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Carlos Alberto Faraco ORMACULTA BR desatando alguns nés Eorror: Marcos Marefonilo Cara £ mont aanica: Andréia Custédio Foro. aa carat Marcyn Krawczyk ~ stock xchng® Conssuno eoiraniat: Ana Maria Stahl Zilles [Unisinos) Carlos Alberto Farace (UFPR Egon de Oliveira Rangel [PUCSP] Gilvan Mailer de Oliveiea (USC, tpot] Henrique Monteagudo [Unlv. de Santiago de Compostela) Kanaviti! Rejageopaten [Unicampy Marcos Bagne EUnB} ‘Maria Marto Pereira Scheme (UFRI, UNB] Rachel Gazolla de Andrade [PUC-SP] Salma Tannus Muchail [PUC-SP) Stella Maris Bortoni-Ricarde (\inB} CIP-BRASIL. CATALOGAGAO NA. FONTE ‘SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ F225n, Farace, Carlos Alberto Norma euita brasteir: desatando alguns nis /Caris Aller6 Farac,- S30 Paulo, Paribola Editorial, 2008, 2200p. (Lingualger] ; 25) Incluibibliogratia ISHN 978-85-80456-82-2 1 Sociolinglifstica. 2. Lingua portuguesa « Aspectos socials - Brasil Ltitulo, 1 Serie, 08-2435 Dp; 469 DU: 11.1343 Direitas reservados PARABOLA EDITORIAL ua Sustuarana, 216 Ipiranga (0428-070 Sto Paulo, SP pabec [11] 5061-9262 | 5061-1522 | fax [11] 9061-8075 home page: www par Leom.br malt paraboleeperabolvecitorlal come Tels ox cron reservados, Neshume parie desta obra pide se repodusds jes hss neaimterresy lege spb own lpantige befor od linea Inland fata © grencaol ou areas con cemiguer ster bance de dados sem permisiso por escrito da Parabote Editorial Lida, ISBN: 978-85-88456-82-2 © do texto: Cartos Alberto Farsco, 2008 (© desta edigao: Paribola Editorial, S30 Paulo, junho de 2008 APRESENTACAO... aes Ana Maria Stahl Zilles INTRODUGAO .. capiruLol; AFINANDO CONCEITOS Norma ... A plenitude formal: conseqtiéncias de seu reconhecimento .. Uma comunidade, vérias normas Alguns exemplos Normas, identidades e tink ti Algumas distingdes pertinentes O adjetivo ‘culta’ em questao Afinal, quem é um falante “culto”?.. Norma culta: ainda faz sentido usar esta expressa Um caso exemplar Ha saidas’ NORMA CULTA, NORMA"PADRAO E NORMA GRAMATICAL .. Norma-padrao: a criagao do conceito. Norma-padrao no Brasil... A norma gramatical contemporanea . Norma-padrao: precisamos dela? NogMas EM CONFLITO. Um exemplo .. Ainda um exempilo... NoRMA CURTA Denunciando a norma curta 96 Nao confundir preferéncia com obrigatoriedade 100 AUTORIDADE EM LINGUA... + 102 Ea Academia Brasileira de Letras’ A lingua é maior que o impulso autoritario da norma canta 104 105 Superando esse imbréglio capiruto2: A QUESTAO DA LINGUA: REVISITANDO ALENCAR, MACHADO DE ASSIS E CERCANIAS .... capiruLo3: A QUESTAO GRAMATICAL E O ENSINO DO PORTUGUES ... 131 InTRODUCAO .. 131 BREVE HISTORICO DA GRAMATICA 132 Criagéo da gramitica ... 132 Agramatica em Roma . 139 A gramatica no mundo medieval 141 Agramdatica das linguas modernas 143 Fixando um padrao de lingua: dois caminhos 145 O modelo pedagégico medieval 148 O Brasil entra nessa histéria . 150 PESQUISANDO A NORMA CULTA/COMUM/STANDARD BRASILEIRA ENFRENTANDO A CRISE DO ENSINO ENSINAR GRAMATICA? CAPruLo4: POR UMA PEDAGOGIA DA VARIAGAO LINGUISTICA 165 165 167 169 172 178 Linctistica & ENSINO O LINGtisTICO EO. SOCIOLINGDISTICO. VARIEDADES CULTAS E ENSINO ...... VARIEDADES CULTAS E NORMA-PADRA Esco. & VARIAGAO LINGUISTICA . capitutos: O ENSINO DE PORTUGUES NO BRASIL: ALGUNS PARADOXOS E DESAFIOS REFERENCIAS BIBLIOGRAFICAS ........sscsossessessersvnneecsereseevevene 199 INDICE DE NOMES ....0:::ccccccci inne 205 expresso norma culta, nos ultimos anos, pulou os muros da universidade e se tornou muito freqiiente no discurso da midia e da escola. dir pelos espacos nao propriamente universitari- 0 se t uma expresso quase de senso comum, norma cul- ta foi perdendo precisio semantica. Se no interior do discurso mais técnico (a da investigacaio universitdria) a expresso sofre de imprecisdo, mais imprecisa ficou ao se tornar uma expressdo de uso corrente. No discurso universitario, sao duas as imprecis6es mais co- mung no uso da expressio norma culta. Algumas vezes, ela é utili- zada intercambiavelmente com a expressio norma-padrao, como se fossem apenas nomes diferentes do mesmo fendmeno — quan- do, de fato (como veremos no capitulo 1), se trata de duas realida- des distintas. Outras vezes, ela é usada para designar a norma estipulada em graméticas e diciondrios, que melhor seria identificada se fos- se denominada de norma gramatical, considerando as distancias @ mesmo os conflitos que ha, no caso do Brasil, entre o uso culto efetivo e muitos dos preceitos estipulados nos chamados instru- mentos normativos. De novo, tomam-se fenémenos distintos como se fossem uma € a mesma coisa. 24 NORMA CULTA BRASILEIRA; DESATANDO ALGUNS NOS = Carlos Alberto Faraco: Essa situagio se agravou sensivelmente 4 medida que a ex- pressfo se difundiu no discurso extra-universitario. Para verifi- car essa imprecisdo semantica, basta perguntar, a cada vez que a expressao ocorre no uso Comum, a que ela se refere, ou seja, basta perguntar de que precisamente se fala quando se diz norma culta. Nao sera dificil observar que ha pelo menos trés sentidos di- ferentes para ela no uso comum. Norma culta se tornou moeda corrente para, em primeiro lu- gar, resolver a maldig&o que caiu sobre a palavra gramdtica, Desde meados da década de 1960, com a difusiio no Brasil do estruturalismo lingitistico, reproduziu-se aqui a critica académi- ca, que vinha ja ocorrendo na Europa e nos Estados Unidos, ao saber gramatical tradicional’. Essa critica apontava fragilidades conceituais e empiricas da velha gramAtica, fato que, aliado A difusio de novos modelos de andlise lingiiistica, a fez perder prestigio e espaco no Ambito dos estudos universitdérios. Esse desprestigio académico da gramatica acabou por alcan- car o ensino fundamental e médio, instaurando uma certa crise no niicleo tradicional do ensino de portugués, Como bem sabemos, a pratica pedagégica tradicional sempre colocou o ensino de gramatica no centro do ensino de portugués. No fundo, ensinar gramatica e ensinar portugués foram sempre, na concepgao tradicional, expressées sindnimas. E nessa concepgao se entendia o ensino de gramatica em dois sentidos, nem sempre bem delimitados: ora significava ensinar nomenclatura, conceitos e classificacdes (i. e., transmitir um ins trumental descritivo), acompanhados de exercicios analiticos (as ' Essa critica ao saber gramatical tradicional nao resultou de uma mera implicincia com ele ou de sua desqualificacao a priori, No fundamento da critica, esta, de fato, um conflito entre dois paradigmas heuristicos bastante diferentes o do pensamento grego antigo eo da ciéncia moderna. INTRODUGAG 25 famosas andlises morfolégica e sintatica); ora significava ensinar 0s usos que os gramaticos postulavam como corretos (i. e., os pre- ceitos da “boa linguagem”). O desprestigio académico da gramatica desestabilizou esse mundo bem estabelecido havia séculos, seja ao por em questao a suficiéncia de termos, conceitos e classificagées do saber tradicio- nal, seja questionando os padrées de corregao e, principalmente, os critérios de seu estabelecimento. Desenvolveu-se, entao, um certo discurso pedagégico que passou a condenar ou o ensino de gramatica em sua totalidade (dizia-se que era preciso deixar de ensinar gramdtica para poder ensinar portugués); ou a centralidade desse ensino (dizia-se, como ainda se diz nos documentos oficiais, que sé caberia 0 estudo da nomenclatura, das classifieacdes e dos conceitos se funcionalmente subordinado ao estudo da lingua propriamente dita, ou seja, ao estudo das praticas de leitura, escrita e fala). Nesse contexto, passou a ser “politicamente incorreto” dizer que se ensinava gramatica (ou que era importante ou necessdrio seu ensino), Como, no entanto, o ensino de portugués (respeitadas as excegdes) nfo se alterou substancialmente nessa conjuntura (a critica ao saber tradicional aleancou o discurso, mas nao, de fato, a pratica pedagégica — ver nossa discussao no capitulo 5), foi preci- so enfrentar a depreciacéio semantica do termo gramédtica e encon- trar um novo nome para o velho saber e as velhas praticas. A expressio norma culta caiu como uma luva. Nao era uma expressio desgastada (porque era, até entao, de uso restrito) e vinha do diseurso cientifico (o que lhe garantia certo pedigree). Passou a ser usada, entdo, em substituicfio ao termo gramdatica. Mais ainda: a novidade da expressfo deu um ar de renova- gao, de modernizacéo ao ensino de portugués. Foi possivel se re- ferir aos mesmos contetidos com outro nome e, desse modo, criar a ilusao de que se estava agora entre os modernos. Por outro lado, a critica aos padroes de correcao e aos critéri- os de seu estabelecimento — em outros termos, a critica 4 norma- 26 NORMA CULTA BRASILEIRA: DESATANDO ALGUNS NOS = Carlos Alberto Force padrao brasileira (cf. nossa discussdo no capitulo 1) — provocou (e continua provocando) um debate acalorado e um tanto quanto sangitineo, embora fundado em equivocos. Entenderam alguns que essa critica estava propondo o aban- dono de toda e qualquer preocupacgdo normativa quando, na ver- dade, ela nao fazia isso. Apenas questionava os preceitos norma- tivos descolados da realidade brasileira e cultivados por uma ri- gida e anacrénica tradigéo pseudopurista (a que chamaremos, neste livro, de norma curta — ef. capitulo 1), ao mesmo tempo que criticava as estratégias pedagdgicas de seu ensino, fundadas numa cultura negativa — a cultura do erro. Nesse contexto, a expresso norma culta caiu igualmente como uma luva. Preencheu um certo vazio terminolégico (também aqui ficava dispensada a referéncia 4 malfadada gramatica) e seu “fres- cor” facilitou a ordenagao do discurso daqueles que se sentiram chamados a combater todos os que — pretensamente — queriam destruir a “boa linguagem” e seu ensino, adeptos que seriam do populismo e da anarquia lingiiistica, do tudo-vale, do tudo-pode. A expressao norma culta passou, entao, a ser usada para desig nar o conjunto dos preceitos da velha tradigéo excessivamente con- servadora e pseudopurista. O interessante, neste caso, é observar como, nesse deslocamento do sentido da expressao, aquele conjunto de pre- ceitos se transformou numa entidade algo etérea, fixa, desligada de qualquer perspectiva histérica e pairando soberanamente muito aci- ma do juizo dos reles mortais. Deu-se vida e poder a esse estranho ente que passou a ter, inclusive, vontade prépria: “nao aceita”, “nao admite”, “condena”, “proibe”, “insiste em” este ou aquele uso”. * Camo veremos no capitulo 1, nia ha, em bon parte dos casos, nenhum consenso sobre quais seriam esses preceitos. No entanto, ha uma crenga em algumas esferas sociais de que tais preceitos constituem efetivamente um conjunto doutrindrio uniforme, fixe e, por conseguinte, inquestiondvel. B essa crenca acritica que faz algumas pessoas defende- rem a suposta norma culta com a certeza que sé as donos da verdade tém, ao mesmo tempo que a utilizam como arma para desqualificar openentes ou reforgar a pesada divisie econémica, social, cultural e lingilistica que caracteriza.a sociedade brasileira desde os tempos coloniais. INTRODUGAG 27 Essa curiosa personalizacao da norma culta tem sido, obviamen- te, muito conveniente: nfo é preciso pér o dedo na ferida (o que é precisamente a norma culta no Brasil?), nfo é preciso enfrentar di- lemas e contradigdes, nao é preciso argumentar. Basta, em nome desse ente etéreo — a Sra. Dona Norma Culta — asseverar categori- camente o que se imagina ser o certo e o errado, como se houvesse indiscutivel consenso sobre o assunto e fossem claras e precisas as linhas divisérias entre o “condendvel” e o “aceitavel”, entre o que a Sra. Dona Norma Culta “aceita”, “admite”, “exige” @ o que ela “con- dena”, “proibe”, “ndo aceita”, “nao admite”. Entre os arautos dessa inclemente Senhora, ha os que ado- tam um discurso modernoso, aparentemente mais aberto e flexi- vel, cheio de condescendéncia com certos usos classificados de *informais” (em geral, exemplificados com versos da chamada MPB) apenas para, ao fim e ao cabo, reiterar os mesmos velhos e dogmaticos preceitos. Nao raramente, porém, o dizer categérico vem acompanha- do de gracolas (em geral de muito mau gosto, como teremos a oportunidade de discutir a frente) e expressdes cheias de sar- casmo contra os falantes que usam formas tidas como incorre- tas, embora de uso geral nos segmentos altamente letrados da sociedade. Nao faltam também vozes iradas a proclamar o fim dos tem- pos: a decadéncia, a corrup¢o, a degradacio e até a putrefagio da lingua portuguesa no Brasil motivadas — supostamente — pela inctiria, pelo desleixo, pela ignorancia de seus falantes. E a midia, como que possuida por um dever moral de corri- gir a suposta incuria, desleixo e ignordncia dos falantes brasi- leiros, encampou com sofreguidaéo esse discurso categérico: se pés ao lado dos “paladinos da Sra. Dona Norma Culta” (que de fato sfo “paladinos da norma curta’, como argumentaremos no capitulo 1), deu-Thes amplo espago, tem barrado a possibilidade do debate critico ¢ até criou manuais de redag&o extremamente conservadores que, paradoxalmente, nao sfio seguidos sequer pe- los seus préprios redatores’, Essa esdriixula situagdo (em que os manuais e os usos estdo em conflito constante) e a imprecisao de sentidos que nao permi- te que se distinga gramatica de norma culta, norma culta de nor- ma curta e norma curta de norma gramatical nfo encerram, po- rém, a questao. Ha ainda um terceiro sentido de norma culta no discurso da midia e da escola para tornar a situagaio ainda mais imprecisa e confusa. Ela é usada como equivalente de expressao escrita. Assim — como fica claro, por exemplo, numa reportagem da revista Veja (12.09.07) — se diz “dominar a norma culta” querendo dizer “domi- nar a expresso escrita”, isto é, nos termos (pouco precisos) da re- portagem, “escrever com corregao, légica e riqueza vocabular”. Ha dois gestos reducionistas neste terceiro uso da expressio norma culta. Primeiro, toma-se a parte pelo todo: segundo, limi- ta-se a pratica social da escrita a alguns de seus géneros. Na escrita, ha, efetivamente, alguns géneres em que o espe rado socialmente é a utilizagio de uma certa variedade da lingua — aquela que se pode chamar de norma culta (conforme discuti- remos no capitulo 1), No entanto, a expressdo escrita é uma prati- ca que envolve mais que apenas o uso desta variedade da lingua‘. Por outro lado, a expectativa social pela chamada norma cul ta nao alcanca todos os géneros da escrita. E perfeitamente possi vel e socialmente aceitdvel escrever textos em outras variedades ® Sobre esses manuais, pode se ler com proveito a andlise de Telma Domingues da Silva (2001). Das contradigSes entre o manual e.o.uso efetivo dos redatores, hé bons exemplos em Bagno (2001). 4 As pessoas que avaliam textos escritos em exames de escolaridade, como os vestibula- res, em que hé uma questae de “redagio”, se deparam freqiientemente com situagses que deixam bem claro ser o dominio da expressao escrita maior que o dominio da norma culta, Sao aqueles textos que néo apresentam propriamente problemas que poderiam ser classificados como de norma culta, mas aos quais faltam unidade tematica, clareza, boa seqiléncia, corso. inTROOUT AG 29 da lingua, como, por exemplo, um bilhete, uma carta ou um e-mail familiar, uma intervengéo num chat, um texto num blog, a letra de uma cancéo, uma publicidade, composi¢ées literérias que dao es- tatuto estético 4 diversidade lingiiistica, e assim por diante. Vivemos numa sociedade tradicionalmente pouco letrada®. Como conseqiiéncia e apesar da expansio da alfabetizacdo no ul- timo século, é ainda apenas uma minoria que efetivamente domi- na @ expresso escrita. Nao ha duvida de que, se queremos alcangar niveis avanca- dos de desenvolvimento, temos de romper essa limitagao decor- rente de nossa historia econémica, social e cultural — que, por séculos, mantém concentrados a riqueza material e 0 acesso aos bens da cultura escrita nas mos de poucos. Para isso, 6 indispensavel diagnosticar as muitas causas des- sa situagao e, em conseqiiéncia, encontrar formas de enfrenta-la adequada e eficazmente. Andaremos, porém, mal se nem sequer conseguirmos distinguir, com um minimo de precisdo, norma cul- ta de expressdo escrita. O uso inflacionado da expressdo norma culta pode ter facili- tado a vida e o discurso de algumas pessoas, mas pouco ou nada tem contribuido para fazermos avancar nossa cultura lingilistica. Continuamos uma sociedade perdida em confusio em matéria de lingua: temos dificuldades para reconhecer nossa cara lingiiisti- ca, para delimitar nossa(s) norma(s) culta(s) efetiva(s) e, por con- seqtiéncia, para dar referéncias consistentes e seguras aos falan- tes em geral e ao ensino de portugués em particular. ® Nesse sentido, bastaria lembrar que temos ainda por volta de 15 % de analfabetos na populagao adulta e que, entre os alfabetizndos, caleula-se que apenas 25% podem ser considerados alfabetizados funcionais, isto é, 94 esta pequena parcela 6 capaz de ler ¢ compreender textos medianamente complexos, Os dados de analfabetismo sao do IBGE (Institute Brasileira de Geografia e Estatistica) @ os de alfabetismo funcional (que 86 incluem o dominio de leitura, no registrando o dominio da produgao escrita) sio do INAF (ndicador de Alfabetiamo Puncional). 0 site do IBGE é www.ibge.gov.br e o da INAF & www.ipm.org.br. Ambos foram acessados em 20/09/2007. 30 NORMA CULTA BRASILEIRA: DESATANDO ALGUNS NOS Cantot Alberta Faraco: Parece, entao, evidente que é preciso comecar a desatar es: tes nés, buscando desenvolver uma gest@o mais adequada das nos- sas questées lingiiisticas. Este nosso livro tem como objetivo contribuir para esse pro- cesso. Temos, jd ha algum tempo, defendido a necessidade de ins- taurarmos um debate ptblico franco e desapaixonado das nossas questées lingiiisticas. Elas nfo sao, claro, de pequena monta. Ha toda uma historia a ser revista, ha todo um imaginario a ser questionado, ha toda uma gama de valores e discursos a ser criticada, ha todo o desafio de construir uma cultura lingtiistica positiva que faca frente a danosa cultura do erro que ainda embaraga nossos caminhos. No entanto, acreditamos que nao ha como escapar do enfrenta- mento dessas questées. A questao da lingua no Brasil nao é ape- nas lingiiistica, mas, antes de tudo, politica. Ela interessa 4 polis como um todo, na medida em que atravessa diretamente e afeta profundamente inimeras situagdes sociais. Para deixar clara sua relevancia, bastaria lembrar aqui os efeitos deletérios dos preconceitos lingiiisticos e da violéncia sim- bélica que se pratica em nome da lingua nas nossas relacdes so- ciais e, em particular, na educagao lingiiistica que oferecemos a nossas criangas e jovens. Considerando esses fatores todos, fica evidente que esta mais do que na hora de instaurarmos, no espago publico, um indispen- sdvel embate entre os multiplos discursos que dizem a lingua no Brasil, em especial a questio especifica da chamada norma culta. Por isso, este livro tem uma dimensfo técnica e uma dimen- sao politica. Procuramos aclarar os conceitos tecnicamente (capi- tulo 1) com o objetivo de assentar bases para um debate melhor balizado, seja no contexto da investigacéo universitéria, seja no contexto da midia e da escola. Entendemos que o debate ganhara substancia se comecarmos por dar precisdo a expressdo norma culta. Continuar a confundi- INTRODUGAD 31 la com gramdatica em qualquer de seus dois sentidos (conceitos ou preceitos), com norma-padrao ou com expressao escrita apenas continuara escamoteando os problemas que estfo ai a nos desafi- ar, quer na compreensio da nossa realidade lingitistica, quer na proposigaéio de caminhos para o ensino de portugués. Por isso, procuramos, neste livro, langar certo olhar de inspi- ragéo fenomenoldgica sobre as questées conceituais, ou seja, pro curamos colocar norma, norma culta, norma-padrao e norma gra- matical entre parénteses para olhar e descrever esses fenémenos com a maior precisao possivel. Por outro lado, para néo perder de vista as origens dessas. questdes, buscamos sempre dar as nossas discussées uma dimen- sao historica: revisamos brevemente a longa histéria da gramati- ca (capitulo 3) e, relendo documentos brasileiros do século XIX, repassamos um momento particularmente relevante para a nos- sa histéria lingiistica (capitulo 2). Quando o tema é a norma culta, é impossivel nao trazer & baila a questdo do ensino de portugués. Reservamos, entéo, os capitulos 4 e 5 para isso. Nos dois ha, de novo, uma projecao do tema na histéria recente. Buscamos, em especial, fazer um ba- lango critico do envolvimento dos lingiiistas com esse ensino. Ha acertos e sucessos nesse envolvimento, mas ha também difi- culdades e insucessos. Acreditamos que refletir sobre esse con- junto contribui para enfrentarmos os paradoxos e desafios que povoam essa drea. Os textos aqui reunidos so versdes atualizadas de confe- réncias e artigos que fizemos e publicamos nos ultimos oito anos, desde que nos envolvemos mais intensamente em deba- tes publicos de natureza politica sobre questdes de lingua no Brasil. Na organizacgao do livro, nem sempre foi possivel evi- tar algumas repeticdes (sua auséncia poderia fragilizar a apre- sentacao de alguns argumentos especificos). Acreditamos, no entanto, que foi possivel conferir unidade ao conjunto. Espe- 32 NORMA CULTA SRASILERA: DESATANDO ALGUNS NOS = Canos Aibérto Farce: Se ramos que a reunido desse material contribua para que esse debate se amplie, atraindo seja aqueles que esto se iniciando na area de letras e lingiistica, seja todos os que tém a lingua como tema de interesse®. * Fiza reuniiio destes textos por sugestiiode colega Mareos Bagno. Agradego sua insistén- cia, que-acabou por me tirar da inércia, Os divorsos textos que conatituem o livro foram, aseu tempo, lidos previamente por colegas lingitistas. Todos contribuiram com critieas e sugest0es qué ajudaram a diminuir minhas muitas caréncias. Por isso, registro aqui meus agradecimentos a cada um deles: Ana Maria Stahl Zilles, Cactano Waldrigues Galindo, Gilberto de Castro, Irandé Costa Morais Antunes ¢ Maria Bernadete Fernandes de Oliveira. Obviamente, ndo cabe a eles nenhuma responsabilidade pelo que esta dito neste livro. capitulo um Norma conceito de norma, nos estudos lingilisticos, surgiu da necessidade de estipular um nivel tedrico capaz de captar, pelo menos em parte, a heterogeneidade constitutiva da lingua. estudos cientificos da linguagem verbal tém mostra- do, nenhuma lingua é uma realidade unitdéria e homogénea. 56 0 6, de fato, nas representacdes imagindrias de uma cultura e nas concepgoes politicas de uma sociedade, No plano empirico, uma lingua é constituida por um conjun- to de yariedades, Em outras palayras, nao existe lingua para além ou acima do conjunto das suas variedades constitutivas, nem existe a lingua de um lado e as variedades de outro, como muitas vezes se acredita no senso comum: empiricamente a lin- gua é 0 proprio conjunto das variedades. Trata-se, portanto, de uma réalidade intrinsecamente heterogénea. ste capitulo amplia ¢ atualiza a discussie que fizemos no texto “Norma-padrao brasileira: desembaragando alguns nés”, publieado no livro Lingilistica da norma, organizado par Marcos Bagno (Sao Paulo: Loyola, 2002, p. 37-61). Seu objetivo é fazer uma apresentagéo técnica dos conceitos de norma, norma éulta, norma-padrio e problemas correlatos. 34 NORMA CULTA BRASHEIRA: DESATANDO ALGUNS NOS = Camas Aibsrin Fames Por isso é que tendemos a dizer hoje, nos estudos cientificos da linguagem verbal, que uma lingua é uma entidade cultural e politica e nao propriamente uma entidade lingiistica, Ou seja: nao ha uma definigaio de lingua por critérios puramente lingiisti- cos, mas fundamentalmente por critérios politicos e culturais?. Quando, portanto, dizemos portugués, este nome nao designa um objeto empirico uno, homogéneo, claramente delimitavel e objetiva- mente definivel por critérios apenas lingitisticos (éxico-gramaticais). O nome singular recobre, de fato, uma realidade plural, ou seja, um conjunto de iniimeras variedades reconhecidas histéri- ca, politica e culturalmente como manifestacdes de uma mesma lingua por seus falantes. A sociologia da linguagem desvelou alguns aspectos da alta complexidade envolvida nessa questéo do estabelecimento do que é uma lingua. Mostrou, por exemplo, que falantes de diferentes comunidades lingiiisticas se reeonhecem como falantes de uma mesma lingua mesmo quando nao hd entre eles muitua inteligibili- dade. Exemplo classico é 0 do chinés. Falantes das variedades reunidas sob a designagdo de mandarim se consideram falantes de chinés tanto quanto os falantes das variedades reunidas sob a designacao de cantonés, embora entre eles nao haja, em geral, miitua inteligibilidade. Por outro lado, falantes de variedades mutuamente inteligi- veis (e que poderiam ser consideradas, por critérios puramente lingitisticos, como participes de um mesmo continuo dialetal) se declaram falantes de linguas diferentes. Caso classico é 0 do ne~ erlandés e das variedades do chamado baixo alemao faladas no noroeste da Alemanha. Jamais um cidadio dos Paises Baixos diré que fala uma variedade do baixo alemiio. Por razdes politicas e * Talvez por isso 6 que o lingijista norte"americano William D. Whitney, um dos mais importantes da histéria da lingiiistica, dizin, j4 no sécule XIX, que uma lingua nao se define: 36 é possivel mostré-la e descrevé-la (“No one can define, in the proper sense of that term, a language: for it is a great concrete institution, a body of usages prevailing in a. certain community, and it can only be shown and described”, p. 157). AFINANDO CONCETIOS 35 culturais, ele sempre se reconhecera como membro de uma comu- nidade que fala uma lingua especifica’. A lingiistica propriamente dita (i.e., a ciéncia que recortou como. objeto a lingua em si, a lingua em sua imanéncia, em sua realidade estrutural desvinculada, em principio, de suas condicées externas) postulou um a priori, ou seja, a suposigao tacita de que, por tras de toda a variagao constitutiva de uma lingua, existe uma unidade sistémica (suposicao nunca, porém, efetivamente demonstrada). Milroy (2001) e Romaine (1994) argumentam que esse a priori resultou do quadro de crengas no interior do qual a lingiiistica estrutural se constituiu como ciéncia. Tendo sua origem no con- texto cultural europeu, ela acabou por reproduzir, em seus mode- los teéricos, a concep¢aio de lingua ai vigente — qual seja a identi- ficagéo da lingua com a norma-padrao. Essa concepcaio derivou do fato de, na Era Moderna (desde o século XV), a lingua ter se tornado assunto de Estado nos paises europeus, que, como parte do processo de centralizagao caracte- ristico daquela conjuntura histérica, desenvolveram politicas lin- guisticas homogeneizantes em seus territorios. Dessa identificagdo da lingua com a norma-padrao decorre a dificuldade da lingiiistica e dos lingitistas em acomodar em seus modelos tedricos a heterogeneidade empirica que caracteriza qual- quer realidade lingiifstica‘. Nesse sentido, nao foi ainda superada (nem ha indicios de que venha a ser no futuro préximo) uma divisdo de trabalho nos estudos lingilisticos a lingiiistica segue sob 0 pressuposto tedrico da necessdria idealizagéo homogeneizante da lingua, cabendo a heterogeneidade, em suas diferentes faces, a outras disciplinas "Uma interessante discussiio dessas questdes pode ser encontrada no capitulo 4 de Halliday, McIntosh & Strevens (1974) ‘Uma aniilise critica de aspectos dessa situagiio teérica pode ser lida em Weinreich, Labov & Herzog (2006). 36 NORMA CULTA BRASILEIRA! DESATANDO ALGUNS NOS » Cafios AlbstioFarace — a dialetologia, A sociolingiiistica, 4 lingiistica histérica, a estilistica, a lingiistica antropoldégica. No passado, a suposico tacita de que, por tras de toda varia~ gao constitutiva de uma lingua, existe uma unidade sistémica ad- quiriu uma forma teérica na concepcdo de lingua como um siste- ma social uniforme que se materializaria nos usos individuais (es- tes sim heterogéneos), resumida na famosa dicotomia Jangue/ parole formulada por Ferdinand de Saussure. No entanto, por mais produtiva que esta concepgao possa ter sido em algumas areas dos estudos lingiiisticos (em especial na eriagdo da fonologia), ela se mostrou insuficiente para explicitar a imaginada unidade sistémica, bem como para dar conta da varia- bilidade lingiiistica supra-individual. O pressuposto forte dessa concepgfio era o de um sistema inico e uniforme, pensado como um nivel de grandes relacdes invariantes que conteria, em poténcia, todas as possibilidades expressivas materializaveis nos atos individuais de fala. Esse modelo nfo comportava a variabilidade como fendmena intra-sistémico, nem dispunha de estratos intermedidrios entre sistema e individuo. Nao tinha, portanto, recursos teéricos sufici- entes para absorver a heterogeneidade supra-individual (social) constitutiva da lingua. Foi preciso, entao, refinar o recorte teérico, nascendo dai o con- ceito de norma, formulado pelo lingitista Eugenio Coseriu no inicio da década de 1950. A perspectiva dicotémica (langue/parole, sistema/fala) deu lugar a uma perspectiva tricotémica (sistema/norma/fala). Mantido o olhar estruturalista de inspiragfio saussuriana, po- de-se entender norma, no plano tedrico, como cada um dos dife- rentes modos sociais de realizar os grandes esquemas de relacoes do sistema. Nesse sentido, cada norma se organiza como um certo arranjo de possibilidades admitidas pelo sistema. Cada um des- ses arranjos se desenha a partir do uso corrente, habitual de de- terminado grupo de falantes socialmente definido. ARNANDO CONCETOE 37 Coseriu, buscando dar mais preciséo ao conceito, afirmava que uma norma nao corresponde ao que “se pode dizer” (tarefa do sistema), mas ao que jé “se disse” e tradicionalmente “se diz” na comunidade considerada. E possivel, entdo, conceituar tecnicamente norma como deter- minado conjunto de fenémenos lingtisticos (fonolégicos, morfolo- gicos, sintaticos e lexicais) que sio correntes, costumeiros, habitu- ais numa dada comunidade de fala. Norma nesse sentido se identi- fica com normalidade, ou seja, com o que é corriqueiro, usual, habi- tual, recorrente (“normal”) numa certa comunidade de fala’. E importante deixar claro que a idéia de norma, embora nasci- da no interior do areabougo teérico estruturalista de inspiragao saussuriana, nao perde sua vitalidade quando transposta para ou- tros quadros tedéricos. E isso por forga do que nos imp6e a empiria‘ qualquer modelo tedrico da linguagem verbal tem, inexoravelmente, de se posicionar frente a variabilidade supra-individual, ou seja, frente ds diferentes variedades que constituem uma lingua. Assim, se adotarmos um olhar gerativista, diremos que a cada norma corresponde uma gramatica. Se adotarmos um olhar variacionista (sociolingiiistico ou dialetolégico), sera produtivo equiparar norma e variedade. ‘Qualquer das trés abordagens deixa claro um dado fundamental para o estudo das linguas: toda e qualquer norma (toda e qualquer variedade constitutiva de uma lingua) é dotada de organizagaio*®. Cada *Uma norma néo comporta apenas um conjunto de fendmenos fixos: ela inchui também, como é prdprio das manifestagdes da linguagem verbal, fendmenos em yariagdo, coma teremos a oportunidade de ver ao langa de nossa diseussao, *O lingitista norte-americano Edward Sapir, em artigo de 1924, utilizou a expressio plenitude formal para se referir ao fato de que toda e qualquer manifestagao da lingua- gem verbal (toda e qualquer norma lingilistica, toda e qualquer variedade lingilistica) tem organizacio, tem gramética (ef. Sapir, 1924: 33). 0 senso comum, orientado pelo imaginario de que uma lingua é unitéria e homogénea, tem grande dificuldade para assimilar este dado fundamental da constituigio e funcionamento da linguagem verbal Costuma, entdo, tratar as variedades distantes de um certo modelo como erradas, desestruturadas, corrompidas. Um dos desafios mais dificeis para quem se inicia nos 38 NORMA CULTA BRASILEIRA: DESATANDO ALGUNS NOS @ Carlos Alberto Forace: abordagem teérica construira, a partir de seus pressupostos ge- rais, um modelo diferente dessa organizac¢éo — num, cada norma serA entendida como um certo arranjo das grandes relacgoes sistémicas; noutro, como a materializacio de uma determinada gramatica (de um certo conjunto de principios ¢ regras)i no ter ceiro, como determinada conjungao de uma certa combinagao de regras variaveis. No entanto, nenhuma teoria deixa de reconhe- cer o fato basico: nao ha norma sem organizagao’. A plenitude formal: consequéncias de seu reconhecimento O fato de que toda norma tem uma organizacéo estrutural deixa sem fundamento empirico enunciados de senso comum em que se afirma, por exemplo, que os analfabetos ou os falantes de variedades do chamado portugués popular falam “sem gramati- ca”. Se toda norma é estruturalmente organizada, é impossivel falar sem gramatica. Esse fato pde igualmente sob suspeita a prépria nogao de erro em lingua. Se um enunciado é previsto por uma norma, nao se pode conden4-lo como erro com base na organizagao estrutural de uma outra norma. Desse modo, o lingiiista nao pode escapar da tarefa de desenvolver instrumentos descritivos adequados para dar conta das diferengas de organizagao estrutural entre as mui- tas normas de uma lingua. Os fatos nfo lhe autorizam optar pela solucdo simples do conceito de erro. estudos cientificos da linguagem verbal é precisamente aprender a reconhecer a plenitu- de formal de todas as variedades lingitisticas. Sem isso, nenhuma discussio sobre lingua consegue avancar, 7 O filésofo e lingitista Wilhelm von Humboldt, um dos mais importantes pensadores da histérin da lingiifstica, resumiu num sé enunciado o fata de todas as manifestacdes da linguagem verbal terem, de um lado, organizagiio e, de outro, serem extremamente heterogéneas. Dizia ele (em texto publicado postumamente em 1836, cf. Humboldt, 1988: 56): “Na linguagem, pois, a individuslizagaono interior de uma confarmidade geral é tao maravilhosa que se pode dizer com igual correg&o que o conjunto da humanidade tem uma 86 lingua e que cada ser humano tem uma lingua que lhe 6 exclusiva”. APMANDO CONCETOS ay Do mesmo modo, 0 fate de toda norma ter organizacao estru- tural (ter uma gramatica) deixa infundada a afirmacao que apare- ceu num artigo de um jornal de grande circulacao (e que trazemos aqui porque resume todo um discurso sobre a lingua portuguesa do Brasil) de que “o portugués aqui [no Brasil] transformou-se num vernaculo sem légica e sem regras”®. Ha, obviamente, grupos de falantes que nao dominam ou do- minam precariamente determinadas normas. Um bom exemplo disso é a situagéo dos falantes de cultura intrinsecamente urba- na. Em geral, eles s6 conseguem reproduzir as normas rurais por meio de estereétipos. Outro exemplo € a situagdo de falantes pouco (ou mal) escolarizados que nao dominam (ou dominam apenas pre- cariamente) a norma da escrita formal. Por outro lado, apesar de haver diferencas entre os falantes quanto ao dominio das muitas normas sociais, nao ha falantes que falem sem o dominio de alguma norma. Diferentes grupos sociais, por terem historias e experiéncias culturais diversas, usam sim normas diferenciadas (e até discordantes). Mas nao ha grupo so- cial que nao tenha sua norma, que fale sem o suporte de uma dada organizagao estrutural (nado ha, portanto, “verndculos sem légica @ sem regras”; o que pode haver — e ha — sao vernaculos com outra légica e com outras regras), (0) Uma comunidade, varias normas A situacdo, porém, é ainda mais complexa porque, na verdade, cada comunidade lingiifstica tem varias normas (e nfo apenas uma). Nesse sentido, uma comunidade lingiistica nfo se caracteriza por uma unica norma, mas por um determinado conjunto de normas. Essa diversidade esta diretamente correlacionada com a pro- pria heterogeneidade da rede de relacées sociais que se estabele- *Trata-se de artigo assinado por Marilene Felinto ¢-publicada, sob o titulo "O portugués que brasileiro nao sabe eserever*, no jornal Folha de S, Paul (04/01/2000), 40 NORMA CULTA BRASILEIRA; DESATANDG ALGUNS NOS.» Carlos albert Farace cem no interior de cada comunidade lingiiistica. Dai que hoje muitos estudiosos da heterogeneidade sociolingiiistica estejam optando por entender uma comunidade lingiiistica como composta de varias (as- sim chamadas) comunidades de pratica (ver, por exemplo, Eckert 2000). Grosso modo, pode-se entender por comunidade de pratica um agregado de pessoas que partilham experiéncias coletivas no trabalho, nas igrejas, nas escolas, nos sindicatos e associagoes, no lazer, no cotidiano da rua e do bairro ete. Uma mesma pessoa des- sa coletividade, bem como cada um de seus pares, pertence si- multaneamente a diferentes comunidades de pratica, Em cada uma dessas comunidades, costuma haver modos pe- culiares de falar (ou seja, hd normas especificas) e o comporta- mento normal do falante é variar sua fala de acorda com a comu- nidade de pratica em que ele/ela se encontra. E parte do reperté- rio lingiiistico de cada falante um senso de adequagao, ou seja, ele/ela acomoda seu modo de falar 4s praticas correntes em cada uma das comunidades de pratica a que pertence. Por isso, se diz que cada falante é um camaleao lingilistico. Obviamente, ele/ela pode romper as expectativas por diferentes razdes, entre outras: causar riso, provocar conflito ou assinalar que seus lagos com aque- la comunidade esto se tornando ténues’. Pode-se observar, diante desse panorama de diversidade, que quan- to mais tem avancado o estudo da heterogeneidade lingitistica, mais ela se mostra complexa. Assim, embora necessérias, sfio j4 insuficientes as categorias tradicionais com que a sociclingilistica comegou a trabalhar, como idade, género, etnia, nivel de renda e escolaridade, Tornou-se in- dispensivel analisar também as miltiplas redes de relacdes sociointeracionais de que participam os falantes‘ elas sfio fatores dire tamente correlacionados com os diferentes modos de falar (e escrever), com as diferentes normas de uma determinada eomunidade". * Para mais detalhes sobre comunidades de pratica, consultar Wenger (1998), Para uma visio geral de seu uso na pesquisa sociolingiistica, consultar, entre outros, Milroy & Gordon (2003), cap. 5, © Trabalho pioneiro nesee sentido foi Milroy (1980). No Brasil, a8 pesquisas de Stella Maris Bortoni-Ricardo sao referéncia desde seu hoje classico estudo sobre oa migrantes no Distrito Federal (Bortoni-Ricardo, 1985), APRNANDO CONCEITOS al Compreender bem esse amplo quadro empirico é essencial. Sem essa compreensao, faltaré chio firme para fazer avangar o debate das questies lingiiisticas. Compreendidos esses dados fun- damentais de como funciona a linguagem verbal, pode-se dar um passo a frente buscando esclarecer outro aspecto fundamental: as valoragoes sociais que recobrem diferentemente cada norma constitutiva da lingua e os muitos e complexos efeitos dessas dis- tintas valoragoes — discussao que faremos adiante. [9 Alguns exemplos Por ora, para deixar sedimentado o conceito de norma, é opor- tuno considerarmos alguns exemplos. Comecemos pela pronin- cia de palavras como tia, tinha, dia, direito. Em algumas comuni- dades brasileiras, a norma (0 ‘normal’) é a pronincia africada (representavel, para nossos fins, como tehia, tchinha, djia, djireito); em outras comunidades, a norma é a pronincia nao-africada. Outro exemplo. A norma, em boa parte do Rio Grande do Sul, no tratamento familiar do interlocutor, é 0 uso do pronome tu; em outras partes daquele Estado e do pais, a norma é 0 uso do prono- me vocé!', Outro aspecto interessante daquela norma gaticha é 0 uso de tu com a forma verbal da chamada terceira pessoa gramatical. O co- mum (0 ‘normal’ é dizer tu vai, tu disse, tu pode, tu correu etc. No entanto, num contexto em que ha um leve grau de distanciamento entre os interlocutores, é comum os falantes passarem a usar o pro- nome tizcom a forma verbal da chamada segunda pessoa gramatical (ou sé a forma verbal sem o pronome explicito). Vai se dizer, entdo, (tu) vais, (tu) disseste, (tu) podes, (tu) correste etc. “ Para um estudo dialetolégico do uso de tue vooé no Rio Grande do Sul, consultaro Atlas: Lingitistico-Etnografico da Regiéo Sul do Rrasil, vol. 2. “ Mais interessante ainda é observar que, se seguidas de outras formas verbais, estas poderio vir com ou sem concordancia de segunda pessoa, segundo um rico sistema de principios sociolingiiisticos variaveis, como bem demonstra o estudo de Amaral (2009). 42 NORMA CULTA BRASILERA: DESATANDO ALGUNS NOS = Corts Alberto Fonco Na norma curitibana, que usa 0 pronome vocé, essa diferenga de graus de proximidade se expressa pela escolha do pronome pos" sessivo: sera teu (Vocé deve sempre trazer o teu livro) se a relacio com o interlocutor for de total familiaridade e sera seu (Vocé deve sempre trazer o seu livro) se a relagao for de relative distanciamento. Ainda um exemplo. Em Portugal, ha uma norma em que é corrente o uso do pronome possessivo vosso significando “de wocés”, Nao se usa mais 6 pronome vos — que desapareceu de praticamente todas as variedades da lingua e foi substituido, no plural, pelo pronome vocés. No entanto, essa norma lusitana man- tém vivo 0 possessive vosso — agora em outra chave gramatical, ou seja, em correlagdo com o pronome vocés. Nesse caso, 0 corriqueiro, o habitual, o normal é dizer: Para 0 exame, vocés devem trazer os vossos livros. Ja no Brasil, a norma, nesse caso, é variavelmente o pronome seus ou a expressao de vocés. Dizemos, entao: Para o exame, vocés devem trazer os seus livros. Ou: Para o exame, vocés devem tra- zer os livros de vocés. {0 Normas, identidades e contatos Numa sintese, podemos entao dizer que norma é 0 termo que usamos, nos estudos lingtiisticos, para designar os fatos de lingua usuais, comuns, correntes numa determinada comunidade de fala. Em outras palavras, norma designa 0 conjunto de fatos lingiiisticos que caracterizam o modo como normalmente falam as pessoas de uma certa comunidade, incluindo (como observamos na nota 5) os fenémenos em variagao. Os diferentes grupos sociais se distinguem, portanto, pelas formas de lingua que lhes sao de uso proprio. Assim, numa socie- dade diversificada e estratificada como a brasileira, haverd int- meras normas lingiisticas, como, por exemplo, normas caracte- risticas de comunidades rurais tradicionais, aquelas de comuni- ARNANDO CONCETOS 43 dades rurais de determinada ascendéncia étnica, normas carac- teristicas de grupos juvenis urbanos, normas caracteristicas de populacdes das periferias urbanas, e assim por diante. Um mesmo falante, como vimos, domina mais de uma norma (ja que a comunidade sociolingiiistica a que pertence tem varias nor- mas) ¢ mudard sua forma de falar (sua norma) variavelmente de acor- do com as redes de atividades e relacionamentos em que se situa. Como as normas sao, em geral, fator de identificagdo do gru- po, podemos afirmar que o senso de pertencimento inclui o uso das formas de falar caracteristicas das praticas e expectativas lin- giiisticas do grupo. Nesse sentido, uma norma, qualquer que seja, nao pode ser compreendida apenas como um conjunto de formas lingilisticas; ela é também (e principalmente) um agregado de valores socieculturais articulados com aquelas formas. A forga identitéria das normas lingtiisticas nao se faz apenas endocentricamente, mas também exocentricamente. Assim como ha uma tendéncia dos falantes a se acomodar ds praticas lingilis- ticas normais de seu grupo social (¢ isso pode se transformar em motivo de orgulho e, eventualmente, em fator de resisténcia a processos sociais sentidos como ameacadores ao grupo"), 0 dese- jo de se identificar com outro(s) grupo(s) ou a prépria pressio das redes de relagGes sociais externas ao grupo podem levar os falan- tes a buscar 0 dominio de outra(s) norma(s)"*, Um exemplo do primeiro caso sfio as normas dos adolescen- tes urbanos e um exemplo do segundo é o movimento em direcaio as normas urbanas percebido nas geracées mais novas da popula- gao que migrou, nas décadas passadas, do campo para a cidade (cf. Bortoni-Ricardo 2005; Lucchesi 2002). “0 cldssico, nesse sentido, 9 estudo que Labov desenvolveu na itha de Martha's Vineyard (BUA) — ver Labov (1963). “Em Signorini (2002), pode-se ler uma discussiio hastante interessante desses comple~ xos processos de instabilidade, flutuagdes, deslocamentos e também dos modos de regulagao e calibragem das agdes lingiiisticas dos falantes. 44 NORMA CULTA BRASILERA: DESATANDO ALGUNS NOS # Calor Alberto Foraco Numa sociedade complexa, nao ha, obviamente, um total encapsulamento e insulamento dos grupos sociais, nem de seus membros. Assim, é inevitdvel o contato entre as muitas normas no intercémbio social, seja pelo encontro de falantes de diferen- tes normas, seja pelo fato corriqueiro de um mesmo falante domi- nar mais de uma norma — dominar no sentido ativo, isto é, de ser capaz de fazer uso efetivo de mais de uma norma; ou apenas no sentido receptivo, isto é, de ser capaz de reconhecer e compreen- der determinada(s) norma(s), mas nao de usa-la(s) efetivamente. Um dos resultados desses contatos sao as miultiplas ¢ conti- nuas interinfluéncias entre as normas. Tome-se, como exemplo, a situagdo de uma comunidade ainda essencialmente rural que, no entanto, tem contato continuo com as normas urbanas por meio do rddio, da televisio e da escola e pense-se no espraiamento de caracteristicas urbanas na fala dessa comunidade — espraiamen- to que sera tanto maior quanto mais positiva for a orientagao dela em diregdo 4 cultura urbana’. Nio existe, em suma, uma norma “pura”: as normas absor> vem caracteristicas umas das outras — elas sio, portanto, sem- pre hibridizadas. Por isso, nao é possivel estabelecer com absolu- ta nitidez e precisdo os limites de cada uma das normas — havera sempre sobreposigées, desbordamentos, entrecruzamentos. Isso, evidentemente, torna o trabalho cientifico com a heterogeneidade lingiistica ainda mais complexo e nao é de ad- mirar que nao haja ainda, no interior dos estudos lingiiisticos, um mo- delo teérico capaz de dar conta de toda essa complexidade. Os modelos teéricos atuais enfocam apenas parcelas desse todo. Por outro lado, a lingiiistica histérica tem demonstrado que o contato e a hibridizacio das normas sfo fatores que favorecem o desencadeamento de mudangas lingiiisticas em diferentes dire- g6es (cf., para mais detalhes, L. Milroy, 1980 — entre outros), Por- “Um estudo de caso de assimilagao de caracteristicas de norma urbana standard por uma norma rural nao-standard pode ser lido em Guy & Zilles (no prelo). AFMANDO CONCBIOS 45 tanto, assim como nfo ha norma “pura”, nfo ha também nenhuma norma estatica. Estes diversos fatores — contatos entre normas, hibridizagdes e mudancas — acrescentam ingredientes fundamentais a qual- quer discussio sobre questées de lingua: nunca é possivel deixar de considerar que toda realidade lingiiistica é organizada, hete- rogénea, hibrida e mutante™. Tendo este panorama geral sobre as normas lingiiisticas no horizonte, podemos nos encaminhar para a discussaéo da chamada norma culta, Norma CuLTA Antes de mais nada, é preciso dizer que nao é simples conceituar e identificar, no Brasil, a norma a que se da o qualificativo de culta. Para facilitar, pode ser util tomar eomo ponto de partida uma bre- ve fotografia de pelo menos parte do amplo espectro das varieda des que constituem a lingua portuguesa no nosso pais. [BN Os trés continua e a linguagem urbana comum Embora nao exista ainda um levantamento exaustivo (ou su ficientemente abrangente) da diversidade constitutiva do portu- gués brasileiro, dispomos j4 de ricos acervos de dados dialetolé- gicos é sociolingilisticos, além de um significativo registro da nossa lingua escrita do ultimo meio século. Ha, desses dados, consolidagées parciais, mas ainda nos falta uma consolidagio geral que apresente uma descricaio mais siste- matica da cara lingiiistiea do pais eomo um todo. ** Niio é demais lembrar aqui que eatea fatos caracteristicos de toda realidade lingiistica conflitam com as representagSes que o senso comum tem da lingua como uma-realidade homogénea, pura ¢ estatica. Essas representagdes impedem, muitas vezes, um debate proficuo sobre questées lingilisticas. 46 NORMA CULTA BRASILEIRA: DESATANDO AUGUNS NOS ® Carlos Aiberto faraco Apesar dessa auséncia, esta bastante claro que nenhum corte dicotémico da realidade lingiiistica brasileira — como portugués culto/ portugués popular, portugués formal/portugués informal ou identi- ficacgées simplistas como portugués formal/lingua escrita e portu- gués informal/lingua falada — é suficiente para representa-la. O modelo que, no momento, parece fornecer o melhor instru- mental para registro da diversidade ja estudada é o proposte por Stella Maris Bortoni-Ricardo (2005), que busca distribuir as varie- dades em trés continua que se entrecruzam: o continuum rural- urbano, o de oralidade-letramento e o da monitoragao estilistica. Considerando as caracteristicas da urbanizacaio do pais (que, em menos de cingiienta anos, inverteu a distribuicio da populagiio entre o campo e cidade, tornando o Brasil um dos paises mais urbanizados do mundo, com aproximadamente 80% de sua popula- ¢ao vivendo hoje nas cidades); e o aleance de seus meios de comuni- cago social (o rédio esta em praticamente todos os lares brasilei- ros e a televisio, com produgao e transmissdo fortemente centrali- zadas, chega a mais de 90% deles), podemos dizer que as varieda- des que exercem, hoje, a maior forca de atracao sobre as demais sao as faladas pelas populagdes tradicionalmente urbanas, situadas na escala de renda de média para alta e que, por isso, tem garantido para si, historicamente, bons niveis de escolaridade (pelo menos a educacdo média completa) e 0 acesso aos bens da cultura escrita. Adotando o modelo dos trés continua, podemos caracterizar estas variedades como aquelas que se distribuem no entrecruzamen- to do pélo urbano (no eixo rural-urbano) com 0 pélo do letramento (no eixo oralidade-letramento). No eixo da monitoragao estilistica, essas variedades conhecem, como todas as demais, diferentes esti- los, desde os menos até os mais monitorados. A maior forca de atracao dessas variedades (intimamente re- lacionadas com a vida ¢ a cultura tradicionalmente urbana) e a observagéo de seus efeitos levaram Dino Preti, um dos principais estudiosos da variacao lingiiistica do Brasil, a designa-las pela expressao linguagem urbana comum (ver Preti, 1997). AFNANDO: CONCETOS ay Essas variedades sio dominantes nos nossos meios de comu- nicacdo social’’. Seus diferentes estilos (ive., suas diferentes ma- nifestagdes no continuum da monitoragao estilistica) esto ai muito bem representados, desde os estilos menos monitorados (nas novelas, programas humoristicos e sitcoms, por exemplo), até os mais monitorados (em noticidrios e programas de entrevis- tas como o emblematico Roda Viva da TV Cultura de So Paulo). Essa dominaneia lhes da ampla audibilidade e ressonancia. Nenhum outro conjunto de variedades do pais tem a mesma audibilidade e ressonancia’*. Nao é de estranhar, portanto, que sejam justamente elas a exercer um poder centripeto permanen- te e irresistivel. Trazem para mais perto de si as variedades rurais e rurbanas faladas pelas populagdes que, por forca do intenso éxodo rural das ultimas décadas, se tornaram urbanas sé mais recentemente™. O conjunto destas variedades constitui o que alguns estudiosos costu- mam chamar de portugués popular brasileiro em contraste com um portugués dito culto (cf, Mattos e Silva, 2004a: e Lucchesi, 1994). Ao mesmo tempo, é a linguagem urbana comum que caracte- riza boa parte das manifestagdes orais mais monitoradas dos fa- “’ Pelus caracteristicas socineconimicas # sociolingiisticas da maioris dos professores da educagiio basica, podemos afirmar que estas variedades, na intersecgao com um grau (digamos assim) médio de letramento e pelo menos em seus estilos medianamente monitorados, sao dominantes também no contexto escolar. Uma discussio ampla dessa questio pode ser lida em Mattos e Silva, 2004b. ™ Como frute das politicas homogeneizantes do Estado Novo getulista (1937-1945), nos- sos meios de comunicagiio social — o rédio, primeiro, e, depois, a televisio — tenderam sempre a uma pasteurizagiio da variedade lingiiistica, harrando a presenga, no seu espa- go, da maior parte das variedades do portugués faladono Brasil. 86 mais recentemente é que se comecau a fazer mengio 4 necessidade de dar espacoe audibilidade aos diferentes {assim chamados) sotaques brasileiros. Note-se, porém, que por “sotaques” normalmente se entende, neste tipo de discurso, no toda e qualquer variedade, mas apenas as diferen- tes pronincias regionais das variedades urbanas tradicionais, ou soja, da linguagem urbana comum. " Os efeitos centripetos das variedades tradicionalmente urbanas estao ainda por ser analisados em detalhes, Na entanto, eles sfo jd bastante perceptiveis nos estudos de Bortoni-Ricardo (ver, por exemplo, Bortoni-Ricardo, 2005). 48 NORMA CULTA BRASILEIRA: DESATANDO ALGUNS NOS a Cortes Alberto Foraco lantes que poderiam ser classificados de “cultos”. Em outros ter- mos, a norma culta brasileira falada pouco se distingue dos esti- los mais monitorados dessa Jinguagem urbana comum, segundo fica demonstrado pela andlise dos dados coletados pelo projeto NURC (Norma Lingiiistica Urbana Culta) — (cf. Pretti, 1997). Essa constatagfio empirica causou surpresa em alguns estudio- sos dos dados do NURC. Imaginavam eles que os falantes cultos, nas situagGes de fala mais monitoradas, tinham uma variedade bem distinta da linguagem urbana comum, ou seja, acreditavam eles que, na norma culta falada, os falantes seguiam estritamente, por exem- plo, os preceitos da tradicgéo gramatical normativa, A realidade, porém, desconcertou o imagindrio: a norma cul- ta brasileira falada se identifica, na maioria das vezes, com a lin- guagem urbana comum, ou seja, com a fala dos falantes que estao fora do grupo dos chamados (tecnicamente) de cultos (cf. Preti, 1997: 18)" e nfo propriamente com as prescricdes da tradicao gra- matical mais conservadora™. Vale lembrar, neste ponto, que o projeto NURC restringiu seu corpo de informantes a falantes que tinham escolaridade supe- rior completa. $6 estes eram considerados pertencentes ao grupo dos “cultos”, ou seja, dos usuarios da “boa linguagem”. Encontramos aqui um primeiro critério para identificar o fe- nomeno lingiiistico a que se dé o nome de norma culta‘ ela seria a “ Preti (1997! 26) conclui seu texto com a seguinte observagio: “Em sintese, 0 que 0 corpus do Projeto NURCISP tem-nos mostrado (e isso jd na década de [19]70) 4 que os falantes cultos, por influéncia das transformagées sociais contempordneas a que aludi- mos antes (fundamentalmente, o processo de democratizagao da cultura urbana), 0 uso lingiiistico comum (principalmente, a agdo da norma empregada pela midia), além de problemas tipicamente interacionais, utilizam praticamente o mesmo discurso dos falan- tes urbanos comuns, de estolaridade média, até em gravagies conscientes e, portanto, de menor espontaneidade”. 41 Isso nda significa que os falantes ditas cultos nao usem estruturas preconizadas pela tradicdo gramatical conservadora em sua fala monitorada. Algumas destas ocorrem na norma culta falada, mas, pelo que os dados indicam, sempre varinvelmente com suas correspondentes nfio“autorizadas” (e até mesmo “condenadas’) pela tradigao gramatical mais conseryadora, que, no entanto, silo normais na linguagem urbana comum (ef, a discussiio em Leite, 1997). AFINANDO CONCETTOS ag variedade de uso corrente entre falantes urbanos com escolarida- de superior completa, em situagdes monitoradas. Ou seja, a nor- ma culta seria, pelos critérios do NURC, a variedade que estA na interseccio dos trés continua em seus pontos mais proximos do urbano, do letramento e dos estilos mais monitorados. Nesse sentido, ela seria, no Brasil, a manifestagao lingiiistica de uma parcela infima da sociedade, considerando que aqui, no inicio do século XXI, menos de 10% da populagao adulta tem es- colaridade superior. Desse modo, a norma culta nfo estaria, en- tre nés, desvencilhada de um certo matiz aristocrdtico: seria pro- priedade exclusiva da elite altamente letrada. No entanto, a forga centripeta da linguagem urbana comum quebra, em parte, esse vinculo! de um lado, porque é ela que bali- za, de fato, o falar culto brasileiro (a norma culta falada pouco se distingue dela); e, de outro, porque é hegemdnica nos meios de eomunicacéo social®*. Em suma, é esta linguagem urbana comum que baliza de fato o falar culto (o que se poderia chamar tecnicamente de norma cul- ta falada) e, ao mesmo tempo, tem poderoso efeito homogeneizante sobre as variedades do chamado portugués popular brasileiro”. As principais caracteristicas sintaticas da linguagem urbana comum do Brasil podem ser facilmente catalogadas: desde o sé- culo XTX elas estao listadas pelos comentadores gramaticais mais conservadores como “erros comuns” da fala brasileira. Isto é, as propriedades correntes (habituais, normais) na nossa linguagem ® Diante disso, fiea a questfo: tem sentido ainda insistirmos numa norma culta falada como distinta da linguagem urbana comum em seus estilos mais monitorados? ” Apesar desse poder centripeto que a linguagem urbana comum exerce sobre as varie~ dades do portugués popular, no podemos deixar de notar que talvez esteja se consolidan- do, entre as geragdes mais novas da populagho urbana da chamada periferia das grandes cidades, uma certa resisténcin a esse poder centripeto. O rap (que tem ocupado espaco nos meios de comunicacio social) ¢ as manifestagdes literdrias como a de Ferréz, entre outros, podem estar sinalizando uma ereacente direedo anti-homogencizante, Sé o estu- do empirico sistemiatico ¢ 0 futuro poderao esclarecer e confirmar (ou nfo) essa nossa impressiio. 50 NORMA CULTA BRASILEIRA; DESATANDG ALGUNS NOS « Carlos Alberto Fanaco: urbana comum tém sido tradicionalmente classificadas nfio como peculiaridades do portugués urbano brasileiro, mas como “erros’. Interessante notar, nesse sentido, que os comentadores do sé- culo XIX e inicio do XX, em geral, nao distinguiam propriedades do portugués brasileiro que poderiamos chamar de popular das proprie- dades do portugués que estamos chamando de linguagem urbana comum das populagdes tradicionalmente urbanas e escolarizadas. Em outras palavras (e aproveitando a formulagao de Bortoni- Ricardo, 2005), esses comentadores nao distinguiam os tragos gra- duais (comuns, em graus variaveis, a todas as variedades brasi- leiras — 0 uso de ‘ele’ como objeto direto, por exemplo) dos tragos descontinuos (caracteristicos das variedades ditas populares — as prontncias barde por balde ou teia por telha, por exemplo). Como veremos adiante ¢, em mais detalhes, no capitulo 2, a nossa elite letrada conservadora, em seu afa de parecer européia e “civilizada”, recusou legitimidade tanto 4s variedades do portu- gués brasileiro popular, quanto aquelas do portugués brasileiro dito culto: tudo o que se afastasse da norma-padrao artificialmen- te construida era tachado de “erro”, mesmo que normal (i.e., co- mum) na fala mais monitorada dos falantes cultos. Ainda hoje, essa indistingao continua muito presente nas rea- codes ds criticas dos lingiiistas 4 norma-padrao artificialmente construida no século XIX, Nessas reagées, o eixo basico da argu- mentacao continua sendo: ou a norma-padrio (artificial) ou o caos. Embora alguns desses pretensos “erros” estejam ja abonados pelos autores da norma gramatical contemporanea (em razdo de terem sido usados na escrita por autores consagrados), 0 imagi- nario que transformou nossas peculiaridades lingiiisticas em “er- ros” é ainda forte nas discussées sobre lingua no Brasil, como ve- remos ¢m mais detalhes a frente. Nao podemos deixar de dar destaque, neste ponto, ao fato de que os chamados “erros” comuns permanecem inalterados na fala AFINANDO CONCETOS: 51 culta brasileira apesar da repetida e insistente condenagado de mais de um século dos comentadores ¢ manuais mais conservadores. Ha aqui, sem sombra de duyida, um sério (e secular) equivoco de andlise da realidade lingiiistica do nosso pais: o que se chama de “erros” comuns — por serem justamente “erros” de todos — constituem, na verdade, caracteristicas definidoras do portugués brasileiro urbano comum. Por isso mesmo, nao ha sobre eles qual- quer efeito, seja da recorrente condenagado conservadora, seja da insistente aco “higienizadora” da escola. Milroy & Milroy (1999) desenvolvem, a propdésito do inglés britanico, rica discussao so- bre as atitudes condenatérias em lingua e seu pouco ou nenhum efeito sobre o comportamento dos falantes. Essas consideracdes nfo encerram o tema da norma culta. Ou- tros aspectos precisam ser ainda apreciados — o que fazemos a seguir. () Algumos distingées pertinentes Estamos usando no singular as expressées norma culta e lin- guagem urbana comum. £ importante nao perder de vista, porém, que essas manifestagdes lingilisticas, embora tenham certa unidade, nfo so uniformes: como qualquer realidade lingijistica, elas com- portam variabilidade, Como bem demonstrou Celso Cunha (1985: 36), “unidade lingitistica no implica uniformidade normativa”. Essa variabilidade pode ser observada no modo como a nor- ma culta e a linguagem urbana comum sao realizadas em diferen- tes regides do pais ou, mesmo, entre diferentes geragdes de falan- tes. Assim, sao comuns e cultas as pronuncias ‘pasta’ ou ‘pashta’ (para a palavra pasta), ‘dia’ ou ‘djia’ (para a palavra dia), ‘awto’ ou ‘alto’ (para a palavra alto). Igualmente o sao (cf. Luft, 2006: 79 e 534) as regéncias assis- tir 0 jogo e assistir ao jogo (assistir no sentido de ver), visar o cargo e visar ao cargo (visar no sentido de almejar); e as coloca- gdes (cf. Cunha e Lindley Cintra, 2001: 314-317) Ele néo nos vai 52 NORMA CULTA BRASILEIRA: DESATANDO ALGUNS NOS # Caries Alberto Farace dar um presente caro / Ele naéo vai nos dar um presente caro / Ele nao vai dar-nos um presente caro. Por outro lado, é também indispensavel distinguir a norma culta falada da norma culta escrita. Isso porque ha fenomenos que ocorrem na fala culta (pela sua grande proximidade com a lingua- gem urbana comum), mas no ocorrem na escrita culta ou chegam mesmo a ser criticados quando nela:aparecem. Em alguns casos, somos ainda uma sociedade que, em situagdes altamente monitora- das, usa uma variedade na fala ¢ outra na escrita. Um exemplo simples dessa diferenga sio os pronomes pes- soais obliquos de terceira pessoa (0, a, os, as). Eles praticamen- te desapareceram da norma culta falada no Brasil. No entanto, ainda so bastante comuns na escrita culta (Nés ja o analisa- mos em outras ocasides — em que o pronome o pode ter como antecedente, por exemplo, a expressio nominal plena este fe- némeno socioeconémico). Embora na fala culta a sintaxe preferida nesse caso seja a do objeto nulo (a posigdo do objeto direto fiea vazia — Nés ja analisa- mos em outras ocasides) ou a mera repeticao do sintagma pleno (Nés ja analisamos este fendmeno socioeconémico em outras oca- sides), encontramos também os pronomes retos de terceira pes- soa (Nés jé analisamos ele em outras ocasides). Ha, porém, por mera ranhetice de certa tradigfio gramatical™, uma interdicfio sobre este uso do pronome reto na norma culta eserita, embora tal uso ocorresse j4 no periodo arcaico da lingua (ef. Silveira Bueno, 1955: 210-211) e, modernamente, alguns escri- * Nao posso deixar de comentar, neste ponto, um fate que muito diz das dificuldades que ha no nosso pais para lidar com a realidade da lingua portuguesa urbana comumd/culta que aqui se fala @ se escreve. A ranhetice a que me refiro ¢ tao nefasta que resultou num ato de censura de um texto que escrevi para a revista Discutindo lingua portuguesa (Sio Paulo: Editora Escala Educacional), Era um texto sobre mudanga linguistica. Citei o caso do elena posig&io de objeto direto e afirmei que a restrigdo sobre seu uso normal na eserita decorria de mera ranhetice de certa tradi¢aio gramatical. O texto foi publicado, mas (conforme constatei, estupefito, ao ler a revista) esta afirmagdo foi consurada pelos editores/revisores! APRIANDO CONCERTOS 53 tores consagrados, como Clarice Lispector e Luis Fernando Verissi- mo, tenham lhe dado acolhida em seus textos”. Outro exemplo curioso é a contracao da preposigao com 0 pro- nome sujeito ou com o determinante (artigo ou demonstrative) de um sintagma nominal sujeito de uma oragdo subordinada reduzi- da de infinitivo. Na norma culta falada, essa contracio é a cons- trucio normal. Assim, dizemos: O fato deles aceitarem propina nfo espantou ninguém, O motivo do juiz transferir o julgamento foi um pedido do promotor, Apesar da chuva espantar alguns turistas, a festa foi um sucesso. Muitos, porém, consideram inadequada sua ocorréncia na escrita culta. Ha até aqueles que chegam a afirmar que a contra~ cdo nao segue a “norma da lingua” — seja 14 o que querem dizer com essa expressao™. Nao ha, porém, para esse juizo prescritivo nenhum fundamen- to plausivel, como bem argumenta Evanildo Bechara em sua. Mo- derna gramatica portuguesa (p. 567-8). Apesar da cristalina argumentagao de Bechara, sustentada em exemplos de cldssicos da lingua, o texto do Acordo Ortografi- co assinado em 1990 pelos paises que tém como oficial a lingua portuguesa determina (em sua Base XVIII, item 2°, letra b) que nao se faca a contragdo na escrita. Quando tal Acordo comegar a vigorar, teremos, seguindo a argumentacdo de Bechara, empobre- cido os recursos estilisticos da lingua por mera picuinha. No entanto, 6 em tais picuinhas, como veremos adiante ao discutir o que chamamos norma curta, que se sustenta uma certa * Sobre isso ha uma interessante discussio, com farta exemplificacéo, em Bagno 2001, cap: 4, ¢ em Bagno 2003, cap. 3. Nio esquecamos da brilhante ansilise que Mattoso Camara Jiinior fez desse fondmeno em seu estudo “Ele como um acusativo no portugués do Brasil”, publicado originalmenteem 1957. * Esta obscura expressdo consta do Manual de redagao e estilo de O Estado de 8, Paulo {p. 88) 54 NORMA CULTA BRASILEIRA: DESATANOO ALGUNS.NOS s Corr Alberta Faraco disputa pelo poder simbélico de ditar o que constitui a lingua le- gitima no Brasil*’. Um exemplo um pouco mais complexo das diferencgas entre a norma culta falada e a escrita sio as chamadas oracées relativas cortadoras. Na fala culta brasileira, é comum (6 normal) 0 nao-uso da preposigAo antecedendo o pronome relativo, Dizemos, por exemplo, Este é o livro que mais gostei e mais raramente Este éo livro de que mais gostei. Para confirmar isso, basta analisar as falas em debates televisivos como os do programa Roda Viva (TV Cultura de Sao Paulo), em que, de regra, entrevistado e entrevista’ dores sao falantes brasileiros classificiveis no grupo dos chama- dos cultos. Tal sintaxe, porém, apesar de ser j4 encontrada com certa freqiiéncia em textos da grande imprensa (ef, Bagno 2001, cap. 3), é ainda considerada inadequada na escrita culta. Obviamente, esses dois fatos — a norma culta ser varidvel e haver diferencas entre a fala culta ¢ a escrita culta — so, de novo, determinantes de flutuacdes, desbordamentos e mudancas. De um lado, as fronteiras nunca sao bem precisas e, de outro, inovagdes na fala culta (sempre menos conservadora que a escrita) alean- gam inexoravelmente a escrita culta — mesmo que continuamen- te condenadas por certos comentadores gramaticais™. Um exemplo interessante dessas transposigdes da fala culta para a eserita sdo os verbos originalmente pronominais — como iniciar (A feira se inicia hoje), estragar (O leite se estragou), der- ramar (O vinho se derramou), quebrar (O vaso se quebrow), esgo- tar (A nova edi¢io ja se esgotou), deitar (Eles se deitam cedo) ete. * Sobre o eonceito de lingua legitima, ver Bourdieu (1996). ® Nessa sentido, a nossa linguagem urbana comum — da qual, como vimos, 8 norma culta falada poueo se distingue — exerce sua forga centripeta também sobre a norma eulta brasileira escrita, Eas descrigées do acervo de lingua escrita do Laboratorio de Estudos Lexicogrificos da UNESP de Araraquara deixam isso muito claro (ef. Borba, 1990 ¢ 2002; Neves, 2000 © 2003), APMANDO CONCBTOS 55 Na fala culta moderna, esses verbos ocorrem mais freqiiente- mente como nao-pronominais. Dizemos, entao, A feira inicia hoje / O leite estragou / O vinho derramou / O vaso quebrou / A nova edigao do livro ja esgotou / Eles deitam cedo etc. E esse uso é hoje ja bastante comum também na escrita culta, de tal modo que sao poucos os falantes que notam essa diferenga. Ha, porém, aqueles que ainda condenam tal mudan- ga (cf, por exemplo, 0 Manual de redacao e estilo de O Estado de S. Paulo, p. 148). No entanto, ela é tao difundida que ja esta devidamente registrada nos grandes diciondrios brasileiros con- tempordneos da lingua. Segundo eles (cf. os verbetes nos dicio- ndrios Houaiss e Aurélio correspondentes aos verbos mencio- nados acima), a norma culta brasileira usa estes verbos quer como pronominais (sintaxe classica), quer como nfio-pronomi- nais (sintaxe moderna). Diante desse registro, fica injustificada a condenagao que al- guns fazem desse fato (como o Manual citado). A menos, claro, que admitamos que og nossos melhores diciondrios nio devem ser le- vados a sério, Mas, nesse caso, se nossos melhores diciondrios nao servem de referéncia, fica a pergunta: quem serve? Ou, em outros termos, quais podem ser, entéo, nossas referéncias? a O adjetivo ‘culta' em questao Ainda um detalhe importante que nfo podemos perder de vis- ta é que a qualificagaéo culta dada a determinada norma foi apenas parte de um processo mais geral. No desdobramento dos estudos lingiiisticos, foi preciso qualificar o termo norma, agregando a ele diferentes adjetivos tais como regional, popular, rural, informal, Juvenil, culta etc. Essa qualificagao do termo decorreu da necessi- dade de se distinguir com mais precisio os diversos modos sociais de falar e escrever a lingua, buscando dar adequado acolhimento a heterogeneidade lingiiistica e a correlagio das normas com seus diferentes condicionantes sociais. 56 NORMA CULTA BRASILEIRA? DESATANDO ALGUNS NOS « Cortes Aiberto Foraco Esse reconhecimento da diversidade contribuiu também para refinar a percep¢io a que jd nos referimos antes, ou seja, a per- cepeio de que, do ponto de vista exclusivamente lingiiistico, os diferentes modos sociais de falar e escrever a lingua se equiva- lem: cada grupo de falantes realiza a lingua por normas diferen- tes, mas nenhum deixa de ter suas normas. Qutra percepeaio importante desse processo de qualificagado das normas foi a de que existe uma hierarquizagao social delas. Isto 6, embora nao haja critérios lingiifsticos capazes de susten- tar uma diferenciagao qualitativa das normas, esta diferenciagio ocorre e é feita por determinados segmentos da sociedade toman- do por base valores socioculturais e politicos”. Ha, na designacéo norma culta, um emaranhado de pressupos- tos e atitudes nem sempre claramente discerniveis. O qualificativo “culta”, por exemplo, tomado em sentido absoluto, pode sugerir que esta norma se opde a normas “incultas”, que seriam faladas por gru- pos desprovidos de cultura. Tal perspectiva esta, muitas vezes, pre- sente no universo conceitual e axiolégico dos falantes da norma cul- ta, como fiea evidenciado pelos julgamentos que costumam fazer dos falantes de outras normas, dizendo que estes “nfo sabem falar”, “fa- lam mal", “falam errado”, “sio incultos”, “sfo ignorantes” etc. Contudo, nao ha grupo humano sem cultura, como bem demons- tram os estudos antropolégicos. Por isso, é preciso trabalhar criti- camente o sentido do qualificatiyo culta, apontando seu efetivo li- mite! ele diz respeito especificamente a uma certa dimenséo da cultura, isto é, 4 cultura escrita. Assim, a expressao norma culta deve ser entendida como designando a norma lingiiistica pratica~ da, em determinadas situagdes (aquelas que envolvem certo grau maior de monitoramento), por aqueles grupos sociais que tém esta~ do mais diretamente relacionados com a cultura escrita, Por outro lado, é interessante lembrar que essa designacao foi criada pelos proprios falantes dessa norma, o que deixa trans- ® Uma densa discussdo da complexa questo da hierarquizagio das normas, tendo o contexte francés coma pano de fundo, pode ser lida em Bourdieu (1996) AFMANDO CONCETOS 57 parecer aspectos da escala axiolégica com que interpretam 6 mun- do, Seu posicionamento privilegiado na estrutura econémica e social os leva a se representar como “mais cultos” (talvez porque, historicamente, tenham se apropriado da cultura escrita como bem exclusivo, transformando-a em efetivo instrumento de poder) e, por conseqiiéncia, a considerar a sua norma lingitistica — mesmo difusa em sua variabilidade de prontincia, vocabulario e sintaxe e, na fala, pouco distinta, no caso do Brasil, da linguagem urbana comum — como a melhor em confronto com as muitas outras nor- mas do espago social. Isso, como sabemos, 6 fonte de varios pré- Juizos e preconceitos lingiiisticos que afetam o conjunto da socie- dade, mas, em especial, os falantes de normas que siio particular- mente estigmatizadas pelos falantes da norma culta. E em razdo de todos esses fatores que podemos afirmar ser a questao da norma culta certamente das mais complexas no campo das investigagdes lingilisticas, particularmente quando com ela se mescla a questao da norma-padrao. Foi talvez este fato que levou Haugen (1966/2001: 102) a dizer que, “na tentativa de eselarecer essas relagées, a ciéncia lingtifs- tica tem tido um sucesso apenas modesto’. De fato, quando nos embrenhamos em seu estudo, fica logo evidente que nao se trata apenas de recortar um conjunto deter- minado de expressGes da lingua, como se o fenémeno sociocultural da norma culta se resumisse a um problema exclusivamente de vocabulario e estruturas gramaticais, O que encontramos nesta area é um complexo entrecruza- mento de elementos léxico-gramaticais ¢ outros tantos de natu- reza axiolégica que, em seu conjunto, definem o fenémeno que designamos tecnicamente de norma culta, E. é esse conjunto que tem de ser considerado se queremos desenvolver um entendimento cientifico abrangente da complexidade desse fendmeno — enten- dimento este que tera de ser, portanto, multidisciplinar e nao apenas lingitistico. 58 NORMA GULTA BRASILEIRA: DESATANDO ALGUNS NOS « (Caries siborto Farce. BE preciso lembrar, por exemplo, que a norma culta esta vin- culada estreitamente ao espectro de praticas socioculturais que constituem o que se pode chamar de cultura letrada em sentido amplo, isto 6, as praticas culturais que envolvem nado apenas ati- vidades de leitura e escrita como tais, mas toda e qualquer ativi- dade (mesmo que, em si, se dé apenas oralmente) que tem o pro- cesso historico do escrever como pano de fundo. Em outras palavras, a cultura letrada 6, como tém procurado demonstrar os estudos sobre letramento (ef., entre outros, Soares 1998), maior do que apenas ler e escrever. Do mesmo modo, a nor- ma culta é mais que apenas um rol de elementos léxico-gramati- cais. Ela combina praticas culturais, valores sociais e elementos propriamente lingiiisticos. O dominio da cultura letrada esta ensopado de uma densa teia de valores que produz e mobiliza uma vasta gama de modos de ser, de agir, de pensar e, evidentemente, de dizer — seja no sentido de géneros discursivos (cf. Bakhtin, 1952/1992); seja no sentido do prestigio que se da a certas formas léxico-gramaticais. Essa densa teia de valores participa do processo de constituigao e funcionamento do universo do imagindrio social que recobre os fenémenos lingiiisticos. Por outro lado, 0 dominio da cultura letrada e seus valores estao articulados a tedo um arcabouco institucional (ele mesmo, alias, em boa medida, fruto da cultura letrada) correlacionado com 0 processo de discriminacgao dos elementos propriamente lexicais e gramaticais identificados como cultos: interesses do Estado e seus aparelhos (como a escola, por exemplo), instrumentos de codificagao (formuldrios ortograficos, gramaticas, dicionarios) e agéncias de comunicacao social. Dadas essas consideragoes, pode parecer que o problema esta suficientemente esclarecido. No entanto, as questées nessa drea da norma culta sio mais complieadas do que parecem. HA muitos nos que precisam ser desatados para podermos avancar na com- preensao desse fendmeno. APNANDO CONCETOS 59 (0) Afinal, quem é um falante “culto"? O primeiro deles — e nao certamente o menor — é saber quem sao os letrados na sociedade brasileira, ou seja, qual ou quais gru- pos sociais servem de referéncia para delimitarmos objetivamen- te os fenémenos que constituem a norma culta brasileira. Como vimos anteriormente, o projeto NURC restringiu a clas- sificagdio de “eultos” (de mais letrados) aos falantes com educacao superior completa. No entanto, numa sociedade que distribua de maneira mais equanime os bens educacionais e culturais, 6 mais adequado con- siderar letrados todos os que concluem pelo menos o ensino mé- dio. Este 6 um critério que se constituiu historicamente nas socie- dades industriais modernas nos ultimos duzentos anos”, Dois fatores principais participaram da construcdo desse critério: a) as exigéncias trazidas pela economia que se desenyolveu a partir da Revolugao Industrial: b) as pressdes ideolégicas do conceito de cidadania que se criou no século XVIII, em especial com o pensamento iluminista e com as mudangas sociais, politicas e cultu- rais trazidas pela Revolucdo Francesa. Quanto ao fator econémico, é importante lembrar que a econo- mia industrial — diferentemente da economia agraria tradicional — comegou a exigir um nivel basico de qualificagaio das pessoas en- volvidas no processo industrial. E esse nivel foi se alterando 4 medi- da que os processos de produgdo foram se tornando mais. complexos. Se no inicio bastava ser alfabetizado, logo a industria come- gou a exigir um minimo de quatro anos de escolaridade. Assim é ™ Neste ponto, vale trazer a baila dados estatisticos apontados pelo IBGE (ef. 0 site www.ibge.gov.br, consultado em 20/09/2007). Enquanto nos paises da OCDE (Organiza- sho para a Cooperagio e Desenvalyimento Eeondmico) mais de 60% da populagaa entre 25 @ G4 anos tom pelo menos 0 ensina médio completo, no Brasil apenas 28% deste segmento da populagio o tem: 60 NORMA CULTA BRASREIRA: DESATANDO ALGUNS NOS = Coos Abert Farace que — nos fins do século XTX — vemos a Franga, a Inglaterra e alguns outros paises europeus universalizando a educagao pri- maria de quatro anos. Cingtienta anos depois, terminada a Segunda Guerra Mun- dial, a demanda nesses paises era ja por onze anos de escolarida- de e vamos ver a educagéo média se universalizando na Europa, nos Estados Unidos e no Japao ja no inicio da década de 1950, Hoje, passados outros cinqiienta anos, discute-se nesses mesmos paises a universalizagao de uma educacao superior basica de qua- tro anos para todos os jovens entre 18 e 22 anos. O segundo fator que mencionamos, ou seja, as pressdes ideo- légicas do conceito moderno de cidadania, tem a ver com o fato de que os membros de uma sociedade deixaram de ser entendidos como stiditos de um rei e passaram a ser entendidos como cida- dios com igualdade politica e juridica, Nesse novo contexto ideolégico, acredita-se que, para esta cidadania se estabelecer efetivamente, é preciso cumprir varias exigéncias, entre as quais a garantia de educacio bésica comum a todos os cidados. E consenso hoje que a educacgdo basica comum inclui pelo menos o ensino médio e, portanto, deve cobrir um pe- riodo minimo de 11 a 12 anos de escolaridade. Dai dizermos que, em tese, 6 mais adequado considerar letrado todo aquele que com- pletou o ensino médio, que teve acesso 4 educagao basica comum a todos os cidadios — uma educacdo que possa garantir a todos, entre outros aspectos, uma imersao na cultura letrada é¢, em con- seqiiéncia, o dominio da variedade da lingua a ela atrelada. O acesso a essa variedade seria entfio, em principio, um fator de inclusdo na cidadania j4 que correlacionada com a democratizacado da cultura escrita e com o exercicio da fala nos grandes espacos publicos. No Brasil, porém, esse ideal esta ainda longe de ser alcancado. Nés mal conseguimos universalizar a educagéo primaria de quatro anos. Estamos ainda distantes de garantir oito anos de escolarida- de para todos. E o ensino médio 6 ainda quase uma raridade. ABINANDO CONCETOS 61 Os dados oficiais (ef. Lima, 2004: 98) indicam que, nesta déca- da de 2000, dos 10 milhées de jovens brasileiros entre 15 e 17 anos, a metade esta fora da escola. Um milhao destes jovens esta ainda na escola fundamental. Estéo, portanto, com sua escolari- dade atrasada. E os demais alunos do atual ensino médio tém 18 anos ou mais, ou seja, estao também com sua escolaridade atrasa~ da, Nesse quesito, estamos, portanto, cingitenta anos atras das sociedades industriais avangadas™. Se a maioria da atual populagao adulta brasileira nao chegou a completar o ensino médio, a maioria dos nossos jovens nao tem ainda acesso garantido a esse nivel de ensino. Ou seja, os bens educacionais e culturais estaéo muito mal distribuidos na nossa sociedade. Uma das conseqiiéncias disso é que s6 uma minoria tem acesso efetivo 4 cultura letrada, o que inclui o estudo da cha- mada norma culta, Esta, embora em boa parte identificada, na fala, com a lin- guagem urbana comum em seus usos mais monitorados, continua sendo, no Brasil, em especial na escrita, um fendmeno restrito: é ainda um bem cultural de poucos. Por isso também é que ela pode ainda funcionar entre nés como um fater de discriminagao social, cultural e econdmica. No fundo, ela nao perdeu ainda entre nés seu defeito de origem — ou seja, continua recoberta por uma aura elitista que se materializa na nor- ma curta, ou seja, na insisténcia em se interditar a ocorréncia na escrita de fendmenos normais na fala culta. Sao picuinhas gramati- eais, mas ainda funcionam com certa forca no jogo simbélico que, pela desqualificagéo lingiiistica, discrimina e exclui. Por isso, é importante sempre abordar essa questéo numa perspectiva social e historica e nfo apenas lingiiistica. " O Censo Escolar de 2006 (segundo os dados publicados pelo INEP — Instituto Nacional de Estudos ¢ Pesquisas Educacionais Anisio Teixeira em seu site www.inep.gov br — consultado em 20/09/2007) mostra que esta situagio mudou pouco em cinco anos A escola média tem hoje 9 milhdes de alunos matriculades, sendo 4,6 milhées de jovens entre 16 € 17 anos. Os demais 4,4 milhdes tém 18 anos ou mais, 62 NORMA CULTA BRASILEIRA: DESATANDO ALGUNS NOS » Carlos Alberto Foraco. Desde que temos registro desse fendmeno de prestigio e cul- tivo de determinada variedade da lingua na cultura ocidental, ele tem uma clara marca elitista, aristocratica. A idéia de uma variedade cultivada da lingua resultou sempre do esforco das elites para criar simbolos que pudessem distingui-las das camadas populares — ou seja, como se diz de modo bastante depreciativo, as elites sempre se esforgaram para criar simbolos que pudessem distingui-las da “plebe rude”, do “vulgo”, do “populacho”. Assim, os patricios romanos — e todas as elites que vieram depois deles — marcavam sua “nobreza” por meio do vestudrio, da arquitetura e decoragdo de suas casas, por meio de habitos alimen- tares e de lazer e também por meio do modo como falavam a lingua, Nesse processo, agregava-se a certa variedade da lingua va- lores simbdélicos poderosos. Ela se tornava simbolo de pertenci- mento a uma classe social, emblema de nobreza, fator de discri- minagdo e exclusio. Na hist6ria moderna, a chamada sociedade de corte (ou seja, 0 modo como a nobreza se organizou ao redor da corte real, no cha- mado antigo regime, em especial na Franga de Luis XIV) foi eximia nesse processo, conforme se pode ler no estudo que Norbert Elias fez dela. Suas praticas de valoragaéo de suas proprias formas de falar e escrever (ao lado de outros tantos processos simbélicos) serve de contraponto ao que veio a ocorrer na sociedade que a sucedeu. As transformagées econémicas, sociais, politicas e culturais dos tiltimos 200 anos afetaram profundamente esse perfil elitista, tradicionalmente agregado a certa wariedade da lingua. Claro, os diferentes modos de falar e escrever ndo deixaram de ser emblemas de classe, jd que a sociedade continuou assim dividida. No entanto, a sociedade contemporanea foi historicamen- te levada a atribuir outras fung6es a uma variedade relativamen- te cultivada da lingua**. ® Para uma interessante andlise de aspectos desse complexo process em relaglio a inglés britanico, cf. Williams (1961), ARNANDO CONCETOS: 63 i Como bem sabemos, a sociedade industrial moderna trouxe consigo uma série grande de efeitos, redesenhando a face do mun- do contemporaneo: provocou uma intensa urbanizacao da popula- fo: teve de expandir o sistema educacional para qualificar os en- volvidos direta ou indiretamente nos processos industriais (o que acabou por trazer como resultado, nas sociedades mais avanga- das, a necessidade de garantir a todos uma educag¢ao basica de pelo menos 11 anos); deu relativa amplitude, em termos politicos, ao conceito moderno de cidadania. Por fim, o desenvolvimento tecnolégico redundou na criacao, na sociedade industrial moder- na, de sistemas de comunicagao social de massa tais como os que conhecemos hoje. A conjuncao de todos esses fatores alterou profundamente as relacgées econémicas, sociais ¢ culturais. Alteradas essas condi- goes objetivas do funcionamento da sociedade, alteraram-se tam- bém as condigdes objetivas do funcionamento social da lingua. A urbanizacao intensa, a expansdo do sistema educacional, a formu- lagao e difusao politica do conceito moderno de cidadania e o de- senvolvimento dos sistemas de comunicagio social de massa de- ram hegemonia e ampla difusdo social a certas variedades da lin- gua, em particular as variedades tradicionalmente urbanas, que passaram a exercer poderosa forga centripeta sobre as demais variedades, Nao se trata mais de uma variedade de poucos e para poucos. Nao se trata mais do exercicio de um obsoleto beletrismo numa rarefeita “reptiblica das letras”. Nao se trata mais de um emblema discriminatério de “nobreza”. A sociedade contemporfinea, em toda a sua complexidade, ao criar as condigdes que permitem amplificar a presenga social de certas variedades da lingua, as faz funcionar, pragmaticamente, como um elemento de relativa agregacdo social. Essas variedades passam a se sobrepor aos limites da comunicagao caseira, da comu- nicagdo restrita ao imediato, ao local, ao regional: respondem aos desafios postos pela urbanizacao intensa, pela complexificagao das relacées sociais e pela massificagdéo dos meios de comunicacao. 64 NGRMA CULTA BRASIEIRA! DESATANDO ALGUNS NOS © Carlos AlbartaFaraco: (8) Norma culta: ainda faz sentido usar esta expressGo? Nessa nova conjuntura histérica, a idéia de uma norma culta (ou, melhor dizendo, de uma norma comum/standard)™ perdeu sua aura aristocritica e adquiriu fungdes de amplo alcance social numa so- ciedade urbanizada, massificada e, claro, alfabetizada, isto é, uma sociedade em que todos os cidadaos tém, em principio, acesso a uma educagio basica de qualidade e aos bens da cultura escrita. No Brasil, contudo, nossa histéria de contradigGes, nossas herangas coloniais ainda embaracam a democratizacao da norma culta/ecomum/standard, em especial da norma escrita. Estamos longe de torné-la um fenémeno de amplo uso social. Primeiro, porque ainda nfo universalizamos a educagio basica de 11 anos. Segundo, porque a educacao lingiiistica que oferecemos a nossos estudantes 6 ainda de baixissima qualidade. E, por fim, nfo con- seguimos ainda aceitar com clareza a nossa norma culta/comum/ standard efetiva e nos aproveitamos, no jogo dos poderes simbéli- cos, da tradigao que se consolidou na norma curta. Estamos ha mais de um século perdidos em grande confusao quanto ao reconhecimento das nossas caracteristicas lingilisticas. “ Por tudo 0 que afirmamos no texto, talvez melhor fariamos se abandonfssemos « denominagao norma culta, De um lado, nos livrariamos de sua carga de injustificavel elitismo, Por outro lado, estariamos nos aproximando de uma andlise mais precisa da realidade lingiiatica brasileira, na medida em que n’o h4, pelo menos no plano da fala, diferencas substancisis entre o que se poderia chamar de norma culta e a linguagem urbana comum. Por tudo isso, ganhariamos se adotassemos uma designagéo como nor- ima comum ou norma standard, qualificagdes que parecem carregar menos impregna~ gdes axiolégicas:do que o adjetivo culta. A questao terminolégica continua, porém, anos desafiar: como encontrar qualificagies de baixa teor valorative e que facam justica & nossa realidade lingiistica? Bagno (2003: 63ss,) prope que se use variedades pres- tigiadas (em vez de norma culta) e variedades estigmatizadas (em vez de norma popu" Jar}, Claro, a0 apontarmos a estigmatizacao, podemos contribuir para superé-la critica mente. No entanto, podemos também favorecer uma sua naturalizacao, o que, obvia- mente, correria contra nosso esforgo critico. O mesmo poderia ocorrer com a idéia de prestigio, se nio ficasse bem evidente que ele é efeito da dindmica aécio-histériea © nfo um-fator intringeco (“natural”) Aquelas yariedades, Como contribuigao a buscada me- Ihor terminologia, usaremos no texto os trés adjetivos em seqiiéncia alternativa: norma culta/comum/ standard. AFINANDO CONCHTOS 65 Ainda nos atrapalha enormemente o espirito aristocratic que, no século XIX, quis nos impingir certa norma lusitana como nossa norma-padriéo e tachou de “incorretos” muitos dos nossos usos cultos normais. E, mais grave: nao conseguimos ainda assimilar conceitualmente os efeitos das mudangas que tém alterado pro- fundamente a cara da nossa sociedade, em especial suas reper- cussées sobre nossa realidade lingiiistica. Por isso, nos digladiamos ha mais de um século a propésito das mesmas picuinhas gramaticais (e de outras tantas que, de tempos em tempos, os cultores da norma curta inventam). Faz mais de um século que perdemos nosso tempo e nossas energias com questées equivocadas e altamente irrelevantes em matéria de lingua™. Ainda circula com certa forga entre nés um discurso excessivamente purista (ou pseudopurista) sobre as questées lin- giiistieas, como se féssemos uma sociedade colonial agraria com uma minuscula “republica das letras”, uma minoria inexpressiva para quem fazia sentido o jogo de saldo de apontar “erros de portugues” em seus pares”, {0 Um caso exemplar Qs exemplos desse modo de se relacionar com a lingua sio muitos. Selecionamos aqui o mais recente deles. Tudo comecou com a fala do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso no en- cerramento do 3° congresso do seu partido (dia 23/11/07) em Brasilia. Disse ele que o Brasil quer dirigentes que falem bem a lingua, que sejam melhor educados e que nfo desprezem a educa- ¢ao, a comegar pela propria. Indiretamente, como todos bem en- tenderam, FHC lancaya farpas contra o presidente Lula. ™ Obviamente, é preciso dizer que, se essas questdes permanccem vivas, 6 porque tém sua fungiio nos jogos de poder simbélico ¢é par esse viés que precisam ser ndequadamen: tecriticadas, ® Celso Cunha, nosso grande fildlogo e importante gramatico, ja chamava nossa atengio para “a freqdente confusio entre norma culta e norma purista, ¢ sobre a inconveniéneia da diltima num pais como o Brasil” (1985: 86). ry) NORMA CULTA BRASILEIRA: DESATANDO ALGUNS NOS = Carlos Alberto Faraco As reagdes nao se fizeram esperar. Criticos e a midia sairam em campo tentando desqualificar a fala de FHC apontande nela um suposto “erro” de gramatica no uso da expresso “melhor edu- cados”. Aparentemente, o feitico virava contra o feiticeiro: fala mal da lingua dos outros, mas comete um “erro” de gramatica... O caso é banal, mas riquissimo pelo que revela do modo como se concebe a lingua entre nds e do modo como ela é transformada em argumento nos debates. Apesar de todo o episédio sugerir que o que esta em foco é uma questao lingiiistica, nao nos deixemos iludir: ela é fundamentalmen- te uma questao politica. E é nesse plano que deveria ser debatida. Ao dizer “melhor educados” em vez de “mais bem-educados”, teria FHC cometido um “erro” de gramatica, “tropecado” no idioma, “escor- regado” no portugués formal como afirmaram a midia e seus criticos? A resposta é nao: FHC ndo cometeu um “erro” de gramatica, nao “tropecou” no idioma nem “escorregou” no portugués formal. Para deixar isso claro, basta uma consulta aos nossos melhores e mais confidveis instrumentos normativos. Em todos eles, encontramos abonacao para a estrutura “melhor educados", como veremos mais adiante, Nao é, portanto, pela gramatica que FHC merece ser criti- cado, mas por outras questées embutidas nas suas afirmacées. Se nosso melhores e mais confidveis instrumentos normativos abonam a construgéo “melhor educados", por que, entéo, a midia € os criticos insistiram ém tacha-la de “erro”? E por que persisti- ram insistindo mesmo quando foi demonstrado o contrario? Fizeram isso porque tomam como referéncia uma das nossas maiores fraudes histdricas. Falam eles em nome da chamada “nor- ma culta”, mas, de fato, estaéo se baseando no que poderiamos me- lhor designar pela expresso norma curta — uma concepgao que apequena a lingua, que encurta sua riqueza, que nado percebe (por conveniéncia ou ignorancia?) que o uso culto tem abundancia de formas alternativas e nao se reduz a preceitos estreitos e rigidos. AFINANDO CONCEIOS 67 Infelizmente, é a norma curta que tem sido usada, no Brasil, para balizar os juizos sobre os fatos da lingua portuguesa com muito mais forga do que os bons instrumentos normativos funda: dos em sélida pesquisa filolégica e lingiiistica. 56 isso merece uma reflexfio cuidadosa: por que, afinal, nossa cultura se apega tanto 4 norma curta (4 mediocridade gramatical) e raramente da a devida atengado e espaco aos bons instrumentos normativos? Por que o dizer dogmatico tem, entre nés, mais forca que a criteriosa e sdlida investigagao filolégica e lingiiistica? Ainda hoje, apesar do que apresentam em contrdério os nos- sos bons instrumentos normativos, é a norma curta que prevale- ce no discurso da escola, do senso comum e, principalmente, da midia. E isso certamente porque ela tem 14 sua utilidade nos nos- sos jogos de poder: afinal é dela que se servem os que, em algum momento, desejam desqualificar os outros. Alguém disse que, no nosso pais, toda polémica termina na gramatica. Isso quer dizer que, a falta de argumentos para sus- tentar o debate, nosso costume é apelar para 0 trambique retérico, ou seja, tentar desqualificar 0 oponente apontando-lhe “erros” de portugués. Em outros termos, quando nos faltam argumentos, nosso ultimo recurso é xingar o adversdrio de ignorante, “pois nem a lingua sabe falar bem”. Assim, quando FHC, no congresso de seu partido, disse que o pais quer dirigentes que saibam falar bem a lingua e que sejam melhor educados, nao manifestou um juizo apenas individual con- tra seus adversdrios. O que ele fez foi lancar mAo do velho trambique retorico, reproduzindo um gesto que historicamente tem sido par te inerente da nossa maneira de debater. E esse trambique que deve ser criticado. E preciso desvelar 0 que ele de fato significa. Obviamente, nao é 4 toa que se apela a esse trambique. Ele é recorrente nos jogos argumentativos porque tem o efeito deseja- do de desqualificagao do oponente. E, para ficarmos no vocabuld- rio da retérica, um lugar-comum — uma crenga disseminada no 6B NORMA CULTA BRASILBRA: DESATANDO ALGUNS NOS @ Catlot Alberto Faraco: senso comum dos escolarizados de que é importante falar bem a lingua (embora — reconhegamos — nunea fique muito claro 0 que se quer dizer com “falar bem a lingua”), Assim, por esse viés, quem fala mal a lingua (seja 1 o que isso quer dizer) 6 um desqualificado, Podemos, entao, perguntar por que, na sessfio de encerramen- to do congresso do PSDB, seu lider de maior expressfo teve jus- tamente de desancar os oponentes pelo fato de supostamente fa- larem mal o portugués? Parece nao ser dificil responder: o apelo ao velho trambique retérico desnuda o fato de que os dois partidos que mais se digladiam na arena politica nacional nao tém propostas politicas efetivamen” te alternativas. Face a isso, s6 resta mesmo desqualificar os opo- nentes, Ou seja: se nao ha diferencas substanciais de programa ¢ pratica politica, o que sobra além de desqualificar os oponentes dizendo que nem a lingua eles falam bem? As reacdes & fala de FHC atacaram nao a falta de idéias e projetos politicos alternativos, mas o que consideraram ser uma indelicadeza, um preconceito, uma expressiio de soberba e de des- peito do ex-presidente. E, gléria das glérias, puderam apontar uma suposta “derrapada” lingitistica (ou, como preferem alguns jornalistas, um “erro” de gramatica, uma “escorregada” no portu- gués formal) no préprio enunciado de FHC. E, nesse tipo de jogo argumentativo, nada melhor do que poder rebater a desancada, desancando, Ou seja, nada melhor do que achar, no préprio enunciado de quem critica a lingua do outro, um “erro” de portugués. E isso nunca sera dificil, ja que ninguém fala e esereve de acordo com a norma curta. Ela é uma enorme fraude histérica, mas utilissima para preservar a cara de quem nada tem a dizer. Em suma, quando a lingua é trazida para a cena argumentativa, estejamos certos de que é outra coisa que esta efetivamente em pauta. Para encerrar, visitemos alguns dos nossos bons instrumen- tos normativos a propésito da construcgéo “pessoas melhor educadas”: AFIMANDO CONCETOS 8F @ Celso Cunha e Lindley Cintra, na sua Nova gramiatica do portugués contempordneo (p. 550), dizem que, diante de adjetivos-participios, usamos preferencialmente “mais bem". Note-se que se trata de um uso preferencial e nfo obrigatério. Portanto, podemos, sem nenhum problema, considerar as construcées “mais bem educados” e “melhor educados” como formas cultas alternativas: ®@ o mesmo diz o Dicionario Aurélio (consultar o verbete me- Jhor): mesmo citando exemplos de Machado de Assis, Ale- xandre Herculano e Aquilino Ribeiro (que usaram, diante de adjetivos-participios, “melhor” e nfo “mais bem” — FHC esta, entao, em boa companhia...), diz que, neste contexto, prefere-se “mais bem”. De novo, nao se trata de obrigatorie- dade, mas de preferéncia de uso; @ o Diciondrio Houaiss apresenta a questao de modo um pou- co diferente (consultar o verbete bem). Depois de dizer que “em lugar de mais bem, nas comparagées, usa-se melhor (saiu-se b. na prova escrita e melhor na oral”, diz que, “div ante de um participio, é vernaculo empregar mais bem (uma parede mais b. pintada que outra: um embrulho mais b. fei- to que outro)”. Ou seja: lembra que “melhor” substitui “mais bem” nas comparacées, mas, para evitar que se tome “mais bem” sempre como improprio, chama a atengaio do consulente para o fato de que seu uso é perfeitamente ade- quado (“6 verndculo”) quando diante de um participio: ® 0 filélogo Candido Juca (filho), em seu Diciondrio escolar das dificuldades da lingua portuguesa”, diz, no verbete bem, que este advérbio participa de locugdes adjetivas (bem acom- panhado, bem feito) e que faz, nestes casos, 0 comparativo regularmente (isto 6, mais bem acompanhado, mais bem feito) e conclui afirmando, respaldado por um exemplo de Camilo Castelo Branco, que se pode também usar “melhor”. De novo, as construgées sao registradas como alternativas; @ o gramatico Rocha Lima, em sua Gramética normativa da lingua portuguesa (p. 347), diz 0 mesmo! “Em vez de me~ Jhor e pior empregam-se os comparativos mais bem e mais 70 NORMA CULTA BRASILERA: DESATANDO ALGUNS NOS @ Cortes Alborte Farace mal antes de adjetivos-participios: Trabalhos mais bem cui- dados. Planos mais mal urdidos. Mas diz-se também: Obra melhor talhada. Coisas mal ouvidas e pior entendidas.”; | por fim, o Guia de usos do portugués, organizado pela lin- gitista Maria Helena de Moura Neves, nos informa (no ver- bete melhor) que tradicionalmente se recomenda que, antes de participio, se use a forma analitica mais bem e nao me- Thor (note bem: é uma recomendagio, nfio uma determina- go). Contudo, os dados analisados por ela no interior do vasto acervo do Centro de Estudos Lexicograficos da UNESP de Araraquara mostram que s4o usuais, nos diversos tipos tex- tuais, construgdes com melhor em vez de mais bem. Acreditamos que essas seis referéncias sao suficientes para di- rimir qualquer diivida: ambas as expressGdes — melhor educados e mais bem-educados — sao adequadas na norma culta brasileira real. Nao custa lembrar que melhor, neste caso, é advérbio e, por isso, é sempre invaridvel (flexiond-lo seria, sim, uma improprie- dade gramatical). Por fim, nao custa também comentar a questao do hifen. Al- guns disseram que nao se poderia dizer “melhor educados” por- que a palavra bem-educado se escreve com hifen. Ora ha, neste comentario, dois problemas. Primeiro, uma clara confusao entre lingua falada e lingua escrita. O hifen é apenas uma convencao (muito mal regulada, alids, pelo nosso Vocabulario Ortografico) da forma de grafar as palavras. Nada tem a ver com a fonologia e a sintaxe da lingua falada. Por outro lado, a questao grafica neste caso é controversa. Como falta as regras de uso do hifen um minimo de racionalidade, ha quem defenda as duas possibilidades graficas — “hem-educa- do” e “bem educado”. No primeiro caso, a expressdo significaria *cortés, polido”; no segundo, “que recebeu boa educacéo escolar’. Os nossos diciondrios, porém, registram “bem-educado” com os dois sentidos. Assim, penso que ficamos bem respaldados se nfo quisermos entrar nesta controvérsia algo metafisica. AFINANDO CONCEIOS. 71 [) H4 saidas? Uma das conseqiiéncias dessa situagio toda é que nado consegui- mos ainda criar uma educagio de qualidade na drea da linguagem verbal, nem sequer desenvolver uma cultura positiva diante de nos- sas questoes de lingua, como detalharemos nos capitulos seguintes. Para alterar substancialmente esse quadro, precisamos al- cancar pelo menos trés metas: 1*— universalizar a educagao basica, isto é, garantir de 11 a 12 anos de escola a todas as nossas criancas e adoles- centes} 2" — oferecer a todos uma educagao de qualidade, o que sig- nifica, na drea da linguagem, garantir, entre outras coi- sas, que os alunos saiam da escola basica com um bom dominio das praticas sociais de leitura e escrita; 3"— redesenhar nossa maneira de encarar nossa realidade lingitistica, em especial, nosso modo de entender a nor- ma culta/ecomum/standard falada e escrita. Nossa intengdo, com essas consideragées, é deixar claro que o problema da norma culta — de que tanto se fala hoje no discurso da escola e da midia — nao se resolve em si. Nao se resolve pela insisténcia em “corrigir” pontualmente os “erros de portugués”. A norma culta/comum/ standard, na funcdo moderna que lhe atribui a sociedade urbanizada, massificada e alfabetizada, esta direta- mente correlacionada com a escolarizagao, com o letramento, com a superagao do analfabetismo funcional. Nosso problema lingiiistico nao é a regéncia desse ou daque- le verbo} nao é esta ou aquela concordancia verbal: nfo so as re- gras de colocagio dos pronomes obliquos, nado é a (mal) chamada mistura de pronomes. Nosso problema sfio 5 milhdes de jovens entre 15 e 17 anos que estao fora da escola, Nosso problema sdo os elevados indices de evasio escolar. Nosso problema é termos ainda algo em torno 72 NORMA CULTA BRASILEIRA! DESATANDO ALGUNS NOS. @ Carlos Alberto Faraco: de 12% de analfabetos na populagao adulta. Nosso problema é 0 tamanho do analfabetismo funcional, isto é, a quantidade daque- les que, embora freqiientem ou tenham freqiientado a escola, nao eonseguem ler e entender um texto medianamente complexo. Os estudos sugerem que apenas 25% da populacéo adulta bra- sileira, perto de 30 milhées de pessoas, alcancam esse nivel de letramento, isto é, conseguem ler e entender um texto mediana- mente complexo™, Seria, em principio, o uso normal desses falantes que consti- tuiria, no Brasil, a referéncia para a descrigao da norma culta/ comum/standard. Foi na produgao escrita, de 1950 para ca, dease segmento da populagdo que o projeto de pesquisa da norma escri- ta do Laboratério de Estudos Lexicograficos da Faculdade de Ci- éncias e Letras da UNESP, Campus de Araraquara, foi buscar seus 80 milhGes de ocorréncias. Esse corpus extenso e representativo nos dé balizas impor- tantes para explicitarmos, sem a arbitrariedade dos que teimam em se nomear legisladores da lingua, as caracteristicas da nossa norma culta/comum/standard escrita. 56 assim podemos dar fun- damento seguro ao projeto de democratizar seu uso. No entanto, para isso nao bastam esses estudos baseados em carpus do uso lingiiistico efetivo se, ao mesmo tempo, nao enfren- tarmos os problemas socioeducacionais a que vimos nos referin- do. A democratizacio da norma culta/comum/standard escrita sera apenas conseqiiéncia da superacaéo desses problemas: ™ Estamos utilizando aqui os dados do [NAF - Indicador de Alfabetismo Funcional, que é uma pesquisa realizada periodicamente pelo Instituto Paulo Montenegro, vinculado ao IBOPE. Na sua edico de 2006 (dados obtidos em www.ipm.org. br em 20/09/2007), o INAF constatou que, entre og alfabetizados brasileiros com mais de 15 anos, apenas 26% sfio plenamente alfabetizados, perto de 30 milhdes de pessoas. Este 4, segundo o INAF, o contingente populacional que tem a leitura como atividade corriqueira e consegue ler compreensivamente textos longos ¢ consegue fazer relagdes entre os textos que 1é. Nao sabemos quantos desses alfabetizados funcionais efetivamente escrevem com desenvol- tura. O INAF verifica apenas a capacidade de Jeitura. AFINANDO CONCETOS 73 Norma CULTA, NORMA-PADRAO E NORMA GRAMATICAL A expressao norma culta/comum/standard, como discutimos aci- ma, designa o conjunto de fenémenos lingiiisticos que ocorrem habi- tualmente no uso dos falantes letrados em situag6es mais monitora- das de fala e escrita. Esse vinculo com os usos monitorados e com as praticas da cultura eserita leva os falantes a lhe atribuir um valor social positivo, a recobri-la com uma capa de prestigio social. Por essa mesma razfo, ela se tornou historicamente objeto privilegiado de registro, estudo e¢ cultivo sociocultural. Esse pro- cesso produziu, no imagindrio dos falantes, a representagao des- sa norma como uma variedade superior, como uma variedade melhor do que todas as demais. Essa representacao os leva, inclusive, a confundir essa nor- ma com a lingua, ou seja, a imaginar que a norma mais monitorada é a lingua. E que todas as demais variedades sao deturpagées, corrupeées, degradagées da lingua verdadeira. Por outro lado, é essa mesma identificagdo imaginaria que faz as pessoas dizerem alarmadas que a lingua esta decaindo quando se véem diante de mudancas que comecam a alcancar essa norma, Tal representac&o imaginaria, embora bastante forte entre nds, nfo encontra, porém, sustento na realidade. Primeiro, por que as mudancas, como bem demonstra a lingiiistica histérica, nunca alteram a plenitude estrutural de nenhuma das varieda- des da lingua. Elas passam sim por continuas reconfiguragdes estruturais, mas nunca perdem seu cardéter estruturado™. Segundo, porque qualquer lingua 6 sempre heterogénea, ou seja, constituida por um conjunto de variedades (por um conjunto de normas). Nao ha, como muitas vezes imagina 0 senso comum, a lingua, de um lado, e, de outro, as variedades. A lingua é em si o conjunto das variedades. Ou seja, elas nfo sao deturpagées, corrup- © Para mais detalhes sobre o fenémeno da mudanca lingitistica, ver Faraco (2005), 74 NORMA CULTA BRASLEIRA: DESATANGO ALGUNS NOS = Carlos Alberto Foraco: gdes, degradacées da lingua, mas sfio a prépria lingua: 6 o conjun- to de variedades (de normas) que constitui a lingua. A norma dita culta é apenas uma dessas variedades, com fun- ges socioculturais bem especificas, Seu prestigio nfo decorre de suas propriedades gramaticais, mas de processos sécio-histéri- cos que agregam valores a ela. Em outras palavras, seu prestigio no decorre de propriedades intrinsecas (lingiiisticas propriamen- te ditas), mas de propriedades extrinsecas (sdcio-histéricas). Como vimos antes, do ponto de vista estritamente gramatical, as variedades (as normas) se equivalem, isto é, todas sio igualmen- te organizadas, todas sao igualmente complexas. Isso ndo significa que todas as variedades se equivalham socialmente. HA uma dife- renciacao valorativa que hierarquiza as variedades, Por razdes his- téricas, os grupos sociais vao atribuindo diferentes valores as dife- rentes variedades. Assim, algumas variedades recebem avaliagdo social positiva, enquanto outras séo desprestigiadas e até estigma- tizadas. O importante é entender que tais valoragdes nao sao “na- turais”, ndo séo puramente lingtifsticas, mas resultam do modo como se constituem historicamente as relagdes entre os grupos sociais. Foi em razao de seu prestigio entre os letrados que a norma culta/comum/standard das linguas européias ocidentais moder- nas foi gramatizada, isto é, passou a ser objeto de gramaticas e diciondrios (cf. Auroux, 1992). 0) Norma-padrdo: a criagdo do conceito A producio desses instrumentos lingijisticos para essas lin- guas comeca na Europa nos fins do século XV, impulsionada pela necessidade politica de se alcangar certa unidade lingtiistica nos Estados Centrais que entéo se constituiam. Em outras palavras, a unificagéo e a centralizacao politica tiveram um efeito centripeto também sobre a lingua, ou seja, um mundo que superava a frag- mentacao econémica, social e politica prépria da sociedade feudal passava a ter necessidade de uma referéncia em matéria de lingua que pairasse acima da grande diversidade regional e social. ARMANDO CONCETOS 75 A sociedade feudal tinha um perfil que favoreceu o funciona- mento das forcgas sociais centrifugas. Sua descentralizagao, sua economia basicamente agraria, os poucos vinculos de comunica- cao para fora dos limites regionais resultaram, em mateéria de lin- gua, numa grande diversificacao. Algumas das mudangas que a Europa conheceu na Baixa Ida~ de Média, tais como a intensificagio das praticas mercantis e da circulagéo de pessoas, o revigoramento e a expansao da vida ur- bana e a progressiva centralizagao politica alteraram substancial- mente esse quadro, passando a favorecer as forgas centripetas. Em resposta a profunda diyersificagéo do mapa lingtiistico de cada um dos novos Estados, emergiu um projeto padronizador. Des~ de Antonio de Nebrija (autor daquela que é considerada a primeira gramatica de uma lingua moderna — a gramatica do castelhano publicada em 1492) se buscou estabelecer, por meio de instrumentos normativos (gramaticas e diciondrios), um padrao de lingua para os Estados Centrais Modernos, de modo a terem eles um instrumento de politica lingiiistica capaz de contribuir para atenuar a diversida- de lingiiistica regional ¢ social herdada da experiéncia feudal. A esse instrumento damos hoje o nome de norma-padrao. Se a norma culta/comum/standard é a variedade que os letrados usam correntemente em suas praticas mais monitoradas de fala e escri- ta, a norma-padrao no é propriamente uma variedade da lingua, mas — como bem destaca Bagno (2007a) — um construto sécio-histérico que serve de referéncia para estimular um processo de uniformizagéo. Enquanto a norma culta/comum/standard 6 a expresso viva de certos segmentos sociais em determinadas situagdes, a norma padrao é uma codificagaio relativamente abstrata, uma baliza ex- traida do uso real para servir de referencia, em sociedades marcadas por acentuada dialetagao, a projetos politicos de unifor- mizacao lingtistica. No caso europeu, a variedade de lingua tomada como refe- réncia para a construgio da norma-padrao diferiu de Estado para 76 NORMA CULTA BRASILEIRA! DESATANDO ALGUNS NOS. = Cotios Alero Faraco Estado — ora resultou de uma perspectiva mais conservadora, ora de uma perspectiva mais pragmatica (conforme discutiremos no capitulo 3). Em geral, porém, nfo deixou de estar préxima da norma culta/comum/standard, ou seja, da variedade praticada A época pela aristocracia ou, mais propriamente (considerando que a questao da norma-padrao foi, antes de tudo, um trabalho dos homens letrados), da variedade praticada pelos “bardes doutos” — na feliz expressiio do erudito portugués do século XVI, Joao de Barros, autor, entre ou- tras obras, de uma das primeiras gramaticas do portugués. Nesse contexto histérico, as gramiéticas e dicionaérios nfo foram entendidos apenas como instrumentos descritivos (isto é, de registro da norma culta/comum/standard), mas como instrumentos padronizadores, ou seja, como instrumentos de fixagéo de um padrao a ser tomado como regulador (normatizador) do comportamento dos falantes, visando aleangar uma “lingua” para o Estado Centralizado. As gramaticas e os diciondrios adquiriram, entao, certa forga coercitiva. Eles passaram a ser aceitos como instrumentos de medi- da do comportamento. Criou-se uma expectativa forte de que a fala e a escrita formais se conformassem ao que estava neles estipulado. Em decorréncia disso é que a palavra norma tem, no uso con- temporaneo, dois sentidos. No primeiro, norma se correlaciona com normalidade (é norma o que é normal. No segundo, norma se correlaciona com normatividade (é norma o que é normativo). Nos estudos lingiiisticos, norma designa primordialmente aquele conjunto de fenémenos lingiiisticos que sao correntes, ha- bituais (“normais") numa determinada comunidade de fala. No funcionamento monitorado da lingua, porém, a palavra norma é usada com o sentido de preceito, isto 6, designa aquilo que tem cardter normativo, que serve, no interior de um projeto politico uniformizador, para regular explicitamente os comporta- mentos dos falantes em determinadas situagées. O exemplo classico de padronizagao sera sempre o que esteve aliado & constituigao dos Estados Modernos na Europa. Posterior eee AFINANDO CONCETOS 7 mente, ha outros casos bastante relevantes para se compreender os processos padronizadores, quer os dos paises que sairam do colonialismo das Grandes Descobertas (basicamente a situagao dos paises americanos — e aqui vai nos interessar em especial o caso brasileiro), quer os dos paises que sairam do colonialismo tardio. Para este segundo caso, vale a pena acompanhar 0 que ocorreu e vem ocorrendo com o tok pisin® na Papua Nova Guiné (cf. Romaine 1992 e 1994), em especial o fato de serem preferidas, como referén- cia padronizadora, as variedades rurais e nao propriamente as urba- nas (estas foram, 4 época, consideradas menos “auténticas” por te- rem incorporado varios elementos lingiifsticos externos) — o que d4 uma diregdo totalmente inusitada ao processo, se o considerarmos pelo viés da experiéncia dos continentes europeu e americano. De todo modo, as experiéncias padronizadoras tentadas fora do continente europeu tiveram sempre como paradigma o ocorrido na Europa pés-medieval. Suzanne Romaine (1994), ao estudar o proces- so de transformacao, pelos missionarios europeus, do tok pisin numa lingua-padrao escrita, demonstrou, nesse sentido, que a propria no- cao de lingua-padrao é um conceito especificamente europeu, cujos critérios definidores so baseados em atributos das linguas-padrao européias e em valores culturais europeus. A autora diz ainda mais: “Na verdade, eu ainda iria além e diria que a propria nogio de uma lingua é em boa parte um artefato europeu” (1994: p. 20). Tais afirmagodes coincidem, de certa forma, com as reflexdes de James Milroy (2001), que, ao discutir o tema da padronizacao lingiiistica, em especial o fato de que ela nao é um universal, mos- tra como, no fundo, o pensamento lingitistico esteve e esta conta~ minado por aquilo que ele chama de ideologia da lingua-padrao, e como contribui para a reprodugio dessa mesma ideologia. Grosso modo, pode se caracterizar tal ideologia como a pers- pectiva que confunde uma lingua com seu padrao, o que é particu- =O tok pisin é uma lingua crioula que teve o inglés como base, Ela evoluiu de um pidgin eé, hoje, a lingua mais falada na Papua Nova Guiné e uma de suas linguas oficiais. 78 NORMA CULTA BRASILEIRA, DEEATANDO ALGUNS NOS w Carlos Alberto Faraca larmente o caso cultural da maioria das linguas européias de amplo uso. Lembrando que boa parte dos métodos e teorias em lingitistica foram (e sao) elaborados tendo essas linguas em sua forma-padrao como referéncia, Milroy (2001) considera que inevi- tavelmente aquela ideologia interfere diretamente na lingilistica e na andlise das linguas em geral. E afirma (p. 531): Podemos muito bem suspeitar de que hé influéncias ideolégicas veladas em alguns aspectos do pensamente lingilistico e de que muitas dessas influéncias nao sao identifieadas e reconhecidas, Além disso, algumas dessas influéncias emanam do fato de que, como observamos, um ntimero de linguas importantes (i, e., amplamente usa- das) que possuem forma escrita sio tidas por seus falantes. como existin- do em formas padronizadas. Nossa dependéncia em relagiio as linguas- padrao dos Estados-nacdes pode, portanto, ter distorcido de algumas maneiras 0 nosso entendimento, Se, no Ambito do trabalho cientifico, 6 dificil separar as coi- sas nessa complexa drea, mais dificil fica quando se trata de deba- ter extramuros a questao da norma-padrao: quanto mais os envol- vidos no debate estéo distantes do trato cientifico da lingua — no qual, em principio, as assertivas devem ser sustentadas empirica- mente e nfo apenas enunciadas categoricamente; ou, em outras palavras, no qual a validade das proposigGes nfo decorre da auto- ridade de quem as enuncia —, mais nebulosa fica a possibilidade de enfrentamento desapaixonado da questao. Bastaria lembrar aqui a enorme dificuldade de se instaurar no Brasil um amplo debate social — que envolva lingiiistas, gramaticos, professores, jornalistas, escritores, autoridades publicas e interes- sados em geral — em torno do problema da norma-padrao. Uma primeira razio para essa dificuldade advém do fato de que boa parte dos que se envolvem com o tema, costuma ter uma visdo reducionista do problema: a norma-padrao 6, nessa perspec~ tiva, apenas um rol congelado de formas ditas “corretas”. E o tom do debate no Brasil (ha mais de século) 6 sempre o mesmo: recrimi- na-se os brasileiros por nao cuidarem de sua lingua e por suposta-