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A LEI DAS PRIMÍCIASA LEI

A LEI DAS PRIMÍCIAS


Desde que comecei a publicar os meus livros, sempre repito o
mesmo “ritual”. Pego o primeiro exemplar de cada novo livro
impresso que me chega às mãos e faço nele uma dedicatória à
minha esposa. A Kelly sabe que o primeiro exemplar de cada novo
livro ou reimpressão sempre pertence a ela. Para a leitura do livro
ou para se guardar de recordação, não faz a menor diferença se ela
pega o primeiro ou o último exemplar. Então por que sempre separo
o primeiro livro para ela? Porque, através deste ato, quero
demonstrar que a minha esposa é a pessoa mais importante para
mim e que eu quero sempre distingui-la das demais pessoas. A
importância de se separar para ela o primeiro exemplar de cada
livro é pelo fato de eu cultivar dentro de mim um valor, e não
porque o primeiro exemplar seja diferente dos demais no aspecto
prático.
Penso que seja este o princípio que Deus aplica na Lei das
Primícias. Ao ordenar que o Seu povo Lhe entregasse os primeiros
frutos, Deus queria ser distinguido no coração de Seus filhos. A
entrega das primícias é uma forma de se dar honra ao Senhor.
Observe a ênfase bíblica:
“Honra ao Senhor com os teus bens e com as primícias de toda a
tua renda; e se encherão fartamente os teus celeiros, e
transbordarão de vinho os teus lagares.” (Pv 3.9,10)
Ao mencionar a necessidade de darmos honra ao Senhor em
nossas finanças, a Palavra do Senhor fala sobre os nossos bens e
também sobre as primícias da nossa renda. Não se trata apenas de
honrá-Lo com os nossos bens, nem tampouco de honrá-Lo apenas
com a nossa renda, e sim com as primícias desta renda.
A definição que o Dicionário Aurélio dá acerca de primícias é:
“Primeiros frutos; primeiras produções; primeiros efeitos;
primeiros lucros; primeiros sentimentos; primeiros gozos;
começos, prelúdios”. A definição bíblica não é diferente. Por trás
de toda uma doutrina fundamentada em ensinos explícitos e
figuras implícitas, as Escrituras nos mostram a importância que
Deus dá ao nosso ato de entregarmos a Ele as nossas primícias,
cuja definição é: “a primeira parte de algo.”
Deus não instituiu as ofertas pelo fato de precisar delas, mas para
provar o nosso coração numa das áreas em que demonstramos um
grande apego. Com a Lei das Primícias não é diferente. Deus não
precisa dos primeiros frutos. Nós é que precisamos d’Ele em
primeiro lugar em nossas vidas, e este é um excelente exercício
para mantermos o nosso coração consciente disto.
Lemos em Êxodo 13.13 que, se o primogênito (considerado o
primeiro fruto do ventre) da jumenta não fosse resgatado, o seu
pescoço deveria ser quebrado. A importância da Lei das Primícias
não estava no que seria feito com a oferta, mas no princípio de ela
não ser utilizada em benefício próprio.
Entregar ao Senhor as primícias da nossa renda é dar-Lhe honra. É
distingui-Lo. É demonstrar o lugar especial que Ele ocupa em
nossas vidas. Deus quer ser o Primeiro em nossas vidas. A rebelião
de Satanás foi a tentativa de usurpação desta posição divina. E
ainda hoje ele tenta tomar o trono de Deus em nossos corações.
Mas devemos manter o Senhor em Seu devido lugar.
A Bíblia está repleta de histórias de pessoas que mantiveram Deus
em primeiro lugar em suas vidas a despeito do preço a ser pago.
Abraão se dispôs a sacrificar o seu próprio filho, mas não se
atreveu a deixar de dar a Deus o primeiro lugar. José foi para a
cadeia para não pecar contra Deus numa relação adúltera.
Sadraque, Mesaque e Abede-Nego foram lançados numa fornalha
por recusarem-se a dar a uma estátua o lugar que pertence só a
Deus. Daniel foi lançado numa cova de leões pela decisão de
manter a Deus em primeiro lugar. Os apóstolos foram presos e
açoitados porque importava antes obedecer a Deus do que aos
homens. Estes são exemplos positivos que nos inspiram a
seguirmos as mesmas pegadas dos que agiram do modo correto,
mas também há os exemplos negativos de pessoas que não
fizeram de Deus o Primeiro em suas vidas, e tornaram-se um
exemplo a não ser seguido.
Além destas figuras e exemplos, temos também o ensino explícito
de Jesus, que não deixa dúvidas sobre a importância do assunto:
“Mas buscai primeiro o Reino de Deus, e a sua justiça, e todas
essas coisas vos serão acrescentadas.” (Mt 6.33)
A Concordância de Strong mostra que a palavra grega traduzida
como “primeiro” neste versículo é “proton” e significa: “Primeiro
em tempo ou lugar, em qualquer sucessão de coisas ou pessoas.
Primeiro em posição, influência, honra; chefe, principal”.
Quando fui batizado no Espírito Santo, a minha vida mudou da água
para o vinho. Cresci num lar cristão e tive o meu encontro com
Cristo muito cedo. Mas foi somente aos quinze anos de idade que
eu conheci a pessoa do Espírito Santo, e a minha vida em Deus
aparentemente começou a desenvolver-se de fato. No fim de
semana em que eu tive esta experiência e disse a Deus que agora
eu O queria em primeiro lugar em minha vida, Ele me pediu que eu
fizesse a minha primeira renúncia: que eu me desfizesse do que eu
mais amava, a minha bike! Nessa época eu passava a maior parte
do meu tempo livre treinando manobras de “freestyle” nesta
bicicleta e não havia nada que eu amasse tanto quanto aquela bike
especialmente montada. As condições financeiras da nossa família
não permitiam que eu tivesse uma bicicleta. A única bicicleta que
eu e os meus irmãos tivemos antes disto foi a que ganhamos de
nossa tia Domingas, a qual, por sua vez, a ganhou numa espécie de
concurso. No entanto, juntei o meu próprio dinheiro, fazendo os
meus “bicos” aqui e acolá, e consegui montar uma das melhores
bicicletas do gênero em meu bairro! Quando o Senhor me pediu
para entregá-la, foi como entregar um Isaque no altar, mas eu o fiz!
Esta foi a forma (que o meu coração entendeu naquela época) de
colocar Deus em primeiro lugar em minha vida.
Quando damos a Deus o primeiro lugar, não nos frustramos. Pelo
contrário, há um sentimento de realização em nosso interior que
testifica que de fato fomos criados justamente para isto. Sem Deus
em primeiro lugar, há um desequilíbrio em nossas vidas. Perdemos
o propósito da nossa existência.
PRIMÍCIAS NO NOVO TESTAMENTO
Alguns crentes têm dificuldades com qualquer menção de
princípios ligados ao Antigo Testamento, e, antes de aceitarem
qualquer doutrina, já começam indagando: “Qual é a base disto no
Novo Testamento?”
Pois bem! Na Igreja Neo-Testamentária não se guardava mais a Lei
de Moisés com o peso das ordenanças que ela tinha no Antigo
Testamento. O Concílio de Jerusalém deixou claro que não havia
encargo algum a ser imposto aos gentios, além daquelas quatro
áreas mencionadas: abstinência da carne sufocada, do sangue, do
sacrifício aos ídolos, e da prostituição.
Isto não quer dizer que, depois do Concílio, a Igreja Gentílica não
precisasse de mais nenhuma instrução ou doutrina. Caso
contrário, o Novo Testamento não teria sido escrito. Aquilo
limitava, naquele momento, a herança mosaica a ser passada aos
gentios. Contudo, posteriormente, ao ensinarem os princípios
divinos à Igreja Neo-Testamentária, os apóstolos ainda
apresentavam figuras poderosas para fortalecerem doutrinas da
Nova Aliança prefiguradas no que se fazia anteriormente nos dias
do Antigo Testamento. Isto não significava que eles estavam
tentando retroceder, e sim que queriam esclarecer as figuras que
Deus havia projetado por intermédio dos princípios praticados na
Antiga Aliança.
“Ora, visto que a lei tem sombra dos bens vindouros, não a imagem
real das coisas, nunca jamais pode tornar perfeitos os ofertantes,
com os mesmos sacrifícios que, ano após ano, perpetuamente,
eles oferecem.” (Hb 10.1 – Tradução Brasileira)
A sombra é diferente do objeto real que a projeta. Assim também, o
que se via nas ordenanças da Antiga Aliança eram características
similares às dos princípios que Deus revelaria nos dias da Nova
Aliança. As observâncias materiais eram figuras das práticas
espirituais.
O cordeiro sacrificado na Lei Mosaica foi apontado como uma
figura (ou sombra) de Jesus, que veio para morrer em nosso lugar
(Jo 1.29). A oferta de incenso do Tabernáculo passou a ser
reconhecida como uma figura da oração dos santos (Ap 5.8). A
Ceia da Páscoa deixou de ser praticada, e esta festa passou a ser
uma aplicação espiritual dos princípios que ela figurava (1 Co
5.7,8). Assim também, outros detalhes da Lei que envolviam
comida, bebida, e dias de festa, começaram a ser vistos, não como
ordenanças materiais pelas quais quem não as praticasse poderia
ser julgado, mas como uma revelação de princípios espirituais,
cabíveis na Nova Aliança:
“Ninguém, portanto, vos julgue pelo comer, nem pelo beber, nem a
respeito de um dia de festa, ou de lua nova ou de sábado, as quais
coisas são sombras das vindouras, mas o corpo é de Cristo.” (Cl
2.16,17)
Foi com esta mentalidade (de se aplicar as sombras e figuras), e
não tentando retroceder a uma prática material da Lei Mosaica,
que o apóstolo Paulo nos revelou a aplicação espiritual da Lei das
Primícias no Novo Testamento:
“Mas se as primícias são santas, também a massa o é; e se a raiz é
santa, também os ramos o são.” (Rm 11.16 – Tradução Brasileira)
Os israelitas receberam do próprio Deus a ordem de consagrarem
a Ele os primeiros frutos do ventre de suas mulheres, do ventre de
seus animais, e também dos frutos da terra. Na hora da colheita, o
primeiro feixe pertencia a Deus e deveria ser apresentado pelo
sacerdote perante o Senhor, numa oferta de movimento. Destes
primeiros frutos, também era feita uma oferta de cereais.
Portanto, Paulo estava ensinando que, ao santificar a primeira
parte (a mais importante), você santifica também o restante, que
vem depois dela. Quando alguém santificava as primícias
(primeiros frutos), santificava também tudo o que depois seria feito
com a colheita, incluindo a massa da oferta de cereais e dos pães
que eles comeriam depois.
Uma outra ilustração também é apresentada para fortalecer o
entendimento deste princípio: se a raiz (que é a parte mais
importante, que surgiu primeiramente na formação da planta) for
santificada, então os ramos e tudo o que surgir dela também serão
santificados. Este era o entendimento que os judeus receberam da
Lei de Moisés. Se santificassem ao Senhor as primícias de sua
renda, estariam santificando o restante da renda que ficava em
suas mãos. Por isso Deus poderia fazer com que se enchessem
fartamente os seus celeiros e transbordassem de vinho os seus
lagares!
Isto não apenas explica o que são as primícias, mas também nos
mostra o poder que elas têm de santificar o restante daquilo de
onde foram tiradas.
AS PRIMÍCIAS NO ANTIGO TESTAMENTO
Deus ordenou ao povo de Israel, de forma clara e explícita, a
entrega das primícias (primeiros frutos) por meio de Moisés:
“As primícias dos primeiros frutos da tua terra trarás à Casa do
Senhor, teu Deus; não cozerás o cabrito no leite de sua mãe.” (Êx
34.26)
A Tradução Brasileira (SBB), ao invés de traduzir “primícias dos
primeiros frutos” neste versículo, optou por “as primeiras das
primícias da tua terra”, pois duas palavras foram usadas
juntamente, com a idéia de “primícias” e “primeiros frutos”.
De acordo com a Concordância de Strong, a primeira palavra usada
no original hebraico é “re’shiyth”, que significa “primeiro, começo,
melhor, principal; princípio; parte principal; parte selecionada”.
A segunda palavra usada no original hebraico é “bikkuwr”, que
significa “primeiros frutos, as primícias da colheita e das frutas
maduras que eram colhidas e oferecidas a Deus de acordo com o
ritual do Pentecostes; o pão feito dos grãos novos de trigo
oferecidos no Pentecostes; o dia das primícias (Pentecostes)”.
Vemos, portanto, que as primícias eram uma ordenança da Lei de
Moisés. Porém, mesmo antes da instituição desta Lei, já
percebemos o Senhor Deus trabalhando nos homens a
compreensão da importância da entrega da oferta de primícias;
vejamos a seguir alguns exemplos.
AS OFERTAS DE CAIM E ABEL
O diferencial encontrado nas ofertas de Caim e Abel está
diretamente ligado à entrega das primícias. Muitas pessoas
acreditam que o erro de Caim foi trazer uma oferta dos frutos da
terra, ao invés de ofertar um cordeiro (uma tipologia do sacrifício
de Cristo), mas eu não penso que este seja o verdadeiro problema.
A Lei das Primícias fazia com que cada um trouxesse os primeiros
frutos do seu trabalho, e a Bíblia nos revela qual era o trabalho de
cada um deles: Abel foi pastor de ovelhas, e Caim, lavrador (Gn
4.2). Logo, as primícias de Caim teriam que ser do fruto da terra!
A Bíblia diz que Deus atentou na oferta de Abel, a oferta correta. E
a primeira menção das primícias nas Escrituras é encontrada
justamente nesta oferta:
“Aconteceu que no fim de uns tempos trouxe Caim do fruto da
terra uma oferta ao Senhor. Abel, por sua vez, trouxe das primícias
do seu rebanho e da gordura deste. Agradou-se o Senhor de Abel e
de sua oferta; ao passo que de Caim e de sua oferta não se
agradou.” (Gn 4.3-5a)
Por outro lado, note quando foi que Caim trouxe a sua oferta ao
Senhor: “no fim de uns tempos”. Independentemente do que sejam
estes tempos a que a Bíblia se refere (tempo de colheita, de
ofertas, etc.), o fato é que Caim não honrou a Deus com os seus
primeiros frutos. A entrega das primícias é uma forma de se
reconhecer a Deus em primeiro lugar. Por outro lado, deixá-Lo para
o fim significa não dar a Ele o primeiro lugar. E o Senhor não
aceitou isto de Caim, assim como Ele não aceita isto de nós hoje.
Se Caim não soubesse a forma correta de se oferecer algo ao
Senhor, ele não poderia ser culpado, mas ele sabia a forma correta
de se ofertar. Vemos isto na conversa que Deus teve com ele,
depois de rejeitar a sua oferta:
“Irou-se, pois, sobremaneira, Caim, e descaiu-lhe o semblante.
Então, lhe disse o Senhor: Por que andas irado, e por que descaiu o
teu semblante? Se procederes bem, não é certo que serás aceito?
Se, todavia, procederes mal, eis que o pecado jaz à porta; o seu
desejo será contra ti, mas a ti cumpre dominá-lo.” (Gn 4.5b-7)
O Senhor falou que Caim sabia que, se ele procedesse bem, seria
aceito, e que se ele procedesse mal, o pecado estaria à sua porta.
Abel procedeu bem, ao fazer de Deus o Primeiro e ao trazer as suas
primícias, enquanto que Caim procedeu mal, ao deixar Deus por
último, para o fim. Mas isto não foi algo que cada um deles
houvesse feito acidentalmente, e sim por conhecerem o que Deus
esperava deles.
SEMENTE DE BÊNÇÃOS
Na verdade, a entrega das primícias é uma semente que dá acesso
às bênçãos de Deus. O Senhor fez uma promessa a Abraão e à sua
descendência. Mas, como Paulo escreveu aos romanos, a forma de
santificarmos o restante de alguma coisa, é santificando ao
Senhor as suas primícias. Portanto, Deus, que Se move por Seus
princípios, pediu a Abraão as primícias de sua descendência:
Isaque. Depois, Ele passou a defender toda a descendência de
Abraão como se todos fossem aquele primogênito entregue. Veja a
mensagem que Deus deu para Moisés entregar ao Faraó egípcio:
“Dirás a Faraó: Assim diz o Senhor: Israel é meu filho, meu
primogênito. Digo-te, pois: deixa ir meu filho, para que me sirva;
mas, se recusares deixá-lo ir, eis que eu matarei teu filho, teu
primogênito.” (Êx 4.22,23)
Deus mandou Moisés dizer que Israel era Seu primogênito (fruto da
consagração das primícias de Abraão), e que, se Faraó não o
libertasse, então os primogênitos do Egito é que sofreriam. E foi o
que aconteceu. Mas, num registro posterior, no Livro de Salmos,
observe como é descrito o juízo divino sobre os primogênitos
egípcios:
“Feriu todos os primogênitos no Egito, primícias da força deles nas
tendas de Cão.” (Sl 78.51 – Tradução Brasileira)
“Também feriu de morte a todos os primogênitos da sua terra, as
primícias do seu vigor.” (Sl 105.36)
Em ambos os casos eles são chamados de “as primícias” dos
egípcios. Isto faz com que entendamos a mensagem de Moisés a
Faraó em Êxodo 4.22,23 da seguinte maneira: “Assim diz o Senhor:
Israel é o Meu primogênito, as primícias consagradas de Meu servo
Abraão. Liberta-o para que Me sirva, senão Eu julgarei os teus
primogênitos, primícias da tua força”.
A prática da Lei das Primícias (ou a falta dela) sempre traz
consequências espirituais. Honrar ao Senhor com a entrega das
primícias traz bênçãos, mas brincar com Deus no tocante a isto
gera juízo!
A COMPRA DOS PRIMOGÊNITOS ISRAELITAS
Deus ordenou aos israelitas a consagração de todos os
primogênitos:
“E disse o Senhor a Moisés: Consagre a mim todos os
primogênitos. O primeiro filho israelita me pertence, não somente
entre os homens, mas também entre os animais.” (Êx 13.1,2 – NVI)
E Ele explicou a razão disto:
“Depois que o Senhor os fizer entrar na terra dos cananeus e
entregá-la a vocês, como jurou a vocês e aos seus antepassados,
separem para o Senhor o primeiro nascido de todo ventre. Todos os
primeiros machos dos seus rebanhos pertencem ao Senhor.
Resgatem com um cordeiro toda primeira cria dos jumentos, mas
se não quiserem resgatá-la, quebrem-lhe o pescoço. Resgatem
também todo primogênito entre os seus filhos. No futuro, quando
os seus filhos lhes perguntarem: Que significa isto?, digam-lhes:
Com mão poderosa o Senhor nos tirou do Egito, da terra da
escravidão. Quando o faraó resistiu e recusou deixar-nos sair, o
Senhor matou todos os primogênitos do Egito, tanto os de homens
como os de animais. Por isso sacrificamos ao Senhor os primeiros
machos de todo ventre e resgatamos os nossos primogênitos.” (Êx
13.11-15 – NVI)
Além de ensinar-lhes um princípio, o Senhor também estava Se
movendo de acordo com um direito legal. Na verdade, quando Deus
protegeu e guardou os primogênitos dos filhos de Israel, Ele os
comprou. Usando a linguagem bíblica, podemos dizer que o Senhor
os resgatou e Se fez Dono deles. Daí em diante, todo primogênito
era d’Ele, e a consagração ao Senhor era o meio de se reconhecer
isto.
Para poder ficar com os seus filhos, os pais deveriam resgatá-los
por meio de ofertas. Mas, ao consagrarem o primogênito, estavam
santificando a Deus o restante de sua descendência.
CONSEQUÊNCIAS ESPIRITUAIS
O melhor ensino que já encontrei sobre a questão das primícias foi
no livro “Quando Deus é Primeiro” (editado em português pela
Willën Books) do pastor Mike Hayes. A sua leitura ampliou o meu
horizonte acerca das primícias, e eu o recomendo de coração. Ele
me abriu os olhos para o que foi de fato o pecado cometido por Acã
em Jericó.
Jericó era a primeira cidade a ser conquistada em Canaã.
Portanto, de acordo com a Lei das Primícias, o despojo de guerra
não era deles, e sim do Senhor:
“Tão-somente guardai-vos das coisas condenadas, para que, tendo-
as vós condenado, não as tomeis; e assim torneis maldito o arraial
de Israel e o confundais. Porém toda prata, e ouro, e utensílios de
bronze e de ferro são consagrados ao Senhor; irão para o seu
tesouro.” (Js 6.18,19)
Os israelitas estavam proibidos de se apropriarem de qualquer
coisa em Jericó. Os tesouros deveriam ir para o Templo, e as
demais coisas (chamadas de coisas condenadas) deveriam ser
destruídas.
A Concordância de Strong mostra que a palavra hebraica traduzida
aqui como “condenadas” é “cherem”, que significa: “uma coisa
devotada, uma coisa dedicada, proibição, devoção, algo que foi
completamente destruído ou designado para destruição total”. Ela
tem como raiz a palavra hebraica “charam”, que por sua vez quer
dizer: “consagrar, devotar, dedicar para destruição”.
Algumas traduções bíblicas, como a Versão Corrigida de Almeida,
traduzem esta palavra como “anátema”, dando a entender que a
razão pela qual os bens de Jericó não poderiam ser possuídos era
o fato de serem amaldiçoados. A definição bíblica, no entanto, era
a de algo consagrado à destruição. Isto poderia trazer maldição,
pela quebra de um princípio, mas não era uma coisa maldita em si
mesma. Assim como o primogênito da jumenta, que não podia ser
sacrificado e tinha que ser resgatado ou desnucado, assim
também Deus especificou o que Ele queria que fosse dedicado a
Ele e o que Ele queria que fosse destruído. O importante não era a
descoberta de um uso para aquelas coisas, e sim não tocar no que
era sagrado: as primícias do Senhor. E o exército de Israel
obedeceu a ordem que lhes foi dada:
“Porém a cidade e tudo quanto havia nela, queimaram-no; tão-
somente a prata, o ouro e os utensílios de bronze e de ferro deram
para o tesouro da Casa do Senhor.” (Js 6.24)
Um soldado, no entanto, desobedeceu a ordem que o Senhor havia
dado:
“Prevaricaram os filhos de Israel nas coisas condenadas; porque
Acã, filho de Carmi, filho de Zabdi, filho de Zera, da tribo de Judá,
tomou das coisas condenadas. A ira do Senhor se acendeu contra
os filhos de Israel.” (Js 7.1)
A consequência da quebra deste princípio foi que a bênção para as
demais conquistas foi retirada de sobre Israel. Eles foram
derrotados na próxima batalha, que exigia muito pouco deles, pois
a Lei das Primícias não havia sido obedecida.
Quando santificamos as primícias de alguma coisa ao Senhor,
também santificamos o restante daquilo de que foi tirada.
Portanto, inversamente, quando roubamos a Deus nos primeiros
frutos, também perdemos a Sua bênção no restante!
Este princípio funciona em todas as áreas. Ao separarmos um
tempo pela manhã para buscarmos a Deus e oferecermos em
nosso devocional as primícias do nosso dia, também estamos
santificando o seu restante ao Senhor. Quando separamos as
primícias da nossa renda, também estamos santificando o restante
da nossa renda a Deus!
O PRIMEIRO DIA
“Disse mais Jeová a Moisés: Fala aos filhos de Israel, e dize-lhes:
Quando entrardes na terra que eu vos hei de dar, e comerdes as
suas searas, trareis ao sacerdote um molho das primícias da vossa
seara. Ele moverá o molho diante de Jeová, para que seja aceito a
vosso favor; no dia depois do sábado o moverá.” (Lv 23.9-11 –
Tradução Brasileira)
A entrega do molho das primícias ao sacerdote tinha um dia certo
para ser feita. A Tradução Brasileira diz: “no dia depois do sábado”.
A Versão Atualizada de Almeida usa o termo “no dia imediato ao
sábado”, e a Versão Corrigida de Almeida diz: “ao seguinte dia do
sábado”.
Todas estas frases são claras e apontam para um dia certo: o
domingo. Não creio que este princípio santifique o domingo, como
o fazia com o sábado no Antigo Testamento, mas ele revela que a
entrega dos primeiros frutos deve ser feita no primeiro dia da
semana.
Por que é importante observarmos isto? Porque temos que
dimensionar qual é a aplicação prática da simbologia deste
princípio hoje. E, referindo-se à simbologia da Lei das Primícias, o
apóstolo Paulo declara aos coríntios um fato importante acerca da
ressurreição de Jesus:
“Mas, de fato, Cristo ressuscitou dentre os mortos, sendo ele as
primícias dos que dormem.” (1 Co 15.20)
A ressurreição de Jesus Cristo é vista como um cumprimento da
tipologia das primícias, e aconteceu no dia depois do sábado (Mt
28.1).
Porém, cinquenta dias depois desta oferta de primícias, era
necessário que uma nova celebração fosse feita ao Senhor, a qual
também caía num domingo, depois de sete sábados da entrega da
primeira oferta de primícias.
“Depois, para vós contareis desde o dia seguinte ao sábado, desde
o dia em que trouxerdes o molho da oferta movida; sete semanas
inteiras serão. Até ao dia seguinte ao sétimo sábado, contareis
cinquenta dias; então, oferecereis nova oferta de manjares ao
Senhor.” (Lv 23.15,16 – ARC)
Este era o significado da Festa de “Pentecostes” (que significa
“cinquenta”), a qual era celebrada cinquenta dias depois da
entrega dos primeiros frutos. Esta festa, mesmo sendo celebrada
depois de sete semanas, ainda era uma extensão da festa das
primícias (Lv 23.17). E isto também aparece no cumprimento da
tipologia do Antigo Testamento no Novo Testamento:
“Ao cumprir-se o dia de Pentecostes, estavam todos reunidos no
mesmo lugar; de repente, veio do céu um som, como de um vento
impetuoso, e encheu toda a casa onde estavam assentados. E
apareceram, distribuídas entre eles, línguas, como de fogo, e
pousou uma sobre cada um deles. Todos ficaram cheios do Espírito
Santo e passaram a falar em outras línguas, segundo o Espírito
lhes concedia que falassem.” (At 2.1-4)
A Igreja recebeu o selo da aprovação divina numa festa que era
uma extensão da celebração das primícias. Esta é a razão pela
qual também passamos a ser chamados de primícias para o
Senhor.
“Pois, segundo o seu querer, ele nos gerou pela palavra da verdade,
para que fôssemos como que primícias das suas criaturas.” (Tg
1.18)
Portanto, a aplicação da Lei das Primícias não é somente
financeira, ou literal, mas também simbólica, pois somos
chamados de “primícias”.
E qual é a relação que o Novo Testamento faz entre as nossas
contribuições e esta figura?
Paulo escreveu aos coríntios, fazendo uma destas aplicações
simbólicas quanto às ofertas:
“Quanto à coleta para os santos, fazei vós também como ordenei
às igrejas da Galácia. No primeiro dia da semana, cada um de vós
ponha de parte, em casa, conforme a sua prosperidade, e vá
juntando, para que se não façam coletas quando eu for.” (1 Co
16.1,2)
A orientação apostólica do dia específico para esta contribuição
continua sendo o dia seguinte ao sábado: o domingo. Parece-me
que a idéia das primícias abordada no Novo Testamento não se
prende tanto ao fato de ser o ganho do primeiro dia ou o primeiro
décimo da renda que está sendo entregue. O que precisa ser
destacado é que eles separavam a parte de Deus no primeiro dia
da semana. Ou seja, eles a entregavam em caráter de primazia.
O que aprendemos com isto é que não importa tanto se é o ganho
do primeiro dia dado à parte, ou se são os dízimos e ofertas
entregues em caráter de primazia. O mais importante é darmos
primeiro a parte de Deus, antes de gastarmos com as outras
coisas. Ao falar sobre a entrega das primícias, o Senhor instruiu
claramente aos israelitas:
“Não comereis pão, nem trigo torrado, nem espigas verdes, até ao
dia em que trouxerdes a oferta ao vosso Deus; é estatuto perpétuo
por vossas gerações, em todas as vossas moradas.” (Lv 23.14)
Ninguém comia do fruto do seu trabalho antes de entregar os
primeiros frutos ao Senhor. Creio que os dízimos e as ofertas
devem ser o item “número um” no plano de contas do nosso
orçamento. Além de ser dados primeiro, eles devem refletir o fato
de que Deus vem em primeiro lugar. Este é o ponto mais
importante. Por outro lado, ofertar o ganho do primeiro dia do mês
também pode ser uma forma de se observar esta lei bíblica.
Quando honramos ao Senhor com as primícias da nossa renda, Ele
também nos honra em nossas finanças. Por outro lado, quando
pensamos somente em nós mesmos, e não nos preocupamos com
as coisas do Senhor, também ferimos a Sua primazia e perdemos
as Suas bênçãos.
É o que ocorreu nos dias de Ageu, quando ele profetizou que o povo
israelita só se preocupava com as suas casas, enquanto a Casa do
Senhor estava em ruínas. E justamente por colocarem-se a si
mesmos em primeiro lugar e deixarem a Deus por último é que eles
perderam as bênçãos divinas.
COMO ENTREGAR AS PRIMÍCIAS HOJE
O assunto das primícias tem sido resgatado e restaurado
recentemente (apesar de ser encontrado na “Didaquê” – um dos
documentos mais antigos da História da Igreja, uma espécie de
catecismo da Igreja do Primeiro Século). Eu mesmo nunca havia
sido exposto a nenhum ensino sobre o assunto até alguns anos
atrás, apesar de eu haver sido criado num lar cristão. Portanto,
creio que ainda precisamos amadurecer na compreensão e
aplicação prática deste princípio. Em função disto, eu gostaria de
apresentar alguns conselhos (e não dogmas) sobre como podemos
proceder para honrarmos ao Senhor com as primícias da nossa
renda.
Alguns pregadores fazem uma distinção entre as primícias e os
dízimos (e de fato era assim no Antigo Testamento) e ensinam o
cristão a, além de entregar os seus dízimos, a também doar o
equivalente ao ganho do seu primeiro dia de trabalho do mês. Uma
vez que vivemos numa cultura de trabalho diferente, onde a
maioria das pessoas não extrai os frutos da terra ou do gado para
separar as primícias, como era feito na Antiga Aliança, estes
pregadores nos aconselham a dividirmos o salário (que é um ganho
mensal) em 1/30 avos, e entregarmos o ganho equivalente ao
primeiro dia de trabalho do mês. Esta, acreditam eles, seria a
forma contemporânea de se praticar este princípio.
Outros pregadores ensinam a prática das primícias na própria
entrega dos dízimos e ofertas. Eles acreditam que os dízimos (e
ofertas) devem ser entregues em caráter de primazia, ou seja,
como sendo os primeiros frutos. A primazia, segundo estes
pregadores, é determinada pelo fato de não gastarmos nada antes
de dizimarmos.
Embora eu tenha sido ensinado desde criança que a oferta das
primícias significa darmos a primazia a Deus na entrega dos
dízimos e ofertas (como sendo os primeiros frutos porque os
entregamos antes de gastarmos com outras coisas), e embora eu
ainda veja muitas pessoas sendo abençoadas ao caminharem de
acordo com este nível de entendimento, penso que podemos ir
além e fazer algo mais na prática desta poderosa lei bíblica.
À luz do ensino do Novo Testamento, não consigo (nem ouso)
afirmar que a entrega das primícias tenha que ser,
necessariamente, uma contribuição a mais, além dos dízimos e
demais ofertas. E eu não quero afirmar, em hipótese alguma, que a
visão de contribuirmos, dando a Deus a primazia, não cumpra a Lei
das Primícias. Por outro lado, não vejo nada nas Escrituras que nos
impeça de agirmos assim. Não há nenhum princípio bíblico que
venha a ser quebrado se assim procedermos! Portanto, com a
devida consciência do ensino bíblico que diz: “A fé que tens, tem-
na para ti mesmo perante Deus” (Rm 14.22), e sem impor isto como
um mandamento ou obrigação sobre outros, pergunto:
Por que não entregarmos as nossas primícias como mais uma
forma distinta de contribuição?
No Antigo Testamento, os dízimos e as primícias eram duas
contribuições bem distintas e complementares. Os cristãos do
Primeiro Século, segundo a Didaquê, entregavam as suas ofertas
de primícias (normalmente aos profetas ou líderes cristãos),
embora estivessem vivendo sob a Nova Aliança. Os sacerdotes da
Antiga Aliança eram sustentados pelos dízimos, porém eram
honrados com as primícias. O Novo Testamento fala deste sustento
dos ministros por meio de salários (2 Co 11.8; 1 Tm 5.17), mas nos
instrui a procedermos com outras formas de honra aos que nos
ministram a Palavra de Deus (Gl 6.6).
O fato de não podermos impor a oferta de primícias não significa
que não podemos praticar este princípio! Em nossa igreja local,
não ensinamos isto como uma imposição a ninguém, mas eu
mesmo pratico este princípio e dou total liberdade (e incentivo) a
quem quiser praticá-lo também. Contudo, uma vez que não vivemos
nos dias da Antiga Aliança e não temos que seguir literalmente a
Lei Mosaica, como aplicamos hoje a entrega das primícias?
No Antigo Testamento, as primícias envolviam a entrega dos
primeiros frutos da colheita (que ocorria num intervalo de alguns
meses), dos primogênitos dos animais (que ocorria uma vez na
vida de cada animal), e dos primogênitos dos homens (que
deveriam ser resgatados). Isto não significava uma contribuição
substancial, a ponto de se garantir a sobrevivência dos sacerdotes,
mas era apenas mais uma expressão de honra que Deus permitiu
que Lhe oferecêssemos. E é com este entendimento que
praticamos a entrega das primícias.
O PRIMEIRO DIA DE SALÁRIO
A nossa cultura atual, como já afirmamos, já não tem muito a ver
com o cultivo da terra e com animais, como nos dias antigos.
Porém, uma vez que fazemos parte de uma geração de cultura
mensalista em seus recebimentos salariais, vários pregadores nos
aconselham a ofertarmos como primícias o equivalente ao
primeiro dia de trabalho do mês (dividindo-se o nosso salário por
trinta e entregando-o como primícias). No entanto, é aqui que
surge uma divergência entre alguns doutrinadores. Esta
divergência advém principalmente do fato de que, excetuando-se o
trabalhador assalariado (que sabe antecipadamente o quanto
ganhará), a maioria dos profissionais liberais, autônomos,
comerciantes, vendedores e muitos outros trabalhadores sem
salário fixo, precisa primeiramente fechar um balanço (semanal ou
mensal) para saber o quanto ganhou, e somente então apurar o
valor das primícias e dos dízimos a ser entregue. Isto significaria
uma oferta feita na parte final do processo, e não mais com o
caráter de primazia!
Como, antigamente, ninguém poderia comer dos grãos da colheita
antes da entrega da oferta de primícias (Lv 23.14), aconselhamos,
no caso dos trabalhadores que não têm renda fixa, a entrega do
primeiro ganho do mês (o lucro da primeira comissão, por
exemplo). Neste caso, a entrega do valor referente ao ganho real
do primeiro dia de trabalho poderia ser feita antes de se apurar o
balanço final de ganhos (e de se comer dos frutos do trabalho).
Quanto aos dízimos, eles poderiam ser entregues depois desta
apuração de lucros.
ONDE DEVEMOS ENTREGAR NOSSAS PRIMÍCIAS?
Muitos me perguntam onde eles deveriam entregar as suas ofertas
de primícias. Sugiro que o façam no mesmo local onde entregam
os seus dízimos: na igreja local onde se congregam. Alguns dizem
que as primícias devem ser entregues ao sacerdote. Isto era um
fato na Antiga Aliança, mas, naquela época, os sacerdotes também
recebiam diretamente para si os dízimos, porém isto não ocorre no
Novo Testamento! Portanto, prefiro ser honesto e não “enlatar” a
doutrina sem uma clareza bíblica. Não vejo uma base bíblica para
dizermos que as primícias só podem ser entregues aos sacerdotes
(os ministros). Por outro lado, também não vejo problema algum se
isto for feito desta forma, uma vez que a Bíblia ensina este tipo de
honra (embora sem necessariamente relacioná-lo com as
primícias). Eu só não quero criar regras que não são claras no
Novo Testamento.
Em nossa igreja local, as ofertas de primícias (que são assim
identificadas no envelope de contribuição) são direcionadas a um
fundo sacerdotal e visam tão-somente o apoio de ministérios em
suas necessidades (tanto os de dentro como os de fora da igreja).
No entanto, o ideal é que cada igreja, através da sua liderança e
governo, decida qual é a melhor forma de se receber esta
contribuição, como também a sua melhor aplicação!
(extraído do livro “Uma Questão de Honra”)
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Autor: Luciano P. Subirá. É o responsável pelo Orvalho.Com – um
ministério de ensino bíblico ao Corpo de Cristo. Também é pastor
da Comunidade Alcance em Curitiba/PR. Casado com Kelly, é pai
de dois filhos: Israel e Lissa.