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BOLSA DE ESPECIALISTAS

AÇÚCAR: OS NÚMEROS QUE NOS DEVIAM


PEDRO
ENVERGONHAR
GRAÇA
NUTRIÇÃO

BOLSA DE ESPECIALISTAS 18.09.2016 às 13h55 Pedro Graça ! 7 Comments

" # $ %

Porque é que devemos combater este produto de risco? Os adultos


portugueses consomem quase o dobro dos 50g diários, máximo admitido
pela Organização Mundial de Saúde

N
os últimos anos, a evidência científica tornou bastante claro o risco do consumo
excessivo de açúcar na nossa saúde. E desnecessário. Na medida em que muito
do açúcar adicionado aos alimentos tem como objetivo único a conquista de mais
consumidores e mais lucro. Mas, ao mesmo tempo, esvaziando a nossa alimentação de
nutrientes essenciais. Ao ponto de hoje consideramos o açúcar como uma “caloria
vazia”. Ou seja, energia que nos pode fazer aumentar de peso e desregular uma série de
funções metabólicas essenciais, sem acrescentar qualquer valor nutricional à nossa
alimentação.

Atualmente, o consumo excessivo de açúcar está associado à prevalência de esteatose


hepática, dislipidemia, insulinorresistência, hiperuricemia, doença cardiovascular e
diabetes mellitus tipo 2. Está também associado ao excesso de peso/obesidade e ao
aumento da incidência de cárie dentária. Doenças que afetam milhões de portugueses
e condicionam a sua vida e das suas famílias.

Toda esta evidência de base científica deveria ser suficiente para a redução drástica do
consumo de açúcares livres, ou seja, de açúcar adicionado aos alimentos e bebidas (em
casa ou pela indústria alimentar) e dos açúcares naturalmente presentes no mel,
xaropes, sumos de fruta e concentrados de sumo de fruta.

Mas, aparentemente, não. Apesar de sabermos o mal que o açúcar nos faz. Apesar de
sabermos que o seu consumo deveria ser residual no nosso dia-a-dia. Apesar de
conseguirmos identificar as fontes de açúcar na nossa alimentação através da leitura
dos rótulos colocados nos alimentos embalados. Apesar disso tudo, continuamos a
treinar os nossos filhos e o seu paladar para o açúcar. Por exemplo, ao permitirmos que
semanalmente se realizam nas escolas festas de aniversário com uma oferta de açúcar
muito acima do saudável. A permitir as máquinas de venda automática, carregadas de
açúcar barato, em locais onde circulam diariamente crianças. A facilitar o açúcar como
recompensa de bons comportamentos. A sugerir um snack açucarado para se levar
numa viagem ou numa pausa a meio da manhã. E a tolerar a ausência de opções
saudáveis e baratas, sem açúcar, em locais públicos, desde os nossos comboios, a
cinemas, universidades ou hospitais.

E continuamos com estatísticas que nos deviam envergonhar. Por exemplo, as que nos
dão conta que nas 8647 crianças do norte de Portugal que são seguidas desde o seu
nascimento, aos 4 anos de idade, mais de metade (52%) já consumia refrigerantes e
néctares diariamente e, 20% destas crianças, consumiam diariamente refrigerantes à
base de chá, sendo este o tipo de refrigerante mais consumido. E que os adultos
portugueses consomem quase o dobro dos 50g diários, máximo admitido pela
Organização Mundial de Saúde.

Desmontar esta forma de encarar passivamente o açúcar, um alimento cujo consumo


excessivo é perigoso, dá muito trabalho. E encontra muitas barreiras. Porque, do outro
lado, existe toda uma estrutura comercial que vive do seu consumo regular e excessivo.
Mas também porque vai contra toda uma cultura que se edificou na companhia deste
produto. Um produto raro e pouco acessível até ao princípio do século XX. Mas que se
massificou nestes últimos 100 anos. Por ser relativamente barato, é hoje incorporado
numa grande parte dos alimentos processados que consumimos. Desde sumos de fruta
a alguns tipos de pão embalado.

O açúcar, como aditivo facilmente disponível e barato, aumenta o tempo de


conservação dos alimentos, permite retirar água ao alimento durante o processamento
tornando-o mais leve e transportável, é um potente estimulante das nossas papilas
gustativas e muito atrativo para o nosso cérebro, que na sua presença obtém uma
sensação de recompensa, através da libertação de neurotransmissores como a
dopamina.

Numa altura em que pretendemos viver com qualidade de vida até o mais tarde
possível, preservando órgãos e funções metabólicas que são alteradas pelo consumo
excessivo e diário de açúcar, é necessária uma reflexão aprofundada sobre o nosso
relacionamento com este produto. Que vai desde a relação dos avós com os netos até à
forma como festejamos. Tudo isto pode acontecer sem açúcar e sem perdermos a
alegria e a liberdade de nos expressarmos através dos alimentos e do que a
alimentação nos proporciona.

PEDRO GRAÇA
NUTRIÇÃO

Pedro Graça é Diretor do Programa Nacional para a Promoção da Alimentação


Saudável, da Direcção Geral da Saúde. É doutorado em Nutrição Humana pela
Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação da Universidade do Porto
(FCNAUP) onde é professor associado.
É membro do Conselho Científico da ASAE e ponto focal português da OMS e
Comissão Europeia na área da alimentação.

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