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31 - GENDER STUDIES: A CIRCULAÇÃO, AS TRAMAS E OS SENTIDOS DOS

CORPOS NO TEXTO LITERÁRIO Coordenação: Cláudia Maria Ceneviva Nigro


(UNESP); Flávio Adriano Nantes (UFMS)
Resumo: Pensar que os sentidos empreendidos na cultura para um determinado
comportamento estão perpassados pela heteronormalização e heteronormatização implica
afirmar que ainda há corpos que não podem circular democraticamente em todos os
espaços, sejam eles público ou privado. Esses corpos (aqui tomados como dissidentes)
que não se enquadram àquele conjunto de normas, a hétero, são alocados às margens
sociais, invisibilizados, silenciados, ou seja, há uma política corpórea empreendida por
diversos setores que visa à inexistência de um grupo de pessoas, mais especificamente o
LGBTQIA+ e acrescentamos, também, o corpo da mulher não trans. Jacques Derrida
(1995), no ensaio “Paixões” afirmou que a literatura tem o direito de dizer tudo; estamos
de acordo com a proposição do filósofo franco-argelino, e acrescentamos: o texto literário
pode dizer inclusive a verdade – uma verdade acerca de determinados corpos que, por
razões de uma ditadura compulsoriamente heteronormativa no interior de diversas
sociedades ao redor do mundo, sofrem assédios, injúrias e às vezes a eliminação letal do
corpo. A literatura, nesse sentido, a partir de um projeto est(ético) empreende ao
leitor/espectador novos saberes sobre mulheres e a população LGBTQIA+,
desterritorializando esses sujeitos da invisibilidade, do anonimato, da inexistência. Esses
novos saberes ofertados pela literatura pode dar a conhecer o outro, o diferente, o corpo
que não aceitou a imposição social heteronormativa e subverteu a linearidade sexo-
gênero-orientação; esse conhecimento sobre o outro gera, ademais, o sentimento
outridade. A literatura, embora não tenha nenhuma responsabilidade com a ética, a moral,
a religião, os engendramentos do Estado-nação, etc., em muitos caos, se arvora a falar
desses sujeitos tratados aqui: o que fazem, como é sua vida, quais são seus desejos, o que
esperam da sociedade. O discurso literário, assemelhando-se à função de algumas
instituições que visam à proteção das minorias sexuais, coloca esses corpos em evidência,
em visibilidade, em debate. Judith Butler (2016) nos faz saber: “Minha perspectiva é de
que a vida é certamente mais vivível quando nós não estamos confinadas, enquanto
pessoas, a categorias que não funcionam para nós. A tarefa do feminismo, a tarefa da
teoria e do ativismo queer, a tarefa da teoria e do ativismo trans, é seguramente a de fazer
com que respirar seja mais fácil, com que andar pelas ruas seja mais fácil, com que
encontrar uma vida vivível seja mais fácil, obter reconhecimento, quando necessitamos
tê-lo, uma vida que possamos afirmar com prazer e alegria, mesmo em meio a
dificuldades”. A literatura, voltando a Derrida, detém um sem-número de conteúdos à
disposição do leitor, e em conluio com alguns organismos do governo ou não, com outras
áreas do saber, pode disseminar conhecimentos acerca de vidas dissidentes que estão em
condições precárias, sob ameaças, injúrias, assédios. Há sujeitos que vivem na iminência
da eliminação letal de seu corpo, estão desprotegidos, não podem vivenciar de maneira
aberta o sexo, o gênero, a sexualidade e quando o fazem passam por uma série de sanções,
isto é, pagam um preço alto por ser quem são. O discurso literário, de acordo com nosso
pensamento, provoca uma espécie de denúncia, evoca esses sujeitos da dissidência a falar,
dizer sua história, chorar suas dores, exigir direitos sexuais, igualdade de gênero, se mover
de forma democrática nos espaços público e privado. Existe um discurso falacioso de que
mulheres e a população LGBTQIA+, ao solicitarem ações e políticas protetivas, estão
mais no campo da vitimização que da violência. Há quem diga – sujeitos, máquina
governamental, instituições religiosas, etc., etc. – que essa violência já não existe mais,
foi extirpada. Sabemos que esse discurso é mentiroso, perigoso e tendencioso, pois se
assim não fosse, o Brasil não seria o país que mais mata pessoas trans no mundo e nem
estaria em 1º lugar do ranking internacional em assassinatos de militantes que lidam com
diferentes minorias corpóreas. Convocamos para esse Simpósio pesquisadores que tratem
de pensar como esses corpos são apresentados, construídos, postos em movimentação por
intermédio da literatura e como o discurso literário pode colocá-los em evidência,
eliminando a invisibilidade, a inexistência, a marginalização, e indicando caminhos para
que essas vidas deixem de ser dissidentes e passem a ser vivíveis, respiráveis.
REFERÊNCIAS ADICHE, Chimamanda. Sejamos todos feministas. São Paulo:
Companhia das Letras, 2015. BUTLER, Judith. “Corpos que ainda importam”. In:
COLLING, Leandro. Dissidências sexuais e de gênero. Salvador: EDUFBA, 2016, p. 19-
42 BUTLER, Judith. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. Rio de
Janeiro: Civilização Brasileira, 2015. BUTLER, Judith. Quadros de guerra: quando a vida
é passível de luto? Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2015. DERRIDA, Jacques.
Paixões. Campinas/ SP: Papirus, 1995. LOURO, Guacira Lopes. Um corpo estranho:
ensaios sobre sexualidade e teoria queer. Belo Horizonte: Autêntica, 2016.