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Populações Meridionais do Brasil

Vianna, Oliveira, 1883-1951.


Populações Meridionais do Brasil - Populações Rurais do Centro-Sul (Volume I) e O Campeador Rio-Grandense
(Volume II); Belo Horizonte: Itatiaia; 1987. Niterói: Editora da Universidade Federal Fluminense; 1987.

Alunos: Marina Guimarães Silva Bitencourt


Rômulo Evangelista Santana
Paula Simões Marra
Tatyhana Cristina Rodrigues Santos

SOBRE O AUTOR:
Jurista, professor, etnólogo, historiador e sociólogo brasileiro nascido em Rio Seco de
Saquarema, estado do Rio de Janeiro, cuja obra sociológica caracteriza-se por subestimar a
presença do negro na formação social brasileira. Filho de Francisco José de Oliveira Viana e
de Balbina Rosa de Azeredo Viana, de tradicionais famílias fluminenses, estudou no colégio
Carlos Alberto, em Niterói, e diplomou-se pela Faculdade Livre de Direito do Rio de Janeiro
(1906). Em seguida foi nomeado professor de Direito Criminal da Faculdade de Direito do
Estado do Rio de Janeiro, em Niterói, onde se tornou professor titular (1916).
Foi, sucessivamente, diretor do Instituto do Fomento do Estado do Rio de Janeiro
(1926); membro do Conselho Consultivo do Estado, consultor jurídico do Ministério do
Trabalho, Indústria e Comércio (1932-1940); membro da Comissão Especial de Revisão da
Constituição (1933-1934); membro da Comissão Revisora das Leis do Ministério da Justiça e
Negócios Interiores e, finalmente, nomeado para ministro do Tribunal de Contas da República
(1940). Eleito em 27 de maio (1937) para a Cadeira n° 8 da Academia Brasileira de Letras,
sucedendo a Alberto de Oliveira, foi recebido em 20 de julho (1940) pelo acadêmico Afonso
Taunay. Faleceu em Niterói, Estado do Rio de Janeiro, em 28 de março (1951), deixando uma
vasta obra escrita.
Entre seus principais livros figuraram O Idealismo na Constituição (1920), obra de
caráter reformista, contra o sufrágio universal e o princípio federativo; Populações Meridionais
do Brasil (1922), resultado de longos anos de estudos e pesquisas sobre as questões da
formação brasileira; Raça e Assimilação (1932), um tratado antropológico de imensa
repercussão e que causou longas e eruditas polêmicas, porque, defendia – principalmente – a
necessidade do caldeamento da raça negra, que julgava indispensável à integração do negro
na sociedade universal, e Instituições Políticas Brasileiras (1955), posteriormente publicado.

Fonte: http://www.interpretesdobrasil.org/sitePage/61.av
FICHAMENTO:
O livro Populações Meridionais do Brasil retrata o inicio do desenvolvimento do país a
partir da chegada da realeza de Portugal, a ocupação de terra, a formação de suas oligarquias
e, por fim, a relação dessa população com D. Pedro.
O autor começa o livro apresentando os dois centros que prevalecia no país
(Pernambuco e São Paulo), descrevendo o poder aquisitivo da população da época e seus
costumes muito arraigados a sua origem européia. É exposto, também, que apesar dos
pequenos centros urbanos, a economia e a vida cotidiana se passam pela zona rural. Um
senhor de terra é medido não só pelos seus hectares, mas também pelo seu cultivo, números
de escravos e modos europeus que ainda tentavam-se empregar.
Até o século XIV, pode-se dizer que a população brasileira em sua maioria
concentrava-se na zona rural, demonstrando que ser dono de áreas rurais não é mais um exílio
dos portugueses no Brasil, mas sim a detenção de status.
Passado algum tempo os centros do país passam a ser São Paulo, Minas Gerais e Rio
de Janeiro, formando populações bem heterogêneas, com culturas e costumes ligados aos
seus predecessores. Os níveis hierárquicos vão dos senhores de engenho a burgueses
mercadores, uns ligados diretamente a coroa, o que lhes rendia melhores benefícios.
Explicando como se formou as etnologias das classes rurais, o autor explica que com a
fixação dos colonos e consequentemente ocasionando uma maior interação entre brancos,
negros e índios; originou-se uma população de mestiços onde, de todos os cruzamentos, os de
ascendência negra eram os menos respeitados por adquirir traços da raça dominante que para
a antropologia pregada na época eram tendênciados a herdarem os vícios e não as
qualidades. Os cruzados de índio ainda conseguiam algum cargo se a genética os favorecesse
com a fisionomia dos brancos. Essas interações raciais resultariam numa maior mistura étnica
onde os únicos beneficiados seriam aqueles que se assemelhassem ao padrão europeu.
Sobre a função política da coroa, é necessário explicar que após a volta de D. João a
Portugal e a ascensão ao trono de D. Pedro, o poder será direcionado ao Rio de Janeiro,
contudo, com as oligarquias em sua independência, não seria aceito tão facilmente esse poder.
Prevendo uma forma de diminuir essa arbitrariedade, D. Pedro usará de sua inteligência e
conhecimento prévio e será considerado como um homem justo, diplomático, moderado,
trazendo tranquilidade e ordem.
Por fim, para entender a psicologia das revoluções é imprescindível saber que devido à
facilidade geográfica em que a maioria do país se encontrava o povo nunca precisou de uma
união coletiva, apenas o extremo-sul necessitou brigar por suas terras, mas sempre teve o
apoio dos poderes públicos. Entretanto essa necessidade fez surgir nos gaúchos o sentimento
de solidariedade, que nas demais regiões só eram perceptíveis nos clãs parentais.
Dando continuação ao volume I, o autor descreve neste volume as evoluções dos
gaúchos de agricultores a pastores, seu sentimento nacionalista provindo das guerras e sua
relação de respeito com as autoridades.
A descrição começa com a vinda dos paulistas para ocupar o centro e o sul do país; já
nessa época o pastoreio é considerado a principal atividade em função das planícies, tipos de
vegetação, dos campos férteis e por ser considerada a forma de trabalho mais aspirada por
proporcionar uma melhor qualidade de vida se comparada à agricultura. Desde a época da
mineração essa atividade estava vigente, havia os fornecedores de boi para a alimentação,
vindo dos pampas; e o fornecimento de transporte, cavalos e burros, vindos de São Francisco.
As guerras foram propiciadas ao fazer a partilha das planícies do sul, onde, os
espanhóis ficaram com a área menos fértil e mais árida da região que ocasionou
descontentamento, o que levou ao longo dos anos a briga pela posse da Cisplatina, local que
propiciava ao país um comércio favorável, cavalos e bois, agricultura especializada e áreas de
mineração.
Por terem passado por longas guerras, diferentemente do restante do país, os gaúchos
possuem uma visão diferente da vida pública e da mentalidade cívica. As guerras acabaram
desenvolvendo o sentimento de solidariedade entre a vida social e poderes políticos. O
sentimento dessa população com o governo, não é o de temor e obrigatoriedade como
aconteceu em Minas, São Paulo e Fluminense, mas sim de respeito e honra.
Outra particularidade do povo gaúcho era o uso equestre nas guerras e milícias, por
alegação de terem se acostumado desde novos a montá-los, sendo assim mais eficazes na
batalha. Era e ainda é um relacionamento de confiança entre cavalo e cavaleiro.
COMENTÁRIO:
Ambos o volumes I e II – Populações Meridionais do Brasil – descrevem
minuciosamente a formação da população brasileira, acarretada de uma herança europeia,
uma vida rural, misturas étnicas e, por fim, a liderança de um monarca. Entretanto o volume II é
especificamente para se tratar do Campeador Rio-Grandense, essa separação torna-se
consistente, pois é um povo que difere em sua colonização quando comparado ao restante do
país que teve uma ocupação relativamente pacífica, sem conflitos e considerada, em alguns
pontos, anárquica.
Os gaúchos tiveram que lutar por suas terras de maneira incansável durante anos,
ressaltando o sentimento, que ainda hoje não é perceptível na nação, o patriotismo. Esse
sentimento despertou na população gaúcha uma maior compreensão política e um maior
engajamento em executar a mesma.
As três maiores oligarquias, Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro, tiveram apenas
conflitos internos e obtinham uma melhor localização geográfica que os protegiam de
quaisquer investidas estrangeiras, assim acabaram se acomodando a não precisar do governo,
o que muda seu tratamento com relação ao conceito de nação.
Sendo assim, é pertinente uma apreciação em separado do Campeador, para analisar
diferenças que ainda hoje se encontram presentes quando se compara as três importantes
metrópoles do Brasil com a Região Sul, em relação à organização de cidade e governo.
CITAÇÕES:

VOLUME I
“... dois centros mais vivazes: Pernambuco e São Paulo. Dir-se-ia um recanto de corte européia
transplantada para o meio da selvageria americana.” p.23.

“Nas fazendas do interior pernambucano [...] encontra Cardim igual opulência e iguais
larguezas. Os senhores delas lhe fazem grandes honras e agasalhados, mas, com tão grandes
gastos, que ele confessa não poder descrever.” p.24

“Pela elevação dos sentimentos, pela hombridade, pela altivez, pela dignidade, mesmo pelo
fausto e fortuna que ostentam esses aristocratas, paulistas ou pernambucanos, mostram-se
muito superiores à nobreza da própria metrópole.” p.26.

“Em Pernambuco, igualmente no dizer de Domingos Loretto, a nobreza local é ‘inumerável e


ilustre, como procedida de nobilíssimas casas de Portugal, Castela, França, Itália e
Alemanha’.” p.27.

“Esses hábitos mundanos e sociais representam, porém, exclusivamente, modos de viver só


compatíveis com uma existência palaciana, com uma vida de corte – em suma, com uma
aristocracia essencialmente urbana. É completa a contradição deles com essa rusticidade...”
p.28.

“Daí esse conflito interessantíssimo, durante todo o período colonial [...] entre a velha tendência
europeia, de caráter visivelmente centrípeto, e a nova tendência americana, de caráter
visivelmente centrífugo.” p.28.

“O que nos primeiros séculos era aceito somente pela pressão invencível das circunstâncias,
passa neste século a ser querido, procurado, estimado, como fonte de prazer e encanto.” p.34.

“Daí o traço fundamental da nossa psicologia nacional. Isto é, pelos costumes, pelas maneiras,
em suma, pela feição mais intima do seu caráter, o brasileiro é sempre, sempre se revela,
sempre se afirma um homem do campo, á maneira antiga.” p.36.

“Realmente, de Minas, de São Paulo, dos interiores fluminenses, o nosso luzido patriciado rural
inicia, desde essa época, o seu movimento de descida para o centro carioca, onde está a
cabeça do novo império.” p.39.

“... de um lado, uma burguesia recém-nada, formada de comerciantes enriquecidos com a


intensificação comercial, derivante da Lei de abertura dos portos; de outro, uma multidão
aristocrática de fidalgos lusitanos, que viera juntamente com o Rei, acompanhando-o, em
cauda, na fuga precipitada.” p.40.
“Em concorrência com ela e em busca também de dignidades e nobreza, procura igualmente
acercar-se do trono uma outra classe, tão poderosa quanto à nobreza rural pela riqueza. [...] É
aquela burguesia de ricos comerciantes, que a Lei de abertura dos portos criara com os altos
lucros do comercio estrangeiro, e que se superpusera, a maneira de uma eflorescência, á
massa numerosa e anônima de primitivos peões – casta, como sabemos, de pouca cotação na
sociedade colonial.” p.41.

“Quatro anos mais, e já o elemento nacional está senhor inteiramente do Paço. O elemento
português, aquele núcleo de nobres emigrados, que cercava D. João VI, e que este deixara
junto do Príncipe, desaparece pouco a pouco, da corte, durante a regência de D. Pedro. Este
vê afastarem-se de si e retomarem, um a um, o caminho de Lisboa.” p.44.

“Essa preponderância da vida de família influi consideravelmente sobre o caráter e a


mentalidade da nobreza rural: torna-se uma classe fundamentalmente doméstica. Domestica
pelo temperamento e pela moralidade. Doméstica pelos hábitos e pelas tendências.” p.49.

“Esse patriarcado rural, com caráter assim provido da medula cavalheiresca, oferece –
conforme o observamos nos seus três centros formadores: Em Minas, em São Paulo, ou rio de
Janeiro – uma certa diversidade de temperamento político.” p.55.

“Os paulistas conservam, persistentes, os antigos pundonores aristocráticos, de que fazem


tamanhos timbre os seus antepassados do período colonial.” p.55.

“Em Minas, ao contrário, a nobreza local se mostra desprendida desses preconceitos. Os


elementos que formam ali a base histórica da população não são fidalgos de raça, mas sadios
e fortes campônios.” p.55.

“Essa sociedade em formação, dispersa, incoerente, revolta, gira realmente em torno do


domínio rural. O domínio rural é o centro de gravitação do mundo colonial. [...] Dele é que parte
a determinação dos valores sociais. Nele é que se traçam as esferas de influência.” p.58.

“Em dois séculos, os paulistas dispersaram-se por quase todo o Brasil. É simplesmente
maravilhosa a amplitude das suas zonas de fixação.” p.89.

“Quando duas raças se misturam, os seus mestiços ficam sujeitos a certos golpes de atavismo
que os podem fazer retornarem, no fim de algumas gerações, a um dos tipos étnicos
geradores.” p.103.
“Os mestiços de branco e negro, os mulatos idiossincrásicos, tendem, segundo essa lei, na sua
descendência, a voltar ao tipo inferior, aproximando-se dele mais e mais pela índole e pelo
físico.” p.103.

“... porque também é lei antropológica que os mestiços herdem com mais frequência os vícios
que as qualidades dos seus ancestrais.” p.104.

“Os cruzados de índio e branco parecem, pelo menos no físico, superiores aos mulatos: são
mais rijos e sólidos.” p.104.

“Na sociedade colonial, o desejo de enriquecer, de ascender, de melhorar, de gozar os finos


prazeres da civilização só pode realmente existir no homem de raça branca. O negro, o índio,
os mestiços de um e outro esses, na sua generalidade, não sentem senão excepcionalmente,
nos seus exemplares.” p.105.

“Essa admirável independência econômica dos senhorios fazendeiros exerce uma ação
poderosamente simplificadora sobre toda a estrutura das nossas populações rurais.” p.117.

“O espírito de clã torna-se assim um dos atributos mais característicos das nossas classes
populares, principalmente da classe inferior dos campos. O nosso homem do povo, o nosso
campônio é essencialmente o homem de clã, o homem da caravana, o homem que procura um
chefe, e sofre sempre com uma que vaga angustia secreta todas as vezes que, por falta de um
condutor ou de um guia, tem necessidade de agir por si, autonomicamente.” p.147.

“No reino animal, as espécies que têm um grande número de inimigos, são as mais solidárias.
Os tigres e os leões, que pela sua força, são os reis da criação, vivem solitários e não
conhecem o gregarismo das manadas.” p.152.

“Para fazermos um cálculo aproximado da força de que esses caudilhos dispõem, é necessário
considerarmos a maravilhosa capacidade de organização militar por eles revelada na formação
dos seus clãs guerreiros.” p.171.

“Nós ao contrário, fizemos a nossa dilatação territorial como que por jatos bruscamente, de um
modo febril, intermitente, descontinuo.” p.179.

“É nesse período da história nacional que a autoridade pública se revela na sua pela eficiência:
acatada, considerada, obedecida, cheia de prestígio e ascendência.” p.196.

“O grande domínio agrícola só e grande na sua unidade; dividido, desaparece.” p.203.

“Por fim, essa desclassificação econômica reage sobre um outro aspecto da sua temibilidade: a
solidariedade parental.” p.204.
“Dos meados do IV século em diante, com efeito, todo o país está, não apenas politicamente,
mas moralmente unido sob um poder único: o poder localizado no Rio, sede do Império.” p.206

“Na verdade, quando a polícia recolonizadora da metrópole tenta submeter às províncias ao


governo direto de Lisboa, nem todas elas se põem lisamente e francamente ao lado do
príncipe.” p.207.

“Essa política de desintegrações sistemáticas das oligarquias centrais, sempre em processo


de revivência incessante, explicam a predileção de D. Pedro pelos Políticos extremamente
reverenciais do trono, uns por aulicismo, outros por um íntimo sentimento patriótico”. p.216.

“D. Pedro nos dá meio século de progresso moderado, disciplinado, sadio. Meio século de paz,
de tranquilidade, de ordem. Meio século de legalidade, justiça, de moralidade.” p.217.

“Os núcleos comunais americanos ou ingleses, que servem de modelo á nossa organização
municipal, têm a sua origem e fundamento numa democracia de pequenos domínios, o que dá
á sua população uma densidade de todo desconhecida nos nossos grupos locais.” p.219.

“... são, entre nós, ou meras entidades artificiais e exógenas, ou simples aspirações
doutrinárias, sem realidade efetiva na psicologia subconsciente do povo.” p.233.

“Pela fatalidade da sua posição geográfica, as populações pastorais, que constituem o grupo
extremo-sul, estão expostas a eventualidade das invasões estrangeiras.” p.234.

“Nessa batalha secular pela existência e pela integridade territorial, os gaúchos não agem,
porem, nunca sós; encontram sempre o auxílio pronto, constante, infalível, eficaz dos poderes
públicos, quer gerais, quer locais.” p.235.

“O crescer da necessidade de defesa coletiva com o crescimento da própria coletividade – eis


a lei da evolução social do extremo-sul. No centro-sul ao invés disso, é a desnecessidade da
defesa externa que se acentua, á medida que a expansão social de intensifica e progride.”
p.237.

“Neste ponto, somos um povo dos mais primorosamente dotados do mundo. O que nos falta
em capacidades políticas nos sobeja em riqueza de atributos morais inestimáveis. Estes é que
corrigem, atenuam ou mesmo reduzem os inconvenientes e malefícios que nos deveria trazer a
carência daquelas.” p.258.

“Para os que, como nós não conheceram os horrores da anarquia americana, não é fácil
imaginar o formidável e titânico dessa luta épica entre esses possantes construtores de nações
e o poder dos grandes caudilhos.” p.279.
VOLUME II
“Irradiando-se dos seus quatro centros principais de dispersão: São Vicente, Itu, Sorocaba e
Taubaté, os bandeirantes paulistas, durante o correr do II e III séculos, expandem-se por todo o
centro e sul do Brasil.” p.15.

“Muito antes de atingirem as campanhas férteis do extremo-sul, já os bandeirantes paulistas,


excluindo as hordas de préia ao índio e os bandos de caçadores de ouro, praticam o pastoreio
como forma principal da sua atividade.” p.16.

“Nessa marcha admirável para o sul dos clãs bandeirantes, é preciso destacar o que se pode
chamar o ‘sentido do oeste’, isto é, a tendência, que tem todas as correntes do sul – mesmo a
do litoral - de se orientarem como que magneticamente para o ocidente – no sentido dos vales
do Paraná e Uruguai, em toda a enorme extensão do seu percurso.” p.30.

“... o objetivo que impele as correntes do litoral e da linha Lajes - Viamão para a Planície
Platina: a utilização dos campos férteis, que formam a chamada região missioneira.” p.31.

“O que mostra que todos esses primitivos colonizadores, vindos de São Paulo, são mais ou
menos ligados entre si por laços de parentesco e ali formam um verdadeiro clã parental – á
velha maneira paulista.” p.33.

“Em toda essa imensa extensão de planícies campinosas, que se distende do oceano aos
sopés dos Andes, há uma pequena zona menos plana, mais rica, fértil, risonha, que é para nos
particularmente interessante. É a região da Planície Cisplatina...” p.37.

“Essa exclusividade da produção de muares e cavalos pela campanha Platina torna o tráfego
de tropas com são Paulo negócio extremamente lucrativo.” p.42.

“Em síntese: os paulistas antigos só adquiriram a plena consciência do valor econômico da


Planície Platina depois da formação dos núcleos mineradores nos chapadões auríferos do
planalto central (Minas, Goiás, Mato Grosso).” p.44.

“Outra causa que contribui para intensificar a nossa atividade predatória é a dilatação da nossa
área territorial pelo Tratado de Madri de 1750.” p.48.

“Nesta fase, os métodos de preia não afetam nenhum caráter guerreiro e o seu aparelhamento
é ainda muito pouco complexo. É a fase dos ‘currais’ simples, a que ajuntamos mais tarde o
‘curral parabólico’, em que os instrumentos de preia se limitavam: ao lado, as boleadeiras e as
hastes de lâmina circular; em que as instalações dos predadores deviam ser simples barracas
de couro [...] Representam, portanto, organizações provisórias, sem nenhum caráter definitivo
de fixação.” p.55.
“No ponto de vista das organizações das classes daquela sociedade primitiva, já se pronuncia
de modo perfeitamente claro a diferenciação entre a classe dos predadores e classe dos
traficantes.” p.56.

“Havia, porém, contra esse objetivo um grave embaraço: a Serra do Mar. Na região
catarinense, o paredão da grande cordilheira oferecia um aspecto essencialmente rebarbativo
e penhascoso, que a tornava, aí, de penosa, ou impossível, acessibilidade.” p.61.

“Os preadores lagunistas dominaram, porém, todos estes obstáculos. Em 1728, abriram
através destes flancos, rebarbativos, uma grande estrada – a estrada Aranranguá. Partindo de
Laguna na direção do norte...” p.62.

“Daí ter havido, durante todo o ciclo minerador, dois grandes distritos de gado, vinculados e
dependentes ambos do grande distrito do ouro: O do São Francisco e o Viamão, o das
caatingas do norte e dos pampas do sul. O primeiro fornecia boi, o segundo fornecia o cavalo e
o burro. Um resolvia o problema alimentar, o outro resolvia o problema dos transportes.” p.69.

“Na partilha das planícies do sul, a porção que nos tocava, em confronto com as dos
espanhois, era a menos valiosa, a mais ingrata, a menos fértil, a mais árida e maninha.” p.71.

“Havia então dois centros principais de expansão colonizadoras: o núcleo agrícola do Viamão e
o núcleo militar do Rio Grande.” p.73.

“Uns e outros formavam dois tipos sociais profundamente e, sob certos aspectos, inteiramente
opostos; de modo que a distinção entre ‘ilhéus’ e ‘paulistas’ já não exprimia somente uma
diversidade de procedência geográfica, mas também uma diversidade sensível de estruturação
culturológica.” p.81.

“Nessa admirável região de campos férteis, os dois sistemas econômicos em contraste


flagrantes – o agrícola e o pastoril – este, impondo o latifúndio, aquele, contentando-se com o
pequeno domínio – é claro que não podiam coexistir sem entrarem em conflito.” p.86.

“Construir vilas e freguesias e povoar ao mesmo tempo, campanhas vastas e desertas – diz o
governador Veiga Cabral, em 1783 – isto é o que se tem pretendido e jamais alcançado no Rio
Grande.” p.88.

“Nos primeiros tempos, são os índios, os espanhois e os portugueses os exploradores comuns


dessa prodigiosa riqueza, que ninguém possui.” p.90.
“Esses pequenos corpos de guerrilheiros representavam então, no seu conjunto, uma
verdadeira reserva de exército invisível e dispersa pela campanha, pronta sempre a mobilizar-
se, a reorganizar-se e a acorrer à fronteira, ao primeiro alarme de uma guerra.” p.101.
“Nada mais empolgante, na história do extremo-sul, do que o recuo da fronteira espanhola ante
o poder incoercível da nossa expansão colonizadora.” p.103.

“Em síntese na história da nossa expansão para a Planície Platina, foi o comércio de
cavalhadas e boiadas com as populações agrícolas, e mineradoras do centro-sul, através do
plantio curitibano, a causa primeira e remota, não só das guerras platinas, como da origem e
formação militar da sociedade rio-grandense.” p.113.

“O comando de uma tropa em campanha não pode ser conferido pelo escrutínio da sorte, ou
fundado num direito hereditário. É uma incumbência formidável, para cujo desempenho são
precisas aptidões específicas.” p.115.

“Há ainda outro traço a destacar e a fixar. O campo da guerra não é somente uma escola onde
se apuram as capacidades de organização dos caudilhos gaúchos; é também uma escola onde
eles adquirem hábitos da autoridade e reforçam as suas capacidades de mando.” p.121.

“O altruísmo, o desinteresse, o devotamento, o hábito de colocar acima dos próprios egoísmos


os grandes interesses da coletividade entravam poderosamente na formação do seu caráter e
modelavam a sua mentalidade coletiva.” p.127.

“... as formas do governo parlamentar estão como que gravadas na sua substância cerebral:
elas se revelam a todo propósito, ou mesmo sem propósito algum – á maneira da escritura na
folha de um palimpsesto.” p.129.

“E daí por diante nesses múltiplos decênios republicanos, os órgãos do poder estatal têm sido
ali constantemente reformados, ampliados, reduzidos, transformados, num trabalho
permanente, incansável, insatisfeito de retocar, aperfeiçoar, adaptar, sem que nunca se haja
chegado a um fim.” p.131.

“Todas essas superiores capacidades para a vida pública e para a organização e o exercício
do governo, reveladas pelos campeadores dos pampas, provinham da fase guerreira por que
passaram. Esta é que lhes medalhou e fundiu a rica mentalidade cívica que possuíam então, e
ainda possuem.” p.137.

“Porque as guerras defensivas não devolvem apenas o sentimento e a consciência de


solidariedade entre a vida privada e a vida coletiva ou do grupo; também desenvolvem o
sentimento da solidariedade entre a vida social e a vida propriamente política, isto é, o
sentimento entre a vida social e os poderes políticos – entre a sociedade e o Estado.” p.144.
“Nos gaúchos como vimos, os característicos dominantes da sua mentalidade regional são: o
sentimento vivaz do interesse social, primeiro; depois. a ideia clara e fecunda do poder público
como órgão supremo de realização deste interesse e como fator indispensável à própria
existência coletiva.” p.151.

“... uma confiança profunda nos funcionários do governo, em cuja energia, deliberação e
previdência descansava a segurança da sua defesa, alias sempre pronta e eficiente.” p.152.

“Nas revoluções da Independência, nos motins do período referencial e, ainda recentemente,


nas reações antioligárquicas da Bahia, de Pernambuco, do Ceará, e do Pará, o que se viu
invariavelmente, foi a algarada, a corrimaça, a desordem do poviléu e dos demagogos,
entrando desrespeitosamente pelo palácio do Governo adentro e tocando de lá, sem a menor
consideração.” p.153.

“Encontravam-se os governantes esse profundo sentimento da hierarquia e esse nobre


sentimento da dignidade na obediência, que constituem os dois pressupostos psicológicos
essenciais a uma vida de uma democracia.” p.163.

“Estes últimos aprenderam a obedecer aos seus maiorais, aos seus chefes, aos representantes
das suas autoridades, não levados pelo medo, mas por um íntimo sentimento de dever – com
honra com admiração, com orgulho.” p.165.

“É essa tradição de igualdade e familiaridade entre patrões e servidores, essa interpenetração


das duas classes rurais – a alta e a baixa, a senhoril e a servil; fenômeno este que constitui, na
sua substancialidade, o espírito da democracia rio-grandense.” p.170.

“De toda a mesma tropa é indispensável afastar a ideia de serviço a pé [...] porque os
habitantes – acostumados desde criança a cavalo e não andarem nem pretos de recados
desmontados.” p.178.

“Nessa pequenina minúcia de carinho e zelo, o gaúcho deixa entrever [...] a sua gratidão pelo
cavalo, a profunda hipofilia que se mescla ao seu nobre orgulho de campeador e cavaleiro.”
p.183.

“Com esta organização nervosa, tão belamente assentada sobre uma poderosa organização
física, é natural que o homem do pampa não tema a luta e ame a guerra. Os seus afazeres de
pastor são verdadeiros combates minúsculos e singulares. De uma corrida na campanha um
entrevero de lanças, a diferença é pequena: os seus nervos – afeitos ás arremetidas
impetuosas – não sofrerão abalo; ao contrário, reagirão com vigor e brio.” p.202.

“Sentem-se fortes. Sabem que têm para apoiá-los três forças incomparáveis: a lança, o cabalo
e a savana infinita.” p.214.

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