “espí- o caso particular de Rilke e pode ser estendida aos textos criativos em
rito”, ao “clima” particular da peça traduzida; acrescenta-lhe, como numa geral, se aplicou a traduzir Shakespeare com um acento inconfundivel-
contínua sedimentação de estratos criativos, efeitos novos ou variantes, mente pessoal e permitindo-se uma grande liberdade de reelaboração.13
Giuseppe Ungaretti, outro grande poeta-tradutor, faria algo de seme-
lhante, não já com o teatro, mas com os sonetos shakespearianos.
8
ELIOT. Eurípides y el Profesor Murray. Los poetas metafísicos y otros ensayos sobre teatro y religión.
9
Ver PORTEUS. Ezra Pound and His Chinese Character: a Radical Examination. “O que é notável a 10
KENNER. Introduction, p. 11-12.
respeito das traduções chinesas de Pound é que elas tão frequentemente consigam captar o 11
KENNER. Introduction, p. 12.
espírito do original, mesmo quando, como ocorre constantemente, vacilem diante do texto literal ou 12
PASTERNAK. Essai d’autobiographie.
manipulem imperitamente [...] Sua pseudo-sinologia liberta sua clarividência latente, assim como as 13
Sobre Pasternak tradutor de Shakespeare, à falta de um conhecimento direto dos textos, louvamo-nos
pseudociências dos antigos muitas vezes lhes davam uma visão supranormal”. nas abalizadas informações do Prof. Boris Schnaiderman.

36 Da transcriação: poética e semiótica da operação tradutora Da tradução como criação e como crítica 37
No Brasil, não nos parece que se possa falar no problema da tradu- teima do termo justo, seja para a reprodução de um matiz da água do mar,
ção criativa sem invocar os manes daquele que, entre nós, foi o primeiro seja para a nomeação de uma peça de armadura. Suas notas aos cantos
a propor e a praticar com empenho aquilo que se poderia chamar uma traduzidos dão uma ideia de seu cuidado em apanhar a vivência do texto
verdadeira teoria da tradução. Referimo-nos ao pré-romântico maranhense homérico, para depois transpô-lo em português, dentro das coordenadas
Manuel Odorico Mendes (1799-1864). Muita tinta tem corrido para depre- estéticas que elegera (veja-se a comparação que faz entre a jangada de
ciar o Odorico tradutor, para reprovar-lhe o preciosismo rebarbativo ou o Ulisses – Odisseia, Livro V – e a usada pelos jangadeiros do Ceará; ou a
mau gosto de seus compósitos vocabulares. Realmente, fazer um nega- passagem em que reporta o uso, no Maranhão, de um caldeirão de ferro
tive approach em relação a suas traduções é empresa fácil, de primeiro semelhante à trípode grega). Discute, e muitas vezes refuta duramente
impulso, e desde Sílvio Romero (que as considerava “monstruosidades”, as soluções dos tradutores que o precederam em outras línguas. Adota a
escritas em “português macarrônico”), quase não se tem feito outra coisa. técnica de interpolação, incorporando versos de outros poetas (Camões,
Mas difícil seria, porém, reconhecer que Odorico Mendes, admirável huma- Francisco Manoel de Melo, Antônio Ferreira, Filinto Elísio), quando entende
nista, soube desenvolver um sistema de tradução coerente e consistente, que certa passagem homérica pode ser vertida através desse expediente.
onde os seus vícios (numerosos, sem dúvida) são justamente os vícios É óbvio que sua prática não está à altura de sua teoria, que muitas de
de suas qualidades, quando não de sua época. Seu projeto de tradução suas soluções, de seus arrevesamentos sintáticos e, em especial, de seus
envolvia desde logo a ideia de síntese (reduziu, por exemplo, os 12.106 compósitos, são mesmo sesquipedais e inaceitáveis. Para isso também
versos da Odisseia a 9.302, segundo tábua comparativa que acompanha contribui o fator tempo. Assim, “velocípede Aquiles”, para “Aquiles de pés
a edição), seja para demonstrar que o português era capaz de tanta ou velozes” ou simplesmente “veloz”, soa caricato, quando hoje velocípede é
mais concisão do que o grego e o latim; seja para acomodar em decas- a denominação corriqueira de um veículo para crianças. Mas outros neo-
sílabos heroicos, brancos, os hexâmetros homéricos; seja para evitar as logismos, posto de lado o preconceito contra o maneirismo, que não pode
repetições e a monotonia que uma língua declinável, onde se pode jogar ter mais vez para a sensibilidade moderna, configurada por escritores
com as terminações diversas dos casos emprestando sonoridades novas como o Joyce das palavras-montagem ou o nosso Guimarães Rosa das
às mesmas palavras, ofereceria na sua transposição de plano para um inesgotáveis invenções vocabulares, são perfeitamente bem-sucedidos,
idioma não flexionado. Sobre este último aspecto, diz ele: “Se vertêsse- como Íris “alidourada”, “criniazul” Netuno, ou, para um rio, “amplofluente”
mos servilmente as repetições de Homero, deixaria a obra de ser aprazível ou, ainda, “bracicândida” para Helena, tudo dentro do contexto que cria
como a dele; a pior das infidelidades”.14 Procurou também reproduzir as e das regras do jogo que estabeleceu. Consegue muitas vezes reproduzir
“metáforas fixas”, os característicos epítetos homéricos, inventando com- aquela “melopeia” que, segundo Pound, tem seu auge no grego homérico:
pósitos em português, animado pelo exemplo de tradutores italianos de Purpúrea morte o imerge em noite escura,
Brilha puníceo e fresco entre a poeira,15
Homero – Monti e Pindemonte – e muitas vezes extremando o paradigma,
pois entendia a nossa língua “ainda mais afeita às palavras compostas e algo que teria o timbre de “poesia pura” para um ouvido bremondiano.
ainda mais ousada” do que o italiano. Preocupava-se em ser realista, em Em matéria de sonoridade, que já raia quase pelo “sonorismo” gra-
reproduzir exatamente a crueza de certas passagens dos cantos homéricos ças ao impressionante e ininterrupto desfile de onomásticos e patroními-
(sirva de exemplo o episódio da aparição de Ulisses a Nausícaa, e as críticas cos gregos, é de se ver a enumeração dos nomes dos capitães das naus
que tece aos eufemismos usados pelo tradutor francês Giguet). Tinha a helenas e de suas terras de origem nos versos 429 e seguintes do Livro

14
MENDES. Odisséia. 15
MENDES. A Ilíada de Homero.

38 Da transcriação: poética e semiótica da operação tradutora Da tradução como criação e como crítica 39
II da Ilíada, que Odorico esmerou-se em passar para o português, rebe- tura, que permitirá acompanhar os êxitos e fracassos (mais fracassos do
lando-se contra a ideia de saltar o trecho.16 É feliz na transcrição onoma- que êxitos talvez) do poeta na tarefa que se cometeu e no âmbito de sua
topaica do ruído do mar, uma constante incidência na epopeia homérica: linguagem de convenções e faturas especiais; pois, diversamente do que
Muge horríssona vaga e o mar reboa, pareceu a Sílvio Romero, o fato de o maranhense ter-se entregue a sua
Com sopro hórrido e ríspido encapelam faina a frio (“sem emoção”) e munido de um “sistema preconcebido” é,
O clamoroso pélago [...]17
a nosso ver, precisamente o que há de mais sedutor em sua empresa.
Uma pedra-de-toque, que Ezra Pound seleciona como exemplo de Os “maneirismos” de Chapman, seus “excessos de ornamento adi-
“melopeia intraduzível”, o verso: tivo”, seus “parênteses e inversões que tornam a leitura em muitos pon-
pará thina polyphlóisboio thalasses, tos difícil”, não impedem que Ezra Pound reconheça nele o “melhor tra-
dutor inglês de Homero”; nem o fato de que Pope esteja out of fashion
– “o ímpeto das ondas na praia e seu refluxo”, comenta Pound, 18
– faz boa inibe o mesmo Pound de apreciar-lhe os tópicos inventivos, embora res-
figura na versão de Odorico (admitida a hipérbase): salve também que essas traduções inglesas do grego, “cheias de belas
Pelas do mar fluctissonantes praias passagens”, “não oferecem uma satisfação prolongada ou cabal”. Serão
talvez as traduções de Odorico, como diz Ezra Pound das de Chapman
Tem o tradutor também, aqui e ali, seus bons momentos de “logo- e Pope, “traduções de interesse para especialistas”, mas nem por isso
peia”, como, por exemplo, vários do Livro XI da Odisseia. Este como sua presença pode ser negligenciada.20 Mormente quando se percebe, na
amostra (a descrição do espectro de Hércules no ato de disparar uma voz solitária de um outro maranhense, o revolucionário Sousândrade da
flecha): segunda geração romântica, nas insólitas criações vocabulares do autor
Cor da noite, ele ajusta a frecha ao nervo, do “Guesa errante”, o influxo de Odorico. O “Pai Rococó”, como o chama
Na ação de disparar, tétrico olhando.19 Sousândrade. Confira-se este trecho (gongorino-mallarmaico!) do Novo
Naturalmente, a leitura das traduções de Odorico é uma leitura Éden, onde Sousândrade persegue uma sonoridade grega:
bizarra e difícil (mais difícil que o original, opina, com alguma ironia, João
Alta amarela estrela brilhantíssima;
Ribeiro, que aliás o encarou compreensivamente). Mas na história cria- Cadentes sul-meteoros luminosos
tiva da poesia brasileira, uma história que se há de fazer, muitas vezes, Do mais divino pó de luz; véus ópalos
Abrindo ao oriente a homérea rododáctila
por versos, excertos de poemas, “pedras-de-toque”, antes que por poe-
Aurora!...21
mas inteiros, ele tem um lugar assegurado. E para quem se enfronhar na
sua teoria da tradução, exposta fragmentariamente nos comentários aos Quando os poetas concretos de São Paulo se propuseram uma
cantos traduzidos, essa leitura se transformará numa intrigante aven- tarefa de reformulação da poética brasileira vigente, em cujo mérito não
nos cabe entrar, mas que referimos aqui como algo que se postulou e que
16
Roland Barthes (Essais Critiques), escrevendo sobre o Mobile de Michel Butor, chama a atenção sobre
se procurou levar à prática, deram-se, ao longo de suas atividades de
a atualidade de que se podem revestir estas enumerações homéricas, verdadeiros “catálogos épicos”,
como Barthes as denomina, a testemunhar “a infinita apossibilidade da guerra e do poder”. Odorico teorização e de criação, a uma continuada tarefa de tradução. Fazendo-o,
andou bem, por mais de um título, ao censurar os tradutores que as omitiam de suas versões.
tinham presente justamente a didática decorrente da teoria e da prática
17
MENDES. A Ilíada de Homero.
18
Ezra Pound tentou duas adaptações deste verso: “[...] imaginary/ Audition of the phantasmal sea-
surge” (“Mauberley”) e “he lies by the poluphloisboious seacoast” (“Moeurs contemporaines”). “Pelas 20
POUND. Early Translators of Homer.
praias do mar polissonoras” é como gostaríamos de traduzir esta linha. 21
“Rhododáctylos Eos”, “a Aurora dos dedos cor-de-rosa”, é o epíteto cunhado por Homero. Odorico tem
19
MENDES. Odisséia. esta bela solução: “a dedirrósea Aurora”.

40 Da transcriação: poética e semiótica da operação tradutora Da tradução como criação e como crítica 41
poundiana da tradução e suas ideias quanto à função da crítica – e da “Traduzir é a maneira mais atenta de ler”. E comenta: “Precisamente esse
crítica via tradução – como “nutrimento do impulso” criador. Dentro desse desejo de ler com atenção, de penetrar melhor obras complexas e pro-
projeto, começaram por traduzir em equipe dezessete Cantares de Ezra fundas, é que é responsável por muitas versões modernas, inclusive essa
Pound, procurando reverter ao mestre moderno da arte da tradução de castelhana de Joyce.”23
poesia os critérios de tradução criativa que ele próprio defende em seus Os móveis primeiros do tradutor, que seja também poeta ou pro-
escritos. Em seguida, Augusto de Campos empreendeu a transposição sador, são a configuração de uma tradição ativa (daí não ser indiferente a
para o português de dez dos mais complexos poemas de e. e. cummings, escolha do texto a traduzir, mas sempre extremamente reveladora), um
o grande poeta norte-americano falecido em 1962, poemas onde inclusive exercício de intelecção e, através dele, uma operação de crítica ao vivo.
o dado “ótico” deveria ser como que traduzido, seja quanto à disposição Que disso tudo nasça uma pedagogia, não morta e obsoleta, em pose
tipográfica, seja quanto à fragmentação e às relações interlineares, o que de contrição e defunção, mas fecunda e estimulante, em ação, é uma de
implicava, por vezes, até mesmo a previsão do número de letras e das suas mais importantes consequências. Muito se fala, por exemplo, das
coincidências físicas (plásticas, acústicas) do material verbal a utilizar. influências joyceanas na obra de Guimarães Rosa. Nenhuma demonstra-
Além de outras experiências com textos “difíceis” (desde vanguardistas ção será, porém, segundo pensamos, mais eloquente e mais elucidativa
alemães e haicaístas japoneses até canções de Dante, trovadores pro- a respeito do que o simples cotejo de excertos do Grande sertão com
vençais e “metafísicos” ingleses), poetas do grupo (no caso Augusto de outros (recriados em português) do Finnegans Wake. Método ideogrâ-
Campos em colaboração com o autor destas linhas) tentaram recriar em mico. Crítica através da análise e comparação do material (via tradução).
português dez fragmentos do Finnegans Wake, vários dos quais não tra- A este trabalho se deu Augusto de Campos no seu estudo “Um lance de
duzidos em nenhum outro idioma (salvo erro, o romance-poema de Joyce ‘dês’ do Grande sertão”, de onde extraímos a seguinte amostra:
só foi, até a década de 1960, 22
vertido em curtos excertos, pouco nume-
Grande sertão: veredas
rosos, para o francês, o italiano, o alemão e o tcheco, nos dois primeiros
casos trabalho de equipe, com a participação do próprio Joyce). Destes E me cerro, aqui, mire e veja. Isto não é o de um relatar passagens
ensaios, feitos antes de mais nada com intelletto d’amore, com devoção e de sua vida, em toda admiração. Conto o que fui e vi, no levantar
do dia. Auroras. Cerro. O Senhor vê. Contei tudo. Agora estou aqui,
amor, pudemos retirar, pelo menos, um prolongado trato com o assunto, quase barranqueiro. Para a velhice vou, com ordem e trabalho. Sei
que nos autoriza a ter ponto de vista firmado sobre ele. de mim? Cumpro. O Rio de São Francisco – que de tão grande se
A tradução de poesia (ou prosa que a ela equivalha em problema- comparece – parece é um pau grosso, em pé, enorme... Amável o
senhor me ouviu, minha idéia confirmou: que o Diabo não existe.
ticidade) é antes de tudo uma vivência interior do mundo e da técnica do Pois não? O senhor é um homem soberano, circunspecto. Amigos
traduzido. Como que se desmonta e se remonta a máquina da criação, somos. Nonada. O diabo não há! É o que eu digo, se for... Existe
aquela fragílima beleza aparentemente intangível que nos oferece o pro- é homem humano. Travessia.24

duto acabado numa língua estranha. E que, no entanto, se revela susce-


Finnegans Wake (Finnicius revém)
tível de uma vivissecção implacável, que lhe revolve as entranhas, para
trazê-la novamente à luz num corpo linguístico diverso. Por isso mesmo a Sim, me vou indo. Oh amargo fim! Eu me escapulirei antes que
tradução é crítica. Paulo Rónai cita uma frase de José Salas Subirat, o tra- eles acordem. Eles não hão de ver. Nem saber. Nem sentir minha
falta. E é velha e velha é triste e velha é triste e em tédio que
dutor para espanhol do Ulysses de Joyce, que diz tudo a este propósito:

22
Entre os anos de 2000 e 2003, foi publicada, pela Ateliê Editorial, a tradução integral do romance de 23
RÓNAI. Escola de tradutores, p. 68.
Joyce, em cinco volumes, feita pelo poeta e tradutor Donaldo Schüler. (N. E.) 24
ROSA. Grande sertão: veredas, p. 571. (fim)

42 Da transcriação: poética e semiótica da operação tradutora Da tradução como criação e como crítica 43
eu volto a ti, frio pai, meu frio frenético pai, meu frio frenético Gdié on
feerível pai, até que a pura vista da mera aforma dele, as láguas bronzi zvon
e láguas dele, lamentando, me façam maremal lamasal e eu me ili granita gran.
lance, oh único, em teus braços. Ei-los que se levantam! Salva-
me de seus terrípertos tridentes! Dois mais. Um, dois morhomens
mais. Assim. Avelaval. Minhas folhas se foram. Todas. Uma resta. Literalmente, seria: “onde o ressoar do bronze ou a aresta de gra-
Arrasto-a comigo. Para lembrar-me de. Lff! Tão maviosa manhã, a nito”, – referência ao monumento que ainda não se erguera ao poeta morto.
nossa. Sim. Leva-me contigo, paizinho, como daquela vez na feira
Sem fugir do âmbito semântico, a fidelidade ao efeito desejado pelo poeta
de brinquedos! Se eu o vir desabar sobre mim agora, asas bran-
quiabertas, como se viesse de Arkanjos, eu pênsil que decairei a levou-nos a “traduzir” a aliteração, antes que o sentido. E ficou:
seus pés, Humil Dumilde, só para lauvá-los. Sim, fim. É lá. Primeiro. Onde
Passamos pela grama psst trás do arbusto para. Psquiz! Gaivota, o som do bronze
uma. Gaivotas. Longe gritos. Vindo, longe! Fim aqui. Nós após. Finn ou o grave granito.
équem! Toma. Bosculaveati, mememormim! Ati milênios fim. Lps.
As chaves para. Dadas! A via a uma a uma amém amor além a25 substituindo-se o substantivo aresta, faceta, pelo adjetivo grave, porém
mantido o esquema sonoro do original.
O autor do presente ensaio dedicou-se ao aprendizado do idioma De experiências como esta, se nada mais, decorre pelo menos a
russo com o escopo definido de traduzir Maiakóvski e outros poetas esla- convicção, que sustentamos agora, da impossibilidade do ensino de lite-
vos de vanguarda. Não nos cabe avaliar os primeiros resultados já obtidos ratura, em especial de poesia (e de prosa a ela equiparável pela pesquisa
nesse campo, mas reportar um experimento pessoal que poderá ter inte- formal), sem que se coloque o problema da amostragem e da crítica via
resse. Escolhemos para tentativa inicial o poema “Sierguiéiu lessiêninu” tradução. Sendo universal o patrimônio literário, não se poderá pensar no
(“A Sierguêi lessiênin”), escrito por Maiakóvski quando do suicídio daquele ensino estanque de uma literatura. Ora, nenhum trabalho teórico sobre
seu contemporâneo (e adversário de ideais estéticos). A propósito desse problemas de poesia, nenhuma estética da poesia será válida como peda-
poema, Maiakóvski desenvolve toda a sua teoria da composição poética, gogia ativa se não exibir imediatamente os materiais a que se refere, os
num estudo admirável – Como se fazem versos? – traduzido para o espa- padrões criativos (textos) que tem em mira. Se a tradução é uma forma
nhol por Lila Guerrero e para o francês por Elsa Triolet. Pois bem, o exercício privilegiada de leitura crítica, será através dela que se poderão conduzir
da tradução para a nossa língua desse poema, proposto como recriação, outros poetas, amadores e estudantes de literatura à penetração no âmago
através de equivalentes em português, de toda a elaboração formal (sonora, do texto artístico, nos seus mecanismos e engrenagens mais íntimos. A
conceitual, imagética) do original, permitiu-nos refazer, passo a passo, as estética da poesia é um tipo de “metalinguagem” cujo valor real só se
etapas criativas descritas por Maiakóvski em seu trabalho teórico, e, muta- pode aferir em relação à “linguagem-objeto” (o poema, o texto criativo
tis mutandis, repetir as operações de testagem e eleição de cada linha do enfim) sobre o qual discorre. Não é à toa, reciprocamente, que tantos
poema entre as várias possibilidades que se apresentavam à mente, tendo poetas, desde o exemplar ensaio de Edgar Allan Poe “The Philosophy of
em vista sempre o projeto e as exigências do texto maiakovskiano. Foi, Composition”, se preocuparam em traçar a gênese de seus poemas, em
para nós, a melhor “leitura” que poderíamos jamais ter feito do poema, mostrar que a criação poética pode ser objeto de análise racional, de
colocando-o à sua matriz teorética e revivendo a sua “praxis”, uma leitura abordagem metódica (uma abordagem que não exclui, de modo algum, a
verdadeiramente crítica. Um exemplo: há no original uma aliteração que intuição sensível, a descrição fenomenológica, antes se completa por elas).
merece especial ênfase nos comentários do poeta: O problema da tradução criativa só se resolve, em casos ideais, a
nosso ver, com o trabalho de equipe, juntando para um alvo comum lin-
25
JOYCE. Finnegans Wake, p. 627-628 (fim). Tradução de Augusto e Haroldo de Campos, em Panaroma
(Fragmentos do Finnegans Wake de James Joyce vertidos para o português). guistas e poetas iniciados na língua a ser traduzida. É preciso que a barreira

44 Da transcriação: poética e semiótica da operação tradutora Da tradução como criação e como crítica 45
entre artistas e professores de língua seja substituída por uma cooperação Tradução e reconfiguração do imaginário:
fértil, mas para esse fim é necessário que o artista (poeta ou prosador) tenha o tradutor como transfingidor
da tradução uma ideia correta, como labor altamente especializado, que
requer uma dedicação amorosa e pertinaz, e que, de sua parte, o professor
de língua tenha aquilo que Eliot chamou de “olho criativo”, isto é, não esteja
bitolado por preconceitos acadêmicos, mas sim encontre na colaboração
para a recriação de uma obra de arte verbal aquele júbilo particular que
vem de uma beleza não para a contemplação, mas de uma beleza para a
ação ou em ação. O dilema a que se refere Hugh Gordon Porteus ao com-
parar as versões de poemas chineses feitas pelo orientalista Arthur Waley
(certamente competentíssimas como fidelidade ao texto) e por Ezra Pound
(indubitavelmente exemplares como criação) –
Pound é antes de mais nada um poeta. Waley é antes de mais nada Uma preocupação norteadora, desde os meus primeiros trabalhos sobre
um sinólogo. Nos círculos sinológicos, sem dúvida, as incursões tradução criativa, tem sido equacionar a teoria da tradução do linguista
de Pound no chinês despertam apenas um esgar de desdém...
Por outro lado, as pessoas sensíveis às belezas sutis do verso
Roman Jakobson (“On Linguistic Aspects of Translation”, 1959) com a do
poundiano não podem tomar a sério a técnica poética de erro e filósofo Walter Benjamin (“Die Aufgabe des Übersetzers”, 1921-1923). A
acerto do Sr. Waley.26 primeira estaria para a segunda como “física” da tradução para a sua
– deve ser superado no projeto de um Laboratório de Textos, onde os dois “metafísica”. 1
aportes, o do linguista e o do artista, se completem e se integrem num Resumidamente, essa posição consiste em reinterpretar o conceito
labor de tradução competente como tal e válido como arte. Num produto de língua pura (die reine Sprache) da ontoteologia benjaminiana do tra-
que só deixe de ser fiel ao significado textual para ser inventiva, e que duzir (fascinada pela cabala e pela hermenêutica bíblica, mas também
seja inventiva na medida mesma em que transcenda, deliberadamente, a repassada explicitamente de ironia distanciadora), mediante a noção
fidelidade ao significado para conquistar uma lealdade maior ao espírito do jakobsoniana de função poética, central para a compreensão da ativi-
original transladado, ao próprio signo estético visto como entidade total, dade tradutória em poesia (e em textos que dela se aproximam); como
indivisa, na sua realidade material (no seu suporte físico, que muitas vezes uma transposição criativa, operacionalmente distinta da tradução pro-
deve tomar a dianteira nas preocupações do tradutor) e na sua carga con- priamente dita (adequada às mensagens com dominante cognitiva, de
ceitual. Nesse Laboratório de Textos, de cuja equipe participariam linguistas tipo “comunicativo-referencial”).
e artistas convidados, e que poderia cogitar de uma linha de publicações Para isso, tenho afirmado, bastaria considerar a língua pura, repen-
experimentais de textos recriados, poder-se-iam desenvolver, em nível sada em termos laicos, desinvestida de sua aura de restituição messiâ-
de seminário, atividades pedagógicas tais como a colaboração de alunos nica, como se fosse um “lugar semiótico”: espaço operatório da tradução
em equipes de tradução ou o acompanhamento por estes das etapas de em poesia. Benjamin escreve:
uma versão determinada, com as explicações correlatas do porquê das 1
Esta preocupação já se enuncia em meus estudos “Píndaro, hoje” e “A palavra vermelha de Hölderlin”,
soluções adotadas, opções, variantes etc. ambos de 1967, bem como a seção 3 “Função poética e informação estética” de “Comunicação na
poesia de vanguarda” (1968). Ficou também expressa no primeiro curso sobre “Estética da tradução”
que ministrei no programa de Estudos Pós-Graduados em Teoria Literária da PUC-SP (1º semestre de
26
PORTEUS. Ezra Pound and His Chinese Characters: a Radical Examination, p. 203-217. 1975).

46 Da transcriação: poética e semiótica da operação tradutora


A tarefa do tradutor é liberar (erlösen) na própria língua aquela
língua pura, que está exilada (gebannt) na estrangeira; libertar dos tempos da teoria benjaminiana do traduzir pela noção de câmbio e
(befreien) na transpoetização (Umdichtung) aquela língua que está fusão de horizontes, que percorre, como uma acidentada e não retilínea
cativa (gefangene) na obra.
marca d’água, todo processo de tradução da tradição.

Esse encargo “salvífico” (de Erlösung, ‘liberação’ ou ‘remissão’), que Tradição/comunicação/recepção


Benjamin comete ao tradutor, passa a ser visto como exercício metalin- Nesta tentativa de providenciar uma física para a metafísica da tradu-
guístico que, aplicado ao texto original, nele desvela (“resgata”) o modus ção benjaminiana, no sentido de operacionalizá-la, está em jogo, preci-
operandi (Darstellungsmodus, ‘modo de re-presentação’ ou de ‘encenação’ puamente, aquilo que Wolfgang Iser chama os fatores intratextuais (de
em termos benjaminianos) da função poética de Jakobson (aquela função estrutura interna ou imanente do texto).3
que promove a “autorreferencialidade”, a “palpabilidade”, a “materiali- De fato, Benjamin começa justamente por questionar o caráter
dade” dos signos linguísticos). O tradutor, por assim dizer, “desbabeliza” comunicativo da “obra de arte” (Kunstwerk). Exclui, a priori, a utilidade
o stratum semiótico das línguas interiorizado nos poemas, procedendo gnosiológica de “se lançar os olhos ao seu receptor”, tanto a um “público
como se (hipótese heurística, verificável casuisticamente na prática expe- específico”, quanto a um receptor presumidamente “ideal”. De acordo
rimental) esse “intracódigo” de “formas significantes” fosse intencional ou com esse primeiro Benjamin, pré-marxista, travestido ainda duma rou-
tendencialmente comum ao original e ao texto resultante da tradução. Ou pagem rabínica (da qual nunca se despojará de todo e da qual sempre
seja, o tradutor constrói paralelamente (paramorficamente) ao original saberá extrair uma inspiração fecunda), a “discussão teórico-estética” é
o texto de sua transcriação, depois de “desconstruir” esse original num obrigada, tão somente, “a pressupor a existência (Dasein) e a essência
primeiro momento metalinguístico.2 A tradução opera, portanto, graças a (Wesen) do homem em geral”, uma vez que a arte só toma como pressu-
uma deslocação reconfiguradora, a projetada reconvergência das diver- posição “a essência corpórea e espiritual do homem”, jamais sua “aten-
gências, ao “extraditar” o intracódigo de uma para outra língua, como se ção” (Aufmerksamkeit). Isto porque, na obra de arte verbal (Dichtung), o
na perseguição harmonizadora de um mesmo telos. Assim – voltando aos “essencial não é a comunicação (Mitteilung), não é a asserção (Aussage)”.
termos benjaminianos – a tradução: a) responderia à sua vocação última A partir dessa colocação principial, Benjamin passa a destacar as “caracte-
“para a expressão da mais íntima relação recíproca entre as línguas”; b) rísticas da má tradução” (de poesia): 1) a inessencialidade (que decorre da
corresponderia ao “grande motivo que domina seu trabalho”, qual seja, preocupação com o conteúdo comunicativo); 2) a inexatidão (que deriva
“uma integração das muitas línguas naquela única verdadeira”; c) per- da inapreensão daquilo que está além da transmissão do conteúdo num
mitiria acenar para aquele “reino predestinado e negado da culminação poema; vale dizer, a língua pura que está nele aprisionada). Daí a definição
reconciliada e plena das línguas”. Com a nota de que, numa abordagem benjaminiana da “má tradução”: “uma transmissão inexata de um conteúdo
laica, essa operação é “provisória” (“toda tradução é apenas um modo algo inessencial” (eine ungenaue Übermittlung eines unwesentlichen Inhalts).
provisório de discutir com a estranheza das línguas”, admite Benjamin, Benjamin inverte o propósito, tradicionalmente atribuído à tradu-
quando se restringe à dimensão humana do fazer tradutório). Provisório, ção, de “restituir o sentido”, suspendendo a consideração do “conteúdo”
aqui, quer dizer ‘histórico’, num sentido que substitui o “fim messiânico” (de sua transmissão, comunicação ou recepção). Com isto abala o próprio
dogma da “tradução servil”, negando que o escopo do traduzir (como tam-
2
Walter Benjamin rejeita a teoria da cópia e com ela o termo Abbildung (‘afiguração’, ‘figuração a
partir de’, ‘retrato’, ‘imitação’). Emprega para caracterizar a operação tradutória o termo Anbildung bém o escopo da obra original) seja “servir ao leitor” (dem Leser zu dienen).
(‘figuração junto’, ‘paralela’, ‘parafiguração’). Ao invés de um assemelhamento ao “sentido” (Sinn)
superficial do original, propõe uma “parafiguração” do “modo de significar” (Art des Meinens) desse
original, que tem a ver, antes, com a ideia de “afinidade” (Verwandtschaft). 3
Reporto-me ao importante ensaio: “O imaginário e os conceitos-chave de época”.

48 Da transcriação: poética e semiótica da operação tradutora Tradução e reconfiguração do imaginário: o tradutor como transfingidor 49
Mais adiante, extremando dialeticamente sua desconstituição do dogma da tor, melhor dizendo, um tradutor que lhe seja comensurado, que corres-
“servilidade” da atividade tradutória, Benjamin chega a atribuir ao original ponda à sua demanda, não impede que a traduzibilidade dela seja vista,
a tarefa de preconfigurar, de ordenar o conteúdo, para efeito de desonerar “apoditicamente”, como algo que lhe é ontologicamente inerente (para
o tradutor desse encargo e permitir-lhe concentrar-se na sua verdadeira Benjamin, o pré-requisito para uma tradução “plena de forma”, para uma
missão: atestar (bewähren) a afinidade (Verwandtschaft) entre as línguas; tradução que corresponda “à essência de sua forma”, está “no valor e no
uma afinidade não necessariamente histórica ou etimológica, mas que se vigor” da linguagem do original; quanto menor for o teor de comunicação
projeta no plano de intencionalidade (intentio) oculta em cada uma delas e desta, quanto maior for o grau de sua elaboração, “mais ela permanecerá
que as faz tender para convergência reconciliada na plenitude da língua pura. traduzível, ainda que no mais fugidio contacto com o seu sentido”).
Nesse gesto inicial de suspensão do valor de comunicação e de con- Todavia, Benjamin não deixa de dar relevo exatamente ao “perdu-
cepção da obra de arte e da tradução, há algo de tático. Trata-se, antes de rar” da obra, à sua “sobrevida” (Überleben), ao seu “perviver” (Fortleben).
mais nada, de promover como essencial para a tradução de poesia aquele Aqui se reintroduz a dimensão da história. A tradução vem depois da obra
“resíduo não comunicável”, aquele “cerne” (Kern) do original, que perma- e responde ao “estágio do seu perviver” (das Stadium ihres Fortlebens).
nece “intangível” (unberührbar) depois que se extrai dele todo seu teor Benjamin proclama como “tarefa” (Aufgabe) do filósofo “entender toda a
comunicativo. Ou seja, em outros termos, de estabelecer como tarefa do vida natural” (incluída nesta o “perviver das obras de arte”) como algo a
tradutor a “redoação” (Wiedergabe) em sua língua, não do mero sentido ser encarado da perspectiva “da vida mais ampla da história”. É o “desdo-
(Sinn) superficial, mas das formas significantes, como eu gostaria de dizer, brar” (Entfaltung) do original na recepção das gerações sucessivas, a “era
que estão cativas nas obras de arte como “germes da língua pura”, sob o da sua fama”, o fator que promove a tradução e nela se expande. O jovem
peso desse “sentido” meramente denotativo que lhes é alheio. Benjamin vê esse desenrolar ainda idealisticamente, como algo sempre
Se Benjamin não considera pertinente a noção de um leitor (seja renovado e “fundamentalmente eterno”. No entanto, as ideias de câmbio e
como “público específico”, seja mesmo como “receptor ideal”) para a dis- transformação estão muito presentes nessa sua historicização da “sobre-
cussão teórico-estética assim como para a própria arte, bastando-lhes a vida” da obra:
pressuposição da existência e da essência humanas, isto não quer dizer Em seu perviver o original se altera; e como poderia falar de
que o problema da recepção não tenha sido encarado, por outro ângulo, perviver, sem referir a “mudança” (Wandlung) e a “renovação”
em seu ensaio sobre a tradução. Benjamin parece de fato não interessado (Erneuerung) do que é vivo? Há um “pós-amadurar” (Nachreife)
inclusive das palavras que a escrita fixa. O que, no tempo de um
num público “determinado”. Assim também, por razões próprias, Jauss autor, pode ter sido uma tendência de sua linguagem poética, mais
objeta ao aspecto “determinista” da sociologia da literatura de Escarpit, tarde pode exaurir-se; tendências imanentes podem atualizar-se ex
para quem toda compreensão ulterior da obra, toda nova concretização de novo, ressaltando-se do texto já formado; o que uma vez foi novo,
pode tornar-se gasto; o que era corrente, virar arcaico.5
sentido, para além do seu primeiro público socialmente definido, seria um
“mito”, estranho à realidade dela, um “eco deformado”.4 A recepção junto Embora Walter Benjamin tenda a creditar esse processo de mudan-
a esse “primeiro público”, que, em Benjamin, corresponderia ao público ças não ao câmbio de horizonte dos receptores (o que designa por “sub-
da “era da criação da obra”, não é dada como pertinente, como também jetividade das gerações sucessivas”, indagação que lhe parece padecer do
não é pertinente, na concepção benjaminiana, a referência de um recep- “mais cru psicologismo”), mas sim a uma objetivação orgânica, “essen-
tor “ideal”, pois o fato problemático de a obra encontrar ou não um lei- cial”, da própria “vida da linguagem” (marca do idealismo ontologizante

BENJAMIN. Die Aufgabe des Übersetzers.[Todas as citações em português de publicações estrangeiras


5

4
JAUSS. Literaturgeschichte als Provokation der Literaturwissenschaft. Texto de 1967. são traduções de Haroldo de Campos, salvo quando especificado o contrário. N. do E.].

50 Da transcriação: poética e semiótica da operação tradutora Tradução e reconfiguração do imaginário: o tradutor como transfingidor 51
dessa sua primeira fase), a verdade é que a ênfase na inevitabilidade da estudos literários sincrônicos.”8 Por outro, a questão da literatura como
mudança e da transformação aponta para a sua ulterior teoria da “história “órganon da história”, tal como a propõe Benjamin, pode ser repensada no
como construção”, para as teses contidas em seu escrito derradeiro, de sentido da quinta das teses para uma “teoria da recepção estética” (1967),
1940. No interregno, em 1931, procede do mesmo Benjamin o conceito de
6
de Jauss, aquela que, buscando dar uma dimensão histórica à teoria des-
literatura como Organon der Geschichte, assim formulado: critiva imanentista, pergunta pelos fatores históricos que fazem a novi-

A história abrangente do ciclo da vida e do efeito (Wirkung) das


dade de um fenômeno literário.9 Sobretudo será, porém, no estruturalista
obras tem o mesmo, ou ainda maior direito de ser considerada do tcheco Felix Vodicka, na sua “História da repercussão (ou do eco) das obras
que a história de sua gênese. Compreende o destino delas, a sua literárias” (1941), que encontraremos um critério para reformular, em ter-
recepção (Aufnahme) de parte dos contemporâneos, suas traduções,
sua fama. Deste modo, a obra assume internamente a configura-
mos laicos, o teologema do “sacro evoluir (heilige Wachstum) das línguas”,
ção de um microcosmo ou, melhor ainda, de um micro-aeon. Pois mediante o qual o jovem Benjamin procurava distinguir entre “essência”
não se trata de apresentar as obras literárias no contexto do seu (“a vida mais íntima da linguagem e de suas obras”) e “motivo” exterior
tempo, mas, antes, de representar, no tempo em que surgiram, o
tempo que as conhece – vale dizer, o nosso. Com isso, a literatura
(“a subjetividade das gerações sucessivas”) nas transformações de “tom”
se transforma num órganon da história, e a tarefa (die Aufgabe) e de “significado” das obras poéticas através dos séculos, transformações
da história literária será operar essa transformação, e não fazer da que fazem da tradução “um dos mais potentes e frutuosos processos his-
literatura o campo material da historiografia.7
tóricos”. Observa Vodicka:
Daí a relevância prospectiva, para o estudo da relação dialética A “vitalidade de uma obra” depende das propriedades que lhe são
entre tradução (como forma de “recepção”) e tradição, contida numa potencialmente intrínsecas com relação à evolução da norma literária.
afirmação tão premonitoriamente instigante, como esta (ainda do ensaio Se uma obra literária é avaliada positivamente, mesmo quando
ocorra modificação da norma, isto quer dizer que sua vitalidade
de 1921-1923):
é maior do que a de outra obra, cujo efeito estético cessa com a
Longe de ser a ensurdecida equação entre duas línguas mortas, transformação da norma válida em determinada época. O eco de uma
a tradução, entre todas as formas, é aquela exatamente à qual obra literária é acompanhado por sua concretização e a mudança da
mais concerne assinalar o pós-amadurar da palavra estrangeira, norma requer uma nova concretização [...] Mesmo a tradução é, em
as dores de gestação da própria palavra. certo sentido, uma concretização levada a efeito pelo tradutor. O eco
de uma obra entre leitores e os críticos de um ambiente estrangeiro
Aí está a tradução da tradição vista como “estranhamento” e como é com frequência bem diferente da repercussão encontrada no país
maiêutica poética (o que faz pensar no make it new e no criticism via de origem, porque a norma também é diversa.10

translation característicos da prática poundiana da tradução, desenvolvida 8


Ver “Poética sincrônica” (1967), em meu A arte no horizonte do provável.
também a partir das primeiras décadas deste século). Por um lado, poderí- 9
Em “Literaturgeschichte als Provokation der Literaturwissenschaft” Jauss faz referência ao trabalho
de Benjamin “Literaturgeschichte und Literaturwissenschaft”, logo no início de sua exposição, entre
amos colher aí sugestões para uma “poética sincrônica”, a culminar numa
as fontes que consultou a respeito do problema da história literária. Quanto às críticas de Jauss ao
“História estrutural da literatura”, como aquela vislumbrada por Jakobson “salto tigrino” no passado contido na 14ª proposição benjaminiana “sobre o conceito de história”,
remeto à opinião que expressei em Deus e o Diabo no Fausto de Goethe. Curiosamente, Rainer
em “Linguistics and Poetics” (1960): “A escolha de clássicos e sua reinter-
Warning, em seu ensaio introdutório ao volume Rezeptionsaesthetik, limita-se a referir como exemplo
pretação à luz de uma nova tendência é um dos problemas essenciais dos de “substancialismo” a passagem do ensaio sobre a tradução em que Benjamin argumenta contra a
validade da obra de arte para o leitor, sem registrar os desdobramentos da concepção benjaminiana
6
BENJAMIN. Über den Begriff der Geschichte; publicado em português em Magia e técnica, arte e política. que matiza essa passagem e podem, mesmo, ser considerados como uma contribuição precursora à
7
BENJAMIN. Literaturgeschichte und Literaturwissenschaft (“História da literatura e ciência literária”). “estética da recepção”.
Em Zur geschichtsphilosophie Walter Benjamins, Jeanne Marie Gagnebin entende que o “conceito de 10
O texto do ensaio de Vodicka encontra-se em versão para inglês na antologia de Paul L. Garvin,
origem” em Benjamin não seria, desde o princípio, “substancialista”, e que na noção de “transformação” A Prague School Reader on Esthetics, Literary Structure and Style, em português na coletânea
contida no ensaio sobre “A tarefa do tradutor” isto já poderia ser vislumbrado. organizada por Dionísio Toledo, Círculo lingüístico de Praga.

52 Da transcriação: poética e semiótica da operação tradutora Tradução e reconfiguração do imaginário: o tradutor como transfingidor 53
Tradução e “recepção distraída” se dão de modo vertiginoso), tradicionalmente fruto de uma “formação
A estratégia argumentativa do ensaio de Walter Benjamin sobre “A tarefa especializada”, é substituída pela “instrução politécnica” e assim “cai no
do tradutor” parece também envolver, num nível que lhe é peculiar, algo domínio público”.
daquela “distração da atenção”, que seria por ele estudada no ensaio de É verdade que Benjamin, ao pôr o original a serviço da tradução,
1935-1936 sobre “A obra de arte na era de sua reprodutividade técnica”. 11
desonerando-a de organizar um conteúdo já pré-constituído, não exclui
Ao efetuar a suspensão do caráter comunicativo da obra de arte, ao propriamente a aura desse original, uma vez que na teoria benjaminiana
“distrair-se” do significado (assim desvalorizando-o do seu valor de culto, permanece a diferença categorial, de matiz ontológico, entre original e
reverencial, sacralizado na teoria da tradução servil), Benjamin muda a tradução, Dichtung e Umdichtung. Benjamin apenas desterra a aura do
ênfase do processo translatício para a “essência”, para o “modo de inten- texto de origem para o ponto messiânico da língua pura, acentuando o
cionar” (que é também um “modo de formar”, em termos de Umberto Eco) aspecto “provisório” do traduzir. Mas o fato de atribuir à tradução, como
da obra. Assim, a “recepção distraída” (Rezeption in der Zerstreuung), “forma” específica, a tarefa de “resgate” (de virtual “desocultamento”)
“disseminada”, do tradutor-transcriador quanto ao significado (que a pró- da intencionalidade de uma outra forma (a poética, entendida como
pria obra original já pré-ordenou, exonerando esse tradutor da “fadiga” Kunstform), não deixa de evocar uma proposição, depois desenvolvida
de ocupar-se com o mero aspecto comucacional), prefigura, num outro quanto à reprodutibilidade técnica, segundo a qual:
nível, aquela do espectador de cinema, enquanto “examinador distraído”. A história de toda forma de arte (Kunstform) conhece períodos
Por outro lado, o “efeito de choque” (Chokwirkung), por meio do qual o críticos, nos quais esta determinada forma visa a efeitos que, sem
filme propicia a modalidade de recepção que lhe é peculiar, encontra um maior esforço, só poderão ser colimados através de um câmbio do
padrão técnico, ou seja, numa nova forma de arte.12
curioso paralelo no tratamento “chocante” que o tradutor benjaminiano
deve dar à sua língua, “estranhando-a” ao impacto violento (gewaltig) da
obra alienígena. Da transficcionalidade: o tradutor como transfingidor
As diferenças são também evidentes. Embora, em ambos os casos, se Passar do exame dos “fatores intratextuais” (imanentes, estruturais) aos
trate de reprodução, a novidade, na tradução, é a “reprodução (Wiedergabe, “fatores extratextuais” (relação do texto “com a realidade extratextual”,
‘redoação’) da forma”; no cinema, o novo são os meios técnicos de massa. entendida esta na acepção do contexto histórico e também na da ambiên­
De qualquer modo, em ambos os casos, há um abalo dos valores de culto, cia constituída por outros textos, literários ou socioculturais), implica,
“auráticos”. Pois tanto a tradução (na teoria tradicional), quanto o cinema na concepção de Wolfgang Iser, a passagem do “texto” a sua “função”.13
(pelo menos nos seus inícios) são (ou foram) “suspeitos” de traição, na Trata-se de uma pergunta pela “gênese” do texto, de vez que “no conceito
medida em que “desprivilegiam” a unicidade da obra, a sua “autenticidade” de função não se cogita do receptor”. Já a pergunta pela “validade” do
e a sua “autoridade” (autoria). O tradutor é um “leitorautor”, no extremo texto (sua “sobrevida” para além das condições históricas em que nasceu)
um “traidor” ou um “usurpador”. Com os meios de reprodução de massa, impõe o recurso a um “modelo de interação entre texto e leitor”.
a competência do artista (no exemplo, a “literária”, mas o raciocínio pode No caso da operação tradutória, esse “modelo de interação” arti-
ser desde logo transferido para o cinema, onde esses “deslocamentos” cula-se desde logo entre “original” (texto) e “tradução” (leitor). A recon-
figuração da estrutura do texto pela transcriação redetermina-lhe a fun-
11
Reporto-me, em especial, à segunda versão deste ensaio, retrabalhada por Benjamin a partir de
1936. Ver “Das Kunstwerk im Zeitalter seiner technischen Reproduzierbarkeit”. Em português, há as ção como seu “horizonte de sentido” (o “extratexto” do original, via de
traduções de José Lino Grünewald e de Sergio Paulo Rouanet (esta, a partir da primeira versão do
texto). Ver BENJAMIN. Magia e técnica, arte e política; GRÜNEWALD. A idéia do cinema (tradução feita 12
BENJAMIN. Das Kunstwerk im Zeitalter seiner technischen Reproduzierbarkeit.
com base na versão francesa do texto original). 13
ISER. O imaginário e os conceitos-chave de época.

54 Da transcriação: poética e semiótica da operação tradutora Tradução e reconfiguração do imaginário: o tradutor como transfingidor 55
regra situado numa dada conjuntura do passado, sofre a interferência do que tem o mérito de ajudar a enfocar a questão da tradução. Num teórico
“extratexto” do presente de tradução pelo qual ele é “lido”). Essa inter- tardoquinhentista como George Puttenham, cuja preocupação é realçar
ferência na determinação do “sentido do sentido” (a “função” que o texto a “dignidade” e a “preeminência” do “nome” e da “profissão” de poeta
traduzido é chamado a preencher num novo contexto) afeta por sua vez “sobre todos os demais artífices, científicos e mecânicos”, a maneira de
o processo pelo qual, segundo Iser, “o texto se converte em objeto ima- diferenciar os bons dos maus poetas, os phantasici dos euphantasiote,
ginário, na consciência de seu receptor”. consistia na distinção entre a qualidade do “reflexo” dos respectivos
Se o texto literário pode ser definido como um “discurso ficcional”, “espelhos mentais”.16 No primeiro caso, a “fantasia” (imaginação) seria
se “a recepção não é primariamente um processo semântico, mas sim o “desordenada”; no segundo, ordenada pela razão: a “representação das
processo de experimentação da configuração do imaginário projetado no melhores, mais adequadas e mais belas imagens ou aparências das coi-
texto”, uma vez que por meio dela “se trata de produzir, na consciência do sas perante a alma” era feita, neste segundo caso, de conformidade com
receptor, o objeto imaginário do texto, a partir de certas indicações estru- “a própria verdade delas”. Ora, nesse esquema de resgate, que redimia
turais e funcionais”,14 então parece possível afirmar que a transposição a ficção pela verdade (já que o “poeta” – ou “filósofo” – era chamado um
criativa (Jakobson), a transpoetização (Walter Benjamin), pensada esta “fantástico” e objeto de derrisão por se dedicar a “conhecimentos supér-
de maneira laica e desvinculada de qualquer “significado transcendental”, fluos” e “vãs ciências”, donde a defesa por Puttenham da “boa fantasia”
ou, como eu prefiro dizer, a transcriação, são nomes que outra coisa não dos euphantasiote), nesse esquema a tradução, de partida, não tinha
designam senão um processo de transficcionalização. O fictício da tradu- ingresso. Era objeto de uma degradação a priori que reduzia a operação
ção é um fictício de segundo grau, que reprocessa, metalinguisticamente, tradutora a uma imitatio sem fantasia alguma:
o fictício do poema. o poeta faz ou engenha a partir de sua própria cabeça, tanto o verso
Aqui tem pertinência um problema estudado em profundidade por como a matéria do seu poema, não por meio de alguma cópia ou
Luiz Costa Lima em seu O controle do imaginário (1984): o do “veto à exemplo estranho, como, ao invés, o faz o tradutor, que, conse-
quentemente, deve ser chamado um versificador, não um poeta.17
ficção” na poética do imitatio, que opõe (ou subordina) a “mendacidade”
e o “fingimento” da poesia ao “modelo da verdade” e, a seguir, resgata a Nada mais oportuno, então, no momento em que se desmistifica a
poesia de seu rebaixamento principal por “um compromisso com a razão” “ideologia da fidelidade”, a ideia servil da tradução-cópia, do que repen-
(com a verdade), institucionalizado na “categoria da verossimilhança”. sar a própria tradução enquanto fantasia, enquanto ficção. Para isso, pre-
Para Costa Lima, que examina o desdobramento desse problema nos tendo valer-me de outro ensaio de Iser, “Os atos de fingir ou o que é
poeticistas do Cinquecento, essa teoria, levada às últimas consequências, fictício no texto ficcional?”18
implicava a “condenação do imaginário”. 15
Contribuirei com um exemplo, Iser descreve uma “relação triádica” que se estabelece entre o
real, o fictício e o imaginário. Explica que o “ato de fingir” atribui uma
14
Para Iser, “o objeto imaginário é produzido como o correlato do texto na consciência do receptor”. “configuração ao imaginário”, repetindo no texto determinados elementos
Esse imaginário, em princípio difuso, nunca se pode integrar totalmente na língua. Os “atos de ficção”,
da “realidade vivencial”, de modo que a “realidade repetida” se trans-
que outorgam ao imaginário sua “configuração concreta”, todavia, só podem existir na língua, da qual
emprestam o “caráter de realidade”. Assim, criam “um análogo para a representabilidade daquilo que
não cabe na língua”. É interessante notar que Iser se reporte a Jeremy Bentham e a sua “Theory of 16
PUTTENHAM. The Arte of English poesie.
Fictions”, o mesmo filósofo a quem recorre Roman Jakobson (“poesia da gramática e gramática da 17
PUTTENHAM. The Arte of English Poesie.
poesia”, ensaio de 1961, em português na coletânea Lingüística/Poética/Cinema) para ressaltar o papel 18
Agradeço a Luiz Costa Lima a gentileza de ter-me cedido uma cópia mimeografada do texto alemão
das “ficções linguísticas” no domínio da poesia, onde “a função poética predomina sobre a função desse ensaio, apresentado, em sua primeira redação, como comunicação ao X Encontro do grupo
estritamente cognitiva” e esta última é “mais ou menos obscurecida”. Poetik um Hermeneutik (1979). Para a interpretação de Puttenham veja-se a introdução de Baxter
15
LIMA. O controle do imaginário: razão e imaginação nos tempos modernos. Hathaway à edição facsimilar de The Kent State University Press.

56 Da transcriação: poética e semiótica da operação tradutora Tradução e reconfiguração do imaginário: o tradutor como transfingidor 57
forme em “signo” e o “imaginário” fique sendo um “efeito” desse proce- caógeno” a um “estado de determinação”, na terminologia bensiana). Em
dimento. Se elaborarmos semioticamente essa descrição nos termos da virtude da mediação do ato de fingir, o texto ficcional “irrealiza o real”
“função sígnica” e de sua concepção triádica por Max Bense (via Pierce (no plano da “referência de objeto”) e “realiza o imaginário” (no plano
e Charles Morris), teremos: o “texto fictício” é um “signo” (ou mais exa- pragmático da recepção do texto, o polo do interpretante, por sua vez um
tamente, um “macrossigno”, um ícone de relações). Como tal, pode ser processo sígnico de revezamento, para quem pense na “semiose ilimi-
representado por um triângulo, no qual um dos ângulos corresponde à tada” de Umberto Eco via Peirce; ou, mais simplificadamente, numa visão
“referência de realidade” (objeto, representação ou dimensão semân- “behaviorista”, Charles Morris, o polo do “usuário” do texto).
tica); o outro, à “referência de imaginário” (interpretante, expressão ou Os atos de fingir, como atos “transgressores”, operam mediante
dimensão pragmática); no vértice do triângulo está o ato de fingir, visto seleção, combinação e desenudamento da ficcionalidade. A seleção se
como “referência de meio” (linguagem, dimensão sintática), onde o fictí- refere ao “extratexto”: ao “tematizar o mundo”, o texto procede a uma
cio se apresenta como “figura de trânsito (Übergangsgestalt) entre o real seleção dos elementos extratextuais, sejam socioculturais ou literários;
e o imaginário” e o relacionamento, como “produto do ato de fingir”, vem os “campos de referência” do texto, dados a perceber enquanto “siste-
a ser a “configuração concreta de um imaginário”. 19
mas existentes no seu contexto”, são transgredidos; certos elementos
são “destacados” e submetidos a uma nova “contextualização”; num jogo
ATO DE FINGIR (MEIO) perspectivístico, “os elementos presentes no texto são reforçados pelos
figura de trânsito entre que se ausentaram”. A combinação diz respeito aos fatores “intratextuais”.
o REAL e o IMAGINÁRIO Opera através da “ruptura de fronteiras” no plano lexical (por exemplo: a
neologia em Joyce; a rima, como produtora de diferença semântica atra-
vés da similaridade fônica); age também na combinatória dos “elementos
do contexto selecionados pelo texto”, nos esquemas narratológicos que
envolvem transgressões dos “espaços semânticos” (articulação de per-
REALIDADE (OBJETO) IMAGINÁRIO (INTERPRETANTE) sonagens e ações) etc. O desnudamento da ficcionalidade faz com que o
irrealização do real realização do imaginário texto exiba as marcas do seu próprio caráter fictivo, enquanto “discurso
(no signo) (no uso) encenado”, em que o mundo real é “posto entre parênteses” sob o “signo
do fingimento” (o como se). Quanto aos receptores, estes, experimen-
Segundo Iser, o ato de fingir pode ser caracterizado como uma tando o sentido do texto como uma “pragmatização do imaginário”, são
“transgressão de limites”. A realidade é transgredida para se transfor- compelidos a um “processo de tradução”, para conseguirem assimilar algo
mar em signo (em termos semióticos mais exatos, caberia dizer: para de uma experiência que os transgride (em outras palavras: o como se da
se transformar na “referência de objeto” do signo). O imaginário (“refe- ficção provoca uma “atividade de orientação” que se aplica “a um mundo
rência de interpretante” do signo) recebe uma “determinada configura-
ção” pelo ato de fingir (no polo de mediação, na “referência de meio” do
signo). Assim, o imaginário é transgredido, porque passa da “difusão”
da fantasia à “determinação” (relativa) da configuração (de um “estado

19
BENSE. Pequena estética.

58 Da transcriação: poética e semiótica da operação tradutora Tradução e reconfiguração do imaginário: o tradutor como transfingidor 59
irreal, cuja atualização tem por consequência uma irrealização temporária provisoriedade do como se. No mesmo passo, reconfigura, numa outra
dos receptores”). 209
concretização imaginária, o imaginário do original, reimaginando-o por
Iser termina por definir “escalonamento dos diversos atos de fin- assim dizer. As expectativas do receptor e suas reações são também refor-
gir”, na relação dialética entre o real e o imaginário, como “um processo muladas, nessa copresença transgressiva de original e tradução, onde todo
de tradução (Übersetzungsvorgang) gradual, no qual o dado correspon- elemento recessivo corresponde (ou pode corresponder) a um elemento
dente [...] é sempre transgredido”.210 ostensivo, e vice-versa, do texto de partida ao de chegada, numa pers-
Vejamos, agora, alguns possíveis corolários dessa teoria iseriana pectivação de segundo grau.
dos atos de ficção, que recorre constantemente às categorias da “trans- O “imaginário” do texto transcriado não pode ser deduzido sime-
gressão” e da “tradução”, para uma teoria da tradução poética entendida tricamente (ponto por ponto, termo a termo) do “imaginário” do texto de
como transcriação e, pois, como transficcionalização. partida. Guarda com respeito a este uma relação de assimetria, de pers-
Novalis, na “Poética”, indaga: “Uma vez que se põem tantas poe- pectiva astigmática (não pontual – stigma em grego é ‘ponto’, mas ‘aber-
sias em música, por que não pô-las em poesia?” A tradução como trans- rante’); de convergência assintótica (vale dizer, de aproximação sempre
criação é o pôr em poesia da poesia. Por isso mesmo, Novalis também “diferida”; do grego asymptotos, ‘que não co-incide’). O texto traduzido,
definia o tradutor como “o poeta do poeta”. Nessa mesma sequência de como um todo (como um ícone de relações intra-e-extratextuais), não
ideias o transcriador poderá ser visto como o “ficcionista da ficção”.2122 denota, mas conota seu original; este, por seu turno, não denota, mas
Ao converter a função poética em função metalinguística, o tradu- conota suas possíveis traduções. Ocorre assim uma dialética perspectivista
tor de poesia opera, transgressivamente (em diversos graus), uma nova de ausência/presença. A tradução é crítica do texto original na medida
seleção e uma nova combinação dos elementos extra-e-intratextuais do em que os elementos atualizados pelos novos atos ficcionais de seleção e
original; ao significar-se como operação “transgressora”, a tradução põe combinação citam os elementos ausentes; o original, por sua vez, passa
desde logo “entre parênteses” a intangibilidade do original, desnu­dando-o a implicar as suas possíveis citações translatícias como parte constitutiva
como ficção e exibindo a sua própria ficcionalidade de segundo grau na de seu horizonte de recepção (a “sobrevida” do original, o seu “perviver”,
na terminologia de Walter Benjamin).
209
Para refinar semioticamente esta discussão, seria interessante introduzir nela os conceitos peirceanos
de objeto imediato (o objeto tal como o signo o representa; a “irrealização do real” no signo, em “A supremacia da função poética sobre a função referencial
termos iserianos) e objeto dinâmico ou real (a realidade; o “extratexto” iseriano). Assim também
não oblitera a referência, mas a torna ambígua” escreve Jakobson em
os de interpretante imediato (numa das definições de Peirce, o “esquema” ou “imagem vaga” na
“imaginação” do receptor, potencialmente suscitável pelo signo) e interpretante dinâmico (o “efeito” “Linguistics and Poetics”. Retomando, de certo modo, esse problema e
de fato atualizado na mente do receptor do signo). No caso do “texto ficcional”, esta atualização
recolocando-o do ângulo dos atos de ficção, Iser fala na conversão da
ocorreria por força da “configuração do imaginário”, própria dos atos de ficção. Vale dizer, pela
“transgressão” do objeto imediato, via linguagem. A “configuração” provocaria a delimitação do “função designativa” em “função figurativa”, mediante a “transgressão do
caráter “vago”, “difuso”, desse imaginário, que passaria, então, a ser eficaz sobre o receptor. O que
significado literal (lexical)”, com a paralisação do “caráter denotativo” da
Iser chama “pragmatização do imaginário” corresponderia à translação do interpretante imediato para
o interpretante dinâmico. Na medida em que, da “soma das lições da resposta” (Peirce), dos “efeitos” língua no seu “uso figurativo”. A referência que permanece no processo
assim provocados, resultasse uma reformulação da visão do mundo, do “repertório de experiências”
fictivo não é mais designável, não é mais suscetível de “tradução ver-
dos receptores, o processo de semiose poderia culminar, a uma dada altura, num interpretante final.
Ver Peirce, Collected Papers. De um ângulo próprio, não articulado com as ideias de Iser, como nos bal” (de tradução “literal”, seria talvez possível acrescentar com vistas ao
apontamentos acima, Celuta Moreira César Machado fez uma bem elaborada aplicação dos objetos
nosso tema). Sua representabilidade se manifesta como figuração “não
peircianos de objeto e interpretante ao campo da tradução (“O dogma da intraduzibilidade dos textos
literários examinados a luz da semiótica peirciana”, trabalho de aproveitamento apresentado ao meu idêntica”, “ambígua”: como “análogo da representabilidade” e índice da
Seminário “Semiótica da Literatura”, PUC-SP, 1º semestre de 1984).
“intraduzibilidade” (verbal, literal) daquilo a que aponta (a essa dimensão
210
ISER. O imaginário e os conceitos-chave de época.
2122
NOVALIS. Pólen. analógica, poderíamos, com maior rigor semiótico, chamar iconicidade).

60 Da transcriação: poética e semiótica da operação tradutora Tradução e reconfiguração do imaginário: o tradutor como transfingidor 61
No plano dos “fatores intratextuais”, entendo por transcriação a opera- Para além do princípio da saudade:
ção que traduz, no poema de chegada, a coreografia da “função poética” a teoria benjaminiana da tradução
jakobsoniana surpreendida e desocultada no poema de partida. Assim
também, correlatamente, parece-me admissível entender por transfi-
guração, no plano dos atos de ficção, a reimaginação do imaginário do
poema de partida pelo poema de chegada, através da reconfiguração do
percurso da “função figurativa” iseriana. Essa a tarefa levada a efeito pela
tradução criativa.
Se o poeta é um fingidor, como queria Fernando Pessoa, o tradutor
é um transfingidor.

O jovem Lukács, na Teoria do romance (1916), considerava que “os tempos


felizes não têm filosofia – ou, o que é o mesmo – todos os homens, em tais
tempos, são filósofos, detentores do ‘telos’ utópico de toda filosofia”. E qual
seria esta meta por excelência do filosofar? Lukács propõe-nos uma fasci-
nante metáfora constelar: “Felizes os tempos que podem ler no céu estre-
lado o mapa dos roteiros que lhe estão abertos e que lhes cabe percorrer,
roteiros que a luz das estrelas ilumina!”1 E cita Novalis: “Filosofia significa
em sentido próprio nostalgia do lar, aspiração a estar, por toda parte, em
sua casa.”2 Assim, a filosofia, sintoma de uma “ruptura” entre interiori-
dade e exterioridade, de uma in-congruência, tem por tarefa-quando ver-
dadeira (die Aufgabe der wahren Philosophie) – “o desenho daquele mapa
arquetípico”.3

A tarefa adamítica
Em “A tarefa do tradutor” (“Die Aufgabe des Übersetzers”), ensaio que
Walter Benjamin escreveu em 1921, podemos observar, até pela recorrên-
cia de certas marcas textuais (palavras-chave e giros fraseológicos), uma
instância daquele “diálogo subterrâneo” com o jovem Lukács, sobre o qual

1
LUKÁCS. Die Theorie des Romans: ein Geschichtsphilosophisher Versucht über die Formen der großen
Epik. [Todas as citações em português de publicações estrangeiras são traduções de Haroldo de
Campos, salvo quando especificado o contrário. N. do E.].
2
NOVALIS. Werke, Tagebücher und Briefe.
3
LUKÁCS. Die Theorie des Romans: ein Geschichtsphilosophisher Versucht über die Formen der großen
Epik.

62 Da transcriação: poética e semiótica da operação tradutora


chamou atenção Rainer Rochlitz (“De la philosophie comme critique litté- estelar dos caminhos; ou são tradutores, leem a verdade nas entrelinhas
raire: Walter Benjamin et le jeune Lukács”). do texto sacro, plenamente (por definição) traduzível, porque instalado na
A filosofia, enquanto “problema do lugar transcendental”, nasce de plenitude da presença. Eis o traço de apokatástasis (de reintegração ou
uma fratura e aponta para uma “pátria arquetípica”, nostálgica da reconci- restauração edênica) que subjaz tanto à visão lukacsiana do filósofo, como
liação na totalidade e homogeneidade do ser. Trata-se, para o filósofo, de à benjaminiana do tradutor, o gesto metafísico, de “ressurreição teológica”

determinar o sentido da organização do ser que preside a todo im-


(para falar como Adorno), que as colore a ambas.
pulso que, brotando da mais profunda interioridade, dirige-se a uma Nas “Questões introdutórias de crítica do conhecimento” do livro
forma que lhe é desconhecida, mas que lhe foi consignada desde a sobre a Origem do drama barroco alemão (escrito entre 1923 e 1925, mas
eternidade e que o envolve numa simbólica libertadora.4
concebido já a partir de 1916), o recurso à Ideia platônica assinalaria (como
A essa tarefa de resgate cometida à filosofia, no Lukács de 1916, cor- no jovem Lukács de Die Seele und die Formen, “A alma e as formas”) a
responde a tarefa libertadora da tradução como forma, no Benjamin de reação benjaminiana à rigidez neokantiana, com sua dicotomia sujeito-
1921. Tanto o tradutor como o filósofo se tornam prescindíveis no momento objeto, reação que se traduz na busca de uma “configuração histórico-filo-
messiânico da transparência redentora, da plenitude da presença. Por isso sófica anterior às categorias subjetivas de vontade criativa e de produção”.6
Benjamin compara a tradução à filosofia, proclama que ambas não têm É o que observa Rainer Rochlitz, para quem
musa e assina, como esperança filosofal, como aquilo que é próprio do em Estética, o recurso à Idéia exprime o fato de que as formas da
“engenho filosófico”, a saudade (Sehnsucht) em direção àquela língua pura arte não são pura e simplesmente invenções ou criações; antes, elas
ou “língua da verdade” de que a tradução se faz anunciadora, ao liberá- nascem de uma receptividade com respeito ao sentido histórico e
ao seu substrato material.7
la do cativeiro a que está relegada no texto original. No original, o “modo
de intencionar” voltado para a “língua verdadeira” está opresso, velado, No entanto, nesse prólogo, opera também a singular filosofia da linguagem
por um conteúdo comunicativo que não lhe é essencial; incidindo sobre benjaminiana, haurida na hermenêutica bíblica, na tradição judaica da exe-
esse “modo de intencionar”– o que, em outros termos, se poderia chamar gese cabalística.8
“forma significante”– do original, e não sobre o “conteúdo inessencial”, a O embrião das teorias benjaminianas sobre a linguagem encontra-
tradução acaba sendo uma prática desocultadora, ainda que provisória, se num ensaio de 1916 “Über Sprache überhaupt und über die Sprache
pois anuncia, à maneira de um modelo “intensificado” e “nuclear”, a com- des Menschen” (Sobre a língua em geral e sobre a língua dos homens),
plementaridade da intentio de cada uma das línguas isoladas na conver- mas a pervivência dessas teorias vai-se refletir ainda em dois outros tra-
gência harmonizadora da língua pura, na qual “os últimos enigmas, que balhos, estes de 1933: “Lehre des Ähnlichen” (“Teoria da similaridade”) e
atraem o esforço de todo o pensar, são conservados sem tensão e como “Mimetisches Vermögen” (“Sobre a faculdade mimética”) (na realidade,
em silêncio”.5 duas versões de um mesmo texto ensaístico). O que importa para a minha
A filosofia e a tradução – poder-se-ia concluir – são produtos críticos presente reflexão é que, na visão do primeiro Benjamin (1916), a ocorrên-
da era da crise (da cisão, característica das épocas “analíticas” ou “quí- cia da “palavra exteriormente comunicante” era nada mais nada menos
micas”, para falar como Friedrich Schlegel), não sendo mais necessárias do que a marca do “pecado original do espírito linguístico”, a “paródia” do
suas tarefas específicas na era messiânica da reconciliação e da totalidade
harmônica, quando todos os homens são filósofos, leem nos céus o mapa 6
LUKÁCS. Die Seele und die Formen: Essays. Primeira edição em 1911.
7
ROCHLITZ De la Philosophie comme Critique Littéraire: Walter Benjamin et le Jeune Lukács.
4
ROCHLITZ. De la philosophie comme critique littéraire: Walter Benjamin et le jeune Lukács. 8
Veja-se, a propósito, o capítulo inicial do penetrante estudo dedicado por Jeanne Marie Gagnebin à
5
BENJAMIN. Die Aufgabe des Übersetzers. filosofia da história benjaminiana: Zur Geschichtsphilosophie Walter Benjamins.

64 Da transcriação: poética e semiótica da operação tradutora Para além do princípio da saudade: a teoria benjaminiana da tradução 65
verbo criador divino: o sinal da queda, ou da ruína (Verfall), do “beato espí- Este estágio paradisíaco da nomeação adamítica, para o qual aponta o
rito linguístico, o adamítico”.9 Ao lado de sua função comunicativa (única “momento simbólico” da palavra enquanto vocação para a língua pura
que, segundo Benjamin, interessa à “concepção burguesa da língua”), a (momento que tanto ao filósofo, como ao tradutor, cabe repristinar ao
palavra, ainda quando decaída, ostenta, como seu aspecto simbólico não arrepio da face comunicativa da linguagem) poderia ser rebatizado como
redutível à mera comunicação, esta sua vocação para a língua paradisíaca, o estado auroral da primeiridade icônica. Isto se o repensarmos à luz de
em estado de nomeação adamítica. Nas “Questões introdutórias de crítica uma Semiótica muito mais elaborada do que a benjaminiana (esta ficou
do conhecimento”, a Ideia platônica se deixa fecundar pelo verbo adâmico: apenas na dicotomia entre signo-arbitrário, comunicativo e símbolo-não-
na Ideia platônica haveria “uma divinização do conceito de palavra, uma arbitrário, não-comunicativo, adamítico-nomeativo); refiro-me à Semiótica
divinização da palavra”. Daí por que, para Benjamin, “a Ideia é algo de lin- de Charles Sanders Peirce, em cuja classificação de signos o símbolo é jus-
guístico”, correspondendo, “na essência da palavra, àquele momento em tamente o arbitrário, convencional, enquanto que o ícone é que se caracte-
que esta é símbolo”: 10
este momento, na fragmentação da empiria, está riza pela relação de similaridade com seu objeto, uma relação que poderí-
como que velado, enquanto que o “significado profano” (o momento comu- amos chamar adamítica. Desta relação vai cuidar Walter Benjamin no seu
nicativo) é que fica manifesto. ensaio de 1933, “Lehre von Ähnlichen” (Teoria da similaridade), onde nos

Tarefa do filósofo [proclama Walter Benjamin] é restaurar no seu


deparamos com a seguinte formulação:
primado, através da representação, o caráter simbólico da palavra,
Mas se a linguagem, como fica evidente para espíritos perspica-
no qual a Idéia acede à sua autotransparência, que é o oposto de
zes, não é um sistema convencional de signos, quem quer que a
toda comunicação dirigida para o exterior.11
queira abordar deve constantemente remontar àquelas idéias que
se apresentam de uma forma ainda muito grosseira e primitiva na
De fato, assim como a tradução não pode “revelar” (offebaren) a língua
interpretação onomatopaica.13
pura exilada no original, mas, tão somente, representar, qual um modelo
intensivo e antecipatório, a relação oculta entre as línguas, a tensão para Nesse ensaio, a “faculdade mimética” da linguagem (versão, em termos
a “língua da verdade”, aquela “grande saudade” em direção à complemen- de “filologia empírica”, do nomear adamítico e do “cratilismo” platônico) é
taridade e à integração das línguas no fim messiânico da história, tam- pensada com matizes extremamente sutis: Benjamin chega mesmo a falar
bém à filosofia não é dado esse poder de revelação. Não lhe cabendo falar em “semelhanças não sensíveis”, não ostensivas, num sentido que poderia
em “modo revelatório” (offenbarend), a filosofia procede “por um recordar bem ser explorado à luz das conquistas posteriores da teoria linguística.14
primordial”, do qual “a anamnese platônica, talvez, não esteja longe”. E
Benjamin conclui por dar a Adão, o “nomenclator”, o nomeador, a primazia A clausura metafísica
sobre Platão como o pai da filosofia: A radical e subversiva teoria da tradução benjaminiana está presa numa

O denominar adamítico está de tal modo longe de ser algo fortuito ou


“clausura metafísica” (valho-me aqui da expressão de Derrida). Esta “clau-
arbitrário, que precisamente nele o estágio paradisíaco se confirma sura” é demarcada pela diferença categorial, “ontológica”, entre “original”
enquanto tal, ou seja, como aquele no qual ainda não é necessário e “tradução” que preside persistentemente a essa teoria, não obstante o
lutar com o significado comunicativo da palavra.12
muito que ela fez para desconstruir o dogma da fidelidade ao significado

9
BENJAMIN. Über Sprache überhaupt und über die Sprache des Menschen. 13
BENJAMIN. Lehre des Ähnlichen.
10
BENJAMIN. Ursprung des deutschen Trauerspiels. 14
Refiro-me, por exemplo, ao estudo capital de Roman Jakobson, “Suche nach dem Wesen der Sprache”
11
BENJAMIN. Ursprung des deutschen Trauerspiels. (“A busca da essência da linguagem”), no qual são postos em evidência os componentes icônicos e
12
BENJA MIN. Über Sprache überhaupt und über die Sprache des Menschen. diagramáticos latentes na estrutura linguística.

66 Da transcriação: poética e semiótica da operação tradutora Para além do princípio da saudade: a teoria benjaminiana da tradução 67
da teoria tradicional do traduzir, para desmistificar o aspecto ingenuamente ineludivelmente categoria de original (Urbild), dizendo que elas se erguem
servil da operação tradutora, para enfatizar, enfim, que a tradução é uma como “arquétipos” ou “protótipos” em relação a todas as possíveis tra-
forma, regida pela lei de outra forma (a “traduzibilidade” do original, que duções, ainda as melhores, dos mesmos textos. Na prática da tradução,
será tanto maior, quanto mais densamente “engendrado”, “moldado” – nenhum empecilho “metafísico” existe que obste a tradução da tradução.17
geartet – for esse original) e cuja relação de fidelidade se exprime através “A verdade é a morte da intenção”, escreve Benjamin nas “Questões
da “redoação” dessa forma ou “modo de intencionar”; ou seja, por uma introdutórias de crítica do conhecimento”.
operação estranhante: “a liberação, na língua do tradutor, da língua pura,
A atitude que lhe é adequada não é, portanto, um intencionar
exilada na língua estrangeira.”15 (Meinen) no conhecer, mas um imergir e um desaparecer nela. É
Distinguindo categoricamente entre Dichtung (‘poesia’) e isto o que diz a lenda da imagem velada, em Sais, a desvelação da
qual acarreta a ruína concomitante daquele que pensou descobrir
Um-Dichtung (transpoetização), Walter Benjamin subscreve a ideia de um
a verdade.18
“significado transcedental”, de cuja presença o original seria um avatar
(o simbolizante de um simbolizado) e que, enquanto “significado trans- E sobre a língua pura (no ensaio dedicado à tradução):
cedental” ou “simbolizado em si” (das Symbolisiertes selbst), se deixaria
Nessa língua pura – que nada mais significa (meint, ‘intenciona’) e
representar no “sacro evoluir e crescimento das línguas” como “aquele nada mais exprime, mas, como palavra não expressiva e criativa é
cerne mesmo da língua pura”, gravado nos produtos isolados (obras de o significado (das Gemeinte, ‘o intencionado’) em todas as línguas
– toda comunicação, todo sentido e toda intenção acedem a um
arte verbal, poemas), com o ônus de um sentido inessencial e estrangeiro.
estágio em que estão destinados a extinguir-se.19
Ao tradutor caberia a tarefa angélica de anunciação dessa língua pura,
tarefa também de resgate, ainda que sob a forma provisória do “prenún- A língua pura, como língua verdadeira ou língua da verdade, absorve e
cio”: liberar o original do gravame do seu “conteúdo inessencial”, – “fazer absolve todas as intenções das línguas individuais e o “modo de intencio-
do simbolizante o simbolizado” (reconciliar o ícone com o seu referente nar” desocultado dos originais e, nesse sentido, arruína a tradução como
transcedental, atualizando-o na plenitude da presença); este seria, para processo desvelador, por torná-la totalmente possível, já que inscreve na
Benjamin, “o grande e único poder da tradução”.16 Um poder que, por seu sua transparência, na sua plenitude de significado último.
turno, tornaria impossível (ou impensável) a tradução da tradução. Compreende-se por que as traduções de traduções de poesia seriam
então, por princípio, intraduzíveis, ainda aquelas de Hölderlin, que são pelo
O silêncio: a língua da verdade próprio Benjamin definidas como uma “arquifigura” (Urbild, palavra que
É aqui que se desenha a fissura epistêmica do ensaio benjaminiano sobre também significa ‘original’) dessa “forma” que se chama tradução. É que
o traduzir, brecha pela qual se entrevê a possibilidade de, a partir de “ala- elas trabalhariam sobre textos onde o sentido está reduzido a sua extrema
vancas” fornecidas pelo próprio Benjamin, proceder à desconstituição de fugacidade (o que entra em contradição com outro passo capital da teoria
seu enredo metafísico. benjaminiana, onde se atribui justamente à fugacidade do sentido comu-
Benjamin confere um lugar exponencial às traduções de Hölderlin nicativo, e à concomitante densidade da forma, a dignidade artística do
(de Sófocles e Píndaro), consideradas “monstruosas” e objeto de derrisão original e a sua própria “traduzibilidade” essencial). Mudando de posição
no Oitocentos, pelo arrevesamento a que submetiam a linguagem alemã, 17
Eu próprio, em “A palavra vermelha de Hölderlin”, ensaio de 1967 em que abordei o assunto, busquei
estranhando-a em função da etimologia e da sintaxe do grego. Dá-lhes recriar em português um fragmento de Antigone de Hölderlin, recordando que algo análogo, em outro
sentido, já havia sido feito por Brecht em sua Antigonemodell 1948.
15
BENJAMIN. Die Aufgabe des Übersetzers. 18
BENJAMIN. Ursprung des deutschen Trauerspiels.
16
BENJAMIN. Die Aufgabe des Übersetzers. 19
BENJAMIN. Die Aufgabe des Übersetzers.

68 Da transcriação: poética e semiótica da operação tradutora Para além do princípio da saudade: a teoria benjaminiana da tradução 69
com relação à tradução da tradução, para ser coerente com seu argumento A usurpação luciferina
ontológico, Benjamin ameaça esta empresa sacrílega (que desrespeitaria a O aspecto “esotérico”, platonizante, idealista, do Benjamin pré-marxista
unicidade do estatuto do original) com aquela maldição que ronda as para- que escreveu, fascinado pela cabala e pela hermenêutica bíblica, o seu
digmais traduções (hipertraduções? quase-originais?) de Hölderlin, um célebre ensaio sobre a tradução, tem levado certos comentadores, como
“perigo terrível e original (ursprungliche)”: “Que as portas de uma língua Jean-René Ladmiral, a indigitar a “metafísica do inefável” que haveria em
tão alargada e atravessada por força de elaboração se fechem e clausurem suas concepções; nelas, sob a forma de um “literalismo anticomunica-
o tradutor no silêncio.” Isto se resume num “perder-se” (verlieren), como cionalista”, esconder-se-ia uma “antropologia negativa” perigosamente
aquele que sobrevém a quem interroga a verdade, onde morre a intenção: próxima do “anti-humanismo e do impersonalismo de Heidegger”.
“o sentido rola de abismo em abismo, ameaçando perder-se nas profundi- Tenho para mim, ao contrário, que o jogo conceitual benjaminiano
dades insondáveis da língua.”20 é um jogo irônico (não por acaso o tema romântico da ironia reponta
A tradução da tradução não é mais possível, ontologicamente, por- no seu ensaio, justamente quando ele assinala que a tradução trans-
que implicaria uma reincidência no desvelar da intencionalidade, um rea- planta o original para “um domínio mais definitivo da linguagem”). Sob
nunciar do anunciar (uma sobrecarga ou sobretarefa “arcangélica”) que, a roupagem rabínica de sua metafísica do traduzir, pode-se depreender
antecipando-se ao “sacro amadurar das línguas”, aproximaria de tal modo nitidamente uma física, uma pragmática da tradução. Esta “física” pode,
o tradutor da língua pura que esta quase imediatidade o consumiria no seu hoje, ser reencontrada, in nuce, nos concisos teoremas jakobsonianos
fulgor solar. Sobreviria necessariamente o apagamento do traduzir, desve- sobre a tradução poética enquanto “transposição criativa”,22 aos quais,
lador da intencionalidade, nessa morte da intenção que é a revelação do por seu turno, os relampagueantes filosofemas benjaminianos darão
vero. Onde também todos os textos (entenda-se, todos os originais isolada- uma perspectiva de vertigem.
mente considerados) acabarão finalmente por se absorver e apagar, recon- Por outro lado, a ênfase benjaminiana na primazia arquetípica das
vergidos na autotransparência do Texto Único, o Significado Transcedental, “monstruosas” traduções hölderlinianas permite-nos dar um passo mais
o Texto da Verdade, “criativo” e não “expressivo”, onde “os últimos enig- adiante e ultimar a sua teoria, revertendo a função angélica do tradutor
mas” são conservados “sem tensão e como em silêncio”. No horizonte hie- numa empresa luciferina. Se pensarmos, como Borges, que “o conceito
rático da teoria da linguagem e da tradução de Walter Benjamin parecem de texto definitivo não corresponde senão à religião ou ao cansaço”,23
ressoar as palavras de Franz Rosenweig, o tradutor bíblico, cuja obra Der abalaremos esta substancialização idealizante do original, deslocando a
Stern der Erlösung (“A estrela da redenção”), publicada em 1921, e enviada questão da origem para a pergunta sempre “di-ferida” a respeito do “bor-
a Benjamin por Scholem em julho desse ano, parece ter sido lida pelo autor rador do borrador” (posto que, segundo Borges, “pressupor que toda
de “A tarefa do tradutor” no período mesmo em que elaborava seu ensaio: recombinação de elementos é obrigatoriamente inferior a seu original, é
Aqui reina um silêncio que não é aquele do pré-mundo que não pressupor que o borrador 9 é obrigatoriamente inferior ao borrador H – já
conhecia ainda a palavra: antes, é um silêncio que não tem mais que não pode haver senão borradores”). 24 Ao invés de render-se ao inter-
necessidade da palavra. É o silêncio da compreensão consumada. O
dito do silêncio, o tradutor-usurpador passa, por seu turno, a ameaçar o
mais claro sinal de que o mundo não esteja redimido é a pluralidade
das línguas. Entre homens que falam uma língua comum, basta um original com a ruína da origem. Esta, como eu a chamo, a última hybris
olhar para que se compreendam; exatamente porque têm uma língua do tradutor luciferino: transformar, por um átimo, o original na tradução
comum, são dispensados da linguagem.21
22
JAKOBSON. On Linguistic Aspects of Translation.
20
BENJAMIN. Die Aufgabe des Übersetzers. 23
BORGES. Las versiones homéricas.
21
ROSENZWEIG. Der Stern der Erlösung. 24
BORGES. Las versiones homéricas.

70 Da transcriação: poética e semiótica da operação tradutora Para além do princípio da saudade: a teoria benjaminiana da tradução 71
de sua tradução. Reencenar a origem e a originalidade como plagiotropia: (gewaltig) da obra alienígena. Sem embargo da observação de Habermas:
como “movimento infinito da diferença” (Derrida); e a mímesis como pro- “Com respeito à parte da aura, Benjamin adotou sempre uma atitude
dução mesma dessa diferença. ambígua”,27 que nos alerta sobre a necessidade de não tratar com ligeireza
este tópico fundamental do pensamento benjaminiano, é ainda na “des-
Para além da “grande saudade” truição da aura através da experiência do choque” que o ensaísta de “Über
O momento luciferino é apenas rúbrica metafórica dessa operação de fini- einige Motive bei Baudelaire” (“Sobre alguns temas de Baudelaire”, 1939)
tização da metafísica benjaminiana do traduzir, para convertê-la numa vai lobrigar o traço distintivo da “sensação de Modernidade” e a lei da
física, num fazer humano resgatado da subserviência hierática a um origi- poesia baudelairiana, representativa por excelência dessa Modernidade.
nal aurático, liberado do horizonte teológico da língua pura, restituído ao Mas no próprio livro sobre o drama fúnebre barroco, na figura capi-
campo cambiante do provisório, ao jogo de remissões da diferença: um tal da alegoria, a unicidade do original e a plenitude do sentido único
jogo “sempre recomeçado”... (As “várias perspectivas de um fato móvel” são postos em questão. Jeanne Marie Gagnebin, depois de recapitular a
– Borges).25 oposição da alegoria benjaminiana ao símbolo (tal como concebido por
Outros lances do pensamento benjaminiano respaldam essa passa- Goethe e pelo Romantismo) – o símbolo, “figura da totalidade de belo”,
gem para além da “grande saudade”(ou para aquém dela, já que se trata apta a revelar “seu sentido imediato e transparente, porque nele signi-
de uma empresa de finitização, de dessacralização; de retorno crítico à ficante e significado estão íntima e naturalmente ligados” – escreve: “O
“terrestralidade”...). conhecimento alegórico é tomado de vertigem: não há mais ponto fixo,
Desde logo, o ensaio de 1935, “Das Kunstwerk im Zeitalter seiner nem no objeto nem no sujeito da alegorese, que possa garantir a verdade
technischen Reproduzierbarkeit” (“A obra de arte na época de sua repro- do conhecer”. A autora vincula o represtígio moderno da visão alegórica
dutibilidade técnica”), no qual a aura do objeto único, a unidade intrans- à “morte do sujeito clássico” e à “desintegração dos objetos” e acentua
ferível do original é questionada em nome das técnicas de reprodução que a alegoria “é mais realista no seu dilaceramento que o símbolo na
da arte de massa, exemplificada no cinema. Aliás, este ensaio de 1935 sua harmonia”. Assim: “A não transparência das relações sociais e a não
permite certas confrontações elucidativas com aquele de 1921, sobre a transparência da linguagem alegórica se respondem”.28 No “Trauerspiel”
tradução, onde Benjamin afirma: “A arte pressupõe a essência física e (literalmente, ‘jogo lutuoso’, ‘lutilúdio’) barroco, Benjamin havia ressal-
espiritual do homem, não a sua atenção.”26 Ao “distrair” a atenção do tra- tado: “Toda personagem, qualquer coisa, cada relação pode significar uma
dutor do “significado” (que é assim desvalorizado do valor de culto que lhe outra qualquer ad libitum”.29 Como que num comentário a esta passagem,
tributa a teoria tradicional da tradução servil), Benjamin muda a ênfase Jeanne Marie Gagnebin sublinha:
do processo translatício para o “modo de formar”, o “modo de intencionar” O texto não pretende mais dar uma imagem totalizante do mundo
essencial à obra. Nesse sentido, a “recepção distraída”, “disseminada”, do na culminação simbólica, nem esconder um sentido absoluto [...]
A visão alegórica torna-se literal. O texto suspende significantes
tradutor quanto ao significado prefigura aquela do espectador de cinema, a outras ondas de significantes, sem poder alcançar um sentido
enquanto “examinador distraído”. Por outro lado, o “efeito de choque”por último [...] É preciso cessar de querer encontrar um “significado
meio do qual o filme propicia essa modalidade de recepção, encontra, transcedental” (Derrida) atrás do texto.30

num outro nível, um paralelo no tratamento “chocante” que o tradutor


benjaminiano deve dar à sua língua, “estranhando-a” ao impacto violento 27
HABERMAS. L’Actualité de Walter Benjamin. La critique: prise de conscience ou préservation.
28
GAGNEBIN. L’Allégorie, face souffrante du monde.
25
BORGES. Las versiones homéricas. 29
BENJAMIN. Ursprung des deutschen Trauerspiels.
26
BENJAMIN. Die Aufgabe des Übersetzers. 30
GAGNEBIN. L’Allégorie, face souffrante du monde.

72 Da transcriação: poética e semiótica da operação tradutora Para além do princípio da saudade: a teoria benjaminiana da tradução 73
É verdade que um tratamento semiótico mais nuançado da ale- Paul Valéry e a poética da tradução:
gorese (reclamado pelo próprio Benjamin ao postular o enfoque dialé- as formulações radicais do célebre poeta francês
tico das “antinomias do alegórico”) leva a reconhecer nela a coexistência a respeito do ato de traduzir
contraditória de um momento “icônico” (hieroglífico, religioso, não con-
vencional, próximo da transparência plástica do “símbolo” na acepção
goetheana do termo e na concepção adâmico-paradisíaca da filosofia da
linguagem do próprio Walter Benjamin) ao lado do momento profano,
arbitrário, capaz de múltiplas convenções relacionais (“caógeno”, como
diria Max Bense), que responde pelo caráter fragmentário, “arruinado”,
inconcluso da alegoria benjaminiana. Mas esta digressão semiótica (que
desenvolvi em meu livro Deus e o Diabo no Fausto de Goethe e por
meio da qual procurei compreender a dialética de abertura e plasticidade
no Barroco) não deve obscurecer um fato capital, numa outra ordem
argumentativa: assim como as “monstruosas” traduções hölderlinianas O texto mais importante de Paul Valéry sobre a teoria e a prática da tradu-
ameaçam os originais com a corrosão de toda garantia de restituição ção poética é a introdução às traduções, por ele elaboradas, das Bucólicas
de sentido (Sinnwiedergabe), também a alegorese “profana” a unicidade de Virgílio, publicada postumamente em 1955 sob o título “Variations sur
harmônica do símbolo, arruína a linearidade do sentido definitivo e per- les Bucoliques”. Como afirma Alexandre Roudinesco, a quem o trabalho
mite, mais adiante, compreender a história como pluralidade sufocada foi dedicado em 20 de agosto de 1944, “esse prefácio precioso pode ser
e a historiografia como instância de ruptura e possibilidade de tradução considerado como o testamento poético de Paul Valéry”,1 que, de fato,
transgressora. faleceu no ano seguinte à sua conclusão.
Encontra-se nesse texto uma das formulações mais radicais de
quantas já se fizeram a respeito do ato de traduzir, exatamente porque
parte da rasura estratégica da suposta diferença categorial entre “escri-
tura” e “tradução”.

Escrever o que quer que seja, desde o momento em que o ato de


escrever exige reflexão, e não é a inscrição maquinal e sem de-
tenças de uma palavra interior toda espontânea, é um trabalho de
tradução exatamente comparável àquele que opera a transmutação
de um texto de uma língua em outra.2

E quanto à poesia:
Uma pessoa que faz versos, suspensa entre seu belo ideal e seu
nada, está nesse estado de expectação ativa e interrogativa que

1
ROUDINESCO. Post-scriptum. [Todas as citações em português de publicações estrangeiras são
traduções de Haroldo de Campos, salvo quando especificado o contrário. N. do E.]
2
VALÉRY. Variations sur les Bucoliques.

74 Da transcriação: poética e semiótica da operação tradutora


a torna única e exclusivamente sensível às formas e às palavras
que a idéia de seu desejo, retomada como se representada de ato mesmo que a deslinda: sua metalinguagem está embutida no objeto
modo indefinido, requer, demandando perante uma incógnita, aos engendrado, o poema. Com as imagens fascinantes que lhe são pró-
recursos latentes de sua organização de falante, – enquanto não sei
prias, Valéry parece anunciar aqui o que Jakobson entenderia por “função
que força cantante exige dele aquilo que o pensamento totalmente
nu não pode obter senão por uma chusma de combinações suces- poética” ou “paronomásia” generalizada:4 o estabelecimento de relações
sivamente ensaiadas. O poeta escolhe entre estas, não certamente combinatórias em poesia a partir do princípio de similaridade e contraste
aquela que exprimiria mais fielmente o seu “pensamento” (é a
dos constituintes formais do código verbal; é esta paronomásia ou “força
tarefa da prosa) e que lhe repetiria então o que ele já sabe; mas
antes aquela que um pensamento por si só não pode produzir e cantante” que faz com que “a semelhança fonológica” seja “sentida como
que lhe parece ao mesmo tempo estranha e estrangeira, preciosa, um parentesco semântico”,5 as estruturas gramaticais sejam subliminar-
e solução única de um problema que não se pode enunciar senão
mente apresentadas como uma partitura de paralelismos e contrastes.
quando já resolvido. [...] A linguagem, aqui, não é mais um in-
termediário que a compreensão anula, uma vez desempenhado o 3) A ideia de “estranheza”, de “estranhamento”, que cerca o resul-
seu ofício; ela age por sua forma, cujo efeito está em produzir no tado dessa operação formal, caracterizada pelo grande poeta-pensador
mesmo instante um renascer e um auto-reconhecimento.3
francês como “bem-aventurada formação.”
Poderemos destacar, nos excertos transcritos, como tópicos particular- 4) A negação do caráter intermediário da linguagem, que age na
mente relevantes, os seguintes: poesia “por sua forma” e não pelo aspecto meramente veicular (trans-
1) A ideia de literatura como uma operação tradutora permanente missão de conteúdos), aspecto que se deixaria exaurir sem resíduos pela
– escrever é traduzir –, logo a relativização da categoria da originalidade mera compreensão da mensagem, no caso da comunicação não poética.
em favor de uma intertextualidade generalizada.
2) A desconstituição do dogma da fidelidade à mensagem, ao con- Paul Valéry e Walter Benjamin
teúdo cognitivo (à expressão mais fiel possível do pensamento). O poeta Fica manifesto que se podem comparar as ideias que Valéry exprime em
(“espécie singular de tradutor”, como Valéry afirma no mesmo ensaio) 1944 sobre a tradução das Bucólicas (mas que fazem parte, desde sem-
deve ser fiel (“sensível”) às formas e às palavras suscitadas afinal pela pre, do núcleo de sua poética e de sua prática de poeta) com aquelas
“ideia do seu desejo”, que se deixa representar (“retracer”) desde logo enunciadas em 1921 por Walter Benjamin em seu ensaio sobre a tarefa do
de modo indefinido (como um diagrama cinético, um ícone de relações, tradutor.6 Desde logo a noção de estranhamento (central, por exemplo,
poderíamos dizer, semioticamente); retracer significa ‘representar viva- para os chamados formalistas russos e que reapararece, como fenômeno
mente uma imagem no espírito’ e também ‘desenhar de novo o que estava de “transgressão de limites”, numa poética tão atual como a “teoria dos
apagado’, ou ainda, num sentido atento à derivação da palavra, ‘buscar o atos ficcionais” de Wolfgang Iser) faz pensar na defesa benjaminiana da
rastro de’; na Gramatologia de Derrida, la trace, ‘o rastro’, ‘o traço’, “raiz tradução como prática estranhante (helenizar o alemão ao invés de ger-
comum da fala e da escritura”, está ligada ao “jogo da diferença” e por manizar o grego), defesa apoiada em formulações de Goethe e Rudolf
isso mesmo “à formação da forma”. Em Valéry, a fidelidade (“sensibili- Pannwitz e nas traduções sofoclianas de Hölderlin.
dade”) às formas convoca uma “força cantante”, capaz de orquestrar a Há aqui, porém, uma distinção a ser feita. Benjamin, ainda que
seleção combinatória dos “recursos latentes” que o poeta entesoura em invertendo os conceitos de fidelidade ao conteúdo e servilidade ao ori-
sua “organização de falante”. Surge então a “solução única” (resolução da ginal da teoria tradicional do traduzir, mantém a “diferença de posição”
incógnita) de uma equação (“problema”) que só pode ser enunciada no
4
JAKOBSON. Lingüística e comunicação.
5
VALÉRY. Variations sur les Bucoliques.
3
VALÉRY. Variations sur les Bucoliques. 6
BENJAMIN. Die Aufgabe der Übersetzers.

76 Da transcriação: poética e semiótica da operação tradutora Paul Valéry e a poética da tradução 77


(Rangunterschied) entre o “original” (Dichtung) e sua “transpoetização” “não pode pretender durar”, nisto diferindo da arte; a tradução destina-se
(Umdichtung), deslocando-a, todavia, para um plano ontológico, onde o “a ser absorvida no evolver da língua, a perecer na sua renovação”; “a
que importa, de parte do original, não é sua “mensagem” (Mitteilung), verdadeira tradução é transparente”; visa a despertar o “eco do original”;
mas o seu “modo de intencionar” (Art des Meinens), sua tensão para a permanece no exterior da “floresta da linguagem”,8 enquanto a obra de
língua pura ou língua da verdade, recapitulação da língua adâmica da arte reside no interno desta; e finalmente – interdito supremo – a tradu-
nomeação original no fim messiânico da história. De sua parte, a tradu- ção da tradução é, por definição, impensável.
ção (transpoetização) estaria incubida de uma função angélica: anunciar Tudo isto parece também responder a uma peculiar lógica da deri-
a sobrevinda dessa mesma língua da verdade, desocultando-a provisória vação em que a visada da palavra poética original é dada como “ingê-
e fragmentariamente de seu exílio no original e liberando-a intensiva- nua, primeira, claro-intuitiva (anschaulich)”, enquanto a da palavra tra-
mente na língua do poema traduzido: transpondo, assim, o original para dutória é tida por “derivada, derradeira, reflexivo-ideativa (ideenhalt)”.9
um outro plano, o do significado transcedental dessa presença, que o Essa lógica do espontâneo e do derivado, não por mera coincidência,
habita como uma virtualidade última. A desconstrução da subserviência remonta alusivamente à dissertação de Schiller “Sobre poesia ingênua
da tradução ao original no plano regional do significado ou conteúdo de e sentimental” (1795),10 para quem a poesia ingênua corresponderia ao
“comunicação” (Mitteilung) a transmitir, o abalo da relação dogmática estado de conciliação harmoniosa entre homem e natureza (como na
entre originalidade e tradução enquanto mera aplicação de uma “teoria Antiguidade clássica) e a poesia sentimental (característica da moderni-
da cópia”, esses elementos de uma dialética negativa no plano do tradu- dade, do homem em estado de cultura) seria a poesia do “entendimento
zir, elevados a um patamar messiânico pela hermenêutica benjaminiana, reflexivo” e da busca do ideal da harmonia perdida (ou, na leitura de
avalizam, não obstante, um novo “recalcamento” da tradução “para fora Peter Szondi, que enfatiza o lado dialético do pensamento schilleriano,
da fala plena” (como diria Derrida a propósito da posição excêntrica da uma poesia do sentimental “como reintegração do ingênuo sob a lei do
escritura na história metafísica do logos enquanto “origem da verdade”; seu outro, a reflexão”).11 O que equivaleria a equiparar o tradutor (mais
da escritura por seu turno relegada à função “secundária e instrumental” um deslocamento e mais uma contradição sugestiva) ao poeta moderno,
de “porta-voz” dessa “fala original”). O jovem Benjamin, em matéria de poeta-crítico, da Idade da Cisão (ou “química”), da “cultura artificial”,
“metafísica da linguagem”, distingue “graus ontológicos” (Seinsgraden) regida não pelo princípio da natureza, mas por “ideias diretivas”, como
à maneira escolástica e considera “toda língua superior como tradu- exprime outro romântico, Friedrich Schlegel (não sem formular – frag-
ção da inferior até que se desdobre, na claridade final, a unidade desse mento 222 do Athenaeum – a aspiração à reconciliação, à “realização do
movimento linguístico”.7 Já em 1921, no ensaio sobre “A tarefa do tradu- reino de Deus” como “ponto elástico da cultura progressiva” e promessa
tor”, demarca uma separação irredutível e essencial (segundo a essên- de uma nova “época orgânica” de restituição paradisíaca). 12
cia das respectivas formas) entre a palavra tradutória e a palavra poé-
tica (Dichterwort). Podemos recolher as marcas desse “recalcamento” ou
“degradação” ontológica disseminados ao longo do fundamental ensaio
benjaminiano (em contradição, segundo me parece possível argumentar,
com outros aspectos salientes do texto, notadamente a posição expo- 8
BENJAMIN. Die Aufgabe des Übersetzers.
nencial conferida às arquitraduções hölderlinianas). Assim a tradução 9
BENJAMIN. Die Aufgabe des Übersetzers.
10
SCHILLER. Über naive und sentimentalische Dichtung.
Em “Über Sprache überhaupt und über die Sprache des Menschen” (Sobre a língua em geral e sobre
7 11
SZONDI. Das Naive ist das Sentimentalische. p. 104.
a língua dos homens), de 1916. 12
SCHLEGEL; SCHLEGEL. Athenaeum: eine Zeitschrift. p. 60.

78 Da transcriação: poética e semiótica da operação tradutora Paul Valéry e a poética da tradução 79


Valéry e Borges: a miragem do duplo rada”, capaz, por seu turno de re-generar a emoção que a gerou). Para
Em Valéry, esta distinção de estatuto hierárquico não interfere. Sua posi- Benjamin, o tradutor libera essa “língua dos deuses” – a língua pura,
ção, relativamente à equivalência de princípio entre escritura e tradução, expatriada no poema, latente na intencionalidade deste. De um certo
está mais próxima, nesse sentido, da de Borges, quando este proble- ângulo de enfoque, tanto Valéry como Benjamin não distinguem, antes
matiza e questiona a noção de “texto definitivo”. Falando sobre o Pierre parecem irmanar, “função emotiva” e “função poética” (funções que a lin-
Menard borgiano, Maurice Blanchot observa: guística jakobsiana soube tão bem diferenciar). Também para Benjamin,
Quando Borges nos propõe imaginar um escritor francês contem- é a um “tônus emocional” (Gefühlston) que a “significação (Bedeutung)
porâneo que escreve, a partir de pensamentos que lhe são próprios, poética” da palavra no original responde, para além da mera reprodução
algumas páginas que reproduzirão textualmente dois capítulos do
Don Quijote, esta absurdidade memorável não é outra coisa senão
do sentido (Sinnwledergabe); não visa ao significado enquanto tal (das
aquilo que se realiza em toda tradução. Numa tradução, temos a Gemeinte), mas à vinculação deste com o “modo de significar” (Art des
mesma obra numa dupla linguagem; na ficção de Borges, duas ob- Meinens), com uma forma significante, portanto, que estrutura o inten-
ras na identidade da mesma linguagem e, nessa identidade que não
é una, a miragem fascinante da duplicidade dos possíveis. Pois onde
cionar do poema original para a língua pura. Se o poeta (espécie singular
há um duplo perfeito, o original é obliterado e mesmo a origem.13 da categoria geral dos “tradutores”, para Valéry) busca ideias “para suas
palavras e ritmos predominantes” (este seria o seu “trabalho interno”, ou,
Uma identidade não idêntica, um duplo que abole a origem, um original como eu gostaria de dizer, a sua operação de codificação intra-semiótica),
que é apenas mais um “borrador” entre os “borradores” possíveis, já que o tradutor benjaminiano de poesia – o “transpoetizador” – está liberado
não pode haver senão rascunhos... (Recorde-se que Menard se confes- dessa “busca de ideias” pelo próprio poema original (que já as pré-cons-
sava amigo de Valéry, apesar de ser o autor de uma invectiva contra o tituiu, e nisto presta um serviço à tarefa da tradução, permitindo-lhe con-
poeta do “Cimetiére Marin”, invectiva que representava “o reverso exato centrar-se na desvelação do referido código intrassemiótico, ou seja: no
de sua [verdadeira] opinião sobre Valéry” 14). “modo de intencionar”, de “significar”, de “formar” ínsito a esse original).
Em Valéry, por outro lado, não há a deliberada ironia das ficções
borgianas, nesse tratamento do escrever como traduzir. Quando Valéry Pierre Menard, “poeta puro”
prossegue: Onde Benjamin distingue entre poeta e “transpoeta” pela diversificação
ontológica dos respectivos encargos, Valéry, implicitamente, permite rein-
O poeta é uma espécie singular de tradutor que traduz o discurso
ordinário, modificado por uma emoção, em linguagem dos deuses; tegrá-los num mesmo gênero. A especificidade do poeta seria, por assim
e seu trabalho interno consiste menos em buscar palavras para dizer, trazer as ideias às formas, enquanto que o tradutor, emancipado
suas idéias do que em buscar idéias para suas palavras e seus
dessa preocupação, lidaria diretamente com essas formas já significan-
ritmos preponderantes.15
tes. Tem razão, portanto, Jackson Mathews, quando evidencia que, para
parece reaproximar-se, por um outro viés, da visão benjaminiana da Valéry, “a tradução seria o que de mais próximo haveria ao ato de escrever
língua pura. O poeta traduz a linguagem de comunicação habitual em poesia pura” (neste sentido, para Valéry, a impossibilidade da tradução
“língua divina” graças a uma emoção “modificadora” (configuradora, de poesia seria apenas um correlato da impossibilidade, em termos de
podería­
mos dizer, já que ele engendra uma “formação bem-aventu- ideal absoluto, de escrever a própria poésie pure...).16 Estamos de volta
ao aforismo de Novalis, para quem o tradutor seria “o poeta do poeta”
13
BLANCHOT. Le livre à venir. p. 133.
14
BORGES. Pierre Menard, autor do Quixote.
15
VALÉRY. Variations sur les Bucoliques. 16
MATHEWS. Third Thoughts on Translating Poetry.

80 Da transcriação: poética e semiótica da operação tradutora Paul Valéry e a poética da tradução 81


(der Dichter des Dichters), o poeta da própria poesia; Novalis que se per- Radicalizando sua acepção de fidelidade, Valéry leva também de roldão a
gunta (Fragmento 490, verdadeiro preceito de poética da tradução, só na noção tradicional de servilidade ao conteúdo.
aparência tautológico): “Uma vez que se põem tantas poesias em música,
O hábito do verso [– diz ele –] tornou-me, aqui e ali, mais fácil, e
por que não pô-las em poesia?” Comentando em 1941 as traduções de como que mais natural, a busca de uma certa harmonia sem a qual,
San Juan de la Cruz por um obscuro carmelita setecentista, Valéry chega em se tratando de poesia, a fidelidade restrita ao sentido é um modo
de traição. Quantas obras de poesia, reduzidas à prova, ou seja,
a afirmar:
à sua subsistência significativa, deixam literalmente de existir!21
Sua originalidade consiste em não admitir nenhuma e, todavia ele
fez uma espécie de obra-prima, ao produzir poemas cuja substân- Note-se, desde logo, o emprego reversivo e eversivo de termos como
cia lhe é alheia e cada palavra dos quais é prescrita por um texto
traição e literal, deslocados do contexto em que aparecem na teoria con-
dado. Dificilmente posso evitar de proclamar que o mérito por
ter levado a cabo com tanto sucesso uma tarefa dessa natureza vencional do traduzir (onde a literalidade ao sentido é o senhor da fide-
é maior (como é mais raro) que o de um autor inteiramente livre lidade e “traição” é o mesmo que tradução conteudisticamente infiel...).
para escolher os seus meios.17
Assim como Benjamin caracteriza a má tradução como “transmissão ine-
Nenhum elogio mais cabal (aqui em modo não necessariamente irônico) xata de um conteúdo inessencial”, partindo da premissa de que a “essên-
de Pierre Menard e seus labores... cia” de uma obra de arte verbal (Dichtung) não é a mensagem, não
Quanto à fidelidade, Valéry sustenta, a propósito de suas tra- é “comunicação” (Mitteilung). Valéry argumenta: “É que os mais belos
duções virgilianas, que não estaria disposto a admitir, dele como dos versos do mundo tornam-se insignificantes ou insensatos, uma vez rom-
outros, “senão uma tradução tão fiel quanto o permita a diferença das pido o seu movimento harmônico e alterada a sua substância sonora...” E
línguas”.18 À primeira vista, tratar-se-ia de uma ideia convencional de remata com a definição magistral do que chama o “efeito” de um poema
fidelidade. Esta afirmação é precedida, todavia, por uma comparação “no sentido moderno”, isto é, “na acepção que sobrevém a uma longa
sintática entre o latim e o francês que resulta desfavorável para o poeta evolução e diferenciação das funções do discurso”. O poema, assim con-
desta última língua: cebido por Valéry,

É claro que a liberdade da ordem das palavras na frase, à qual o deve criar a ilusão duma composição indissolúvel de som e sentido,
francês é singularmente oposto, é essencial ao jogo da versifica- embora não exista nenhuma relação racional entre estes consti-
ção. O poeta francês faz o que pode nos vínculos muito estreitos tuintes da linguagem, que se juntam palavra a palavra em nossa
de nossa sintaxe; o poeta latino, na sua tão ampla, quase tudo memória, ou seja, por força do acaso, para ficar à disposição da
aquilo que quer.19 necessidade, outro efeito do acaso.22

Aqui, podemos recordar as colocações benjaminianas em prol de uma


fidelidade (prefiro dizer “hiperfidelidade”), não à reprodução do sentido Mallarmé: a língua suprema
comunicável, mas à “re-doação da forma” (Wiedergabe der Form), cujo A conjunção de palavras sem “relação racional”, mas como que por uma
maior desafio estaria justamente na “literalidade em relação à sintaxe”.20 ilusão de indissolubilidade, faz pensar no parentesco entre as línguas,
que Walter Benjamin entende não em sentido etimológico mas como
uma espécie de “afinidade eletiva” supra-histórica: a convergência do
17
VALÉRY. Variations sur les Bucoliques. “modo de intencionar” de todas as línguas isoladas e seu sacro evoluir na
18
VALÉRY. Variations sur les Bucoliques.
19
VALÉRY. Variations sur les Bucoliques. 21
VALÉRY. Variations sur les Bucoliques.
20
BENJAMIN. Die Aufgabe des Übersetzers. 22
VALÉRY. Variations sur les Bucoliques.

82 Da transcriação: poética e semiótica da operação tradutora Paul Valéry e a poética da tradução 83


um lance soberano, o caso remanescente aos termos a despeito do
direção da língua pura. Mas a ideia de acaso do “Coup de dés” que engen- artifício com que estes se retemperam alternadamente no sentido
dra, ainda que por um momento fugaz, a figura subitamente necessária e na sonoridade, e vos causa esta surpresa de não ter ouvido ja-
mais tal fragmento ordinário de elocução, ao mesmo tempo que a
de uma constelação que parece aboli-lo na instância do poema, na “ilu-
reminiscência do objeto nomeado se banha numa nova atmosfera.26
são de uma composição indissolúvel”, evoca imediatamente Mallarmé.23
Esta é a fonte comum tanto da concepção valeriana da “linguagem dos Diante da função numerária da palavra comparativa, a poesia,
deuses”, como da benjaminiana da língua pura ou língua da verdade. dizer “essencial”, isolado no verso, tem uma função remuneradora, fazer
Benjamin cita, num momento particularmente relevante de seu ensaio emanar, como o perfeito do imperfeito, a “noção pura”. Valéry e Benjamin
(aquele em que define como o próprio do engenho filosófico a “saudade” se reconciliam em Mallarmé. Só que, enquanto para o primeiro a “tarefa
daquela mesma língua pura que é tarefa do tradutor anunciar), o excerto remuneradora” é comum ao tradutor e ao poeta (a poesia sendo uma
do texto-chave de Mallarmé sobre a langue supréme: espécie singular do gênero tradução), para o segundo essa “função remu-
neratória” é convertida em missão “anunciatória” e cometida exclusiva-
Imperfeitas as línguas ao serem múltiplas, falta a suprema; pensar
sendo escrever sem acessórios nem murmúrios, mas tácita ainda a mente ao tradutor (transpoetizador). Este fica assim – “entre a poesia e a
imortal palavra, a diversidade, sobre a terra, dos idiomas impede doutrina” – nas proximidades do filósofo, cujo engenho se nutre na “sau-
alguém de conferir as palavras que, senão, se deparariam, por
dade” (Sehnsucht) – aspiração de completude e redenção – por aquela
um único impacto, materialmente, com ela mesma, a verdade.24
mesma língua pura ou língua da verdade intensivamente prenunciada na
Benjamin deixa porém de reproduzir um parágrafo decisivo, que conclui o tradução. É ainda Mallarmé quem facilita essa reflexão benjaminiana do
fragmento citado de “Crise de vers”: “Somente, saibamos, não existiria o plano da poética para a filosofia, pois o remunerar da carência de perfei-
verso; ele, filosoficamente, remunera o defeito das línguas, complemento ção da “língua numerária” ou “ordinária” é algo que o autor do “Coup de
superior”. 25
dés” atribui ao próprio verso, à maneira de programa filosófico: “[...] ele
O verso (a poesia) existe porque as línguas são imperfeitas. Em [o verso], filosoficamente, remunera o defeito das línguas, complemento
Mallarmé, não é a tradução que cumpre a tarefa de obviar a carência superior”.27
de perfeição das línguas: é o próprio poema que presenteia as línguas
“impuras” com o suplemento remunerador (munus, em latim, quer dizer Por uma tradução anticadaverosa
‘presente’, ‘dom’), redentor do pecado babélico de dispersão que as afeta. Poesia e tradução de poesia sendo operações tradutoras, ambas partici-
No Prólogo de 1886 ao Traité du verbe de René Ghil (posteriormente pam, na concepção de Paul Valéry, dessa “divinização” da língua de comu-
incorporado à maneira de “coda” ao “Crise de vers”), encontramos outra nicação ordinária, defectiva e nostálgica de um complemento munificente.
fundamental proposição mallarmeana: “Por um poema em prosa”, para o poeta francês, – reconvertê-lo à língua
Ao contrário de uma função de numerário fácil e representativo, numerária – seria o mesmo que “pô-lo num ataúde”, reduzi-lo a um deplo-
como o trata desde logo a multidão, o Dizer, antes de tudo, sonho rável estado cadaveroso, ao gosto de mortuárias práticas pedagógicas.
e canto, reencontra no poeta, por necessidade constitutiva de uma
Por isso mesmo, o método valeriano de traduzir é proposto como
arte consagrada às ficções, sua virtualidade. O verso que de muitos
vocábulos refaz uma palavra total, nova, estrangeira à língua e uma “aproximação da forma”, que não se resume a “amoldar (façonner)
como encantatória, perfaz esse isolamento da fala: negando, por um texto a partir de outro”, mas antes implica “remontar à época vir-
tual da formação” deste outro, a um estado de latência e disponibilidade
23
MALLARMÉ. Un coup de dés jamais n’abolira le hasard.
24
BENJAMIN. Die Aufgabe des Übersetzers. 26
MALLARMÉ. Avant-dire au Traité du Verbe de René Ghil.
25
MALLARMÉ. Crise de vers. 27
MALLARMÉ. Divagations.

84 Da transcriação: poética e semiótica da operação tradutora Paul Valéry e a poética da tradução 85


orquestral: quando “os instrumentos despertam, chamam-se uns aos renovar sua arte, em “enriquecê-la positivamente por invenções às vezes
outros, buscam seu acorde recíproco antes de formar seu concerto”.28 É estranhas, filhas de análises muito sutis das propriedades excitantes da
como se Valéry, persuadido da mesma convicção benjaminiana de que linguagem”. Essa “prática criativa”, que o jogo rememorativo da tradu-
a tradução está muito longe de ser “a surda equação entre duas línguas ção reativava, permitia ao poeta um distanciamento do “motivo inicial da
mortas”, se dispusesse a “descristalizar” o original, para surpreender nele obra, transformado em pretexto”, e lhe produzia, ao mesmo tempo, uma
o “modo de intencionar” (de formar) harmonizado com a língua pura e, “sensação de liberdade” no tocante às “ideias” e de um “império da forma
a seguir, fazer ressoar a intentio desse original no “modo de formar” do sobre elas”. Isto o levava a afirmar:
poema traduzido. Não como “moldagem”, imitação superficial (Abbildung), Eu me certificava de que o pensamento não é senão um acessório
mas como “afinidade eletiva”; convergência na divergência, “figuração ao em poesia, e que o principal numa obra em verso, que o emprego
lado de” (Anbildung): transformação mais que conformação.29 mesmo do verso proclama, é o todo, a potência dos efeitos com-
postos resultantes de todos os atributos da linguagem.
Para tanto, Valéry representa-se Virgílio como poète en travail e
se pretende conduzir diante da “obra ilustre”, fixa numa glória milenar, De onde o poeta extrai um preceito radical para a sua prática de tradutor:
tão disinibidamente como se estivesse diante de um poema seu, em Para mim, a linguagem dos deuses devendo discernir-se, o mais
elaboração sobre a escrivaninha. Não falta o momento de metempsi- sensivelmente possível, da linguagem dos homens, todos os meios
cose (que Borges surpreende em Edward Fitzgerald, tradutor/inventor que a distinguem, se eles conspiram, por outro lado, em favor da
harmonia, devem ser utilizados. Sou partidário das inversões.33
da poesia de um astrônomo e poeta persa, Omar Khayyam, do qual o
separam sete séculos):30 Recuperar a harmonia dos “modos de intencionar” das línguas iso-

Eu me sentia por momentos, em plena manipulação de minha


ladas, que aspiram paradisiacamente à língua pura, e fazê-lo através do
tradução, tomado do impulso de modificar algo no texto venerável. estranhamento disruptor do sentido comum, através da literalidade ao
Era um estado de confusão ingênua e inconsciente com a vida “tom” e à forma, no seu extremo à sintaxe, para ampliar as fronteiras de
interior imaginária dum escritor do século de Augusto.31
seu idioma ao impacto da língua estrangeira – já o sabemos – era o lema
Da metempsicose à discussão por analogia benjaminiano do traduzir. Se Valéry não vai tão longe em sua profissão de
“E por que não?” – se repete Valéry. Tratava-se, no fundo, de re-produzir fé no procedimento estranhante da tradução, é que isto pode parecer-lhe
(reencenar) uma “atitude” (um modo de intencionar, diria Benjamin); tautológico. A poesia (espécie singular de tradução) já vive, para ele, de
uma “orientação de sensibilidade do vocabulário implexo” (vale dizer, uma “necessidade particular e algo insólita”. Implica a “solução única”
“cuja trama é complicada”), de modo que “todas as palavras da memória de um problema combinatório, solução imposta ao poeta por uma “força
ficassem como que à espreita de tentar sua chance em direção à voz”. 32
cantante” e que não lhe exprime “fielmente” o pensamento, mas, antes,
Valéry se rejuvenesce, repristinando o poema do jovem Virgílio: parece-lhe “estranha, estrangeira, preciosa”, algo que um pensamento
“Vou, a meu modo, do poema acabado e, ademais, como cristalizado em por si só não teria o condão de produzir.
sua glória, à busca de seu estado nascente.” Reencontra-se a si próprio, A teoria do estranhamento levou Benjamin a sustentar que a tradu-
em plena euforia experimental, como um jovem poeta empenhado em ção seria “um modo provisório de discutir com a estranheza das línguas”,34
mirando à desbabelização messiânica no fim da história. Valéry, de sua
28
VALÉRY. Variations sur les Bucoliques.
29
BENJAMIN. Die Aufgabe des Übersetzers. parte, a projeta no ato de traduzir definido como uma “discussão por
30
BORGES. The enigma of Edward Fitzgerald.
31
VALÉRY. Variations sur les Bucoliques. 33
VALÉRY. Variations sur les Bucoliques.
32
VALÉRY. Variations sur les Bucoliques. 34
BENJAMIN. Die Aufgabe des Übersetzers.

86 Da transcriação: poética e semiótica da operação tradutora Paul Valéry e a poética da tradução 87


analogia” com uma “obra ilustre”, discussão que poderia parecer “ingênua alemão) como “linguagem carregada de sentido no seu grau máximo”, e
e presunçosa”, mas que derivava para ele da imaginação “de um estado acrescenta que a poesia (Dichten, ‘condensare’) “é a forma de expressão
ainda instável da obra”, de um como inacabamento desta. Assim, sentia- verbal mais concentrada”,37 está evidenciando que, em poesia, a forma é
se impelido a “participar o mais sensivelmente possível da vida mesma intensivamente semantizada (uma forma semiótica, portanto, irradiada e
dessa obra, posto que uma obra morre no seu acabar-se”. Discutir por irradiante de sentido). Esta é a “interlíngua” que o transcriador de poe-
analogia não era, pois, mera cópia ou imitação, mas significava algo ativo sia deve saber perseguir e desocultar por sob o conteúdo manifesto do
e transformador: “Eu reprovo, lamento ou admiro; invejo ou suprimo; poema de partida, para fazê-la ressoar – até o excesso de desacorde e
rejeito, rasuro, reencontro e confirmo o que acabo de encontrar, adoto-o da transgressão – na latitude assim extraterritorializada de sua própria
nessa reversão que lhe é favorável.” Estas reflexões abrem para Valéry língua.
a perspectiva de uma “poética da leitura” (o leitor apaixonado do poema
convertendo-se em seu “autor instantâneo”), tal como aquela que Emir
Rodríguez Monegal tão bem estudou em Borges. Aqui compareceria com
propriedade – já que mencionei mais uma vez Borges – uma outra (e até
certo ponto convergente) ideia do ato de “pôr em discussão” envolvido na
operação de traduzir poesia. Depois de observar (“Las versiones homéri-
cas”): “Nenhum problema tão consubstancial às letras e a seu modesto
mistério como o proposto pela tradução”, Borges augura: “A tradução
[...] parece destinada a ilustrar a discussão estética”.35
A partir de uma pragmática do traduzir, e muito antes de ter
ensaiado todo o percurso teórico aqui delineado, assinalo ter-me aproxi-
mado desse problema de um ângulo por assim dizer didático, na proposta
de um “laboratório de textos” formulada em “Da tradução como criação
e como crítica” (1962):

Se a tradução é uma forma privilegiada de leitura crítica, será


através dela que se poderão conduzir outros poetas, amadores e
estudantes de literatura à penetração no âmago do texto artístico,
nos seus mecanismos e engrenagens mais íntimos.36

Aqui, porém, estamos numa física do traduzir, onde o horizonte “meta-


físico”, escatológico, da língua suprema (comum a Mallarmé, Valéry,
Benjamin) é desinvestido de sua sacralidade e reinterpretado semiotica-
mente como o prospecto de uma prática tradutória suscetível de teori-
zação e por isso mesmo generalizável de língua a língua. Quando Pound
– o tradutor por excelência – define “grande literatura” (Dichtung em

35
BORGES. Las versiones homéricas.
36
CAMPOS. Da tradução como criação e como crítica. 37
POUND. A.B.C. de la lecture.

88 Da transcriação: poética e semiótica da operação tradutora Paul Valéry e a poética da tradução 89


O que é mais importante: a escrita ou o escrito?

Este simpósio convida-me a interrogar, convida-nos, aos que estão aqui


na mesa, a interrogar a obra de Walter Benjamin por meio de sete ques-
tões pré-formuladas; a que me toca é a quinta: O que é mais importante,
a escrita ou o escrito? Sou convidado a propô-la, tomando como ponto
de referência a especificação temática “teoria da linguagem em Walter
Benjamin”, e isso, segundo o texto de apresentação contido no programa,
me permitirá, como também aos outros participantes desta seção de tra-
balho, “confrontar-me com o problema da tradução de textos intradu-
zíveis”. Confesso que, num primeiro momento, a questão proposta me
deixou perplexo. Não me considero um especialista em Walter Benjamin.
Tenho sido, simplesmente, desde muitos anos, um leitor e estudioso de
sua obra, na qual elegi um tema de preferência: o problema da tradução
ou, em termos mais propriamente benjaminianos, a tarefa, Die Aufgabe
des Übersetzers, a tarefa do tradutor, ou melhor: aquilo que é dado ao
tradutor dar, o “dado”, o “dom”, a “redoação” e o “abandono” do tradu-
tor, isto para explorar o Aufgeben benjaminiano em todas as suas nuan-
ces semânticas, indico apenas que, para efeito dessa esporação, eu me
reporto a um trabalho de Carol Jacobs, The Monstrosity of Translation,
seguido por Jacques Derrida1 e por Paul de Man.2 Então, a tradução é
uma Aufgabe: eis uma dessas palavras bissêmicas e oximorescas em ale-
mão, que contêm ao mesmo tempo a afirmação e a negação – ao mesmo

1
DERRIDA. Des tours de Babel, p. 189-190.
2
DE MAN. Conclusões: a tarefa do tradutor de Walter Benjamin.
tempo se trata de ‘dar’ e ‘doar’ e se trata de ‘renunciar’. Abandonar em do título: “O que é mais importante, a escrita ou o escrito?” Em portu-
português, no sentido jurídico, significa ‘renunciar’, como se diria, “aban- guês, essa proposta, “o que é mais importante, a escrita ou o escrito?”,
donar uma herança”; é o contrário, pois, de “receber um dom”, uma já de início envolve uma grande ambiguidade. Escrita, em português,
“doação”. O abandonar, na teoria da tradução de Walter Benjamin, diz ‘é a arte de escrever’, sendo que, em português de Portugal, o termo
respeito ao sentido comunicacional. Mitteilung, aquilo que o tradutor escrita tem sido usado para traduzir écriture, no sentido francês da teo-
abandona, aquilo a que ele renuncia, é Die Wiedergabe des Sinnes, a ria de Roland Barthes, por exemplo. Enquanto em português de Portugal
redoação do sentido, do sentido referencial, o comunicativo; o dado que se traduz A escrita e a diferença, título do livro de Derrida, em por-
cabe ao tradutor dar ou redoar, Wiedergabe, é a forma, Wiedergaber der tuguês do Brasil se traduz A escritura e a diferença. Vejo, assim, que
Form, “redoação da forma”, desonerando-se da transmissão do sentido há um problema de tradução intralingual de uma esfera geográfica do
referencial, do trabalho de transmitir esse sentido raso e comunicacional. português para outra. Além do mais, na teoria da linguagem de Walter
Isso permite que o tradutor se concentre na sua missão doadora essen- Benjamin, é antes a questão da língua, die Sprache, a língua dos nomes,
cial, que é justamente aquela de perseguir a Art des Meinens a Art der die Namensprache, da paradisíaca Sprach der Namen, a língua pura. Esse
intentio, o “modo de significar”, o “modo de intencionar”, ou, usando uma seria antes o ponto pelo qual se poderia fazer uma interrogação, uma
expressão de Umberto Eco, “o modo de formar” do original, ao invés de crítica à teoria de linguagem de Walter Benjamin. É verdade que Schrift,
buscar o mero conteúdo comunicacional. Este conteúdo comunicacional, a escrita, também entra no segundo movimento da teoria da linguagem
segundo Walter Benjamin, já foi previamente organizado pelo original, de Benjamin, quando ele considera a “função mimética da linguagem” na
e assim fica dispensado o tradutor do labor Die Mühe, para Benjamin, a doutrina das semelhanças e também num trabalho posterior, algo poste-
tarefa, no sentido até (ao que me parece) bíblico, aquela tarefa, aquilo rior, sobre o problema de sociologia da linguagem.3 Desde logo, como nós
que no Eclesiastes se diz amal: a torpe tarefa, tarefa laboriosa, de trans- temos essa ambiguidade de base em português, tenho que pensar em
mitir o conteúdo. É o próprio original que libera a tradução dessa tarefa, que sentido eu posso interrogar Walter Benjamin a partir da língua alemã.
porque o original já organizou previamente esse conteúdo; esse sentido Em alemão die Schrift significa tanto ‘a caligrafia’ ou ‘a escrita’ no sentido
foi previamente organizado pelo original, que assim dispensa o tradutor geral como também ‘a obra escrita’; se eu falo Goethes Schriften, estou
de ocupar-se dele, permite que o ponha entre parênteses para concen- falando dos “escritos de Goethe”, ou seja, da “obra de Goethe”. E tam-
trar-se no “modo de formar”, no “modo de intencionar” do texto original, bém se usa em alemão a mesma Schrift para Heilige Schrift, a Escritura
escopo de sua missão ou tarefa redoadora, uma vez que é através desse Sagrada, quando em português sempre se dirá “escritura”, neste caso,
“modo de intencionar” que o tradutor vai perseguir o objetivo da comple- tanto no Brasil como em Portugal.
mentaridade da intenção das duas línguas na direção da “língua pura”, Então, na primeira conclusão, eu já poderia admitir a partir desse
que é para onde a tradução mira. problema translatício-tradutório que a palavra escrita, escrito, escritura,
Como poeta e tradutor de poesia e como teórico da poesia e da nessa construção de palavras, se carrega de sentido dentro do horizonte
tradução poética (que eu prefiro chamar de recriação e transcriação); da língua portuguesa. Na medida em que Schrift designa em alemão a
quando fui convidado a apresentar neste simpósio reflexões sobre o sig- escrita enquanto “arte de escrever” e a própria “escritura”, a Sagrada
nificado que tem tido para mim a concepção benjaminiana do problema Escritura, é sobretudo para essas duas primeiras acepções do termo que
da tradução, a apresentar as minhas reflexões, que venho desenvolvendo propenderia o interesse da teoria de linguagem de Walter Benjamin.
há longo tempo, sobre esse problema, confesso que fiquei algo perplexo 3
BENJAMIN. Über Sprache überhaupt und über die Sprache des Menschen; Die Aufgabe des Übersetzers;
com a rubrica geral, em que foi enquadrada a minha intervenção, a partir Lehre von Ähnlichen; Über das mimetische Vermögen; Probleme der Sprachsoziologie.

92 Da transcriação: poética e semiótica da operação tradutora O que é mais importante: a escrita ou o escrito? 93
Antes de tratar da escrita (die Schrift), porém, Benjamin se interroga “mimetismo não sensível”, o que me parece uma premonição muito inte-
sobre o problema da língua (die Sprache), no seu trabalho sobre a “lín- ressante das teorias mais modernas da linguística e mesmo, em certos
gua em geral” e a “língua dos homens” (Sprache der Menschen), trabalho aspectos, da semiótica peirciana, aqueles que mostram os traços icônicos
de 1916.4 Nesse trabalho “toda língua humana é somente o reflexo do e diagramáticos dispersos na estrutura linguística. Além desses trabalhos
verbo no nome”; nesse trabalho, Walter Benjamin desenvolve a teoria eu já mencionei um outro sobre problemas de “sociologia da linguagem”,
da “nomeação adâmica”, em relação com a palavra criadora de Deus, o que é de 1935; é um texto muito curioso, porque mais uma vez, no curso
ato de nomear conferido a Adão por Deus no Gênese, e a partir daí ele de todo ele, Benjamin se ocupa da origem onomatopaico-gestual da lin-
desenvolve a teoria de que, no momento em que a linguagem é exterior- guagem, passa em revista várias teorias, àquela altura recentes, para
mente comunicável, isso indicaria justamente o momento da queda ou do chegar à conclusão de que realmente é errado considerar a língua como
pecado original. Isso apenas para passar muito rapidamente sobre essas um instrumento; a língua não é só um instrumento, um meio, mas “uma
questões. Já o problema da escrita, a ideia da escrita, portanto, surge revelação da nossa mais íntima essência e do elo psíquico que nos une
em Lehre von Ähnlichen, teoria da similitude, da semelhança, do similar, a nós mesmos e a nossos semelhantes”. E conclui o trabalho dizendo
onde Benjamin refere, no ano de 1933, que “a escrita se torna, ao lado que esta intuição “é aquilo que explícita ou implicitamente está no iní-
da palavra, um vasto reservatório de semelhanças não sensíveis”; num cio da sociologia da linguagem”. Falando da sociologia da linguagem – e
seguinte trabalho sobre a “faculdade mimética”, também do ano de 1933, falando da sociologia da linguagem no ano de 1935 –, a preocupação de
porém de alguns meses mais tarde, está dito algo análogo, “a escrita tor- Benjamin com aspectos não referenciais, não vinculados da linguagem,
nou-se, juntamente com a língua, um arquivo de semelhanças não sen- continua a mesma, está preocupado com o aspecto fônico, fisionômico-
síveis, de correspondências imateriais”. Na escrita, segundo Benjamin, gestual, fônico-fisionômico-gestual da origem da linguagem e já a um
há uma fusão do “semiótico” e do “mimético”, no “âmbito da língua”. certo momento para ele tanto die Sprache como die Schrift, ‘a lingua-
Entenda-se, a semiótica de Benjamin é rudimentar, num certo sentido. O gem’ e ‘a escrita’, fazem parte, estão integradas na mesma destinação de
problema do semiótico para Benjamin diz respeito ao nexo significativo, serem “repositório desses traços miméticos não sensíveis” que, vamos
à função comunicativa da língua, e aquilo que ele chama de “mágico” dizer, sim, em última instância, evocariam a “língua adâmica”. A teo-
ou “mimético”, seria aquilo que, numa semiótica mais elaborada como ria romântica de Ritter, teoria romântica e radical de Ritter, de Johann
a de Peirce, nós chamaríamos de “icônico” (e que dirá respeito, numa Wilhelm Ritter, é exposta por Walter Benjamin no livro sobre o drama
linguística jakobsoniana, à “função poética”). Mas, de qualquer maneira, barroco, sobre o Trauerspiel (em português seria bizarro, mas se pode-
no primeiro trabalho sobre a questão da origem da linguagem, a questão ria traduzir por ‘lutilúdio’ este Trauerspiel barroco). Nesse livro Benjamin
da linguagem e da nomeação, da linguagem adâmica e da queda desta volta então a falar no problema da escrita e da linguagem, no “genial
linguagem através do pecado original, circunstância que, por seu turno, Ritter”. A ideia ritteriana, por exemplo, da conexão interna entre a pala-
instaura a palavra judicante, a palavra do discurso lógico, que pode emitir vra e a escrita. Na verdade, Ritter não vê uma anterioridade da língua
julgamentos de “certo” e “errado”, o que já seria o produto dessa “queda” falada sobre a escrita, ele fala em simultaneidade primeira e absoluta
da língua, da perda da sua proximidade adâmica; são estes os proble- da língua, da palavra falada e da escrita, o que estaria expresso no fato
mas que ocupam Walter Benjamin. Nos dois trabalhos em que ele trata de que “o próprio órgão da locução escreve para poder falar”. “Somente
da escrita há uma grande preocupação exatamente com o problema do a letra fala, ou melhor, a palavra e a escrita são uma só coisa desde a
origem, e sem uma, a outra não é possível.” Então, a própria anterio-
4
BENJAMIN. Über Sprache überhaupt und über die Sprache des Menschen; Die Aufgabe des Übersetzers;
Lehre von Ähnlichen; Über das mimetische Vermögen; Probleme der Sprachsoziologie. ridade da palavra oral sobre a escrita é posta em questão por Walter

94 Da transcriação: poética e semiótica da operação tradutora O que é mais importante: a escrita ou o escrito? 95
Benjamin, que enfatiza essa teoria radical do romântico Johann Wilhelm de arte verbal; e esses dois termos para mim só se tornam pertinentes
Ritter no livro publicado em 1810. Eis uma antecipação da “arquiescritura” na medida em que ambos se referem a die reine Sprache, a língua pura,
de Derrida (Gramatologia). à medida que a operação da Umdichtung em relação à Dichtung permite
Também não posso me deter sobre isso, passo adiante, apenas resgatar na língua da tradução, na língua da Umdichtung, a língua pura”
quero mostrar os vários aspectos pelos quais me é lícito interrogar a teo- que está cativa na Dichtung, ou seja, no original enquanto obra de arte
ria da linguagem de Walter Benjamin, a partir do problema da escrita ou verbal. Também não posso me estender sobre esse tema, mas o ensaio
da escritura. sobre a tradução pode ser visto como verdadeiro órganon do pensamento
Existe, ainda, um outro aspecto importante, que é o aspecto da benjaminiano sobre a linguagem.
Escritura Sagrada. O problema da Escritura Sagrada, die Schrift, die O que eu gostaria de apresentar de uma maneira mais elaborada
Heilige Schrift, “texto sagrado” está indicado no parágrafo final de “Die são as reflexões que tenho feito, e fazem parte de um livro a sair, sobre
Aufgabe des Übersetzers”, ensaio que o próprio Benjamin considerou o o problema da “traduzibilidade da tradução”, uma questão fundamental.
primeiro resultado de suas reflexões teórico-linguísticas (embora não Walter Benjamin nega essa possibilidade. Para chegar a esse problema,
fosse realmente o primeiro, já que é um trabalho de 1921, publicado devo dizer que, ao longo desses anos, uma das coisas que eu tenho feito
em 1923). Bom, então eu queria apenas dizer que aparece o tema da é procurar “traduzir”, para uma linguagem semiótica, os “teologemas”
Escritura Sagrada, portanto uma outra acepção de die Schrift, no final da tradução de Walter Benjamin. Para isso, tenho-me apoiado muito nas
desse ensaio sobre a tradução. A Escritura Sagrada é apontada como teorias linguísticas de Roman Jakobson, entendendo a língua pura como
o grau mais alto do escrever, como um texto cuja versão interlinear se um “lugar semiótico” da operação tradutora. Também não posso me deter
propõe qual Urbild, arquétipo ou ideal para a tradução, melhor dizendo, sobre isso, mas está publicado na revista 34 Letras, um trabalho meu que
para a Umdichtung, “transpoetização” da própria arte verbal, que seria tem o título “Da tradução à transficcionalidade”,5 e que trata de temas
Dichtung. Então, mais uma vez entra o tema da escritura dessa maneira. como essa tentativa de reler semioticamente os teologemas benjaminia-
A essência disso que se chama Dichtung, “a inaferrável, secreta poetici- nos; o problema da recepção na teoria benjaminiana, um outro problema
dade” não é a comunicação (Mitteilung). que não terei condição de expor aqui, que é o problema da “recepção
A última subpergunta que eu poderia fazer diante da pergunta geral distraída” (eu proponho uma equação entre a “recepção distraída” do
“o que é mais importante, a escrita ou o escrito”, em Walter Benjamin, conteúdo referencial, ou seja, do significado, feita pelo tradutor de uma
diz respeito à Dichtung. Num primeiro momento eu mostrei que a escrita, obra de arte, com a “recepção distraída” no cinema, e o efeito de cho-
enquanto “arte de escrever”, é importante ao lado da própria origem que constitui a violência que a língua estranha produz sobre a língua de
da linguagem; por outro lado, a escritura, enquanto Escritura Sagrada, recepção, o efeito de choque, que também é produzido pelo cinema, mas
Heilige Schrift, é muito importante como Urbild, ‘arquétipo’, no que res- isso eu desenvolvi nesse trabalho, aqui eu não tenho tempo de expor
peita à tradução. E, finalmente, poderíamos falar também que, se nós mais detalhadamente).6
entendemos o escrito como obra de arte verbal (mesmo em alemão se Então eu agora vou expor, espero que dê tempo para isso, a ques-
pode falar dos “escritos de Goethe”, Goethes Schriften), então nós tería- tão da “tradução da tradução”, o gesto usurpatório. A ultimação da teoria
mos que pensar no problema que melhor se designa por Dichtung. Sem da tradução em Walter Benjamin implica levá-la até consequências por
dúvida é relevante, para a teoria da linguagem, o problema da obra de
5
Publicado no n. 3, março de 1989.
arte verbal, Dichtung, mas é relevante em conciliação com o problema 6
CAMPOS. Da tradução à transficcionalidade; Tradução e reconfiguração do imaginário: o tradutor como
da Umdichtung, ou seja, “transpoetização”, a tradução específica da obra transfingidor.

96 Da transcriação: poética e semiótica da operação tradutora O que é mais importante: a escrita ou o escrito? 97
ele mesmo não enfrentadas, ou seja, a uma nova reversão que lhe force maneira o português, que era preciso recorrer a Homero para entendê-
a “clausura metafísica”, para falar como Derrida. De fato, apesar de ter lo). Na minha tradução também apliquei giros sintáticos que, por vezes,
desconstituído e desmitificado a norma da transparência do sentido e o me parecem reminiscentes da inusitada estilística de Guimarães Rosa. Na
dogma da fidelidade e da servilidade da teoria tradicional da tradução; prática do traduzir, nenhuma objeção parece válida ou sustentável contra
apesar de ter promovido o aspecto estranhante da operação tradutora a possibilidade da retradução da tradução poética; basta-se pensar nas
como transpoetização da “forma de uma outra forma”; apesar de ter retraduções dos Rubai de Omar Kayyam, reinventados por Fitzgerald.
contribuído, ainda que em termos sublimados e sacralizados, para o des- Essas retraduções são numerosas em português, de Manuel Bandeira a
cortino do código intra- e intersemiótico, a língua pura, que a tradução Augusto de Campos. Ou então, um outro exemplo, a retradução para o
de poesia põe em relevo e exporta de língua a língua como prática libe- português, ou para outra língua, de “Gônguala” (“Sapyrus”), um pequeno
radora e re ou transfiguradora; apesar de tudo isso, Benjamin insiste poema de Pound, que a exegese revelou ser já, ele próprio, uma tradu-
na manutenção de uma distinção categorial entre original e tradução, o ção de um fragmento de Safo. Enfim, as traduções são intraduzíveis, diz
que o leva a afirmar outro dogma, o da impossibilidade da retradução de Benjamin, não em razão da dificuldade, mas antes em virtude da exces-
traduções de poesia. Essa assertiva choca-se desde logo com o estatuto siva fugacidade, Flüchtigkeit, com que o sentido adere a elas.
primacial que Benjamin confere às “transpoetizações” sofoclianas e pin-
A esse propósito, como a respeito de todos os outros aspectos
dáricas, principalmente às sofoclianas, de Hölderlin, por ele mesmo defi- essenciais, as traduções de Hölderlin, em especial as das duas
nidas como constituindo um Urbild (‘arquétipo’ ou ‘arquefigura’) de todos tragédias sofoclianas, se revelariam confirmadoras. Nelas, a har-
monia das línguas é tão profunda, que o sentido se deixa apenas
os possíveis paradigmas (paradigma enquanto Vorbild) de traduções dos
tocar pela língua como uma harpa eólica pelo vento.
mesmos textos, ainda que as melhores e mais altas, as mais perfeitas.
No âmbito da forma chamada tradução, Benjamin faz com que se repita, Aqui se insinua uma fissura epistêmica na construção de Walter Benjamin,
através desse exemplo, a relação entre original, Urbild, e caso mode- que pode servir de alavanca para a sua desconstrução no sentido derri-
lar, Vorbild. As traduções de Hölderlin estão na posição de um original diano. O ensaísta antes afirmara que o excesso de peso (Übergewicht)
perante as demais traduções. do sentido era exatamente aquilo que impedia uma tradução essencial;
A relação seria infranqueável entre o protótipo e tipo. Por isso que um texto com excesso de sentido comunicacional não pode ser tra-
mesmo, em meu estudo de 1967, “A palavra vermelha de Hölderlin”, duzido no sentido essencial, antes serviria de obstáculo a uma tradu-
empenhei-me em transcriar em português, com os subsídios do sau- ção “plena de forma” (eine formvolle Übersetzung). Uma tradução “plena
doso Anatol Rosenfeld, um fragmento daquele mesmo texto “monstru- de forma” só pode ocorrer quando um texto não esteja sobrecarregado
oso”, Antigone, de Sófocles, via Hölderlin, que não seria retraduzível do peso do sentido; já que a possibilidade da tradução enquanto forma
por princípio. Ao fazê-lo, lembrei que, dentro do próprio idioma alemão, decorreria do fenômeno contrário, ou seja, do valor e da dignidade,
Brecht tinha feito uma singular tradução intralingual, na terminologia de Werte und Würde (proponho em português ‘valor e vigor’), da lingua-
Jakobson, do mesmo texto, em Antigone-modelo de 1948. Minha trans- gem, da altitude com que a obra fosse configurada (geartet), ainda que
poetização da Antigone de Hölderlin implicou estranhar o português com essa traduzibilidade ocorresse através do mais fugidio ou do mais fugaz
palavras compostas incomuns, nisto retomando a lição pioneira das tra- (Flüchtigkeit – a mesma palavra que antes foi mencionada) contato com
duções homéricas de Odorico Mendes (traduções de Homero que foram o sentido do original. Agora, no entanto, para manter a distinção catego-
consideradas por João Ribeiro mais difíceis de ler do que o próprio ori- rial entre Dichtung e Umdichtung, Benjamin é levado a descartar a radi-
ginal grego, na medida em que Odorico Mendes havia helenizado de tal calização dessa mesma assertiva, negando a possibilidade da recriação

98 Da transcriação: poética e semiótica da operação tradutora O que é mais importante: a escrita ou o escrito? 99
da transcriação de Hölderlin, exatamente porque esta, enquanto forma um encargo ou missão “angélica”; a tradução anuncia para o original a
singular, se caracterizaria pela fugacidade (Flüchtigkeit) do sentido refe- possibilidade da reconciliação na língua pura, na língua da verdade; ela
rencial, vale dizer, pela densidade extrema da forma e pela intensidade não pode, enquanto tradução, no sentido próprio, encarnar, ainda que
harmônica entre as duas línguas, nela ou através dela, pela harmonia fragmentariamente, o verbo. No ensaio sobre a “tarefa da tradução”, é o
dos respectivos “modos de intencionar”, que também são “modos de for- logos grego que aparece para Benjamin, o do Quarto Evangelho do Novo
mar”. O que equivale a dizer pelo modo “intensivo” como, na transcria- Testamento, o Evangelho segundo São João, e não o davar hebraico,
ção, se produziria a convergência das intencionalidades para a língua que ajudaria Benjamin a pensar o problema (se tivesse realmente levado
pura. Mas a missão da tradução de poesia não é provocar, precisamente, adiante o projeto de estudar a língua hebraica), a resolver o paradoxo do
a atenção para essa complementaridade ou anunciá-la como horizonte logos através do pensamento hebraico desse paradoxo inscrito na própria
utópico? Isso não estaria tanto mais presente onde mais intensa a com- palavra davar, que significa, ao mesmo tempo, ‘palavra’ e ‘coisa’. A tra-
plementaridade, que é sempre parcial, provisória, pois sua completude dução, no sentido próprio, não pode encarnar, ainda que fragmentaria-
só se daria abruptamente no fim messiânico da história? Isso não se mente, o verbo, mas ela pode anunciar a sua presença oculta na língua
daria onde essa complementaridade estivesse, exatamente, mais perto do original, com que provisoriamente, para que ele ascenda, como inten-
de manifestar-se? Onde a “língua da verdade” (die Spracheder Wahrheit) ção liberada na língua da tradução, ao horizonte da língua pura, para que
mais perto estivesse de resplandecer na cointencionalidade dos modos se apresente ou ascenda a si mesmo enquanto “presença ou significado
de representá-la? Não teria razão Novalis, quando afirmava que o tradu- transcendental”. Die Wahrheit ist der Tod der Intention, “a verdade é a
tor é o poeta do poeta? Der wahre Übersetzer, er muss der Dichter des morte da intenção”, escreve Benjamin no prefácio epistemoclítico da sua
Dichters sein? Não tocaria num ponto extremamente pertinente o próprio obra de 1925 sobre o “lutilúdio”, o “auto fúnebre” barroco. A atitude que
Novalis, quando afirmou, a respeito das traduções de Shakespeare por lhe é adequada, portanto, à verdade não é um intencionar no conhecer,
Schlegel, por August Schlegel, que elas superavam o original? E o meu (Meinung in dem Kennen), mas um imergir (eingehen), um adentrar,
amigo Willi Bolle fez isso exatamente em relação ao próprio Benjamin; ao um desaparecer (verschwinden), nela, verdade. É isto que diz a lenda
comentar dois versos do poema “Le Soleil” na sua tese de livre-docência da imagem velada de Sais, a revelação (Enthüllen) da qual acarreta a
sobre Benjamin, Willi Bolle afirma que, nesses dois versos, lhe parecia ruína concomitante (Zusammenbrechen) daquele que pensou descobrir
que Benjamin havia em sua tradução superado o original de Baudelaire. E a verdade. A língua pura como língua verdadeira ou língua da verdade
lembro também uma referência de Gadamer, quando ele diz que a tradu- absorve e absolve todas as intenções das línguas individuais desocultadas
ção, via de regra, é sempre mais clara, mais plana que o original, mesmo dos originais, e nesse sentido arruína a tradução como um processo que
quando é extremamente bem realizada, mas que haveria, em casos muito contribui fragmentariamente para esse desvelamento; arruína, por, em
especiais, exceções. E Gadamer aponta, como exceção, as traduções de sua completude, torná-la totalmente possível, e por isso mesmo pres-
Stefan George de Baudelaire, nas quais, através de uma perda compen- cindível, já que inscreve a tradução na sua transparência, na sua pleni-
sada com outros ganhos, a linguagem conseguiria obter uma nova saúde tude de significado último, operando a reconciliação do imanente com o
(eine neue Gesundheit), diz ele. Então, em mais de um momento se transcendente.
pensou esse problema da categoria estética da tradução. E eu continuo,
assim, a reverter dialeticamente em afirmação aquele veto benjaminiano
de matiz ontológico, à possibilidade de uma retradução da tradução poé-
tica; concluo afirmando essa possibilidade. Benjamin confere à tradução

100 Da transcriação: poética e semiótica da operação tradutora O que é mais importante: a escrita ou o escrito? 101
Faço uma citação de Benjamin: teoria benjaminiana, com o escopo de preservar, perspectivando-a no
horizonte messiânico, a qualidade categorial da distinção entre original
Onde o texto imediatamente (unmittelbar) e sem mediação de
sentido, na sua literalidade, pertence à língua verdadeira, da ver- e tradução, que Walter Benjamin chama de Rangunterschied, ‘distinção
dade, da doutrina, ele é traduzido por definição (schlechthin), em categorial’, de posição, entre original e tradução, poeta e tradutor. E, com
sentido absoluto, sem mais tensão (spannungslos), na forma da
isso, trata-se de preservar com esta distinção a miragem da língua pura,
versão interlinear.7
da “apocatástase” do sentido único. Se pensarmos, como Borries, que
Fidelidade e liberdade, afinal, se deixam unir. Como no texto sacro, esta substancialização idealizante do original, aliás, apresentada sempre
a linguagem e a revelação. Daí decorre para Benjamin, por um lado, de modo irônico por Walter Benjamin, não é pertinente; que a questão
que os textos sacros (em grau máximo, Die Heilige Schrift, a Bíblia) da origem desloca-se para a pergunta sempre diferida a respeito de qual
contenham nas entrelinhas sua tradução virtual; por outro, que essa será o borrador do borrador, então teremos transformado a “função angé-
Interlinearversion, cuja culminância se dá no texto sagrado, seja “arqui- lica” do tradutor de poesia numa empresa “luciferina”, apresentando-a
figura”, como foi Urbild também a tradução de Hölderlin, o ideal de toda diante do original não como mensageira do significado transcendental
tradução. Compreende-se, então, porque as traduções de traduções de da língua pura, mas luciferinamente, como différance,78 como presença
poesia seriam “principialmente”, ou seja, em princípio, intraduzíveis, diferida e diferença em devir. A tradução arruína-lhe a categoricidade,
ainda aquelas de Hölderlin, que são também “arquifigura” (Urbild) da dessacraliza-o como texto, rasura-lhe o centro e a origem, ao invés de
própria forma que se chama tradução. É que elas estão condenadas ao render-se à ameaça da danação, do silêncio, que pesa sobre o tradutor
silêncio, o perigo terrível e original (ungeheure und ursprüngliche), que como um interdito, mais do que jupterino, jafético (porque se trata do
ronda toda empresa de tradução. Que as portas de uma língua tão alar- ciúme do Criador original, o Deus-Pai bíblico). O tradutor, o transcriador
gada e atravessada por força de elaboração se fechem e clausurem o passa, por seu turno, a ameaçar o original com a ruína da origem; ame-
tradutor no silêncio. açado pelo silêncio, ele responde, afrontando o original com a ruína da
Isto se resume em perder-se, verlieren, como aquele extinguir-se origem. Esta, como eu a defino, como a procuro definir, a última hybris
que sobrevém a quem interroga a verdade, onde morre a intenção. O do tradutor-transpoetizador. Transformar, por um átimo, o original na tra-
sentido rola de abismo a abismo, ameaçando perder-se nas profundi- dução de sua tradução; reencenar a origem e a originalidade através da
dades insondáveis da língua. A tradução da tradução não é mais possí- “plagiotropia”, como movimento incessante da “diferença”; fazer com que
vel, porque um re-anunciar do anunciar, uma sobrecarga “angélica”, uma a mímesis venha a ser a produção mesma dessa “diferença”.
sobretarefa angelical, uma anunciação da anunciação, aproximaria de tal
modo o tradutor da língua pura, que esta quase imediatidade o consumi-
ria no seu fogo, reconciliação do imanente e do transcendente, do sentido
e da forma na verdade da presença absoluta. Sobreviria a absorção e o
apagamento do traduzir, apagamento (Löschen) na “morte da intenção”,
que é a revelação do verbo. Todos os textos se reuniriam, reconvergidos
no texto único. É evidente que não precisamos ficar circunscritos neste
círculo ontológico proposto quase metafórica e também ironicamente pela

BENJAMIN. Die Aufgabe des Übersetzers.


7 78
Différance: neologismo de Derrida

102 Da transcriação: poética e semiótica da operação tradutora O que é mais importante: a escrita ou o escrito? 103
Carta de Walter
Benjamin, de 25 de
julho de 1940.

Exercício de escrita
hebraica de Walter
Benjamin, cerca de
1924.

104 Da transcriação: poética e semiótica da operação tradutora O que é mais importante: a escrita ou o escrito? 105
A língua pura na teoria
da tradução de Walter Benjamin

Em seu ensaio de 1921 sobre “A tarefa do tradutor” (“Die Aufgabe des


Übersetzers”), Walter Benjamin, depois de proclamar que a tradução,
como a filosofia, não tem Musa, afirma a existência de um “engenho filo-
sófico” (ein philosophisches Ingenium), cuja “característica mais íntima
está na saudade (Sehnsucht) daquela língua que se anuncia na tradução”.
E cita, então, uma emblemática passagem, não de um filósofo, mas de
um poeta, Mallarmé:

Les langues imparfaites en cela que plusieurs,


Manque la suprême: penser étant écrire
Sans accessoires, ni chuchotement mais tacite
Encore l’immortelle parole, La diversité,
Sur terre, des idiôms empêche personne de
Proférer les mots qui, sinon se trouveraient,
Par un frape unique, elle-même matériellement
la verité.1

As línguas imperfeitas por isso que são muitas,


falta a suprema: pensar sendo escrever
sem acessórios nem murmúrio mas tácita
ainda a palavra, a diversidade,
na terra, nos idiomas impede que se,
profiram as palavras que, senão haveriam de encontrar,
por um ato único de cunhagem, ela mesma materialmente
a verdade.

1
MALLARMÉ. Crise de vers.
No contexto do ensaio benjaminiano, a “língua suprema”, na qual se Benjamin no “Prefácio epistemo-crítico” a seu livro de 1925, Ursprung
deixaria estampar a “verdade”, corresponde à “língua pura” (die reine des deutschen Trauerspiels (Origem do auto fúnebre barroco alemão).
Sprache), “língua da verdade” (Sprache der Wahrheit) ou, ainda, “lín- Adão é aí apresentado, em lugar de Platão, como “pai da filosofia”, e a
gua verdadeira” (wahre Sprache), aquela que, ao tradutor de uma obra “nominação adâmica” (das Adamitische Namengeben) é vista como uma
de arte verbal, ao Undichter (‘transcriador’), incumbe resgatar de seu confirmação do “estado paradisíaco”, para o qual (como para a “tarefa do
cativeiro no idioma original (uma das muitas “línguas imperfeitas” refe- tradutor” no ensaio de 1921) não releva o “conteúdo comunicativo” (mit-
ridas no excerto de Mallarmé), anunciando-a e deixando assim entrever teilende Bedeutung) das palavras. Assim, “o verdadeiro pecado original
a “afinidade das línguas” (die Verwandtschaft der Sprachen), ou seja, “o (Sündenfall) do espírito linguístico” e, consequentemente, “a ruína” (der
grande motivo da integração das muitas línguas na única língua verda- Verfall) desse “bem-aventurado espírito linguístico adâmico” manifesta-
deira”. Revestindo de termos mallarmeanos as noções de Benjamin, dirí- se, “à maneira de uma paródia”, na palavra “exteriormente comunica-
amos que a língua suprema, pelo menos como prenúncio ou anunciação, tiva”. Isso ocorre quando o homem “decai do status paradisíaco, que
seria resgatável, por força da operação tradutória, da “língua imperfeita” conhecia uma única língua apenas”. É uma consequência – prossegue
de partida. Só que, para Mallarmé, essa tarefa de remissão, salvífica, Benjamin, citando a Bíblia – da “expulsão do Paraíso”.
não caberia ao tradutor, mas ao poeta, pois – como a seguir se lê no Voltemos, pois, ao episódio da “Torre de Babel”, que completa, no
texto a que recorre Benjamin, – o verso é que “remunera” (supre) o plano da aplicação da pena, a sentença expulsória com que YHVH des-
“defeito” (carência) das línguas. E o poeta ajunta: “filosoficamente”, qual terrou o homem do Paraíso auroral que lhe fora reservado (Bere’shith/
um “complemento superior”. Gênese, III, 29). A construção da cidade (‘ir) e da “torre” (migdal) cujo
Se submetermos o texto de Mallarmé a um escrutínio mais detido, topo se elevaria até o céu, cidade comunitária onde a humanidade se
concluiremos que a cisão entre a língua suprema e as múltiplas línguas congregaria, vinculada por uma “língua-lábio una” (safá’ehad), seria uma
imperfeitas resultam da condição babélica, da precária condição da huma- garantia para os humanos contra a “dispersão” (nefutzá) e lhes permiti-
nidade dispersa e dividida entre múltiplas línguas não inteligíveis entre si. ria outorgar-se um “nome” (shem). Essa restituição à unidade da língua
O pano de fundo de tudo o que até aqui se expôs é o episódio bíblico da edênica se realizaria, ademais, por iniciativa desafiadora do homem, sem
“Torre de Babel” (Bere’shith/Gênese, XI, 1-9). o beneplácito da graça divina. A retaliação do YHVH (‘O Nome’, Ha-Shem)
Que esse era o pensamento de Walter Benjamin, fica bastante claro não se fez esperar. A “babelização” (do verbo hebraico bilbbêl, levalbbêl,
se tivermos presente um seu ensaio anterior, de 1916, “Über Sprache XI, 7, venavelá, ‘e babelizemos’; XI, 9, balal, ‘babelizou’) da “língua-lábio
überhaupt und über die Sprache des Menschen” (“Sobre a língua em una” dos atrevidos rebentos adâmicos e sua dispersão pela face da terra
geral e sobre a língua dos homens”). Nesse trabalho a nomeação adâmica foi a represália divina, restauradora da eficácia da pena de banimento do
é dada como fonte da língua pura: “Der Mensch ist der Nennende, daran Jardim do Éden (III, 23; XI, 8-9).
erkennen wir, dass aus ihn die reine Sprache spricht” (“O homem é aquele Na cena bíblica, o tema da “construção” é introduzido como um
que nomeia, donde se põe de manifesto que através dele a língua pura leitmotiv em XI, 4 (nivnê, ‘construamos’, forma do verbo hebraico baná),
fala”). E Benjamin ajunta, reportando-se à Bíblia (Bere’shith/Gênese, II, e pontua, a seguir, os versículos 5 (no qual YHVH desce para ver a cidade e
19: “E todas/ como as chamasse o homem/ almas-de-vida/ assim seu a torre ’asher banú bnê ha’adam/que “construíam” os “filhos-constructos”
nome”): o homem é o “Dador-dos-nomes” (der Namen-Gebende). A isso do homem) e 8 (no qual se descreve como os descendentes de Adão, os
chama um “conhecimento metafísico” (metaphysische Erkenntnis) recluso terráqueos, cessaram livnoth há’ir, ‘de construir’ a cidade, face à babeliza-
nas várias línguas. O mesmo tema de Adão-Nomenclator é retomado por ção – multiplicação e confusão das línguas – promovida pela intervenção

108 Da transcriação: poética e semiótica da operação tradutora A língua pura na teoria da tradução de Walter Benjamin 109
XI, 6:
divina). O gesto punitivo de YHVH equivale a uma virtual “operação des- E disse Ele-O Nome
construtora”, já que se passa de um estágio de “construção” (“con-struc- um povo uno
e uma língua-lábio una
tio”) para outro de “destruição” (“de-structio”), que arruína o primeiro.
para todos
Essa “desconstrução” – a essa “incompletude de constructura”, no dizer de
Derrida2 – fica assinalada no original hebraico, ademais, por um jogo eti- e isto
só o começo do seu afazer
mológico: a palavra bnê (XI, 5, “bnê há’adam”) vem do mesmo verbo baná,
‘construir’; ou seja, o vocábulo que se verte por ‘filho’ guarda, no idioma E agora
bíblico, o sentido originário de constructo, razão pela qual, em minha tra- nada poderá cerceá-los

dução do sintagma, para não deixar passar essa relevante conotação, optei
no que quer
por “filhos-constructos do homem”. A conotação se estampa de modo tanto que eles maquinem fazer;
mais visível quando se sabe que, sendo o Livro de Livros que se denomina
III, 5:
Tanakh (Bíblia hebraica) eminentemente intra-e-intertextual (pois con-
E sereis
tém remissões ou “rimas” semânticas dentro de cada volume e entre os como deuses
vários volumes do todo), a expressão bnê há’adam recorda, desde logo,
sabedores
que se trata dos descendentes de Adão e Eva, esta última, Havá (‘Vida’),
do bem e do mal;
a “mãe de todos os viventes” (III, 20), também “configurada” – ou, mais
literalmente, “construída” – pelo Criador de uma costela do homem (II, III,
E disse
22: vayyven, ‘E Ele construiu’...).
O-Nome-Deus
A cidade da torre que afrontaria os céus, produtos da hybris eis que
humana, como resultado dessa reversão “desconstrutora” operada por o homem
ficou sendo
YHVH, “Ele-O Nome”, passa então a denominar-se Babel (Bevel), designa-
como um de nós
ção que procede do mesmo verbo bilbbêl, levalbbêl (XI, 7, venavelá; XI,
9, balal), que significa ‘misturar’, ‘confundir’ e que assinala, nos versículos sabedor
do bem e do mal
citados, o processo de “babelização” (‘mistura’, ‘confusão’) das línguas,
agora múltiplas, “imperfeitas”, porque já não mais reunidas na “língua- e agora
lábio” (safá, etimologicamente ‘lábio’, em hebraico significa, em acepção se no impulso de sua mão
tomar
translata, ‘língua’) una, ou seja, na langue suprême, com seu mot total
também
(Mallarmé); na reine Sprache (Benjamin), portadora da “verdade” na uni- da árvore-da-vida
cidade. Babel (Bevel) é o contrário do onomástico ou patronímico cele- e comer
e viver para o eterno-sempre?3
bratório ambicionado pela prole adâmica em sua arrogância que buscava
igualar os humanos aos deuses:
Trata-se de um nome dissuasório, negativo, um antinome, um des-nome,
2
DERRIDA. “Des tours de Babel”, ensaio incluído em L’Art des confins, 1985 (publicado antes em italiano que expressava, na balbúrdia nominativa das línguas confusamente múl-
na revista Aut-Aut, maio-ago. 1982, p. 189-190), fala de uma “coerência de constructo”, de “sistema
em desconstrução” e afirma ainda, a certa altura, “Deus desconstrói”. Não recorre, porém, em apoio 3
Reporto-me ao meu ensaio “A astúcia da serpente” e à tradução dos Capítulos II e III do Gênese,
dessa reflexão, à matriz etimológica hebraica dilucidada em meu texto. correspondentes à chamada “segunda história da Criação”.

110 Da transcriação: poética e semiótica da operação tradutora A língua pura na teoria da tradução de Walter Benjamin 111
tiplas, o seu próprio cancelamento.4 Adão, o Homem-Húmus, o Terráqueo, fim messiânico dos tempos, parece coincidir com a “língua silenciosa” do
aquele que dá nomes por outorga divina (II, 19), o Namengeber, o filósofo-teólogo existencial judeu-alemão Franz Rosenzweig (1886-1929),
Nomenclator, encontra-se no caos multilíngue de Babel o limite, imposto amigo de Gershom Scholem e colaborador de Martin Buber na etapa ini-
por decisão punitiva de YHVH, à transparência universal de seu nomear cial da “transgermanização” (Verdeutschung) da Bíblia hebraica.
paradisíaco, interdito agora na “condição babélica” que sobrevém ao des- Benjamin recebeu de Scholem o livro fundamental de Rosenzweig,
terro do homem. Só a graça divina, através de uma apokatástasis reden- Der Stern der Erlösung (A estrela da redenção), em 1921, no mesmo
tora, de uma “reconciliação messiânica”, que revogue a sentença expul- ano em que foi publicado em Frankfurt.5 A obra chegou-lhe às mãos
sória de sinete divino, poderia restituir, à humanidade decaída por força no mês de julho, no momento em que estava elaborando seu ensaio
da culpa original (Sündenfall), a sua bem-aventurada “condição edênica” sobre a tarefa do tradutor.6 Rosenzweig, aliás, faz expressa menção à
e, com ela, a língua pura da verdade. profecia de Sofonias. Para o filósofo-teólogo, a antecipação, o prenúncio
Na própria Bíblia hebraica há um aceno a esse retorno “gratifi- daquele “lábio purificado” (geläuterte Lippe), com o qual, segundo o pro-
cante” ao “estado edênico”, a essa intervenção reconciliadora da graça feta, seriam agraciados por, YHVH “os povos sempre divididos pela língua”
divina. Trata-se da “Profecia de Sofonias” (Tzefaniá, em hebraico), visio- (den allzeit sprachgeschiedenen Völkern), estaria no “gesto litúrgico” (in
nário apocalíptico que conheceu a queda de Nínive em 612 antes de nossa der liturgischen Gebärde). Benjamin, por seu turno, entende que essa
era e, possivelmente, os dois cercos de Jerusalém (597 e 587-586 a.C.) e tarefa “anunciadora” (função “angelical”, como a chamei em meu livro
sua tomada à época do domínio assírio. Depois de proclamar uma espécie Deus e o Diabo no Fausto de Goethe)7 incumbe ao tradutor e à “forma”
de “fim da história” (o “Dia do Juízo” ou da “Cólera Divina”, iom evrá/dies tradução. No Livro II da Parte III de seu opus magnum, O caminho eterno
irae, I, 15), Sofonias acena com uma reconciliação através da promessa (Der ewige Weg), Rosenzweig vincula a profecia do “lábio purificado” com
divina: o “pensamento messiânico” (messianischer Gedanhen). Recorde-se que
ki-az [pois assim] ‘eheppókh [gratificarei] ‘el- ammim [os povos] Benjamin acena para o “fim messiânico da história”, como o horizonte
verurá safá [com uma língua-lábio pura; labium electum é a no qual se dará a anelada harmonização do “modo de significar” ou “de
tradução dessa expressão no latim hebraizado da Vulgata] liqerô
[para que clamem] khullám [todos] veshém [pelo nome de] YHVH
intencionar” (Art des Meinens, Art der intentio), oculto nas “línguas indi-
le’avdô [para o servir] shekhém’ehad [de ombro uno; ombro a viduais, não integradas”, mas afinal totalizáveis na língua pura da “reve-
ombro, como um só homem; humero uno na Vulgata]. lação” (Offenbarung). A tradução, se não pode encurtar a distância em
Uma hipótese legítima – até onde sei, não levantada pelos comen- que estamos desse ponto messiânico de desvelamento do “oculto” nas
tadores de Walter Benjamin – consistiria em admitir que a reminiscência línguas des-integradas (ihr Verbogenes), faz com que o encoberto se
bíblica dessa “língua-lábio pura” ou “purificada”, contida na promessa presentifique no conhecimento dessa distância, apontando, pelo menos,
divina, anunciada por Sofonias, teria sido fonte de inspiração para a con- “de maneira admiravelmente percuciente, para algo como o reino predes-
cepção benjaminiana da “língua pura” (die reine Sprache), juntamente tinado e negado da reconciliação e da completude das línguas”.
com a noção mallarmeana da “língua suprema” e aquela, extraída do epi- Em outros pontos se tocam a obra de Rosenzweig (cuja influên-
sódio da torre de Babel, da “língua-lábio una” (safá’ehad). cia sobre a teoria benjaminiana do auto-fúnebre (Trauerspiel) barroco é
Por outro lado, essa língua pura, que Benjamin poderia ter encon-
trado no vaticínio de Sofonias (verurá safá), essa língua reconciliada do 5
Ver Briefe 1, carta de 20 jul. 1921 a Gershom Scholem.
6
Escrito entre março e novembro de 1921 e só publicado em 1923, como prefácio à tradução benjaminiana
4
Ver, a propósito, as observações de Henri Meschonnic, “L’Atelier de Babel”, na obra coletiva Les tours dos Tableaux Parisiens, de Baudelaire.
de Babel. 7
Na seção III – “Transluciferação mefistofáustica”.

112 Da transcriação: poética e semiótica da operação tradutora A língua pura na teoria da tradução de Walter Benjamin 113
reconhecida) e o ensaio de Benjamin sobre a missão cometida ao tradu- “língua silenciosa” (o “início silencioso” da Criação) no caso de Rosenzweig
tor. No livro de Rosenzweig, a língua pura corresponde a uma forma de e a língua pura, benjaminiana, autorreferencial ao invés de simplesmente
silêncio (tacite encore l’immortelle parole, ‘tácita ainda a palavra imor- comunicativa, “porém sempre verbal, palavra criadora”. Reporta-se, para
tal’, lê-se – mera coincidência? – no excerto de Mallarmé). Considerando tanto, ao ensaio de 1916 (“Sobre a língua em geral [...]”), já aqui comen-
“o eterno sobremundo” (die ewige Überwelt), habitáculo da humanidade tado. Mas parece que lhe escapam as alusões decisivas, no posterior
redenta, Rosenzweig expõe: “Aqui há um silêncio (Schweigen) que não é ensaio sobre o encargo do tradutor (1921-1923), ao silêncio sem tensão da
como o mutismo (die Stummheit) do pré-mundo (Vorwelt), o qual ainda língua da verdade, por onde Benjamin se acerca de Rosenzweig, sem pre-
não tem palavra. É o silêncio da compreensão completa e consumada juízo dos traços diferenciais sem dúvida existentes entre o pensamento
(des vollendenten Verstehens)”. Para o filósofo: de ambos. Outro termo de aproximação entre os dois pensadores, no

A pluralidade das línguas é o indício mais claro de que o mundo


que respeita à concepção da língua pura, poderá encontrar-se no comum
não está redimido. Entre homens que falam uma língua comum, interesse de ambos pela filosofia do Romantismo alemão: Rosenzweig faz
basta um olhar para que se compreendam; justamente porque expressa referência à Naturphilosophie de Novalis no Livro II da Parte I de
têm uma língua comum, é que estão dispensados da linguagem.
sua obra, intitulado “O mundo e seu sentido ou metalógica”; Benjamin,
Dessa verdadeira “telepatia” paradisíaca, por meio da qual se comunica- em 1919, escreveu sobre o tema sua tese de láurea, publicada em 1920,
ria instantaneamente a comunidade, afinal redenta, dos homens, parece Der Begriff der Kunstkritik in der deutschen Romantik (O conceito de crí-
participar outra ideia fundamental contida na teoria benjaminiana do tra- tica de arte nos românticos alemães). Pois bem, em seu texto de 1798,
duzir. Na língua pura – “língua da verdade” ou “língua verdadeira”, objeto “Die Lehrlinge zu Sais” (“Os discípulos em Sais”), que retoma um tema
da “saudade” dos filósofos e da “incumbência” (Aufgabe) anunciadora abordado por Schiller num poema de 1795, o célebre “Das verschleierte
de que o tradutor se deve desincumbir, “os segredos últimos, para os Bild zu Saïs” (“A imagem velada em Sais”), Novalis se refere a uma “escri-
quais todo o pensamento se empenha em convergir, conservam-se isen- tura prodigiosa” (Wunderschrift), ao “sânscrito verdadeiro” (die echte
tos de tensão (spannungslos, ‘dis-tensos’) e em silêncio (selbst schwei- Sanskrit), às “runas excelsas” (die hohe Rune), expressões, todas essas,
gend, ‘espontaneamente silentes’)”. Nessa língua suprema, “que nada para designar “a sagrada escritura” (die Heilige Schrift), que “não neces-
mais significa (meint, ‘intenciona’) e nada mais exprime”, mas que é, sita de explicação” (keiner Erklärung bedarf). Descrita como “um acorde
antes, o perfazimento e a consumação do significado e intencionado (das na sinfonia do universo” (ein Akkord aus des Weltalls Symphonie), essa
Gemeinte) nas várias línguas imperfeitas, “toda comunicação, todo sig- escritura entreteria uma “miraculosa afinidade com os verdadeiros misté-
nificado e toda intenção (alle Mitteilung, aller Sinn und alle Intention) rios” (wunderbar verwandt mit echten Geheimnisse).
alcançam um estágio em que estão destinados a extinguir-se”. Nesse Um teórico da tradução, Jean-René Ladmiral, confrontado com
estágio – ultimação messiânica do “sacro evoluir das línguas”, maturação os aspectos esotéricos do ensaio sobre a tarefa tradutória, escrito por
nelas da “abscôndita semente de uma língua mais alta” – estão destina- um Benjamin pré-marxista, fascinado pela cabala e pela hermenêutica
das a unir-se “sem tensão” (spannungslos) a língua e a revelação, fundi- bíblica, indigita a metafísica do inefável, supostamente infiltrada nas con-
das na língua da verdade onde, como já se viu, “os últimos segredos” (die cepções benjaminianas. Sob a forma de um “literalismo anticomunicacio-
letzte Geheimnisse) se conservam “dis-tensos”. nalista”, essas concepções estariam impregnadas de uma “antropologia
Discordo aqui da estudiosa italiana Antonella Moscati, que, numa negativa, perigosamente próxima do anti-humanismo e do impersona-
“Nota su Rosenzweig e Benjamin”, enfoca o problema da “língua divina”
nos dois autores. Moscati estabelece uma discutível oposição entre a

114 Da transcriação: poética e semiótica da operação tradutora A língua pura na teoria da tradução de Walter Benjamin 115
lismo de Heidegger”.8 Também Henri Meschonnic, embora subscreva “a língua não é jamais apenas comunicação do comunicável (Mitteilung
mais de uma proposição benjaminiana, acusa o caráter “ainda idea- des Mitteilbaren), mas também símbolo do não comunicável”. Transpondo
lista” que impregnaria a abordagem da “tarefa do tradutor” no ensaio de esse conhecimento para a teoria da “forma”, tradução, relativa à obra de
Walter Benjamin.9 arte verbal (Dichtung), Benjamin pôde formular o seu axioma só na apa-
Tenho-me colocado, em mais de um trabalho, numa posição dife- rência paradoxal: “A tradução que visa a transmitir (vermitteln) nada mais
rente.10 Entendo que não se pode perder de vista a ideia de “ironia” – de poderá mediar senão a “comunicação” (die Mitteilung), portanto o ines-
jogo irônico – que irrompe, significativamente, num momento particular- sencial. E é esta, com efeito, a marca distintiva da má tradução”, já que o
mente relevante do ensaio benjaminiano. Justamente quando Benjamin “essencial” numa obra poética se situa para além da mera comunicação.
assinala que a tradução “transplanta o original para um domínio linguís- Sob a roupagem rabínica, midrashista, da irônica metafísica do
tico mais definitivo”, modalizando essa asserção com a ressalva: “pelo traduzir benjaminiana, um poeta-tradutor, longamente experimentado
menos, até onde foi possível – ironicamente” (wenigstens insofern – iro- em seu ofício, pode, sem dificuldade, depreender uma física (uma prá-
nisch). E a seguir surge uma referência expressa ao “modo de pensar xis) tradutória efetivamente materializável. Essa física – como venho
(Gedankengänge) dos românticos”, não obstante o fato, reconhecido no sustentando de muito11 – é possível reconhecê-la in nuce nos concisos
texto, de eles não se terem dedicado à teoria da tradução, mas antes à teoremas de Roman Jakobson sobre a “autorreferencialidade da fun-
crítica. No livro sobre o conceito romântico de crítica de arte (Kunstkritik), ção póetica” e sobre a tradução de poesia como “creative transposition”
Benjamin releva um “momento objetivo” na concepção romântica de “iro- (transposição criativa).12 A esses teoremas fundamentais da poética lin-
nia”. Um momento de “ironização da forma”, que envolve o “elemento guística, os teologemas benjaminianos conferem, por sua vez, uma pers-
destrutivo da crítica” (das Zerstörende in der Kritik). Essa destruição da pectiva de vertigem.
forma é a tarefa (die Aufgabe) da instância objetiva, na arte, da crítica. Para converter a metafísica benjaminiana em física jakobsoniana,
A “ironia formal”, por seu turno, “representa a tentativa paradoxal de, no basta repensar em termos laicos a língua pura como o “lugar semiótico” –
produto, construir ainda que através da demolição”. o espaço operatório – da “transposição criativa” (Umdichtung, “transpoe-
De fato, Benjamin desconstitui e desmitifica a ilusão da fidelidade tização” para Walter Benjamin; “transcriação”, na terminologia que venho
ao conteúdo referencial e o dogma da servitude imitativa da teoria tra- propondo). O “modo de significar” (Art des Meinens) ou de “intencionar”
dicional da tradução. Para isso, se vale da metáfora da língua pura e (Art der intentio) passa a corresponder a um “modo de formar” no plano
do paradigma da nomeação adâmica, advertindo, no entanto, desde o sígnico, e sua “libertação” ou “remissão” (Erlösung, no vocábulo salvífico
seu ensaio de 1916, “Sobre a língua em geral [...]”, que o recurso à de Benjamin) será agora entendida como a operação metalinguística que,
fonte escritural “não se punha como escopo uma interpretação da Bíblia, aplicada sobre o original ou texto de partida, nele desvela o percurso da
nem visava propor, nessa instância, a Bíblia objetivamente como verdade “função poética”. Essa função, por sua natureza, opera sobre a materiali-
revelada com fundamento na reflexão”. O que lhe interessava, no paragão dade dos signos linguísticos, sobre formas significantes (fono-prosódicas
bíblico, era o que dele se poderia auferir para a perquirição da natureza e gramaticais), e não primacialmente sobre o conteúdo comunicacional,
da língua mesma. O que Benjamin extrai do paradigma é a noção de que
11
Pelo menos desde 1975, ano em que ministrei, no primeiro semestre, meu curso inaugural, em nível de
pós-graduação (PUC-SP) sobre Estética da Tradução. No programa desse curso já estavam enunciados
8
Ver “Entre les lignes, entre les langues”, Revue d’Esthétique (número especial sobre Walter Benjamin). os tópicos “A física da tradução” (a tradução como produção de informação estética) e “A metafísica
9
Ver MESCHONNIC. Pour la poétique – II. da Tradução” (sobre Walter Benjamin).
10
Ver “Da transcriação: poética” e “Semiótica da operação tradutora”, em Semiótica da Literatura, p. 12
Em “On Linguistic Aspect of Translation”, na obra coletiva, On Translation, 1959; “Linguistics and
53-74. Poetics”, na obra, também coletiva, Style in Language, 1960.

116 Da transcriação: poética e semiótica da operação tradutora A língua pura na teoria da tradução de Walter Benjamin 117
a mensagem referencial. As formas significantes, por sua vez, consti- definitivo”.13 Salienta, por outro lado, a autora, que a referência à Bíblia, o
tuem um “intracódigo semiótico virtual” (outro nome para a língua pura entendimento de Benjamin, não tem por escopo “a descrição de um pas-
de Benjamin), exportável de língua a língua, extraditável de um idioma sado hipotético, mas possibilita pensar uma concepção não instrumental
para outro, quando se trata de poesia. O tradutor-transcriador como que da linguagem, concepção centrada na nomeação e não na comunicação”
“desbabeliza” o stratum semiótico das línguas interiorizado nos poemas (ou, como eu gostaria de dizer, em termos de Jakobson, na autorreferen-
(neles “exilado” ou “cativo”, nos termos de Benjamin), promovendo assim cialidade da “função poética”, não na transitividade da “função referen-
a reconvergência das divergências, a harmonização do “modo de formar” cial” ou “comunicativa”). Outro aporte muito significativo de Jeanne Marie
do poema de partida com aquele reconfigurado no poema de chegada. Gagnebin está na ênfase da dimensão histórica do pensamento de Walter
Essa reconstrução (que sucede a “desconstrução” metalinguística de pri- Benjamin, no qual discerne “um laço essencial entre língua e história”. No
meira instância) dá-se não por Abbildung (‘afiguração imitativa’, ‘cópia’), conceito de Ursprung (origem não como gênese, mas como salto vertigi-
mas por Anbildung (‘figuração junto’, ‘parafiguração’), comportando a noso), no “confronto da origem com a história”, vê o “tema-chave” dessa
transgressão, o estranhamento, a irrupção da diferença no mesmo. filosofia. Para a autora, o Ursprung “não é simples restauração do idêntico
A esta altura, cabe referir a importante contribuição de Jeanne esquecido, mas igualmente, e de maneira inseparável, emergência do
Marie Gagnebin sobre a função da teologia na teoria da tradução e na divergente”; assim também, “não preexiste à história”, numa atemporali-
filosofia da história de Benjamin. Já em sua tese doutoral de 1978 (Zur dade paradisíaca, mas, pelo seu surgimento, inscreve no e pelo histórico
Geschichtsphilosophie Walter Benjamins), a autora sustentava o caráter a recordação e promessa de um tempo redimido.
“não substancialista do conceito de origem” na reflexão benjaminiana, Em meu ensaio “Tradução e reconfiguração do imaginário: o tra-
colacionando esse conceito com a ideia de “transformação” que pervade dutor como transfingidor”,14 detive-me sobre essa dimensão de histo-
o ensaio sobre a “tarefa do tradutor”. De fato, o tema da “transforma- ricidade, rastreável na teoria benjaminiana da tradução, começando
ção” (Wandlung) e da “renovação” (Erneuerung), nesse ensaio, afeta o por lembrar a ideia de “provisoriedade” (“toda tradução é apenas um
original, em sua “pervivência” (Fortleben), como também a tradução, na modo algo provisório de discutir com a estranheza das línguas”), ligada
medida em que “se trasmuda a língua materna do tradutor” e que na aos conceitos de “transformação” e “renovação”, de “desdobramento”
tradução “a vida do original” se desdobra “sempre de modo renovado”. (Entfaltung) do original no estágio do seu perviver”.
No ensaio de 1916 (“Sobre a língua em geral [...]”), essa ideia já tinha Que se possa deduzir da metafísica da tradução benjaminiana
alcançado uma formulação lucidíssima: “A tradução é a transposição uma física, uma pragmática do traduzir, e que o ato tradutório, tal como
(Überführung) de uma língua na outra mediante um continuum de trans- Benjamin o concebe, tenha por horizonte a transformação e a renova-
formações”. No capítulo inicial, “Origem. Original. Tradução”, de seu livro ção (marcas de historicidade), são aspectos, entre outros, que permitem
de 1994, História e narração em Walter Benjamin, Jeanne Marie Gagnebin
volta-se contra as “interpretações redutoras” do pensamento benjami- 13
De minha parte, entendo que há um resíduo “substancialista” na teoria da tradução exposta por
Benjamin. Este ocorre na “substancialização idealizante do original”, quando o ensaísta judeu-alemão
niano, insistindo que “o recurso teórico à teologia (que não é sinônimo
introduz uma “distinção categorial” (Rangunterschied) entre Dichtung (poesia) e Umdictung (tradução
de invocação à religião) não significa necessariamente a afirmação de um de poesia, “transpoetização”), preservando assim a hierarquia do original em relação à tradução
e afirmando um outro dogma, não convalidável na prática: o da impossibilidade da tradução da
fundamento absoluto que seria garantia de um sentido transcedente e
tradução, argumento de manifesta coloratura ontológica. Ver, a propósito, minha contribuição ao
dossiê sobre Walter Benjamin no n. 15 da Revista USP (1992): “O que é mais importante: a escrita ou
o escrito? (Teoria da Linguagem em W. Benjamin)”.
14
Estampado no n. 3, de março de 1989, da revista 34 Letras; republicado na coletânea organizada por
Malcolm e Carmem Rosa Coulthard, UFSC, 1991.

118 Da transcriação: poética e semiótica da operação tradutora A língua pura na teoria da tradução de Walter Benjamin 119
refutar a assertiva de Jean-René Ladmiral sobre a aproximação entre comum’), teria argumentado Heidegger. Pois no verso sofocliano está em
Benjamin e Heidegger. Embora essa refutação demande um ensaio autô- jogo a relação comum das irmãs com o irmão – “uma relação crucial para
nomo, gostaria, desde logo, de sublinhar uma divergência básica entre a tragédia toda”. Perguntado sobre a tradução que proporia, Heidegger,
o “teólogo” irônico, de uma parte, e o grave “ontólogo fundamental”, depois de alguma reflexão, escreveu num pedaço de papel (que Petzet
de outra. O que Heidegger considera “uma tradução essencial” (eine diz guardar) o seguinte: “O auch mitbrüderliches o Ismenes Haupt!” (Ó
wesentliche Übersetzung), num texto como Der Satz vom Grund, de tu também confraterna ó Ismene Primacial!). Isso não seria alemão, teria
1957, envolve uma ideia de retificação de um falso traslado, uma busca acrescentado o filósofo, mas, em som e sentido, seria quase exatamente
do “autêntico” e do “original” no arcaico. Como expõe George Joseph o que Sófocles diz. A restauração corretiva do sentido grego exato, ori-
Seidel, 15
“a tradução se refere também ao percurso através do qual a tra- ginal, encoberto na transposição alemã de Hölderlin, esbarra num pro-
dição, ela própria, tem traduzido ou passado adiante, de maneira falsa ou blema, ao que me parece. A relação que a tragédia expõe não é biná-
autêntica, os conceitos dos antigos pensadores”. Um exemplo estaria na ria, mas triádica. Não está em jogo apenas o vínculo irmã-irmão, mas a
maneira pela qual “a tradução do autêntico logos grego no termo latino conexão mais complexa irmã-irmã-irmão (das irmãs entre si e de cada
ratio serviu para falsificar o original”. Assim, a re-tradução ou tradução uma delas com o irmão comum). Trata-se, portanto, de um vínculo tanto
restauradora – uma “tradução pensante” (denkende Übersetzung) – visa fraternal (brüderliches) quanto sororal (schwesterliches). Donde a tradu-
a “liberar” (liefern) o “sentido verdadeiro do original”, obscurecido pela ção retificadora de Heidegger, em sua busca do sentido autêntico, poder,
“tradição” (Überlieferung) falsificadora. tanto como a de Hölderlin, ser tachada de redutora e desviante... Pelo
Um curioso exemplo do empenho retificador presente na con- menos segundo o dicionário Bailly, que se abona em Ésquilo e Sófocles,
cepção heideggeriana da “tradução essencial” pode ser encontrado, de autádelphos, os, on, é um adjetivo ambíguo, que pode tanto se referir ao
modo quase anedótico, na tradução do primeiro verso da Antigone de próprio irmão como à própria irmã.
Sófocles proposta por Heidegger em lugar daquela de Hölderlin (poeta
favorito do filósofo de O ser e o tempo, cujas “transpoetizações” de tra-
gédias sofoclianas são exaltadas por Benjamin como um “arquétipo” da
“forma” tradução).
Relata Heinrich Wiegand Petzet16 que, após uma apresentação
da Antigone no texto de Hölderlin, musicado por Carl Orff, entreteve
uma conversa animada com Heidegger sobre as várias traduções de
Sófocles em alemão. A discussão acabou por fixar-se no verso “‘O koinòn
autádelphon Ismenes Kára”. Segundo o filósofo, esse verso, se traduzido
literalmente para o alemão, deveria rezar: “O Haupt, das du gemeinsam
mit mir den Bruder hast, Ismene” (Ó primacial, tu que em comum comigo
partilhas o irmão, Ismene). Isso não poderia ser transposto para o ale-
mão; sobretudo não o poderia ser da maneira efetuada por Hölderlin,
com a expressão composta gemeinsamschwesterliches (‘em sonoridade

15
SEIDEL. Martin Heidegger and the Pre-Socratics: an Introduction to His Thought, 1964.
16
PETZET. Encounters and Dialogues with Martin Heidegger – 1929-1976.

120 Da transcriação: poética e semiótica da operação tradutora A língua pura na teoria da tradução de Walter Benjamin 121
Tradição, tradução, transculturação:
o ponto de vista do ex-cêntrico

Tradução de Aline Sobreira de Oliveira

A literatura brasileira – e o mesmo talvez valha para outras literaturas


latino-americanas (deixando de lado o problema das grandes culturas
pré-colombianas, que devem ser consideradas de um ângulo especial)
– nasceu sob o signo do barroco. A ideia de “nascimento” aqui é apenas
metafórica. Ela não pode ser entendida de um ponto de vista ontológico
– substancialista – metafísico. Não pode ser entendida no sentido de uma
busca por “identidade” ou “caráter nacional”, visto, por sua vez, como
uma presença entificada e total, terminus ad quem a ser alcançado após
um processo de evolução linear e biológico, baseado numa “teleologia
imanente”, de acordo com o modelo proposto pela historiografia “organi-
cista” do século XIX.
Paradoxalmente, o barroco significa não infância. A ideia de “ori-
gem”, aqui, convirá desde que não implique a ideia de “gênese”. Se for
entendida como “salto” e “transformação”, conforme a utiliza Walter
Benjamin no livro sobre a Trauerspiel1 alemã desse mesmo período,
quando enfatiza a palavra Ursprung no seu sentido etimológico.
Da mesma forma, a literatura brasileira não tem origem, no sen-
tido genético e embrionário-evolutivo do termo, já que não teve “infân-
cia”. A palavra infans (‘criança’) significa: ‘aquele que não fala’. O bar-
roco é, por isso, uma não origem. Uma não infância. Nossas literaturas,
emergindo com o barroco, nunca foram afásicas, nunca evoluíram de um

1
BENJAMIN, Walter. Ursprung des deutschen Trauerspiels.
limbo afásico-infantil até a completude do discurso. Já nasceram adul- criativa”.2 Uma opinião que pode ser comparada à de Oswald de Andrade,
tas (como certos heróis mitológicos) e expressando um código universal o qual vê no barroco o estilo das “descobertas” que resgatou a Europa “de
extremamente elaborado – o código retórico barroco – com segurança. A seu egocentrismo ptolomaico”.3
literatura brasileira foi também influenciada pelo maneirismo de Camões, Essa prática diferencial articulada a um código universal é tam-
poeta que, por sua vez, influenciou Gôngora e Quevedo, os dois grandes bém, por definição, uma prática tradutória. Gregório de Matos foi acusado
nomes do barroco espanhol. de plágio por ter recombinado e sintetizado dois sonetos de Gôngora
O “nacionalismo” literário brasileiro não pode ser considerado a (“Mientras por competir con tu cabello” e “Ilustre y hermosissima Maria”)
partir de um ponto de vista fechado e monológico. Não pode ser expli- num terceiro (“Discreta e formosíssima Maria”). Esses críticos não per-
cado como projeção ou emanação de um “espírito” nacional, que gradu- ceberam que Gregório de Matos se colocou diante de Gôngora como um
almente desvelaria e revelaria a si mesmo como tal, até se tornar uma tradutor criativo (como Ungaretti, no século XX) ao pôr em prática a irô-
presença plena, num momento de completude “logofônica”, que coinci- nica “desconstrução” da lúdica máquina barroca, expondo metalinguisti-
diria com uma espécie de “classicismo” nacional (Machado de Assis, no camente o motor combinatório que a faz funcionar. (E não podemos nos
fim do período de formação de nosso romantismo, seria, por definição, o esquecer de que Gôngora, para arranjar esses sonetos retrabalhados por
expoente desse momento de apogeu). Gregório de Matos, extraiu, por sua vez, elementos de Garcilaso de la
Desde o barroco, isto é, desde sempre, não podemos pensar em Vega, de Camões e da poesia latina do carpe diem, em conformidade com
nós mesmos como uma identidade fechada e acabada, mas como uma a prática generalizada da imitação, típica daquele período.)
“diferença”, uma “abertura”, um movimento dialógico da diferença con- O barroco, tanto na literatura brasileira como em várias outras lite-
tra o pano de fundo do universal. Estrear no palco literário é um salto raturas latino-americanas, significa ao mesmo tempo hibridismo e tradu-
vertiginoso em direção à cena barroca, isto é, uma articulação diferen- ção criativa. Tradução como apropriação transgressiva, e hibridismo (ou
cial com um código universal altamente sofisticado. Gregório de Matos cruzamento) como a prática dialógica de expressar o outro e expressar-
(1636-1695), conhecido como “Boca do Inferno”, o primeiro grande poeta se através do outro, sob o signo da diferença. Nesse sentido, as reflexões
brasileiro, recombina Camões, Gôngora e Quevedo, incorpora africanis- de Walter Benjamin sobre a “alegoria” têm um significado especial para
mos e indianismos a sua linguagem, recorre à paródia e à sátira num o barroco ibero-americano: alegoria no seu sentido etimológico de um
jogo textual “carnavalizado”, em que elementos locais misturam-se a ‘dizer alternado’, um ‘dizer outra coisa’, um estilo em que, no limite, qual-
“estilemas” universais, num processo contínuo de hibridização (o portu- quer coisa pode simbolizar qualquer outra.
guês híbrido em que Gregório de Matos escreve é, por sua vez, salpicado O poeta que melhor definiu a visão de uma literatura “ex-cêntrica”
de espanhol...). Como a mexicana Sóror Juana, o peruano Caviedes e (ou seja, sem centro, des-centrada) de um país latino-americano – a
o colombiano Hernando Dominguez Camargo, o brasileiro Gregório de literatura brasileira, que neste caso me serve de exemplo – como um
Matos produz um barroco diferencial que não pode ser reduzido a seu processo transformacional de tradução criativa e transgressiva foi, creio,
modelo europeu. Após dominar as regras do jogo, ele explora, de uma Oswald de Andrade (1890-1954), durante nosso modernismo nos anos
forma pessoal e até mesmo subversiva, as possibilidades combinatórias 1920. O “Manifesto antropófago” (1928) de Oswald de Andrade, retomado
do código comum: um código sempre movente e mutável em suas recon- por ele no fim de sua vida, nos anos 1950, na tese em que revisava o dog-
figurações individuais. Assim, Lezama Lima está certo ao falar do barroco matismo marxista, intitulada A crise da filosofia messiânica, não é nada
latino-americano como a arte da “contraconquista”, “uma grande lepra 2
LEZAMA LIMA. La expresión americana. Tradução do autor.
3
ANDRADE. A marcha das utopias, p. 154.

124 Da transcriação: poética e semiótica da operação tradutora Tradição, tradução, transculturação: o ponto de vista do ex-cêntrico 125
além da expressão da necessidade de um relacionamento dialógico e dia- ciência da literatura tradicional. Para Mukarovsky, essa visão da literatura
lético entre o que é nacional e o que é universal. Seu lema, não por acaso, comparada tradicional – responsável pelo “complexo de inferioridade” na
é uma usurpação fônica, um desvio tradutório por homofonia, do famoso literatura tcheca – seria mecanicista e não dialética. A imagem de uma
verso dilemático de Shakespeare “To be or not to be, that is the question”.4 “literatura passiva”, cuja evolução seria guiada pela “intervenção casual
Oswald de Andrade reformula esse verso substituindo o verbo to be pela de influências externas”, parecia-lhe falsa. Influências não agem por conta
palavra tupi (o nome da língua geral falada por índios brasileiros na época própria, sem pressupostos, no meio em que interferem: elas se combinam
do descobrimento) e proclama: “Tupi or not tupi, that is the question...” 5
ao contexto local, a cujas necessidades se subordinam. Elas são o resul-
Antropofagia, a resposta para a irônica equação do problema da origem é tado de seleção e rearticulação, elas modificam suas inflexões. Por isso,
uma espécie de “desconstrução” brutalista: a devoração crítica do legado conclusão de Mukarovsky, “Fluxos não são expressões de superioridade
cultural universal, realizada não da perspectiva submissa e reconciliadora essencial e de subordinação de uma cultura a outra; seu principal aspecto
do “bom selvagem”, mas do ponto de vista descarado do “mau selvagem”, é a reciprocidade.”
devorador de brancos, antropófago. “Só me interessa o que não é meu”,6 Na literatura brasileira, Machado de Assis (1839-1908) não é sim-
declara Oswald de Andrade no seu “Manifesto”, propondo transformar “o plesmente a culminação harmoniosa de uma evolução literária gradual,
tabu em totem”.7 que foi supostamente se desdobrando desde nosso pré-romantismo de
Essa deglutição antropofágica não acarreta submissão (um cate- matizes nativistas. Seu surgimento não pode ser previsto nem explicado
cismo), mas uma “transculturação”, ou melhor, uma “transvaloração”, uma como um resultado completamente maduro de um processo homogêneo
visão crítica da história como “função negativa” (no sentido nietzscheano). de “construção genealógica”, um “processo retilíneo de abrasileiramento”.
Todo o passado estrangeiro merece ser negado. Merece ser abocanhado, Machado de Assis não representa um momento de aboutissement, mas
devorado – diria Oswald de Andrade. Essa é uma atitude não reveren- um momento de ruptura. Seu nacionalismo não é mais aquele ingênuo de
cial diante da tradição: implica expropriação, reversão, des-hierarquiza- certos escritores românticos de aspirações ontológicas, mas um naciona-
ção. Não é por mera coincidência que Lezama Lima pode ser lembrado lismo “crítico”, “em crise”, despedaçado, em constante diálogo com o uni-
novamente por ter tentado, por assim dizer, ler o passado (a história) de versal. Ele é nacional porque não é exatamente nacional, como Ulisses, o
certa forma “devoradoramente”, como uma “sucessão de eras imaginá- fundador mitológico de Lisboa, no poema de Fernando Pessoa, que “foi por
rias”, suscetível de ser pensado por uma “memória espermática”,8 capaz não ser existindo”, e, apenas nesse sentido, “nos creou”.9 Foi Machado de
de substituir as ligações lógicas por surpreendentes conexões analógicas. Assis (conforme aponta Augusto Meyer) quem criou a metáfora da cabeça
Assim, parece que os apontamentos feitos pelo estruturalista tcheco como um “estômago ruminante”, em que “tôdas as sugestões, depois de
Jan Mukarovsky numa tese de 1946 (reformulada e confirmada por ele misturadas e trituradas, preparam-se para nova mastigação, complicado
mesmo em 1963, na sua fase marxista) sobre a influência das literaturas quimismo em que já não é possível distinguir o organismo assimilador das
“preferenciais” sobre as chamadas literaturas “menores”, aplicam-se tanto matérias assimiladas”.10 Este Machado de Assis, “devorador” de Laurence
à literatura brasileira como às demais literaturas latino-americanas. Esse Sterne e de incontáveis outras influências, foi considerado como não muito
assunto era abordado de uma perspectiva apriorística e unilateral pela brasileiro, como um “anglófilo”, pelo mais importante crítico literário de
seu tempo, Sílvio Romero, que depreciativamente caracterizou seu modo
4
SHAKESPEARE. Hamlet, p. 81.
5
ANDRADE. Manifesto antropófago, p. 13. de escrever como “o estilo de um gago”.
6
ANDRADE. Manifesto antropófago, p. 13.
7
ANDRADE. Manifesto antropófago, p. 15. 9
PESSOA. Mensagem, p. 23.
8
LEZAMA LIMA. La expresión americana. (Trafução do autor). 10
MEYER. O delírio de Brás Cubas, p. 196.

126 Da transcriação: poética e semiótica da operação tradutora Tradição, tradução, transculturação: o ponto de vista do ex-cêntrico 127
Apesar de tudo, Machado de Assis, pela sua atipicidade univer- para “transcriar” para o português os Cantos de Ezra Pound; os poemas
salista, seu caráter incaracterístico, isto é, por sua leitura seletiva e crí- visuais de e. e. cummings; fragmentos do Finnegan’s Wake de James
tica do código literário universal de dentro do contexto brasileiro, bem Joyce; o poema-constelação “Un coup de dés”, de Mallarmé; Goethe,
como por seu ponto de vista extremamente pessoal dentro desse con- Hölderlin e Brecht, bem como dadaístas e poetas vanguardistas alemães;
texto (basta lembrar a reação de Sílvio Romero), é o mais representativo Dante e Guido Cavalcanti, bem como Ungaretti; poetas provençais, parti-
de nossos escritores do passado. De certa forma, ele é, para a literatura cularmente Arnaut Daniel; Bashô e “haicaístas” japoneses; poetas russos,
brasileira, com todas as implicações dessa ideia, nosso Borges do século desde o simbolismo de Blok e Biely, passando por Khlebnikov, Maiakóvski,
XIX. E não é por acaso que escritores contemporâneos como John Barth Pasternak e Mandelstam, até o pouco conhecido na época (1968) Guenadi
ou Cabrera Infantes são hoje seus leitores e admiradores. E por que não Aigui, e assim por diante. Meu último trabalho nesse campo foi a recria-
pensar em Macedonio Fernandez, o mestre do “inacabado”, como o “elo ção de “Blanco”, o grande poema erótico e reflexivo de Octavio Paz, no
perdido” entre Machado e Borges? livro Transblanco, publicado em 1986. Por outro lado, estou estudando
Para concluir, gostaria de oferecer um depoimento pessoal. Eu faço hebraico desde 1983 com o propósito de fazer o que nunca foi feito em
parte do grupo de poetas brasileiros que, nos anos 1950, lançou o movi- português: a tradução de fragmentos da Bíblia usando as técnicas mais
mento nacional e internacional da poesia concreta. Um movimento que, avançadas do repertório da poesia moderna (em alemão, há os exemplos
no ambiente brasileiro, tomou seu próprio curso. Ele reassume o diá- de Rosenzweig e Buber; em francês, de Henri Meschonnic e o exemplo
logo com o modernismo dos anos 1920 (especialmente com Oswald de distinto, porém oposto, de Chouraqui).
Andrade). Enquanto sustentava propostas radicalmente vanguardistas no Como se pode ver, esse é um amplo processo de “devoração” crí-
nível da linguagem, numa tentativa de desenvolver uma poesia antidis- tica da poesia universal, cujo objetivo tem sido instalar uma tradição de
cursiva, sintético-ideogrâmica, o movimento da poesia concreta nunca invenção e assim criar um tesouro de formas significantes para encorajar
deixou de lado sua preocupação com a tradição, com uma revisão crítica o estímulo criativo das novas gerações. Tradução, desse ponto de vista,
da tradição, de uma perspectiva crítica e criativa. Nesse sentido, nós é uma forma pedagógica ativa. Principalmente quando alguém traduz o
repensamos o barroco: Gregório de Matos foi definido por Augusto de que é considerado intraduzível. “Sólo lo difícil es estimulante” (‘Somente
Campos como “o primeiro antropófago experimental da nossa poesia”; o difícil é estimulante’).11
meu próprio livro Galáxias é um ensaio para a abolição das fronteiras “Écrire quoi que se soit [...] est un travail de traduction exactement
entre poesia e prosa, numa tentativa de combinar rigor construtivista comparable à celui que opère la transmutation d’un texte d’une langue
com proliferação neobarroca. No nosso período romântico, descobri- dans une autre”, comenta Paul Valéry.12 Escrever nas Américas e na Europa
mos o poeta esquecido Sousândrade (1832-1902), autor de “O inferno hoje em dia significará cada vez mais, para mim, reescrever, remastigar.
de Wall Street” (parte do longo poema “Guesa errante”, uma espécie Escritores de mentalidade monológica e “logocêntrica” – se eles ainda
de Walpurgisnacht anticolonialista, tendo como cenário a Bolsa de Nova existem e persistem nessa mentalidade – devem perceber que se tornará
Iorque dos anos 1870, escrito num estilo caleidoscópico e poliglota, ante- mais e mais impossível escrever “a prosa do mundo” sem considerar, pelo
cipando as técnicas de edição fílmica da poesia contemporânea). O fato menos como ponto de referência, as diferenças desses “ex-cêntricos”,
de esse mesmo grupo de poetas ter tornado a tradução criativa (ou trans- ao mesmo tempo “bárbaros” (por pertencerem a um “mundo subdesen-
criação) uma prática constante, inspirando-se no exemplo poundiano do volvido” periférico) e “alexandrinos” (por fazerem incursões “guerrilhei-
make it new e nas teorias de Walter Benjamin sobre a tarefa do tradutor, 11
LEZAMA LIMA. La expresión americana.
é algo extremamente coerente. Nós nos esforçamos sistematicamente 12
VALÉRY, Paul. Variations sur les Bucoliques.

128 Da transcriação: poética e semiótica da operação tradutora Tradição, tradução, transculturação: o ponto de vista do ex-cêntrico 129
ras” no coração da Biblioteca de Babel), chamados Borges, Lezama Lima, contribuições estrangeiras.”13 Encarar a alteridade é, acima de tudo, um
Guimarães Rosa, Clarice Lispector, para dar alguns exemplos significativos. exercício necessário de autocrítica, bem como uma experiência vertigi-
Assim como também será impossível subscrever-se à tradição do poema nosa na quebra de fronteiras.
moderno – ou já “pós-moderno”, desde o “Un coup de dés” de Mallarmé –
sem levar em consideração as hipóteses intertextuais do “Trilce” de Vallejo,
do “Altazor” de Huidobro ou do “Blanco” de Octavio Paz. Sem perceber, por
exemplo, que há um sistema poético de vasos comunicantes conectando
o “objetivismo” de William Carlos Williams, o parti pris des choses de
Francis Ponge e o construtivismo do poeta-geômetra João Cabral de Melo
Neto (um ponto de referência obrigatório da poesia concreta brasileira).
O problema das literaturas “maiores” e “menores”, tal como enxergado
de um ponto de vista semiológico, pode ser um pseudoproblema, como
Mukarovsky conseguiu demonstrar. Se cada literatura é uma articulação de
diferenças no texto infinito – “signos em rotação” – da literatura universal,
cada contribuição inovadora é medida como tal: é um momento “mona-
dológico”, irredutível, ao mesmo tempo singular e interdependente nesse
jogo combinatório. O incandescente Soledades de Gôngora não abole a
esplêndida diferença do “Primero Sueño” de Sóror Juana, um poema crítico
e reflexivo que salta sobre a diacronia para fraternizar-se com o “Coup de
dés” de Mallarmé, como observou Octavio Paz no seu notável livro sobre
a poetisa mexicana. Tristam Shandy de Laurence Sterne não anula o traço
diferencial do Dom Casmurro de Machado de Assis, um trabalho que, por
sua vez, prefigura o estilo irônico-elusivo de Borges (Borges que, aparen-
temente, nunca leu Machado de Assis...).
A civilização politópica polifônica planetária está, creio eu, sob o
signo devorador da tradução lato sensu. A tradução criativa – transcria-
ção – é a maneira mais frutífera de repensar a mímesis aristotélica, que
marcou tão profundamente a poética ocidental. Repensá-la não como
uma teoria apassivadora da cópia ou reflexão, mas como um impulso
usurpante no sentido de uma produção dialética de diferenças sem
semelhanças. O velho Goethe (cuja ideia de uma Weltliteratur ressoa
no Manifesto comunista de 1848 de Marx, na passagem em que pro-
clama a superação da “estreiteza e o exclusivismo locais”) já alertava:
“Toda literatura, encerrada em si mesma, irá em algum momento pen-
der ao tédio caso não se permita, vez ou outra, animar-se por meio de 13
MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Manifest der kommunistischen Partei. Tradução do autor.

130 Da transcriação: poética e semiótica da operação tradutora Tradição, tradução, transculturação: o ponto de vista do ex-cêntrico 131
Haroldo de Campos, José Paulo Paes e Paulo
Vizioli falam sobre tradução

Thelma Médice Nóbrega (Pós-Graduação, Unicamp)


Giana Maria Gandini Giani (Pós-Graduação, Unicamp)

Nesse momento em que a tradução vem ganhando espaço nos meios


acadêmicos e uma preocupação crescente quanto a seu ensino e prática
vem surgindo (evidenciada pelos cursos de graduação de tradução que
se abriram, por exemplo, em cidades como São Paulo e Ouro Preto; pelo
programa em Linguística Aplicada da Unicamp e pela própria oportuni-
dade que a revista Trabalhos em Lingüística Aplicada está oferecendo à
área), julgamos importante examinar as diferentes concepções de tradu-
ção e sua prática entrevistando três dos maiores nomes nessa área do
país: José Paulo Paes, Paulo Vizioli e Haroldo de Campos.
Assim, contrastando as visões desses tradutores sobre questões
fundamentais como, por exemplo, teoria e prática, formação de traduto-
res, a qualidade das traduções feitas no Brasil e a situação do profissional
hoje, é possível ter-se um panorama atual e amplo do assunto tratado
aqui.
É relevante observar que entrevistamos José Paulo Paes (J.P.P.)
e Paulo Vizioli (P.V.) oralmente, em um ambiente informal, enquanto o
professor Haroldo de Campos (H.C.) nos concedeu suas respostas por
escrito. Aproveitamos para agradecer a esses profissionais que com tão
valiosos depoimentos e com sua boa vontade possibilitaram a concreti-
zação deste trabalho.
Qual é a sua concepção de tradução? E quanto à fidelidade? Cada uma das dispersões está ligada àquele raio de luz se dispersando
J.P.P. – Esta é uma pergunta que exigiria não só uma resposta, mas todo por uma série de prismas. Cada uma das dispersões está ligada àquele
um tratado. Em linhas gerais, é a busca de uma aproximação com o raio de luz, sendo que esse é a somatória do raio original e mais todas
texto original, dentro daquela concepção de que a tradução não é equi- suas dispersões. A Bíblia, por exemplo, é a soma das traduções, das
valente ao texto original, mas um caminho até ele. Inclusive, é um pouco interpretações existentes. Cada tradução é uma interpretação e as inter-
temerário usar a noção de equivalência, eu prefiro sempre a noção em pretações enriquecem a compreensão do texto.
aproximação, já que se trata de passar de um sistema linguístico para P.V. – A fidelidade se coloca principalmente nas traduções técnicas.
outro. Como esses sistemas são diferentes, não se pode, a rigor, falar de É preciso respeitar muito de perto o sentido das palavras. Quando se fala
equivalência, mas sim de aproximação. É uma concepção mais humilde- de tradução literária se pensa nos conceitos de tradução livre e tradução
mente pretensiosa. Tenho a impressão que o pecado capital do tradutor é literária. Como T. S. Eliot dizia, não existe nenhum verso livre porque
a soberba e a virtude indispensável para ele é a humildade. todo verso está preso a um esquema, a um padrão. Acho também que
A fidelidade é também uma questão muito controversa para ser não existe tradução livre, toda tradução está presa a algum padrão. O
resumida em poucas palavras, é a busca de uma aproximação maior do que se chama de tradução literal seria a tradução que se prende muito
texto (a maior possível). A tradução, como a política, não é a arte do ao padrão do sentido das palavras e perde com isso, às vezes, outros
desejado, mas a arte do possível. O tradutor não faz o que quer, faz o que elementos que são importantes no texto literário. Os elementos sonoros,
pode, conforme a dificuldade do texto, as circunstâncias etc. A fidelidade elementos ligados à imagem etc. A respeito do conceito de fidelidade,
equivale à especificidade da situação tradutória. Por isso, uma teoria da acho que o tradutor, por exemplo, o tradutor técnico, tem que ser fiel ao
tradução é uma coisa muito difícil, porque a tradução é uma arte, e a arte estrito sentido do que está ali. Se ele vai traduzir um documento legal,
aborrece as generalidades e adora as especificidades e as concretudes. por exemplo, ele precisa tomar muito cuidado nisso, mas se o tradutor
A tradução é apenas um caminho para o texto original. A leitura de uma é um tradutor literário, então, ele vai recriar o texto, ele vai poder se
tradução não substitui a leitura do texto original. O ideal é que a gente permitir certas liberdades quanto ao sentido, isto é, ele vai poder fugir à
soubesse todas as línguas do mundo para poder ler todos os textos em fidelidade estrita no sentido do vocabulário. Ele estará preso a uma outra
suas línguas originais. Como isso é impossível, então a gente faz o pos- fidelidade, mais ampla, que é a fidelidade à expressão, à força da comu-
sível, que é o caminho da tradução. Não acho que ela seja inferior, mas nicação artística do texto.
diferente do texto original. É um outro texto. É como se você me pergun-
tasse se um vestido azul é inferior a um vestido verde. Explique melhor a que o tradutor seria fiel.
P.V. – Fiel ao texto em si, como obra de literatura. Isso, eu estou falando
É então como se fosse um texto novo, que é produzido a da tradução literária, que é a única tradução a qual tenho me dedicado.
partir do original? Em função desse elemento de fidelidade estrita ao vocabulário ou de uma
J.P.P. – É novo dentro daquela língua, mas não é novo por ser uma ver- liberdade maior quanto ao texto original, eu diria que há três tipos bási-
são, uma tradução de um texto pré-existente. Mas de qualquer modo, cos de tradução literária:
ele pode ser lido como um texto complementar do original. A ponto de A tradução que procura se ater ao sentido das palavras, despre-
você poder imaginar o texto não apenas como aquele escrito na língua zando completamente qualquer outro elemento. No caso da poesia, não
original, mas como a soma do original mais todas suas traduções. É como se preocupa em reproduzir os ritmos, as qualidades sonoras e até mesmo
se você tivesse um raio de luz se dispersando por uma série de prismas. o tom, ou seja, a qualidade tonal do original. Como diz o poeta americano

134 Da transcriação: poética e semiótica da operação tradutora Haroldo de Campos, José Paulo Paes e Paulo Vizioli falam sobre tradução 135
Robert Frost, poesia é o que se perde na tradução. Realmente é o que mais popular. Na sua tradução, Propércio fala de presentear a amada com
acontece pois o tradutor fica preso às palavras, não traduz o poema e uma frigidaire. Naquele tempo não havia geladeira, quer dizer. Ezra cria
sim as palavras desse poema. Acho que esse tipo de tradução tem a sua situações irônicas que, provavelmente, não passaram pela imaginação de
finalidade porque é um tipo de tradução que pode ser usada em certos Propércio. Eu acho que é um trabalho que tem muito valor. É quase que
textos bilíngues e tem uma função ancilar, do latim ancila, quer dizer, um poema novo, original. Os irmãos Campos, que são muito influenciados
‘uma criada’, um elemento que ajuda o leitor, assim o leitor, com algum pelo Pound, tentaram, aqui no Brasil, fazer experiências ou experimentos
conhecimento de uma língua estrangeira, vai ler o texto original e, para nessa linha de tradução. Eles chamam esse processo de transliteração. O
entendê-lo melhor, vai recorrer a essa tradução. Esse tipo de tradução é Haroldo de Campos fez um trabalho com trecho de Goethe que, se com-
muito comum na Europa, por exemplo, Penguin Books tem uma coleção parados e analisados por um especialista, ele vai dizer que não é Goethe
grande de textos: The Penguin Books of Russian Poetry, The Penguin Book mas é algo interessante.
of German Poetry, Italian Poetry, Spanish e assim por diante. Todos esses Há um terceiro tipo de tradução com a qual eu, pessoalmente, mais
livros são assim: têm o texto original, o poema e a tradução em prosa ao me identifico. É a tradução literária como recriação, ou seja, o tradutor
pé da página. Esse tipo de tradução, na minha opinião, é menos que a procura dar o sentido geral do texto, mas, ao mesmo tempo, recriar as
tradução literária, pois é apenas a observância do sentido das palavras. características sonoras do texto original na sua nova língua. Ele tenta
Num outro extremo haveria a adaptação literária, que seria algo transmitir aquele impacto emocional contido no texto original.
que procura transmitir ou recriar o texto de uma forma pretensiosa, ou O primeiro tipo de tradução, como eu disse, é menos que a tradução
talvez, mais ambiciosa. O tradutor (não sei se nesse caso merece ou deve literária; o segundo, talvez seja mais, já é a tentativa de criar indepen-
ser chamado de tradutor) tem o desejo de recriar a obra como se o autor dentemente enquanto que o terceiro é pura e simplesmente o conceito de
vivesse hoje, por exemplo, ele vai traduzir um autor do Renascimento recriação, é a tradução literária no meu entender.
que viveu na Áustria. Vamos supor, então, ele imagina esse autor vivendo H.C. – Há mais de vinte e cinco anos venho expondo, em nível teó-
em São Paulo, hoje em dia, e como ele reagiria a tudo. É possível. É um rico, minhas concepções sobre o problema da tradução, em especial sobre
exercício de criação literária, de certa forma. Não se pode dizer que essa a questão diferenciada da tradução de textos criativos, nos quais predo-
seja uma tradução inteiramente livre porque o tradutor tem que se pren- mina a informação estética. Meu primeiro trabalho mais extenso a respeito
der a certos parâmetros, às características, à visão do mundo daquele foi apresentado em 1962, ao III Congresso Brasileiro de Crítica e História
autor e a situação em que o tradutor se encontra, tentando assim, fundir Literária.1 Está publicado em meu livro Metalinguagem. Depois disso, publi-
as duas coisas, surgindo um texto totalmente novo. Acho que esse pro- quei muito sobre o assunto, no Brasil e no exterior. Ainda recentemente,
cesso de adaptação está muito ligado ao processo de criação literária que no volume coletivo Semiótica da Literatura, correspondente aos Anais do
era frequente na Idade Média e no Renascimento. Por exemplo, nas peças II Congresso Brasileiro de Semiótica, realizado em 1985, foi estampado
de Shakespeare, não há uma história que ele tenha criado, ele se servia um ensaio meu bastante abrangente, “Da transcrição: poética e semió-
de outras histórias, dava-lhes um tratamento diferente. Outro exemplo tica em operação tradutora”, que representa a suma do meu pensamento
seria Chaucer, todas as histórias dele, com exceção de uma ou duas, são sobre a questão em pauta (trata-se da parte inicial de um livro meu, de
tiradas de outros autores. Essa questão de ser original não era tão impor- mesmo título, a ser lançado em futuro próximo). Basicamente ocupo-me
tante, o que era importante era dar um tratamento retórico diferente ao da tradução criativa (recriação, transcriação, como prefiro dizer). Esta,
texto. Foi com Ezra Pound, que traduziu Propércio, poeta latino, como
se fosse um poeta de hoje em dia, que esse tipo de criação literária ficou 1
CAMPOS. Da tradução como criação e como crítica.

136 Da transcriação: poética e semiótica da operação tradutora Haroldo de Campos, José Paulo Paes e Paulo Vizioli falam sobre tradução 137
idealmente, implica a reconfiguração do idioma de chegada da forma Como foi que se tornou tradutor?
significante do poema (obra de arte verbal) de origem. Todos os consti- J.P.P. – Foi necessidade econômica em primeiro lugar, e gosto do ofício
tuintes formais do plano da expressão (nível fônico e prosódico) e do plano mais tarde. Eu tenho um poeminha que é um tipo de romance chamado
do conteúdo (ou seja, o que Hjelmslev chamava “forma de conteúdo”, romance de formação, cujo tema em geral é o aprendizado por parte do
a qual, a meu ver, inclui os problemas do que Ezra Pound entendia por protagonista. Por exemplo, um romance de formação é o Ateneu de Raul
“logopeia” e do que Roman Jakobson procurava enfocar na sua “poesia Pompeia. E esse meu poeminha diz assim: “Antes bebia por desgosto/
de gramática”), todos esse constituintes devem der levados em conta e Agora bebe por gosto”. E a tradução é mais ou menos assim – no meu
micrologicamente ponderados pelo tradutor-recriador (transcriador), para caso foi. É claro que estou brincando. Acontece que, como gosto de lite-
o fim de reconfigurá-los em sua língua, ainda que tenha de levá-lo ao ratura, a literatura é a minha cachaça, a paixão da minha vida, eu sempre
excesso e à desmesura. A lei de compensação vige no caso: um efeito procurei aprender outras línguas para poder ter acesso a obras que não
perdido aqui, pode ser ganho acolá, explorando-se as latências e possibili- existem em português. Então, estudei inglês, francês, espanhol, italiano,
dades da língua do tradutor, que deve ser exposta ao impulso violento da mais tarde alemão e ultimamente grego. Mais tarde, por necessidade
língua estranha (como gosta de salientar Walter Benjamin, citando Rudolf econômica comecei a traduzir quando trabalhava em uma editora. Depois
Pannwitz), ao invés de ser timoratamente preservada desse abalo trans- eu me aposentei, gostei da coisa e hoje eu bebo por gosto. Já não bebo
gressor. Quanto à fidelidade, já Walter Benjamin ressalta, como “carac- 2
por desgosto.
terística da má tradução” (de poesia), a mera transmissão inexata de um P.V. – Eu não me tornei tradutor. Sou professor de Literatura Inglesa
conteúdo inessencial”. Na “transcriação”, ao invés de uma fidelidade pobre e Norte-Americana. Traduzo porque conheço um pouco de português e
e equivocada e um mero conteúdo ou significado de superfície, busca-se inglês, gosto de literatura e, às vezes, tenho vontade de transmitir aos
uma “hiperfidelidade”, que aspira a dar conta não apenas desse conte- outros aquilo que sinto quando leio o texto original.
údo de comunicação (que lhe serve de bastidor ou pano de fundo), mas Entendo muito pouco da parte teórica, não conheço livros de teoria
ainda da própria semantização das categorias sintáticas e morfológicas, da tradução, não sou especializado em linguística, sou uma pessoa que se
da semantização de que também se imanta o nível fônico de um poema, interessa por literatura e traduzo em consequência disso.
como Jakobson costumava enfatizar, referindo-se à tradução de poesia, H.C. – Tudo o que fiz e faço decorre basicamente de minha condição
que ele só julgava possível em termos de creative transposition (‘trans- de poeta. O ensaio, a reflexão teórica, mesmo as atividades docentes que
posição criativa’). Só os “formulistas” (de fórmula) e os “formolistas” (de venho desempenhando, desde 1971, no Brasil (PUC-SP) e ocasionalmente
formol) tem medo da forma: mesmo porque, não há formas “vazias”; as no exterior, são extensões da minha condição de poeta-crítico. A tradução
formas são significantes, irradiam significância, são históricas (implicam criativa é, para mim, a primeira e a mais importante dessas derivações,
uma questão de tradição) e a transmissão de tradição ao longo do eixo dia- mesmo porque, sendo irmã-gêmea da poesia, e a que mais me permite
crônico; o que se chama cultura...). Ou como queria o jovem Marx (1842): entrar nos mecanismos de engendramento da obra de arte verbal. Como
“Mein Eigentum ist die Form, sie ist meine geistige Individualität. Le style escrevi num estudo sobre a teoria tradutória de Octavio Paz,4 a tradu-
c’est l’homme. Und wie!” (‘Minha propriedade é a forma, ela é minha indi- ção parece reconciliar, numa só operação (metafunção), duas das funções
vidualidade espiritual. O estilo é o homem. E como!’).3 jakobsonianas da linguagem: a metalinguística e a poética (funções que,

2
BENJAMIN. Die Aufgabe des Übersetzers [A tarefa do tradutor].
3
MARX. Bemerkungen über die preußische Zensurinstruktion. 4
Anais do 1º Seminário Latino-Americano de Literatura Comparada.

138 Da transcriação: poética e semiótica da operação tradutora Haroldo de Campos, José Paulo Paes e Paulo Vizioli falam sobre tradução 139
em termos estritos de linguística, e descritas por outro ângulo, poderiam tivesse tido mais tempo. Por isso acho que essa tarefa exige humildade e
ser consideradas como diametralmente opostas). capacidade de aceitar crítica.
P.V. – Acho que como em todo lugar o nível varia. Há traduções
O que acha do nível das traduções feitas no Brasil? boas e ruins. Acho que o nível tem melhorado.
J.P.P. – Tem melhorado, felizmente, mas não tanto como seria de se dese- Antigamente o tradutor era alguém que gostava de literatura, assim
jar. Mas, por outro lado, é preciso ter muito cuidado para se criticar uma como eu. Os poetas, escritores, às vezes, traduziam. Traduziam aquilo de
tradução. Eu acho que as únicas pessoas qualificadas para criticar uma que gostavam. Por exemplo, Machado de Assis traduziu O corvo de Edgar
tradução são aquelas que as fazem, porque sabem o “trabalho que dá Allan Poe de que, provavelmente, ele gostava muito. Ele não fazia isso
para fazer o vatapá”. É muito fácil criticar uma tradução, quem o faz sistematicamente.
está numa posição muito cômoda. O problema é saber fazer essa crítica. As traduções, de um modo geral, refletiam muito aquilo que o escri-
Criticar uma tradução não basta, é preciso apresentar uma alternativa. tor era. Às vezes, quando lemos um texto de Castro Alves traduzindo
Esse foi, aliás, o critério que utilizei na Oficina de Tradução.5 Não me limi- Byron, o texto soa muito mais como Castro Alves do que como Byron.
tei a criticar as traduções, mas propus, conforme fosse o caso, soluções As traduções, de um modo geral, refletiam muito a formação, o
alternativas – não como normas que devessem ser seguidas, mas como temperamento, o modo de ser dos tradutores.
exemplos de que era possível resolver aqueles problemas, que aquela Acredito que nesse século, principalmente depois da fase moder-
era uma solução possível. Como eu tinha achado essa solução, então eles nista, as pessoas foram tomando uma consciência maior, por exemplo, do
poderiam achar soluções até melhores. desenvolvimento da linguística. E mesmo aquelas que como eu se manti-
Traduzir é um trabalho penoso. Criticar uma tradução alheia é um veram fora desses estudos especializados, sentem alguns reflexos. Já há
trabalho ainda mais penoso, porque é preciso se colocar no lugar do outro um ponto de vista, um posicionamento mais profissional, então, não só a
tradutor para verificar se ele cometeu um erro, um deslize, uma traição, qualidade média das traduções literárias tem melhorado como também a
ou se se trata apenas de uma opção estilística da pessoa. Esse equilíbrio quantidade tem crescido. Tem havido até um maior interesse por poesia,
é muito difícil. A fronteira entre o erro e a solução menos feliz é muito por parte dos editores, o que é uma coisa surpreendente.
tênue – um fio de navalha. Para uma crítica procedente e eficaz, tenho H.C. – Raras atingem o patamar daquilo que chamo de “transcria-
a impressão de que outro tradutor é a pessoa mais indicada. Porque é ção”. A maioria delas sequer se propõe esse objetivo, reverenciando o
um colega de ofício, sabe as dificuldades desse ofício. Posso falar isso dogma do caráter “ancilar” e mesmo “servil” do trabalho do tradutor. Estou
de alma livre porque recentemente traduzi um livro bastante difícil e na falando, é claro, da tradução de poesia. Consulte-se o que escrevi a propó-
semana passada saiu uma crítica à minha tradução apontando erros etc. sito desse dogma em “Transluciferação mefistofáustica”. 6
Alguns não eram erros, mas visões errôneas do crítico. Em outros casos,
ele tinha toda a razão e eu me envergonhei profundamente. Costumo O que considera uma tradução de boa qualidade?
dizer que a doença profissional do tradutor é o chamado “complexo de J.P.P. – É aquela tradução cuja aproximação do original, portanto, do sig-
Judas” – ele sempre acha que traiu. Há sempre uma consciência culpada nificado conceitual das palavras, do significado formal das palavras, é a
por parte do tradutor, ele sempre acha que poderia ter feito melhor se maior possível. É de novo a noção de proximidade. Uma das falácias, um
dos erros de interpretação bastante corrente é que uma tradução deve ser

Curso oferecido por José Paulo Paes, como professor visitante, a alunos e professores da Unicamp.
5

(N. do E.). 6
CAMPOS. Deus e o Diabo no Fausto de Goethe.

140 Da transcriação: poética e semiótica da operação tradutora Haroldo de Campos, José Paulo Paes e Paulo Vizioli falam sobre tradução 141
lida como se fosse o original escrito naquela língua: “fulano de tal tradu- às vezes isso não é possível, os tijolinhos simplesmente não se encaixam.
ziu sicrano”, como se o sicrano estivesse escrito naquela língua, ou seja, Às vezes você tem que deixar a coisa distante, imperfeita com a plena
nem se percebe que é uma tradução. Acho essa concepção muito errônea, consciência de que esta imperfeita, por uma questão de deficiência da lín-
porque uma das funções da tradução é mostrar que as línguas têm mui- gua, que é instrumento que, se usa, ou por uma questão de deficiência da
tas coisas equivalentes, ou próximas, mas também, fundamentalmente, sensibilidade que é a força que reúne os elementos.
muitas coisas diferentes. Portanto, o texto bem traduzido é aquele que A melhor tradução é a que mais se aproxima das qualidades do ori-
o leitor sente que está escrito na sua língua, que é fluente, e que é uma ginal, é essa a resposta.
língua literariamente convincente e eficaz. E que ao mesmo tempo tenha H.C. – No que respeita a poesia (a obra de arte verbal), a boa tra-
algo que demonstre que aquilo não é um texto escrito originalmente na dução é aquela que aspira a trans-criação. Na avaliação do resultado se
sua língua. Ou seja, que o leitor tenha a sensação de familiaridade, mas coloca, desde logo, uma “questão de grau”. Pois, como escrevi no texto
ao mesmo tempo de estranheza. Por exemplo, se um texto em inglês mencionado na resposta à pergunta anterior, “a consciência ‘transcriadora’
fala em milhas, por que traduzir essa medida em quilômetros? Isso é pode incidir, em graus diversos, numa prática do traduzir não regulada por
um exemplo grosseiro, mas há coisas mais sutis em que uma tradução essa ideia radical”. Por outro lado, há a considerar o caso das traduções
bem lograda consegue, sendo vernácula, mostrar que há algo de estranho que preenchem uma função “pedagógica” ou “mediadora”, úteis e respei-
nesse vernáculo. táveis, sobretudo quando incluídas em edições bilíngues, mas que não
Não se traduz de um língua para outra, mas de uma língua-cultura podem ser tratadas como produtos estéticos. O que ocorre, mais comu-
para outra língua-cultura. Então, na medida em que a tradução é eficaz, mente, são traduções “medianas”, que guardam apenas alguns aspectos
competente, ela traz em si um pouco da especificidade dessa língua-cul- mais óbvios da função poética (um esforço de versificação, um empenho
tura que é diferente da sua. E isso sem trair o gênio da sua própria língua. de rima terminal), sem entrar na essência da “transcriação” (daquilo que
A tradução é, no fundo, andar sobre o fio da navalha tomando o máximo Walter Benjamin definia por tradução enquanto forma dotada de espe-
cuidado para não cortar o pé nem do autor nem do tradutor, porque na cificidade, Umdichtung, ‘transpoetização’). Às vezes, o tradutor mediano
verdade o tradutor caminha sobre um pé seu e outro do autor. poderá obter um achado feliz, que o aproxime, em algum momento, em
P.V. – Como eu disse no início, a tradução é uma recriação, ela determinada medida, ainda que involuntariamente, dos objetivos da tra-
procura reproduzir as características do texto original, mas ela nunca as dução recriadora. Cabe à didática da tradução identificar esses graus.
reproduz exatamente. Sempre há uma perda ou sempre há um ganho. A Como diz Hugh Kenner, comparando as traduções de poesia chinesa de
tradução por melhor que seja, não é o texto original. Esse é um só, é único Ezra Pound com as do sinólogo (e razoável poeta) Arthur Waley:
e é único porque o autor resolveu que aquela é a forma final. O tradutor
Nos círculos sinológicos, as incursões de Pound no chinês despertam
está tentando uma aproximação, como uma espécie de interpretação, ao apenas um esgar de desdém... Por outro lado, as pessoas sensíveis
texto original. Eu mesmo fiz várias versões do mesmo poema traduzido, às belezas sutis do verso poundiano não podem tomar a sério a
técnica poética de erro e acerto do Sr. Waley...
às vezes a primeira versão não me satisfaz e eu faço outra e depois outra
etc. Há poemas que traduzi que podem ser encontrados em várias formas,
e às vezes nem eu sei se a ultima versão é realmente a melhor. Algumas Do mesmo modo, quaisquer que sejam os méritos da tradução de
vezes, a pessoa descobre algumas coisas no texto original que não tinha Dante pelo eminente filólogo Vossler, cujo propósito era “reproduzir, sim-
percebido antes. Então é preciso reformular a tradução. O problema é que ples e objetivamente, o conteúdo do poema”, ninguém atento à evolução
você tem que pegar as suas palavras, os seus tijolinhos e montar a casa e de formas na poesia alemã poderá confundi-la, em termos de resultado

142 Da transcriação: poética e semiótica da operação tradutora Haroldo de Campos, José Paulo Paes e Paulo Vizioli falam sobre tradução 143
esteticamente avaliável, com a “transfundição” (Umguss) de excertos do metafísica e a física do traduzir, procurando sempre passar ao nível prá-
poema dantesco, levada a efeito pelo poeta Stefan George, com um virtu- tico da análise comparativa e mesmo da produção (às vezes em equipe)
osismo de linguagem capaz de responder ao “som” e ao “movimento” do de modelos experimentais de tradução poética. Agora, para traduzir efi-
original. Quem se propõe a ensinar tradução deve saber discriminar esses cientemente poesia, é quase um pré-requisito ser poeta, ou pelos menos,
aspectos e discuti-los criticamente com os alunos. estar profundamente sintonizado com a linguagem poética do seu tempo
e com as tradições (a evolução de formas) de sua literatura e das litera-
Como formar bons tradutores? turas as quais se dedica (num sentido goethiano de Weltliteratur e afini-
J.P.P. – Não sou professor, apenas orientei uma oficina de tradução. A dade eletiva...).
tradução é uma arte, não uma ciência, e a arte só se aprende fazendo.
Como tradutor, e não como professor, acho que o método mais eficaz de O que recomendaria para o tradutor iniciante?
ensino da tradução é o método da oficina – como se fazia antigamente J.P.P. – Coragem e persistência.
para qualquer ofício. Tudo aquilo que é arte se aprende fundamental- P.V. – Depende do objetivo que a pessoa tem quanto a área em
mente por imitação, não no sentido de se fazer exatamente o que o outro que vai atuar. A pessoa tanto pode querer saber técnicas de tradução
faz, mas de se fazer dentro das próprias possibilidades aquilo que o outro para ensinar, quanto saber técnicas de tradução para praticar nas mais
faz. Como o ensino da pintura era feito antigamente: o rapaz entrava no diversas áreas possíveis. Ter um bom dicionário técnico, se for o caso de
ateliê de pintura como aprendiz do pintor e começava imitando o mes- tradução técnica, e procurar se especializar em determinados setores.
tre. Mais tarde, ele desenvolvia seu estilo próprio. A tradução é mais ou Acho que independentemente da área onde se atue, é sempre bom
menos assim, um tradutor mais experiente corrige aquilo que lhe parece um pouco de prática com a tradução literária porque ela exige não só
um erro, uma impropriedade de tradução no trabalho feito por um apren- um conhecimento do sentido primeiro, ou superficial das palavras, mas
diz, que mais tarde também vai se tornar um profissional competente também uma sensibilidade muito grande quanto ao peso emocional de
e poderá fazer o mesmo em relação a outro aprendiz. A aprendizagem cada palavra. Há palavras que estão cheias de sentido, elas têm varias
nada mais é do que uma corrida de revezamento entre gerações – vai se conotações, é preciso senti-las. Isso só se adquire com a prática, com
passando o bastão. E é muito triste eu estar dizendo isso porque já sou o conhecimento de textos literários. Como diziam antigamente que os
um senhor de idade e vou passar o bastão para o meu sucessor. [risos]. sonetos eram o serviço militar do poeta, acho que a tradução literária (e
P.V. – A tradução é uma atividade multifacetada. Há vários tipos até mesmo a poesia) é o serviço militar do tradutor.
de tradução. Acho que o bom tradutor é aquele que, se for um tradutor Sempre cito este exemplo que aconteceu comigo. Recebi uma
técnico, é capaz de transmitir o sentido do texto original com a maior carta de um amigo dizendo: Ron bought a car. Passou um tempo e recebi
fidelidade possível, mas se for um tradutor literário, é capaz de transmitir uma carta do próprio Ron dizendo: I have purchased an automobile. As
a carga emotiva e os significados do texto original também com a maior duas sentenças dizem a mesma coisa, mas o tom é bastante diferente. O
fidelidade possível ao conjunto. tradutor não pode traduzir as duas da mesma forma.
H.C. – Só posso falar da tradução de poesia. Propus, no ensaio de Se o tradutor desejar se especializar em algum setor, então é ape-
1962 incluído em Metalinguagem, a constituição de um laboratório de nas um trabalho mais ou menos técnico, não menos importante.
textos, com a participação de poetas e linguistas. Eu mesmo, desde 1975, H.C. – Se se quiser dedicar à tradução poética, será decisivo que
dei cursos, no âmbito da pós-graduação, sobre poética da tradução, nos considere o exemplo paradigmal de Ezra Pound, que, segundo expressão
quais me ocupei, em nível teórico (em discussões de seminário), com a de George Steiner, está para a tradução de poesia em nosso tempo como

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o cubismo para o pintor moderno. Ler, no plano teórico, os textos básicos do tradutor do que traduzir, por exemplo, William Faulkner, Süskind etc.
de Walter Benjamin e de Roman Jakobson. Mas, sobretudo: ler, o mais Entretanto, os livros que mais vendem são os best-sellers, de modo que
que possa, a poesia dos “inventores” e dos “mestres” das varias épocas seus tradutores seriam os mais bem remunerados com esse sistema do
e literaturas. Estudar, ecumenicamente, quantas línguas o fascinem... A que os tradutores daquelas obras bem mais difíceis, mas que interessam
linguagem – dizia Emerson – “é poesia fóssil”... “A mais morta das pala- a um público menor.
vras foi algum dia uma figura brilhante”... P.V. – O mercado de trabalho é muito diversificado. Há tradutores,
por exemplo, que se bons e confiáveis, recebem uma quantia boa (em
Como está a situação do profissional no mercado de trabalho torno de Cz$ 700,00 ou Cz$ 800,007 [] por uma página de vinte linhas),
no Brasil? muitos deles vivem disso. O tradutor literário precisa conhecer mais a
J.P.P. – Monteiro Lobato – que passou boa parte da vida traduzindo – já se língua, é o tradutor que mais dá de si e é o que menos recebe, porque
queixava do descaso em relação ao trabalho do tradutor. Veja, por exem- até hoje, a tradução literária é considerada no Brasil como uma espécie
plo, o desinteresse das embaixadas estrangeiras pelo trabalho dos tradu- de passatempo, como de fato é. Não é qualquer um que pode fazer, é só
tores. É muito mais fácil se conseguir uma bolsa de estudos para se fazer quem realmente tem algum dom, é uma coisa que vem naturalmente.
uma tese acerca de um autor estrangeiro (tese que será, no melhor dos Muita gente se aproveita disso, os editores em geral costumam pagar
casos, uma espécie de guisado, de apanhado do que já se disse a respeito muito pouco para os autores. Um autor geralmente ganha 10% sobre
desse autor) do que conseguir ajuda de custo para traduzir uma obra o preço de capa, é como na lavoura: o produtor é que tem os ganhos,
fundamental. Essa tese vai ficar esquecida numa biblioteca de faculdade, depois vem o intermediário e o atravessador é que vai ficar com o grosso.
e provavelmente não vai alterar a apreciação do autor porque ele já foi O livreiro, em geral, ganha 55% a 60% em qualquer livro, o editor fica
objeto de estudo em sua própria pátria. Enquanto o trabalho do tradutor com os 30% e o autor com 10%. Normalmente, tenho exigido das edito-
é de utilidade imediata. ras com quem trabalho, que me paguem como se fosse autor. É pouco,
A situação econômica do tradutor é muito precária. Acho que seria só 10%. Mas, às vezes, há autores estrangeiros que são recentes, e as
elementar os tradutores receberem apoio das embaixadas, dos serviços editoras tem que pagar copyright – direitos autorais – (de 8% a 10%)
culturais dos países estrangeiros de cujas línguas ele traduz. Uma das aos herdeiros ou agência responsável dos autores. Isso, de certa forma,
lutas que temos na União Brasileira de Escritores (já que, infelizmente, reduz o lucro das editoras. O editor, então, procura jogar essa dificuldade
a Associação Brasileira de Tradutores não prosperou aqui em São Paulo) para o tradutor. Nesse caso, cabe ao tradutor decidir.
é no sentido de melhorar o reconhecimento profissional do tradutor, e H.C. – Não tenho condições de responder. Não sou tradutor profis-
a forma ideal de conseguir isso seria através de uma participação nos sional. Dedico-me, como poeta, à tradução dos poetas que me interes-
direitos autorais da obra. Já sugeri, num artigo para o jornal da UBE, que sam. Isto não quer dizer que não respeite profundamente a atividade do
o governo devia tomar uma providência na questão da aprovação dos tradutor profissional, do tradutor-intérprete, enfim, do tradutor no sen-
contratos de direitos autorais, isto é, que se reservasse pelo menos uma tido lato da expressão, que cumpre uma função civilizatória altamente
parte desses direitos – 20% – para o tradutor. relevante e que deve ser adequadamente remunerado.
Apesar de que essa questão é curiosa, como tudo no mundo é para-
doxal, as obras que dão lucro para os editores são chamados best-sel-
lers. Literatura interessante, mas de segunda categoria do ponto de vista
literário. Traduzir essas obras envolve uma responsabilidade bem menor R$2,54 ou R$2,90, respectivamente (N. do E.)
7

146 Da transcriação: poética e semiótica da operação tradutora Haroldo de Campos, José Paulo Paes e Paulo Vizioli falam sobre tradução 147
Até que ponto o tradutor é autor do que traduz? Quais as qualquer maneira, precisa ser uma obra pela qual o tradutor se interesse,
implicações sociais/culturais da tradução? caso contrário o trabalho tradutório se torna uma verdadeira penalidade.
J.P.P. – Ele não é autor, mas um coautor – um pequeno coautor. Digamos Quando o tradutor assume determinada tarefa, tem por obriga-
que, se fosse uma sociedade, ele teria 10%, enquanto o sócio majoritário, ção profissional procurar desempenhá-la tão corretamente quanto possí-
o autor, teria 90%. Traduzi Cavasco, por exemplo, que escreveu 154 poe- vel. Mesmo por uma questão de honestidade consigo próprio, o tradutor
mas durante toda a sua vida. Morreu aos setenta anos. Portanto, levou não vai fazer um mau trabalho. E também por uma questão de respeito
praticamente cinquenta anos para escrever 154 poemas dos quais eu tra- ao autor: quando se assume o compromisso de se traduzir determinada
duzi 73. Demorei três anos para traduzi-los. O que são esses três anos obra, é como se se estivesse colocando no lugar do autor. O tradutor
comparados com os cinquenta que ele levou para escrever toda a sua estaria traindo sua própria criatura, mesmo que no caso da tradução, não
obra? E o que é minha tradução senão um fantasma muito pálido perto se trata de um filho natural, mas adotivo...
da carnadura rígida e rica dos poemas dele? O tradutor é uma espécie de A tradução é um risco muito grande. É preciso assumir a respon-
fantasma do castelo... sabilidade do que é feito. Quando se assume como um editor o compro-
As implicações culturais e sociais da tradução são fundamentais. misso de se traduzir determinado livro e se chega numa determinada
Ela é o melhor remédio contra a burrice, contra o chauvinismo, contra o frase onde não se consegue encontrar uma solução adequada, não se
provincianismo, contra a basófia, porque coloca ao alcance de todos o pode eliminar a frase. Vai ser preciso encontrar uma solução. Se essa
que melhor se fez. Acho que a tradução é o maior dos serviços sociais. for feliz ou não, muitas vezes é uma questão de sorte, mas é necessário
Ela coloca ao nosso alcance a riqueza do mundo. assumir o risco.
P.V. – Em nenhum caso, o tradutor é o autor do que traduz, a P.V. – Esta pergunta já está respondida na primeira quando falei
menos que ele jogue o texto original às urtigas e faça uma coisa qualquer sobre a questão da recriação. Poderia, é claro, me aprofundar no assunto
da cabeça dele. Acho que o tradutor é uma espécie de autor, mas não um mas, de certa forma, os macetes que uso estão num artigo que eu fiz, “A
autor isolado, ele é um coautor, quer dizer, é como se escrevesse junto tradução de poesia em língua inglesa – problemas e sugestões”.
com o verdadeiro autor. É como se o autor desse o mapa da mina e o tra- H.C. – A resposta a esta questão já está implícita naquilo que disse
dutor fosse explorar. Isso não diminui a função do tradutor, pelo contrário. a propósito dos quesitos anteriores. Melhor do que eu, respondem por
H.C. – Já escrevi que a tradução literária pode ser considerada o mim as traduções que tenho realizado no curso de quase três décadas,
capítulo por excelência da Teoria da Literatura, pela dimensão de histo- de Pound e Joyce e Mallarmé, Dante e Goethe. De haicais japoneses
ricidade, de crítica e de transculturação que nela está implícita. Quanto à poesia clássica chinesa. Da poesia russa moderna à poesia hebraica
às relações tradutor-autor, respondo com Novalis: o tradutor, para ele bíblica, minha última paixão, à qual estou, nestes últimos anos, fascina-
(o verdadeiro “tradutor-transformador”) deveria ser der Dichter des damente dedicado...
Dichters, ou seja, “o poeta do poeta”...

Fale um pouco sobre seu processo de tradução.


J.P.P. – O ideal em primeiro lugar é, evidentemente, que o tradutor tra-
duza um texto de que goste. Em segundo lugar, uma obra que conheça
bem. É claro que esses dois ideais nem sempre podem ser atingidos. De

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Comparada com o título “Reflexões sobre a poética da tradução”, Belo Horizonte: Imprensa
Universitária da UFMG, 1987, p. 258-276; e, com o título “Da tradução à transficcionalidade”, na
revista 34 Letras, n. 3, p. 82-101, 1989.]

Este livro foi elaborado inicialmente por

alunos da disciplina Estudos Temáticos

de Edição: Preparação de Originais,

ministrada pela professora Sônia Queiroz

no primeiro semestre de 2009. Composto


em caracteres Verdana e fotocopiado

em papel reciclado 75 g/m 2 (miolo).

Acabamento em kraft 420 g/m2 (capa) e

costura artesanal com cordão encerado.

160 Da transcriação: poética e semiótica da operação tradutora


Publicações Viva Voz
de interesse para a área de tradução
A tarefa do tradutor, de Walter Benjamin:
quatro traduções para o português
Lucia Castello Branco (Org.)

Tradução: literatura e literalidade


Octavio Paz
Trad. Doralice Alves de Queiroz

Poética do traduzir, não tradutologia


Henry Meschonnic

Transcriações,
por Haroldo de Campos
Haroldo de campos

As edições Viva Voz estão disponíveis em versão


eletrônica no site: www.letras.ufmg.br/vivavoz
As publicações Viva Voz acolhem textos de alunos e professores da Faculdade

de Letras, especialmente aqueles produzidos no âmbito das atividades

acadêmicas (disciplinas, estudos orientados e monitorias). As

edições são elaboradas pelo Laboratório de Edição da

FALE/UFMG, constituído por estudantes de Letras –

bolsistas e voluntários – supervisionados

por docentes da área de edição.